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Insolvência e recuperação

Caso prático de preparação para o 1.º teste de avaliação contínua

Amândio é sócio-gerente da sociedade comercial unipessoal por quotas XYZ,


Ld.ª, com sede na Maia, desde 2007 até ao presente.
A sociedade comercial em causa tem vindo a apresentar, desde 2015,
dificuldades generalizadas no cumprimento das suas obrigações vencidas,
designadamente no que toca aos pagamentos a fornecedores, a trabalhadores e à
banca. Além disso, e em virtude dos problemas aludidos, esta empresa tem sido
constantemente objeto de diversas ações executivas. A acrescer, nos últimos 12
meses, a sociedade comercial XYZ, Ld.ª não tem conseguido cumprir as suas
obrigações tributárias.
Perante o panorama retratado, e farta de promessas de pagamento que, nos
últimos tempos, nunca se concretizam, Bernardete, empresária em nome individual
e fornecedora de diversos materiais necessários à atividade da XYZ, Ld.ª, decide
falar com Amândio e informá-lo que, em virtude do não pagamento reiterado, irá
solicitar ao tribunal a declaração de insolvência da XYZ, Ld.ª. Nessa conversa,
Bernardete informou ainda Amândio que o processo de insolvência decorrerá de
forma bastante célere, em virtude de ser tramitado com prioridade relativamente
aos demais expedientes do tribunal.
Entretanto, Amândio relata a conversa que teve com Bernardete a um amigo,
também ele gerente de uma empresa, que lhe diz para não se preocupar, pois
Bernardete não pode pedir a declaração de insolvência da XYZ, Ld.ª, por não fazer
parte dos respetivos órgãos sociais.
Ainda assim, e caso Bernardete avance, Amândio pretende ir a tribunal
afastar, mediante prova documental, as presunções de insolvência que Bernardete
eventualmente invoque, entendendo também que não será sequer necessário
apresentar qualquer outro tipo de reação judicial ao pedido de Bernardete, pois não
pretende sequer envolver o Advogado avençado da sua empresa neste assunto.
Além disso, Amândio entende também que mesmo que seja declarada a
insolvência da XYZ, Ld.ª, não terá de pagar quaisquer juros aos seus credores, uma
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vez que a declaração de insolvência suspende os juros que seriam devidos na situação
de não estar a correr nenhum processo de insolvência, pelo que a insolvência, no
caso da sua empresa, teria também algumas vantagens.
No dia 24 de março de 2017, Bernardete, fiel às suas convicções no sentido de
que quem lhe deve dinheiro, vai ter de lho pagar “a bem ou a mal”, sob pena de ela
própria começar a deixar de ter viabilidade económica para continuar a trabalhar,
dirige então, por intermédio do seu Advogado, uma petição inicial contendo o pedido
de declaração de insolvência da XYZ, Ld.ª, dirigida ao Tribunal Administrativo e
Fiscal de Braga.
Neste seguimento, verifica-se que na petição inicial apresentada por
Bernardete, constam, entre outras, as seguintes referências: identificação dos
administradores do devedor e dos seus cinco maiores credores (entre os quais está
Bernardete); bem como identificação da mulher de Amândio (Carlota), casada com
Amândio em regime de comunhão de adquiridos. Ademais, Bernardete juntou à
petição a certidão permanente referente à XYZ, Ld.ª, tendo-o efetuado em
duplicado. Bernardete juntou também os documentos justificativos do seu crédito e
arrolou duas testemunhas.
No próprio dia da distribuição, o juiz veio proferir despacho de correção de
vícios, designadamente por falta de alguns dos documentos que deveriam ter sido
juntos à petição inicial, convidando Bernardete a corrigir esses vícios no prazo de 5
dias, sob pena de indeferimento liminar da petição. Além disso, o juiz mandou citar
pessoalmente Amândio, como gerente da sociedade comercial XYZ, Ld.ª, que
decidiu deduzir oposição, uma vez que, entretanto, consultou o Advogado avençado
da sua empresa, contrariamente ao que – anteriormente – tinha pensado fazer.
Seguidamente, o juiz marcou a data para a realização de uma audiência de
discussão e julgamento, sendo que Amândio não compareceu.
Após observadas as devidas consequências legais associadas ao facto antes
descrito, o juiz proferiu finalmente sentença de declaração de insolvência, nela
indicando apenas a data e a hora da respetiva prolação; a identificação do devedor
insolvente (ou seja, a sociedade comercial unipessoal por quotas XYZ, Ld.ª) e
fixando a residência a Amândio, administrador desta empresa. Desta sentença
foram notificados Amândio e Bernardete.
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Perante a sentença declarativa da insolvência, Amândio decidiu impugná-la,


