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ano XIII número 146 maio 2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES

ano XIII número 146 maio 2009 R$ 9,90

ano XIII número 146 maio 2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA

CAMARGO CORRÊA

ano XIII número 146 maio 2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA
ano XIII número 146 maio 2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA
ano XIII número 146 maio 2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA

A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA

2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA N D DEPRESSÃO NA SOCIEDADE
2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA N D DEPRESSÃO NA SOCIEDADE
2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA N D DEPRESSÃO NA SOCIEDADE
2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA N D DEPRESSÃO NA SOCIEDADE
2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA N D DEPRESSÃO NA SOCIEDADE
2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA N D DEPRESSÃO NA SOCIEDADE
2009 R$ 9,90 CAMARGO CORRÊA A MÍDIA SURRUPIOU OS CRIMES DA N D DEPRESSÃO NA SOCIEDADE
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D DEPRESSÃO

NA SOCIEDADE DO VAZIO

ENTREVISTA COM MARIA RITA KEHL

NA SOCIEDADE DO VAZIO ENTREVISTA COM MARIA RITA KEHL O QUE FAZER PARA PUNIR RICOS E
O QUE FAZER PARA PUNIR RICOS E PODEROSOS
O QUE FAZER PARA PUNIR
RICOS E PODEROSOS

BRIZOLA NETO

HERANÇA FORTE NA

LUTA NACIONALISTA

JOSÉ PADILHA

“GARAPA” MOSTRA

A DUREZA DA FOME

JOSÉ PADILHA “GARAPA” MOSTRA A DUREZA DA FOME GUTO LACAZ MARILENE FELINTO GLAUCO MATTOSO ANA MIRANDA
JOSÉ PADILHA “GARAPA” MOSTRA A DUREZA DA FOME GUTO LACAZ MARILENE FELINTO GLAUCO MATTOSO ANA MIRANDA

GUTO LACAZ MARILENE FELINTO GLAUCO MATTOSO ANA MIRANDA JOSÉ ARBEX JR. GILBERTO VASCONCELLOS MARCOS BAGNO FERRÉZ JOÃO PEDRO STEDILE RENATO POMPEU TATIANA MERLINO EDUARDO SUPLICY GEORGES BOURDOUKAN HAMILTON OCTAVIO DE SOUZA CESAR CARDOSO FREI BETTO GERSHON KNISPEL FIDEL CASTRO EMIR SADER MARCELO SALLES PLÍNIO TEODORO CAROLINA ROSSETTI FELIPE LARSEN MC LEONARDO ULISSES TAVARES GUILHERME SCALZILLI CLAUDIUS

CAROLINA ROSSETTI FELIPE LARSEN MC LEONARDO ULISSES TAVARES GUILHERME SCALZILLI CLAUDIUS www.carosamigos.com.br

www.carosamigos.com.br

Com as obras de infraestrutura do PAC, a roda da economia gira, o Brasil se desenvolve e fica melhor para todos.

• O Governo Federal, estados, municípios e a iniciativa privada estão se movimentando para fazer um Brasil melhor para todos. Com o PAC, serão investidos mais de R$ 646 bilhões até 2010.

o PAC, serão investidos mais de R$ 646 bilhões até 2010. • 1.200 obras de urbanização

• 1.200 obras de urbanização e saneamento, em 565 municípios, beneficiam milhões de famílias, geram empregos e aquecem a economia.

• Construção de 7 novas ferrovias, modernização de 18 portos e melhorias em rodovias por todo o país fazem a produção circular com mais rapidez e segurança.

• Obras em usinas hidrelétricas e termoelétricas, plataformas de petróleo, gasodutos e fontes renováveis de energia, como os biocombustíveis, levam muita energia para o Brasil produzir mais.

Complexo do Alemão - RJ

de energia, como os biocombustíveis, levam muita energia para o Brasil produzir mais. Complexo do Alemão

Usina Hidrelétrica Chapecó - SC

Usina Hidrelétrica Chapecó - SC Confiança no Brasil. É assim que a gente segue em frente.
Usina Hidrelétrica Chapecó - SC Confiança no Brasil. É assim que a gente segue em frente.

Confiança no Brasil. É assim que a gente segue em frente.

www.confiancanobrasil.gov.br

BR 101 - NE

Chapecó - SC Confiança no Brasil. É assim que a gente segue em frente. www.confiancanobrasil.gov.br BR

CAROS AMIGOS ANO XIII 146 MAIO 2009

Injustiçaescancarada

Nunca o Judiciário brasileiro esteve tão exposto na mídia e na boca do povo. Quase todos os dias a mídia registra os conflitos en- tre instâncias, críticas internas e externas a membros da corpora- ção, contradições de posições, decisões e sentenças. Até bate-boca

entre ministros do Supremo Tribunal Federal são transmitidos ao vivo pela TV e circulam na Internet para delírio das torcidas, provo- cam mensagens e abaixo-assinados. Tudo indica que a questão de fundo é uma só: o bloco monolí- tico do Poder Judiciário, historicamente a serviço das classes do- minantes, não consegue mais atuar de forma monolítica. Por isso mesmo expõe suas contradi- ções numa sociedade marca- da pela desiguldade, sofre com as divergências intesti- nas e é alvo de outras insti- tuições mais suscetíveis às exigências democráticas. Mesmo que se diga o óbvio, a crise é positiva, tem a ver com possíveis mudanças de adaptação a uma realidade que insiste em abandonar vícios do passado oligárqui- co. Apesar da disciplina hierárquica, florescem as correntes compro- metidas com a utopia jurídica segundo a qual a lei e a Justiça devem ser aplicadas igualmente para todos, sem qualquer distinção.

A Caros Amigos apresenta um perfil do Judiciário em transfor-

mação, entrevista juristas, juizes e estudiosos do sistema. Procura

mostrar ao leitor por que a mesma instituição utiliza pesos e medi- das diferentes para julgar ricos e pobres. Aos pobres aplica a rigidez da punição – independentemente de ter os seus direitos assegurados. Aos ricos, em muitos casos, todo o aparato legal leva à impunidade. A opinião pública percebe que a injustiça é escancarada.

O caso da construtora Camargo Corrêa, também tratado nesta edi-

ção, expressa bem os conflitos e contradições do Judiciário. As inves- tigações ofereceram indícios fortes dos crimes, a primeira instância adotou os procedimentos de pra- xe, inclusive com prisões temporá- rias, mas a segunda instância cele- remente decidiu em contrário.

foto JESuS CARLOS
foto JESuS CARLOS

aRte­da­caPa­RicaRdo­Reis

contrário. foto JESuS CARLOS aRte­da­caPa­RicaRdo­Reis A preciosa entrevista da psica- nalista Maria Rita Kehl é

A preciosa entrevista da psica-

nalista Maria Rita Kehl é esclare-

cedora dos sintomas sociais que apontam para a existência de uma epidemia de depressão, que tem a ver com o próprio esvaziamento de valores e sentidos na sociedade de consumo. Essas e outras matérias merecem a atenção e a reflexão de todos. Boa leitura!

merecem a atenção e a reflexão de todos. Boa leitura! EDITORA CASA AMARELA
merecem a atenção e a reflexão de todos. Boa leitura! EDITORA CASA AMARELA

EDITORA CASA AMARELA

­Revistas­•­LivRos­•­seRviços­editoRiais

fundadoR:­séRgio­de­souza­(1934-2008)

diRetoR:­WagneR­nabuco­de­aRaújo

diRetoR:­WagneR­nabuco­de­aRaújo 04 Guto Lacaz. 06 caros Leitores. 07

04

Guto Lacaz.

06

caros Leitores.

07

MariLene FeLinto rende hoMenaGeM à aMiGa querida thaís s. Pereira.

08

GLauco Mattoso Porca Miséria.

GeorGes Bourdoukan considera LeGítiMa a resistência contra o estado de israeL.

09

José arBex Jr. FaLa do GoLPe da oLiGarquia sarney contra Jackson LaGo.

10

GiLBerto VasconceLLos recorre a darcy riBeiro Para interPretar oBaMa.

Marcos BaGno FaLar BrasiLeiro.

11

Ferréz retrata o aGito na FaVeLa Para a instaLação dos reLóGios de Luz.

12

renato PoMPeu e suas MeMórias de uM JornaLista não-inVestiGatiVo.

João Pedro stediLe insiste que a crise é estruturaL e Precisa ser deBatida.

13

tatiana MerLino Por que a Justiça não conseGue Punir os ricos e Poderosos.

18

eduardo suPLicy recorre ao FiLósoFo PhiLiPPe Van PariJs Para deFender a renda.

ana Miranda coMenta ensaio de ViVeiros de castro soBre a aLMa indíGena.

19

haMiLton octaVio de souza, entreLinhas.

cesar cardoso disseca os VaLores e a reaLidade da sociedade de consuMo.

20

entreVista coM BrizoLa neto a Luta Para reGuLar o nióBio nacionaL.

23

Frei Betto critica a ceGueira do G-20 no trato coM a Miséria.

Gershon knisPeL LeMBra os MonuMentos dedicados às VítiMas das Guerras.

24

ensaio FotoGráFico danieLa Moreau.

26

entreVista coM Maria rita kehL a dePressão auMenta coMo sintoMa sociaL.

30

FideL castro Pede a Barack oBaMa Medidas Para a susPensão do BLoqueio.

31

Mc Leonardo desVenda a LiGação do JoGador adriano coM a FaVeLa.

uLisses taVares acha que casaMento é uMa coisa e aMor é outro troço.

GuiLherMe scaLziLLi denuncia o carteL que exterMina o FuteBoL BrasiLeiro.

32

MarceLo saLLes PreFeitura auMenta a rePressão aos PoBres no rio de Janeiro.

34

PLínio teodoro a Mídia Grande aBaFou o caso da caMarGo corrêa.

38

caroLina rossetti e FeLiPe Larsen cuLtura deBate Lei rouanet e ProFic.

41

entreVista coM José PadiLha “GaraPa” reLata a FoMe Por queM Passa FoMe.

43

eMir sader deFende ProPostas concretas de suBstituição do ModeLo neoLiBeraL.

44

renato PoMPeu, idéias de BotequiM.

46

cLaudius .

editoRes: hamilton octavio de souza, igor fuser e jose arbex jr editoRa­adjunta:­ Tatiana Merlino editoR­esPeciaL:­Renato­Pompeu­editoRia­de­aRte:­henrique Koblitz Essinger e Ricardo Reis­(coordenador)­editoR­de fotogRafia:­Walter­firmo­RePÓRteRes:­camila Martins,­felipe­Larsen,­fernando­Lavieri,­Luana­schabib­e­Marcos­zibordi­estagiÁRios:­bruna­buzzo­e­carolina­Rossetti­coRResPondentes:­bosco Martins­(Mato­grosso­do­sul),­Marcelo­salles­(La­Paz),­Maurício­Macedo­(Rio­grande­do­sul)­e­anelise­sanchez­(Roma)­secRetÁRia­ da­RedaçÃo:­simone alves diRetoR­de­MaRKeting:­andré herrmann­PubLicidade:­Melissa Rigo­ciRcuLaçÃo:­Pedro­nabuco­de­araújo­ReLações­institucionais:­cecília­figueira­de­Mello­(coordenadora)­adMinistRativo­e­financeiRo:­ingrid­Hentschel,­elisângela­santana­ contRoLe­e­PRocessos:­Wanderley­alves,­elys­Regina­LivRos­casa­aMaReLa:­clarice­alvon­sítio:­Paula­Paschoalick­(editora),­ecomm (desenvolvimento)­aPoio:­alessandra­­Martins,­douglas­jerônimo­e­neidivaldo­dos­anjos­atendiMento­ao­LeitoR:­Lília­Martins­alves,­zélia­

coelho­e­Maura­carvalho­assessoRia­juRídica:­Marco­túlio­bottino,­aton­fon­filho,­juvelino­strozake,­Luis­f.­X.­soares­de­Mello,­eduardo­gutierrez­e­susana­Paim­figueiredo­RePResentante­de­PubLicidade:­bRasíLia:­joaquim­barroncas­(61)­9972-0741.

­

joRnaLista­ResPonsÁveL:­HaMiLton­octavio­de­souza­(Mtb­11.242)

diRetoR­geRaL:­WagneR­nabuco­de­aRaújo­

caRos­aMigos,­ano­Xiii,­nº­146,­é­uma­publicação­mensal­da­editora­casa­amarela­Ltda.­Registro­nº­7372,­no­8º­cartório­de­Registro­de­títulos­e­documentos­da­comarca­de­são­Paulo,­de­acordo­com­a­Lei­de­imprensa.­

distribuída­com­exclusividade­no­brasil­pela­dinaP­s/a­-­distribuidora­nacional­de­Publicações,­são­Paulo.­iMPRessÃo:­bangraf

RedaçÃo­e­adMinistRaçÃo:­rua­Paris,­856,­ceP­01257-040,­são­Paulo,­sP­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­

WWW.caRosaMigos.coM.bR

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Ditabranda

Numa época em que o ex-presidente do Estados Unidos autoriza técnicas de tortura no interrogatório de acusados de terroris-

mo, o jornal Folha de S. Paulo tenta atenuar

a estupidez e a crueldade do período de dita-

dura militar no Brasil, que torturou, exilou

e assassinou presos políticos. Um discurso

mentiroso e hipócrita justificou o golpe de estado no Brasil. Mentira e hipocrisia legiti- maram a invasão do Iraque. Cuidado, a His-

tória é cíclica

André Brandão, abrandao68@yahoo.com.br

TORTURA NUNCA MAIS!!!

Jackson Lago e Roseana Sarney

O império faraônico dos Sarney vai aca- bar como o império faraônico dos Maga- lhães: ACM Neto perdeu recentemente para prefeito em Salvador, Paulo Souto tomou um banho de Wagner nas urnas das eleições de 2006 para governador da Bahia. Tá acaban- do com aquela conversa de “meu curral”. Esdras Souza, Itabuna/BA

Marilene Felinto

Marilene Felinto, li sua coluna na Caros Amigos de abril e gostaria muito de repro- duzi-la na Editoria de Educação do Fazendo Media. Aproveito para manifestar meu apre- ço e admiração pelos seus textos sempre bri- lhantes. Geralmente é pela sua coluna que eu inicio a leitura da Caros. Denilson Botelho, Professor e Historiador Editor de Educação do Fazendo Media www.fazendomedia.com Espaço interativo virtual: Na Bruzundanga http://nabruzundanga.blogspot.com

Dona Marilene Felinto, caso houvesse o concurso que a sra. defende, pelo aproveita- mento na referida prova , seriam esses profes- sores mais antigos, os excluídos. Seus “direi- tos” teriam ficado de fora. Por outro lado, os que se saíram melhor na avaliação, boa parte vem dessas “faculdades particulares de quinta

boa parte vem dessas “faculdades particulares de quinta caros leitores categoria”, como a sra. diz. Todos

caros leitores

categoria”, como a sra. diz. Todos ficaram sa- bendo da avaliação com meses de antecedên- cia. Tem como defender um “professor” que acertou uma, duas, cinco ou dez questões? Humberto Silva, São Paulo - SP

Caros Amigos

Sou assinante da Caros Amigos há muito tempo e percebo que a minha impressão é que a revista não acompanha mais os novos tempos. Parece que vocês não deixaram ain-

da as camisas e bandeiras juvenis. Parecem velhos que não amadureceram com o tempo

e ainda brigam por coisas boas, mas de ma-

neira puramente juvenil. Resultado? Recebo

a revista em casa e nem olho mais. Ismael Santos Teixeira

Adoro a revista, mas não gostei do papel que está sendo usado agora: é muito brilhan- te e reflete a luz. Dirceu Mezzette da Costa

Protógenes Queiroz

Poder Judiciário do Estado do Acre NOTA DE REPÚDIO Rio Branco, 27 de março de 2009 O Poder Judiciário do Estado do Acre, na pessoa de seu Presidente, Desembargador Pedro Ranzi, diante das declarações feitas pelo delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, em entrevista para a revista Caros Amigos, e agora repercutidas na imprensa local, vem expressar publicamente o seu re- púdio às informações divulgadas, considera- das infundadas, irresponsáveis e caluniosas contra esta Instituição. Devido à gravidade das declarações, cau- sadoras de danos à imagem do Judiciário Acreano, serão adotadas as medidas judi- ciais cabíveis, de forma a trazer a público a verdade dos fatos. A Justiça do Estado do Acre não permi- tirá atos levianos de desmoralização e con- tinuará cumprindo a sua missão de asse-

gurar a paz e a ordem social, protegendo e restaurando direitos. Desembargador Pedro Ranzi Presidente

Dossiês

Em reparo a inverdades contidas na repor- tagem assinada por Palmério Dória e publicada na edição nº 143, esclareço aos leitores da Caros Amigos, em primeiro lugar, que estive à fren- te da Gerência Geral de Segurança e Investiga- ções da Anvisa e não do “Serviço de Inteligência do Ministério da Saúde na gestão José Serra”. Em segundo lugar, o repórter ressuscitou ve- lhas mentiras, todas devidamente rebatidas à época, quando comprovei serem descabidas as informações que atribuíam a mim a elaboração de dossiês contra políticos. Na verdade, o meu trabalho na Anvisa se restringiu ao desmantela- mento das quadrilhas de fraudadores de remé- dios. Em relação à CPI dos Grampos, por mim presidida na Câmara Federal com total indepen- dência, esclareço que investigamos fatos, e não pessoas. Contudo, por terem mentido à CPI, de- fendo o indiciamento por falso testemunho do delegado Protógenes Queiroz, do ex-diretor da Abin, Paulo Lacerda, e do ex-diretor-adjunto da Abin, Milton Campana. Proponho, ainda, o indi- ciamento do banqueiro Daniel Dantas pelo cri- me de interceptação ilegal. Deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), presidente da CPI dos Grampos

Palmério Dória responde:

A ordem dos fatores não halterofilista, como dizia o saudoso Stanislaw Ponte Preta. Marcelo Itagiba está habilitado a prestar ser- viços a José Serra, Fernando Henrique Car- doso, Gilmar Mendes e Nelson Jobim seja lá onde for. Pena para o doublê de delegado e parlamentar é que, daquela vez, na operação na Lunus de Jorge Murad e Roseana Sarney, a ideia era ranquear Serra, mas deu Lula. Além disso, se ele acredita em grampo sem áudio, posso acreditar no que quiser.

em grampo sem áudio, posso acreditar no que quiser. ASSINATURAS assine a revista SÍTIO: WWW.CAROSAMIGOS.COM.BR

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assine a revista SÍTIO: WWW.CAROSAMIGOS.COM.BR TEL.: (11) 2594-0376 (DE SEGUNDA A SEXTA-FEIRA, DAS 9 àS 18h)

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caros amigos maio 2009

fale conosco

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ilustração gil brito

ilustração gil brito Marilene Felinto Thais? Presente! Quando este texto sair – porque a revis- ta

Marilene Felinto

Thais?

Presente!

Quando este texto sair – porque a revis- ta é de publicação mensal –, Thais já terá morrido haverá dois meses. E esses tempos de verbo (“terá morrido”, “haverá” – futuro do presente composto e futuro do presente simples), parecem não naturais (soam des- conexos na leitura) e deveriam ter o nome de “futuro absurdo”, não fosse toda a idéia de futuro ser em si absurda. Como se conce- be um “futuro do presente”, um “futuro do pretérito”? O tempo presente, diz a gramá- tica, é indivisível; mas o pretérito e o futuro subdividem-se, explica: pode haver pretéri- to perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito; futuro do presente e futuro do pretérito. Po- de-se dizer, portanto, que o tempo presen-

te (o indivisível) é, no estrito senso, a única forma de realidade (Schopenhauer). É isto. Tiro aqui uma licença poética para escre- ver sobre Thais e não sobre os outros temas quaisquer que costumo escolher. Deveria co- meçar corrigindo o parágrafo introdutório, mudar para o tempo do leitor (o tempo verbal do momento em que se dá o fato: o presen- te da leitura, o passado da morte de Thais).

E começaria o texto assim: Thais morreu faz

dois meses (no dia 23 de março de 2009). A

escolha inicial, pelo tempo “futuro absurdo”,

é resultado do impacto que a morte súbita

desta pessoa amiga ainda tem sobre mim. Tiro licença, como se eu pudesse ser um Manuel Bandeira (1886-1968), que escreveu dúzias de elegias, poemas ternos e lindos, para os amigos mortos (e para os vivos): “A

Mário de Andrade Ausente”, “Ovalle”, “Olegá-

Frederico Schmidt”,

rio Mariano”, “

“José Cláudio” etc. etc. Não tenho tantos ami- gos, e tenho menos ainda a verve poética.

Augusto

A de Thais foi dessas mortes inesperadas (um carro, uma estrada, um choque brutal), que não deixam de provocar um sentimen- to de inconformismo, de revolta, como se o lógico fosse sempre a vida e não a morte – especialmente de quem ainda não dobrara o cabo das tormentas dos 50 anos (que com- pletaria este ano). E Thais Sauaya Pereira (1959-2009) foi uma espécie de “José Cláu- dio”. Quem foi José Cláudio? Também não sei exatamente (fui eu, foi você): um conhe- cido (ou amigo ou parente) do poeta pernam- bucano Manuel Bandeira, que transformou o nome de José Cláudio em poesia e escre- veu sobre ele versos magníficos: “O espanto que nos deixaste!/Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte! ( Não se darão para Thais nomes de ruas nem se construirão para ela espetaculares pontes de homenagem (como se constroem para os grupelhos de direita no poder e seus amigos). Nem Thais, eu acho, desejaria ter seu nome estampado numa ponte. Era insurgente, re- volucionária natural, uma força das forças sociais, triunfo da revolução sobre o reacio- narismo, uma dessas que ajudou a construir, nos bastidores, um país menos pior chama- do Brasil, um lugar de menos desilusão para amigos seus, filhos seus, seus parentes, seu marido. Militante de esquerda desde o Movi- mento Estudantil na década de 70, contribuiu para desenhar isto que hoje se chama Parti- do dos Trabalhadores (PT) – tudo sem car- go, tudo no anonimato. Colaborou até mesmo para uma convicção quase impossível: de al- guma “resistência ética e grandeza no jorna- lismo”, título do perfil biográfico que escre- veu sobre o jornalista Aloysio Biondi.

O título deste meu texto “Thais? Presen-

te!” tem a ver também com que ela foi: trata- se da saudação, palavra de ordem (conforme uma amiga em comum lembrou na home- nagem íntima que oferecemos a ela), que o MST usa para invocar seus heróis, anôni- mos ou não, em reuniões. Entre tantos erros nossos humanos (lem- brou outra amiga nossa), Thais parece ter fei- to tudo certo antes de ir embora: como quem, no poema, toma antes uma consoada (leve re- feição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum); como quem vê na morte uma presença “caroável” (que procura ser amável através de palavras ou gestos; afável, gentil, afetuoso); como quem, caralho!, lavrou antes o campo, limpou a casa, pôs a mesa, deixou cada coisa em seu lugar. Como se o poema ti- vesse sido escrito mesmo para ela.

Consoada

Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável) Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga:

– Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com os seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

(OPUS 10)

limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar. (OPUS 10) Marilene Felinto é escritora.

Marilene Felinto é escritora. marilenefelinto@carosamigos.com.br

maio 2009 caros amigos

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Glauco Mattoso miséria! porca
Glauco Mattoso
miséria!
porca

SONETO DA MISOGYNIA ATRAZADA [1237]

Com gaffes, Clodovil faz pouco mansa

a these de sua vida partidaria:

“Mulher tá cada vez mais ordinaria! Trabalha ella deitada, e em pé descansa!”

Collegas deputadas em vingança ja pensam, comparando o gay ao paria,

pois querem que a mulher ninguem compare-a

à puta que desfila, deita e dança.

Peor foi quando a emenda o Clodovil tentou fazer: “Porem não é o seu caso, senhora: seu officio não é vil!”

Georges Bourdoukan

Por um estado laico e democrático

A propósito do texto de Gershon Knispel “Quem fala mal do Hamas

não estudou história?”, publicado na edição de número 144 da Caros Amigos, no qual tece algumas observações sobre a minha entrevista ao número 143 da mesma revista, respondo:

Meu caro Gershon. Não critique o Hamas, critique o colonizador. O Hamas é um movimento de resistência contra a ocupação. O Hamas é

um movimento político cujos dirigentes foram eleitos democraticamen- te. Gershon, você tem todo o direito de não concordar com o Hamas, mas não o de não reconhecer sua legitimidade. Não achei correta também sua tentativa em me associar aos go- vernos árabes. Primeiro, porque não existem governos árabes, mas governos de língua árabe, assim como não existem governos portu- gueses, espanhóis, ingleses, mas governos de língua portuguesa, es- panhola, inglesa, etc. Segundo, porque sei perfeitamente distinguir governantes de povos, assim como também jamais vou confundir po- vos de confissão judaica com os governantes de Israel, ou com o sio- nismo. E para deixar mais clara ainda a minha posição em relação a povos e governantes, defendo todo e qualquer povo, de qualquer con- fissão religiosa, e coloco no mesmo limbo todos os governantes.

“Mulheres prostituem-se

 

(foi raso

)

O

que estranhei em seu artigo é a não existência de uma crítica

si

forem bonitinhas!” (

e

subtil)

contundente aos governantes de Israel. E a não manifestação sobre

sempre indo de encontro a hospitais, escolas e residências.

“As feias não têm culpa

Quanto atrazo!

a existência de um Estado palestino.

Uma das vantagens da orthographia etymologica é que, mesmo quando não haja differença litteral, prestamos mais attenção à ori- gem das palavras e identificamos um vocabulo hybrido, formado, por exemplo, do grego e do latim, e assim nos conscientizamos de que, tanto na apparencia quanto na essencia, tudo é relativo. É o caso do termo “democradura”, mixto de cidadania e tyrannia. Isso leva a muitas reflexões. Alem da dictadura tradicional, totalitaria, que re- prime ou supprime quaesquer divergencias ideologicas ou direitos civis, são varias as dictaduras parciaes, proprias das panellinhas e egrejinhas das quaes venho fallando. Uma das mais recentes é a dic- tadura da magreza, que abordarei noutra opportunidade. Das mais antigas é a dictadura da belleza, qualidade obrigatoriamente attri- buida ao chamado “sexo fragil”, por isso mesmo tambem dicto “bello sexo”. Rainhas à parte (quasi todas horrorosas), as poucas mulhe- res que usufruiram do poder ao longo da historia teriam usado seus dotes estheticos como moeda politica, um typo mais sophisticado de prostituição. Mas será que nas democracias a mulher não precisa da belleza para chegar ao poder? “As feias que me desculpem, mas bel- leza é fundamental.” A phrase não é do Clodovil, nem dum marketei- ro midiatico. Na politica actual, a belleza fica relativizada. Uma Zelia ou Dilma seria feia para os estylistas, não para os ministros ou caci-

actual, a belleza fica relativizada. Uma Zelia ou Dilma seria feia para os estylistas, não para

Gershon, jamais apoiei a violência, mas sempre apoiarei a resis- tência. E nós sabemos que toda resistência é legítima, principalmente quando se trata de um povo que há mais de 60 anos sofre ocupação. Cruel, extremamente cruel, como o é toda ocupação. Mas a de Isra- el contra o povo palestino é crudelíssima, humilhante, brutal, onde, para vergonha da humanidade, um povo inteiro é confinado em cam- pos de concentração. Onde sequer se respeita o direito básico de ir-e- vir. Onde sequer se permite a entrada de medicamentos, onde o abas- tecimento de água, energia elétrica e de combustível fica a critério do colonizador. E onde sequer se permite às pessoas com direitos espe- ciais (deficientes) ou portadoras de doenças gravíssimas busquem so- corro ou assistência médica em hospitais que possuam condições. Por- que, por um estranho fado da natureza, os mísseis israelenses estão

Gershon, reconhecer legitimidade a euroamericanos sobre uma terra asiática, a Palestina, em nome de um deus brutal, vaidoso, ciumento, in- justo e sanguinário só podia dar no que deu. Não vamos confundir História com mitologia, ou Direito com re- ligião. Esse tipo de confusão é que gera o fundamentalismo. Veja você que o estado de Israel sequer possui Constituição, sequer re- conhece o casamento civil. E não bastando isso, sua Corte Suprema permite a tortura. Há algo mais fundamentalista do que isto?

ques partidarios. Comparada aos homens parlamentares, todos feios

É

difícil defender o indefensável.

que só a peste, a mais maldotada das deputadas seria uma mulher que se disputa, quando não se diz puta. Mas, si o eleitor for cego, o sexo e a physiognomia fazem pouca differença. Aquelle ou aquella que tiver voz mais melliflua será capaz de seduzil-o, qualquer que seja a cor politica. Eu, por exemplo, votaria naquella dama que an- nuncia os voos nos aeroportos, ou no rapaz que (dizem) a imita com a maior perfeição

Gershon, eu não gosto da idéia de dois estados para dois povos por- que sou internacionalista e visceralmente contra qualquer tipo de fron- teira, por entender que a humanidade não pode viver em currais. E a pior de todas é a fronteira física, que só beneficia a indústria bélica. Mas en- quanto isso não for possível, creio que o melhor para palestinos e israe- lenses seria a existência de um Estado único, laico e democrático, onde todos possam conviver harmoniosamente.

e israe- lenses seria a existência de um Estado único, laico e democrático, onde todos possam

Será que é tão difícil isso?

Glauco Mattoso é poeta, letrista e ensaista. htt://sites.uol.com.br/glaucomattoso

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caros amigos maio 2009

Georges Bourdoukan é jornalista e escritor.

ilustração: guz - www.flickr.com/photos/osamurai

ilustração: guz - www.flickr.com/photos/osamurai “ditabranda” estão em pleno mo- vimento em nosso país. As elites
ilustração: guz - www.flickr.com/photos/osamurai “ditabranda” estão em pleno mo- vimento em nosso país. As elites

“ditabranda” estão em pleno mo- vimento em nosso país. As elites (se é que se pode utilizar tal conceito no caso brasileiro), com a parti- cipação decisiva, vergonhosa e capitulado- ra de Lula e da cúpula do PT, articulam e se- dimentam suas alianças para 2010, ainda que

isso signifique imolar os princípios republica- nos no altar do mais vil oportunismo. O povo?

