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“Catolicismo” n.

o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 1

Crucifixo barroco venerado na sede do Conselho Nacional da TFP, em São Paulo ( a imagem de N. S. mede 32 cm
de altura ). Estudo de 32 fotos pelo Studio F. Albuquerque, de São Paulo.

GRUPOS OCULTOS TRAMAM


A SUBVERSÃO NA IGREJA

No alto da Cruz, nosso Senhor Jesus Cristo não sofreu apenas em razão
dos ultrajes morais e físicos que Lhe foram infligidos por seus algozes.
Padeceu também na previsão de todos os pecados que se cometeriam até
a consumação dos tempos. Entre eles a trama secreta feita em poderosos
meios católicos para “reformar” a Igreja – transformando-A em uma Igre-
ja-Nova panteísta, desmitificada, dessacralizada, desalienada, igualitária,
e posta a serviço do comunismo – constituiu por certo um dos mais atro-
zes tormentos de nosso Divino Redentor. Sim, d’Ele que ensinou por sua
Vida, Paixão e Morte o contrário de todos esses erros clamorosos.
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Junto à linha ferroviária Paris-Lyon, uma funcionária con-


trola a passagem de nível. É casada ou solteira? Que con-
vicções, que modos de sentir e de viver tem ela? Nada o
exprime. É apenas uma funcionária como outra qualquer.
Este é o “new look” das Religiosas na Igreja-Nova, segun-
do as aspirações dos “grupos proféticos”. É o “ideal” da
dessacralização: nada de sagrado deve existir nem apare-
cer nas Religiosas. Esta funcionária é Soror Germaine, da
Ordem Dominicana ( esta foto e as duas primeiras da últi-
ma página são da reportagem de Robert Serrou citada na
nota 34 do texto ).

Freiras como a
Igre
Igreja-
ja-Nova as
quer – e co
como
não as quer

Não há engano possível. Trata-se de uma autêntica Re-


ligiosa, com toda a sua vida dedicada a afazeres especi-
ficamente religiosos, e, pois, toda imersa num ambiente
sacral. É uma Irmã a dirigir crianças numa procissão pa-
roquial em Paris. Os “grupos proféticos”, nos quais fer-
menta a Igreja-Nova, detestam não só as aparências
como o conteúdo espiritual de uma cena dessas.
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Em ascensão triunfal

A Heresia Modernista

D. Antônio de Castro Mayer, Bispo de Campos

O cardeal Ruffini, sem favor, uma das advertências contra o modernismo. Isso até
figuras mais expressivas do Concílio Vaticano Paulo VI, que o fez na sua primeira Encíclica,
II, pela solidez da argumentação e pela ele- “Ecclesiam Suam”.
gância da linguagem, dizia, em uma dessas
Por isso mesmo, e como eco aos ensi-
conversas de corredor, que o modernismo está
namentos do Magistério, surgiram entre os fi-
hoje entronizado na Igreja.
éis resistências ao espírito inovador de sabor
O eminente Purpurado conheceu de modernista que, aqui e acolá, por toda parte ia
perto a pessoa e a obra do maior Pontífice infeccionando as almas. Neste número deve
deste século. Sabia, portanto, bem o que afir- colocar-se a inestimável obra do Prof. Plinio
mava. Corrêa de Oliveira “Em Defesa da Ação Cató-
lica”, que outra coisa não colimava senão
E, realmente, apesar de esmagado pelo premunir os núcleos de apostolado leigo ofi-
vigor apostólico de São Pio X, o modernismo cial contra uma modernização que, no fundo,
jamais deixou de prosseguir sua empresa ne- constituía uma nova igreja.
fasta. Condenado, refugiou-se em sociedades
secretas, segundo Nós mes-
o testemunho do mo, no governo de
mesmo São Pio X Nossa Diocese,
( Motu Proprio sentimos a obriga-
“Sacrorum Antis- ção de alertar
titum”, de 1º de Nossas ovelhas
setembro de 1910 contra uma série
), e de seus antros de teses que, na
continuou a dis- expressão da Sa-
seminar nos meios grada Congrega-
católicos, cautelo- ção dos Seminá-
sa e perseveran- rios, serpeavam
temente, o veneno entre os fiéis, e
de seu espírito que em si conden-
destrutivo. savam todo o espí-
rito modernista.
Assim to-
dos os Sucessores Atualmen-
Numa casa de família em Houilles, na periferia de Paris, o Sacer-
de São Pio X tive- dote, em trajes civis, consagra pão e vinho comuns junto à mesa
te, abusando da
ram que renovar em que, logo após, será servida uma refeição. Essa é a maneira longanimidade do
dessacralizada de celebrar a Missa, propugnada pelos “grupos Santo Padre, a
junto aos fiéis as proféticos” da Igreja-Nova.
empresa de conci-
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liação da Igreja com o mundo moderno, evo- Como na guerra é de suma importân-
lucionista e sensual, deixou os esconderijos cia conhecer os planos do inimigo, “Catoli-
das seitas secretas e aparece à luz do dia, en- cismo” presta imenso serviço à salvação das
carnada na que chamam de Igreja “pós- almas, publicando as intenções e indicando os
conciliar”. órgãos de propaganda daqueles que, numa
tentativa ousada, mas destinada ao fracasso,
Os dois documentos que “Catolicis- intencionam construir uma nova religião so-
mo” oferece aos seus leitores neste número bre os escombros da Igreja tradicional, dA-
duplo atestam o que acabamos de afirmar. E- quela que Jesus Cristo legou aos homens por
les mostram em que sentido os inovadores en- meio de honrar a Deus e salvar a alma.
tendem o múnus profético que, segundo o
Concílio, compete ao povo de Deus. Na reali- Julgamos obra benemérita de aposto-
dade, como os modernistas, os grupos proféti- lado divulgar o mais amplamente possível os
cos que pululam por toda a Igreja o que pre- estudos que “Catolicismo” agora apresenta ao
tendem é a constituição de uma nova religião, público brasileiro. Por isso recomendamos ca-
a religião do homem que se endeusa e pres- lorosamente sua leitura.
cinde do Criador. Como infra-estrutura, para
sustentar e disseminar pelo mundo todo as i-
déias dos “grupos proféticos”, o IDO-C, como
imenso polvo, estende seus tentáculos sobre
os cinco continentes.
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O porquê deste número duplo

A Igreja Católica infiltrada por adver-


sários velados

Plinio Corrêa de Oliveira

Catolicismo publica hoje um número duplo, correspondente aos meses de abril e


maio, no qual dá conhecimento a seus leitores
de dois autênticos documentos-bomba sobre a
presente crise na Santa Igreja. O primeiro de-
les, estampado no boletim católico “Approa-
ches”, de Londres (no. 10-11, de janeiro de
1968), e intitulado “Dossier a respeito do
IDO-C”, está traduzido na pág. 10 desta edi-
ção. O segundo veio a lume sob o título “Os
pequenos grupos e a corrente profética” no
no 1423, de 11 de janeiro de 1969, da revista
“Ecclesia”, de Madri, e nós o traduzimos
mais adiante, à pág. 14. Para melhor compre-
ensão de nossos leitores, cada um desses do-
cumentos vem precedido de um estudo de a-
presentação (contendo um substancioso resu-
mo do texto), elaborado pela redação desta fo-
lha.

O IDO-C, e o “International Catho-


lic Establishment”
O documento de “Approaches” dá
notícia de um grupo ou organismo, algum tan-
to enigmático, o “International Catholic Es-
tablishment”, oficialmente independente de
qualquer instituição religiosa ou estatal, e sob
Os “pães” postos numa cesta e o “vinho” que o
noivo sorve não são nada menos do que a Sagra- cuja orientação atua uma gigantesca máquina
da Eucaristia. É na França um novo modo de co- de propaganda – o IDO-C, ou seja, Centro
mungar na Missa de casamento. Por outra foto se Internacional de Informação e Documenta-
vê que a noive está de mini-saia. Os “grupos pro-
féticos” consideram tudo isto um passo ainda tími- ção relativa à Igreja Conciliar. Essa máqui-
do, com rumo à dessacralização e à moral nova na é destinada a inocular nos meios católicos
que pretendem implantar.
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mais ou menos veladamente, através da im- um sistema ideológico que, como no caso do
prensa, do rádio, da televisão, e de conferên- IDO-C, representa o contrário da Religião Ca-
cias em auditórios públicos, uma doutrina que tólica. Não só por seu grande número, mas
é o oposto da Religião Católica. O documento pelas subtilíssimas técnicas de iniciação de
faz ver que essa máquina forma um imenso membros, pressão sobre a opinião pública e
polvo, cujos tentáculos se estendem larga- agitação que usam, os “grupos proféticos” são
mente pela Europa e Estados Unidos, além de uma verdadeira potência. Eles formam dentro
deitar ramificações pela América do Sul e ou- da Igreja uma imensa rede semi-secreta de
tras regiões da terra. A ele está sujeito o gros- propaganda anticatólica, feita sobretudo ver-
so dos instrumentos de publicidade católicos balmente de pessoa a pessoa.
da Europa e da América do Norte, e assim o
seu poder dentro da Igreja parece – humana- Dedos de uma mesma mão
mente, é claro – incontrastável.
Tendo diante dos olhos ambos estes
Tal fato cria para a Igreja uma situa- documentos estarrecedores, é natural que o
ção muito semelhante à de um país em guerra leitor se pergunte que pontos de semelhança e
no qual a grande maioria das emissoras de te- de contraste existem entre o IDO-C e os “gru-
levisão e rádio e dos órgãos de imprensa esti- pos proféticos”. A isto respondemos:
vessem a soldo do adversário. E não de um
adversário qualquer, mas, como verão os lei- 1. Os pontos de semelhança são antes
tores, de um adversário com intuitos de des- de tudo doutrinários. O que o arti-
truição radicais e implacáveis, exímio no uso go de “Approaches” diz das dou-
de meios de ação sumamente subtis e eficien-
tes, e dotado de recursos materiais pratica-
mente inesgotáveis.

Os “grupos proféticos”
O artigo publicado em “Ecclesia” re-
força vigorosamente a trágica impressão de
que a Igreja é, hoje em dia, como um país so-
lapado pelo adversário. Ele nos põe ao corren-
te do esforço sistemático de um movimento
que se generaliza cada vez mais nos meios ca-
tólicos de numerosos países, o dos “grupos
proféticos”.

Muito semelhante, em sua estrutura


semiclandestina e em seus métodos de inicia-
ção, a certos organismos de agitação maçôni-
ca dos séculos XVIII e XIX, como os carbo-
nários, esse movimento é formado de miría-
des de pequenos grupos esparsos. A unidade
desses organismos ressalta, logo à primeira
vista, da ideologia, das metas e dos métodos
de ação que todos têm em comum, bem como
da notável colaboração que mutuamente se
prestam estes corpúsculos sem direção central
aparente. Constituem eles células vivas de a-
tivistas que se incrustam nos mais variados I.C.I. informa que este Bispo espanhol, Mons. Horlando
organismos católicos – seminários, universi- Arce Moya, costuma dirigir uma orquestra de jazz em
dades, colégios, obras sociais, etc. – e ali fa- “boites”. Função bem pouco sacral, em que os “grupos
proféticos se regozijam de ver um Prelado.
zem a propaganda, mais ou menos velada, de
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trinas propagadas pelo IDO-C Em face da agitação progressista


constitui como que genuínos na América Latina
fragmentos da doutrina que “Ec-
clesia” mostra ser a dos “grupos É natural que o leitor, chegando a esta
proféticos”; conclusão, se pergunte que relação há entre o
IDO-C e os “grupos proféticos”, de uma par-
2. Tanto o IDO-C quanto os “grupos
te, e de outra o progressismo embebido de
proféticos” têm em comum tam-
comunismo, que impregna a tal ponto o nosso
bém sua atitude concreta em face
ambiente, que contra ele dois milhões de pes-
da Igreja: a) destruição por meio
soas, por iniciativa das TFPs do Brasil, da
de infiltração semiclandestina; b)
Argentina, do Chile e do Uruguai, pediram
aproveitamento de pessoas eclesi-
providências a Paulo VI, no abaixo-assinado
ásticas, de católicos militantes, de
mais impressionante de nossos dias.
obras e instituições católicas para a
efetivação dessa obra demolidora; Não há espaço, neste número de “Ca-
3. Tanto nos “grupos proféticos” tolicismo”, já tão cheio, para aprofundar ques-
quanto no IDO-C se tem, perante o tão de atualidade tão flagrante.
comunismo, a mesma atitude sim-
pática – é o menos que se possa Para elucidar – pelo menos em al-
dizer – retribuída aliás em arraiais guma medida – o assunto, é interessante
marxistas. Este fato deixa claro um confronto entre o que os artigos de
que os comunistas consideram a “Approaches” e “Ecclesia” nos revelam
atuação do IDO-C e dos “grupos sobre as metas do IDO-C e dos “grupos
proféticos” útil à vitória de sua proféticos”, de um lado, e de outro lado ca-
própria causa. Dado o imenso po-
der de uma e de outra organiza-
ção, essa utilidade é, naturalmen-
te, da maior monta para o comu-
nismo;
4. Quanto aos instrumentos de ação,
o IDO-C e os “grupos proféticos”
são profundamente diversos. E
nisto se completam. Pois o IDO-
C visa as massas católicas, sobre
as quais age pelos meios mais a-
dequados, isto é, como dissemos,
livros, revistas, jornais, televisão,
rádio, conferências, etc. Os “gru-
pos proféticos”, pelo contrário,
visam os mil ambientes-chave
que dirigem o movimento católi-
co. E para tanto esses grupos u-
sam principalmente a propaganda
oral discreta, a cargo, como é ób-
vio, de agitadores perfeitamente
destros e bem colocados.
Em suma, os “grupos proféticos” e
o IDO-C se entreajudam e se completam
no que têm de análogo e de diverso: como
os dedos de uma mesma mão, ou os tentá-
culos de um mesmo polvo. O Cardeal Merry del Val foi o braço direito de São Pio X n a
luta contra os modernistas, precursores do progressismo.
Modelo de sacralidade e alta compostura eclesiástica.
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da uma das reivindicações apresentadas Três perguntas dramáticas


pela agitação progressista. Não há deside-
ratum do progressismo que não redunde Dado que, de uma parte, na Europa e
em favorecer a desalienação (vocábulo cujo na América do Norte lavra um incêndio ideo-
significado e alcance o leitor encontrará adi- lógico ateado pelo IDO-C e pelos “grupos
ante, nos primeiros tópicos do artigo da pág. proféticos”; e dado que, de outra parte, análo-
X), a qual é, por sua vez, o sentido profun- go incêndio se alastra por toda a América La-
do da transformação que o polvo instalado tina, na qual também estão presentes tentácu-
na Igreja quer impor. los do IDO-C e presumivelmente do “movi-
mento profético”, - não se pode deixar de le-
Oferecemos disto um exemplo palpá- vantar três questões de importância absoluta-
vel, ao fácil alcance do leitor. Releia ele o mente fundamental para as nações do conti-
monumento de progressismo que é o famoso nente ibero-americano:
documento do Pe. Comblin, e as críticas que
1. O IDO-C e os “grupos proféti-
lhe fez o autor desta nota, como Presidente do
cos” têm alguma responsabili-
Conselho Nacional da TFP brasileira, em car-
dade por esse incêndio religioso
ta aberta ao Sr. Arcebispo D. Helder Câmara
que vai tomando proporções a-
(“Catolicismo”, no. 211, de julho de 1968): as
pocalípticas?
analogias entre as doutrinas do polvo semi-
secreto e as do Pe. Comblin saltam aos olhos1. 2. Além do IDO-C e dos “grupos
proféticos” haverá outros orga-
Sem alargar mais o quadro relativo ao nismos empenhados na mesma
Brasil lembrando fatos muito notórios aqui faina?
ocorridos ao longo dos últimos anos, propo- 3. Dado que o comunismo lucra
mos ainda que o leitor relacione com o que obviamente e em larguíssima es-
publicamos hoje sobre o IDO-C e os “grupos cala com esse incêndio religioso,
proféticos”, o que os jornais nos contam dia a como com a atuação do IDO-C e
dia sobre a verdadeira onda de agitação pro- dos “grupos proféticos”; e dado
gressista que vem sacudindo de norte a sul a que dentre as atuações favorá-
América Latina, desde os escândalos de Cu- veis ao comunismo, algumas são
ernavaca no México até o episódio do Pe. diretamente suscitadas, guiadas
Zaffaroni no Uruguai ou a ocupação da Cate- e estipendiadas por ele, e outras
dral de Santiago do Chile. são por ele ajudadas, aconselha-
das, e por fim infiltradas e diri-
gidas: até que ponto o incêndio
religioso na América Latina (e
no orbe católico inteiro, poder-
1
Se o leitor se quiser aprofundar no assunto quanto a seus aspectos brasileiros, poderá
se-ia acrescentar) está sob o co-
pesquisar as origens remotas de infiltrações do estilo dos “grupos proféticos” no Brasil, no
livro “Em Defesa da Ação Católica”, publicado pelo então Presidente da Junta Arquidio-
mando de Moscou e de Pequim?
cesana da Ação Católica em São Paulo, que subscreve este artigo. Essa obra, vinda a lume
em 1943 (Editora Ave Maria, São Paulo), e prefaciada pelo então Núncio Apostólico no Quem negasse a pertinência, a oportu-
Brasil, hoje Cardeal Aloisi Masella, denuncia uma infiltração progressista em larga escala
na Ação Católica, descrevendo-a em termos que impressionam pela frisante analogia com nidade e a gravidade evidentes destas ques-
as informações publicadas por “Ecclesia” sobre os “grupos proféticos”. Esse livro foi ob-
jeto de uma calorosa carta de louvor escrita ao autor em nome de P tões – que são estudadas mais pormenoriza-
io XII pelo Substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé, Monsenhor João Batista Monti- damente em nosso artigo da pág. Y – atrairia
ni, hoje Papa Paulo VI.

No mesmo sentido, é de real valia a Carta de 7 de março de 1950, na qual a Sagrada Con-
inevitavelmente sobre si uma outra pergunta:
gregação dos Seminários e Universidades, ainda ao tempo de Pio XII, pôs de sobreaviso o
Episcopado Brasileiro contra opiniões errôneas veladamente em curso nos Seminários de
não tem tal pessoa em vista evitar que o pro-
nosso País (“Acta Apostolicae Sedis”, vol. 42, p. 836 e ss.). blema desperte a atenção geral, e seja objeto
Releva ainda mencionar a Carta Pastoral sobre Problemas do Apostolado Moderno (Boa
Imprensa Ltda., Campos, 1953) em que o Sr. Bispo D. Antônio de Castro Mayer descreve e
de incômodas investigações? Neste caso, não
analisa múltiplos erros infiltrados em meios católicos, erros esses que a um tempo sabem a
progressismo, e às doutrinas do IDO-C e dos “grupos proféticos”. Pela repercussão que te-
será ela um comparsa no jogo subversivo?
ve no Exterior – com edições na França (“La Cité Catholique”, Paris, 1953), na Itália (“Is-
tituto Editoriale Bartolo Longo”, Pompei, 1954, e “Edizioni dell’Albero”, Torino, 1964), na
Espanha (“Coleción Fe Integra”, dos Padres C.P.C.R., Madrid, 1955), na Argentina (“Li-
breria Católica Acción”, Buenos Aires, 1959) e no Canadá (“La Cité Catholique”, Québec,
1962) – se vê que o documento episcopal apresentava interesse concreto para diversos ou-
tros países.

O leitor poderá ainda consultar com proveito as coleções do “Legionário” e de “Catoli-


cismo”.
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Muralha chinesa que a alegada moderação de tantos de nossos


Prelados seja motivo para se censurar quem se
Nas atuais condições de nosso País, as empenha em manter em lúcida vigilância a
três questões que formulamos eqüivalem a um opinião pública.
apelo à vigilância, dirigido a toda a nação. A
insurreição progressista está em pleno desen- Por fim, não cedamos à ilusão de que
volvimento diante de nossos olhos. Nosso po- a fórmula repressão-moderação possa consti-
vo é inteligente e perspicaz. Alertá-lo é dar- tuir, em torno de nosso País, uma muralha
lhe um dos melhores meios para que se de- chinesa que feche o acesso aos maus exem-
fenda. E é para que ele se defenda, que “Cato- plos, aos maus incentivos e às doutrinas mal-
licismo” publica este número duplo. sãs procedentes de fora. Tudo isto nos entrou,
entra e continua a entrar, fatalmente, frontei-
Mas, dirá alguém em certos arraiais ras a dentro. E se essa má semeadura encon-
católicos de eclesiásticos ou leigos, será útil trou entusiastas no mundo inteiro, não há por-
para o Brasil a divulgação da matéria desta que imaginar que deixe de os encontrar no
nossa edição? A presente repressão ao es- Brasil. Idéias não se combatem sem o recurso
querdismo nos faz gozar de relativa paz. Os a idéias. O mutismo ideológico é condição de
progressistas estão mudos, pelo menos dentro triunfo para os que disseminam erros na som-
de nossas fronteiras. A moderação da maior bra. Seria extraordinariamente anacrônico i-
parte de nossos Prelados nos faz esperar que o maginar que na época do rádio e da televisão,
progressismo, tratado com toda a amenidade, podemos isolar o Brasil com uma muralha
acabe por se diluir. Por que então levantar no- chinesa ideológica, feita de repressão, mode-
vamente os problemas espinhosos que acaba- ração e silêncio.
mos de formular?

A repressão teve o real mérito de re- Alentando


duzir ao mutismo, no rádio, na televisão e na
Na luta, não basta despertar legítimas
imprensa, quer o esquerdismo dito católico,
apreensões e convidar a uma arguta vigilân-
quer o esquerdismo acatólico. Porém isto não
cia. É preciso também alentar.
quer dizer que um e outro tenham sido redu-
zidos à inação. Os progressistas aí estão, e “Catolicismo” tem, assim, a alegria de
muitas vezes se acham em preciosas situa- pôr à venda, juntamente com este número du-
ções-chave. Quem poderá dormir tranqüilo, plo, um documento estimulante, pois nos fala
na certeza de que não estejam agindo na sur- da reação que o progressismo vem encontran-
dina, continuando sua obra de intoxicação da do na França. Trata-se do “Vade-mécum do
juventude estudiosa, dos ambientes religiosos católico fiel”, contendo valiosíssimas reco-
e do operariado? De mais a mais, quem visse mendações feitas aos católicos por 350 Sacer-
no progressismo, como nas tramas do IDO-C dotes de vários países – embora franceses em
e dos “grupos proféticos”, apenas a luta co- sua maioria – sobre o modo de se portarem
munismo-anticomunismo se enganaria singu- ante manifestações agudas do progressismo.
larmente. A questão, em sua essência, é reli- Tem o documento o apoio do ilustre Arcebis-
giosa. E se no presente número tratamos cola- po francês Mons. Marcel Lefèbvre, e em edi-
teralmente de suas implicações com o comu- ção brasileira aparece sob a égide do preclaro
nismo, é fundamentalmente no terreno religi- Bispo de Campos, D. Antônio de Castro Ma-
oso que nos situamos em face do tema. yer.
De qualquer forma, o certo é que, se a Desejou em boa hora sua Ex.a Rev.ma
moderação pode trazer preciosas vantagens que o “Vade-mécum”, traduzido para o portu-
em determinadas circunstâncias, a condição guês, fosse dado a lume simultaneamente com
para que essas vantagens sejam efetivas é que esta nossa edição.
ela não seja interpretada como um convite à
imprevidência otimista, à inércia, ao cruzar de
braços ante o adversário. Não cremos, pois,
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O entusiasmo dos jovens da TFP de a entusiástica participação na propaganda


deste número duplo, dos jovens que, sócios da
Por fim, importa lembrar ainda uma TFP e militantes da Tradição, Família e Pro-
vez que, se este incêndio é eclesiástico, ele priedade, se votaram à defesa dos princípios
afeta em sua raiz a civilização cristã e a or- básicos da ordem natural cristã na esfera tem-
dem temporal. Razão pela qual se compreen- poral.
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Resumo analítico do artigo de “Approaches”

A superpotência publicitária dos ilumi-


nados do progressismo

O católico comum, que vê os mais letim católico inglês “Approaches” fez, em


díspares jornais, revistas, livros, emissoras de seu número de janeiro do ano passado, de-
rádio e TV do mundo inteiro servirem estrepi- nunciando com exuberância de dados, a exis-
tosamente de veículo para a propaganda pro- tência de um núcleo central muito discreto,
gressista, é naturalmente levado a crer que es- cujo objetivo é dirigir, em matéria essencial-
sa portentosa propaganda é fruto exclusivo e mente religiosa, a opinião católica do mundo
espontâneo das tendências ideológicas de inteiro. Contando com altos apoios comunis-
grande parte dos homens de pensamento e de tas, dispondo de agentes em trinta países, e
ação de nosso tempo. assessorado por 120 especialistas – teólogos,
membros de institutos de pesquisas e corres-
Um observador mais atento, entretan- pondentes religiosos – o IDO-C, ou seja, o
to, saberia distinguir, por detrás do que parece Centro Internacional de Informação e Do-
um fogo desencontrado de franco-atiradores, cumentação relativa à Igreja Conciliar, é
uma hábil articulação que explicaria a resul- um organismo que vai muito além do que o
tante inegavelmente bem sucedida desse seu nome, aparentemente inocente, faria crer.
bombardeio publicitário.
Trata-se, na realidade, de uma organi-
Uns e outros – leitores inadvertidos ou zação-Moloch, que engloba ou tem a seu ser-
observado- viço grandes
res sagazes editoras e
– nunca ha- importantes
viam podi- jornais e re-
do, até hoje, vistas, nos
deitar a mão principais
nessa orga- países da
nização mis- Europa livre
teriosa que e da Améri-
manipula as ca do Norte,
tubas da e mesmo em
propaganda algumas na-
progressista. ções de além
cortina de
É, ferro, e que
pois, de con- deste modo
siderar-se controla a
sensacional propaganda
a revelação do chamado
que o con- progressis-
ceituado bo- Episódio altamente sacral: Dominicanos do Convento de Ávila, na Espanha, in- mo católico
gressam segundo os antigos estilos, pela porta do claustro.
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em várias partes do mundo. acerca dos efeitos estruturais e teológicos da


continuada aplicação dos decretos e do espíri-
A importância do artigo de “Approa- to do Concílio Vaticano II”.
ches” é tanto maior quanto deixa entrever,
com suficiente clareza, por detrás do IDO-C, O IDO-C informa ter nascido em de-
uma verdadeira “maçonaria” progressista – no zembro de 1965, da fusão do DO-C, centro de
caso dos EUA sua existência é até confessada informações que servia o Episcopado Holan-
por um membro da seita – a dominar a vida dês durante o Concílio, com o Centro de Co-
católica de diversos países, e com tendência a ordenação de Comunicações Conciliares
estender aos outros a sua influência. É o que, (CCCC), que na mesma oportunidade pro-
no artigo, se chama de “Catholic Establish- movia o intercâmbio de notícias entre jorna-
ment”. listas progressistas.

Verifica-se, desse modo, que a propa- Proclamando-se “independente de


ganda progressista, no que ela tem de mais qualquer instituição religiosa ou estatal”, é
potente e dinâmico, é perfeitamente artificial. pois o IDO-C um organismo não católico que
“Approaches” mostra como, onipresente, ela é se propõe, entretanto, muito suspeitamente,
hábil em criar popularidades demagógicas, como dissemos, o objetivo de dirigir em ma-
em sofismar, em seduzir e difamar, constitu- téria propriamente religiosa a opinião católica
indo-se assim numa poderosa alavanca da re- mundial.
volução progressista que pretende hoje destru-
ir, por dentro, a Santa Igreja Católica Apostó- A esse propósito é ainda ele próprio
lica Romana, edificando em seu lugar uma quem se encarrega de esclarecer: “Ainda que
Igreja-Nova – a Igreja dos “pequenos grupos o seu conteúdo [da documentação distribuída]
proféticos”, de que trata o artigo de “Ecclesi- se refira principalmente à atualização da Igre-
a” cuja tradução estampamos nesta mesma e- ja Católica, cada vez mais e mais se orienta
dição (pág. Z). em um sentido ecumênico, pois, como os
problemas de nossos dias não mais ficam cir-
A importância e seriedade do estudo cunscritos a uma ou outra Igreja, nosso servi-
de “Approaches” ressaltam pelo fato de ter si- ço não se destina exclusivamente aos católi-
do ele reproduzido em outros órgãos católicos cos”.
de valor como “Permanences” na França,
“Nunca et Semper” na Alemanha, “Roma” em “Entre seus assinantes encontram-se
Buenos Aires, além de ter sido publicado em Bispos, [...] professores de Teologia, [...] es-
forma de livreto, pela Editora “CIO” de Ma- tudantes adiantados de seminários católicos,
dri. protestantes e judeus, diretores de publicações
católicas, protestantes e judaicas, e encarrega-
Tratando-se de um trabalho bastan- dos das secções religiosas de grandes jornais e
te extenso (tradução na pág. Zz), julgamos revistas de informação geral”, - é uma circular
oportuno apresentar aqui, preliminarmen- do IDO-C que no-lo informa.
te, um resumo analítico do mesmo, dando
destaque a suas partes mais importantes. Quem o dirige

O que vem a ser o IDO-C – se- O presidente do Comitê Executivo In-


gundo ele mesmo ternacional do IDO-C é o dominicano Pe. Ra-
fael Van Kets, professor do Angelicum de
O IDO-C apresenta-se a si mesmo Roma; secretário geral é o Sacerdote holan-
como “um grupo internacional, com quartel- dês, Pe. Leo Alting von Geusau, participam
general em Roma e com uma crescente rede desse Comitê, entre outros, um Sacerdote nor-
de ramificações que abarcam o mundo intei- te-americano da Rádio Vaticana, um dirigen-
ro”. Sua função específica, segundo ele mes- te do Movimento Familiar Cristão do Méxi-
mo a define, “consiste em coligir e distribuir” co, um elemento da conhecidíssima revista
aos especialistas interessados “documentação francesa “Informations Catholiques Inter-
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 13

nationales”, e outro do grupo “católico”- ro”, em Paris, e o “New York Times”, nos
comunista “Znak”, da Polônia. Faz parte, a- EUA, sem falar de sua influência em centros
inda, do Comitê Executivo Internacional do católicos de informação importantes como a
IDO-C o diretor da revista “Slant”, da Ingla- “Catholic Press Union”, a NCWC, o “Nati-
terra, a qual mantém boas relações com outro onal Catholic Comunications Centre”, a
conhecido movimento “católico”-comunista “Religious Newswriters Association”, etc.
polonês, “Pax”. Ao IDO-C inglês não repug- acrescenta, enfim, “Approaches” que as notí-
na incluir no seu máximo órgão diretivo o lí- cias do IDO-C e seus pontos de vista são di-
der comunista Jack Dunman, várias vezes fundidos, através de pessoas-chave, na própria
candidato a deputado pelo PC britânico, dire- Rádio Vaticana e na Rádio Canadá.
tor da revista agrária do partido e especialista
no diálogo entre católicos e comunistas. Assim, proclamando-se embora uma
entidade acatólica, o IDO-C dispõe efetiva-
mente de imensos meios para, como é seu ob-
Dinossauro publicitário
jetivo declarado, dirigir a opinião católica em
Comentando na imprensa diária de matéria genuinamente religiosa.
São Paulo o trabalho de “Approaches”, o
Prof. Plinio Corrêa de Oliveira classificou o Ligações com o comunismo na In-
IDO-C, muito sugestivamente, de “dinossauro glaterra e além cortina de ferro
publicitário”. Com efeito, esse estranho orga-
nismo tem à sua disposição editoras católicas É muito significativo que o funciona-
das maiores do mundo, como a conhecidíssi- mento do IDO-C seja aceito sem a menor
ma “Herder” internacional, a “Paulist preocupação em países dominados por gover-
Press”, que é a mais importante editora cató- nos comunistas, tais como a Hungria, a Polô-
lica dos EUA, a “Burns and Oates”, da In- nia, a Checoslováquia e a Iugoslávia.
glaterra, que se jacta do título de “Editores da
Santa Sé”, etc. Por outro lado, mesmo sem considerar
o serviço que o IDO-C presta à causa comu-
Quanto aos jornais e revistas direta- nista, ou o proveito que o comunismo tira do
mente representados no IDO-C, contam-se, IDO-C – conforme salienta o artigo de apre-
entre os principais, “The Guardian”, “S- sentação deste número (pág. T) – não deixa
lant”, “The Tablet”, na Inglaterra; na França de estarrecer, como observa “Approaches”, a
“Informations Catholiques Internationa- simples constatação de que a Secção do IDO-
les” (cuja identidade ideológica com o IDO-C C da Inglaterra, totalmente composta de pro-
francês é tal, que se pode dizer que este últi- gressistas, é internamente controlada por um
mo vem a ser a expressão internacional dos núcleo marxista que atua sob a direção de um
pontos de vista de I.C.I.); “St. Louis Revi- dos líderes mais experimentados do PC da
ew”, nos EUA; “Criterio”, de Buenos Aires, Grã-Bretanha, o já citado Jack Dunman.
etc.
“International Catholic Establish-
Entre os jornais não diretamente re- ment”
presentados no IDO-C mas nos quais a influ-
ência deste se faz sentir, destacam-se o “Na- No inglês o termo “establishment” é
tional Catholic Reporter” e o “Long Island freqüentemente empregado em sentido pejo-
Catholic” (diários ditos católicos), o “Time”, rativo para designar uma camarilha influente
o “New York Times” e o “Chicago Sunday que impõem a sua ideologia, suas formas e
Times” (periódicos leigos de repercussão in- sobretudo sua vontade, a uma sociedade de-
ternacional), nos EUA e Canadá; “La Croix” terminada. A Editora “CIO”, ao verter para o
e “Témoignage Chrétien”, na França; etc. espanhol o artigo de “Approaches”, traduz
“establishment” por “grupo de influência ou
Cumpre destacar que o IDO-C contro- pressão”.
la as secções religiosas de jornais de repercus-
são mundial como “Le Monde” e “Le Figa-
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 14

