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onsnmznçíxo

Ronmro Imm
Mmm HELENA of Mounn Neves

coonownçno sum
AIAUBA T. of Cnsmno

GRAMÁncA no Pomueuízs
cuno rALAoo No BRAs|L
VOLUME 2
cmssfs of Pmvnns E Pnocsssos DE cousnwção

IE °"'† °'!* Ií

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FICHA CATALOGRAFICA ELABORADA PELO
slsrnma mi mn1.¡o'r1'-:cas DA UNICAMP.
nllurrolua ma Tnxraunnro DA mronmaçao
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G76 1 Gramática do português culto falado no Brasil / coordenação gcrali


Atalìba T. de Castilho; organização: Rodolfo Ilari, Maria Helena de
Moura Neves. - Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2.008.

Contcúdo: vol. 2.. Classes de palavras c processos de construção

1. Língua portuguesa - Português falado. 2.. Língua portugue-


Í sa - Gramática. I. Castilho, Ataliba Teixeira de. II. Ilari, Rodolfo.
III. Neves, Maria Helena de Moura. AIV. Título.

ISBN 978-85-2.68-o83z.-4 CDD 469.5

Índices para catálogo sistemático:

1 . Língua portuguesa - Português falado 459-S


2.. Língua portuguesa - Gramática 469-S

_ ' Copyright © by Organizadores


© 2.oo8 by Editora da UNICAMP

armazemda
mecánicos .
edfitor.

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sumrirrro

rurnoouçio U n a ¢ U | q n I n n I I I I o U Q I 9 ¢ 0 | I I ¢ I I J I I I la
J 0 Q ¢ no

Rodolfo Ilori .........................................................................................................................

l 0 SUBSTANTIVO
Roberto Gomes (omucho, Morize Muttos Doll'Aglio-Hotrnher e
Sebostiüo (urlos Leire Gonçolves................................................................. I c I U n I ¢ I o Q o ¢ 0 n Q O ¢ I a I I u u I Q ø I O I U O U ¡I
I I c D Q n I a o u o u J J no

2 OS ESPEUFICADORES
Atolibo T. de (ostilho, Rodolfo llori, Murio Luizo Brogo, Céliu Murio Moroes de
(ustilho, Roberto Pires de Oliveiro e Renoto Miguel Bosso...,. I O ú I Q I I C U I I U O J Q ¢ I Q ¢ Q C 0 O I O I Q ¡I

PARTE I - ARTIGO DEFINIDO


Murio Luiro Brogo, Rodolfo Ilori, Roberto Pires de Oliveira e
Renato Miguel Busso ......................................._,.................................................... I U U O U OC I I I U I D D I O O O O C O O I I I I 0 0 I C I O C I Il I C I Ó I I O Ó O C I U O O

PARTE 2- DEMONSTRATIVOS .
Atrrlibo T __,______,__ ÁïC-W-_

OIOQIXOOOO

I
O

-_

lll

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0 VERBO

na morfología é a oposição entre dois tem os d ' ` ` ' o im erfeito e o


perfeìto. Não é essa, porém, a orientação que seguimos aqui. No tratamento
dado ao aspecto nas páginas que prccedem, procuramos considerar não só a
morfología, mas também o uso de perífrases e, menos sistematicamente, os
_

adjuntos. Ampliando dessa forma o escopo da investlgação, chega-se a urna


concepção bem diferente: em prìmeiro lugar, oaspecto se exprime de varias ma-
neiras, utilizando recursos gramaticaïš`”ueiis*É completam recíprocamente:
._ 4'_"” *Jr-S-flm' 2* _~y¡_a_ _- Í *'~* 'W' '7"“*`

a) a escolha entre diferentes tempos verbaìs, como em joão ter/e um caso com
uma secretzíria versus foâo tin/ya um caso com uma secretdria;
b) a possível aplicaçãorde auxiliares, como em _/oáo veio versus joâo tem
vindo;
c) o uso facultativo de perífrases, como em_/odo saíu versus joda pegou e saiu
versus joâo deu de sair. "

Em se ar, o leque de matizes aspçctuais que a lingua portuguesa


gramaticalizou é bastante extenso e de certa maneira muito singular. Vimos
4ií"'-_"ï'-_'--'
que pode haver mais ou menos marcas forn§1i§Lde|asp_§cto disponíveis a de-
pender da referencia temporal que se aplica ao processo em questão; vimos
também que as opgöes aspectuais podem variar a depender da classe acional
em que se en o.
Os resultados obtidos são rigorosamente compatíveis com a definição
mais geral de “aspecto”, uma definição na qual quisemos tirar partido do pa-
-í%_

rentesco etimoló ico entre a palavra a definir e outra, mais próxima de nosso
dia a dìa'- 'alvo - melhor J`uízo, essa defini ç ão sai fortal ecida da
análise que propusemos aquì.

7. Modo

A palavr consagrou-se ao longo dos tempos como _o nome da


categoria morfológica realizada pela desìnêngia do verbgqyg çampreende
como opçöes o indicativo, o subjuntivo e o imperativo;
¢¬_ ¬ 1-.-
em outros tempos, a
g considerou como uifi modo à parte a “forma em -ria”
(como “eu gustaria”, “eupoderia”), à qual se dav ' 2 ãoo nome de condicional.
Ninguém duvida que essas opçöes sejam reai compreensão da categoria

31 l

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ii. iuizi - ii. iii. oiisso

de modo como um todo é uma liistória mais complicada, o que 1) nos obrigatá
a recuperar algumas motivaçöes que estavam presentes nas escolhas termino-
lógicas feitas pelos autores latinos e medievais (infelizmente essas opçöes têm
sido objeto de pouca atenção por parte da tradição gramatical); e 2) nos levará
a explicar essas motivaçöes situando-as em algumas linhas de investigação
teórica até certo ponto recentes, que pouco ou nenhum impacto tiveram, até
o momento, na elaboração de gramáticas da lingua portuguesa.