mas o tribunal não atendeu aos seus argumentos.
Ora, como consequência da declaração de insolvência, um dos efeitos sobre
Amândio foi este ficar privado dos poderes de disposição e de administração dos
bens da XYZ, Ld.ª (dois pavilhões na zona industrial, duas lojas no centro da cidade,
três viaturas ligeiras de passageiros de luxo, duas viaturas ligeiras de mercadorias
e, ainda, saldos de contas bancárias no valor de, aproximadamente, € 150.000).
Além disso, outro dos efeitos da declaração de insolvência em causa
consubstanciou-se na fixação de residência a Amândio. Contudo, Amândio decidiu
ausentar-se por um período de 15 dias, sem o comunicar ao tribunal, por ocasião de
umas férias na Austrália.
Entretanto, o juiz decidiu abrir o incidente de qualificação da insolvência.
Neste incidente, veio qualificar a insolvência como culposa, em virtude de, nos
últimos 3 anos, Amândio evidenciar, por um lado, condutas consubstanciadoras da
criação artificial de situações de prejuízo, como forma de enganar os credores; e,
por outro, o incumprimento da obrigação de elaborar as contas anuais no prazo
legal, situações que Amândio, regressado de férias, decide provar que não
ocorreram.
Perante a qualificação da insolvência como culposa, o juiz, na respetiva
sentença de qualificação, decretou a inibição de Amândio para o exercício do
comércio durante um período de 5 anos. Confrontado com esta consequência,
Amândio não fica preocupado, porque tem como intenção colocar o seu filho,
Dionísio, estudante universitário de apenas 19 anos, à frente dos seus restantes
negócios.
Além disso, verifica-se que a XYZ, Ld.ª tem pendentes as seguintes situações:

(i) Ação executiva interposta pela ABC, Ld.ª (como fornecedor) contra a
XYZ Ld.ª, após a declaração de insolvência desta última;
(ii) Existência de uma dívida em sede de IRC, ainda não notificada pela AT à
XYZ, Ld.ª, cujo prazo de caducidade do direito à liquidação terminou
cinco dias após ter sido declarada a insolvência desta empresa por parte
do tribunal;
(iii) Contrato de locação, que tem por objeto o arrendamento de um pavilhão
industrial da propriedade da XYZ, Ld.ª à DEF, Ld.ª, celebrado
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anteriormente à declaração de insolvência da XYZ, Ld.ª e que termina a


sua vigência no dia 31/12/2018;
(iv) Avença mensal com o reconhecido Advogado Eliseu Fragoso, amigo de
longa data da família de Amândio;
(v) Avença mensal com a contabilista certificada Gracinda Henriques;
(vi) Contrato de conta-corrente em vigor à data da declaração de insolvência
da XYZ, Ld.ª.

Após ter lido e analisado com muita atenção a situação descrita, responda,
de uma forma completa e fundamentada, às seguintes questões:

1. Bernardete tem fundamentos em que se basear para efeitos do pedido de


declaração de insolvência que pretende? Terá Bernardete razão no que
afirma a Amândio na conversa que tiveram?
R: tópicos de resposta
Fundamentos aqui aplicáveis para pedido de declaração de insolvência:
- art 20 nº1 alínea a), e), g) do CIRE, ou seja, tem necessariamente de se verificar algum
ou alguns factos presentes nas alíneas do art 20 nº1, que constituem requisites
indispensáveis para se preencher o pressuposto da insolvência, quando o requerente não
seja o próprio devedor.
Bernardete tem razão quando afirma que o processo decorrerá de forma bastante célere,
uma vez que o processo de insolvência (incluindo todos os seus incidentes e apensos) é
tramitado como processo urgente, conforme prevê o art 9 nº1 do CIRE.

2. Estará o amigo de Amândio certo quando afirma que Bernardete não tem
legitimidade para pedir a declaração de insolvência da XYZ, Ld.ª?
R: tópicos de resposta
O amigo de Amândio está errado porque Bernardete como credora tem legitimidade ativa
para desencadear o processo de insolvência – art 18 a 20 do CIRE.
Legitimidade ativa para desencadear esta ação:
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Responsável legal pelas dividas do insolvente, qualquer credor, o ministério publico ou o


administrador judicial provisório. Mas tem de se preencher algum ou alguns dos factos
elencados nas alíneas do art 20 nº1 do CIRE.
A legitimidade ativa depende do preenchimento de 2 requisitos cumulativos:
- Requisito subjetivo: é necessário que o sujeito preencha uma das quatro categorias
enunciadas acima;
- Requisito objetivo: preenchimento de algum dos factos elencados nas alíneas do art 20
nº1 do CIRE.
Contudo, há que ter em atenção que o art 22 do CIRE prevê a responsabilidade do autor
de pedido infundado da declaração de insolvência, em caso de dolo.

