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Fabio Mascaro Querido

BENSAÏD, Daniel. Marx, manual de instruções. São Para Bensaïd, sobretudo no caso de um au-
Paulo: Boitempo Editorial, 2013. tor como Marx, cuja obra se encontra direta ou

RESENHA
indiretamente vinculada à prática política de sua
época, a herança – sem dono nem fiadores – não é
uma coisa inerte: ela é sempre irredutível à sua
O “OUTRO” MARX OU A HERESIA MARXISTA
DE DANIEL BENSAÏD
letra, porquanto envolve também a história de suas
interpretações, recepções, assim como das lutas
das quais tomou parte. Pelas mutações que sofre
ao longo do tempo, e pela vigilância constante das
ortodoxias instituídas, a “infidelidade” à letra da
Fabio Mascaro Querido
obra pode ser, muitas vezes, a melhor demonstra-
ção de fidelidade. Pois a herança, no limite, é sem-
pre aquilo que dela fazem os herdeiros, em meio
às possibilidades de um presente determinado.
Filósofo e militante francês, falecido em No marxismo “herético” e “infiel” de Walter
janeiro de 2010, Daniel Bensaïd (1946) notabilizou- Benjamin, em especial nas “teses sobre o conceito
se por uma das mais ambiciosas tentativas de história” (1940), Bensaïd encontrou um grande
contemporâneas de reinterpretar o pensamento de aliado para este trabalho de desconstrução e re-
Karl Marx à luz das condições de possibilidade construção de Marx, visando a acordá-lo de um
do presente. Sob os escombros dos diversos longo pesadelo dogmático. Em permanente diálo-
marxismos do século XX, o filósofo francês retorna go com Benjamin, cuja obra ocasionou forte im-
a Marx não para resgatá-lo da incompreensão geral, pacto em sua trajetória intelectual, Bensaïd visualiza
recuperando os “verdadeiros” fundamentos do seu a necessidade, após o dramático desencantamento
pensamento, e sim para oxigená-lo a partir da sua que se abateu sobre a esquerda política e intelectu-
confrontação crítica com os desafios do presente – al, no auge da euforia neoliberal – com direito à
daí a tentativa de buscar novas pistas e novos proclamação do “fim da história” e da “morte” do
caminhos, comumente pouco frequentados. Mais marxismo –, de um novo “despertar”, um “des-
do que responder, mais uma vez, às mesmas pertar proustiano”, como ele diz em outro texto,
questões, tratava-se, para ele, da necessidade de no qual o espectro de Marx ressurge na sua fun-

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reformulá-las, em um contexto marcado por uma ção salutar: ser a constante “má-consciência do
verdadeira “crise civilizatória” (da qual a “crise capitalismo”, o agente do negativo que desvenda
ecológica” é apenas a expressão mais visível). os seus crimes quase perfeitos.
Em Marx, manual de instruções, livro ora Em Marx, manual de instruções, o filósofo
lançado no Brasil pela Boitempo Editorial (na co- francês analisa, sob um prisma original e inova-
leção “Marxismo e literatura”, coordenada por Le- dor, algumas das principais questões envolvidas
andro Konder e Michael Löwy), Bensaïd apresen- na reflexão de Marx: da crítica (de matriz
ta, em uma forma sintética bastante singular – com- feuerbachiana) do fetichismo religioso e terrestre
provada pela linguagem carregada de humor e pe- da juventude à teoria do valor desenvolvida n’O
los desenhos do cartunista francês Stéphane Capital, passando pelo comunismo, a revolução,
“Charb”, que ilustram, em outra chave, o conteú- as crises, a ciência e mesmo a ecologia, dentre ou-
do do texto –, os principais aspectos dessa leitura tras. Em sua ótica, desde pelo menos 1845, com a
atualizadora de Marx e da tradição marxista, leitu- “descoberta” do caráter ativo do nascente movi-
ra por ele inaugurada no magistral Marx, o mento operário europeu, e com a subsequente su-
Intempestivo, e em A discordância dos tempos, peração do “comunismo filosófico” (especulativo),
ambos publicados em 1995, na França. Marx entrevê, na luta de classes, um aspecto cen-