7.1. Uma tlefinigão de modo


Í f _ . ,_, _
od i e a continuaçao da palavra “ s” que, em latim, era dotada
d ` modu. ,
e Ívarios senti-d os._ tc me d-d
1 ass , uieita
. . , .
a algum tipo de controle (dai derivados
recentes como o verbo modul r e o substantivo modzdaçáo), “medida certa”,
~ - r ¿C d. _,
isto e, me ida que nao se deve ultrapassar sob pena de comprometer uma
ação” (dai ditados como “est modus in rebus” (“tudo tem medida”,"l1á_limi-
` tes para tudo”), e derivados como módico, modesto)â e também “maneira de
fazer, eventualmente reveladora de um jei o ou estilo pessoal i(pense-se em 7)

“modusfizciendi”, “cada um a seu modo”). s gramáticos latinizantes recor-


t Qfgr- 1 :F Í - _f†. Í -
reram a essa palavra ao defrontarem-se co' › cessosl1n uisticos que en-
-*L J , ^ ~ al fiì 2
volvem ao mesmo tempoe e -iš O processo de estabili
dšfde e variação que nos inte ' ssaaqui é aque e que se observa quando se
comparam sentenças como:

(7-1) Você vai falar com a proprietária.

(7-2) Vai você'falar com a proprietária.


'_,,
9*/
(-//2"?
'L fi
f”
' \
-n.
(7-3) [O que eu mais quero é que] você vá falar com a proprietária.
\
-m,_- 4

(7-4) Se você for falar com a proprietária, então... Í


\
Intuitivamente, embora tenhamos ai quatro sentenças diferentes, todas reme-
tem a uma mesma experiência (a fala do interlocutor com a proprietária). Para
fixar aintuição de que nas sentenças (7-1)-(7-4) há um conteúdo que não se
altera, e um outro que muda, recorreu-se à oposição terminológica 'mn
I» §m,aE'¿1¿.Ä_, e foi assim que a palavra “modo”, usada para indicar aquilo que
\

se altera em sentenças como (7-1)-(7-4), entrou para a tradição gramatical;


“modo” opöe-se nesse uso a “díctum”, ou seja, o conteúdo proposicional que
/""_"`_'*----""'__"___á""""
l `~

312

, ¿_
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o' vtriao

não se altera. É claro que os verbos das sentenças (7-1)-(7-4) S510 CÍÍSÚHÍOS
morfologicamente:indicativo,__st ' tivo im erativo, COHCÍÍCÍOH3 1” - M as
(C

ein que consiste a distinção? O que têm de comum as várias alternativas? O


qúe está em jogo na escolha? Em outras palavras, qual é o parámetro comum
que subjaz a essas diferenças? '

a) Oque dizem os nomesdos modos- Uma possível linha de resposta


consiste em considerar o nome dos vários modos: é evidente, por exemplo,
. , . . .- - ,. f- _ - __
que na denominaçaofsta
l.
presente a ideia de. conside
tando o que vem a ser uma ordem, pode-se então entender que a função do
imperativo é dizer que um certo conteúdo (um certo dictum) é objeto de
uma ordem, ou, ainda, que, ao utilizarmos o imperativo, realizamos uma
§ï_.ø-f""""ì'í

a ão ue cria ara nosso interlocutor a obrigação de fazer com que um


certo conteúdo s - orne realidade. Nessa mesma linha de reflexão, podemos
observar que 0 é, na grande maioria dos empregos, o modo que
nos permite falar e e situagöes reuis; o indicativo se opöe, -por isso, ao,-Sié-
juntiuo, que, num certo número de seus empregos, ind i
deramos como não-reais. Mas a palavra subjuntivo e seu sinônimo antigo,
conjuntiz/0, apontam para uma outra peculiaridade do emprego desse modo:
a grande freqüência com que ocorre depois de uma conjunção, particular-
mente depois da maioria das conjúngöes subordinativas. A* esses nomes,
cabe acrescentar a denominação antiga da forma em É:à:.antes de entrar
em vigor a Nomenclatura Gramatical Brasileira, na década de 1950, a forma
em _-ria era charnada “condicional”, uma denominação que toma como
- 1 ø 'i' ;- - ; . ¢
prototipico dessä forma o uso que dela se faz no periodo hipotético (' Se eu
ganhasse na Loteria Esportiva, eu compraria um iate”).“3 A função do periodo
hipotético é indicar que a verdade de um certo conteúdo proposicional é
ara 'a da verdade de outro, ou, equivalentemente, que nós estamos con-
d icionan e de um conteúdo à verdade de outro _ Há, em suma,
por trás das denominaçöes tradicionalmente usadas para falar dos modos,
uma análise rudimentar, embora não de todo desinteressante: recuperando
as intuiçóes que estão por trás da escolha das palavras indicativo, imperati-
vo, subjuntivo e condicional deparamos com o g que
podemos sistematizar sumariamente como segue:

n
¢ -¬

_ es 313 mw
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R. ILARI 0 Ii. M. BÃSSU

condicionado (1)
real (2)
não-condicionado ordem (3)
irreal
não-ordem (4)

A @2 separa dos demais modos a forma em “-ria” (que a nomen-


clatura gramatical brasileira não reconhece como um modo à parte, e sim
como um “tempo” do indicativo -- o futuro do pretérito): a segunda chave
separa dos entendido como o modo que descreve
situaçoes reais; a a chave separa o imperativo e o subjuntivo, enten-
didos como duas maneiras diferentes de tratar e situa § öes irreais. Como
já dissemos, o modo que chamamos hoje de “subjuntivo” já teve um outro
norne: “conjuntivo”. As duas denominaçöes, na verdade, captam aspectos
diferentes de um mesmo fenómeno: o contexto sintático tipico de ocorrência
de subjuntivos são as sentenças subordinadas dependentes de conjunçöes
como: que (integrante), se (condicional), desde que, embora, mesmo auenpara
¿ Falar em bjunt` o remete à idéia de subordinação; falar
em c n' nt remete à prese a quase eategórica de conjunçóes. l:Íá casos
---`-__--ìo
de'su em sentenças independentes, particularmente com o advérbio
talvez (mas a presença do subjuntivo junto a esse advérbio não é eategórica,
ou melhor, depende da ordem do verbo em relação ao advérbio):

(7-5) que a tendência /Joje em dia é das pessoas se independizarem economicamente e


pasrarem a viver sozin/Jas, entende e talvez sejaĊcil tu consegui(r) uma empregada
- pra uma persoa só, entende mas a tendência e' não serfiícil, certo?
_ c [DZ POA 37]

(7-6) Não gosto de corrida de automóvel, acho que Fórmula 1 é, talvez, a grande
responsável por essa loucura que nós temos de trânsito.

