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Obras Públicas de Edificação

e de Saneamento

Módulo 1
Planejamento

Aula 2
Elaboração de Projetoss
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RESPONSABILIDADE PELO CONTEÚDO


Tribunal de Contas da União
Secretaria Geral da Presidência
Instituto Serzedello Corrêa
Diretoria de Educação Corporativa de Controle
Serviço de Educação Corporativa de Controle - Seducont

CONTEUDISTA
Bruno Martinello Lima
Gustavo Ferreira Olkowski
Marcelo Almeida de Carvalho
Rafael Carneiro Di Bello
Victor Hugo Moreira Ribeiro
Rommel Dias Marques Ribas Brandao

REVISORES TÉCNICOS
Jose Ulisses Rodrigues Vasconcelos
Eduardo Nery Machado Filho

TRATAMENTO PEDAGÓGICO
Flávio Sposto Pompêo

PROJETO GRÁFICO e DIAGRAMAÇÃO


Vanessa Vieira

Este material tem função didática. A última atualização ocorreu em agosto de 2017.

As afirmações e opiniões são de responsabilidade exclusiva do autor e podem não

expressar a posição oficial do Tribunal de Contas da União.


Módulo 1 - Planejamento 3

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Aula 2 - Elaboração de Projetos

Quando a Administração deve contratar projetos?


Qual a diferença entre anteprojeto, projeto básico e projeto
executivo?
Quais são os principais elementos que compõem o projeto?
Quais os principais requisitos para projetos de obras públicas?

Na aula anterior tratamos das etapas iniciais de planejamento de uma obra pública, que
envolvem a obtenção de recursos orçamentários, a caracterização das necessidades que serão
atendidas pela obra, o estudo das alternativas possíveis para se atender a essas necessidades,
entre outras questões.

Nesta aula veremos a etapa de elaboração de projetos, que corresponde ao passo seguinte
para a concretização de uma obra pública. Veremos de que forma a alternativa escolhida a partir
dos estudos iniciais será desenvolvida e detalhada, mostrando os principais pontos que devem
ser observados para garantir uma boa execução dos projetos.

Para facilitar o estudo, esta aula está organizada da seguinte forma:

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento...................................................................... 1

Módulo 1 - Planejamento..................................................................................................................... 3

Aula 2 - Elaboração de Projetos .................................................................................................... 3

1.Fase de projeto ...................................................................................................................................... 6

2. Elaboração direta pelo órgão gestor..................................................................................... 6

3. Uso de projetos advindos de outros órgãos........................................................................ 7

4. Contratação de empresa para elaboração de projetos................................................ 8

5. Responsabilidades da Administração Pública pela completude, consistência e


atualidade dos projetos....................................................................................................................... 9

6. Anteprojeto......................................................................................................................................... 11

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7. Projeto Básico.................................................................................................................................... 15

7.1. Definição e importância...................................................................................................... 15

7.2 Atualização/validade do projeto básico................................................................... 18

7.3 Componentes do Projeto Básico...................................................................................... 19

7.3.1 Desenhos............................................................................................................................. 20

7.3.2 Memorial Descritivo.................................................................................................... 21

7.3.3 Especificações Técnicas............................................................................................. 21

7.3.4 Planilha orçamentária.............................................................................................. 22

7.3.5 Cronograma Físico-Financeiro............................................................................... 23

7.4 Elementos mínimos que deve conter um projeto básico................................... 24

7.4.1 Elementos mínimos de um Projeto Básico de edificações....................... 25

7.4.2 Elementos mínimos de um Projeto Básico de drenagem e saneamento.26

8. Licenciamento Ambiental............................................................................................................ 27

8.1 Licença Prévia............................................................................................................................ 31

8.2 Licença de Instalação............................................................................................................ 34

8.3 Licença de Operação.............................................................................................................. 35

9. Projeto executivo............................................................................................................................. 36

10. Critérios importantes de concepção de projeto......................................................... 37

10.1 Acessibilidade......................................................................................................................... 37

10.2 Sustentabilidade................................................................................................................... 44

10.3 Norma de desempenho – NBR 15575/2013.............................................................. 48

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Síntese......................................................................................................................................................... 52

Bibliografia.............................................................................................................................................. 53

Glossário.................................................................................................................................................... 55

Ao final desta aula, esperamos que você tenha condições de:

• descrever os papéis e responsabilidades do gestor público e de contratados quanto à


adequação dos projetos da obra;

• diferenciar anteprojetos, projetos básicos e projetos executivos, de acordo com a


consistência das informações e o grau de precisão esperado para cada um deles;

• elencar os principais componentes e avaliar a qualidade de anteprojetos, projetos


básicos e projetos executivos;

• observar os principais itens relacionados a acessibilidade, sustentabilidade e desempenho,


e optar por técnicas com vistas a ampliar a vida útil e reduzir o custos de operação e
manutenção após o recebimento das obras.

Pronto para começar? Então, vamos!

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1.Fase de projeto
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A fase de projeto de uma obra pública é etapa fundamental para o sucesso do empre-
endimento. Ela não abarca apenas os projetos básico e executivo, mas todo um processo que
começa na caracterização de demanda, passa pelo programa de necessidades e pelos estudos de
viabilidade. O fluxograma apresentado na aula 1 ilustra bem as diversas etapas desse processo
preparatório até que se inicie a elaboração efetiva dos projetos.

Veremos a seguir quais são as principais características dessa fase do empreendimento,


quais são os componentes de um projeto completo e atualizado, como ele é elaborado e como
é contratado.

2. Elaboração direta pelo órgão gestor


Uma dúvida comum entre os órgãos executores de obras públicas é como elaborar e con-
tratar o projeto de uma obra de modo que, ao final, haja um produto que atenda às exigências
da lei e possibilite realizar com segurança a licitação e a execução da obra.

Quando a Administração identifica, a partir de levantamentos e estudos prévios, a neces-


sidade de se desenvolver projetos para a futura execução de uma obra, deve avaliar, primeira-
mente, se dispõe de uma equipe profissional qualificada e capaz de desempenhar essa tarefa.

Exemplificando, caso uma prefeitura tenha em seu quadro de pessoal apenas um arqui-
teto, não será possível a esse profissional sozinho desenvolver todos os projetos necessários à
construção de uma escola, pois esse trabalho demandará a participação de outros profissionais
especializados como, por exemplo, um engenheiro eletricista para desenvolver os projetos de
instalações elétricas ou um engenheiro civil para os projetos de estrutura. Nesse caso, uma alter-
nativa possível seria elaborar o projeto de arquitetura e contratar os demais projetos.

Ainda que o órgão possua em seu quadro de pessoal todos os técnicos especializados
necessários, é importante avaliar ainda a disponibilidade desses profissionais para elaborarem o
projeto sem que essa tarefa comprometa o desempenho de outras atividades prioritárias que,
eventualmente, sejam desenvolvidas por eles. Caso a elaboração dos projetos diretamente pela
equipe do órgão traga prejuízo ao desempenho dessas atividades prioritárias, a opção recomen-
dada seria licitar os projetos.

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3. Uso de projetos advindos de outros órgãos

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Há órgãos, por exemplo, que recebem doações de projetos prontos e já elaborados por
terceiros, seja por outros órgãos da Administração Pública ou mesmo por empresas projetistas.
Em geral são órgãos com quadro de pessoal precário e que recorrem a fontes externas para via-
bilizar a elaboração de projetos.

Essa prática não é recomendável do ponto de vista técnico, pois o projeto doado muitas
vezes não considera a demanda e a necessidade que o órgão levantou por meio dos estudos
preliminares (caracterização da demanda e programa de necessidades). Em outras palavras, o
projeto doado pode ter sido elaborado com pressupostos diferentes daqueles planejados pelo
órgão que pretende realizar a obra.

Há alguns anos, era comum a prática de doação de projetos às prefeituras e órgãos públi-
cos. Em muitos casos, verificou-se que eles continham erros que só ficaram evidentes quando da
execução da obra, causando problemas para o bom andamento dos serviços e gerando prejuízos
para a Administração. Além disso, o uso de um projeto recebido como doação pode prejudicar
a competitividade da licitação, uma vez que a empresa que tenha conhecimento prévio dos seus
detalhes terá vantagem em relação às demais participantes.

Outro problema relacionado a essas doações diz respeito à responsabilidade por eventuais
falhas constatadas no projeto. Diversas fiscalizações promovidas pelo TCU identificaram projetos
doados que não continham a identificação dos autores. Nesses casos o TCU tem apontado que
o gestor que aprovou o uso do projeto deve ser responsabilizado1.

A prática de utilizar projetos doados tem sido fonte de inúmeras irregularidades,


gerando problemas na execução das obras e prejuízos diversos à administração,
devendo ser evitada.

1 - Acórdão 1.841/2008

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4. Contratação de empresa para elaboração de projetos


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Já vimos que os projetos de obras públicas podem ser desenvolvidos pelo próprio órgão,
caso disponha de setor técnico com número suficiente de profissionais para elaborar a atividade
de forma completa e adequada.

Contudo, em muitos casos, isso não é possível. Assim, o recurso disponível ao gestor para
elaboração dos projetos de uma obra passa a ser a contratação de uma empresa projetista para
realizar o serviço. Vale lembrar que mesmo nos casos de contratação, o órgão público permane-
ce com a responsabilidade de fiscalizar a execução do serviço e atestar a sua qualidade, sendo
recomendável que tenha em seu quadro de pessoal pelo menos um profissional, com experiência
na área, para acompanhar a elaboração dos projetos.

Deve haver um procedimento licitatório específico com vistas a contratar a empresa que
será responsável pela tarefa. A Lei 8.666/1993 caracteriza esse tipo de trabalho como um serviço
técnico profissional especializado e indica que sua contratação deve ocorrer, preferencialmente,
mediante a realização de concurso2. Em geral, a modalidade de concurso é utilizada apenas
para a contratação da concepção arquitetônica/urbanística, ou ainda para estudos preliminares
e etapas iniciais do desenvolvimento do projeto. Para a execução do projeto básico completo, as
modalidades convencionais (concorrência, convite, tomada de preços) são mais comumente uti-
lizadas. A escolha da modalidade e do tipo de licitação a ser realizado será tratada com
mais detalhe na aula 4.

O documento que descreve os requisitos e diretrizes do projeto a ser desenvolvido é usu-


almente denominado termo de referência. Ele deve ser elaborado com base no programa de
necessidades e nas demais informações produzidas durante a etapa de EVTE-A, de modo que a
empresa projetista possa compreender a expectativa do órgão contratante em relação à obra e
formular uma proposta adequada para atender às demandas previstas.

O Termo de Referência é um documento que acompanha o edital de licitação, no


qual o gestor público contratante estabelece as características e especificações
do serviço que deve ser prestado ou do produto que deve ser entregue.

Importante destacar que o art. 111 da Lei 8.666/1993 dispõe que o autor do projeto deve
ceder à Administração os direitos patrimoniais relativos ao projeto.

2 - Lei 8.666/1993 art. 13, inciso I e §1º

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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Por fim, cabe esclarecer que embora o autor do projeto possua o direito de acompanhar
a obra com vistas a garantir que seja executada de acordo com as especificações do projeto,
isso não obriga a Administração a contratá-lo para a supervisão do empreendimento, conforme
enunciado pela jurisprudência do TCU – Súmula TCU 185/1982.

SÚMULA TCU 185


A Lei nº 5.194, de 24/12/66, e, em especial, o seu art. 22, não atribuem ao autor do projeto o direito subjetivo de
ser contratado para os serviços de supervisão da obra respectiva, nem dispensam a licitação para a adjudicação de
tais serviços, sendo admissível, sempre que haja recursos suficientes, que se proceda aos trabalhos de supervisão,
diretamente ou por delegação a outro órgão público, ou, ainda, fora dessa hipótese, que se inclua, a juízo da
Administração e no seu interesse, no objeto das licitações a serem processadas para a elaboração de projetos de
obras e serviços de engenharia, com expressa previsão no ato convocatório, a prestação de serviços de supervisão ou
acompanhamento da execução, mediante remuneração adicional, aceita como compatível com o porte e a utilidade
dos serviços.

5. Responsabilidades da Administração Pública pela completude,


consistência e atualidade dos projetos
O art. 6°, inciso IX, da Lei 8.666/1993 determina que o projeto básico deve conter todos os
elementos necessários e suficientes para caracterizar o objeto da licitação. O artigo 12, por sua
vez, estabelece algumas das diretrizes a serem seguidas na elaboração de um projeto básico: se-
gurança; funcionalidade e adequação ao interesse público; economia na execução, conservação
e operação; possibilidade de emprego de mão de obra, materiais, tecnologia e matérias-primas
existentes no local da obra; observância às normas técnicas de saúde e de segurança do trabalho;
e redução do impacto ambiental.