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tral da estruturação social no capitalismo, e o eixo co da ação política”, diz Bensaïd. Marx é um críti-
sob o qual gravitam tanto a reprodução da ordem co radical da “razão histórica”, uma vez que sua
(capitalista) vigente quanto a possibilidade de sua concepção de uma “história aberta” repele toda
transformação radical. Quando jovem, portanto, a ideia de uma “normalidade” histórica – para a qual
constatação da existência das classes foi, para o presente é o resultado “necessário” do passado,
Marx, inseparável da constatação da centralidade no desenrolar de um tempo “vazio e homogêneo”,
do conflito de classes na sociedade capitalista, con- bem acomodado ao “progresso” dos vencedores.
flito sintetizado (mas não esgotado) no antagonis- Momento de seleção dos possíveis, a políti-
mo dinâmico entre burguesia e proletariado. ca, no Marx “intempestivo” de Daniel Bensaïd, não
Isso explica, como revela Bensaïd no tercei- se reduz à “mera ilustração da lógica histórica”. O
ro capítulo, porque, mesmo nas grandes constru- “despertar” da ação revolucionária constitui, como
ções categoriais de O Capital, qualquer tentativa disse Walter Benjamin nas Passagens, o instante
de se buscar em Marx uma definição simples das em que “a política passa à frente da história”, isto
classes sociais está fadada ao fracasso (ou ao “su- é, o momento em que as classes oprimidas logram
cesso” dos simplificadores). Se não há “amor sem quebrar o círculo vicioso da reprodução infernal
amantes”, conforme disse certa vez o historiador do “sonho da história”, que avaliza a continuida-
britânico E. P. Thompson, não há, para Marx – na de da dominação capitalista. Daí a percepção ine-
visão de Bensaïd –, classes sem luta e antagonis- vitável de que “as revoluções nunca chegam na
mo de classes. Com efeito, à diferença das sociolo- hora certa”, de que elas jamais se enquadram na
gias classificatórias, a “antisssociologia” ou “soci- “normalidade” abstrata do tempo dos relógios. Uma
ologia crítica” de Marx resiste às “definições defi- revolução, como acontecimento fundador, está sem-
nitivas e fixas das classes”. “Crítica da razão soci- pre em contratempo, já que se configura como bi-
ológica”, a abordagem marxiana das classes é de furcação da história.
outra ordem, “estratégica”, na qual a luta política Instado por seu objeto (o capital), Marx es-
joga um papel central. boça, na ótica de Bensaïd, uma “nova escuta do
Previamente determinada no “laboratório tempo”, que se revela na tentativa de compreen-
secreto da produção”, analisado por Marx no livro der as temporalidades discordantes que se desdo-
I d’O Capital – no qual é revelada a “origem” do bram do circuito de reprodução global do capita-
valor na exploração do trabalho –, a conceituação lismo. Para Daniel Bensaïd, tal como um detetive
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das classes sociais, na obra do filósofo alemão, passa que investiga o crime quase perfeito do capital,
também pelos níveis da circulação e da reprodu- Marx descobre na mercadoria – por meio da análi-
ção global, cujas análises foram apenas esboçadas se do processo de produção – a síntese desse “as-
nos incompletos livros II e III, respectivamente, sassinato anônimo”, materializado na extorsão
d’O Capital. Cada nível sobrepõe uma nova deter- permanente de mais-valor subtraído do trabalho.
minação, no âmbito de uma relação que não se Com o “tempo cíclico” dos movimentos de circu-
concretiza efetivamente senão no antagonismo di- lação e reprodução global do capital – estudado
nâmico das classes em conflito latente. por Marx nos livro II e III d’O Capital –, o crime se
Ora, se a relação entre as classes remete, no realiza em toda sua complexidade, valendo-se das
limite, ao aleatório da luta política, e se, como di- garantias materiais e instituições para a continui-
ria Gramsci, “só se pode prever a luta, não o seu dade de sua execução.
desfecho”, não existe, em Marx, de acordo com É nessa tentativa de compreender “o estra-
Bensaïd, uma filosofia especulativa da história nho comportamento do seu inimigo” que, segun-
buscando determinar de antemão o destino do do o filósofo francês, Marx – como “criminólogo
mundo. “Pensador da luta e não da lei, Marx não que investiga o assassino, o capital” – se vê diante
é um filósofo da história. É um pensador estratégi- da necessidade de outra racionalidade, de um “sa-

