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TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

TEOLOGIA
SISTEMÁTICA I
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

TEOLOGIA
SISTEMÁTICA I
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CONTEÚDO
CAPÍTULO 01 ..................................................................................................................... 6

TEOLOGIA SISTEMÁTICA ............................................................................................. 6

A. DEFINIÇÃO DE TEOLOGIA SISTEMÁTICA ............................................................ 6


B. RELAÇÃO COM OUTRAS DISCIPLINAS ................................................................ 6
C. APLICAÇÃO À VIDA ................................................................................................ 9
D. TEOLOGIA SISTEMÁTICA E TEOLOGIA DESORGANIZADA .............................. 10
E. QUE SÃO DOUTRINAS? ....................................................................................... 13
F. DOUTRINA MAIS IMPORTANTE OU MENOS IMPORTANTE .............................. 13
G. PRESSUPOSIÇÕES INCIAIS DESTA DISCIPLINA ............................................... 15
H. POR QUE DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA? ..................................................... 15
I. COMO DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA SISTEMÁTICA? .................................. 19

CAPÍTULO 02 ................................................................................................................... 29

BIBLIOLOGIA: A DOUTRINA DAS ESCRITURAS (1) .................................................. 29

REVELAÇÃO ............................................................................................................ 29
A. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 29
B. REVELAÇÃO GERAL ............................................................................................ 29
C. REVELAÇÃO ESPECIAL ....................................................................................... 31
D. PROVAS DA REVELAÇÃO.................................................................................... 34

CAPÍTULO 03 ................................................................................................................... 40

BIBLIOLOGIA: A DOUTRINA DAS ESCRITURAS (2) .................................................. 40

INSPIRAÇÃO ............................................................................................................ 40
A. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 40
B. TEORIAS DA INSPIRAÇÃO BÍBLICA .................................................................... 43
C. RESUMINDO ......................................................................................................... 52
D. PROVAS DA INSPIRAÇÃO BÍBLICA ..................................................................... 52
E. A AUTORIDADE E CREDIBILIDADE DAS ESCRITURAS ..................................... 53
F. CREDIBILIDADE DO A.T. – ESTABELECIDA POR TRÊS FATOS........................ 54
G. AS ESCRITURAS POSSUEM INTEGRIDADE:...................................................... 56
H. CREDIBILIDADE DO NOVO TESTAMENTO ESTABELECIDA POR CINCO FATOS
58
I. INERRÂNCIA E AUTENTICIDADE ........................................................................ 63
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

J. AUTENTICIDADE OU GENUINIDADE................................................................... 65
K. CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE A INSPIRAÇÃO ............................................ 66

CAPÍTULO 04 ................................................................................................................... 68

BIBLIOLOGIA: A DOUTRINA DAS ESCRITURAS (3) .................................................. 68

ILUMINAÇÃO ........................................................................................................... 68
A. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 68
B. A BÍBLIA É A MENSAGEM DE DEUS À HUMANIDADE........................................ 69
C. TEMAS PRINCIPAIS DA BÍBLIA ............................................................................ 70
D. POR QUE ESTUDAR A BÍBLIA? ........................................................................... 71
E. COMO A BÍBLIA CHEGOU ATÉ NÓS.................................................................... 71
F. CONCLUSÃO ........................................................................................................ 78

CAPÍTULO 05 ................................................................................................................... 81

TEOLOGIA – A DOUTRINA DE DEUS ......................................................................... 81

A. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 81
B. A EXISTÊNCIA DE DEUS É ESTABELECIDA PELA RAZÃO................................ 82
C. O ARGUMENTO DA CAUSA-E-EFEITO SE DIVIDE EM CINCO........................... 82
D. OS ATRIBUTOS NATURAIS E MORAIS DE DEUS ............................................... 85
E. O DECRETO (CONSELHO) DE DEUS .................................................................. 87
F. OS NOMES DE DEUS ........................................................................................... 87
G. A VONTADE DE DEUS.......................................................................................... 89
H. AS OBRAS DE DEUS ............................................................................................ 89
I. QUESTÕES RESUMIDAS SOBRE DEUS ............................................................. 90

CAPÍTULO 06 ................................................................................................................... 97

CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DE CRISTO (1) .......................................................... 97

A. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 97
B. A NATUREZA DE CRISTO. ................................................................................... 97

CAPÍTULO 07 ................................................................................................................. 124

CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DE CRISTO(2) ......................................................... 124

A. OS OFÍCIOS DE CRISTO .................................................................................... 124


B. A OBRA DE CRISTO ........................................................................................... 130

CAPÍTULO 08 ................................................................................................................. 144

CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DE CRISTO (3) ........................................................ 144


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

A EXPIAÇÃO .......................................................................................................... 144


A. A EXPIAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO.......................................................... 144
B. A EXPIAÇÃO NO NOVO TESTAMENTO............................................................. 155

CAPÍTULO 09 ................................................................................................................. 178

PARACLETOLOGIA: DOUTRINA DO ESPÍRITO SANTO (1) .................................... 178

A. DEFINIÇÃO DE PARACLETOLOGIA................................................................... 178


B. A DEIDADE DO ESPÍRITO SANTO ..................................................................... 178
C. ESPÍRITO SANTO É UMA PESSOA ................................................................... 180
D. OS NOMES DO ESPÍRITO SANTO ..................................................................... 183
E. OS SÍMBOLOS DO ESPÍRITO SANTO ............................................................... 185
F. A OBRA DO ESPÍRITO SANTO........................................................................... 188
G. O BATISMO NO (COM) ESPÍRITO SANTO ......................................................... 190
H. OS DONS ESPIRITUAIS...................................................................................... 193
I. RELAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS ................................................................. 194
J. DONS DE REVELAÇÃO ...................................................................................... 194
K. DONS DE PODER ............................................................................................... 195
L. DONS DE INSPIRAÇÃO ...................................................................................... 197
M. O FRUTO DO ESPÍRITO ..................................................................................... 199

BIBLIOGRAFIA .............................................................................................................. 206


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 01

TEOLOGIA SISTEMÁTICA

A. DEFINIÇÃO DE TEOLOGIA SISTEMÁTICA

O que é teologia sistemática? Muitas definições têm sido dadas, mas


para o propósito desta Disciplina a seguinte definição será usada:
Teologia sistemática é qualquer estudo que responda à pergunta:

"O que a totalidade da Bíblia nos diz hoje?" Essa definição indica que a
teologia sistemática envolve a coleta e o entendimento de todas as
passagens relevantes da Escritura sobre vários tópicos, assim como o
resumo claro de seus ensinos, de forma que saibamos em que crer sobre
cada tópico.

B. RELAÇÃO COM OUTRAS DISCIPLINAS

A ênfase deste livro não será sobre teologia histórica (o estudo histórico
de como os cristãos, em diferentes épocas, entenderam os mais
variados tópicos da teologia), ou sobre teologia filosófica (o estudo
teológico amplo de tópicos sem o uso da Bíblia, mas usando ferramentas
e métodos de raciocínio filosófico e o que pode ser conhecido sobre
Deus resultante da observação do universo), ou sobre a apologética (a
provisão da defesa da veracidade da fé cristã com o propósito de
convencer os descrentes). Esses três assuntos, que vale a pena os
cristãos pesquisarem, são algumas vezes incluídos na definição mais
abrangente do termo teologia sistemática. De fato, alguma consideração
das matérias da teologia histórica, filosófica e apologética será
encontrada por vezes ao longo desta disciplina. É assim porque o estudo
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histórico nos informa dos esclarecimentos adquiridos dos erros sobre a


compreensão das Escrituras cometidos por outros no passado; o estudo
filosófico ajuda-nos a entender as formas corretas e errôneas de
pensamento comuns em nossa cultura e em outras culturas; o estudo
apologético ajuda-nos a usar os ensinos da Escritura para responder às
objeções levantadas pelos descrentes. Mas essas áreas de estudo não
são o foco central desta obra, que, ao contrário, interage diretamente
com os textos bíblicos a fim de lançar luz sobre o que a própria Bíblia
nos diz a respeito de vários assuntos teológicos. Enquanto outras áreas
de estudo nos ajudam a entender as questões teológicas, somente a
Escritura tem a autoridade final para definir em que devemos "crer”, e é,
portanto, apropriado gastar algum tempo enfocando o ensino da
Escritura sobre si mesma.

Esta Disciplina também não enfatizará a ética cristã. Embora sejam


inevitáveis algumas superposições entre o estudo da teologia e o estudo
da ética, tentei manter a distinção na ênfase.

A ênfase da teologia sistemática é sobre o que Deus quer que creiamos


e saibamos, ao passo que a ênfase da ética cristã é sobre o que Deus
quer que façamos e as atitudes que ele quer que tomemos. Essa
distinção é refletida na seguinte declaração: A ética cristã é qualquer
estudo que responda à questão "O que Deus requer que façamos e que
atitudes ele requer que tenhamos hoje?" com respeito a qualquer
situação. Assim, a teologia concentra-se sobre as ideias enquanto a
ética concentra-se sobre as situações da vida. Um compêndio de ética,
por exemplo, discutiria tópicos como casamento, divórcio, pena de
morte, guerra, controle de natalidade, aborto, eutanásia,
homossexualidade, mentira, discriminação racial, alcoolismo, papel do
governo civil, uso do dinheiro e do direito de propriedade, preocupação
com os pobres, e assim por diante. Tais tópicos pertencem ao estudo da
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ética e não são tratados nesta disciplina. Contudo, esta disciplina não
hesitará em sugerir a aplicação da teologia à vida onde tais aplicações
couberem.

A teologia sistemática, como definida acima, também difere da teologia


do AT, da teologia do NT e da teologia bíblica. Essas três teologias
organizam os seus tópicos historicamente e na ordem em que são
apresentados na Bíblia. Portanto, na teologia do AT, alguém pode
perguntar: "O que o livro de Deuteronômio ensina sobre a oração?" ou
"O que Isaías ensina sobre a oração?", ou ainda, "O que a totalidade do
AT ensina a respeito da oração, e como esse ensino é desenvolvido na
história do AT?". Na teologia do NT, alguém poderia perguntar: "O que
o evangelho de João ensina sobre a oração?" ou "O que Paulo ensina
sobre a oração?", ou ainda "O que o NT ensina sobre a oração, e qual é
o desenvolvimento histórico desse ensino à medida que ele progride
pelo NT?".

A teologia bíblica tem um significado técnico nos estudos teológicos. É


uma categoria mais abrangente que contém tanto a teologia do AT como
a do NT. A teologia bíblica dá atenção especial aos ensinos dos autores
individuais e a seções da Escritura e para o lugar que cada ensino ocupa
no desenvolvimento histórico da Escritura. Alguém poderia perguntar:
"Qual é o desenvolvimento histórico do ensino sobre a oração como ele
é visto por toda a história do AT e, a seguir, do NT?". É claro que essa
pergunta fica muito próxima de outra pergunta: "O que a Bíblia toda nos
ensina hoje a respeito de oração?" (que seria teologia sistemática, pela
definição acima). Portanto, torna-se evidente que as linhas divisórias
entre essas várias disciplinas muitas vezes se sobrepõem, e que partes
de um estudo se misturam com o seguinte. Todavia, há ainda uma
diferença, pois a teologia bíblica traça o desenvolvimento histórico de
uma doutrina e o modo pelo qual tal desenvolvimento, em algum ponto,
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afeta a compreensão que a pessoa tem de uma doutrina particular e sua


aplicação. A teologia bíblica também se concentra no entendimento de
cada doutrina que os autores bíblicos e seus ouvintes ou leitores
originais possuíam.

A teologia sistemática, em contrapartida, concentra-se no todo e, dessa


forma, no sumário do ensino de todas as passagens bíblicas sobre um
assunto particular. Portanto, faz uso dos resultados da teologia bíblica e
muitas vezes constroem sobre eles. Assim, a teologia sistemática
pergunta, por exemplo: "O que a totalidade da Bíblia nos ensina sobre a
oração?". Ela tenta fornecer o resumo do ensino da Escritura por meio
de uma formulação sucinta, inteligível e muito cuidadosa.

C. APLICAÇÃO À VIDA

Além disso, a teologia sistemática concentra-se no resumo de cada


doutrina como ela deve ser entendida pelos cristãos do tempo presente.
Às vezes isso envolve o uso de termos e até de conceitos que não foram
em si mesmos usados pelos autores individuais da Bíblia, mas que são
o resultado apropriado da combinação de ensinos de dois ou mais
autores bíblicos sobre um assunto específico. Os termos Trindade,
encarnação e divindade de Cristo, por exemplo, não são encontrados na
Bíblia, mas eles sumarizam de maneira útil os conceitos bíblicos.

Definir a teologia sistemática para incluir "o que a totalidade da Bíblia


nos ensina hoje" significa que a aplicação à vida necessariamente faz
parte do objetivo da teologia sistemática. Assim, todas as doutrinas
devem ser vistas em termos de seu valor prático para viver a vida cristã.
Em nenhum lugar da Escritura encontramos a doutrina estudada no
interesse de si própria ou isolada da vida prática. Os escritores bíblicos
aplicaram sistematicamente seus ensinos à vida. Portanto, o estudo
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desta disciplina deverá enriquecer e aprofundar sua vida cristã; de fato,


se o crescimento espiritual não ocorrer, ou a disciplina não foi elaborada
de maneira adequada pelo autor ou a matéria não foi corretamente
estudada pelo aluno.

D. TEOLOGIA SISTEMÁTICA E TEOLOGIA DESORGANIZADA

Se usarmos essa definição de teologia sistemática, torna-se óbvio que a


maioria dos cristãos realmente faz teologia sistemática (ou ao menos faz
afirmações de teologia sistemática) muitas vezes por semana. Por
exemplo: "A Bíblia diz que cada um que crê em Jesus Cristo será salvo",
"A Bíblia diz que Jesus Cristo é o único caminho para Deus", "A Bíblia
diz que Jesus está vindo outra vez".

Essas frases são resumos do que a Bíblia diz e, como tal, são afirmações
teológico-sistemáticas. De fato, cada vez que o cristão diz alguma coisa
a respeito do que a Bíblia diz, ele está fazendo, em algum sentido,
teologia sistemática — segundo a definição acima — por pensar a
respeito de vários tópicos e por responder à pergunta "O que a totalidade
da Bíblia nos ensina hoje?".

Como, então, esta disciplina difere desta espécie de "teologia


sistemática" que a maioria dos cristãos faz? Pelo menos de quatro
modos.

1. TÓPICOS BÍBLICOS ORGANIZADOS

Esta disciplina trata os tópicos bíblicos de modo cuidadosamente


organizado para garantir que todos os tópicos importantes venham
a receber consideração completa. Essa organização também ajuda
a evitar a análise inexata de tópicos individuais, pois isso significa
que todas as doutrinas abordadas podem ser comparadas com
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cada tópico para evitar inconsistência na metodologia e


contradições no relacionamento entre as doutrinas. Isso também
ajuda a assegurar a consideração equilibrada das doutrinas
complementares: a divindade e a humanidade de Cristo são
estudadas juntas, por exemplo, assim como a soberania de Deus e
a responsabilidade humana, de forma que conclusões erradas não
sejam tiradas da ênfase exagerada sobre um único aspecto da
apresentação plena que a Bíblia faz do assunto.

De fato, o adjetivo sistemático na teologia sistemática deveria ser


entendido como querendo dizer algo similar a "cuidadosamente
organizado por tópicos"; os tópicos estudados serão vistos como
que se encaixando de modo coerente, havendo de ser incluídos
todos os principais tópicos doutrinários da Bíblia. Assim,
"sistemática" quer dizer, no caso, o oposto de "casualmente
arranjada" ou "desorganizada". Na teologia sistemática, os tópicos
são tratados de modo ordenado ou "sistemático".

2. OS TÓPICOS SÃO TRATADOS EM DETALHES

A segunda diferença entre esta disciplina e o modo como a maioria


dos cristãos faz teologia sistemática é que ele trata os tópicos em
muito mais detalhes que a maioria dos cristãos faz. Por exemplo, o
cristão comum, em resultado de sua leitura regular da Bíblia, pode
fazer a seguinte afirmação teológica: "A Bíblia diz que cada pessoa
que crê em Jesus Cristo será salva". Esse é um sumário
perfeitamente verdadeiro de um ensino bíblico importante. Contudo,
nesta disciplina dedicamos várias páginas para elaborar de modo
mais preciso o que significa "crer em Jesus Cristo", e explicar o que
significa "ser salvo" em todas as diversas implicações do termo.
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3. A FORMULAÇÃO DE SUMÁRIOS MAIS PRECISOS

Terceira, o estudo formal de teologia sistemática tornará possível


formular sumários de ensinos bíblicos com muito mais precisão do
que os cristãos normalmente conseguiriam sem tal estudo. Na
teologia sistemática, os sumários dos ensinos bíblicos devem ser
redigidos de maneira precisa para evitar interpretações errôneas e
excluir ensinos falsos. De fato, uma das marcas de maturidade no
entendimento de teologia sistemática é a precisão no uso das
palavras para sintetizar os ensinos da Bíblia.

4. BOA ANÁLISE TEOLÓGICA

Quarta, a boa análise teológica deve descobrir e tratar com justeza


todas as passagens relevantes da Bíblia para cada tópico particular,
não apenas algumas poucas passagens relevantes.

Isso muitas vezes quer dizer que ela deve depender do resultado
da exegese, ou interpretação, cuidadosa da Escritura, com a qual
geralmente os intérpretes evangélicos concordam; onde houver
diferenças significativas de interpretação, a teologia sistemática
deverá incluir interpretação detalhada de versículos da Bíblia em
certos pontos.

Por causa do grande número de tópicos abordados no estudo da


teologia sistemática e por causa dos inúmeros detalhes com os
quais esses tópicos são analisados, é inevitável que alguém que
estuda teologia sistemática pela primeira vez tenha muitas de suas
crenças pessoais desafiadas ou modificadas, refinadas ou
enriquecidas. É de extrema importância, portanto, que o principiante
de tal curso resolva firmemente abandonar como falsa qualquer
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ideia que seja contrariada pelos ensinos da Escritura. Mas é


também muito importante cada pessoa resolver não crer em
qualquer doutrina individual simplesmente porque esta ou algum
livro ou professor diga que ela é verdadeira, a menos que esta
disciplina ou o instrutor em um curso consiga convencer o aluno
partindo do texto da própria Escritura. É a Escritura somente, não
qualquer autoridade humana, que deve funcionar como autoridade
normativa para a definição do que devemos crer.

E. QUE SÃO DOUTRINAS?

Nesta disciplina, a palavra doutrina será entendida do seguinte modo:

Doutrina é o que a totalidade da Bíblia nos ensina a respeito de algum


tópico particular. Essa definição está diretamente relacionada com
nossa definição anterior de teologia sistemática, visto que ela mostra que
a doutrina é simplesmente o resultado do processo de fazer teologia
sistemática levando em consideração um tópico específico. Entendidas
desse modo, as doutrinas podem ser bastante abrangentes ou bastante
estritas. Podemos falar da "doutrina de Deus" como categoria doutrinária
maior, incluindo o sumário de tudo o que a Bíblia nos diz hoje sobre
Deus. Tal doutrina seria excepcionalmente abrangente. Por outro lado,
podemos também falar de maneira mais estrita da doutrina da
eternidade de Deus, da doutrina da Trindade ou da doutrina da justiça
de Deus.

F. DOUTRINA MAIS IMPORTANTE OU MENOS IMPORTANTE

As pessoas algumas vezes perguntam qual a diferença entre a "doutrina


mais importante" e a "doutrina menos importante". Os cristãos muitas
vezes dizem que devem procurar concordância na igreja quanto às
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doutrinas mais importantes, mas podem permitir diferenças em doutrinas


de menor importância. Descobri a seguinte e útil diretriz:

A doutrina mais importante é a que tem impacto significativo sobre nosso


pensamento a respeito de outras doutrinas ou que tem impacto
significativo sobre como vivemos a vida cristã.

A doutrina menos importante é a que tem pouco impacto sobre como


pensamos a respeito de outras doutrinas e muito pouco impacto sobre
como vivemos a vida cristã. Por esse padrão, as doutrinas como a da
autoridade da Bíblia, a da Trindade, a da divindade de Cristo, a da
justificação pela fé e muitas outras seriam corretamente consideradas
doutrinas mais importantes. As pessoas que discordam do entendimento
histórico evangélico de qualquer dessas doutrinas terão amplas áreas
de diferença com os cristãos que afirmam essas doutrinas. Por
contraste, parece-me que as diferenças sobre formas de governo, ou
alguns detalhes sobre a ceia do Senhor, ou sobre o tempo da grande
tribulação dizem respeito a doutrinas menos importantes. Os cristãos
que diferem nessas coisas provavelmente podem concordar em todas
as outras áreas de doutrina e levar vidas cristãs que não diferem em
assuntos importantes, podendo manter comunhão genuína uns com os
outros.

Claro que podemos encontrar doutrinas que se encaixam em algum


lugar entre as "mais importantes" e as "menos importantes" de acordo
com esse padrão. Isso é natural porque muitas doutrinas têm alguma
influência sobre outras doutrinas ou sobre a vida, mas podemos diferir
sobre se a influência delas é realmente "significativa". Em tais casos, os
cristãos precisarão pedir a Deus que lhes dê sabedoria madura e
julgamento sadio para determinar em que grau uma doutrina deverá ser
considerada mais importante nas circunstâncias particulares deles.
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G. PRESSUPOSIÇÕES INCIAIS DESTA DISCIPLINA

Começamos com duas pressuposições: 1) a de que a Bíblia é verdadeira


e que ela é, de fato, nosso absoluto padrão de verdade; 2) a de que o
Deus de quem a Bíblia fala existe, e que ele é quem a Bíblia diz que ele
é: o Criador do céu e da terra e de todas as coisas que neles há.

Essas duas pressuposições, naturalmente, estão sempre abertas a


reconsideração posterior ou a confirmação mais profunda, mas, neste
momento, formam nosso ponto de partida.

H. POR QUE DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA?

Por que os cristãos devem estudar teologia sistemática? Isto é, por que
devemos nos engajar no processo de coletar e sintetizar os ensinos de
muitas passagens individuais sobre tópicos específicos? Por que não é
suficiente simplesmente manter a leitura regular da Bíblia em nossa vida
diária?

1. A RAZÃO BÁSICA

A razão mais importante para estudar teologia sistemática é que ela


nos capacita a obedecer à ordem de Jesus de ensinar os crentes a
observar tudo o que ele ordenou:

"Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os


em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a
obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com
vocês, até o fim dos tempos" (Mt 28.19,20).

Ensinar todas as coisas que Jesus ordenou significa mais que


meramente ensinar as palavras que ele falou enquanto andava
neste mundo. Lucas sugere que o livro de Atos dos Apóstolos
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contém a história do que Jesus continuou a fazer e a ensinar por


intermédio dos apóstolos, após sua ressurreição (observe que At
1.1 fala do evangelho de Lucas como um relato "a respeito de tudo
o que Jesus começou a fazer e a ensinar"). Tudo o que Jesus
ordenou também pode incluir as cartas, visto que elas foram escritas
sob a supervisão do Espírito Santo e foram também consideradas
"mandamento do Senhor" (ICo 14.37; v. tb. Jo 14.26; 16.13; lTs
4.15; 2Pe 3.2; Ap 1.1-3).

Assim, em sentido mais amplo, tudo o que Jesus ordenou inclui todo
o NT.

Além disso, quando consideramos que os escritos do NT provam a


absoluta confiança que Jesus e os escritores do NT tinham na
autoridade e confiabilidade das Escrituras do AT como palavras de
Deus, torna-se evidente que não podemos ensinar tudo o que Jesus
ordenou sem também incluir tudo do AT (entendido corretamente
nos vários modos em que de se aplica à época da nova aliança na
história da redenção).

A tarefa do cumprimento da Grande Comissão inclui, portanto, não


somente a evangelização, mas também o ensino. E a tarefa de
ensinar tudo o que Jesus nos ordenou é ensinar o que a totalidade
da Bíblia nos diz hoje. Aqui é onde a teologia sistemática se torna
necessária: para que aprendamos eficazmente e ensinemos a
outros o que a totalidade da Bíblia diz, é necessário coletar e
sintetizar todas as passagens da Escritura sobre um assunto
específico.

Pelo fato de que ninguém terá tempo para estudar o que a Bíblia
toda diz a respeito de uma questão doutrinária que possa ser
levantada, é muito útil ter o benefício do trabalho de outros que têm
pesquisado a Escritura e descoberto respostas para vários tópicos.
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Esta disciplina capacita-nos a ensinar a outros de modo mais eficaz


levando-os às passagens mais relevantes e sugerindo-lhes o
sumário apropriado dos ensinos dessas passagens. Assim, a
pessoa que levanta as questões pode examinar essas passagens
por si mesmas e aprender muito mais rapidamente qual é o ensino
da Bíblia sobre qualquer assunto específico. Portanto, a teologia
sistemática é necessária para ensinar o que a Bíblia diz porque, em
primeiro lugar, somos finitos em nossa memória e no tempo que
temos disponível.

A razão básica para estudar teologia sistemática, então, é que ela


nos capacita a ensinar a nós próprios e a outros sobre o que a
totalidade do que a Bíblia diz, cumprindo assim a segunda parte da
Grande Comissão.

2. OS BENEFÍCIOS PARA NOSSA VIDA

Embora a razão básica para estudar teologia sistemática seja que


ela é um meio de obediência à ordem de nosso Senhor, há alguns
benefícios adicionais que surgem de tal estudo.

1) Primeiro, estudar teologia ajuda-nos a derrotar nossas ideias


erradas. Por haver pecado em nosso coração e porque temos
conhecimento incompleto da Bíblia, todos nós de vez em
quando resistimos ou nos recusamos a aceitar certos ensinos
da Escritura. Por exemplo, podemos ter somente um
entendimento vago a respeito de certa doutrina, o que torna
mais fácil resistir a ela, ou talvez saibamos somente um
versículo a respeito do tópico e então tentamos atenuá-la. E de
grande ajuda para nós sermos confrontados com o peso total
do ensino da Escritura sobre um assunto de forma que sejamos
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prontamente persuadidos mesmo contra nossas inclinações


iniciais erradas.

2) Segundo, estudar teologia sistemática ajuda-nos a ser capazes


de tomar decisões melhores mais tarde sobre novas questões
doutrinárias que possam surgir. Não podemos saber o que
novas controvérsias doutrinárias trarão à tona no futuro. Essas
novas controvérsias algumas vezes poderão incluir perguntas
que ninguém havia enfrentado antes. Para responder de
maneira apropriada a essas questões, os cristãos deverão
perguntar: "O que a totalidade da Bíblia diz a respeito desse
assunto?".

Quaisquer que sejam as novas controvérsias doutrinárias nos


anos futuros, os que tiverem aprendido bem teologia sistemática
serão muito mais hábeis para responder às novas questões que
surgirão. Isso se deve à grande consistência da Bíblia; tudo o
que a Bíblia diz é de alguma forma relacionado a tudo o mais
que ela diz. Assim, as novas questões serão relacionadas a
muito do que já tem sido aprendido da Bíblia. Quanto mais
minuciosamente o material anterior tiver sido aprendido, mais
capazes seremos de tratar essas novas questões.

Esse benefício se estende de maneira até mais ampla.


Enfrentamos problemas em aplicar a Escritura à vida em muitos
mais contextos que as discussões doutrinárias formais. O que a
Bíblia ensina a respeito do relacionamento entre marido e
mulher? A respeito de como criar filhos? A respeito de
testemunhar ao colega de trabalho? Que princípios a Escritura
nos dá ao estudarmos psicologia, economia ou as ciências
naturais? Como ela nos orienta em relação a gastar o nosso
dinheiro, poupá-lo ou dizimá-lo? A Bíblia nos dá princípios que
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

se aplicam a cada área de nossa vida, e os que aprenderem


bem os ensinos teológicos da Bíblia serão muito mais capazes
de tomar decisões que agradem a Deus nessas áreas práticas
da ética também.

3) Terceiro, estudar teologia sistemática nos ajudará a crescer


como cristãos. Quanto mais conhecemos a respeito de Deus, a
respeito de sua Palavra, a respeito de seu relacionamento com
o mundo e com a humanidade, maior será a nossa confiança
nele, mais plenamente o louvaremos e mais prontamente
obedeceremos a ele. Estudar teologia sistemática da forma
correta nos fará cristãos mais maduros. Se isso não acontecer,
é porque não estamos estudando do modo como Deus quer.

De fato, a Bíblia muitas vezes conecta sã doutrina com


maturidade na vida cristã. Paulo fala de "ensino que é segundo
a piedade" (lTm 6.3) e diz que sua obra como apóstolo é "levar
os eleitos de Deus à fé e ao conhecimento da verdade que
conduz à piedade" (Tt 1.1). Por contraste, ele indica que toda
espécie de desobediência e imoralidade é contrária à sã
doutrina (lTm 1.10).

I. COMO DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA SISTEMÁTICA?

A Bíblia proporciona algumas diretrizes para responder a essa pergunta.

1. COM ESPÍRITO DE ORAÇÃO

Devemos estudar teologia sistemática com espírito de oração. Se


estudar teologia sistemática é simplesmente certo modo de estudar
a Bíblia, as passagens na Escritura que falam a respeito do modo
pelo qual devemos estudar a Palavra de Deus dão-nos orientação
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nessa tarefa. Do modo como o salmista orou em Salmos 119.18:


"Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da tua lei",
assim também devemos orar e procurar a ajuda de Deus no
entendimento de sua Palavra. Paulo nos diz em I Coríntios 2.14 que
"quem não tem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito
de Deus, pois lhe são loucura; e não é capaz de entendê-las, porque
elas são discernidas espiritualmente". Estudar teologia é, portanto,
uma atividade espiritual na qual precisamos da ajuda do Espírito
Santo.

Não importa quão inteligente o aluno seja, se ele não continuar a


suplicar a Deus para dar-lhe mente que entenda e o coração
humilde para crer, se o aluno não mantiver o andar pessoal com o
Senhor, os ensinos da Escritura serão entendidos erroneamente,
ele não crerá neles, erros doutrinários aparecerão, e a mente e o
coração do aluno não serão mudados para melhor, mas para pior.
Os estudantes de teologia sistemática devem resolver, desde o
princípio, manter sua vida livre de qualquer desobediência a Deus
ou de qualquer pecado conhecido que possa trazer ruptura em seu
relacionamento com ele. Devem resolver manter com grande
regularidade sua vida devocional.

Devem orar continuamente pedindo por sabedoria e entendimento


da Escritura. Visto que é o Espírito Santo quem nos dá a capacidade
para entender a Escritura, precisamos perceber que o que devemos
fazer, particularmente quando somos incapazes de entender
alguma passagem ou alguma doutrina da Escritura, é orar a Deus
pedindo ajuda. Muitas vezes não necessitamos de mais
informações, e sim mais perspicácia para as que já temos
disponíveis. Essa perspicácia é dada somente pelo Espírito Santo
(v. 1 Co 2.14; Ef 1.17-19).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

2. DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA SISTEMÁTICA COM


HUMILDADE

Pedro nos diz: "Sejam todos humildes uns para com os outros,
porque 'Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos
humildes'" (lPe 5.5). Os que estudam teologia sistemática
aprenderão muitas coisas a respeito dos ensinos da Escritura que
talvez não sejam conhecidas, ou que não sejam bem conhecidas
por outros cristãos em suas igrejas ou por parentes que conhecem
ao Senhor há mais tempo que eles. Eles podem também se ver na
situação de entender coisas a respeito da Escritura que alguns dos
líderes da igreja deles não entendem, e que mesmo o pastor deles
se esqueceu ou nunca aprendeu bem.

Em todas essas situações, seria muito fácil adotar uma atitude de


orgulho ou de superioridade para com os outros que não estudaram
dessa maneira. Mas seria muito feio se alguém usasse esse
conhecimento da Palavra de Deus simplesmente para vencer nos
argumentos, para derrubar um cristão na discussão, ou fazer com
que outro crente se sentisse diminuído na obra do Senhor. O
conselho de Tiago é bom para nós neste ponto: "Meus amados
irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir,
tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não
produz a justiça de Deus" (Tg 1.19,20). “Ele nos diz que o
entendimento que a pessoa tem da Escritura deve ser comunicado
em humildade e amor.” Quem é sábio e tem entendimento entre
vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante
obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. [...]
Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois,
pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

frutos, imparcial e sincera. “O fruto da justiça semeia-se em paz para


os pacificadores” (Tg 3.13,17,18). A teologia sistemática estudada
corretamente não levará ao conhecimento que traz "orgulho" (1 Co
8.1), mas para a humildade e amor pelos outros.

3. DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA SISTEMÁTICA COM A


RAZÃO

Podemos verificar no NT que Jesus e os autores do NT muitas


vezes citam um versículo da Escritura e a seguir tiram conclusões
teológicas dele. Eles raciocinam sobre a Escritura. Não é, portanto,
errado usar o entendimento, a lógica e a razão para retirar
conclusões das afirmações da Escritura. Não obstante, quando
raciocinamos e extraímos o que pensamos ser as deduções lógicas
corretas da Escritura, às vezes podemos cometer erros. As
deduções que fazemos das afirmações da Escritura não são iguais
às próprias afirmações da Escritura; com a certeza e a autoridade
dela, pois nossa capacidade de raciocinar e de tirar conclusões não
é o padrão final — somente a Escritura o é. Quais são, então, os
limites do uso de nossas habilidades de raciocinar para tirar
conclusões das afirmações da Escritura? O fato de que raciocinar
para tirar conclusões que vão além das meras afirmações da
Escritura é apropriado para estudar a Escritura e o fato de que a
Escritura em si mesma é o padrão final da verdade demonstram
ambos que somos livres para usar nossa capacidade de raciocínio
para tirar conclusões de qualquer passagem da Escritura enquanto
essas deduções não contradigam o ensino claro de outras
passagens da Escritura.

Esse princípio delimita o uso do que pensamos ser dedução lógica


da Escritura. Nossas supostas deduções lógicas podem ser
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

errôneas, mas a Escritura em si mesma não pode errar.

4. DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA SISTEMÁTICA COM A


AJUDA DE OUTROS

Precisamos ser agradecidos por Deus ter colocado mestres na


igreja: "Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente
apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres."
(ICo 12.28). Devemos permitir que pessoas com esses dons nos
ajudem a entender a Escritura. Isso significa que devemos fazer uso
das teologias sistemáticas e de outros livros escritos por alguns dos
grandes mestres que Deus deu à igreja no decurso da história.
Significa também que o nosso estudo de teologia deveria incluir
conversas com outros cristãos a respeito de coisas que estudamos.
Entre aqueles com quem conversamos estarão certamente pessoas
com dons de ensino que podem explicar os ensinos bíblicos e nos
ajudar a entendê-los mais facilmente. De fato, alguns dos
aprendizados mais efetivos em cursos de teologia sistemática
oferecidos nas universidades e nos seminários muitas vezes
ocorrem fora da sala de aula, nas conversações informais entre
estudantes que tentam entender por si mesmos as doutrinas da
Bíblia.

5. DEVEMOS ESTUDAR TEOLOGIA SISTEMÁTICA COLETANDO


E ENTENDENDO TODAS AS PASSAGENS RELEVANTES DA
ESCRITURA SOBRE UM TÓPICO.

Este ponto foi mencionado em nossa definição de teologia


sistemática no começo do capítulo, mas o processo real precisa ser
mencionado aqui. Como alguém empreenderia a tarefa de esboçar
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

o sumário teológico de todas as passagens que a Escritura ensina


sobre determinado tópico? Pois os tópicos aqui abordados levarão
muitas pessoas a pensar que simplesmente estudar os capítulos
deste livro e ler os versículos bíblicos anotados neles seja o
suficiente. Mas certas pessoas quererão fazer um estudo adicional
da Escritura sobre um tópico específico ou estudar um tópico novo
não estudado aqui. Como poderia um estudante empenhar-se em
usar a Bíblia para pesquisar os seus ensinos sobre alguns assuntos
novos, talvez um assunto não discutido explicitamente em qualquer
de seus compêndios de teologia sistemática?

O processo seria mais ou menos assim:

1) Procure todos os versículos relevantes. A melhor ajuda nesse


passo é uma boa concordância, com a qual pode-se encontrar
as palavras-chave e os versículos nos quais o assunto é tratado.
Por exemplo, no estudo sobre o que significa o homem ser
criado à imagem e semelhança de Deus, deve-se encontrar
todos os versículos em que as palavras imagem, semelhança e
criar ocorrem. (As palavras homem e Deus ocorrem tantas
vezes que, nesse caso, não seriam úteis.) No estudo da
doutrina da oração, muitas palavras podem ser pesquisadas
{orar, oração, interceder, petição, súplica, confessar, confissão,
louvor, agradecimento, ação de graças etc.) — e talvez a lista
de versículos crescesse demasiadamente para ser manejável,
de forma que o estudante teria de folhear os verbetes da
concordância sem prestar atenção aos versículos; assim, a
pesquisa provavelmente teria de ser dividida em seções ou
limitada de alguma outra forma. Também podemos encontrar os
versículos percorrendo a história total da Bíblia e a seguir
voltando para as seções onde haveria informação sobre o tópico
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

em vista — por exemplo, o estudante que pesquisa sobre a


oração desejaria ler passagens como a da oração de Ana por
um filho (1 Sm 1), a oração de Salomão na dedicação do templo
(lRs 8), a oração de Jesus no jardim do Getsêmani (Mt 26 e
paralelas), e assim por diante. Enfim, em adição à consulta da
concordância e à leitura de outras passagens que alguém pode
encontrar sobre o assunto, verificar as seções relevantes em
livros de teologia sistemática frequentemente traz à luz outros
versículos que haviam sido esquecidos, às vezes porque
nenhuma dessas palavras-chave usadas pela concordância
estava nesses versículos.

2) O segundo passo é ler, anotar e tentar sintetizar os pontos


destacados nos versículos relevantes. Com frequência um tema
será repetido muitas vezes e o sumário de vários versículos
será relativamente fácil. Em outros casos, haverá versículos
difíceis de entender, e o estudante precisará tomar algum tempo
para estudar um versículo mais profundamente (apenas lendo
o versículo no contexto várias vezes ou usando ferramentas
especializadas como comentários e dicionários) até que seja
alcançado o entendimento satisfatório.

3) Finalmente, os ensinos dos vários textos devem ser


sumarizados em um ou mais pontos que a Bíblia afirma a
respeito desse assunto. O sumário não tem de tomar a forma
exata das conclusões de outra pessoa sobre o assunto, porque
individualmente podemos ver coisas na Escritura que outros
não veem, ou podemos organizar o assunto de modo diferente,
ou enfatizar coisas diferentes. Nesse ponto também será útil ler
as seções relacionadas, se for possível encontrá-las, nos
diversos livros de teologia sistemática. Isso proporciona a
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

verificação útil dos erros e dos descuidos e, muitas vezes, torna


a pessoa cônscia de outras perspectivas e argumentos que
podem fazer-nos modificar ou fortalecer nossa posição. Se o
estudante descobre que outros argumentam a favor de
conclusões muitíssimo diferentes, então essas outras posições
precisam ser afirmadas com precisão e, a seguir, respondidas.
Às vezes outros livros de teologia vão nos alertar para
considerações históricas ou filosóficas levantadas
anteriormente na história da igreja que proporcionarão
esclarecimento adicional ou advertências contra o erro.

O processo esboçado acima é possível para qualquer cristão


que leia sua Bíblia e saiba acessar palavras numa
concordância. Obviamente, as pessoas se tornarão mais
rápidas e mais exatas nesse processo com o tempo, com a
experiência e com a maturidade cristã, mas seria de tremenda
ajuda para a igreja se os cristãos em geral dedicassem mais
tempo a procurar por si mesmos tópicos na Escritura, tirando
conclusões do modo esboçado acima. A alegria da descoberta
de temas bíblicos seria ricamente recompensadora.
Especialmente pastores e os que conduzem estudos bíblicos
haveriam de encontrar frescor adicional no entendimento da
Palavra e no seu ensino.