Infelizmente, ainda é muito comum encontrar projetos de obras públicas deficientes ou


incompletos e desatualizados. Muitas vezes, essas deficiências conduzem à necessidade de mu-
danças no decorrer da obra. A concepção e a solução técnica da construção são itens que já
deveriam ter sido avaliados, definidos e aprovados em etapa anterior, nos estudos de viabilidade
técnico-econômica e ambiental.

Embora o tema dos estudos prévios tenha sido abordado em detalhe na aula 1, vale lem-
brar que a possibilidade de desenvolver projetos de boa qualidade dependerá, em grande parte,
da qualidade desses estudos e das informações disponíveis para subsidiar os projetistas. Há nor-
mas que definem a amplitude mínima de determinados estudos de projeto, a exemplo da NBR
8036/83 que define um número mínimo de sondagens em razão da área a ser edificada.

O gestor público, ao elaborar o termo de referência, indicando todos os elementos e di-


retrizes para a elaboração do projeto, deverá também informar a abrangência e amplitude dos
estudos prévios realizados. Esse é um aspecto importante que impacta tanto no custo dos proje-
tos quanto no custo da obra. Quanto maior a quantidade e qualidade das informações reunidas

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para subsidiar o projeto, maiores são as chances de escolher uma solução eficiente e econômica
para a obra desejada.

Há casos em que os gestores optam por economizar na fase de projeto e exigem estudos
prévios simplificados e com abrangência inferior à recomendada. Porém, essa economia inicial
pode resultar, durante a obra, em custos muito mais elevados para a execução dos serviços
necessários.

Um exemplo comum é a realização de um número de furos de sondagem do terreno me-


nor do que o previsto na norma. Essa suposta economia resulta, muitas vezes, em uma caracte-
rização incorreta do terreno, o que pode gerar transtornos e aumento dos custos durante a exe-
cução das obras ou mesmo depois de sua conclusão, com a necessidade de modificar projetos,
de executar reforços na estrutura, de efetuar reparos na alvenaria, entre outros inconvenientes.

A completude e a consistência de um projeto básico é reflexo da quantidade e da qualida-


de dos elementos técnicos reunidos, bem como da coerência entre eles. Em outras palavras, to-
das as informações relevantes para a execução da obra devem estar registradas no projeto, além
disso os elementos mostrados nos desenhos devem corresponder aos indicados nos memoriais,
nas especificações técnicas e no orçamento.

A atualidade do projeto também é muito importante para qualquer tipo de obra. Quanto
maior for o tempo decorrido entre sua elaboração e execução, maior é a possibilidade de serem
modificadas as condições de implantação originalmente previstas. Isso exige que se faça uma
revisão do projeto para adequá-lo às novas condições existentes, antes da licitação das obras,
reduzindo assim o risco de prejuízos maiores durante a execução dos serviços.

Outro aspecto que deve ser observado quando da elaboração dos projetos de uma obra
pública é a necessidade de registro da Anotação de Responsabilidade Técnica junto ao conselho
regional de engenharia (Crea)3.

O projeto de uma obra envolve diversas áreas de conhecimento diferentes, que costuma-
mos chamar de disciplinas. Por exemplo, uma obra de edificação precisa de projetos de arqui-
tetura; estrutura; instalações hidrossanitárias, elétricas, lógicas, de combate a incêndio, além de
outras instalações especiais. Todos os profissionais envolvidos na elaboração dos projetos devem
fazer o registro, junto ao conselho profissional competente, da responsabilidade técnica pelos
trabalhos realizados. No caso dos engenheiros temos o Conselho Regional de Engenharia e
Agronomia (CREA), em que o documento de registro é chamado ART; no caso dos arquitetos
temos o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), em que o documento de registro é cha-
mado RRT.

3 - Lei 6.496/1977, art. 1º.

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Recentemente, a partir da LDO 2009 (Lei 11.768/2008 – art. 109, § 5º), a
legislação vem exigindo que seja realizada uma ART específica para o orçamento
da obra. Essa exigência se repetiu nas LDO dos exercícios 2010, 2011 e 2012. Em
2013, foi editado o Decreto 7.983/2013, que previu em seu art. 10 essa mesma
obrigação.

Nesse contexto, tendo em vista os repetidos casos detectados de ausência de registro da


responsabilidade por projetos utilizados na execução de obras públicas, o TCU consolidou enten-
dimento na Súmula TCU 260.

SÚMULA TCU 260


É dever do gestor exigir apresentação de Anotação de Responsabilidade Técnica - ART referente a projeto, execução,
supervisão e fiscalização de obras e serviços de engenharia, com indicação do responsável pela elaboração de plantas,
orçamentobase, especificações técnicas, composições de custos unitários, cronograma físicofinanceiro e outras peças
técnicas.

A Comissão de Licitação pode ser responsabilizada no caso de dar andamento ao processo


de licitação sem que haja o registro de responsabilidade técnica dos projetos e do orçamento3.
Ou seja, embora a comissão de licitação não necessariamente possua conhecimentos técnicos
para avaliar a qualidade do projeto com profundidade, ela deve verificar a existência de registro
de responsabilidade técnica pela elaboração dessas peças, antes de iniciar a fase externa da lici-
tação. As fases da licitação serão detalhadas na aula 4.

6. Anteprojeto
O anteprojeto de engenharia é elaborado depois de concluídos o programa de necessi-
dades e os estudos de viabilidade. Nele, deve-se definir a concepção do objeto e as diretrizes a
serem seguidas no projeto, com a representação de seus elementos, instalações e componentes
de modo a possibilitar a avaliação do custo global da obra, por meio de orçamento sintético
ou metodologia expedita ou paramétrica.

Em regra, o anteprojeto é opcional e não é admitida sua utilização em licitação de obras. A


modalidade de licitação denominada contratação integrada, prevista na lei que criou o Regime
Diferenciado de Contratações Públicas (Lei 12.462/2011), é a única exceção em que se permite a
utilização do anteprojeto em vez do projeto básico para fins de se licitar a implantação das obras.

Conforme consta da lei e de seu decreto regulamentar4, o anteprojeto de engenharia deve


conter os documentos técnicos para caracterizar a obra ou serviço, incluindo:

4 - Lei 12.462/2011, art. 9º, §2º, inciso I e Decreto 7.581/2011 art. 73, § 1º.

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a. a avaliação do programa de necessidades, a visão global dos investimentos e as


definições quanto ao nível de serviço desejado;

b. as condições de solidez, segurança, durabilidade e prazo de entrega;

c. a estética do projeto arquitetônico; e

d. as justificativas e definições gerais quanto à adequação ao interesse público, à economia


na utilização, à facilidade na execução, aos impactos ambientais e à acessibilidade.

É preciso que se defina qual é a “cara” que a obra vai ter. No anteprojeto de
uma casa, por exemplo, já deveria estar definido se a cobertura seria em telha
cerâmica (mais inclinado) ou uma simples laje impermeabilizada.

1 - http://www.freebievectors.com/pt/pre-visualizacao-do-item/77671/vetor-arquitectura-serie-desenho-de-
linha-projecto-de-linha/

2 - http://pro.casa.abril.com.br/photo/desenho-1?context=location#!/photo/desenho-1?context=location

Alguns desses parâmetros já foram tratados na aula 1, como adequação à demanda e impactos
ambientais. Veremos mais adiante nesta aula tópicos relacionados à acessibilidade e, na aula 5,
questões relacionadas ao funcionamento e à manutenção das obras após sua conclusão.

Atenção especial deve ser dada aos projetos de arquitetura e suas especificações, pois,
especialmente no caso de obras de edificações, são eles que vão definir o que a administração
pretende contratar.

Além disso, os projetos complementares restantes são, todos, realizados em função dessa
arquitetura; e de modo a viabilizá-la.

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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Os projetos complementares, como o próprio nome já diz, são aqueles que complementam as
definições contidas no projeto de arquitetura. Esses projetos determinarão, por exemplo, como será
a estrutura, as instalações elétricas e outros aspectos necessários para que a edificação funcione
conforme definido no projeto de arquitetura.

Não se poderia licitar o empreendimento sem delimitar qual a especificação do piso a ser
colocado, pois sem isso o contratante se arrisca a receber algo diferente daquilo que pretendia
inicialmente. Do mesmo modo, é imprescindível a indicação das especificações técnicas dos ma-
teriais a serem empregados, tais como forros, vidros, metais, tintas etc.

De acordo com a norma técnica NBR 13.532/1995 - “Elaboração de projetos de edifica-


ções - Arquitetura”, da ABNT, após a conclusão de um anteprojeto arquitetônico de edificações,
as seguintes informações técnicas e projetos devem ser disponibilizados:

a. levantamento topográfico e cadastral, que corresponde às informações relativas,


por exemplo, à inclinação do terreno, à existência de árvores, construções, e outros
elementos que possam interferir na obra;

b. sondagens de reconhecimento do solo, que indica características como o nível da água


do subsolo, as camadas existentes de argila, areia e rocha e suas profundidades, bem
como a resistência dessas camadas;

c. planta de implantação e de terraplenagem, que indicam a posição da obra em relação


aos terrenos vizinhos bem como os níveis da edificação em relação à rua, por exemplo;

d. cortes de terraplenagem, que indicam a existência de desníveis, degraus, rampas entre


a edificação e o terreno;

e. plantas dos pavimentos e coberturas, cortes longitudinais e transversais, elevações,


fachadas, detalhes de elementos da edificação e de seus componentes construtivos,
ou seja, os desenhos propriamente ditos dos projetos, contendo medidas, indicação de
portas janelas etc;

f. memorial descritivo da edificação e de seus elementos e componentes construtivos, que


corresponde a um texto descrevendo as principais características do projeto e do seu
fucionamento; e

g. especificação técnica dos materiais de construção, que corresponde à definição mais


precisa dos principais itens a serem utilizados na obra, como por exemplo os materiais
do piso, os tipos de acabamentos, de forros, de tintas etc.

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Para saber mais...


ÂÂ Em um projeto de uma casa, por exemplo, o memorial descritivo conteria a indicação de quantos
quartos existem, se a casa é feita de madeira ou de tijolos, a área dos ambientes, a forma de ligação
entre esses ambientes, sua relação com as áreas externas, jardins, varandas, dentre outras informações
consideradas importantes.

O anteprojeto no caso de licitações pelo regime de contratação integrada do RDC, deve,


preferencialmente, conter todos esses elementos indicados na NBR. Alguns itens como o memo-
rial descritivo, por exemplo, são indispensáveis, pois é ele que vai descrever essencialmente o que
se deseja contratar. Outros itens que envolvem um maior detalhamento de informações podem
ser dispensados, conforme o caso, desde que os riscos associados à ausência dessas informações
estejam adequadamente registrados em uma matriz de riscos. É o caso, por exemplo, do pro-
jeto de terraplanagem, que pode ser desenvolvido pelo contratado posteriormente à licitação,
mas nesses casos é importante que esteja previamente definido quem será o responsável por
eventuais variações de custo ou distorções relacionadas a esse projeto.

A elaboração dessa matriz envolve a avaliação da possibilidade de ocorrências que afetem negativamente
a obra, bem como o grau de impacto dessas ocorrências. Por exemplo, numa região em que chove muito,
é altamente provável que ocorram chuvas durante a execução da obra. Além disso, essas chuvas podem
atrapalhar o ritmo de execução dos serviços e causar atrasos. A matriz de riscos permitirá enxergar
com mais clareza quem será o responsável pela solução dos problemas causados por essas chuvas.1

1 - Acórdãos 1465/2013-TCU-Plenário, 1510/2013-TCU-Plenário e outros.

O orçamento nesta etapa de projeto deve ser tão detalhado quanto possível, assim con-
vêm que as estimativas de preço sejam realizadas com base nos sistemas referenciais de custos
de obras públicas (Sinapi, Sicro e outros). As estimativas paramétricas e a avaliação baseada em
outras obras similares somente devem ser utilizadas nas partes do empreendimento que não
estiverem suficientemente detalhadas pelo anteprojeto5. Os sistemas de custos de obras pú-
blicas, métodos de estimativa de custos e outros tópicos relacionados ao orçamento da
obra serão abordados com mais detalhe na aula 3.

Como o anteprojeto não apresenta nível de detalhamento suficiente à quantificação de


todos os serviços e materiais a serem aplicados nas obras, uma vez que será complementado
posteriormente por um projeto básico, seu orçamento torna-se mais impreciso e sujeito a erros.

5 - Acórdão 1.510/2013-TCU-Plenário.

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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Especificamente no regime de contratação integrada do RDC, a lei, proíbe a realização de
alterações contratuais causadas por erros ou falhas do projeto desenvolvido posteriormente pelo
contratado a partir das informações do anteprojeto. Isso não significa que as obras realizadas no
modelo de contratação integrada não possam ter seus contratos aditivados. No caso de mudan-
ça de escopo por interesse da Administração, por exemplo, o aditivo é admitido. O tema dos
aditivos contratuais será melhor detalhado na aula 4.