3. Pode Amândio ir a tribunal afastar as presunções de insolvência que


Bernardete eventualmente invoque? Estará Amândio certo ao entender que
não será necessário apresentar qualquer outro tipo de reação judicial ao
pedido de Bernardete?
R: tópicos de resposta
Amândio não pode afastar a presunções, caso as presunções invocadas por Bernardete
sejam as do art 20 nº1 do CIRE, uma vez que estas presunções são inilidíveis e por isso
não afastáveis mediante prova em contrario art 349 do CC.
Alem disso, quando o devedor seja titular de uma empresa (como é o caso), o
incumprimento generalizado de qualquer uma das obrigações previstas no art 20 nº1
alínea g) do CIRE durante pelo menos 3 meses faz presumir inilidivelmente o
conhecimento da situação de insolvência (art 18 nº3 do CIRE), facto com relevância para
efeitos do dever de apresentação à insolvência, previsto no art 18 nº1 do CIRE.
Amândio está errado porque caso o devedor não deduza oposição, e tal como refere o art
30 nº5 do CIRE, consideram-se confessados os factos alegados na petição inicial,
declarando-se em consequência a insolvência do devedor.
O devedor pode deduzir oposição das seguintes formas:
- Ou se baseia na inexistência do facto em que se fundamenta o pedido formulado
- Ou se baseia na inexistência de insolvência, não obstante a ocorrência do facto (art 30
nº3 do CIRE).

4. Relativamente à questão dos juros, estará Amândio bem informado?


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R: tópicos de resposta
Amândio encontra-se equivocado. apos a declaração de insolvência, as obrigações do
insolvente continuam a vencer juros- art 48 alíneas b) e f) do CIRE.

5. Bernardete terá dirigido corretamente o pedido de declaração de insolvência


referente à XYZ, Ld.ª?
R: tópicos de resposta
Bernardete não dirigiu corretamente o pedido de declaração de insolvência em causa.
Competência territorial – o pedido de declaração de insolvência deve ser dirigido ao
Tribunal da sede ou do domicílio do devedor (art 7 nº1 do CIRE), podendo também ser
apresentado no Tribunal do lugar em que o devedor tenha o centro dos seus principais
interesses (art 7nº2 do CIRE).
Provavelmente a comarca competente não será sequer a de Braga, sendo que a ação não
pode ser intentada no Tribunal Administrativo e Fiscal já que no que respeita à
competência em razão da matéria, nos processos de insolvência a competência é da
jurisdição comum.

6. Pronuncie-se sobre as referências apresentadas na petição inicial, por parte


de Bernardete. Pronuncie-se também sobre os documentos e as testemunhas
que esta juntou.
R: tópicos de resposta
-Na petição inicial devem identificar-se os 5 maiores credores, com exclusão do credor
exequente – art 23 nº2 alínea a) e b) e art 6 nº1 do CIRE;
- Sendo o devedor casado, terá de ser identificado o respetivo cônjuge (marido ou mulher),
indicando-se ainda o regime de bens do casamente – art 23 nº2 alínea c) do CIRE.
- Deve também ser junta a certidão permanente do registo comercial, para o caso das
sociedades comerciais – art 23 nº2 alínea d) do CIRE.
- Os documentos juntos à petição devem ser acompanhados de 2 copias: uma destinada
ao arquivo do Tribunal e outra destinada à secretaria do Tribunal, para efeitos de consulta
por parte dos interessados -art 26 nº1 e 2 do CIRE.
- Quando o pedido tenha sido apresentado por algum credor, como é o caso, o requerente
deverá justificar na petição a origem, natureza e montante do seu crédito, oferecendo
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ainda os elementos respeitantes ao ativo e ao passivo do devedor que possua – art 25 nº1
do CIRE.
- Qualquer requerente para alem do próprio devedor deverá ainda oferecer com a petição
todos os meios de prova de que disponha, devendo inclusivamente juntar o rol de
testemunhas, que não podem exceder os limites legais – art 25 nº2 do CIRE e 511 do
CPC.