4) Devemos estudar teologia sistemática com alegria e louvor. O


estudo da teologia não é meramente exercício intelectual ou
mental. É o estudo do Deus vivo e das maravilhas de todas as
suas obras na criação e na redenção. Não podemos estudar
essa matéria como se o coração e a mente não estivessem
envolvidos! Devemos amar tudo o que Deus é, tudo o que ele
diz e tudo o que ele faz: "Ame o SENHOR, O seu Deus, de todo
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças"


(Dt 6.5). Nossa resposta ao estudo da teologia da Escritura
deveria ser a do salmista, que disse: "Como são preciosos para
mim os teus pensamentos, ó Deus!" (Sl 139.17). No estudo dos
ensinos da Palavra de Deus, não deveria surpreender-nos se
muitas vezes encontrássemos expressões de louvor e de
encantamento brotando de nosso coração como estas do
salmista:

Os preceitos do SENHOR são justos, e dão alegria ao coração.


(SL 19.8)

Regozijo-me em seguir os teus testemunhos como o que se


regozija com grandes riquezas. (Sl 119.14)

Como são doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais


que o mel para a minha boca! (Sl 119.103)

Os teus testemunhos são a minha herança permanente; são a


alegria do meu coração. (Sl 119.111)

Eu me regozijo na tua promessa como alguém que encontra


grandes despojos. (SI 119.162)

Muitas vezes, no estudo da teologia, a resposta do cristão


deveria ser similar à de Paulo na reflexão sobre o longo
argumento teológico que ele havia recentemente completado
no final de Romanos 11.32.

Ele prorrompe num louvor cheio de alegria pela riqueza da


doutrina que Deus o havia capacitado a expressar: Ó
profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de
Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os
seus caminhos! "Quem conheceu a mente do Senhor? Ou
quem foi seu conselheiro?" "Quem primeiro lhe deu, para que
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

ele o recompense?" Pois dele, por ele e para ele são todas as
coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém. (Rm 11.33-36)
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 02

BIBLIOLOGIA: A DOUTRINA DAS ESCRITURAS (1)

REVELAÇÃO

A. INTRODUÇÃO

Se Deus não tivesse se dado a conhecer, nós jamais o conheceríamos.


Revelação é, portanto, o processo pelo qual Deus se mostra e se
comunica ao Homem. A possibilidade do estudo do Deus verdadeiro se
deve ao fato dEle ter permitido que os homens o conheçam. Esta
possibilidade do conhecimento, do caráter, vontade, desígnios e verdade
de Deus se chama “Revelação”.

O propósito de Deus ter-se revelado ao homem foi que o Homem O


conheça, e aceite o plano dEle para sua vida, a Revelação Especial que
é Jesus Cristo. Seu Deus não tomasse a iniciativa de se revelar ou
manifestar ao homem, a criatura jamais conheceria seu criador, e
eternamente longe e perdido dEle andaria.

A Revelação, no entanto, pode ser tanto “geral” como “especial”.

B. REVELAÇÃO GERAL

É a Revelação de alguns dos atributos de Deus ao Homem de formas


naturais ou não, e que não possui caráter salvífico em si, ou seja, que
não salva o homem.

A Revelação Geral mostra a solidão em que o homem se encontra e a


necessidade de uma busca ‘especial’ do plano de salvação que Deus
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

elaborou, e também da sua verdade e vontade.

A Revelação Geral é comunicada a todo homem inteligente, por meio de


fenômenos naturais e não naturais, e também no decorrer da história.

A Revelação Geral é também encontrada na natureza na história e na


consciência do homem.

1. NATUREZA

Muitos homens extraordinários apontam o universo como uma


manifestação do poder, glória e divindade de Deus. A perfeição da
natureza deixa o homem sem desculpas para buscar uma revelação
mais ‘especial’ do criador.

“Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as


obras das suas mãos”. Salmo 19: 1

2. HISTÓRIA

Impérios nasceram e desapareceram; nações, povos e reinos


passaram pela história, e nela também Deus tem se manifestado
com justiça. Na história o sistema cristão encontra uma revelação
do poder, da soberania e da providência de Deus.

“Por que não é do Oriente, não é do Ocidente, nem do deserto que


vem o auxílio. Deus é o Juiz: a um abate, a outro exalta”. Salmo 75:
6,7.

“...de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face
da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os
limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura,
tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de
nós” Atos 17: 26,27.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

3. CONSCIÊNCIA

A consciência humana não inventa coisas; e sim, atua com base


num padrão (certo X errado). Essa ciência revela o fato de que há
uma Lei absoluta no universo, e que há um Legislador Supremo que
baseia esta Lei em sua própria pessoa e caráter.

“... os gentios (...) não tendo leis servem eles de leis para si
mesmos; eles mostram a norma da lei gravada nos seus corações,
testemunhando-lhes também a consciência, e seus pensamentos
mutuamente acusando-se ou defendendo-se” Romanos 2: 14 – 15.

C. REVELAÇÃO ESPECIAL

É a Revelação da pessoa de Deus em Jesus Cristo, com o objetivo


‘especial’ de dar ao homem o único meio para sua salvação.

A Revelação Especial é encontrada nas “Escrituras” e em “Jesus Cristo”.

1. JESUS CRISTO

Usamos aqui ‘Jesus Cristo’ para descrever o centro da história e da


Revelação... Ele é a melhor prova da existência de Deus, pois Ele
viveu a vida de Deus entre os homens.

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas


maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou
pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual
também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a
expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela
palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados,
assentou-se à direita da Majestade, nas alturas” Hebreus 1: 1 – 3.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está


sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro,
Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” Isaías 9: 6.

“Disse-lhes Jesus: (...) Quem me vê a mim, vê o Pai...” João 14:9.

2. ESCRITURAS

Usamos aqui ‘Escrituras’ para descrever a Revelação mais clara e


infalível na comunicação de Deus ao Homem. Ela descreve o
relacionamento de Deus com a sua criatura e a sua iniciativa em
revelar ao homem seu caráter, natureza e vontade.

“Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo


morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi
sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” 1
Coríntios 15: 3,4.

A Revelação de Deus teve então uma incorporação por escrito na


Bíblia. Ela é a base do cristianismo e de todas as suas doutrinas.
Portanto é a fonte suprema para a Teologia. Por isso é muito
importante um conceito certo e sua interpretação exata e correta.

A Revelação Bíblica é Deus tornando conhecidos os Seus


pensamentos, Suas intenções, Seus desígnios, Seus mistérios
(Is.55:8-9, Rm.11:33-34, Ap.1:1). A Bíblia é a mensagem de Deus
em palavras humanas.

Etimologicamente, revelação vem do latim revelo, que significa


descobrir, desvendar, levantar o véu. Revelação significa, portanto,
descobrimento, manifestação de algo que está escondido.

Revelação é o ato pelo qual Deus torna conhecido um propósito ou


uma verdade. Por exemplo:
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Simeão disse: “...luz para revelação aos gentios, e para glória do


teu povo de Israel” (Lc 2.32).

Paulo disse: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por


mim anunciado não é segundo o homem, porque eu não o recebi,
nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus
Cristo”.

E ainda: “...pois, segundo uma revelação, me foi dado conhecer o


mistério, conforme escrevi há pouco, resumidamente” (Ef 3:3 e Gl
1:11,12).

Revelação é o ato pelo qual Deus faz com que alguma coisa seja
claramente entendida – “Mas o seu coração é duro e teimoso. Por
isso você está aumentando ainda mais o castigo que vai sofrer no
dia em que forem revelados a ira e os julgamentos justos de Deus”
(Rm 2.5 NTLH).

Revelação é, também a explicação ou apresentação de verdades


divinas:

1) O Salmista disse: “A revelação das tuas palavras esclarece e dá


entendimento aos simples” (119.130).

2) Paulo: “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem


salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua,
e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação”
(1Co 14.26).

Revelação é a operação divina que comunica ao homem fatos que


a razão humana é insuficiente para conhecer. É, portanto, a
operação divina que comunica a verdade de Deus ao homem.

“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em


coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o
amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus”


(1Co.2:10).

D. PROVAS DA REVELAÇÃO

O diabo foi o primeiro ser a pôr em dúvida a existência da revelação: "É


assim que Deus disse?" (Gn.3:1). Mas a Bíblia é, de fato, a Palavra de
Deus revelada. Vejamos alguns argumentos:

1. A INDESTRUTIBILIDADE DA BÍBLIA

Uma porcentagem muito pequena de livros sobrevive além de um


quarto de século, e uma porcentagem ainda menor dura um século,
e uma porção quase insignificante dura mil anos. A Bíblia, porém,
tem sobrevivido em circunstâncias adversas por mais de três
milênios. Em 303 d.C. o imperador Dioclécio decretou que todos os
exemplares das Sagradas Escrituras fossem queimados em praça
pública. “As cinzas daquele crime tornou-se o combustível da
divulgação” (Agnaldo). A Bíblia já foi traduzida para mais de mil
idiomas e dialetos, e ainda continua sendo o livro mais lido do
mundo.

2. A NATUREZA DA BÍBLIA

1) Ela é superior: Ela é superior a qualquer outro livro do mundo.


O mundo, com sua sabedoria e vasto acúmulo de conhecimento
nunca foi capaz de produzir um livro que chegue perto de se
comparar a Bíblia.

2) É um livro honesto: Pois revela fatos sobre a corrupção humana,


fatos que a natureza humana teria interesse em acobertar.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

3) É um livro harmonioso: Pois embora tenha sido escrito por uns


quarenta autores diferentes, por um período de 1.600 anos, ela
revela ser um livro único que expressa um só sistema
doutrinário e um só padrão moral, coerentes e sem
contradições.

4) A Influência da Bíblia: O Alcorão, o Livro dos Mórmons, os


Clássicos de Confúcio, todos tiveram influência no mundo.
Estes, porém, conduziram a uma ideia apagada de Deus e do
pecado, ao ponto de ignorá-los. A Bíblia, porém, tem produzido
altos resultados em todas as esferas da vida: na arte, na
arquitetura, na literatura, na música, na política, na ciência e,
principalmente na transformação do homem.

5) Argumento da Analogia: Os animais inferiores expressam entre


si, com gestos e sons, seus diferentes sentimentos. Entre os
racionais existe comunicação direta de um para o outro, quer
por meio das expressões faciais e corporais, quer pela
revelação de pensamentos e sentimentos.

Consequentemente é de se esperar que exista, por analogia,


uma revelação direta de Deus e o homem, uma vez que o
homem é a imagem de Deus. Portanto, é natural supor que o
Criador sustente relação pessoal com Suas criaturas racionais.

6) Argumento da Experiência: O homem é incapaz por sua própria


força descobrir que:

Precisa ser salvo;

Pode ser salvo;

Há salvação.

Somente a revelação pode desvendar estes mistérios eternos.


A experiência do homem tem demonstrado que a tendência da
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

natureza humana é degenerar-se, e seu caminho ascendente


se sustenta unicamente quando é voltado para cima em
comunicação direta com a revelação de Deus.

7) Argumento da Profecia Cumprida: Mais de 300 profecias a


respeito de Cristo registradas nas Escrituras já se cumpriram
integralmente. E dentre essas profecias, a mais próxima do
nascimento de Cristo foi pronunciada 396 anos antes de seu
cumprimento. Além disso, as profecias a respeito da dispersão
de Israel também, se cumpriram (Dt.28; Jr.15:4; l6:13; Os.3:4
etc); da conquista de Samaria e preservação de Judá (Is.7:6-8;
Os.1:6,7; 1Rs.14:15); do cativeiro babilônico sobre Judá e
Jerusalém (Is.39:6; Jr.25:9-12); sobre a destruição final de
Samaria (Mq 1:6-9); sobre a restauração de Jerusalém
(Jr.29:10-14), etc.

8) Reivindicações da Própria Escritura: A própria Bíblia expressa


sua infalibilidade, reivindicando autoridade. Nenhum outro livro
ousa fazê-lo. Encontramos essa reivindicação na seguintes
expressões: "Disse o Senhor a Moisés" (Ex.14:1,15,26; 16:4;
25:1; Lv.1:1; 4:1; 11:1; Nm.4:1; 13:1; Dt.32:48) "O Senhor é
quem fala" (Is.1:2); "Disse o Senhor a Isaías" (Is.7:3); "Assim diz
o Senhor" (Is.43:1).

Outras expressões semelhantes são encontradas:

"Palavra que veio a Jeremias da parte do Senhor" (Jr.11:1);


"Veio expressamente a Palavra do Senhor a Ezequiel" (Ez.1:3);
"Palavra do Senhor que foi dirigida a Oséias" (Os.1:1); "Palavra
do Senhor que foi dirigida a Joel" (Jl.1:1), etc. Expressões
como estas são encontradas mais de 3.800 vezes no Antigo
Testamento. Portanto o A.T. afirma ser a revelação de Deus, e
essa mesma reivindicação faz o Novo Testamento: “Outra razão
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é


que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é
de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como,
em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está
operando eficazmente em vós, os que credes” (1Ts.2:13);
“Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho.
Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso, porque não
crê no testemunho que Deus dá acerca do seu Filho” (1Jo.5:10).

3. A BÍBLIA É A REVELAÇÃO ESCRITA DE DEUS E, COMO TAL,


ABRANGE IMPORTANTES ASPECTOS:

1) Ela é variada: Variada em seus temas, pois abrange aquilo que


é doutrinário, devocional, histórico, profético e prático.

2) Ela é parcial: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR,


nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a
nossos filhos, para sempre...” (Dt.29:29).

3) Ela é completa: Naquilo que já foi revelado (Cl.2:9,10);

4) Ela é progressiva: (Mc.4:28).

5) Ela é definitiva: (Jd.3).

4. POR QUE ERA NECESSÁRIO UM REGISTRO ESCRITO?

Deus, em sua grande sabedoria, nos fornece um registro escrito de


sua revelação. O teólogo holandês Abraão Kuyper nota quatro
vantagens de um registro escrito:

1) Ele dura. São eliminados erros de memória e erros de


transmissão (“telefone sem fio”).

2) Pode ser divulgado universalmente através de traduções e


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

reproduções.

3) Possui atributos de fixação e pureza.

4) Recebe uma finalidade normativa (legislativa) que outras


formas de comunicação não conseguem alcançar.

5. A BÍBLIA COMO REVELAÇÃO DE DEUS

Deus usou homens santos para escreverem a Sua Palavra.


“Nenhuma profecia da Escritura provém da particular elucidação;
porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade
humana; entretanto, homens (santos) falaram da parte de Deus,
movidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1: 20 – 21). Particular
elucidação refere-se à origem das Escrituras, não à compreensão
das mesmas. Ao longo do Antigo Testamento, os escritores
referiram- se ao seu trabalho como a Palavra de Deus.

“... a lei, nem as palavras do SENHOR dos EXÉRCITOS enviará


pelo seu espírito, mediante os profetas que nos precederam”
(Zacarias 7: 12). O meio utilizado por Deus para comunicar a Sua
Palavra foi o Espírito Santo e através dos homens. Deus garantiu
que o que foi escrito pelos homens é exatamente o que Ele quis
comunicar.

A Bíblia é Deus revelando a Verdade para o Homem – sendo


suficiente para cada necessidade humana. Nada, no que diz
respeito ao homem, é perfeito, nada é absoluto, nada é permanente.
Com o passar dos anos, mudam-se as decisões, os costumes, os
valores, a linguagem, os conceitos e até as mais obstinadas
afirmações. Hoje o homem “diz”; amanhã ele mesmo se contradiz.
A criatura é assim, mas não o Criador! O Senhor, nosso Deus é
perfeito, imutável e Suas Palavras permanecem para sempre.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Muitos se frustraram na insana tentativa de querer “mudar”,


desacreditar, distorcer ou até deter a influência da Santa Palavra de
Deus. Impossível! Não há como negá-la... não há como detê-la...
e não há como ignorá-la!

Voltaire, famoso filósofo e escritor francês (1694-1778), bem que


tentou desacreditá-la, afirmando pretensiosamente: “A Bíblia é uma
obra morta, e em menos de 100 anos cairá no mais completo
esquecimento”. Veja como são as coisas; passados pouco mais de
50 anos de sua morte, a própria residência de Voltaire se
transformou na Sociedade Bíblica da França e sua imprensa
particular passou a produzir tão somente Bíblias... Bíblias aos
milhares.

Afinal, que Livro é esse que tanto fascina a humanidade? Como


pode uma obra tão antiga manter-se tão atual e relevante? E como
explicar que o Livro mais lido e estudado na história tenha ainda
tantas coisas novas a ensinar? Como foi escrito? Quando foi
escrito? Quem o escreveu? Como chegou até nós? Essas e outras
indagações serão respondidas ao longo de nossos estudos.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 03

BIBLIOLOGIA: A DOUTRINA DAS ESCRITURAS (2)

INSPIRAÇÃO

A. INTRODUÇÃO

“Significa que todos os escritores da Bíblia foram capacitados e


controlados pelo Espírito Santo na produção dos escritos originais,
usando suas próprias personalidades faculdades mentais, recebendo
autoridade divina e infalível” (Bancroft – Teologia Elementar). Deus
supervisionou, dirigiu autores humanos, usando suas próprias
personalidades, sua cultura, seu contexto de vida, de modo que eles
compuseram e registraram – sem erro – a Sua Revelação nas palavras
dos documentos originais das Escrituras.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a


repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o
homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa
obra.” (2 Timóteo 3: 16 – 17) – A palavra Escritura aparece cerca de 50
vezes no Novo Testamento; e a maioria delas se refere ao Antigo
Testamento. Contudo, às vezes esta se refere também ao próprio Novo
Testamento: 1 Timóteo 5: 18; 2 Pedro 3: 16. Quando Paulo escreveu 2
Timóteo praticamente todo o Novo Testamento já estava escrito, à
exceção de 2 Pedro, Hebreus, Judas e os escritos de João. Então o
apóstolo estava afirmando que todo o Antigo Testamento e tudo o que
já havia sido escrito do Novo Testamento era inspirado por Deus.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

“... inspirada por Deus...” (gr. Theopneustos = “soprada por Deus”. O que
Deus é? Verdade (Romanos 3: 4). Se alguém que é em Si mesmo
verdade, sopra palavras, que tipo de palavras serão? (João 17: 17).
Deus nos concedeu a Sua Revelação através de palavras. “Disto
também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana,
mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com
espirituais.” 1 Coríntios 2: 13.

O ‘sopro’ de Deus é uma metáfora comum no Antigo Testamento,


quando refere-se aos atos de Deus, particularmente através do seu
Espírito (Gn 2: 7; Jô 33: 3; Sl 33: 6). A afirmação de que a Escritura é
inspirada confirma sua origem e caráter divinos e implica algo mais forte
do que a palavra inspiração. Mais corretamente, as Escrituras são
“expiradas”, isto é, sopradas por Deus. Notem que as Sagradas
Escrituras são o objeto da ação de Deus; os próprios escritores não são
mencionados. Os homens estavam envolvidos, é claro, mas aqui a
formação da Escritura é associada inteiramente à atividade de Deus.
Notem também a abrangência da inspiração. “Toda” Escritura é produto
do “sopro” de Deus; neste contexto, isso significa o Antigo Testamento
inteiro, bem como as partes do Novo Testamento já escritas.

2 Pedro 1: 19 – 21 confirma e estende essas reivindicações. A palavra


das testemunhas oculares é inferior à “palavra profética”, uma referência
ao Antigo Testamento em geral. Ele não surgiu das reflexões particulares
dos escritores, mas “homens (santos) falaram da parte de Deus movidos
pelo Espírito Santo.” Em Atos 27: 15 o termo “movido” descreve o
movimento de um navio arrastado por uma tempestade. Não devemos
querer extrair demasiado desta imagem, mas trata-se claramente de
uma forte confirmação da atividade divina na produção das Escrituras,
estendendo-se novamente ao conjunto total dos manuscritos
relacionados.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

João 10: 34 – 36 registra a discussão quanto ao uso da palavra “deus”


na Lei, neste caso no Salmo 82. Jesus argumenta que a autoridade da
Lei não pode ser anulada porque “a Escritura não pode falhar”. Ele
expressa a mesma convicção quando compara as palavras do Antigo
Testamento com as de Deus: “(o Criador) disse” (Mt 19: 5).

O reconhecimento da autoridade e inspiração divina de todo o conjunto


dos escritos do Antigo Testamento por parte de Jesus foi documentado
antes, estendendo-se também esta reivindicação de inspiração divina ao
Novo Testamento. A consciência da autoridade soberana do próprio
Jesus e sua afirmação de falar exatamente as palavras de Deus, sua
promessa do Espírito para esclarecer os apóstolos, a vinda do Espírito
sobre eles, as reivindicações destes quanto à Iluminação especial do
Espírito em seus ensinos, o reconhecimento por parte deles da
autoridade divina especial nos escritos apostólicos: tudo isso aponta
para a mesma atividade inspiradora da parte de Deus no caso do Novo
Testamento. Assim sendo, a Bíblia inteira chega a nós reivindicando sua
inspiração divina. É um documento “soprado” por Deus.

1. OS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO

Uma percepção de como esta atividade de inspiração divina veio a


agir sobre os autores bíblicos pode ser conseguida através de um
estudo dos profetas do Antigo Testamento.

A essência da inspiração profética é expressada em Jeremias 1: 5


– 9: “Te constituí profeta às nações... Eis que ponho em tua boca
as minhas palavras”. (cf. Is 6: 8; Ez 2). Daí o hábito dos profetas de
iniciarem sua mensagem com a frase: “Assim diz o Senhor”. “A
palavra do Senhor” vinha a eles constantemente e seus oráculos
são geralmente transmitidos na forma de uma mensagem direta de
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Deus a seu povo. Os profetas foram de tal modo envolvidos e


tomados por Deus e pela sua Palavra que, sob a inspiração do
Espírito, a mensagem deles era efetivamente identificada como um
pronunciamento do próprio Deus.

2. A PROFECIA (REVELAÇÃO) NOS DIAS DE HOJE

Profeta significa aquele que fala movido por alguém. Os profetas


eram representantes de Deus perante o povo. Eram considerados
profetas da “Palavra” e da “escrita”. Os sacerdotes eram
representantes do povo perante Deus.

Não quer dizer que somente fala de assuntos escatológicos, mas


também do presente. Enquanto no Antigo Testamento o profeta
dizia: “Assim diz o Senhor”, e logo passava a dizer o que o Senhor
lhe dissera, hoje o profeta tem em mãos o que o Senhor quer dizer
– a bendita Palavra de Deus. Quando o pregador, que é um profeta
de Deus, usa a Palavra para entregar sua mensagem, é o Senhor
quem está falando através dele. Tudo o que o Senhor precisa dizer
já se encontra em Sua Palavra (Afinal, se Ele tivesse algo mais para
falar Ele poderia ter inspirado o 67º livro da Bíblia!). O profeta de
hoje não é o que faz previsões sobre o futuro, mas alguém que na
unção do Espírito fala do que já foi revelado (1 Co 13:2,9 e 10; 1 Co
14: 1 – 19; Ef 4:11; 1Pe 2.9).

B. TEORIAS DA INSPIRAÇÃO BÍBLICA

1) Como a Bíblia pode ser infalível se ela foi escrita por humanos
falíveis?

O fato de a Bíblia ter sido escrita por seres humanos falíveis,


não faz dela um Livro defeituoso. Afinal de contas, mesmos
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

seres humanos imperfeitos podem fazer coisas perfeitas


algumas vezes, e em especial se forem supervisionados por
Alguém que é infalível.

Os cristãos não afirmam que os homens que escreveram os


livros da Bíblia estavam sempre certos em tudo que disseram
ou fizeram. Nós simplesmente acreditamos que a Bíblia está
certa quando ela afirma que Deus guiou estes homens em sua
tarefa de escrever as Escrituras de modo que o resultado é um
livro infalível. O apóstolo Pedro certamente disse muitas coisas
erradas durante sua vida, mas Deus não permitiu que ele
cometesse nenhum erro quando lhe coube a tarefa de escrever
suas duas epístolas.

Paulo, inspirado por Deus, ao escrever sua segunda epístola a


Timóteo, afirmou clássica que a Bíblia foi produzida por Deus e
não por homens: “Toda Escritura é inspirada por Deus, e é útil
para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a
educação na justiça” (2Tm 3:16)

Podemos definir a inspiração como sendo a supervisão divina


sobre os autores humanos de modo que, usando suas
personalidades individuais, eles compuseram e registraram
sem erro a revelação de Deus ao homem nas palavras dos
autógrafos originais (Charles Ryrie).

Nós não sabemos exatamente como Deus trabalhou para


cumprir o seu propósito de nos prover com uma Bíblia
totalmente acurada. Mas o apóstolo Pedro nos fornece algum
esclarecimento: “Nenhuma profecia jamais foi dada por vontade
humana, mas homens santos, movidos pelo Espírito Santo,
falaram de Deus” (2 Pe :21).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Quanto à inspiração da Bíblia, há várias teorias falsas, que não


podemos simplesmente ignorar, porque se não as
identificarmos, poderemos até ser influenciados por elas em
alguns comentários que lemos. Umas são muito antigas, outras
bem recentes, e ainda outras ainda estão surgindo. Em
algumas dessas teorias, a verdade vem junto com a mentira, de
maneira que muitos descuidados se deixam enganar.

2) Será que Deus encontrou homens excepcionais, dotados de


visão espiritual e dons naturais p/ garantir que a Bíblia fosse
uma obra perfeita? ... ou será que a mente do escritor ficou vazia
de suas próprias ideias enquanto Deus transferia misticamente
todo o conteúdo do que deveriam escrever?

3) Será que ditou cada palavra tal como está escrito na Bíblia? ...
ou será que houve uma parceria intelectual e acadêmica de
cada escritor?

Vejamos, então, as principais teorias da Inspiração Bíblica.

1. TEORIA DA INSPIRAÇÃO NATURAL

Procura explicar a inspiração como sendo um discernimento


superior das verdades morais e religiosas por parte do homem
natural. Assim como tem havido, intelectuais, filósofos, artistas,
músicos e poetas excepcionais, que produziram obras de arte e de
escrita que nunca foram superadas, também em relação as
Escrituras houve homens excepcionais com visão espiritual que, por
causa de seus dons naturais, foram capazes de escrever as
Escrituras.

Refutação: Esta é a noção mais repulsiva de inspiração, pois


enfatiza a autoria humana a ponto de excluir a autoria divina. Esta
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

teoria foi defendida pelos pelagianos e unitarianos. Ë bom que se


diga que os escritores da Bíblia, fossem eles homens simples ou
extremamente cultos, afastaram de si toda glória, confessando ser
Deus o verdadeiro autor de suas palavras (2Sm.23:2; At.1:16;
28:25; Jr.1:9).

2. TEORIA DA INSPIRAÇÃO MÍSTICA OU ILUMINAÇÃO

Inspiração, segundo essa teoria provém da intensificação ou


elevação das percepções religiosas de um crente. Cada crente tem
sua iluminação até certo ponto, dependendo do seu grau de
maturidade espiritual e intimidade com Deus, e mesmo assim
alguns teriam mais percepção do que outros, ainda que fossem
maduros na fé.

Refutação: Se esta teoria fosse verdadeira, qualquer cristão em


qualquer tempo, através muita “vida devocional”, poderia estar
capacitado a escrever livros e cartas no mesmo nível de autoridade
que encontramos nas Escrituras. Schleiermacher foi quem
disseminou esta teoria. Para ele inspiração é "um despertamento e
excitamento da consciência religiosa, diferente em grau e não em
espécie da inspiração piedosa ou sentimentos intuitivos dos
homens santos".

3. TEORIA DA INSPIRAÇÃO DIVINA COMUM

Compara a inspiração que atribuímos aos escritores da Bíblia ao


que hoje entendemos como sendo uma “iluminação” concedida aos
cristãos piedosos, em momentos de oração, adoração, meditação e
reflexão na Palavra... e que os capacita a escrever, ensinar, compor,
etc....
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Refutação: De fato, existe um tipo de “inspiração comum” concedida


pelo Espírito Santo aos que creem e se dedicam ao SENHOR, mas
ela se distingue da inspiração conferida aos escritores da Bíblia e,
pelo menos dois sentidos:

1) Trata-se de uma “inspiração gradativa”, isto é, o Espírito pode


conceder maior ou menor conhecimento e percepção espiritual
ao crente, à medida que este ora, se consagra e se santifica; ao
passo que a inspiração dos escritores da Bíblia não admite
graus: o escritor era ou não era inspirado.

2) A “inspiração comum” pode ser permanente (1Jo 2:27),


enquanto que a inspiração concedida aos escritores da Bíblia
era temporária. Centenas de vezes encontramos esta
expressão dos profetas "e veio a mim a palavra do Senhor...",
indicando o momento em que Deus os tomava para transmitir
sua mensagem.

4. TEORIA DA INSPIRAÇÃO PARCIAL

Ensina que partes da Bíblia são inspiradas e outras não. Afirma


que a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas que apenas contém a
Palavra de Deus.

Refutação: Se esta teoria fosse verdadeira, estaríamos em grande


confusão, porque quem poderia dizer quais as partes que são
inspiradas e as que não o são? A própria Bíblia refuta essa ideia:
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino...” (2Tm
3:16); e também “...nenhuma profecia da Escritura provém de
particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi
dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da
parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (1Pe 1:20,21).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

5. TEORIA DO DITADO VERBAL

Segundo esse pensamento, a inspiração da Bíblia aconteceu como


um ditado literal da Palavra de Deus aos escritores, como uma
espécie de “transe”, onde praticamente não havia lugar para a
atividade intelectual, para a formação acadêmica, nem mesmo para
o estilo de cada escritor.

Refutação: Mas esta atividade e este estilo são patentes em cada


livro. Lucas, por exemplo, fez cuidadosa investigação de fatos
conhecidos (Lc 1:4). Pedro, que tinha uma maneira simplificada de
escrever, fez menção ao estilo mais elaborado do apóstolo Paulo:
“...como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu,
segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes
assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas,
nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes
e instáveis deturpam, como também deturpam as demais
Escrituras, para a própria destruição deles” (1Pe 3:15,16).

Esta falsa teoria faz dos escritores verdadeiras máquinas, que


anotam o que lhes é ditado, sem qualquer noção do que estão
fazendo. Deus não falou com os escritores como quem fala através
de um autofalante. Ele usou também as faculdades mentais dos que
escreveram. A inspiração não anulou a participação do autor, nem
a intenção do escritor diminuiu o poder da inspiração: “Amados,
quando empregava toda a diligência em escrever- vos acerca da
nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-
me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela
fé...” (Jd 1:3).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

6. TEORIA DA INSPIRAÇÃO DAS IDEIAS

Ensina que Deus inspirou as ideias contidas na Bíblia na mente dos


autores... apenas as ideias, mas nenhuma Palavra... Segundo essa
teoria, as palavras registradas por escrito são de responsabilidade
exclusiva dos escritores – eles teriam colocado no papel, à sua
maneira, as ideias que lhes foram inspiradas.

Refutação:

Ora, qual seria a definição mais precisa de PALAVRA? A Palavra é


a expressão do pensamento! Ë a verbalização daquilo que se
pensa!

Mas, como é que uma ideia pode ser formulada sem o uso de
palavras, ainda que no pensamento?

E como é que uma ideia pode ser exposta, em sua exatidão, sem o
uso das palavras que deram vida a essa ideia?

Portanto, uma ideia ou pensamento inspirado só pode ser expresso


por meio de palavras inspiradas. Se Deus deu “ideias inspiradas”,
Ele as deu através de “palavras inspiradas”

Ninguém há que possa separar a palavra da ideia. A inspiração da


Bíblia mão foi somente "pensada", foi também "falada".

... “porque jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana;
entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo
Espírito Santo. Porque jamais qualquer profecia foi dada por
vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de
Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1:21).

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas


maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou
pelo Filho...” (Hb 1:1).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

“Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria


humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais
com espirituais” (1Co 2:13).

7. A TEORIA CORRETA DA INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA

É a chamada teoria da inspiração plena ou verbal. Ensina que todas


as partes da Bíblia são igualmente inspiradas; que os escritores não
funcionaram quais máquinas inconscientes; que houve cooperação
vital e contínua entre eles e o Espírito de Deus que os capacitava.
Afirma que homens santos escreveram a Bíblia com palavras de
seu vocabulário, porém sob uma influência tão poderosa do Espírito
Santo, que o que eles escreveram foi Palavra de Deus. Assim, a
inspiração plena ou verbal é o poder inexplicado do Espírito Santo
orientando e conduzindo os escritores escolhidos por Deus na
transcrição do registro bíblico, quer seja através de observações
pessoais (1Jo.1:1-4)., fontes orais ou verbais (Lc.1:1-4; At.17:18;
Tt.1:12; Hb.1:1).., ou através de revelação divina direta (Ap.1:1-2;
Gl.1:12), preservando-os de erros e omissões, de maneira a garantir
a inerrância das Escrituras, e dando à Bíblia autoridade divina.

Explicar como Deus agiu no homem, é tarefa difícil! Se já é


complicado entender o entrosamento do nosso “ser espiritual” com
o nosso “ser corpóreo” espírito com o corpo é um mistério
inexplicável para os mais sábios, imagine-se o entrosamento do
Espírito de Deus com o espírito do homem! Ao aceitarmos Jesus
como salvador aceitamos também as Escrituras como revelação de
Deus. A inspiração plenária cessou ao ser escrito o último livro do
Novo Testamento. Depois disso nenhum outro escritor, nenhum
outro servo de Deus pode ser considerado inspirado no sentido
bíblico.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

A autoria bíblica é, portanto Divina e Humana, simultaneamente:

1) Autoria Divina: Do lado divino, as Escrituras são a Palavra de


Deus, no sentido de que se originaram nEle e são a expressão
de Sua mente. Em 2Tm.3:16 encontramos a referência a Deus:
"Toda Escritura é divinamente inspirada" (theopneustos =
soprada ou expirada por Deus). A referência aqui é ao que foi
escrito. Então Deus “sopra” Sua Palavra na mente do escritor
(expiração), e este, por sua vez, ao receber este “sopro” inspira
(inala) a Palavra de Deus a qual será processada em uma
mente humana, recebendo dela sua influência, isto é, a maneira
de se expressar.

2) Autoria Humana: Na perspectiva humana vemos certos


indivíduos escolhidos por Deus com a responsabilidade de
receberem (inalarem) a Palavra e transformá-la em escrita. Em
2Pe.1:21 encontramos a referência aos "Homens santos de
Deus que falaram movidos pelo Espírito Santo" (pherô =
movidos ou conduzidos).

A própria Bíblia reconhece a autoria dual (Divina e Humana) em


seu registro. Veja, por exemplo, que Mateus (15:4) registra que
Deus ordenou: “Honra a teu pai e a tua mãe. E quem maldisser a
seu pai ou a sua mãe seja punido de morte”. Mas Marcos (7:10)
registra o mesmo texto dizendo que foi Moisés quem ordenou essa
conduta. E não há contradição – Deus é o autor desse
mandamento, mas Ele usou Moisés para transmiti-lo aos homens.
Em muitas outras passagens percebemos essa dualidade na
autoria da Escrituras (Compare Sl.110:1 com Mc.12:36; Ex.3:6,15
com Mt.22:31; Lc.20:37 com Mc.12:26; Is.6:9,10; At.28:25 com
Jo.12:39-41). Deus opera de modo misterioso usando a vontade
humana, sem anulá-la e sem que o homem perceba que está
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

sendo divinamente conduzido. Neste fenômeno, o homem faz


pleno uso de sua liberdade (Pv.16:1; 19:21; Sl.33:15; 105:25;
Ap.17:17).

C. RESUMINDO

Inspiração é a operação divina que influenciou os escritores bíblicos,


capacitando-os a receber a mensagem divina, e que os moveu a
transcrevê-la com exatidão, impedindo-os de cometerem erros e
omissões, de modo que ela recebeu autoridade divina e infalível,
garantindo a exata transferência da verdade revelada de Deus para a
linguagem humana inteligível (2Co.10:13; 2Tm.3:16; 2Pe.1:20,21).

D. PROVAS DA INSPIRAÇÃO BÍBLICA

1. O TESTEMUNHO DA ARQUEOLOGIA

Dr. Melvin Grove Kyle, um famoso arqueólogo internacional, já disse


que nenhuma descoberta arqueológica nos últimos cem anos
invalidou de algum modo qualquer simples declaração da Bíblia.
Pelo contrário, as descobertas têm confirmado as Sagradas
Escrituras de modo admirável.

2. O TESTEMUNHO DAS VIDAS TRANSFORMADAS

Sua influência sobre o caráter e a conduta de milhares de pessoas


ao longo da história.

3. O TESTEMUNHO DA UNIDADE
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

O fato de ter sido escrita num período de cerca de 1600 anos por
40 autores diferentes, sem qualquer contradição, faz-nos pensar um
pouco.

4. O TESTEMUNHO DAS PROFECIAS BÍBLICAS

João 10: 35. Mais de 300 profecias do Antigo Testamento


convergem para a pessoa do Senhor Jesus Cristo (Lucas 24: 27, 44
–49).

“O problema dos opositores da Bíblia é que eles não têm nada


melhor para oferecer!”

E. A AUTORIDADE E CREDIBILIDADE DAS ESCRITURAS

Dizemos que a Bíblia é um livro que tem autoridade porque ela tem
influência, prestígio e credibilidade (quanto a pureza na transcrição ou
tradução), por isso deve ser obedecida porque procede de fonte infalível
e autorizada.

A autoridade está vinculada à inspiração, canonicidade e credibilidade,


sem os quais a autoridade da Bíblia não se estabeleceria. Assim, por ser
inspirado, determinado trecho bíblico possui autoridade; por ser
canônico, determinado livro bíblico possui autoridade, e por ser
credibilidade, determinadas informações bíblicas possuem autoridade,
sejam históricas, geográficas ou científicas.

Entretanto, nem tudo aquilo que é inspirado é autorizado, pois a


autoridade de um livro trata de sua procedência, de sua autoria, e,
portanto, de sua veracidade. Deus é o Autor da Bíblia, e como tal ela
possui autoridade, mas nem tudo que está registrado na Bíblia procedeu
da boca de Deus. Por exemplo, o que Satanás disse para Eva foi
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

registrado por inspiração, mas não é a verdade (Gn.3:4,5); o conselho


que Pedro deu a Cristo (Mt.16:22); as acusações que Elifaz fez contra
Jó (Jó.22:5-11), etc.

Nenhuma dessas declarações representam o pensamento de Deus ou


procedem dEle (procedem apenas por inspiração), e por isso não têm
autoridade. Um texto também perde sua autoridade quando é retirado
de seu contexto e lhe é atribuído um significado totalmente diferente
daquele que tem quando inserido no contexto. As palavras ainda são
inspiradas, mas o novo significado não tem autoridade.

Um livro tem credibilidade se relatou veridicamente os assuntos como


aconteceram ou como eles são; e quando seu texto atual concorda com
o escrito original.

Nesse caso credibilidade relaciona-se ao conteúdo do livro (original), e


a pureza do texto atual (cópia ou tradução). Por exemplo, as palavras de
Satanás em Gn.3:4,5 são inspiradas, mas não possuem autoridade,
porque não é verdade, porém tem credibilidade ou veracidade (quanto a
sua transcrição) porque foram registradas exatamente como Satanás
disse. A veracidade das palavras de Satanás não se relaciona ao o que
ele pronunciou, mas sim como ele as pronunciou.

F. CREDIBILIDADE DO A.T. – ESTABELECIDA POR TRÊS FATOS

1. AUTENTICADO POR JESUS CRISTO

Cristo recebeu o A.T. como relato verídico. Ele endossou grande


número de ensinamentos do A.T., como, por exemplo: A criação do
universo por Deus (Mc.3:19), a criação do homem (Mt.19:4,5), a
existência de Satanás (Jo.8:44), o dilúvio (Lc.17:26,27), a
destruição de Sodoma e Gomorra (Lc.17:28-30), a revelação de
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Deus a Moisés na sarça (Mc.12:26), a dádiva do maná (Jo.6:32), a


experiência de Jonas dentro do grande peixe (Mt.12:39,40). Como
Jesus era Deus manifesto em carne,

Ele conhecia os fatos, e não podia se acomodar a ideias errôneas,


e, ao mesmo tempo ser honesto. Seu testemunho deve, portanto,
ser aceito como verdadeiro ou Ele deve ser rejeitado como Mestre
religioso.

2. PROVAS ARQUEOLÓGICAS

Através da arqueologia, a batalha dos reis registrada em Gn.14 não


pode mais ser posta em dúvida, já que as inscrições no Vale do
Eufrates "mostram indiscutivelmente que os quatro reis
mencionados na Bíblia como tendo participado desta expedição não
são, como era dito displicentemente, 'invenções etnológicas', mas
sim personagens históricos reais. Anrafel é identificado como o
Hamurabi cujo maravilhoso código de leis foi tão recentemente
descoberto por De Morgan em Susa". (Geo. F. Wright, O
Testemunho dos Monumentos à Verdade das Escrituras).