A responsabilidade pelo desenvolvimento posterior do projeto básico e a proibição de adi-


tivo contratual para correção de erros nesse projeto faz com que a contratada assuma os riscos
por eventos que surgirem durante a obra. Esse fato pode levar as empresas a ofertar preços mais
elevados na fase de licitação. Em suma, quanto melhor e mais detalhado for o projeto, os riscos
tendem a ser menores e também o valor cobrado pelo executor da obra.

7. Projeto Básico
O projeto básico é, sem dúvida alguma, um dos elementos mais importantes tanto para a
licitação e a contratação como para a execução de obras públicas. Nele define-se detalhadamen-
te o objeto a ser licitado/executado e seu respectivo custo. O projeto básico é tão importante
que, como regra geral, tanto a lei de licitações (Lei 8.666/93) como a lei que instituiu o RDC (Lei
12.462/2011) proíbem a contratação de obras públicas sem que ele tenha sido devidamente
elaborado e aprovado. A única exceção, como dissemos no tópico anterior, é a contratação inte-
grada, que admite o uso do anteprojeto para se contratar a obra.

As irregularidades causadas por projetos básicos incompletos, deficientes ou desatualiza-


dos são encontradas com frequência nas auditorias realizadas pelo TCU e podem causar uma
série de problemas seja durante a execução da obra ou após a sua conclusão, gerando prejuízo
ao funcionamento e à durabilidade da construção.

7.1. Definição e importância

Por vezes, o termo "projeto básico" é interpretado inadequadamente. A palavra “básico”,


no dicionário, possui o seguinte significado: 1) que serve de base; 2) essencial, principal, funda-
mental6. Dessa forma, ao contrário do que seu nome possa sugerir, projeto básico não deve ser
interpretado como um projeto simplório ou formado por poucos elementos, mas sim como um
projeto essencial, que vai servir de base para a contratação e execução da obra.

6 - Dicionário Michaelis, disponível em http://michaelis.uol.com.br/

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Sua definição legal é a seguinte: conjunto de elementos necessários e suficientes, com ní-
vel de precisão adequado, para caracterizar a obra ou serviço, ou complexo de obras ou serviços
objeto da licitação, elaborado com base nas indicações dos estudos técnicos preliminares (pro-
grama de necessidades, EVTE e anteprojetos), que assegurem a viabilidade técnica e o adequado
tratamento do impacto ambiental do empreendimento, e que possibilite a avaliação do custo da
obra e a definição dos métodos e do prazo de execução7.

A norma técnica NBR 13.531/1995 - “Elaboração de projetos de edificações -


Atividades técnicas”, da ABNT, apresenta um conceito divergente para projeto
básico. Entretanto, o conceito da ABNT não pode, de maneira alguma, ser
aplicado à administração pública, haja vista que ele considera o projeto básico
como uma peça opcional.

A lei de licitações especifica ainda que os projetos básicos devem conter os seguintes
elementos:

a. desenvolvimento da solução escolhida de forma a fornecer visão global da obra e


identificação clara de todos os seus elementos;

b. soluções técnicas globais e localizadas, suficientemente detalhadas, de forma a


minimizar a necessidade de modificações durante as fases de elaboração do projeto
executivo e de realização das obras e montagem;

c. identificação de todos os serviços a executar e especificação de todos os materiais e


equipamentos a serem utilizados;

d. informações que possibilitem o estudo e a dedução de métodos construtivos, instalações


provisórias e condições organizacionais para a obra;

Esse plano de licitação e gestão da obra está diretamente relacionado às etapas


de contratação e fiscalização da obra, que serão tratadas nas aulas 4 e 5 deste
curso.

7 - Lei 8.666/93, art. 6º, inciso IX, e Lei 12.462/2011, art. 2º, inciso IV.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


INFORMAÇÕES DO PROJETO BÁSICO
É necessário que as informações do projeto básico permitam identificar, por exemplo, se a estrutura da edificação
será de concreto armado, executado no local — o que demanda um determinado espaço, equipamentos e materiais
disponíveis no canteiro de obras para a execução de formas, escoramentos, armaduras — ou ainda se seria uma
estrutura pré-fabricada industrialmente e somente montada no canteiro de obras — o que demanda um conjunto
diferente de materiais, além de equipamentos específicos de montagem.

e. subsídios para montagem do plano de licitação e gestão da obra, compreendendo a sua


programação, a estratégia de suprimentos, as normas de fiscalização (inclusive critérios
de medição) e outros dados necessários em cada caso;

f. orçamento detalhado do custo global da obra, fundamentado em quantitativos de


serviços e fornecimentos propriamente avaliados.

Conforme a definição acima, o projeto básico deve conter informações detalhadas para
que se compreenda perfeitamente o objeto que está sendo licitado, como ele se desenvolverá,
em que prazo, e ainda possibilite a identificação e quantificação de todos os serviços que serão
executados, bem como a caracterização e quantificação de todos os insumos (mão-de-obra,
materiais e equipamentos) e seus respectivos custos.

Vale notar que, de acordo com a definição legal, a palavra “projeto” deve ser interpretada
de forma ampla, não se resumindo apenas aos desenhos técnicos (plantas), mas a um conjun-
to de documentos que detalham o objeto da licitação (a obra), entre os quais se podem citar
os memoriais descritivos, as especificações técnicas, a planilha orçamentária e o cronograma
físico-financeiro.

É comum que projetos básicos deficientes, com informações incoerentes, desatualizadas


ou faltantes precisem ser alterados ou complementados no decorrer da execução da obra. Esse
tipo de alteração, além de impactar o preço e o prazo inicialmente previstos, abre espaço para a
ocorrência de várias irregularidades, tais como o superfaturamento, a extrapolação dos limites
legais de modificação contratual, o desvirtuamento das condições iniciais avençadas ou
até mesmo a transfiguração do objeto. As falhas de projeto podem resultar ainda em atrasos
significativos para a entrega da obra e, nos casos mais graves, inviabilizar a sua conclusão.

Devido à importância do tema e aos inúmeros casos de irregularidade em projetos básicos,


o TCU pacificou entendimento na Súmula TCU 261/2010, a seguir transcrita:

SÚMULA TCU 261


Em licitações de obras e serviços de engenharia, é necessária a elaboração de projeto básico adequado e atualizado,
assim considerado aquele aprovado com todos os elementos descritos no art. 6º, inciso IX, da Lei nº 8.666, de 21
de junho de 1993, constituindo prática ilegal a revisão de projeto básico ou a elaboração de projeto executivo que
transfigurem o objeto originalmente contratado em outro de natureza e propósito diversos.

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Tribunal de Contas da União

Não é demais lembrar que o projeto básico de uma obra deve ser elaborado por profis-
sional legalmente habilitado, com registro no conselho profissional, podendo ser contratada
empresa específica de engenharia ou arquitetura para sua elaboração, nos casos em que o órgão
não dispõe de uma quantidade suficiente de profissionais técnicos especializados. É importante
lembrar ainda que, mesmo no caso de contratação de empresa especializada, o administrador
público permanece com a responsabilidade de avaliar se os documentos e projetos fornecidos
são adequados, devendo exigir do contratado a realização de todos os ajustes necessários.

Além de exigir que a elaboração do projeto seja feita por profissional habilitado e com o
devido registro de responsabilidade técnica junto ao conselho profissional, a legislação determina
que é obrigatória a aprovação formal (por escrito) de todo o projeto básico pela autoridade com-
petente. Essa aprovação deve se dar previamente ao certame licitatório e serve para atestar que o
dirigente do órgão tomou conhecimento e está de acordo com todas as informações constantes
no projeto básico, bem como se responsabiliza pela sua completude e atualização.

Por fim, merece registro que, exceto nos casos de licitação na modalidade contratação
integrada, prevista pelo RDC, é vedada a participação na licitação e/ou na execução da obra
de qualquer pessoa física ou jurídica que tenha participado da elaboração do projeto básico da
obra, sendo permitido apenas na condição de consultor ou técnico, nas funções de fiscalização,
supervisão ou gerenciamento, exclusivamente a serviço da Administração interessada8.

7.2 Atualização/validade do projeto básico

O projeto básico deve ser o mais atual possível, de modo a se evitar modificações após a
contratação das obras. Entretanto, nas fiscalizações realizadas pelo TCU, é recorrente a verifi-
cação de utilização de projetos básicos desatualizados. Nesse contexto, os gestores costumam
apresentar a seguinte dúvida: por quanto tempo um projeto básico permanece válido?

A resposta não é tão simples e varia em função de inúmeros fatores, entre os quais se po-
dem destacar o tipo de empreendimento, mudanças ocorridas no local das obras, evolução das
tecnologias envolvidas, diretrizes políticas etc. O próprio programa de necessidades que originou
o projeto pode ter perdido sua validade, por não atender adequadamente à demanda atual. Por
esse motivo, antes da adoção de um projeto básico elaborado em anos anteriores, várias condi-
cionantes devem ser verificadas.

A primeira delas diz respeito à sua concepção. Em projetos básicos antigos, especialmente
quando elaborados sob a gestão de outros governantes, nem sempre as diretrizes que orien-
taram a sua concepção se encontram alinhadas com as do atual governo. Assim, quando isso
acontece, o primeiro ponto a ser observado é se as necessidades da população atendida perma-
necem plenamente atendidas com aquele projeto, sem a necessidade de se efetuar modificações
nele.

8 - Lei 8.666/93, art. 9º, e Lei 12.462/2011, art. 36.

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Após essa verificação, faz-se necessário comprovar se as características do local em que
será implantada a obra permanecem as mesmas, ou seja, se não foram realizadas obras de
terra que possam ter promovido alterações nas condições do local nem foram executadas novas
construções no terreno, o que poderia acarretar aumento na quantidade de demolições e desa-
propriações, impactando tanto o custo como o prazo do empreendimento.

Outro aspecto a ser observado diz respeito às metodologias construtivas previstas, bem
como aos equipamentos originalmente especificados, que podem se tornar inadequados ou
ultrapassados após algum tempo.

No caso de obras de saneamento, por exemplo, é comum que, ao se tentar executar um


projeto de rede de esgoto 5 ou 10 anos após sua elaboração, as antigas condições do local de
implantação já não sejam as mesmas. A modificação de loteamentos, das ruas, a presença de
novas construções não registradas no projeto podem trazer problemas para a execução da obra,
conduzindo à necessidade de alterações no traçado da rede, nas quantidades de serviços previs-
tos e, eventualmente, até a paralização da obra para que os ajustes de projeto sejam realizados.

Também é importante verifcar se as premissas adotadas no projeto para a população aten-


dida pelo empreendimento ainda permanecem válidas. Para dimensionamento de todo o siste-
ma, o projetista adota a população de início de plano, que é aquela atual, no momento da ela-
boração do projeto, e prevê qual será a população de fm de plano, considerando o crescimento
demográfco da cidade por período equivalente à vida útil do empreendimento (usualmente vinte
anos).

Assim sendo, é imprescindível verifcar se ambas as populações, de início e de fim de plano,


ainda se mantêm coerentes com as adotadas na concepção do projeto. O crescimento demo-
gráfco ocorrido no período entre a elaboração do estudo e a sua utilização na licitação po-
dem demandar revisão do projeto, caso contrário corre-se o risco de redução da vida útil do
empreendimento.

7.3 Componentes do Projeto Básico

Como visto anteriormente, o projeto básico é composto por desenhos, memorial descri-
tivo, especificações técnicas, planilha orçamentária e cronograma físico-financeiro, bem como
pelos estudos prévios que o amparam, tais como os geotécnicos, topográficos, geológicos, hi-
drológicos, a depender das necessidades de cada projeto.

Todas essas peças deverão possuir identificação contendo, pelo menos, nome e local da
obra, nome da entidade executora, tipo de peça/projeto, data das revisões, nome dos responsá-
veis técnicos, número de registro no CREA e respectivas assinaturas. Estão disponíveis, na biblio-
teca do curso, alguns exemplos de componentes de projeto para que você possa ter uma ideia
mais clara sobre cada um dos itens que serão descritos a seguir.

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7.3.1 Desenhos
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Também denominados de plantas ou mesmo projetos. São a representação gráfica do


objeto a ser executado, elaborados de modo a permitir sua visualização em tamanho adequado,
demonstrando formas, dimensões, funcionamento e especificações, perfeitamente definidas em
plantas, cortes, elevações, esquemas e detalhes, obedecendo às normas técnicas pertinentes.

3-planta baixa de habitação de interesse social.

Fonte: http://downloads.caixa.gov.br/_arquivos/banco_projetos/projetos_his/
casa_42m2.pdf

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7.3.2 Memorial Descritivo

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O memorial descritivo é um documento em formato de texto que deve conter a descrição
detalhada do objeto projetado, levando-se em conta as informações definidas no programa de
necessidades e nos estudos de viabilidade, detalhando as soluções técnicas adotadas, bem como
suas justificativas, de modo a complementar as informações contidas nos desenhos e demais
peças do projeto.