7. Se, em vez de ser Bernardete a pedir a declaração de insolvência da XYZ,


Ld.ª, a apresentação à insolvência fosse efetuada por Amândio, enquanto
responsável pela XYZ, Ld.ª, quais seriam as menções adicionais a constar na
petição inicial?
R: tópicos de resposta
O pedido apresentado pelo devedor ou o seu representante:
-Deve ainda conter a indicação da atualidade ou eminencia da situação de insolvência –
art 23 nº2 alínea a) do CIRE;
-Deve ainda conter o eventual requerimento de exoneração do passivo restante (que só se
aplica as pessoas singulares) - art 23 nº 2 alínea a) parte final e art 236 nº1 do CIRE;
- Deve ainda conter o pedido de administração pelo devedor – art 224 nº2 alínea a) do
CIRE;
- Ou ainda o pedido de apresentação de um plano de pagamentos aos credores, nos termos
dos arts 251 e ss do CIRE.

Quanto ao plano de insolvência o devedor tem a faculdade de o juntar à petição inicial,


podendo porem apresentá-lo mais tarde – art 24 nº3 e 193 e ss do CIRE. Alem disso,
quando ó devedor se tenha apresentado à insolvência, deve ainda juntar à petição os
documentos elencados nas varias alíneas dos nº1 e 2 do art 24 do CIRE.

8. Diga se, em processo de insolvência, o devedor tem o direito e/ou o dever de


se apresentar à insolvência e quais as consequências da violação do dever em
causa, caso exista.
R: tópicos de resposta
O devedor tem sempre o direito de se apresentar à insolvência.
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Mas também o dever/ obrigação em muitos casos. O art. 18º n º1 do CIRE dispõe acerca
da obrigatoriedade de apresentação à insolvência por parte do devedor, dentro do prazo
de 30 dias a contar da data do conhecimento da situação de insolvência ou da data em que
deveria conhecê-lo.
Se o devedor é titular de uma empresa, a lei presume inilidivelmente o conhecimento da
situação de insolvência, quando forem decorridos pelo menos 3 meses sobre o
incumprimento generalizado de alguma das obrigações referidas na alínea g) do nº1 do
art. 20º do CIRE.
A violação deste dever de apresentação à insolvência importa algumas consequências:
 Presunção de culpa grave no âmbito do incidente de qualificação da insolvência -
art 186ºnº3 alínea a) e nº4 do CIRE;
 Eventual preclusão da possibilidade de conceção da exoneração do passivo
restante – art 238º nº1 alínea d) do CIRE;
 É ainda relevante para efeitos de responsabilidade penal, designadamente o crime
de insolvência negligente – art 228º nº1 alínea b) do Código Penal;
 A doutrina tem ainda entendido que a violação do dever de apresentação à
insolvência é também passível de responsabilidade civil extracontratual perante
os credores, com fundamento na violação do art 483º do CC.

9. Analise o comportamento do juiz ao proferir despacho de correção de vícios


no seguimento da petição inicial apresentada por Bernardete, bem como ao
mandar citar pessoalmente Amândio.
R: tópicos de resposta
O juiz, no próprio dia da distribuição, ou até ao terceiro dia útil subsequente, deve
proferir despacho liminar, com algum dos seguintes conteúdos:
 Indeferimento liminar, com os fundamentos previstos no art 27º nº1 alínea a) do
CIRE;
 Despacho de correção de vícios, sendo que nos termos do art 27º nº1 alínea b) do
CIRE caso não haja motivo para indeferimento liminar e caso o juiz encontre
vícios sanáveis na petição, este deverá proferir despacho de correção de vícios.
Exemplos de vícios sanáveis:
- Falta de requisitos legais
- Falta dos documentos que devem instruir a petição
-etc.
 Declaração imediata de insolvência
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 Despacho de citação
Em relação à citação, nos termos do art 29 nº1 do CIRE, esta tem de ser efetuado até ao
terceiro dia útil seguinte à data da distribuição ou, havendo vícios corrigíveis até ao
terceiro dia útil seguinte á data do respetivo suprimento – art 28º do CIRE aplicável ao
art 29 nº1.

10. Analise o comportamento de Amândio ao decidir deduzir oposição e refira-


se ao respetivo conteúdo.
R: tópicos de resposta
No que toca à dedução de oposição o devedor teria um prazo de 10 dias a contar do
momento em que se considera citado para deduzir oposição (art 30º nº1 do CIRE). Em
termos de requisitos externos, o devedor deve juntar, sob pena de impossibilidade da
oposição, lista dos seus 5 maiores credores para alem do credor requerente indicando o
respetivo domicílio (art 30º nº2 do CIRE). Deve ainda oferecer todos os meios de prova
de que disponha, nos termos do art 25º nº2 do CIRE, aplicável por força do art 30º nº1
do CIRE.
Quanto ao conteúdo da oposição, o devedor pode opor-se ao pedido de declaração de
insolvência com fundamento na inexistência do facto em que o requerente se baseou ou
na inexistência da situação de insolvência não obstante a verificação do facto índice,
ilidindo assim a presunção legal que lhe corresponde- art 30º nº3 do CIRE. O devedor
também pode deduzir oposição com base noutros fundamentos como, por exemplo, a
existência de exceções dilatórias (tais como a ilegitimidade do requerente da insolvência
por não ser um credor).