As tábuas Nuzi esclarecem a ação de Sara e Raquel ao darem suas


servas aos seus maridos (Jack Finegan, Ligth from the Ancient Past
= Luz de um Passado Antigo). Os hieróglifos egípcios indicam que
a escrita já era conhecida mais de 1.000 anos antes de Abraão
(James Orr, The Problem of the Old Testament = O Problema do
Velho Testamento).

A arqueologia também confirma o fato de Israel ter vivido no Egito,


como escravo, e ter sido liberto (Melvin G. Kyle, The Deciding Voice
of the Monuments = A Voz Decisória dos Monumentos).

Muitas outras confirmações da veracidade dos relatos das


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Escrituras poderiam ser apresentadas, mas esses são suficientes e


devem servir como aviso aos descrentes com relação às coisas
para as quais ainda não temos confirmação; podemos encontrá-la
a qualquer hora.

3. PROVAS HISTÓRICAS

A história fornece muitas provas da exatidão das descrições


bíblicas. Sabe-se que Salmanezer IV sitiou a cidade de Samaria,
mas o rei da Assíria, que sabemos ter sido Sargom II, carregou o
povo para a Síria (2Rs.17:3-6). A história mostra que ele reinou de
722-705 a.C. Ele é mencionado pelo nome apenas uma vez na
Bíblia (Is.20:1). Nem Beltsazar (Dn 5), nem Dario, o Medo (Dn.6)
são mais considerados como personagens fictícios.

G. AS ESCRITURAS POSSUEM INTEGRIDADE:

1. INTEGRIDADE TOPOGRÁFICA E GEOGRÁFICA

As descobertas arqueológicas provam que os povos, línguas, os


lugares e os eventos mencionados nas Escrituras são encontrados
justamente onde as Escrituras os localizam, no local exato e sob as
circunstâncias geográficas exatas descritas na Bíblia.

2. INTEGRIDADE ETNOLÓGICA OU RACIAL

Todas as afirmações bíblicas sobre raças têm sido demonstrada


como corretas com os fatos etnológicos revelados pela arqueologia.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

3. INTEGRIDADE CRONOLÓGICA

A identificação bíblica de povos, lugares e acontecimentos com o


período de sua ocorrência é corroborada pela cronologia Síria e
pelos fatos revelados pela arqueologia.

4. INTEGRIDADE HISTÓRICA

O registro dos nomes e títulos dos reis está em harmonia perfeita


com os registros seculares, conforme demonstrados por
descobertas arqueológicas.

5. INTEGRIDADE CANÔNICA

A aceitação pela igreja em toda a era cristã, dos livros incluídos nas
Escrituras que hoje possuímos, representa o endosso de sua
integridade. Exemplares do A.T. e do N.T. impressos em 1.488 e
1.516 d.C., concordam com os exemplares atuais. Portanto, a Bíblia
como a possuímos hoje, já existia há 400 anos passados.

Quando essas Bíblias foram impressas, certo erudito tinha em seu


poder mais de 2.000 manuscritos. Esse número é sem dúvida
suficiente para estabelecer a genuinidade e credibilidade do texto
sagrado, e tem servido para restaurar ao texto sua pureza original,
e fornecem proteção contra corrupções futuras (Ap.22:18-19;
Dt.4:2; 12:32).

Enquanto a integridade canônica da Bíblia se baseia em mais de


2.000 manuscritos, os escritos seculares, que geralmente são
aceitos sem contestação, baseiam-se em apenas uma ou duas
dezenas de exemplares.

As quatro Bíblias mais antigas do mundo, datadas entre 300 e 400


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

d.C., correspondem exatamente a Bíblia como a possuímos


atualmente.

H. CREDIBILIDADE DO NOVO TESTAMENTO ESTABELECIDA POR


CINCO FATOS

1. ESCRITORES COMPETENTES

Possuíam as qualificações necessárias, receberam investidura do


Espírito Santo e assim escreveram não somente guiados pela
memória, apresentações de testemunho oral e escrito, e
discernimento espiritual, mas como escritores qualificados pelo
Espírito Santo.

2. ESCRITORES HONESTOS

O tom moral de seus escritos, sua preocupação com a verdade, e a


circunstância de seus registros indicam que não eram enganadores
intencionais mais sim homens honestos. O seu testemunho pôs em
perigo seus interesses materiais, posição social, e suas próprias
vidas. Por que razões inventariam uma estória que condena a
hipocrisia e é contrária a suas crenças herdadas, pagando com suas
próprias vidas?

3. HARMONIA DO NOVO TESTAMENTO

Os sinópticos não se contradizem, mas suplementam um ao outro.


Os vinte e sete livros do N.T. apresentam um quadro harmonioso
de Jesus Cristo e Sua obra.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

4. PROVAS HISTÓRICAS

O recenseamento quando Quirino era Governador da Síria (Lc.2:2),


os atos de Herodes o Grande (Mt.2:16-18), de Herodes Antipas
(Mt.14:1-12), de Agripa I (At.12:1), de Gálio (At.18;12-17), de Agripa
II (At.25:13-26:32) etc.

5. PROVAS ARQUEOLÓGICAS

As descobertas arqueológicas confirmam a veracidade do N.T.


Quirino (Lc.2:2) foi Governador da Síria duas vezes (16-12 e 6-4
a.C.), sendo que Lucas se refere ao segundo período. Lisânias, o
Tetrarca é mencionado em uma inscrição no local de Abilene na
época a que Lucas se refere.

Uma inscrição em Listra registra a dedicação da estátua Zeus


(Júpiter) e Hermes (Mercúrio), o que mostra que esses deuses eram
colocados no mesmo nível, no culto local, conforme descrito em
At.14:12. Uma inscrição de Pafos faz referência ao Proconsul Paulo,
identificado como Sergio Paulo (At.13:7).

Além de tudo o que foi dito, podemos ainda comprovar a Autoridade


e a Credibilidade das Escrituras pelo simples fato dela conter “vida”,
tanto nos benefícios que conquista para os que dela tem acesso
como “vida em si mesma” pela imortalidade de sua existência.

1) Animação - É o poder inerente à Palavra de Deus para transmitir


vitalidade ou vida ao ser humano. O Sl.19:7 diz que "a lei do
Senhor é perfeita, e restaura a alma..." e no versículo 8 diz que
"os preceitos do Senhor são retos, e alegram o coração...".
Somente algo que tem vida pode transmitir vida, e por isso
mesmo somente a Bíblia, e nenhum outro livro pode fazê-lo,
pois a Bíblia sendo a Palavra de Deus é viva: "A Palavra de
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que espada alguma de


dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito e das
juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e
intenções do coração"(Hb.4:12).

2) A Palavra de Deus é Viva – O elemento da vida que aqui se


declara é mais do que aquilo que agora tem autoridade em
contraste com o que já se tornou letra morta; é mais do que
alguma coisa que fornece nutrição. Mas as Escrituras são vivas
porque é o hálito (espírito) do Deus Vivo (Jo.6:63; Jó 33:4).
Assim tanto a Palavra Escrita (Logos) como a Palavra Falada
(rêma) são possuidoras de vida. Não há diferença essencial
entre elas, pois são apenas duas formas diferentes dela existir.

O trecho de Hb.4:12 diz que a Palavra de Deus é viva, e eficaz,


é cortante, penetra e discerne.

Em 1Pedro (1:23) lemos que a Palavra de Deus vive e


permanece para sempre. Assim a Palavra de Deus possui vida
eternamente (Sl.19:9; 119:160).

3) A Palavra de Deus é Eficaz – A palavra grega usada neste


trecho é energês de onde temos a palavra energia. Trata-se da
energia que a vida vital fornece. Por isso a Palavra de Deus é
comparada a uma poderosa espada de dois gumes com poder
para cortar, penetrar e discernir. Quando o Espírito Santo
empunha a Sua espada (Ef.6:17) uma energia é liberada dela
para animar e realizar o seu propósito (Is.55:10,11). E' com este
poder inerente à Palavra de Deus que o Espírito Santo
convence os contradizentes (Jo.16:8; 1Co.2:4) porque a
Palavra de Deus é como uma dinamite com poder (dínamos,
Rm.1:16) para salvar e destruir (2Co.10:4,5; 2Co.2:14,17;
1Jo.2:14; Jr.23:24).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

A Palavra de Deus é como um nutriente alimento que fornece


forças (I Pe.2:2; Mt.4:4). Paulo escrevendo aos
tessalonicenses, revela sua gratidão a Deus por haverem eles
recebido a Palavra de Deus a qual estava operando
(energizando) eficazmente neles (1Ts.2:13). Paulo conhecia o
poder da Palavra de Deus, por isso recomendou aos anciãos da
igreja que a observassem porque ela "tem poder para edificar e
dar herança entre todos os que são santificados" (At.20:32;
Jo.5:39).

4) É eficaz na regeneração: Comparada com a "água" (Jo.3:5;


Ef.5:26), a Palavra de Deus tem poder para regenerar, pois ela
coopera com o Espírito Santo na realização do novo nascimento
(1Pe.1:23; Tt.3:5; Jo.15:3; Ez.36:25-27; Jo.6:63; Tg.1:18,21;
1Co.4:15; Rm.1:16).

5) É eficaz na santificação: A Palavra de Deus tem poder para


santificar (Jo.17:17; Ef.5:26; Ez.36:25,27; 2Pe.1:4; Sl.37:31;
119:11). Com efeito, a santificação é pela fé (At.15:9 e 26:18) e
a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Rm.10:17).

6) É eficaz na edificação: A Palavra de Deus tem poder para


edificar (1Pe.2:2; At.20:32; 2Pe.3:18).

7) Preservação - É a operação divina que garante a permanência


da Palavra Escrita, com base na aliança que Deus fez acerca
de Sua Palavra Eterna (Sl.119:89,152; Mt.24:35; 1Pe.1:23;
Jo.10:35). Os céus e a terra passarão (Hb.12:26,27; 2Pe.3:10)
mas a Palavra de Deus permanecerá (Mt.24:35; Hb.12:28;
Is.40:8; 2Pe.1:19).

A preservação das Escrituras, como o cuidado divino para a sua


criação e formação do cânon, não foi acidental, nem incidental,
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

mas sim o cumprimento de uma promessa divina. A Bíblia é


eterna, ela permanece porque nenhuma Palavra que Jeová
tenha dito pode ser removida ou abalada; nem uma vírgula ou
um ponto do testemunho divino pode passar até que seja
cumprido.

"Quando pensamos no fato da Bíblia ter sido objeto especial de


infindável perseguição, a maravilha da sua sobrevivência se
transforma em milagre... Por dois mil anos, o ódio do homem
pela Bíblia tem sido persistente, determinado, incansável e
assassino. Todo esforço possível tem sido feito para corroer a
fé na inspiração e autoridade da Bíblia, e inúmeras operações
têm sido levadas a efeito para fazê-la desaparecer. Decretos
imperiais têm sido passados ordenando que todas as cópias
existentes da Bíblia fossem destruídas, e quando essa medida
não conseguiu exterminar e aniquilar a Palavra de Deus, ordens
foram dadas para que qualquer pessoa que fosse encontrada
com uma cópia das Escrituras fosse morta."

(Arthur W. Pink. The Divine Inspiration of the Bible = A


Inspiração Divina da Bíblia)

A Bíblia permanece até hoje porque o próprio Deus tem se


empenhado em preservá-la. Quando o rei Jeoaquim queimou
um rolo das Escrituras, Deus mesmo determinou a Jeremias
que reescrevesse as palavras que haviam sido queimadas
(Jr.36:27,28), e ainda determinou maldições sobre o rei, por
haver tentado destruir a Palavra de Deus (Jr.36:29,31). Ademais
Deus acrescentou ao segundo rolo outras palavras que não se
encontravam no primeiro (Jr.36:32), pois a Palavra de Deus
sempre há de prevalecer sobre a palavra do homem
(Jr.44:17,28; At.19:19,20).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Deve ficar esclarecido que Deus tem preservado apenas a Sua


Palavra inspirada, aquilo que deve ser considerado como
revelação de Deus, e por isso mesmo não foi preservado e não
faz parte do Cânon Sagrado (1Cr.29:29; 2Cr 9:29; 12:15; 13:22;
20:34; 2Cr.24:27; 26:22; 33:19).

Em 2Co.7:8 Paulo faz menção a uma segunda carta que não


consta do Novo Testamento, sendo que a segunda carta de
Coríntios que temos na nossa Bíblia, provavelmente deveria ser
a terceira.

Hoje a estratégia de Satanás sobre a Palavra de Deus é


diferente, pois já que ele não consegue destruí-la, procura
desacreditá-la (negando sua inspiração) e corrompê-la com
interpretações pervertidas da verdade (1Tm.4:1,2; 2Ts.2:9-12).
A nós, pois, como igreja, cabe a responsabilidade de defender
e preservar a verdade (1Tm.3:15) com o mesmo anseio que
caracterizava a vida de Paulo (Fp.1:7,16).

I. INERRÂNCIA E AUTENTICIDADE

Inerrância significa que a verdade é transmitida em palavras que,


entendidas no sentido em que foram empregadas, entendidas no sentido
que realmente se destinavam a ter, não expressam erro algum. A
inspiração garante a inerrância da Bíblia. Inerrância não significa que os
escritores não tinham faltas na vida, mas que foram preservados de
erros os seus ensinos. Eles podem ter tido concepções errôneas acerca
de muitas coisas, mas não as ensinaram; por exemplo, quanto à terra,
às estrelas, às leis naturais, à geografia, à vida política e social etc.
Também não significa que não se possa interpretar erroneamente o texto
ou que ele não possa ser mal compreendido.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

A inerrância não nega a flexibilidade da linguagem como veículo de


comunicação. É muitas vezes difícil transmitir com exatidão um
pensamento por causa desta flexibilidade de linguagem ou por causa de
possível variação no sentido das palavras.

A Bíblia vem de Deus. Será que Deus nos deu um livro de instrução
religiosa repleto de erros? Se ele possui erros sob a forma de uma
pretensa revelação, perpetua os erros e as trevas que professa remover.
Pode-se admitir que um Deus Santo adicione a sanção do seu nome a
algo que não seja a expressão exata da verdade?

Diz-se que a Bíblia é parcialmente verdadeira e parcialmente falsa. Se


é parcialmente falsa, como se explica que Deus tenha posto o seu selo
sobre toda ela? Se ela é parcialmente verdadeira e parcialmente falsa,
então a vida e a morte estão a depender de um processo de separação
entre o certo e o errado, que o homem não pode realizar.

Cristo declara que a incredulidade é ofensa digna de castigo. Isto implica


na veracidade daquilo que tem de ser crido, porque Deus não pode
castigar o homem por descrer no que não é verdadeiro (Sl.119:140,142;
Mt.5:18; Jo.10:35; Jo.17:17). Aqueles que negam a infalibilidade da
Bíblia, geralmente estão prontos a confiar na falibilidade de suas próprias
opiniões. Como exemplo de opinião falível encontramos aqueles que
atribuem erro à passagem de 1Rs.7:23 onde lemos que o mar de
fundição tinha dez côvados de diâmetro de uma borda até a outra, ao
passo que um cordão de trinta côvados o cingia em redor. Sendo assim,
tem-se dito que a Bíblia faz o valor do Pi ser 3 em vez de 3,1416. Mas
uma vez que não sabemos se a linha em redor era na extremidade da
borda ou debaixo da mesma, como parece sugerir o versículo seguinte
(v.24) não podemos chegar a uma conclusão definitiva, e devemos ser
cautelosos ao atribuir erro ao escritor.

Outro exemplo utilizado para contrariar a inerrância da Bíblia, encontra-


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

se em 1Co.10:8 onde lemos que 23.000 homens morreram no deserto,


enquanto que Nm 25:9 diz que morreram 24.000. Acontece que em
Números nós temos o número total dos mortos, ao passo que em I aos
Coríntios nós temos o número parcial que somado ao restante dos
homens relacionados nos versículos 9 e 10, deverá contabilizar o total
de 24.000. A inerrância não abrange as cópias dos manuscritos, mas
atinge somente os originais. Desse modo encontramos os seguintes
tipos de erros nos manuscritos:

1. ERROS INVOLUNTÁRIOS

Cometidos pelos escribas do N.T. devido a sua falta ou defeito de


visão, defeitos de audição ou falhas mentais.

2. ERROS INTENCIONAIS

Erros que não se originaram de negligência ou distração dos


escribas, mas antes de suspeita de alteração, principalmente
doutrinária.

J. AUTENTICIDADE OU GENUINIDADE

Dizemos que um livro é genuíno ou autêntico quando ele é escrito pela


pessoa ou pessoas cujo nome ele leva, ou, se anônimo, pela pessoa ou
pessoas a quem a tradição antiga o atribui, ou, se não for atribuído a
algum autor ou autores específicos, à época que a tradição lhe atribui.

O Credo Apostólico não é genuíno porque não foi composto pelos


apóstolos. As Viagens de Gulliver é genuíno, tendo sido escrito por Dean
Swift, embora seus relatos sejam fictícios. Atos de Paulo não é genuíno,
pois foi escrito por um sacerdote contemporâneo de Tertuliano. Desse
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

modo a autenticidade relaciona-se ao autor e à época do livro, e todos


os livros da Bíblia possuem autenticidade comprovada pela tradição
histórica e pela arqueologia (Gl.6:11; Cl.4:18).

K. CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE A INSPIRAÇÃO

A Bíblia ensina que ela é direta e soberanamente inspirada por Deus


devendo, portanto, ser obedecida como a Sua Palavra Viva dirigida
diretamente a nós. Se reconhecermos a sua autoridade, é previsto que
aceitemos também este ponto: sua dupla afirmação de ser a palavra
inspirada de Deus e que devemos aproximar-nos dela com reverência e
submissão. Tomar outra posição é opor-se ao claro ensinamento bíblico.

Contudo, sempre haverá evidentemente, um elemento de mistério sobre


a maneira precisa pela qual a Bíblia foi produzida. Isto não deve
surpreender-nos, pois o mistério acompanha inevitavelmente todos os
relacionamentos de Deus com suas criaturas. A encarnação é
igualmente um “mistério” para nós, pois jamais poderemos estabelecer
definitivamente como as naturezas divina e humana são unidas na
pessoa de Jesus Cristo. Em nenhum dos casos, porém, o “mistério” da
atividade de Deus deve impedir que creiamos nEle e que nos rejubilemos
na sua verdade.

Em última análise, a questão da inspiração é profundamente relacionada


com a nossa doutrina sobre Deus. Se reconhecermos Deus com aquele
“que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Efésios
1: 11), que “faz o que quer” (Salmo 135: 6), não encontraremos qualquer
dificuldade básica. Nada há de incongruente no fato dele ter produzido
um livro que, embora nascido da experiência das suas criaturas, é
também através de sua ordem soberana, a Sua Própria Palavra dirigida
a elas.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Sendo assim, concluímos que este livro contém a mente de Deus, a


condição do homem, o caminho para a salvação, a condenação dos
pecadores e o gozo dos Cristãos. A sua doutrina é santa. Os seus
preceitos são consistentes. As suas afirmações são imutáveis. Leia-a
para ser sábio. Creia nela para ser salvo. Pratique-a para ser santo. Ela
contém a luz para guiá-lo, alimento para supri-lo e conforto para alegrá-
lo. É um mapa ao viajante, um cajado ao peregrino, uma bússola ao
piloto, uma espada ao soldado e o caráter do Cristão. Nela o céu está
aberto e os portões do inferno revelados.

Nela, Cristo é o grande assunto, o nosso bem é o seu alvo e a glória de


Deus é o seu fim. Ela deve abundar na memória, reinar no coração e
guiar os pés. Leia-a com paciência, com frequência e em espírito de
oração. Ela é uma mina de riquezas, saúde para a alma e um rio de
santificação. É dada a você nessa vida, será aberta no julgamento e foi
estabelecida para todo o sempre. Ela envolve o mais alto nível de
responsabilidade, recompensará o esforço de cada um e condenará
todos que ousarem alterar o seu conteúdo.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 04

BIBLIOLOGIA: A DOUTRINA DAS ESCRITURAS (3)

ILUMINAÇÃO

A. INTRODUÇÃO

É a capacidade dada pelo Espírito Santo aos crentes para receberem,


reagirem e refletirem a Palavra de Deus (Tg 1: 19 – 27; 1 Jo 2: 20 e 27).
Esta obra é de suma importância. Jesus disse acerca do Espírito Santo:
“...esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que
vos tenho dito” João 14: 26.

A iluminação é a influência ou ministério do Espírito Santo que capacita


todos os que estão num relacionamento correto com Deus para entender
as Escrituras (1Co2:12; Lc.24:32,45; 1Jo.2:27). A iluminação não inclui
a responsabilidade de acrescentar algo às Escrituras (revelação) e nem
inclui uma transmissão infalível na linguagem (inspiração) daquele que
o Espírito Santo ensina. A iluminação é diferenciada da revelação e da
inspiração no fato de ser prometida a todos os crentes, pois não depende
de escolha soberana, mas de ajustamento pessoal ao Espírito Santo.
Além disso a iluminação admite graus podendo aumentar ou diminuir
(Ef.1:16-18; 4:23; Cl.1:9).

A iluminação não se limita a questões comuns, mas pode atingir as


coisas profundas de Deus (1Co.2:10) porque o Mestre Divino está no
coração do crente e, portanto, ele não houve uma voz falando de fora e
em determinados momentos, mas a mente e o coração são
sobrenaturalmente despertados de dentro (1Co.2:16). Este
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

despertamento do Espírito pode ser prejudicado pelo pecado, pois é dito


que o cristão que é espiritual discerne todas as coisas (1Co.2:15), ao
passo que aquele que é carnal não pode receber as verdades mais
profundas de Deus que são comparadas ao alimento sólido (1Co.2:15;
3:1-3; Hb.5:12-14).

A iluminação, a inspiração e a revelação estão estritamente ligadas,


porém podem ser independentes, pois há inspiração sem revelação
(Lc.1:1-3; 1Jo.1:1-4); inspiração com revelação (Ap.1:1-11); inspiração
sem iluminação (1Pe.1:10-12); iluminação sem inspiração (Ef.1:18) e
sem revelação (1Co.2:12; Jd.3); revelação sem iluminação (1Pe.1:10-
12) e sem inspiração (Ap.10:3,4; Ex.20:1-22).

É digno de nota que encontramos estes três ministérios do Espírito Santo


mencionados em uma só passagem (1Co.2:9-13); a revelação no
versículo 10; a iluminação no versículo 12 e a inspiração no versículo 13.

“Mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem
jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para
aqueles que o amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o
Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de
Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu
próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus,
ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos
recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para
que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Disto
também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana,
mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com
espirituais”

B. A BÍBLIA É A MENSAGEM DE DEUS À HUMANIDADE


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Deus é um comunicador e deseja nos informar sobre:

1. ELE MESMO

Estudaremos quem Deus é observando o que Ele fala e faz. Ele é


o principal foco da Bíblia.

2. A SUA CRIAÇÃO

Deus nos revela muito sobre Si mesmo através da Sua criação.


Como Ele criou o mundo, o que Ele usou para criar o mundo e o
propósito por trás da criação, tudo demonstra aspectos do Seu
caráter.

3. O HOMEM

A Bíblia revela claramente como e porque Deus criou o homem, as


Suas expectativas para ele e fala sobre seu propósito e destino.

C. TEMAS PRINCIPAIS DA BÍBLIA

1. O CONHECIMENTO E A GLÓRIA DE DEUS

2. A REBELIÃO DO HOMEM CONTRA O SEU CRIADOR E O


RESULTADO DA REBELIÃO

3. O JULGAMENTO DE DEUS AO PECADO


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

4. A INCAPACIDADE DO HOMEM PARA MUDAR A SUA


CONDIÇÃO PERANTE DEUS

5. A REDENÇÃO DA HUMANIDADE PROVIDENCIADA POR DEUS

6. O REINO DE DEUS E A RESTAURAÇÃO UNIVERSAL

D. POR QUE ESTUDAR A BÍBLIA?

Porque é totalmente infalível e sem erro nas suas partes (Sl 19: 7; Pv 30:
5 – 6)

Porque é a fonte da verdade (Jo 17: 17; 2 Tm 3: 16)

Porque revela a Pessoa de Deus (Pv 2: 1, 5; Jo 5: 39)

Porque cumprirá o que promete (Is 55: 11)

Porque não muda (Sl 119: 89)

Porque é a fonte das bênçãos de Deus quando obedecida (Lc 11: 28)

Porque vale mais que o ouro (Sl 19: 7 – 10)

E. COMO A BÍBLIA CHEGOU ATÉ NÓS

A questão quais livros pertencem à Bíblia é chamada questão canônica.


A palavra cânon significa régua, vara de medir, regra, e, em relação à
Bíblia, refere-se à coleção de livros que passaram pelo teste de
autenticidade e autoridade; significa ainda que esses livros são nossa
regra de vida. Essa palavra foi usada no Novo Testamento em Gálatas
6:16. Mas, como foi formada esta coleção?
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

1. OS TESTES DE CANONICIDADE

Em primeiro lugar é importante lembrarmos que os livros já eram


canônicos antes de qualquer teste lhes ser aplicado. Isto é como
dizer que alguns alunos são inteligentes antes mesmo de se lhes
ministrar uma prova. Os testes apenas provam aquilo que
intrinsecamente já existe. Do mesmo modo, nem a Igreja nem os
concílios eclesiásticos jamais concederam canonicidade ou
autoridade a qualquer livro; o livro era autêntico ou não no momento
em que foi escrito. A igreja e seus concílios reconheceram certos
livros como Palavra de Deus e, com o passar do tempo, aqueles
assim reconhecidos foram colecionados para formar o que hoje
chamamos Bíblia.

2. QUE TESTES A IGREJA APLICOU?

1) Havia o teste da autoridade do escritor. Em relação ao Antigo


Testamento, isto significava a autoridade do legislador, ou do
profeta, ou do líder em Israel. No caso do Novo Testamento, o
livro deveria ter sido escrito ou influenciado por um apóstolo
para ser reconhecido. Em outras palavras, deveria ter a
assinatura ou a aprovação de um apóstolo. Pedro, por exemplo,
apoiou a Marcos, e Paulo a Lucas.

2) Os próprios livros deveriam dar alguma prova intrínseca de seu


caráter peculiar, inspirado e autorizado por Deus. Estes não
poderiam entrar em contradição com qualquer outra parte das
Escrituras já reconhecidas. Seu conteúdo também deveria se
demonstrar ao leitor como algo diferente de qualquer outro livro
por comunicar a revelação de Deus.

3) O veredicto das igrejas quanto à natureza canônica dos livros


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

era importante. Na verdade houve uma surpreendente


unanimidade entre as primeiras igrejas quanto aos livros que
mereciam lugar entre os inspirados. Embora seja fato que
alguns livros bíblicos tenham sido recusados ou questionados
por uma minoria, nenhum livro cuja autenticidade foi
questionada por número grande de igrejas veio a ser aceito
posteriormente como parte do cânon.

3. A FORMAÇÃO DO CÂNON

O cânon da Escritura estava-se formando, é claro, à medida que


cada livro era escrito, e completou-se quando o último livro foi
terminado. Quando falamos da "formação" do cânon estamos
realmente falando do reconhecimento dos livros canônicos pela
Igreja. Esse processo levou algum tempo.

Alguns afirmam que todos os livros do Antigo Testamento já haviam


sido colecionados e reconhecidos por Esdras, no quinto século a.C.
Referências nos escritos de Flávio Josefo (95 A.D.) e em 2 Esdras
14* (100 A.D.) indicam a extensão do cânon do Antigo Testamento
como os 39 livros que hoje aceitamos. A discussão do chamado
Sínodo de Jamnia (70-100 A.D.) parece ter partido desse cânon.
Nosso Senhor delimitou a extensão dos livros canônicos do Antigo
Testamento quando acusou os escribas de serem culpados da
morte de todos os profetas que Deus enviara a Israel, de Abel a
Zacarias (Lc 11:51). O relato da morte de Abel está, é claro, em
Gênesis; o de Zacarias se acha em 2 Crônicas 24:20-21, que é o
último livro na disposição da Bíblia hebraica (em lugar do nosso
Malaquias). Para nós, é como se Jesus tivesse dito: "Sua culpa está
registrada em toda a Bíblia - de Gênesis a Malaquias". Ele não
incluiu qualquer dos livros apócrifos que já existiam em Seu tempo
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

e que continham relatos das mortes de outros mártires israelitas.

O primeiro concílio eclesiástico a reconhecer todos os 27 livros do


Novo Testamento foi o Concílio de Cartago, em 397 A.D. Alguns
livros do Novo Testamento, individualmente, já haviam sido
reconhecidos como canônicos muito antes disso (2 Pe 3:16; 1 Tm
5:18) e a maioria deles foi aceita como canônica no século posterior
ao dos apóstolos (Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Judas
foram debatidos por algum tempo). A seleção do cânon foi um
processo que continuou até que cada livro provasse o seu valor,
passando pelos testes de canonicidade.

Os doze livros apócrifos do Antigo Testamento jamais foram aceitos


pelos judeus ou por nosso Senhor no mesmo nível de autoridade
dos livros canônicos. Eles eram respeitados, mas não foram
considerados como Escritura. A Septuaginta (versão grega do
Antigo Testamento produzida entre o terceiro e o segundo séculos
a.C.) incluiu os apócrifos com o Antigo Testamento canônico.
Jerônimo (c. 340-420 A.D.), ao traduzir a Vulgata, distinguiu entre
os livros canônicos e os eclesiásticos (que eram os apócrifos), e
essa distinção acabou por conceder-lhes uma condição de
canonicidade secundária. O Concílio de Trento (1548) reconheceu-
os como canônicos, embora os Reformadores tenham rejeitado tal
decreto. Em algumas versões protestantes dos séculos XVI e XVII,
os apócrifos foram colocados à parte.

4. LIVROS NÃO ACEITOS PELO CÂNON

1) Pseudoepigráficos: Livros que foram rejeitados por todos.

No Antigo Testamento – Enoque, Ascensão de Moisés, 3 e 4 de


Macabeus, 4 Esdras, Os Testamentos dos 12 Patriarcas e
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

outros...

No Novo Testamento – Atos de Paulo, A Epístola de Barnabé,


O Pastor de Hermas, o Didaqué

2) Apócrifos: Literalmente – “difícil de entender” ou “escondido” ...


livros que foram aceitos por alguns.

Todos no Antigo Testamento – Tobias, Judite, Sabedoria de


Salomão, Jesus Sirac, Baruque, A Carta de Jeremias, 1 e 2 de
Macabeus, A Oração de Manasses, 3 Esdras, além de
acréscimos aos livros de Ester e Daniel. A Igreja Católica
Romana sustenta a canonicidade dos Apócrifos desde o
Concílio de Trento (1546) – realizado como parte da
“Contrarreforma”.

5. HISTÓRIA DO PROCESSO DO CÂNON

1) Policarpo (110 – 150): Não citou 2 Timóteo, Tito, Filemom,


Hebreus, Tiago e 2 Pedro.

2) Irineu (130 – 220): Não citou Filemom, Tiago, 2 Pedro e 3 João.

3) Cânon Muratório (170): Não citou Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro.

4) Tertuliano (150 – 220): Não citou Filemom, Tiago, 2 Pedro, 2 e


3 João.

5) Cânon de Baraccócio (206): Não citou Apocalipse.

6) Cânon de Anastácio (367): Inclui todos.

7) Cânon de Hipona (397, 419): Inclui todos.

6. O TEXTO DE QUE DISPOMOS É CONFIÁVEL?

Os manuscritos originais do Antigo Testamento e suas primeiras


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

cópias foram escritos em pergaminho ou papiro, desde o tempo de


Moisés (c. 1450 a.C.) até o tempo de Malaquias (400 a.C.). Até a
sensacional descoberta dos Rolos do Mar Morto em 1947, não
possuíamos cópias do Antigo Testamento anteriores a 895 A.D. A
razão de isso acontecer era a veneração quase supersticiosa que
os judeus tinham pelo texto e que os levava a enterrar as cópias, à
medida que ficavam gastas demais para uso regular. Na verdade,
os Massoretas (tradicionalistas), que acrescentaram os acentos e
transcreveram a vocalização entre 600 e 950 A.D., padronizando
em geral o texto do Antigo Testamento, engendraram maneiras
sutis de preservar a exatidão das cópias que faziam. Verificavam
cada cópia cuidadosamente, contando a letra média de cada
página, livro e divisão. Alguém já disse que qualquer coisa
numerável era numerada. Quando os Rolos do Mar Morto ou
Manuscritos do Mar Morto foram descobertos, trouxeram a lume um
texto hebraico datado do segundo século a.C. de todos os livros do
Antigo Testamento à exceção de Ester. Essa descoberta foi
extremamente importante, pois forneceu um instrumento muito mais
antigo para verificarmos a exatidão do Texto Massorético, que se
provou extremamente exato.

Outros instrumentos antigos de verificação do texto hebraico


incluem a Septuaginta (tradução grega preparada em meados do
terceiro século a.C.), os targuns aramaicos (paráfrases e citações
do Antigo Testamento), citações em autores cristãos da
Antiguidade, a tradução latina de Jerônimo (a Vulgata, c. 400 A.D.),
feita diretamente do texto hebraico corrente em sua época. Todas
essas fontes nos oferecem dados que asseguram um texto
extremamente exato do Antigo Testamento.

Mais de 5.000 manuscritos do Novo Testamento existem ainda hoje,


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

o que o torna o mais bem documentado dos escritos antigos. O


contraste é surpreendente.

Além de existirem muitas cópias do Novo Testamento, muitas delas


pertencem a uma data bem próxima à dos originais. Há
aproximadamente setenta e cinco fragmentos de papiro datados
desde 135 A. D. até o oitavo século, possuindo partes de vinte e
cinco dos vinte e sete livros, num total de 40% do texto. As muitas
centenas de cópias feitas em pergaminho incluem o grande Códice
Siriatico (quarto século), o Códice Vaticano (também do quarto
século) e o Códice Alexandrino (quinto século). Além disso, há cerca
de 2.000 ledonários (livretos de uso litúrgico que contêm porções
das Escrituras), mais de 86.000 citações do Novo Testamento nos
escritos dos Pais da Igreja, antigas traduções latina, siríaca e
egípcia, datadas do terceiro século, e a versão latina de Jerônimo.
Todos esses dados, mais o trabalho feito pelos estudiosos da
paleografia, arqueologia e crítica textual, nos asseguram
possuirmos um texto exato e fidedigno do Novo Testamento.

7. A DIVISÃO DO TEXTO BÍBLICO EM CAPÍTULOS E


VERSÍCULOS

As versões antigas da Bíblia ou os Manuscritos mais antigos não


observavam as divisões de Capítulos e Versículos que hoje temos. Tal
didática foi elaborada a fim de facilitar a citação, o estudo e a pesquisa
das Escrituras. Stephen Langton, catedrático francês e arcebispo da
Cantuária, dividiu a Bíblia em Capítulos (1227 d.C.). Séculos mais tarde,
com o invento da imprensa, Robert Stephanus, impressor parisiense
elaborou a divisão dos Capítulos em Versículos, tanto no AT como no
N.T., a qual vigora até nossos dias, e é aceito inclusive pelos estudiosos
judeus.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

F. CONCLUSÃO

“Os Livros das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, conforme


possuímos hoje, tem sido aceitos pela Igreja durante toda a era Cristã
como aqueles que compreendem a Revelação completa vinda de Deus,
e também foram escritos pelos autores humanos aos quais são
atribuídos” (Teologia Elementar, Bancroft).

1. O LIVRO MAIS VALIOSO DO MUNDO

O Antigo Testamento é a coleção das escrituras que o povo hebreu


foi acumulando desde o tempo de Moisés até cerca de quatro
séculos antes de Cristo.

Foi escrito, como temos hoje, entre 1500 e 400 a.C.

Escrito em Língua Hebraica – em couro, papiro ou pergaminho.

Sua primeira tradução foi na língua grega, cerca de 300 anos antes
de Cristo.

Essa tradução foi feita por 70 sábios de Alexandria, Egito, onde


muitos judeus haviam se estabelecido, daí essa tradução chamar-
se Septuaginta.

A essa tradução sucederam-se outras em aramaico e latim.

A Língua Aramaica resultou da mistura da língua dos sírios e de


outros povos que invadiram a Palestina na época do exílio, na
Babilônia.

Os Judeus quando voltaram, aceitaram a língua e esta tornou-se a


língua de toda a Palestina, de Jesus e de seus apóstolos.

A mais célebre tradução do Antigo Testamento foi a Vulgata, feita


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

por Jerônimo, cerca de 400 anos Depois de Cristo.

Esta serviu de base para as principais versões saxônicas, inglesas


e portuguesas. O Novo Testamento foi escrito em grego.

Supõe-se que o primeiro Livro a ser escrito tenha sido a Carta aos
Tessalonicenses.

No princípio, o Evangelho era transmitido oralmente, depois os


apóstolos começaram a escrever pequenos trechos chamados
“logia” que formaram os elementos básicos dos três primeiros
Evangelhos.

O mais importante Manuscrito que temos é o CODEX VATICANUS,


que data do 4º século A.D. e leva esse nome por pertencer à
Biblioteca do Vaticano.

O primeiro Novo Testamento foi impresso em 1516 por Erasmo.

A primeira versão em Português foi a de João Ferreira de Almeida


em 1691.

Os livros que aceitamos como verdadeiros são chamados


Canônicos. Os não-inspirados são chamados Apócrifos.

A Bíblia foi escrita em cerca de 1600 anos por 40 autores e contém


66 livros.

2. DETALHES DA BÍBLIA

ANTIGO TESTAMENTO NOVO TESTAMENTO

39 Livros 27 Livros

929 Capítulos 260 Capítulos

29.314 Versículos 7.559 Versículos


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Escrito em Hebraico Escrito em Grego

Menor Verso – Êxodo 20: 13 Menor Verso – João 11: 35

Maior Verso – Ester 8: 9 Maior Verso – Apocalipse 20:


4

Mensagem – Jesus Virá Mensagem – Jesus JÁ Veio

DIVISÕES: DIVISÕES:

Pentateuco – 5 Livros Biográficos – 4 Livros


Históricos – 12 Livros Histórico – 1 Livro
Poéticos – 5 Livros Epístolas de Paulo – 13 Livros
Profetas Maiores – 5 Livros Epístolas Gerais – 8 Livros
Profetas Menores – 12 Livros Profético – 1 Livro
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 05

TEOLOGIA – A DOUTRINA DE DEUS

A. INTRODUÇÃO

“Deus é o infinito e perfeito espírito no qual todas as coisas têm origem,


preservação e finalidade”.

“Deus é espírito, infinito-eterno-imutável em seu: ser, sabedoria, poder,


santidade, justiça, bondade e verdade”.

1. TEOLOGIA

É a disciplina que estuda Deus e Suas obras. Ela se distingue da


Ética, mesmo da Ética Cristã; da Religião (exteriorização do meu
relacionamento com Deus); e da Filosofia (tentativa de conhecer
todas as coisas pelo método da observação e da razão, sem partir
de Deus e Sua Palavra, e nunca podendo trazer ninguém a Cristo -
I Coríntios 1:21, 2:6-8).

2. A NECESSIDADE DA TEOLOGIA

Por causa da penetrante descrença e heresias desta época I Pedro


3:15b (Lucas 18:8; Efésios 4:14); porque Deus não quis nos dar as
escrituras em forma sistematizada (Mateus 13:11-13), deixando a
nós o estudá-las e sistematizá-las II Timóteo 2:15; para desenvolver
em nós o caráter de cristo (Efésios 4:13); para podermos servir ao
Senhor efetivamente (II Timóteo 4:2; Tito 1:9).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

B. A EXISTÊNCIA DE DEUS É ESTABELECIDA PELA RAZÃO

1. ARGUMENTO DA “INTUITIVIDADE” OU “CRENÇA


UNIVERSAL” - ROMANOS 2:14-16; 1:19-23; 28, 32; JÓ 32:8;
ATOS 17:28-29):

1) A Crença na existência de Deus é universal; é também


necessária (no sentido de que é a “posição normal do pêndulo”:
qualquer desvio dela é temporário e contra nossa natureza);
portanto, esta crença é intuitiva, inata; não é mero resultado de
tradições, educação, raciocínio acurado e educado;

2) Portanto, a crença na existência de Deus foi colocada no


coração do homem;

3) Só Deus poderia fazê-lo;

4) Logo Deus existe.