Quanto mais a crise mundial do

capitalismo fizer sentir os seus efeitos sobre o Brasil, quanto maiores forem as incertezas so- bre o que acontecerá em 2010, mais as alianças feitas “na cúpula” vão adquirir um caráter re- acionário, autoritário e truculento, pois a cri- se tende a estreitar cada vez mais os pequenos espaços ainda permitidos à nossa débil, precá- ria e sangrada democracia. Isto é, quanto mais grave for a crise, menor será o grau de tole- rância da burguesia. Nesse sentido, o golpe no Maranhão também funcionou como um balão de ensaio. Do ponto de vista dos movimentos sociais e da esquerda que realmente mereça esse nome, a ferroada do marimbondo de fogo deixa uma mensagem muito clara: a repressão política e a truculência policial aumentarão nos próximos meses, assim como será acentuada a cumpli- cidade ativa da “grande mídia”, que, com ra- zão, teme que ocorra no Brasil a eclosão do movimento de massas atualmente em curso na América Latina. A esquerda que deseja resis- tir a esse processo e mudar o país deve aban- donar as ilusões nas suas lideranças aprisio- nadas às teias institucionais, para acelerar ao máximo a construção de sua organização autô- noma e independente. Se o golpe dado em São Luís do Maranhão indica o estado de ânimo dos feitores de escravos ridiculamente eleva- dos à condição de “imortais”, a resistência ofe- recida pelo MST e outros movimentos sociais indica o único caminho possível. O resto é ilusão e blá-blá-blá.

Ora, o povo

possível. O resto é ilusão e blá-blá-blá. Ora, o povo José Arbex Jr. é jornalista. José

José Arbex Jr. é jornalista.

José Arbex Jr.

A “ditabranda”

mostra as suas garras

Golpe. Puro e simples golpe. Golpe vaga- bundo, de republiqueta de banana. Golpe de jagunço, de gente baixa e mesquinha, de pig- meu moral, de candidato a ditador. O idioma

falta para caracterizar o que foi feito no Mara- nhão, com o afastamento do governador legi- timamente eleito Jackson Lago e a imposição, goela abaixo do povo, de uma representante da oligarquia Sarney. Para derrubar Lago e ao mesmo tempo evitar a convocação de no- vas eleições no Maranhão, a justiça eleitoral brasileira – que grande piada, que escárnio co- lossal, que falta do menor senso de dignida- de! – inventou um procedimento “ishperrrrto”:

cassou os votos apenas dos eleitores de Jack- son Lago, mantendo todos os outros válidos. A criatividade não tem limites: enquanto a di- tadura militar impugnava o mandato de um determinado opositor, o atual regime brasilei- ro caça o voto de centenas de milhares de elei- tores. E o chefão do esquema, ainda por cima, preside o honrado senado brasileiro. Triste país, se é que possa qualificá-lo como tal. E a esquerda nisso tudo? Luís Inácio Lula da Silva, o mais prestigiado cabo eleitoral de Roseana Sarney – moça de passado impoluto, jamais envolvida em escândalos feitos de sa- cos de dinheiro de origem desconhecida e des- tino incerto -, permanece calado. Claro: ele é o poder executivo, e, como se sabe, numa demo- cracia não pode haver ingerência de um po- der sobre o outro, e, mais claro ainda, o Bra- sil é de fato uma democracia. É óbvio, não é? Para apoiar o clã Sarney, Lula arrastou na lama o que resta do PT no Maranhão. A parte ainda viva do PT maranhense protestou, gri- tou, brigou, mas dentro de certos limites: afi- nal ela entende que o procedimento conivente de Lula, para dizer o mínimo, obedece a princí- pios estratégicos que têm a ver com as eleições

de 2010. Razões de estado

Razões de estado!

A parte morta, engessada e empalhada do PT, isto é, a sua maioria, calou-se, como se calou sua direção nacional, seus governadores, seus deputados e seus senadores (se houve alguma

exceção, peço desculpas antecipadas):

todos permaneceram caladitos, obedientes e obsequiosos diante do grande marimbondo de fogo José Sarney. E os outros partidos de esquerda? Protesta- ram, convocaram manifestações, registraram, ao menos, sua indignidade diante do golpe es- pantoso? Onde estão os ministros, governado- res, autoridades e parlamentares do PC do B, do PSOL, do PSB e do próprio PDT de Jackson Lago? E aqueles outros que, mesmo não sen- do de esquerda, afirmam apoiar a república e as instituições democráticas: por exemplo, a ala do PSDB identificada com o “príncipe dos sociólogos”? Ah, sim, aí o silêncio tem uma ex-

plicação: eles esqueceram, a pedido, tudo o que

o príncipe escreveu antes de ser conduzido ao

Planalto, em 1994. Com raras e honrosas exce-

ções, nossos digníssimos integrantes da esfe-

ra política institucional assistiram em silêncio

a um dos mais graves ataques feitos às ins-

tituições republicanas brasileiras desde 1964.

A única tentativa séria de resistência veio dos

movimentos sociais, especialmente do MST, que mobilizou o que podia – algumas cente- nas de militantes – para proteger o palácio do governo maranhense, caso o governador elei- to levasse até o fim a sua disposição de não ce- der ao assalto à mão armada perpetrado con- tra o seu mandato. Que ninguém se iluda: os articuladores do

golpe no Maranhão representam as mesmas forças que arquitetaram o golpe de 1964. São as oligarquias espúrias, asquerosas, retrógradas, escravistas, racistas e subservientes ao impe- rialismo que, ao longo da história do Brasil – e não só do seu período republicano – sempre tra- taram o país como propriedade sua, seu quin- tal, sua senzala. Contaram e contam, para isso, com o apoio da “grande mídia”, que se apressa

a denunciar, com histeria, o suposto autorita-

rismo de regimes democraticamente eleitos na América Latina, com a mesma desfaçatez com que se cala diante do golpe antidemocrático no Brasil. Em outras palavras, as engrenagens da

maio 2009 caros amigos

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falar

Gilberto Felisberto Vasconcellos

Darcy Ribeiro

e os EUA

Para entender qual é a do Obama em relação a nós, latino-ame- ricanos, precisamos conhecer o que o maior antropólogo do sécu- lo XX, Darcy Ribeiro, pensou sobre os Estados Unidos na história da humanidade. Toda a obra de Darcy Ribeiro traz alguma importante reflexão a res- peito dos EUA, país que se converteu na vanguarda do imperialismo e que ajudou a derrubar João Goulart em 1964 e exilar Leonel Brizola. Em toda sua vida deve ter ido apenas uma única vez (quando já estava com câncer) aos EUA, embora sua amiga e tradutora para o inglês de O Processo Civilizatório, Betty Meggers, tivesse insistido várias vezes para que ele fosse conhecer o país do Tio Sam. Sua mu- lher, a etnóloga Berta Ribeiro, de origem romena, poliglota, falan- do perfeitamente o inglês, tinha uma irmã que morava nos EUA. Depois de regressar do exílio, Darcy recusou bolsa oferecida pela Ford Foundation porque os EUA haviam ajudado a derrubar João Goulart. A vantagem de sua tão alardeada personalidade nar- císica é que ele deixou registrados todos os episódios e momentos de sua biografia, conforme se lê em Confissões (1997). Montevidéu, primeiras semanas de exílio, estavam lá seus amigos an- tropólogos Clifford Evan e Betty Meggers oferecendo-lhe bolsa de estu- do, 2.500 dólares, para ir aos EUA consultar a biblioteca do Senado. Recusou. Nunca aprendeu a falar inglês; ler, lia, como se vê pe- los livros de sua biblioteca, mas não falava, como também não falava fluentemente o espanhol. Seu ex-aluno Pi Hugarte (entrevistado por Haydée Ribeiro, La Memoria de Las Memorias) assinalou que Darcy gostava de usar neologismos a fim de elaborar novos conceitos, ex- traídos da língua inglesa. Não se pode dizer que tivesse birra com os EUA e os norte-ame- ricanos, foi amigo do sociólogo Donald Pierson, mas é que a histó- ria colocou o imperialismo na cola dele, padeceu com a CIA, telefo- ne grampeado, desavenças com o embaixador Lincoln Gordon. Em Américas e a Civilização, considerado por Berta Ribeiro o me- lhor livro de Darcy Ribeiro, traz como subtítulo “processo de forma- ção e causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos”. Nele são retratadas as etapas históricas dos EUA, país que experi- mentou penúria em seu passado na fase de ocupação do deserto com colonos, pioneiros e emigrantes pauperizados pela revolução mer- cantil e pela revolução industrial na Europa, ou seja, europeus bran- cos que emigraram com suas mulheres para reconstruírem na nova terra as matrizes de seus paises de origem, ingleses, holandeses, ir- landeses, suecos. Trata-se de uma colônia de povoamento, com um projeto de “autocolonização”, tendo por objetivo transplantar as for- mas de vida européia em regiões de clima temperado. Como um con- tingente cosmopolita anglicanizado, porque os ingleses eram em maior número, gente pobre, perfil caucasóide, engajados em pro- priedade granjeira familiar, que foram alfabetizados para ler a Bíblia em igrejas modestas e sem a desqualificação do trabalho manual. Obama, em seus discursos, abusa da palavra missão e dos pio- neiros. Darcy mostrou que a missão estava indo para o brejo. Hoje os pioneiros se converteram em gângsteres multinacionais.

os pioneiros se converteram em gângsteres multinacionais. Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista

Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor

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caros amigos maio 2009

sociólogo, jornalista e escritor 10 caros amigos maio 2009 brasileiro Marcos Bagno MODISMOS LINGUÍSTICOS ? A

brasileiro Marcos Bagno

MODISMOS

LINGUÍSTICOS

?

A Coréia do Sul tem uma população 7 vezes menor que a dos Esta- dos Unidos. No entanto, a cada ano, ela forma o mesmo número de en- genheiros que os EUA. Num programa internacional de avaliação, os sul-coreanos ficaram com o 1 o lugar em solução de problemas, 1 o em leitura, 3 o em matemática e 7 o em ciência. Em 1945, a taxa de alfabeti- zação no país era de 22%, hoje é de 99%. É o que acontece quando uma nação mobiliza todos os seus recursos em favor da educação. Corta. Em 2007, divulgou-se o INAF (Indicador de Analfabetismo Funcio- nal): 75% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são incapazes de ler e in- terpretar adequadamente um texto simples. Se somos hoje quase 200 milhões, significa que 150 milhões são analfabetos funcionais, isto é, pessoas que tiveram acesso à escolarização mas não desenvolveram plenamente as habilidades de leitura (e de cálculo também), o equiva- lente às populações somadas da França e da Alemanha. Esses dados não seriam suficientes para escandalizar nossas clas- ses dirigentes? Não. A história da nossa formação social mostra que, há meio milênio, as classes dirigentes brasileiras não só não se escan- dalizam como tiram o máximo proveito desse abismo social que sepa- ra o pequeno círculo dominante da monumental maioria de classes subalternas. Os dados do analfabetismo funcional “coincidem” com os da distribuição (distribuição?) de renda em nosso país, a mais in- justa do planeta. O desenvolvimento econômico do Brasil nos últimos anos e sua crescente importância no panorama internacional – comprovada pela sigla BRIC, iniciais dos “países emergentes” – em nada se fazem acom- panhar de um desenvolvimento social que mereça o mesmo destaque. Somos uma nação onde o elemento africano tem um profundo impac- to na nossa história musical, religiosa, culinária, afetiva, linguística etc., mas continuamos profundamente racistas. Somos o país em que as desigualdades de salários entre homens e mulheres é das maiores do mundo. Temos um genocídio diariamente praticado contra os ado- lescentes pobres, negros em sua maioria, eliminados por traficantes e pela polícia. Um sistema carcerário que arrancou lágrimas do obser- vador da Anistia Internacional, que o qualificou de “inferno”. E, é cla- ro, uma forte liderança entre os países mais corruptos. Mais sinistro é comprovar, como as pesquisas vêm mostrando, que a maioria do nosso professorado também se inclui naquele apavoran- te índice de analfabetismo funcional. Procurados hoje em dia pelos es- tudantes de origem mais humilde e de baixíssimo letramento, os cur- sos de licenciatura continuam desconhecendo a realidade social de seu alunado, e vão diplomando milhares de pessoas sem habilitações mínimas para exercer a profissão docente. Já coletei centenas de tex- tos escritos por professores da rede pública do Distrito Federal (maior renda per capita do país) e me surpreendi com sua quase absoluta in- capacidade de escrever vinte linhas sobre o próprio ofício. Enquanto nossas elites governantes ficam se divertindo com BRIC pra lá e G-20 pra cá, incomodadas apenas com as altas e baixas das bolsas, 75% dos brasileiros se veem desde sempre excluídos de qual- quer progresso real no plano da cidadania. É triste viver num país emergente com uma educação submersa

triste viver num país emergente com uma educação submersa Marcos Bagno é linguista e escritor. www.marcosbagno.com.br

Marcos Bagno é linguista e escritor. www.marcosbagno.com.br

ilustração: guz - www.flickr.com/photos/osamurai

Ferréz

Relógios

As garras do sol entravam pelos vãos das telhas.

O calor então se espalhava e era hora

de levantar.

A pesada coberta, que ganhara no casa-

mento há alguns anos, não combinava com nenhum lençol nem forro de travesseiro, mas sua esposa também não deixava de dormir por isso. Era um dia especial, iriam instalar os reló- gios para controle de luz. Chegou como todo mundo, foi logo moran-

do em casa de parente, levantava cedo, fazia bico de pedreiro, fazia compra e venda de coi- sas usadas, vivia com relógio no bolso e ofe- recia pra quem chegava perto, isso tudo du- rou uns anos, até Matheus montar seu bar e construir seu barraquinho.

A favela não tinha iluminação em suas vie-

las, os moradores então colocavam bocais do lado de fora da casa e assim iluminavam as es- treitas ruas, enquanto, de quatro em quatro anos, alguns vampiros saiam de seus grandes castelos para prometer que a iluminação che- garia em breve. Os moradores foram aprendendo, aos pou- cos, que o máximo que iriam ganhar era um show nessas épocas de eleição. Sempre houve uma discussão na comuni- dade, quanto a não ser cobrado corretamen- te o valor da água e da luz na favela, como se todos ali vivessem de favor. Um dia teve um grande debate: pessoas da rua de cima, que tinham terrenos legalizados, e por isso se achavam melhor que todo mundo, recla- mavam que a favela não pagava seus impostos corretamente, era tudo taxa mínima. Matheus, morador da favela e vindo do Piauí, definiu tudo quando disse bem alto que, pra morar do lado de córrego e viver com bandido e traficante, eles não tinham que pagar nada, ti- nham sim que ser reembolsados por tão precá-

ria vida, o silêncio definiu o argumento certo. Os moradores da rua de cima voltaram para suas casas particulares, mas quando faltava luz, faltava lá também, quando tinha tiro, lá escutava também, quando havia chei- ro de maconha era de lá que vinha também, mas quando a polícia invadia os barracos, lá na rua de cima ninguém mexia. Começaram a chegar os homens, seus ma- cacões, seus empregos invejados, suas botas isolantes, seus equipamentos, tal qual pendu- rados ao ponto de uma criança chamar de su- per-herói um daqueles homens. Enrolaram as cordas em volta das barri- gas, pegaram as escadas, começaram a subir

e em seguida desligaram toda a energia. Os meninos viam os cabos no chão brilhan- do, o alumínio de repente virou brinquedo, depois pães, doces, e muitos outros desejos. Era só levar no lugar onde se compra de

tudo, onde tem um monte de coisa jogada, onde

o homem vive sujo e suado, um ferro-velho. Mas os homens de azul estavam bem atentos. Até que Matheus saiu do seu bar nervo-

so, com uma serrinha dessas de cortar cano começou a picotar os cabos, um dos técnicos tentou descer da escada e Matheus avisou. - Fica aí, se descer é pior. O homem voltou o passo e ficou observan- do, não antes de dizer baixinho.

- Aí é bagunça porra, na nossa cara!

E Matheus continuava a picotar os pesa-

dos cabos de alumínio e como um desaba-

fo disse alto para que os homens nas esca- das ouvissem.

- Tô sem luz no meu bar, todo mundo vem

aqui quando quer, vão por conta cara pra pa-

gar, então que se dane tudo. Os meninos faltavam pular em Matheus, atento aos pedaços, e em alguns instantes quando um dos técnicos decidiu descer e se-

gurar uma ponta dos cabos, Matheus gritou.

- Pega aí molecada, pode pegar, leva e ven- de, é tudo nosso dinheiro mesmo. O técnico continuava com a ponta do cabo na mão e falava baixinho.

- Pô, aí já é bagunça, para por favor, vai

complicar a gente depois. Os meninos saíram dos barracos, como se fossem convocados para um grande carnaval e cada um pegou seu pedaço de cabo. No outro dia, após o dono do ferro-velho ser preso por comprar produto roubado, no

caso os cabos de energia, não era difícil ver os moradores todos eufóricos comentando.

- Cê viu que relógio bonito? todo transpa- rente, parece até uma coisa do futuro.

- Mas dizem que é assim pra gente num emendar cabo, num adulterar.

- Deve ser mentira menina, é assim pra fi- car bonito, todo de acrídico.

menina, é assim pra fi- car bonito, todo de acrídico. - Num é acrídico, é acrílico

- Num é acrídico, é acrílico sua boba.

- O seu gira como?

- Num sei, vamos lá ver, mas dizem que cada um gira diferente do outro.

- E você percebeu que a luz num mudou

nada, ficou a mesma coisa, num pode tomar banho depois das sete senão apaga tudo, que nem era antes? Mateus voltando do açougue, com um sa- quinho com alguns bifes, passou pela viela principal, pulou alguns buracos, molhou a ponta do pé na fossa estourada há meses, e percebeu que todos olhavam pros seus reló- gios, encantados, como um grande presente da prefeitura. Dali alguns dias, quando um outro homem de azul lesse os números, tirasse uma máqui- na da bolsa e cuspisse a primeira conta, o en- canto se acabaria.

bolsa e cuspisse a primeira conta, o en- canto se acabaria. Ferréz é escritor e hoje

Ferréz é escritor e hoje vive com a esposa e uma filha num país chamado periferia.

maio 2009 caros amigos

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www.subis.blogspot.com

ilustração: hke

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www.subis.blogspot.com ilustração: hke 12 memórias de um jornalista não-investigativo Renato Pompeu “Eu sou do
memórias de um
memórias de um
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www.subis.blogspot.com ilustração: hke 12 memórias de um jornalista não-investigativo Renato Pompeu “Eu sou do

jornalista não-investigativo

hke 12 memórias de um jornalista não-investigativo Renato Pompeu “Eu sou do tempo que os Diários

Renato Pompeu

“Eu sou do tempo que os Diários Associados escreviam football, team, center-forward, full-back, shoot e goal-keeper.”

Antigamente também havia assassínios de ho­ mossexuais a troco de nada, em crimes de ódio e preconceito, ou para simples roubo. Mas, quando comecei a trabalhar em jornal, em 1960, os jornais não mencionavam que a vítima era homossexual – dizia­se algo assim como “segundo seus vizinhos, a vítima tinha hábitos reservados”. O lei­ tor tinha de ser tão sutil quanto o reda­ tor tinha sido para entender o que eram “hábitos reservados”. Havia os “conflitos generalizados” quan­ do ocorriam brigas de bar, em bailes ou festas; uma briga de rua entre duas pessoas era chama­ da “desinteligência”. Tanto os “conflitos generaliza­ dos” como as “desinteligências”, na maioria dos casos, ocorriam “após farta ingestão de bebida alcoólica”. Os assassinos, por ve­ zes, agiam com “requintes de crueldade” (como se crueldade pudesse ser alguma coisa requintada), sem que se explicasse o que o criminoso tinha feito com a vítima, ou com seu cadáver. Os estupradores e os autores de atentados violentos ao pudor, hoje apontados como “maníacos”, eram abertamente chamados de “tarados”. Um que ficou célebre foi o “tarado do Ibirapuera”, antes das construções que marcaram esse parque no quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954. Ninguém morria de “câncer”, e sim falecia “de insidiosa moléstia”. Não se podia falar “isso fez com que aquilo acontecesse”; tinha de se di­ zer “isso fez que aquilo acontecesse”. Não se podia falar do “entrosamen­ to” de um time de futebol, pois essa palavra não constava do dicionário – mandavam a gente falar da “entrosagem” de um time, o que recusá­ vamos e simplesmente a organização dinâmica da equipe ficava sem ser mencionada. Após muita discussão, no decorrer do tempo, admitiu­se que “entrosagem” era de relógio e “entrosamento” era de time de fute­ bol. Hoje é “entrosagem” que não consta do vocabulário dos programas de processamento de texto. Num sepultamento, não se dizia que, do velório tal, o cortejo seguiria para o cemitério tal, mas sim que “o féretro sairá do velório tal para o cemitério tal”. Por sinal que era um crime repetir palavra e, na segunda vez que se ia usar “cemitério” num texto, tinha­se de dizer “necrópole”, ou mesmo “campo santo”, e quando se ia escrever pela segunda vez a palavra “hospital”, tinha de se usar “nosocômio”, ou “casa de saúde”. Nas inaugurações, o texto­legenda (notícia em que o texto era cons­ tituído apenas de uma legenda maior do que a maioria das legendas, ou seja, uma foto­notícia), tinha de se terminar com “Compareceram auto­ ridades civis, militares e eclesiásticas. Na foto, aspecto da solenidade”. Isso era invariável.

Na foto, aspecto da solenidade”. Isso era invariável. Renato Pompeu é jornalista e escritor. rrpompeu@uol.com.br

Renato Pompeu é jornalista e escritor. rrpompeu@uol.com.br

caros amigos maio 2009

João Pedro Stedile

É URGENTE

FAZERMOS UM MUTIRÃO PARA DEBATER A CRISE

1. A sociedade brasileira continua anestesiada em relação ao ver­ dadeiro problema da crise. A imprensa burguesa tem passado a idéia de que:

a) A crise é cíclica, normal no capitalismo, portanto, logo saire­

mos dela.

b) A crise é um fato natural, e portanto atinge a todos, devemos

nos conformar.

c) A crise não tem culpados. Ela aconteceu e pronto!

d) O governo está certo quando ajuda as empresas para elas da­

rem empregos.

e) O Brasil é um país protegido por Deus e pelo presidente do Ban­

co Central, Sr. Meirelles, e, portanto, a crise aqui terá pouco efeito. Tudo isso não passa de falácias.

2.O governo brasileiro tem atendido a todas as demandas dos ca­ pitalistas. Os banqueiros puderam reduzir a transferência ao Banco Central dos depósitos à vista, ou seja, um reforço de caixa de 180 bi­ lhões de reais com os quais compraram títulos do governo, receben­ do 11% de juros. Os setores industriais terão um reforço de 100 bilhões de reais na caixa do BNDES, retirados do orçamento da União. As vinte maio­ res agroindústrias, a Sadia, Perdigão, alguns frigoríficos estrangei­ ros, receberam 12 bilhões reais para capital de giro. Os capitalistas do agronegócio, os mesmos que diziam sustentar o Brasil e retira­ vam dos bancos 70 bilhões de reais como crédito rural, exigiram 150 bilhões, e já botaram na rua 280 mil assalariados rurais. O governo tem acenado com “apenas” mais 98 bilhões. A segunda preocupação do governo é não contaminar a disputa eleitoral e a terceira é evitar que o clima de crise gere um sentimento de desânimo, com conse­ quências incontroláveis. Por tudo isso, está evitando o debate sobre a crise na sociedade.

3.Os partidos políticos já estão em plena campanha eleitoral. Nem querem ouvir falar em crise.

4.Diante desse quadro é urgente que as centrais sindicais, os movi­ mentos sociais e as pastorais sociais, comecemos imediatamente um verdadeiro mutirão na sociedade, para debater a crise. Essa crise não é cíclica, é estrutural do capitalismo e será prolon­ gada e profunda. E coloca em xeque os padrões atuais de consumo e os recursos naturais, o equilíbrio do meio ambiente. Nas crises ante­ riores cerca de 80% da humanidade viviam no meio rural, e tinham melhores condições de resistir à crise do capitalismo industrial. Ago­ ra 80% da humanidade vivem nas cidades. Daí a necessidade de deba­ ter políticas publicas que garantam a manutenção das mínimas con­ dições de vida do povo das cidades.

das mínimas con­ dições de vida do povo das cidades. João Pedro Stedile é membro da

João Pedro Stedile é membro da coordenação nacional do MST e da Via Campesina Brasil.

foto:s igoR ojeDA

CRISE DO JUDICIÁRIO Tatiana Merlino

Por que a Justiça não Pune os ricos

Tatiana Merlino Por que a Justiça não Pune os ricos A mesma instituição que concede habeas
Tatiana Merlino Por que a Justiça não Pune os ricos A mesma instituição que concede habeas
Tatiana Merlino Por que a Justiça não Pune os ricos A mesma instituição que concede habeas

A mesma instituição que concede habeas corpus a figuras como a proprietária da butique de luxo Daslu, que deve aos cofres públicos R$ 1 bilhão, deixa ladras de xampu e desodorante longos meses mofando na cadeia

Maria Aparecida (foto) evita olhar para sua imagem refletida no espelho. Faz quatro anos que a jovem paulistana saiu da cadeia, mas, nem que quisesse, conseguiria esque- cer o que sofreu durante um ano de deten- ção. Seu reflexo remonta ao ocorrido no Ca- deião de Pinheiros, onde esteve presa após tentar furtar um xampu e um condicionador que, juntos, valiam 24 reais. Lá, Maria Apa- recida de Matos pagou por seu “crime”: fi- cou cega do olho direito. Portadora de “retardo mental moderado”,

a ex-empregada doméstica foi detida em fla-

grante em abril de 2004, quando tinha 23 anos. Na delegacia, não deixaram que telefo- nasse para a família. Foi mandada diretamen- te para a prisão, onde passou a dividir uma cela com outras 25 mulheres. Em surto, a jo- vem não dormia durante a noite, comia o que encontrava pelo chão, urinava na roupa. Passado algum tempo, para tentar encer- rar um tumulto, a carceragem lançou uma bomba de gás lacrimogêneo na área das de-

tentas. Uma delas resolveu jogar água no ros- to de Maria Aparecida, e a mistura do gás com

o líquido fez com que seu olho fosse sendo

queimado pouco a pouco. “Parecia que tinha um bicho me comendo lá dentro”, conta. A pedido das colegas de pavilhão, que

não aguentavam mais os gritos de dor e os barulhos provocados pela moça, ela foi

transferida para o “seguro”, onde ficam as presas ameaçadas de morte. Maria Apareci-

da passou a apanhar dia e noite. “Eu chora- va muito de dor no olho, e elas começaram

a me bater com cabo de vassoura”, relem-

bra, emocionada. Somente quando compa-

receu à audiência do seu caso, sete meses depois de ter sido detida, sua transferência para a Casa de Custódia de Franco da Ro- cha, na Grande São Paulo, foi autorizada. Lá, diagnosticaram que havia perdido a vi- são do olho direito. Foi nessa época que sua irmã Gisleine pro- curou a Pastoral Carcerária, que a encami- nhou para a advogada Sonia Regina Arrojo

e Drigo, vice-presidente do Instituto Terra,

Trabalho e Cidadania (ITTC). Sonia entrou com um pedido de habeas corpus no Tribu- nal de Justiça de São Paulo, que foi negado. Apelou, então, ao Superior Tribunal de Justi- ça (STJ), que, em maio de 2005, concedeu li- berdade provisória à jovem, 13 meses depois de ter sido presa por causa de 24 reais. A advogada também entrou com um pe- dido de extinção da ação, baseando-se no “princípio da insignificância”, aplicado quando o valor do patrimônio furtado é tão baixo que não vale a pena a justiça dar con- tinuidade ao caso. No entanto, até hoje, o processo não foi julgado, e Maria Aparecida continua em liberdade provisória.

A situação indigna Gisleine. “É um des- caso muito grande. Já era para esse julga- mento ter acontecido. Minha irmã pagou muito caro por esse xampu que não chegou a utilizar”, critica. “Tem gente que não pre- cisa estar na cadeia. Existem penas alterna- tivas e o caso dela não seria de prisão, mas sim de internação, já que desde os 14 anos ela toma medicação controlada”, afirma.