A designação de “establishment” era shment”. Ele se jacta de governar hoje em dia


usual para camarilhas leigas existentes em to- o pensamento dos católicos norte-americanos.
do o mundo. No campo católico, entretanto,
foi só muito recentemente, e nos EUA, que a Uma correia de transmissão de idéi-
conspiração progressista se intitulou descara- as. Isto se consegue através de uma técnica e-
damente a si mesma de “Catholic Establi- ficientíssima e bem definida de divulgação
shment”. Esclarece “Approaches” que foi ideológica. De início, os grandes órgãos liga-
John Leo, em um artigo publicado em dezem- dos ao “Catholic Establishment” lançam uma
bro de 1966-janeiro de 1967 em “The Critic”, palavra de ordem que vai sendo difundida fi-
quem usou pela primeira vez a expressão “Ca- elmente pela imprensa católica de maior cali-
tholic Establishment”. Tanto o articulista bre. Em seguida, esta palavra de ordem vai
quanto o jornal pertencem confessadamente ecoando nos jornais e revistas de porte médio,
ao grupo de influência assim designado. e obtém sua repercussão última nos órgãos de
imprensa ínfimos. Assim, por uma verdadeira
“Approaches” – tirando a palavra da “correia de transmissão de idéias”, o “Catho-
própria boca dos conspiradores progressistas lic Establishment” domina toda a imprensa
– mostra como se pode falar num verdadeiro segundo a qual se modela a opinião católica
“International Catholic Establishment”, norte-americana.
que se compõe dos iniciados, os iluminados
da área progressista, e é o núcleo que orienta Como conseqüência desse influxo in-
a esta tanto dentro da Igreja quanto em suas direto do “Establishment” sobre os jornais
relações com o mundo exterior. “Approaches” que não lhe pertencem, são muito poucos os
o qualifica de “Hierarquia paralela” instalada periódicos católicos dos Estados Unidos que
no seio da Igreja. hoje não servem para fazer eco, em larga me-
dida, aos pontos de vista do “Establishment” e
O cérebro desse poderoso grupo inter- para amplificá-los. E como estes periódicos
nacional católico parece estar na França. En- são ainda razoavelmente ortodoxos, sobre eles
tretanto, é focalizando seu ramo dos EUA – o se exerce constante e crescente pressão para
qual atua mais a descoberto – que se tem uma que se “atualizem” e se tornem progressistas.
idéia mais precisa de como ele funciona em Quanto aos jornais e revistas de âmbito na-
todo o mundo. cional, os que ainda militam contra o “Esta-
blishment” são apenas dois: “The Wanderer”,
Das relações do “Catholic Establish- o semanário católico nacional que se publica
ment” com o IDO-C falaremos adiante. em Saint Paul, Minnesota, e “Triumph”, re-
vista mensal recentemente fundada e publica-
O “American Catholic Establish- da por Brent Bozzel.
ment”
Entre os principais jornais do “Catho-
O citado artigo de John Leo em “The lic Establishiment” estão o “National Catho-
Critic” constitui um depoimento significativo lic Reporter”, “Cross Currents”, “Jubilee”,
a respeito de como atua o grupo católico de “Commonweal”, “Continuum”, e “The Cri-
pressão norte-americano. tic”. Merece destaque o controle que o “Esta-
blishment” adquiriu recentemente sobre a im-
“É o “Establishment” que decide o que portantíssima “Catholic Press Association”.
os católicos devem discutir, não somente por
meio das publicações que lhe pertencem, mas, Mútua propaganda dos “raptores de
de certo tempo para cá, por meio de quase to- microfones”. No seu afã de dominar a opini-
dos os jornais e círculos de estudo católicos, ão católica, o “Establishment” constituiu uma
de uma a outra costa”, escreve John Leo. E verdadeira confraria – aberta, mas exclusiva –
exemplifica: “A discussão nos Estados Uni- de dezenas de eruditos, jornalistas, ativistas e
dos sobre o controle da natalidade foi inteira- editores, a qual se “apoderou de todos os mi-
mente uma produção” do “Catholic Establi- crofones em sua determinação de falar pela
Igreja”. Esses “raptores [sizers] de microfo-
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 15

nes” agem de pareceria e praticam o método “Establishment” católico e “Establi-


que se poderia denominar de “mútuo incen- shment” laico
samento”: “Escrevem para os periódicos cató-
licos mais influentes e os editam... Publicam Como seria fácil de prever, estabele-
os manuscritos uns dos outros, fazem recípro- ceu-se desde logo uma ligação entre o “Ame-
cas e calorosas recensões de seus respectivos rican Catholic Establishment” e o análogo
livros, citam-se mutuamente nas conferências grupo de pressão laico dos EUA. Esta ligação
que se convidam uns aos outros a dar, reúnem se detecta a partir do Centro de Estudo das
essas conferências e artigos em livros para um Instituições Democráticas, que “Approa-
novo turno de discussões favoráveis”. Tudo ches” apresenta como o máximo pilar do “Se-
isto é John Leo quem o refere. cular Establishment”. Quatro importantes
membros do “Catholic Establishment” têm
Se ainda acrescentarmos que o “Ca- parte ativa nos trabalhos desse Centro.
tholic Establishment” dos EUA controla “a
maioria das grandes séries de conferências”, O Centro de Estudo das Instituições
como confessa John Leo, e isto através, sobre- Democráticas é constituído por elementos de
tudo, de duas agências destinadas a organizar todos os matizes – católicos progressistas,
conferências – a “University Speakers” e o protestantes, maçons, judeus, comunistas, an-
“National Lecture Service” – entenderemos gustiados peritos em demografia, ardorosos
claramente o significado do termo “raptores planificadores da família, cavalheiros ultra-
de microfones”. humanitários, pacifistas irredutíveis, coexis-
tencialistas frenéticos, etc. Entre os seus obje-
Despistamento. Mas para evitar a im- tivos, “Approaches” assinala o intento de
pressão de que os intelectuais orquestrados promover uma fusão do comunismo e do ca-
pelo discreto dinossauro não têm autonomia e pitalismo sob os auspícios de “algum sistema
obedecem à mesma batuta, alguns debates so- de governo mundial”. Como metas “práticas”,
bre pontos secundários são organizados entre o Centro propugna no momento a admissão
eles. Assim, criam a ilusão de livre debate (c- da China Comunista na ONU e a retirada dos
fr. John Leo, art. cit.). Estados Unidos do Vietnã, além de uma revi-
são radical da política exterior do Ocidente,
Conspiração. Aplicando o método do que considera muito recalcitrantemente anti-
mútuo incensamento, os integrantes do “Esta- comunista.
blishment” conseguem fabricar artificialmente
a reputação de seus confrades, e mesmo de “Approaches” se detém em mostrar a
membros do Episcopado alinhados à sua ideo- fundamental importância, para o “Catholic
logia, os quais são convertidos, da noite para Establishment”, de sua ligação com o “Secu-
o dia, em figuras populares. Aos Prelados que lar Establishment”. Foi graças a este que o
não se ajustam à linha do “Establishment” es- grupo congênere católico conseguiu que sua
te trata imediatamente de desacreditar, o que voz fosse difundida através da poderosa
representa um meio eficacíssimo de dissuadir “mass media” leiga. Foi-lhe possível, assim,
os seus colegas de procederem da mesma ma- dar a impressão de que, enquanto a Igreja
neira. “pré-conciliar” era um “ghetto”, fechado, a-
fastado por completo dos assuntos da socie-
Fica, pois, claro que estamos em pre- dade humana, a Igreja encabeçada pelo “Esta-
sença de uma verdadeira conspiração. É o que blishment” é capaz de dizer uma palavra deci-
reconhece John Leo, referindo-se nestes ter- siva nos conselhos e assembléias humanas, e
mos ao “Catholic Establishment” dos EUA. quem quer que se interponha no caminho de
“Embora seja difícil intitulá-lo de conspiração sua marcha para a frente, não pode ser amigo
no sentido político moderno da palavra, ele o de Deus.
é no sentido dado por John Courtney_Murray,
de “respirar junto”. No “Establishment” todos No caso particular do “Catholic Esta-
respiram junto”. blishment” francês, é a suas ligações com o
“Establishment” laico (maçônico e comunis-
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 16

ta) que ele deve o fato de que seus pontos de leigo, cujas tendências esquerdizantes já a-
vista sejam espelhados fielmente em “Le pontamos.
Monde” (por Henri Fesquet), em “Le Figa-
ro” (pelo Pe. Laurentin), e até em Ramificações do IDO-C pelo mun-
“L’Humanité” (órgão do Partido Comunista do inteiro
francês).
“Approaches” termina seu dossier so-
Onde entra o IDO-C bre o IDO-C apresentando uma lista de mem-
bros do Comitê Internacional para o De-
A ligação entre o IDO-C e o “Catholic senvolvimento da Informação e Documen-
Establishment” fica suficientemente visível tação Religiosa, pertencente ao IDO-C. Nes-
quando se considera que cinco pessoas dentre sa relação – procedente do próprio IDO-C –
as 21 que compõem o Comitê Internacional constam nomes do Brasil, Argentina, Chile,
para o Desenvolvimento da Documentação Colômbia, México, Peru, Uruguai, além de
e Informação Religiosa (do IDO-C) são figu- países de outros continentes. É interessante
ras-chave do “Establishment”. Na Inglaterra percorrer essa lista para se ter uma idéia da
essa vinculação se manifesta, sobretudo, atra- extensão, no mundo inteiro, da conjuração
vés do certamente pró-comunista Neil Mid- progressista a cargo do IDO-C.
dleton, de “Slant”, o qual é, ao mesmo tempo,
do “Establishment” inglês e do Comitê Exe- Ressalva
cutivo Internacional do IDO-C. “Approaches”
cita outros exemplos de ligações desse gêne- É bem evidente que, dado o caráter
ro. sub-reptício da atuação do IDO-C, não se po-
de afirmar que cada uma das pessoas que a ele
Tendo seu centro em Roma e esten- se filiaram sirva consciente e intencionalmen-
dendo suas ramificações pelo mundo inteiro, te à causa dele. É uma ressalva de “Approa-
o IDO-C vem a ser para o “Catholic Establi- ches” que parece até desnecessária à vista da
shment” uma organização inapreciável para própria índole do IDO-C...
reforçar suas pretensões de se substituir ao
Magistério da Igreja. Por outro lado, o IDO-C Doutrina integral
pode “mostrar a sua face”, enquanto o grupo
de pressão internacional fica na sombra. Qual será o “credo integral” que o
IDO-C infiltra assim nos meios católicos?
Graças ao IDO-C, tornou-se possível a
infiltração da ideologia do “Catholic Establi- As informações de “Approaches” não
shment” em certas zonas da comunidade cató- fornecem maiores dados a respeito. Para se ter
lica que até então se haviam mostrado imper- uma resposta completa é preciso ler o artigo
meáveis a ele. de “Ecclesia” que “Catolicismo” reproduz
nesta mesma edição.
Foi também através do IDO-C que,
nos EUA, o “Catholic Establishment” conse- De qualquer modo, é incontestável a
guiu estabelecer relações diretas e quase insti- enorme importância das revelações de “Ap-
tucionais com o poderoso “Establishment” proaches”, que registramos para a análise de
todos os interessados.
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Resumo analítico do artigo de “Ecclesia”

Insubordinação, “desalienação”, fio de


meada dos mistérios “proféticos”

No artigo de apresentação deste núme- Nosso objetivo é mais circunscrito, e


ro (pág. X), está descrita a inter-relação do também de uma utilidade mais imediata. Pos-
IDO-C com os “grupos proféticos”. É fácil tos diante do crescimento tangível dos “gru-
ver que aquele e estes constituem, em seu pos proféticos”, de sua nocividade evidente,
conjunto, uma imensa máquina semi-secreta, da necessidade, pois, de lhes atalhar os pas-
enquistada na Igreja, para a realização do de- sos, perguntamo-nos qual o programa deles,
sígnio maléfico de A transformar no contrário se repousam sobre uma estrutura definida de
do que tem sido nestes dois mil anos de exis- direção e propaganda, como é essa estrutura,
tência. como atua, como vêem eles as transformações
pelas quais a Igreja passou recentemente e
Desejamos, agora, ajudar o leitor no continua a passar, quais as técnicas de recru-
estudo do artigo de “Ecclesia” sobre os tamento, formação e subversão usadas por tais
“grupos proféticos” (“Os pequenos grupos e grupos, e por fim, quais as suas relações com
a corrente profética” – reproduzido na pág. Y o comunismo.
desta edição) pondo em especial relevo os
aspectos dessa espécie de sociedades iniciá- É no artigo de “Ecclesia” que procura-
ticas, que nos parecem mais profundos e remos resposta a essas perguntas.
esclarecedores.
Neste comentário,
não visamos aprofundar
propriamente a doutrina
dos “grupos proféticos”, a
coerência interna das di-
versas teses que a inte-
gram, seus mestres, seus
precursores, suas afinida-
des ou distonias com outros
sistemas de pensamento.
Nem tampouco pre-
tendemos analisar as con-
dições culturais, políticas,
sociais, econômicas ou ou-
tras, que favorecem ou
contrariam a gênese e o de-
senvolvimento desses gru-
pos. Dominicanos vestindo batina efetuam uma manifestação de protesto diante do
DOPS, em São Paulo. O traje eclesiástico os protege contra a prisão. É a hora
em que a sacralidade é lembrada...
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 18

I . Desalienação: revolta contra to- O igualitarismo radical é a condição


da superioridade, toda desigualdade para que haja liberdade, e para que, cessadas
as explorações e as conseqüentes lutas de
O conceito-chave da doutrina dos classe, reine entre os homens a fraternidade.
“grupos proféticos” é, a nosso ver, a aliena-
ção. Assim, tomamo-la como ponto de partida Essa a criminosa quimera dos comu-
e como fio condutor desta exposição. O leitor nistas.
verá como, desta forma, a matéria se torna
límpida e acessível.
II . O supremo objetivo “profético”:
Alienus é um vocábulo latino que e- uma Igreja não alienante nem alienada
qüivale à palavra portuguesa “alheio”. Alie- Do que expõe o artigo de “Ecclesia”,
nado é o que não se pertence a si mesmo, mas deduzimos que os “grupos proféticos” dese-
a outrem. jam transformar a Igreja Católica, de alienan-
te e alienada que é, em uma Igreja-Nova,
Na perspectiva comunista, toda auto-
sem nenhuma forma de alienação.
ridade, toda superioridade social, econômica,
religiosa ou outra qualquer, de uma classe so- 1ª desalienação da Igreja: em rela-
bre outra, importa em uma alienação. Alie- ção a Deus
nante é a classe social que exerce a autorida-
de, ou possui a superioridade, seja através de a . A Igreja “constantiniana” (cuja era,
um Rei, um Chefe de Estado, um Papa, um segundo os “grupos proféticos”, começaria
Bispo, um Sacerdote, um General, um profes- com Constantino, o Imperador romano do sé-
sor, ou um patrão. Alienada é a classe que culo IV que livrou a Igreja das perseguições e
presta obediência à alienante. A classe aliena- A tirou das catacumbas, e se estenderia até
da, pelo próprio fato de estar sujeita a outra nossos dias) acredita em um Deus transcen-
classe em medida maior ou menor, nessa exa- dente, pessoal, dotado de inteligência e von-
ta medida não se pertence a si mesma, e está tade, perfeito, eterno, criador, regedor e juiz
alienada a essa outra. de todos os homens. Estes são infinitamente
inferiores a Deus, e Lhe devem toda sujeição.
Transposto o conceito de alienação pa- E, crendo em um tal Deus, os homens aceitam
ra as relações de pessoa a pessoa na esfera re- um Deus alienante. A Religião é pura aliena-
ligiosa, pode-se dizer que um Papa, um Bispo ção.
ou um Sacerdote, enquanto participa da classe
dirigente, que é o Clero, é alienante em rela- A Igreja-Nova não crê em um Deus a-
ção a um simples fiel, o qual é membro da lienante. O Deus da Igreja “constantiniana”
classe dirigida, isto é, do laicato. corresponde a um estágio já superado da evo-
lução do homem, o homem infantil e aliena-
Toda alienação é uma exploração do do. Hoje, o homem, tornado adulto pela evo-
alienado pelo alienante. E como toda explora- lução, não aceita um Deus do qual ele é, em
ção é odiosa, cumpre que a evolução da hu- última análise, um servo, e que o mantém na
manidade conduza à supressão de todas as a- dependência de seu poder paterno, ou antes,
lienações, e portanto de todas as autoridades e paternalista, como dizem pejorativamente os
desigualdades. Pois toda desigualdade cria de “grupos proféticos”. O homem adulto repele
algum modo uma autoridade. A fórmula mais toda alienação, e quer para si outra imagem de
conhecida e popular da total não alienação es- Deus: a de um Deus não transcendente a ele,
tá no lema da Revolução Francesa: “Liberda- mas imanente nele. Um Deus que é impesso-
de, Igualdade, Fraternidade”. A aplicação ab- al, que é como um elemento difusamente es-
solutamente radical desse lema importa na parso em toda a natureza, e portanto, também,
implantação de uma “anarquia” sem caos. A em cada homem. Numa palavra, um Deus que
ditadura do proletariado não é senão uma eta- não aliena.
pa para a realização do anarquismo.
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b . É porque não aceita essa nova figu- o profano. É uma Igreja dessacralizada. Daí
ra de Deus, e se obstina em manter a velha fi- múltiplas conseqüências:
gura do Deus pessoal, transcendente e alie-
nante, que a Igreja “constantiniana” gera o a- a . É óbvio, antes de tudo, que a Igre-
teísmo. Pois o homem adulto de hoje, não po- ja-Nova está toda posta na ordem natural. Sua
dendo aceitar essa imagem infantil da divin- missão salvífica, ela a exerce induzindo os fi-
dade, se afirma ateu. Se a Igreja lhe apresen- éis a se engajarem, a se comprometerem na
tasse um Deus atualizado, imanente e não ali- propulsão do bem-estar terreno.
enante, ele o aceitaria. E deixaria de ser ateu.
b . A noção da Igreja como Sociedade
c . É bem verdade que a afirmação de distinta do Estado e soberana na esfera espiri-
um Deus transcendente e alienante tem seu tual perde, pois, toda a sua razão de ser. A I-
fundamento em numerosas narrações dos Li- greja dessacralizada é, dentro da sociedade
vros Sagrados. Essas narrações, entretanto, temporal, um grupo privado como outro qual-
não são realidades históricas precisas. Elas quer, cuja missão é de estar na vanguarda das
são mitos elaborados pelo homem não adulto, forças que promovem a evolução da humani-
alienado e sequioso de alienação. Hoje, elas dade.
devem ser reinterpretadas segundo uma con-
cepção não alienante mas adulta. Ou até recu- c . A vida sacramental também muda
sadas. Com isto, se purifica a Religião de seus de conteúdo. Os Sacramentos têm um sentido
mitos. É o que se chama desmitificação. simbólico meramente natural. A Eucaristia,
por exemplo, é um ágape em que confraterni-
d . É, por exemplo, o que cumpre fazer zam irmãos em torno de uma mesma mesa. E
quanto à explicação da infeliz condição do por isto deve ser recebida como um alimento
homem, sujeito ao erro, à dor e à morte. O qualquer, no decurso de uma refeição comum.
remédio dessa situação não pode vir, para o
homem adulto, de uma Redenção operada pe- d . A condição sacerdotal não mais se
lo sacrifício do Deus transcendente encarna- deve considerar sagrada, já que a sacralidade
do, e completada pelos padecimentos dos fi- morre com a morte de todas as alienações.
éis. Tal remédio vem da evolução, da técnica
e do progresso. Na concepção do homem de- No modo de se apresentarem, de se
salienado, não há mais razão de ser para as trajarem e viverem, os Sacerdotes devem ser
mortificações, algum tanto masoquistas, que a como quaisquer leigos, já que a esfera do sa-
Igreja “constantiniana” promovia. A Igreja- grado, a que pertenciam, desapareceu, e eles
Nova convida a uma vida voltada inteiramen- se devem integrar sem reservas na esfera tem-
te para a felicidade terrena. A Redenção- poral. Analogamente se devem portar os Reli-
progresso não tem como objetivo levar os giosos, se ainda houver os três votos de obe-
homens para um céu extraterreno, mas trans- diência, pobreza e castidade na Igreja desalie-
formar a terra em um céu. nante e desalienada.

2ª desalienação da Igreja: em rela- e . Não há razão para que existam edi-


ção ao sobrenatural e ao sagrado fícios destinados só ao culto, já que morreu o
sobrenatural, o sagrado. Neste mundo evoluí-
A Religião Católica “constantiniana”, do, adulto, infenso às alienações, o culto do
coerente com sua doutrina sobre a transcen- Deus imanente e difuso na natureza pode ser
dência de Deus, admite o sobrenatural e com feito em qualquer local profano. Se houver
ele o sacral. Ora, o conceito de uma ordem edifícios destinados ao culto, sejam eles utili-
sobrenatural, superior à natural, de uma esfera zados também para fins profanos, de sorte a
religiosa e sagrada superior à esfera temporal, evitar a distinção alienante entre espiritual e
importa em evidentes desigualdades. Daí pro- temporal.
vem, ipso facto, múltiplas alienações. Na I-
greja-Nova, desalienante e desalienada, só se
admite como realidade o natural, o temporal,
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3ª desalienação da Igreja: em rela- valores da ordem temporal e terrena, e não


ção à Fé, à Moral, ao Magistério e à ação pretendendo mais a Igreja exercer qualquer
evangelizadora magistério nem moldar a si a sociedade tem-
poral, não se pode mais falar em cultura e ci-
a . A Igreja-Nova é uma Igreja pobre. vilização cristãs. A cultura e a civilização do
E isto, antes de tudo, no sentido espiritual da homem evoluído e adulto receberam sua carta
palavra. Uma das riquezas da Igreja “constan- de alforria: estão dessacralizadas e desaliena-
tiniana” está em dizer-Se Mestra infalível. A das da Religião.
Igreja-Nova não se pretende Mestra. Nem tra-
ta os fiéis como discípulos. Pois isto seria ali- e . Ainda mais, a Igreja-Nova é pobre
enante. no sentido material do termo. Ela não só re-
cusa as Catedrais e Basílicas, em que o sacral
Cada qual recebe carismas do Espírito estadeava triunfalisticamente a sua superio-
Santo, que lhe fala diretamente na alma. E é ridade, mas, existindo na era dos pobres, re-
nessa voz interior, da qual pode tomar cons- jeita qualquer riqueza, a qualquer título que
ciência, que cada um deve crer. seja.
Isto que é verdadeiro para as matérias f . Por fim, a Igreja-Nova é pobre por-
de fé, o é também para a moral. Cada qual que é a Igreja dos pobres. Inimiga de todas
tem a moral que lhe sugere sua consciência. as alienações, ela se sente adversa a todos os
alienantes, de qualquer tipo e ordem, e cona-
Em suma, o homem vive do testemu- tural com a causa de todos os alienados. Por
nho interior dos carismas, dos quais toma isto, os explorados e alienados da sociedade
consciência. A Igreja-Nova não possui, assim, atual têm na Igreja-Nova o seu lugar próprio.
um patrimônio de verdades, de que imagine E ela é por essência a defensora deles contra
ter o privilégio. E nisto está o principal aspec- os detentores de autoridade ou superioridade
to de sua pobreza. terrena. Por razões análogas em sentido inver-
so, a Igreja “constantiniana” está acumplicia-
b . Daí decorre também outra forma de da, por sua própria natureza, com todas as o-
pobreza. A Igreja-Nova não tem fronteiras. ligarquias alienantes e exploradoras.
Ela abriga os homens de qualquer crença,
desde que trabalhem ativamente para a verda- 4ª desalienação da Igreja: em rela-
deira Redenção, que é o progresso terreno. ção à Hierarquia Eclesiástica
Ela não é, pois, como um reino espiritual com
fronteiras doutrinárias definidas, mas algo de Uma vez que a autoridade é sempre a-
etéreo, de fluido, que se confunde mais ou lienante, é mister que não exista. E se existir,
menos com qualquer igreja. Em outros ter- será somente na medida em que faça a vonta-
mos, a Igreja-Nova é super-ecumênica. de dos alienados, que assim escapam – pelo
menos em larga medida – ao jugo da aliena-
c . Outro título de pobreza da Igreja- ção.
Nova é que, não sendo Mestra, e sendo super-
ecumênica, não precisa mais de obras de a- Na Igreja “constantiniana”, a Hierar-
postolado. Assim, as universidades católicas, quia está investida do tríplice poder de ordem,
as escolas católicas, as obras de assistência de magistério e de jurisdição. A Igreja-Nova,
católicas só conservam sua razão de ser sob esvaziando de conteúdo sobrenatural os Sa-
condição de não visarem qualquer fim apostó- cramentos, que estão sob o poder da Hierar-
lico, nem terem qualquer sujeição alienante e quia de ordem, negando o Magistério, tinha
antiecumênica à Igreja: em outros termos, se em rigor de lógica que atentar contra a Hie-
renunciarem à nota católica, e assumirem um rarquia de jurisdição.
caráter totalmente profano, secular e laico.
Assim, a existência de um Papa, Mo-
d . A pobreza da Igreja-Nova também narca espiritual rodeado do Colégio dos Prín-
está em que, sendo a cultura e a civilização cipes eclesiásticos, que são os Bispos – dos
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 21

quais cada qual é, na respectiva Diocese, co- Esta forma de desalienação já está in-
mo que um monarca sujeito ao Papa – não é cluída, a títulos diferentes, nos itens anterio-
compatível com a Igreja-Nova. Como tam- res. A Igreja “constantiniana”, que tem um
bém não podem subsistir os Párocos, que re- governo próprio e soberano em sua esfera, de-
gem, sob as ordens do Bispo, porções do re- seja a união e a colaboração com o Poder
banho diocesano. Temporal. Nisto, de algum modo Se alienaria
a ele, e de algum modo o alienaria a Si.
Cumpre, para desaliená-la inteiramen-
te da Hierarquia, democratizar a Igreja. É A Igreja-Nova, por todos os motivos
preciso constituir, nEla um órgão representa- expostos, declara não precisar do Poder Pú-
tivo dos fiéis que exprima o que os carismas blico, nem desejar com ele relações de Poder
dizem no íntimo da consciência destes. Órgão a Poder. A mútua alienação terá, deste modo,
eletivo, é claro, e que represente a multidão. cessado.
Órgão que faça pesar decisivamente sua von-
tade sobre os Hierarcas da Igreja, os quais, Em conclusão
também é claro, deverão, daqui por diante, ser
eletivos. Em nosso entender, em rigor de lógi- Assim em conclusão, a Igreja-Nova
ca, esta reforma da estrutura da Igreja pleitea- será inteiramente desalienada, e deixará intei-
da pelo “movimento profético” só pode ser ramente de ser alienante.
vista como uma etapa da realização cabal dos
objetivos dele. Pois a desalienação completa III – Só a luta de classes consegui-
envolveria, em estágio ulterior, a abolição de rá a desalienação dentro da Igreja
toda a Hierarquia.
1 . a Hierarquia ajudou a execução
Considerando, entretanto, tão somente do programa “profético” de desalienação;
a reforma que os “grupos proféticos” agora porém, não pode dar o passo final
explicitamente pleiteiam, podemos dizer que
ela transformaria a Igreja numa monarquia A desalienação total, pela qual a Igreja
como a da Inglaterra, isto é, um regime efeti- “constantiniana” Se deve metamorfosear em
vamente democrático, dirigido fundamental- Igreja-Nova, poderão os “grupos proféticos”
mente por uma Câmara popular eletiva, oni- esperá-la da Hierarquia?
potente, no qual se conserva pró-forma um
Tendo em vista que membros desta
Rei decorativo (no caso da Igreja-Nova, o Pa-
têm apoiado muitas medidas desalienantes,
pa), Lords sem poder efetivo (os Bispos e Pá-
dir-se-ia que sim. Tanto mais quanto os
rocos), e uma Câmara alta de aparato (o Colé-
gio Episcopal). E ainda, para que a analogia “grupos proféticos” afirmam que a obra do
entre o regime da Inglaterra e a Igreja-Nova Concílio Vaticano II teve um caráter desa-
fosse completa, seria preciso figurar um Rei e lienante, isto é, dessacralizante e igualitá-
Lords eletivos (isto é, Papa e Bispos eleitos rio, que representa um primeiro passo – se
pelo povo). bem que tímido – no caminho de mais radi-
cais transformações.
Para completar o quadro da democra-
tização, cumpre acrescentar que, na Igreja- Entretanto, sem desdenhar o proveito
que asseveram auferir da exploração de atitu-
Nova, as paróquias seriam grupos fluidos e
des de certos Hierarcas e das decisões do II
instáveis, e não circunscrições territoriais de-
Concílio Vaticano, os “grupos proféticos”
finidas como soem ser hoje. Esta fluidez, pen-
julgam que a desalienação completa só poderá
samos, também se estenderia, em rigor de ló-
vir de uma luta de classes entre o Episcopado
gica, às Dioceses. A Hierarquia já não seria
e o Clero de um lado, e os leigos de outro.
na Igreja senão um nome vão.
A razão disto, alegam eles, está em
5ª desalienação da Igreja: em rela-
que de um Hierarca simpático à desalienação
ção ao Poder Público
se podem esperar concessões que lhe reduzam
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 22

os poderes; mas, por mais simpático que seja, recrutar a Câmara popular dentro da Igreja-
não há como esperar dele uma renúncia com- Nova.
pleta, que eqüivaleria a um suicídio.
Quais são os meios de que dispõe o
2 . O meio para chegar à vitória da “movimento profético” para promover a sub-
revolução desalienante na Igreja: a insur- versão reformista na Igreja?
reição do laicato
1 . A extensão do “movimento profé-
Assim, cumpre conscientizar o laicato tico”
para que, em luta com os Hierarcas, exija as
reformas de estrutura na Igreja, que A de- Os “grupos proféticos” são em grande
mocratizem. Em suma, o remédio está na lu- número. Existem em muitos países. Eles cor-
ta de classes dentro da Igreja. respondem – pelo convívio íntimo que pro-
porcionam – a anseios de sociabilidade pro-
Essa luta deve ser feita por etapas: fundos, do homem contemporâneo perdido e
isolado no anonimato das grandes multidões.
a – campanha de descrédito contra a Por este e outros motivos, seu número tende a
Igreja “constantiniana”; multiplicar-se indefinidamente.
b – insuflação do desejo das reformas 2 . A estrutura secreta do “movi-
de estrutura da Igreja; mento profético”
c – agitações, greves; Essa estrutura é flexível e muito ade-
quada para promover a subversão na Igreja.
d – capitulação da Hierarquia e im-
plantação das reformas. Os “grupos proféticos” são verdadei-
ras células, de número variável de pessoas.
IV – Os “grupos proféticos”, artífi- Em todo caso, tal número nunca chega a ser
ces da luta de classes pela desalienação grande. Dessas pessoas, nem todas se põem
da Igreja ao corrente, com a mesma profundidade, dos
fins, dos métodos e das conexões do grupo.
Os novos carismas de cuja vida a Igre- Cada uma das células é assim uma minúscula
ja-Nova viverá, recebe-os hoje não mais a Hi- sociedade secreta.
erarquia, mas o povo fiel. Cabe pois à Hierar-
quia, como vimos, obedecer ao povo. Cada célula tem contato habitual com
outras do mesmo gênero, o que faz do movi-
A todo o povo? Este deve ser, se não mento uma imensa engrenagem de uma mirí-
governado, pelo menos iluminado e liderado ade de pequenas peças.
pelos grupos carismáticos e proféticos que o
Espírito suscita na Igreja para darem teste- A essa unidade funcional se soma ou-
munho. tra, mais preciosa: todas visam o mesmo fim,
ou seja, a luta de classes para impor na Igreja
O conjunto desses grupos formará, uma reforma desalienante.
pois, dentro da Igreja invertebrada com que
sonham, uma rede de influências à qual tocará Há que mencionar ainda a uniformi-
o verdadeiro poder. dade com que empregam, quer para o recru-
tamento, quer para a subversão, os mesmos
Isto aumenta o interesse do estudo so- métodos complicados e subtis. Destes méto-
bre a estrutura e os métodos dos “grupos pro- dos falaremos adiante.
féticos”, que adiante faremos.
Todos estes fatores fazem dos “grupos
É aliás entre os seus membros, repre- proféticos”, vistos em seu conjunto, um mo-
sentantes naturais do laicato, que se deverá vimento impressionantemente uno.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 23