Para saber mais...


ÂÂ Na biblioteca do curso há um exemplo de memorial descritivo que pode ser acessado pelo
participante.

7.3.3 Especificações Técnicas

O caderno de especificações técnicas é um documento em formato de texto que reúne


todas as regras e condições que devem ser seguidas para a execução da obra e dos respectivos
serviços, de acordo com as normas e práticas aplicáveis. Nele, são estabelecidas as características
necessárias e suficientes para o desempenho técnico requerido pelo projeto, bem como para a
contratação dos serviços e obras.

Neste documento deve estar descrito, em linguagem tão clara quanto possível, o deta-
lhamento executivo de cada serviço, ou seja, o modo como deverão ser executados, as normas
técnicas aplicáveis, e, principalmente, os critérios para a sua medição, de modo a se evitar ques-
tionamentos futuros.

Além disso, deve conter descrição técnica dos materiais, equipamentos e sistemas constru-
tivos a serem aplicados, inclusive as condições para aceitação dos produtos e os testes aplicáveis.

As especificações técnicas poderão conter informações de interesse, detalhes construti-


vos e outros elementos necessários à perfeita caracterização, inclusive catálogos e manuais que
orientem a execução e inspeção dos serviços. No entanto, a fim de permitir alternativas de
fornecimento, as especificações técnicas não poderão reproduzir catálogos de um determinado
fornecedor ou fabricante.

A indicação de marca é admitida como parâmetro de qualidade, para facilitar a caracteriza-


ção do material ou equipamento, desde que seguida por expressões do tipo: “ou equivalente”,
“ou similar”, “ou de melhor qualidade”, para evitar restrições de marca9. Assim, para permitir
alternativas de fornecimento, nas especifcações técnicas deve-se evitar reproduzir catálogos de
um determinado fornecedor ou fabricante.

9 - Acórdão 1292/2003 – TCU – Plenário e 644/2007 – TCU - Plenário

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Tribunal de Contas da União

Cabe à fiscalização acompanhar a execução dos serviços e a aplicação dos materiais e


equipamentos conforme descrito nas especificações técnicas.

Para saber mais...


ÂÂ Na biblioteca do curso há um exemplo de especificação técnica que pode ser acessado pelo
participante.

7.3.4 Planilha orçamentária

A planilha orçamentária é um documento em formato de tabela, contendo a relação de


todos os serviços necessários à execução do objeto, com suas respectivas unidades de medida,
quantidades e preços unitários. Seus valores são calculados a partir dos projetos e demais es-
pecificações técnicas, de modo a possibilitar a previsão do preço total de um empreendimento.

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O orçamento que acompanha o projeto básico também deve conter outras informações
mais detalhadas que serão abordadas na aula 3, como as composições de custo unitário (CPUs)
de todos os serviços da planilha, bem como os detalhamentos do BDI e dos encargos sociais.

7.3.5 Cronograma Físico-Financeiro

O cronograma físico é a representação gráfica da execução da obra ao longo de um perí-


odo de tempo. Ele informa a relação de todos os serviços a serem realizados e a indicação de seu
tempo de duração, por meio de uma planilha com escala em formato de barras. Quanto maior
o comprimento da barra, maior será a duração do serviço representado.

Já o cronograma físico-financeiro contém, além das informações do cronograma físico,


os valores previstos para cada um dos serviços nos períodos de execução da obra.

dia setembro outubro novembro dezembro


R$
serviço 15 30 15 30 15 30 15 30
fundações 5.000
alvenarias 10.000
forros 16.000
cobertura 20.000
piso e revestimento 15.000
limpeza da obra 2.000
desembolso
mensal 10.000 14.000 27.000 15.000 68.000

O cronograma físico-financeiro é uma importante ferramenta para o planejamento, pois


permite ao gestor público conhecer o montante de recursos que serão necessários em cada mês
para arcar com as despesas da obra. Além disso, possibilita efetuar o controle do andamento da
obra. Para a empresa contratada, permite prever as quantidades de mão-de-obra e equipamen-
tos a serem utilizados para construir a obra no prazo definido.

O cronograma físico-financeiro deve ser atualizado sempre que houver alterações no prazo
da obra ou de uma de suas etapas, para que reflita as condições reais do empreendimento.

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7.4 Elementos mínimos que deve conter um projeto básico


Tribunal de Contas da União

Uma dúvida recorrente entre os gestores é: quais os desenhos, projetos e detalhamentos


que devem constar no projeto básico?

A dica para sanar essa dúvida é fazer a seguinte pergunta: se determinado desenho for
deixado apenas para o projeto executivo, pode haver necessidade de modificação das quantida-
des e/ou serviços da planilha orçamentária?

Se a resposta for positiva, o tal desenho deve, em regra, fazer parte do projeto básico. Se
a reposta for negativa, esse desenho pode ser elaborado apenas no projeto executivo da obra.

A título de exemplificação, analisam-se dois casos práticos comumente encontrados.

CASO PRÁTICO 1
Em uma obra de edificação, o projeto de formas e armação pode ser elaborado apenas após a contratação da obra?
Primeiro vale destacar que os itens de forma, armação e concreto são alguns dos mais significativos financeiramente
em obras de edificações.
É no projeto de formas que estão definidas as dimensões das peças da estrutura (lajes, vigas e pilares). Portanto, sem
ele não é possível calcular com grau adequado de precisão a quantidade de formas nem de concreto necessária à
execução da obra.
Da mesma forma, é no projeto de armação que estão os detalhamentos das armaduras de lajes, vigas e pilares,
bem como a tabela resumo contendo a quantidade e medidas utilizadas em cada um daqueles elementos. Essas
informações são essenciais para calcular adequadamente a quantidade de aço que deve constar na planilha
orçamentária da obra.
Existem índices para a quantificação de concreto, formas e aço, usualmente adotados quando não se dispõe dos
projetos detalhados. Porém esses índices não devem ser utilizados nas licitações regidas pela Lei 8.666/1993 pois
aumentam a imprecisão do orçamento e o risco de modificações posteriores.
Outro dado importante definido nos projetos de forma e armação é a resistência do concreto. O custo do concreto varia
bastante em função da sua resistência. A adoção, na planilha, de uma determinada resistência para o concreto sem a
definição anterior em projeto, aumenta, da mesma forma, a imprecisão e o risco de alterações futuras no orçamento.
Pela explicação acima, fica claro que tanto o projeto de formas como o de armação devem fazer parte do projeto
básico e, portanto, ser desenvolvido antes de licitar a obra.

CASO PRÁTICO2
Em uma obra de saneamento, é necessária a realização de sondagens para reconhecimento do subsolo ainda na fase
de projeto básico?
As sondagens são métodos de investigação do subsolo que tem por objetivo fornecer informações sobre o tipo de solo
do local: a composição, espessura e resistência das diversas camadas, a profundidade do nível d’água, entre outras.
Os itens referentes à escavação e ao escoramento estão entre os mais significativos financeiramente em uma
típica obra de saneamento. As características do solo que será escavado impactam bastante a forma de execução
desses serviços (escavação manual ou com escavadeira, escoramento aberto, semi-aberto ou fechado etc) e,
consequentemente, nas composições dos seus preços.
Por exemplo: a escavação de solo em local com nível do lençol freático elevado pode exigir a consideração de custos
para bombeamento da água; solos moles ou pouco compactos são mais fáceis de escavar (maior produtividade da
equipe e, portanto, menores custos de escavação), em contraponto requerem maior atenção com o escoramento
(maiores custos de escoramento); solos compactos ou duros reduzem a produtividade da equipe de escavação e a
necessidade de escoramento.
Como se pode observar, para viabilizar a previsão adequada dos custos da obra é fundamental a realização das
sondagens aindadenoEdificação
Obras Públicas projeto básico. Portanto, as sondagens devem ser realizadas antes da licitação da obra e suas
e de Saneamento
informações serão importantes para definir as próprias características do projeto.
25

7.4.1 Elementos mínimos de um Projeto Básico de edificações

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


O TCU, por meio do Acórdão 632/2012-TCU-Plenário, aponta, com base na Orientação
Técnica 1/2006 do Instituto Brasileiro de Auditoria de Obras Públicas (OT - IBR 001/2006), os
seguintes elementos mínimos do projeto básico de obras de edificações:

ELEMENTOS MÍNIMOS DO PROJETO BÁSICO DE OBRAS DE EDIFICAÇÕES

Levantamento topográfico

Sondagens

Projeto arquitetônico

Projeto de terraplanagem

Projeto de fundações

Projeto estrutural

Projeto de instalações hidrossanitárias (água fria, água quente, esgotos sanitários, águas
pluviais, irrigação e drenagem)

Projeto de instalações elétricas

Projeto de instalações telefônicas

Projeto de instalações de detecção e alarme e de combate à incêndio

Projeto de Instalações Especiais

Obs: a depender da destinação da edificação, pode haver projetos para outras instalações
especiais, tais como circuito interno de televisão, sonorização, antenas de TV, controle
de acesso, automação predial, escadas rolantes, compactadores de resíduos sólidos, gás
combustível, vácuo, ar comprimido, oxigênio etc.

Projeto de instalações de ar condicionado e calefação

Projeto de instalação de transporte vertical (elevadores)

Projeto de paisagismo

Orçamento detalhado

Cronograma físico-financeiro

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A OT - IBR 001/2006 detalha ainda qual seria o conteúdo mínimo de cada um desses pro-
jetos. Além da tabela para edificações (item 6.1), há tabelas específicas para obras rodoviárias e
obras de pavimentação urbana.

Vale destacar que o detalhamento apresentado é apenas um referencial mínimo, ou seja, o


projeto básico poderá conter elementos adicionais aos elencados, cabendo ao projetista, de acor-
do com as particularidades de cada empreendimento, produzir o conteúdo adicional necessário.

Para saber mais...


ÂÂ O conteúdo completo da OT – IBR 001/2006 pode ser acessado na biblioteca do curso ou no
endereço http://www.ibraop.org.br/media/orientacao_tecnica.pdf

7.4.2 Elementos mínimos de um Projeto Básico de drenagem e saneamento

Na tabela a seguir, são apresentados os elementos mínimos recomendados em projetos


básicos de obras de drenagem, abastecimento de água e esgotamento sanitário. Essa tabela não
consta da OT - IBR 001/2006, mas foi elaborada considerando-se as características específicas
desse tipo de obra e tendo como referência as tabelas existentes para edificações, rodovias e
pavimentação urbana.

ELEMENTOS MÍNIMOS EM PROJETOS BÁSICOS DE OBRS DE DRENAGEM, ABASTECIMENTO DE


ÁGUA E ESGOTO SANITÁRIO
Desapropriações
Levantamento topográfico
Sondagens
Projeto geral de concepção do sistema

Projeto da estação de tratamento, estações elevatórias e reservatórios, inclusive os de


acumulação de cheias (bacias de detenção)

Projeto de rede drenagem urbana

Projeto da rede de abastecimento de água

Projeto da rede coletora de esgotamento sanitário

Projeto de adutoras, linhas de recalque, coletores tronco, interceptores e emissários

Projeto de repavimentação urbana

Projeto de interferências

Projeto de remanejamento viário

Orçamento detalhado

Cronograma físico-financeiro
Obras Públicas de Edificação e de Saneamento
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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Para cada um dos itens acima listados, também há um detalhamento do conteúdo míni-
mo, que está disponível na biblioteca do curso.

8. Licenciamento Ambiental
A lei determina que o projeto básico deve contemplar o adequado tratamento dos impac-
tos ambientais do empreendimento10, concretizado pelo licenciamento ambiental11, que tem a
seguinte definição: procedimento administrativo pelo qual o órgão ambiental competente licen-
cia a localização, instalação, ampliação e a operação de empreendimentos e atividades utilizado-
ras de recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas que,
sob qualquer forma, possam causar degradação ambiental12.

De um modo geral, a “licença” é um instrumento de controle da administração pública


pelo qual ela autoriza o exercício de alguma atividade, desde que atendidas condicionantes e
requisitos legais.

O licenciamento ambiental é composto por três tipos de licenças que devem ser obtidas
na seguinte sequência:

a. Licença Prévia - antes da conclusão do projeto básico;

b. Licença de Instalação - antes do início da execução das obras; e

c. Licença de Operação - antes do início do funcionamento do empreendimento.

As referidas licenças devem ser obtidas no órgão ambiental competente. A definição desse
órgão licenciador segue o critério da abrangência do impacto: se local, cabe aos municípios; se
extrapola mais de um município dentro de um mesmo estado, cabe a este estado o licenciamen-
to; se ultrapassa as fronteiras do estado ou do país, cabe ao órgão federal. A Resolução Conama
237/1997 detalha a regra, que pode ser resumida no quadro a seguir13:

10 - Lei 8.666/1993, art. 6º, inciso IX.