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ber negativo”, crítico e radicalmente antipositivista, e “progressistas” habitualmente vinculadas ao pen-


capaz de apreender uma totalidade em movimen- samento de Marx e ao marxismo.
to. Procedendo por totalizações provisórias e di- Ao acentuar o “atual ainda ativo” de Marx,
nâmicas, na contramão de toda lógica formal, Marx Bensaïd compreende sua obra não como um edifí-
acompanha criticamente o movimento do capital, cio monumental monolítico e fechado, e sim como
desvendando suas “aparências enganosas”. uma teoria crítica da luta social e da mudança do
Pois bem: ainda que o tom de sua leitura mundo, uma teoria crítica não apenas no que diz
atualizadora seja sempre generosa – e, por vezes, respeito à análise do objeto, o capitalismo, senão
pareça representar mais o que ele gostaria que fos- também crítica em relação a si mesma. É a partir
se, no presente, do que Marx efetivamente foi, no desse “marxismo aberto”, de verniz benjaminiano,
passado –, Bensaïd não ofusca, por outro lado, as que o espectro de Marx pode voltar a ressurgir,
contradições que atravessam o pensamento do fi- não como assombração dogmática, mas como es-
lósofo alemão, contradições que, muitas vezes, o pírito portador de uma esperança que, para conti-
impeliram à defesa pouco crítica do “progresso” e nuar a existir, exige ser permanentemente atualiza-
do “desenvolvimento das forças produtivas”. Na da, sob o risco (inevitável) da heresia. Pois, como
ótica de Bensaïd, Marx, envolvido nas condições disse Benjamin nas “teses sobre o conceito de his-
de possibilidade do seu tempo, não foi – e nem tória”, em palavras que resumem bem a perspecti-
poderia ser – um “anjo verde”, um ecologista avant va assumida por Daniel Bensaïd: “o dom de atear
la lettre. Tampouco, porém, ele pode ser conside- ao passado a centelha da esperança pertence so-
rado um “demônio produtivista”, uma vez que mente àquele historiador que está perpassado pela
denunciou, de modo pioneiro, em sua crítica radi- convicção de que também os mortos não estarão
cal do capitalismo, os “mitos do progresso” e o seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E
seu potencial destrutivo com relação à natureza. esse inimigo não tem cessado de vencer”.
Não por acaso, essa crítica pode ser o ponto de
partida (não de chegada), hoje, para o desenvolvi- Recebido para publicação em 02 de dezembro de 2014
Aceito em 12 de abril de 2014
mento de uma perspectiva “ecossocialista”, desde
que se consiga superar as tentações “produtivistas”

CADERNO CRH, Salvador, v. 27, n. 71, p. 443-445, Maio/Ago. 2014

Fabio Mascaro Querido – Doutorando em Sociologia no IFCH-UNICAMP, com bolsa FAPESP, com parte do
doutoramento em realização na École de Hauts Études en Sciences Sociales (EHESS) - bolsa BEPE-FAPESP.
Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia da Cultura, Sociologia dos Intelectuais e
Teoria Sociológica, atuando principalmente nos seguintes temas: pensamento social, Michael Löwy, Walter
Benjamin, Daniel Bensaïd, marxismo contemporâneo e crítica da modernidade. fabiomascaro@yahoo.com.br

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