Terão eles, como expressão dessa uni- Recrutado paulatinamente um número


dade, uma direção central suprema? O estudo maior de membros, começa a inoculação sub-
de “Ecclesia” não o diz explicitamente. Mas versiva.
os dados fornecidos pela revista tornam im-
possível não responder pela afirmativa. Pois Essa inoculação tem duas fases. Na
não se vê como conservar fiéis a uma doutrina primeira, procede-se à difamação gradual da
complexa, manter uniformes em sua estrutu- Igreja “constantiniana”. Na segunda, ateia-se
ração interna delicada, em seus métodos re- fogo aos espíritos, fazendo-os desejar as re-
quintadamente especializados, uma tal miría- formas que transformem a Igreja “constanti-
de de corpúsculos existentes em países diver- niana” em Igreja-Nova.
sos e distantes. Quanto maior a multiplicidade
e a variedade de um todo, tanto maior a ne- Esse trabalho começa lentamente, por
cessidade de um vínculo estrutural forte para pequenos sarcasmos lançados aqui e acolá,
o manter unido. Também em sua direção cen- por frases soltas, por slogans cuidadosos. Os
tral, os “grupos proféticos” são, pois, - con- membros que corresponderem favoravelmente
cluímos nós – uma organização clandestina. a esses estímulos subversivos irão sendo pro-
movidos ao conhecimento de maiores hori-
Por que modo essa direção central zontes revolucionários. Os outros serão postos
mantém efetivo e ignorado o seu poder sobre em estagnação, emudecidos ou alijados.
as células? As aparências, respondemos, fa-
zem pensar em um compromisso assumido V . Como os “grupos proféticos”
por elementos mais graduados que, eles sim, fazem a luta de classes na Igreja
seriam postos ao corrente da existência da di-
reção central. Formada assim uma rede suficiente-
mente ampla de “grupos proféticos”, o movi-
Qual o motivo de se manter isto em mento está apto para sair da sombra e entrar
mistério? A razão é simples. Os “grupos pro- estrepitosamente em ação. Está aos olhos de
féticos” se apresentam como fruto espontâneo todos como se faz uma agitação eclesiástica.
de uma chuva de carismas a animar um laica- Limitamo-nos a resumir o que todos vêem.
to que uma evolução profundamente natural, e
também espontânea, tornou adulto. Eles não Ajudados habitualmente por uma forte
podem, pois, tomar ares de um movimento publicidade, à qual tudo leva a crer que o
organizado por uma pequena cúpula, astuta e IDO-C não seja alheio, certos ativistas come-
eficiente. çam a promover greves de paroquianos contra
algum Bispo ou Padre que não aceite de pron-
3 . Os métodos de recrutamento e to reivindicações descabeladas. Se não são
formação; a iniciação “profética” greves, são passeatas, ocupação de igrejas,
manifestos pela imprensa, etc. Em suma sem-
Um “grupo profético” penetra, vive e pre uma luta de classes para levar o laicato a
se multiplica sempre em um ambiente ou ins- destruir as alienações de que o Clero seria o
tituição católica, como a bactéria penetra e beneficiário alienante e explorador.
vive no corpo. Ele nasce, em geral, da ação de
um ou alguns agitadores discretos, que fazem A publicidade que tais atos alcançam é
reuniões sobre temas simpáticos e muito ge- evidentemente de molde a atrair para a agita-
néricos, - a paz, por exemplo. Entre os ouvin- ção novos recrutas impressionáveis, ou dese-
tes dessas reuniões se recruta o primeiro pu- josos de aparecer. O movimento engrossa, e
nhado de adeptos. assim se torna apto a mais ousados atos de
subversão.
Para não despertar desconfianças, os
agitadores convidam, para uma ou outra reu- O conjunto destes fatos cria um clima
nião algum Sacerdote ou Bispo que – ingênuo de terrorismo publicitário contra os recalci-
ou cúmplice, supomos – aprove e abençoe. trantes, que isola deles amigos e até familiares
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 24

e desse modo reduz ao mutismo quase todos transformações e tumultos que caracterizam,
os que estariam dispostos a reagir. na ordem do pensamento e da ação, o chama-
do progressismo católico. E tal é a afinidade
Esse terror – nos lugares onde há dos “grupos proféticos” – como aliás também
“grupos proféticos” – é preparado com longa do IDO-C – com o progressismo, que nossos
antecedência por estatísticas e inquéritos soci- leitores se terão perguntado a todo momento
ais tendenciosos, elaborados e divulgados pe- qual a relação entre este e aqueles.
los “grupos proféticos”. Estes conseguem, as-
sim, fazer crer que a imensa massa dos fiéis A pergunta é das mais procedentes,
deseja as reformas na Igreja, que tal é o espí- pois não há um só traço característico do pro-
rito irrefragável dos tempos, e que opor-se às gressismo que não esteja explícita ou implíci-
reformas é o mesmo que querer deter com as ta, próxima ou remotamente relacionado com
mãos a maré montante. Os sintomas, reais ou os “grupos proféticos”.
forjados, das tendências revolucionárias das
multidões são os “sinais dos tempos”. Cap- A ação do progressismo é tão ampla, e
tam-nos com perspicácia especial os que pos- tão variada a gama de seus matizes – que vão
suem “carismas proféticos”. Graças ao alarido desde o “moderado” e “conservador” até o re-
dos “grupos proféticos”, a subversão eclesiás- volucionário comunista – que nos parece exa-
tica, obra de uma minoria, parece correspon- gerado atribuir ao “movimento profético” e ao
der assim aos anseios mal contidos de multi- IDO-C a causalidade da corrente progressista
dões inteiras enfurecidas por se julgarem alie- em todo o mundo. É certo, entretanto, que as
nadas. “minorias proféticas” merecem ser qualifica-
das de progressistas.
O espírito da época, percebido “profe-
ticamente” nos “sinais dos tempos”, é a nor- Esta observação alerta o espírito para
ma suprema, ensinam os “grupos proféticos”. outro problema. Se, ao contrário do que à
Não há maior loucura do que tentar resistir- primeira vista se pode supor, o “movimento
lhe: é ser anacrônico, ridículo, desprezível. A profético” tem sua causa em uma organização
Igreja “constantiniana” tinha a pretensão de semiclandestina definidamente estruturada,
modelar os tempos: a Igreja-Nova sabe que, também não haverá uma entidade mais vasta,
pelo contrário, deve deixar-se modelar por e- que seja a causadora do progressismo em toda
les. a Igreja? A resposta a esta importante pergun-
ta transborda dos limites do presente comen-
Assim, ou a Igreja aceita as reformas tário.
impostas pela evolução e Se transforma em
Igreja-Nova, ou morre. VII – Os “grupos proféticos” estão
a serviço do comunismo
A esta pressão, feita no interior mes-
mo da Igreja, em tantos países, pela boca de Pelo que até aqui ficou exposto, con-
todos os membros dos “grupos proféticos” e sideramos que é gravemente de se suspeitar
pelas grandes tubas publicitárias do IDO-C, é que os “grupos proféticos” estejam a serviço
dificílimo resistir. do comunismo. Para tal, basta ponderar que:

A resistência só é possível a espíritos a – os “grupos proféticos” são afins


muito seletos, de uma firmeza de princípios com o comunismo;
inabalável, dispostos a arcar com os maiores
dissabores. E os mais inesperados. b – eles são úteis ao comunismo;

c – como os adeptos deste soem criar e


VI – Relações entre o “movimento
dirigir movimentos afins que atuam em pro-
profético” e o progressismo
veito da causa comunista, é sumamente pro-
O público brasileiro já conhece de so- vável que os “grupos proféticos” tenham sido
bejo o conjunto de aspirações, doutrinas,
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 25

criados pelos comunistas e sejam por estes di- Também em face dos aspectos sociais
rigidos; e econômicos do marxismo, a atitude da Igre-
ja-Nova difere da posição tradicional da Igre-
d – é tática marxista habitual infiltrar- ja “constantiniana”. Com efeito, esta última –
se nos grupos afins para os pôr a serviço da com base no 7º. e 10º. Mandamentos – conde-
causa comunista; nestas condições, mesmo no na o regime social e econômico comunista
caso de os “grupos proféticos” não terem sido como imoral, e afirma a legitimidade da pro-
criados pelos comunistas, é pelo menos alta- priedade individual, do capitalismo e do sala-
mente provável que sejam dirigidos por estes, riado, de sorte que, ainda se um regime ver-
para a infiltração vermelha na Igreja; melho reconhecesse à Igreja existência legal e
liberdade de culto, Ela seria irredutivelmente
e – fatos expressivos adiante indicados anticomunista. Pelo contrário, a Igreja-Nova,
corroboram fortemente estas suspeitas. infensa a todas as alienações, só tem motivos
para ver com bons olhos a supressão de situa-
Detenhamo-nos um pouco no assunto. ções patrimoniais e relações de trabalho que o
comunismo tacha de alienantes.
As afinidades entre os objetivos dos
“grupos proféticos” e os do comunismo são Assim, a vitória da Igreja-Nova te-
evidentes: os primeiros visam desalienar, e ria como conseqüência fatal a transforma-
portanto dessacralizar e tornar rigorosamente ção da Religião Católica – também em ma-
igualitária a Sociedade espiritual, que é a I- téria social – de força irredutivelmente
greja, e incitam os católicos em favor das de- contrária ao comunismo, em força auxiliar
salienações na sociedade temporal; o comu- ou até propulsora deste.
nismo visa desalienar e tornar rigorosamente
igualitária a mesma sociedade temporal. Po- Qual o alcance concreto dessa eventu-
de-se dizer, assim, que os “grupos proféticos” al transformação?
fazem a revolução comunista dentro da Igreja.
Há no mundo cerca de 500 milhões de
Que vantagem tem nisto o comunis- católicos; transformá-los de inimigos inflexí-
mo? A Igreja-Nova, resultante da ação do veis em auxiliares ou militantes do comunis-
“movimento profético”, não crê num Deus mo, que estupenda conquista seria para este!
pessoal, mas num Deus difuso e impessoal,
que é imanente e onipresente na natureza. Ela O que o comunismo até aqui não con-
crê na evolução, no progresso e na técnica seguiu, e jamais conseguiria pelas persegui-
como as grandes forças inelutáveis que ani- ções mais atrozes, ele o alcançaria, sem ne-
mam o movimento universal, remedeiam a nhuma violência e nenhum risco de suscitar
desdita do homem e dão rumo à História. perigosas reações, pela simples metamorfose
Num lance de olhos é fácil ver que essa dou- incruenta da Igreja Católica em Igreja-Nova.
trina importa em afirmar a divinização da
evolução, do progresso e da técnica. O que é Diante desta perspectiva, as graves
extraordinariamente parecido, se não idêntico, suspeitas que, baseados no estudo de “Ec-
com o conceito evolucionista e materialista de clesia”, levantamos inicialmente sobre a
Marx. A Igreja-Nova não tem, para se opor ao posição do movimento comunista perante o
comunismo, os mesmos motivos religiosos “movimento profético”, mudam de colori-
invencíveis que tem levado a Igreja “constan- do. Elas se transformam em certeza moral.
tiniana” a Se opor a este como a seu pior ad- Quem conheça a suma habilidade do comu-
versário. Pelo contrário, a teologia da Igreja- nismo internacional em infiltrar e neutralizar
Nova prepara os espíritos a aderir a ele. as forças adversárias, e em apoiar todos os
movimentos subversivos favoráveis, não pode
Em outros termos, à medida que faz admitir que os dirigentes comunistas estejam
adeptos, a Igreja-Nova forma simpatizan- indiferentes, inertes e alheios em face do êxito
tes do comunismo, ou até comunistas mili- tático incomparável que lhes poderá advir da
tantes. infiltração dos “grupos proféticos” entre os
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 26

500 milhões de católicos, da neutralização VIII – Viabilidade do plano comu-


desta força imensa, e até de seu aproveita- nista acerca da Igreja-Nova
mento em favor da causa marxista.
Uma última pergunta, de alcance es-
Ninguém de bom senso pode admitir tratégico, ainda resta por formular. Os “gru-
que, favorecendo em tão grande escala o co- pos proféticos” e seus comparsas marxistas
munismo, a Igreja-Nova, por sua vez, não seja esperam seriamente conseguir a metamorfose
por ele largamente ajudada. Dado in concreto de toda a Igreja “constantiniana” em Igreja-
o proselitismo sanhudo e a incontável cópia Nova? O estudo de “Ecclesia” nos fornece,
de recursos do comunismo, tem plena aplica- sobre este ponto, alguns dados que servem de
ção nesta temática o raciocínio: pôde, quis, matéria para conjecturas.
logo fez (“potuit plane; si igitur voluit, fecit”).
Apliquemo-lo aos fatos: A despeito de inculcar seu programa
reformista como um imperativo dos tempos,
- os comunistas podem ajudar de ditado pelo clamor indignado de imensas mul-
mil modos o triunfo da Igreja- tidões de alienados em revolta, os líderes do
Nova, e nesta só encontram pre- “movimento profético” confessam que, im-
disposição para aceitar este auxí- postas integralmente na Igreja suas reformas,
lio; estas acarretarão tantas dispersões e apostasi-
- ora, é claro que os comunistas que- as, que a Igreja-Nova ficará reduzida prova-
rem ardentemente tal triunfo; velmente a um pequeno número de fiéis.
- logo, eles favorecem potentemente
Isto posto, pergunta-se, que lucro teria
o “movimento profético”, artífice
o comunismo em tal caso?
da Igreja-Nova. E se o favorecem
tão largamente, é claro que tem to- Imaginemos verificadas as esperanças
dos os meios para nele se infiltrar dos reformadores. Alguns tantos Hierarcas e
e o dirigir. Sacerdotes cúmplices, e outros tantos débeis e
No estudo de “Ecclesia” há mais de atemorizados, iriam cedendo a pressões, sem-
um dado concreto que fala em favor desta pre mais violentas, dos “grupos proféticos”. A
conclusão. onda reformista ir-se-ia avolumando ameaça-
doramente. A heresia se iria tornando então
Um deles é que os “grupos proféticos” mais patente. A reação legítima dos fiéis tam-
aconselham os seus membros a recusar qual- bém cresceria. E, à medida que crescesse,
quer cooperação com os regimes não comu- começariam os atos persecutórios dos maus
nistas, por considerá-los alienantes. Porém re- pastores contra estes: censuras de cá, exco-
comendam que colaborem com os regimes munhões de lá, interditos de acolá. Um fosso
comunistas, pois os consideram desalienantes. se abriria entre ambos os lados. Ninguém sabe
que proporções alarmantes a crise poderia ga-
Outro fato, noticiado no tópico final nhar em tal caso. Basta pensar na heresia ari-
de “Ecclesia” que deixamos para publicar no ana do século IV, que conquistou quase toda a
próximo número, é que os “grupos proféticos” Cristandade. Naquela conjuntura, que confu-
alcançaram bom desenvolvimento na Alema- sões terríveis, que provações tremendas a
nha Oriental, o que jamais seria possível sem Providência permitiu para castigo dos ho-
o agrado das autoridades comunistas. mens.
Não seria demais lembrar as afinida- Confusão também estarrecedora ocor-
des do IDO-C com o movimento comunista. reu sob o pontificado de Honório I. Os teólo-
Sendo o IDO-C também afim com os “grupos gos afirmam que esse Papa, por suas omissões
proféticos”, decorre igualmente daí uma afi- e sua ambigüidade, favoreceu a heresia mono-
nidade entre estes e o movimento comunista. telita. Como é sabido, escreveu ele uma carta
Pois duas entidades afins, sob o mesmo título, ao Patriarca Sérgio, de Constantinopla, vaza-
com uma terceira, são afins entre si. da em termos tais, que veio a ser condenada
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 27

pelo VI Concílio Ecumênico, aprovado pelo


Papa São Leão II. A confusão criada por esta
carta foi tamanha, que até hoje grande número
de teólogos ainda considera obscuro o pro-
blema.

Será suficiente que os comunistas a-


bram qualquer compêndio de História Eclesi-
ástica, para verem que desgraças dessas são
possíveis. Em conseqüência, está na lógica
das coisas que tentem tudo para as reproduzir
em nossos dias.

É o que por certo eles visam com os


“grupos proféticos”, e isso ainda mesmo que
estes não consigam reunir em torno de si se-
não poucos católicos, ou antes, “ex-
católicos”. Que imenso lucro teria o comu-
nismo se esta hipotética revivescência do pas-
sado se transformasse em realidade...

Claro está que, mesmo em tal caso, o


Espírito Santo velaria pela integridade do de-
pósito da Fé. A infalibilidade papal jamais
deixaria de existir. A Igreja imortal não mor-
reria, e em sua constituição divina haveria
remédio para tão calamitosa situação2.

Peçamos à Providência que poupe isto


à Esposa de Cristo. Mas ainda que Ela permi-
tisse esta prova, a Igreja acabaria por triunfar.
Assiste-A a promessa divina, e A reconfortam
as palavras de Nossa Senhora de Fátima: “Por
fim meu Imaculado Coração triunfará!”.

2
Sobre essas complexas matérias, é interessante estudar, por exemplo: Papa Adriano II
(All. 3 Conc. VIII act. 7); Papa Inocêncio III (sermo IV in cons. Pont.); S. Antonino (S.
Th., III, 23-24); S. Roberto Bellarmino (De R. Pont. 2, 30; 4, 6 ss.); Suárez (De Fide, X, 6;
De Leg., IV, 7); S. Afonso (Th. Mor., I, nn. 121-135); Bouix (Tr. De Papa, II, p. 635-673);
Wernz-Vidal (I. Can, II, pp. 517 ss.); Card. Billot (De Eccl. Chr. Pp. 609 ss.); Vermeersh-
Creusen (Ep. J. Can., I, n. 340); Card. Journet (L’Egl. Du Verbe Inc., I, pp. 625 ss.; II, pp.
821, 1063 ss.). Ver também Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, artigos “Qual a autorid.
doutr. dos Doc. Pont. e concil.?” , “Não só a heresia pode ser condenada pela Autorid. E-
cl.”, “Atos, gestos, atitudes e omissões podem caracterizar o herege”, “Respondendo a ob-
jeções de um imaginário leitor progressista”, em “Catolicismo” , n.os 202, 203, 204 e 206,
de out., nov. e dez. 1967 e fev. 1968.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 28

O texto de “Approaches”

Dossier a respeito do IDO-C

Este “Dossier a respeito do IDO-C” foi publicado pelo boletim britânico “Approaches”,
em seu número 10-11, de janeiro de 1968, pp. 30-95. Reproduzido em vários outros órgãos ca-
tólicos da Europa e da América, o “Centro de Información y Orientación”, de Madrid, o editou
em forma de folheto (Editorial CIO, S/A, “Colección Documentos para la Historia”, no. 3, Madrid,
1968).

A tradução que apresentamos aos nossos leitores foi feita a partir da versão espanhola
da Editora CIO; tendo recebido à última hora o original inglês, procedemos a uma rápida revi-
são do nosso texto, emendando as imprecisões que assim pudemos encontrar.

Suprimimos alguns tópicos que não se referem diretamente ao IDO-C e nos pareceram
de menor interesse para o público brasileiro; essa supressão é indicada por reticências entre
colchetes [...]. Inserimos uma ou outra palavra no texto, para maior clareza; esses acréscimos
aparecem sempre entre colchetes [ ]. Compusemos em negrito as passagens ou expressões
que se nos afigurou oportuno destacar. As notas de rodapé são de “Approaches”, como tam-
bém o são quase todos os subtítulos, sendo os outros da CIO.

Segundo o costume inglês, “Approaches” chama os eclesiásticos simplesmente de “re-


verendo”. Aos que verificamos serem católicos, demos o título de Pe., Mons., etc.

suntos da Igreja e com os meios de comuni-


I . Que é o IDO-C? cação social.
Segundo uma circular intitulada “Que Entre seus assinantes encontram-se
é o IDO-C?, publicada pela Secção Adminis- Bispos, dirigentes de comissões diocesanas
trativa do próprio IDO-C no Reino-Unido, (liturgia, reforma do Direito Canônico, rela-
ções entre o Clero e o laicato, etc.), professo-
“IDO-C é um grupo internacional,
res de Teologia, de Sagrada Escritura, de Di-
com quartel-general em Roma e com uma
reito Canônico, de Sociologia, de Psicologia,
crescente rede de ramificações que abarcam
de História da Igreja, etc., e estudantes adi-
o mundo inteiro. Independente de qualquer
antados de seminários católicos, protestantes
instituição religiosa ou estatal, é uma organi-
e judeus, diretores de publicações católicas,
zação sem fito de lucro, submetida às leis ita-
protestantes e judaicas, e encarregados das
lianas, aberta a toda classe de pessoas e com
secções religiosas de grandes jornais e revis-
dirigentes eleitos democraticamente.
tas de informação geral”.
Sua função específica consiste em co-
Um boletim similar, editado em fran-
ligir e distribuir documentação acerca dos e-
cês, informa o seguinte:
feitos estruturais e teológicos da continuada
aplicação dos decretos e do espírito do Con- “IDO-C (Centro Internacional de In-
cílio Vaticano II. Esta documentação não é formação e Documentação relativa à Igreja
apresentada em nível popular (como a apre- Conciliar) procura continuar a nova comuni-
sentaria um jornal ou uma agência de notí- cação “horizontal”, posta a lume pelo Concí-
cias), mas ao nível indicado para os especia- lio, entre Bispos e teólogos, entre diferentes
listas nas ciências relacionadas com os as- povos e continentes, entre católicos e outros
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cristãos, e entre a Igreja institucional e a o- adotou o título de DO-C, incluía especialistas


pinião pública, pondo assim em contato as em informação religiosa não holandeses.
opiniões e as idéias de todos os membros do
Povo de Deus. Por aquela mesma época, e com o fito
de promover entre jornalistas progressistas
Para garantir esta comunicação, o um intercâmbio de informações referentes ao
IDO-C estabeleceu um comitê composto por Concílio, fundou-se o CCCC (Centro di Co-
120 teólogos, membros de institutos de pes- ordinazione delle Communicazione sul Con-
quisa e correspondentes religiosos, perten- cilio).
centes a cerca de trinta países. Ele deve parte
do que é atualmente a dois dos centros mais Ao encerrar-se o Concílio, o trabalho
importantes estabelecidos durante o Vaticano deste escritório de imprensa terminou, já que
II: o CCCC (Centro de Coordenação das havia sido concebido como uma organização
Comunicações sobre o Concílio), que atendia temporária. Não obstante, e com o fim de
à imprensa, e DO-C (Centro Holandês de manter as relações que haviam sido estabele-
Documentação, que fornecia documentação cidas durante o Concílio, os correspondentes
sobretudo aos Bispos e teólogos) e continua a religiosos que o compunham uniram-se à a-
tarefa deles”. gência holandesa, e assim nasceu, em dezem-
bro de 1965, o IDO-C.
O boletim em língua francesa informa-
nos igualmente que “o Comitê Internacional Seus principais animadores foram o
do IDO-C está representado por um Comitê Pe. Leo Alting von Geusau, Sacerdote ho-
Executivo cujos membros são as seguintes landês residente em Roma, e o Pe. Rafael
pessoas: Prof. R. Van Kets, O.P. (presidente, van Kets, professor do Angelicum, em Roma.
Bélgica-Roma/ Dr. L.G.M. Alting von Geu- O primeiro, secretário-geral do IDO-C, fez,
sau (secretário-geral), Holanda-Roma/ Dr. G. imediatamente antes da fundação, uma visita
Bigazzi (administrador), Roma / Dr. B. Tonna aos Estados Unidos, com a presumível inten-
(conselheiro), SEDOS-FERES, Malta-Roma / ção de obter suficientes recursos para lançar o
Prof. Alberigo “Centro di Documentazione”, novo empreendimento. O secretário-geral pa-
Bolonha, Itália / J. Álvarez Icaza, “Movimen- rece ser também o “missionário”-chefe do
to Familiar”, México ; J. P. Dubois-Dumée, IDO-C, pois, segundo o boletim publicitário
“Informations Catholiques Internationales”, da Secção Administrativa do Reino-Unido,
França / Dr. R. Lynch, S.J., Rádio Vaticana, “percorreu recentemente a América Latina e
EUA-Roma / Prof. J. Mejia, “Criterio”, Bue- organizou centros no México, Colômbia, Chi-
nos Aires / N. Middleton, “Sheed and Ward”, le, Uruguai e Brasil, com os quais esperamos
Londres / Dr. A. Montero, “Ecclesia”, Espa- iniciar em breve uma distribuição em larga
nha / Donald Quinn, “St. Louis Review”, Sa- escala na América Latina. Centros similares
int Louis, EUA / Mlle. Ch. De Schryver, DIA, funcionam já nos Estados Unidos, França,
África-Bélgica / Dr. J. Seeber, “Herder Kor- Holanda, Espanha e Irlanda. A documenta-
respondez”, Alemanha / Dr. J. Turowicz, ção é distribuída atualmente em inglês, fran-
“Znak”, Cracóvia, Polônia. cês, italiano, alemão e espanhol. Desejaría-
mos acrescentar, pelo menos, o português, o
árabe, o hindi, o chinês e o japonês, com o in-
II . História do IDO-C
tuito de alcançar as principais culturas do
Ainda que breve, a história do IDO-C mundo. Ainda que o seu conteúdo se refira
é sumamente interessante. Em dezembro de principalmente a atualização da Igreja Cató-
1963 surgiu um centro de informação para os lica, cada vez mais e mais se orienta em um
Bispos holandeses, que publicava boletins em sentido ecumênico, pois, como os problemas
holandês. Pouco depois, e como conseqüência de nossos dias não mais ficam circunscritos a
da procura de outros grupos, o centro come- uma ou outra Igreja, nosso serviço não se
çou a divulgar boletins de informação em destina exclusivamente aos católicos”.
francês, inglês, alemão, espanhol e italiano.
Este centro de informação, que desde o início
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A Secção Administrativa do IDO-C do reço é o da prestigiosa editora “Burns and