11 - Lei 6.938/1981, art. 10.
12 - Resolução Conama 237/1997, art. 1º, inciso I.
13 - Idem, arts. 4º, 5º e 6º.

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28 Ente licenciador Competência para licenciar
Tribunal de Contas da União

Empreendimentos e atividades de impacto ambiental local


Órgãos ambientais municipais e daqueles sobre os quais houve delegação pelo estado por
instrumento legal ou convênio.

Empreendimentos e atividades:

- localizados ou desenvolvidos em mais de um Município


ou em unidades de conservação de domínio estadual ou do
Distrito Federal;

- localizados ou desenvolvidos nas florestas e demais


formas de vegetação natural de preservação permanente
Órgãos ambientais estaduais relacionadas no artigo 2º da Lei nº 4.771, de 15 de setembro
de 1965, e em todas as que assim forem consideradas por
normas federais, estaduais ou municipais;

- cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites


territoriais de um ou mais Municípios;

- delegados pela União aos Estados ou ao Distrito Federal,


por instrumento legal ou convênio.

Empreendimentos e atividades com significativo impacto


ambiental de âmbito nacional ou regional, a saber:

- localizadas ou desenvolvidas conjuntamente no Brasil e em


país limítrofe; no mar territorial; na plataforma continental;
na zona econômica exclusiva; em terras indígenas ou em
unidades de conservação do domínio da União.

- localizadas ou desenvolvidas em dois ou mais Estados;

- cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites


territoriais do País ou de um ou mais Estados;
Ibama
- destinados a pesquisar, lavrar, produzir, beneficiar,
transportar, armazenar e dispor material radioativo, em
qualquer estágio, ou que utilizem energia nuclear em
qualquer de suas formas e aplicações, mediante parecer da
Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN;

- bases ou empreendimentos militares, quando couber,


observada a legislação específica.

Empreendimentos e atividades sujeitos a licenciamento pelo


órgão ambiental estadual, nos casos de ausência ou omissão
deste (atuação supletiva).

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


O licenciamento ambiental não é obrigatório para todo e qualquer empreendimento. O
Anexo 1 da Resolução 237/1997 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) lista as
atividades e empreendimentos sujeitos ao licenciamento ambiental, entre os quais se destacam
os seguintes comumente encontrados em municípios:

Empreendimentos relacionados a obras de urbanização e saneamento:

a. estações de tratamento de água;

b. interceptores, emissários, estação elevatória e tratamento de esgoto sanitário;

c. tratamento e destinação de resíduos sólidos urbanos, inclusive aqueles provenientes de


fossas;

d. tratamento e destinação de resíduos industriais (líquidos e sólidos);

e. tratamento/disposição de resíduos especiais tais como: de agroquímicos e suas


embalagens usadas e de serviço de saúde, entre outros;

f. recuperação de áreas contaminadas ou degradadas;

g. parcelamento do solo;

h. distrito e pólo industrial;

i. complexos turísticos e de lazer.

Empreendimentos relacionados a obras hídricas:

a. dragagem e derrocamentos em corpos d’água;

b. canais para drenagem;

c. retificação de curso de água;

d. abertura de barras, embocaduras e canais;

e. transposição de bacias hidrográficas.

Tribunal de Contas da União


30
Tribunal de Contas da União

Atividades acessórias de obras:

a. extração e tratamento de minerais;

b. usinas de produção de concreto;

c. usinas de asfalto.

Vale observar que o Anexo 1 da Resolução 237/1997 do Conama relaciona apenas alguns
exemplos, de modo que outros tipos de empreendimentos podem necessitar de licenciamento
ambiental, desde que utilizem recursos ambientais e sejam considerados efetiva ou potencial-
mente poluidores, ou desde que sejam capazes de causar degradação ambiental.

Além disso, mesmo que não seja necessário obter esse licenciamento para o empreendi-
mento em si, o órgão público deve se certificar de que jazidas e bota-fora utilizados pela exe-
cutora da obra estão devidamente regularizados e possuem as licenças ambientais.

A falha ou ausência de licenciamento ambiental é crime e pode ocasionar também o


embargo de obra ou sua demolição, nos termos do art. 60 da Lei 9.605/1998 (Lei de Crimes
Ambientais).

O não cumprimento das medidas necessárias à preservação ambiental ou à correção dos


inconvenientes e danos causados ao meio ambiente pode acarretar também a aplicação de
multa, conforme o art. 14 da Lei 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente). Também
responde pela conduta irregular a autoridade competente que deixar de promover as medidas
tendentes a impedir essas práticas.

Caberá ao poluidor, independente da existência de culpa, indenizar ou reparar os danos


causados ao meio ambiente e a terceiros.

CASO PRÁTICO

A construção de uma escola necessita de licenciamento ambiental?


Em regra, a construção de empreendimentos escolares não necessita de licenciamento ambiental, pois não é considerado
empreendimento potencialmente poluidor ou causador de dano ambiental. Apesar disso, esse tipo de obra pode
necessitar de licenciamento ambiental, por exemplo, se sua implantação estiver prevista em terreno com alguma das
seguintes particularidades: área de proteção ambiental; várzea de córregos ou rios; terreno com vegetação nativa etc.
Nestes casos, é importante consultar o órgão ambiental para verificar sobre a necessidade de licenciamento ambiental,
já que pode ser necessária a adoção de medidas ambientais compensatórias.
Na mesma linha, existem outras situações em que o órgão ambiental pode até mesmo se negar a conceder a licença
ambiental, por exemplo, se sua implantação estiver prevista em local que tenha sido aterrado com material orgânico,
pois sujeitaria a construção a riscos de explosões.
Como se pode observar, mesmo empreendimentos que, a princípio, não causem nenhuma forma de degradação do meio
ambiente, podem estar sujeitos a licenciamento ambiental.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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8.1 Licença Prévia

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


A Licença Prévia (LP) atesta a viabilidade ambiental do empreendimento ou atividade, apro-
vando sua localização e concepção e estabelecendo condicionantes e medidas a serem tomadas
para reduzir os danos ambientais causados.

Sua finalidade é definir as condições com as quais o projeto torna-se compatível com a pre-
servação do meio ambiente que afetará. É também um compromisso assumido pelo empreen-
dedor de que seguirá o projeto de acordo com os requisitos determinados pelo órgão ambiental.

A Licença Prévia deve ser obtida antes da conclusão do projeto básico, pois todas as me-
didas exigidas na licença devem estar devidamente previstas no projeto básico. Além disso, há
a possibilidade de o órgão ambiental manifestar-se pela inviabilidade ambiental da obra, o que
ensejaria a necessidade de alteração da localização e/ou de modificação de toda a concepção
do projeto.

O prazo de validade da LP deverá ser, no mínimo, o estabelecido pelo cronograma de


elaboração dos planos, programas e projetos relativos ao empreendimento, podendo ser prorro-
gado, desde que não ultrapasse o máximo de cinco anos14.

A obtenção da Licença Prévia pode depender da elaboração de Estudo de Impacto


Ambiental (EIA) e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). O art. 2º da Resolução
001/1986 do Conama lista as atividades que precisam do EIA/RIMA. São elas:

a. Estradas de rodagem com duas ou mais faixas de rolamento;

b. Ferrovias;

c. Portos e terminais de minério, petróleo e produtos químicos;

d. Aeroportos, [...];

e. Oleodutos, gasodutos, minerodutos, troncos coletores e emissários de esgotos sanitários;

f. Linhas de transmissão de energia elétrica, acima de 230KV;

g. Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos, tais como: barragem


para fins hidrelétricos, acima de 10MW, de saneamento ou de irrigação,
abertura de canais para navegação, drenagem e irrigação, retificação de cursos
d’água, abertura de barras e embocaduras, transposição de bacias, diques;

14 - Resolução Conama 237/1997, art. 18, inciso I e § 1º.

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32
Tribunal de Contas da União

h. Extração de combustível fóssil (petróleo, xisto, carvão);

i. Extração de minério, [...];

j. Aterros sanitários, processamento e destino final de resíduos tóxicos ou perigosos;

k. Usinas de geração de eletricidade, qualquer que seja a fonte de energia primária, acima
de 10MW;

l. Complexo e unidades industriais e agro-industriais (petroquímicos, siderúrgicos,


cloroquímicos, destilarias de álcool, hulha, extração e cultivo de recursos hídricos);

m. Distritos industriais e zonas estritamente industriais - ZEI;

n. Exploração econômica de madeira ou de lenha, em áreas acima de 100 hectares ou


menores, quando atingir áreas significativas em termos percentuais ou de importância
do ponto de vista ambiental;

o. Projetos urbanísticos, acima de 100ha. ou em áreas consideradas de relevante interesse


ambiental a critério da SEMA e dos órgãos municipais e estaduais competentes; e

p. Qualquer atividade que utilize carvão vegetal em quantidade superior a dez toneladas
por dia.

O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) deve: i) ser elaborado por equipe multidiscipli-
nar habilitada; ii) contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização de projeto,
comparando-as com a hipótese de não execução do projeto; iii) identificar e avaliar os impactos
ambientais gerados nas fases de implantação (que é a obra propriamente dita) e operação (que
corresponde ao uso posterior à conclusão das obras); iv) definir os limites da área geográfica a
ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos, denominada área de influência do projeto;
considerando, em todos os casos, a bacia hidrográfica na qual se localiza; e, por fim, v) consi-
derar os planos e programas governamentais, propostos e em implantação na área de influência,
e sua compatibilidade com o projeto.

As seguintes atividades técnicas, no mínimo, devem ser desenvolvidas em um EIA15:

a. diagnóstico ambiental da área de influência do empreendimento contendo a


descrição e análise dos recursos ambientais e suas interações, tal como existem, de
modo a caracterizar a situação ambiental da área de influência do empreendimento,
antes da implantação do projeto, considerando os meios físico (o subsolo, as águas, o
ar e o clima, destacando os recursos minerais, o relevo, os tipos e aptidões do solo, os
corpos d’água, o regime de chuvas etc.), biológico (animais e plantas) e socioeconômico
15 - Resolução Conama 001/1986, art. 6º.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


33

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


(o uso e ocupação do solo, os usos da água e a sócio-economia, destacando os sítios
e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade, as relações de
dependência entre a sociedade local, os recursos ambientais e a potencial utilização
futura desses recursos);

b. análise dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, por meio


da identificação, previsão da extensão e interpretação da importância dos prováveis
impactos relevantes, discriminando: os impactos positivos e negativos, diretos e
indiretos, imediatos e a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau
de reversibilidade; suas propriedades cumulativas e sinérgicas; a distribuição dos
custos e benefícios sociais;

c. definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos, entre elas os


equipamentos de controle e sistemas de tratamento de despejos, avaliando a
eficiência de cada uma delas; e

d. elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento dos impactos positivos


e negativos, indicando os fatores e parâmetros a serem considerados.

O órgão responsável pelo licenciamento avaliará e indicará, conforme o caso, a necessida-


de de realização de audiências públicas para que a população afetada possa participar efetiva-
mente do processo16.

Nos casos em que o impacto ambiental de determinada atividade for considerado não
significativo, o órgão ambiental competente pode solicitar outros estudos ambientais mais sim-
plificados17 que o EIA, tais como: (i) relatório ambiental; (ii) plano e projeto de controle ambiental;
(iii) relatório ambiental preliminar; (iv) diagnóstico ambiental; (v) plano de manejo; (vi) plano de
recuperação de área degradada; e (vii) análise preliminar de risco.

O Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), por sua vez, consiste em uma espécie de resu-
mo do EIA, escrito em linguagem mais acessível, com o objetivo de atender à demanda da socie-
dade por informações a respeito do empreendimento e de seus impactos, devendo ser ilustrado
por mapas, quadros, gráficos e outras técnicas de comunicação visual, de modo que se possam
entender claramente as possíveis consequências ambientais do projeto e suas alternativas, com-
parando vantagens e desvantagens de cada uma delas18.

16 - Idem, art. 11, § 2º.


17 - Resolução Conama 237, art. 12, § 1º.
18 - Milaré, Édis; Benjamin, Antonio Herman V. Estudo prévio de impacto ambiental: teoria, prática e legislação. São Paulo: RT, 1993, p. 47.

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8.2 Licença de Instalação


Tribunal de Contas da União

A Licença de Instalação atesta a inclusão das medidas mitigadoras no projeto e, assim,


permite que seja iniciada a obra propriamente dita. Nenhuma obra sujeita a licenciamento am-
biental pode ser iniciada sem a respectiva Licença de Instalação (LI).

A licença de instalação deve ser obtida antes do início efetivo das obras.