Justiça seletiva

O mesmo recurso jurídico – o habeas cor- pus – pedido pela advogada Sonia Drigo para que Maria Aparecida respondesse ao processo em liberdade foi solicitado e concedido, em 24 horas, a outra mulher. Mas um “pouco” mais rica: a empresária Eliana Tranchesi, proprie- tária da butique de luxo Daslu, em São Pau- lo, condenada em primeira instância a uma pena de 94,5 anos de prisão. Três pelo cri- me de formação de quadrilha, 42 por descami- nho consumado (importação fraudulenta de um produto lícito), 13,5 anos por descaminho tentado e mais 36 por falsidade ideológica. Somando impostos, multas e juros, a Jus- tiça diz que a Daslu deve aos cofres públi- cos 1 bilhão de reais. Os representantes da empresa contestam esse valor, mas afirmam que já começaram a pagar as dívidas. A sen- tença inclui ainda o irmão de Eliana, Anto- nio Carlos Piva de Albuquerque, diretor fi-

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nanceiro da Daslu na época dos fatos, e Celso de Lima, dono da maior das importadoras en- volvidas com as fraudes, a Multimport. A prisão de Tranchesi foi consequência da Operação Narciso, desencadeada pela Polícia Federal em conjunto com a Receita Federal e o Ministério Público em julho de 2005, com o objetivo de buscar indícios dos crimes de formação de quadrilha, falsidade material e ideológica e lesão à ordem tribu- tária cometida pelos sócios da butique. De acordo com juristas e analistas ouvi- dos pela reportagem da Caros Amigos, a di- ferença de tratamento dispensado a casos como o de Maria Aparecida e Eliana Tran- chesi acontece porque, embora na teoria a lei seja a mesma para todos, na prática, ela funciona de forma bem distinta para os re- presentantes da elite e para os pobres. Sonia Drigo ressalta, entretanto, que não existe uma justiça para ricos e outra para as camadas mais humildes. “Ela é uma só, mas é aplicada diferentemente”. Segundo o cientis- ta político e professor da Universidade Esta- dual de Campinas (Unicamp), Andrei Koerner, a questão do acesso à justiça no Brasil é histó- rica. “Sempre houve uma grande diferença de tratamento dos cidadãos de diferentes classes sociais pelas instituições judiciárias”. Ele explica que dentro do judiciário há dis-

tinções no andamento e efetividade dos pro- cessos, que variam com a classe social dos envolvidos. Segundo ele, um dos maiores pro- blemas do poder é sua morosidade. No entan- to, “isso não significa que os processos dos ri- cos são mais ágeis. Depende dos interesses e efeitos produzidos pelos processos”. Ou seja, a Justiça, quando interessa às classes domi- nantes, também pode ser lenta. Como exem- plo, o professor cita “o longo tempo de uma execução para cobranças de dívidas de impos- tos, de contribuições previdenciárias”. Em relação a casos penais, isso também ocorre, “como quando uma pessoa com mui- tos recursos financeiros é acusada – Paulo Maluf, por exemplo. Nesse caso, ela é ca- paz de bloquear o andamento do processo até que a pena esteja prescrita. A agilidade em decidir a prisão ou soltura de uma pes- soa também varia, de acordo com sua clas- se social”, aponta Koerner. A diferença é que “um acusado de classe menos favoreci- da não será capaz de usar as oportunidades permitidas pelo processo”.

Servilismo versus repressão

O juiz criminal Sérgio Mazina, presiden- te do Instituto Brasileiro de Ciências Cri- minais (IBCCrim), acredita que o sistema judiciário reserva, aos pobres, o espaço da

justiça criminal. “Essa desigualdade, mais servil aos interesses dos poderosos e mais repressiva em relação aos mais necessita- dos, acirra-se ainda mais em países como o Brasil, que tem uma sociedade baseada num sistema escravista”. De acordo com Roberto Kant de Lima, Professor Titular de Antropologia da Univer- sidade Federal Fluminense (UFF), existem “moralidades” distintas por parte dos agen- tes de segurança pública e justiça criminal no tratamento à criminalidade, quando ela está ligada ou não ao patrimônio. “Os latrocí- nios [roubo seguido de morte], por exemplo, são julgados por um juiz singular, enquanto que os outros homicídios são julgados pelo júri popular’’. Segundo o professor, que co- ordena o Instituto Nacional de Ciência e Tec- nologia, pode-se concluir que as várias “mo- ralidades” afetam desigualmente a aplicação da lei, sendo que algumas dessas desigual- dades estão registradas em tipos processu- ais explícitos, enquanto outras, não. Mazina sustenta que a justiça brasileira é constituída para não ser popular. Em sua avaliação, desde a formação da legislação, há uma preocupação muito maior com a pre- servação patrimonial em detrimento da pro- teção da integridade física. Isso contribui, portanto, para a criminalização das cama-

O remédio para a falta de liberdade

Um dos aspectos sintomáticos da diferença de aplicação da Justiça para ricos e pobres é o habeas corpus. Considerado o mais importante instrumen- to judicial de defesa e proteção da liberdade indivi- dual, ele tem sido garantido em casos envolvendo ricos, famosos e poderosos, como a empresária Elia- na Tranchesi e o banqueiro Daniel Dantas. No en- tanto, pessoas como Maria Aparecida e centenas de outras não têm a mesma sorte. De acordo com a advogada criminalista Sonia Drigo, a lei é uma só, mas quando se cumpre em fa- vor de uma grande empresária, parece que houve privilégio. Segundo ela, a decretação da prisão de Tranchesi em decorrência de uma sentença de pri- meira instância é arbitrária. Portanto, a lei foi cum- prida. Porém, para conseguir a aplicação desse di- reito, a dona da Daslu contou com uma equipe de advogados que a assessoraram, o que não acontece com a população pobre. “O que está errado é man- ter essas pessoas humildes, que não têm advoga- dos, presas”, afirma Sonia. Ela explica que o habeas corpus serve para reme- diar um constrangimento, e leva de duas a cinco se- manas para ser impetrado. Acontece que uma pes- soa da classe alta contrata uma banca de advogados

que, a partir daquele momento, vai fazer todo o ne- cessário para liberar o acusado. “E, uma vez que se entra com essa medida, a tramitação também é di- ferente, dentro do próprio judiciário, para quem tem mais ou menos condições”. Ou seja: quem tem menos dinheiro, dificilmente vai conseguir compro- vante de endereço, certidão de nascimento ou do- cumento de trabalho, requisitos exigidos para ob- ter a liberdade provisória. Para reunir esses dados, é preciso entrar em contato com a família, algo bas- tante dificultado pela precariedade das defensorias públicas. “Muitas vezes essas pessoas conhecem o advogado no dia do interrogatório”. Ao rebater as recentes críticas de que o Supre- mo Tribunal Federal (STF) só concedia habeas cor- pus para ricos, o ministro Gilmar Mendes afirmou que, no ano passado, 350 pessoas receberam tal di- reito, “ricos e pobres”. Ele disse, ainda, que pesqui- sou pessoalmente o assunto para descobrir que, en- tre os 350 habeas-corpus concedidos, 18 foram para casos em que “se aplicam o princípio da insignifi- cância: o furto da escova de dente, do bambolê, da pasta dental, do sabonete, do vídeo. Se esses casos não tivessem chegado ao Supremo, essas pessoas ainda estariam presas”, afirmou.

No entanto, Sonia questiona o raciocínio do Mi- nistro. “Quantos habeas corpus não tiveram que ser pedidos até chegar a esses que foram julgados? Há inúmeros meandros para que se chegue até lá, e, nes- se percurso todo, a pessoa já cumpriu pena. Há casos de acusados que ficam detidos nove, 11, 14 meses, e os habeas corpus não chegam ao STF”, relata. De acordo com ela, ao conceder os tais 18 ha- beas corpus, o STF simplesmente cumpriu o que estava na lei. “O primeiro juiz que pegou o pro- cesso poderia ter feito a mesma coisa, mas não fez porque existem preconceito e repressão con- tra essas pessoas, além da falta de tempo dos de- fensores públicos”. A juiza Kenarik Boujikian Felippe, integrante da Associação de Juízes para a Democracia (AJD), lem- bra que as arbitrariedades cometidas em casos en- volvendo os mais pobres são grandes, “e o tempo dos mortais para chegar no Supremo é imenso. Tem muita gente que fica presa pelo bacalhau, pelo danoninho, pelo tender, biscoito”. Quem tem condições de contratar um advogado, explica ela, “vai a Brasília, despacha caso a caso com o ministro. Quem é pobre, vai esperar, porque a defensoria não tem gente suficiente para levar de caso em caso”.

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caros amigos maio 2009

das mais baixas da população, mais propen- sas, por sua condição social, a cometerem delitos contra o patrimônio. “Há um acirra- mento da legislação para os crimes cometi- dos pelos pobres. O código penal brasileiro criminaliza a pobreza”, denuncia Mazina. Sonia Drigo acredita que há uma dupla criminalização, pois “a exclusão já é uma criminalização. Isso me lembra a diferença de tratamento dado para um sem-teto e para aquele que mora numa mansão. Vamos pe- nalizar aquele que não tem endereço, nem carteira assinada. Então, vamos bater nele, torturá-lo porque não teve condições de es- tudar e trabalhar”. O caso da ex-empregada doméstica Ma- ria Aparecida não deixa dúvidas a respeito de como isso acontece na prática. Na casa de sua irmã, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, a moça pouco fala. Mantém-se de cabe- ça baixa, cabelos longos e negros escondendo parte de seu rosto. Às vezes, esboça um sorri- so ingênuo. Sua expressão é de uma menina. Quando faz um balanço da prisão, da tor- tura e da perda da visão, muda a fisionomia:

“Tudo isso por conta de um xampu. Minha vida acabou”. Maria Aparecida compara-se com Eliana Tranchesi. “Eu peguei só um xampu e fiquei lá. Ela, cheia de dinheiro, saiu logo, e teve do bom e do melhor”. A alegação que foi dada à família de Ma- ria Aparecida para a perda da visão foi de que a jovem havia batido com o rosto no trinco de uma porta. “Mas isso é mentira, não tinha porta com trinco nenhum lá”, afir- ma Gislaine. Quando a moça foi transferida da cadeia para o manicômio em Franco da Rocha, fizeram um exame de corpo de deli- to, que atestou lesões corporais leves. “Ela perdeu um órgão vital, não a socorreram.

A defesa dos humildes na penúria

Quem necessita de assistência jurídica, mas não tem dinheiro para pagar um advogado, pode, em tese, recorrer ao serviço da Defenso- ria Pública. De acordo com a Constituição Fede- ral, qualquer pessoa que comprove a falta de re- cursos pode recorrer ao trabalho dos defensores. Apesar de cerca de 95% da população carcerá- ria do país depender desse serviço para respon- der os processos nos tribunais, a instituição sofre com problemas estruturais e orçamentários. Um diagnóstico do Ministério da Justiça revela que, a cada R$ 100 do Orçamento do Estado destinado às instituições jurídicas, so- mente R$ 3 vão para as Defensorias. De acor- do com a Associação Nacional dos Defenso- res Públicos (Anadep), no país existem cinco mil defensores públicos. Segundo o defen- sor Rafael Cruz, “por conta das dificuldades, não conseguimos atender como um advoga- do particular faria. Com o número de profis- sionais que temos, somos obrigados a esta- belecer prioridades”, lamenta. Na avaliação do juiz Sérgio Mazina, presiden- te do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim), “aqueles que deveriam prestar assis- tência jurídica aos mais pobres estão na penúria. E, em comparação com as demais carreiras, são mal remunerados”. Os integrantes do Ministério

Público (MP) ganham, em média, R$ 19 mil. Os defensores, entre R$ 7 mil e R$ 8 mil. Além disso, o MP, que tem a função de acusar, possui um or- çamento oito vezes maior que a defensoria, que, ainda, conta com menos pessoal. A juíza de direito e membro da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD), Kenarik Bou- jikian Felippe, insiste na importância de se forta- lecer a instituição. “Esse é um passo para tentar propiciar uma situação igualitária”. Ela lembra que, apesar de ser previsto em lei que toda pri- são em flagrante deve ser comunicada à Defen- soria num prazo de 24 horas, “ela não tem estru- tura para dar atenção a esses flagrantes”. Hoje, a Defensoria do Estado de São Pau- lo conta com 400 defensores públicos, que atendem, por ano, cerca de 850 mil pesso- as. De acordo com estudos da própria insti- tuição, caso houvesse 1.600 profissionais, ela poderia ter postos de atendimento em todas as comarcas. Ainda segundo números da Defensoria pau- lista, a população alvo (maiores de 10 anos, com renda mensal de até três salários mínimos) é de 23.252.323 pessoas; e, para cada defensor públi- co, existem 58.130 potenciais usuários (no Esta- do do Rio de Janeiro, essa proporção é de 1 para 13.886 usuários).

portante proteger um xampu e um condicio- nador de alguma loja que a integridade físi- ca de Maria Aparecida. A “sagrada” defesa da propriedade priva- da acaba sendo utilizada como argumento para criminalizar movimentos sociais, como

Ninguém assume isso, mas existe. É algo que vem de 500 anos de historia”. Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam que, muitas vezes, os magistra- dos estão imbuídos de preconceito quando vão lidar com pessoas das classes menos fa-

“Há um acirramento da legislação para os crimes cometidos pelos pobres”

Gostaria de saber o que seria a lesão corpo- ral grave, entregá-la num caixão para a fa- mília?”, questiona Gislaine, indignada.

Propriedade, o grande valor do direito penal

De acordo com a juíza Kenarik Boujikian Felippe, integrante da Associação de Juízes para a Democracia (AJD), “a propriedade é o grande valor do direito penal. Basta ver que a pena do furto é maior do que a pena de tor- tura. Para o direito penal, pegar algo da sua bolsa é mais grave do que a tortura”, avalia. Ou seja, para a justiça brasileira, é mais im-

no caso das organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). “Na medida em que esses movimen- tos possam a reivindicar uma redistribui- ção de riquezas, há sua criminalização. Se ti- verem apresentando um reclamo como o da proteção do meio ambiente, não há necessi- dade de criminalizá-lo. Mas se eles questio- nam a estrutura econômica da sociedade, há uma propensão à sua criminalização”. Para Kenarik, a diferença de tratamento dispensado a ricos e pobres pode ser atribu- ída, ainda, a um “judiciário extremamente conservador, ideológico, que acha que po- bre, por sua natureza, tem que estar preso.

vorecidas. De acordo com o defensor públi- co Rafael Cruz, a exigência de endereço fixo e de trabalho para conceder liberdade pro- visória a uma pessoa que está sendo pro- cessada é um exemplo típico. “Na justiça fe- deral, onde tem os crimes tributários, isso não acontece. Há uma seletividade, como se os crimes contra o patrimônio fossem mais graves que os crimes tributários”. Na avaliação do juiz Sérgio Mazina, aque- les que não têm bons antecedentes e não são proprietários acabam sendo estigmati- zados. “Então, o discurso do juiz, dos poli- ciais, é voltado para a priorização de quem tem condições econômicas, e para a punição do mais carente”.

maio 2009 caros amigos

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Sonia Drigo resume: a lógica, na cabeça dos magistrados, funciona assim: “vamos ver se esta pessoa não está envolvida em outros ca- sos, se o endereço dela é este mesmo. É como se um morador de rua não tivesse cidadania para responder em liberdade qualquer proces- so que venha a ser instaurado contra ele”. Casos arbitrários é que não faltam. Des- de 2005, após conseguir um habeas corpus para Maria Aparecida, Sonia trabalha defen- dendo voluntariamente mulheres acusadas de cometer pequenos furtos. O trabalho, se- gundo ela, não tem fim, pois sempre aparece um caso novo, o que evidencia o comporta- mento do Judiciário. “É como se a Justi- ça dissesse: ‘Por que ela roubou picanha e não carne moída? Ela disse que estava com fome, mas quem garante?’. A dúvida sempre é contra aquela pessoa. Sempre se faz mau juízo, e não garante a ela os benefícios que são garantidos para aqueles que têm infor- mação, instrução”, critica.

seria aplicável o principio da insignificân- cia”, diz Sonia. Se o caso chegar ao STF, será anulado, garante. No entanto, a mulher já terá cumprido toda a sua pena. “Ninguém vai prejudicar o patrimônio de uma grande rede de supermercados porque tentou furtar seis desodorantes que não foram usados, o chocolate que não foi comido, a pi- canha que não foi assada, o brinquedo que não foi usado. Há crimes contra a vida, homicidas famosos que têm o direito da liberdade provi- sória garantida. Já essas pessoas não, pois ou- saram atingir o patrimônio de alguém”.

Relações perigosas

O preconceito dos membros da Justiça com as classes mais pobres também é fruto da re- lação histórica entre representantes da elite e do Judiciário, afirmam os analistas. “No Bra- sil, ele é formado por quadros da classe domi- nante, especificamente no século 19. Havia a necessidade da formação de quadros, e eles

tico, “pois são acionados mecanismos legais

e morais que encontram respaldo na socie-

dade brasileira, socialmente hierarquizada, embora teoricamente republicana”. Outro aspecto apontado é que quando se trata de crimes cometidos pela elite, como desvio de dinheiro, “parece que o acusado não é uma ameaça para a sociedade, e as- sim, não há um interesse para que o processo

ande rapidamente”, avalia Sonia Drigo. Ela lembra que nunca se encarcerou tanto no país como hoje. De acordo com dados do De- partamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, em 1995, havia 148 mil detidos nas penitenciárias e delegacias no país. Em junho de 2007, esse número su- biu para 422.373. “Esses presos não são da

elite e uma boa parte não deveria estar preso. 30% do total poderia estar em liberdade”. No Brasil, é consenso entre a população que os ricos nunca vão presos, e que cadeia

é coisa de pobre. “Aqui na justiça estadu-

"é como se a justiça dissesse:

'por que ela roubou picanHa e não carne moída?' "

Uma das mulheres que Sonia defende tam- bém se chama Maria Aparecida, e foi presa em flagrante por tentativa de furto de seis desodo- rantes de uma loja em São Paulo. Condenada a 14 meses, sua pena está próxima do fim. A moça está na Penitenciária Feminina de Santana, a mesma onde Eliana Tranchesi es- teve presa. A diferença é que a última teve ha- beas corpus concedido, enquanto a primeira não. Uma, era acusada de sonegar 1 bilhão em impostos. A outra, tentou subtrair objetos que não chegavam a totalizar 30 reais. “A pena adequada não seria de privação de liberdade, e além disso, a liberdade pro- visória poderia ter vindo em favor dela 48 horas depois. Mas não veio. E aqui também

vieram da elite agrária”, lembra Mazina. Na avaliação do Professor Titular de An- tropologia da Universidade Federal Flumi- nense (UFF), Roberto Kant de Lima, “em qualquer sociedade, os membros do Judici- ário serão parte das elites, seja por sua posi- ção original, seja por merecimento”. No en- tanto, ele avalia que a elite brasileira não

é cidadã, pois reivindica sempre privilégios

“como a aplicação particularizada e excep- cional da lei no seu caso, ao invés de rei- vindicar a uniformidade na aplicação das normas para todos, sem distinção, caracte- rística de qualquer República”. Desse modo, acredita, o poder econômico

e as relações pessoais assumem um peso crí-

econômico e as relações pessoais assumem um peso crí- 16 caros amigos maio 2009 al [de

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caros amigos maio 2009

al [de São Paulo] não temos a competência

de investigar crimes financeiros, colarinho branco. Eles correm na justiça federal. Aqui temos roubo, tráfico de entorpecentes”, re- lata a juíza Kenarik Boujikian Felippe. “Mas

qual é o trabalho que a policia faz com eles?.

O sistema policial funciona só para quem é

pobre. Aquele que ganha rios de dinheiro eu não vejo, não sei quem é esse cara. Esses réus nem chegam aqui. Eles estão na esfera federal. E a policia sempre funcionou para isso, e acaba se refletindo.” Para Sérgio Mazina, presidente do Ibc- crim, o principal motivo de haver poucos re- presentantes da elite processados e conde- nados é fundamentalmente político, mas é resultado, também, de um sistema falho. “Não temos uma policia preparada para investigar esse tipo de crime, ela é preparada para inves- tigar e prender aquele que está te assaltando no meio da rua com revólver, querendo pegar sua bolsa ou celular”. Já para ir atrás de crime cometido pelos representantes do poder econômico, segun- do Mazina, não há estrutura, pessoal, equipa- mentos, e sequer formação para entender o delito que está sendo praticado, pois ele é, ge- ralmente, complexo, por mexer com os aspec- tos tributário e financeiro. Assim, o sistema “se resume a fazer intervenções espetacula- res, sensacionais, que acontecem em momen- tos da mídia, mas que são inconsistentes”. O presidente do Ibccrim destaca que a punição precisa estar assentada em cima de

provas. “Não adianta sair dando sentenças de um século para todo mundo, porque ela não vai subsistir e a justiça vai ficar desa- creditada. Esse é o grande perigo”. No caso de Maria Aparecida e Gisleine, isso já aconteceu. “O Judiciário precisa ser modificado. Tem que se tratar todos igual- mente”, sentencia Gisleine. Já Maria Apa- recida diz que a perda do olho abala muito sua vaidade: “Se pelo menos eu tivesse saído com a minha vista, nem precisava de nada mais”. Você se sente injustiçada? “Sim, mui- to”, responde, escondendo o rosto, lágrimas escorrendo.

to”, responde, escondendo o rosto, lágrimas escorrendo. Judiciário em crise? Brigas entre ministros do Supremo

Judiciário em crise?

Brigas entre ministros do Supremo Tribunal Fe- deral (STF), desentendimentos entre juízes federais e tribunais superiores, divergências técnicas entre magistrados. Um manda prender, outro manda sol- tar. As recentes reviravoltas nos casos envolven- do processos contra representantes da elite trou- xeram à tona conflitos entre diversos setores do Poder Judiciário. De um lado, juízes criticam os tribunais superiores, que estariam impondo dificuldades para prender sus- peitos de crimes financeiros, como a concessão de ha- beas corpus em favor do banqueiro Daniel Dantas, e a liberdade concedida à empresária Eliana Tranchesi, dona da butique Daslu. De outro, as instâncias supe- riores defendem que tais prisões foram arbitrárias, e que o habeas corpus é um direito constitucional, que deve ser garantido a todos os cidadãos. A indagação que se faz é: o Poder Judiciário está em crise? Para o cientista político e professor da Universida- de Estadual de Campinas (Unicamp), Andrei Koerner, “esses conflitos dentro do Judiciário são muito positi-

vos, pois revelam que, a partir da redemocratização,

a tradição jurídica brasileira tem sido posta em ques-

tão”. Segundo ele, houve o fortalecimento dos papéis

e poderes das diversas instituições judiciais e a redis- tribuição entre elas. “Os processos de mudança devem continuar ocorrendo, com o engajamento crescente

de profissionais na realização dos princípios, regras e objetivos da Constituição de 1988”. Já o juiz de direito Sérgio Mazina, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim), acredita que é normal que uma decisão de primeira instância não prospere quando levada a um tribunal superior. Mas é claro que, quando, “há duas decisões opostas num período de 48 horas, surja um debate pú- blico em torno das desavenças”, diz, referindo-se ao caso de Daniel Dantas. Na avaliação da juíza Kenarik Boujikian Feli- ppe, tais divergências fazem parte da produção do pensamento jurídico. No entanto, lembra que

o princípio da presunção de inocência é um direi- to ao qual todos deveriam ter acesso.

Tatiana Merlino é jornalista
Tatiana Merlino é jornalista

maio 2009 caros amigos

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ilustração: luana schabib

Eduardo Matarazzo Suplicy

Por que a Renda Básica

é uma proposta revolucionária?

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No Fórum Social Mundial deste ano, em Belém do Pará, organizado pela organização civil Ingreso Ciudadano Universal-México e coordena- do pelo Professor Pablo Yanes, Secretário de Desenvolvimento Social do Governo do Distrito Federal do México, foi realizada uma sessão espe- cial sobre As Perspectivas da Renda Básica de Cidadania nas Américas. Participaram o Ministro Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; a Professora Makieze Medina, da Universidade Nacio- nal do México; a Professora Célia Lessa Kerstenetzky, da Universidade Federal Fluminense; o Professor Clovis Zimmermann, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; o Prefeito José Augusto Guarnieri Pe- reira, de Santo Antônio do Pinhal, Estado de São Paulo, além de mim. Cerca de 400 pessoas assistiram ao debate. Marcelo, um rapaz na platéia, disse ter assistido a uma palestra mi- nha sobre a Renda Básica de Cidadania (RBC) na London School of Economics, em Londres, na Inglaterra, e que se entusiasmou tanto pelo tema que sua tese de pós-graduação foi sobre o assunto. Questio- nou os debatedores a respeito das dificuldades que tinha para persua- dir seus amigos de esquerda acerca das vantagens da Renda Básica. Pablo Yanes, ao responder a questão, ressaltou que a principal arma dos capitalistas era justamente a fome dos trabalhadores, confor- me salientou Karl Marx em suas obras. Acrescentei que se uma pessoa não tem outra alternativa de sobrevivência a não ser aceitar um trabalho humilhante, que coloque sua saúde em risco ou em condições semelhantes à de trabalho escravo, obviamente ela venderá sua força de trabalho por qualquer preço. Entretanto, no caso de existir uma Renda Básica de Cidada- nia, a qual garanta a todos, não importando sua origem, raça, sexo, idade, condição civil ou mesmo socioeconômica, o su- ficiente para atender suas necessida- des vitais, então as pessoas podem não aceitar o trabalho. Podem dizer que aguardarão por uma oportuni- dade melhor, mais de acordo com suas vocações. Podem até buscar um curso profissional que lhes pos- sibilite encontrar algo mais próximo de suas aptidões ou aspirações. É por aumentar a liberdade de todos os seres humanos na sociedade que o filóso- fo Philippe Van Parijs argumenta em suas obras que a RBC significará o grande avan- ço da humanidade no Século XXI.

o grande avan- ço da humanidade no Século XXI. Eduardo Matarazzo Suplicy é senador. caros amigos

Eduardo Matarazzo Suplicy é senador.

caros amigos maio 2009

Ana Miranda

Nota sobre A inconstânciA dA AlmA selvAgem

Sabendo que meu novo romance é de tema indígena, amigos me indicaram a leitura de A inconstância da alma selvagem, de Eduar- do Viveiros de Castro. O ensaio ‘O mármore e a murta’ trata desse tema que pode nos parecer distante, mas não o é. A alma indígena está presente em todo o nosso território, em todo o nosso corpo, seja por um contato externo, histórico, hostil, ou afável, seja por genea- logia. Seja por medo, seja por sonho, seja por negação. Na verdade, a alma indígena pode ser tida como a nossa infância, ou melhor, a origem da humanidade. O índio é o ser humano natural. O ensaio de Viveiros de Castro nasce de um trecho do padre Viei- ra, no Sermão do Espírito Santo, belíssimo, como todos os trechos de Vieira. Ele idealiza sobre duas estátuas, uma de mármore, uma de murta. A de mármore é custosa para fazer, mas fica pronta para sem- pre. A de murta é de feitura simples, pois os ramos desse arbusto são dóceis, mas é preciso todo o tempo estar a refazê-la, ou ela voltará à sua imagem original de planta. E dessa símile, sai Vieira a compa- rar as nações frente à doutrina da fé. Nossos índios seriam como em murta, fáceis de moldar, mas inconstantes, pois logo voltam “à bru- teza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram”. Também belíssimo é o desenvolver das ideias de Viveiros de Castro, cada palavra denotando uma elevação estética e compreensiva, num fluir incessante, a cada página mais fundo, e mais constante, e mais, no entanto sempre fazendo lembrar o índio na construção cuidadosa e fluente do objeto, e quanto mais o antro- pólogo se distancia do mundo índio no rumo da visão filosófica, mais ele revela o elemento da alma índia e mais amal- gama um em outro. Um trabalho lindo. E vai ele mesmo construindo sua está- tua de mármore, de murta, e ainda mais vaga, mais inconstante estátua perene de palavras. Numa das leituras subliminares, é fei- ta uma construção da própria alma brasileira, criada nesse embate de diferentes almas, crenças e experiências humanas. Nosso lado inconstante. Muitas vezes, ao ler o ensaio, eu parecia estar desco- brindo algumas razões de comportamentos meus, e de pessoas do meu mundo. Nos interlúdios, a inconstân- cia de nossa própria história brasileira. E afinal, a re- velação da perenidade índia, sua constância quanto à própria experiência, crença, modo de viver, e de ser. Todo ser vivo é eternamente aquele que nasceu.

e de ser. Todo ser vivo é eternamente aquele que nasceu. Ana Miranda é romancista, autora

Ana Miranda é romancista, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, entre outros livros, todos pela Companhia das Letras. Suas crônicas da Caros Amigos estão reunidas no volume Deus-dará, da Editora Casa Amarela.

ilustração SilvinO /www.laerteSilvinO.blOgSpOt.cOm/

ilustração SilvinO /www.laerteSilvinO.blOgSpOt.cOm/ e n t r e l i n h a s a mídia

entrelinhas a mídia como ela é

Hamilton Octavio de Souza

MÍDIA COMPRADA Quase um ano depois de executada, a Operação Satiagraha não conse- guiu acabar com os crimes pra- ticados por Daniel Dantas no Banco Opportunity, embora tenha revelado provas su- ficientes para colocar na cadeia o banqueiro e seus asseclas. No entanto, ser- viu para desmascarar o envolvimento de políti- cos, jornalistas e a mídia grande com os esquemas de corrupção no Brasil. Bin- go!

CÍNICA CONTRADIÇÃO A imprensa neoliberal brasileira comemo- rou a condenação, por um tribunal sueco, dos criadores do site Pirate Bay, especializado na liberação de filmes pela Internet. Fiéis ao Consenso de Washing- ton, os jornalões nacionais vivem em contradição com os postulados do sistema:

vivem em contradição com os postulados do sistema: defendem a rigidez das pa- tentes e direitos

defendem a rigidez das pa- tentes e direitos autorais, mas não pagam pela repro- dução de textos e imagens aos seus auto-res.

SÓ NO PAPEL O Tribunal de Justiça do Pará proibiu a publicação de fotografias de vítimas de acidentes e de mor-tes brutais na imprensa regio- nal – quando ofender a dig- nidade humana e o respeito aos mortos. Será que os jornais do Estado, que exploram o sensa- cionalismo sem o menor pudor e senso ético, vão acatar?

PIRAÇÃO PARANÓICA O jornal O Globo está a cada dia babando mais. Difícil mesmo é destacar uma única bes- teira no mar de besteirol direitoso. Uma delas:

deu recentemente uma chamada na capa com denúncia contra o ex-governador do Rio de Ja- neiro, Leonel Brizola, falecido em 2004, com base em informações do extinto SNI e, no final da mesma chamada, dizia que nada daquilo ha- via sido comprovado. É o antijornalismo!