11. O que acontecia se Amândio não tivesse deduzido oposição?


R: tópicos de resposta
Se Amândio não tivesse deduzido oposição aplicar-se-ia o art 30º nº5 do CIRE. Assim,
presumem-se confessados os factos alegados na petição inicial e a insolvência é
automaticamente declarada no da útil seguinte ao termo do prazo de oposição desde que
os factos constantes na petição inicial preencham alguma das hipóteses em que a
insolvência pode ser requerida por pessoa distinta do devedor. Estas hipóteses encontram-
se previstas no art 20 nº1 do CIRE - cfr art 30º nº5 do CIRE.

12. Enquadre a marcação da audiência de discussão e julgamento efetuada pelo


juiz e discorra sobre as eventuais consequências decorrentes do facto de
Amândio não ter comparecido.
R: tópicos de resposta
A audiência de discussão de julgamento deve ser marcada para um dos cinco dias
posterior ao julgamento, devendo o juiz notificar o requerente, o devedor e todos os
administradores de direito ou de facto identificados na petição inicial para que
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compareçam pessoalmente ou façam representar-se por mandatário com poderes


especiais para transigir (art 35º do CIRE).
A não comparência do devedor equivale á confissão dos factos alegados na petição inicial,
conforme o art 35º, nº2 do CIRE.

13. E se, quem não tivesse comparecido à audiência de discussão e julgamento,


fosse Bernardete?
R: tópicos de resposta

Se quem não tivesse comparecido fosse Bernardete, verifica-se que a não comparência do
requerente (neste caso credor) ou do seu mandatário com poderes especiais para transigir
vale como desistência do pedido (art 31º, nº3 do CIRE) devendo o juiz ditar logo para a
ata a sentença homologatória da desistência do pedido.

14. O que acontecia se tivessem comparecido ambas as partes na audiência de


discussão e julgamento?
R: tópicos de resposta

Se comparecerem ambas as partes, o juiz seleciona a matéria de facto relevante que


considere assente e aquela que constitui a base instrutória (art 35º, nº5 do CIRE),
decidindo de imediato qualquer reclamação que tenha sido apresentada para que se
produza a prova (art 35º, nº6 do CIRE). Após produzir a prova, serão feitas alegações de
facto e de direito sendo que depois o tribunal deve decidir sobre a matéria de facto e
proferir a sentença final nos termos do art 35º, nº7 e nº8 do CIRE, se tal não for possível
o juiz deve proferir a sentença final no prazo máximo de cinco dias conforme prevê o nº8
do art 35º do CIRE.

15. Pronuncie-se relativamente ao conteúdo e à notificação da sentença de


declaração de insolvência.
R: tópicos de resposta
A sentença de declaração de insolvência foi proferida no seguimento da falta de
comparência do devedor á audiência de discussão e julgamento (artigo 35, nº4 do
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CIRE). Mas faltam aqui algumas indicações na sentença, conforme as diversas alíneas
do artigo 36, nº1 do CIRE pois aqui só foram observadas as alíneas a), b) e c).
Quanto ás pessoas a notificar seriam as seguintes: o devedor, os administradores do
devedor a quem tenha sido fixada residência, o requerente da declaração de
insolvência, o Ministério Publico, a comissão de Trabalhadores (caso o devedor seja
titular de uma empresa) e os cincos maiores credores conhecidos (artigo 37, nº1, 2 e
3 do CIRE) além disso caso existam créditos do Estado, de institutos públicos sem a
natureza de empresas públicas ou de instituições de segurança social, estes também
serão citados nos termos do artigo 37, nº5 do CIRE.

16. A sentença de declaração de insolvência, bem como a nomeação do administrador


da insolvência devem ser objeto de registo, oficiosamente com base na respetiva
certidão para o efeito remetida pela secretaria. Segundo o artigo 38, nº2, alínea a)
do CIRE na conservatória do registo civil caso o devedor seja uma pessoa
singular; na conservatória do Registo Comercial quanto aos factos relativos ao
devedor insolvente sujeitos a esse registo, nos termos do artigo 38, nº2, alínea b)
do CIRE.
Além disso, deve a declaração de insolvência ser inscrita no Registo Predial
quanto a bens que integrem a massa insolvente (nº3 do artigo 38 do CIRE).
A secretaria deve ainda () registar oficiosamente a declaração de insolvente. E a
nomeação do administrador de insolvência no registo informático de execuções-
alínea a); promover a inclusão dessas informações e do prazo para reclamações de
créditos na página informática do tribunal-alínea b); E ainda comunicar a
declaração de insolvência ao banco de Portugal para efeitos da respetiva inscrição
na central de riscos de crédito.