v/

ecapitulando asexplicaçöesque pudemos extrair dos nomes dados aos mo-


dos do português, verificamos que elas apontam em três direçöes: 1) os modos
I I ,¡ Q - O

distinguem açoes (como ordenar e informar) ; 2) os modos nos ajudam a


__ L ,___-ø-f".°

administrar adistinção entre o real e o ifreal; 3) os modos aparecem como


parte de cerros automatismos sintáticos (ligados, no caso ,à
1-f""'-J___P ”_iri4¬*-_* """` ig- 1 K . ...
resen a de cerros
. verbos re g entes ou de certas con
K
Í _
Z un oes).
_ ¡___ I -17
_ ~ ¿L4-'
s; -sede um
'J 417 Í-.-1--l 1-tí*

\
s

314

li
l _._

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0 VIRBO

resultado até certo ponto desconcertante, porqi \ ele aponta para três linhas
de explicação a ptimeira vista desencontradìsïlf. possível encontrar entre
essas explicaçóes algum elemento comum? Nossa resposta é sim. Para mostrar
como, vamos introduzir aqui, ainda que rapidamente, algumas noçóes deri-
vadas do estudo lógico das modalidades e da teoria filosófico-lingüística dos
atos de fala. f

b) Modos e estados decoisas possiveis -- A teoria lógica das modalidades


.,.___
interessa-se, entre outras coisas, por distiriguir, no grande conjunto das sen-
tenças que são verdadeiras no mundo em que vivemos, aquelas que o são
de maneira apenas contingente (pofeìemplo, 71 prefeítura de Boituva tem
, .Í . I .

nove vereadores) daquelas que o sao de maneira necessaria (por exemplo,


Nove é igual a nove). A maneira clássica de estabelecer essa distinção remon-
ta ao filósof, que viveu na passagem doséculo XVII para o século
XVIII, e consiste em considerar situaçöes alternativas àquela que a sentença
descreve ou, como dizia Leibniz, em considerar outros mundos possíveis.
, . .
Uma-sentença e necessariamente verdadeira uando e verda eira em to os
os mun dos p ossiveis; é contingentemente verdadeira quando sua verdade se
altera conforme o mundo que consideramos; ao passo que não é imaginável
Ñ f 1 í_

uma situação em que 9 = 9 resulte falsa, poderíamos imaginar situaçöes al-


ternativas à situação atual, em que a Cámara Municipal de Boituva tem 11,
'15 etc. vereadores. O que nos interessa, nessa velha discussão, é perceber que
n ossos enun ciados não se interpretam apenas por referência ao mundo real , e `

sim por referência a outros mundos possiveis. O uso dos diferentes modos do
f---K--i-mi-Q

verbo e precisamente uma das tantas maneiras de alertar nossos interlocutores


para o faro de que, em nossas afirmaçöes, estamos levando em consi cão
outros mundos além do real. j

C) Modo eføtsfl da assfirção - relevante para nossos


propósitos é a que reconhece que um mesmo conteúdo proposicional (um
mesmo dictum) P 0, e que,
quando isso acontece, os ¢_
rentes de comprometimento. Em vários momentos da história da gramática
(e também da lógica e da retórica) foram apontados diferentes recursos que
a lingua coloca à disposição dos falantes para marcar o engajamento em uma
asserção. Comparem-se os exemplos a seguir: A

315

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R. ILÃRI 0 R. M. BASSO

(7-7) Se a Terra gira ao redor do Sol, então a Terra não é o centro de nosso sistema
solar.

(7-3) A Terra gira ao redor do Sol.

(7-9) [Todos os sábios afirmam que] a Terra gira ao redor do Sol.

(7-10) [Dessas premissas / por esse raciocinio conclui-se que] aTerra gira ao redor '
do Sol

Normalmente, o falante que pronuncia (7-7) não se compromete com a verdade


de que a Terra gira ao redor do Sol; seu compromisso é antes com a relaçao
que se estabelece entre as duas sentenças que compöem o enunciado, pela
qual, quem aceita a primeira não poderá escapar da verdade da segunda (em
outras palavras, quem asserta (7-7) se compromete com a relação condicio-
nal, mas não se compromete nem com a verdade de que a Terra gira ao redor
do Sol, nem com a verdade de que aTerra não é o centro do nosso sistema
solar). Enfim, há sentenças que são objeto de asserção e outras que não o são,
e não é por acaso que 0 enunciado (7-7), onde nenhuma sentença é assertada
isoladamente, começa por uma conjunção condicìonal._\ Í
Para quem quer comprometer-se com a verdade de-que a Terra gira ao
redor do Sol, (7-8) é um enunciado bemtrnais apropriado. Basta afirmá-lo
para se comprometer com sua verdade Passemos porém aos enunciados se-
guintes ja no seculo XVII se sabia que numa das interpretaçóes possiveis de
(7-9), invocar o consenso dos sábios nada mais é que um modo de dar força
a mesma asserçao feita em (7-8), e em todos os tempos os estudiosos tiveram
consciência de que se pode reforçar uma asserção mostrando que ela resulta
de uma deduçao correta, como se faz em (7-10). Em relação a um determi-
nado conteúdo, -os falantes podem, em suma, optar ou não por asserta-lo,
åe quando a asserçao acontece, ela pode corresponder a graus diferentes de
comprometimento ou adesão A lingua nos proporciona vários meios para
marcar esse comprometimento
Embora antigas, as idéias aqui expostas se encaixam naturalmente em
doutrinas bem mais recentes, como a teoria dos atos de fala, quegï
Ó '
. -ef".
cuidadosamente os conteudos groposicionais e os ""
Q

usos '_'
que deles podemos
_f_a§ç_i;; um os usos que e a estu a_ af sserça , pe a qual damos fé de que

Q
ia
aque e eterminado conteúdo se rea `
-çIF""""” 1%
mundo; outro é a construção """""¬'""'
ias que nao precisam corres onder ontualmen e com

316 .