FARRA DE SERRA No afã de contemplar os aliados com ver- ba publicitária, o governo José Serra, do PS- DB-SP, está colocando anúncio da Sabesp até em jornal do sertão nordestino. Surrealista mesmo é o anúncio veiculado nas TVs sobre os serviços noturnos de limpeza dos trens do metrô. Não serve para nada, é puro desperdí- cio do dinheiro público.

para nada, é puro desperdí- cio do dinheiro público. Hamilton Octavio de Souza é jornalista.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista. hamilton@uol.com.br

PERNA CURTA Manipulação grossei- ra da revista eletrônica

Consultor Jurídico ten-

tou indispor jornalistas contra o delegado Pro- tógenes Queiroz, da Polí- cia Federal, atribuindo a ele suposta perseguição aos jorna- lis-tas na investigação dos crimes do Banco Opportunity. O jornalista Mino Carta, da Carta Capital, que conhece de cor e salte- ado as sujeiras do banqueiro Daniel Dantas colocou as coisas nos seus devidos lugares.

IMPRENSA NEGRA Aprovada na Faculdade de Educação da USP a dissertação de mestrado do sociólo- go Ariovaldo Lima Junior, sobre o “Jornal Irohin”, uma publicação da imprensa negra de combate ao preconcei-to e ao racismo. Normalmente os oligopólios da mídia igno- ram as violências do Estado contra a popu- lação negra.

DESSERVIÇO NACIONAL Várias entidades, entre elas a Federação dos Jornalistas, Abraço (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias), FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação) e Conse- lho Federal de Psicologia, divulgaram nota de protesto contra a Anatel (Agência Nacional de Telecomunica-ções), que em abril destruiu oito toneladas de equipamentos apreendidos em rá- dios comunitárias. É puro vandalismo!

Cesar Cardoso

COMO GARANTIMOS O FUTURO DOS NOSSOS FILHOS

Nunca me esqueci daquele dia. Chega-

ram os resultados: eu estava grávida e meu marido, desempregado. Mas nem pensei em tirar a criança e acabar excomungada em Pernambuco. Não, usei a criatividade, ven-

di espaço publicitário nas ultrassonografias

dos bebês (era um casal de gêmeos) e assim paguei o parto e a maternidade. Na hora do batizado não homenageei avô, nem tia, nem padrinho. E graças a seus nomes, nossos fi- lhos Nokia e Ruffles foram muito mais lu- crativos do que aquele bando de Wellinsons

e Daianes, Taianes, Raianes Depois veio a hora da escola. Aí foi meu marido, pós-doutorado em educação e ainda desempregado, quem teve a iniciativa, ao de-

clarar: “educação é coisa do passado e eu sou

a prova viva disso. Vamos batalhar pelo direi-

to

desses moleques trabalharem desde bebê”.

E

em vez de entrar na creche, eles entraram

no mercado. Bebês-propaganda, anunciando

e consumindo de tudo. No começo, bonecas,

doces e brinquedos. Depois, gordura trans,

bebida alcoólica, cigarros. E por fim, drogas

e armas. Se essas são as coisas que mais mo-

vem dinheiro no planeta, como deixar nossos filhos queridos fora disso? E foi através da educação das crianças que descobrimos nossa nova ética. Quais os valores pelos quais todo mundo briga? Igualdade? Que o quê! Todo mundo é desi- gual desde que nasce. Se você tem dúvida,

vá visitar as maternidades do plano de saú-

de e as públicas. E tem mais: o importante não é saber o valor das coisas, é ter mais di- nheiro do que seu vizinho para comprá-las. Porque no nosso mundo quem compra é que manda. Foi o que ensinamos para Ruffles e Nokia. Não precisamos de cidadania, de tí- tulo de eleitor, de identidade. Nossa identi- dade é o tênis que a gente usa e o carro que

gente compra. E viver é gastar no cartão. E foi assim que vivemos. Hoje, eu e meu marido estamos mortos e felizes, vendo nos- sos filhos vivos e bem-sucedidos enquanto curtimos nossa vida eterna aqui no céu. Ou melhor, num paraíso fiscal.

a

vida eterna aqui no céu. Ou melhor, num paraíso fiscal. a Cesar Cardoso é escritor de

Cesar Cardoso é escritor de letras do tesouro nacional e cobrou uma nota para psicografar essa mensagem.

maio 2009 caros amigos

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entrevista

Brizola neto

Fernando Lavieri, Gilberto Felisberto Vasconcellos, Hamilton Octavio de Souza, Renato Pompeu, Tatiana Merlino, Wagner Nabuco | fotos Flavio Melgarejo.

Exploração dE nióbio

Nabuco | fotos Flavio Melgarejo . Exploração dE nióbio regulamentação Deputado Federal do PDT, neto de

regulamentação

Deputado Federal do PDT, neto de Leonel Brizola, fala da

defesa dos recursos naturais, da sua trajetória política e

da luta contra a exploração das multinacionais

Gilberto Felisberto Vasconcellos: Que questões

envolvem o nióbio no Brasil?

Toda indústria de alta tecnologia é altamen- te dependente do nióbio, não tem turbina de avião, não tem turbina de termoelétricas, não tem oleoduto se não tiver nióbio, porque ele é anticorrosivo. E o dado importante, é que jus- tamente 95% das reservas de nióbio do mundo concentram-se só nas minas amazônicas, onde está demarcada a Reserva Raposa do Sol, sem serem exploradas. Há uma mina em ativida- de em Araxá, Minas Gerais, uma associação do grupo Moreira Sales com o grupo Rockefeller, a Cia. Brasileira de Mineração de Metais-CBMM. que vendem internacionalmente o nióbio a um preço abaixo do custo. Fato grave é que mesmo sendo o único exportador no mundo deste mi- nério estratégico, o nosso país não é sequer ca- paz de determinar o preço do nióbio no merca- do externo. Nos momentos de baixa dos valores das commodities como ocorre na crise atual, o preço da extração e do refino fica superior ao valor em que é cotado na bolsa de Londres, em

média U$ 90 o kilograma. Na jazida atualmen- te mais explorada, em Araxá, Minas Gerais, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Minera- ção (CBMM) pertencente ao grupo Moreira Sal- les associado a multinacional Molycorp, do gru-

caros amigos maio 2009

po Rockefeller, exporta 90% do nióbio extraído. Isso é mais um exemplo deplorável da simbio- se da burguesia nativa com os interesses das grandes corporações multinacionais que en- gordam o imperialismo. Com o deputado mi- neiro José Fernando Aparecido, a gente tem lu- tado na Câmara por um novo marco regulatório na questão mineral no Brasil. Dá mais de um trilhão de dólares o nióbio que você tem hoje na Amazônia. Isso com preço estipulado lá na Bol- sa de Londres, abaixo do custo, sem levar em conta a importância que tem o nióbio hoje na indústria, principalmente na indústria de pon- ta. É mais um caso da história de 500 anos de espoliação internacional do Brasil.

renato PomPeu: A sua intervenção no Congresso teve repercussão na mídia?

Olha, na grande mídia a gente pode dizer que essa repercussão ela realmente não acon- tece, e ai a gente entende inclusive as pressões que deve haver dos grandes grupos multinacio- nais nesse sentido, talvez os grandes anuncian- tes e sustentadores da grande mídia. Só para dar um exemplo, nós fizemos uma convocação na Comissão de Minas e Energia, requerimen- to meu e do deputado José Fernando Apareci- do, convocando, para que se explicasse esse

processo de privatizações da Companhia Vale do Rio Doce, o ex-presidente Fernando Henri- que, o ministro das Minas e Energias na épo- ca do governo Fernando Henrique, o senhor Roger Agnelli, que comprou a Vale, para expli- car por que a venderam pelo preço de seis me- ses do seu faturamento. E mais, o mais grave, a Constituição Federal diz que quem detém o solo não detém o subsolo, que o subsolo é pa- trimônio da União, e junto com a venda da Vale do Rio Doce entregaram as maiores minas bra- sileiras, as de Carajás, exploradas pelo senhor Roger Agnelli.

renato PomPeu: A CBMM tem interesse em que não sejam exploradas as reservas de nióbio de Roraima, que estão nas terras indígenas. Mas a direita militar divulga na Internet que a demarcação contínua das terras indígenas foi feita para possibilitar a exploração do nióbio de Roraima por empresas estrangeiras.

Acho que uma questão não inviabiliza a ou- tra. Nesse primeiro momento há essa pressão clara da CBMM para não desvalorizar a explo- ração do nióbio na mina que ela tem em Araxá, porque é uma exploração muito mais difícil do que a exploração que é possível hoje na Amazô- nia. Mas eu concordo plenamente que essa de-

marcação, além de atender o interesse imediato da CBMM, num futuro próximo, ela vai atender ao interesse internacional de que empresas es- trangeiras se instalem ali para fazer a explora- ção do nióbio brasileiro.

WaGner nabuco: Mas lá no Congresso, como é que você sente a repercussão, quem está mais para a posição sua e do PDT, quem fica mais em cima do muro, quem combate mais? Como que é isso lá?

Hoje, eu acho que é um pouco difícil você identificar dentro do Congresso, através de par- tidos políticos, quais são os grupos nacionalis- tas. Você tem hoje nacionalismo espalhado em vários partidos e, infelizmente, talvez seja a fração minoritária de cada um desses partidos com algumas exceções. Até mesmo no campo da esquerda você tem partidos que não compre- endem a questão do nacionalismo, preferem es- tar afiliados a doutrinas externas.

WaGner nabuco: Qual a sua posição sobre essa questão que o neto do Jango tem levantado do fato de ele ter sido assassinado. E se o Jango depois, o único presidente que nós temos que morreu no exílio, se ele recebeu honras de Estado.

no Rio de Janeiro matérias disseram que o Brizola recebeu propina, num ataque de primeira página.

Na semana dos 45 anos do golpe. Eu acho

que o que é interessante frisar é que o Brizola

é o único político que incomoda a Globo ainda depois de morto.

WaGner nabuco: Você, como neto, conviveu com ele na intimidade, você sabia que ele era vigiado de alto a baixo?

Quando fiz 16 anos fui trabalhar com ele, que morava na avenida Atlântica, no Rio, ao lado do Hotel Othon, e o Hotel Othon instalou uma câ- mera do lado do apartamento dele, uma câmera

giratória, e ai ele foi lá no escritório, e ele olhou aquilo: “O que é aquilo? É uma câmera, o FMI

já está ai no Hotel Othon!” Ele sabia que não era

ação da ditadura, era ação imperialista.

tatiana merlino: A situação de o nacionalismo ter perdido a força no Brasil pode se atribuir ao fato de nós não termos mais uma burguesia nacional?

É, porque se você for analisar, a burguesia nacional, hoje, não é diferente de toda a Améri- ca Latina. A burguesia nacional, hoje, é associa- da ao imperialismo. Só que, se a burguesia aqui

nós conseguimos fazer a reversão dessa agenda, hoje não se fala mais em reformar a CLT, hoje qualquer segmento mais conservador tem medo

em falar em reforma da Previdência, e o partido tem cumprido esse papel. Agora, indo na crise,

a gente fez um enfrentamento importante que

foi justamente na defesa da questão do empre- go. A gente tem visto que, como o mercado não deu conta de tudo, e praticamente não deu con- ta de nada, é o bom e velho Estado que está sal- vando da bancarrota mais uma vez esse famige- rado mercado. Acho que nós tivemos um papel importante exigindo uma contrapartida dessas empresas que forem ajudadas pelo Estado que, no mínimo, garantam a permanência do empre- go dos seus funcionários.

Hamilton octaVio de souza: A gente costuma,

nas entrevistas da Caros Amigos, pedir ao entrevistado que fale de sua vida, onde nasceu, onde morou etc

Nasci em Porto Alegre, numa passagem rá- pida da minha mãe que saiu do Uruguai e foi a Porto Alegre justamente para que eu nascesse brasileiro. E depois do nascimento eu tive que voltar para o Uruguai, nasci no ano de 1978, foi justamente o ano em que meu avô foi expulso do Uruguai. Naquele momento minha mãe e meu

"Há um nacionalismo em Vários Partidos, talVez seja a Fração minoritária de cada um deles"

Hoje

não tenho dúvidas de afirmar que o presiden- te João Goulart foi assassinado por esse proces- so de cortes de cabeça das principais lideranças políticas de toda a América Latina pela pres- são que surgiu, até dos próprios Estados Uni- dos a partir do presidente Jimmy Carter, que houvesse um processo de reabertura da Améri- ca Latina. Houve um acordo com as ditaduras militares dos países da América Latina - Brasil, Chile, Argentina, Uruguai -, e nesse acordo fi- cou tratado que se cortariam cabeças, e eu te- nho certeza que uma das cabeças cortadas foi a do presidente João Goulart. Olha, você tem ou- tros exemplos, inclusive dentro do Brasil, são questionados, o próprio Juscelino, é questiona- do o assassinato do Letelier nos Estados Uni- dos, o colaborador do presidente Allende, e a morte de diversas lideranças do Movimento dos Montoneros na Argentina, dos Tupamaros no Uruguai. Digo que a própria cabeça de Leonel Brizola só não foi cortada porque ele foi avisa- do pelo governo do Uruguai que corria risco de vida e foi tomar asilo nos Estados Unidos, pedindo inclusive para o próprio presidente Jimmy Carter que concedesse esse asilo.

Não, só houve essas honras agora

Gilberto Felisberto Vasconcellos: A cabeça dela

está sendo cortada depois de morto. Agora,

de São Paulo, a burguesia de Caracas, a burgue- sia de Maracaibo, a burguesia de Buenos Aires

é essa burguesia que é associada ao capital ex- terno que vem nos infligindo tantas derrotas,

a gente não pode esquecer que houve inúme-

ros projetos nacionais desenvolvimentistas que chegaram ao poder em toda a América Latina

e que foram derrotados. Como que a gente vai

esquecer do projeto nacional desenvolvimentis- ta de Getúlio, como a gente vai esquecer do Pe- rón, na Argentina, como que a gente vai esque-

cer do Bolívar lá atrás?

Hamilton octaVio de souza: Deputado, neste

momento quais lutas o PDT está apoiando?

No momento o PDT tem uma aliança estra- tégica com o governo Lula. Nós temos o enten- dimento que o governo Lula é um governo plu- ral, é um governo de transição, que teve como qualidade estancar o avanço do processo neo- liberal no país. Quando fomos para o governo Lula, o PDT firmou um compromisso público as-

sinado pelo presidente da República, de que não haveria reforma da Previdência e nem reforma na Legislação Trabalhista, que era a agenda da hora, era agenda aqui da avenida Paulista, era

a agenda da Febraban, era a agenda do governo

passado, inclusive tentou fazer a flexibilização das leis trabalhistas. E, nesse sentido, acho que

pai foram para o Uruguai, ficaram lá numa fa- zenda da minha avó cuidando das terras. Mas a gente passou os primeiros anos de vida no Uru-

guai, eu aprendi a falar em castelhano, aprendi

a falar em espanhol, e claro que não por gosto,

mas porque estava impedido, a família toda, de estar em solo brasileiro. E depois desse proces- so houve o processo de reabertura, vem a reor-

ganização do PDT, primeira tentativa do PTB,

a carta de Lisboa, nesse processo a gente ain-

da estava no Uruguai. É quando o meu avô re- torna e escolhe o Rio de Janeiro, nós voltamos para Porto Alegre.

Gilberto Felisberto Vasconcellos: Você tem outro

avô exilado

Em 1961, o presidente Jânio Quadros re- nunciou, o vice-presidente João Goulart estava na China retornando de uma viagem diplomá-

tica, os golpistas se articularam para impedir a posse do presidente João Goulart. Assume o po- der uma junta militar. Nesse processo começa toda aquela mobilização a partir do governo do Rio Grande do Sul, do destacamento da Briga- da Militar para guarnecer uma torre de rádio,

e a partir daquela torre de rádio fazia a trans- missão do atentado à democracia que estavam fazendo. Naquele momento, essa junta militar manda que fosse bombardeado o Palácio de Pi-

maio 2009 caros amigos

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ratini, onde estava lá entrincheirado o Brizo- la com toda a sua família, estava lá a mulher, os filhos do Brizola, com toda a população em- barricada em volta do Palácio. Os membros da junta destacaram para a base aérea de Canoas que decolassem os jatos e efetuassem o bombar- deio. E ali naquela base aérea tinha um sargen-

to, que não era brizolista, não era getulista, não era trabalhista, um sargento que era naciona- lista e que foi para as Forças Armadas e jurou

a Constituição. E na época, aquele sargento se

insurgiu contra os comandantes da base aérea, se insurgiu contra a trinca militar, e liderou os sargentos da base aérea e furou o pneu de todos os caças, impedindo que decolassem para bom- bardear o Palácio Piratini. Como consequência isso, ele foi o primeiro militar a ser expulso da Aeronáutica, foi o primeiro militar a ser banido do país. Ele era piloto de avião.

Gilberto Felisberto Vasconcellos: Quem era ele?

O Daudt, capitão Daudt. Que vem a ser meu avô por parte de mãe.

Gilberto Felisberto Vasconcellos: Brizola Neto é

fruto de um avô revolucionário da parte de pai e da parte de mãe, o Daudt e o Brizola.

E aí seguindo, houve o processo de reaber- tura quando ele decide voltar ao Rio de Janei-

ro. A gente primeiro vai a Porto Alegre e perma- nece um ano em Porto Alegre, e vem para o Rio de Janeiro. O Brizola era uma coisa proibida no Brasil. Então havia uma demanda reprimida enorme e, ao mesmo tempo, a família não sabia como estava por aqui, como que era aqui depois de 20 anos de um nome ser colocado como sub- versivo, criminoso, mais de mil processos movi- dos na Justiça, demonizado exatamente, demo- nizado, essa é a palavra. E aí a grande surpresa

é chegar ao Rio de Janeiro e ver o Rio de Janei-

ro tomado por uma sede brizolista, ver o Rio de Janeiro que tinha 20 anos atrás eleito o Brizo- la como deputado federal mais votado da his- tória do Rio de Janeiro, até hoje proporcional- mente. E ai quando a gente chega no Rio de Janeiro, eu estou falando a família, a gente en- contra o reconhecimento e ai a gente começa a

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caros amigos maio 2009

entender a grandeza do Leonel Brizola para o povo brasileiro e começa a entender o que era aquela demanda reprimida e que se expressava acima de tudo na eleição do Brizola em 82. Ti- nha uma frase que dizia: Tá com Brizola, ou tá com medo? E era exatamente isso que resumia aquela eleição, o mártir da ditadura militar vol- tava para disputar uma eleição contra os seto- res conservadores e reacionários.

WaGner nabuco: E daí, você estudava? Eu tinha cinco anos de idade, eu era novo,

mas eu observava isso, e mais que isso, a gente chegou ali e você tinha aquela elite rancorosa

da zona sul do Rio de Janeiro, com quem a gente

convivia. A gente chegou morando na zona sul

e a gente sofria aquela oposição diária daquele nicho conservador da zona sul carioca que não aceitava a chegada de alguém como Brizola. E

a gente vivia ali no meio daquela contradição.

Teve uma coisa que foi importante para mim e que abriu bastante a minha perspectiva de co- nhecer pessoas, de conhecer gente, que foi um

espaço democrático que é a praia, e o Rio de Ja-

neiro tem isso

gente vinha chegando de avião, você olha e tem uma ilha de prosperidade cercada por aquele mar de periferia. No Rio de Janeiro a coisa é diferente, a coisa é entremeada, todos os bair- ros do Rio de Janeiro têm uma favela. Todos os bairros da zona sul carioca você tem um mor-

São Paulo, você chega aqui, a

ro que se coloca ali e deixa clara essa contradi- ção. E na praia era um espaço em que todos se encontravam, os ricos, os pobres, ali eu conhe-

ci a turma do Cantagalo, ali eu conheci de fato,

porque eu conhecia na teoria o que era o brizo-

lão, mas subi o morro e conheci o que era o bri- zolão do morro do Cantagalo, que era um espa- ço de libertação daquela população, e mais do isso, o reconhecimento que aquela população ti- nha daquele espaço, porque nunca nenhum go- vernante tinha dado alguma coisa de qualidade

e ali se botou uma escola da mais alta qualida- de. Eu comecei a ter a dimensão da importân- cia do Brizola.

Fernando laVieri: E no colégio você sofreu discriminação por ser neto do Brizola?

Sofri bastante discriminação. Num primei-

ro momento eu estudei em uma escola particu-

lar, e nessa escola particular o que havia era o pensamento da zona sul carioca, pensamento elitista, aquela elite raivosa que não suporta- va ver políticas públicas para pobres, que não suportava ver políticas públicas para a favela. Em muitos momentos a gente chegou a ser es- tigmatizado sim, como se nunca pertencesse àquilo ali, mas a gente nunca fez questão de pertencer, pelo contrário, chegou um determi- nado momento que o meu avô me disse: “olha, você tem que estudar em escola pública”. E foi para a escola pública que eu fui, escola pública que tinha na frente da minha casa, escola Cas-

telo Novo, e que não devia em nada para o en- sino da escola particular. Infelizmente, a gen-

te sabe hoje que a escola pública está cada vez pior, não consegue mais acompanhar as insti- tuições de ensino particulares, talvez seja mais um dos movimentos de segregação dos pobres

e de reserva de mercado para os filhos da elite.

Eu continuei depois os meus estudos, fiz o se- gundo grau em uma escola metodista lá no Rio de Janeiro e ingressei para fazer Direito, que eu não concluí, não concluí o curso de Direito, fal- tam dois anos ainda.

WaGner nabuco: Como que você entrou para o embate político? Esse é o seu primeiro mandato?

De deputado federal. Eu tive um manda- to de vereador, de 2004 a 2006, eu sai no meio do mandato para ser candidato a depu- tado federal.

renato PomPeu: Quantos votos você fez como vereador?

Como vereador eu fiz 24 mil e noventa e poucos votos e como deputado foram 62 mil e

90 e poucos votos. Pelo Rio de Janeiro. Eu vivi essa realidade que eu estava falando, de inte- gração, aos 16 anos eu começava a conhecer

o que era a grandeza do Leonel Brizola para a

população, e principalmente para a população mais pobre do Rio de Janeiro. Era muito inte- ressante, porque a gente era hostilizado nes- ses ambientes de classe alta, como era na es-

cola particular; quando a gente subiu o morro,

a favela, era uma coisa interessantíssima, por-

que eu chegava na casa das famílias, e as fa- mílias tinham a foto do meu avô em casa e eu falava: “Que é isso!” Entendeu, as pessoas me beijavam e diziam: “Deixa eu abraçar o neto do Brizola”. E eu ficava às vezes até assustado com aquilo, eu não compreendia. E esse pro- cesso foi muito importante para a gente en- tender a grandeza de Leonel Brizola.

WaGner nabuco: Deputado, e a sua base de votação reproduz um pouco a base de votação de seu avô? Ou ela mudou e você tem hoje voto na zona sul?

Tenho algum voto na zona sul, mas eu tenho uma votação muito espalhada. Eu não sou cam- peão de voto em nenhuma zona eleitoral, mas eu tenho voto em todas as zonas eleitorais. Não tem um único município no Estado do Rio de Janeiro que eu não tenha sido votado. A gente até entende um pouco essa lógica, a gente não trabalha a partir de currais eleitorais, a gente não trabalha a partir de assistencialismo. A gen- te sabe que existe um legado, a gente sabe que existe um relicário que foi construído por esses anos de luta, por essa biografia, por essa histó- ria, por essas realizações todas do Leonel Brizo- la. As lutas de Leonel Brizola, desde a década de 50, são as mesmas lutas que nós temos hoje.

todas do Leonel Brizo- la. As lutas de Leonel Brizola, desde a década de 50, são

Frei Betto

ESQUECERAM DE MIM ou O FRACASSO DO G-20

Meu nome é miséria. Comprometo, hoje, a vida de cerca de 1,5 bilhão de pessoas, sobretudo crianças desnutridas, vulneráveis à morte precoce. Tinha esperança de que na reunião em Londres, no início de abril, o G-20, que reúne as 20 maiores economias do planeta, se lembrasse de mim. Hoje, devido à indiferença dos que governam o mundo, ameaço a maioria da população da África, cuja situação é agravada por cerca de 25 milhões de pessoas contaminadas pelo HIV. Em menor proporção, estou presente também na Ásia e na América Latina. No Brasil, sou encontrada a olhos vistos no Vale do Jequitinhonha (MG), na fronteira entre Alagoas e Pernambuco, no interior do Mara- nhão e do Pará, nas tribos indígenas e entre a população quilombola. E, de modo aberrante, nas favelas que circundam as grandes cidades. Esperava que o G-20, frente à crise financeira mundial, fosse destinar recursos para reduzir a minha incidência global. Segundo as Metas do Milênio, da ONU, bastariam US$ 500 bilhões para erra- dicar a fome crônica que, hoje, castiga 950 milhões de pessoas. Os governantes do G-20 sofrem de hiperopia, o contrário da mio- pia: enxergam muito mal de perto. Em vez de debaterem como li- vrar o mundo da minha presença, decidiram destinar US$ 1,1 tri- lhão para “salvar o mercado”. O capitalismo neoliberal deu um tiro no próprio pé. Agora apela aos cofres públicos para socorrer os “pobres” miliardários que cos- tumam transformar a injeção de recursos em bônus astronômicos aos executivos de empresas sob risco de falência. Que decepção o G-20! Pensei que daria fim aos paraísos fiscais. Em vez de fechar o bordel, decidiu divulgar o nome de seus frequentado- res. Vários países europeus são verdadeiros Édens para as finanças escusas: Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Áustria, a City de Londres, etc. Quem garante que esses feudos de riqueza ilícita (no mínimo, sone- gadora de impostos em seus países de origem) vão mesmo quebrar o sigilo bancário de seus clientes, como quer o G-20? E por que entregar toda essa fortuna de US$ 1,1 trilhão ao FMI, de triste memória? Todos sabemos tratar-se de uma instituição atrelada à Casa Branca e à política exterior usamericana; mete o nariz nas finanças dos países que lhe tomam dinheiro emprestado; impõe medidas econômicas que favorecem privatizações, aumento da desigualdade social, oligopolização de empresas e bancos, etc. Em suma: os contribuintes, ou seja, o povo, que mais paga im- postos, está compulsoriamente convocado a canalizar fortunas para tentar aplacar a crise financeira dos donos do mundo. Estes temem que, sem crédito, os países emergentes deixem de comprar produtos manufaturados das nações ricas. Antes de pensar em contribuir com US$ 10 bilhões para a “va- quinha” do FMI, o Brasil deveria curar-se da hiperopia e olhar um pouco mais para mim: com esse recurso eu seria progressivamente erradicada e haveria aqui mais educação, menos violência urbana e, portanto, mais qualificação profissional e menos desemprego.

mais qualificação profissional e menos desemprego. Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder”

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

Gershon Knispel

Reflexões sobre minha última viagem a israel - 2

Monumentos como marcos de contradições

Foto: Gershon Knispel
Foto: Gershon Knispel

Na véspera da minha volta para o Brasil, um grupo de árabes da ONG Mosawa Center, me entregou um livro em memória da chacina dos camponeses da Galiléia, a 30 de março de 1976. Num protesto con- tra a desapropriação de terras árabes, cadetes israelenses mataram a metralhadora seis adolescentes, com centenas de feridos. Num encontro urgente de judeus israelenses, foi escolhida uma delegação para se reunir com Itzhak Rabin, então primeiro-minis- tro. Ele se recusou a fazer um inquérito oficial sobre a chacina. Res- pondemos que faríamos um monumento às vítimas, para um pro- testo que durasse toda a eternidade. Rabin replicou: “Vocês fazem e nós desfazemos”. Eu e meu colega árabe Abed Abdi, depois de quatro meses, erguemos o monumento den- tro do cemitério muçulmano, na entrada de Sachnin. “Num lugar sa- grado como o cemitério, os militares não vão ter coragem de entrar”. Semanas depois da inauguração, ocorreu a cerimônia em home- nagem aos soldados mortos de Israel, junto a um monumento de minha autoria, inspirado pelo religioso Jeshayahu Leibovitz: “É muito triste homenagear qualquer soldado que morreu pela libe- ração do Muro das Lamentações – eles se sacrificaram para nada. O Deus não se encontra entre as pedras do Muro”. Esse monumento apresenta um soldado deitado, esmagado pe- las pedras enormes. Do outro lado, há uma mãe que perdeu o fi- lho na guerra, de joelhos, segurando os pés, também presos den- tro das pedras. Em 1983, depois da Primeira Guerra do Líbano, na base preta do mármore, onde foram escritos os nomes dos mortos e dos lugares em que perderam a vida, não havia lugar para os no- mes dos novos mortos. Planejei um muro de arrimo de mármore preto. Lá começaram a gravar os nomes adicionais. Passei nestes dias lá perto e o novo muro já não tem também lu- gar para novos nomes. Um velho se aproximou e me disse que já ti- nha participado da inauguração do primeiro monumento, nos anos 1950: “Meu filho perdi na Guerra da Independência (1948), meu neto na Guerra dos Seis Dias (1967) e meu bisneto na Guerra do Yom Kippur (1973). Quando vai terminar essa loucura?”

do Yom Kippur (1973). Quando vai terminar essa loucura?” Gershon Knispel é artista plástico maio 2009

Gershon Knispel é artista plástico

maio 2009 caros amigos

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Daniela Moreau Daniela Moreau é historiadora e fotógrafa. Desde 1995 realizou inúmeras viagens ao continente

Daniela Moreau

Daniela Moreau é historiadora e fotógrafa. Desde 1995 realizou inúmeras viagens ao continente africano visi- tando, entre outros países, Burkina Fasso, Mali, Tanzânia, Madagascar, Namíbia e Marrocos. Atualmente coor- dena o programa “Casa das Áfricas” (www.casadasafricas.org.br), centro de informações, estudos e pesquisas.