2. ARGUMENTO DA CAUSA-E-EFEITO

Todo efeito tem uma causa apropriada (Hebreus 3:4). Portanto:

1) O poder, a inteligência, o propósito evidente na natureza exige


e prova que Deus existe e que tem infinitos poder, inteligência
e propósito;

2) O fato de o homem ser uma pessoa e ser moral exige e prova


que Deus existe e que é a perfeição do saber, do sentir, do
decidir, e do bem.

C. O ARGUMENTO DA CAUSA-E-EFEITO SE DIVIDE EM CINCO


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

1. ARGUMENTO COSMOLÓGICO (DA CAUSA DO UNIVERSO) -


HEBREUS 3:4

1) A 2ª Lei da Termodinâmica diz que a entropia do universo


sempre aumenta (o caos e desordem do universo aumentam,
sua energia disponível diminui); Daí: Se o universo fosse eterno,
sua energia utilizável, na eternidade passada, teria que ter sido
infinita, o que é impossível; Logo o universo teve origem;

2) No universo, todo efeito tem que ter tido uma causa apropriada;

3) Logo o universo é o efeito de uma causa sem causa,


transcendente (fora do universo e em tudo seu superior): Deus.

2. ARGUMENTO TELEOLÓGICO (DA CAUSA DA ORDEM E


PROPÓSITO NO UNIVERSO) - SALMOS 19:1-3; ROMANOS
1:20

1) A ordem e propósito num sistema implicam inteligência e


propósito na sua causa;

2) Há assombrosa ordem e propósito no universo (o “ateu” Galeno


criou “hino” de louvor a Deus, ao dissecar anatomia humana;
Isaac Newton tapou a boca de “ateu” ao deslumbrá-lo com
miniatura do sistema solar e dizer “não teve designer”);

3) Logo, o universo tem um designer transcendente, um originador


e mantenedor das suas leis, inigualavelmente inteligente e com
propósito: Deus.

3. ARGUMENTO ONTOLÓGICO (DA CAUSA DA IDEIA DE DEUS)

Todo homem, mesmo que sufocada e vagamente, tem a ideia de


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

um Deus infinito e perfeito (Atos 17:21-23 [“ao Deus desconhecido”];


Romanos 1:18-20); Esta ideia, por ser infinitamente superior ao
homem e ao universo, neles não pode ter se originado; Logo ela só
pode ter se originado em Deus, que existe e é infinito e perfeito.

4. ARGUMENTO ANTROPOLÓGICO OU DA CAUSA DA MORAL

Romanos 2:14-15 (Gênesis 39:9 [José e a esposa de Potifar;


Salmos 32:3-5; 38:1-4; Eclesiastes 12:14; Romanos 1:19-32; 2:14-
16].): Uma voz insilenciável fala incessantemente à consciência,
exige-lhe obediência e assevera de um Juiz que punirá cada
desobediência [“Não fora esta voz... e eu seria ateu” cardeal
Newman]; Esta voz sobre a consciência não é nem imposta pelo
indivíduo nem pela sociedade (frequentemente lhes é contrária!);
Portanto, existe alguém que fala à nossa consciência, que é bom,
justo juiz, senhor, autor e mantenedor de uma lei moral permanente,
absoluta e mandatória: Deus.

5. ARGUMENTO DA “CONGRUÊNCIA” OU “HARMONIA COM OS


FATOS”

Se um postulado é o único que (ou, de longe, o que mais) se


harmoniza com (e explica) uma série de fatos, então ele é crido e
tomado como verdadeiro (exemplo: a teoria subatômica). A
existência de Deus é a única (ou, de longe, a melhor) explicação
para a: crença universal na sua existência, nossa natureza moral e
mental, nossa natureza religiosa, os fatos e as leis do universo.
(Ateísmo, panteísmo, agnosticismo, etc. não provêm uma
explicação adequada, nem satisfazem nosso coração). Portanto,
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Deus existe, é bom e santo, e todo-poderoso.

D. OS ATRIBUTOS NATURAIS E MORAIS DE DEUS

Os atributos Divinos mais conhecidos estão divididos em duas classes,


quais sejam: ATRIBUTOS NATURAIS e ATRIBUTOS MORAIS.

1. ATRIBUTOS NATURAIS DE DEUS

Os atributos naturais de DEUS são inerentes apenas, e tão


somente, a DEUS, ou seja, são atributos que só DEUS e ninguém
ou nada mais os possui. São referentes à sua natureza e mostram
como DEUS é. Dentre eles podemos citar:

1) Onipresença - A onipresença de DEUS é a capacidade que só


DEUS possui, qual seja, a de poder estar em todos os lugares,
ao mesmo tempo.

2) Onisciência - A onisciência de DEUS é a capacidade que só


DEUS tem, qual seja, a capacidade de saber tudo, quanto ao
passado, presente e futuro.

3) Onipotência - A onipotência de DEUS é a capacidade que só


DEUS possui, qual seja, a capacidade de ter todo o poder
(DEUS é Todo-Poderoso).

4) Unidade - Com todos os seus atributos, DEUS age


uniformemente, de tal forma que, quando no uso de um de seus
atributos, não há neutralização, diminuição ou contradição
alguma com todos os demais.

5) Infinidade - A infinidade de DEUS é sua qualidade de ser


infinito em:

Sua presença, seu conhecimento, seu poder, sua santidade,


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

sua justiça e seu amor.

6) Eternidade - DEUS é eterno, não há, a mais remota,


possibilidade de qualquer atributo de DEUS chegar ao fim.

7) Imutabilidade - Imutabilidade é a capacidade que só DEUS tem,


qual seja, a capacidade de jamais mudar os seus propósitos

8) Deus é Autoexistente - (portanto transcendente), causador


incausado, sem início. João 5:26 (Êxodo 3:14 [“Eu Sou”]; Atos
17:24-28; Romanos 11:36; I Timóteo 6:15-16).

9) Deus é Eterno - sem princípio nem fim, não limitado pelo tempo
(mas autor e consciente dele e da sua sequência - Gênesis
21:33; Êxodo 3:14; Deuteronômio 33:27; Salmos 90:2; 93:2;
102:11, 12, 24-27; Apocalipse 1:8).

10) Deus é Soberano sobre tudo e todos - I Samuel 2:6-8; I


Crônicas 29:11-12; Apocalipse 4:11.

2. ATRIBUTOS MORAIS DE DEUS

Atributos morais, também são encontrados no ser humano, porém,


só DEUS os possui, no mais alto grau, ou seja, num grau inatingível
e insuperável. Eles mostram sua moralidade em seu modo de agir.
Os atributos morais de DEUS são:

1) Santidade - A santidade de DEUS é a capacidade que só DEUS


tem, qual seja, a capacidade de ser totalmente SANTO.

2) Justiça (retidão) - A justiça de DEUS é a capacidade que só


DEUS tem, qual seja, a de ser totalmente justo (reto).

3) Amor - O amor de DEUS é a capacidade que só DEUS tem,


qual seja, a capacidade de ser totalmente amor.

4) Deus é Misericórdia e Graça - É misericordioso ao cancelar as


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

penalidades merecidas e aliviar os angustiados (Salmos 103:8;


Deuteronômios 4:31; Salmos 62:12; 86:15; 103:8-17; 145:8-9);
É gracioso ao por amor em ação é conceder bênçãos àqueles
que só merecem o contrário, mas arrependeram-se e creram
(Efésios 2:8-10; Salmos 111:4; 116:5; Romanos 3:24; 5:20;
11:6).

5) Deus é Verdadeiro e Fiel - (Deuteronômio 7:9; Salmos 36:5;


89:1-2; Tito 1:1-2; Hebreus 6:18)

E. O DECRETO (CONSELHO) DE DEUS

O decreto (conselho) de Deus é o eterno e infalível propósito ou plano


pelo qual Ele tem declarado fixas todas as coisas.

O decreto de Deus abrange sua vontade eficaz e sua vontade


permissiva, dentro do Seu plano soberano, Deus deu ao homem a
liberdade de escolher, este é responsável por suas decisões (Juízes
21:25; Atos 2:23).

Seu decreto é eterno (Salmos 33:11). Sábio (Salmos 104:24). Livre (sem
obrigação interna ou externa, mas em harmonia com sua natureza -
Isaias 40:13-14). Eficaz (tudo que Deus decretou acontecerá – Isaias
14:24, 27). Traz glória a si mesmo (Apocalipse 4:11).

Podemos descansar no Seu poder e promessas (Romanos 8:28-32).

F. OS NOMES DE DEUS

Os nomes de Deus dizem-nos que Ele é uma Pessoa e, ensinam-nos


muito dos seus Atributos.

ADONAI Senhor (=dono- Merece obediência Gn 24:3, 7,12;


controlador- Js 5:14 (Ml 1:6; Jo 13:13; dá-nos
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

provedor » provisão Fp 4:19).


KURIOS)

O Poderoso e
EL Gn 1:1; Sl 19:1
Majestoso

Plural de “El”,
ELOHIM aludindo à Gn 1:1 (verbo singular!)
Trindade

O Poderoso
Altíssimo, Cuida de tudo, cuida pelos filhos
EL ELION
Sumamente Gn 14:22
Poderoso

Nunca cansa de cuidar dos Seus Is


EL OLAM O Poderoso Eterno
40:28-31

Nunca esquece nem deixa de


EL ROI O Poderoso que Vê
cuidar dos Seus (Gênesis 16:13)

Cuida dos Seus, como mãe a


EL SHADAI O Todo-Poderoso
bebezinho Sl 91:1; Gn 17:1

O Eterno e
YAHWEH
Autoexistente (“Eu Gn 2:4. O Deus do pacto
(JEOVÁ)
Sou”)

Deus dos deuses, exaltado,


JEOVÁ O Autoexistente
elevado, transcendente Sl 7:17;
ELION Altíssimo
47:2

O Autoexistente Gn 22:13-14. Cordeiro substituindo


JEOVÁ JIRÉ
Proverá Isaac

JEOVÁ O Autoexistente Êx 31:13. Dá remissão, preserva,


MIKADISKIM vos Santifica santifica

JEOVÁ O Autoexistente Conduz, lidera, faz-nos mais que


NISSI Nossa Bandeira vencedores Êx 17:15 (Sl 20:7).

O Autoexistente Sl 23:1 (Sl 95:7). Guarda, guia,


JEOVÁ RAA
Meu Pastor nutre.

JEOVÁ
ROPECA = O Autoexistente
Êx 15:26. Recostura
JEOVÁ Nos Sara
RAFA

JEOVÁ O Senhor dos I Samuel 1:3; Isaias 6:1-3. Poder e


SABAOTE Exércitos governo (homens, estrelas, anjos)
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

JEOVÁ O Autoexistente
Jz 6:24. Paz com e de Deus.
SHALOM Nossa Paz

JEOVÁ O Senhor está


Ez 48:35. Presença pessoal!
SHAMÁ Presente

JEOVÁ O Autoexistente
Jr 23:6 Justiça imputada (1Co 1:30)
TSIDEKENU Nossa Justiça

G. A VONTADE DE DEUS

Com relação a Vontade de Deus é preciso defini-la por quatro óticas:

1. VONTADE DE EUDOKIA

Ele tem prazer em sempre esta realizando algo.

2. VONTADE DE EURESTIA

Ele tem prazer, mais no cumprimento do que na promessa.

3. VONTADE DE BENEPLACITUM

Ele age no secreto.

4. VONTADE DE SIGNUM

Ele age abertamente.

H. AS OBRAS DE DEUS

1. NA CRIAÇÃO
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

1) Em Deus foram criadas todas as cousas, visíveis e invisíveis


(Colossenses 1:16).

2) Deus criou os céus e a terra (Gênesis 1:1)

3) De modo todo especial, Deus criou o homem, Adão, do pó da


terra (Gênesis 2:7).

2. NA PRESERVAÇÃO

Deus preserva, mantém e sustém tudo que trouxe à existência.

1) NEle tudo subsiste (Colossenses 1:17).

2) Ele preserva todas as coisas: os homens e animais (Salmos


36:6. O caminho dos seus santos - Provérbios 2:8). O céu e
seus exércitos, a terra, mares, e tudo que neles há (Neemias
9:6).

3. NA SUA PROVIDÊNCIA

Deus antevê, guia, dirige e governa todos os eventos para os Seus


santos propósitos: Tudo (Salmos 103:19). O universo (Josué 10:12-
14 - parou o sol); Os animais e plantas (Jonas 1:17 - o grande peixe);
Mateus 6:30, 33 - os lírios do campo. As nações (Salmos 66, Daniel
2:21).

I. QUESTÕES RESUMIDAS SOBRE DEUS

1. QUEM É DEUS?

Deus é Espírito, o Criador de todas as coisas. Criador do Universo,


Criador dos homens, dos anjos, dos animais, de todos os elementos
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

da Natureza, exemplos de água, ar e luz (Gênesis 1; João 4:24).

2. QUAIS OS ATRIBUTOS DE DEUS?

Atributos são as qualidades inerentes a Deus, próprias dEle.


Dividem-se em dois: atributos Incomunicáveis ou Naturais, que não
podem ser transferidos ao homem (ONIPRESENÇA,
ONISCIÊNCIA, ONIPOTÊNCIA, INFINITUDE e IMUTABILIDADE);
atributos Comunicáveis ou Morais, os que podem ser transferidos
ao homem (AMOR, SANTIDADE, JUSTIÇA, VERDADE). (Êxodo
3:14; Provérbios 5:21; 15:3; Atos 15:17-18; Tiago 1:17; Salmos
139:1-12; 147:13-18).

3. COMO PROVAR A EXISTÊNCIA DE DEUS?

Conforme nos mostra Paulo em Romanos 1:20, todas as coisas


criadas sejam seres animados ou inanimados e o próprio Universo,
mostram que somente um ser superior poderia criar todas estas
coisas. Ainda no Salmo 19:1, o salmista declara que "Os céus
proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas
mãos".

4. COMO PODEMOS FALAR COM DEUS?

Em Mateus 6:6 Jesus nos diz; "Tu, porém, quando orares, entra no
teu quarto, e, fechada a porta, orarás a Teu Pai, ..." Orar é falar com
Deus e não apenas falar mas também ouvi-lo. Devemos falar com
Ele como se fala a um Pai, pois Ele é nosso Pai (João 1:12). A
oração é a forma de nos comunicarmos com Deus.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

5. O QUE SIGNIFICA TRINDADE?

Há um só Deus em três pessoas distintas: o Pai é Deus; o Filho é


Deus; o Espírito Santo é Deus. Embora na Bíblia não haja a
expressão "Santíssima Trindade", a doutrina cristã do Deus trino
está evidente em várias passagens das Escrituras. No batismo de
Jesus, por exemplo, ouviu-se a voz do Pai: "Tu és o meu Filho
amado em quem me comprazo" (Marcos 1:11). João Batista disse:
"Eu vi o Espírito descer do céu como pomba e permanecer sobre
Ele" (sobre Jesus) (João 1:32). Aí temos, portanto, a manifestação
das três pessoas da Trindade. A Trindade, ou seja, as três pessoas
subsistentes em um só Deus, constitui um dos maiores mistérios da
Divindade. Não pode ser entendida nem explicada à luz da lógica
humana. A infinitude de Deus não cabe na finitude do homem.
(Gênesis 1:1-2; 1.26; 3:15; João 1:1-14).

6. QUAL A DIFERENÇA ENTRE CRIATURAS DE DEUS E FILHOS


DE DEUS?

Deus é o Criador de todas as coisas, Criador dos homens e de tudo


que há no Universo. Logo, os homens são CRIATURAS DE DEUS.
Os homens somente passam à condição de FILHOS DE DEUS
quando nascem de novo, ou seja, quando se arrependem de seus
pecados e os deixam, creem no Senhor Jesus e O aceitam como
Senhor e Salvador: "Mas a todos os que O receberam, aqueles que
creem no Seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de
Deus, filhos nascidos não do sangue, nem da vontade do homem,
mas de Deus" (João 1:12-13; Mateus 5:9; 5:45; Romanos 8:14; I
João 3:1).
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7. QUAIS AS ALIANÇAS DE DEUS?

Aliança significa pacto, acordo, ajuste, concerto. Teologicamente,


diz respeito a concerto entre Deus e o seu povo. O Antigo
Testamento é chamado Antiga Aliança. E o Novo Testamento, Nova
Aliança. O nosso Deus é Deus de alianças. Através delas, Ele, pelo
seu imenso amor, nos dá a garantia de muitas bênçãos, se houver
fé e obediência. A iniciativa do concerto sempre foi de Deus, que
estabelece as condições. Vejamos:

1) Concerto com Adão - (Gênesis 1:27-30; 2:16-17; 3:2-20).


Aliança adâmica ou edênica é como é conhecida a aliança com
Adão.

2) Concerto com Noé - (Gênesis 7:13; Gênesis 9:11-17). Chamada


aliança noética.

3) Concerto com Abraão - O concerto entre Deus e Abraão -


aliança abraâmica - foi chamado "concerto perpétuo", porque
extensivo às gerações vindouras e já apontando para o Reino
Eterno de Cristo (Gênesis 17.7).

4) Concerto com Isaque - (Gênesis 26.2-5,24).

5) Concerto com Jacó - (Gênesis 28.13-14).

6) Concerto com os Israelitas - Passados uns três meses da saída


do Egito, Deus falou ao seu povo através de Moisés, ao sopé
do monte Sinal (Horebe), para, basicamente, renovar e
relembrar os termos do concerto com Abraão, Isaque e Jacó.

7) Renovação da aliança nas planícies de Moabe - Antes da


entrada na terra prometida, e após percorrerem o deserto
durante 39 anos, os termos do concerto foram relembrados.

8) Concerto com Davi - (Salmos 89.3-4).


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

9) A nova e eterna aliança em Cristo - A promessa de uma nova


aliança está em Jeremias 31.31-33:

8. QUEM EXISTE NO CÉU? NO LUGAR QUE DEUS ESTÁ?

O Céu é a habitação de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo), dos


santos anjos e dos que morreram na fé em Cristo. Para lá irão
também todos os crentes em Jesus, pois a Palavra diz: “Todo
aquele que vive e crê em mim, nunca morrerá” (João 11.26). Jesus
disse ao ladrão na cruz: “Em verdade te digo que hoje estarás
comigo no Paraíso” (Lucas 23.43). Paulo declara: “Mas de ambos
os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo,
porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1.23). Somos
cidadãos do Céu. A Terra é uma morada provisória. Nossa
verdadeira cidadania está no Céu (1 Pedro 2.11). Embora ainda
estejamos nesta vida terrena, temos estreita ligação com o Céu,
nossa última morada: conversamos diariamente com nosso Pai;
nossos nomes estão escritos nos livros do Céu; somos protegidos
pelos anjos de Deus; o Espírito Santo está em nós; somos o Corpo
de Cristo; Cristo nos outorgou poderes para fazermos as mesmas
obras que Ele fez na Terra; nossos atos são regulados segundo o
padrão da Palavra de Deus; somos filhos de Deus, “e, se nós somos
filhos, somos, logo, herdeiros também, herdeiros de Deus e
coerdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que
também com ele sejamos glorificados” (Romanos 8.17).

9. COMO ENTENDER O JULGAMENTO DE DEUS?

Seremos julgados e/ou justificados (salvos) somente por Deus?

1) Romanos 8:33 - "É Deus quem os justifica".


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2) Efésios 2:8-9 - "É pela graça que sois salvos, por meio da fé; e
isto não vem de vós, é Dom de Deus - não das obras, para que
ninguém se glorie”.

3) Romanos 3:20-28 – “Justificados pela fé” – (Gálatas 2:16)

Ademais, não devemos nos preocupar sobre o nosso julgamento


porque, como disse, o Justo Juiz julgará com justiça. Cabe a Ele
sopesar o mérito ou demérito. É SÓ CRER EM JESUS CRISTO;
ACEITÁ-LO COMO SENHOR E SALVADOR; DEIXAR OS
PECADOS, E DORMIR TRANQÜILO. Não devemos ficar ansiosos
quanto ao nosso julgamento. O justo viverá pela fé. A verdade é que
as obras isoladas não salvam. Fosse assim, um ateu caridoso iria
para o céu.

10. COMO COMPREENDER O ARREPENDIMENTO DE DEUS?

Deus nunca muda de ideia nem se arrepende do que faz?

(Malaquias 3:6) “Eu, o Senhor, não mudo. (Números 23:19) Deus


não é homem para que minta, nem filho do homem para que se
arrependa. (I Samuel 15:29) Aquele que é a Glória de Israel não
mente nem se arrepende; pois não é homem para que se
arrependa...".

Volta atrás e se arrepende?

(Êxodo 32:14). Então o Senhor se arrependeu do mal que dissera


havia de fazer ao seu povo. (Gênesis 6:6-7) Então arrependeu-se o
Senhor de haver feito o homem sobre a terra, e isso lhe pesou no
coração (...) pois me arrependo de os haver feito.

De fato, na Sua essência, Deus não muda. Deus perfeitíssimo não


poderia melhorar a Sua perfeição ou piorá-la. O que mudam são as
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

circunstâncias. O princípio é este: mudando as circunstâncias, Deus


poderá mudar suas atitudes. Lembremo-nos de que Deus é
soberano na Sua vontade. Uma casa é um bem imóvel, mas ela
poderá nos abrigar dependendo do lado em que estejamos. Dentro
dela é o melhor lugar. A mesma coisa não ocorre se estivermos em
cima dela ou do lado direito, esquerdo, na frente ou detrás. Estes
esclarecimentos são apenas uma ajuda para quem está em
dificuldade de compreender como Deus age em determinadas
circunstâncias. A verdade é que nunca iremos compreender
plenamente os mistérios de Deus e Sua natureza, mas sabemos
que Ele é bom e nos ama, e está sempre pronto a socorrer-nos em
nossas dificuldades. Todavia, veja o que Ele diz: “Se o meu povo,
que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar e buscar a minha
face, e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos
céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra” (II
Crônicas 7.14).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 06

CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DE CRISTO (1)

A. INTRODUÇÃO

A Cristologia é o estudo sobre Cristo; é uma parte da teologia cristã que


estuda e define a natureza de Jesus, a doutrina da pessoa e da obra de
Jesus Cristo, com uma particular atenção à relação com Deus, às
origens, ao modo de vida de Jesus de Nazaré, visto que estas origens e
o papel dentro da doutrina de salvação tem sido objeto de estudo e
discussão.

"O dia do nascimento de Jesus é celebrado em todo o mundo. O


aniversário de sua morte levanta a silhueta de uma cruz no horizonte.
Quem é ele?" Com essas palavras um preeminente pregador fez uma
pergunta de suprema importância e de interesse permanente.

A pergunta foi feita pelo próprio Mestre quando, em uma crise no seu
ministério, perguntou: "Quem dizem os homens ser o Filho do homem?"
Ele ouviu a declaração da opinião do povo sem comentar, mas a sua
bênção foi pronunciada sobre a resposta que Pedro havia aprendido de
Deus: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo."

A pergunta ainda permanece e os homens até agora tentam responder.


Mas a verdadeira resposta deve vir do Novo Testamento, escrito por
homens que intimamente conheceram Jesus, por cujo conhecimento
tinha por perda todas as coisas.

B. A NATUREZA DE CRISTO.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

A pergunta "Quem é Cristo?" tem sua melhor resposta na declaração e


explicação dos "nomes", títulos pelos quais ele é conhecido.

1. FILHO DE DEUS (DEIDADE).

Da mesma forma como "filho do homem" significa um nascido do


homem, assim também Filho de Deus significa um nascido de Deus.
Por isso dizemos que esse título proclama a Deidade de Cristo.
Jesus nunca é chamado um Filho de Deus, como os homens santos
são chamados filhos de Deus (Jo 2:1). Ele é o Filho de Deus no
sentido único. Jesus é descrito mantendo uma relação para com
Deus não participada por nenhuma outra pessoa no universo. Para
explicar e confirmar essa verdade consideremos o seguinte:

1) Consciência de si mesmo. Qual era o conteúdo do


conhecimento de Jesus acerca de si mesmo; isto é, que sabia
Jesus de si mesmo? Lucas, o único escritor que relata um
incidente da infância de Jesus, diz-nos que com a idade de doze
anos (pelo menos) Jesus estava cônscio de duas coisas:
primeira, uma revelação especial para com Deus a quem ele
descreve como seu Pai; segunda, uma missão especial na terra
— "nos negócios de meu Pai". Exatamente como e quando este
conhecimento de si mesmo veio a ele, deve permanecer um
mistério para nós. Quando pensamos em Deus vindo a nós em
forma humana devemos reverentemente exclamar: "Grande é o
mistério da piedade!" Não obstante tratar-se de mistério, a
seguinte ilustração pode ser proveitosa. Ponde uma criancinha
diante de um espelho; ela se verá, porém, sem se reconhecer.
Mas virá o tempo quando ela há de saber que a imagem refletida
representa sua própria pessoa. Em outras palavras, a criança
adquiriu a consciência de sua identidade. Não poderia ter sido
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

assim com o Senhor Jesus? Ele sempre foi o Filho de Deus,


porém chegou o tempo quando, depois de estudar as Escrituras
relacionadas com o Messias de Deus, raiou em sua mente o
conhecimento íntimo, de que ele, o Filho de Maria, não era outro
senão o Cristo de Deus. Em vista de o Eterno Filho de Deus ter
vivido uma vida perfeitamente natural e humana, é razoável
pensar que o autoconhecimento de sua Deidade houvesse
surgido dessa maneira. No rio Jordão, Jesus ouviu a voz do Pai
corroborando e confirmando o seu conhecimento intimo (Mt
3:17), e no deserto resistiu com êxito à tentativa de Satanás de
fazê-lo duvidar de sua filiação ("Se tu és o Filho de Deus..." Mt
4:3). Mais tarde em seu ministério louvou a Pedro pelo
testemunho divinamente inspirado concernente à sua Deidade
e ao seu caráter messiânico (Mt 16:15-17.) Quando diante do
concilio judaico, Jesus poderia ter escapado à morte, negando
sua filiação ímpar e simplesmente afirmando que ele era um dos
filhos de Deus no mesmo sentido em que o são todos os
homens; porém, sendo-lhe exigido juramento pelo sumo
sacerdote, ele declarou sua consciência de Divindade, apesar
de saber que isso significaria a sentença de morte (Mt 26:63-
65.)

2) As reivindicações de Jesus. Ele se colocou lado a lado com a


atividade divina. "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho
também." "Saí do Pai" (Jo 16:28). "O Pai me enviou" (Jo 20:21).

Ele reivindicava uma comunhão e um conhecimento divinos. (Mt


11:27; Jo 17:25.) Alegava revelar a essência do Pai em si
mesmo. (Jo 14:9-11.) Ele assumiu prerrogativas divinas:
Onipresença (Mt 18:20); poder de perdoar pecados (Mt 2:5-10);
poder de ressuscitar os mortos. (Jo 6:39, 40, 54; 11:25; 10:17,
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

18.) Proclamou-se Juiz e árbitro do destino do homem. (Jo 5:22;


Mt 25:31-46.) Ele exigia uma rendição e uma lealdade que
somente Deus por direito podia reivindicar; insistia em uma
absoluta rendição da parte dos seus seguidores. Eles deviam
estar prontos a cortar os laços mais íntimos e mais queridos,
porque qualquer que amasse mais o pai ou a mãe do que a ele,
não era digno dele. (Mt 10:37; Lc 14:25-33.) Essas veementes
reivindicações foram feitas por UM que viveu como o mais
humilde dos homens, e foram declaradas de modo simples e
natural; por exemplo, Paulo com igual simplicidade diria "Sou
homem e judeu". Para chegar-se à conclusão de que Cristo era
divino é necessário admitir somente duas coisas: primeira, que
Jesus não era um homem mau; segundo, que ele não era
demente. Se ele dissesse que era divino, sabendo que não o
era, então não poderia ser bom; se ele falsamente se
imaginasse Deus, então não poderia ser sábio. Porém nenhuma
pessoa sensata sonharia em negar o caráter perfeito de Jesus
ou sua superior sabedoria. Em consequência, é inevitável
concluir que ele era o que ele próprio disse ser — o Filho de
Deus, em sentido único.

3) A autoridade de Cristo. Nos ensinos de Cristo nota-se a


completa ausência de expressões como estas: "é minha
opinião"; "pode ser"; "penso que..."; "bem podemos supor", etc.
Um erudito judeu racionalista admitiu que ele falava com a
autoridade do Deus Poderoso. O Dr. Henry Van Dyke assinala
que no Sermão da Montanha, por exemplo, temos: a
preponderante visão de um hebreu crente colocando-se a si
mesmo acima da autoridade de sua própria fé; um humilde
Mestre afirmando autoridade suprema sobre toda a conduta
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

humana; um Reformador moral pondo de lado todos os demais


fundamentos, dizendo: "Todo aquele, pois, que escuta estas
minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem
prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha... (Mt 7:24)"
Quarenta e nove vezes, nesse breve registro do discurso de
Jesus, repete-se a solene frase com a qual ele autentica a
verdade: "Em verdade vos digo."

4) A impecabilidade de Cristo. Nenhum professor que chame os


homens ao arrependimento pode evitar algumas referências às
suas próprias faltas ou imperfeições; em verdade, quanto mais
santo ele é, mais lamentará e reconhecerá suas próprias
limitações. Porém, nas palavras e nas obras de Jesus há uma
ausência completa de conhecimento ou confissão de pecado.
Embora possuísse profundo conhecimento do mal e do pecado,
em sua alma não havia a mais leve sombra ou mácula de
pecado. Ao contrário, ele, o mais humilde dos homens, desafiou
a todos: "Quem dentre vós me convence de pecado?" (Jo 8:46).

5) O testemunho dos discípulos. Jamais algum judeu pensou


que Moisés fosse divino; nem o seu discípulo mais entusiasta
nunca lhe teria atribuído uma declaração como esta:
"Batizando-as em nome do Pai, e de Moisés, e do Espírito
Santo" (Mt 28:19.) E a razão disso é que Moisés nunca falou
nem agiu como quem procedesse de Deus e fosse participante
de sua natureza. Por outro lado, o Novo Testamento expõe este
milagre: Aqui está um grupo de homens que andava com Jesus
e que o viu em todos os aspectos característicos de sua
humanidade — que, no entanto, mais tarde o adorou como
divino, o proclamou como o poder para a salvação e invocou o
seu nome em oração. João, que se reclinava no peito de Jesus,
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

não hesitou em dele falar como sendo Jesus o eterno Filho de


Deus, que criou o universo (Jo 1:1, 3), e relatou, sem nenhuma
hesitação ou desculpa, o ato da adoração de Tomé e a sua
exclamação: "Senhor meu, e Deus meu!" (João 20:28). Pedro,
que tinha visto o seu Mestre comer, beber e dormir, que o havia
visto chorar — enfim, que tinha testemunhado todos os
aspectos da sua humanidade, mais tarde disse aos judeus que
Jesus está à destra de Deus; que ele possui a prerrogativa de
conceder o Espírito Santo (At 2:33,36); que ele é o único
caminho da salvação (Atos 4:12); quem perdoa os pecados (At
5:31); e é o Juiz dos mortos. (At 10:42.) Em sua segunda
epístola 3:18) ele o adora, atribuindo-lhe "glória assim agora
como no dia da eternidade". (Nenhuma prova existe de que
Paulo o apóstolo tivesse visto Jesus em carne, apesar de tê-lo
visto em forma glorificada), mas esteve em contato direto com
aqueles que o tinham visto. E este Paulo, que jamais perdera
essa reverência para com Deus, reverência que desde a sua
mocidade estava nele profundamente arraigada, contudo, com
perfeita serenidade descreve Jesus como "o Grande Deus e
nosso Salvador" (Tt 2:13); apresenta-o como encarnando a
plenitude da Divindade (Gl 2:9), como sendo o Criador e
Sustentador de todas s coisas. (Gl 1:17.) Como tal, seu nome
deve ser invocado em oração (1 Co 1:2; At 7:59), e seu nome
está associado com o do Pai e o do Espírito Santo à bênção. (2
Co 13:14.) Desde o princípio a igreja primitiva considerava e
adorava a Cristo como divino. No princípio do segundo século
um oficial romano relatou que os cristãos costumavam reunir-se
de madrugada para "cantar um hino de adoração a Cristo, como
se fosse a Deus". Um autor pagão escreveu: "Os cristãos ainda
estão adorando aquele grande homem que foi crucificado na
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Palestina." Até o escárnio dos pagãos é um testemunho da


deidade de Cristo.

Em um antigo palácio romano foi encontrada uma inscrição (que


data do terceiro século) apresentando uma figura humana com
cabeça de asno pendurado na cruz, enquanto que um homem
está de pé em atitude de adoração. Em baixo aparece a
inscrição: "Alexamenos adora a seu Deus." O Dr. Henry Van
Dyke comenta: Assim os cânticos e orações dos crentes, as
acusações dos perseguidores, o escárnio dos céticos, e as
pilhérias grosseiras dos escarnecedores, tudo se une para
provar, sem dúvida, que os primitivos cristãos rendiam honra
divina ao Senhor Jesus... não há razão para duvidar de que os
primitivos cristãos houvessem visto em Cristo uma revelação
pessoal de Deus, assim como não pode haver dúvida de que os
amigos e seguidores de Abraão Lincoln o tenham considerado
um bom e leal cidadão americano. Entretanto, não devemos
inferir dai que a igreja primitiva não adorasse a Deus, o Pai, pois
sabemos que era costume geral orar ao Pai em nome de Jesus
e dar-lhe graças pelo dom do Filho. Mas, para eles era tão real
a deidade de Cristo e a unidade entre as duas Pessoas, que
lhes era muito natural invocar o nome de Jesus.

Foi a firme lealdade deles ao ensino do Antigo Testamento


acerca da verdade de Deus, combinada com a firme crença na
deidade de Cristo, que os conduziu a formular a doutrina da
Trindade. Embora as seguintes palavras do credo de Nicéia
(século quarto) tenham sido, como ainda são, recitadas por
muitos de uma maneira formalista, não obstante, elas
expressam fielmente sincera convicção da igreja primitiva:
Cremos em um Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, o
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus,


Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, foi
feito; sendo da mesma substância que o Pai; pelo qual foram
feitas todas as coisas que estão no céu e na terra, e o qual por
nós os homens e por nossa salvação desceu, encarnou e foi
feito homem, sofreu, e ressuscitou ao terceiro dia, e ascendeu
ao céu, donde virá outra vez para julgar os vivos e os mortos.

2. O VERBO (PRÉ-EXISTÊNCIA E ATIVIDADE ETERNAS)

A palavra do homem é aquela por meio da qual ele se expressa e


por meio da qual ele se comunica com os seus semelhantes. Por
sua palavra ele dá a conhecer seus pensamentos e sentimentos, e
por sua palavra ele manda e executa a sua vontade. A palavra com
que se expressa está impregnada de seu pensamento e de seu
caráter.

Pela expressão verbal de um homem até um cego pode conhecê-lo


perfeitamente. Embora se veja uma pessoa e dela se tenha
informações, não se conhecerá bastante enquanto ela não falar. A
palavra do homem é a expressão de seu caráter. Da mesma
maneira, a "Palavra de Deus" é o veículo mediante o qual Deus se
comunica com outros seres, e é o meio pelo qual Deus expressa o
seu poder, a sua inteligência e a sua vontade.

Cristo é a Palavra ou Verbo, porque por meio dele, Deus revelou


sua atividade, sua vontade e propósito, e por meio dele tem contato
com o mundo. Nós nos expressamos por meio de palavras; o eterno
Deus se expressa a si mesmo por meio do seu Filho, o qual "é a
expressa imagem da sua pessoa" (Hb 1:3). Cristo é a Palavra de
Deus, demonstrando-o em pessoa. Ele não somente traz a
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

mensagem de Deus — ele é a mensagem de Deus. Considere-se a


necessidade de tal Revelador. Procure-se compreender a extensão
do universo com seus imensuráveis milhões de corpos celestes,
cobrindo distâncias que deixam estupefata a mente; imaginem-se
as infinitas extensões do espaço além do universo material; a
seguir, procure-se compreender a grandeza daquele que é o Autor
de tudo isso. Considere-se por outro lado, a insignificância do
homem. Tem-se calculado que se todas as pessoas neste mundo
medissem 1,80m de altura, 45cm de largura, e 30cm de espessura,
os três bilhões da raça humana caberiam em uma caixa medindo
menos de um quilometro cúbico. Deus — quão poderoso e vasto! O
homem — quão infinitesimal! Além disso, esse Deus é Espírito,
portanto, não pode ser compreendido pelo olho material, nem pelos
demais sentidos naturais. Surge a grande pergunta: Como pode o
homem ter comunhão com um Deus como esse? Como pode
sequer ter a mínima ideia da sua natureza e caráter? É certo que
Deus se revelou pela palavra profética, por meio de sonhos e visões
e por meio de manifestações temporais. Porém, o homem anelava
por uma resposta mais clara à seguinte pergunta: Como é Deus?
Para responder a esta pergunta, surgiu o evento mais significativo
da história — "E o Verbo se fez carne" (Jo 1:14). O Verbo eterno de
Deus tomou sobre si mesmo a natureza humana e se tornou
homem, a fim de revelar o eterno Deus por meio de uma
personalidade humana. "Havendo Deus antigamente falado muitas
vezes, e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, a nós falou-
nos nestes últimos dias pelo Filho" (Hb 1:1, 2). De modo que à
pergunta "como é Deus?", o cristão responde: Deus é como Cristo,
porque Cristo é o Verbo — a ideia que Deus tem de si mesmo. Isto
é, ele é "a expressa imagem da sua pessoa" (Hb 1:3), "a imagem
do Deus invisível" (Cl 1:5).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

3. SENHOR (DEIDADE, EXALTAÇÃO E SOBERANIA)

Uma ligeira consulta a uma concordância bíblica revelará o fato de


que "Senhor" é um dos títulos mais comuns dados a Jesus. Este
título indica a sua deidade, exaltação e soberania.

1) Deidade. O título "Senhor", ao ser usado como prefixo antes de


um nome, transmitia, tanto a judeus como a gentios, o
pensamento de deidade. A palavra "Senhor" no grego ("Kurios")
era equivalente a "Jeová” na tradução grega do Antigo
Testamento; portanto, para os judeus "o Senhor Jesus" era
claramente uma imputação de deidade. Quando o imperador
dos romanos se referia a si mesmo como "Senhor César",
requerendo que seus súditos dissessem "César é Senhor", os
gentios entendiam que o imperador estava reivindicando
divindade. Os cristãos entendiam o termo da mesma maneira,
e preferiam sofrer perseguição a atribuir a um homem um título
que somente pertencia a Um que é verdadeiramente divino.
Somente àquele a quem Deus exaltara eles renderiam
adoração e lhe atribuiriam senhorio.

2) Exaltação. Na eternidade Cristo possui o título "Filho de Deus"


em virtude da sua relação com Deus. (Fp 2:9); na história Ele
ganhou o título "Senhor", por haver morrido e ressuscitado para
a salvação dos homens. (At 2:36; 10:36; Rm 14:9.) Ele sempre
foi divino por natureza; chegou a ser Senhor por merecimento.
Por exemplo: Se um jovem nascido na família de um
multimilionário não está contente em herdar aquilo pelo qual
outros tenham trabalhado, mas deseja possuir unicamente o
que ganhou por seus próprios esforços, ele então
voluntariamente renuncia a seus privilégios, toma o lugar de um
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

trabalhador comum, e por meio do seu labor conquista para si


um lugar de honra e riqueza. Igualmente, o Filho de Deus,
apesar de ser por natureza igual a Deus, voluntariamente
sujeitou-se a si mesmo às limitações humanas, porém sem
pecado, tomando sobre si a natureza do homem, fez-se servo
do homem, e finalmente morreu na cruz para redenção do
mesmo homem. Como recompensa, Cristo foi exaltado ao
domínio sobre todas as criaturas — uma recompensa
apropriada, pois, que melhor credencial poderia alguém ter para
exercer senhorio sobre os homens, visto que os amara e se
entregara a si mesmo por eles? (Ap 1:5.) Esse direito já foi
reconhecido por milhões e a cruz tomou-se um degrau pelo qual
Jesus alcançou a soberania dos corações dos homens.