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0 'VERBO

. que ;1¢o do, mas podem ser uteis


aquilo ' ' como exercic
' ios do

pensamento; outra açao ainda, bem diferente da asserçao e da sup0S (Ea ›


av ' . F i no é

/"
a qual falamos, e assim por diante. Como o leitor tera erce-
bido, vem ao caso falar tu_dol§§_0 21 PIQQÉSÍIO C19 m0d0 (i,9_YCfb°› Porque 0
modo do verbo é, entre outros, um dos meios pelos quais transitamos entre
os vários tipos de açóes que podemos realizar am n1€Sm0
conteúdo proposicional
,_ f _±nn~ A-'_--_-_
mi
(.-

d) A área semántica domodo -_ Resumindo, entramos na área semántica


(ou pìagi__'n__:-_itica) onde atua o modo do verbo:

- quando nos damos conta da possibilidade de passar do mundo real para


_
um ou mais mundos possiveis, por hipotese diferentes dele;
- quando marcamos diferentes graus de adesão à verdade de um mesmo
fììiìì

conteúdo proposicional;
quando consideramos as açôes que realizamos lin iiisticamente sobre
um conteúdo proposicional.
`\

Há continuidade entre esse 'três d mini s, não só porque todas as operagóes


assim descritas dizem respeito a conteúdos proposicionais, mas também e so-
bretudo porque tanto a asserção em seus diferentes graus, quanto as diferentes
açöes que realizamos lingüisticamente têm fortes e feitos
` em nivel interpessoal-
6 Dar uma or em po e

j es. -Iior outro lado, passar do mundo real a m é


típicamente um inodo d e avaiar
l' a for a Cde nossas
CCE:asserçoes
if * CC ii" '
e de procurar
formas de coerência que nos permitem inter ` d e maneir
_ a ir §__i§_efi¢az çom
nossos int rlocutores.
Podemos então dizer que, da mesma forma que olhar para estrutura
ar umenta d o ver b o nos l eva a considerar os mecanismos consagra oš pela
_
lin g ua p ar a representar o que percebemos do mundo, e da mesma forma que
as es d` e o os permitem ancorar deiricamente nc_›§_s__a_s_;çp¡¢3¢ma_
çoes a a partir do momento da fala olhar ` d
. para o mo o nos faz
perceber a fala numa dimensão típicamente interpessgal. -
\

317

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R; ILARIJO R. M. BASSO

7 2 0 modo e seus meios de exggessãoz umti orgtiniztigão


possivel dos fotos

Aceita a idéia de que o estudo da flexão de modo nos orienta no sentido


de considerar ogeraçóes lingüísticas que se fazem sobre conteúdos proposi-
¿ ø u ' 0 F-.-2-_-í-V-_'

cionais, com fortes consequencias interpessoais, podemos agora pensar num


*'”-á

quadro minimo dessas operaçóes, perguntando-nos quais são e como estão


gramaticalizadas em português falado.
A orientação que viemos adotando neste traballio autoriza-nos a considerar
quaisquer outras formas de expressão do modo alémdas quese exprimem pelo
modo do verbo (entendido como um conjunto de “formas” ue se distinguem
morfologicamente). Tudo isso nos leva a representar a ' 'rea do ” como
. , ___, _ , - , . . .
um territorio cujas regioes se localizam segundo dois randes eix primeiro
desses eixos
' e' o das op eraçöes semánticas feitas so bre um dzctum,
' u ue compreen-
dem, de acordo com aquilo que foi exposto em 7.1., (i) ao (isto
é, a consideragão simultánea de vários mundos possiveis); (ii) as _d_äe_i_'e_ntes
operaçöes de caráter ilocucional que se podem realizar a respeito de um diç-
tum (isto é, oš atosìe a . ; (iii) diferentes reagöes psicológicas gue podem
tomar como ob`eto u e (iv) p 41a; ossiveisde com › rornetirnento
co 1 #*Jmi dz .. . e e o
.__
et de asser:-e 'J segundo eixo e o que da conta
^ ---- '--1-W ` _

¢ a expressão lingüistica dessas operaçóes. Aqui, encontramos quatro formas


V _- ,.- _, _; FA _.k___,...-ff'

básicas de expressão: a) o uso de morfemas verbais (particularmente, mas não


exclusivamente, os de modo); b) o uso de adjuntos; c) o uso de auxiliares; e
d) 0 uso de verbos que introduzem sentengas.
Para dar uma idéia de Qudo isso, utilizaremos uma apresentação em
dois momentos: no primeiro, o leitor será defrontado com grupos de
exemplos do NURC, que servirão de pretexto: para comentar os processos
semânticos e pragmáticos de que lança mãoo modo tal como o concebe-
imos; num segundo momento, retomaremos os mesmos faros lingüísticos
numa perspectiva de conjunto, através de (mais) um quadro. O leitor não
deve esperar muito, em sua totalidade, nem da coleção de exemplos com
que será defrontado, nem da sintese seguinte. Convém ter com muita
clareza que o estudo do modo, tal como é definido aqui, é todo um uni-
-verso que não há como explorar exaustivamente nos limites deste trabalho;
dar-nos-emos por satisfeitos se a presente leitura servir de estímulo para
que o leitor interessado procure os estudos sobre modo e modalidade rea-
J

'_

318

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O VERBO

lizados a propósito do NURC no contexto do Projeto da Gramática do


Português Palacio.”

7.3. 0 modo como modulidtide: ti nogão de mundos possíveis

Como vimos, uma das linhas de investigação que contribuíram para a


compreensão das funçóes do modo verbal foi a reflexão dos lógicos sobre
mundos possíveis. Essa reflexão se desenvolveu, em parte, através do estudo
do si g nificado d as pa 1 avras necessaria
' ' e osszz/el
'o '
(ou necersarzamente '
e possivel-
mente), que apresentam a notável singularidade de poderem ser definidas uma
pela outra, mediante o uso d ie a ão dizer ue uma deter ` ' '
q dizer que minada
P é necessariamente verdadeira e o mesmo que proposiçao
não é possivel que
Emir; seja verdadeira; dizer que uma determinada proposição Q é ¡_)ossi\r_el-
mente verdadeira é o mesmo que dizer que não é necessário, que Qnão seja
verdadeira, e assim por diante. Um esquema de interdefinição de operadores
semelhante a esse se aplica a outras palavras, entre as quais estão os verbos
permitir e obrigar (é permitido fumar = não é proibido fumar / é proibido
fumar = não épermitido fumar), e aos verbos poder e dever (faltou à aula: dig;
tg; tido algum problema; faltou à aula só pode ser porque teve algum proble-
ma...). Se quisermos usar essa possibilidade de interdefinir os termos como
critério para decidir que estamos diante de operadores modais, acabaremos
por reconhecer que há modalidades de vários tipos:

a) as que tratam da possibilidade e da necessidade lógicas (como, por exem-


I ' ñ ,,i- “-"f__ì'*-¶«_ì_...
p o, na a rmação de que é impossível que um objeto seja diferente de si
mesmo). O nome usado para esse tipo é “modalidade alétic ai' (do grego
alëêtì/veia, “verdade”) ;
b) as que tratam de permiss' bri a öes (como, por exemplo, na afir-
mação de que, na ética dos católicos, o aborto é proibido). O nome
usado para esse tipo é “modalidade deôntica” (do grego déon, “que é
. ” ` _
preciso );
c) asque tratam de opiniöes e crenças (como , p or exemp 1 o, na afi rmação de
que a vida dos indigenas brasileiros, antes da chegada dos portugueses,
só podia ser muito feliz). O nome utilizado para esse tipo é “inodalidade
epistêmica” (do grego epistëëmê, “ciência”).