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5 6 7 8 1 – Niamey, capital do Níger, 1995./ 2 - Mulher e
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– Niamey, capital do Níger, 1995./ 2 - Mulher e crianças do grupo Zemba. Opuwo, Namíbia, 2006./ 3 – Estudantes em Windhoek, capital da Namíbia, 2006./
4
- Menino em passeata contra o abuso sexual de crianças. Maputo, Moçambique, 2002./ 5 – Mulher e criança Himba – uma sociedade pastoril do grupo Herero,

do sul de Angola e norte da Namíbia. Kunene, Namíbia, 2006./ 6- Alunas da escola de Aït Benhaddou vestidas para evento festivo, Marrocos, 2007./ 7 – Meninas

durante o festival de cinema africano (FESPACO), Uagadugu, capital de Burkina Fasso, 1995./ 8 - Passeata em subúrbio da Cidade do Cabo, lembrando os 30

anos do massacre de Soweto, ocorrido em 16 de junho de 1976. África do Sul, 2006.

da Cidade do Cabo, lembrando os 30 anos do massacre de Soweto, ocorrido em 16 de
entrevista Maria rita Kehl Ana Maria Straube, Camila Martins, Hamilton Octavio de Souza, Luana Schabib,

entrevista Maria rita Kehl

Ana Maria Straube, Camila Martins, Hamilton Octavio de Souza, Luana Schabib, Tatiana Merlino | fotos Jesus Carlos.

“A depressão cresce A nível epidêmico”

Em entrevista exclusiva para Caros Amigos,a psicanalista fala de seu novo livro,analisa as consequências do ritmo frenético da vida contemporânea e aponta a depressão como sintoma social de uma sociedade que cria o “sujeito esvaziado" Maria Rita Kehl conta a sua experiência como jornalista, nos anos 70 e 80 e, mais recentemente, como psicanalista de homens e mulheres que integram o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, na Escola Nacional Florestan Fernandes.

tatiana merlino: Qual sua origem, e como você entrou para a psicanálise?

Nasci na cidade de Campinas aqui do lado, apesar de me considerar paulistana. Todos os filhos são de Campinas, mas fomos criados aqui, passei a vida inteira no bairro de Pinhei- ros. Estudei em uns colégios de freiras. Mi- nha mãe era religiosa, e depois fiz psicologia na USP em 71 a 75, no período mais fecha- do da Universidade, com muita gente cassada. Então, muito insatisfeita com o curso, lá pelo terceiro ano eu queria trabalhar, sair de casa.

E bati na porta do Jornal do Bairro, cujo dire- tor era o Raduan Nassar, que ainda não era o grande escritor, e falei: “Eu quero escrever”. Eu queria trabalhar em alguma coisa que não fosse psicologia, que me parecia na época uma coisa muito xarope. E aí o editor, José Carlos Abbate, e o Raduan foram muito generosos, do tipo: “Bom, você sabe escrever, mas não sabe

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o que é jornalismo, escreve trabalho de esco- la”. E eles falavam: “Vai assistir tal filme”. Aí me ensinaram o que é um abre de uma maté- ria, enfim, que não pode ter cara de trabalho escolar. E eu virei jornalista free lancer, em se- guida veio a lei que exigia registro. Foi muito formadora para mim a época dos jornais alter- nativos, dos tablóides, foi o único lugar em que eu pude ser contratada numa redação, porque eles já estavam totalmente irregulares mesmo, então eles contratavam gente que era de mo- vimentos. Foram três anos, de 75 a 78 no má- ximo, mas foi muito marcante, muito forma- dor, porque foi o período que eu pude alargar esse horizonte de uma faculdade de psicologia, numa formação um pouco medíocre numa épo- ca em que estava todo mundo com medo, mes- mo porque eu nunca entrei para a luta arma- da nem nada. Mas as coisas que me acontecem hoje eu devo muito a esse período.

Hamilton octavio de Souza: O Jornal do Bairro?

Não. Ele foi uma iniciação para eu aprender

a escrever, não era jornal de esquerda. Mas era

muito legal, porque era um jornal muito engra- çado. Ele era a capa, com artigos de política, e

a contracapa, com artigos de cultura, e o resto

eram anúncios. E todos os artigos eram escri- tos em 40 linhas. Em 40 linhas você aprende a pegar o fundamental, você não precisa entender do assunto, você junta umas idéias, faz um tex- to razoável, agradável, põe uma abertura cha- mativa, um final retumbante e ponto. Quarenta linhas é o meu forte, digamos assim.

Hamilton octavio de Souza: Você colaborou com

aqueles jornais feministas da época?

No Mulherio. Recebi a notícia que esse jor- nal ia começar e eu era levemente atraída pela esquerda. Eu não tinha formação política: no começo, nas reuniões de pauta tinha que dis-

farçar a minha ignorância. Como eu era dispo- nível, eles precisavam de gente que pudesse ga- nhar pouco e de gente que eles pudessem fazer a cabeçam. Porque eles não podiam tentar, aí na época era o Movimento era do PCdoB mes- mo, eu nem sabia o que era PCdoB. Eu sabia que

camila martinS: E lá você foi também

vistas ao vivo, e as mulheres ligavam e a gente dava respostas, era muito divertido. O progra- ma acabou também. E eu abri consultório no dia seguinte, uma menina da rádio me pediu tera- pia, e no dia seguinte, sem nada, sem nenhum preparo, eu estava fazendo o consultório. Foi em

onde só tinha homem. Hoje em dia ninguém te olha se você é mulher ou não é porque está tudo igual hoje. Só tinha homem, eu entrei e fa- lei “não sou jornalista mas eu quero escrever”, e veio um cara legal me ensinar, entendeu? Como que isso iria acontecer se eu fosse rapaz?

era um jornal de oposição à ditadura e isso me interessou. Em um ano eu era editora de cultu-

1981, desde lá eu sou psicanalista, nunca mais larguei. Aí foi fazendo cada vez mais sentido, até

tatiana merlino: Como é que surgiu a idéia do

ra, mas você tem que ir na raça. Não tem quem

hoje cada vez eu mais me espanto com isso.

livro O Tempo e o Cão?

faça, você faz. Então, foi muito legal.

desenvolvendo essa formação?

ana maria Straube: E sua tese de televisão já tinha alguma coisa a ver com psicanálise? Nada, nada. Claro que se você faz psicologia,

Quando a gente está muito perto de uma es- crita, é difícil a gente ter claro o porque escre- veu. Mas eu tive no meu consultório duas ocor- rências de suicídio nos anos 80, quando eu era

É, e nunca não mais parou, porque isso é

lê algumas coisas, você tem um pouco de aber-

ainda novata. Interessante que nenhum dos

uma coisa que não para, não vou dizer que seja uma formação, é uma trajetória. Talvez eu te- nha descoberto uma coisa que tinha mais a ver comigo e eu estava fora disso. Engraçado que depois de mim, os meus irmãos, a minha famí-

tura para entender com objetividade. A minha tese era “O papel da Rede Globo e das novelas da Globo em domesticar o Brasil durante a ditadu- ra militar”. Pegava desde a primeira novela, foi de 73, as novelas das 8, desde Irmãos Coragem

dois era deprimido, no sentido daquela pessoa que se suicida porque está no fundo do poço, era mais uma coisa persecutória, não era por de- pressão. Mas eu fiquei com muito medo de tor- nar a atender pacientes muito deprimidos, que

lia é razoavelmente de esquerda

Meu pai não

vinham já dizendo que eram deprimidos. Eu

era, mas ele morreu dizendo: “Na próxima elei- ção, eu vou votar no Lula”. Ele morreu em 2000. Uma família um pouco inconvencional, sempre foi um pouco gauche. Então o esquerdismo caiu bem, para todo mundo quando a gente come-

até na época, que era Dancing Days, mostrando como se criou um retrato, uma imagem do Bra-

sil para si mesmo. A brincadeira na época era as- sim: a única coisa que os militares conseguiram modernizar durante 20 anos de ditadura foi a imagem televisiva que o Brasil apresentava para

precisei de muito tempo para entender o que eu tinha não escutado. Um não deu nem tempo, porque ele fez pouquíssimas sessões e foi demi- tido, pior da demissão é que ele perderia o se- guro que dava direito de continuar a psicanáli-

çou a se abrir, para todo mundo fez sentido. En-

o

próprio Brasil, que é o que o Brasil acreditou.

se, é claro que eu continuaria atendendo, mas

tão, eu fiquei uns sete anos só como jornalista.

E

a minha tese era mais ou menos isso.

ele ficou muito desesperado, ele tinha feito sei

Teve um momento que eu fiquei um pouco in- satisfeita. Fui virando free lancer para poder so- breviver. Folha, Veja, Isto É. Mas eu cobria vá-

camila martinS: Você viveu essa questão da mulher nos anos 70, da luta feminina?

lá, um mês. Mas o outro era meu paciente de al- guns anos, tinha interrompido, e nessa inter- rupção se suicidou. Então, eu fiquei muito cul-

rias coisas da área de cultura. E senti que eu não sabia nada com muita consistência. Aí fui fazer um mestrado uns quatro anos depois de forma- da e sobre televisão, pois, por causa da minha prática em jornalismo cultural, falei:”Ninguém está percebendo o que a televisão está fazendo no Brasil”. Na época, a única pessoa que escre- via sobre televisão era a Helena Silveira, que co- mentava as novelas, falava dos figurinos. E só depois que fiz a tese é que eu fui perceber que podia ser psicanalista.Na verdade, é uma coisa ruim de contar hoje porque não é uma coisa que os psicanalistas respeitam. Mas foi no trambo- lhão, tinha meu filho pequeno; o pai do meu fi- lho morava em uma comunidade, eu morava em outra. Eu já morava há um bom tempo. Era uma casa que caiu, uma casa genial, daquelas anti- gas na rua Matheus Grou, que você entra e tem um porão aqui, e sobe uma escada, tem um cor- redor, a cozinha é lá no fundo, o banheiro é de- pois da cozinha. Morei em várias comunidades,

Olha, eu fui muito pouco feminista. Eu falo isso até com um pouco de sentimento de cul- pa de não ter prestado atenção em uma coisa importante. Por exemplo, a minha contempo- rânea na USP, era Raquel Moreno que é uma feminista importante, militante desde o come- ço. Eu achava aquilo uma chatice, eu não que- ria ir naquelas coisas, eu achava que eu não era oprimida, que eu me virava muito bem, que eu não tinha esse problema. Talvez porque eu es- tivesse achando a minha vida com os homens muito divertida. Depois que eu tive filho é que, embora fosse tudo muito libertário, quem car- regou o piano sozinha fui eu. Aí eu falei: “Opa! Negócio de feminismo, pelo menos para a mu- lher que tem filho faz sentido. Não dá para di- zer que eu estou livre disso não”. E eu, não sei, não me acho uma feminista de bandeira, por- que pelo menos na minha geração tinha uma bandeira feminista que até hoje eu não embar- co, que é “mulher e homem é igual”. Eu acho

pada, como todo analista fica. Não dá para dizer que a culpa é toda sua e não dá para dizer tam- bém que você não tem nada a ver com isso. En- tão, eu ia encaminhando as pessoas deprimidas que sempre chegam. De uns anos para cá eu fui amadurecendo, e comecei a atender pessoas deprimidas e comecei a ficar interessadíssima no fato de como elas eram sensíveis à análise, como tinham permeabilidade maior ao incons- ciente que no neurótico, que, vamos dizer, está bem defendido, que vai para a análise também, mas é um custo para abrir uma brecha. Então primeiro isso, eu comecei a escutar os depressi- vos e comecei a falar “há uma riqueza de saber, tem uma coisa muito interessante, que eu gosta-

mas essa foi a mais marcante, tinham uns refu- giados que vinham morar com a gente, era uma delícia, meu filho nasceu aí. Eu saía e deixava o pessoal tomando conta, era muito legal. Então,

que isso criou um ambiente meio belicoso, não que eu não brigue com os homens, mas brigar assim por mesquinharia: eu lavei dez pratos você tem que lavar dez, não posso lavar onze

eu tive uma bolsa da Fapesp, que era muito bom

e

você lavar nove. Eu morava em comunidade.

porque eu podia fazer a minha tese e ficar bas- tante com o Luan, meu filho. E no mesmo ano a comunidade terminou, cada um foi morar numa

Cada um tinha um dia para fazer supermerca- do, para lavar, e claro que a gente brigava por- que sempre tinha um cara que folgava. No jor-

 

casinha. A bolsa terminou, e eu tinha que fazer alguma coisa, com filho para sustentar. Tive um trabalho rapidinho na Rádio Mulher, me chama- ram para fazer um programa que eram entre-

nalismo, por exemplo, olha como as coisas são contraditórias, na época, por eu ser mulher eu acho que eu tive uma chance que se eu fosse um rapaz eu não teria, de entrar numa redação,

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ria de um dia poder escrever”. E depois teve esse incidente, que está escrito também na introdu- ção do livro, que foi justamente, a caminho da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, onde eu atendo pacientes, no livro eu não pus isso, e na Dutra que é uma estrada pesada, eu atropelei um cachorro. E essa cena, não vou di- zer que foi traumática, mas exigiu reflexão, por- que foi uma coisa muito rara. O cachorro esta- va na beira da estrada, tinha movimento e ele começou a atravessar como se estivesse em um campo. Cachorro de beira de estrada deveria es- tar acostumado, não é que ele tentou e veio um carro rápido e ele não viu. Ele começou a atra- vessar e eu vi que ele estava atravessando, eu vi que ele ia ser atropelado, mas eu não podia des- viar, porque tinha um carro do lado, e eu não po- dia frear, você não pode frear na via Dutra. Eu ia morrer, enfim, não podia frear. Então eu tive essa enorme agonia de perceber que eu estava em uma velocidade irreversível e que eu ia ma-

vessou a estrada mancando e sumiu no mato

e desaconteceu. E esse acontecimento teria de-

sacontecido, eu não sofri nada, se eu não ficas- se tão chocada com o que a velocidade faz com os acontecimentos da vida. Não só pelo cachor- ro, o atropelamento é mais uma metáfora, por- que atravessou a outra pista mancando e não morreu. Eu comecei a me dar conta de quantos acontecimentos na minha vida, nessa velocida- de, não aconteceram, viraram desacontecimen- tos. Quando cheguei na escola, fui olhar o pa- rachoque, e tinha uma sujeirinha, talvez o pêlo dele. E tinha um ligeiro amassadinho. Aí entra

a associação. Eu estava lendo Walter Benjamin,

por causa de um grupo de estudos, estava len- do o texto dele sobre experiência. Ele faz uma articulação entre a perda da experiência e a ve- locidade da vida moderna. E eu falei “a depres- são está aqui”, porque Walter Benjamin chama isso de melancolia, não é também que eu inven- tei isso, então são duas coisas diferentes que se

te acredita, deveria ser uma sociedade menos depressiva. Dos anos 60 para cá nós somos mais livres, nós podemos fazer mais sexo, nós pode- mos desfrutar do corpo e da saúde de uma ma- neira privilegiada. Tem mais opções de lazer e de festas, encontrar sua tribo para não ficar ne- cessariamente submetido a um padrão só de comportamento. E tem um avanço enorme no desenvolvimento de antidepressivos, então essa sociedade não deveria ser mais deprimida, a não ser os casos patológicos raros de porque um dia o pai estuprou a irmã na frente dele, essas coisa mais horrorosas. Não deveria ter mais depressi- vos. E os dados da Organização Mundial da Saú- de são de que a depressão cresce a nível epidê- mico nos países industrializados e que em 2020, se eu não me engano, será a segunda maior cau- sa de comorbidade, não de morte diretamente, mas de comorbidade do mundo ocidental. En- tão, é o sintoma social, está mostrando que esse negócio não funciona.

“ A SOCiedAde em termOS dOS diSCurSOS nOS quAiS A gente ACreditA deveriA Ser menOS depreSSivA"

tar um animal, um ser. Passar por cima. E eu consegui desviar muito pouco, diminuí a veloci- dade muito pouco, de modo que eu só peguei ele com a roda, eu consegui não passar por cima, eu dei um tempinho para ele. E o que foi mais cho- cante, foi que, quando eu tentei ver o que acon- teceu com ele, eu olhei e ele já virou uma figu- ra no retrovisor, eu só percebi que ele estava uivando de dor porque eu vi o uivo dele no es- pelho, porque eu já não ouvia mais e ele atra-

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juntaram. A depressão como o começo de uma experiência no consultório que me interessou muito, e a depressão como um sintoma social, quer dizer, algo que se alastra, sintoma social no sentido de um tipo de sofrimento mental que além de dizer respeito ao sujeito, a cada um por si que está sofrendo, cada um com suas razões, revela alguma coisa que não vai bem. Não se poderia dizer que é o sintoma social do homem contemporâneo, porque drogadição também é um sintoma, violência também é um sintoma. Mas certamente depressão é um dos importan- tes sintomas. Porque, digamos, ele faz água no barco. Tem um barco, que é a sociedade de con- sumo, que as pessoas supostamente navegam, às vezes achando que a vida vai ter sentido por- que você pode ter dinheiro e comprar não sei o quê. Todo mundo fala: “Que sociedade de consu- mo? Brasil? Menos de 1/3 pode consumir o bá-

sico”. E eu insisto que essa sociedade é de con- sumo, nos termos mesmo dos autores, do Jean Baudrillard, aliado à idéia de Guy Débord da so- ciedade do espetáculo, porque o que dá sentido

à vida é o consumo. A questão não é a socieda-

de de consumo porque todo mundo está con- sumindo furiosamente, pouca gente está consu- mindo furiosamente, mas as pessoas medem o que elas são pelo que elas podem consumir, me- dem o sentido da sua vida pelo que elas podem consumir. Estão convencidas de que o valor de- las e das outras se define pelo que elas podem consumir. Por isso sociedade de consumo, pela crença, não necessariamente pelos atos. Então voltando ao por que a depressão que

é sintoma social. Porque a sociedade, em ter- mos dos discursos dominantes nos quais a gen-

tatiana merlino: Então o aumento do mercado de antidepressivos não resulta numa diminuição dos casos de depressão?

O antidepressivo, embora seja em muitos ca- sos importante, vital até, não quero aqui falar contra os avanços da indústria farmacêutica, embora o antidepressivo às vezes salve vidas, deva ser tomado por pessoas que correm risco até de se matar ou então de morrer por não di- zer, não consegue nem ir a um consultório de analista. O antidepressivo não cura, ele ajuda o depressivo a ter energia e ânimo para fazer al- gumas coisas e aí ele tem que se tratar.

camila martinS:: Você diz então que a depressão faz parte da sociedade contemporânea. Mas é muito comum a gente escutar: “o quê, a menina está com depressão? Parece que não trabalha, que não estuda, só quem é desocupado é que tem tempo de ter depressão”. luana ScHabib: Ao mesmo tempo tem gente que qualquer coisa fala: “Puxa, tô deprimido”.

Exatamente, tem os dois lados. Tem o lado talvez mais conservador, e principalmente com os jovens, “isso é frescura, vai trabalhar”. Mas eu acho que o lado que a Luana falou, hoje é pre- dominante, porque qual é a estratégia dos labo- ratórios? Às vezes eu brinco e falo assim: “quem vai salvar o capitalismo da crise é a indústria farmacêutica, porque quanto mais crise mais remédios eles vão vender”. Entendeu? Qual é a estratégia dos laboratórios farmacêuticos? Não é mais somente divulgar os remédios. Saiu o Prozac, na época foi divulgadíssimo, foi o pri- meiro grande antidepressivo genérico que as pessoas tomavam. Hoje tem muita gente da ge-

ração 20 anos do Prozac que vem para o consul-

do gozo, da farra, não é a moral até a primeira

 

Hamilton octavio de Souza: O modelo atual coloca

tório dizendo: “tomei um tempão, foi ótimo, fi- quei muito alegre. Depois fiquei simplesmente indiferente e agora não aguento mais não sen-

que você não tem emprego porque você não se preparou, você que não é capaz, o problema não é do sistema, o problema é teu.

tir nada. E vou fazer análise”. Mas enfim hoje a principal estratégia de marketing é divulgar a doença. Que por um lado poderia ser um tra- balho importante de saúde pública, dizer para as pessoas como é que é a Aids, cuidado, se pre- vina. Agora, nas doenças mentais a populariza-

Isso começou a ficar mais claro para mim quando eu comecei a atender os pacientes no MST, na Escola Nacional Florestan Fernandes, onde eu fui uma vez fazer uma conferência em 2006, eu fui falar de televisão, justamente o que foi a minha tese. E eles me perguntavam de psi-

ção da doença ajuda você a se identificar com ela. Que se você faz uma campanha contra o câncer de mama, tudo bem, todas as mulheres podem falar: “ai meu Deus do céu, será se eu te- nho isso?”. Ai você vai ao médico e faz uma ma- mografia e se tem, tem, se não tem, não tem. Não dá para você achar que você tem só porque houve uma divulgação maior, preventiva. Ago- ra, na depressão, todos os ambulatórios no Bra- sil têm esse folhetinho: “Você tem depressão? Atenção, é uma doença séria mas tem cura”. Aí se você tem alguns sintomas, ai tem uma lista de 20 sintomas que qualquer um de nós tem al-

Mas o remédio não é a cura, é só a condição para a pessoa ir se tratar. Então, o que é a for- ça psíquica, a chamada vida interior? É trabalho permanente, desde o bebezinho ali que a mãe não chegou na hora e ele estava com fome e teve que esperar um pouquinho, o psiquismo é isso,

canálise, assim na aula. E eu dizia: “olha, dá para ter atendimento aqui”. Mas ninguém me procu- rava para isso, eu já tinha oferecido. E um dia me perguntaram de novo como que a psicaná- lise podia ajudar a militância e eu falei: “olha, a psicanálise não é uma teoria militante. Pela psi- canálise eu creio que não vai sair nenhuma mi- litância psicanalítica”. Mas, aí eu brinquei com eles: “tem muito neurótico militando, e os neu- róticos atrapalham a militância, misturam seus problemas pessoais com os problemas da mili- tância, o que embola o meio de campo. Então o que a psicanálise pode fazer é tratar as pessoas,

guns deles. Falta de sono, excesso de sono, fal-

trabalho para se enfrentar a dificuldade, enfren-

e

se ajudar a militância, o cara fica menos lou-

ta de fome, excesso de fome, desânimo, irritabi- lidade, bom, em São Paulo quem é que não tem irritabilidade, estresse, vai por aí. O importan-

tar conflitos, suportar crises, suportar despra- zer em momentos, porque não dá para ter pra- zer o tempo todo, isso é psiquismo. A ansiedade

co e daí milita melhor”. Eu saí da sala e tinham duas pessoas da direção me esperando: “quan- do é que você pode começar?”.

te é que no caso das depressões, numa socieda- de em que a moral social é a moral da alegria,

fase do capitalismo, que até os anos 1950, e isso combinou também com o protestantismo, era a moral do adiamento da gratificação, sacrifício, esforço, sobriedade, tudo que a gente conhece hoje em dia de literatura. E a moral que mudou muito rapidamente depois dos anos 60, não por

diz “não enfrenta conflitos, não enfrenta porque você vai ficar um tempo meio confuso, meio im- produtivo, toma o remédio e vai em frente”. Vai se criando uma vida sem sentido. Como é estar realmente deprimido? Porque tem alguns casos de depressão que são diferen- tes do que eram os casos de depressão da minha bisavó ou do meu tataravô. Hoje uma pessoa deprimida, além dela sentir todo o sofrimen-

ana maria Straube: Interessante, porque a psicanálise parte de uma perspectiva mais individual. E no MST acho que tem uma coisa, de buscar soluções coletivas para as coisas.

Então, isso é genial, porque eu achava que alienação neurótica era uma coisa, e aliena- ção política é outra, e uma não interfere na ou- tra. Reformulei o que eu pensava. Uma parte

culpa dos movimentos dos anos 60, mas pela tremenda plasticidade do capitalismo, do boi eu aproveito até o berro, do homem eu aproveito até o berro, derramo o que não queremos, o que

to da depressão, a sensação de vazio, de que a vida não vale a pena, de que ele mesmo, ou ela mesma, não vale nada, de que o tempo não pas- sa, que os dias estão estagnados e insuporta-

da alienação neurótica é alienação política, por- que lá o cara, as pessoas que vão lá sofrem pe- los motivos que os neuróticos sofrem, não in- teressa nem contar detalhes, porque é contar

queremos é sexo livre, independência. E o siste-

velmente lentos, enfim, falta de vontade de vi-

o

detalhe de qualquer outra clínica, mas qual é

ma fala “oba, vamos devolver isso na forma de mercadoria”. E hoje nós nos beneficiamos, mas também a sociedade de consumo bombou de- pois dos anos 60. Então, numa sociedade como essa em que você moralmente se sente obriga- do a estar sempre muito bem, qualquer triste- za você identifica como depressão. Então tem aí muitas dessas famílias que dizem que isso é frescura, que não é depressão, mas eu acho que

ver basicamente, tudo isso que já é sofrimento suficiente para um depressivo, hoje recebe um acréscimo da culpa de se estar deprimido. Ai faz parte do que você falou, não é só que eu estou passando por tudo isso e tudo isso é uma dure- za e eu preciso de uma ajuda. Eu estou passan- do por tudo isso, então eu sou pior do que os outros. Eu já me sinto ruim porque estou depri- mido, e agora estou me sentindo ruim porque

grande diferencial? Esse a mais de culpa, de

baixa estima, do indivíduo que se acha ele pró- prio obrigado a dar conta da vida dele e de pas- sar na frente de todo mundo, ele já tem, nos 25 anos do MST, uma formação que não é só política, não é só cartilha, é formação humana, isso é que me impressiona. É consistente, você ouve um paciente três anos seguidos, e você fala: “não é só cartilha”. É formação humana,

o

distinguem. As mulheres, eu nunca vi um femi-

é

minoria. A maioria é assim: o filho está male-

eu sou quase que culpado, é quase como se fosse

eles distinguem o que é o problema deles, do

ducado, toma remédio, porque é hiperativida- de, toma remédio; o filho está numa crise ado- lescente, deprimido, toma remédio. É a mesma lógica, digamos assim, imaginária que rege o capitalismo financeiro: jogue certo que você vai

estar rico a vida inteira, acabaram os seus pro- blemas, acumule um monte, faça a jogada, e não

um fora da lei. Hoje um deprimido se sente cul- pado por não querer ir para as festas. Na ado- lescência isso é tremendo, os adolescentes, que é a idade de ouro na sociedade de consumo, os adolescentes são o outdoor da sociedade de con- sumo, eles aparecem como nossos representan- tes, já que são mais livres, não têm filhos, teo-

que é a sua situação de classe, claro que não es- tou falando de pessoas superdotadas, mas eles

nismo tão profundo, mais verdadeiro do que eu vi nas mulheres do MST, porque não é feminis- mo anti-homem, não é feminismo masculiniza- do, é uma coisa tão profundamente libertária,

é

para ter turbulência, que as turbulências são

ricamente os de classe média são sustentados,

elas são cientes de que elas têm o valor delas

deficiências, perdas de tempo, porque tempo é dinheiro; afinal de contas, então, remédio, re- médio. E qual a relação disso com a depressão? Você vai criando um sujeito esvaziado.

não têm que trabalhar, eles são os mais convi- dados para essa festa perpétua que não existe, mas que aparece no horizonte social. O adoles- cente em crise hoje, ele se sente o último.

como mulher, que elas não vão atrelar a vida de- las, de estilo de militância, a um homem, a não ser que o caminho coincida, é muito impressio- nante. Porque o que mais tem na clínica psica-

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iLuSTRAçãO HKE

nalítica das cidades? Qual é a questão mais ba- nal? Não estou banalizando os meus clientes, estou falando que tem uma questão que é ba- nal: me ama ou não me ama, papai gostou de mim, mamãe não gostou de mim, um gostou muito, outro gostou menos, eu era o predileto, meu irmão que era predileto, gostava de mim, não gostava de mim, meu namorado gosta ou não gosta, ai não tenho um homem então sou uma porcaria porque não tenho homem, ah não tenho mulher. Isso aí eu nunca ouvi lá, em três anos e pouco já. O valor do sujeito não está atre- lado a se o outro gosta dele ou não, é muito im- pressionante, o valor está ligado à militância. E ao mesmo tempo não está ligado à militân- cia, é claro que alguns sofrem de uma coisa as- sim “eu sou herói mais do que todo mundo”, mas também tem essa idéia de que o que você é, você é coletivamente. E é fácil dizer isso por quê, não preciso nem contar dos meus pacien- tes, eu posso contar por exemplo de um rapaz com quem eu conversei quinze minutos na por- ta, eu estava na porta do consultório esperando um paciente que estava atrasado e tinha um ra- paz, que eu nunca tinha visto, sei lá, é que tem muitos cursos, então uns ficam uma semana, alguns ficam um mês, tinha um rapaz paraiba- no que puxou conversa comigo, queria saber quem eu era, comecei a contar, e ai ele me dis- se: “Ah! Então você vai na reunião da direção?”