Reino-Unido é recente. Isto não quer dizer Oates”, que não somente edita a publicação
que até agora não tenha ele tido influência so- oficial “Catholic Directory”, mas se jacta do
bre a imprensa britânica. Já desde dezembro título de “Editores da Santa Sé”. Este título de
de 1966 “The Tablet” reconhecia o IDO-C “Editores da Santa Sé” foi-lhe arrebatado há
como fonte de informação. Do material de pouco mais de um ano pela editora interna-
procedência desconhecida, que aparece nas cional progressista Herder e Herder, que es-
publicações britânicas, é, naturalmente, im- tá representada no Comitê Executivo Interna-
possível saber quanto vem do IDO-C. Sabe- cional do IDO-C pelo Dr. J. Seeber, da Ale-
mos, não obstante, que o Comitê Internacio- manha, e no Comitê Internacional para o De-
nal para o Desenvolvimento da Informação senvolvimento da Documentação e Informa-
e Documentação Religiosa, que pertence ao ção Religiosa pelo mesmo Dr. Seeber e ainda
IDO-C, incluiu desde o início representantes pelo Prof. N. Greitemann, de Viena (e agora
seus nos periódicos “Guardian” (Manchester), também por Paul Burns, de “Burns and Oa-
“The Tablet”, “The Month” e “Slant”, assim tes”), com o que Herder e Herder tem nada
como nas editoras “Burns and Oates” e “She- menos do que quatro votos nestes dois comi-
ed and Ward”, cujo diretor-gerente de então, tês internacionais chaves do IDO-C.
Neil Middleton (associado também ativa-
mente a “Slant”), era membro do primeiro III – O IDO-C no Reino Unido
Comitê Executivo Internacional do IDO-C.
1 . Seu estado-maior
Ainda que o IDO-C tenha sido em
seus primórdios inspirado largamente pelos O pessoal dirigente da Secção do IDO-
teólogos e intelectuais holandeses de van- C no Reino-Unido é o seguinte: Pe. Laurence
guarda, expandiu-se desde então, para trans- Bright, O.P., presidente (do corpo redatorial
formar-se efetivamente no progressista Centro de “Slant”) / Paul Burns (de “Burns and Oa-
de Documentação e Informação do “Interna- tes”, isto é, de Herder e Herder) / Mrs. Pauli-
tional Catholic Establishment”. Como assi- ne Clough (dirigente do grupo “Slant”, Sou-
nala o boletim de propaganda da Secção Ad- thampton) / Adrian Cunningham, do corpo
ministrativa do Reino-Unido do IDO-C. redatorial de “Slant” / Jack Dunman (do Par-
tido Comunista da Grã-Bretanha, dirigente
“Por causa das circunstâncias históri- especialista em ecumenismo) / Pe. John Fos-
cas de sua fundação (fusão do centro DO-C ter / Pe. Nicholas Lash / Dra. Monica Lawlor
holandês com o CCCC), O IDO-C foi de iní- (secretária honorária da “Newman Associati-
cio considerado principalmente como um cen- on”) / rev. Paul Oestreicher (igreja anglicana)
tro holandês. De fato, havia de começo uma / Martin Redfern (diretor de redação de “S-
justificativa para isso, tanto por causa do lant”) / Anthony Spencer (“Newman Associa-
pessoal e dos contatos havidos, quanto por- tion”) / rev. John Weller (não católico) / Theo
que a Igreja da Holanda se mostrava particu- Westow / Hugh Wilcox / Austin Winckley.
larmente ativa para responder às iniciativas
do Vaticano II. Hoje, no entanto, o IDO-C 2 . Papel de “Slant”
pode afirmar sua real internacionalidade,
tanto por sua composição, como por seus ob- Antes de passarmos a considerar ou-
jetivos. Dos 36 membros de seu escritório in- tros aspectos da composição “realmente inter-
ternacional de redação, apenas cinco são ho- nacional” do IDO-C, façamos notar, de pas-
landeses. Das quinze pessoas que trabalham sagem, que além de estar representado no
habitualmente no escritório de Roma, sete Comitê Executivo Internacional do IDO-C pe-
são italianos, dois espanhóis; um brasileiro; lo seu diretor e distribuidor (Neil Middleton),
um inglês; dois holandeses; um australiano; e “Slant” faz-se representar na Secção do IDO-
um belga”. C do Reino-Unido pelo seu diretor de redação
(Martin Redfern), por dois membros de seu
Na verdade, o IDO-C está solidamente quadro redatorial (o Pe. Laurence Bright e
implantado no Reino-Unido, onde seu ende- Adrian Cunningham) e por um de seus mais
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ativos dirigentes (Mrs. Pauline Clough). En- Isto será negado calorosamente, sem
tretanto, ainda mais signficativo, como vere- dúvida, pelos “slantistas”, que provavelmente
mos, é o fato de que o presidente da Secção se dirão a si mesmos (e quiçá acreditem nisso)
do IDO-C do Reino-Unido não é outro que o que eles se submetem à experiência de Dun-
Padre Laurence Bright, O.P. man apenas em assuntos de organização e tá-
tica. Mas poderiam Dunman e o Partido Co-
Para bem apreciar o significado da munista britânico desejar mais do que isso?
grande influência de “Slant” na Secção do
IDO-C no Reino-Unido (quatro membros em Para que não se pense que Dunman
quinze), é necessário relacioná-la com os se- não é um comunista tão importante como o
guintes fatos: apresentamos, convém oferecer um rápído es-
boço de sua carreira dentro do Partido. Este
1 . que na conferência de Edimburgo, resumo revelará, fora de qualquer dúvida, que
a 26 de novembro de 1966, Terry Eagleton ele é algo mais do que um soldado raso, um
admitiu que “Slant” estava nas melhores rela- intelectual comum, que foi parar no IDO-C à
ções com a agência de polícia secreta polone- falta de algo melhor para fazer.
sa “Pax”;
Dunman foi um dos organizadores do
2 . que em qualquer comissão de um Partido Comunista inglês já em 1939. Dez
organismo de “fachada”, um núcleo-chave anos mais tarde encontramo-lo candidato co-
compacto de quatro pessoas é mais do que su- munista por Berkshire, para voltar a sê-lo em
ficiente para, em um conjunto de quinze, con- 1950, desta vez por Abingdon; dois anos de-
seguir com toda a segurança manter na linha pois representa novamente a mesma agremia-
os demais. ção como candidato por Harwell. Tudo isto é,
contudo, puramente acidental em relação ao
Isto seria verdade mesmo se Jack trabalho regular de Dunman para o Partido,
Dunman não fosse igualmente membro do pois em 1950 passou a secretário da Comis-
grupo. No entanto, como ele o é, a “fração” são Agrícola deste, e desde então é considera-
“Slant” pode, dentro da Secção do IDO-C no do o dirigente comunista perito no setor agrí-
Reino-Unido, contar com ele não apenas co- cola. É também o diretor do “Country Stan-
mo um voto a mais, mas também para se be- dard”, órgão do Partido Comunista para ques-
neficiar de sua considerável experiência neste tões agrícolas. Um aspecto de seu trabalho
gênero de trabalhos, com o que aumenta i- neste terreno é o interesse que tem dedicado,
mensamente a influência efetiva de “Slant” no desde há muitos anos, aos assuntos da União
seio do IDO-C. Nacional de Trabalhadores do Campo. O
“Daily Worker” de 10 de janeiro de 1948 in-
Em conseqüência, a presença de formava que ele era, naquela época, membro
Dunman nesse grupo não deve ser estimada da Comissão do Condado de Berkshire da ci-
ou avaliada simplesmente em função da cir- tada União Nacional.
cunstância de que ela significa que nada me-
nos de um terço do pessoal dirigente do IDO- Como sua especialidade é inapreciável
C é declaradamente comunista ou é “católi- para o Partido, pertenceu também à Comissão
co”-marxista. Seu significado autêntico só Executiva Nacional e em 1965 dirigiu o Con-
pode ser completamente apreciado quando se gresso Nacional do Partido Comunista para
tem diante dos olhos o que quer dizer o fato problemas agrícolas (com particular referên-
de que a “fração” marxista da Secção do IDO- cia aos despejos de arrendatários e às proprie-
C no Reino-Unido, composta de cinco pesso- dades rurais não cultivadas). E, naturalmente,
as, é orientada por um dos “cadres” dirigentes é ainda diretor de “The Country Standard”,
do Partido Comunista da Grã-Bretanha. que – diga-se de passagem – é anunciado em
“Slant”.
3 . Quem é Dunman?
Ultimamente, contudo, Dunman deu
mostras de uma versatilidade tardia e se con-
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verteu em especialista no diálogo com os cris- bém um ardente teilhardista e, como tal, diri-
tãos. E assim encontramo-lo como membro da giu em 1967 a conferência da Associação Tei-
equipe comunista de quinze “ecumenistas” lhar de Chardin. A julgar pela notícia de seu
que recentemente dialogaram com uma curio- discurso publicada em “The Tablet”, parece
sa mistura de cristãos3, sob os auspícios de ter ele aproveitado a ocasião para manifestar
“Marxism Today” (órgão do Partido Comu- publicamente sua calorosa admiração por
nista) e do departamento internacional do Martin Luther King e pelo ultra-progressista
Conselho Britânico de Igrejas, cujo secretá- Jesuíta Daniel Berrigan, cujo extremismo o
rio-adjunto, o rev. Paul Oestreicher, é tam- levou a sofrer sanções temporárias até na lati-
bém, curiosamente, dirigente da Secção do tudinária América do Norte de nossos dias.
IDO-C no Reino-Unido. Em conseqüência, parece sumamente impro-
vável que o rev. Paul Oestreicher deseje seri-
É verdade que Dunman é classificado amente fazer frente ao estilo da “fração” mar-
tão somente como membro da equipe “ecu- xista e guiada pelo comunismo, da equipe do
mênica” comunistas. Este auto-eclipsar-se de IDO-C no Reino-Unido.
sua parte não nos deve desnortear. O fato de
que ele seja o único dirigente comunista co- Restam-nos nove. Dois deles, pelo
nhecido como membro de um suposto orga- menos, são conhecidos como pertencentes ao
nismo “católico” (o IDO-C), e diretor do úni- que, no caraterístico vezo inglês de subesti-
co órgão comunista que publica anúncios em mar as coisas, poderia ser considerado como
“Slant”, basta para nos indicar que ele é agora bem à esquerda do centro. São eles: Anthony
a figura-chave nas atividades “ecumênicas” Spencer e a Dra. Monica Lawlor.
empreendidas pelo Partido. Em suma, Dun-
man se apresentaria como a réplica, deste lado Foi a Dra. Monica Lawlor quem, co-
do Canal, do celebrado e talentoso Roger Ga- mo secretária da “Newman Association”,
raudy. montou a defesa do Pe. Herbert McCabe,
O.P., quando este foi justificadamente depos-
4 . Outros dirigentes do IDO-C bri- to de seu cargo como editor da revista “New
tânico Blackfriars” (a qual ele admitiu – na confe-
rência de Edimburgo, acima mencionada –
O que consta a respeito dos outros dez que, como “Slant”, estava nas melhores rela-
membros da equipe britânica do IDO-C? ções com a agência de polícia secreta polone-
sa “Pax”.
Como já vimos, o rev. Paul Oestrei-
cher é especialista em organizar, de modo pe- Esta ação defensiva complementava
culiar, agradáveis diálogos com o Partido uma petição dirigida a Roma (sob o patrocí-
Comunista. Ele o faz graças à sua condição de nio, entre outros, de Anthony Spencer) duran-
secretário internacional adjunto do Conselho te a celebração de uma “sessão de doutrinação
Britânico de Igrejas, com responsabilidade interna” [“Teache-in”] (na qual um dos prin-
especial no que diz respeito às relações Leste- cipais oradores foi o mesmo Anthony Spen-
Oeste e ao diálogo da igreja anglicana com o cer) – precedida por uma “oração interna”
comunismo. Parece considerar também de seu [“Pray-in”] – a favor dos que, como Charles
dever manter relações íntimas com o grupo Davis e o Pe. McCabe, haviam sido “perse-
“Slant”, pois encontramo-lo como orador guido” pela Autoridade Eclesiástica. Poder-
(juntamente com o Dominicano “slantista” se-ia considerar mais caridosamente essa “o-
Pe. Boxer) na conferência anual do Grupo ração interna” se os “newmanistas” que a or-
(“Slant”) em Spode House em 1966. É tam- ganizaram tivessem mostrado pelo menos i-
gual indignação para com a perseguição real
de nossos irmãos em Cristo atrás das cortinas
3
Pode-se ter uma idéia da espécie de “defesa” da posição cristã que terá sido apresentada
de ferro e de bambu. Nem se pode alegar em
nesse “diálogo” se se levar em conta que a equipe cristã incluía dois elementos-chave do
quadro redatorial de “Slant” (Neil Middleton e Adrian Cunningham, já citados como mem-
favor da Dra. Monica Lawlor que, como se-
bros do IDO-C do Reino-Unido), além de duas outras figuras da equipe inglesa do IDO-C
(Theo Westow e o rev. Oestricher) e o Dr. Oliver Pratt, um dos que patrocinaram a petição
cretária da “Newman Association”, tenha sido
em favor do Pe. Herbert MaCabe. Exceção feita destes, nenhum dos restantes leigos católi-
cos era até então conhecido.
arrastada a lançar essa campanha, pois é ela
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co-autora de “O Caso McCabe”, livro recen- de fazer com que seus passageiros se sintam
temente publicado (desnecessário dizer que felizes).
por “Sheed and Ward”), obviamente com o
propósito de faze-lo servir de testemunho Portanto, não há exagero em dizer que
permanente da “injustiça” eclesiástica na Grã- a Secção do IDO-C do Reino-Unido é to-
Bretanha pós-consiliar. talmente composta de progressistas e que o
grupo é controlado internamente por uma
Sobram sete. Destes, o Rev. John “fração” marxista que atua sob a direção
Weller não parece ser católico, pois é certo de um dos líderes mais experimentados do
que não existe nenhum Sacerdote com esse PC da Grã-Bretanha.
nome no “Catholic Directory” de 1967.
Nada disto impede o IDO-C de se jac-
Ficamos assim com seis. Apenas dois tar – em um boletim em nosso poder – de ser
quintos do IDO-C do Reino-Unido. Destes, “um centro a serviço da Igreja”.
não se sabe quantos serão passageiros de dis-
tinção que, provavelmente, não seriam capa- IV . O IDO-C na França
zes de fazer balançar a nave do IDO-C. Nesta
categoria entra quase com certeza Paul 1 . I.C.I. e o IDO-C
Burns, de “Burns and Oates” (ou melhor, de
Herder e Herder). Uma vez que cederam ao A lista do Comitê Executivo Interna-
IDO-C o prestigioso endereço de “Editores da cional do IDO-C inclui J.P. Dubois-Dumée
Santa Sé”, têm os Srs. Herder e Herder claros como representante de “Informations Catho-
títulos para fazer jus à representação. E como liques Internationales”. Contudo, Dubois-
Burns é empregado deles, pode-se presumi- Dumée é muito mais do que um mero repre-
velmente confiar nele como eco fiel dos pon- sentante de I.C.I.; é ele figura-chave no pro-
tos de vista de seus patrões. gressista “Catholic Establishment” francês.
Representa este uma potência digna de nota.
Dos cinco restantes, é possível que al- Através do completo domínio que exerce so-
guns não passem de uns “joões-ninguém” do bre as diversas publicações “católicas” que
campo progressista, que hajam sido chamados controla direta ou indiretamente, tem sido ca-
a colaborar precisamente porque ninguém sa- paz de reduzir ao completo silêncio qualquer
be nada a seu respeito4.(2) oposição a seus desígnios, não só nos diferen-
tes setores de Ação Católica, mas até dentro
Não obstante seu anonimato, aqui está, das igrejas, nas quais só por exceção se en-
em falta de melhor, o que sabemos a respeito contra à venda algum periódico que seja irre-
deles: o próprio fato de que o Pe. Laurence dutivelmente leal ao ao Magistériio. Jornais
Bright, O.P., seja o presidente do grupo nos como “L’Homme Nouveau”, “France Catho-
autoriza a deduzir que nenhum deles se mos- lique” e “Itinéraires” estão colocados no “In-
tra excessivamente oposto ao ponto de vista dez Librorum Prohibitorum” do “Establish-
da “fração marxista”. Porque é completamen- ment”, enquanto que órgão dele como “In-
te impensável que esta última, que tem à sua formations Catholiques Internationales” e
disposição o “savoir faire” político de um dos “Témoignage Chrétien” parecem ter o “im-
dirigentes do Partido Comunista da Grã- primatur” oficial.
Bretanha, tivesse sido tão tola a ponto de fa-
zer presidente o Pe. Bright se ocorresse a me- O “Catholic Establishment” francês
nor possibilidade de sua designação ser ina- não depende apenas de sua influência sobre as
ceitável para qualquer dos outros (pois não há publicações que controla diretamente. Graças
nada que o Partido ignore quanto à maneira às suas ligações com o “Establishment” laico
(maçônico e comunista) – que, nem é neces-
sário dizê-lo, nunca foi por ele combatido ati-
4
Obtivemos, depois, alguns dados sobre dois deles: Theo Westow e o Pe. Nicholas Lash. vamente – seu ponto de vista está espelhado
Este último parece ter sido o autor da introdução a um livro progressista do primeiro, cuja
resenha foi feita no “Tablet” de 11 de novembro pelo progressista Pe. Henry St. John, O.P.. fielmente em “Le Monde” (por Henri Fes-
Mais recentemente ainda, o Pe. Lash fez a resenha de “A Question of Conscience”, de
Charles Davis, em “The Universe” (17 de novembro de 1967), dizendo entre outras coisas: quete), em “Le Figaro” (pelo Pe. Lauren-
“... lucidez e candura... Charles Davis nos teria feito a todos, seus devedores”.
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tin), e até em “L’Humanité” (órgão do Parti- sacrifício de pelo menos 20 libras, assim co-
do Comunista francês). mo de três dias de férias, com o fim de mani-
festar sua fidelidade à doutrina social do Ma-
2 . A ação do IDO-C na imprensa gistério Romano. Se um congresso semelhan-
francesa te houvesse sido organizado por “Informati-
ons Catholiques Internationales”, “Témoigna-
Do mesmo modo que “The Guardian” ge Chrétien” ou IDO-C, para dar testemunho
veio a ser o voluntário porta-voz da opinião da determinação progressista de desafiar o
de “Slant” – “Newman” quando do caso Mc- Magistério Pontifício, teria recebido a mais
Cabe na Inglaterra, assim a imprensa leiga generosa publicidade, não somente em “Le
francesa (e até, ai!, mais vezes sim do que Monde” e “Le Figaro”, mas também em “La
não, “La Croix”) tende a amplificar a voz do Croix”, e quiçá com algum editorial sobre o
progressismo católico, ao mesmo tempo que assunto. E dado que Roger Garaudy, o teori-
silencia a oposição, leal ao Magistério. E isto zante líder do Partido Comunista francês, teria
apesar do fato de que os católicos leais ao estado presente com toda a certeza (pois ra-
Magistério da Santa Igreja na França contem- ramente está ausente de qualquer reunião re-
porânea são capazes de organizar reuniões e almente importante dos católicos progressis-
congressos que atraem público maior do que o tas, onde quer que se realize, hoje em dia),
que a esquerda, com todo o poder da imprensa pode-se estar seguro de que um congresso
à sua disposição, consegue atrair. progressista que tivesse o porte do de Lausan-
ne teria recebido uma publicidade igualmente
Estes atos, entretanto, não são notícia. generosa em “L’Humanité”.
Notícias são, por definição, os acontecimentos
que vão ao encontro do desejo dos poderes Na realidade, porém, o Congresso de
ocultos que controlam a “mass media”. No Lausanne não teve praticamente publicidade
mundo real, a sombra não é senão a prova da alguma na imprensa francesa. Uma vez que os
existência de uma substância, cuja verdadeira congressistas eram católicos leais a Roma, fo-
natureza ela pode alterar além de toda medi- ram automaticamente transformados em não-
da; mas no mundo do “faz-de-conta” da notí- pessoas e o Congresso em não-acontecimento.
cia impressa e da televisão, onde não se vêem
senão as sombras, e onde as sombras podem O poder de que os modernos meios de
ser livremente manipuladas de acordo com a comunicação dispõem para condicionar open-
fantasia e o capricho do autor, as realidades samento humano nunca se manifesta melhor
de carne e osso ficam quase invariavelmente do que quando aqueles que os controlam de-
transformadas em caricaturas. Enquanto no cidem que não haja comunicação. Em compa-
mundo real dizemos que não há fumaça sem ração com o lápis vermelho do diretor, a vari-
fogo, sabemos muito bem que é perfeitamente nha mágica era um instrumento absurdamente
possível haver fogo sem fumaça. No mundo rudimentar. A grande importância do desen-
dos jornais diários e das telas de televisão, po- volvimento tecnológico dos meios de comu-
rém, os homens foram cuidadosamente condi- nicação só pode ser bem entendida quando se
cionados para acreditar somente no que vêem verifica que hoje é possível, não fazendo sim-
e no que ouvem. Em suma, a menos que apa- plesmente nada, formular um conjuro que
reça na televisão ou nas manchetes dos jor- deixe sem existência realidades de carne e os-
nais, nada aconteceu. so. Considerado nesta perspectiva, o existen-
cialismo oferece pontos de vista não sonhados
Exemplo de como isso funciona na sequer pela nova Teologia, com exceção, tal-
prática temos na maneira como foi tratado o vez, daqueles de seus expoentes que já te-
Congresso de Lausanne, de 1967, organizado nham decretado que a transubstanciação so-
pelo Ofício Internacional de Associações para mente pode ter sentido para o homem moder-
a Educação Cívica e a Ação Cultural segundo no quando apresentada como uma ficção de
os Princípios Cristãos e a Lei Natural. Reuni- sua própria imaginação.
ram-se nele umas 2200 pessoas, na maioria
jovens, cada uma das quais teve que fazer o
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 35

Uma vez que já vimos a imprensa ca- tintos: representante plenipotenciário do “Es-
tólica de língua inglesa dominada quase com- tablishment” católico francês do IDO-C, e re-
pletamente pelo progressismo em ambos os presentante plenipotenciário do IDO-C na
lados do Atlântico, e a maneira como a im- França (este papel é simbolizado pelo fato de
prensa católica progressista é amplificada mi- que o primitivo endereço do IDO-C na França
lhões e milhões de vezes pelos meios leigos foi “a/c Informations Catholiques Internatio-
de comunicação de massas, fica fácil para nós nales”). So recentemente se decidiu (em bene-
entender o que se passa de semelhante na fício, sem dúvida, das aparências do IDO-C)
França. Antes, porém, do Vaticano II a situa- nomear o Sr. Galviati para atuar como repre-
ção naquele país teria parecido incompreen- sentante do IDO-C na França, dando-lhe po-
sível para os católicos ingleses e norte- deres (segundo palavras da I.C.I.) para “asse-
americanos. Acreditariam eles, então, estar gurar a ligação entre Roma e o público fran-
vivendo em um mundo totalmente diferente cês”, a partir de seu escritório à Rua Anatole
do de nossos correligionários franceses. E France, 23, 92 – Chaville.
verdadeiramente assim era. Pois mesmo no
tempo de Pio XII existia já na França – como 3. O IDO-C e o movimento “Pax” da
hoje existe quase no mundo inteiro – o mes- polícia comunista
mo estado de coisas que prevalece atualmente
na Inglaterra e, em grau ainda mais acentua- Não há exagero, portanto, em identifi-
do, nos Estados Unidos. car a ideologia do IDO-C francês com a de
“Informations Catholiques Internationales”,
Em meados da década de 1950 era ou, inversamente, dizer que o IDO-C vem a
quase impossível para um católico inglês ou ser a expressão internacional dos pontos de
norte-americano comum dar crédito inteiro às vista de I.C.I. E o sejam esta publicação e
revelações de Jean Madiran (em “Ils ne savent seus pontos de vista, pode-se deduzir e extrair
pas ce qu’ils font” e “Ils ne savent pas de do Documento “Pax”, que foi enviado pela
qu’ils disent”), relativas às ramificações da Secretaria de Estado do Vaticano ao Secreta-
conspiração progressista na França. Teria pa- riado do Episcopado Francês, e que este dis-
recido para eles que o pobre homem estava tribuiu a todos os Bispos e Superiores Religi-
tendo um pesadelo. A verdade é, infelizmente, osos Maiores da França (acompanhado de
que estava apenas descrevendo um pesadelo. uma carta datada de 6 de junho de 1963).
A verdade é que o que ele estava descrevendo Nesse documento se apresenta com as seguin-
em um informe objetivo sobre a França, era tes palavras a influência que tem na França a
simplesmente o pesadelo da subversão pro- agência de polícia secreta polonesa “Pax”:
gressista, que depois se tornou universal.
“Os agentes de Pax estão na França
Isso nos leva novamente a J.-P. Du- em permanente contato com determinados
bois-Dumée, porque ele foi um dos autores grupos católicos “progressistas”, que se u-
principais do pesadelo progressista tão bem nem para defendê-los sempre que suspeitam
retratado por Jean Madiran. ou acreditam que algo os ameaça. Pax con-
duziu-se, sobretudo, de modo a implantar em
Como já fizemos notar, o papel de determinados círculos católicos franceses a
Dubois-Dumée no Comitê Executivo Interna- crença de que sofre perseguição por parte do
cional do IDO-C é representar “Informations Cardeal Wyszynski e do Episcopado Polonês
Catholiques Internationales”. Mas ele ali está por causa das tendências “progressistas” que
igualmente em representação do totalmente tem.
progressista “Catholic Establishment” da
França, incluindo o Apostolado Leigo Fran- Esta atitude manifestou-se de modo
cês, do qual foi um dos principais oradores no surpreendente quando uma série de artigos
III Congresso Mundial do Apostolado Leigo sobre a posição da Igreja na Polônia apare-
(cujos “carrefours” dirigiu). Como membro ceu em “La Croix” em fevereiro de 1962. O
do Comitê Executivo Internacional do IDO-C, Revmo. Pe. Wenger, redator-chefe, foi refuta-
Dubois-Dumée tem, portanto, dois papéis dis- do imediatamente por Sacerdotes e leigos que
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 36

negaram veementemente o conteúdo de tais policial encarregada da penetração na Igreja


artigos, baseando-se em suas viagens ou ex- e da sujeição desta, perderia seus seguidores
cursões à Polônia. e, se isso ocorresse, perderia sua justificativa
aos olhos dos que o sustentam economica-
Procediam estas reclamações, na mente.
maior parte de amigos de Pax. Pertencentes
ao círculo de “Informations Catholiques In- “Não é aos comunistas que tememos –
ternationales” (I.C.I.). disse um Bispo polonês. Quem nos enche de
angústia são os falsos irmãos” [...]
Dizendo que o Cardeal Wyszynski ha-
via confirmado a exatidão dos fatos relatados
V . O IDO-C na Polônia
nos artigos de “La Croix”, e não se atreven-
do a atacá-lo direta e abertamente, de Brouc- Examinado o papel da subversão co-
ker, redator-chefe de I.C.I. revelou seus sen- munista desenvolvida na França por intermé-
timentos em uma de suas “Cartas aos amigos dio de “Informations Catholiques Internatio-
de I.C.I.”, que foi distribuída tão só no círcu- nales”, que dá cobertura ao IDO-C diante do
lo íntimo de seus seguidores e na qual diz ha- público francês, convém investigar “Znak”,
ver-se inteirado de que o Cardeal Wyszynski agente principal do IDO-C na Polônia.
deveria, durante o Concílio, prestar contas de
sua atuação aos Cardeais da Igreja Romana, Cumpre esclarecer, primeiramente,
“seus juizes e seus pares”. que “Znak” não se apresenta, ao contrário de
“Pax”, como uma agência de polícia. E isto é
Quando os artigos de “La Croix” es- tudo o que se pode dizer em seu favor, porque
tavam a ponto de serem publicados em forma seu aspecto é muito semelhante ao de “Slant”,
de livro, o censor eclesiástico de Paris fez sa- o qual, como “Informations Catholiques In-
ber ao autor que, “não tendo encontrado er- ternationales”, prefere considerar “Pax” (em
ros doutrinários no texto, não podia recusar o que pese a autorizada opinião do Primaz da
imprimatur, mas esperava que o autor teria a Polônia, de que se trata de uma agência da po-
coragem (palavras textuais) de suprimir o lícia secreta) como a expressão legítima da
capítulo concernente a Pax”. opinião católica progressista. Das muitas in-
vestigações que levamos a cabo se depreen-
Uma vez publicado, esse livro (Pierre dem, acerca de “Znak”, os seguintes fatos:
Lenert, “L’Eglise Catholique en Pologne”)
foi objeto de uma feroz campanha por parte 1 – “Znak” é um “círculo” ligado à
de Pax e de seus amigos franceses. Frente da Unidade Nacional, dominada pe-
los comunistas.
É curioso que Pax, em seus boletins,
expressa surpresa por haver sido concedido o 2 – “Znak” aceita a estrutura eco-
imprimatur a esse trabalho. nômica marxista de Estado.

Nem um só fato foi desmentido. Pax Em outras palavras, “Znak” rejeita ca-
admitiu que o livro de Lenert havia “circula- tegoricamente a doutrina social do Magistério
do” durante a primeira sessão do Concílio, da Santa Igreja.
mas esqueceu-se de dizer que os Bispos polo-
neses, consultados sobre o assunto, tinham 3 – “Znak” aceita também o apoio
sido unânimes em reconhecer a exatidão dos geral da Polônia à política exterior da Rús-
fatos descritos. É óbvio que Pax teia ver-se sia.
desmascarado na França.
E como a política exterior russa não é
Sim, sua própria existência está com- mais nem menos do que um instrumento da
prometida. Se Pax fosse reconhecido, e uma influência subversiva de Moscou pelo mundo
vez por todas, pelos católicos do Ocidente, inteiro, é de se presumir que “Znak” aceita
como nada mais do que uma agência da rede igualmente isso.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 37

4 – “Znak” opõe-se ao Cardeal etc.) estão oficialmente proibidas de enviar


Wysynski, a quem acusa de “intransigência seus filhos ao catecismo, sob pena de demis-
política”. [...] são;

5 – “Znak” parece considerar o ma- g) Todos os anos, os acampamentos


terialismo do regime de Gomulka como de férias reúnem milhares de crianças às
puramente “nominal”. quais, sob mil pretextos, se impede a assis-
tência à Missa aos domingos. Em alguns ca-
Este inestimável eufemismo faz com sos foram encerradas atrás de uma cerca de
que mesmo a linguagem dúplice pareça deli- arame farpado durante a celebração da Mis-
ciosamente não ambígua. sa paroquial;

Até que ponto é “nominal” o materia- k) Nenhum Sacerdote tem direito de


lismo do Estado polonês, pode-se ver através entrar, sob nenhum pretexto, dentro dos limi-
dos seguintes excertos de uma Carta Pastoral tes desses acampamentos de férias;
Coletiva do Episcopado Polonês, de 21 de
março de 1963: l) As crianças que conseguem escapar
para ir à Missa são castigadas;
“a) Desde o princípio de 1963 houve
uma multiplicação constante das disposições, m) Os jovens que saem em excursão
legais visando o ensino religioso; com algum Padre são vigiados pela policia –
freqüentemente em helicópteros – com o in-
b) O Escritório de Assuntos Religiosos tuito de verificar se, escondidos no bosque ou
proíbe os Sacerdotes filiados a Ordens Reli- na montanha, assistem à Missa. Os estudan-
giosas, mesmo que pertençam a uma paró- tes apanhados em “flagrante delito” são a-
quia ou sejam Párocos, as Religiosas e até miúde privados do direito de continuar seus
muitos catequistas leigos, de ensinarem o ca- estudos”.
tecismo;
Se os exemplos anteriores são prova
c) A instrução religiosa está proibida do “materialismo nominal” que professa o
nas casas particulares, nos alões paroquiais, governo de Gomulka, livre-nos Deus do que
nas capelas e até em determinadas igrejas; chegaria a suceder se ele tomasse o materia-
lismo a sério.
d) Alguns inspetores da Educação Pú-
blica exigem dos Sacerdotes das paróquias 6 – “Znak” não considera que o ma-
relatórios pormenorizados sobre a instrução terialismo do regime de Gomulka seja “o
religiosa que se dá em suas igrejas, e multi- inimigo real da Fé”.
plicam as inspeções;
Em certo sentido – por exemplo: no
e) Os Sacerdotes das paróquias que se sentido de que o sangue dos mártires é a se-
negam a fornecer estes relatórios são punidos mente da Igreja; no sentido de que a persegui-
com multas esmagadoras, que podem chegar ção tende a confirmar, mais do que debilitar, a
até a dez mil zlotys, ou mais. Os que não po- fé dos perseguidos – a frase anterior é, de fa-
dem pagar estas somas exorbitantes são ame- to, indubitavelmente verdadeira [...]
açados com prisão ou seqüestro de bens, e
amiúde sofrem efetivamente essas punições; Nesse sentido, nem Nero, por um lado,
nem Stalin, Hitler e Mao Tsé-tung, de outro,
f) Faz-se uso de toda espécie de inti- poderiam ser descritos como “inimigos reais
midação, verdadeiras ameaças, para evitar da Fé”, apear da determinação selvagem com
que as crianças acorram ao catecismo. Os que se aplicaram a suprimi-la.
pais cujos filhos não querem ceder são víti-
mas de duras sanções. Algumas categorias Mas se a Igreja é perseguida com bes-
sociais (funcionários civis, agentes a UB, tial selvageria – como é o caso dos tiranos que
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 38

acabamos de mencionar – ou mais subtilmen- desfiguram”. Se necessário, fazer-se mais ca-


te, mas de maneira não menos implacável, pe- tólico do que o Papa.
los Gomulkas deste mundo (ou pelos polidos,
sofisticados, altamente cultivados humanitá- Trabalhando insistente e astutamente,
rios que constituem a “British Humanist As- formar bolsões de “descontentes” nas fileiras
sociation”), nenhum cristão digno desse nome eclesiásticas, até levá-los, passo a passo, a
se colocará jamais do lado do perseguidor. “um clima favorável à luta de classes”. [...].

É verdade que, em época de persegui- Resumindo, os fatos essenciais são


ção, não são os perseguidores do momento os seguintes:
que constituem “o real inimigo da Fé”. O no-
me de “real inimigo da Fé” cabe à infidelida- 1 – “Znak” é a voz da Polônia no seio
de católica. Segundo palavras do Bispo polo- do IDO-C;
nês recolhidas pelo Cardeal Wyszynski no
Documento “Pax”, “não são os comunistas 2 – “Znak” é uma organização de
que nos fazem medo: quem nos enche de an- companheiros de viagem comparável às inspi-
gústia são os falsos irmãos”. [...] radas por “Slant” e por “Informations Catho-
liques Internationales”.
7 – Diz-se que “Znak” conta com o
apoio de muitos Sacerdotes, que é tolerado Em conseqüência, tudo quanto sabe-
pela maioria dos Bispos e alentado por al- mos dos amigos poloneses do IDO-C corro-
guns. bora a impressão obtida ao estudá-lo na Grã-
Bretanha e na França.
[...] Embora [na realidade, segundo
quanta informação pudemos obter,] “Znak” VI . O IDO-C no Canadá e nos Esta-
não tenha conseguidopersuadir senão um ou dos Unidos
dois Bispos e um punhado de Padres a toma-
Ter-se-á podido observar que os dois
rem o partido dele contra o Cardeal Wyszyns-
membros norte-americanos do Comitê Execu-
ki, nem por isso se deve considerá-lo menos
tivo Internacional do IDO-C são o Pe. Ed-
perigoso potencialmente. Porque, como o Do-
ward Lynch, da Rádio Vaticana, e o repre-
cumento “Pax” deixa bem claro, a técnica de
sentante da “Saint Louis Review”, Donald
subversão comunista na Igreja da Polônia atua
Quinn, que foi descrito nos Estados Unidos
conforme as seguintes diretrizes:
como o polêmico ex-redator do ainda mais
“A técnica consiste em atuar como um polêmico “Oklahoma Courier”. Isto, no entan-
solvente, formando células de desunião entre to, não faz justiça ao papel dos Estados Uni-
os fiéis, mas especialmente nas fileiras dos dos no IDO-C nem, reciprocamente, ao papel
Sacerdotes e Religiosos. do IDO-C nos Estados Unidos. Um quadro
muito mais real (embora ainda incompleto)
Cindir os Bispos em dois blocos: os oferecem-nos os nomes dos americanos dos
“integristas” e os “progressistas”. Estados Unidos e do Canadá que são mem-
bros do Comitê Internacional para o De-
Alinhar os Sacerdotes contra seus senvolvimento da Documentação e Infor-
Bispos, mediante um sem número de pretex- mação Religiosa, do IDO-C. estas pessoas-
tos. chave, que totalizam nada menos que 21 entre
jornalistas, teólogos e representantes de diver-
Cravar uma cunha subtil nas massas sas organizações, bastam para difundir dire-
por meio de distinções habilmente urdidas en- tamente as notícias do IDO-C e seus pontos
tre “reacionários” e “progressistas”. de vista, em publicações de tanta influência
no mundo leigo como o “New Uork Times”,
Nunca atacar a Igreja diretamente, a revista “Time” e o “Chicago Sunday Ti-
mas apenas, “para seu próprio bem”, atacar mes”, assim como em diários “católicos” tais
“suas formas antiquadas” e “os abusos que a como o “Long Island Catholic”, o “National
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 39

Catholic Reporter” e a “St. Louis Review”, Mas não foi simplesmente o dinamis-
e também na influente editora “Paulista mo e a experiência norte-americana (pode-se
Press”, em centros de informação como a supor que também os dólares) que levaram o
“Catholic Press Union”, a NCWC, o “Nati- Dr. McEoin a Roma. Sua presença ali confir-
onal Catholic Communications Centre”, de ma a importância crescente do papel que o
Toronto, e dois outros centros similaresde Ot- “American Catholique Establishment” de-
tawa e Montreal, na “Religious News-writers sempenha agora no “International Catholic
Association”, e por último, mas de modo al- Establishment”. Antes de nos aprofundarmos
gum de menor importância, na Rádio Vati- nesse ponto, é necessário deixar claramente
cana e na Rádio Canadá. exposto o significado do termo “Catholic
Establishment” e pedir escusas por haver a-
Isto, entretanto, não foi senão a orga- plicado tal denominação à conspiração pro-
nização inicial. Mais tarde o IDO-C-America gressista, em outro lugar deste trabalho, sem
(como se chama a si mesmo) abriu um centro antes haver explicado nem a origem do termo
de promoção e distribuição em Nova York nem seu significado preciso.
(endereço: Box 265, Baldwin, NY) que forne-
ce regularmente documentação e informações É preciso, primeiramente, deixar bem
às chancelarias, centros de informação religi- assentado que o termo não é nosso. “The Ca-
osa e empresas editoriais, por todo o subcon- tholic Establishment” é como a conspira-
tinente. ção progressista norte-amercana se chama
a si mesma.
Além de organizar-se perfeitamente
nos Estados Unidos, o IDO-C-America deu O termo “Establishment” tem sido
também os passos necessários, para colocar o empregado desde há longo tempo como sinô-
“know-how” e o dinamismo norte-americano nimo de camarilha influente que impões sua
à disposição do centro do IDO-C, em Roma. ideologia, suas formas e, sobretudo, sua von-
Assim, depois de estabelecer o IDO-C- tade, a uma sociedade determinada. Assim,
America em bases firmes, o antigo colunista por exemplo, enquanto o antigo “British Es-
do “Pittsburgh Catholic”, Dr. Gary McEoin, tablishment” representava uma expressão pro-
foi para Roma a fim de ocupar o posto de di- testante de ambições maçônicas, o novo “Bri-
retor-executivo do escritório central do IDO- tish Establishment”, que dá forma a todas as
C, e de reorganizá-lo, segundo fazia constar instituições e partidos políticos do Reino-
um boletim do IDO-C-America, “em prepara- Unido, é uma expressão, em termos de huma-
ção para o Sínodo dos Bispos”. nismo laico e progressista, do ecumenismo
maçônico do século XX (de maneira seme-
À vista do modo eficaz com que foi lhante o novo “American Establishment” in-
violada a reserva do Sínodo e difundidos seus forma a “american way of life”).
segredos (depois de previamente distorcidos)
antes de que ele mesmo fosse apresentado ao Se até o momento não era costume fa-
público e remanejado pelos dóceis “mestres lar de um “Catholic Establishment”, isto se
em Teologia” do IDO-C, não se pode dizer, devia à excelente razão de que até há relati-
certamente, que a “preparação” do Dr. McEo- vamente pouco tempo, apesar de a moral ca-
in tenha deixado algo a desejar. Isto não signi- tólica vir sendo condicionada consideravel-
fica, contudo, que ele tenha desalojado de seu mente pela influência do mundo exterior, no
posto o primitivo chefe do IDO-C, o Pe. Leo seio da comunidade católica como tal não ha-
Alting von Geusau, que continua como secre- via concorrente para a influência da Hierar-
tário-geral. Agora que o Dr. McEoin retirou quia Eclesiástica (que era o único “Catholic
dos ombros do Pe. Leo um trabalho “adminis- Establishment”, o único “grupo de influên-
trativo” tão delicado (como, por exemplo, dar cia”, concebível pelos fiéis) e não tinha senti-
cabo de tarefas tais como a do Sínodo), o in- do inventar algo que representasse uma alter-
fatigável secretário-geral poderá, sem dúvida, nativa em face da Igreja institucional.
dedicar uma parte maior de seu tempo a suas
atividades missionárias.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 40