319

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ii. iuiiii -- ii. iii. iiiisso

Nos inquéritos do NURC, as modalidades de uso mais fre Cl íiente são as epistê-
m_ica_§__ç__:___a_:s_ deônticas. Os enunciados que as contêm referem-se a mundos em
que a verdade e a falsidade dos enunciados são relativizadas a determinadas
P enças, instituiçöes e valores, em vez de ser avaliadas em termos absolutos.
\\Nos inquéritos do NURC, como em qualquer tipo de texto, é possível encon-
` ar exemplos de modalidades aléticas; nesses exemplos, a verdade ou falsidade
das proposiçóes é avaliada não em termos absolutos, mas no âmbito de um
contexto previamente conhecido dos interlocutores. Isso marca uma diferença
notável em relação aos exemplos de modalidade alética utilizados nos textos
de lógica modal, e já levou muitos autores a abandonar a denominação do
o mo ' e alética”, e a optar por outras denominaçöes, por exemplo
“modalidade factua ” Os exemplos de modalidade alética que apontaremos
2 J- ' ' , ade, exemplos de modalidadefactual, razão que nos leva a
utilizar para eles o termo “modalidade factual”. '
A orientação geral a se ter em mente na análise dos exemplos de moda-
lidade encontrados nas linguas naturais é, em suma, que esses exe plos
precisam ser analisados tendo em vista seu vínculo com a realidade Quer
dizer que, ab modaiizar, o faiante Eonšidferafüm deïe do de
coisas, geralmente real, à luz de alternativas que têm seus limites fixados a
partir de um fundo de conhecimentos, valores ou obrigaçóes que se consi-
deram estabelecidos e compartilhados entre o falante e seu interlocutor,
num determinado momento. Modalizaré uma forma de evocar e reafirmar
esses limites, e isso explica, ao menos em parte, a forte repercussão que a
modalização tem nas relaçöes jnterpessoais. Vamos levar em conta tudo isso
na próxima etapa de npssa exposição, cujo propósito é precisamente o de
analisar alguns exemplos paradigmáticos de modalização encontrados no
corpus do NURC. Outro problema que encontraremos nessa análise é o faro
(bem conhecido) de que muitos operadores modais assumem um sentido
ora factual, ora epistêmic Ó§Íampeöes de ambigüidácfe são,
*CC I Si *`°`f ' o A ø
no caso, os vefbos odere eve que se aplicam aos tres tipos, mas encon-
tramos ambigüidades ana ogas também em expressöes como ter que, preci-
sar, é mister, é imprescindível etc.
Feitas essas ressalvas, podemos passar aos exemplos.

320
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ovmo

7.3.1. Enunciudos com operadores que exprimem modfllidflile ffltivfll


ìï ¡ .
_ . 4

(7-1 1) Eu tenho até uma ainiga que tem uma teoria a respeito da, da, como é que
se diz, preservação do casamcnto, por causa do espaço, as vezes você olha,
as familias antigas, era muito comum você dizer assim, meu tio fulano não
fala com a tia fulana, é sempre comum na literatura né, casais ou mesmo
pessoas da familia vivendo na mesma casa, e, não se falavam, porque na casa
antiga era possivelvocê evitar, eu hoje não agüento olhar fulano, então eu
Q não olho fulano, eu vou pra uma outra sala, eu vou, eu não almoço na sala,
almoço na copa, você tem alternativa né, e o apartamento hoje você não
tem alternativa né, eu sinto demais, sabe, quer dizer, o espaço da cidade não
é mais o mesmo, é um espaço, violento né, então você já não pode bater
perna na tua, como você batia e o Rio de janeiro é uma cidade adoravel pra
você bater perna né....

:" s \ _ ,_ , ' .
O uso do evitar, voce nao temalternatzva (am)
representa aramente o tipo' de modalidade factual que é mais comum nas
linguas naturais: trata-se, no caso, da ` ` ' isic de não cruzar com
outra pessoa no interior de uma mesma casa, considerada em dois contextos
diferentes: o da arquitetura dos casaröes térreos do Rio de Janeiro do inicio
do século XX e o da .arquitetura dos prédios de apartamentos que começaram
a ser construidos na mesma cidade a partir dos anos 60. O mesmo sentido de
possibilidade fisica é encontrado numa passagem posterior do mesmo texto,
em que se fala do papel arquitetônico das varandas e de suas versöes mais
modernas, as sacadas. Nessa passagem, os três usos d xprimem um
certo tipo de compatibilidade (ou incompatibilidade) entre a concepção da
varanda e seus usos possiveis. Não estão em jogo nem a idéia de permissão /
proibição, nem a idéia de opin ÍIcerteza, que resultariam em modalidades
HH Ó

de outro tipo. A ocorrência i na fala inicial do informante diz C1 ue ›


em estados de coisas diferentes 1 o q ue p rcvalece em nosso mund 0, a varanda
já foi objeto de usos diferentes. Nesses usos diferentes, a varanda ficava ao
abrigo do vento e da chuva; prestava-se aatividades como o cultivo de plantas
e a leitura, conforme se explica na segunda fala do mesmo locutor: u '. `
\

(7-12) Loc.- ...é varanda tipo sacada mesmo. A varanda é solta; não tem parede do
lado. Aquilo venta, chove. Eu não sei, eu, eu, eu fico achando que ela não é
usada, sabe, como, como poderia. Deve ter algum problema na integração
da varanda, com os apartamentos. Elas acabam funcionando como janelas,
s
1

321

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ii. iuiiri - ii. iii. iiiisso