16. O que acontece, em termos de registo, após a prolação da sentença de


declaração de insolvência?
R: tópicos de resposta
A sentença de declaração de insolvência, bem como a nomeação do administrador da
insolvência devem ser objeto de registo, oficiosamente com base na respetiva certidão
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para o efeito remetida pela secretaria. Segundo o artigo 38, nº2, alínea a) do CIRE na
conservatória do registo civil caso o devedor seja uma pessoa singular; na conservatória
do Registo Comercial quanto aos factos relativos ao devedor insolvente sujeitos a esse
registo, nos termos do artigo 38º, nº2, alínea b) do CIRE.
Além disso, deve a declaração de insolvência ser inscrita no Registo Predial quanto a bens
que integrem a massa insolvente (nº3 do artigo 38 do CIRE).
A secretaria deve ainda registar oficiosamente a declaração de insolvente. E a nomeação
do administrador de insolvência no registo informático de execuções- alínea a); promover
a inclusão dessas informações e do prazo para reclamações de créditos na página
informática do tribunal-alínea b); E ainda comunicar a declaração de insolvência ao banco
de Portugal para efeitos da respetiva inscrição na central de riscos de crédito.

17. Refira-se ao(s) meio(s) de impugnação ao dispor de Amândio perante a


sentença declarativa de insolvência da XYZ, Ld.ª?
R: tópicos de resposta
São dois os meios possíveis de impugnação da sentença declaratória de insolvência os
quais podem funcionar cumulativa ou alternativamente: a oposição de embargos e o
recurso.
Os embargos á sentença declaratória de insolvência podem ser opostos por diversas
pessoas, designadamente os responsáveis legais pelas dividas do insolvente nos termos do
artigo 40, nº1, alínea e) do CIRE; e pelos sócios associados ou membros do devedor-
alínea f).
Neste caso A preenche estas duas categorias:
Os embargos devem ser apresentados no prazo de 5 dias a contar da data da notificação
da sentença ao embargante ou, havendo dilação, a contar do termo do prazo respetivo-
artigo 40, nº2 do CIRE.
Os embargos têm como finalidade o afastamento dos fundamentos da declaração da
insolvência, mediante a alegação de factos ou o requerimento de meios de prova que não
tenham sido tidos em conta pelo tribunal (nº2, do artigo 40 do CIRE).
Os embargos suspendem a liquidação bem como a partilha do ativo, ressalvando-se o
previsto no artigo 158, nº2 do CIRE que regula a venda imediata depreciáveis ou
deterioráveis- cfr nº3 do artigo 40 do CIRE.
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A petição de embargos é autuada por apenso, de imediato e conclusa ao juiz para que este
profira despacho liminar no dia seguinte ao termo do prazo para apresentação dos
embargos – artigo 41, nº1 do CIRE.
Quanto ao recurso da sentença declarativa de insolvência apresenta legitimidade quem
tem legitimidade para deduzir embargos acrescendo a situação prevista no artigo 42, nº2
do CIRE, ou seja, devedor declarado insolvente que não tenha legitimidade para deduzir
embargos.
A interposição de recurso SÓ pode ter como fundamento a alegação de que, perante os
factos apurados não deveria ter sido proferida a sentença (nº1 do artigo 42 do CIRE).
O recurso suspende a liquidação, bem como a partilha do ativo ressalvando-se o previsto
no artigo 158, nº2 do CIRE, que regula a venda imediata dos bens depreciáveis ou
deterioráveis – nº3 do artigo 40 do CIRE, aplicável por força do nº3 do artigo 42 do mesmo
diploma.

18. Discorra sobre a privação dos poderes de disposição e de administração dos


bens da XYZ, Ld.ª, por parte de Amândio. Este é um efeito automático ou
eventual da declaração de insolvência? É de cariz pessoal ou patrimonial?
Qual a consequência principal desta privação?
R: tópicos de resposta
Um dos efeitos automáticos e de cariz patrimonial da insolvência trata-se da privação dos
poderes de administração dos bens que integram a massa insolvente.
Para além dos bens que integram a massa insolvente é igualmente vedado ao devedor
dispor de bens ou rendimentos futuros, conforme prevê o artigo 81, nºs 1 e 2 do CIR.
A massa insolente é constituída pelos bens atuais do insolvente e pelos bens futuros, que
revertem automaticamente para a massa insolvente- artigo 46, nº1 do CIRE.