3) Soberania. No Egito, Jeová se revelou a Israel como Redentor


e Salvador; no Sinai, como Senhor e Rei. As duas coisas se
justapõem, porque ele, que se tomou Salvador deles, tinha
direito de ser o seu Soberano. É por isso que os Dez
Mandamentos iniciam com a declaração: "Eu sou o Senhor teu
Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êx
20:2). Em outras palavras, "Eu, o Senhor, que vos redimi, tenho
o direito de governar sobre vós." E assim aconteceu com Cristo
e seu povo. Os cristãos primitivos reconheceram
instintivamente — como todos os verdadeiros discípulos — que
aquele que os redimiu do pecado e da destruição, tem o direito
de ser o Senhor de suas vidas. Comprados por bom preço, não
pertencem a si mesmos (1 Co 6:20), mas, sim, a quem morreu
e ressuscitou por eles. (2 Co 5:15.) Portanto, o título "Senhor",
aplicado a Jesus pelos seus seguidores, significa: "Aquele que
por sua morte ganhou o lugar de soberania no meu coração, e
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

a quem me sinto constrangido a adorar e servir com todas as


minhas forças." O paralítico que foi curado, ao ser repreendido
por levar sua cama no dia de sábado, respondeu: "Aquele que
me curou, ele próprio disse: Toma a tua cama, e anda" (Jo 5:11).
Ele soube, instintivamente, com a lógica do coração, que Jesus
que lhe tinha dado saúde, possuía o direito de dizer-lhe como
usar essa saúde. Se Jesus é o nosso Salvador, deve ser o
nosso Senhor.

4. FILHO DO HOMEM (HUMANIDADE)

1) Quem? De acordo com o hebraico a expressão "filho de" denota


relação e participação. Por exemplo: "Os filhos do reino" (Mt
8:12) são aqueles que hão de participar de suas verdades e
bênçãos. "Os filhos da ressurreição" (Lc 20:36) são aqueles que
participam da vida ressuscitada. Um "filho de paz" (Lc 10:6) é
um que possui caráter pacífico. Um "filho da perdição" (Jo
17:12) é um destinado a sofrer a ruína e a condenação.
Portanto, "filho do homem" significa, principalmente, um que
participa da natureza humana e das qualidades humanas.
Dessa maneira, "filho do homem" vem a ser uma designação
enfática para o homem em seus atributos característicos de
debilidade e impotência (Nm 23:19; Jo 16:21; 25:6.) Neste
sentido o título é aplicado oitenta vezes a Ezequiel, como uma
recordação de sua debilidade e mortalidade, e como um
incentivo à humanidade no cumprimento da sua vocação
profética. Aplicado a Cristo, "Filho do homem" designa-o como
participante da natureza e das qualidades humanas, e como
sujeito às fraquezas humanas. No entanto, ao mesmo tempo,
esse título implica sua deidade, porque, se uma pessoa
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

enfaticamente declarasse: "Sou filho de homem", a ele dir-se-


ia: "Todos sabem disso." Porém, a expressão nos lábios de
Jesus significa uma Pessoa celestial que se havia identificado
definitivamente com a humanidade como seu representante e
Salvador. Notemos também que é: o — e não um — Filho do
homem. O título está relacionado com a sua vida terrena (Mc
2:10; 2:28; Mt 8:20; Lc 19:10), com seus sofrimentos a favor da
humanidade (Mc 8:31), e com sua exaltação e domínio sobre a
humanidade (Mt 25:31; 26:24. Vide Dn 7:14). Ao referir-se a si
mesmo como "Filho do homem", Jesus desejava expressar a
seguinte mensagem: "Eu, o Filho de Deus, sou Homem, em
debilidade, em sofrimento, mesmo até à morte. Todavia, ainda
estou em contato com o Céu de onde vim, e mantenho uma
relação com Deus que posso perdoar pecados (Mt 9:6), e sou
superior aos regulamentos religiosos que somente tem
significado temporal e nacional. (Mt 12:8.) Esta natureza
humana não cessará quando eu tiver passado por estes últimos
períodos de sofrimento e morte que devo suportar para a
salvação do homem e para consumar a minha obra. Porque
subirei e a levarei comigo ao céu, de onde voltarei para reinar
sobre aqueles cuja natureza "tornei sobre mim". A humanidade
do Filho de Deus era real e não fictícia Ele nos é descrito como
realmente padecendo fome, sede, cansaço, dor, e como
estando sujeito em geral às debilidades da natureza, porém sem
pecado.

2) Como? Por qual ato, ou meio, o Filho de Deus veio a ser Filho
do homem? Que milagre pôde trazer ao mundo "o segundo
homem" que é o "Senhor do céu"? (1 Co 15:47.) A resposta é
que o Filho de Deus veio ao mundo como Filho do homem
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

sendo concebido no ventre de Maria pelo Espírito Santo, e não


por um pai humano. E a qualidade da vida inteira de Jesus está
em conformidade com a maneira do seu nascimento. Ele que
veio através de um nascimento virginal, viveu uma vida virginal
(inteiramente sem pecado) — sendo essa última característica
um milagre tão grande como o primeiro. Ele que nasceu
milagrosamente, viveu milagrosamente, ressuscitou dentre os
mortos milagrosamente e deixou o mundo milagrosamente.
Sobre o ato do nascimento virginal está baseada a doutrina da
encarnação. (Jo 1:14.) A seguinte declaração dessa doutrina é
da pena do erudito Martin Scott: Como todos os cristãos sabem,
a encarnação significa que Deus (isto é, o Filho de Deus) se fez
homem. Isso não quer dizer que Deus se tomou homem, nem
que Deus cessou de ser Deus e começou a ser homem; mas
que, permanecendo como Deus, ele assumiu ou tomou uma
natureza nova, a saber, a humana, unindo esta à natureza
divina no ser ou na pessoa — Jesus Cristo, verdadeiro Deus e
verdadeiro homem. Na festa das bodas de Caná, a água tornou-
se em vinho pela vontade de Jesus Cristo, o Senhor da Criação
(Jo 2:1-11). Não aconteceu assim quando Deus se fez homem,
pois em Caná a água deixou de ser água, quando se tornou em
vinho, mas Deus continuou sendo Deus, quando se fez homem.
Um exemplo que nos poderá ajudar a compreender em que
sentido Deus se fez homem, mas ainda não ilustra de maneira
perfeita a questão, é aquele de um rei que por sua própria
vontade se fizera mendigo. Se um rei poderoso deixasse seu
trono e o luxo da corte, e vestisse os trapos de um mendigo,
vivesse com mendigos, compartilhasse seus sofrimentos, etc.,
e isto, para poder melhorar-lhes as condições de vida, diríamos
que o rei se fez mendigo, porém ele continuaria se<ido
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

verdadeiramente rei. Seria correto dizer que o que o mendigo


sofreu era o sofrimento de um rei; que, quando o mendigo
expiava uma culpa, era o rei que expiava, etc. Visto que Jesus
Cristo é Deus e homem, é evidente que Deus, de alguma
maneira é homem também. Agora, como é que Deus é homem?
Está claro que ele nem sempre foi homem, porque o homem
não é eterno, mas Deus o é. Em certo tempo definido, portanto,
Deus se fez homem tomando a natureza humana. Que
queremos dizer com a expressão "tomar a natureza humana"?
Queremos dizer que o Filho de Deus, permanecendo Deus,
tomou outra natureza, a saber, a do homem, e a uniu de tal
maneira com a sua, que constituiu uma Pessoa, Jesus Cristo. A
encarnação, portanto, significa que o Filho de Deus, verdadeiro
Deus desde toda a eternidade, no curso do tempo se fez
verdadeiro homem também, em uma Pessoa, Jesus Cristo,
constituída de duas naturezas, a humana e a divina. Isso,
naturalmente é um mistério. Não podemos compreendê-lo,
assim como tampouco podemos conceber a própria Trindade.
Há mistérios em toda parte. Não podemos compreender como
a erva e a água, que alimentam o gado, se transformam em
carne e sangue. Uma análise química do leite não demonstra
conter ele nenhum ingrediente de sangue, entretanto, o leite
materno se torna em sangue e carne da criança. Nem a própria
mãe sabe como no seu corpo se produz o leite que dá a seu
filho. Nenhum dentre os sábios do mundo pode explicar a
conexão existente entre o pensamento e a expressão desse
pensamento, ou seja, as palavras. Não devemos, pois,
estranhar se não podemos compreender a encarnação de
Cristo. Cremos nela porque aquele que a revelou, é o próprio
Deus, que não pode enganar nem ser enganado.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

3) Por que o Filho de Deus se fez Filho do homem, ou quais foram


os propósitos da encarnação?

Como já observamos, o Filho de Deus veio ao mundo para ser


o Revelador de Deus. Ele afirmou que as suas obras e suas
palavras eram guiadas por Deus (Jo 5:19, 20; 10:38); sua
própria obra evangelizadora foi uma revelação do coração do

Pai celestial, e aqueles que criticaram sua obra entre os


pecadores demonstraram assim sua falta de harmonia com o
espírito do céu. (Lc 15:1-7.)

Ele tomou sobre si nossa natureza humana para glorificá-la e


desta maneira adaptá-la a um destino celestial. Por
conseguinte, formou um modelo, por assim dizer, pelo qual a
natureza humana poderia ser feita à semelhança divina. Ele, o
Filho de Deus, se fez Filho do homem, para que os filhos dos
homens pudessem ser feitos filhos de Deus (Jo 1:2), e um dia
serem semelhantes a ele (1 Jo 3:2); até os corpos dos homens
serão "conforme o seu corpo glorioso" (Fl 3:21). "O primeiro
homem (Adão), da terra, é terreno: o segundo homem, o Senhor
é do céu" (1Co 15:47); e assim, "como trouxemos a imagem do
terreno (vide Gn 5:3), assim traremos também a imagem do
celestial" (verso 49), porque "o último Adão foi feito em espírito
vivificante" (verso 45).

Porém, o obstáculo a impedir a perfeição da humanidade era o


pecado — o qual, ao princípio, privou Adão da glória da justiça
original. Para resgatar-nos da culpa do pecado e de seu poder,
o Filho de Deus morreu como sacrifício expiatório.

5. CRISTO (TÍTULO OFICIAL E MISSÃO)


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

1) A profecia. "Cristo" é a forma grega da palavra hebraica


"Messias", que literalmente significa, "o ungido". A palavra é
sugerida pelo costume de ungir com óleo como símbolo da
consagração divina para servir. Apesar de os sacerdotes, e às
vezes o "Ungido" era particularmente aplicado aos reis de Israel
que reinavam como representantes de Jeová. (2 Sm 1:14.) Em
alguns casos o símbolo da unção era seguido pela realidade
espiritual, de maneira que a pessoa vinha a ser, em sentido vital,
o ungido do Senhor, (1 Sm 10:1, 6; 16:13.) Saul foi um
fracassado, porém Davi, que o sucedeu, foi "um homem
segundo o coração de Deus", um rei que considerava suprema
em sua vida a vontade de Deus e que se considerava como
representante de Deus. Porém, a grande maioria dos reis se
apartou do ideal divino e conduziu o povo à idolatria; e até
alguns dos reis mais piedosos não estavam sem culpa nesse
particular. Sob esse fundo negro, os profetas expuseram a
promessa da vinda de um rei da casa de Davi, um rei ainda
maior do que Davi. Sobre ele descansaria o Espírito do

Senhor com um poder nunca visto (Is 11:1-3; 61:1). Apesar de


Filho de Davi, também seria ele o Filho de Jeová, recebendo
nomes divinos (Is 9:6, 7; Jr 23:6). Diferente do de Davi, seu reino
seria eterno, e sob seu domínio estariam todas as nações. Esse
era o Ungido, ou o Messias, ou o Cristo, e sobre ele
concentravam-se as esperanças de Israel.

2) O Cumprimento. O testemunho constante do Novo


Testamento é que Jesus se declarou o Messias, ou Cristo,
prometido no Antigo Testamento. Assim como o presidente
deste pais é primeiramente eleito e depois publicamente toma
posse do governo, da mesma maneira, Jesus Cristo foi
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

eternamente eleito para ser o Messias e Cristo, e depois


empossado publicamente em seu oficio messiânico no rio
Jordão. Assim como Samuel ungiu primeiro a Saul e depois
explicou o significado da unção (1Sm 10:1), da mesma maneira
Deus, o Pai, ungiu a seu Filho com o Espírito de poder e
sussurrou no seu ouvido o significado da sua unção: "Tu és o
meu Filho amado em quem me comprazo" (Mc 1:11). Em outras
palavras: "Tu és o Filho de Jeová, cuja vinda foi predita pelos
profetas, e agora te doto de autoridade e poder para a tua
missão, e te envio com minha bênção." As pessoas entre as
quais Jesus teria de ministrar esperavam a vinda do Messias,
mas infelizmente suas esperanças eram coloridas por uma
aspiração política. Esperavam um "homem forte", que fosse
uma combinação de soldado e estadista. Seria Jesus esse tipo
de Messias? O Espírito o conduziu ao deserto para debater a
questão com Satanás, que astuciosamente lhe sugeriu que
adotasse um programa popular e dessa maneira tomasse o
caminho mais fácil e curto para o poder. "Concede-lhes seus
anelos materiais", sugeriu o Tentador (vide Mt 4:3, 4 e Jo 6:14,
15, 26), "deslumbra-os saltando do pináculo do templo (e
logicamente ficarás em boas relações com o sacerdócio), faze-
te o campeão do povo e conduze-os à guerra". (Mt 4:8,9 e Ap.
13:2,4.) Jesus sabia que Satanás estava advogando a política
popular, a qual era inspirada por seu próprio espírito egoísta e
violento. Que esse curso de ação conduziria ao derramamento
de sangue e à violência, não havia dúvida. Não! Jesus seguiria
a direção do seu Pai e confiaria somente nas armas espirituais
para conquistar os corações dos homens, ainda que a senda
conduzisse à falta de compreensão, ao sofrimento, e à morte!
Jesus escolheu a cruz. e escolheu-a porque era parte do
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

programa de Deus para sua vida. Ele nunca se desviou dessa


escolha, apesar de ser muitas vezes tentado a abandonar o
caminho da cruz. (Vide, por exemplo, Mt 16:22.)
Escrupulosamente Jesus conservou-se fora de embaraços na
situação política contemporânea. Às vezes proibia aos que ele
curava de espalharem sua fama, para que seu ministério não
fosse mal interpretado como sendo uma agitação popular contra
Roma. (Mt 12:15, 16; Lc 23:5.) Nessa ocasião seu êxito tornou-
se uma acusação contra ele. Recusou-se deliberadamente a
encabeçar um movimento popular (Jo 6:15). Proibia a
proclamação pública de seu caráter messiânico, como também
o testemunho de sua transfiguração para que não suscitassem
esperanças falsas entre o povo. (Mt 16:20; 17:9.) Com
sabedoria infinita, escapou a uma hábil armadilha que o
desacreditaria entre o povo como "traidor da nação", ou, por
outro lado, que o envolveria em dificuldades com o governo
romano. (Mt 22:15-21.) Em tudo isso o Senhor Jesus cumpriu a
profecia de Isaias que o Ungido de Deus seria proclamador da
verdade divina, e não um violento agitador, nem um que
buscasse seu próprio bem, nem que excitasse a população (Mt
12:16-21), como o faziam alguns dos falsos messias que o
precederam e outros que posteriormente surgiram. (Jo 10:8; At
5:36; 21:38.) Ele evitou fielmente os métodos carnais e seguiu
os espirituais, de maneira que Pilatos, representante de Roma,
pôde testificar: " não acho culpa alguma neste homem."
Observamos que Jesus começou seu ministério entre um povo
que tinha a verdadeira esperança de um Messias, tendo, porém,
um conceito errôneo de sua Pessoa e obra. Sabendo disso,
Jesus não se proclamou no princípio como Messias (Mt 16:20)
porque sabia que isso seria um sinal de rebelião contra Roma.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Ele, de preferência, falava do Reino, descrevendo seus ideais e


sua natureza espiritual, esperando inspirar no povo uma fome
por esse reino espiritual, que por sua vez os conduziria a
desejar um Messias espiritual. E seus esforços neste sentido
não foram inteiramente infrutíferos, pois João, o apóstolo, nos
diz (capítulo 1) que desde o princípio houve um grupo espiritual
que o reconhecia como Cristo. Também, de tampos em tempos
ele se revelava a indivíduos que estavam preparados
espiritualmente. (Jo 4:25, 26; 9:35-37.) Porém, a nação em geral
não entendia a conexão entre o seu ministério espiritual e o
pensamento do Messias. Admitiam livremente que ele fosse um
Mestre capaz, um grande pregador, e ainda um profeta (Mt
16:13, 14); mas certamente, não um que pudesse encabeçar
um programa econômico, militar e político — como julgavam
coubesse ao Messias fazer. Mas por que culpar o povo de uma
expectação tal? Em verdade, Deus havia prometido
restabelecer um reino terreno. (Zc 14:9-21; Am 9:11-15; Jr 23:6-
8.) Certamente, mas antes desse evento, deveria operar-se
uma purificação moral e uma regeneração espiritual da nação.
(Ez. 36:25-27; Jo 3:1-3.) E tanto João Batista, como Jesus,
esclareceram que a nação, na condição em que se encontrava,
não estava preparada para participar desse reino. Daí a
exortação: "Arrependei-vos: porque é chegado o reino dos
céus." Mas enquanto as palavras "reino dos céus" comoviam
profundamente o povo, as palavras "arrependei-vos" não lhes
causaram boa impressão. Tanto os chefes (Mt 21:31, 32) como
o povo (Lc 13:1-3; 19:41-44) se recusaram a obedecer às
condições do reino e consequentemente perderam os
privilégios do reino. (Mt 21:43.) Mas Deus onisciente havia
previsto o fracasso de Israel (Is 6:9,10; 53:1; Jo 12:37-40), e
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Deus Todo-poderoso o tinha dirigido para o fomento de um


plano até então mantido em segredo. O plano era o seguinte: a
rejeição por parte de Israel daria a Deus a oportunidade de
tomar um povo escolhido de entre os gentios (Rm 11:11; At
15:13, 14; Rm 9:25, 26), que, juntamente com os crentes
judeus, constituiriam um grupo conhecido como a Igreja. (Ef 3:4-
6.) Jesus mesmo deu a seus discípulos um vislumbre desse
período (a época da igreja) que sucederia entre seus adventos
primeiro e segundo, chamando essas revelações "mistérios"
porque não foram reveladas aos profetas do Antigo Testamento.
(Mt 13:11-17.) Certa ocasião a inabalável fé demonstrada por
um centurião gentio contrastada com a falta de fé em muitos
israelitas trouxe à sua inspirada visão o espetáculo de gentios
de todas as terras entrando no reino que Israel havia rejeitado.
(Mt 8:10-12.) A crise prevista no deserto havia chegado, e Jesus
se preparou para dar tristes notícias a seus discípulos.
Começou com muito tato a fortalecer-lhes a fé com testemunho
divinamente inspirado acerca do seu caráter messiânico,
testemunho dado pelo apóstolo Pedro. Então fez uma
surpreendente predição (Mt 16:18, 19), que se pode parafrasear
da seguinte maneira: "A congregação de Israel (ou "igreja", At
7:38) rejeitou-me como seu Messias, e seus chefes realmente
vão excomungar-me a mim, que sou a verdadeira pedra angular
da nação. (M. 21:42.) Mas por isso, não fracassará o plano de
Deus porque eu estabelecerei outra congregação ("igreja"),
composta de homens como tu, Pedro (1 Pe 2:4-9), que crerão
na minha Deidade e caráter messiânico. Tu serás dirigente e
ministro dessa congregação, e teu será o privilégio de abrir-lhe
as portas com a chave da verdade do Evangelho, e tu e teus
irmãos administrareis os seus negócios." Então Cristo fez um
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

anúncio que os discípulos não compreenderam inteiramente,


senão depois de sua ressurreição (Lc 24:25-48); isto é, que a
cruz era parte do programa de Deus para o Messias. "Desde
então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que
convinha ir a Jerusalém, e padecer muito às mãos dos anciãos,
e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e
ressuscitar ao terceiro dia" (Mt 16:21). No devido tempo a
horrenda profecia foi cumprida. Jesus poderia ter escapado à
morte, negando a sua Deidade; poderia ter sido absolvido
negando que fosse rei; porém, ele persistiu em seu testemunho
e morreu numa cruz que levava a inscrição: ESTE É O REI DOS
JUDEUS. Mas o Messias sofredor (Is 53:7-9) ressurgiu dentre
os mortos (Is 53:10, 11), e, como Daniel havia previsto,
ascendeu à destra de Deus (Dn 7:14; Mt 28:18), de onde virá
para julgar os vivos e os mortos. Depois desse exame dos
ensinos do Antigo e Novo Testamentos, temos elementos para
declarar a definição completa do título "Messias"; a saber,
aquele a quem Deus autorizou para salvar a Israel e às nações
do pecado e da morte, e para governar sobre eles como Senhor
de suas vidas e Mestre. Que semelhante afirmação implica
deidade é compreendido por pensadores judeus, se bem que
para eles isso constitui um escândalo. Claude Montefiore,
notável erudito judeu, disse: Se eu pudesse crer que Jesus era
Deus (isto é, Divino), então obviamente ele seria meu Mestre.
Porque o meu Mestre — o Mestre do judeu moderno, é, e só
pode ser Deus.

6. FILHO DE DAVI (LINHAGEM REAL)

Esse título é equivalente a "Messias", pois uma qualidade


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

importante do Messias era sua descendência davídica.

1) A Profecia. Como recompensa por sua fidelidade, a Davi foi


prometida uma dinastia perpétua (2 Sam. 7:16), a à sua casa foi
dada uma soberania eterna sobre Israel. Esta foi a aliança
davídica ou a do trono. Data desse tempo a esperança de que,
acontecesse o que acontecesse à nação, no tempo assinalado
por Deus apareceria um rei pertencente ao trono e à linhagem
de

Davi. Em tempos de aflição os profetas relembravam ao povo


essa promessa, dizendo-lhe que a redenção de Israel, e das
nações, estava ligada com a vinda de um grande Rei da casa
de Davi. (Jr 30:9; 23:5; Ez 34:23; Is 55:3, 4; Sl 89:34-37.)
Notemos particularmente Is 11:1, que pode ser traduzido como
segue: "Porque brotará rebento do trono de Jessé, e das suas
raízes um renovo frutificará". Em Is 10:33,34, a Assíria, a cruel
opressora de Israel, é comparada a um cedro cujo tronco nunca
brota renovos, mas apodrece lentamente. Uma vez cortada,
essa árvore não tem futuro. E assim é descrita a sorte da
Assíria, a qual, há muito, desapareceu do palco da história. A
casa de Davi, por outro lado, é comparada a uma árvore que
terá novo crescimento do tronco deixado no solo. A profecia de
Isaias é como segue: A nação judaica será quase destruída, e
a casa de Davi cessará como casa real — será cortada junto à
raiz. Entretanto, desse tronco sairá um renovo; das raízes desse
tronco sairá um ramo — o Rei-Messias.

2) O cumprimento. Judá foi levado ao cativeiro, e desse cativeiro


voltou sem rei, sem independência, para ficar subjugado,
sucessivamente, pela Pérsia, Grécia, Egito, Síria, e, depois de
um breve período de independência, por Roma. Durante esses
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

séculos de sujeição aos gentios, houve tempo de desalento


quando o povo voltava seu pensamento às glorias passadas do
reino de Davi e exclamava como o Salmista: "Senhor, onde
estão as tuas antigas benignidades que juraste a Davi pela tua
verdade?" (Sl 89:49.) Os judeus nunca perderam a esperança.
Reunidos ao redor do fogo da profecia Messiânica, fortaleciam
seus corações e esperavam pacientemente pelo Filho de Davi.
Não foram desapontados. Séculos depois da casa de Davi
haver cessado, um anjo apareceu a uma jovem judia e disse: "E
eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e por-
lhe-ás o nome JESUS. Este será grande, e será chamado Filho
do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai;
e reinará eternamente na casa de Jacó, e seu reino não terá
fim" (Lc 1:31-33; Is 9:6, 7). Assim um Libertador se levantou na
casa de Davi. Em um tempo quando a casa de Davi parecia
estar reduzida a seu estado mais decadente e quando os
herdeiros vivos eram um humilde carpinteiro e uma simples
donzela, então, por milagrosa ação de Deus, o Ramo brotou do
tronco e cresceu tornando-se uma poderosa árvore que tem
provido proteção para um sem-número de povos e nações. O
seguinte é a substância da aliança davídica, como é
interpretada pelos inspirados profetas: Jeová desceria para
salvar o seu povo, no tempo em que haveria na terra um
descendente da família de Davi, pelo qual Jeová resgataria e
posteriormente governaria o seu povo. Que Jesus era esse filho
de Davi manifesta-se pelo anúncio feito ao tempo de seu
nascimento, por suas genealogias (Mt 1 e Lc 3), pelo fato de ter
ele aceitado esse título quando lhe foi atribuído (Mt 9:27; 20:30,
31; 21:1-11), e pelo testemunho dos escritores do Novo
Testamento. (At 13:23; Rm 1:3; 2 Tm 2:8; Apo. 5:5; 22:16.) Mas
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

o título "Filho de Davi", não era uma descrição completa do


Messias, porque acentuava principalmente a sua ascendência
humana. Por isso o povo, ignorando as Escrituras que falavam
da natureza divina de Cristo, esperava um Messias humano que
seria um segundo Davi. Em certa ocasião Jesus procurou elevar
os pensamentos dos chefes sobre esse conceito incompleto.
(Mt 22:42-46.) "Que pensais vos de Cristo (isto é, do Messias)?
Ele perguntou: "de quem é filho?” Os fariseus naturalmente
responderam: "é filho de Davi." Então Jesus, citando o Sl 110:1,
perguntou: "Se Davi lhe chama Senhor, como é ele seu filho?"
Como pode o Senhor de Davi ser filho de Davi? — foi a pergunta
que confundiu os fariseus. A resposta naturalmente é: O
Messias é tanto Senhor como filho de Davi. Pelo milagre do
nascimento virginal, Jesus nasceu de Deus e também de Maria;
ele era desse modo o Filho de Deus e Filho do homem. Como
Filho de Deus ele é Senhor de Davi; como filho de Maria ele é
filho de Davi.

O Antigo Testamento registra duas grandes verdades


messiânicas. Alguns trechos declaram que o Senhor mesmo
virá do céu para resgatar o seu povo (Is 40:10; 42:13; Sl 98:9);
outros esclarecem que da família de Davi se levantaria um
libertador. Essas duas vidas completam-se na aparição da
pequena criança em Belém, a cidade de Davi. Foi então que o
Filho do Altíssimo nasceu como filho de Davi. (Lc 1:32.)

Notemos como em Isaias 9:6,7, combinam-se a natureza divina


e a descendência davídica do Rei vindouro. O título mencionado
aqui — "Pai da eternidade" — tem sido mal interpretado por
alguns, que dele deduzem não haver Trindade, afirmando
erroneamente que Jesus é o Pai e que o Pai é Jesus. Um
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

conhecimento da linguagem do Antigo Testamento evitaria esse


erro. Naqueles dias um regente que governava sábia e
justamente, era descrito como um "pai" para seu povo. Por isso,
o Senhor, falando por meio de Isaias, diz acerca de um oficial:
"E ser como pai para os moradores de Jerusalém, e para a casa
de Judá. E porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro"
(Is 22:21, 22). Note-se a semelhança com Is 9:6, 7 e vide Ap
3:7. Esse título foi aplicado a Davi, conforme se vê na
aclamação do povo na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém:
"Bendito o reino do nosso pai Davi" (Mt 11:10). Eles não queriam
dizer que Davi fosse seu antecessor, pois nem todos
descendiam da sua família; e naturalmente não o chamariam de
Pai celestial. Davi é descrito como "pai" porque, como o rei
segundo o coração de Deus, foi o verdadeiro fundador do reino
israelita (já que Saul foi um malogrado) ampliando suas
fronteiras de 9.600 para 96.000 quilômetros quadrados. De igual
maneira muitas vezes se refere a George Washington como o
"Pai dos Estados Unidos da América". O "pai" Davi era humano,
e morreu; seu reino foi terrena, e com o tempo se desintegrou.
Mas, de acordo com Isaias 9:6, 7, o descendente de Davi, o Rei-
Messias, seria divino, e seu reino seria eterno. Davi foi um "pai"
temporário para seu povo; o Messias será um Pai eterno
(imortal, divino, imutável), para todo o povo — assim destinado
por Deus, o Pai. (Sl 2:6-8; Lc 22:29).

7. JESUS (OBRA SALVADORA)

O Antigo Testamento ensina que Deus mesmo é a Fonte da


salvação: Ele é o Salvador e Libertador de Israel. "A salvação vem
de Deus." Ele livrou o seu povo da servidão do Egito, e daquele
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

tempo em diante Israel soube, por experiência, que ele era o


Salvador. (Sl 106:21; Is 43:3, 11; 45:15, 22; Jr 14:48.) Mas Deus
age por meio de seus instrumentos; portanto, lemos que ele salvou
Israel por meio do misterioso "anjo da sua face" (Is 63:9). Às vezes
foram usados instrumentos humanos; Moisés foi enviado para
libertar Israel da servidão; de tempos em tempos foram levantados
juízes para socorrer Israel. "Mas, vindo a plenitude dos tempos,
Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para
remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção
de filhos" (Gl 4:4,5). Ao entrar no mundo, ao Redentor foi dado o
expressivo nome da sua missão suprema: "E chamarás o seu nome
JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados" (Mt 1:21).
Os primeiros pregadores do Evangelho não precisaram explicar aos
judeus o significado do nome "Salvador"; já tinham aprendido o fato
pela sua própria história. (Atos 3:26; 13:23.) Eles entenderam a
mensagem, mas recusaram-se a crer. Crucificado, Cristo cumpriu a
missão indicada pelo seu nome, Jesus, pois salvar o povo dos seus
pecados implica expiação, e expiação implica morte. Como na sua
morte, assim também durante a vida, ele viveu à altura do seu
nome. Foi sempre o Salvador. Em toda a Palestina muita gente
podia testificar: "Eu estava preso pelo pecado, mas Jesus me
libertou." Maria Madalena podia dizer: "Ele me libertou de sete
demônios." Aquele que outrora fora paralítico, também podia
testificar: "Ele perdoou os meus pecados."
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 07

CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DE CRISTO (2)

A. OS OFÍCIOS DE CRISTO

Na época do Antigo Testamento havia três classes de mediadores entre


Deus e seu povo: o profeta, o sacerdote, e o rei. Como perfeito Mediador
(1 Tm 2:5), Cristo reúne em si mesmo os três ofícios. Jesus é o Cristo-
Profeta que ilumina as nações; o Cristo-Sacerdote que se ofereceu como
sacrifício pelas nações; o Cristo-Rei que reinará sobre as nações.

1. PROFETA.

O profeta do Antigo Testamento era o representante ou agente de


Deus na terra, que revelava sua vontade com relação ao presente
e ao futuro. O testemunho dos profetas dizia que o Messias seria
um profeta para iluminar Israel e as nações (Is 42:1; vide Rm 15:8).
Os Evangelhos também apresentam Jesus da mesma forma, como
profeta. (Mc 6:15; João 4:19; 6:14; 9:17; Mc 6:4; 1:27.)

1) Como profeta Jesus pregou a salvação. Os profetas de Israel


exerciam seu ministério mais importante em tempos de crises,
quando os governadores e demais estadistas e sacerdotes
estavam confusos e impotentes para atuar. Era essa a hora em
que o profeta entrava em ação e, com autoridade divina,
mostrava o caminho para sair das dificuldades, dizendo: "Este
é o caminho, andai nele." O Senhor Jesus apareceu em um
tempo quando a nação judaica se encontrava em um estado de
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

inquietação causado pelo anelo de libertação nacional. A


pregação de Cristo obrigou a nação a escolher, quanto à
espécie de libertação — ou guerra com Roma ou paz com Deus.
Eles escolheram mal e sofreram a desastrosa consequência, a
destruição nacional. (Lc 19:41-44; vide Mt 26:52.) Tal qual seus
desobedientes e rebeldes antepassados que certa vez tentaram
em vão forçar seu caminho para Canaã (Nm 14:40-45), assim
também os judeus, em 68 A. D., tentaram pela força conquistar
sua libertação de Roma. Sua rebelião foi apagada com sangue;
Jerusalém e o Templo foram destruídos, e o judeu errante
começou sua dolorosa viagem através dos séculos. O Senhor
Jesus mostrou o caminho de escape do poder e da culpa do
pecado, não somente à nação, mas também ao indivíduo.
Aqueles que vieram com a pergunta: Que farei para ser salvo?
Receberam instruções precisas, e essas sempre incluíam uma
ordem de segui-lo. Ele não somente mostrou, mas também
abriu o caminho da salvação por sua morte na cruz.

2) Como profeta Jesus anunciou o reino. Todos os profetas


falaram de um tempo quando toda a humanidade estaria sob o
domínio da lei de Deus — uma condição descrita como "o reino
de Deus". Esse era um dos temas principais da pregação de
nosso Senhor: "Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos
céus (ou de Deus)" (Mt 4:17). E ele ampliou esse tema
descrevendo a natureza do reino, o estado e a qualidade de
seus membros, as condições de ingresso nele, a sua história
espiritual apos a sua ascensão (Mt 13), e a maneira de seu
estabelecimento na terra.

Como profeta Jesus predisse o futuro. A profecia baseia- se no


princípio de que a história não prossegue descontroladamente,
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

porém é controlada por Deus, que conhece o fim desde o


princípio. Ele revelou o curso da história a seus profetas,
capacitando-os, dessa maneira, a predizerem o futuro. Como
Profeta, Cristo previu o triunfo de sua causa e de seu reino
mediante as mudanças da história humana. (Mt cap. 24 e 25.)
O Cristo glorificado continua o seu ministério profético por meio
de seu corpo, a igreja, à qual prometeu inspiração (João 14:26;
16:13), e concedeu o dom de profecia (1 Co 12:10). Isso não
significa que os cristãos devam acrescentar algo às Escrituras,
que são urna revelação "de uma vez para sempre" (Jd 3); mas,
pela inspiração do Espírito, trarão mensagens de edificação,
exortação e consolação (1 Co 14:3), baseadas na Palavra.

2. SACERDOTE

Sacerdote, no sentido bíblico, é uma pessoa divinamente


consagrada para representar o homem diante de Deus e para
oferecer sacrifícios que assegurarão o favor divino. "Porque todo o
sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; pelo
qual era necessário que este também tivesse alguma coisa que
oferecer" (Hb 8:3). No Calvário, Cristo, o Sacerdote, ofereceu-se a
si mesmo em sacrifício, para assegurar o perdão do homem e sua
aceitação diante de Deus. Sua vida anterior a este acontecimento
foi uma preparação para sua obra sacerdotal. O Filho Eterno
participou de nossa natureza (Hb 2:14-16) e de nossas
experiências, porque de outra maneira não podia representar o
homem diante de Deus nem oferecer sacrifícios. Não podia socorrer
a humanidade tentada sem saber por experiência o que era a
tentação. Um sacerdote, portanto, devia ser de natureza humana.
Um anjo, por exemplo, não podia ser sacerdote dos homens. Vide
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

o capítulo 16 de Levítico e os capítulos 8 a 10 de Hebreus. O sumo


sacerdote de Israel era consagrado para representar o homem
diante de Deus e para oferecer sacrifícios que assegurariam o
perdão e a aceitação de Israel. Uma vez por ano, o sumo sacerdote
fazia expiação por Israel; em um sentido típico, ele era o salvador
deles, aquele que aparecia ante a presença de Deus para obter o
perdão. As vítimas dos sacrifícios daquele dia eram imoladas no
pátio exterior; da mesma maneira Cristo foi crucificado aqui na terra.
Depois o sangue era levado ao lugar santíssimo e aspergido na
presença de Deus; da mesma maneira. Jesus ascendeu ao céu
"para apresentar-se em nosso lugar na presença de Deus". A
aceitação por Deus, de seu sangue, nos dá a certeza da aceitação
de todos os que confiam no seu sacrifício. Apesar de Cristo haver
oferecido um sacrifício perfeito uma vez por todas, sua obra
sacerdotal ainda continua. Ele vive sempre para aplicar os méritos
e o poder de sua obra expiatória perante Deus, a favor dos
pecadores. O mesmo que morreu pelos homens agora vive para
eles, para salvá-los e para interceder por eles. E quando oramos:
"Em nome de Jesus", estamos pleiteando a obra expiatória de Cristo
como a base da nossa aceitação, porque somente por ela temos a
certeza de sermos "aceitos no Amado" (Ef 1:6).

3. REI

O Cristo-Sacerdote é também o Cristo-Rei. O plano de Deus para o


Governante perfeito foi o de que ambos os ofícios fossem investidos
na mesma pessoa. Por isso, Melquisedeque, por ser tanto rei de
Salém como sacerdote do Deus Altíssimo, veio a ser um tipo do Rei
perfeito de Deus, o Messias (Gn 14:18,19; Hb 7:1-3). Houve um
período na história do povo hebreu quando esse ideal quase se
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

realizou. Mais ou menos um século e meio antes do nascimento de


Cristo, o pais foi governado por uma sucessão de sumo-sacerdotes
que também eram governantes civis; o governante do pais era tanto
sacerdote como rei. Também, durante a Idade Média, o Papa
reivindicou e tentou exercer um poder, tanto espiritual como
temporal sobre a Europa. Ele pretendia governar como
representante de Cristo, segundo afirmava, tanto sobre a igreja
como sobre as nações. O Dr. H. B. Swete, escreveu: "As duas
experiências, a judaica e a cristã, fracassaram; e até onde se pode
julgar por esses exemplos, nem os interesses temporais nem os
espirituais dos homens serão promovidos quando confiados ao
mesmo representante. A dupla tarefa é grande demais para ser
desempenhada por um só homem." Mas os escritores inspirados
falaram da vinda de Um que era digno de exercer o duplo cargo.
Esse era o Messias esperado, um Governante e Sacerdote segundo
a ordem de Melquisedeque (Sl 110:1-4), e um "sacerdote no seu
trono" (Zc 6:13). Tal é o Cristo glorificado. (Vide Sl 110:1 e Hb
10:13.) De acordo com as profecias do Antigo Testamento, o
Messias seria um grande Rei da casa de Davi que governaria Israel
e as nações, por meio do seu reino áureo de justiça, paz e
prosperidade (Is 11:1-9; Salmo 72).

Jesus afirmou ser ele esse Rei. Na presença de Pilatos ele testificou
que nasceu para ser Rei; explicou que o seu reino não era deste
mundo, isto é, não seria um reino fundado por força humana, nem
seria governado de acordo com os ideais humanos (João 18:36).
Antes de sua morte, Jesus predisse sua vinda com poder e
majestade para julgar as nações (Mt 25:31).

Mesmo pendurado na cruz ele parecia Rei e como Rei falava, de


modo que o ladrão moribundo percebeu esse fato e exclamou:
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

"Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino" (Lc


23:42). Compreendeu que a morte introduziria Jesus no seu reino
celestial. Depois de sua ressurreição, Jesus declarou: "é-me dado
todo o poder no céu e na terra" (Mt 28:18). Depois de sua ascensão
foi coroado e entronizado com o Pai. (Ap 3:21; vide Ef 1:20-22.) Isso
significa que, diante de Deus, Jesus é Rei; ele não é somente
Cabeça da Igreja, mas também Senhor de todo o mundo e Mestre
dos homens. A terra é dele e tudo o que nela há. Somente dele são
o poder e a glória desses resplandecentes reinos que Satanás, o
tentador, há muito tempo, mostrou-lhe do cume da montanha. Ele é
Cristo o Rei, Senhor do mundo, Possuidor de suas riquezas, e
Mestre dos homens.