'como simples janelas só que maiores, né. Enquanto que uma varanda mesmo,
né, como era nas casas assim mais antigas, ou mesino. A minha mãe mora
num apartamento antigo. Então a varanda dela é varanda assim. A parede
continua, só na frente é que tem aquela sacada.
Doc. - E normalmente são maiores também né.
Loc.- São muito maiores, então, por exemplo, ela tem planta, porque você
sabe que tem, que tem, não é qualquer. Tem planta que gosta de vento,
tem planta que gosta de sol que não gosta. Quer dizer, numa varanda assim
sombreada, e com parede lateral, você pork ter planta bonita. Agora numa
sacada dessas assim, solta, pegando vento, pegando sol que você não po_th:
controlar, não é qualquer planta que vai. A samambaia, por exemplo, não
vai. A minha mãe tem plantas lindas, e não tem trabalho quase nenhum,
porque ela póe, mais pra frente a que gosta de sol, mais pra trás a. O pessoal
antigo entende muito dessas coisas, né? E, é um lugar, p_o¿d3 ter uma poltrona
para ali ler o jornal, pode ter uma poltrona, pra ali ler o jornal, quer dizer,
é uma coisa mais aconchegante, né?...

Reconhecemos o mesmo tipo de modalidade factual neste outro trecho, ex-


presso por não da' e tem que:

(7-13) Ele mora na Barra daTijuca, num condominio bom, nada assim, oh, de luxo,
nada, mas é coisa que não é qualquer um que tem. Ai_eu vejo assim, aqueles
' quartos pequenos, quer dizer, dificilmente, por exemplo, você pode botar,
além da cama, se você quiser botar uma cadeira de balanço, quiser botar uma,
uma poltrona, não dá. Quer dizer, é, é, armários, cama, mesa de cabeceira, e
olhe lá porque de vez em quando nem mesa de cabeccira dá. Você tem gue
fazer aqueles, aquele a, né, aquele movelzinho, umas bancadinha atrás da, da,
cama, pra poder, né? É uma coisa engraçada, quer dizer, as pessoas têm mania
de armário, cada vez mais, quer dizer pra guardar, bagulhos que a gente.
Quanto mais armários você tiver mais bagulhos você coleciona.

Outros exemplos dessa modalização são:

(7-14) Doc. - no seu entender o que é_imprescin_çl_iv_e'l pruma peça de teatro obter
sucesso? '
Inf. - o que eu falei... é atingir diretamente ao o público... aao qual ela foi
destinada... então uma peça infantil... d_e_\_{g§_gi; apresentada a um público
infantil... uma peça séria deve ser apresentada a um público adulto a um
público culto... senão ela não vai fazer sucesso nenhum _
[DID SP 161, uma peça infantil que é apresentada a um público
não infantil inevitavelmente fracassa. Essa é uma leitura factual]
./

322
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O VERBO

(7-15) L2 - (é::) liumanamente é impossível fazer tanto processo ao mesmo


tempo...
[DZ SP 360]

(7-16) é uma sociedade que csvaZIA o homem de um conteúdo... real... o homem...


num determinado momento... ele acha que ele é aquele que... tem uma
geladeira tem uma televisão tem um automóvel tem uma casa... e realmente
ele não pode se imaginar sem estas coisas... quer dizer então o que há de
mais essencial no próprio homem... que é o seu ser... que o identifica com
todos os demais... seja lá o africano morrendo de fome... entende? a algo
que o identifica com os homens do mundo inteiro ele perde o sentido desse
valor...
[D2 SP 2551

(7-17) L2 - bem quer dizer sem haver sem haver por exemplo um inseto... que é
o elemento encarregado a abelha o mosquito o pássaro não é? o vento... o
elemento que tire o pólen de uma Hor eleve a outra Hor... não há... digamos
a reprodução vegetal... como no homem como no ser animal... num é? é
preciso que exista o macho e a fêmea... sem o ovo... sem o óvulo e sem o
espermatozóide [...] você tem que ter o elemento receptador
[D2 REC 266, com supressão de trechos]

7.3.2. Enunciados com operadores que exprimem modalidade deôntica

Nos trechos que seguem, foram assinalados enunciados em que apare-


cem os modalizadores deôntico A marca registrada da
modalização degntica, em qualquer circunstância, é a presença da idéia
de obrigatoriedaile ou germissão, que por sua vez pressupoe um conjunto de
principios _ e con uta e, eventualmente, uma autoridade externa ao falante
que os representa/ impöe. Quem fala no primeiro enunciado é uma arquiteta
w ue não pode deixar de acontecer no pátio de uma escola,
a partir de uma determinada concepção de arquitetura e de pedagogia. No
segundo trecho, não é a pedagogia que estabelece as regras, e sim a moral, a
concepção rígida de moral que era considerada aproprìada para os adolescentes,
durante a juventude da informante; segundo essa moral, os namoros entre
meninos e meninas deviam ser evitados, e isso fazia com que fosse também
evitada a coincidência de liorários entre o recreio das meninas do Colégio
]acobina e o dos meninos do Colégio Santo Inácio. A autoridade evocada são
aqui os diretores das respectivas escolas, responsáveis por proibir / evitar essa

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ii. iuiiri - ii.r«i. oiisso

coincidência: entre os mundos possíveis compatíveis com essa moral, não há


nenhum em que os horários dos dois recreios coincidem:

(7-18) Os colégios tradicionalissimos que eram o Santo Ignácio e Jacobina da rua


São Clemente. Além disso havia o colégio Nossa Senhora de Lourdes mais
pra perto do Largo dos Leöes. Havia ainda, um colégio chamado Colégio
Resende na rua Bambina que a gente esnobava porque era um colégio assim
mais simples.
l l
Sim mas, poucos e os dois colégios, realmente, dos mais tradicionais, de
meninos, o Santo Ignácio e, dc meninas, o jacobina com aquela separação
que nem os horários podiam coincidir, pra menina do Jacobina jamais
encontrar menino do Santo Ignácio. Nisso havia uma perfeita, conjunção
de interesses do padre reitor do Santo Ignácio com a a [?] ]acob.
ø

(7-19) Aquele pátio interno, era um barato, porque aquilo você ficava um monte de
gente conversando, porque escola, as pessoas tem que se encontrar, tem que,
não é só o que rola na sala de aula né, é também o que rola nos corredores,
né, nos pontos de encontro...

Outros exemplos, de enunciados com modalização deôntica:


¢
,v

(7-20) Doc. - E agora eles estão tentando cercar a praça né?