Em consequência desta privação o administrador de insolvência assume a substituição do


insolvente para todos os efeitos de carater patrimonial que interessem á insolvência- artigo
81, nº4 e artigo 85, nº3 do CIRE. Encontra-se, todavia, excluída da sua competência, via
de regra, a representação do insolvente no próprio processo de insolvência -n º 5 do artigo
81 do CIRE.
Neste caso e como se trata da insolvência de uma pessoa coletiva, a privação dos poderes
de administração aplica-se às pessoas a quem incumba a administração ou liquidação da
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entidade, designadamente os titulares do órgão social que para o efeito seja competente -
artigo 6º, nº1, alínea a) do CIRE.

19. Quanto à fixação de residência, este é um efeito automático ou eventual da


declaração de insolvência? É de tipo pessoal ou patrimonial? Que implicações
apresenta? Poderia Amândio ter-se ausentado durante 15 dias, sem dar
conhecimento ao tribunal? Em caso negativo, quais as consequências do facto
de Amândio ter ido 15 dias de férias para a Austrália?
R: tópicos de resposta
A fixação de residência é um efeito automático e de cariz pessoal. Encontra-se previsto
no artigo 36, nº1 do CIRE e aplica-se entra outros aos administradores do devedor.
O CIRE não contem uma definição/regulação da fixação de residência pelo que se utiliza
o mesmo regime do termo de identidade e residência, aplicável em sede de processo penal
(artigo 196 do código de processo penal).
A fixação de residência importa a proibição de mudar de residência assim como de se
ausentar dela por um período superior a cinco dias, sem o comunicar ao tribunal. Ou seja,
é permitida a ausência por períodos inferiores a cinco dias, sem necessidade de
comunicação ao tribunal.
À violação do dever do dever de respeitar a residência fixada não corresponde qualquer
sanção jurídico -insolvência, mas sim uma sanção jurídico-penal pela prática de crime de
desobediência – artigo 348 do Código Penal

20. Pronuncie-se sobre a abertura do incidente de qualificação da insolvência.


R: tópicos de resposta
O incidente corre por apenso ao processo principal, conforme o artigo 132º do CIRE,
aplicável por força do artigo 188º nº7 do mesmo diploma. Tem caracter urgente (artigo
9º nº1 do CIRE) e só será aberto na sentença que declara a insolvência se o juiz dispuser
de elementos que justifiquem aa abertura do incidente e desde que não tenha sido
aprovado um plano de pagamentos (artigo 259º nº1 do CIRE9, nem se trate da hipótese
do artigo 187º do CIRE -cfr artigo 36º nº1 alínea i) do CIRE.

Existem 2 tipos de tramitação do incidente: pleno e limitado. A lei só regula o âmbito de


aplicação do incidente limitado, o qual se aplica apenas nos casos de insuficiência da
massa para a satisfação das custas processuais e das dividas da massa, conforme os
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artigos 39º nº1; 232º nº5; 291 do CIRE. Nos restantes casos, por exclusão de partes, é
aplicável o regime do incidente pleno.

Na decisão de abertura do incidente, o juiz fixa o seu carater, muito embora o incidente
pleno possa convolar-se em incidente limitado e vice-versa.

21. Discorra sobre o facto de a insolvência ter sido qualificada como culposa e
sobre a possibilidade de Amândio poder vir a ilidir as presunções em causa.
R: tópicos de resposta
O incidente de qualificação de insolvência destina-se a qualificar a insolvência como
fortuita ou culposa – artigo 185º do CIRE. A lei define apenas a insolvência culposa -
artigo 186 do CIRE. Ora, a insolvência é culposa quando a situação é criada com culpa
grave nos últimos anos anteriores ao inicio do processo de insolvência – artigo 186º nº1
do CIRE.
Por sua vez, o nº2 do artigo 186º do CIRE contem presunções inilidíveis de insolvência
culposa, onde se insere na respetiva, alínea b), a criação ou agravamento artificial de
passivos ou prejuízos.
O incumprimento do dever de elaborar as contas anuais subsume-se às condutas previstas
nas presunções do nº3 do artigo 186º do CRE, que são ilidíveis. Mas concretamente,
estamos a falar da respetiva alínea b).