Do ponto de vista divino, tudo isso é fato consumado; mas nem


todos os homens reconhecem o governo de Cristo. Apesar de Cristo
ter sido ungido Rei de Israel (Atos 2:30), "os seus" (João 1:11)
recusaram-lhe a soberania (João 19:15) e as nações seguem seu
próprio caminho sem tomarem conhecimento de seu governo. Essa
situação foi prevista e predita por Cristo na parábola das minas (Lc
19:12-25). Naqueles dias, quando um governante nacional herdava
um reino, o costume determinava que ele primeiramente fosse a
Roma a fim de recebê-lo do imperador. Depois disto estava livre
para regressar e assumir o governo. Assim Cristo compara a si
mesmo a um certo nobre que foi a um pais longínquo a receber para
si um reino e depois regressou. Jesus veio do céu à terra, ganhou
exaltação e soberania por sua morte expiatória pelos homens, e
depois ascendeu ao trono do Pai para receber a coroa e o seu
governo. "Mas os seus concidadãos aborreciam-se, mandaram
após ele embaixadores, dizendo: não queremos que este reine
sobre nos."
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Israel, igualmente, rejeitou a Jesus como Rei. Sabendo que estaria


ausente por algum tempo, o nobre da parábola confiou a seus
servos certas tarefas; da mesma maneira, Cristo, prevendo que
haveria de transcorrer um período de tempo entre seu primeiro e
segundo adventos, repartiu a seus servos a tarefa de proclamar o
seu reino e ganhar membros para ele, batizando-os em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo. Finalmente, o nobre, tendo
recebido o reino, regressou à sua terra, recompensou a seus
servos, afirmou a sua soberania e puniu os inimigos. Da mesma
forma, Cristo regressará ao mundo e recompensará a seus servos,
afirmará a sua soberania sobre o mundo e punirá os ímpios. Esse é
o tema central do livro de Apocalipse. (Ap 11:15; 12:10; 19:16.)
Nessa ocasião, sentar-se-á ele sobre o trono de Davi, e ali
continuará o Reino do Filho de Davi, um período de mil anos quando
a terra toda desfrutará de um reino áureo de paz e abundância.
Toda esfera de atividade humana estará sob o domínio de Cristo; a
impiedade será suprimida com vara de ferro; Satanás será preso, e
a terra ficará cheia do conhecimento e da gloria de Deus, "como as
águas cobrem o mar".

B. A OBRA DE CRISTO

Cristo realizou muitas obras, porém a obra suprema que ele consumou
foi a de morrer pelos pecados do mundo. (Mt 1:21; João 1:29.) Incluídas
nessa obra expiatória figuram a sua morte, ressurreição e ascensão. Não
somente devia ele morrer por nós, mas também viver por nós. Não
somente devia ressuscitar por nós, mas também ascender para
interceder por nós diante de Deus. (Rm 8:34; 4:25; 5:10).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

1. SUA MORTE.

1) Sua importância. O evento mais importante e a doutrina central


do Novo Testamento resumem-se nas seguintes palavras:
"Cristo morreu (o evento) por nossos pecados (a doutrina)" (1
Co 15:3). A morte expiatória de Cristo é o fato que caracteriza a
religião cristã. Martinho Lutero declarou que a doutrina cristã se
distingue de qualquer outra, e mui especialmente daquela que
apenas parece ser cristã, pelo fato de ser ela a doutrina da Cruz.
Todas as batalhas da Reforma travaram-se em torno da correta
interpretação da Cruz. O ensino dos reformadores era este:
quem compreende perfeitamente a Cruz, compreende a Cristo
e a Bíblia! É essa característica singular dos Evangelhos que
faz do Cristianismo a única religião; pois o grande problema da
humanidade é o problema do pecado, e a religião que apresenta
uma perfeita provisão para o resgate do poder e da culpa do
pecado tem um propósito divino. Jesus é o autor da "salvação
eterna" (Hb 5:9), isto é, da salvação final. Tudo quanto a
salvação possa significar é assegurado por ele.

2) Seu significado. Havia certa relação verdadeira entre o homem


e seu Criador. Algo sucedeu que interrompeu essa relação. Não
somente está o homem distanciado de Deus, tendo seu caráter
manchado, mas existe um obstáculo tão grande no caminho que
o homem não pode removê-lo pelos seus próprios esforços.
Esse obstáculo é o pecado, ou melhor, a culpa. O homem não
pode remover esse obstáculo; a libertação terá que vir da parte
de Deus. Para isso Deus teria que tomar a iniciativa de salvar o
homem. O testemunho das Escrituras é este: que Deus assim
fez. Ele enviou seu Filho do céu à terra para remover esse
obstáculo e dessa maneira reconciliou os homens com Deus.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Ao morrer por nossos pecados, Jesus removeu a barreira; levou


o que devíamos ter levado; realizou por nós o que estávamos
impossibilitados de fazer por nós mesmos; isso ele fez porque
era a vontade do Pai. Essa é a essência da expiação de Cristo.
Considerando a suprema importância deste assunto será ele
abordado mais pormenorizadamente em um capítulo à parte.

2. SUA RESSURREIÇÃO

1) O fato. A ressurreição de Cristo é o grande milagre do


Cristianismo. Uma vez que é estabelecida a realidade desse
evento, torna-se desnecessário procurar provar os demais
milagres dos Evangelhos. Ademais, é o milagre com o qual a fé
cristã está em pé ou cai, isso em razão de ser o Cristianismo
uma religião histórica que baseia seus ensinos em eventos
definidos que ocorreram na Palestina há mais de mil e
novecentos anos. Esses eventos são: o nascimento e o
ministério de Jesus Cristo, culminando na sua morte,
sepultamento e ressurreição. Desses, a ressurreição é a pedra
angular, pois se Cristo não tivesse ressuscitado, então não seria
o que ele próprio afirmou ser; e sua morte não seria expiatória.
Se Cristo não houvesse ressuscitado, então os cristãos
estariam sendo enganados durante séculos; os pregadores
estariam proclamando um erro; e os fiéis estariam sendo
enganados por uma falsa esperança de salvação. Mas, graças
a Deus, que, em vez de ponto de interrogação, podemos colocar
o ponto de exclamação após ter sido exposta essa doutrina:
"Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias
dos que dormem!"

2) A evidência. "Vocês cristãos vivem na fragrância de um túmulo


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

vazio", disse um cético francês. É um fato que aqueles que


foram a embalsamar o corpo de Jesus, na memorável manhã
da ressurreição, encontraram seu túmulo vazio. Esse fato nunca
foi nem pode ser explicado a não ser pela ressurreição de
Jesus! Quão facilmente os judeus poderiam ter refutado o
testemunho dos primeiros pregadores se tivessem exibido o
corpo do nosso Senhor! Mas não o fizeram — porque não o
puderam fazer! Como vamos explicar a própria existência e
origem da igreja cristã, que certamente teria permanecido
sepultada juntamente com seu Senhor — se ele não tivesse
ressuscitado? A igreja viva e radiante do dia de Pentecoste não
nasceu de um Dirigente morto! Que faremos com o testemunho
daqueles que viram a Jesus depois de sua ressurreição, muitos
dos quais o apalparam, falaram e comeram com ele, centenas
dos quais, Paulo disse, estavam vivos naqueles dias, muitos
dos quais cujo testemunho inspirado se encontra no Novo
Testamento? Como receberemos o testemunho de homens
demasiado honestos e sinceros para pregarem uma mensagem
propositadamente falsa, homens que tudo sacrificaram por essa
mensagem? Como explicaremos a conversão de Saulo de
Tarso, o perseguidor do Cristianismo, em um de seus maiores
apóstolos e missionários, a não ser pelo fato de ele realmente
ter visto a Jesus no caminho de Damasco? Há somente uma
resposta satisfatória a essas perguntas: Cristo ressuscitou!
Muitas tentativas já foram feitas para superar esse fato. Os
chefes dos judeus asseveraram que os discípulos de Jesus
haviam roubado o seu corpo. Mas isso não explica como um
pequeno grupo de tímidos e desanimados discípulos pôde
reunir suficiente coragem para arrebatar dos endurecidos
soldados romanos o corpo de seu Mestre, cuja morte lhes
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

significava o fracasso completo das suas esperanças! Os


eruditos modernos também apresentam estas explicações:

"Os discípulos simplesmente experimentaram uma visão."


Então perguntamos: como podiam centenas de pessoas ter a
mesma visão e imaginar, a um só tempo, que realmente viam a
Cristo?

"Jesus realmente não morreu; ele simplesmente desmaiou e


ainda estava vivo quando o tiraram da cruz." A isso
respondemos: então um Jesus pálido e exausto, decaído e
abatido, podia persuadir os discípulos cheios de dúvidas, e
sobretudo a um Tomé, de que ele era o ressuscitado Senhor da
vida? Não é possível! Essas explicações são tão inconsistentes
que por si mesmas se refutam. Novamente afirmamos, Cristo
ressuscitou! Dr Wette, teólogo modernista, afirmou que "a
ressurreição de Jesus Cristo é um fato tão bem comprovado
quanto o fato histórico do assassinato de Júlio César".

3) O significado. A ressurreição. Ela significa que Jesus é tudo


quanto ele afirmou ser: Filho de Deus, Salvador e Senhor (Rm
1:4). A resposta do mundo às reivindicações de Jesus foi a cruz;
a resposta de Deus, entretanto, foi a ressurreição. A
ressurreição significa que a morte expiatória de Cristo foi uma
divina realidade, e que o homem pode encontrar o perdão dos
seus pecados, e assim ter paz com Deus (Rm 4:25). A
ressurreição é realmente a consumação da morte expiatória de
Cristo. Como sabemos, pois, que não foi uma morte comum —
e que realmente ela tira o pecado? Porque ele ressuscitou! A
ressurreição significa que temos um Sumo Sacerdote no céu,
que se compadece de nós, que viveu a nossa vida e conhece
as nossas tristezas e fraquezas; que é poderoso para dar-nos
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

poder para diariamente vivermos a vida de Cristo. Jesus que


morreu por nós, agora vive por nós. (Rm 8:34; Hb 7:25.)
Significa que podemos saber que há uma vida vindoura. Uma
objeção comum a essa verdade é: "Mas ninguém jamais voltou
para falar-nos do outro mundo." Mas alguém voltou — esse
alguém é Jesus Cristo! "Se um homem morrer, tornará a viver?"
A essa pergunta antiga a ciência somente pode dizer: "não sei."
A filosofia apenas diz: "Deve haver uma vida futura." Porém, o
Cristianismo afirma: "Porque ele vive, nós também viveremos;
porque ele ressuscitou dos mortos, também todos
ressuscitaremos"! A ressurreição de Cristo não somente
constitui a prova da imortalidade, mas também a certeza da
imortalidade pessoal, (1 Ts 4:14; 2 Co 4:14; João 14:19.) Isto
significa que há certeza de juízo futuro. Como disse o inspirado
apóstolo, Deus "tem determinado um dia em que com justiça há
de julgar o mundo, por meio do varão que destinou; e disso deu
certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos" (Atos 17:31). Tão
certo como Jesus ressuscitou dos mortos para ser o Juiz dos
homens, assim ressuscitarão também da morte os homens para
serem julgados por ele.

3. SUA ASCENSÃO

Os evangelhos, o livro dos Atos e as Epístolas dão testemunho da


ascensão. Qual o significado desse fato histórico? Quais as
doutrinas que nele se baseiam? Quais seus valores práticos? A
ascensão ensina que nosso Mestre é:

1) O Cristo celestial. Jesus deixou o mundo porque havia


chegado o tempo de regressar ao Pai. Sua partida foi uma
"subida", assim como sua entrada ao mundo havia sido uma
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

"descida". Ele que desceu agora subiu para onde estava antes.
E assim como sua entrada no mundo foi sobrenatural, assim o
foi sua partida. Consideremos a maneira de sua partida. Suas
aparições e desaparições depois da ressurreição foram
instantâneas; a ascensão foi, no entanto, gradual — "vendo-o
eles" (Atos 1:9). Não foi seguida por novas aparições, nas quais
o Senhor surgiu entre eles em pessoa para comer e beber com
eles; as aparições dessa classe terminaram com a sua
ascensão. Sua retirada da vida terrena que vivem os homens
aquém da sepultura foi de uma vez por todas.

Dessa hora em diante os discípulos não deveriam pensar nele


como o "Cristo segundo a carne", isto é, como vivendo uma vida
terrena, e sim, como o Cristo glorificado, vivendo uma vida
celestial na presença de Deus e tendo contato com eles por
meio do Espírito Santo. Antes da ascensão, o Mestre aparecia,
desaparecia e reaparecia de tempos em tempos para fazer com
que paulatinamente os discípulos perdessem a necessidade de
um contato visual e terreno com ele, e acostumá-los a uma
comunhão espiritual e invisível com ele. Desse modo, a
ascensão vem a ser a linha divisória entre dois períodos da vida
de Cristo: Do nascimento até à ressurreição, ele é o Cristo da
história humana, aquele que viveu uma vida humana perfeita
sob condições terrenas. Desde a ascensão, ele é o Cristo da
experiência espiritual, que vive no céu e tem contato com os
homens por meio do Espírito Santo.

2) O Cristo exaltado. Afirma certa passagem que Cristo "subiu",


e outra diz que foi "levado acima". A primeira representa a Cristo
como entrando na presença do Pai por sua própria vontade e
direito; a segunda acentua a ação do Pai pela qual ele foi
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

exaltado em recompensa por sua obediência até a morte. Sua


lenta ascensão ante os olhares dos discípulos trouxe-lhes a
compreensão de que Jesus estava deixando sua vida terrena,
e os fez testemunhas oculares de sua partida. Mas uma vez fora
do alcance de sua vista, a jornada foi consumada por um ato de
vontade. O Dr. Swete assim comenta o fato: Nesse momento
toda a glória de Deus brilhou em seu derredor, e ele estava no
céu. Não lhe era a cena inteiramente nova; na profundidade do
seu conhecimento divino, o Filho do homem guardava
lembranças das glórias que, em sua vida anterior à encarnação,
gozava com o Pai "antes que o mundo existisse" (João 17:5).
Porém, a alma humana de Cristo até o momento da ascensão,
não experimentara a plena visão de Deus que transbordou
sobre ele ao ser levado acima. Esse foi o alvo de sua vida
humana, o gozo que lhe estava proposto (Hb 12:2), que foi
alcançado no momento da ascensão. Foi em vista de sua
ascensão e exaltação que Cristo declarou: é-me dado todo o
poder (autoridade) no céu e na terra" (Mt 28:18; vide Ef 1:20-23;
1 Pe 3:22; Fp 2:9-11; Ap 5:12). Citemos outra vez o Dr. Swete:
Nada se faz nesse grandioso mundo desconhecido, que
chamamos o céu, sem sua iniciativa, direção e autoridade
determinativa. Processos incompreensíveis à nossa mente
realizam-se no outro lado do véu por meios divinos igualmente
incompreensíveis. Basta que a igreja compreenda que tudo que
se opera ali é feito pela autoridade de seu Senhor.

3) O Cristo soberano. Cristo ascendeu a um lugar de autoridade


sobre todas as criaturas. Ele é a "cabeça de todo o varão" (1Co
11:3), a "cabeça de todo o principado e potestade" (Cl 2:10);
todas as autoridades do mundo invisível, tanto como as do
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

mundo dos homens, estão sob seu domínio, (1 Pe 3:22; Rm


14:9; Fp 2:10, 11.) Ele possui essa soberania universal para ser
exercida para o bem da igreja, a qual é seu corpo; Deus
"sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o
constituiu como cabeça da Igreja." Em um sentido muito
especial, portanto, Cristo é a Cabeça da igreja. Essa autoridade
se manifesta de duas maneiras:

Pela autoridade exercida por ele sobre os membros da igreja.


Paulo usou a relação matrimonial como ilustração da relação
entre Cristo e a igreja (Ef 5:22-23). Como a igreja vive em
sujeição a Cristo, assim as mulheres devem estar sujeitas a
seus maridos; como Cristo amou a igreja e a si mesmo se
entregou por ela, assim os maridos devem exercer sua
autoridade no espírito de amor e auto sacrifício. A obediência
da igreja a Cristo é uma submissão voluntária; da mesma
maneira a esposa deve ser obediente, não só por questão de
consciência, mas por amor e reverência. Para os cristãos, o
estado de matrimonio se tomou um '"mistério" (isto é, uma
verdade com significado espiritual), porque revela a união
espiritual entre Cristo e sua igreja; "autoridade da parte de
Cristo, subordinação da parte da igreja, amor de ambos os lados
— o amor retribuindo amor, para ser coroado pela plenitude do
gozo, quando essa união for consumada na vinda do Senhor"
(Swete). Uma característica proeminente da igreja primitiva era
a atitude de amorosa submissão a Cristo. "Jesus é Senhor" não
era somente a declaração do credo, mas também a regra de
vida.

O Cristo glorificado não é somente o Poder que dirige e governa


a igreja, mas também a fonte de sua vida e poder. O que a
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

videira é para a vara, o que a cabeça é para o corpo, assim é o


Cristo vivo para a sua igreja. Apesar de estar no céu, a Cabeça
da igreja, Cristo está na mais íntima união com seu corpo na
terra, sendo o Espírito Santo o vínculo. (Ef 4:15, 16; Cl 2:19.)

4) O Cristo que prepara o caminho. A separação entre Cristo e


sua igreja na terra, separação ocasionada pela ascensão, não
é permanente. Ele subiu como um precursor a preparar o
caminho para aqueles que o seguem. Sua promessa foi: "Onde
eu estiver, ali estará também o meu servo" (João 12:26). O
termo "precursor" é primeiramente aplicado a João Batista como
aquele que prepararia o caminho de Cristo (Lc 1:76). Como
João preparou o caminho para Cristo, assim também o Cristo
glorificado prepara o caminho para a igreja. Esta esperança é
comparada a uma "âncora da alma segura e firme, e que
penetra até ao interior do véu; onde Jesus, nosso precursor,
entrou por nós" (Hb 6:19,20). Ainda que agitada pelas ondas
das provações e das adversidades, a alma do crente fiel não
pode naufragar enquanto sua esperança estiver firmemente
segura nas realidades celestiais. Em sentido espiritual, a igreja
já está seguindo o Cristo glorificado; e tem-se "assentado nos
lugares celestiais, em Cristo Jesus" (Ef 2:6). Por meio do
Espírito Santo, os crentes, espiritualmente, no coração, já
seguem a seu Senhor ressuscitado. Entretanto, haverá uma
ascensão literal correspondente à ascensão de Cristo, (1 Ts
4:17; l Co 15:52.) Essa esperança dos crentes não é uma ilusão,
porque eles já sentem o poder de atração do Cristo glorificado
(1Pe 1:8). Com essa esperança, Jesus confortou os seus
discípulos antes de sua partida (João 14:1-3). "Portanto,
consolai- vos uns aos outros com estas palavras" (1 Ts 4:18).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

5) O Cristo intercessor. Em virtude de ter assumido a nossa


natureza e ter morrido por nossos pecados, Jesus é o Mediador
entre Deus e os homens (1 Tm 2:5). Mas o Mediador é também
um Intercessor, e a intercessão é mais do que mediação. Um
mediador pode ajuntar as duas partes e depois deixá-las a si
mesmas para que resolvam suas dificuldades; porém, um
intercessor diz alguma coisa a favor da pessoa pela qual se
interessa. A intercessão é um ministério importante do Cristo
glorificado (Rm 8:34). A intercessão forma o apogeu das suas
atividades salvadoras. Ele morreu por nós; ressuscitou por nós;
ascendeu por nós; e intercede por nós (Rm 8:34). Nossa
esperança não está em um Cristo morto, mas em um Cristo que
vive; e não somente em Um que vive, mas em um Cristo que
vive e reina com Deus. O sacerdócio de Cristo é eterno;
portanto, sua intercessão é permanente. "Portanto, ele pode
levar a um desfecho feliz ("perfeitamente", Hebreus 7:25) toda
a causa cuja defesa ele pleiteia assegurando assim àqueles que
se chegam a Deus, por sua mediação, a completa restauração
ao favor e à bênção divinos. Realmente, o propósito de sua vida
no céu é precisamente esse; ele vive sempre com esse intento
de interceder diante de Deus a favor dos seus.

Enquanto Deus existir, não pode haver interrupção de sua obra


intercessora... porque a intercessão do Cristo glorificado não é
uma oração apenas, mas uma vida. O Novo Testamento não o
apresenta como um suplicante constantemente presente
perante o Pai, de braços estendidos e em forte pranto e
lágrimas, rogando por nossa causa diante de Deus como se fora
um Deus relutante, mas o apresenta como um Sacerdote-Rei
entronizado, pedindo o que deseja de um Pai que sempre o
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

ouve e concede Sua petição" (Swete). Quais as principais


petições de Cristo em seu ministério intercessor? A oração do
capítulo 17 de João sugere a resposta. Semelhante ao oficio de
mediador é o de advogado (no grego, "parácleto"). (1João 2:1.)
Advogado ou parácleto é aquele que é chamado a ajudar uma
pessoa angustiada ou necessitada, para confortá-la ou dar-lhe
conselho e proteção. Essa foi a relação do Senhor para com
seus discípulos durante os dias de sua carne. Mas o Cristo
glorificado também está interessado no problema do pecado.
Como Mediador, ele obtém acesso para nós na presença de
Deus; como Intercessor, ele leva nossas petições perante Deus;
como Advogado, ele enfrenta as acusações feitas contra nós
pelo "acusador dos irmãos", na questão do pecado. Para os
verdadeiros cristãos uma vida habitual de pecado não é
admissível (1 João 3:6); porém, isolados atos de pecado podem
acontecer aos melhores cristãos, e tais ocasiões requerem a
advocacia de Cristo. Em l João 2:1, 2 estão expostas três
considerações que dão força a sua advocacia: primeira, ele está
"com o Pai", na presença de Deus; segunda, ele é "o Justo", e
como tal, pode ser uma expiação por outrem; terceira, ele é "a
propiciação pelos nossos pecados", isto é, um sacrifício que
assegura o favor de Deus por efetuar expiação pelo pecado.

6) O Cristo onipresente. (João 14:12.) Enquanto estava na terra,


Cristo necessariamente limitava-se a estar em um lugar de cada
vez, e não podia estar em contato com todos os seus discípulos
ao mesmo tempo. Mas ao ascender ao lugar de onde procedera
a força motriz do universo, foi-lhe possível enviar seu poder e
sua personalidade divina em todo tempo, a todo lugar e a todos
os seus discípulos. A ascensão ao trono de Deus deu-lhe não
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

somente onipotência (Mt 28:18) mas também onipresença,


cumprindo-se assim a promessa: "Porque onde estiverem dois
ou três reunidos em meu nome, ai estou eu no meio deles" (Mt
18:20).

7) Conclusão: Valores da ascensão. Quais os valores práticos da


doutrina da ascensão?

O conhecimento interno do Cristo glorificado, a quem


brevemente esperamos ver, é um incentivo à santidade. (Cl 3:1-
4.) O olhar para cima vencerá a atração das coisas do mundo.

O conhecimento da ascensão proporciona um conceito correto


da igreja. A crença em um Cristo meramente humano levaria o
povo a considerar a igreja como uma sociedade meramente
humana, útil, sim, para propósitos filantrópicos e morais, porém
destituída de poder e autoridade sobrenaturais. Por outro lado,
um conhecimento do Cristo glorificado resultará no
reconhecimento da igreja como um organismo, um organismo
sobrenatural, cuja vida divina emana da Cabeça — Cristo
ressuscitado.

O conhecimento interno do Cristo glorificado produzir uma


atitude correta para com o mundo e as coisas do mundo. "Mas
a nossa cidade (literalmente, "cidadania") está nos céus donde
também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo" (Fp
3:20).

A fé no Cristo glorificado inspirará um profundo sentimento de


responsabilidade pessoal. A crença no Cristo glorificado leva
consigo o conhecimento de que naquele dia teremos que
prestar contas a ele mesmo. (Rm 14:7-9; 2 Co 5:9,10.) O sentido
de responsabilidade a um Mestre no céu atua como um freio
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

contra o pecado e serve de incentivo para a retidão. (Ef 6:9.)

Junto à fé no Cristo glorificado temos a bendita e alegre


esperança de seu regresso. "E se eu for, e vos preparar lugar,
virei outra vez" (João 14:3).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

CAPÍTULO 08

CRISTOLOGIA – A DOUTRINA DE CRISTO (3)

A EXPIAÇÃO

"Sobre a vida que não vivi;

Sobre a morte que não morri;

Sobre a morte de outro, a vida de outro,

Minha alma arrisco eternamente."

A. A EXPIAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

Por que gastar tempo e espaço para descrever os sacrifícios do Antigo


Testamento? Pela simples razão de que na palavra "sacrifício" temos a
chave para o significado da morte de Cristo. Muitas teorias modernas
têm surgido para explicar essa morte, mas qualquer explicação que
deixe de fora o elemento da expiação é antibíblica, porque nada é mais
assinalado no Novo Testamento que o uso de termos sacrificais para
expor a morte de Cristo.

Descrevê-lo como "o Cordeiro de Deus", dizer que o seu sangue limpa o
pecado e compra a redenção, ensinar que ele morreu por nossos
pecados — tudo isso é dizer que a morte de Jesus foi um verdadeiro
sacrifício pelo pecado. Visto que a morte de Jesus é descrita em
linguagem que lembra os sacrifícios do Antigo Testamento, um
conhecimento dos termos sacrificais ajuda grandemente na sua
interpretação. Porque os sacrifícios (além de proverem um ritual de
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

adoração para os israelitas) eram sinais ("tipos") proféticos que


apontavam para o sacrifício perfeito; por conseguinte, um claro
entendimento do sinal conduzirá a um melhor conhecimento daquele
que foi sacrificado. Esses sacrifícios não somente eram proféticos em
relação a Cristo, mas também serviam para preparar o povo de Deus
para a dispensação melhor que seria introduzida com a vinda de Cristo.
Quando os primeiros pregadores do Evangelho declararam que Jesus
era o Cordeiro de Deus cujo sangue havia comprado a redenção dos
pecados, eles não precisaram definir esses termos aos seus patrícios,
porquanto estavam eles familiarizados com tais termos.

Nós, entretanto, que vivemos milhares de anos depois desses eventos,


e que não fomos educados no ritual mosaico, necessitamos estudar a
cartilha, por assim dizer, pela qual Israel aprendeu a soletrar a grande
mensagem da redenção, mediante um sacrifício expiatório. Tal é a
justificação para esta secção sobre a origem, história, natureza, e
eficácia do sacrifício do Antigo Testamento.

1. A ORIGEM DO SACRIFÍCIO.

1) Ordenado no céu. A Expiação não foi um pensamento de


última hora da parte de Deus. A queda do homem não o
apanhou de surpresa, de modo a necessitar de rápidas
providências para remediá-la. Antes da criação do mundo,
Deus, que conhece o fim desde o princípio, proveu um meio
para a redenção do homem. Como uma máquina é concebida
na mente do inventor antes de ser construída, do mesmo modo
a expiação estava na mente e no propósito de Deus, antes do
seu cumprimento. Essa verdade é afirmada pelas Escrituras.
Jesus é descrito como o Cordeiro que foi morto desde a
fundação do mundo. (Ap 13:8). O Cordeiro Pascal era
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

preordenado vários dias antes de ser sacrificado (Êx 12:3, 6);


assim também Cristo, o Cordeiro imaculado e incontaminado,
foi "conhecido ainda antes da fundação do mundo, mas
manifestado nestes últimos tempos por amor de vos" (1Pe 1:19,
20). Ele comprou para o homem a vida eterna, a qual Deus
"prometeu antes dos tempos dos séculos" (Tito 1:2). Que
haveria um grupo de pessoas santificadas por esse sacrifício,
foi decretado "antes da fundação do mundo" (Ef 1:4). Pedro
disse aos judeus que apesar de terem, na sua ignorância,
crucificado a Cristo com mãos ímpias, sem dúvida haviam
cumprido o plano eterno de Deus, pois Cristo foi "entregue pelo
poder do conselho e presciência de Deus" (Atos 2:23). É
evidente, pois, que o Cristianismo não é uma religião nova que
começou há mil e novecentos anos, mas, sim, a manifestação
histórica de um propósito eterno.

2) Instituído na terra. Visto como centenas de anos haviam de


passar antes da consumação do sacrifício, que deveria fazer o
homem pecador? Desde o princípio Deus ordenou uma
instituição que prefigurasse o sacrifício e que fosse também um
meio de graça para os arrependidos e crentes.

Referimo-nos ao sacrifício de animais, uma das mais antigas


instituições humanas. A primeira menção de um animal imolado
ocorre no terceiro capítulo de Gênesis. Depois que pecaram, os
nossos primeiros pais se tomaram conscientes da nudez física
— o que era uma indicação exterior da nudez da consciência.
Seus esforços em se cobrirem exteriormente com folhas e
interiormente com desculpas, foram em vão. Lemos então que
o Senhor Deus tomou peles de animais e os cobriu. Apesar de
o relato não declarar em palavras que tal providência fosse um
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

sacrifício, sem dúvida, meditando no significado espiritual do


ato, não se pode evitar a conclusão de que temos aqui uma
revelação de Jeová, o Redentor, fazendo provisão para redimir
o homem. Vemos uma criatura inocente morrer para que o
culpado seja coberto; esse é o propósito principal do sacrifício
— uma cobertura divinamente provida para uma consciência
culpada. O primeiro livro da Bíblia descreve uma vítima inocente
morrendo pelo culpado, e o último livro da Bíblia fala do Cordeiro
sem mancha, imolado, para livrar os culpados de seus pecados
(Ap 5:6-10).

2. A NATUREZA DO SACRIFÍCIO.

Esta instituição original do sacrifício muito provavelmente explica


por que a adoração expiatória tem sido praticada em todas as
épocas e em todos os países. Apesar de serem perversões do
modelo original, os sacrifícios pagãos baseiam-se em duas ideias
fundamentais: (coração e expiação) O homem reconhece que está
debaixo do poder de uma deidade tendo certos direitos sobre ele.
Como reconhecimento desses direitos, e como sinal de sua
submissão, ele oferece uma dádiva ou um sacrifício.
Frequentemente, entretanto, tomando-se consciente de que o
pecado perturba a relação, instintivamente ele reconhece que o
mesmo Deus que o fez, tem o direito de destruí-lo, a não ser que
algo seja feito para restaurar a relação interrompida. Uma das
crenças mais profundas e firmes da antiguidade era que a imolação
de uma vítima e o derramamento de seu sangue afastariam a ira
divina e assegurariam o favor de Deus. Mas como aprenderam
isso? Paulo nos diz que houve um tempo "quando conheciam a
Deus" (Rm 1:21). Assim como o homem decaído leva as marcas da
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

origem divina, também os sacrifícios pagãos levam algumas marcas


de uma original revelação divina. Depois da confusão de línguas
(Gn 11:1-9) os descendentes de Noé espalharam-se por todas as
partes, levando consigo o verdadeiro conhecimento de Deus,
porquanto até então não havia registro de idolatria. O que ocorreu
no transcurso do tempo é brevemente descrito em Romanos 1:19-
32. As nações se afastaram da adoração pura de Deus e cedo
perderam de vista sua gloriosa divindade. O resultado foi a cegueira
espiritual. Em lugar de verem a Deus por meio dos corpos celestes,
começaram a adorar esses corpos como deidades; em vez de
verem o Criador por meio das árvores e dos animais, começaram a
adorá-los como deuses; em vez de reconhecerem que o homem foi
feito a imagem de Deus, começaram a fazer um deus da imagem
do homem. Desse modo a cegueira espiritual conduziu à idolatria.
A idolatria não era meramente uma questão intelectual; a adoração
da natureza, que é a base da maioria das religiões pagãs, conduziu
o homem a deificar (fazer deuses de) suas próprias
concupiscências, e o resultado foi a corrupção moral.

Todavia, apesar dessa perversão, a adoração do homem tinha


leves indícios que indicavam ter havido um tempo quando ele
entendia melhor as coisas. [Através das idolatrias do Egito, Índia e
China, descobre-se uma crença em um Deus verdadeiro, o Espírito
eterno que fez todas as coisas.] Quando a escuridão espiritual
cobriu as nações, como a corrupção moral havia coberto o mundo
antediluviano, Deus começou de novo com Abraão, assim como
havia feito previamente com Noé. O plano de Deus era fazer de
Abraão o pai de uma nação que restauraria ao mundo a luz do
conhecimento e a glória de Deus.

No Monte Sinai, Israel foi separado das nações, para ser uma nação
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

santa. Para dirigi-los na vida de santidade, Deus lhes deu um código


de leis que governaria sua vida moral, nacional e religiosa. Entre
essas leis estavam a do sacrifício (Lv capítulos 1 a 7) as quais
ensinavam à nação a maneira correta de aproximar- se de Deus e
adorá-lo. As nações tinham uma adoração pervertida; Deus
restaurou em Israel a adoração pura. Os sacrifícios mosaicos eram
meios pelos quais os israelitas rendiam ao seu Criador a primeira
obrigação do homem, a saber, a adoração. Tais sacrifícios eram
oferecidos com o objetivo de alcançar comunhão com Deus e
remover todos os obstáculos que impediam essa comunhão. Por
exemplo, se o israelita pecasse e dessa maneira perturbasse a
relação entre ele e Deus, traria uma oferta pelo pecado — o
sacrifício de expiação. Ou, se tivesse ofendido ao seu próximo,
traria uma oferenda pela culpa — o sacrifício de restituição. (Lv 6:1-
7.) Depois que, estava de bem com Deus e com os homens e
desejava reconsagrar-se, oferecia uma oferta queimada
(holocausto) — o sacrifício de adoração (Lv capítulo 1) Estava então
pronto para desfrutar de uma feliz comunhão com Deus, que o havia
perdoado e aceito; portanto, ele apresentava uma oferenda de
adoração — sacrifício de comunhão. (Lv capítulo 3) O propósito
desses sacrifícios cruentos cumpre-se em Cristo, o sacrifício
perfeito. Sua morte é descrita como morte pelo pecado, como ato
de levar o pecado (2 Co 5:21) Deus fez da alma de Cristo uma oferta
pela culpa do pecado (tal é a tradução literal); ela pagou a dívida
que não podíamos pagar, e apagou o passado que não podíamos
desfazer. Cristo é a nossa oferenda queimada (holocausto), porque
sua morte é exposta como um ato de perfeito oferecimento próprio
(Hb 5:15; Ef 5). Ele é a nossa oferta de paz. Porque ele mesmo
descreveu sua morte como um meio para se participar (ter
comunhão com) da vida divina. (Vide Lv 7.15, 20.)
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

3. A EFICÁCIA DO SACRIFÍCIO.

Até que ponto os sacrifícios do Antigo Testamento foram eficazes?


Asseguravam realmente perdão e pureza? Que benefícios
asseguravam para o ofertante? Essas perguntas são de verdadeira
importância, porque, comparando e contrastando os sacrifícios
levíticos com o sacrifício de Cristo, poderemos compreender melhor
a eficácia e finalidade do último. Este tema é tratado na carta aos
Hebreus. O escritor dirige-se a um grupo de cristãos hebreus, os
quais, desanimados pela perseguição, são tentados a voltar ao
Judaísmo e aos sacrifícios do templo. As realidades nas quais eles
criam são invisíveis, ao passo que o templo com seu ritual parece
tangível e real. A fim de evitar que tomassem tal decisão, o escritor
faz a comparação entre o Antigo e o Novo Concertos, sendo
imperfeito e provisório o Antigo, mas perfeito e eterno o Novo. Voltar
ao templo e ao seu sacerdócio e sacrifício seria desprezar a
substância preferindo a sombra, o perfeito pela imperfeição. O
argumento é o seguinte: o Antigo Concerto era bom, na medida de
sua finalidade e para o seu determinado propósito ao qual foi
constituído; mas o Novo Concerto é melhor.

1) Os sacrifícios do Antigo Testamento eram bons. Se não


fossem, não teriam sido divinamente ordenados. Eles eram
bons no sentido de terem cumprido um determinado propósito
incluído no plano divino, isto é, um meio de graça, para que
aqueles do povo de Jeová que havia pecado contra ele
pudessem voltar ao estado de graça, serem reconciliados, e
continuarem no gozo de comunhão com ele. Quando o israelita
havia fielmente cumprido as condições, então podia descansar
sobre a promessa; "o sacerdote por ele fará expiação do seu
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

pecado, e lhe ser perdoado" (Lv 4:26). Quando um israelita


esclarecido trazia oferta, estava ele cônscio de duas coisas:
primeira, que o arrependimento em si não era o suficiente; era
indispensável uma transação visível que indicasse o fato de ser
removido o pecado. (Hb 9:22.) Mas por outro lado, ele aprendia
com os profetas que o ritual sem a correta disposição interna do
coração também era mera formalidade sem valor. O ato de
sacrifício devia ser a expressão externa dos sacrifícios internos
de louvor, oração, justiça e obediência — sacrifícios do coração
quebrantado e contrito. (Vide Sl 26:6; 50:12-14; 4:5; 51:16; Pv
21:3; Amós 5:21-24; Mq 6:6-8; Is 1:11-17.) "O sacrifício (oferta
de sangue) dos ímpios é abominação ao Senhor", declarou
Salomão (Pv 15:8). Os escritores inspirados, em termos claros
externaram o fato de que as "emoções ritualistas não
acompanhadas de emoções de justiça eram devoções
inaceitáveis".

2) O sacrifício único do Novo Testamento é melhor. Embora


reconhecessem a divina ordenação de sacrifícios de animais,
os israelitas esclarecidos certamente compreendiam que esses
animais não podiam ser o meio perfeito de expiação.

Havia grande disparidade entre um irracional e irresponsável e


o homem feito à imagem de Deus. Era evidente que o animal
não constituía sacrifício inteligente e voluntário. Não havia
nenhuma comunhão entre o ofertante e a vítima. Era evidente
que o sacrifício do animal não podia comparar-se em valor à
alma humana, nem tampouco exercer qualquer poder sobre o
homem interior. Nada havia no sangue da criatura irracional que
efetuasse a redenção espiritual da alma, a qual somente seria
possível pela oferta duma vida humana perfeita. O escritor
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

inspirado externou o que certamente foi a conclusão à qual


chegaram muitos crentes do Antigo Testamento, quando disse:
"Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire
os pecados" (Hb 10:4). Quando muito, os sacrifícios eram
apenas meios temporários e imperfeitos de cobrir o pecado até
que viesse uma redenção mais perfeita. A lei levou o povo à
convicção dos pecados (Rm 3:20), e os sacrifícios tornaram
inoperantes esses pecados de forma que não podiam provocar
a ira divina.

Os sacrifícios de animais são descritos como "ordenanças


carnais", isto é, são ritos que removeram contaminações do
corpo, e expiaram atos externos do pecado (Hb 9:10) mas em
si mesmos nenhuma virtude espiritual possuíam "... o sangue
dos touros e bodes... santifica, quanto à purificação da carne"
(Hb 9:13); isto é, fizeram expiação pelas contaminações que
excluíam um israelita da comunhão na congregação de Israel.
Por exemplo, se a pessoa se contaminasse fisicamente seria
considerada imunda e cortada da congregação de Israel até que
se purificasse e oferecesse sacrifício (Lv 5:1-6); ou se
ofendesse materialmente seu próximo, estaria sob a
condenação até que trouxesse uma oferta pelo pecado (Lv6:1-
7). No primeiro caso o sacrifício purificava a contaminação
carnal; no segundo, o sacrifício fazia expiação pelo ato externo
mas não mudava o coração). O próprio Davi reconheceu que
estava preso por uma depravação da qual os sacrifícios de
animais não o podiam libertar (Sl 51:16; vide 1Sam. 3:14}; ele
orou a Deus pedindo a renovação espiritual que sacrifícios não
podiam proporcionar (Sal 51:6-10).

A repetição dos sacrifícios de animais denuncia a sua


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

imperfeição; não podiam aperfeiçoar o adorador (Hb 10:1, 2),


isto é, não podiam dar-lhe uma posição ou relação perfeita
perante Deus, sobre a qual pudesse edificar a estrutura do seu
caráter. Não podia experimentar de uma vez para sempre uma
transformação espiritual que seria o início duma nova vida.