Loc. - Pois é, então é uma faca de dois gumes né, porque você diz assim:
o ideal é que nada precisasse serrcercado né, que as praças funcionassem
`~.
como um ponto de encontro porque elas foram criadas pra isso, né, de todo
mundo, é um espaço democrático, né, todo mundo tem direito à praça.
Agora de repente com um, uma situação urbana como a da gente tá, né,
em que a praça é tomada por mendigos e tudo, quer dizer, é 'uma situação
muito complicada né, quer dizer, eu também acho que t_em gmc resolver, a
solução não é cercar a praça, é resolver o problema social né...

(7-21) L1 - eu também prat... eu fui nascido e criado aqui em Salvador, meus pais
não têmƒazenda, então... praticamente eu não con/Jeço... agora que estou
traba!/vando na EMBASA é que eu estou con/aecendo mais o interior, porque
com a construção do sistema de abastecimiento d'dgua tem muita desapropriação
flfflzfif. então nós g ir no local, para medir, avaliar os bens,
tudo isso
[Dz SSA 95]

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0 VERBO

(7-22) a pericia ou toda:... é/J: toda: todas aquelas questäes... atinentes... a situaçao
económico-financeira... porque atravessa... os sindicatos... sabemos por exem-
plo... que aos sindicatos não eÍpermiTIDÚ. -'-'-'0 C/Mm ado lucro sao entidades
não-lucrativas... entidadesportanto... que nao são olrrigadas. .. a pagar o €l?flmfld0
imposto sobre a renda... V
[DID REC 131]

(7-23) nofim do ano... afieqiiência é muito importante nos estdgios... [o do] estudante
de medicina ele além de assistir aula... ele é olørigado a fizzer estrígio em todas
as... especialidades... então elefaz por período... de dois ou três meses em cada
especialidade. . .
` [DID SSA 231]

(7-24) eu tenloo colegas que as vezes não dâo um passo... com medo... às vezes elesfiz-
lam “rza'o... eu ten/Jo tantosfil/Jos... minha esposa... pago aluguel... podera' não
dar certo... aqui eu gan/Jo menos mas... e' um negócio certo e ali é um negócio
incerto que eu ac/vo que seria o tipo da coisa errada ne? ...ac/vo que apareceu
oportunidade... deveríamos aproveitar... “
A [D2 SP 62]

7.3.3. Enuntiados com operadores que exprimem modalidade

Nos dois trechos transcritos a seguir foram assinalados enunciados em


que ocorrem os modalizadores epistêmicos é capaz de ser (significando que a
informante aceita como um “palpite” válido que o nome que acaba de lembrar
para o boteco quie vende comida árabe é “Vizir”), e deve (significando que-o
informante considera certa a opinião de que o individuo que abdicou de casar
para ser padre acaba experimentando um forte sentido intimo de frustração).
O critério que permite reconhecer a modalização epistêmica é o fato de que
ela qualifica os enunciados atribuindo-lhes um caráter de crença ou certeza.
É claro que essas caracteristicas de crença e certeza acabam afetando também
o grau de comprometimento com que uma proposição é assertada:

(7-25) então a Escola ficava no centro da cidade, perto do museu, perto da livraria,
entendeu, com vários botecos ali, o pessoal ia muito pra aquele árabe ali
que tem na rua do México. Eu não sei se é Vizir, que tinha um chope legal,
uma, uma, uma, o chope de lá é muito bom, não sei se ainda é.
_ Doc. - Eu conheço um árabe...

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ii. iuuii - R- M- 01550

Loc. - Cê não conhece um árabe por ali,


Doc. -[ ....
Loc. - capaz de ser, talvez eu teja enganada.

(7-26) [a discussáo é sobre celibato religioso] o cara vai lá e, pronto, se ordena padre
bom, então ele tem um objetivo, ele tem uma míssão, aquele sentido messiânico
do sacerdote, ele vai tentar exercitar, realizar, preenc/ver todos aqueles ideais,
todos aqueles objetivos, mas coitado, depois de, de, um ano, ala, vamos supor,
imagina o nivel, a tensão emocional, o nivel a pressâo que ele sofie, que ele if
sofier a nivel individual, tendo emn sita sua não realizaçâo como homem ]
a impossibilidade de se constituir um lar
[Dz POA 120]

Outros enunciados com modalização epistêmica:

(7-27) a cadeia de supermercados aqui é de de de de de Recife provavclmcfltc é


superior a qualquer uma do pais
[D2 REC 05]

(7-28) a gente nunca pode precisar o tempo... de ah ahn () com a_s crianças... ne
cessitando da gente não pode precisar mesmo... com certeza então eu í
impressão de que quando o menor... áestiver pela quarta série terceira
quarta série... ele já estará mais... independente e... e os maiores poderão
fazer as vezes de... assim de preceptores dos menores e me aliviarão... nessa
parte... e eu terei disponivel não que eu deseje liberdade deseje eh eh estar
assim sem obrigaçóes para com as crianças... mas é que dai eu terei tempo
disponivel para fazer coisas extras
Í [Dz SP 360]

(7-29) O sindicato me parece que ele tem um caráter mais de... mais um caráter
traba.LHISta. E uma a ação de fiscalização das atividades sob o ponto de vista
das LEIS trabalhistas.
[DID SSA 283]

(7-30) Minha voz, eu tenho impressão que sai bastante diferente [no gravador] do
que na realidade é.
[Dz SSA 95]

I R 7.3.f_l. Uniirersos de discurso e enunciados vinculados

Até esse ponto, analisamos apenas exemplos em que a modalização


operava sobre uma única proposição. O enunciado modal podia então ser
J
\

326

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0 VERBO

analisado como u iestrutura de duas p artes , e p te s e ntad a no esquema (7 - 31),


que compreende tinizfiïépresentação (i), além das instruçöes de interpretação
(ii) e (iii). Em (7-32), apresentamos um exemplo de aplicação do esquema
feita sobre o exemplo (7-30):
i, ---- _ '_¬ïIUt¬__›<IUr p¢_ 1 __I_' _JI¢ ' _____
I

(7-31) Esquema básico para a interpretação dos enunciados modais: '


=fi
_.--P
i __ epresentaçao básica:
i
li
operador modal (proposição ou dictum);
L*-IQ-. . -nn-\.sny.¿-É

(ii) Regra de interpretação 1: '


ïf-fü-¬v-srI .nfl-

_ entenda a proposição como a descrição de um estado de coisas, e o


operador como uma instrução para uma busca que começa no mundo
real, e continua em outros mundos aos quais remos acesso;

(iii) Regrade interpretação 2:


conforme o operador utilizado, a sentença analisada significará que
o estado de coisas descrito na proposição é válido em pelo menos
um desses mundos, ou em todos eles.