Me perguntou se eu ia para alguma coisa gran- de lá e eu falei: “Não, eu aqui sou peixe peque- no”. E ele falou: “não existe peixe pequeno”. E eu falei: “Não, eu quero dizer que o que eu faço aqui é secundário”. “Não existe tarefa secun- dária”. Ele foi me interpretando. “Companhei- ra, ou somos iguais ou não somos iguais. Se so- mos iguais, você pode trabalhar lá nas privadas que o seu trabalho é tão importante quanto de um dirigente”. Claro que isso não é tão perfei- tinho assim, porque tem aqueles que se acham o máximo, principalmente os escalões interme- diários, o Stedile não. Claro que tem gente que gosta do poder, bom isso é do humano, mas o que o rapaz falou bate e pronto, e isso é muito profundo. Na festa de Sarandi, eu fiquei mui- to impressionada, porque foi uma festa enorme, tinha duas mil e quinhentas pessoas, três mil, barbaridade assim. Nada terceirizado, eviden- temente, não tinha uma companhia que ofere- cia churrasquinhos, tudo era feito por eles, e to- dos faziam tudinho, as brigadas são fantásticas, mas o que aquilo funcionou era impressionan- te. E daí você pensa: “não, então eles são uma coisa militar?” Porque quando eu conto para al- gumas pessoas que têm a perspectiva da socie- dade do oba-oba, dizem – então é militar? Não. Aí tem o baile no fim do dia que é para acabar à meia-noite, porque no dia seguinte a coisa co- meça cedo, e acaba ás três da manhã e o pessoal

bebe, e no dia seguinte está todo mundo traba- lhando às oito. Aguenta a sua ressaca. Mas não

é repressivo nesse sentido, por outro lado, ti- nha barraca de bebidas, teve uma cerimônia de premiação longuíssima, porque tudo lá é ceri-

monial, cerimônia longuíssima, e pediram para

a barraca de bebida não vender bebida duran-

te a premiação, para não misturar uma coisa com a outra, daí sim. E pediram para os parti- cipantes que não estavam dentro do auditório não começarem a comer o lanche que já esta- va servido. E uma hora eu, ingenuamente, sai do auditório, estava morrendo de fome, eram 10 da noite já, o almoço tinha sido ao meio-dia, passei na barraca e peguei um negocinho, na barraca não, nas mesas, quando eu olhei esta- va todo mundo olhando parado. Aí fui na bar- raca de cerveja, e pedi uma água, e os meninos falaram: “É, a gente agora só vende água”. E eu falei: “Por quê, acabou a cerveja?” “Não, pedi- ram para não beber cerveja enquanto está a ce- rimônia”. Então tem um comprometimento de todos com o bom funcionamento da coisa. Com evidentes exceções, uma pessoa teve o celular roubado, paraíso não existe, mas pensando no funcionamento coletivo, em que as pessoas, a sensação de confiar, confiar eu não estou falan- do confiar no marido, no irmão, acho que quan- do você está entre estranhos confiar é uma coi- sa muito boa.

está entre estranhos confiar é uma coi- sa muito boa. Fidel Castro Ruz Do bloqueio não

Fidel Castro Ruz

Do bloqueio não se Disse uma só palavra

Fidel Castro Ruz Do bloqueio não se Disse uma só palavra O governo dos Estados Unidos,

O governo dos Estados Unidos, através da CNN, anunciou que serão aliviadas algu- mas odiosas restrições impostas por Bush aos cubanos residentes nos Estados Unidos para visitar suas famílias em Cuba. Quando se in- dagou se tais prerrogativas reconheciam ou- tros cidadãos norte-americanos, a resposta foi que não estavam autorizados. Do bloqueio, que é a mais cruel das me- didas, não se disse uma só palavra. Dessa maneira piedosa é chamado o que constitui uma medida genocida. O prejuízo não é me- dido só por seus efeitos econômicos. Custa constantemente vidas humanas e ocasiona sofrimentos dolorosos a nossos cidadãos.

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caros amigos maio 2009

Nossos doentes não têm acesso a numerosos equipamentos de diagnóstico e medicamentos

e sua vontade de mudar a política e a imagem dos Estados Unidos. Compreende que travou

uma batalha muito difícil para conseguir ser

eleito, apesar de preconceitos centenários.

Partindo disso, o presidente do Conselho de

Estado de Cuba expressou sua disposição para

dialogar com Obama e, com base no mais estri-

to respeito à soberania, normalizar as relações com os Estados Unidos. Cuba não aplaude as mal chamadas Cú- pulas das Américas, onde nossos países não discutem em pé de igualdade. Se servissem para alguma coisa, seria para fazer análises críticas de políticas que dividem nossos po- vos, saqueiam nossos recursos e obstaculi- zam nosso desenvolvimento. Agora falta apenas Obama persuadir to- dos os presidentes latino-americanos de que

bloqueio é inofensivo. Cuba resistiu e resistirá. Não estenderá jamais suas mãos para pedir esmolas.

o

Não estenderá jamais suas mãos para pedir esmolas. o Fidel Castro Ruz anúncio vitais, embora provenham

Fidel Castro Ruz

anúncio

vitais, embora provenham da Europa, do Japão,

ou de outro país, se possuem alguns componen-

tes ou programas dos Estados Unidos.

Em virtude da extraterritorialidade, as

restrições relacionadas com Cuba devem ser aplicadas pelas empresas dos Estados Uni- dos que produzem bens ou prestam serviços em qualquer parte do mundo. Um influen- te senador republicano, Richard Lugar, al- guns mais de seu partido com igual título no Congresso, e mais outro número de im- portantes senadores democratas são a favor do fim do bloqueio. Foram criadas as condi- ções para que Obama empregue seu talento numa política construtiva que acabe com o que fracassou durante quase meio século. Por outro lado, nosso país, que resistiu e está disposto a resistir a tudo o que for neces- sário, não culpa Obama das atrocidades come- tidas por outros governos dos Estados Uni- dos. Também não questiona sua sinceridade

Mc Leonardo

“Sou e sempre serei favela”

No inicio do mês de abril, o jogador Adria-

no da Inter de Milão não voltou à Itália no prazo previsto, dando um susto em seus empresários

e servindo de manchete para os jornais mais

vendidos do mundo. Acabado o mistério, descobriu-se que ele ha- via passado as últimas 48 horas em uma favela

da zona norte do Rio, onde nasceu e foi criado.

A mídia então se preocupou com outra coisa:

o que ele teria ido fazer neste lugar?

A desconfiança de que ele tenha ido buscar

drogas é tão ridícula quanto a de que ele tenha ido falar com traficantes, pois com o dinheiro

que ele tem se consegue droga em qualquer can- to deste planeta. E se foi falar com o responsá- vel pela venda do varejo da droga naquela loca- lidade, não levaria 48 horas. Sinceramente, qual é problema de uma pes- soa visitar o lugar onde morou e onde mora a maioria dos seus verdadeiros amigos? Mas entre tanta besteira que foi falada na mí- dia sobre esse caso, separei um que me chamou mais atenção.

O apresentador Brito Jr., da TV Record, fa-

lou o seguinte:

“Muitos artistas que nascem nessas localida- des, que na verdade são caldeirões de pobreza e violência, não conseguem conviver com o cho- que cultural que têm fora dela, saem do caldei- rão, mas o caldeirão não sai de dentro deles”. Esse “caldeirão” citado pelo apresentador é, na verdade, a favela. E os artistas que nascem na favela são favelados, não vão deixar de ser por terem ficados ricos e famosos. Pobreza não tem só na favela, violência tam- bém não, mas posso garantir pra esse apresen- tador que na favela tem muito mais diversidade cultural do que em qualquer outro lugar. Tem-se muito mais contato físico, muito mais informação e vivência do problema do próximo, que gera outro tipo de convivência humana que pessoas da outra classe social desconhecem.

A definição dada à favela pelo apresentador

só faz aumentar a visão preconceituosa sobre a favela e aumentar a distância entre as classes no Brasil.

a favela e aumentar a distância entre as classes no Brasil. MC Leonardo é compositor, autor,

MC Leonardo é compositor, autor, com seu ir- mão MC Junior, de funks de protes-to, como o RapdasArmas. mcleonardo@carosamigos.com. br - http://mcjunioreleonardo.wordpress.com

Ulisses Tavares

Casamento

é um negóCio

Você dorme comigo, mas pode acordar com uma pensão de ex-marido. Pode desejar outro homem desde que ele seja eu.

O príncipe encantado era um sapo. Ago-

ra lava os pratos e vem dormir, comedor de

mosca. Sua boceta não é novidade. Meu pau não é novidade.

Você é aquele pacote morno que dorme à mi- nha direita.

O lado esquerdo é meu e pronto.

Concordo em discutir a relação, mas você chama isto de relação? Absolutamente não é possível discutirmos a relação na disputa final do campeonato. Os filhos de seu casamento anterior foram

falta de planejamento familiar. Agora, se vira. Meus filhos são ótimos, quem não presta é minha ex-mulher. Pior que errei de novo, arru- mando você.

É entediante esse seu hábito de ir sempre

ao banheiro, de defecar e tomar banho para dar uma simples rapidinha. Vejo você de calcinha e nem penso em tirar. Essa plástica ficou ótima, mas só quando você está vestida. Pelada, a cicatriz salta aos olhos. Não é que eu não goste de sexo oral, mas com esse corrimento e minha afta na língua está difícil. Xeretou meu perfil no orkut de novo? Daqui a pouco vai querer me instalar um gps, né? Estava me masturbando no banheiro, sim, mas pensando em você. Bom dia por quê? Boa noite pra quem? Nunca tinha reparado que você comia de boca aberta. Antes, meu bem pra cá, meu bem pra lá. Ago- ra, meus bens pra cá, meus bens pra lá. Por que não ficou com ele? Por que não fiquei com ela? Vou explicar nada. Você não entenderia. Tenho sonhos, mas troco por sono que ama- nhã é dia de batente. Também te amo, querida.

que ama- nhã é dia de batente. Também te amo, querida. Ulisses Tavares acha que casamento

Ulisses Tavares acha que casamento é uma coi- sa, amor é outro troço. Coisas de poeta.

Guilherme Scalzilli

Exterminadores

de times

Parte da crônica esportiva decidiu que os campeonatos estaduais de futebol che- garam a um nível irremediável de indigên- cia e previsibilidade, devendo ser extintos e substituídos por disputas mais amplas. Não surpreende que a medida seja defen- dida majoritariamente pela imprensa das capitais: apenas os clubes poderosos co- nheceriam benefícios, enquanto os interio- ranos cairiam no ostracismo das divisões inferiores. É universalmente sabido que isso leva- ria, em pouco tempo, à extinção de dezenas de times sem recursos. As cidades menores sofreriam consequências negativas para o comércio e o emprego, perdendo ainda mais sua tão menosprezada identidade regional. Ao mesmo tempo, os clubes ricos ganhariam fortunas absorvendo diretamente os talen- tos originados nos rincões. Para dimensio- nar os valores envolvidos, basta fazer um le- vantamento dos jogadores mais badalados do país que foram revelados por times de menor expressão. Mas apenas o aspecto financeiro não ex- plica o apego à proposta malévola. A indisfar- çável decadência técnica do futebol nacional nivelou os times negativamente, ameaçando a primazia dos chamados “grandes”. Se um rebaixamento no campeonato brasileiro soa- lhes constrangedor, semelhante fracasso em nível estadual pareceria desmoralizante, aba- lando certas ilusões de “grandeza” que a im- prensa alimenta para valorizar-se a reboque de seus preferidos. É essa mitologia da superioridade ima- nente que disfarça a cadeia de artimanhas vi- ciadas dos gabinetes futebolísticos. O poder dos clubes privilegiados advém de uma po- pularidade construída com títulos que foram possíveis graças à generosidade dos contra- tos publicitários e de transmissão televisiva, além dos infames sistemas de repasses desi- guais de verbas por parte da CBF. Para com- pletar o cartel, resta apenas eliminar a inde- sejável concorrência.

resta apenas eliminar a inde- sejável concorrência. Guilherme Scalzilli , historiador e escritor. Autor do

Guilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do romance “Crisálida” (editora Casa Amarela). www.guilhermescalzilli.blogspot.com

maio 2009 caros amigos

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Marcelo Salles

Foto: marcelo SalleS
Foto: marcelo SalleS

CHOQUE

DE CAPITALISMO NAS RUAS DO RIO LEMBRA A DITADURA

A novA AdministrAção municipAl Aumentou A repressão sobre os desempregAdos, subempregAdos, cAmelôs e trAbAlhAdores pobres em gerAl.

Se você está desempregado no Rio de Ja- neiro, cuidado. Se você não tem onde mo- rar, redobre a atenção. Você está na mira do Choque de Ordem. Apesar de a Prefeitu- ra negar, durante a apuração desta repor- tagem ficou claro que a repressão empreen- dida pela nova administração está voltada essencialmente contra as parcelas mais po- bres do povo. Não foram poucos os relatos que ouvi de agressões contra camelôs e pes- soas em situação de rua, sendo que o mais chocante foi narrado pelo defensor público Alexandre Mendes. Quando pergunto sobre denúncias de agressão física, ele diz:

“Isso eu posso falar porque presenciei, pois acompanhei e assinei o boletim de ocorrência. Houve uma agressão estúpida da Guarda Mu- nicipal. Uma senhora de 60 anos, de muleta, foi derrubada no chão e usaram sua própria mu- leta para agredi-la. Por pedir que não fizessem isso, um menino negro tomou uma banda e vá- rias cacetadas e também outras duas pessoas acabaram apanhando. Foi uma ação de extre- ma violência”, lembra Alexandre, do Núcleo de Terras da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. Ele explica que o Núcleo de Direi- tos Humanos está acompanhando denúncias de agressão e o de Fazenda Pública está acompa- nhando denúncias de roubo de mercadoria. O Choque de Ordem, conjunto de ações coordenadas pela Prefeitura, mas com apoio das polícias e da iniciativa privada, teve iní-

caros amigos maio 2009

cio logo na primeira semana de janeiro. E não tem data para terminar. “Apesar de mui- tos terem uma dimensão de que choque é algo passageiro, acho que choque não é algo passageiro, choque é algo intenso. A prefei- tura vai permanecer com essa intensidade,

vai fazer valer as posturas e a lei municipal, porque não há outro caminho para a cidade do Rio de Janeiro”, explica Rodrigo Bethlen,

o chefe da Secretaria de Ordem Pública, es-

pecialmente criada para comandar as ações. De acordo com os números oficiais, até mar- ço foram abordadas 5.076 pessoas, mais de duzentos mil automóveis foram multados ou rebocados e cerca de 180 mil produtos diver- sos foram recolhidos. Cerca de oitenta cons- truções populares foram destruídas. Bethlen, ex-vereador pelo PFL e homem de confiança do prefeito Eduardo Paes, me recebeu na sexta-feira, dia 17 de abril, no sétimo andar do gigantesco prédio da Pre-

feitura, que fica no centro da cidade. Fui prontamente atendido e todas as perguntas foram respondidas com desembaraço; trata- se, sem dúvida, de um grande quadro da di-

reita fluminense. O secretário de Ordem Pú- blica tem a pele branca, cabelo preto liso, barba bem feita e gesticula muito enquanto fala. Ele defende, para a Guarda Municipal,

o uso de armas não letais (ou menos letais,

segundo fabricantes) como os tasers – apa- relhos que disparam projéteis eletrificados.

É contra o uso de armas convencionais pe- los guardas e acredita que o Rio de Janei- ro deve se espelhar em cidades como Nova York, Chicago, Bogotá e Medellín. “A hora que você combate o pequeno delito você dei- xa absolutamente caracterizado que o poder público vai estar presente permanentemen- te combatendo essas transgressões”. O secretário mais badalado pelas corpora- ções da mídia fluminense afirmou que o Cho- que de Ordem não é seletivo. Ele citou três episódios em que as ações foram direcionadas contra gente rica: a demolição de um restau- rante na Gávea, de uma casa na Barra e do prédio conhecido como Minhocão, na favela da Rocinha. “Pra mim lei vale pra todo mundo, tanto pra mim quanto para o prefeito Eduardo Paes. Se a lei não for respeitada por todo mun- do, nosso choque não tem validade”.

Em nome do lucro

“Mas quantos camelôs eles prenderam? Quantos foram feridos? Só pessoas em situ- ação de rua foram recolhidas 2 mil”. Quem questiona é Antônio Futuro, mestre em Educação pela UERJ e professor da mes- ma Universidade. “Eles se especializaram em não mudar a estrutura. Só que agora estão agindo como se estivessem mudando, apesar de não ter havido nenhuma mudan- ça nas relações de classe. Sem dúvida são ações de criminalização da pobreza. Eu que-

ria ver o choque de ordem nas empresas que praticam sonegação fiscal, nas que praticam

especulação imobiliária da Barra da Tijuca, nos puxadinhos da Vieira Souto”.

A presidente do Grupo Tortura Nunca

Mais, Cecília Coimbra, concorda com essa avaliação e faz uma analogia com a ditadu-

ra civil-militar de 1964: “Esse nome é muito bem escolhido. Choque de Ordem. Esse títu- lo tem tudo a ver com todos os dispositivos que a ditadura deixou”.

A jornalista canadense Naomi Klein escre-

veu um livro de 600 páginas sobre a função dos choques no sistema capitalista. Título: “A Doutrina do Choque – a ascensão do capitalis- mo de desastre” (Nova Fronteira). Ela mostra que existe uma relação estreita entre os gol- pes de Estado na América Latina e a imposi- ção do novo modelo econômico proposto por Milton Friedman e executado pelos jovens economistas da Universidade de Chicago. De acordo com o delírio de Friedman, os governos fariam um bom trabalho na me- dida em que abolissem as regulamentações

sobre a acumulação de lucros, vendessem todos os ativos que possuíam para a inicia- tiva privada e cortassem as verbas destina- das aos programas sociais. Segundo o di- plomata chileno Orlando Letelier, que foi embaixador de Allende nos EUA, “havia um único projeto no qual a tortura desem- penhava um papel central como ferramen- ta para a metamorfose do livre mercado”. Daí o interesse de empresas capitalistas no financiamento da repressão, como escreve Naomi Klein citando o relatório Brasil: Nun-

ca Mais. “Composta de oficiais militares, a OBAN foi financiada pela contribuição de di- versas corporações multinacionais, inclusi- ve a Ford e a General Motors”. Durante a entrevista com Rodrigo Be- thlen, perguntei o que ele achava do nome “Choque de Ordem”, se ele achava que re- metia à ditadura. Ele respondeu o seguinte:

“Olha, você sabe que na verdade não fomos nós quem batizamos essas ações de Choque de Ordem. Isso a imprensa começou a le- vantar e ficou. Ficou no gosto popular. O Pronasci, capitaneado por uma vertente dos direitos humanos, uma coisa que eles reco- mendam é que a Guarda Municipal use cada vez mais armas não-letais. Você tem um apa- relho, que é o taser, que dá um choque e imobiliza a pessoa. É muito melhor usar um aparelho desse do que dar um cassetete na cabeça de alguém, que vai deixar sequela ou hematoma ou até pode causar danos irre- versíveis. Então acho isso um pouco, assim, uma memória ruim de uma época do Brasil que eu acho que não tem muita ligação”.

A ligação é tamanha que, da mesma ma-

neira que corporações financiaram a tortu- ra durante a ditadura, empresas capitalistas

agora patrocinam operações como o Cho- que de Ordem da prefeitura carioca. Quan- do perguntei ao secretário sobre parcerias

com o setor privado, ele confirmou que elas existem e citou a Associação Brasileira de Hotéis, além de “diversos órgãos, empresas interessadas em doar equipamentos para a

A gente tem feito várias parcerias por-

que isso no mundo inteiro tem dado muito certo”. Posteriormente a assessoria de Beth- len informou que também existe uma parce- ria com a Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro que, segundo sua página na internet, “é formada por 61 sindicatos patronais fluminenses, representa os inte-

resses de todo o comércio de bens, serviços

GM

e turismo do Rio. O setor reúne mais de 400 mil empresas, que respondem por cerca de 60% do PIB e quase 90% dos estabelecimen- tos do estado”.

Perseguição política

Na Cinelândia, centro da cidade, encon- trei um alvo da nova repressão. Trata-se de Joel Valentim, trabalhador autônomo que para sobreviver produz faixas e estampa ca- misas, sempre com frases e ilustrações po- líticas. Valentim é baixo, tem a pele more- na e olhos muito pretos, assim como o boné

e a camisa que veste. Seu cabelo é crespo e

os gestos, contidos. Sua história de vida se confunde com a violência imposta ao Rio pe- las classes dominantes. Filho de imigrantes (pai pernambucano, mãe mineira), esse ca- rioca de 50 anos tem três filhos. Nascido e criado na Tijuca, na favela do Borel, ele con- ta que despertou para a política em 1993, “a partir da violência policial”:

“A comunidade já sofria várias interven- ções da polícia por conta de drogas, tráfico, aí a população começou a reclamar do que a polícia fazia na comunidade, a truculência de- les, subtraíam alguns materiais dos morado- res, o que eles podiam carregar eles faziam. Eu mesmo presenciei algumas vezes. Aí co- meçamos a nos reunir”. Eis a origem da Rede Contra a Violência, um dos movimentos so- ciais mais combativos do Rio de Janeiro. Quatro anos depois, em 1997, Valentim levou um tiro de fuzil no cotovelo direito enquanto dormia. Eram duas da madruga- da. “Meu braço ficou literalmente pendura- do”, lembra. Correu para o hospital mais próximo, o Ordem Terceira, da iniciativa privada, onde disseram que não prestariam socorro. Foi para o Hospital do Andaraí, pú- blico, onde encontrou a polícia. Foi acusa- do de ser bandido e levado para a delega- cia sem nenhum socorro. Só foi liberado às 23h, quando finalmente pôde retornar ao hospital para ser operado. Felizmente con- seguiu recuperar os movimentos do braço, que guarda uma cicatriz imensa, mas per-

deu parcialmente o movimento de dois de- dos (mindinho e anelar). Em 2007, Valentim tornou a ser vítima dos agentes da repressão. Por conta das ca-

misas que estava vendendo com mensagens críticas aos Jogos Pan-Americanos, a polícia passou a persegui-lo. “Entraram no meu es- tabelecimento, na minha casa, apreendendo meus materiais. E me monitorando através do meu celular. Fui acompanhado visual- mente, passo a passo”, até ser detido e leva- do à delegacia “para prestar esclarecimen- tos” e processado sob a acusação de vender material com o símbolo dos Jogos, que era patenteado pela Globomarcas. O autor do desenho, Carlos Latuff, também foi intima- do. Ao fim e ao cabo, o processo foi arquiva- do, mas as 60 camisas e o mochilão apreen- didos nunca foram devolvidos. Valentim também foi vítima do Choque de Ordem. Na manhã do dia 13 de janeiro, uma terça-feira, ele estava com sua banca em frente à Ocupação Zumbi dos Palmares, onde mora com outras 132 famílias. Foi quando viu uma viatura da PM, um Gol branco des- caracterizado (provavelmente da polícia ci- vil), uma picape e um ônibus da Guarda Mu- nicipal, e um guincho. Ele recorda o que lhe disseram: “É o Choque de Ordem, isso aqui

é um logradouro público e aqui não pode ser

colocado esse material”. Levaram seis ban- deiras médias e algumas camisas. “A questão é perseguição política, mesmo.

Na época do Pan-Americano tive que tomar alguns cuidados, tive que parar de produzir por causa dessa situação. E o que mais pesa

é que fomos impedidos de nos manifestar po-

liticamente. Acho que esse Choque de Ordem

vem de fora, é o sujeito que vem de fora e não quer ver gente trabalhando na rua, não quer ver os materiais, gente gritando. E aí, dita- dura novamente? Onde está a liberdade de expressão?”, pergunta Valentim. Cecília Coimbra consulta a história para responder por que a repressão recai sobre ele? “As grandes revoluções foram feitas principalmente pelas populações pobres. O que deu a vitória para a revolução francesa? Foram os camponeses, os chamados sans- culottes. Em todas as revoluções a popula- ção pobre está presente, por isso ela é temi- da pelas elites. Não é por acaso que a gente não estuda algumas revoluções na história do Brasil. A balaiada, no Pará, a revolução

Isso não é falado porque a

dos alfaiates

grande marca dessas revoluções era a par- ticipação da pobreza. O Choque de Ordem

está coroando toda uma política que vem desde o início do século XX”.

toda uma política que vem desde o início do século XX”. Marcelo Salles é jornalista e

Marcelo Salles é jornalista e coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro. salles@carosamigos.com.br

maio 2009 caros amigos

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ILUSTRAÇÃO: GUZ - WWW.FLICKR.COM/OSAMURAI

Plínio Teodoro Como a mídia grande abafou o caso da
Plínio Teodoro
Como a mídia grande
abafou o caso da

São Paulo, 25 de março de 2009. No escri- tório de uma agência de comunicação localiza- da na Avenida Paulista, a cúpula da Constru- tora Camargo Corrêa se reúne com assessores

para definir estratégias para abafar mais um escândalo da série em que a empreiteira se en- volveu desde quando foi criada, em 1939. Ho- ras antes, ainda durante a alvorada, a Polícia Federal havia desencadeado a operação Cas- telo de Areia que levou à prisão quatro execu- tivos e duas secretárias da construtora, além de quatro doleiros, um deles com trânsito fá- cil entre empresários e políticos representan- tes da chamada “elite brasileira”.

A acusação, mais uma vez, é grave. Segun-

do a Polícia Federal, os diretores da Camargo Corrêa estão indiciados por fazer parte de um grupo criminoso que frauda licitações, super- fatura obras públicas e envia os recursos des- viados para contas em paraísos fiscais. Duran- te as investigações, liderada pelo coordenador da área de combate ao crime organizado da Polícia Federal em São Paulo, delegado Alber-

to Legas, foi descoberto ainda que a suposta quadrilha também pratica a velha tática de ofe- recer vultosas quantias a politicos, partidos e membros do poder público em troca de benefí- cios durante os processos licitatórios.

A reunião é tensa. Entre olhares desconfia-

dos, mordidas nos lábios e expressões pouco amigáveis, um dos executivos da construto- ra revela que a investigação pode levar a Po-

lícia Federal a mares nunca antes navegados no submundo da corrupção no Brasil. “O pro- blema é que esta é apenas a ponta do iceberg”, bradou aos colegas.

A estratégia foi, então, montada e imedia-

tamente desencadeada. O objetivo era desviar do foco de cobertura da grande mídia os cri- mes cometidos pela empresa, jogando os ho- lofotes para as suspeitas de doações ilegais aos politicos e partidos, de competência de outra instância de poder, a Justiça Eleitoral.

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caros amigos maio 2009

E neste momento, nada melhor que um afago

no bolso da trupe que concentra o oligopólio da comunicação no Brasil. Acusados de remeter, de forma ilegal, pelo

menos 20 milhões de dólares aos dutos de la- vagem de dinheiro no exterior – o valor pode ultrapassar 200 milhões de dólares, segundo

a Procuradoria da República – executivos da

Camargo Corrêa resolveram presentear os co- legas que comandam a mídia, em princípio, com mais de três milhões de reais, gastos em informes publicitários publicados nas capas dos principais jornais do país no dia seguinte.

Somente na Folha de S.Paulo, foram gastos

mais de 668 mil reais em um único anúncio.

O informe nada explicava sobre as suspeitas

de evasão de divisas e superfaturamento de obras públicas pela empreiteira, apenas re- produzia uma nota, já distribuída aos jorna- listas, em que a empresa se dizia “perplexa” com a ação da polícia. No dia 26, as manchetes já indicavam como seria a “operação-abafa” que, em uma semana, tirou das primeiras páginas dos prin- cipais jornais do país os supostos crimes co- metidos pela Camargo Corrêa. Em O Estado

de S.Paulo, o excesso de zelo se destacou na manchete “PF prende executivos de emprei- teira por fraudes”, que nem mesmo citava o nome da empresa. Em destaque, logo abai- xo, o jornal reproduziu frase do advogado da construtora, Antônio Mariz de Oliveira, que no dia anterior havia falado com exclusivida-

de ao Jornal Nacional, da Rede Globo, que a

empresa teria o “máximo interesse” em apu- rar a verdade para “preservar sua imagem”. Nas reportagens torna-se evidente o con- luio definido entre diretores e assessores da Camargo Corrêa na reunião realizada no dia

anterior para aquilo que os marqueteiros cos- tumam chamar de “gerenciamento de crise”.

A Folha, que se vangloria de seu “pioneiris-

mo” nas coberturas midiáticas, também foi

vanguardista na defesa dos interesses da Ca- margo Corrêa. A manchete “PF prende dire- tores da Camargo Corrêa” foi, digamos, es- quecida na abertura da principal reportagem sobre o caso. Sob o título “PF investiga doa- ções ilegais da Camargo Corrêa a políticos”, aparecia, cuidadosamente, um dos crimes co- metidos pela empreiteira na linha fina, que di- zia “Quatro diretores da empresa são presos; há suspeita de superfaturamento de obras”. Na reportagem que trata da investigação,

o jornal se volta contra seus alvos prediletos

e tenta ligar os nomes dos presidentes Lula e Hugo Chávez às irregularidades cometidas pela empreiteira, da mesma maneira que quis mini- mizar os efeitos da “ditabranda” brasileira em relação à “ditadura” chavista. O Jornal Nacional, que no dia da opera- ção focou a reportagem nos crimes cometi- dos pela empreiteira, logo depois se alinhou

à “operação-abafa” e diz que “o Ministério Pú-

blico identificou os supostos destinatários e intermediários das doações a partidos políti- cos consideradas ilegais”.

Estratégia da defesa

A tática adotada pela empreiteira e pulve- rizada pela grande mídia fez com que as auto- ridades que tratam do caso viessem a público esclarecer que as doações ilegais aos políticos, por motivos óbvios, não são alvos da investiga- ção conduzida pela Polícia Federal. Segundo a própria corporação, as suspeitas surgiram em interceptações telefônicas dos executivos da Camargo Corrêa durante a investigação. Em nota distribuída à imprensa, o juiz Fausto de Sanctis, que acatou o pedido da Polícia Federal e decretou a prisão preventi- ve dos executivos da empreiteira, disse que as investigações “nunca foram centradas em ocupantes de cargos públicos ou em quem te- nha funções políticas”. No comunicado, o ma- gistrado ressalta que “o que se apura é o su-

posto cometimento de crimes de pessoas da iniciativa privada, principalmente lavagem de dinheiro por parte de organização crimino-

sa” e pede aos jornalistas cautela para “evitar conclusões precipitadas ou tendenciosas”.

O assunto, no entanto, foi tratado com des-

prezo pela mídia. Em reportagem, a Folha dis-

se que a nota emitida pelo juiz ‘’foi interpreta- da (sem dizer quem a interpretou) como uma tentativa de o magistrado não perder o co- mando da investigação, pois o procedimento subiria para instâncias superiores se envol- vesse políticos com foro privilegiado”, igno- rando o fato de que a parte do inquérito que trata das doações aos políticos seria enviada ao órgão competente.