Antes do Vaticano II, a única exceção ram-se antes de estabelecer sua influência do
notável a esta regra era a França, onde a Igre- que de vangloriar-se dela. E embora seja certo
ja se encontrava há quase um século em esta- que o “Catholic Establishment” dos Estados
do de guerra civil latente, mas mesmo ali – Unidos tem muito de que se orgulhar, também
até que a influência progressista começasse de o é que o fértil cérebro francês continua sendo
fato a constituir um “Establishment” rival da a verdadeira mola intelectual do “Establish-
Hierarquia Eclesiástica – o termo “Establish- ment” internacional católico [...]. Por todas
ment” foi empregado apenas por aqueles que estas razões devemos ser gratos ao IDO-C dos
buscavam com esta designação indicar que tal Estados Unidos pela sua tolice infantil de des-
desenvolvimento representava de fato o apa- cobrir abertamente não só seus objetivos, mas
recimento de uma “Hierarquia paralela” e era, também sua maneira de atuar, e até seus per-
em conseqüência, totalmente intolerável. sonagens-chefe, permitindo que não nos en-
ganemos a respeito das pretensões norte-
Foi somente nos Estados Unidos – e americanas. [...].
mesmo ali, muito recentemente: em dezembro
de 1966, para sermos mais exatos – que a
VII . Anatomia do “Catholic Esta-
conspiração progressista se intitulou descara-
blishment”
damente a si mesma “The Catholic Establi-
shment”. Isso posto, voltemos ao exame do
“Catholic Establishment” dos Estados Unidos
Não há medida mais assustadora das e vejamos o que ele diz de si mesmo.
dimensões da crise no seio da Igreja em nos-
sos dias, do que o reconhecimento, às escân- É característico que ele nunca discute
caras, de algo que, até ontem, teria parecido explicitamente o Magistério da Igreja. Para
um estado de coisas incrível: a afirmação ex- liquidar a influência efetiva deste, prefere
plícita, pela conspiração progressista, de am- simplesmente ignora-lo, determinando por si
bições que, anteriormente, tinham sido ao mesmo o que a Igreja e os fiéis devem pensar
menos negadas calorosamente, mesmo pelos e fazer.
mais subversivos liberais, sempre que se a-
firmava terem eles tais pretensões. Entretanto, Como diz John Leo – jactando-se
como veremos, o que se auto-intitula “Catho- descaradamente, não apenas da existência do
lic Establishment” nos Estados Unidos jacta- “Catholic Establishment”, mas também de seu
se abertamente de que quem governa hoje em poder, em famoso artigo intitulado “The Ca-
dia o pensamento da comunidade católica é tholic Establishment” (“The Critic”, dezem-
ele mais que o Magistério Eclesiástico. bro de 1966-janeiro de 1967): “O “Establish-
ment” é que decide o que os católicos devem
Precisamente porque o emprego do discutir, não somente por meio das publica-
termo “Catholic Establishment” põe em evi- ções que lhe pertencem, mas, de certo tempo
dência quais são, por toda parte, as últimas para cá, por meio de quase todos os jornais e
ambições do progressismo, é que nós o esco- círculos de estudo católicos, de uma a outra
lhemos – a bem da clareza – para designar a costa”. Depois de acrescentar significativa-
conspiração progressista espalhada por toda a mente: “A discussão nos Estados Unidos so-
terra. Mas é ele particularmente apropriado bre o controle da natalidade, por exemplo, foi
para descrever o progressismo europeu, uma inteiramente uma produção do “Establish-
vez que o “Catholic Establishment” nos Esta- ment”, passa John Leo a explicar pormenori-
dos Unidos não é mais do que a extensão para zadamente como isso foi feito entre 1963 e
o outro lado do Oceano, da conspiração pro- fins de 1964, pela utilização do que se cha-
gressista européia, cuja vanguarda francesa mou na Holanda de “terrorismo progressista
foi desmascarada com tanta precisão por Jean sobre a opinião pública católica”.
Madiran, em meados da década de 1950.
Como este “redator do Establish-
Desnecessário é dizer que os progres- ment”, segundo ele se chama a si mesmo,
sistas franceses, por serem franceses, ocupa- também reconhece, não hesitando em citar o
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 41

Pe. John Hugo no mesmo artigo de “The Cri- Leo oferece-nos então numerosos e-
tic”, revista sabidamente do “Establishment”: xemplos de como essa “diretoria coesa e bem
este último “é uma pequena camarilha de elo- sincronizada” opera para impor sua vontade à
gios mútuos, ainda que às vezes pareçamos opinião pública católica e, por meio dela, à
em desacordo cortês no primeiro momento”, a Igreja. Faz-nos saber, por exemplo, que os di-
qual “apoderou-se de todos os microfones em retores de “Cross Currents” e The Critic” (Jo-
sua determinação de falar pela Igreja...”. E seph Cuneen e Dan Herr, respectivamente)
põe-se então a dizer-nos quem são estes “rap- pertencem ambos ao quadro de direção do
tores de microfones”: “National Catholic Reporter”; que outro dos
diretores de “Cross Currents” (William Bir-
“os raptores de microfones constituem mingham) dirige “Mentor-Omega”, que pu-
uma fraternidade não rígida, mas exclusiva, blica livros de bolso, ao mesmo tempo que
de várias dúzias de eruditos, jornalistas, ati- trabalha durante meio expediente em “Com-
vistas e editores. Escrevem para os periódi- monweal”; que Justus George Lawlor, redator
cos católicos mais influentes e editam... Pu- de “Continuum”, que escreve igualmente para
blicam os manuscritos uns dos outros, fazem “Commonweal”, é redator-chefe da editora
recíprocas e calorosas recensões de seus res- partidária do “Establishment”, Herder e Her-
pectivos livros, citam-se mutuamente nas con- der, e escreve ainda para “New Blackfriars”;
ferências que se convidam uns aos outros a que a editora americana “Sheed and Ward” é
dar, reúnem essas conferências e artigos em dirigida pelo antigo redator de “Commonwe-
livros para um novo turno de discussões favo- al” e colunista de “Critic”, Philip Sharper; que
ráveis”. o mesmo Wilfried Sheed que está agora em
“Commonweal” estava anteriormente em
O “Establishment” é liberal, progres- “Jubelee”; e que a figura-chave do “Establi-
sista, muito polido, desconfia das instituições, shment”, Michael Novak, tem acesso a todos
é antibelicista (mas em grande parte não pa- os periódicos e editoras do “Establishment”.
cifista), semi-clerical e semi-laico; dedica-se
principalmente aos problemas internos do Oferece-nos ainda Leo diversos exem-
Catolicismo. Seus membros não são necessa- plos de como os membros do “Establishment”
riamente os católicos mais brilhantes ou mais se elogiam mutuamente, fabricando para si
conhecidos de sua terra, e muitos poucos o- mesmos reputações “sintéticas” (menciona
cupam posições oficiais na Igreja. Isso não em particular o caso do teólogo canadense
lhes interessa, eles são o “Establishment”. Bernard Lonergan, transformado em um co-
losso mediante uma operação combinada de
O trabalho principal do “Establish- Justus George Lawlor e Michael Novak, apear
ment” é a preparação e edição das publica- do fato de que praticamente ninguém leu Lo-
ções que deverão dominar a vida católica nergan); e de como o “Establishment” se lan-
norte-americana. Isto se obtém principalmen- ça em defesa dos “perseguidos” (por exemplo,
te por meio dos seis periódicos do “Establi- heróis do “Establishment” que incorreram em
shment”, todos eles, editados por leigos: “Na- penas eclesiásticas, como o extremista jesuíta
tional Catholic Reporter”, “Cross Currents”, Pe. Daniel Berrigan), da mesma maneira que
“Jubilee”, “Commonweal”, “Continuum” e se montou a operação inglesa “Slant” –
“The Critic”. Fornecem eles contatos com as “Newman” para defender o Pe. Herbet Mc-
editoras, os ambientes universitários, os jor- Cabe, O.P., na primavera de 1967.
nais leigos e o mundo protestante, assim co-
mo com publicistas e publicações periódicas Entretanto, até o próprio Leo admite
de níveis mais modestos, que aceitam as su- que as operações do “Establishment” são difí-
gestões do “Establishment” e funcionam co- ceis de precisar, e isso porque, “como a maio-
mo correias de transmissão de suas idéias. ria dos grupos congêneres”, o “Catholic Esta-
blishment” “progride imperceptivelmente pela
No papel, o “Establishment” asseme- atuação pessoal de seus membros que com-
lha-se a uma diretoria coesa e bem sincroni- partilham aspirações comuns”. E acrescenta
zada...”. significativamente: “Embora seja difícil inti-
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 42

tulá-lo de conspiração no sentido político mo- sabeth Bartelme); “Mentor-Omega” (novelas


derno da palavra, ele o é no sentido dado por de bolso); “Sheed and Ward”.
John Courtney Murray, de “respirar junto”.
No “Establishment” todos respiram junto”. Agências de conferências: “Univer-
sity Speakers” e “National Lecture Services”.
Lê-se mais adiante que “o “Establish-
ment” é essencialmente uma equipe”. E, a Ala de Sagrada Escritura: Pe.
julgar pelo que diz John Leo, não é difícil de- Barnabas Ahern, C.P. 5; Pe. Raymond Brown;
duzir que a equipe de trabalho do “Establish- Pe. John McKenzie; Pe. Roland Murphy;
ment” nunca se revela com mais clareza do Madre Kathryn Sullivan; e Pe. Bruce Vawter.
que quando organiza controvérsias simuladas,
sobre questões secundárias, entre os porta- Articulistas: Dan Herr, editor de “The
vozes do próprio “Establishment”, os quais Critic”, membro do quadro de redação do
“atacam normalmente as mesmas coisas e se “National Catholic Reporter”; John Leo, do
defendem mutuamente”, dando assim a sen- “National Catholic Reporter” e de “The
sação da existência de um debate livre em Critic”; Philip Sharper, diretor de “Sheed and
jornais que são rudemente intolerantes para Ward”, atualmente redator de “The Critic”,
com as opiniões conservadoras, qualquer que ex-diretor de “Commonweal”; Gary Wills, do
seja a forma destas. “National Catholic Reporter”.

Um dos aspectos essenciais da capaci- Ideólogos: Daniel Callahan (sua mu-


dade do “Establishment” de influir sobre a o- lher é Sidney Cornelia Callahan, escritora e
pinião pública católica é o controle que exerce membro de “Establishment”); Justus George
sobre “a maioria das grandes séries de confe- Lawlor, redator-chefe de Herder e Herder, re-
rências”; controle esse que, diz-nos Leo, está dator de “Continuum”, escreve também para
reforçado substancialmente por duas agências “Commonweal”.
do “Establishment” destinadas a organizar
conferências: a “University Speakers” e o Auxiliares femininas: Elisabeth Bar-
“National Lecture Service”. Não obstante, o telme, diretora de “MacMillan”, Irmã Carlos
“Establishment” deu vida ultimamente, de Borromeu, Freira do “Establishment”; Sidney
modo quase mágico, a uma iniciativa total- Cornelia Callahan, escritora e esposa de Da-
mente nova que vem reforçar sua influência: o niel Callahan; Irmã Corrita, ativista do “Esta-
“Institute for Freedom in the Church”. Não blishment”; Mary Daly, teóloga leiga; Irmã
é preciso dizer que a “liberdade” de que se Jacqueline, Freira dirigente do “Establish-
trata é a liberdade do “Establishment”. Ade- ment”; Rosemary Lauer, filósofa; Irmã Luke,
mais, adquiriu este recentemente o controle da Freira do “Establishment”; Nancy Rambush,
importantíssima “Catholic Press Associati- dirigente de Montessori e esposa de Robert
on”. Rambush; Rosemary Ruether, especialista em
controle da natalidade.
VIII . Dirigentes e Agências do Ala acadêmica e personalidades di-
“Catholic Establishment” versas: Pe. William Clancy, Preboste do Ora-
tório de Pittsburgh; John Cogley, do “New
Apresentamos abaixo a relação das
York Times” e do Centro de Estudos sobre as
pessoas e das instituições que, segundo Leo,
Instituições Democráticas, peça-chave do
pertencem ao “Establishment”:
“Establishment”; James Collins, filósofo;
Publicações: “Commonweal”; “Con- Leslie Dewart, filósofo pacifista da Universi-
tinuum”; “The Critic”; “Cross Currents”; “Ju- dade de Toronto; Robert Drinan; Pe. Edward
bilee”; e “National Catholic Reporter”. Duff; Pe. John Dunne; Louis Dupré, especia-

Editoras: “Helicon”; “Herder e Her-


der”; “MacMillan” (quando dirigida por Eli- 5
O Pe. Barnabas Ahern foi perito do Vaticano II. Fez numerosas conferências pelo mundo
inteiro – muitas vezes na Inglaterra – e é, sem dúvida, um dos mais valiosos missionários do
“Establishment”.
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lista em controle da natalidade e casamento; Ex-membros: Pe. Andrew Greeley e


Mons. John Tracy Ellis; Pe. Joseph Fichter, Mons. George Higgins, expulsos por insufici-
sociólogo; James Finn, diretor da “World ente “liberalismo” (o Pe. Greeley é ainda mui-
Riew”; Pe. Roberto Francoeur, destacado tei- to apreciado); Donald McDonald (posterior-
lhardista; Pe. Dexter Hanley; Richard Kors- mente “promovido” para o “Centro de Estu-
cheler, da Conferência Nacional para os Cris- dos das Instituições Democráticas”); Pe.
tão e Judeus; Pe. Robert Johann, filósofo; Pe. Thomas Merton (muito apreciado ainda, em-
William Lynch, especialista do “Establish- bora considerado muito estridente); a revista
ment” em arte e comunicações; Ernan Mc- “Ramparts” (ainda apreciada, é tida porém
Mullin, filósofo; Bernard Murchland, filóso- por pouco ponderada); o Bispo Thomas Wri-
fo; John Noonan, autoridade em contracep- ght.
ção; Michael Novak, autor de “The Open
Church”, personagem-chave do “Establish- Aquisições recentes do “Establish-
ment”; George Schuster, da Universidade No- ment”: “Lamp”; “Catholic Press Associa-
tre-Dame; Wilfried Sheed, de “Sheed and tion”.
Ward” e “Commonweal”, anteriormente de
“Jubilee”; Dan Sullivan, especialista em ca- Criação recente: “Institute for Free-
samento e controle da natalidade; Gordon dom in the Church).
Azhn, pacifista, ligado a “Ramparts”.
É necessário compreender bem que as
Os heróis: Dorothy Day, fundadora de pessoas, os editores e as instituições relacio-
“The Catholic Worker”; Pe. H. A. Reinhold, nadas por John Leo permitem apenas vislum-
patrocinador da reforma litúrgica. brar o verdadeiro poder manejado pelo “Esta-
blishment”. A fonte real de seu poder de con-
O favorito: Arcebispo Roberts, S.J. dicionar as mentes do fiéis deriva das ligações
[antigo Arcebispo de Bombaim]. com o que John Leo chama de “publicistas e
publicações de menor importância que se ins-
Contencioso: Pe. William Dubay, ad- piram no “Establishment” e funcionam como
vogado de um sindicato de Padres. correias de transmissão de suas idéias”. Como
conseqüência desse influxo indireto do “Esta-
Ala ativista: Matthew Ahmann; Pe. blishment”, são muito poucos os periódicos
Daniel Berrigan, S.J.; Pe. Philip Berrigan; Pe. católicos dos Estados Unidos que hoje não
Henry Browne; Dennis Clark; Mons. John servem para em larga medida fazer eco aos
Egan; James Forest; Pe. Walter Imbiorski; pontos de vista do “Establishment” e para
Religiosas do Imaculado Coração; Pe. Daniel amplificá-los. E como estes periódicos são a-
Mallete. inda razoavelmente ortodoxos, sentem a cons-
tante e crescente pressão que sobre eles se e-
Ala litúrgica: Pe. Godfrey Diekmann; xerce para que se “atualizem” e se tornem
Pe. Frederick McManus; Jack Mannion: progressistas. Quanto aos jornais de âmbito
Robert Rambush (marido de Nancy Ram- nacional e revistas (não incluímos nesta cate-
bush). goria os boletins), os que ainda militam contra
o “Establishment” são apenas dois: “The
Teólogos, filósofos e ecumenistas: Wanderer”, o semanário católico nacional que
Pe. Gregory Baum; Pe. Bernard Cooke, S.J.; se publica em Saint Paul, Minnesota, e “Tri-
Pe. John Courtney-Murray, S.J. (recentemente unph”, a revista mensal recentemente fundada
falecido); Pe. Bernard Lonergan (cuja reputa- e publicada por Brent Bozell.
ção foi fabricada por Michael Novak e Justus
George Lawlor); James McCue, teólogo lei- Este quase completo domínio da im-
go; Pe. Daniel O’Hanlon, S.J.; Pe. Thomas S- prensa católica pelo “Establishment” não teria
transky, do Secretariado para a Unidade, Ro- sido possível se ele tivesse encontrado apoio
ma, Leonard Swidler, fundador do “Journal of unicamente em suas ligações com a própria
Oecumenical Studies”; Pe. George Tavard. imprensa católica. Se esta sucumbiu tão fa-
cilmente aos afagos do “Establishment”, foi
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em grande parte graças aos contatos deste tem podido explorar em benefício de sua cau-
com jornais leigos, com o mundo protestante sa o oportunismo, a indiscrição e o insensato
e com os setores mais “progressistas” (leia-se desejo de aventuras dos oportunistas de es-
sionistas) da comunidade judaica. Como con- querda e de direita do progressismo, os quais,
seqüência de tais ligações, o “Catholic Esta- abandonados a seus próprios impulsos, não
blishment” pode atrelar a seu carro a força in- teriam conseguido senão destruir-se mutua-
crivelmente persuasiva da “mass media” leiga mente e desacreditar o progressismo como tal.
da América do Norte contemporânea. Do modo como estão as coisas, no entanto,
ambas as alas levam água para o moinho do
A seu tempo examinaremos os conta- “Establishment”: os irresponsáveis com sin-
tos e as ligações do “Catholic Establishment” tomas de lunáticos, fazendo com que, compa-
em todo o mundo. Antes de o fazer, contudo, rativamente, o “Establishment” pareça sensato
convém deixar perfeitamente esclarecido o e quase como um bastião da ortodoxia ante os
que o “Catholic Establishment” é e o que não olhos da Autoridade (particularmente se se
é. leva em conta a completa insensatez de alguns
ultra-“tradicionalistas”); enquanto os que es-
IX – A verdadeira natureza do “Ca- tão comprometidos dentro do campo progres-
tholic Establishment” sista permitem ao “Establishment” mostrar até
que ponto é substancial a diferença entre um
Digamos em primeiro lugar o que ele flexível serviço à causa e a traição à mesma.
não é. Ainda que, com toda a certeza, se trate
de uma liga de díspares (John Leo não vacila Em suma, o “Establishment” se com-
em descrevê-la como um tipo de “conspira- põe dos iniciados, os iluminados, os “illumi-
ção”), combativos sem dúvida, e que não são nati” do campo progressista, e é o núcleo que
senão progressistas, descrever o “Establish- orienta a este tanto dentro da Igreja quanto em
ment” simplesmente como uma liga de mili- suas relações com o mundo exterior.
tantes progressistas seria falhar por completo
na hora de indicar sua natureza essencial. O X . “Catholic Establishment” e
“Establishment” é essencialmente exclusivis- “Secular Establishment”
ta. Exclui sem hesitação pessoas como Mons.
Higgins e o Pe. Greeley apesar do prestígio No que concerne às relações do “Esta-
que possam ter, pelo fato de estarem com- blishment” católico com o mundo exterior,
prometidos com a “burocracia” eclesiástica existem cinco nomes de significação especial:
“não iluminada”, e também se dissocia do ul- Richard Horchler, que é o representante do
tra-progressista Pe. Dubay e do ultravanguar- “Establishment” na Conferência Nacional de
dista “Ramparts” (admirando embora a am- Cristãos e Judeus; John Cogly, anteriormente
bos, de certa maneira). Faz isto assim como o em “Commonweal” e agora no “New York
Partido Comunista expulsa os “revisionistas” Times”; o falecido Pe. John Courtney-
da ala direita e os intransigentes da esquerda, Murray, S.J., arquiperito do Vaticano II;
e no fundo pela mesma razão: a necessidade Donald McDonald, que escreve em numero-
de conservar intato um rijo núcleo de inicia- sas publicações diocesanas e foi decano da
dos, com cuja absoluta fidelidade à causa se Escola de Jornalismo da “Marquette Univer-
possa contar, e que ao mesmo tempo saiba ser sity”; e George N. Shuster, que também per-
infinitamente flexível. tencia anteriormente a “Commonweal” e é a-
tualmente presidente-adjunto da “Notre Dame
O “Establishment” é exclusivista não University”. Cogley, Murray, McDonald e
somente porque sabe avaliar a imensa dife- Shuster estão envolvidos ativamente nos as-
rença que há entre ser progressista e ser efi- suntos do Centro de Estudo das Intituições
cazmente progressista, mas sobretudo por que Democráticas, que melhor se pode descrever
está decidido a ser eficaz ou não ser nada. como sendo o máximo pilar do “Secular Es-
Precisamente mediante esse exclusivismo, e tablishment”.
insistindo em determinado tipo de disciplina
para os iniciados, é que o “Establishment”
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O “Centre for the Study of Democratic Esta ligação com o “Secular Establi-
Institutions” é um rebento do Fund for the shment” lhe é totalmente indispensável para
Republic, e o presidente de ambos é o pole- alcançar os objetivos propostos. Porque, em
mista Robert M. Hutchins. O Centro é, sob virtude dessa ligação com o Centro – auxilia-
as ordens de Hutchins, um claro exemplo do da, naturalmente, pelo posto-chave que John
que às vezes se chama de “sinarquismo”; re- Cogley ocupa no “New York Times”, para o
presenta um amontoado de humanistas laicos qual atuou como redator religioso durante o
de todos os matizes (incluindo representantes- período crítico do Vaticano II – o “Catholic
chave do Partido Comunista), católicos pro- Establishment” conseguiu que sua voz ecoas-
gressistas, protestantes modernistas, maçons, se e fosse difundida por meio da atualmente
judeus, tecnólogos liberais, angustiados peri- quase onipotente “mass media” leiga. E, em
tos em demografia, ardorosos planificadores conseqüência, foi-lhe possível criar a impres-
da família, senhores ultra-humanitários, paci- são de que, enquanto a Igreja “pré-conciliar”
fistas irredutíveis (cuja ênfase, não é preciso era um “ghetto”, fechado, afastado por com-
dizer está toda posta sobre o Vietnã), coexis- pleto dos assuntos da sociedade humana, a
tencialistas frenéticos – todos sumamente “in- nova, a que olha para o amanhã, a Igreja en-
telectuais”, e dados a olhar para o amanhã – e cabeçada e dirigida pelo “Establishment”, é
todos eles apresentando o denominador co- capaz de dizer uma palavra decisiva nos con-
mum de uma perspectiva que de um lado con- selhos e assembléias da sociedade humana, e
sidera a paz de nosso planeta com indepen- quem quer que se interponha no caminho da
dência de Deus, e de outro, com generosa sua marcha para a frente não pode ser amigo
condescendência, aprova sem a religião na de Deus.
medida em que (segundo palavras de uma pu-
blicação do Centro) ela é concebida como al- Naturalmente, se a imprensa católica
go “útil” e “para o serviço da comunidade”. O tivesse conservado incorrupto seu sal, teria
Centro aceita, sem discussão e como um ine- destruído com suma facilidade tais preten-
vitável fato da vida, o que seu presidente des- sões; bastaria fazer ver que, longe de ser o eco
creve como uma existência – a nossa – “inte- da voz da Igreja no seio da sociedade leiga, o
grada no sistema técnico como as engrena- “Establishment” é simplesmente o prestativo
gens na máquina e como uma claque automá- porta-voz do mundo no seio da Igreja. Assim
tica”. O Centro deplora a educação religiosa se configurava a situação, até que a imprensa
na escola 9embora magnanimamente a tolere católica foi amplamente colonizada pelo “Es-
nas paróquias), e assim, por exemplo, diz que tablishment”, até que o conformismo mais
as escolas católicas “podem ser toleradas en- uma vez mostrou ser a primeira lei da famosa
quanto não cheguem a constituir uma amea- “american way of life”, e muito antes que e-
ça” para o bem estar comum; procura eventu- clesiásticos e editores diocesanos, sôfregos de
almente promover uma fusão do comunismo e publicidade, se encarapitassem uns sobre os
do capitalismo sob os auspícios de “algum outros para ver quem conseguia trepar mais
sistema de governo mundial”, mas no mo- espetacularmente na carroça da banda que
mento se contenta em apoiar objetivos “práti- lhes parecia tão atraente.
cos”, - tais como o ingresso da China Verme-
lha na ONU, o afastamento dos Estados Uni- Dada esta atmosfera, que condicionou
dos do Sudeste asiático, e, naturalmente, a re- desde então, e durante estes últimos anos, a
visão, em todos seus aspectos, da política ex- vida católica dos Estados Unidos, dada i-
terior do Ocidente, que parece muito recalci- gualmente a repugnância da Igreja institucio-
trantemente anticomunista. Tal é o fundamen- nal a ver-Se envolvida em assuntos políticos,
to do “Secular Establishment” com o qual o o “Establishment” tem dado prosseguimento à
“Catholic Establishment” procura estabelecer sujeição da Hierarquia Eclesiástica ao que é
ligação por meio de quatro – nada menos do virtualmente uma chantagem. Assim, enquan-
que quatro! – de seus mais expressivos repre- to qualquer Bispo que ouse mostrar-se aber-
sentantes. tamente oposto a qualquer dos objetivos dele
– como sucedeu com o Cardeal Spellman na
questão do Vietnã – logo é atacado e perde
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sua reputação (procedimento eficacíssimo pa- versal e romano. O “Establishment” se dá


ra dissuadir todos os seus colegas de fazer al- conta disso tão bem como seus adversários.
go semelhante), os poucos que parecem estar Em conseqüência, o IDO-C é absolutamente
no mesmo comprimento de onda do “Establi- indispensável como meio de reforçar as pre-
shment” em determinadas questões, recebe- tensões magisteriais do “Establishment”. Com
mos mais copiosos louvores e da noite para o efeito, uma vez que o IDO-C tem seu centro
dia se vêem convertidos em figuras populares. em Roma e está em vias de se tornar univer-
sal, a nova Igreja cismática do “Establish-
Dividindo assim a Hierarquia em Pre- ment” tem à sua disposição os meios adequa-
lados “belicistas” (“Prelado” é uma palavra dos para poder aparecer como a única verda-
inequivocamente odiosa, que cheira a “juridi- deira Igreja Católica Apostólica, de maneira
cismo”) e “homens de Deus, amantes da paz”, semelhante ao que está escrito a respeito do
o “Establishment” procura “dialetizar” o Ma- Anticristo, que deverá parecer quase impossí-
gistério e, por este sistema, reduzi-lo ao silên- vel distinguí-lo do Salvador do gênero huma-
cio, de tal maneira que reste apenas a voz do no.
“Establishment” como guia infalível tanto dos
cristãos como dos não crentes. Mas para que o próprio IDO-C tivesse
crédito era preciso ter-se plena segurança de
Como o “Establishment” conseguiu já, que apenas uma minoria do seu pessoal pare-
em grande parte, seu objetivo de minar a auto- cesse abertamente identificada com o “Esta-
ridade do Magistério, está agora começando a blishment”. Para esse fim procurou-se por to-
pensar no modo de conservar a autoridade de dos os meios disfarçar a nova criação, envol-
seu próprio magistério, e para isso começa a vendo nela pessoas e periódicos conhecidos e
falar da necessidade de que na Igreja não haja respeitáveis. Neste ponto o “Establishment”
menos, senão mais autoridade (diremos de norte-americano foi muito mais discreto do
passagem que este foi o estribilho principal do que seu homólogo do Reino-Unido, pois en-
discurso do Pe. Herbert McCabe no “teach- quanto este último está representado no Co-
in” reunido em Londres para protestar contra mitê Executivo Internacional do IDO-C uni-
a “perseguição” que lhe movia a Autoridade camente pelo notório e certamente pró-
Eclesiástica). Desta maneira, e nem é preciso comunista Neil Middleton – do famoso “S-
que se diga, os porta-vozes do “Establish- lant” – nenhum dos representantes dos Esta-
ment” não reivindicam maior autoridade para dos Unidos naquele organismo (o Pe. R.
o atual Magistério da Igreja, mas sim para o Lynch, S.J., e Donald Quinn) é membro co-
magistério de uma Igreja dominada hipoteti- nhecido do “Establishment” da América do
camente pelo próprio “Establishment”, que Norte. E mesmo no Comitê Internacional para
imponha autoritariamente as idéias dele, tais o Desenvolvimento da Documentação e In-
como o abandono do Vietnã, a irrestrita regu- formação Religiosa, do IDO-C, o “Establish-
lação dos nascimentos, o aborto legalizado, a ment” norte-americano retraiu-se sabiamente,
reforma sexual (com a aceitação até da ho- de tal modo que dos 21 norte-americanos e
mossexualidade), a liquidação da educação canadenses que participam desse Comitê, a
católica e, por último, mas não como coisa de força conhecida do “Establishment” limita-se
menor monta, a completa democratização da a apenas cinco pessoas: John Cogley, Mons.
Igreja. O que eles no momento estão fazendo Dexter Hanley, Pe. Daniel O’Hanlon, S.J.,
e simplesmente pleitear um maior respeito pa- Prof. Gregory Baum (todos figuras-chave do
ra com sua própria autoridade, porque dão “Establishment”) e R.G. Hoyt, que representa
por coisa sabida que eles – os do “Establi- o “National Catholic Reporter”, publicação
shment” – são já o Magistério. pertencente ao “Establishment”. Não imagi-
nemos contudo que essapequena participação
XI – Porque o IDO-C é indispensá- conhecida faça do IDO-C um órgão de menor
vel ao “Establishment” importância ou menos essencial, pois não de-
vemos esquecer que o IDO-C norte-
É claro que não pode haver Magistério americano nada mais é do que a expressão na
católico que não seja ao mesmo tempo uni-
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América do “Ecclesia” europeu, o qual en- em razão de sua aparência progressista, e se


gendrou os precursores do IDO-C quando a sentem atraídospelo IDO-C como fonte de in-
voz de dissensão quase não se fazia ouvir no formação), e emprestando assim os nomes dos
outro lado do Atlântico. periódicos mais ou menos prestigiosos que
tais publicistas representam, o IDO-C vem a
XII – Outras vantagens que apre- ser uma inapreciável organização de “facha-
senta o IDO-C da” para o “Catholic Establishment” intena-
cional.
O IDO-C não se limita a trazer maior
crédito para as pretensões do “Establish- De tudo quanto foi dito resulta que di-
ment”, assegurando-lhes a aparente corrobo- zer – como o faz John Leo no já citado artigo
ração de tudo o que se vem dizendo através de de “The Critic” – que o “Establishment” está
uma nova associação internacional com apa- ganhando terreno rapidamente é um modo
rências de independente, a qual oferece ao magistral, não norte-americano, de dizer as
público uma fachada de erudição maciça e dá coisas apenas pela metade.
a entender que representa o consenso univer-
sal da opinião católica “educada” ou “forma- XIII – O IDO-C em outros lugares
da”. Ele também torna possível a infiltração
dos conceitos do “Establishment” em certas Tendo descrito o que é o IDO-C na
zonas da comunidade católica que até então se Grã-Bretanha, França, Polônia e Estados Uni-
haviam mostrado impermeáveis à pressão dos, daremos a conhecer breve e sumariamen-
deste último. te os seus tentáculos em outros países a res-
peito dos quais ainda não temos documenta-
E o IDO-C da América do Norte tem ção adequada. E isto pode ser feito muito au-
um significado muito específico na economia torizadamente pela simples enumeração dos
da subversão,pois permitiu ao “Catholic Esta- membros do já tantas vezes citado “Inter-
blishment” internacional entabular relações nacional Commitee for The Development
diretas, quase institucionais, com o poderoso of Religious Documentation and Informa-
“Establishment” leigo dos Estados Unidos. tion”, do IDO-C. São os seguintes:
Com referência a essa conexão, é completa-
mente impossível ignorar a presença no Co- África
mitê Internacional Para o Desenvolvimento da
Documentação e Informação Religiosa, do Ver. J. Ceuppens – DIA – 3.e Boite
IDO-C, não somente de John Cogley (repre- Postal 2598 – Kinshasa – República Demo-
sentante do Centro de Estudo das Instituições crática do Congo.
Democráticas, assim como do “New York
Times”, órgão-chave do “Secular Establish- Ver. Derks – “Die Brug” – 8.e An-
ment”), mas também de Israel Shenker, o dreus Road 32 Houghton – Joanesburgo – Á-
“manager” judeu do escritório da revista “Ti- frica do Sul.
me” em Roma, de David Mead, do “Chicago
Pe. L. Matthys – Bishop’s House, P.O.
Sunday Times”, e de Gerard Lemieux, da
Box, 17054, Hillborw – Joanesburgo – África
Rádio Canadá. É digno de nota ademais que o
do Sul.
“Secular Establishment” da Grã-Bretanha está
representado nesse mesmo comitê por um e- Pe.A. Plesters – Ursuline Convent, 30
lemento do prestigioso jornal “Guardian”, que Kitchener Av. – Joanesburgo – África do Sul.
desempenha um papel essencial na tarefa de
amplificar a voz do “Catholic Establishment” Pe. N. Scholten, O.P. – Dpt. Vir Eku-
britânico. meniese Aangeleenthede – Postbus 5902 –
Joanesburgo – África do Sul.
Ao mesmo tempo, incluindo os nomes
de outros escritores progressistas que não per- Ver. A.H. Schwarer – 62 Orient Road,
tencem ao “Establishment” (mas que experi- Primrose – Germinston, TVL, - África do Sul.
mentam uma simpatia generalizada por ele,
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Pe. Y. Tourigny, P.B. – CIPA – Vai


Aurelia, 269 – Roma
Áustria

Prof. N. Greitman – Herder & Cia. –


Alemanha Postfach, 248A., 1011 – Viena

Pe. A. Ahlbrecht – “Uma Sancta” – Prof. Klostermann – Universidade de


8351 – Abtei Nieder – Altaich, NBD. Viena – Waldegghofgass, 3/5 – Viena, 17.