Os sacrifícios de animais eram oferecidos por sacerdotes


imperfeitos; a imperfeição de seu ministério era indicada pelo
fato de que não podiam entrar a qualquer hora no Santo dos
Santos, e, portanto, não podiam conduzir o adorador
diretamente à divina presença. "Dando nisto a entender o
Espírito Santo que ainda o caminho do santuário não estava
descoberto... " (Hb 9:8). O sacerdote não dispunha de nenhum
sacrifício pelo qual pudesse conduzir o povo a uma experiência
espiritual com Deus, e dessa forma tomar o adorador perfeito
"quanto à consciência" (Hb 9:9). Ao ser interpelado o israelita
espiritual com respeito às suas esperanças de redenção, ele
diria, à luz do mesmo discernimento que o fez perceber a
imperfeição dos sacrifícios de animais, que a solução definitiva
era aguardada no futuro, e que a perfeita redenção estava em
conexão, de alguma maneira, com a ordem perfeita que se
inauguraria à vinda do Messias. Em verdade, tal revelação foi
concedida a Jeremias. Esse profeta havia desanimado de crer
que o povo seria capaz de guardar a lei; seu pecado fora escrito
com pena de ferro (Jr 17:1), seu coração era enganoso e mau
em extremo (Jr 17:9). Não podiam mudar o coração como o
etíope não podia mudar a cor de sua pele (Jr 19:23); tão
calejados estavam e tão depravados eram, que os próprios
sacrifícios não lhes podiam valer (Jr 6:20). Na realidade,
haviam-se esquecido do propósito primordial desses sacrifícios.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Do ponto de vista humano o povo não oferecia nenhuma


esperança, mas Deus confortou a Jeremias com a promessa da
vinda dum tempo quando, sob uma nova aliança, os corações
do povo seriam transformados, quando haveria então uma
perfeita remissão dos pecados (Jr 31:31-34). "Porque lhes
perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus
pecados." Em Hb 10:17, 18 encontramos a inspirada
interpretação dessas últimas palavras em que se concretizaria
uma redenção perfeita mediante um sacrifício perfeito que dava
a entender que os sacrifícios de animais haviam de
desaparecer. (Vide Hb 10:6-10.) Por meio desse sacrifício o
homem desfruta duma experiência "uma vez para sempre" que
lhe dá uma aceitação perfeita perante Deus. O que não se
conseguiu pelos sacrifícios da lei obteve-se pelo perfeito
sacrifício de Cristo. "E assim o sacerdote aparece cada dia,
ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios,
que nunca podem tirar os pecados; mas este, havendo
oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado
para sempre à destra de Deus..." (Hb 10:11, 12).

Resta uma questão a ser considerada: é certo que havia


pessoas verdadeiramente justificadas antes da obra expiatória
de Cristo. Abraão foi justificado pela fé (Rm 4:23) e entrou no
reino de Deus (Mt 8:11; Lc 16:22); Moisés foi glorificado (Lc
9:30, 31); e Enoque e Elias foram transladados. Sem dúvida
houve muitas pessoas santas em Israel que alcançaram a
estatura espiritual desses homens dignos. Sabendo que os
sacrifícios de animais eram insuficientes, e que o único sacrifício
perfeito era o de Cristo, em que base então foram salvos esses
santos do Antigo Testamento? Foram salvos por antecipação
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

do futuro sacrifício realizado. A prova dessa verdade encontra-


se em Hb 9:15 (vide também Rm 3:25), que ensina que a morte
de Cristo era, em certo sentido, retroativa e retrospectiva; isto é,
que tinha uma eficácia em relação ao passado. Hebreus 9:15
sugere o seguinte pensamento: a Antiga Aliança era impotente
para prover uma redenção perfeita. Cristo completou essa
aliança e inaugurou a Nova Aliança com a sua morte, a qual
efetuou a "redenção das transgressões que estavam debaixo
do primeiro testamento". Isso significa que Deus, ao justificar os
crentes do Antigo Testamento, assim o fez em antecipação da
obra de Cristo, "a crédito", por assim dizer; Cristo pagou o preço
total na cruz e apagou a dívida. Deus deu aos santos do Antigo
Testamento uma posição, a qual a Antiga Aliança não podia
comprar, e assim o fez em vista duma aliança vindoura que
podia efetuar. Se perguntassem aos crentes do Antigo
Testamento se durante a sua vida gozaram dos mesmos
privilégios que aqueles que vivem sob o Novo Testamento, a
resposta seria negativa. não havia nenhum dom permanente do
Espírito Santo (João 7:39) que acompanhasse seu
arrependimento e fé; não gozavam da plena verdade sobre a
imortalidade revelada por Cristo (2 Tm 1:10), e, de modo geral,
eram limitados pelas imperfeições da dispensação na qual
viviam. O melhor que se pode dizer é que apenas saborearam
algo das boas coisas vindouras.

B. A EXPIAÇÃO NO NOVO TESTAMENTO

1. O FATO DA EXPIAÇÃO
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

A expiação que fora preordenada desde a eternidade e prefigurada


tipicamente no ritual do Antigo Testamento cumpriu- se
historicamente, na crucificação de Jesus, quando se consumou o
divino propósito redentivo. "Está consumado!" Os escritores dos
Evangelhos descreveram os sofrimentos e a morte de Cristo com
profusão de pormenores que não se vêm nas narrativas de outros
eventos das profecias do Antigo Testamento, os quais indicam a
grande importância do evento. Alguns escritores da escola "liberal"
defendem a teoria de que a morte de Cristo fora acidente e tragédia!
Ele teria iniciado seu ministério com grande esperança de sucesso,
segundo eles, mas depois viu-se envolvido em certas circunstâncias
que ocasionaram a sua destruição imprevista, à qual não pôde
escapar. Mas, que dizem os Evangelhos a respeito? Segundo o seu
testemunho, Jesus sabia desde o princípio que o sofrimento e a
morte faziam parte do seu destino divinamente ordenado. Em sua
declaração, que o Filho do homem devia sofrer, a palavra "devia"
indica a vocação divina e não a fatalidade imprevista e inevitável.
No ato do seu batismo ele ouviu as palavras: "Este é o meu filho
amado, em quem me comprazo" (Mt 3:17). Essas palavras são
extraídas de duas profecias, a primeira declarando a filiação do
Messias e sua Divindade (Sl 2:7), e a segunda descrevendo o
ministério do Messias como o Servo do Senhor (Is 42:1). O servo
mencionado em Is 42:1 é o Servo sofredor de Is 53. A conclusão à
qual chegamos é que mesmo na hora do seu batismo, Jesus estava
ciente do fato de que sofrimento e morte faziam parte de sua
vocação. A rejeição das ofertas de Satanás no deserto implicava
desfecho trágico de sua obra, pois ele escolheu o caminho duro da
rejeição em vez do fácil e popular. O próprio fato de o Santo estar
no meio do povo (Lc 3:21) que se batizava, e o submeter-se ao
mesmo batismo foi um ato de identificação com a humanidade
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

pecaminosa, a fim de levar os pecados desse mesmo povo. O Servo


do Senhor, segundo Isaias 53, seria "contado com os
transgressores" (ver. 12). O batismo de Jesus pode ser considerado
como "o grande ato de amorosa comunhão com a nossa miséria",
pois nessa hora ele identifica-se com os pecadores e, por
conseguinte, em certo sentido sua obra de expiação já começou.
Muitas vezes durante o curso do seu ministério o Senhor, em
linguagem oculta e figurada, referiu-se à sua morte (Mt5:10-12;
23:37; Mc 9:12,13; 3:6,20-30; 2:19), mas em Cesaréia de Filipos ele
claramente disse aos discípulos que devia sofrer e morrer. Daquele
tempo em diante ele procurou esclarecer- lhes as mentes sobre este
fato, que teria que sofrer, para que, sendo avisados, não
naufragassem em sua fé ante o choque da crucificação. (Mc 8:31;
9:31; 10:32.) Ele também lhes explicou o significado de sua morte.
Não a deveriam considerar como tragédia imprevista e infeliz à qual
teria que se resignar, e, sim, como sendo morte cujo propósito era
fazer expiação. "O Filho do homem veio a dar a sua vida em resgate
de muitos." Na última ceia Jesus deu instruções acerca da futura
comemoração de sua morte, como sendo o supremo ato de seu
ministério. Ele ordenou um rito que comemoraria sua redenção da
humanidade, assim como a Páscoa comemorava a redenção de
Israel do Egito. Seus discípulos, que ainda estavam sob a influência
de ideias judaicas acerca do Messias e do reino, não podiam
compreender a necessidade de sua morte e só com dificuldade
podiam aceitar o fato. Mas após a ressurreição e a ascensão eles o
entenderam e sempre depois disso afirmaram que a morte de Cristo
fora divinamente ordenada como o meio da expiação. "Cristo
morreu pelos nossos pecados", é seu testemunho de sempre.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

2. A NECESSIDADE DA EXPIAÇÃO

A necessidade da expiação é consequência de dois fatos: a


santidade de Deus e a pecabilidade do homem. A reação da
santidade de Deus contra a pecabilidade do homem é conhecida
como sua ira, a qual pode ser evitada mediante a expiação.
Portanto, os pontos-chave do nosso estudo serão os seguintes:
Santidade, pecabilidade, ira e expiação.

1) A santidade de Deus. Deus é santo por natureza, o que


significa que ele é justo em caráter e conduta. Esses atributos
do seu caráter manifestam-se em seus tratos com a sua criação.
"Ele ama a justiça e o juízo" (Sl 33:5). "Justiça e juízo são a base
do teu trono" (Sl 89:14). Deus constituiu o homem e o mundo
segundo leis especificas, leis que formam o próprio fundamento
da personalidade humana, escritos no coração e na natureza do
homem. (Rm 2:14, 15.) Essas leis unem o homem ao seu
Criador pelos laços de relação pessoal e constituem a base da
responsabilidade humana. "Porque nele vivemos, e nos
movemos e existimos" (Atos 17:28), assim foi dito da
humanidade em geral. O pecado perturba a relação expressa
nesse verso, e ao fim o pecador impenitente será lançado
eternamente da presença de Deus. Esta é "a segunda morte".
Em muitas ocasiões essa relação foi reafirmada, ampliada e
interpretada sob outro sistema chamado aliança. Por exemplo,
no Sinai Deus reafirmou as condições sob as quais ele podia ter
comunhão com o homem (a lei moral) e, então estabeleceu uma
série de regulamentos pelos quais Israel poderia observar essas
condições na esfera da vida nacional e religiosa. Guardar a
aliança significa estar em relação com Deus, ou estar na graça;
pois aquele que é justo pode ter comunhão somente com
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

aqueles que andam na justiça. "Andarão dois juntos, se não


estiverem de acordo?" (Amós 3:3). E estar em comunhão com
Deus significa vida. Do princípio ao fim, as Escrituras declaram
esta verdade, que a obediência e a vida andam juntas. (Gn 2:17;
Ap 22:14.)

2) A pecabilidade do homem. Essa relação foi perturbada pelo


pecado que é um distúrbio da relação pessoal entre Deus e o
homem. E desrespeitar a constituição, por assim dizer, ação
que afeta a Deus e aos homens, tal qual a infidelidade que viola
o pacto matrimonial sob o qual vivem o homem e sua mulher.
(Jr 3:20.) "Vossas iniquidades fazem divisão entre vós e o vosso
Deus" (Is 59:2). A função da expiação é fazer reparação pela lei
violada e reatar a comunhão interrompida entre Deus e o
homem.

3) Ira. O pecado é essencialmente um ataque contra a honra e a


santidade de Deus. É rebelião contra Deus, pois pelo pecado
deliberado, o homem prefere a sua própria vontade em lugar da
vontade de Deus, e por algum tempo torna-se "autônomo". Mas
se Deus permitisse que sua honra fosse atacada então ele
deixaria de ser Deus. Sua honra pede a destruição daquele que
lhe resiste; sua justiça exige a satisfação da lei violada; e sua
santidade reage contra o pecado sendo essa reação
reconhecida como manifestação da ira. Mas essa reação divina
não é automática; nem sempre ela entra em ação
instantaneamente, como acontece com a mão em contato com
o fogo. A ira de Deus é governada por considerações pessoais;
Deus é tardio em destruir a obra de suas mãos. Ele insta com o
homem; ele espera ser gracioso. Ele adia o juízo na esperança
de que sua bondade conduza o homem ao arrependimento.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

(Rm 2:4; 2 Pe 3:9.) Mas os homens interpretam mal as demoras


divinas e zombam do dia de juízo. "Visto como se não executa
imediatamente o juízo sobre a má obra, por isso o coração dos
filhos dos homens está inteiramente disposto para praticar o
mal" (Ec 8:11). Mas, embora demore, a retribuição final virá,
pois num mundo governado por leis ter de haver um ajuste de
contas. "não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo
o que o homem semear, isso também ceifará" (Gl 6:7). Essa
verdade foi demonstrada no Calvário, onde Deus declarou "sua
justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a
paciência de Deus" (Rm 3:25).

Assim alguém traduz essa passagem: "Isto foi para demonstrar


a justiça de Deus em vista do fato de que os pecados
previamente cometidos durante o tempo da tolerância de Deus
foram ignorados". Outro assim parafraseia a passagem: "Ele
suspendeu o juízo sobre os pecados daquele período anterior,
o período de sua paciência, tendo em vista a revelação de sua
justiça sob esta dispensação, quando ele, justo Juiz, absolverá
o pecador que afirma sua fé em Jesus." Em séculos passados
parece que Deus não levou em conta os pecados das nações;
os homens continuaram no pecado, aparentemente sem ceifar
as suas consequências. Daí a pergunta: "Então Deus não toma
conhecimento do pecado?" Mas a crucificação revelou o caráter
horrendo do pecado, e demonstra vivamente o terrível castigo
sobre ele. A cruz de Cristo declara que Deus nunca foi, não é,
e nunca poderia ser indiferente ao pecado dos homens. Assim
comenta o assunto um erudito: Deus deu provas de sua ira
contra o pecado quando ocasionalmente castigou Israel e as
nações gentílicas. Mas ele não infligiu a plena penalidade, caso
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

contrário a raça humana teria perecido. Em grande parte, ele


"passou por alto" os pecados dos homens. Seria injusto o rei
que deixasse de punir um crime ou mesmo que adiasse a
punição. E na opinião de alguns. Deus perdeu prestigio por
causa de sua tolerância, a qual interpretam como um meio de
escapar à punição divina. Deus destinou Cristo para morrer a
fim de demonstrar a sua justiça em vista da tolerância dos
pecados passados, tolerância que parecia ofuscar a justiça.

4) Expiação. O homem tem quebrado as leis de Deus e violado os


princípios da justiça. O conhecimento desses atos está
registrado em sua memória e a sua consciência o acusa. Que
se pode fazer para remediar o passado e ter segurança no
futuro? Existe alguma expiação pela lei violada? Para essa
pergunta existem três respostas:

Alguns afirmam que a expiação não é possível e que a vida é


governada por uma lei inexorável, a qual punirá com precisão
matemática todas as violações. O que o homem semear,
fatalmente, isso mesmo ele ceifará. O pecado permanece.
Assim o pecador nunca escapará às culpas do passado. Seu
futuro está hipotecado e não existe redenção para ele. Essa
teoria faz do homem um escravo de suas circunstâncias; nada
pode fazer quanto ao seu destino. Se os proponentes dessa
teoria reconhecem a Deus, para eles Deus é escravizado às
suas próprias leis, incapaz de prover um meio de escape para
os pecadores.

No outro extremo há aqueles que ensinam que a expiação é


desnecessária. Deus é tão bom que não punirá o pecador, e tão
gracioso que não exigirá a satisfação da lei violada. Por
conseguinte, a expiação toma-se desnecessária e é de supor
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

que Deus perdoará a todos. Certa vez um médico disse a uma


cliente que lhe havia falado do Evangelho: Eu não preciso de
expiação. Quando erro, peço simplesmente a Deus que me
desculpe, e é quanto basta." Depois de certo tempo a cliente
voltou ao médico e lhe disse: "Doutor, agora estou bem. Sinto
muito haver ficado doente, e prometo-lhe que me esforçarei
para nunca mais adoecer." Ao mesmo tempo ela insinuou que
nenhuma necessidade havia de considerar ou pagar a conta!
Cremos que o médico compreendeu a lição, isto é, que mero
arrependimento não salda conta, nem repara os estragos
causados pelo pecado.

O Novo Testamento ensina que a expiação é tanto necessária


como também possível; possível porque Deus é benévolo, bem
como justo; necessária porque Deus é justo, bem como
benévolo. Os dois erros acima tratados são exageros de duas
verdades sobre o caráter de Deus. O primeiro exagera a sua
justiça, excluindo a sua graça. O segundo exagera sua graça,
excluindo a sua justiça. A expiação faz justiça a ambos os
aspectos de seu caráter, pois na morte de Cristo, Deus está
agindo de modo justo como também benévolo. Ao tratar do
pecado, ele precisa mostrar sua graça, pois ele não deseja o
morte do pecador; mas, ao perdoar o pecado, ele precisa
revelar a sua justiça, pois a própria estabilidade do universo
depende da soberania de Deus. Na expiação Deus faz justiça a
seu caráter como um Deus benévolo. Sua justiça clamou pelo
castigo do pecador, mas sua graça proveu um plano para o
perdão. Ao mesmo tempo ele faz justiça a seu caráter como um
Deus justo e reto. Deus não faria justiça a si mesmo se
manifestasse compaixão para com os pecadores de maneira
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

que fizesse do pecado uma coisa leve e que ignorasse sua


trágica realidade. Poderíamos pensar que Deus seria então
indiferente ou indulgente quanto ao pecado. O castigo do
pecado foi pago no Calvário, e a lei divina foi honrada; dessa
maneira Deus pôde ser benévolo sem ser injusto, e justo sem
ser inclemente.

3. A NATUREZA DA EXPIAÇÃO

A morte de Cristo é: "Cristo morreu", expressa o fato histórico da


crucificação; "por nossos pecados", interpreta o fato. Em que
sentido morreu Jesus por nossos pecados? Como é explicado o fato
no Novo Testamento? A resposta encontra-se nas seguintes
palavras-chave aplicadas à morte de Cristo: Expiação, Propiciação,
Substituição, Redenção e Reconciliação.

1) Expiação. A palavra expiação no hebraico significa literalmente


'cobrir', e é traduzida pelas seguintes palavras: fazer expiação,
purificar, quitar, reconciliar, fazer reconciliação, pacificar, ser
misericordioso. A expiação, no original, inclui a ideia de cobrir,
tanto os pecados (Sl 78:38; 79:9; Lv 5:18) como também o
pecador. (Lv 4:20.) Expiar o pecado é ocultar o pecado da vista
de Deus de modo que o pecador perca seu poder de provocar
a ira divina. Citamos aqui o Pr. Alfred Cave: A ideia expressa
pelo original hebraico da palavra traduzida "expiar", era "cobrir"
e "cobertura", não no sentido de torná-lo invisível a Jeová, mas
no sentido de ocupar sua vista com outra coisa, de neutralizar o
pecado, por assim dizer, de desarmá-lo, de torná-lo inerte para
provocar a justa ira de Deus. Expiar o pecado... era arrojar, por
assim dizer, um véu sobre o pecado tão provocante, de modo
que o véu., e não o pecado, fosse visível; era colocar lado a lado
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

com o pecado algo tão atraente que cativasse completamente


a atenção. A figura que o Novo Testamento usa ao falar das
vestes novas (de justiça), usa-a o Antigo Testamento ao falar da
"expiação". Quando se fazia expiação sob a lei, era como se o
olho divino, que se havia acendido pela presença do pecado e
a impureza, fosse aquietado pela vestidura posta ao seu
derredor; ou, usando uma figura muito mais moderna, porém
igualmente apropriada, era como se o pecador, exposto a uma
descarga elétrica da ira divina, houvesse sido repentinamente
envolto e isolado. A exposição significa cobrir de tal maneira o
pecador, que seu pecado era invisível ou inexistente no sentido
de que já não podia estar entre ele e seu Criador. Quando o
sangue era aplicado ao altar pelo sacerdote, o israelita sentia a
segurança de que a promessa feita a seus antecessores se faria
real para ele. "Vendo eu sangue, passarei por cima de vós" (Êx
12:13). Quais eram os efeitos da expiação ou da cobertura? O
pecado era apagado (Jr 18:23; Is 43:25; 44:22); removido
(Is6:7); coberto (Sl 32:1); lançado nas profundidades do mar
(Mq 7:19); perdoado (Sl 78:38). Todos esses termos ensinam
que o pecado é coberto de modo que seus efeitos sejam
removidos, afastados da vista, invalidados, desfeitos. Jeová já
não vê nem sofre influência alguma dele. A morte de Cristo foi
uma morte expiatória, porque seu propósito era apagar o
pecado. (Hb 9:26, 28; 2:17; 10:12-14; 9:14.) Foi uma morte
sacrificial ou uma morte que tinha relação com o pecado. Qual
era essa relação? "Levando ele mesmo em seu corpo os nossos
pecados sobre o madeiro" (1Pe 2:24). "Aquele que não
conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele
fôssemos feitos justiça de Deus" (2 Co 5:21) Expiar o pecado
significa levá-lo embora, de modo que ele é afastado do
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

transgressor, o qual é considerado, então, como justificado de


toda a injustiça, purificado de contaminação e santificado para
pertencer ao povo de Deus. Uma palavra hebraica usada para
descrever a purificação significa, literalmente, "quitar o pecado".
Pela morte expiatória de Cristo os pecadores são purificados do
pecado e logo feitos participantes da natureza de Cristo. Eles
morrem para o pecado a fim de viverem para Cristo.

2) Propiciação. Crê-se que a palavra propiciação tem sua origem


em uma palavra latina "propõe", que significa "perto de". Assim
se nota que a palavra significa juntar, tornar favorável. O
sacrifício de propiciação traz o homem para perto de Deus,
reconcilia-o com Deus fazendo expiação por suas
transgressões, ganhando a graça e favor. (Em sua misericórdia,
Deus aceita o dom propiciatório e restaura o pecador a seu
amor. Esse também é o sentido da palavra grega como é usada
no Novo Testamento. Propiciar é aplacar a ira de um Deus santo
pela oferenda dum sacrifício expiatório. Cristo é descrito como
sendo essa propiciação (Rm 3:25: 1 João 2:4; 4). O pecado
mantém o homem distanciado de Deus; mas Cristo tratou de tal
maneira o assunto do pecado, a favor do homem, que o seu
poder separador foi anulado. Portanto, agora o homem pode
"chegar-se" a Deus "em seu nome". O acesso a Deus, o mais
sublime dos privilégios, foi comprado por grande preço: o
sangue de Cristo. Assim escreve o Dr. James Denney: E assim
como no Antigo Testamento todo objeto usado na adoração
tinha que ser aspergido com sangue expiatório, assim também
todas as partes da adoração cristã; todas as nossas
aproximações a Deus devem descansar conscientemente sobre
a expiação. Deve- se sentir que é um privilégio de inestimável
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

valor; deve ser permeado com o sentimento da paixão de Cristo


e com o amor com que ele nos amou quando sofreu por nossos
pecados de uma vez para sempre, o justo pelos injustos para
chegar-nos a Deus. A palavra "propiciação" em Romanos 3:25
é tradução da palavra grega "hilasterion", que se encontra
também em Hb 9:5 onde é traduzida como "propiciatório". No
hebraico, "propiciatório" significa literalmente "coberta", e, tanto
no hebraico como no grego, a palavra expressa o pensamento
de um sacrifício (...). Refere-se à arca da aliança (Êx 25:10-22)
que estava composta de duas partes: primeira, a arca,
representando o trono do justo governante de Israel, contendo
as tábuas da lei como a expressão de sua justa vontade;
segunda, a coberta, ou tampa, conhecida como "propiciatório",
coroada com figuras angélicas chamadas querubins. Duas
lições salientes eram comunicadas por essa mobília: primeira,
as tábuas da lei ensinavam que Deus era um Deus justo que
não passaria por alto o pecado e que devia executar seus
decretos e castigar os ímpios. Como podia uma nação
pecaminosa viver ante sua face? O propiciatório, que cobria a
lei, era o lugar onde se aspergia o sangue uma vez por ano para
fazer expiação pelos pecados do povo. Era o lugar onde o
pecado era coberto, e ensinava a lição de que Deus, que é justo,
pode perfeitamente perdoar o pecado por causa dum sacrifício
expiatório. Por meio do sangue expiatório, aquilo que é um trono
de juízo se converte em trono de graça. A arca e o propiciatório
ilustram o problema resolvido pela expia ao. O problema e sua
solução são declarados em Rm 3: 24-26, onde lemos: "sendo
justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há
em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação (um
sacrifício expiatório) pela fé no seu sangue, para demonstrar a
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos


(demonstrar que a aparente demora em executar o juízo não
significa que Deus passou por alto o pecado) sob a paciência
de Deus; para demonstração da sua justiça, neste tempo
presente (sua maneira de fazer justos os pecadores), para que
ele seja justo (infligir o devido castigo pelo pecado), e
justificador (remover o castigo pelo pecado) daquele que tem fé
em Jesus". Como pode Deus realmente infligir o castigo do
pecado e ao mesmo tempo cancelar esse castigo? Deus
mesmo tomou o castigo na pessoa de seu Filho, e desta
maneira abriu o caminho para o perdão do culpado. Sua lei foi
honrada e o pecador foi salvo. O pecado foi expiado e Deus foi
propiciado. Os homens podem entender como Deus pode ser
justo e castigar, ser misericordioso e perdoar; mas a maneira
como pode Deus ser justo no ato de justificar ao culpado, é para
eles um enigma. O Calvário resolve o problema. É preciso
esclarecer o fato de que a propiciação foi uma verdadeira
transação, porque alguns ensinam que a expiação foi
simplesmente uma demonstração do amor de Deus e de Cristo,
com a intenção de comover o pecador ao arrependimento. Esse
certamente é um dos efeitos da expiação (1 João 3:16), mas
não representa o todo da expiação. Por exemplo, poderíamos
pular para dentro dum rio e afogarmo-nos à vista de uma pessoa
muito pobre a fim de convencê-la do nosso amor por ela; mas
esse ato não pagaria o aluguel da casa nem a conta do
fornecedor que ele devesse! A obra expiatória de Cristo foi uma
verdadeira transação que removeu um verdadeiro obstáculo
entre nós e Deus, e pagou a dívida que não podíamos pagar.

3) Substituição. Os sacrifícios do Antigo Testamento eram


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

substitutos por natureza; eram considerados como algo a que


se procedia, no altar, para o israelita, que não podia fazê-lo por
si mesmo. O altar representava o pecador; a vítima era o
substituto do israelita para ser aceita em seu favor. Da mesma
forma Cristo, na cruz, fez por nós o que não podíamos fazer por
nós mesmos, e qualquer que seja a nossa necessidade, somos
aceitos "por sua causa". Se oferecemos a Deus nosso
arrependimento, gratidão ou consagração, fazemo-lo "em seu
nome", pois ele é o Sacrifício por meio do qual chegamos a
Deus o Pai. O pensamento de substituição é saliente nos
sacrifícios do Antigo Testamento, onde o sangue da vítima é
considerado como uma coberta ou como fazendo expiação pela
alma do ofertante. No capítulo em que os sacrifícios do Antigo
Testamento alcançam seu maior significado (Is 53) lemos:
"Verdadeiramente" ele tomou sobre si as nossas enfermidades,
e as nossas dores levou sobre si... mas ele foi ferido pelas
nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o
castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas
pisaduras fomos sarados, (vers. 4, 5). Todas essas expressões
apresentam o Servo de Jeová como levando o castigo que devia
cair sobre outros, a fim de "justificar a muitos"; e "levar as
iniquidades deles". Cristo, sendo o Filho de Deus, pôde oferecer
um sacrifício de valor eterno e infinito. Havendo assumido a
natureza humana, Pôde identificar- se com o gênero humano e
assim sofrer o castigo que era nosso, a fim de que pudéssemos
escapar. Isso explica a exclamação: "Deus meu, Deus meu, por
que me desamparaste?" Ele que era sem pecado por natureza,
que nunca havia cometido um pecado sequer em sua vida, se
fez pecador (ou tomou o lugar do pecador). Nas palavras de
Paulo: "Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por
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nós" (2 Co 5:21). Nas palavras de Pedro: "Levando ele mesmo


em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (1 Pe 2:24).

4) Redenção. A palavra redimir, tanto no Antigo como no Novo


Testamento, significa tornar a comprar por um preço; livrar da
servidão por preço, comprar no mercado e retirar do mercado.
O senhor Jesus é um Redentor e sua obra expiatória é descrita
como uma redenção. (Mt 20:28; Ap 5:9; 14:3, 4; Gl 3:13; 4:5;
Tito 2:14; 1 Pe 1:18.) A mais interessante ilustração de
redenção se encontra no Antigo Testamento, na lei sobre a
redenção dum parente. (Lv 25:47-49.) Segundo essa lei, um
homem que houvesse vendido sua propriedade e se houvesse
vendido a si mesmo como escravo, por causa de alguma dívida,
podia recuperar, tanto sua terra como sua liberdade, em
qualquer tempo, sob a condição de que fosse redimido por um
homem que possuísse as seguintes qualidades: Primeira,
deveria ser parente do homem; segunda deveria estar disposto
a redimi-lo ou comprá-lo novamente; terceira, deveria ter com
que pagar o preço. O Senhor Jesus Cristo reuniu em si essas
três qualidades: Fez- se nosso parente, assumindo nossa
natureza; estava disposto a dar tudo para redimir-nos (2 Co 8:9);
e, sendo divino, pôde pagar o preço... seu próprio sangue
precioso. O fato da redenção destaca o alto preço da salvação
e, por conseguinte, deve ser levado em grande consideração.
Quando certos crentes em Corinto se descuidaram de sua
maneira de viver, Paulo assim os admoestou: "não sabeis... que
não sois de vós mesmos? porque fostes comprados por bom
preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo e no vosso espírito,
os quais pertencem a Deus" (1 Co 6:19. 20). Certa vez Jesus
disse: "Que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

perder a sua alma? Ou que daria o homem pelo resgate da sua


alma?" (Mc 8:36, 37). Com essa expressão ele quis dizer que a
alma, a verdadeira vida do homem, podia perder-se ou arruinar-
se; e perdendo-se não podia haver compensação por ela,
porque não havia meios de tornar a comprá-la. Os homens ricos
poderão jactar-se de suas riquezas e nelas confiar, porém o
poder delas é limitado. O Salmista disse: "Nenhum deles de
modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate
dele (pois a redenção da sua alma é caríssima, e seus recursos
se esgotariam antes) por isso tão pouco viver para sempre ou
deixar de ver a corrupção" (Sl 49: 7-9). Mas uma vez que as
almas de multidões já foram "confiscadas", por assim dizer, por
viverem no pecado, e não podem ser redimidas por meios
humanos, que se pode fazer em favor delas? O Filho do homem
veio ao mundo "para dar a sua vida em resgate (ou para
redenção) de muitos (Mt 20:28). O supremo objetivo de sua
vinda ao mundo foi dar sua vida como preço de resgate para
que aqueles, cujas almas foram "confiscadas", pudessem
recuperá-las. As vidas (espirituais) de muitos, "confiscadas",
são libertadas pela rendição da vida por parte de Cristo. Pedro
disse a seus leitores que eles foram resgatados de sua vã
maneira de viver, que por tradição (pela rotina ou costumes),
receberam dos seus pais (1 Pedro 1:18). A palavra "vã" significa
"vazia", ou aquilo que não satisfaz. A vida, antes de entrar em
contato com a morte de Cristo, é inútil e vã é andar às
apalpadelas, procurando uma coisa que nunca poderá ser
encontrada. Com todos os esforços não logra descobrir a
realidade; não tem fruto permanente. "Que adianta tudo isso?"
exclamam muitas pessoas. Cristo nos redimiu dessa servidão.
Quando o poder da morte expiatória de Cristo tem contato com
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

a vida de alguém, essa vida desfruta de grande satisfação. Não


está mais escravizada às tradições de ancestrais ou limitada à
rotina ou aos costumes estabelecidos. Antes, as ações do
cristão surgem duma nova vida que veio a existir pelo poder da
morte de Cristo. A morte de Cristo, sendo uma morte pelo
pecado, liberta e "toma a criar" a alma.

5) Reconciliação. "Tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou


consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da
reconciliação; isto é, Deus estava em Cristo reconciliando
consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs
em nós a palavra da reconciliação" (2 Co 5: 18, 19.) Quando
éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do
seu Filho (Rm 5:10). Homens que em outro tempo eram
estranhos entre si e inimigos no entendimento pelas suas obras
más, agora no corpo da sua carne, pela morte, foram
reconciliados (Cl 1:21).

Muitas vezes a expiação é mal-entendida e, por conseguinte, mal


interpretada. Alguns imaginam que a expiação significa que Deus estava
irado com o pecador, e que se afastou, mal-humorado, até que se
aplacasse a ira, quando seu Filho se ofereceu a pagar a pena. Em outras
palavras, pensam eles, Deus teve que ser reconciliado com o pecador.
Essa ideia, entretanto, é uma caricatura da verdadeira doutrina. Através
das Escrituras vemos que é Deus, a parte ofendida, quem toma a
iniciativa em prover expiação pelo homem. Foi Deus quem vestiu nossos
primeiros pais; é o Senhor quem ordena os sacrifícios expiatórios; foi
Deus quem enviou e deu seu Filho em sacrifício pela humanidade. O
próprio Deus é o Autor da redenção do homem. Ainda que sua
majestade tenha sido ofendida pelo pecado do homem, sua santidade,
naturalmente, deve reagir contra o pecado, contudo, ele não deseja que
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

o pecador pereça (Ez. 33:11), e, sim, que se arrependa e seja salvo.


Paulo não disse que Deus foi reconciliado com o homem, mas sim que
Deus fez algo a fim de reconciliar consigo o homem. Esse ato de
reconciliação é uma obra consumada; é uma obra realizada em benefício
dos homens, de maneira que, à vista de Deus, o mundo inteiro está
reconciliado. Resta somente que o evangelista a proclame e que o
indivíduo a receba. A morte de Cristo tornou possível a reconciliação de
todo o gênero humano com Deus; cada indivíduo deve torná-la real.
Essa, em essência, é a mensagem do evangelho; a morte de Cristo foi
uma obra consumada de reconciliação, efetuada independente de nós,
a um custo inestimável, para a qual são chamados os homens mediantes
um ministério de reconciliação.

4. A EFICÁCIA DA EXPIAÇÃO

Que efeito tem para o homem a obra expiatória de Cristo? Que


produz ela em sua experiência?

1) Perdão da transgressão. Por meio de sua obra expiatória,


Jesus Cristo pagou a dívida que nós não podíamos saldar e
assegurou a remissão dos pecados passados. Assim, o
passado pecaminoso para o cristão não é mais aquele peso
horrendo que conduzia, pois seus pecados foram apagados,
carregados e cancelados. (João 1:29; Ef 1:7; Hb 9:22-28; Apo.
1:5.) Começou a vida de novo, confiando em que os pecados
do passado nunca o encontrarão no juízo. (João 1A:24.)

2) Livramento do pecado. Por meio da expiação o crente é


liberto, não somente da culpa dos pecados, mas também pode
ser liberto do poder do pecado. O assunto é tratado em
Romanos, caps. 6 a 8. Paulo antecipa uma objeção que alguns
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

dos seus oponentes judeus devem ter suscitado muitas vezes a


saber, que se a pessoa fosse salva meramente por crer em
Jesus, essa pessoa teria opinião leviana sobre o pecado,
dizendo: "Se permanecermos no pecado, sua graça abundará"
(Rm 6:1). Paulo repudia tal pensamento e assinala que aquele
que verdadeiramente crê em Cristo, rompeu com o pecado. O
rompimento tão decisivo que é descrito como "morte". A viva fé
no Salvador crucificado resulta na crucificação da velha
natureza pecaminosa. O homem que crê com todos os poderes
de sua alma (é essa a verdadeira crença) que Cristo morreu por
seus pecados, terá uma tal convicção sobre a condição terrível
do pecado, e o repudiará com todo o seu ser. A cruz significa a
sentença de morte sobre o pecado. Mas o tentador está ativo e
a natureza humana é fraca; por isso é necessária uma vigilância
constante e uma crucificação diária dos impulsos pecaminosos.
(Rm 6:11.) E a vitória é assegurada "Porque o pecado não terá
domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo
da graça" (Rm 6:14.) Isto é, a lei significa que algo deve ser feito
pelo pecador; não podendo pagar a dívida ou cumprir a
exigência da lei, ele permanece cativo pelo pecado. Por outro
lado, graça significa que algo foi feito a favor do pecador... a
obra consumada do Calvário. Conforme o pecador crê no que
foi feito a seu favor, assim ele recebe o que foi feito. Sua fé tem
um poderoso aliado na Pessoa do Espírito Santo, que habita
nele. O Espírito Santo ajuda-o a repudiar as tendências
pecaminosas; ajuda-o na oração e dá-lhe a certeza de sua
liberdade e vitória como um filho de Deus. (Rm 8). Na verdade,
Cristo morreu para remover o obstáculo do pecado, para que o
Espírito de Deus possa entrar na vida humana (Gl 3:13, 14).
Sendo salvo pela graça de Deus, revelada na cruz, o crente
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

recebe uma experiência de purificação e vivificação espiritual


(Tito 3: 5-7). Havendo morrido para a antiga vida de pecado, a
pessoa nasce de novo, para uma nova vida... nasce da água
(experimentando a purificação) e nasce do Espírito (recebendo
a vida divina). (João 3:5.)

3) Libertação da morte. A morte tem um significado tanto físico


como espiritual. No sentido físico denota a cessação da vida
física, consequente de enfermidade, decadência natural ou de
causa violenta. São, porém, mais usada no sentido espiritual,
isto é, como o castigo imposto por Deus sobre o pecado
humano. A palavra expressa a condição espiritual de separação
de Deus e do desagrado divino por causa do pecado. O
impenitente que morrer fora do favor de Deus permanecerá
eternamente separado dele no outro mundo, sendo conhecida
essa separação como a "segunda morte". Este aviso: "No dia
em que dela comeres, certamente morrerás", não se teria
cumprido se a morte fosse apenas o ato físico de morrer, pois
Adão e Eva continuaram a viver depois daquele dia. Mas o
decreto é profundamente certo quando recordamos que a
palavra "morte" implicava todas as consequências penais do
pecado — separação de Deus, iniquidade, inclinação para o
mal, debilidade física, e, finalmente, a morte física e as suas
consequências. Quando as Escrituras dizem que Cristo morreu
por nossos pecados, querem dizer que Cristo se submeteu, não
somente à morte física, mas também à morte que significa a
pena do pecado. Ele se humilhou a si mesmo no sofrimento da
morte "para que, pela graça de Deus, provasse a morte por
todos" (Hb 2:9). Por causa de sua natureza e pela disposição
divina, ele pôde efetuar esse plano, não podemos compreender
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

o "como" da questão, porque evidentemente nisto nos


defrontamos com um grande mistério divino. A verdade, porém,
é que aceitamos muitos fatos neste universo sem entender o
"como" de tais fatos. Nenhuma pessoa ajuizada recusa os
benefícios da eletricidade somente porque não a entende
plenamente ou porque não compreende as leis do seu
funcionamento.

Da mesma forma, ninguém precisa recusar os benefícios da


expiação pelo fato de não poder, pelo raciocínio, reduzir essa
expiação à simplicidade de um problema matemático. Visto que
a morte é a penalidade do pecado, e Cristo deu-se a si mesmo
pelos nossos pecados, ele realizou esse ato ao morrer.
Concentrado naquelas poucas horas de sua morte sobre a cruz
estava todo o horrendo significado da morte e a negrura do
castigo, e isso explica a exclamação: "Deus meu, Deus meu,
por que me desamparaste?" Essas não são palavras de um
mártir, porque os mártires são geralmente sustentados pelo
conhecimento interno da presença de Deus; são palavras de
Um que efetuou um ato que implica separação divina. Esse ato
consumou-se quando ele levou os nossos pecados. (2 Co 5:21.)
Embora seja verdade que também os que creem nele tenham
que sofrer a morte física (Rm 8:10), mesmo assim, para eles o
estigma (ou a pena) é tirado da morte, e esta se toma uma porta
para outra vida mais ampla. Neste sentido Jesus afirmou: "Todo
aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá" (João 11:26).

4) O dom da vida eterna. Cristo morreu para que nós não


perecêssemos (a palavra é usada no sentido bíblico de ruína
espiritual), mas "tenhamos a vida eterna" (João 3:14-16. Vide
Rm 6;23.) A vida eterna significa mais do que mera existência;
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

significa vida no favor de Deus e comunhão com ele. Morto em


transgressões e pecados, o homem está fora do favor de Deus;
pelo sacrifício de Cristo, o pecado é expiado e ele restaurado à
plena comunhão com Deus. Estar no favor de Deus e em
comunhão com ele é ter vida eterna, pois é a vida com ele que
é o Eterno. Essa vida é possuída agora porque os crentes estão
em comunhão com Deus; a vida eterna é descrita como futura
(Tito 1:2; Rm 6:22), porque a vida futura trará perfeita comunhão
com Deus. "E verão o seu rosto" (Ap 22:4).