A manobra seria revelada, no entanto, uma

semana depois pelo procurador regional eleito- ral em São Paulo, Luiz Carlos dos Santos Gon- çalves, em entrevista sem muito alarde e fora da contextualização no jornal O Estado de S.Paulo.

Na ocasião, o procurador, que ficou responsá-

vel pela investigação das doações aos políticos, afirma que envolver a questão nos crimes co- metidos pela Camargo Corrêa faz parte da es- tratégia de defesa da empreiteira “para assegu- rar impunidade”. “Por que querem trazer o caso para o âmbito eleitoral? Porque sabem que a le- gislação eleitoral é branda, é fraca”, diz. De acordo com o procurador, a única medi- da que poderia ser aplicada, em tese, à Camar- go Corrêa em um inquérito na justiça eleitoral seria a imposição de multa que vai de 5 a 10 vezes o valor repassado aos políticos. “Nesse aspecto é possível chegar a uma punição. Mas sabe para onde vai esse dinheiro? Para o Fun- do Partidário. Os envolvidos levam mais uma vantagem”, afirma.

A semana em que foi desencadeada a ope-

ração Castelo de Areia foi conturbada. Além de minimizar a prisão dos executivos da Camargo Corrêa, os jornalões também se ocupavam em rebater as críticas do presidente Lula, que disse que a crise teria sido provocada por “brancos de olhos azuis”, e defender os interesses de outros integrantes da elite “branca de olhos azuis” tu- piniquim, como Eliana Tranchesi, dona da Das- lu, condenada a 94 anos de prisão por fraudar mais de 600 milhões de reais em impostos. Eliane Catanhede, colunista da Folha, ini-

ciou o levante contra os “abusos” da Polícia Fe- deral e de parte do judiciário brasileiro, que julga sem levar em conta o volume da conta bancária do réu. Em um emaranhado artigo, a jornalista envolve na trama o delegado res- ponsável pela prisão de outro membro da eli- te corrupta brasileira, o banqueiro Daniel Dan- tas, condenado a 10 anos de prisão por tentar corromper um delegado federal. Ao comentar “as prisões de diretores da Camargo Corrêa e da dona da Daslu, Eliana Tranchesi”, Catanhe- de brada: “Se há motivos, que sejam punidos. Mas que não sejam só bodes expiatórios para a

PF passar por cima da polêmica e dos erros de Protógenes e voltar à glória e à ribalta”.

A revista Veja, que se especializou em criar factóides para defender os interesses desta mes- ma elite, fez coro com a colunista da Folha. No editorial da edição de 28 de março, Veja defen- de que a estelionatária dona da Daslu, chama- da pela revista de “sacerdotisa da moda para os ricos e poderosos”, não pode ser “demonizada como o símbolo da desigualdade e da injustiça social no país”. E prossegue dizendo que “a caça aos ricos é uma tentação suicida que, como de- monstra a história, só produz mais miséria mo- ral, política, econômica e social”. Na mesma edição, para noticiar a Operação Castelo de Areia, a publicação segue a receita elaborada na “operação-abafa”, sem se esquecer de atacar quem mais causa ojeriza entre seus leitores. A reportagem diz que os partidos ci- tados na investigação da Polícia Federal são:

PMDB, PSDB, DEM, PPS, PSB, PDT e PP e iro- niza: “pois é, faltou o PT. Mas, preocupado com os desdobramentos da investigação, o presi- dente Lula convocou o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos para acompanhar o as-

sunto e defender

a Camargo Corrêa”.

Papéis invertidos

Já são notórios os casos no Brasil em que se pune quem investiga ou condena membros da elite. O caso mais recente é o do delegado Protó- genes Queiróz, afastado da Polícia Federal após colocar na cadeia, por duas vezes, o banqueiro Daniel Dantas, envolto na tramóia que tem iní- cio no processo de privatização da Telebrás. A tática é sempre a mesma, as denúncias de “abu- sos” ganham as páginas dos jornais e ecoam nos corredores do Congresso Nacional e entre os defensores de uma certa moralidade, restri- ta aos endinheirados. Na edição de domingo, dia 29 de março, a Folha afirma em editorial que “setores da Po- lícia Federal, do Ministério Público e do Judi- ciário acomodam-se, perigosamente, a um mé- todo de atuação sensacionalista e truculento” e considera as prisões preventivas “uma concep- ção vingativa e primitiva de Justiça”. Na man- chete, o jornal condenava, no entanto, um velho inimigo, o Movimento Sem Terra, por ter rece- bido repasses que totalizam 152 milhões de re- ais – valor que representa um quarto daquilo que foi sonegado pela Daslu - desde que Lula assumiu o governo. No mesmo tom, o Estadão destaca em sua manchete que a “abusada” Polícia Federal, du- rante a investigação da Castelo de Areia, che- gou a monitorar conversas de executivos de outra empreiteira, a OAS, e do presidente do conselho administrativo do Banco Bradesco, Lázaro de Mello Brandão, em conversas com o doleiro Kurt Paul Pickel, considerado o articu- lador do esquema de lavagem de dinheiro da Camargo Corrêa.

O jornal também recorre ao advogado da

própria empreiteira, Antonio Claudio Mariz de

Oliveira, para atacar a decisão do juiz Fausto de Sanctis, de prender os executivos da constru- tora, classificada como “panfletária” na repor- tagem. Na edição de segunda-feira, o mesmo Mariz de Oliveira ganha espaço na capa da pu- blicação dizendo que a Polícia Federal cometeu

o “abuso” de realizar buscas no departamento

jurídico da Camargo Corrêa com aval do juiz.

O factóide criado pela defesa da empreitei-

ra em conluio com o jornal chega, então, ao Su-

premo Tribunal Federal. Em nova chamada de

capa, o Estadão diz, sem citar fontes, que os mi- nistros do STF viram “excessos na investiga- ção”. Na reportagem, o jornal afirma que “para os ministros ouvidos, usou-se a mesma meto- dologia de outras investigações de repercussão, como a Operação Satiagraha, na qual foi preso

o

banqueiro Daniel Dantas”. Com o circo armado, faltava entrar em cena

o

personagem principal, que, por meio de suas

decisões e declarações, vem se destacando como paladino da moralidade e da ordem social quando os interesses da elite são colocados em xeque. Em linguajar peculiar, o presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça, Gilmar Mendes, ganha destaque na Folha, dizendo que a Polícia Federal comete um “dicionário de abusos”; e no Estadão, onde “acusa o Ministério Público de ser parceiro de abusos da PF” e diz que o controle da polícia pela instituição é lítero-poético-recreativo.

Os crimes cometidos

Uma semana após a operação Castelo de Areia ser desencadeada – e já com os dez presos, incluindo os executivos da Camargo Corrêa, livres e de volta à ativa – as denúncias de superfaturamento de obras públicas, evasão de divisas, fraude em licitações e doações ilegais a políticos e partidos desapareceram do noticiário nacional. Mais uma vez, a pena foi imposta aos investigadores e coube à revista Veja dar o veredicto final. Na edição que foi às bancas no dia 3 de abril, Veja lista os “crimes” cometidos pelos investigadores que ousaram desmoronar o castelo de areia da Camargo Correa: “1) não havia a necessidade de a Justiça decretar a prisão de seis funcionários da empreiteira, já que a investigação ainda não terminara; 2) não deveria haver menção a doações políticas nos relatórios, já que a investigação tratava de crimes financeiros; e 3) a polícia violou

a Constituição ao revistar, com mandado, o departamento jurídico da empreiteira”.

A pena aplicada pela revista condenou mais

de 180 milhões de brasileiros que estão fora da pontinha do iceberg da corrupção a continua- rem se afogando no mar de lama em que nave- ga uma parte da classe dominante do país, seja ela na esfera pública ou privada.

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As peripécias da empreiteira de “Don Sebastián”

As supostas irregularidades cometidas pela Camargo Corrêa que vieram à tona na Operação Castelo de Areia são apenas um breve capítulo da história da empreiteira. A investigação liderada pelo delegado Alberto Legas, especializado em crimes de lavagem de dinheiro, foi um desdobramento da Operação Downtown, realizada em 2008, que prendeu 15 doleiros acusados de lavagem de dinheiro e distribuição de valores para integrantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital),traficantesnigerianosecomerciantes chineses da região da rua 25 de Março, região central de São Paulo. Segundo a Polícia Federal, as duas quadri- lhas agiam de forma semelhante na lavagem do dinheiro obtido de forma ilícita – através do trá- fico de drogas e mercadorias, no caso da Opera- ção Downtown, e por meio de licitações fraudu- lentas e superfaturamento de obras, na Castelo de Areia. Por meio de doleiros, os grupos cri- minosos remetiam o dinheiro a paraísos fiscais, como Ilhas Cayman, Uruguai e Suíça. As remessas eram feitas através de uma ope- ração não autorizada pelo Banco Central co-

divisão de obras públicas. Pietro Bianchi, que tem cargo de consultor na empresa, se- ria o responsável pela entrega da “caixinha” aos políticos e autoridades que beneficias- sem a empreiteira em licitações e superfatu- ramento de obras. Duas secretárias da em- preiteira, Marisa Berti Iaquino e Darcy Flores Alvarenga, fariam a intermediação dos conta- tos entre doleiros e executivos. Todos foram presos na ação da Polícia Fede- ral e soltos cerca de 72 horas depois, por pedido de habeas corpus, uma decisão polêmica da de- sembargadora Cecília Mello, que criticou a sen- tença de prisão expedida pelo juiz Fausto de Sanctis, o mesmo que vem sofrendo represálias do presidente do STF, Gilmar Mendes, e que co- locou na cadeia, mesmo que por instantes, per- sonagens como os banqueiros Daniel Dantas e Edemar Cid Ferreira, políticos como Celso Pit- ta, além do traficante Juan Carlos Abadía. As investigações apontam ainda que o es- quema seria feito com a anuência do principal controlador da Camargo Corrêa, Fernando Ar- ruda Botelho, genro do fundador do grupo, Se- bastião Camargo e que também ocupa a vice-

por ano, Arruda Botelho reúne os amigos endi- nheirados ou influentes em uma festa que tem como tema a aviação, uma de suas manias pre- feridas, em uma de suas fazendas na cidade de Itirapina, no interior paulista. A festa – cance- lada em 2009 devido à crise financeira, mesmo com o grupo Camargo Corrêa registrando lu- cro de 16 bilhões de reais em 2008 – começou em 2004, no aniversário do empreiteiro. Numa dessas festas, ele mandou cons- truir na fazenda, a 200 quilômetros da ca- pital paulista, uma pista de pouso de 1.200 metros, arquibancadas para 2.500 pessoas, estacionamento para 1.000 automóveis e uma praça de alimentação como as de sho- pping centers. O custo total chegou a 1,5 mi- lhão de reais. Entre os convidados – muitos deles chegaram em jatos particulares que pou- saram na pista – políticos, funcionários públi- cos do alto escalão, empresários, banqueiros e até mesmo a dona da boutique de luxo Daslu, Eliana Tranchesi, condenada por sonegar mais de 600 milhões de reais em impostos, como re- lata a revista Veja, em edição do dia 16 de ju- nho daquele ano.

empreiteira é investigada pelo superfaturamento da obra de construção de trecho do rodoanel

nhecida como dólar-cabo, que é realizada ele- tronicamente, através da transferência entre contas bancárias no Brasil e no exterior. Os grupos também utilizavam empresas de facha- da, como o Instituto Pirâmide, que teria sido responsável pela movimentação de 800 mil dó- lares da construtora Camargo Corrêa, de acor- do com as investigações. No endereço identi- ficado como sede do instituto, localizado no distrito de Bacaxá, em Saquarema, no litoral fluminense, funcionam uma escola primária e um escritório de contabilidade. Segundo a polícia, o doleiro Kurt Paul Pi- ckel, suíço naturalizado brasileiro e ex-exe- cutivo do banco UBS no país europeu, se- ria o elo entre as quadrilhas e o principal mentor do esquema na Camargo Corrêa. Ele agia em parceria com outros três doleiros:

José Diney Mattos, Jadair Fernandes de Al- meida e Maristela Brunet. Dentro da empreiteira, os contatos com os doleiros seriam feitos pelos diretores Fernan- do Dias Gomes, da auditoria, Dárcio Bruna- to, da controladoria, e Raggi Badra Neto, da

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caros amigos maio 2009

presidência da Federação das Indústrias de São Paulo, a Fiesp. Em pelo menos uma das inter- ceptações telefônicas realizadas com autoriza- ção judicial pela polícia, Arruda Botelho teria conversado com Pietro Bianchi sobre atrasos na liberação de recursos a políticos que atuam fazendo lobby para a empreiteira no Congres- so Nacional.

Dinheiro pelos ares

Fernando Arruda Botelho, casado com Ro- sana Camargo, assumiu os negócios da Camar- go Corrêa, junto com outros dois concunhados, após a morte de Sebastião Camargo, em 26 de agosto de 1994. Discreto no que tange a apari- ções públicas, Botelho preserva diversos hábi- tos exóticos do sogro, como caçar – ele nos Al- pes austríacos e Sebastião Camargo nas selvas africanas – e cortejar tomadores de decisões, seja na esfera pública ou privada, visando au- mentar os rendimentos da empreiteira. Para isto, ele nem mesmo precisa transitar pelos escritórios da Avenida Paulista ou pelos corredores dos poderes, em Brasília. Uma vez

Ali, como em muitos outros casos se confun- diu o que era público e o que era privado. Dez controladores de vôo, cedidos pelo Departa- mento de Aviação Civil e pagos com recur- sos da União, cuidaram da orientação dos aviões sobre a fazenda, antes de uma apre- sentação particular da Esquadrilha da Fu- maça, da Força Aérea Brasileira.

Acúmulo de fortuna

Fundado como uma pequena empresa de construção em 1939 com um capital de 200 contos de réis, o atual grupo Camar- go Corrêa sempre teve como fim o lucro dentro da esfera pública, seja utilizando métodos escusos ou não. De estilo con- servador, bem aos moldes da antiga TFP (Tradição, Família e Propriedade), o fun- dador não admitia homem barbudo, cabelu- do ou desquitado na firma. Sebastião Camargo também nunca fez distinção entre regimes políticos, desde que fosse agraciado com polpudos con- tratos. Para isto, se aproximou de figuras

controvertidas, como o ditador paraguaio Alfredo Stroessner. As viagens constan- tes com Stroessner para empreitadas de pescaria lhe renderam um peixe gordo na construção da Usina de Itaipu, uma das obras da Camargo Corrêa. Ao ver que o amigo de pescaria não havia conseguido a licitação para cons- truir a usina, o ditador paraguaio protes- tou: “Onde está Don Sebastián?” e amea- çou melar o negócio, obrigando o governo brasileiro a contratar a empreiteira.

Simpatia pela ditadura

A construção de Brasília e as diversas obras contratadas pelo presidente Juscelino Kubits- chek – como as estradas que levam à capital federal - alavancaram os negócios do “China”, apelido pelo qual Camargo era chamado pelos amigos próximos, em razão dos olhos puxa- dos. Mas foi durante a ditadura militar que a empresa começou a amealhar as obras que a tornariam um império no ramo da engenha- ria das grandes construções no país. Condecorado, em 1967, com o título de dou- tor honoris causa pela Escola Superior de Guer- ra, a usina ideológica do regime militar, e lis- tada como um dos financiadores da Operação Bandeirantes (Oban), o braço repressivo da di- tatura brasileira, Camargo nunca escondeu sua simpatia pelo sistema político de então. “Acho que o grande progresso do Brasil foi no gover- no militar”, disse em dezembro de 1990, ao jor- nal Folha de S. Paulo, numa rara entrevista. Foi nesta época que, em meio a denúncias de irregularidades de superfaturamento e frau- de em licitações, a empreiteira assumiu obras como as usinas hidrelétricas de Itaipu e Tucu- ruí, a ponte Rio-Niterói, as rodovias Transama- zônica e Bandeirantes, o Metrô de São Paulo e

a usina nuclear Angra 1. Na volta à democratização, já sob o comando dos genros de “Don Sebastián”, a empreiteira participou de boa parte dos controversos pro- cessos de concessão de serviços públicos do go- verno Fernando Henrique Cardoso e assumiu, entre outras, a administração da Rodovia dos Bandeirantes e da Ponte Rio-Niterói.

Irregularidades

Os crimes supostamente cometidos pela Camargo Corrêa investigados pela Operação Castelo de Areia parecem realmente ser ape- nas a ponta do iceberg, como bem definiu um dos executivos da construtora que participou da reunião para desencadear a “operação-aba-

fa” na mídia gorda. Apenas o Tribunal de Con- tas da União registra pelo menos 34 proces- sos contra irregularidades cometidas durante

a condução ou gestão de obras públicas. Em São Paulo, a empresa é uma das res- ponsáveis pela construção da linha amarela do Metrô – junto com as empresas OAS, CBPO

(Odebrecht), Queiroz Galvão e Andrade Gu- tierrez. Parte da obra desabou em janeiro de 2007, matando 7 pessoas. Laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas concluiu que uma sucessão de erros provocou o acidente, mas após dois anos ninguém foi condenado. Em vez de ser punida, a empreiteira foi be- neficiada na licitação de outra linha do metrô paulistano, a verde, em agosto de 2008. Em reportagem no portal Folha Online, do gru- po Folha, o editor Ricardo Feltrin adiantou em oito horas o resultado da licitação, que teve o consórcio liderado pela Camargo Cor- rêa como vencedor. A suposta irregularidade está sendo investigada pelo Tribunal de Con- tas do Estado (TCE). A empreiteira também é investigada pelo superfaturamento da obra de construção do trecho sul do Rodoanel, na capital paulista. Uma auditoria realizada pelo TCU entre maio

e julho de 2008 aponta que a empresa causou

um prejuízo de mais de 184 milhões de reais aos cofres públicos. Na Bahia, a Procuradoria da República in- vestiga um suposto superfaturamento das

obras do metrô de Salvador, sob responsabili- dade do consórcio Metrosal, formado por Ca- margo Corrêa, Andrade Gutierrez e Siemens. Suspeitas de irregularidades fizeram o TCU, que fornece informações para o inquéri- to da Procuradoria da República, determinar

a retenção de parte dos repasses para a obra.

As auditorias do órgão apontaram que o va- lor de partes da obra foi alterado no contrato

recebeu aditivos irregulares. No Rio de Janeiro, três diretores da Ca- margo Corrêa respondem processo por lava- gem de dinheiro, evasão de divisas e sonega- ção fiscal por operações financeiras realizadas pela Ponte S/A, que administra a Ponte Rio- Niterói. Entre os réus no processo está Pietro Francesco Giavina Bianchi, que foi preso na Operação Castelo de Areia. Segundo o Ministério Público Federal, os dirigentes da Ponte S/A, com aval dos direto- res da Camargo Corrêa, simularam três mo- vimentações financeiras na contabilidade da empresa para justificar o envio de 9 milhões de reais em 1997 para uma conta da conces- sionária no banco Safra nas Bahamas. Para a Procuradoria, as operações foram inventadas para lavagem de dinheiro. No Distrito Federal, a Procuradoria Fe- deral moveu ação civil pública para suspen- der as obras de construção da nova sede do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. A obra é um atentado ao princípio da economicidade, diz o Ministério Público. Além da União, respondem ao processo a Via Engenharia (líder do consórcio), OAS e Ca- margo Corrêa.

e

Engenharia (líder do consórcio), OAS e Ca- margo Corrêa. e Plínio Teodoro é jornalista. maio 2009

Plínio Teodoro é jornalista.

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Foto: Yann VadaRu

Carolina Rossetti e Felipe Larsen

LEI ROUANET

PROFIC

InsatIsfação e polêmIca entre o prIvado e o públIco

“Hoje, no Dia Mundial do Teatro, nós, tra- balhadores de grupos teatrais de São Paulo organizados no Movimento 27 de Março, so- mos obrigados a ocupar as dependências da Funarte na cidade”. E 350 atores ocuparam

a Fundação Nacional das Artes, para tornar

público o seu descontentamento contra a po- lítica privatizante da cultura. Em carta aber- ta ao Ministério da Cultura, pediam o fim do “falso diálogo” e cobravam “o diálogo hones- to e democrático que nos tem sido negado”. Até hoje agora vigora o Pronac, Programa Nacional de Cultura, a lei Rouanet, criado em 1991, no governo Collor. No dia 23 de março o MinC colocou o Profic – Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura – em consulta pública no seu sítio até 6 de maio, quando será encaminhado ao legislativo. O que tem sido o foco das discussões na im-

prensa é a restrição da política de isenção fiscal,

e o consequente aumento da presença estatal

na gestão dos recursos. A isenção fiscal permi-

te às grandes empresas abater seu “investimen-

to” cultural nos impostos. Leia-se dinheiro pú- blico cedido aos interesses do capital. A lei Rouanet é “inconveniente no atendi- mento de todas as dimensões da cultura bra- sileira, em todo território, em todas suas ma- nifestações”, disse o ministro Juca Ferreira,

ao jornal Folha de S. Paulo. Ele revelou que 3% dos proponentes levam 50% dos recur- sos. Um universo enorme de artistas e pro- dutores culturais está excluído. A mudança deixou alguns produtores culturais nervosos, outros um pouco mais aliviados. Mas, de fato, ninguém está intei- ramente satisfeito.

Histórico da lei

Com as drásticas mudanças políticas do começo da década de 90, a lei Rouanet se tornou instrumento para uma política cul- tural casada perfeitamente com o mergu-

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caros amigos maio 2009

Luis CarLos moreira, "Tem que Ter nesse poLíTiCa de esTado regras CLaras que vão reguLamenTar a ação do governo".

lho neoliberal da América Latina. Dinhei- ro público que irriga o marketing cultural de grandes empresas. Collor “matou vários coelhos com uma porrada só: agradou as estrelas, que até hoje se mobi- lizam para manter intactos seus privilégios; agradou a rede Globo, empresa que o levou à presidência da Re- pública, além das empresas gigantes e seus diretores de marketing, que têm mais poder na formulação de políticas de fomentos às ar- tes do que o próprio presidente da República; fomentou grandes fundações, como Roberto Marinho e Itaú (ver quadro), as maiores cap- tadoras. Goebbels vira no túmulo de inveja”, falou o diretor do grupo Folias d’Arte Marco Antonio Rodrigues, para o jornal Brasil de Fato, na primeira semana de abril. A lei Rouanet não é pautada somente pelo in- centivo fiscal. Há ainda o FNC, Fundo Nacional de Cultura. Foi essa a política cultural manti- da desde então e pelo atual governo Lula, mas, antes de chegar ao poder, “no programa do PT para o primeiro mandato a parte cultural está muito bem contemplada – foi o Antonio Candi- do que segurou as pontas nisso tudo -, só que não foi cumprida”, diz Cesar Vieira, diretor do Teatro União e Olho Vivo.

O barulho veio do teatro

Como resultado da ocupação, foi marcada uma reunião com representantes do MinC e da Funarte para discutir políticas públicas para a cultura. O Movimento 27 de Março riscou no chão: “incentivo fiscal a gente não discu- te”. Dias depois, na sede da Cia. Antropofágica de Teatro, no bairro paulistano de Perdizes, os manifestantes se reencontravam e a filósofa Iná Camargo Costa discursou: “A ocupação, como gesto político, significa que o Movimento 27 de Março deu um passo à frente. Somos trabalha- dores artísticos e não mais artistas”.

Iná é autora do livro A luta dos grupos tea- trais de São Paulo por Políticas Públicas para a

Cultura, em que avalia cinco anos da lei do Fo- mento em São Paulo, um exemplo de política pública para o teatro que tem gerado bons re- sultados. Em entrevista, ela disse: “Quem quer ser artista é, na verdade, candidato a integrar

a força de trabalho. Se ele começar a se pen-

sar como trabalhador que não tem um lugar no mercado ele vai dar um salto político. Não nos colocamos mais na perspectiva de artistas que como tais exigem privilégios”. Os trabalhadores da cultura, então, ao en- carar a escassez da oportunidade de emprego se colocam no mesmo contexto dos demais tra- balhadores que olham com preocupação para a crise financeira. “Trata-se da percepção de um horizonte em que não tem dinheiro nem para resgate de banco, quem dirá para renúncia fis- cal, ou dinheiro no cofre público para o Estado gerenciar. Acho que essa percepção já bateu”. João Sayad, secretário de cultura do estado de São Paulo, demonstra o mesmo temor com a

crise. Mas é favorável à manutenção do incenti- vo fiscal: “Até o FMI está propondo mais gastos junto com o Banco Mundial, e nesse momento

a comunidade cultural se vê com uma proposta

que redistribui os seus gastos em vez de pedir um aumento, me parece inoportuno.” Convicta, Iná Camargo critica a lei de incen- tivo: “Para nós, é uma política muito perversa. Eu quero sua pura e simples revogação”. Com o incentivo grandes empresas financiam expres-

sões de grande retorno de marketing, como cantores consagrados e superproduções como

Fantasma da Ópera, Miss Saigon e Circo Du

Soleil, todas com preços nada populares. Essas

apresentações são mais do que viáveis do ponto de vista econômico e não necessitariam dinhei-

ro do governo para subsistir.

Mas não é o caso dos pequenos e médios produtores culturais. Não há nada na lei Rouanet que impeça que os recursos sejam concentrados, porque “a cultura brasileira está por conta dos mecanismos de especu- lação financeira”, reitera Iná Camargo. Para um teatro de grupo sobreviver é muito difí- cil sem o financiamento ocasional do Estado, trabalhos que não são “vendáveis” não têm como existir no mercado. “Nós precisamos

desmentir a tese de que só o mercado é vida. No Brasil é o contrário, o mercado é a mor-

te dos artistas. Nós temos muito mais habili-

dade do que aquilo que o mercado é capaz de perceber que existe, ele é muito pobre e mes- quinho e não dá conta da nossa gente”. Luis Carlos Moreira, diretor do grupo En- genho Teatral e integrante do movimento 27 de Março, acredita que “a nossa produtivida-

de, eficiência se dá no campo do simbólico, imaginário. Nós somos produtores de sonhos, valores, símbolos, linguagem. É nesse campo

que tem que ser medida nossa eficiência, mas

a camisa de força que está por trás do discur-

so da lei Rouanet impõe que a gente tem que ser eficiente e produtivo na bilheteria. Como se a gente fosse incompetente porque não gera receita, mas o preço da bilheteria não é

o teatro que impõe, é o mercado, e o preço não

cobre os custos da produção teatral”. Mas é muito complicado refutar a isenção fiscal por completo, como a lei Rouanet é pre- dominante no orçamento do MinC, Iná Camar-

go opina que para alguns grupos de teatro “é impensável subsistir sem o apoio ocasional das verbas que obtêm da Petrobras, Caixa Econô- mica Federal. Trabalhos de importância real só ganham patrocínio de órgãos estatais através da renúncia fiscal do estado”.

A vezes mentira vira verdade contada muitas

Moreira desmistifica a lenda do mercado in-

tocável, o fato de achar esse esvaziamento do Estado uma coisa natural, que sempre existiu.