Prof. H. Haas – KDSA – Rheinweg, Prof. O. Mauer – “Wort und Wah-


34 – Bonn. rheit” – Wäringerstrasse, 2 – Viena, 1.

Pastor J. Chr. Hampe – Evang. Press- Dr. E. Meditz – “Linzer Quartalschr.”


edienst – 8021, Hohenschaftlarn bei München – Goethestrasse, 54 – Linz.
– Forststrasse, 53.

Dr. E. Kellner – Paulus-Gesellschaft –


8828 Freilassung Postschliessfach, 66. Bélgica

Dr. Kleine – “Frankfurter Allgemeine” P. Bouman – FAO – Via Vicenzo Sta-


– Frankfurt 1 Postfach 3463. tella, 64 – Roma

Dr. J. Seeber – “Herder” – Freiburg i. Dr. J. Grootaers – “De Maand” – Lie-


Br. veheersbeestjeslaan, 49 – Bruxelas, 17.

Pe. Seibel, S.J. – “Stimmen der Zeit” – Cônego François Houtart – FERES –
Munique – Succalistrasse, 16. 116, rue de Flamands – Louvain.

J. Kerkhofs – “Pro Mundi Vita” – 6,


rue de la Limite – Bruxelas, 3.
Argentina
Pe. R. Van Kets, O.P. – professor no
Juan M. Soler – “Aqui Concilio” - Angelicum – Largo Angelico 1, Roma.
Calle 55, no. 578 ½ - La Plata
Dom C. Rousseau, O.S.B., “Irenikon”
Carlos F. P. Lohlé – Editora – Via- – Monastère Bénédictin de Chévetogne – Pos-
monte, 795 – Buenos Aires. te Haversin (endereço temporário: Via del
Babuino, 149 – Roma).
Pe. J. Luzzi S.J. – Colegio Máximo
abajo San Miguel (FCNSM). Mlle. Ch. De Schrijver – DIA – 40,
ave. G. Gezelle – St. Nicholaes-Waes.
Pe. Jorge Mejia – “Critério” – Alsina,
845 – Buenos Aires.

Brasil

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Clemente, 385 – Rio de Janeiro (ac-02).
Ver. Michael Parer – “The Advocate”
– P.O.Box 1256 L. – Melbourne. M. Sampaio Pinto – Asapress – Al.
Ribeirão Preto, 267, apto. 56 – São Paulo.
Desmond O’Grady – jornalista – Via
Bartelomeo Gosio, 77 - Roma Pe. A. Guglielmi – Av. Paulo de Fron-
tin – Rio de Janeiro.
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College – Toronto, 5. turog Religionsforskning – Cristiesgate, 16 –
Bergen – Noruega.
Miss B. Brennan – Nat. Cath. Comm.
Centre – 830, Bathurst Street – Toronto-
Ontário.
Espanha
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tional des Techniques de Diffusion – 4635, Pe. Arias – “Pueblo” – Via Asmara,
rue de Lorimier – Montreal 34 – P.Q. 11 – Roma.

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Catholic Conferences – 90, ave. Parent – Ot- Via di Torre Rossa, 2 – Roma.
tawa 2.
Pe. Dr. R. Doucastella – ISPA – Bue-
Gérard Lemieux – Rádio Canadá – navista, 6 – Barcelona.
Via Archimede, 25 – Roma.
Pe. Dr. J. M. Gonzáles Ruiz – “Siglo
XX” – Galileo 20 Bajo A – Madri.

Checoslováquia Mons. J. Irribaren – “Yá” – Plaza S.


Juan de la Cruz, 6 – Madri.
Prof. Jiri Nemec – Academia Científi-
ca – Benesovska, 42 – Praga 10. Pe. A. Montero – PPC – Levante, 16 –
Madri

Dr. E. Miret Magdalena – “Triunfo” –


Chile Héroes del 10 de Agosto, 12 – Madri 1.
Pe. Juan Ochegavia, S.J. – “Mensaje” Prof. J. Ruiz-Giménez – “Cuadernos
– Casilla, 10.445 – Santiago. para el Diálogo” – Héroes del 10 de Agosto, 4
– Madri.
Pe. J. Poblete, S.J. – Centro Pastoral –
Casilla 10.445 – Santiago.

Estados Unidos
Colômbia John Cogley – “New York Times” –
Times Square – Nova York.
L. Revollo Bravo – ULAPC – Apto.
Aereo 12333 – Bogotá. Mons. D. Hanley – “Long Island
Catholic” – 53 N. Park Ave. – Rockville Cen-
Pe. Gustavo Pérez – ICODES – Apto. tre, NY.
Aereo 11966 – Bogotá.
R.G. Hoyt – “National Catholic Re-
porter” – P.O.Box 281 – Kansas City (Miss.
64141).
Escandinávia
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 50

James Johnson – “National Catholic J.-P. Dubois-Dumée – “Informations


Reporter” – 8th Grand Ave. – Kansas City, Catholiques Internationales” – 163, Boulevard
Mo. Malesherbes – Paris.

Pe. E. Lynch, S.J. – Radio Vaticana – Pe. Ch. Ehlinger – Editions du Centu-
Via Carmeluccie 180 - Roma. rion – 17, rue Babylone – Paris – VIIe.

Gary McEoin – “Catholic Press Union Henri Fesquet – “Le Monde” – 5, rue
– 17 Dodd Street – Nutley NJ (atualmente em des Italiens – Paris.
Roma, a/c IDO-C).
Pe. E. Gabel – “Le Jounaliste Ca-
David Meade – “Chicago Sunday tholique” – 43, rue Sait-Augustin – Paris.
Times” – 401 N. Wabash Ave. – Chicago
111.60611. Pe. René Laurentin – “Le Figaro” –
Grand Bourg, Evry-Petit-Bourg (Seine-et-
R. Kaiser – 19906 Pacific Coast Oise).
Highway – Malibu (Califórnia).
Pe. Rouquette, S.J. – “Etudes” – 15,
Pe. R. Quinn, C.S.P. – 5, Park St. – rue Monsieur – Paris – VIIe.
Boston (mass).

Donald Quinn – “St. Louis Rewiew –


462 Taylor Street – St. Louis (Mo). Holanda

Harold Schackern – Religious News- Pe. Dr. L. Alting von Geusau - IDO-C
writers Association – Detroit Free Press – De- – 30, Via S. Maria Dell’Anima – Roma.
troit (Mich. 48231).
L. Baas – EUROS – Kon. Wilhelmi-
Pe. Sheerin, C.S.P. – Paulist Press, nalaan, 17 – Amersfoort.
Editor, “The Catholic World” – 304, West
58th. Street – Nova York (NY). Pe. Dr. W Goddijn, O.F.M. – Pastoraal
Instituut – ‘s-Gravendijkawal, 61 – Rotter-
Israel Shenker – “Time” – Via dam.
Sardegna, 14 – Roma.
Prof. Dr. J. C. Groot – Willibrord-
Mons. V. Yzermans – NCWC – 1512, Verg – Den Eikenhorst, Esch, post Boxtel.
Massachusetts Ave. NW Washington (DC).
Pe. Dr. E. van Montfoort, A.A. – By-
Martin Work – National Council of santijns Instituut – Sofialaan, 4 – Nimega.
Catholic Men – 1312, Massachusetts Ave.
NW Washington (DC). Dr. H. J. van Santvoort – “Katholiek
Archief” – Kon. Wilhelminalaan, 17 – Am-
Pe. Prof. D. O’Hanlon, S.J. – Alma ersfoort.
College – Los Gatos (Califórnia).
Mej. A.E. van Tol - IDO-C – Pomp-
weg, 22 – Ubbergen.

França D. de Vree – KRO – Emmastraat –


Hilversum.
G. Blerdone – Centre Jeunes Nations –
19, rue du Plat – Lyon 2. W. Kusters – KASKI – Paul Gabriel-
straat, 28-30 – ‘s-Gravenhage.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 51

Hungria John Horgan – “Irish Times” – 67,


Wellington Road – Dublin, 4.
Prof. Vid. Mholics – “Vigilia” – Kos-
suth Lajos V 1 – Budapest. S. McReamoinn – Rádio Eireann – R.
T. E. Donnybrook – Dublin, 4.
Pe. R. Bacsvary, S.J. – Dr. Ignas
Seipel-Platz, 1 – Viena.

Itália

Índia Prof. G. Alberigo – Centro di Docu-


mentazione – Via S. Vitale, 114 – Bolonha
Ver. B. Aguiar – “Bombay Examiner”
– 5 Convent Street – Bombaim. Pe. Balducci – “Testimonianze” – Pi-
azza Monte Gandio, 8 – Roma.
Dr. R. Panikkar – Hanumanghat,
b4/34 – Varanasi. Dott. G. Bigazzi – “Nuovo Osservato-
re” – P. Irnerio, 57 – Roma.

Dott. S. Burgalassi – Istituto di Socio-


Inglaterra logia – Via delle Belle Torri, 44 – Pisa.
G. Armstrong – “Manchester Guard- Pe. P. Cabra – Ed. Quiriniana – Via
ian” – Via della Purificazione, 8/9 – Roma. Piamarta, 6 – Brescia.
Pe. L. Bright, O.P. – “Slant” – St. Dott. Vitt. Citterich – “Avv. D’Italia”
Dominic’s Priory – Londres N.W. 5. – Via Trasone, 39 – Roma.
P. Burns – Burns and Oates – 25, Ash- Ver. V. Comelli – “Il Regno” – Via
ley Place – Londres, S.W. 1. Nosadella, 6 – Bolonha.
Mr. And Mrs. Glough – 2 Greenband V. d’Agostino – Rocca – Pro Civitate
Crescent – Southampton. Christiana – Assis.
Pe. Hebblethwaite, S.J., “The Month”, N. Fabro – “Il Gallo” – Cas. Post.
revista dos PP. Jesuítas) – 31, Farm Street – 1242 – Genova.
Londres W. 1.
R. La Valle – “Avv. D’Italia” – Via C.
N. Middleton – Sheed and Ward Ltd. Boldroni, 11 – Bolonha.
– 33, Maiden Lane – Londres W.C. 2.
Dott. R. Scarpati – SEDOS – 1ra.
Pe. W.A.Purdy – “The Tablet” – Col- Transversal 2da., Avda., Los Palos Grandes,
legio Beda, Viale di S. Paolo, 18 – Roma. Ed. Kariba, ap. 22 – Caracas (Venezuela).

Pe. R. Tucci, S.J., “Civiltà Cattolica” –


Via de Porte Pinciano 1 – Roma.
Irlanda

Pe. A. Flannery, O.P. – “Doctrine and


Life” – St. Saviours, Upper Dorset Street – Iugoslávia
Dublin.
Prof. Sagi-Buniò – Borska, 35 – Za-
M. Gill – Gill and Son Ltd. – 50, Up- greb.
per O’Connel Street – Dublin, 1
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 52

Líbano A. Alcada – “Tempo e Modos” – Av.


5 de Outubro 297, 1 Dto. – Lisboa 1.
Pe. Mounged Hachem – Boite Postale
2221 – Beirut. Sra. H. Gentil Vaz da Silva – “Conci-
lium” – idem.

Ver. Luiz Moita – “Tempos e Modos”


Malta – idem
Dr. B. Tonna – CCCC – 65 Old Mint Pe. M. Reuvers, O. Carm. – CITOC –
Street – Valleta. Casa Beato Nuno – Fátima.
Pe. J. Ghigo, S.J. – “Problemi Tallom”
– Xavier House, St. Paul St. 226 – Valleta.
Suíça

Pe. J. Bréchet, S.J. – “Choisir” – C.P.


México 140 – Genebra.
J. Álvarez Icaza – Mov. Familiar – Pe. M. von Galli, S.J. – “Orientierung”
Tacuba, 26 – México, 1 DF. – Scheidegstrasse, 45, Zürich.
J. Chaivez Gonzalez – “Revista Señal” Pe. Kaufman, S.J. – “Orientierung” –
– Hamburgo 31 – México, 22 DF. idem.
Srta. B. Hollants – Grupo Cuernavaca Dr. W. Ledergerber – Walter Verlag –
– Apto. 479 – Cuernavaca. Amtshausquai, 21 – Oiten.
Sr. e Sra. Xavier Wiechers – Mov. Mme. M. Pompe – Pax Romana – 42,
Familiar – Aristóteles, 239 – México, 5 DF. route de Berne – Friburgo.

G. Strasser – Pax Romana – route Jura


1 – Friburgo.

Peru
Uruguai
Pe. G. Gutiérrez Merino – Universida-
de de Lima – Apto. 3234 – Lima. L. A. Verissimo – Pedro F. Berreo 871
– Montividéo.

Polônia
Como se vê nesta lista, poucos lugares
Julius Eska – “Wiez” – U. Kopernika, restam no globo terrestre em que o IDO-C
34 – Varsóvia não exerça, neste momento, uma poderosa in-
fluência sobre os meios de comunicação. Esta
Jerzy Turowica – Znak – Lenartowiz- imensamente poderosa “Congregação de Pro-
ca, 3/10 – Cracóvia. paganda Fide” paralela, à disposição da “Hie-
rarquia paralela”, conta com meios os mais
formidáveis para a “lavagem cerebral” dos fi-
Portugal éis e para conformá-los com a vontade do
“Establishment”. Os poucos lugares ainda não
atingidos, sem dúvida receberão em breve a
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 53

visita do peripatético secretário-geral do IDO- poucos dentre eles não são, pelo menos, anti-
C, Pe. Leo Alting von Geusau, uma vez que, anticomunistas; que o IDO-C procura dialeti-
segundo nos informa o boletim do IDO-C in- zar a Igreja tal como o fazem os comunistas;
glês, “desejaríamos acrescentar à nossa lista que há comunistas (como por exemplo Roger
de boletins, ao menos publicações em portu- Garaudy) que encontram no IDO-C o ambien-
guês, árabe, hindi, chinês e japonês, para a- te mais favorável para seus desígnios; que, se
barcar desta maneira as maiores culturas do pudessem, tratariam de o “noyauter” [“nu-
mundo”. cleate”] e fazer dele um instrumento de seus
propósitos (o que provavelmente não está
Ao publicar a lista de nomes que se vê longe de ocorrer na Grã-Bretanha e na Polô-
acima – a qual não é nossa, mas do IDO-C – nia). Mas isso tudo, que é perfeitamente ine-
não queremos insinuar que todas as pesso- gável, não faz do IDO-C uma organização
as que nela figuram procurem consciente- comunista de fachada mais do que influências
mente subverter a Santa Igreja. Como tam- análogas no seio dos sindicatos e das associa-
pouco poderia talvez ajustar-se à verdade a a- ções profissionais fazem do comum delas or-
firmação de que todos aqueles que permitem ganizações de fachada do comunismo.
que seus nomes sejam utilizados pelas organi-
zações comunistas de fachada sejam comunis- O IDO-C é uma fachada, não para o
tas ou, ao menos, e por esta razão, pró- comunismo, mas para o neomodernismo. E as
comunistas. pessoas-chave que manipulam esta máquina
de propaganda tremendamente poderosa e
O objetivo fundamental de qualquer bem lubrificada, não são comunistas, mas
organização de fachada é criar uma aparência simplesmente neomodernistas obcecados e
de respeitabilidade que permita ao núcleo dos contumazes, implacavelmente hostis à autori-
ativistas iniciados introduzir-se em círculos de dade docente da Igreja. São isto, e nada mais
onde teriam sido, de outro modo, escorraça- que isto.
dos. O fato positivo de ser o IDO-C uma or-
ganização de fachada (entre outras coisas) Isto, porém, é, em si mesmo, suficien-
quer dizer que algumas das pessoa acima re- temente alarmante. Se em 1910, três anos de-
lacionadas podem, ainda que sejam de certa pois do anátema lançado contra o modernis-
forma progressistas, ignorar completamente mo na Encíclica “Pascendi”, julgou São Pio X
os fins para os quais estão sendo utilizadas. necessário pôr de sobreaviso contra a existên-
cia de uma sociedade secreta modernista na
Não queremos insinuar tampouco que Igreja, hoje os neomodernistas não têm mais
o IDO-C, pelo fato de lembrar de certo modo necessidade de segredo. O que foi naquela
uma organização comunista de fachada, seja ocasião uma mera sociedade secreta, tornou-
em todos os sentidos uma organização tal. É se desde há algum tempo um escândalo públi-
absolutamente inegável que ele envolve um co, uma pedra de tropeço para todo o povo de
número considerável de pró-comunistas; que Deus. [...].
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 54

O texto de “Ecclesia”

Os pequenos grupos e a “corrente pro-


fética”

O trabalho cuja tradução publicamos aqui apareceu na revista “Ecclesia”,


de Madrid, órgão oficial da Ação Católica espanhola, no. 1423, de 11 de janeiro
deste ano, pp. 19-33.

Na apresentação do trabalho assim escreve a revista: “Chegou à nossa


Redação, com todas as garantias de seriedade e de procedência idônea, o exten-
so estudo que a seguir oferecemos aos nossos leitores sobre o pensamento e a
atuação de certos grupos chamados “proféticos”, que vão pululando nos diversos
ambientes de fora e de dentro de nossas fronteiras, no seio da comunidade cristã.
Julgamos prestar um bom serviço a nossos leitores com a sua publicação. Isso
porque, além do valor informativo das páginas que se seguem, podem elas evitar
em muitos espíritos um pernicioso confusionismo e prevenir contra possíveis erros
aos quais poderiam ser arrastados de boa-fé não poucos de nossos fiéis”.

Para não sobrecarregar a presente edição, deixamos para o número de


junho a publicação do tópico final desta matéria, relativo ao desenvolvimento e às
manifestações concretas dos “grupos proféticos” em vários países do mundo.

pais sustentáculos do “movimento profético”.


Advertência Preliminar O primeiro, enquanto fornece o conteúdo ide-
ológico e elabora as linhas a seguir; e a se-
gunda, enquanto, por sua extraordinária pene-
Este estudo não pretende dar uma vi- tração nos meios católicos, difunde e propõe
são exaustiva e total da “ideologia profética”, como exemplo as manifestações concretas
mas apenas assinalar os aspectos que nos pa- desse “movimento profético”.
receram mais relevantes e fáceis de verificar,
Examinamos em primeiro lugar alguns
e que, por sua vez, podem proporcionar uma
aspectos da “corrente profética” que se asse-
pequena ajuda para análises e estudos mais
melham notavelmente ao pensamento dos
completos e profundos. Trata-se, pois, de uma
“teólogos da morte de Deus”. Damos, a se-
modesta contribuição para um possível estudo
guir, uma breve informação sobre os “grupos
sobre as correntes ideológicas, de caráter reli-
proféticos”; sua missão, natureza, etc., e seu
gioso, mais freqüentes ou espalhadas no
desenvolvimento e manifestações concretas.
mundo, e de cuja influência e presença a Es-
panha não se encontra isenta. Resta-nos apenas tornar público o nos-
so agradecimento a todas as pessoas que cola-
Para a exposição dos dados que no
boraram na preparação deste trabalho, cujo
presente trabalho se transcrevem, tomados
valor revela, por si mesmo, a competência de-
como principal referência as seguintes fontes:
las e manifesta o ingente esforço que realiza-
o centro IDO-C e a revista “Informations
ram. Cremos, sinceramente, que prestaram
Catholiques Internationales” (que no texto
um excelente serviço à Igreja, o que, ainda
apresentaremos, para abreviar, sob a sigla
I.C.I.), ambos considerados como os princi-
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 55

que fosse só isto, já seria merecedor do nosso É bem de ver que esta estrutura tem
mais sincero reconhecimento. também seus riscos, que podem ser, entre ou-
tros:
Conteúdo, estrutura e manifestações
- desmembrar-se horizontalmente da
comunidade e transformar-se num
I . Introdução “ghetto” com complexo de elite;
1 . Os pequenos grupos - viver e atuar à margem das neces-
sidades da comunidade eclesial,
Ao observar o panorama do apostola- constituindo um fator de desagre-
do leigo encontramos um fenômeno: o apare- gação na unidade da Igreja;
cimento e proliferação de pequenos grupos - desvinvular-se da Hierarquia, de
independentes, desligados de toda organiza- uma forma mais ou menos consci-
ção apostólica concreta 6. ente.
Se estes riscos forem superados – a-
Este fato pode obedecer, entre outras
través de uma conexão com as comunidades
causas, à aspiração natural do homem moder-
básicas da Igreja (paróquia, etc.), e de uma
no – inserto em uma sociedade de massas, em
vigilante atenção e docilidade às orientações
que amiúde e de infinitas formas se sente des-
do Magistério (Papa, Bispos) – a fórmula será
personalizado, diluído – de integrar-se em pe-
perfeitamente válida e enriquecedora, e não
quenas comunidades onde, em um clima de
cremos que ofereça motivo algum de inquie-
cálida amizade, sua individualidade, sua per-
tação. Simplesmente coincide com tendências
sonalidade, seja reconhecida e valorizada, e
naturais que se inserem nos novos caminhos
encontre um meio de expressão através de
abertos pelo Vaticano II: o apostolado leigo.
uma participação responsável.
Contudo, esta nova forma de inserção
Junto a esta aspiração, é preciso assi-
do apostolado leigo na Igreja apresenta – em
nalar também a tendência – bastante saliente
um número crescente de casos – certas carac-
em alguns setores – a repelir toda estrutura
terísticas realmente alarmantes, que merecem
que implique numa organização complexa.
séria reflexão e estudo.
Deste ponto de vista, trata-se de ten-
Com efeito, dentro da estrutura flexí-
dências legítimas e respeitáveis, próprias de
vel dos pequenos grupos há alguns que se ca-
nossa época, que têm sua repercussão dentro
racterizam por determinadas constantes, que
da Igreja. Nela, e concretamente no campo do
os tornam inconfundíveis e os situam na órbi-
apostolado leigo, há uma multiplicidade de
ta de uma “corrente”, que corresponde a um
vocações, de opções, de formas, que são per-
sistema de pensamento e a certas atitudes
feitamente legítimas.
concretas. Esta corrente se autodefine como
Por isso, os pequenos grupos podem “corrente profética” 7.
ter sua razão de ser hoje em dia, e sua dinâmi-
Dela – tanto em suas idéias, como em
ca pode até oferecer um meio de canalizar se-
suas atitudes – participam, em maior ou me-
tores da Igreja até agora passivos, que não
nor grau e de maneira mais ou menos consci-
participariam de outro modo nas tarefas da
ente, todos os membros destes grupos.
evangelização.
Isto se deve a que – apesar de sua apa-
rente dispersão e variada fisionomia no âmbi-
to da Igreja Universal – os grupos estão liga-
6
I.C.I., no. 303, p 6, François Houtart: “É necessário descobrir, como fenômeno recente e dos entre si, tanto através de pessoas como de
em vias de aceleração, o aparecimento de pequenos grupos de leigos que às vezes tomam
verdadeira importância, e se estabelecem fora dos quadros oficiais, sem vínculo orgânico
com a Hierarquia, se bem que permanecendo dentro da Igreja”.

J. Grotaers: “Estruturas e comunidades vivas na Igreja pós-conciliar”, IDO-C, 15 de maio


de 1967, p. 14: “Desde há vinte anos assistimos ao nascimento espontâneo de inumeráveis
grupos de leigos que representam uma das formas do futuro do apostolado leigo em uma
7
sociedade secularizada”. J. Grotaers: conferência citada, pp. 14 e ss.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 56

idéias e técnicas comuns. Ligações que, na às exigências de um mundo secu-


maioria dos casos, não costumam ser percebi- larizado e de um laicato adulto8.
das por seus membros. 4. Por isso consideram absolutamen-
te necessário:
Entretanto, não quer isso dizer que a
“corrente profética” se reduza apenas a esses a) uma reforma radical, realizada pe-
grupos. São principalmente eles que a difun- la “Igreja carismática” (laical), dos
dem, porém a corrente em si os ultrapassa aspectos fundamentais da “Igreja-
amplamente, e chega a invadir setores cada instituição”: Magistério, teologia,
vez mais dilatados da Igreja Universal. moral, Sacramentos, liturgia, etc.;
b) a aceitação de que o único teste-
Assim, graças ao dinamismo e às efi- munho cristão válido diante dos
cazes técnicas de difusão que caracterizam homens é o “compromisso tempo-
seus membros, logram estes introduzir-se nos ral encarnado”, quer dizer, a cola-
seminários, organizações apostólicas, Ordens boração com marxistas e membros
Religiosas, centros de pastoral, imprensa e e- de outras confissões cristãs para a
ditoras católicas, congressos, onde pessoal- “libertação dos oprimidos e explo-
mente, ou através de figuras representativas rados”, recorrendo a toda classe de
do Clero e do laicato católico, realizam uma meios, inclusive a violência.
disseminação de idéias que são maravilhosa- 5. Distinguem-se por uma crítica a-
mente aceitas no clima de “aggiornamento” cerba:
pós-conciliar. - de todo apostolado vinculado à
Hierarquia, o qual consideram de-
2 . Suas características
fasado, superado e incapaz de sin-
Entre as características mais salientes tonizar com o mundo para dar uma
dos “grupos proféticos” encontram-se as se- resposta adequada às necessidades
guintes: de nosso tempo;
- do Magistério. O fundamento des-
1. Nascem esses grupos, de ordiná- tas críticas, que dirigem princi-
rio, não tanto por impulsos de uma palmente aos Bispos, e mesmo ao
vocação apostólica específica, Papa e ao Concílio, se funda na re-
quanto de uma confrontação mais sistência – segundo eles – do Epis-
ou menos visível com a Hierarquia copado da Igreja Universal a acei-
Eclesiástica, que os leva a separar- tar as novas idéias sobre a missão
se das organizações. da Igreja no mundo e o compro-
2. Constituem-se não como uma misso temporal.
forma a mais de apostolado, mas Estas características emprestam luz
como a única forma válida para para se compreender o mais profundo de al-
dar testemunho e apresentar “a gumas situações que se estão produzindo hoje
verdadeira face da Igreja”. na Igreja.
3. Consideram-se especialmente as-
sistidos pelos carismas do Espírito Por exemplo, muitos pensam que as
Santo – ao que atribuem sua as- tensões, as “crises” que ocorrem atualmente
sombrosa e “espontânea” prolife- no interior da Ação Católica de diferentes paí-
ração em todos os continentes – ses (França, Itália, Bélgica, Espanha, etc.) se
para cumprir uma missão proféti- devem simplesmente a discrepâncias entre o
ca. Missão que consiste em denun-
ciar a corrupção das estruturas da
sociedade e da Igreja e em apre-
sentar uma nova Igreja, adaptada 8
I.C.I., no. 303, p. 8, Gunnel Valquist: “Le réveil du prophétisme”: “Por toda parte tenho
encontrado a mesma coisa: de um lado, a “jovem Igreja” ou a “nova Igreja”, representada
por uma grande parcela de jovens, estudantes, operários e Sacerdotes. E, por outro lado, a
“Igreja estabelecida”, com sua Hierarquia à testa, com muito poucas exceções, salvo o ca-
so da Holanda, onde o Episcopado teve a coragem de assumir também a responsabilidade
da jovem Igreja”.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 57

Episcopado e os dirigentes mais “dinâmicos” Para descobrir “os sinais dos tempos”
a respeito da forma concreta de adaptação dos utilizam as modernas técnicas de investigação
princípios fundamentais do apostolado leigo, social: sociologia e estatística. Esta utiliza-
formulados pelo Concílio, a diversas situa- ção, que é necessária, padece, neste caso, de
ções e países. alguns vícios fundamentais:

A realidade é bem diferente. O que é Por um lado, prescinde-se de qual-


objeto de polêmica são esses mesmos princí- quer outro tipo de realidades que não pos-
pios fundamentais. O que está em jogo é a es- sam ser captadas ou explicadas através
sência mesma do apostolado leigo em seu destas técnicas. O resultado é que, exorbitan-
conjunto. Não se trata de fazer um rigoroso do de um realismo necessário, utilizam-se ex-
reajuste das estruturas da Ação Católica, nem clusivamente critérios sócio-políticos ao foca-
do acesso de outros movimentos a um nível lizar as realidades da própria Igreja, o que de-
de diálogo institucionalizado, nem do reco- semboca fatalmente em um relativismo.
nhecimento de outras formas de apostolado
mais flexíveis. Com a agravante de que muitos dos
inquéritos que promovem não se limitam a
Decididamente, trata-se da vinculação sondar e recolher uma opinião, mas estão
ou separação com referência à Hierarquia E- claramente dirigidos a CRIÁ-LA em um
clesiástica, segundo esta aceite ou não deter- determinado sentido que interessa ao pes-
minados compromissos temporais. E isto afe- quisador. As perguntas costumam ser elabo-
ta todos os setores do apostolado leigo, orga- radas de tal forma que põem o entrevistado na
nizado ou não. alternativa de decidir-se por algo de arcaico e
superado ou pela resposta exata que os pes-
Esta separação é uma das característi- quisadores querem obter e que sempre se a-
cas da “corrente profética”. Seu objetivo a presenta como “a atraente”. O resultado é ób-
curto prazo é “a libertação de estruturas de- vio: diante de algo que se faz de forma apres-
masiado pesadas”, a qual consiste em repelir sada e sem tempo para refletir, ou versando
o mandato hierárquico e criar “grupos proféti- temas que não se conhecem a fundo, preferi-
cos” comprometidos na ação temporal. mos todos hoje em dia passar por “avança-
dos” e não como “retrógrados”.
Por trás desta fórmula inicial – que
pretende aparecer como uma reforma necessá- Por outra parte, dá-se a estas ciências
ria das estruturas do apostolado leigo organi- um valor tão absoluto, que de indicativas se
zado, na linha conciliar, para seu melhor en- convertem em normativas. Ao apontar cer-
quadramento numa sociedade secularizada – tos fatos, sublinham “o que é”, e diante disto
está latente, entretanto, uma nova concepção não cabe sequer cogitar “o que deveria ser”;
da Igreja que opõe, de fato, a “Igreja comuni- simplesmente, “o que é” é igual a “o que de-
dade de homens” à “Igreja instituição”, e o veria ser”.
“profetismo leigo” ao Magistério eclesiástico.
Já não se trata de que estas ciências
II – Conteúdo Ideológico da cor- possam indicar-nos, entre outras coisas, “os
rente profética sinais dos tempos”, senão que indefectivel-
mente tudo o que elas indicam são “os sinais
1 . Visão do Mundo dos tempos” (no sentido de um “sinal” que
deve ser recolhido e aceito pela Igreja).
Em primeiro lugar, dedica-se um es-
pecial interesse ao descobrimento da realidade Em conseqüência, tudo o que elas in-
do mundo atual, como pressuposto indispen- dicam são “processos inelutáveis”, que não
sável para a desejada adaptação da Igreja a es- admitem oposição nem reajuste, mas que, pe-
tas realidades. lo contrário, impõem uma mudança e uma a-
daptação. À vista disso, como veremos mais
adiante, não se deve tentar, por exemplo,
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 58

“ressacralizar o mundo”, mas “dessacralizar a A figura do ateu adquire aos olhos de-
religião”9. les uma nova dimensão. Não se trata de uma
pessoa diminuída e incompleta, como se nos
O ateísmo e secularização fez crer repetidamente. Pelo contrário, apare-
ce amiúde como um homem “de elevada esta-
Como resultado deste estudo do mun- tura” que “caminha na vanguarda”, que tem a
do, encontram-se eles diante de um fato evi- coragem de viver encarando seus problemas e
dente: o fenômeno maciço do ateísmo. Esta os do mundo, sem a ajuda de “Um Deus su-
realidade inegável se generaliza e radicaliza porte” ou “um Deus explicação”.
de tal forma, que chegam à conclusão de que
o homem é hoje essencialmente ateu, repele Esta admiração leva-os a se pergunta-
toda religião e só admite ajuda para promo- rem em que se diferencia um cristão de um
ver-se cultural e socialmente. Aprofundando ateu. Sua resposta é desconcertante: - “Várias
as causas do ateísmo, resumem-nas dizendo vezes temos tocado neste ponto, nas discus-
que se trata de um fenômeno coerente e lógi- sões, sem haver obtido respostas satisfatórias”
co e que corresponde em sua totalidade ao 11
.
“contra-testemunho” dado pelos cristãos, tan-
to individual, como comunitariamente. A valorização do ateu estende-se tam-
bém ao ideal moderno e ateu do mundo; um
- “O mundo não é ateu por sua cul- ideal que consideram ter alcançado metas di-
pa, mas por nossa culpa”. ante das quais os cristão temos fracassado es-
- “Fizemos de nosso Deus e de nos- trepitosamente, e que cedo ou tarde acabará
sa Igreja um espantalho, o qual é por se impor.
lógico que desprezem aqueles que
amam a sinceridade, a liberdade, a Essa sensação de frustração, junto com
responsabilidade, e ao qual contu- a valorização da eficácia imediata, é a causa
dopermanecemos fiéis, para ver- do deslumbramento deles diante do marxis-
gonha nossa”. mo, que os leva a aceitar uma colaboração es-
- “Desfiguramos de tal modo a face tável nas tarefas de transformação da socieda-
da Igreja, que Ela não pode ser a- de, especialmente no campo sindical e políti-
ceita pelos homens”. co.
- “Em lugar de apresentar um Deus A conclusão desta análise é que o ate-
vivo, encarnado, realista, nós cris- ísmo não é, afinal, senão um processo de se-
tãos alimentamos com tanta fre- cularização.
qüência de lendas e mitos religio-
sos, que temos sido incapazes de Seu conceito de secularização não se
convencer” 10. limita a:
Por outro lado, afirmam que o ateísmo
- reconhecimento da autonomia das
pode tornar-se um fato positivo: mais do que
leis naturais;
de “perda de fé”, dever-se-ia falar de um pro-
cesso de purificação e de maturidade. O - valorização, em justa medida, das
homem de hoje, liberado pelo progresso cien- realidades temporais, sem referên-
tífico de um estado ancestral de mitificação, cias ou explicações pseudo-
substitui os mitos religiosos por algo mais ra- sagradas ou pseudo-religiosas;
cional, portanto mais em consonância com - supressão dos abusos em que o
sua natureza. homem e o cristão tenham podido
cair em determinadas épocas ou si-
tuações; mas entendem a secula-
rização como uma supressão radi-
9
O Pe. Congar assinalou e refutou esta idéia em sua conferência “O apelo de Deus” diri-
gida ao III Congresso Mundial do Apostolado Leigo, celebrado em Roma em outubro de
1967. O texto integral desta conferência foi transcrito na obra de Congar “A mês frères”,
Editions du Cerf, 1968, capítulo III, pp. 77-104.
10 11
L. Evely : “Uma religião para nosso tempo”, pp. 27-28. L. Evely: obra cit., p. 31.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 59

cal, por defasagem, de tudo o que Por isso tratam de justificá-la


signifique sinal ou presença, no
mundo, de outras realidade de or- 1. enquadrando-a em um clima de
dem superior às puramente huma- profunda inquietação pela so-
nas, naturais, comuns a todos os brevivência da Igreja, à beira –
homens e aceitáveis por todos 12. segundo eles – do fracasso “por
Neste mundo secularizado, a única haver traído sua missão”;
possibilidade de aproximação da 2. considerando-a sinal inequívoco
Igreja ao homem encontrar-se-á na de vitalidade, em uma Igreja de
realização de um humanismo co- adultos que superou a fase de
incidente com o que praticam ou- “passividade bovina” dos leigos15 .
tros grupos de diferente sinal. A Por outra parte, como se baseia algu-
conseqüência da análise deles é, mas vezes em fatos certos ou meias-
portanto, que a Igreja tem que ser verdades, essa crítica é aceita facilmente,
objeto de uma reforma drástica, chegando a ser assimilada até em seus aspec-
para estar em condições de adap- tos mais corrosivos.
tar-se ao mundo atual que dela e-
xige: Longe de impelir a quem a escuta à
- novos compromissos; edificação da “nova Igreja”, esta crítica con-
- novas estruturas; duz em muitos casos a uma situação de
amargura, frustração e ressentimento, que
- um novo conceito de evangeliza-
termina na ruptura total com a comunida-
ção 13.
de eclesial 16.
2 . Crítica da Igreja
Os promotores da “corrente profética”
O pressuposto indispensável para a dão-se conta desta realidade, porém não se
edificação da “nova Igreja” é a crítica, por- abalam. Segundo eles, os que não são capazes
que: de superar este choque e depurar sua fé, per-
tencem às “massas alienadas” que cedo ou
1. traz a convicção de que a corrup-
tarde se irão afastando, ficando assim a Igreja
ção atual da Igreja exige uma reduzida a uma pequena minoria sem triunfa-
mudança radical; lismos nem manifestações de poder 17.
2. evidencia que a reforma tem que
partir dos leigos, porque nada há Todo o passado da Igreja, analisado
que esperar da Hieraquia. com critérios sócio-políticos, é julgado de
Esta crítica – acompanhada, em certas maneira desapiedada e negativa.
ocasiões, por atos clamorosos de “contesta-
Para eles a Igreja começa a corromper-
ção” (protesto global) – desperta com fre-
Se a partir de Constantino, e todo o seu de-
qüência certo receio pelo seu radicalismo 14.
senvolvimento posterior foi condicionado por
esse fato.