Ao conceder a LI, o órgão gestor de meio ambiente terá:

a. autorizado o empreendedor a iniciar as obras;

b. concordado com as especificações constantes dos planos, programas e projetos


ambientais, seus detalhamentos e respectivos cronogramas de implementação;

c. verificado o atendimento das condicionantes determinadas na licença prévia;

d. estabelecido medidas de controle ambiental, com vistas a garantir que a fase de


implantação do empreendimento obedecerá aos padrões de qualidade ambiental
estabelecidos em lei ou regulamentos; e

e. fixado as condicionantes da licença de instalação (medidas mitigadoras e/ou


compensatórias).

Vale lembrar que o licenciamento é um compromisso, assumido pelo empreendedor junto


ao órgão ambiental, de atuar conforme o projeto aprovado. Portanto, alterações promovidas no
projeto após a emissão da LP e/ou da LI, que possam ampliar sua área de influência ou modificar
qualquer das formas de prejuízo ambiental originalmente previstas, devem ser levadas novamen-
te ao conhecimento do órgão ambiental.

O prazo de validade da Licença de Instalação deverá ser, no mínimo, o estabelecido pelo


cronograma de instalação do empreendimento, podendo ser prorrogado, desde que não ultra-
passe o prazo máximo de seis anos19.

19 - Resolução Conama 237/1997, art. 18, inciso II e § 1º.

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35

8.3 Licença de Operação

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


A Licença de Operação (LO) possibilita o funcionamento do empreendimento, após a veri-
ficação do cumprimento de todas as condições previstas pelas licenças anteriores.

Sendo assim, a licença de operação possui três características básicas:

a. é concedida após a verificação, pelo órgão ambiental, do efetivo cumprimento das


condicionantes estabelecidas nas licenças anteriores (prévia e de instalação);

b. contém as medidas de controle ambiental (padrões ambientais), que servirão de


limite para o funcionamento do empreendimento ou atividade; e

c. especifica as condicionantes obrigatórias determinadas para a operação do


empreendimento. Condicionantes que, caso não cumpridas, podem causar a suspensão
ou cancelamento da operação.

O prazo de validade da Licença de Operação deverá considerar os planos de controle am-


biental e será de, no mínimo, 4 anos e, no máximo, 10 anos, podendo o órgão ambiental com-
petente estabelecer prazos de validade específicos para empreendimentos ou atividades que,
por sua natureza e peculiaridades, estejam sujeitos a encerramento ou modificação em prazos
inferiores20.

A renovação da Licença de Operação de uma atividade ou empreendimento deverá ser


requerida no mínimo 120 dias antes do término de seu prazo de validade, fixado na respectiva
licença, ficando esse prazo automaticamente prorrogado até a manifestação definitiva do órgão
ambiental21.

Nessa ocasião, o órgão ambiental poderá, mediante decisão motivada, aumentar ou di-
minuir o seu prazo de validade, após avaliação do desempenho ambiental da atividade ou em-
preendimento no período de vigência anterior, respeitados os limites estabelecidos (de 4 a 10
anos)22.

Por fim, merece registro que o órgão ambiental monitora, ao longo do tempo, o trato das
questões ambientais e das condicionantes determinadas ao empreendimento.

20 - Idem, art. 18, inciso III e § 2º.


21 - Idem, art. 18, § 4º.
22 - Idem, art. 18, § 3º.

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9. Projeto executivo
Tribunal de Contas da União

De acordo com sua definição legal, projeto executivo é o conjunto dos elementos ne-
cessários e suficientes à execução completa da obra, de acordo com as normas pertinentes da
Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT23.

A NBR 13.531/1995, por sua vez, define projeto executivo como uma etapa destinada à
concepção e à representação final das informações técnicas da edificação e de seus elementos,
instalações e componentes, completas e definitivas, necessárias e suficientes à licitação (con-
tratação) e à execução dos serviços de obra correspondentes.

Diante dessas definições e considerando que o projeto básico também deve conter todos
os elementos necessários e suficientes à caracterização da obra, elaboração de seu orçamento e
sua licitação, pode surgir a dúvida de quais seriam efetivamente os elementos que diferenciam
o projeto básico do executivo.

Em síntese, pode-se dizer que o projeto executivo seria o projeto básico complementado
por informações que não acarretem impacto no orçamento ou que este impacto seja mínimo e
insignificante24.

Cita-se, como exemplo, o projeto estrutural de uma edificação em concreto armado, que,
como visto anteriormente, deve, obrigatoriamente, fazer parte do projeto básico. As plantas de
formas são peças constantes de um projeto de estruturas. Nelas serão discriminadas as dimen-
sões de todos os elementos estruturais da obra. A partir dessas plantas, o orçamentista pode
calcular os quantitativos de forma para incluir o serviço na planilha orçamentária, considerando
as dimensões de cada viga, pilar, laje, bem como o tipo de forma a ser utilizada para a confecção
desses elementos.

Existe, entretanto, a possibilidade de melhor particularizar esses projetos. Pode-se elaborar


o “projeto executivo de formas”, no qual será definido com mais detalhes o procedimento exe-
cutivo de cada peça estrutural, indicando-se a dimensão das chapas de madeirite e a posição dos
cortes nessas chapas de modo a otimizar o seu reaproveitamento, o posicionamento das peças
para escoramento das lajes e o travamento das vigas e pilares etc.

São detalhes importantes à execução da obra, que visam à eficiência no uso dos recursos
e reduzem o risco de erros construtivos, mas que não têm impacto no custo da obra, já que não
se modificam as quantidades ou as dimensões dos elementos estruturais; nem a quantidade de
aço ou as especificações do concreto.

23 - Lei 8.666/1993, art. 6º, inciso X.


24 - Acórdão 1874/2007 – TCU – Plenário

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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Outro exemplo possível é um projeto hidrossanitário. Em ramais de esgoto pode ser ne-
cessário furar algum elemento estrutural para passar os tubos com o caimento especificado. O
projeto executivo detalhará o exato posicionamento, dimensão e altura do furo, bem como a
posição das emendas e das conexões, de acordo com a inclinação indicada no projeto básico.
Sem modificar, todavia, o comprimento ou a bitola da tubulação25.

10. Critérios importantes de concepção de projeto


Nos tópicos anteriores desta aula vimos as características gerais dos projetos e as informa-
ções que deles devem fazer parte, de tal modo que seja possível caracterizar adequadamente
obra a ser executada, conforme os requisitos previstos nas normas técnicas e na legislação.

Foram abordados apenas os tipos de informação, sem maiores detalhes sobre as escolhas
que o gestor deve fazer durante a elaboração dos projetos. Qual critério deve ser utilizado, por
exemplo, para definir se o corredor de um prédio vai ter a largura de 1 m ou de 2 m?

Não seria possível detalhar todos os aspectos relacionados a essas escolhas, tendo em vista
que as possibilidades são praticamente infinitas e os condicionantes são diferentes para cada
projeto. Isso significa que o gestor público tem a responsabilidade de fazer as melhores escolhas
possíveis, visando atender ao interesse público, não existindo uma fórmula específica para se
definir previamente qual escolha é a mais adequada.

Apesar de não existir uma fórmula, existem alguns requisitos que devem servir de orien-
tação ao gestor público e aos profissionais responsáveis técnicos quando definem qual caminho
seguir durante a elaboração de um projeto de obra pública. Alguns desses requisitos serão de-
talhados a seguir.

10.1 Acessibilidade

Um aspecto fundamental a ser observado nos projetos de obras públicas é a acessibilidade.


A legislação define acessibilidade como a “possibilidade e condição de alcance para utilização,
com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, trans-
portes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros
serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na
zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida”26.

25 - Exemplos extraídos do livro “Obras públicas Comentários à Jurisprudência do TCU”, Campelo, Valmir; e Cavalcante, Rafael Jardim;
editoria Fórum, 2012.
26 - Lei 10.098/2000, art. 2º, inciso I..

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Tribunal de Contas da União

As disposições federais que tratam do tema estão em sua maior parte abrangidas pelas
Leis 10.048/2000 e 10.098/2000 — que tratam do atendimento prioritário (a idosos, gestantes,
deficientes etc) e da promoção da acessibilidade —, e do Decreto 5.296/2004, que regulamenta
essas leis. Além disso, a Norma Brasileira NBR 9.050/2015, da Associação Brasileira de Normas
Técnicas – ABNT, tem papel importante ao definir em detalhes uma série de parâmetros que
devem ser observados.

Para saber mais...


ÂÂ A NBR 9.050/2015, que define em detalhe os requisitos de acessibilidade a serem observados
está disponível na biblioteca do curso e pode ser acessada também no endereço http://www.
pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/arquivos/%5Bfield_generico_imagens-filefield-
description%5D_164.pdf

Quando se fala em acessibilidade, logo pensamos nas pessoas que utilizam cadeiras de
rodas, mas vale lembrar que essa ideia não se limita aos cadeirantes, incluindo qualquer pessoa
que tenha algum tipo de limitação, ainda que temporária, a exemplo de crianças, gestantes,
idosos, deficientes visuais, deficientes auditivos, acidentados que estejam ainda em recuperação,
entre outros.

O conceito de acessibilidade vai além do acesso físico e da locomoção, abrangendo a


disponibilidade de informações em formato apropriado, de servidores qualificados para prestar
adequado atendimento (com conhecimento da Língua Brasileira de Sinais, por exemplo) e de
diversos outros meios que garantam o efetivo acesso aos serviços públicos prestados e o pleno
exercício da cidadania por todos os cidadãos.

Considerando o enfoque do presente curso na área de obras, abordaremos com maior


destaque os aspectos relacionados à eliminação de barreiras que impeçam os portadores de
deficiência ou com mobilidade reduzida realizarem atividades simples do dia a dia, como chegar
até a recepção de um órgão público ou utilizar o banheiro sem que seja necessário o auxílio de
outra pessoa.

Qual seria o papel do gestor público para garantir que os requisitos de acessibilidade sejam
cumpridos nos projetos sob sua responsabilidade?

Para saber mais...


ÂÂ Caso você tenha interesse em ampliar os conhecimentos relacionados à acessibilidade, poderá
encontrar referência adicional na biblioteca do curso, que trata do desenho universal, um conceito que
vai um pouco além das diretrizes previstas na norma e na legislação brasileira.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Primeiramente, vale lembrar que o Decreto 5.296/2004 já prevê em seu art. 11 a obri-
gatoriedade de que as obras de reforma ou construção contemplem os requisitos de acessibi-
lidade previstos nas normas técnicas da ABNT. Além disso, o § 1º do mesmo artigo exige uma
declaração expressa, dos profissionais responsáveis técnicos pelos projetos, informando que tais
requisitos foram atendidos.

ACÓRDÃO 2.170/2012

Em 2012 o TCU realizou auditoria para avaliar as condições de acessibilidade nos edifícios dos órgãos e
entidades públicos federais, que resultou no Acórdão 2.170/2012 – TCU - Plenário. As conclusões do trabalho
indicaram que parcela significativa das edificações não atende aos requisitos de acessibilidade, embora a
legislação e as normas sobre o tema sejam suficientemente detalhadas para possibilitar a orientação dos
gestores, o que reforça a necessidade de o gestor público agregar essa preocupação às suas diretrizes de
ação governamental.

O que se verifica na prática, conforme demonstrou a auditoria realizada pelo TCU, é que
essas exigências não têm sido suficientes para garantir que as obras contribuam efetivamente
para a inclusão social das pessoas portadoras de deficiências ou com mobilidade reduzida, uma
vez que as normas previstas acabam sendo descumpridas. É preciso, portanto, que o gestor este-
ja atento à importância dessa questão e exija dos profissionais o cumprimento de tais requisitos,
tratando-os como prioridade.

A NBR 9050/2015 prevê uma série de soluções que podem ser adotadas em projeto para
eliminar barreiras. No entanto, não seria possível expor todas essas soluções e seus detalhes
técnicos no âmbito deste curso. Em função disso, relacionam-se a seguir alguns exemplos dos
principais elementos a serem observados, não somente em obras públicas, mas mesmo em obras
particulares que possuam acesso público, como centros comerciais, cinemas etc:

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• Vagas de estacionamento exclusivas;

https://thaisfrota.files.wordpress.com/2010/07/museu-do-futebol-vagas-acessiveis.jpg

• Rampas de acesso a calçadas e outros locais em geral com inclinação adequada;

http://www.
rhinopisos.com.br/_
libs/imgs/final/631.jpg

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• Dimensão das portas;

http://assimcomovoce.folha.blog.uol.com.br/images/cine5.jpg

• Sanitário com barras de apoio adequadamente posicionadas;

http://2.bp.blogspot.com/_vEPHrBHF8qY/R7GdWN0yvxI/
AAAAAAAAAW0/Q8bM8nofMpQ/s400/banheiro%2Bseguro.jpg

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• Balcões de atendimento com altura adequada;

http://4.bp.blogspot.com/_uOJYI-fTo80/TTSHF4DXE6I/
AAAAAAAAAFU/6oJ7NaAApbw/s1600/DSC00499.JPG

• Piso podotátil para orientação dos deficientes visuais;

http://www.cemear.com.br/wp-content/gallery/pisos-de-borracha/indicativo-de-
alerta-e-direcao.jpg

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


• Sinalização em braile ou com dispositivo sonoro, também para orientar os deficientes
visuais.

https://lh6.googleusercontent.com/-46pfaxFgI84/TYvI7gRUldI/
AAAAAAAAARU/7ibXO-VBgQs/s1600/DSCN0471+red+50.jpg

Essas diretrizes de acessibilidade devem estar presentes desde as etapas iniciais de concep-
ção do projeto, pois eventuais adaptações realizadas posteriormente costumam ser mais caras e
apresentar resultados menos satisfatórios, uma vez que as possibilidades de solução tornam-se
mais restritas. Por exemplo, se um edifício for projetado sem a previsão de rampas de acesso, a
adaptação futura com a inclusão das rampas pode ser impossível por falta de espaço. Isso pode
resultar na necessidade de colocação de elevadores, os quais possuem custos maiores de implan-
tação e manutenção.