O incentivo fiscal tem apenas 18 anos, mas vi-

rou algo quase inabalável, tal como a crença de que o mercado possa resolver todas as ques- tões. “Inicialmente a idéia era essa, incentivar. Então você entra com uma parte do seu bolso, pode ser uma relação de 30 e 70, e a partir dis- so, quando você perceber que funciona, eu, go- verno, saio e você passa a cacifar. Só que já tem vinte anos. E até hoje, cadê os empresários to- marem gosto pela coisa?”. Se a idéia do estado era incentivar esses gru-

Entenda passo a passo o que é o Profic

No Profic, o incentivo fiscal continua vi- gorando, mas, em tese, sem tanto destaque. Atualmente, a renúncia leva 80% da verba destinada à cultura. O pouco que sobra é administrado pelo MinC para contemplar o restante das manifestações culturais do país que não têm necessariamente grande atração mercadológica. Com o Profic, a in- tenção do ministério é alocar recursos, atu- almente da renúncia fiscal, para colocar no Fundo Nacional de Cultura. Assim, o incentivo deixaria de ser a es- trela número um para o financiamento da cultura. Mas nenhuma linha do projeto diz o valor esperado que o Fundo Nacional de Cultura receberia. Por essa razão, artistas ainda olham para a proposta como nada mais que uma promessa. O FNC, no Profic, é dividido em seis Fun- dos Setoriais 1) Fundo das Artes (para Tea- tro, Circo, Dança, Artes Visuais e Música); 2) Fundo da Cidadania, Identidade e Diversida- de Cultural; 3) Fundo da Memória e Patrimô- nio Cultural Brasileiro; 4)Fundo do Livro e da Literatura; 5) Fundo Audiovisual e 6) Fundo Global de Equalização, para projetos trans- versais entre as áreas. Cada Fundo teria 10 a 30% do montante total do FNC, e quem de- cidiria os repasses seria a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, CNIC, formada por membros do governo e da sociedade civil. Atualmente a formação de uma CNIC é: o Ministro da Cultura, Juca Ferreira; o presi- dente da entidade nacional dos Secretários da Cultura dos estados; um representante do empresariado nacional – o escolhido para o mandato de 2009/2010 é Eduardo Saron que no site do MinC consta como representante da Confederação Nacional das Instituições Financeiras, mas que em sabatina realizada pela Folha de S. Paulo foi apresentado como superintendente de atividades culturais da Fundação Itaú Cultural; por fim, seis repre- sentantes de setores da sociedade civil (Ar- tes Cênicas, Audiovisual, Música, Artes Plás- ticas, Patrimônio Cultural, Humanidades). A CNIC tem reuniões bimensais para ava- liar os projetos que podem ou não usufruir da renúncia fiscal. Com a Profic a comissão teria mais poder, atuando também na ad- ministração do Fundo Nacional de Cultura. Nesse caso, cada um dos seis Fundos Seto- riais teria um comitê gestor específico. Até aqui, tudo bem. Ninguém parece se opor à proposta da criação do Fundo. Exis- te resistência, contudo, por parte daqueles que não querem ver a verba da renúncia di- minuir em detrimento do Fundo. “A lei Rouanet abriu uma porta. A comu- nidade cultural deveria por o pé na porta para que ela não se feche porque brincar

com ela, modificando, aperfeiçoando, corre- mos grandes riscos dela ser inviabilizada pe- las autoridades econômicas”, teme o secretário de cultura João Sayad. Mas a discussão pega fogo mesmo no pró- ximo capítulo do Profic, que fala especifica- mente da renúncia fiscal. A lei Rouanet só previa as faixas de 30% e 100% de isenção. Mas o que o Ministério percebeu é que com esse sistema pouco se recolhia do dinheiro privado. De cada 10 reais captados com a re-

núncia fiscal apenas 1 real sai do capital das empresas. Que tipo de mecenato desvirtuado

é esse que quase não tira dinheiro do próprio

bolso para patrocinar as artes? No Brasil, a relação de patrono das artes é de lógica in- versa, ou ilógica, até. Tira-se do bolso do Es- tado para colocar onde os setores de marke- ting das empresas acreditam que o retorno de

imagem será maior. No Profic, é prevista a criação de faixas de incentivo da renúncia fiscal. Ou seja, um pro- jeto, depois de avaliado pela CNIC, poderá ser patrocinado com dedução parcial ou total do imposto de renda que vai variar entre 30, 60, 70, 80, 90 e 100%. É a CNIC que enquadrará

os projetos, com base em critérios de avaliação que serão publicados até noventa dias antes do início do processo de seleção. Algumas das características analisadas serão acessibilida- de do público, orçamento e mérito cultural. Além do Fundo Nacional de Cultura e a renúncia fiscal, existem mais três propostas contempladas pelo Profic. Uma delas é o Vale-Cultura que surge no mesmo molde dos vales de refeição e trans- porte, em que o trabalhador ganharia R$ 50 por mês para usar na compra de livros, CDs, entradas de espetáculos, cinema e visitas a museus. O governo financiará 50% do valor,

o empregador 30% e o empregado os outros

20%. A estimativa é que o Vale-Cultura atinja 12 milhões de trabalhadores. Os Ficarts (que já existem na lei Rouanet de 1991, mas nunca foram ativados) são os Fundos de Investimento Cultural e Artístico que nunca saíram do papel, porque se as em- presas podem tirar até 100% do que investem em cultura do imposto de renda, ninguém vai querer mecanismo de empréstimo e finan- ciamento que “tenha o risco que é inerente a toda atividade econômica que nós vivemos”, de acordo com o ministro Juca Ferreira. Os Ficarts são linhas de crédito para patrocinar atividades e bens culturais que sejam consi- derados sustentáveis economicamente. Por fim, uma última medida também con- templada pelo Profic é o Procex – Programa de Fomento às Exportações de Bens Cultu- rais, destinado à difusão da cultura brasilei- ra no exterior.

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Foto: álvaro Barcellos (movimento 27 de março)

Foto: álvaro Barcellos (movimento 27 de março) OcupaçãO da Funarte nO dia 27 de marçO, prOmOvida

OcupaçãO da Funarte nO dia 27 de marçO, prOmOvida pelO mOvimentO de mesmO nOme. BarulhO da classe artística cOntra O imOBilismO dO gOvernO.

pos para esquentar o financiamento à cultura, vem à mente a pergunta: se o empresário pode pegar dinheiro público para por em seu próprio marketing, o que fará com que ele, num deter- minado momento, se sinta incentivado a inves- tir, por conta própria, em cultura? A Fundação Itaú Cultural sai tradicional- mente com o maior montante. 2007 e 2008 fo- ram bons anos para essa fundação, com cifras de 27 e 29,5 milhões, respectivamente. Tudo indica que 2009 seguirá igualmente atraen- te par a Fundação Cultural Itaú que continua como a primeira do ranking, nos dados libe- rados pelo Ministério da Cultura, no sistema SalicNet, disponível na web. Moreira integrou comissão do Movimento 27 de Março que debateu com o MinC, no iní- cio de abril. A primeira pergunta: Qual o or- çamento que o governo destina à cultura? 0,6 por cento. “Somos, para esse governo, zero à esquerda, literalmente. Sempre foi assim. Por quê? Porque nossa mão de obra não interes- sa para o capital, é simples assim! O Ministé- rio da Cultura se julga inteligente porque está tentando moralizar a ação das raposas den- tro do galinheiro e ao mesmo tempo fala ‘es- tamos falando a mesma coisa, vamos fortale- cer o Fundo Nacional de Cultural”. O atual orçamento do Fundo Nacional de Cultura, um dos braços da lei Rouanet, tem 280 milhões, para dar conta de tudo na cultura. A verba da Fundação Nacional de Arte, Funarte, está na faixa dos 30 milhões de reais, isso para todas as artes. Ok. Números muito modestos, mas a perplexidade não vem daí. O incentivo fiscal conta com orçamento de 1.400.000.000 reais (sim, um bilhão e quatrocentos milhões).

Futuro incerto para a Cultura

Moreira exige uma atitude mais concreta do governo. “Tem que ter nessa política de estado regras claras que vão regulamentar a ação do executivo. Ele não vai fazer o que quer. O que a gente diz para o governo é o seguinte: quando você (governo) diz que está criando um progra-

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caros amigos maio 2009

ma, mas não aloca recursos, me desculpe. É o gestor do capital que tem que raspar o tacho”. Há uma proposta de emenda constitucional do deputado Paulo Rocha, do PT, a PEC-150, de 2003, para tornar obrigatório o aumento da vinculação de recursos orçamentários para a Cultura, nos níveis federal, estadual e mu- nicipal. Já aprovado pela Comissão de Cons- tituição de Justiça, o texto prevê a aplicação orçamentária da União de 2%, dos estados 1,5%, e dos municípios 1%. E o governo fede- ral terá que destinar 25% de sua cota para os estados e 25% para os municípios. O aumen- to de verbas do MinC seria significativo. Mo- reira não acredita que isso represente uma real mudança: “Interessa a todos, ao banco, todo mundo mama nisso. O Congresso Nacio- nal provavelmente vai topar. É migalha, mas no fundo é um salto absurdo”. Cesar Vieira, acredita no PT e aposta que, apesar das grandes pressões econômicas, o atu- al governo ainda possibilita diálogo, ao contrá- rio dos anteriores, declaradamente direitistas. “Tem o Sérgio Mamberti, o próprio ministro (Juca Ferreira) que veio aqui”. Mais do que possível, Vieira acha neces- sário estabelecer um diálogo entre o gover- no federal e artistas de cinema, teatro, artes plásticas, circo, considerando também as ca- racterísticas culturais de cada região, para evitar aberrações, como por exemplo o fato de que 80 por cento dos recursos do MinC vão para o Sul e Sudeste. Vieira, que fora do ramo teatral é advogado, define a proposta do MinC: “uma colcha de retalhos”. Contra isso, quer que o meio cultural faça barulho, sem receio de reações contrárias. “Eu acho que o que funciona é o Estado e não entregar de novo para as grandes firmas. Não tem que ter receio que o estado não tenha competên- cia pra nada, senão nunca mais vai poder ge- rir um correio, o ensino, etc.”.

nunca mais vai poder ge- rir um correio, o ensino, etc.”. Carolina Rossetti e Felipe Larsen

Carolina Rossetti e Felipe Larsen são repórteres.

Proponentes e incentivadores

É fácil descobrir para onde vai para o di-

nheiro da área de cultura. O site do MinC disponibiliza dados sobre os maiores propo-

nentes (pessoa física ou jurídica que solicita recursos para financiar projetos) e incentiva- dores (pessoas ou empresas que financiam os projetos e abatem no imposto de renda).

O sistema Salicnet do MinC também informa

os maiores projetos financiados pelo mecenato. Dos dez maiores, oito são do estado de São Pau- lo e dois do Rio de Janeiro. Sete são projetos do Banco Itaú, através do seu braço cultural. Um dos maiores projetos é da BrasilCon- nects Cultura, presidida por Edemar Cid Fer- reira, ex-dono do Banco Santos, que está sendo acusado pelo Ministério da Cultura de irregula- ridades na prestação de contas da verba usada no projeto Retrospectiva Picasso. A restituição pedida pelo MinC é de R$9,9 milhões.

Os maiores proponentes de 2008

1. Instituto Itaú Cultural R$ 29.500.000,00

2. Dançar Marketing Comunicações Ltda

(empresa de consultoria cultural que

tem como clientes a Coca-Cola, IBM, Am- Bev, HSBC, Bradesco, Nestlé, Telefônica

e

Gessy Lever)

R$ 17.106.322,48

3.

Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira R$ 14.757.435,00

Maiores projetos do mecenato

1. Plano Anual de Atividades 2008, da Fun-

dação Itaú Cultural, São Paulo, 2007,

R$29.5000,00

2. Projeto de restauração do Conjunto Ar-

quitetônico do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, 2000,

R$28.351.000,00

3. Plano Anual de Atividades 2007, da

Fundação Itaú Cultural, São Paulo,

R$27.000.000,00

4. Estação da Língua Portuguesa, Fun-

dação Roberto Marinho, Rio de Janeiro, 2001, Rio de Janeiro, 2001,

R$25.527.760,84

5. Brasil 500 anos Artes Visuais: Exposi-

ção e Itinerância, BrasilConnects Cultura,

São Paulo, 1999,

R$23.211.946,35

Os maiores incentivadores de 2008

1. Petróleo Brasileiro S.A – Petrobras

R$142.299.096,44

2. Companhia Vale do Rio Doce

3. Banco do Brasil S.A

R$28.242.894,46

R$25.522.855,40

Fonte:

http://sistemas.cultura.gov.br/salicnet/Salicnet/Salicnet.php

entrevista

JOSÉ PADILHA

Entrevista de Camila Martins, Carolina Rossetti, Bruna Buzzo, Luana Schabib, Fernando Lavieri e Felipe Larsen | fotos Flavio Melgarejo.

Relato da fome

poR quem passa fome

depois de fazer o “Ônibus 174” e “tropa de elite”, ambos sobre a violência urbana, o cineasta José padilha lança o documentário “Garapa”, que trata da fome “do ponto de vista de quem está com fome”.

da fome “do ponto de vista de quem está com fome”. Bruna Buzzo: Por que você

Bruna Buzzo: Por que você quis filmar o “Garapa”?

Com o “Ônibus 174” eu conheci o pessoal do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que trabalha com a ques- tão da segurança alimentar. Então pensei em fazer um filme sobre a fome. Ao invés de olhar para a fome estatisticamente, vou fazer um filme do ponto de vista de quem passa fome. Porque eu já tinha percebido, com “Ônibus 174” e “Tropa de Elite”, que embora os meni- nos de rua e a violência da polícia sejam ver- dades óbvias, o óbvio não é tão óbvio assim. Então vamos olhar a fome do ponto de vista de quem está com fome, porque isso dá mais significado que a estatística. Uma coisa é falar que 910 milhões de pessoas passam fome no mundo, outra é você ver aquilo. Eu quis con- tar a história da fome do ponto de vista das pessoas que passam fome, isso é o “Garapa”.

Bruna Buzzo: Uma das críticas ao “ Garapa” acusou o documentário de expor as famílias. Como você vê estas críticas?

Eu acho engraçado uma crítica a um do- cumentário que mostra a fome dizer que não deveria ter exposto tanto. Porque a fome não é a moeda que você deixou cair, não é um negócio pequenininho, a fome atinge uma em cada 7 pessoas no mundo, é um negócio enorme. Então, a idéia de que não se pode mostrar o óbvio é uma ideia estranha, só al- guém que acha que não existe acha que não deve mostrar.

Camila martins: E o que é o Bolsa Família para aquelas pessoas?

Eu acho o Bolsa Família um programa sen- sacional. Eu sou um defensor do assistencialis- mo. O capitalismo tem sérios problemas, e ele não resolve o problema dessas pessoas. O que nós gostaríamos é que elas fossem absorvidas pela sociedade. Para que isso aconteça é preci- so primeiro ter assistencialismo e depois edu- cação, porque o cara tem que comer para po- der estudar. Criticam o Bolsa Família dizendo que é um programa de transferência de renda com caráter eleitoral. Qualquer programa polí- tico tem um efeito eleitoral. Não dá para esque- cer a história do Brasil. Quando tinha a taxa de inflação, o Brasil transferiu dinheiro dos pobres para os ricos, de forma muito mais eficiente que o Bolsa Família. E esse programa era de estelio- nato eleitoral? Claro que era. Então porque não se falou em estelionato eleitoral antes?

Camila martins: V ocê filmou “ Garapa” antes de “ Tropa de Elite” , por que só saiu depois?

Foi uma questão de dinheiro, estávamos cap- tando recursos e começando a montar o “Gara- pa”. Quando entrou o dinheiro do “Tropa” não tinha dinheiro para terminar o “Garapa”.

Bruna Buzzo: Depois que você encontrou as três famílias que estão no filme, você as ajudou?

As pessoas, em geral, ajudam pessoas que conhecem, não desconhecidos, isso é um fato. Eu convivo com as pessoas que filmo, fico ami- go delas. Fiquei amigo das famílias do “Gara-

pa”, ficamos amigos da Estamira. Eu e o Mar- cos mandamos dinheiro para as famílias que filmamos no “Garapa” desde 2005, fizemos uma casa para a Estamira.

Bruna Buzzo: V ocê acha que o espectador médio de cinema que assistir “ Garapa” vai fazer algo para mudar essa situação da miséria?

Eu tento não julgar o público. No “Tropa de Elite” a crítica do público apontou que os brasileiros gostam do capitão Nascimento, são violentos. Mas eu não sei dizer o que o públi- co vai fazer. Eu acho que um filme dificilmen- te resolve um problema social.

Bruna Buzzo: E a opção de fazer o filme em preto e branco?

O diretor tem que fazer opções estéticas, não tem jeito. No “Garapa”, foi muito mais que a cor. Eu tirei tudo do filme. Fiz um filme no qual faltassem coisas. Eu quero que falte no fil- me o que o espectador está acostumado a ver, porque acho que é uma maneira boa de expri- mir a fome. A pergunta que eu faço é a seguin- te, quando você vê o “Garapa”, você sai de lá entendendo mais, sentindo na pele o que é pas- sar fome? Se você entendeu o que significa, funcionou o filme.

Bruna Buzzo: Qual foi sua trajetória até chegar no cinema?

Eu nasci no Rio, em 1967, e vivi no Rio, com breves intervalos fora. Venho de família

maio 2009 caros amigos

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de classe média, estudei em colégio particu-

lar e na PUC do Rio. Comecei fazendo Física, larguei, fui trabalhar no mercado financeiro

e mudei para Administração. Me formei estu-

dando à noite. E virei documentarista, fui só- cio do Marcos Prado, que era fotógrafo. Ele tinha feito o ensaio “Os carvoeiros”, que ga- nhou prêmio no World Press Photo, o Oscar da fotografia. E decidimos fazer um documentá- rio. Conseguimos o dinheiro e resolvemos tra- zer um diretor para fazer o documentário com

a gente, nós produziríamos e aprenderíamos

com ele. Então pensamos em trazer o profes- sor da melhor escola de documentário do mun- do, o Nigel Noble, da Universidade de Nova York. Ligamos para ele: “Nigel, você quer fazer um filme sobre os carvoeiros? - Mas quem vai bancar? - A gente, só que você tem que nos en- sinar como se faz.” Trouxemos o Nigel; produ- zimos o filme e ele dirigiu. Isso em 99.

Camila martins: Mas já com a intenção de ser profissional?

Não. Eu sempre gostei de documentários

e sempre vi muitos, muito mais do que filmes

de ficção. Eu e Marcos fizemos um vídeo com

o João Jardim, diretor de “Janela da Alma”,

para uma mostra em 1992. O João montou o audiovisual com as fotos do Marcos, eu pro- duzi e nós gostamos. Aquilo teve um impacto. “Vamos fazer um documentário sobre esse as- sunto. Só que a gente não sabe fazer”. Eu esta- va cansado do mercado financeiro e o Marcos da publicidade, que ele fazia na época. E docu- mentário era legal porque podíamos viajar.

Carolina rossetti: E como esse filme foi

patrocinado?

Com a Lei do Audiovisual e levantando re- cursos. A parte boa de ter trabalhado em um banco é que eu sabia como levantar dinheiro para o filme. É um filme que tem um viés am- biental muito forte e todos os prêmios que o Marcos ganhou também ajudaram. E aí a gen- te fez. Durante a filmagem o Marcos pegou a câmera e ajudou o Nigel nas entrevistas, de- pois eu fui para Nova York e fiz a montagem com a Ann Collins, uma grande montado- ra com quem eu aprendi muito. O filme ga- nhou muitos prêmios e nós gostamos. Depois fizemos um filme para a National Geographic, “Pantaneiros”, nós dirigimos e o Nigel produ- ziu. E então cada um resolveu fazer o seu: o Marcos fez “Estamira” e eu “Ônibus 174”. De- pois “Tropa de Elite” e agora “Garapa”.

luana sChaBiB: Os temas dos documentários vêm de onde?

Eu faço filmes sobre coisas que me inte- ressam, que acho relevantes. “Os carvoeiros” surgiu do ensaio do Marcos, sempre engaja- do socialmente. O Nigel fazia documentários engajados. Nós já começamos assim, desde [a

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caros amigos maio 2009

mostra] “Os carvoeiros”, lá na Eco92. “Esta- mos fazendo filmes com incentivo fiscal, é di- nheiro público, vamos fazer um filme sobre questões sociais”. “Ônibus 174” surgiu por- que apareceu aquele fato na televisão e eu fi- quei mobilizado, quis descobrir e entender quem era o Sandro e o porquê daquilo. “Tro- pa de Elite” veio do “Ônibus 174”. Nunca me ocorreu fazer um filme que não tivesse nada a ver com a realidade.

Camila martins: V ocê nasceu e foi criado no Rio. “ Ônibus 174” e “ Tropa de Elite” devem ter mexido com você.

Quando eu vi o Ônibus 174, a primeira im- pressão foi a de que aquele cara era extrema- mente violento, que ele estava agredindo as pessoas. E pensei: “Mas por quê?” Nas repor- tagens de TV quase não tinha som direto do ônibus, as câmeras mostravam os repórteres e

não se ouvia o que era falado lá dentro. Eu fi- quei curioso. Consegui, com muito esforço, ter acesso aos arquivos da Globo e ver o material, 30 horas. Eu comecei a ouvir o som direto, e

o Sandro falava: “eu sou ex-menino da Can-

delária, vocês me maltrataram, me jogaram na cadeia”. Aí falei: “Tem uma história aqui. Essa violência não é do zero”. Resolvi enten- der aquele menino. “Ônibus 174” é calcado em pesquisa, para entender o que aconteceu, por

que o Sandro ficou daquele jeito dentro do ôni- bus. Eu investi dois anos e meio pesquisando, tinha 300 páginas de documentos. E a questão era como contar a história do ônibus da ótica do Sandro, já morto. O filme corta do ônibus para a vida dele, você vê o Sandro matar pes- soas e também vê enfiarem o cacete nele. Ao mesmo tempo, o espectador sente ódio e pena.

E as duas histórias são verdadeiras, a do ôni-

bus e a dele. Eu comecei a receber emails da

direita: “o filme justificou um criminoso, você

é um radical de esquerda”. No “Tropa de Eli-

te” eu resolvi fazer exatamente o contrário. Fa-

zer a mesma quantidade de pesquisa e contar

a história da violência do Rio de Janeiro pela

ótica do policial violento e logo um policial do BOPE, e narrar a entrevista dele. O oposto do

Sandro. E vou dar o mesmo nome, Capitão Nascimento; era Sandro Nascimento. Vou fa- zer a mesma história ao contrário. Comecei a ver que as pessoas reagem aos filmes com ide- ologia. No “Tropa de Elite” eu virei um radical

de direita. Eu era radical de esquerda em um filme e radical de direita no outro, mas a ma- neira pela qual eu pensei os dois filmes foi exa- tamente igual. Vou contar pelo ponto de vis-

ta do protagonista da violência e vou mostrar

o processo social que gera aquele cara violen-

to. Vou mostrar que a polícia paga muito mal,

que o policial corre riscos e que nesse ambien-

te de corrupção você só consegue ter um bata-

lhão que não é corrupto naquela ideologia ma- luca do BOPE.

Camila martins: Fascista?

Não é fascista. Aquela ideologia é maluca.

O matemático húngaro Von Neumann faz uma

análise dos processos econômicos a partir de uma metáfora com os jogos: só é possível en- tender o comportamento de alguém que está em um jogo se você entender a regra do jogo. Você pode olhar para os processos sociais da mesma maneira, sem nenhuma ideologia. Você

se pergunta: qual é a regra, como eu entendo

o comportamento do Sandro naquele ônibus,

qual o jogo que o Sandro está jogando ali? Ele sabe que se for pego a polícia vai entrar no ca- cete, ele aprendeu isso a vida inteira, então ele não vai sair daquele ônibus fácil. “Tropa de Eli- te” também é isso: qual o jogo que está jogando um policial? Ele faz parte de uma corporação corrupta. Os primeiros cinco minutos do “Tro- pa de Elite” anunciam claramente este ponto de vista: se é PM tem que escolher, ou se cor- rompe, ou se cala, ou vai para a guerra.

Felipe larsen: E a imagem que o filme passa de que muito do financiamento do tráfico de drogas parte da classe média alta?

Eu diria que contra fatos não há argumen-

tos. É um fato que quem compra drogas está fi- nanciando quem vende drogas. Incomoda, mas

é um fato. Agora, “Tropa de Elite” falou em al-

guma hora que o problema da violência policial

é causado pelo usuário de droga? Não. “Tropa

de Elite” montou as regras do jogo: um cara vende droga no morro e tem quem compre. O usuário de drogas, que não é viciado, quan- do escolhe comprar drogas no Rio ou em São Paulo, sabe para onde o dinheiro vai. Ele en- tende como funciona a sociedade em que vive, sabe que o dinheiro vai para o traficante arma- do, sabe que o traficante armado domina uma comunidade carente, sabe que o tráfico forma uma cultura em torno de si, que inclui crianças

armado domina uma comunidade carente, sabe que o tráfico forma uma cultura em torno de si,

e seduz. Então o cara dizer ou imaginar que não faz parte do problema é escandaloso para mim.

luana sChaBiB: Quando a gente assiste, a gente pensa que todo universitário é puto.

Nenhum personagem de dramaturgia tem

a complexidade de uma pessoa. Meu filme tem

personagens caricatos? Tem. Isso é uma coisa,

outra coisa é generalizar o filme. Por exemplo, eu coloquei no meu filme um universitário que compra drogas na favela e vende na faculdade. Na PUC-Rio, onde estudei, cansei de ver isso. No dia que fui filmar a PUC falou assim: “Você pode filmar, mas alguém irá acompanhar a fil- magem”. Essa pessoa foi comigo ver a locação em um dia que tinha aula. Era o lugar onde fumavam maconha e cheiravam pó, tinha dez alunos fumando maconha, dez alunos. O re- presentante foi embora e nem apareceu na fil- magem. Mostrar um personagem que faz isso

é uma coisa, dizer que o filme diz que todo alu-

no universitário faz isso é outra. O universitá- rio que está no meu filme é o universitário vis- to pelos policiais. Eu entrevistei os policiais. O Matias existe no mundo real. Existe o poli- cial que estudou Direito na PUC, que namorou uma menina que tinha uma ONG. E o filme é narrado pelo Nascimento, eu não escondo isso do meu público. O universitário ali é o univer- sitário tal qual concebido pelo policial.

Fernando lavieri: O que você diria a um jovem que quer ser o Capitão Nascimento?

É péssimo ser o Capitão Nascimento, ele é angustiado, perde a mulher, vive tremendo, toma calmante. Um cara fodido. A criança que quer ser o Nascimento é igual à criança que

quer ser traficante. O cara viu o filme e não fez crítica nenhuma, assim como olha para o tra- ficante armado na favela e não constrói crítica do que está vendo. Aí entra a pirataria, “Tropa de Elite” é proibido para menores de 16 anos. Pirataria é uma merda, porque o filme está lá

e as crianças viram. Então eu diria que não,

não seja igual ao Capitão Nascimento. É uma merda ser o capitão Nascimento, assim como

é uma merda ser traficante. Eu diria para as

crianças: “Não veja Tropa de Elite se tiver me-

nos de 16 anos”.

Carolina rossetti: E qual foi sua reação à pirataria?

Eu fiquei desesperado. A minha relação com a pirataria é ruim. Pirataria não é bom para a economia. Eu não gosto de pirataria, gostei menos ainda quando muitos jornalis-

tas escreveram que a gente tinha feito a pró- pria pirataria. Nós investigamos a pirataria.

A cópia pirata que eu vi tinha um código apa-

rente, então nós sabíamos que tinha vazado da empresa de legendagem. Pressionamos a

empresa e achamos, fomos na delegacia, fize- mos queixa: o cara foi interrogado e confes- sou. Isso saiu no jornal.

luana sChaBiB: A pirataria permitiu que muita gente, independente da classe, assistisse “ Tropa de Elite” . V ocê não acha isso bom?

11,5 milhões de brasileiros viram o filme antes de abrir no cinema, 2,75 milhões viram no cinema. O Ibope fez uma pesquisa e con- cluiu que entre 6 e 6,5 milhões teriam visto no cinema se não tivesse vazado a cópia pirata. Pessoas investiram no filme, ele não foi feito totalmente com dinheiro público, mesmo que fosse, não justifica a pirataria. Você pode falar que muito mais gente viu do que veria. É ver- dade. Como diretor fico orgulhoso, porque fiz algo que comunica muito, mas isso não justi- fica a pirataria. Talvez aponte outro caminho para a indústria oficial, que vale a pena ven- der alguns filmes superbarato, por exemplo.

Camila martins: Assistir filme pirata é ruim, mas nem todos podem pagar 20 reais por um ingresso ou 50 reais por DVD.

O problema é como se populariza a arte, eu reluto quando alguém diz que para populari- zar a arte temos que fazer algo ilegal, é desistir de resolver o problema. Deve ter uma maneira mais inteligente de popularizar a arte.

Deve ter uma maneira mais inteligente de popularizar a arte. Emir Sader A CRISE E O

Emir Sader

A CRISE E O OutRO munDO POSSIvEL

A crise confirma as análises e previsões do Fórum Social Mundial. A volatilidade do capital financeiro foi fator essencial para desatar a cri- se, as teses do Estado mínimo e da centralida- de do mercado são consensualmente apontadas como responsáveis pela generalização da crise. As políticas de livre comércio concentraram mais do que nunca renda e poder dentro de cada país e entre os países do norte e do sul do mundo. A transformação de tudo em mercado- ria expropriou direitos elementares da grande maioria da humanidade – da educação e da saú- de públicas ao contrato de trabalho. A desre- gulação produziu uma brutal transferência de capitais do setor produtivo ao especulativo. Nesse momento, ao invés de retomar es- sas criticas, aprofundá-las à luz das suas comprovações concretas, traduzi-las em po- líticas concretas e disputar hegemonia, no momento em que se reconhecem teses como a necessidade de estatizar o sistema bancá- rio, do Estado atuar como indutor do cresci- mento econômico e regulador do mercado, de subordinar o equilíbrio monetário e o ajuste fiscal à necessidade de combater a recessão,

entre outras – nesse momento, onde estão as propostas alternativas, aquelas que podem conduzir ao outro mundo possível? É a hora de propor formas concretas de re- gulação da circulação do capital financeiro, nos termos que a Attac propôs, com um imposto para um fundo para realizar os direitos básicos de cidadania. Propô-lo aos governos que par- ticipam dos processos de integração regional. Propô-lo aos governos do Sul do mundo. Fala-se abertamente de nacionalização dos bancos. Para o outro mundo possível, se trata de desmercantilizar o sistema bancário, mas não apenas de colocar os bancos provisoria- mente sob o controle de Estados, para reca- pitalizá-los, a fim de devolvê-los em seguida ao mercado, nem de deixá-los sob controle de uma tecnocracia estatal. No momento em que as teses do FSM são confirmadas na prática, o FSM tem o perfil mais baixo do que ele nunca teve. A que se deve isso? A que o FSM envelheceu, não se adaptou à velocidade com que as coisas se deram no mundo, com que se desatou a cri- se e se debate abertamente as alternativas.

O FSM não passou da fase das denúncias à das propostas, das alternativas, da cons- trução do outro mundo possível. Não mu- dou a predominância das ONGs na direção, quanto os grandes protagonistas da luta antineoliberal são os movimentos sociais; a limitação dos participantes à chamada “so- ciedade civil”, quando são governos latino- americanos que estão construindo o outro mundo possível; manter o FSM como espa- ço de intercâmbio, quando a crise mundial pede propostas, alternativas.

quando a crise mundial pede propostas, alternativas. sugestões de leitura TRABALHO, AUTOGESTÃO E

sugestões de leitura

TRABALHO, AUTOGESTÃO E DESENVOLVIMENTO JoSé RiCaRdo TauiLLE EdiToRa da uFRJ

O TEMPO E O CÃO MaRia RiTa KEhL www.BoiTEMpoEdiToRiaL.CoM.BR

MODERNISMO pETER Gay Cia. daS LETRaS

Emir Sader é cientista político.

maio 2009 caros amigos

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Renato Pompeu I idéias de botequim

A sAúde como problemA de todos,

mais crônicas contundentes, o petróleo como fator de guerras, o fundamentalismo como fator de opressão e as condições prisionais brasileiras vistas por um alemão

as condições prisionais brasileiras vistas por um alemão Nem só os profissionais de saúde, mas todas

Nem só os profissionais de saúde, mas todas as pes