Assim, uma Igreja escondida, de cata-


12
Uma manifestação concreta e expressiva disto é, talvez, junto com o esquecimento ou cumbas, se converte em:
desprestígio dos mártires cristãos, a exaltação dos “santos laicos”: homens sem fé, mas
com uma “mística laica”, que os leva a entregar a vida por uma causa humana.

Alceu Amoroso [Lima], membro da Comissão Pontifícia Justiça e Paz, escreve em um arti-
go intitulado “A propósito das vítimas da violência: Camilo Torres, Che Guevara e Régis
Debray (I.C.I., no. 301, p. 21): “Posso louvar sem receio o heroísmo destes três homens
pouco comuns: um Sacerdote, um filósofo e um médico... Não posso negar que estas três ví-
15
timas da violência representam, em nossa época de pragmatismo tecnológico, não somente I.C.I., no. 319, p. 1, editorial: “A autoridade do Magistério pontifício é hoje objeto de ve-
um exemplo do que há de mais puro na natureza humana, a saber: a capacidade de sacrifí- ementes debates. Em vários países ouve-se falar de “crise de autoridade”. Nós não somos
cio por uma causa justa, mas também um protesto desesperado da dignidade humana con- indiferentes nem alheios a esse debate. Parece-nos inevitável e sadio em uma Igreja viva”.
tra o pessimismo, a falsa felicidade e a injustiça da civilização; contra a prosperidade fun-
16
dada sobre a justiça”. I.C.I., n0. 313-314, p. 15: “Vêem-se até grupos destes cristãos que abandonam a Igreja,
separam-se praticamente dela. Há movimentos de jovens cristãos comprometidos, nos quais
13
J. Grotaers: conf. Cit., pp. 14-16. já não se fala da Igreja, nos quais não se sente nenhuma angústia ante a situação da Igreja:
estes cristãos se mantém fora dela; conservando ainda a fé cristã, não vêem nenhuma razão
14
I.C.I., no. 321, pp. 11, 12, 13: “Os jovens irrompem no Katholikentag”. Ibid., no. 321, p. para permanecer nas comunidades cristãs”.
13: “Ocupação da Catedral de Parma”, Ibid., no. 319, p. 7: “Ocupação da Catedral do
17
Chile”. Ibid., no. 315, pp. 36 e ss.: “Les agitations de l’Eglise “contestatrice” à Lille”. Tex- G. Casallis, em I.C.I., no. 303, p. 8, cita a teoria de Robinson segundo a qual a Igreja de-
tos transcritos na Parte III – 4, deste estudo, “Desenvolvimento e manifestações concretas”. ve aceitar a morte como realidade social “para participar do aniquilamento de Cristo”.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 60

• uma Igreja enfeudada ao Estado sumir. Fracassamos na virada republicana


e triunfalista: o Cristianismo oci- democrática; fracassamos na questão social;
dental, mantido unicamente por fracassamos na questão bíblica... “. “O fracas-
sustentáculos oficiais e externos, so das missões católicas é tragicamente evi-
conduziu a uma religião mitifica- dente”.
da. A cristandade foi um produto,
não da fé, mas da alienação políti- “A questão da ciência moderna, da fi-
ca; losofia moderna, das técnicas modernas, é
coisa que temos ignorado ou menoscabado a
• uma Igreja dominada: - por um
ponto de parecer que não estamos no mundo”.
paternalismo providencialista; -
por um paternalismo clerical, que “A história deste dois últimos séculos
foi a causa do infantilismo dos lei- não é antes de tudo, como pensam muitos his-
gos; toriadores católicos, a revolução do homem
• uma Igreja regida por um Magis- contra Deus, mas a resistência empedernida
tério cheio de abusos e contradi- que alguns cristãos conservadores, preguiço-
ções, que não só não respeitou a sos e tirânicos, retardatários em política, em
autonomia da consciência indivi- economia, sociologia, ciência, filosofia, e
dual, mas também “constrangeu o mesmo em teologia, exegese, liturgia e Deus
mundo” obrigando-o a caminhar sabe quanta coisa mais, opuseram a todos os
conforme a “nossa verdade” 18; que queriam avançar” 19.
• uma Igreja desumanizada. Ao
fundamentar o amor aos homens As censuras recaem de modo especial
no amor a Deus, traiu o amor ao sobre os Bispos, já que, segundo os “proféti-
homem por si mesmo. “Para amar cos”, são os responsáveis pelo emperramento
o homem era preciso romper com da Igreja, porque “longe de comprometer-se
a Igreja”; com os problemas de nosso tempo constituem
o maior obstáculo para a renovação”.
• uma Igreja rígida e inflexível, que
nos momentos cruciais de sua his- Formulam suas acusações do seguinte
tória antepos suas estruturas ao modo:
“espírito”. “Na Reforma os protes-
tantes levaram consigo o Espírito 1- a maioridade e o dinamismo atual
Santo e a palavra. Nós ficamos dos leigos dá-lhes uma nova visão
com a hierarquia e o rito”; do testemunho e do compromisso
• uma Igreja estabelecida, com toda temporal;
uma rede de instituições e organi- 2- em uma sociedade secularizada é
zações “confessionais” que impe- utópico tentar a conquista dos am-
dem hoje o desenvolvimento de bientes por dentro, tal como pro-
um compromisso missionário pugnou Cardijn. Hoje o cristão de-
comprometido; ve aceitar a sociedade secularizada
• uma Igreja, enfim, que em toda a tal como é, mesclar-se com todos
sua história não pôde trazer qua- os homens, sem distinguir-se deles
se nada de positivo à humanida- em nada. Em conseqüência, é pre-
de: ciso rejeitar inteiramente as ações
ou grupos confessionais, isto é,
que levem a etiqueta de cristãos;
3- por conseguinte, o único compro-
“Há séculos que não fazemos mais do
misso temporal válido, o único tes-
que fracassar, e não pensamos senão em pre-
temunho, é o engajamento com

18
Nicolás Boulte, presidente da JUC francesa, em “Le Monde”, 3 de novembro de 1965
19
(ver anexo nos. 1-2) L. Evely: obra cit. Pp. 27-29.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 61

qualquer grupo que pretenda ele- • a Igreja não chegou a Se compro-


var a condição dos oprimidos. O meter. Insinuaram-se soluções,
compromisso tem que ser tão radi- mas sem aprofundar para chegar a
cal, que não vacile em chegar a suas últimas conseqüências. De fa-
uma revolução violenta 20; to, a Hierarquia não saiu de seu
4- a Hierarquia deveria apoiar esta tradicional imobilismo, salvo raras
nova concepção do compromisso exceções, e não se deu aos leigos a
temporal, e impulsionar as organi- ocasião de se expressarem ampla-
zações e adotá-lo, para não servir mente;
de obstáculo à marcha da História. • isso obriga os cristãos adultos a
Mas não o faz: - porque está defa- manterem-se em tensão e preparar
sada; - ancorada em posições supe- um novo Concílio, no qual uma
radas; - atada por compromissos ampla e dinâmica representação
constantinianos. leiga qualificada faça saltar a bar-
Sua atitude apolítica não é, no fundo, reira que separa a Igreja do mundo
23
senão “uma forma larvada de conservadoris- .
mo”. Seu quietismo pode ser interpretado co- As críticas ao Concílio se dirigem es-
mo “a aceitação da desordem estabelecida”. pecialmente ao Decreto sobre o Apostolado
Ao aferrar-se a estruturas arcaicas, como o dos Leigos, que consideram “um documento
mandato hierárquico, se opões, de fato, à re- conciliar de segunda ordem que não terá
novação do apostolado leigo 21. O ideal desta grande futuro”, e que deve sua existência à
situação é libertar as organizações do controle cobertura de Episcopados que queriam a todo
da Hierarquia. Mas amiúde isto não é possí- custo conservar as estruturas existentes (Ale-
vel, pelo que se impõe a necessidade de aban- manha, França, Espanha).
doná-las para constituir grupos flexíveis, com
plena liberdade de movimento à hora de as- Atribuem ao Decreto duas falhas im-
sumir compromissos temporais 22. Ver anexo portantes:
1 sobre “a crise da Ação Católica” francesa e
o nascimento da JUC. - a ratificação do mandato hierár-
quico;
Sobre o Concilio opinam que foi uma - o estabelecimento de uma dualida-
esperança, mas ficou de tal modo a meio ca- de temporal-espiritual hoje supe-
minho, que já está superado: rada.
Os juízos que eles fazem a respeito do
mandato são os seguintes:
- prejudica a noção de responsabili-
20
Revista “Croissance des Jeunes Nations”, no. 67, p. 24. dade do leigo na Igreja;
Em um artigo de Georges Hourdin (diretor de I.C.I.) sobre “A justa violência dos oprimi-
dos”, cita-se Arlino Souza (ex-coordenador de juventudes católicas). - o laicato a ele sujeito está destina-
Este, na revista “Tiempos Modernos” (abril de 1967), afirma: “Cristianismo e revolução do a ser um “interlocutor submis-
são conciliáveis... Dever-se-ia poder ser comunista e cristão... Cristão e guerrilheiro? ....
Por que não, se não há outro remédio?....” so” de uma Hierarquia que, em lu-
No Uruguai a revista “Víspera” (janeiro de 1968), dos estudantes de “Pax Romana”, dedi-
ca quase dois terços de suas páginas a Che Guevara, à revolução e à guerrilha, e não para
gar de chegar a um diálogo, pros-
colocar-se contra isso”. (I.C.I., no. 306, p. 6). segue seu monólogo;
“Carta aberta ao Papa”, da Confederação Latino-Americana de Sindicatos Cristão
(CLASC): “Quanto à revolução, o ponto mais importante não é o da violência ou não vio- - se há alguns dirigentes que o ad-
lência; o que cumpre fazer, simplesmente, é a revolução, até suas últimas conseqüências”.
(I.C.I., no. 321, p. 8). mitem, é “pelo prestígio e vanta-
Carta de oitocentos Sacerdotes do continente latino-americano ao Episcopado, pedindo gens morais que proporciona a
“uma ampla margem de liberdade na eleição dos meios mais aptos para libertar os povos
da violência passifa” (I.C.I., no. 321, p. 8).

Ver também Parte III – 3, deste estudo, “Manifestações concretas”: “França: A Igreja e a
revolução. A revolução na Igreja”.
21
J. Grotaers: conf. Cit., pp. 8, 11, 13.
22
Exemplo disso é o caso da JEC/F francesa na crise de 1965. Os dirigentes que se demiti-
ram para manter seus compromissos com a UNEF (União Nacional de Estudantes France-
23
ses, integrada na Internacional marxista UIE) fundaram um movimento – a JUC – que se I.C.I., no. 315, pp. 36 e ss. (transcrito na Parte III – 3). O movimento “Bíblia e Revolu-
autodefiniu como “profético”. (Ver anexo no. 1). ção” pede que “um próximo Concílio se efetue contando com a base”.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 62

submissão à Hierarquia”. (Ver no- zar e caracterizam a verdadeira Igreja do ver-


ta 19)24 . dadeiro Deus” 26.
A respeito do dualismo temporal- Para responder a estas críticas e seguir
espiritual 25: este programa, e para poder subsistir em um
- negam que a ação temporal tenha mundo secularizado – ateizado – a única pos-
que ser inspirado por princípios sibilidade que tem a igreja é a “forma proféti-
cristãos; ca”.
- negam que o apostolado leigo te-
Esta forma implica em um conceito
nha uma missão direta e propria-
revolucionário de Igreja:
mente evangelizadora . quando
muito, esta ação diretamente evan- - o requisito fundamental para per-
gelizadora só terá lugar quando os tencer a ela é amar o homem e comprometer-
problemas mais urgentes da hu- se na luta sócio-política por sua libertação. “O
manidade (fome, justiça, desen- principal para nós é nosso compromisso mili-
volvimento) estiverem soluciona- tante revolucionário”;
dos;
- identificam história da salvação e - o conceito que se tenha da religião
história cósmica, reino de Deus e (valor supremo ou alienação, a relação com
progresso da civilização. Acham Deus (negação indiferente ou ataque direto),
que o crescimento da humanidade a atitude perante o crente (respeito ou pro-
– segundo seu próprio movimento selitismo ateu), são questões secundárias;
– é o crescimento do Corpo Místi-
co de Cristo. - o que uma pessoa pense de Deus não
tem importância, desde que ela se preocupe
3 . Igreja-Nova com seus semelhantes. Na realidade, quem
ama o homem está amando a Deus, ainda que
O exame da situação e a crítica põem
creia estar lutando contra Ele;
da manifesto um fato evidente: que a Igreja,
tal como está, não é válida em um mundo no- - por isso, um ateu, um comunista que
vo. Portanto, se quer servir ao homem de ho- está lutando pelo homem, forma parte da Igre-
je, não tem Ela outro remédio senão “romper ja profética com maior plenitude do que um
suas estruturas e entrar na via da seculariza- batizado que não se compromete na luta revo-
ção”. lucionária.
Sentem-se eles chamados, portanto, a B ) Novos conteúdos
uma apaixonante tarefa: reformar a Igreja,
dar-lhe “uma nova face”. Esta reforma impli- Uma Igreja pobre, uma Igreja dos
ca em: - um novo conceito de Igreja; - com pobres
certos novos conteúdos; - uma radical revisão
de alguns aspectos concretos; - e uma demo- 1 – A primeira riqueza de que deve
cratização, como único meio de realizar tal re- ser despojada a Igreja é “a insuportável su-
forma. ficiência de possuir a Verdade” 27.
A ) Novo conceito de Igreja Durante séculos temos fabricado para
nós mesmos “um Deus explicação” de tudo
“As críticas, os apelos, as exigências quanto existe, “um Deus suporte” da debili-
dos ateus, traçam-nos um autêntico programa dade humana. Temos utilizado a religião co-
ao mostrar os traços que deveriam caracteri-

24 26
J. Grotaers: conf. Cit. Pp. 13 e ss. L. Evely: obra cit., p. 28.
25 27
J. Grotaers: conf. Cit., p. 9. L. Evely: obra cit., p. 28.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 63

mo morfina. Temos apresentado a Verdade “a escola confessional é um germe de


como um bloco monolítico e granítico. divisão que se opõe à fraternidade universal”;

Temos feito da educação religiosa “o ensino, em geral, deve ser laico,


uma couraça de proteção que nos tem coloca- neutro. As Ordens Religiosas que até agora se
do em uma atitude “ofensiva”: evitar de ser- têm consagrado a este trabalho limitar-se-ão a
mos seduzidos, conservando porém a capaci- exercer uma função puramente cultural, ado-
dade de seduzir. tando um gênero de vida laico”.

Em face desta suficiência superada – b ) As obras assistenciais da Igreja


que encobre um infantilismo larvado – impõe- (beneficentes, culturais, formativas, etc.) de-
se hoje um novo tipo de cristão maduro e vem limitar-se a atuar na linha de um simples
adulto: humanismo no qual se pratique a ajuda ao
homem pelo homem, sem nenhuma referência
- que sabe que não existe a Veredade, de tipo religioso 29.
mas “minha verdade e a sua verdade”;
c ) As organizações apostólicas en-
- que aceita a dúvida, a insegurança, a contram-se diante de uma alternativa:
obscuridade, a vacilação;
- ou substituir uma ação evangelizado-
- que caminha desarmado, vulnerável, ra defasada, por um compromisso temporal
nu, aberto, estendendo sua mão amiga a todos totalmente desconfessionalizado, isto é, por
os homens; um compromisso temporal revolucionário,

- que não provoca os demais com a ri- - ou desaparecer 30.


queza de sua fé e sua segurança.
d ) Os cristãos devem abandonar toda
Em uma palavra, um verdadeiro “po- ação política ou social que implique na defe-
bre”. Pobre é aquele com o qual todos se en- sa de uma concepção de sociedade conforme
contram à vontade, porque considera que não os princípios cristãos.
tem riqueza alguma para comunicar e está
sempre disposto a receber. Por conseguinte, deve ser repelido
qualquer tipo de partido político ou sindicato
2 – Do mesmo modo, a Igreja não se- confessional que impeça ou dificulte a união
rá pobre, não estará preparada para entrar pe- dos cristãos com os demais homens, especi-
la via da secularização, enquanto não se almente com os marxistas 31.
desprender de “suas catedrais”, de suas
instituições, de suas obras; enquanto não Igreja encarnada, dessacralizada,
abandonar toda manifestação externa, ma- desmitificada, antropologizada
ciça, organizada.
Reduzida a pequenas comunidades,
a ) Em conseqüência, a Igreja deve sem manifestações de poder, sem idealismos
desprender-se de suas instituições docentes nem triunfalismos.
em todos os níveis 28:
Comprometida na luta pelos pobres,
“a Universidade católica é um obstá- dando seus membros, exclusivamente, uma
culo para a evangelização”;

29
“Fêtes et Saison”, agôsto-setembro de 1967, no. 217 (dedicado integralmente à prepara-
ção do III Congresso Mundial do Apostolado Leigo), p. 9.
30
28
J. Grotaers: conf. Cit., pp. 14-16.
I.C.I., no. 321, pp. 31-32. I.C.I., no. 319, p. 18. “La Vie Catholique Illustrée”, no. 1156,
pp. 34 e ss.: “Ponho meu filho na escola leiga para que sua fé seja mais verdadeira. A cons- 31
J. Grotaers: conf. Cit., pp. 14-16.
tatação de outras confissões religiosas e do ateísmo em professores e alunos obriga-o cons-
tantemente a pensar na sua fé e depurá-la, reduzindo-a ao essencial”.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 64

resposta aos problemas da fome, da justiça, do Somente depois de quatro séculos, no Vatica-
desenvolvimento. no II, a Igreja reconheceu seu erro.

Afastada da filosofia do passado. Contudo, o Magistério continua opon-


Dando testemunho, não pela palavra e pelo do resistência à aceitação do “profetismo lei-
culto, mas pela ação e pelo compromisso go” com todas as suas conseqüências.
temporal: “justiça social e amor aos demais, e
nada de cultos idolátricos”. Isto torna necessário que os leigos u-
nidos reivindiquem, perante a Igreja institu-
Igreja livre, sem compromissos cons- cional, seu autêntico direito de fiscalizar as
tantinianos. Isto é, desvinculada totalmente do decisões últimas do Magistério; de tal manei-
poder temporal, de tal maneira que prescinda ra que este não possa adotar nenhuma atitude
não só de concordatas, mas de qualquer tipo que vá contra o sentir geral dos leigos 33.
de relação de caráter estável.
C ) Revisão radical de alguns aspec-
A colaboração e participação dos cris- tos concretos
tãos nos governos dos países capitalistas (oci-
dentais) considera-se como um compromisso Uma nova moral 34
com a “desordem estabelecida”, e deve ser
substituída por uma ação de oposição e guer- A moral tradicional do passado, casu-
rilha, procedente de uma Igreja “nas catacum- ística, impregnada de “tabus” e de sentido do
bas”. pecado, delimitada em normas concretas, de-
ve ser superada por uma nova moral, mais
Essa norma só é válida nos países oci- ampla e geral, para homens maduros, livres.
dentais. Nos socialistas, pelo contrário, a Igre-
ja enquanto Igreja, e os cristãos enquanto cris- O Cristianismo é apenas uma atitude
tãos, devem colaborar com o regime de sua vital, uma ética que emana da consideração e
nação e ocupar postos no governo. apresentação de Jesus Cristo como homem
perfeito, uma antropologia, uma moral social.
Especialmente os alemães têm uma
missão histórica providencial: servir de ponte A consciência individual, segundo a
entre o Leste e o Oeste, reconciliar as duas situação concreta de cada homem, tem prima-
Alemanhas através da reconciliação de cris- zia absoluta sobre qualquer norma objetiva. A
tãos e comunistas dentro da “Igreja profética”. Igreja não deve intrometer-Se ditando normas
32
. ou princípios gerais sobre problemas concre-
tos.
Igreja carismática
O Direito Canônico não deve ser re-
Conduzida e dirigida, não pelo Magis- formado, mas eliminado.
tério hierárquico, mas pelos “carismas” que se
manifestam preferentemente na Igreja laical. A moral cristã deve ser reformada pelo
leigo, não pela Hierarquia (Papa, Bispos, Sa-
Pelo fato de ser batizado, o leigo rece- cerdotes), que por causa do celibato e de seu
be do Espírito Santo certos carismas que es- afastamento dos problemas do mundo não es-
capam por si mesmos ao julgamento e à ava-
liação da Igreja hierárquica.
33
I.C.I., no. 303, p. 8 Marietta Peitz: “O problema das “duas Igrejas” se põe talvez mais
Esta independência foi posta de lado e na América Latina do que na Europa... No Peru encontrei um abismo trágico entre a Igreja
hierárquica oficial, onipotente, e uma juventude que luta só e está só. Encontrei apenas dez
sufocada na Igreja, especialmente a partir da Sacerdotes que compreenderam o que é a Igreja dos pobres: estão em oposição ao Nún-
cio”.
Reforma protestante e como reação conta ela. Esta idéia esteve muito presente em determinados setores do III Congresso Mundial do A-
postolado Leigo (Roma, outubro de 1968).

Em apoio desta teoria um dos textos mais utilizados é a recente obra de Hans Kung, “A I-
greja”, especialmente o capítulo dedicado ao estudo da “Igreja carismática”.
34
“Fêtes et Saisons”, agosto-setembro de 1967, no. 217, pp. 12 e ss.: “O essencial é amar,
e ordenar o comportamento do amor. A moral conjugal não tem sentido para um casal que
32
Ver parte III – 3, “Manifestações concretas”: “Alemanha Federal. Alemanha Oriental”. se ame verdadeiramente... O pecado é não amar”. I.C.I., no. 319, p. 25.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 65

tão capacitados a enfrentar algumas das ques- ção e discussão dos leigos, todos os proble-
tões mais candentes. mas que atualmente se suscitam no mundo e
na Igreja (doutrinários, teológicos, políticos,
Os sacramentos sociais, etc.)37 .

A Criação e a Encarnação são os dois O vínculo matrimonial fica automati-


fatos fundamentais da história da salvação. camente rompido com o desaparecimento do
Através deles Deus purificou, dignificou e re- amor.
alçou de tal modo a matéria (o mundo) e o
homem, que estes são os dois únicos “sacra- Em caso de separação, o cônjuge ino-
mentos” importantes. cente deve ser autorizado pela Igreja a contra-
ir novas núpcias38 .
Tudo o que importe em acrescentar,
superpor algo a esta elevação do mundo e do Os votos religiosos supõem uma
homem, é sacralizar, mitificar, diminuir a au- “consagração” hoje superada, que separa do
tonomia da ordem do criado. mundo os que a realizam, alienando assim
grandes massas da Igreja. Eles despersonali-
Em conseqüência, os Sacramentos zam e desumanizam, criando o tipo de Religi-
cristãos não acrescentam nada de novo, ou a- oso fechado às realidades temporais. Sobretu-
crescentam muito pouco. E assim não se pode do, são as Freiras uma nota anacrônica na so-
dizer que o primeiro ato religioso do homem ciedade secularizada do século XX.
seja o batismo, mas, simplesmente, o seu nas-
cimento 35. O celibato cria um tipo de pessoa ta-
rada, assexual, realmente repelente. Deve ser
A administração do Batismo às crian- abolido e os Padres devem casar-se para evi-
ças representa um desrespeito à dignidade e à tar, desta forma, a consideração da sexualida-
liberdade da pessoa humana. Cada qual deve de e do matrimônio como algo de imperfeito.
decidir a respeito do batismo quando tiver
maturidade para entender os compromissos As causas do abandono maciço do sa-
que este Sacramento encerra. cerdócio, que hoje presenciamos, são:

A Penitência é posta em questão pelo - o desalento ante a lentidão das re-


cristão, já que, tal como se pratica, ela é algo formas sociais e eclesiásticas, por
de estranho e intolerável para o homem de ho- parte da Igreja;
je. Deve ser substituída por liturgias peniten- - o molde asfixiante de Padre que o
ciais coletivas. A única coisa que importa é Concílio ratificou: “Recrutar ho-
que o homem se reconheça pecador e adote mens jovens e generosos para me-
uma atitude de pecador. A acusação dos pe- te-los no molde do Padre como o
cados ao Sacerdote é um acréscimo, algo que define o Concílio Vaticano II aca-
inventamos por masoquismo, por afã de in- bará sendo uma ofensa à moral
corporar à nossa religião tudo o que seja de- pública”.
sagradável 36.
O termo “consagração” está superado;
A Missa purifica, justifica por si deve ser substituído pelo de “ordenação” e pe-
mesma o homem que se acha em pecado mor- la consideração do Sacerdote como funcioná-
tal, sem necessidade de confissão. rio ao serviço do povo de Deus e de todos os
homens.
As homilias coletivas são a melhor
maneira de levar à Igreja, na livre confronta-
37
I.C.I., no. 305, pp. 32 e ss. Alemanha Federal: “Como nos é impossível dialogar com
nosso Bispo, não nos resta mais do que uma solução: provocar a instituição. Como? Pro-
nunciando-nos a favor do Vietnã ou fazendo entrar a política na Missa”.
35 38
Citado por Congar em sua conferência ao III Congresso Mundial do Apostolado Leigo “Fêtes et Saisons”, no. 217, p. 35: “A Igreja tem falado demasiado à mulher resignação
(Roma, outubro de 1967). e sacrifício. O que supõe às vezes fugir ao esforço... Outros mestres aconselham hoje a esta
que repudie a fé cristã, ligada a esses valores mais ou menos deformados”. A Igreja deve
36
“Fêtes et Saison”, no. 217, pp. 14-18, e no. 218, p. 10. Inquérito: “Por que não querem admitir uma solução para o problema dos casais separados, aceitando a possibilidade de
confessar-se?” que tornem a casar-se as mulheres abandonadas por seus maridos”.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 66

As diferenças entre Sacerdote e leigo Celebram-se estas Missas em um cli-


devem ser superadas, dessacralizando-se as- ma de manifesta “dessacralização”: o Sacer-
sim a figura do Sacerdote ao considerá-lo co- dote prescinde de seus paramentos, consagra
mo “leigo ordenado”. pedaços de pão comum, do qual todos co-
mem, e vinho comum em uma taça grande, da
O Sacerdote dedicará somente meia qual todos bebem.
jornada ao seu ministério, empregando o resto
do dia em algum trabalho manual ou atividade A liturgia está sujeita à livre criação,
profissional. Isto por razões econômicas e de segundo a inspiração de cada um.
eficácia pastoral 39.
O templo não é necessário. Encontra-
O aspirante ao sacerdócio deve ser se a Deus nos homens, e não no templo.
formado nos “grupos proféticos”. Começará
assistindo como membro, para exercitar-se A igreja não deve ser considerada co-
mais tarde no diaconato e chegar por fim ao mo um lugar sagrado, como “casa de Deus”.
sacerdócio, depois de fazer estudos de teolo- Por ser “casa do povo de Deus”, o templo de-
gia em regime de externato. ve ser utilizado, a serviço do povo, para ou-
tros usos profanos (sala de leitura, conferên-
Portanto, os Seminários devem ser su- cias, reuniões...), e estar aberto a todos os
primidos 40. homens, sem discriminações ideológicas.