Além disso, as soluções devem ser implantadas de maneira criteriosa e seguindo rigorosa-
mente os parâmetros previstos na norma. Caso contrário, a segurança dos usuários e o próprio
funcionamento da solução podem ficar comprometidos. A construção de uma rampa com in-
clinação excessiva, por exemplo, pode aumentar o
risco de queda dos usuários, mesmo daqueles que
não possuem mobilidade reduzida, além de impos-
sibilitar a utilização por cadeirantes.

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10.2 Sustentabilidade
Tribunal de Contas da União

As atividades da construção civil são responsáveis por parcela significativa dos impactos ge-
rados pelo homem sobre o meio ambiente, o que torna pertinente a exigência de licenciamento
ambiental, conforme abordado em tópico anterior. No entanto, as obrigações do gestor público
em relação aos cuidados com o meio ambiente quando planeja e executa obras não se limitam
às exigências do licenciamento.

Essas preocupações devem estar orientadas para a promoção do desenvolvimento susten-


tável, um desenvolvimento que seja capaz de atender às necessidades do presente sem compro-
meter a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades27.

Alguns exemplos dos impactos mais usuais causados pelas obras são a geração de entulho
e lixo, o impedimento de que as águas da chuva penetrem no solo, o desmatamento, a extração
de recursos naturais como madeira, pedras e areia. A aplicação de princípios de sustentabilidade
na elaboração de projetos e na execução de obras públicas pode reduzir significativamente esses
e outros impactos.

Mais do que um elemento que agrega valor ao projeto, o uso de critérios de sustentabili-
dade ambiental na concepção de obras públicas é um dever do gestor. Desde a década de 1980
a legislação brasileira já previa princípios orientadores de uma ação governamental que promova
o desenvolvimento associado à preservação do meio ambiente, a exemplo da Lei 6.938/1981,
que instituiu a Política Nacional de Meio Ambiente, e da própria Constituição Federal de 1988.
Com a Lei Federal 12.349/2010, a “promoção do desenvolvimento nacional sustentável” passou
a constar explicitamente como um dos objetivos fundamentais da licitação.

Ainda no ano de 2010, a Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério


do Planejamento, Orçamento e Gestão, editou a Instrução Normativa n. 1/2010, que traz a se-
guinte determinação:

“as especificações para a aquisição de bens, contratação de serviços e obras por parte dos
órgãos e entidades da administração pública federal (...) deverão conter critérios de sus-
tentabilidade ambiental, considerando os processos de extração ou fabricação, utilização e
descarte dos produtos e matérias primas”.

Vale lembrar que essa Instrução Normativa é aplicável aos órgãos do Poder Executivo
Federal e também a todos os estados e municípios que executem recursos federais transferidos
por meio de convênio, contrato de repasse ou outros instrumentos semelhantes. Assim, o de-
senvolvimento de projetos para obras públicas deve contemplar elementos de sustentabilidade e
redução do impacto ambiental.

27 - “Nosso Futuro Comum” - Relatório, elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das
Nações Unidas – 1988.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


A avaliação de alternativas que contemplem tais requisitos deve levar em consideração, en-
tre outras coisas, a disponibilidade de produtos no mercado, o custo de construção, a operação,
a manutenção e a viabilidade econômica, envolvendo a ponderação dos custos e dos benefícios
de cada alternativa.

Grande parte das soluções ditas sustentáveis podem apresentar custos mais elevados de
implantação, os quais podem ser compensados pela maior durabilidade ou pela redução nos
custos de manutenção e operação. Todos esses fatores devem ser ponderados nas escolhas de
projeto e, caso a solução não se mostre viável, a alternativa deve ser descartada.

Os princípios de sustentabilidade aplicados às obras públicas relacionam-se em grande


parte às seguintes ideias:

• concepção integrada dos projetos de modo a promover o melhor aproveitamento


possível das condições ambientais de implantação como entorno urbano, relevo,
vegetação, clima, iluminação e ventilação naturais, entre outros. Um projeto que
conserve a vegetação existente no lote anteriormente à obra, mantendo áreas de
sombra ao redor da edificação, por exemplo, pode reduzir ou até mesmo eliminar a
necessidade de se utilizar ventiladores e aparelhos de ar condicionado para garantir o
conforto dos usuários;

• gestão de resíduos, especialmente entulho e lixo, buscando reduzir a quantidade


produzida e dar o adequado tratamento a esses materiais, com a separação e o máximo
possível de reaproveitamento;

http://www.epo.
com.br/wp-content/
uploads/2010/12/101228_
SITE_RA_PDZ_24.jpg

Para saber mais...


ÂÂ O Senado Federal editou uma cartilha intitulada: Edifícios Públicos Sustentáveis, que traz uma série
de informações relevantes relacionadas ao tema da sustentabilidade em obras públicas. A publicação
pode ser acessada no endereço https://www12.senado.leg.br/institucional/programas/senado-verde/
pdf/Cartilhaedificios_publicos_sustentaveis_Visualizar.pdf e também está disponível na biblioteca do
curso.

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46
Tribunal de Contas da União

• utilização de sistemas que reduzam o consumo de água como, por exemplo, torneiras
automáticas e descargas com acionamento duplo;

http://www.acessibilidadenapratica.com.br/wp-content/
uploads/2012/01/92117-torneiras-para-banheiro-com-sensor-2.jpg

• utilização de materiais com certificação ambiental;

Para saber mais...


ÂÂ A simples produção de um meio-fio pode agregar elementos de sustentabilidade com a utilização
de entulho e material reciclado na composição dos blocos de concreto. Clique aqui e veja uma
reportagem sobre o tema.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


• utilização de equipamentos com maior eficiência no consumo de energia elétrica;

http://lagyn.com.br/public/imagem/conteudo/ckfinder/images/dicas/Selo-
Procel-img.jpg

• utilização de energias alternativas à elétrica, como, por exemplo, a energia solar para
aquecimento de água e suprimento da edificação como um todo;;

http://thonilitsz.arq.br/a-energia-solar-explicada-para-
nosso-uso/#.U_yhP_ldXcg

Há, portanto, diversas soluções que podem e devem ser avaliadas e implantadas pelo ges-
tor público na execução de obras. Essas soluções podem ser aplicadas a qualquer tipo de obra,
seja de pequeno, médio ou grande porte. Para tanto, é preciso que o gestor considere a questão
da sustentabilidade ambiental como um componente fundamental dos seus projetos, transmi-
tindo aos profissionais responsáveis técnicos as diretrizes necessárias, desde o momento da con-
cepção e não apenas como um complemento. Isso significa que a necessidade de atendimento
de quesitos de sustentabilidade deve ser registrada desde as etapas iniciais de contratação, nos
editais de licitação dos estudos e projetos.

Tribunal de Contas da União


48
Tribunal de Contas da União

Considerando que a inclusão de quesitos de sustentabilidade ambiental às obras e a qual-


quer produto de modo geral costuma ser considerado um fator positivo por todas as pessoas,
vale fazer um alerta com relação à chamada “maquiagem verde”, que é a utilização indevida
dessa boa imagem de sustentabilidade na promoção de ações e produtos que, em uma análise
mais criteriosa, não poderiam ser considerados verdadeiramente como sustentáveis.

http://www.
forumdaconstrucao.
com.br/conteudo.
php?a=23&Cod=1471

Exemplo desse tipo de solução seria um material produzido a partir de reciclagem, mas
que possua baixa durabilidade e elevados custos de manutenção. O risco de adotar uma solução
imprópria reforça a necessidade de que o gestor público esteja atento às alternativas disponíveis
no mercado e que os profissionais forneçam informações corretas e completas para orientar as
decisões de projeto.

10.3 Norma de desempenho – NBR 15575/2013

A NBR 15.575/2013 foi uma inovação importante na indústria da construção civil. Trata-se
de uma norma técnica da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que estabelece parâ-
metros e requisitos de desempenho para edificações habitacionais, a serem avaliados por meio
de ensaios que descreve.

Essa norma refere-se explicitamente apenas a edificações habitacionais. No entanto, as


obras de edificações administrativas, de escolas, de hospitais e outras também podem utilizar os
conceitos ali descritos para orientar seus projetos.

É importante mencionar que a norma não se aplica a obras já concluídas; a constru-


ções pré-existentes; a obras que estivessem em andamento até o início da vigência da norma
(19/7/2013); e a edificações habitacionais de curta permanência (hóteis).

Um conceito importante trazido pela norma é o de que o desempenho da obra tem re-
lação direta com os componentes, elementos e sistemas da edificação. O componente é uma
“unidade integrante de determinado sistema da edificação, com forma definida e destinada a

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


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Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


atender funções específica (por exemplo, bloco de alvenaria, telha, folha de porta)”. O elemento,
por sua vez, é um conjunto de componentes (por exemplo, uma parede de vedação de alvenaria,
um painel de vedação pré-fabricado ou a estrutura da cobertura). Já o sistema é um “conjunto
de elementos e componentes destinados a atender uma macrofunção que o define (por exem-
plo, fundação, estrutura, pisos, vedações verticais, instalações hidrossanitárias, cobertura)”28.

Os requisitos de desempenho mais importantes que devem ser avaliados em cada um dos
sistemas que integram a edificação são:

I. desempenho estrutural, envolvendo além da estabilidade da estrutura, a resistência


de pisos, paredes e a capacidade desses elementos para suportar impactos e cargas;

II. segurança contra incêndio, abrangendo questões como barreiras ao início e à


propagação do fogo, rotas de fuga, equipamentos extintores a acesso à edificação pelo
corpo de bombeiros;

III. segurança no uso e operação da edificação, incluindo critérios que visam minimizar a
possibilidade de ferimentos nos usuários, causados, por exemplo, por choques elétricos,
tropeções, quedas e queimaduras;

IV. funcionalidade e acessibilidade, envolvendo as dimensões adequadas dos


ambientes para que sejam capazes de abrigar os equipamentos, móveis e as atividades
desempenhadas pelos usuários. A norma estabelece, por exemplo, que o pé-direito
mínimo de 2,50 m para áreas onde as pessoas permanecem por mais tempo como
cozinha e sala; e de 2,30 m para banheiros e corredores. Há também várias disposições
relativas à disponibilidade mínima de espaços para uso e operação da unidade
habitacional;

V. conforto tátil e antropodinâmico, incluindo questões relacionadas à movimentação


dos usuários e à operação de alguns dispositivos com grau de conforto apropriado.
Esses requisitos abordam, por exemplo, irregularidades nos pisos, a força necessária
para a abertura e fechamento de trincos e torneiras, dentre outros aspectos;

VI. desempenho térmico e lumínico, abrangendo itens relacionados à ventilação dos


ambientes, à incidência de sol na edificação, à manutenção temperaturas adequadas
especialmente nos períodos de inverno e verão, aos níveis de iluminação artificial
(luminárias, lâmpadas etc) e natural (janelas);

VII. desempenho acústico, envolvendo o emprego de componentes, elementos e sistemas


que reduzam os níveis de ruídos entre unidades vizinhas, ou mesmo o barulho externo
que afeta o interior da edificação;

28 - CBIC. Guia Orientativo para Atendimento à Norma ABNT NBR 15575/2013.

Tribunal de Contas da União


50
Tribunal de Contas da União

estanqueidade à água, considerando a capacidade dos diversos sistemas como paredes,


telhado, instalações hidrossanitárias a resistir à infiltração da água, de modo a evitar que a umi-
dade comprometa a durablidade da obra e as condições de saúde dos usuários;

VIII. durabilidade, levando em conta o período em que os diversos sistemas devem


permanecer funcionando adequadamente sem que seja necessário a realização de
obras de reforma. A norma estabelece padrões de durabilidade mínimo, intermediário
e superior; e

IX. manutenibilidade, abrangendo critérios relacionados à gestão da manutenção


predial, de modo a garantir que os componentes e sistemas permaneçam funcionando
adequadamente.