22. Perante a inibição para o exercício do comércio, decretada pelo juiz em


virtude da qualificação da insolvência como culposa, Amândio terá razões
para não ficar preocupado, uma vez que tem um filho apto para a
continuação dos seus negócios? Quais as consequências de uma eventual
violação desta proibição?
R: tópicos de resposta
Em consequência da qualificação da insolvência como culposa, o juiz deve decretar a
inibição para o exercício do comércio por parte das pessoas afetadas pela declaração de
insolvência, durante um período de 2 a 10 anos – artigo 189º nº2 alínea c) do CIRE. De
acordo com o artigo 189º nº3 do CIRE, esta inibição para o exercício do comércio é
registada oficiosamente na conservatória do registo civil e, tratando-se de comerciante
em nome individual, na conservatória no registo comercial.
Mas por inibição do exercício do comércio deve entender-se a proibição do exercício
quer de forma direta, quer de forma indireta, ou seja, por intermédio de familiares do
inibido. Quer isto dizer que o filho de Amândio não pode continuar o negócio.
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A violação da proibição do exercício do comércio não acarreta qualquer consequência


jurídico-insolvencial, devendo a resposta ser encontrada no direito comercial, ou seja, a
consequência que mais se destaca é a da privação da aquisição da qualidade de
comerciante.

23. Relativamente a cada uma das situações pendentes (v.g., as 6 situações


descritas na parte final do enunciado desta hipótese), o que acontece, em cada
um dos casos, em virtude da sentença declarativa da insolvência?
R: tópicos de resposta
1º situação – ação executiva interposta … ver enunciado
Por força do artigo 88º n º1 do CIRE, se for intentada uma ação executiva contra o
insolvente a mesma deverá ser objeto de decisão de indeferimento, por impossibilidade
legal.
Assim este credor deverá reclamar o seu crédito junto do administrador de insolvência e
por isso no âmbito do processo de insolvência, que é um processo de execução universal
onde participam todos os credores.

2º situação – divida de IRC


Por força do artigo 100º do CIRE, a sentença de declaração de insolvência acarreta a
suspensão de todos os prazos de prescrição e de caducidade oponíveis pelo devedor,
portanto a divida de IRC não chegou a caducar, já que, entretanto, foi declarada a
insolvência.

3º situação – arrendamento de um pavilhão


Neste contrato, surge como locador XYZ, Lda. aparecendo a DEF, Lda. como locatária.
Se o insolvente for o locador, como é o caso, o destino do contrato de locação encontra-
se regulado no artigo 109º do CIRE. Ora, a declaração de insolvência do locador não
suspende a execução do contrato de locação, sendo que a sua denuncia por qualquer das
partes apenas é possível no final do prazo em curso, ficando ainda ressalvados os casos
de renovação obrigatória, nos termos do artigo 109º nº1 do CIRE.
As obrigações contratuais mantêm-se assim em vigor: por um lado, o locador, por
intermédio do administrador de insolvência, continuará a assegurar o gozo da coisa para
os fins a que se destina- artigo 1031º, alínea b) do CC, por outro lado o locatário
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continuará a pagar ao administrador de insolvência a renda nas condições acordadas –


artigo 1038º alínea a) do CC.

4º situação – avença mensal com advogado


Estamos perante um contrato de mandato. A regra geral vai no sentido da sua caducidade
– artigo 110º nº1 do CIRE.
Todavia o contrato de mandato mantém-se caso seja necessária a prática de atos pelo
mandatário, por forma a evitar prejuízos previsíveis para a massa insolvente, até que o
administrador da insolvência tome as devidas providencias – artigo 110º nº2 alínea a).
mantem-se também pelo período em que o mandatário exerceu as suas funções porque
desconhecia, sem culpa, a declaração de insolvência do mandato – artigo 110º nº2 alínea
b).
as remunerações e o reembolso das despesas do mandatário constituem divida da massa
insolvente (na primeira hipótese aqui referida) sendo a divida da insolvência na segunda
hipótese aqui referida – cfr artigo 110º nº3 do CIRE.

5º situação – avença com contabilista


Estamos perante um contrato de prestação de serviços. Os contratos de prestações
duradoura de um serviço, encontram-se regulados no artigo 111º do CIRE, para a hipótese
de o insolvente ser o beneficiário do serviço, como é o caso. Seria de aplicar ao artigo
114º se o insolvente fosse o prestador do serviço.
Ora, os contratos que obriguem à realização da prestação duradoura de um serviço no
interesse do insolvente e que não caduquem por efeito do disposto no artigo 110º não se
suspendem com a declaração de insolvência, podendo ser denunciados por qualquer das
partes, de acordo com o artigo 108º nº1, com as devidas adaptações – cfr artigo 111º do
CIRE.

6º situação – contrato de conta corrente com o banco

A declaração de insolvência implica o termo dos contratos de conta corrente em que o


insolvente seja parte, com o encerramento das contas respetivas – artigo 116º do CIRE.
Trata-se de uma forma automática de extinção do contrato de conta corrente.