5) A vida vitoriosa. A cruz é o dínamo que produz no coração


humano essa resposta que constitui a vida cristã. A expressão
"eu viverei para ele que morreu por mim", diz bem o dinamismo
da cruz. A vida cristã é a reação da alma ante o amor de Cristo.
A cruz de Cristo inspira o verdadeiro arrependimento, o qual é
arrependimento para com Deus. O pecado muitas vezes é
seguido de remorso, vergonha e ira; mas somente quando
houver tristeza por ter ofendido a Deus, há verdadeiro
arrependimento. Esse conhecimento interno não se produz por
vontade própria, pois a própria natureza do pecado tende a
obscurecer a mente e a endurecer o coração. O pecador precisa
de um motivo poderoso para arrepender-se — algo que o faça
ver e sentir que seu pecado ofendeu e injuriou profundamente
a Deus.

A cruz de Cristo fornece esse motivo, pois ela demonstra a


natureza horrenda do pecado, pelo fato de ter causado a morte
do Filho de Deus. Ela declara o terrível castigo sobre o pecado;
mas revela também o amor e a graça de Deus. Está muito certo
o que alguém disse: "Todos os verdadeiros penitentes são filhos
da cruz. Seu arrependimento não é deles mesmos; é a reação
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

para com Deus produzida em suas almas pela demonstração


do que o pecado é para ele, e o que faz o seu amor para
alcançar e ganhar os pecadores."

Está escrito acerca de certos santos que vieram da grande


tribulação, que "Lavaram os seus vestidos e os branquearam no
sangue do Cordeiro" (Ap 7:14). A referência é ao poder
santificador da morte de Cristo. Eles haviam resistido ao
pecado, e agora eram puros. De onde receberam a força para
vencer o pecado? O poder do amor de Cristo revelado no
Calvário os constrangeu. O poder da cruz, descendo em seus
corações, os capacitou para vencerem o pecado. (Vide Gl 2:20.)
"E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do
seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte" (Ap
12:11). O amor de Deus os constrangeu e ajudou-os a vencer.
A pressão sobre eles foi grande, mas, com o sangue do
Cordeiro como o motivo que os impulsionava, eram invencíveis.
"Tendo em vista a cruz sobre a qual Jesus morreu, não puderam
“trair sua causa pela covardia, e não amaram mais as suas
vidas do que ele amou a sua”. Eles pertenciam a Cristo, como
ele pertencia a eles".

A vida vitoriosa inclui a vitória sobre Satanás. O Novo


Testamento declara que Cristo venceu os demônios. (Lc 10:17-
20; João 12:31, 32; 14:30; Cl 2:15; Hb 2:14, 15; Ap 12: 11.) Os
crentes têm a vitória sobre o diabo enquanto tiverem o Vencedor
sobre o diabo!
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CAPÍTULO 09

PARACLETOLOGIA: DOUTRINA DO ESPÍRITO


SANTO (1)

A. DEFINIÇÃO DE PARACLETOLOGIA

Paracletologia é uma palavra formada por duas palavras gregas:


paracletos (que significa. Ajudador, Consolador, advogado) e Logia (que
significa estudo, doutrina). A Paracletologia estuda de uma forma
sistemática tudo o que se refere ao Espírito Santo (chamado por Jesus
de Consolador). A Paracletologia também é conhecida como
Pneumatologia.

A Paracletologia divide-se, na Bíblia em dois períodos: o do Antigo e do


Novo Testamento. No AT, as atividades e as manifestações do Espírito
Santo eram esporádicas, específicas e em tempos distintos. No N.T.,
começa no dia de Pentecostes, quando suas atividades se concretizam
de maneira direta e contínua através da Igreja. No AT, Ele se
manifestava em circunstâncias especiais. No N.T., veio para morar nos
corações dos crentes e enche-los do seu poder.

B. A DEIDADE DO ESPÍRITO SANTO

1. O ESPÍRITO SANTO É DEUS

Esta declaração é comprovada na Bíblia e na experiência humana.


Ele não é um deus entre os outros. As escrituras relatam um
episódio nos primeiros dias da igreja, em Jerusalém, quando
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Ananias e Safira tentaram enganá-lo. Ele revelou ao apóstolo Pedro


que o casal mentia, conforme registra Atos 5.3: "Por que encheu
Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo? Não
mentistes aos homens, mas a Deus".

A deidade do Espírito Santo está implícita na do Pai e do Filho. Ela


é a mesma nas três pessoas. Não se separa, mas pertence a
mesma essência divina do único Deus.

2. ATRIBUTOS DO ESPÍRITO SANTO

Há três atributos pertencentes a deidade de cada uma das pessoas


da Trindade que são: Onipotência, Onisciência e Onipresença.
Estes atributos não foram conferidos a anjos nem aos homens.

1) Onipotência

Por onipotência se entende que todo o poder que há no Universo


físico ou espiritual, tem sua origem em Deus.

O poder do Pai é o mesmo existente no Filho e no Espírito Santo.


Então em sua onipotência, o Espírito Santo faz o que lhe apraz,
realizando milagres e prodígios (Rm 15.19) por força de sinais e
prodígios, pelo poder do Espírito Santo; de maneira que, desde
Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o
evangelho de Cristo,

2) Onisciência

Onisciência vem de duas palavras latinas: "OMINES" que


significa TUDO e "SCIENTIA" que quer dizer CIÊNCIA. O
Espírito Santo, do mesmo modo que o Pai e o Filho, tem total
conhecimento de todas as coisas. Sua sabedoria é infinita,
singular e indescritível. Ele sabe tudo acerca de si mesmo e do
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

que criou Sl 139.2,11,13 (SENHOR, tu me sondas e me


conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de
longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu
andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda
a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces
toda). Conhece os homens profundamente 1 Rs 8.39 (ouve tu
nos céus, lugar da tua habitação, perdoa, age e dá a cada um
segundo todos os seus caminhos, já que lhe conheces o
coração, porque tu, só tu, és conhecedor do coração de todos
os filhos dos homens;). Ninguém pode esconder dele coisa
alguma. Nem um só pensamento nosso passa despercebido do
Espírito Santo Jr 16.17 (Porque os meus olhos estão sobre todos
os seus caminhos; ninguém se esconde diante de mim, nem se
encobre a sua iniquidade aos meus olhos).

3) Onipresença

O Espírito Santo penetra em todas as coisas e perscruta o nosso


entendimento, pois ele está presente em toda a parte. Ele não
se divide em várias manifestações, porque sua presença é total
em cada lugar onde estiver:

Sl 139.7-10 (Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para


onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a
minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo
as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda
lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá.

C. ESPÍRITO SANTO É UMA PESSOA

1. A PERSONALIDADE DO ESPÍRITO SANTO


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Um dos atributos da deidade é a personalidade que cada uma das


três pessoas divinas possui. Às vezes atribuímos à personalidade
uma forma corpórea. Entretanto, Deus é Espírito, sem necessidade
de corpo material. Identifica-se como pessoa alguém que manifeste
qualidades, como o falar, o sentir e o fazer alguma coisa racional.

2. PRONOMES CONFERIDOS AO ESPÍRITO SANTO

Em João 16.8,13,14 encontramos algumas vezes o pronome ele,


aquele (no grego ekeinos) que indicam a pessoa do Espírito Santo.
Em João 14.16, encontra-se a expressão "outro Consolador". Ela,
mais uma vez, identifica a personalidade do Espírito Santo. A
palavra "outro", usada por Jesus, no grego "ALLOS", significa "outro
do mesmo tipo". O Filho de Deus revelou-se como pessoa, mas
falou de outra que Ele enviaria após sua subida para o céu.

Consolador no grego é "Paracleto" que significa:

1) Chamado, convocado a estar do lado de alguém, convocado a


ajudar alguém.

§ Alguém que pleiteia a causa de outro diante de um juiz,


intercessor, conselheiro de defesa, assistente legal,
advogado.

§ Pessoa que pleiteia a causa de outro com alguém, intercessor.

§ Cristo em sua exaltação \a mão direita de Deus, súplica a


Deus, o Pai, pelo perdão de nossos pecados.

§ no sentido mais amplo, ajudador, amparador, assistente,


alguém que presta socorro.

§ É Nome dado Santo Espírito, destinado a tomar o lugar de


Cristo com os apóstolos (depois de sua ascensão ao Pai), a
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

conduzi-los a um conhecimento mais profundo da verdade


evangélica, a dar-lhes a força divina necessária para capacitá-
los a sofrer tentações e perseguições como representantes do
reino divino.

3. ATRIBUTOS PESSOAIS DO ESPÍRITO SANTO

Através da Bíblia, o Espírito Santo é revelado como Pessoa, com


sua própria individualidade. Ele é uma Pessoa divina como o Pai e
o Filho. O Espírito Santo não é mera influência ou poder. Ele tem
atributos pessoais, a saber:

1) O Espírito Santo Pensa (Rm 8.27) E aquele que examina os


corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que
segundo Deus intercede pelos santos.

2) O Espírito Santo tem Vontade Própria (1Co 12.11) Mas um só e


o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as,
como lhe apraz, a cada um, individualmente.

3) O Espírito Santo Sente Tristeza (Ef 4.30) E não entristeçais o


Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção.

4) O Espírito Santo Intercede (Rm 8.23) Também o Espírito,


semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não
sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede
por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis.

5) O Espírito Santo Ensina (Jo 14.26) mas o Consolador, o Espírito


Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará
todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.

6) Espírito Santo Fala (Ap 2.7) Quem tem ouvidos, ouça o que o
Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.

7) Espírito Santo Comanda (At 16.6,7) E, percorrendo a região


frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar
a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia,
mas o Espírito de Jesus não o permitiu.

4. ESPIRITO SANTO É SUSCETÍVEL DE TRATO PESSOAL

1) Alguém pode mentir para o Espírito Santo (At 5.3) Então, disse
Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que
mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do
campo?

2) Pode-se Blasfemar contra o Espírito Santo (Mt 12.31) Por isso,


vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos
homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada.

D. OS NOMES DO ESPÍRITO SANTO

Os nomes do Espírito Santo nos revelam muita coisa a respeito de quem


ele é. Embora o nome Espírito Santo não ocorra no Antigo Testamento,
vários títulos equivalentes são usados. Os principais nomes do Espírito
Santo são:

1) Espírito de Deus de Yahweh (hb. Ruach YHWH), ou, conforme


consta nas Bíblias em português, "o Espírito do Senhor".
Yahweh significa aquele que faz existir. O título Senhor dos
Exércitos é melhor traduzido como "aquele que cria as hostes",
tanto as hostes celestiais (as estrelas, os anjos) quanto as
hostes do povo de Deus. O Espírito de Yahweh estava ativo na
criação, conforme revela Gênesis 1.2, com referência ao
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

"Espírito de Deus" (hb. ruach 'elohîm).

2) O Espírito de Cristo. Com esse título é acentuada a união do


Espírito Santo com Cristo. Como tal ele é a vida Rm 8.9 (Vós,
porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o
Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito
de Cristo, esse tal não é dele), traz frutos de Cristo (Fl. 1.11),
revela os mistérios de Cristo (Jo 14.16) e toma o lugar dos
arrebatados na terra (Jo 14.16-18). Toda e qualquer operação
do Espírito Santo enfim, é para glorificação de Jesus Cristo.

3) Espírito da Vida. O Espírito da vida Deus dá a cada crente ao


nascer de novo, vida nova e eterna. Ele substitui a lei reinante
do pecado e da morte com a lei da vida (Rm 8.2 (Porque a lei
do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado
e da morte). O que estava morto em ofensas e pecados (Ef 2.1;
2 Co 5.17), Ele vivifica no novo nascimento.

4) Espírito da Adoção de Filhos - Rm 8.15 (Porque não recebestes


o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez,
atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados
no qual clamamos: Aba, Pai.). O conceito bíblico de filiação
perdeu-se totalmente nos nossos dias, por causa da ideia de
"adoção". Isto não quer dizer que um estranho será acolhido
como criança numa família e usa a seguir o nome da família. É
antes uma transferência legal de uma criança na condição de
um filho adulto ou uma filha que alcançou a maioridade. O termo
melhor hoje seria a parceria. Nós fomos acolhidos na família
divina, enchidos pelo Seu Espírito e dotados com nova e eterna
vida.

5) Espírito da Graça - Hb 10.29 (De quanto maior castigo cuidais


vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus,
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

e tiver por profano o sangue do testamento, com que foi


santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?). A Bíblia
qualifica como pecadores obstinados estes, que pisam com os
pés o Espírito da Graça. Pelo Espírito da graça é oferecida
livremente a todos os homens a dádiva da graça divina. Por isso
qualquer acréscimo humano, justiça por obras e melhoramentos
adâmicos são abominação para o Espírito Santo.

6) Espírito da Glória - 1 Pe 4.14 (14 Se, pelo nome de Cristo, sois


injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o
Espírito da glória e de Deus.). Glória nesse caso tem a ver com
adoração, honra, estima, elogio e dedicação que são
despertados no crente pelo Espírito Santo. Somente podemos
adorar e chegar a glória de Deus, conforme o Espírito Santo nos
capacita para isto. O demais é adoração imitada, não é
revelação do Espírito da Glória. Quando Ele se manifesta numa
reunião, percebe-se sem chamara a atenção.

E. OS SÍMBOLOS DO ESPÍRITO SANTO

Os símbolos oferecem quadros concretos de coisas abstratas. Os


símbolos do Espírito Santo também são arquétipos. Em literatura
arquétipo é uma personagem, tema ou símbolo comum a várias épocas
e culturas. Em todos os lugares, o vento representa forças poderosas,
porém invisíveis; a água límpida que flui representa o poder e o refrigério
sustentador da vida a todos que têm sede, física e espiritual; o fogo
representa uma força purificadora (como a purificação de minérios) ou
destruidora (frequentemente citada no juízo). Tais símbolos representam
qualidades intangíveis, porém genuínas.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

1. VENTO

A palavra hebraica ruach pode significar "sopro", "espírito" "ou


vento". É empregada paralela com nephesh. O significado básico
de nephesh é "ser vivente", ou seja, tudo que têm fôlego. A partir
daí seu alcance semântico desenvolveu-se a tal ponto de referir-se
a quase todos os aspectos emocionais e espirituais do ser humano
vivente. A palavra grega pneuma tem um alcance semântico quase
idêntico ao de ruach. O vento, como símbolo, fala da natureza
invisível do Espírito Santo, conforme revela João 3.8 (O vento sopra
onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para
onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito). Podemos ver e
sentir os efeitos do vento, mas ele próprio não é visto.

2. ÁGUA

A água, assim como o fôlego, é necessária ao sustento da vida. O


fôlego e a água, tão vitais nas necessidades físicas humanas, são
igualmente vitais no âmbito do espírito. Sem o fôlego vivificante e
as águas vivas do Espírito Santo, nossa vida espiritual não
demoraria murchar e ficar sufocada. O Espírito Santo flui da palavra
como águas vivas Jo 7.38, 39 (Quem crer em mim, como diz a
Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com
respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem;
pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus
não havia sido ainda glorificado) que sustentam e refrigeram o
crente.

3. FOGO
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

O aspecto purificador do fogo é refletido claramente em Atos 2. No


dia de Pentecostes são "línguas de fogo" que marcam a vinda do
Espírito (At 2.3). Esse símbolo é empregado uma só vez para
retratar o batismo no Espírito Santo. O aspecto mais amplo do fogo
como elemento purificador encontra-se no pronunciamento de João
Batista: "Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo..." (Mt
3.11,12; Lc 3.16,17). As palavras de João Batista referiam-se mais
diretamente a separação entre o povo de Deus e os que têm
rejeitado o Messias. Por outro lado, o fogo ardente e purificador, do
Espírito da Santidade também opera no crente (1 Ts 5.19).

4. ÓLEO

Zc 4.2-6 (e me perguntou: Que vês? Respondi: olho, e eis um


candelabro todo de ouro e um vaso de azeite em cima com as suas
sete lâmpadas e sete tubos, um para cada uma das lâmpadas que
estão em cima do candelabro. Junto a este, duas oliveiras, uma à
direita do vaso de azeite, e a outra à sua esquerda. Então, perguntei
ao anjo que falava comigo: meu senhor, que é isto? Respondeu-me
o anjo que falava comigo: Não sabes tu que é isto? Respondi: não,
meu senhor. Prosseguiu ele e me disse: Esta é a palavra do
SENHOR a Zorobabel: Não por força nem por poder, mas pelo meu
Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos.). Desde os primórdios o
azeite é usado primeiramente para ungir os sacerdotes de Yahweh,
e depois, os reis e os profetas. O azeite é o símbolo da consagração
divina do crente para o serviço no Reino de Deus.

5. POMBA

Mt 3.16,17 (Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba,


vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu
Filho amado, em quem me comprazo). O Espírito Santo desceu
sobre Jesus na forma de uma pomba. A pomba é o arquétipo de
mansidão e de paz. Ele é manso nas tempestades da nossa vida
produzindo paz.

6. SELO

Ef 1.13 (em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da


verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido,
fostes selados com o Santo Espírito da promessa). Nos dias bíblicos
usava-se um selo de cera como sinal de promessa e acordo.
Atualmente a nossa assinatura na compra e venda pode ser
comparada a isto. Na ocasião do novo nascimento o Espírito Santo
põe sobre nós o seu selo de direito de propriedade. Isto é, ao
mesmo tempo, uma promessa, que o selado tem parte na
consumada obra da salvação. O Espírito Santo garante assim a
partir desse momento, o seu apoio e ajuda.

F. A OBRA DO ESPÍRITO SANTO

1. O ESPÍRITO SANTO É O AGENTE DA SALVAÇÃO

Nisto Ele convence-nos do pecado (Jo 16.7,8 - Mas eu vos digo a


verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o
Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo
enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da
justiça e do juízo) revela-nos a verdade a respeito de Jesus (Jo
14.26), realiza o novo nascimento (Jo 3.3-6), e faz-nos membros do
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

corpo de Cristo (1Co 12.13). Na conversão, nós, crendo em Cristo,


recebemos o Espírito Santo (Jo 3.3-6; 20.22) e nos tornamos
coparticipantes da natureza divina (2Pe 1.4);

2. O ESPÍRITO SANTO É O AGENTE DA NOSSA SANTIFICAÇÃO

Na conversão, o Espírito passa a habitar no crente, que começa a


viver sob sua influência santificadora (Rm 8.9; 1Co 6.19). Note
algumas das coisas que o Espírito Santo faz, ao habitar em nós. Ele
nos santifica, i.e., purifica, dirige e leva-nos a uma vida santa,
libertando-nos da escravidão ao pecado. Ele testifica que somos
filhos de Deus (Rm 8.16), ajuda-nos na adoração a Deus e na nossa
vida de oração, e intercede por nós quando clamamos a Deus (Rm
8.26,27). Ele produz em nós as qualidades do caráter de Cristo, que
O glorificam (Gl 5.22,23).

3. O ESPÍRITO SANTO É O AGENTE DIVINO PARA O SERVIÇO


DO SENHOR

Revestindo os crentes de poder para realizar a obra do Senhor e


dar testemunho dEle. Esta obra do Espírito Santo relaciona-se com
o batismo ou com a plenitude do Espírito. Quando somos batizados
no Espírito, recebemos poder para testemunhar de Cristo e
trabalhar de modo eficaz na igreja e diante do mundo (At 1.8).
Recebemos a mesma unção divina que desceu sobre Cristo (Jo
1.32,33) e sobre os discípulos (At 2.4), e que nos capacita a
proclamar a Palavra de Deus (At 1.8; 4.31) e a operar milagres (At
2.43; 3.2-8; 5.15; 6.8; 10.38). Para realizar o trabalho do Senhor, o
Espírito Santo outorga dons espirituais aos fiéis da igreja para
edificação e fortalecimento do corpo de Cristo (1Co 12—14). Estes
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

dons são uma manifestação do Espírito através dos santos, visando


ao bem de todos (1Co 12.7-11).

G. O BATISMO NO (COM) ESPÍRITO SANTO

1. SER CHEIO DO ESPÍRITO

Todo o cristão recebe o Espírito Santo no momento da conversão e


pode ser cheio dele sem ser batizado no Espírito Santo

O Espírito Santo nos convence do Pecado Jo 16.8 (E, quando ele


vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo).

O Espírito Santo habita em nós 1 Co 6.19 (Ou não sabeis que o


nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós,
proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?)

Nós fomos selados com o Espírito Santo Ef 1.13,14 (em quem


também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho
da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o
Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança,
ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória); 2 Co
1.21,22 (Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo e nos
ungiu é Deus, que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito
em nosso coração); Ef 4.30 (E não entristeçais o Espírito de Deus,
no qual fostes selados para o dia da redenção)

Devemos buscar ser cheios Ef 5.18 (E não vos embriagueis com


vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito)

Exemplo de pessoas que foram cheias do Espírito Santo e não eram


batizadas:

1) Isabel - Lc 1.41 (E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia


do Espírito Santo)

2) Zacarias - Lc 1.67 (E Zacarias, seu pai, foi cheio do Espírito


Santo e profetizou, dizendo:)

3) Simeão - Lc 2.25 (Havia em Jerusalém um homem chamado


Simeão; homem este justo e piedoso que esperava a
consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele.)

4) João Batista - Lc 1.15 (porque será grande diante do Senhor, e


não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito
Santo, já desde o ventre de sua mãe.)

2. SER BATIZADO NO ESPÍRITO SANTO

At 1.5 "Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis
batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias."

A respeito do batismo no Espírito Santo, a Palavra de Deus ensina


o seguinte:

Jesus ordenou aos discípulos que não começarem a testemunhar


até que fossem batizados no Espírito Santo e revestidos do poder
do alto Lc 24.49 (E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai;
ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais
revestidos de poder.) At 1.4,5,8 (E, estando com eles, determinou-
lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem
a promessa do Pai, que (disse ele) de mim ouvistes. Porque, na
verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o
Espírito Santo, não muito depois destes dias. Mas recebereis a
virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis
testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria
e até aos confins da terra.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

O batismo no Espírito Santo é uma obra distinta e à parte da


regeneração, também por Ele efetuada. No mesmo dia em que
Jesus ressuscitou, Ele assoprou sobre seus discípulos e disse:
"Recebei o Espírito Santo" (Jo 20.22), indicando que a regeneração
e a nova vida estavam-lhes sendo concedidas. Depois, Ele lhes
disse que também deviam ser "revestidos de poder" pelo Espírito
Santo (Lc 24.49; cf. At 1.5,8).

O batismo no Espírito Santo outorgará ao crente ousadia e poder


celestial para este realizar grandes obras em nome de Cristo e ter
eficácia no seu testemunho e pregação At 1.8 (Mas recebereis a
virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis
testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria
e até aos confins da terra). At 4.31; 33 (Tendo eles orado, tremeu o
lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito
Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus. Com
grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do
Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça).

O livro de Atos descreve o falar noutras línguas como o sinal inicial


do batismo no Espírito Santo. No dia de Pentecostes At 2.4 (Todos
ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras
línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. Na casa
de Cornélio At 10.44-46 (E, dizendo Pedro ainda estas palavras,
caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis
que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro,
maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse
também sobre os gentios. Porque os ouviam falar em línguas e
magnificar a Deus. Os cristãos de Éfeso At 19.6 (E, impondo-lhes
Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto falavam em
línguas como profetizavam).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Esse poder não se trata de uma força impessoal, mas de uma


manifestação do Espírito Santo, na qual a presença, a glória e a
operação de Jesus estão presentes com seu povo (Jo 14.16-18;
16.14; 1Co 12.7).

H. OS DONS ESPIRITUAIS

Uma das maneiras do Espírito Santo manifestar-se é através de uma


variedade de dons espirituais concedidos aos crentes (12.7-11). Essas
manifestações do Espírito visam à edificação e à santificação da igreja
(12.7; ver 14.26). Esses dons e ministérios não são os mesmos de Rm
12.6-8 e Ef 4.11, mediante os quais o crente recebe poder e capacidade
para servir na igreja de modo mais permanente. A lista em 12.8-10 não
é completa. Os dons aí tratados podem operar em conjunto, de
diferentes maneiras.

As manifestações do Espírito dão-se de acordo com a vontade do


Espírito (12.11), ao surgir a necessidade, e também conforme o anelo
do crente na busca dos dons (12.31; 14.1)

Certos dons podem operar num crente de modo regular, e um crente


pode receber mais de um dom para atendimento de necessidades
específicas. O crente deve desejar "dons", e não apenas um dom (12.31;
14.1).

É antibíblico e insensato se pensar que quem tem um dom de operação


exteriorizada (mais visível) é mais espiritual do que quem tem dons de
operação mais interiorizada, i.e., menos visível. Também, quando uma
pessoa possui um dom espiritual, isso não significa que Deus aprova
tudo quanto ela faz ou ensina. Não se deve confundir dons do Espírito,
com o fruto do Espírito, o qual se relaciona mais diretamente com o
caráter e a santificação do crente (Gl 5.22,23).
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

Satanás pode imitar a manifestação dos dons do Espírito, ou falsos


crentes disfarçados como servos de Cristo podem fazer o mesmo (Mt
7.21-23; 24.11, 24; 2Co 11.13-15; 2Ts 2.8-10). O crente não deve dar
crédito a qualquer manifestação espiritual, mas deve "provar se os
espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado
no mundo" (1Jo 4.1; cf. 1Ts 5.20,21; ver o estudo

I. RELAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS

Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro,


pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo
Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro,
a operação de maravilhas; e a outro, a profecia; e a outro, o dom de
discernir os espíritos; e a outro, a variedade de línguas; e a outro, a
interpretação das línguas.

Em 1Co 12.8-10, o apóstolo Paulo apresenta uma diversidade de dons


que o Espírito Santo concede aos crentes. Nesta passagem, ele não
descreve as características desses dons, mas noutros trechos das
Escrituras temos ensino sobre os mesmos.

J. DONS DE REVELAÇÃO

1. DOM DA PALAVRA DA SABEDORIA (12.8)

Trata-se de uma mensagem vocal sábia, enunciada mediante a


operação sobrenatural do Espírito Santo. Tal mensagem aplica a
revelação da Palavra de Deus ou a sabedoria do Espírito Santo a
uma situação ou problema específico.

Ex.: At 6.10 Não podiam resistir a sabedoria com que Estevão


TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

falava;

Não se trata aqui da sabedoria comum de Deus, para o viver diário,


que se obtém pelo diligente estudo e meditação nas coisas de Deus
e na sua Palavra, e pela oração (Tg 1.5,6).

2. DOM DA PALAVRA DO CONHECIMENTO (12.8)

Trata-se de uma mensagem vocal, inspirada pelo Espírito Santo,


revelando conhecimento a respeito de pessoas, de circunstâncias,
ou de verdades bíblicas. Frequentemente, este dom tem estreito
relacionamento com o de profecia.

Ex.: (At 5.1-10) Pedro obteve o conhecimento do que Ananias e


Safira haviam feito

3. DOM DE DISCERNIMENTO DE ESPÍRITOS (12.10)

Trata-se de uma dotação especial dada pelo Espírito, para o


portador do dom discernir e julgar corretamente as profecias e
distinguir se uma mensagem provém do Espírito Santo ou não (1Jo
4.1 Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os
espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm
saído pelo mundo fora.).

K. DONS DE PODER

1. DOM DA FÉ (12.9)

Não se trata da fé para salvação, mas de uma fé sobrenatural


especial, comunicada pelo Espírito Santo, capacitando o crente a
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

crer em Deus para a realização de coisas extraordinárias e


milagrosas. É a fé que remove montanhas (Mc 11.22-24) e que
frequentemente opera em conjunto com outras manifestações do
Espírito, tais como as curas e os milagres.

2. DONS DE CURAS (12.9)

Esses dons são concedidos à igreja para a restauração da saúde


física, por meios divinos e sobrenaturais.

Ex.: At 3.6-8 A cura de um coxo na porta do templo.

O plural ("dons") indica curas de diferentes enfermidades e sugere


que cada ato de cura vem de um dom especial de Deus. Os dons
de curas não são concedidos a todos os membros do corpo de
Cristo (cf. 12.11,30 "11 Mas um só e o mesmo Espírito opera todas
essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer";
30"Têm todos o dom de curar? Falam todos diversas línguas?
Interpretam todos?"), todavia, todos eles podem orar pelos
enfermos. Havendo fé, os enfermos serão curados

Pode também haver cura em obediência ao ensino bíblico de Tg


5.14-16 (ver Tg 5.15 notas).

3. DOM DE OPERAÇÃO DE MILAGRES (12.10)

Trata-se de atos sobrenaturais de poder, que intervêm nas leis da


natureza. Incluem atos divinos em que se manifesta o reino de Deus
contra Satanás e os espíritos malignos.

Ex.: Mt 8.26,27 E ele disse-lhes: Por que temeis, homens de


pequena fé? Então, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar,
e seguiu-se uma grande bonança. E aqueles homens se
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

maravilharam, dizendo: Que homem é este, que até os ventos e o


mar lhe obedecem?

L. DONS DE INSPIRAÇÃO

1. DOM DE PROFECIA (12.10)

É preciso distinguir a profecia aqui mencionada, como manifestação


momentânea do Espírito da profecia como dom ministerial na igreja,
mencionado em Ef 4.11. Como dom de ministério, a profecia é
concedida a apenas alguns crentes, os quais servem na igreja como
ministros profetas. Como manifestação do Espírito, a profecia está
potencialmente disponível a todo cristão cheio dEle (At 2.16-18).
Quanto à profecia, como manifestação do Espírito, observe o
seguinte:

Trata-se de um dom que capacita o crente a transmitir uma palavra


ou revelação diretamente de Deus, sob o impulso do Espírito Santo
(14.24,25, 29-31).

Tanto no AT, como no N.T., profetizar não é primariamente predizer


o futuro, mas proclamar a vontade de Deus e exortar e levar o seu
povo à retidão, à fidelidade e à paciência. A mensagem profética
pode desmascarar a condição do coração de uma pessoa (1 Co
14.25 tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim,
prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando
que Deus está, de fato, no meio de vós), ou prover edificação,
exortação, consolo, advertência e julgamento (1 Co 14.3 Mas o que
profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando.

A igreja não deve ter como infalível toda profecia deste tipo, porque
muitos falsos profetas estarão na igreja (1Jo 4.1). Daí, toda profecia
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deve ser julgada quanto à sua autenticidade e conteúdo (1Ts


5.20,21 Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende
o que é bom). Ela deverá enquadrar-se na Palavra de Deus (1Jo
4.1), contribuir para a santidade de vida dos ouvintes e ser
transmitida por alguém que de fato vive submisso e obediente a
Cristo (12.3).

O dom de profecia manifesta-se segundo a vontade de Deus e não


a do homem. Não há no N.T. um só texto mostrando que a igreja de
então buscava revelação ou orientação através dos profetas. A
mensagem profética ocorria na igreja somente quando Deus
tomava o profeta para isso.

2. DOM DE VARIEDADES DE LÍNGUAS (12.10)

No tocante às "línguas" (gr. glossa, que significa língua) como


manifestação sobrenatural do Espírito, notemos os seguintes fatos:

Essas línguas podem ser humanas como as que os discípulos


falaram no dia de Pentecostes (At 2.4-6), ou uma língua
desconhecida na terra, entendida somente por Deus (1 Co 14.2 Pois
quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto
que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios).

A língua falada através deste dom não é aprendida, e quase sempre


não é entendida, tanto por quem fala como pelos ouvintes (1 Co
14.14,16 Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de
fato, mas a minha mente fica infrutífera. 16 E, se tu bendisseres
apenas em espírito, como dirá o indouto o amém depois da tua ação
de graças? Visto que não entende o que dizes;)

O falar noutras línguas como dom abrange o espírito do homem e o


Espírito de Deus, que entrando em mútua comunhão, faculta ao
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crente a comunicação direta com Deus (i.e., na oração, no louvor,


no bendizer, na ação de graças e na oração),

Línguas estranhas faladas no culto devem ser seguidas de sua


interpretação, também pelo Espírito, para que a congregação
conheça o conteúdo e o significado da mensagem (1 Co 14. 27,28.
No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do
que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem
interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja,
falando consigo mesmo e com Deus.) Deve haver ordem quanto ao
falar em línguas em voz alta durante o culto. Quem fala em línguas
pelo Espírito, nunca fica em "êxtase" ou "fora de controle".

3. DOM DE INTERPRETAÇÃO DE LÍNGUAS (12.10)

Trata-se da capacidade concedida pelo Espírito Santo, para o


portador deste dom compreender e transmitir o significado de uma
mensagem dada em línguas. Tal mensagem interpretada para a
igreja reunida, pode conter ensino sobre a adoração e a oração, ou
pode ser uma profecia. Toda a congregação pode assim desfrutar
dessa revelação vinda do Espírito Santo. A interpretação de uma
mensagem em línguas pode ser um meio de edificação da
congregação inteira, pois toda ela recebe a mensagem. A
interpretação pode vir através de quem deu a mensagem em
línguas, ou de outra pessoa. Quem fala em línguas deve orar para
que possa interpretá-las (1 Co 14.13 Pelo que, o que fala em outra
língua deve orar para que a possa interpretar)

M. O FRUTO DO ESPÍRITO

Em contraste com as obras da carne, temos o modo de viver íntegro e


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honesto que a Bíblia chama "o fruto do Espírito". Esta maneira de viver
se realiza no crente à medida que ele permite que o Espírito dirija e
influencie sua vida de tal maneira que ele (o crente) subjugue o poder do
pecado, especialmente as obras da carne, e ande em comunhão com
Deus (ver Rm 8.5-14; 8.14; cf. 2Co 6.6; Ef 4.2,3; 5.9; Cl 3.12-15; 2Pe
1.4-9). O fruto do Espírito inclui:

1. ÁGAPE – AMOR

Amor" (gr. ágape), i.e., o interesse e a busca do bem maior de outra


pessoa sem nada querer em troca (1 Co 13.4-8 O amor é paciente,
é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se
ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os
seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se
alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre,
tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas,
havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, passará)

O amor é o solo onde são cultivadas todas as demais virtudes


espirituais.

O amor é a prova da espiritualidade e tem início na regeneração (1


Jo 4.7-8). Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor
procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e
conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois
Deus é amor.

O amor consiste em querer para os outros aquilo que queremos


para nós mesmos. É a dedicação ao próximo. Mateus 7:12 Portanto,
tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lhe também
vós, porque esta é a lei e os profetas.
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2. CHARA – ALEGRIA

Trata-se da felicidade do Espírito, qualidade de vida que é graciosa


e bondosa caracterizada pela boa vontade, generosa nas dádivas
aos outros, por causa de uma correta relação com Deus.

Deus não aprecia a dúvida e o desânimo. Também o abomina a


doutrina ousada, o pensamento melancólico e tristonho. Deus gosta
de corações animados. (2Co 6.10 "entristecidos, mas sempre
alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas
possuindo tudo.)

A alegria cristã, entretanto, não é uma emoção artificial. Antes é


uma ação do Espírito de Deus no espírito humano é a sensação de
alegria baseada no amor, na graça, nas bênçãos, nas promessas e
na presença de Deus, bênçãos estas que pertencem àqueles que
creem em Cristo 1 Pe 1.8 Jesus Cristo; a quem, não havendo visto,
amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria
indizível e cheia de glória,

3. EIRENE – PAZ

A queda do homem no pecado destruiu a paz, a paz com Deus, com


os outros, com o próprio ser e com a própria consciência.

Foi através da instrumentalidade da cruz que Deus estabeleceu a


paz. Portanto, a paz envolve muito mais do que uma tranquilidade
intima, que prevalece a respeito das tempestades externas. Antes,
trata-se de uma qualidade espiritual de origem cósmica e pessoal
produzida pela reconciliação e pelo perdão dos pecados.

A paz é o contrário do ódio, da contenda, da inveja dos excessos de


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tudo o que são obras da carne.

Paz é a quietude de coração e mente, baseada na convicção de que


tudo vai bem entre o crente e seu Pai celestial (Fp 4.7 E a paz de
Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração
e a vossa mente em Cristo Jesus.

4. MAKROTHUMIA – LONGANIMIDADE

Quando é uma qualidade atribuída a Deus, significa que ele tolera


pacientemente todas as iniquidades do homem, não deixando
arrebatar por explosões de ira.

A longanimidade é a paciência que nos permite subjugar a ira e o


sendo de contenda, tolerando as injúrias.

Longanimidade é a perseverança, paciência, ser tardio para irar-se


ou para o desespero (Ef 4.1,2 Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no
Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes
chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade,
suportando-vos uns aos outros em amor).

5. CHRESTOTES – BENIGNIDADE

Significa gentileza, bondade. Esse termo grego significa também


excelência de caráter, honestidade. O crente que a possui esse é
gracioso e gentil para com seu semelhante não se mostrando ser
inflexível e exigente.

Ser Benigno é não querer magoar ninguém, nem lhe provocar dor
(Ef 4.32 Antes, sede uns para com os outros benignos,
compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus,
em Cristo, vos perdoou).
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6. AGATHOSUNE – BONDADE

Uma pessoa bondosa quando se dispõe a ajudar aqueles que tem


necessidade.

Podemos observar a vida terrena inteira de Jesus de Nazaré, vivida


em meio a atos de bondade para com os outros. Ora, para que o
crente se mostre supremamente bondoso, precisa contar com
auxílio do Espírito Santo.

Bondade é a expressão máxima do amor cristão. No grego,


Agathosune refere-se ao homem bom, cuja generosidade brota do
coração. Ela é a verdadeira prática do bem. É o amor em ação (Gl
6.10 Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a
todos, mas principalmente aos da família da fé).

7. PISTIS – FÉ

Significa tanto confiança como fidelidade. A fé de parceria com o


arrependimento forma a conversão. A entrega da alma, as mãos de
Cristo alicerçado sobre o conhecimento espiritual.

A fé vitalizada pelo amor, pois do contrário, não será a verdadeira


fé sob hipótese alguma.

Fé é lealdade constante e inabalável a alguém com quem estamos


unidos por promessa, compromisso, fidedignidade e honestidade

8. PRAUTES – MANSIDÃO

Para Aristóteles, essa característica era um vício de deficiência, e


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não uma virtude. Aristóteles encarava tal realidade, como uma


autodepreciação.

Na verdade, mansidão trata-se de uma submissão do homem para


com Deus e, em seguida para com o homem. A mansidão é o
resultado da verdadeira humildade por causa do reconhecimento
alheio, com a recusa de nos considerarmos superiores.

Mansidão é moderação, associada à força e à coragem; descreve


alguém que pode irar-se com equidade quando for necessário, e
também humildemente submeter-se quando for preciso (Jesus em
Mt 11.23 repreende duramente Cafarnaum "Tu, Cafarnaum, elevar-
te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se
em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram,
teria ela permanecido até ao dia de hoje "e no v. 29 diz que devemos
ser mansos como ele Mt 11.29 2Tomai sobre vós o meu jugo e
aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e
achareis descanso para a vossa alma.

9. EGKRATEIA - TEMPERANÇA - DOMÍNIO PRÓPRIO

Temperança é o controle ou domínio sobre nossos próprios desejos


e paixões, inclusive a fidelidade aos votos conjugais; também a
pureza (1Co 7.9; Tt 1.8; 2.5).

Na passagem de 1 Co 7.9 essa palavra é usada em relação ao


controle do impulso sexual (Caso, porém, não se dominem, que se
casem; porque é melhor casar do que viver abrasado.

Mas em 1 Co 9.25 refere-se a toda forma de autodisciplina (Todo


atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa
corruptível; nós, porém, a incorruptível. Parece que Paulo se utiliza
dessa palavra, neste contesto, dando a entender aquele
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

autocontrole que obtém sobre os vícios alistados em Gl 5.19-21.

Os filósofos estoicos percebiam claramente a verdade expressa por


essa virtude de domínio próprio. Eles procuravam fazer com que a
razão dominasse a vida inteira, controlando as paixões e firmando
a lama.

O ensino final de Paulo sobre o fruto do Espírito é que não há


qualquer restrição quanto ao modo de viver aqui indicado. O crente
pode — e realmente deve — praticar essas virtudes continuamente.
Nunca haverá uma lei que lhes impeça de viver segundo os
princípios aqui descritos.
TEOLOGIA SISTEMÁTICA I

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