Outro conceito previsto na norma é o de Vida Útil de Projeto (VUP), assim considerado o
período de tempo estimado em projeto durante o qual a obra consegue atender sua finalidade,
considerando as manutenções periódicas a serem realizadas. De acordo com a NBR 15.575/2013,
a VUP deve ser explicitamente registrada no projeto. Na ausência de indicação explícita em pro-
jeto, deverão ser adotados os parâmetros mínimos. O quadro a seguir indica os prazos de VUP
para diversos sistemas29:

VUP (anos)
SISTEMA
Mínimo Intermediário Máximo
Estrutura ≥ 50 ≥ 63 ≥ 75
Pisos internos ≥ 13 ≥ 17 ≥ 20
Vedação vertical externa ≥ 40 ≥ 50 ≥ 60
Vedação vertical interna ≥ 20 ≥ 25 ≥ 30
Cobertura ≥ 20 ≥ 25 ≥ 30
Hidrossanitário ≥ 20 ≥ 25 ≥ 30

* Considerando periodicidade e processos de manutenção segundo a ABNT NBR 5674 e especificados no respectivo Manual
de Uso, Operação e Manutenção entregue ao usuário elaborado em atendimento à ABNT NBR 14037

A norma também destaca que, antes de elaborar o projeto, devem ser realizados levan-
tamentos detalhados das condições locais onde será implantado o empreendimento, entre os
quais a sondagem do solo e o estudo das condições climáticas. Isso porque as condições do local
de implantação afetam diretamente o desempenho da edificação.

A norma também reforça a necessidade de as obras habitacionais serem acessíveis a por-


tadores de necessidades especiais, obedecendo a requisitos de acessibilidade.

29 - CBIC. Guia Orientativo para Atendimento à Norma ABNT NBR 15575/2013, p. 197.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


51

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Todos esses exemplos foram mencionados apenas com o fim de mostrar as inovações tra-
zidas pela NBR 15.575/2013. Para maiores informações sobre a norma de desempenho, sugere-
-se a leitura do guia orientativo produzido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção
(CBIC), disponível no endereço http://www.cbic.org.br/arquivos/guia_livro/Guia_CBIC_Norma_
Desempenho_2_edicao.pdf.

Tribunal de Contas da União


52 Síntese
Tribunal de Contas da União

Na aula de hoje tratamos da etapa de elaboração de projetos, desen-


volvida a partir dos estudos e levantamentos preliminares, e que será funda-
mental para que obra a ser executada atenda adequadamente tanto às neces-
sidades da população e da administração quanto aos requisitos da legislação
e das normas técnicas.

Vimos a possibilidade de que os projetos sejam elaborados pelos próprios servidores da ad-
ministração pública — desde que devidamente qualificados e em número suficiente para garantir
um projeto completo e atual —, ou por uma empresa contratada. Mesmo no caso de contrata-
ção do projeto, o gestor público permanece responsável por atestar a qualidade e adequação
dos documentos recebidos.

Abordamos ainda a diferenciação entre anteprojeto, projeto básico e projeto executivo,


sendo que o primeiro tem menor grau de detalhamento e sua utilização para licitar obras é ex-
ceção prevista apenas no Regime Diferenciado de Contratações (RDC), no caso da contratação
integrada. O projeto básico, por sua vez, deve ter todos os elementos necessários e suficientes
à perfeita caracterização da obra, e o projeto executivo inclui informações adicionais ao projeto
básico, sem alterar as características, quantidades ou preços anteriormente previstos.

Detalhamos também quais são os elementos que devem constar de cada uma dessas eta-
pas de projeto, como desenhos, especificações técnicas, planilhas, memoriais e suas respectivas
informações.

Por fim, observamos alguns dos requisitos essenciais que devem orientar o gestor público
nas escolhas que faz durante a elaboração dos projetos, relacionados à acessibilidade, à susten-
tabilidade e ao desempenho de edificações.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


Bibliografia 53

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


Acórdão 632/2012-TCU-Plenário

Acórdão 1.510/2013-TCU-Plenário.

Acórdão 1.841/2008-TCU-Plenário

Acórdão 1.874/2007 – TCU – Plenário

Acórdão 1292/2003 – TCU – Plenário e 644/2007 – TCU – Plenário

Acórdão 2.170/2012 – TCU – Plenário

Acórdãos 141/2014 – TCU – Plenário e 625/2010 – TCU – 2ª Câmara.

Acórdãos 1465/2013-TCU-Plenário, 1510/2013-TCU-Plenário e outros.

TCU – Tribunal de Contas da União. “Obras Públicas: Recomendações Básicas para a Contratação
e Fiscalização” – 3ª Edição, TCU/SecobEdificação, 2013.

Decreto 5.296/2004

Decreto 7.983/2013

Dicionário Michaelis, disponível em http://michaelis.uol.com.br/

IN 01/2010 SLTI

Lei 10.048/2000

Lei 10.098/2000

Lei 10.098/2000

Lei 11.768/2008 (LDO 2009)

Lei 12.349/2010

Lei 12.462/2011, art. 9º, §2º, inciso I.

Lei 5.914/66

Tribunal de Contas da União


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Tribunal de Contas da União

Lei 6.938/1981

Lei 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente

Lei 8.666/1993

Lei 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais).

Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965

ALTOUNIAN, Cláudio Sarian. “Obras Públicas: Licitação, Contratação, Fiscalização e Utilização”


- 3ª Edição, Ed. Fórum, 2012.

CAMPELO, Valmir; JARDIM, Rafael. Obras Públicas: comentários à jurisprudência do TCU. Belo
Horizonte: Fórum, 2012.

MILARÉ, Édis; BENJAMIN, Antonio Herman V. Estudo prévio de impacto ambiental: teoria, prática
e legislação. São Paulo: RT, 1993.

NBR 13.531/1995

NBR 13.532/1995

NBR 15.575/2013

NBR 9.050/2015

Orientação Técnica 1/2006 do Instituto Brasileiro de Auditoria de Obras Públicas (OT - IBR
001/2006)

Resolução 001/1986 do Conama

Resolução Conama 237/1997

Súmula 158

Súmula 260

Súmula 261

SITES DA INTERNET - http:/www.cbic.org.br

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


Glossário 55

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


bitola - medida padrão geralmente utilizada para identificar o diâmetro de materiais utilizados
na construção como, por exemplo, tubos de água e esgoto, barras de aço, fios e cabos elétricos
etc.

bota-fora - material excedente em serviços de terraplenagem, escavado em cortes e não apro-


veitado em aterros, o qual é depositado fora do local das obras.

contratação integrada - regime de execução contratual de obras públicas criado pela lei que
instituiu o Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC) - Lei 12.462. Nesse regime é
permitida a contratação da obra a partir do anteprojeto e o desenvolvimento posterior deste
(que resultará nos projetos básico e executivo) fica a cargo da própria empresa responsável pela
execução da obra.

desvirtuamento das condições iniciais avençadas - alteração das condições de execução


contratual em desrespeito aos limites estabelecidos pela legislação, ocasionando prejuízos aos
princípios fundamentais da contratação pública como, por exemplo, a isonomia, a escolha da
proposta mais vantajosa dentre outros.

direitos patrimoniais - direitos relacionados à retribuição econômica ao autor de uma obra


intelectual. Diz respeito ao direito exclusivo de utilizar, fruir e dispor da obra literária, artística ou
científica de sua autoria. O direito patrimonial do autor lhe concede a possibilidade de ceder ou
licenciar sua obra, podendo explorá-la economicamente como desejar. Os direitos patrimoniais
do autor estão previstos nos artigos 28 a 45 da Lei 9610/98. No caso tratado neste curso refere-
-se ao direito do autor do projeto de receber uma retribuição financeir todas as vezes em que ele
for utilizado.

jazidas - depósito natural de uma ou mais substâncias úteis. Esse termo é utilizado em obras
para designar o local de extração de materiais utilizados na execução como pedras e areia.

jurisprudência - conjunto de interpretações que os tribunais dão à lei, nos casos concretos sub-
metidos ao seu julgamento.

matriz de riscos - instrumento de avaliação e gerenciamento de riscos que relaciona a probabli-


lidade de ocorrência de determinados eventos e o grau de impacto por eles causados. No caso
das obras realizadas no Regime Diferenciado de Contratações, é importante que essa matriz
indique também quem será o responsável pela adoção de medidas eventualmente necessárias,
quando ocorrerem os eventos relacionados na matriz.

Tribunal de Contas da União


56
Tribunal de Contas da União

medidas compensatórias - medidas tomadas pelos responsáveis pela execução de um projeto,


destinadas a compensar impactos ambientais negativos. Em geral, estão ligados a alguns custos
sociais que não podem ser evitados ou ao uso de recursos ambientais não renováveis.

medidas de controle ambiental – são medidas que visam (i) acompanhar as condições do fator
ambiental afetado de modo a validar a avaliação do impacto negativo identificado e/ou da eficá-
cia da medida mitigadora proposta para este impacto, e (ii) servir de subsídio para proposição de
mitigação ou mesmo para aumento do conhecimento tecnológico e científico. São exemplos de
medidas de controle: o monitoramento da qualidade da água de um rio, por meio de medições
periódicas; o monitoramento do nível de ruído gerado pelo canteiro de obras; o monitoramento
da qualidade do ar, próximo a áreas onde há emissão de poluentes etc

medidas mitigadoras - medidas que tendem a reduzir os impactos causados pela atividade
geradora de degradação ambiental.

metodologia expedita ou paramétrica de orçamentação - metodologia de estimativa do


custo da obra com base em algum parâmetro geral como, por exemplo, o custo médio por m²
de construção ou no custo por Km de rodovia. Essa metodologia, embora mais rápida, tende a
ser menos precisa.

nível de serviço - definição que orienta o grau de qualidade dos serviços prestados. De forma
simplificada, poderíamos dizer que a classificação dos acabamentos de uma obra em: padrão
baixo, padrão médio e padrão alto é uma espécie de indicação de nível de serviço.

obras de terra - obras que utilizam o solo como elemento construtivo e funcional, podendo o
solo ser natural ou alterado artificialmente (com adição de cimento, por exemplo). Como exem-
plos de obras de terra temos: taludes, contenções, muros de arrimo, barragens de terra e de
enrocamentos.

orçamento sintético – esse é um tipo de orçamento que possui grau de detalhamento menor
do que o exigido, por exemplo, na etapa do projeto básico. Suas características serão melhor
explicadas na aula 3.

padrões ambientais – são parâmetros que devem ser observados em determinada atividade,
no que diz respeito aos níveis aceitáveis de impacto ambiental gerado, como por exemplo: a
quantidade máxima admissível de determinada substância presente nas águas dos rios, o nível
de ruído máximo admissível em determinadas áreas da cidade etc.

Obras Públicas de Edificação e de Saneamento


57

Módulo 1 - Aula 2 - Elaboração de Projetos


propriedades cumulativas - propriedades relacionadas à resultante adicional de impacto de
determinada ação quando associada a outros impactos passados, presentes e/ou previsíveis no
futuro, independentemente do causador do impacto.

propriedades sinérgicas - propriedades relacionadas à associação simultânea de vários fatores


que contribuem para uma ação coordenada.

reversibilidade - possibilidade de retornar às condições originais após a ocorrência de um im-


pacto ambiental ou modificação.

Sicro - sistema referencial de custos de obras rodoviárias mantido pelo Departamento Nacional
de Infraestrutura de Transportes. Embora o sistema trate principalmente de obras rodoviárias,
traz parâmetros que também podem ser utilizados em diversos outros tipos de obra.

Sinapi - sistema referencial de custos de obras mantido pela Caixa Econômica Federal. Esse é o
principal sistema utilizado na orçamentação de obras públicas federais e tem enfoque em obras
de edificação e saneamento. No entanto, assim como no Sicro, os parâmetros disponíveis do
sistema podem ser adaptados e aplicados aos mais variados tipos de obra.

sistemas de tratamento de despejos - sistemas destinados à redução do potencial ofensivo


dos dejetos eliminados por determinadas atividades poluidoras. Sistema de tratamento de esgo-
tos são um exemplo desse tipo de sistema.

sistemas referenciais de custos de obras públicas - sistemas que registram informações


sobre o custo de materiais, equipamentos, mão-de-obra e outros parâmetros necessários à ela-
boração de orçamentos de obras e serviços de engenharia, e que devem ser utilizados na orça-
mentação de obras públicas. São exemplos de sistemas referenciais de obras públicas o Sinapi, o
Sicro, o Orse dentre outros.

Súmula - texto que busca traduzir de forma clara um entendimento do tribunal sobre determi-
nado tema, que tenha sido anteriormente objeto de dúvida e controvérsia.

superfaturamento - pagamento de valor maior do que o efetivamente devido para a execução


de determinada obra ou serviço.

transfiguração do objeto - modificação excessiva do objeto originalmente contratado, alteran-


do-se a natureza e/ou a finalidade do objeto original.

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