O culto e a paróquia 41 D ) A democratização 42

A paróquia deve prescindir de todas as O único meio para que a Igreja adqui-
atividades organizadas sob sua tutela: escola, ra esta “nova face” é “a democratização radi-
patronatos, obras de caridade, bibliotecas, cal”, já que, diante de uma Hierarquia sempre
clubes esportivos, etc. remissa, só a pressão dos leigos pode tornar
realidade as mudanças necessárias.
Isto não quer dizer que os cristãos de-
vam desinteressar-se de todas estas atividades Esta democratização da Igreja supõe:
e formas de ação. O que antes faziam como
membros da paróquia, eles o farão depois em 1 – que o “sensus fidelium” condicio-
instituições estatais, em colaboração com os ne de maneira efetiva as decisões da Hierar-
não crentes. quia;

A paróquia se fraciona em pequenos 2 – a criação de “órgãos institucionali-


grupos, cujos membros se integram livremen- zados” de leigos que: - sejam os únicos porta-
te, segundo suas afinidades e compromissos vozes do “sensus fidelium”; - tornem possível
temporais: “Eu não experimento o sentimento a existência de um autêntico “co-governo”,
de ser Igreja senão quando tomo parte em elaborando, paralelamente à Hierarquia, as
uma reunião restrita de amigos, na qual reza- decisões e orientações pastorais de toda a I-
mos e trabalhamos juntos, unidos por um mí- greja. Isto será possível quando se constituir
nimo de opções comuns”. uma organização mundial de leigos, com
força suficiente para colocar-se diante da Hie-
Os grupos se reúnem em casas particu- rarquia em pé de igualdade. As minorias pro-
lares, onde celebram a Eucaristia sentados ao féticas é que, por seus carismas, seu dinamis-
redor de uma mesa, depois de uma ceia fru- mo e sua situação nos postos-chave dos ór-
gal. gãos de captação da opinião pública da Igreja,
são chamadas a ocupar os postos representati-
vos nos órgãos de diálogo institucionalizados,
39
Roger Serrou: “Paris-Match”, no. 992, 13 de julho de 1968, pp. 88 e ss., “O Sacerdote
de amanhã já está entre nós”. I.C.I., no. 315, p. 11.
40
“Fêtes et Saisons”, agosto-setembro de 1967, no. 217, pp. 24-25.
41 42
“Fêtes et Saisons”, agosto-setembro de 1967, no. 217, pp. 8 e 19, Roger Serrou: “Blanco I.C.I., no. 315, pp. 11, 38 e 39. Ver proposta da delegação filipina no III Congresso Mun-
y Negro”, no. 2946, 19 de outubro de 1968, pp. 36-56. dial do Apostolado Leigo (Roma, outubro de 1968).
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 67

como porta-vozes das aspirações do povo de O pós-guerra é a hora dos movimentos


Deus; proféticos, que não tratam de conquistar os
ambientes, mas de aceitar a sociedade secula-
3 – a participação dos leigos na elei- rizada, adaptando-se a ela 43.
ção de cargos, especialmente dos Bispos. Se
os privilégios estatais neste terreno represen- Esta evolução natural explica sociolo-
tam uma ingerência inaceitável, tampouco é gicamente a assombrosa proliferação dos gru-
conveniente deixar esta questão nas mãos das pos proféticos não só na Europa (Alemanha
Conferências Episcopais, que poderiam ser Federal e do Leste, Bélgica, França, Itália,
igualmente sectárias; Espanha, Holanda, etc.) como também na
América do Norte e do Sul e nos países do
4 – acesso dos leigos à vida interna da terceiro-mundo.
Igreja, no que se refere à informação, mesmo
nas questões até agora reservadas às mais al- Nestes, o movimento profético está
tas esferas hierárquicas. A informação deve muito desenvolvido graças ao impulso dado
ser acessível em todos os níveis, mediante aos grupos “Ad Lucem”, com sede na França,
uma publicidade total. pelo seu dirigente internacional Louis Evely.

Estes grupos orientam sua ação para


III . Os Grupos Proféticos
os países asiáticos e africanos e contam, há
1 . Sua missão histórica segundo a vinte anos de seu nascimento, com membros
corrente profética em mais de vinte nações 44.

“O apostolado leigo organizado che- Atualmente são muitos os movimentos


gou hoje ao momento de sua libertação de es- de Ação Católica que evoluíram rumo ao pro-
truturas demasiado pesadas, ao momento da fetismo; e espera-se que outros tantos, entre
desencarnação temporal, para encontrar uma os quais se contam os da Espanha, sigam seu
forma profética com vistas a novos compro- exemplo muito em breve 45.
missos”.
2 . Natureza e estrutura
Por conseguinte, a evolução do apos-
tolado leigo no sentido da formação de grupos São grupos muito flexíveis, criados
proféticos é um fenômeno que se enquadra no pela influência de um leigo, um Sacerdote
processo de avanço inelutável da História, e “profeta” ou uma revista, e fortemente apoia-
que seria inútil querer deter. dos em nível internacional por organismos tão
potentes como o IDO-C.
Nesta evolução, a primeira etapa – an-
tes da segunda Guerra Mundial – foi a etapa (A revista IDO-C publicou em maio
das “obras católicas”, que pretendiam preser- de 1967 um número dedicado a uma confe-
var o mundo cristão do processo de seculari- rência de seu co-fundador, Jean Grotaers, na
zação. Nesta etapa se desenvolve a Ação Ca- qual este assinalava como a tarefa primordial
tólica unitária. dos participantes do III Congresso Mundial
para o Apostolado dos Leigos: libertar o apos-
Em um segundo momento, a Igreja tolado leigo de “estruturas demasiado pesa-
pretende passar à ofensiva, reconquistando os das”, desvinculando-se da Hierarquia “para
ambientes por dentro. Para isso nascem os constituir grupos proféticos”).
movimentos especializados. Estes movimen-
tos, porém – que alcançaram seu zênite de di- Nos “grupos proféticos” integram-se
namismo pouco antes da segunda Guerra indistintamente católicos, protestantes e mar-
Mundial – iniciam depois desta sua curva
descendente e começa-se a falar da crise da
Ação Católica”. 43
J. Grotaers: conf. Cit., p. 14.
44
L. Evely: obra cit., pp. 11 e 14.
45
J. Grotaers: conf. Cit., pp. 8 e 16.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 68

xistas, unidos por um compromisso temporal c ) As primeiras reuniões são orienta-


“encarnado” de interesse comum. das no sentido de atrair possíveis membros.
Adotam, em geral, a forma de uma “liturgia
Os membros dos “grupos proféticos” da palavra” realizada em um clima de amiza-
são homens e mulheres, solteiros ou casados, de, na qual tratam de temas tão atraentes co-
de todas as idades e condições sociais; em sua mo a caridade, a paz, etc., tendo por base lei-
maioria são técnicos de grande competência turas bíblicas, cânticos e a recitação de Sal-
que se dedicam a diferentes profissões e car- mos, acompanhados de um colóquio final.
reiras. Entre eles há Sacerdotes, mas estes tra-
balham como os leigos; são, segundo eles, d ) Depois se organiza e se propõe
“leigos ordenados”. uma convivência, para a qual se convidam as
pessoas mais “inquietas” e “impressionadas”.
Caracterizam-se por relações, não de Nesta convivência procura-se obter a “con-
paternalismo, mas de fraternidade, animados versão”, isto é:
por uma equipe profética na qual a distinção
entre o Clero e o laicato acha-se superada. - o reconhecer-se pecador por não
ter vivido a caridade e ter uma fal-
Não são grupos isolados. Na conferên- sa religião;
cia aludida, Grotaers falava de uma reunião - não basta um reconhecimento in-
de fim de semana na Bélgica flamenga., na dividual, é necessário tomar tam-
qual tomara parte; nela, os grupos de intelec- bém consciência dos pecados da
tuais participantes (vinte) ficaram ligados en- Igreja;
tre si. - é preciso humilhar-se e tomar uma
atitude pobre. Adquirir a consciên-
Tampouco se acham sempre à margem
cia de ser um pobre em uma Igreja
do apostolado organizado. Podem surgir e
de pobres;
constituir-se no seio das próprias organiza-
ções apostólicas. Neste caso sua missão con- - pedir perdão. Ao ser aceito na co-
siste em ascender aos órgãos diretivos para munidade pelos irmãos e começar
imprimir à organização o “sinal profético”. a mar, tudo fica perdoado.
e ) Há também um catecumenato. Pa-
3 . Reuniões e técnicos ra assistir a ele é necessário ir “em branco”.
Esquecer todo vestígio dessa falsa religião
a ) Cada grupo se constitui por meio superada. Isto é imprescindível para abrir-se
de um “profeta” – leigo ou “leigo ordenado” – aos demais e amá-los na nova Igreja. Se falta
com três ou quatro pessoas, de preferência esta plasticidade receptiva, o novo membro é
operários e estudantes. Também casais, etc. convidado de uma ou outra forma a abando-
nar o grupo.
b ) Numa primeira etapa busca-se com
grande interesse a “confessionalidade”, isto é, f ) Com relação ao Magistério e à Hie-
a cobertura real ou aparente da paróquia ou de rarquia, a atitude é evolutiva, de acordo com
qualquer outra organização ou edifício religi- um processo de radicalização:
oso ou apostólico. Inclusive, em certas ocasi-
ões, convida-se o Bispo para uma reunião, a - em um primeiro momento se omi-
fim de que abençoe a “obra”, permitindo que te toda referência a ela. A “carida-
ela se estabeleça na Diocese. Isto é necessário de”, a “paz”, etc., ocupam todo o
para não “espantar” os simpatizantes. “Ainda tempo, esgotam toda a matéria;
temos pouca força e é preciso contar com o - depois passa-se do uso de ridicula-
apoio do Bispo e do Pároco para dar os pri- rizar, através de brincadeiras ou
meiros passos, porém mais tarde se prescindi- chistes mais ou menos espaçados,
rá disto”. “Ninguém suspeita de nada, nin- a uma crítica totalmente negativa;
guém receia nada, porque isto nasce dentro da
Igreja”.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 69

- para terminar em um autêntico apostolado leigo desvincularam-se da


clima de confrontação, desvincu- Ação Católica, derivando para grupos de es-
lamento e oposição. trutura mais flexível, sem mandato, que proli-
g ) Nos primeiros contatos do grupo feram de modo incrível ( Grotraers, conferên-
insiste-se em que as reuniões não obedecem a cia citada, p. 12 ).
preparação alguma, nem existem praticamente
técnicas de ação. “Tudo é espontâneo, porque
Alemanha Oriental
unicamente atuam os carismas do Espírito
Santo”. Contudo, as reuniões litúrgicas são As experiências são particularmente
preparadas com antecedência, de tal maneira interessantes.
que se algum dos assistentes pergunta ou pro- Existem em primeiro lugar os “Cris-
põe algum tema não previsto, silencia-se ou tãos do Diálogo”. São pequenos grupos de
passa-se por alto. católicos que, abandonando a posição da Igre-
ja institucional, e opondo-se à maioria dos ca-
h ) Ocultam a vinculação de uns gru- tólicos, assumem “a grande missão” de ocu-
pos com outros, e negam a existência de diri- par postos no governo e colaborar com o re-
gentes nesta corrente que atribuem unicamen- gime, numa tentativa de tornar compatíveis
te ao Espírito Santo, de quem procede tam- com o Cristianismo os pressupostos da socie-
bém sua enorme difusão em toda a Igreja.
dade comunista. Ao atuar deste modo, crêem
i ) Unicamente os dirigentes dos gru- cumprir uma missão histórica providencial.
pos conhecem o conteúdo total da ideologia Junto a eles, os grupos da “Gossner
profética que vão deixando cair suavemente e Mission”, fortemente influenciados por Bo-
com muita precaução, sobretudo nas primei- nhoffer e pelos Padres-operários franceses da
ras etapas. Eles mesmos reconhecem que seus primeira hora, que pretendem demonstrar que
pontos de vista sobre a “nova Igreja” (o Ba- se pode ser cristão e viver em uma sociedade
tismo, a Confissão, e suas relações com o socialista, e mesmo tornar-se comunista sem
Magistério, o Papa, etc.) não são conhecidos deixar de ser cristão. Negam que o comunis-
senão por uma pequena parte dos membros de mo tenha que ser necessariamente ateu. Com-
seus grupos. batem duramente o abstencionismo dos cató-
licos fiéis ao magistério. O estilo de vida des-
tes grupos está na linha de muitos outros do
4. Desenvolvimento e manifestações Ocidente. Celebram também a Eucaristia em
concretas casas particulares, por considerar superado o
culto no templo.
Também os grupos “Studentengeme-
Holanda inden”, formados por protestantes e católicos,
O Centro “De Horstink”, que foi até dão prova de um grande “dinamismo” no
1965 Centro Nacional da Ação Católica, a- mundo estudantil. Reúnem estudantes, futuros
bandonou o “mandato” para converter-se em professores, humanistas e teólogos. Encon-
um “Centro de Comunicações entre a Igreja e tram-se, “como é natural”, numa certa oposi-
o Mundo”, que realiza seu trabalho em cola- ção à Igreja oficial. Seu compromisso implica
boração com protestantes e ateus ( Grotaers, em uma reforma teológica, especialmente nas
conferência citada, p. 11 ). relações Igreja-mundo, assim como na busca
de novos caminhos na celebração litúrgica.
Paralelamente a estes grupos, as “A-
Itália cademias Evangélicas” põem em questão a
O “clericalismo político” – que dá à tradição eclesiástica, em nome da “Igreja do
república um matiz confessional em virtude amanhã”. Em suas jornadas de estudo tratam
da concordata – freia a ação missionária. Nes- de todos os problemas possíveis e imaginá-
ta situação as vocações mais dinâmicas do
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 70

veis que tenham relação com o compromisso - mais democracia e publicidade na


“com a nova sociedade”. questão financeira das Dioceses;
Tanto estas academias como alguns - democratização da imprensa eclesi-
centros católicos de pastoral tentam chegar a ástica;
novas criações teológicas, partindo de consi-
- substituição do “Katholikentag” por
derações tais como “o Sacerdote como leigo e
um Concílio nacional como o da Holanda;
o leigo como teólogo” ( I.C.I., 15 de fevereiro
de 1968, pp. 30 e ss. ). - e criação de um “Kirchentag”, orga-
nizado em comum com as igrejas protestan-
tes.
Alemanha Federal O “Grupo 55” e o “Grupo de Muni-
Diante de uma Igreja “afogada e enre- que” trabalham em silêncio mas publicam a
dada no contexto sócio-político em que está revista mensal mais esquerdista do catolicis-
comprometida”, surgem pequenos grupos que mo alemão. É a “Werkhefte”, “revista para os
se esforçam em renovar as estruturas eclesiais problemas da sociedade e do Catolicismo”.
e tirar os católicos de seu “comodismo espiri- Em agosto de 1968 organizou um colóquio
tual e moral”. com os marxistas.
O movimento “Catolicismo crítico” ( Outro grupo é o dos “Universitários
chamado também “Kapo”, oposição católica do Rühr”. A paróquia de estudantes católicos
extraparlamentar ) nasce em 1968 do reagru- de Bochum está muito unida aos protestantes.
pamento de várias associações, entre as quais Um estudante de teologia diz: “Como nos é
“Pax Christi”. Propõe-se como fim renovar e impossível dialogar com nosso Bispo, não
democratizar a Igreja. Seu pensamento se diz resta mais do que uma solução: provocar a
inspirado nas teorias do teólogo de Münster J. Instituição. Como? Pronunciando-nos a favor
B. Metz, segundo as quais a Igreja deve de- do Vietnã ou fazendo entrar a política na Mis-
sempenhar um papel crítico ante a sociedade. sa”.
Seus membros intervieram no 82º Em outubro de 1967 fundou-se um
“Katholikentag”, celebrado em Essem de 4 a “Grupo de trabalho democrático e católi-
8 de setembro de 1968. Nele, sua crítica e sua co” sob a presidência de um professor, um
ação – como a dos “grupúsculos” franceses do jornalista e um estudante. Este círculo propõe-
mês de maio nos meios estudantis - encontra- se a democratização do pensamento e das es-
ram um terreno favorável. Unidos aos repre- truturas da Igreja Católica, ou, ao menos –
sentantes da BDKJ ( Federação de Associa- como diz Hans Friemund, que trabalha na rá-
ções Católicas de Jovens, “antes conhecida dio Berlim – “fazer ver a urgência desta de-
por sua docilidade” ), pediram: mocratização” ( I.C.I., nº 325, pp. 11-13 ).
- a crítica em face da autoridade;
- a dissolução das relações Igeja- França
Estado;
A Igreja e a revolução
- democratização do ensino e supres- ( I.C.I., nº 315, pp. 36-40 ).
são do ensino confessional;
Com base nos acontecimentos de maio
- contatos com o Leste; os cristãos de esquerda acusam a Igreja insti-
- uma revisão fundamental, por parte tucional:
do Papa, da doutrina sobre o controle de nas- - de não se comprometer realmente
cimentos, isto é, sobre a “Humanae Vitae”; com os acontecimentos;
- supressão do “imprimatur”; - de não ser revolucionária, em virtude
- supressão da regulamentação sobre do fato de que “as Igrejas estabelecidas dão
os matrimônios mistos; objetivamente apoio aos regimes capitalistas”;
“sua estrutura é alienante”.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 71

Os “grupúsculos” organizam nume- O assistente da cadeira de Geografia


rosos debates públicos sobre “os cristãos e a da Faculdade de letras, Sr. Jean Pierre An-
revolução”. Um destes foi organizado em 8 de grand, abriu o debate e expôs o porquê e o
junho na “Sorbonne livre” pela Irmã Maria como da assembléia. Partindo dos pontos que
Edmon, auxiliar e diretora da revista “Echan- passamos a enunciar:
ges”, a apedido do CRAC ( Comitê Revolu-
- “desde há trinta anos, e particular-
cionário de Agitação Cultural ), sobre o tema:
mente graças ao desenvolvimento dos movi-
“De Che Guevara a Jesus Cristo”.
mentos de Ação Católica, nós, cristãos, esta-
A revolução na Igreja mos presentes no mundo, participando da vida
( I.C.I., ibidem ). social, econômica e política da nação”;

Os cristãos de esquerda “contestam” ( - “esta presença permite-nos viver em


protesto global ) as estruturas eclesiásticas; contato com pessoas não crentes e com cris-
esta “contestação” reveste formas variadas, tãos “marginalizados”, que não praticam”;
desde as extremamente revolucionárias até as - “nós nos perguntamos: por que estes
mais “dialogantes”: cristãos se acham nos limites ou fora da Igre-
ja? Não haverá alguma causa dentro da pró-
1 – O movimento “Bíblia e Revolu-
pria Igreja ( administração, mentalidades, es-
ção”:
truturas, de leigos e clérigos )?”;
- quer suscitar assembléias populares
- “consideramos um dever vir hoje a-
fora das horas de culto;
qui para pôr a nós mesmos esta questão. To-
- pede “que um próximo Concílio se dos podereis intervir..., mas sem acusações ou
realize contando com a base”; pedido de justificação. Pedimos aos Padres
2 – A federação dos grupos “Te- que ouçam pacientemente sem dar resposta
moignage Chrétien”: alguma, em nome próprio ou da Igreja. Nesta
noite não vamos responder nada”;
Esta federação “alegra-se” de que haja
“contestação” também na Igreja, e faz uma - “apresentaremos um dossier para re-
proposta concreta: a criação por eleição, em fletirmos todos juntos. Vamos iniciar um tra-
todos os níveis da comunidade cristã, de con- balho de busca – que não se deve bloquear
selhos de leigos dotados de grandes poderes com perguntas prematuras – para ver a causa
de organização e orientação. de nossas dificuldades”;

3 – Assembléia celebrada na Igreja - pouco a pouco foi-se analisando tu-


de São Pedro e São Paulo de Lille: do: o quadro, já superado, da paróquia; os
movimentos de Ação Católica dirigidos pela
Formou-se uma equipe de trabalho Hierarquia, cujas estruturas é preciso modifi-
com o fim de procurar novas estruturas que car para dar maior responsabilidade a seus
permitam descobrir as causas do mal-estar membros; o compromisso temporal-político
reinante na comunidade eclesial. do cristão e da igreja como tal;
Uma vintena de cristãos, homens e - “pode um cristão comprometer-se
mulheres, médicos, engenheiros, economistas, com um movimento político de extrema es-
sociólogos, estudantes, catedráticos, convoca- querda?” A isto se respondeu que “a Igreja
ram uma assembléia tão heterogênea como deve comprometer-se muito mais”;
numerosa para propor uma questão: - a Igreja
é em Si mesma um obstáculo para o cumpri- - “põe-se em questão a estrutura pira-
mento de sua missão? Por que? De que mo- midal da Igreja. Pede-se a participação dos
do? leigos “na base”, mas também nos postos
mais elevados: Bispos e – por que não? – Pa-
O Pároco, apesar da oposição de uma pa”;
parte do Clero paroquial, deu seu consenti-
mento e o Bispo sua autorização.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 72

- as opiniões estiveram muito dividi- Ouviram-se algumas intervenções por


das. Uns consideravam maravilhosa a assem- parte de cristãos sobre “os profundos trauma-
bléia; outros não; tismos” provocados pelas “estruturas eclesiais
superadas”.
- “é uma pena que este movimento de
“contestação” não tenha existido antes, para 5 – Debates públicos no Instituto
influir no Concílio”; Católico de Paris:
- “esta reunião – disse um pastor pro- Pediu-se que se desenvolvesse no
testante – é perigosa, caso não se confie ver- Instituto Católico “um movimento em coerên-
dadeiramente na palavra de Deus...., porque cia com o movimento da Sorbonne”, e mais
se se trata só de pensamentos humanos, pode- geralmente “que fossem postos em prática, no
riam estes levar-nos longe demais”; interior da Igreja, os princípios que reconhe-
cemos válidos para a “contestação” da socie-
- os dirigentes da assembléia promete-
dade”.
ram um “cahier de doléances” da Igreja.
6 – Grupos de estudantes da Facul-
4 – Debate permanente organizado
dade de Teologia protestante de Paris:
em Paris – durante os acontecimentos de
maio – no “Centro de Saint-Yves” de estu- Protestam contra:
dantes católicos de Direito, dirigido pelos - uma teologia que se centra exclusi-
Dominicanos: vamente sobre o ministério pastoral;
Na fachada, um grande cartaz: “Estu- - que não faz mais que confirmar as
dantes, trabalhadores, a revolução e os cris- contradições do sistema capitalista, do qual
tãos”. participa a instituição eclesiástica;
Participam dos debates abertos, da - põem em questão as estruturas da so-
mesma forma que na Sorbonne, estudantes, ciedade ( Igreja ) “que busca os quadros alie-
jovens operários, pessoas de idade adulta e de nantes de que necessita para sobreviver” . A-
diferentes ambientes, não crentes, e, às vezes, prendemos isto nas barricadas, de um modo
os transeuntes que ao passarem se interessam. definitivo;
Fala-se: da atitude dos cristãos em fa-
7 – Grupo ecumênico de catorze Sa-
ce dos acontecimentos, das relações entre
cerdotes, pastores e leigos de Paris:
marxistas e cristãos, da necessidade da revo-
lução. Lançam um apelo aos cristãos pro-
pondo-lhes que “se agrupem segundo as inici-
Um antigo dirigente de movimento es-
ativas que julguem mais adaptadas e eficazes,
tudantil cristão se apresentou como revolu-
para definir, na maior liberdade, e para criar
cionário “par état” e denunciou ante os pre-
as condições para esta renovação da existên-
sentes:
cia cristã” ( I.C.I., nº 313-314, pp. 21 e ss. ).
- a alienação religiosa;
- o fato de que a Igreja é cúmplice do
Itália
imperialismo e do capitalismo;
Ocupação da Catedral de Parma (
- falou da morte de Deus e proclamou I.C.I., nº 325, p. 13 ):
que só importa “Jesus Cristo, morto e ressus-
Os participantes explicaram assim o
citado”.
objetivo da ocupação:
- “a Hierarquia não serve para nada, e
- não queremos que a Igreja de Santo
o Papa faria bem em dizê-lo e ir-se embora”,
Evasio, atualmente em construção em um
disse.
bairro periférico da cidade, seja construída
Um sacerdote disse também: - tudo com os fundos da Caixa Econômica ( Cassa di
pode ser “contestado” na Igreja, menos Cris- Resparmio );
to; assim como tudo pode ser “contestado” na
sociedade, menos o homem.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 73

- não aceitamos que um Sacerdote seja - as boas palavras a que não se seguem
transferido sem consulta aos fiéis diretamente efeitos positivos,
afetados;
- a convivência da Igreja institucional
- denunciamos o desequilíbrio existen- com os poderosos,
te nas situações econômicas respectivas dos
- a opressão da Igreja sobre as consci-
Sacerdotes da Diocese;
ências,
- opomo-nos a que se continue a gastar
- a condição do Sacerdote.
dinheiro na manutenção do semanário católi-
co diocesano, subproduto do clericalismo “Como não acreditamos nas possibili-
burguês; dades de diálogo na Igreja, recorremos a um
gesto violento: a ocupação da Catedral”.
- consideramos urgente reformar os
seminários para que deixem de produzir Sa-
cerdotes subcultos; México
- constatamos com dor que estas situa- Quarenta e oito organizações de leigos
ções intoleráveis são a conseqüência lógica da mexicanos pedem a reforma das estruturas e
Igreja entendida como autoritarismo e apoio da autoridade da Igreja. “O estilo da vida ca-
do poder constituído. tólica não dá lugar à honestidade, à crítica, à
discussão aberta e pública” ( I.C.I., 1º de se-
tembro de 1968, p. 7 ).
Chile
Ocupação da Catedral de Santiago Uma formação estudantil em
do Chile ( 2 de agosto de 1968 ):
escala mundial
Uns duzentos cristãos, que se declara-
ram membros do movimento “Jovem Igreja”, ( I.C.I., nº 313-314, junho de 1968, pp.
celebraram a Eucaristia entre si e depois pro- 14-15 ).
moveram uma entrevista coletiva à imprensa. Pequenas minorias de caráter “caris-
No dia 13 de agosto os ocupantes ex- mático” e “profético” arrastaram à agitação as
plicaram o sentido de seu gesto, em um mani- massas de estudantes em todo o mundo.
festo publicado no jornal comunista “El Si- Os diferentes pretextos de ordem ma-
glo”, sob o título: “As estruturas da Igreja im- terial ou moral, que constituíam o ponto de
pedem o compromisso com o povo e com sua partida desta agitação – falta de locais, falta
luta”. de liberdade acadêmica, escassez de professo-
O manifesto é um requisitório “contra res, protestos contra o racismo, a guerra do
a estrutura do poder de dominação e de rique- Vietnã, o autoritarismo do Estado, etc. - fo-
za, na qual se exerce freqüentemente a ação ram constituídos por um sentimento revolu-
da Igreja, e contra a mentalidade das organi- cionários mais geral: a “contestação” global
zações que condicionam e adulteram o traba- da sociedade.
lho da Hierarquia Eclesiástica”. Esta “contestação” da sociedade civil
É ao mesmo tempo um arrazoado: inclui também a “contestação” das estruturas
atuais da comunidade eclesial.
- em prol de uma estrutura evangélica,
E isto ocorre também tanto nas Uni-
- de uma igreja pobre, livre, aberta ao
versidades católicas como nas Faculdades de
homem.
Teologia católica e protestante.
Tudo é objeto de crítica e “contesta-
Por toda parte, mas sobretudo na A-
ção” ( protesto global ):
mérica Latina, os estudantes revolucionários
- o Congresso Eucarístico, adotam “uma forma de renovação marxista”.
- a viagem do Papa, Sem excluir os estudantes cristãos, que, como
todos, chegaram a ver num marxismo renova-
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 74

do ( científico, mas recusando a ortodoxia de se fala da Igreja, porque a Igreja não importa.
Moscou ) a única força viril capaz de afrontar Ainda que digam conservar a sua fé, não vê-
a revolução. em já razão para permanecer nas comunida-
Os cristãos, partindo da mesma análise des cristãs.
da situação e das mesmas reflexões que os Ante a recusa da Igreja de autorizar o
marxistas, passam a tomar parte nos mesmos compromisso político dos movimentos de es-
compromissos. tudantes cristãos como tais, os elementos
Não crêem que seja preciso assumir mais dinâmicos destes movimentos saem da
“uma atitude cristã específica” perante os a- Igreja.
contecimentos. Na Europa as juventudes estudantis
Não vêem contradição entre o mar- cristãs estão ainda absorvidas por suas rela-
xismo científico e sua fé cristã. Pelo contrário, ções jurídicas com a Hierarquia Eclesiástica,
pensam que sua fé tomará neste combate re- mas em alguns países ( entre os quais a Espa-
volucionário uma nova forma de expressão. nha ) começam já a refletir séria e abertamen-
te sobre os problemas atuais de nossa socie-
Entre eles há grupos que se separam dade.
praticamente da Igreja. Há movimentos de jo-
vens cristãos comprometidos, nos quais já não
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 75

IGREJA ENGAJADA E “DESALIENADA”


IGREJA SACRAL E “ALIENANTE”

Dois operários franceses, inteiramente “engaja-


dos” nas coisas temporais, estão postos em seu
trabalho: um entregador de mercearia, e um pe-
dreiro. Na realidade são Sacerdotes estilo Igreja-
Nova, e portanto dessacralizados, que se apresen-
tam sem nenhum dos sinais de sua sublime mis-
são.

Lance de agitação estudantil marcusiana? À


primeira vista, parece que sim. Na realidade,
trata-se de um aspecto do “sit-in” de 130 Pa-
dres que protestam em Washington contra o
fato de colegas seus haverem sido punidos
pela Autoridade Eclesiástica. A cena é emi-
nentemente dessacralizada. O episódio mere-
ce todo o aplauso dos “grupos proféticos” da
Igreja-Nova, contrários a toda forma de puni-
ção e subordinação, ou seja, de “alienação”.

Autoridade, subordinação e “alienação” na Igreja Ca-


tólica. No Mosteiro cisterciense de Poblet, na Espa-
nha, Monges prosternados por terra fazem o mea
culpa perante o Abade e o Capítulo.
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 76

ÍNDICE

GRUPOS OCULTOS TRAMAM A SUBVERSÃO NA IGREJA ................................................................. 1

EM ASCENSÃO TRIUNFAL........................................................................................................................... 3

A HERESIA MODERNISTA ........................................................................................................................... 3

D. ANTÔNIO DE CASTRO MAYER, BISPO DE CAMPOS ....................................................................... 3

O PORQUÊ DESTE NÚMERO DUPLO ........................................................................................................ 5

A IGREJA CATÓLICA INFILTRADA POR ADVERSÁRIOS VELADOS............................................... 5

PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA.................................................................................................................. 5


O IDO-C, e o “International Catholic Establishment” .............................................................................. 5
Os “grupos proféticos” .............................................................................................................................. 6
Dedos de uma mesma mão ......................................................................................................................... 6
Em face da agitação progressista na América Latina................................................................................ 7
Três perguntas dramáticas ......................................................................................................................... 8
Muralha chinesa ......................................................................................................................................... 9
Alentando.................................................................................................................................................... 9
O entusiasmo dos jovens da TFP.............................................................................................................. 10
RESUMO ANALÍTICO DO ARTIGO DE “APPROACHES” ................................................................... 11

A SUPERPOTÊNCIA PUBLICITÁRIA DOS ILUMINADOS DO PROGRESSISMO ........................... 11


O que vem a ser o IDO-C – segundo ele mesmo ...................................................................................... 12
Quem o dirige ........................................................................................................................................... 12
Dinossauro publicitário............................................................................................................................ 13
Ligações com o comunismo na Inglaterra e além cortina de ferro .......................................................... 13
“International Catholic Establishment” .................................................................................................. 13
O “American Catholic Establishment” .................................................................................................... 14
“Establishment” católico e “Establishment” laico.................................................................................. 15
Onde entra o IDO-C ................................................................................................................................. 16
Ramificações do IDO-C pelo mundo inteiro ............................................................................................ 16
Ressalva.................................................................................................................................................... 16
Doutrina integral...................................................................................................................................... 16
RESUMO ANALÍTICO DO ARTIGO DE “ECCLESIA” .......................................................................... 17

INSUBORDINAÇÃO, “DESALIENAÇÃO”, FIO DE MEADA DOS MISTÉRIOS “PROFÉTICOS”.. 17


I . Desalienação: revolta contra toda superioridade, toda desigualdade ................................................ 18
II . O supremo objetivo “profético”: uma Igreja não alienante nem alienada ........................................ 18
III – Só a luta de classes conseguirá a desalienação dentro da Igreja .................................................... 21
IV – Os “grupos proféticos”, artífices da luta de classes pela desalienação da Igreja ........................... 22
V . Como os “grupos proféticos” fazem a luta de classes na Igreja ........................................................ 23
VI – Relações entre o “movimento profético” e o progressismo.............................................................. 24
VII – Os “grupos proféticos” estão a serviço do comunismo .................................................................. 24
VIII – Viabilidade do plano comunista acerca da Igreja-Nova................................................................ 26
O TEXTO DE “APPROACHES”................................................................................................................... 28

DOSSIER A RESPEITO DO IDO-C.............................................................................................................. 28


I - O que é o IDO-C?..................................................................................................................................27
II . História do IDO-C .............................................................................................................................. 29
III – O IDO-C no Reino Unido ................................................................................................................. 30
IV . O IDO-C na França........................................................................................................................... 33
V . O IDO-C na Polônia ........................................................................................................................... 36
VII . Anatomia do “Catholic Establishment” ........................................................................................... 40
VIII . Dirigentes e Agências do “Catholic Establishment” ...................................................................... 42
“Catolicismo” n.o 220-221 – Abril/Maio de 1969 – Grupos ocultos tramam a subversão na Igreja 77

IX – A verdadeira natureza do “Catholic Establishment” ....................................................................... 44


X . “Catholic Establishment” e “Secular Establishment” ...................................................................... 44
XI – Porque o IDO-C é indispensável ao “Establishment” ..................................................................... 46
XII – Outras vantagens que apresenta o IDO-C ...................................................................................... 47
XIII – O IDO-C em outros lugares ........................................................................................................... 47
O TEXTO DE “ECCLESIA”.......................................................................................................................... 54

OS PEQUENOS GRUPOS E A “CORRENTE PROFÉTICA”................................................................... 54


Advertência Preliminar ............................................................................................................................ 54
CONTEÚDO, ESTRUTURA E MANIFESTAÇÕES .................................................................................................. 55
I - Introdução............................................................................................................................................ 55
II – Conteúdo Ideológico da corrente profética ....................................................................................... 57
III - Os Grupos Proféticos ........................................................................................................................ 67
UMA FORMAÇÃO ESTUDANTIL EM ESCALA MUNDIAL.................................................................. 73
Í N D I C E ..................................................................................................................................................... 76