(7-3 2) Minha voz, eu tenhoimpressão que sai bastante diferente [no gravador] do que
na realidade é.
1 [D2 SSA 95]
(i) Representação bá_s_ica:
-9 operador modal: “...tenho impressão...”
-> dictum: “minha voz sai bastante diferente [no gravador] do q. ue
na realidade é”; ' '
J: I

(ii) Regrá de interpretação, 1,:
-> a sentença póe em questão as crenças do falante com respeito à
qualidade da reprodução de sua voz;

(iii) &=:_gr_a_de inrerpretação 2:


-> o estado de coisas descrito no dictum é plausivel na opinião do
falante, ou seja, será encontrado na maioria dos mundos compatíveis
COII1 SLIHS Cl'CI1ç8.S.

A situação em que o enunciado modal se compöe de um operador aplicado


a u ma unica
' ` proposiçao
' ' é provavelmente a mais comum, mas não é a única
possível. Considere-se um exemplo como este:

327

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¡_ ¡um . rr. iii. riiisso

(7-33) Você vai lá tem muito velhinho, velhinhos, é, muita criança brincando, e
agora tem muita gente andando, em volta da praça, fazendo exercicio né,
mas ela não tem ainda um ar assim, quer dizer, você não fica com medo de ir,
mas tem praça do Rio de Janeiro que você, por exemplo, o passeio Público,
né, eu às vezes quando vou ali perto, eu tenho medo, e é lindo, o Passeio
Público é lindo, é lindo, porque eu jáfuì, né, é Projeto do [nome de pessoa]
do século XIX, sabe, é um projeto romántico, aquela coisa de paisagismo,
mas quem tem coragem de entrar né, você morre de medo né, apesar da,
você tá ali, nas imediaçöes, você pode tar com calor, podequerer sentar no
bang, mas você tem medo de enfrentar né uma praça, dessas numa cidade
como tá né.

Uma análise de (7-33) conduzida segundo o esquema (7-31) identificaria cor-


retamente na primeira das seqüências grifadas um-operador modal (“pode”)
e uma proposição (“você (es)tá com calor”); na segunda, reencontraria o ope-
rador “pode” seguido da proposição “você quer sentar no banco”. Esse opera-
dor significa qualquer coisa como “dadas as condiçóes de clima e dados os
hábitos correntes na comunidade, em algum mundo acessivel ao nosso (even-
tualmente no nosso) se você sente calor, você tem vontade de sentar no ban-
co”. Contudo, essa análise é incorreta, ou pelo menos insuficiente. O que o
entrevistado queria informar no texto transcrito é que, dadas as condiçóes de
vida e segurança do Rio de Janeiro, em todos os mundos acessiveis ao nosso,
junto com o calor e a vontade de sent você experimenta também um outro
sentimento: o medo de parar na pra I o mesmo que dizer que a excursão
por outros mundos que é ensejada pelo operador modal “pode” leva a mun-
dos em que, com o calor e a vontade de sentar, aparece simultaneamente o
sentimento de medo referido na última sentença do trecho transcrito, ou,
ainda, que operador modal a ge 'simultaneamente as sentenças grifadas g
esta última sentença do trecho. uso de pode e um encadeamento de sen-
tenças de tipo particular resultaram na formação de um periodo que, embo-
ra não com › ___,
. ctivo de subordinação, funciona como um
verdadeiriiodo hipotético (“ f- você sentir calor e quiser sentar num
banco, vai 2' -.:_±--1tL~nr-.¡u.-r=-- ” *J
Patos como esses nos lembram que duas ou mais proposiçöes podem estar
vinculadas num mesmo enunciado, interpretando-se por referência apenas
ao mun o real, ou por referência a varios mun os. m caso em que ocorre
fëgulfrmente essa interpretação vinculada é o dos chamados periodos hipoté-

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0 VERBO

ticos, um tipo de estrutura de subordinação que recebeu atenção privilegiada


na tradição gramatical inspirada nas linguas clássicas. Dão-se a seguir dois
exemplos de periodo hipotético:

(7-34) se a análise dessa polêmica [entre os partiddrios da origem popular e da origem


I erudita da arte] não nos levasse muito longeera o caso de analisar... mas eu
quero apenas lembrar ao... aos senhorcs... a importância dessa polêmica...
[EF SP 156]

(7-35) eu vou tenta(r) se(r) coerente com a minha posição inicial, não faço nenhu-
ma critica aos instrumentos, não critico a reforma de ensino, não critico o
vestibular, por quê? por quê? se alguma critica eu teria que fazer, não seria
aos instrumentos, não seria aos efcitos, mas seria à causa, seria ao próprio
contexto social e aos objetivos que o contexto se propöe, certo? se eu quisesse
fazer alguma critica, teria que fazer a isto, está? por isso que, raciocinando de
forma mais ou menos coeren(te), mais ou menos não pode ser, mas de forma
coerente com a minha proposição inicial, eu ah, deixando de lado aquelas
brincadeiras, eu diria que a reforma do ensino, o vestibular unificado são
absolutamente válidas tendo em vista o contexto social que isso produziu e
os objetivos a que ela se propöe, exato?
_ W [D2 POA 120]

O que esses dois periodos hipotétios têm em comum é precisamente o fato


de que apresenA primeira remete a mundos em
que a análise da of2*='="';"'-'='="-'°'e-2':------=e os da origem popular e erudita da
arte não descambaein divagaçöes; nesses mundos, a análise dessa polêmica
é oportuna; a següiida remete a mundos em que o locutor tem uma critica a
fazer, e nesses mundos ele prefere criticar a causa e não os efeitos do vestibular
unificado. O que os dois periodos têm de diferente é que no segundo caso
nada nos informa se o mundo real se inclui naqueles que o periodo hipotético
caracteriza; no rimeiro caso ao contrário, ficamos sabendo pela forma do
verbo da primeira sentença que o mundo real não está entre aqueles que esse
perio o iotetico caracteriza. o tio de perío o ipotético que tem sido .
Í--fe of con icio al contrafactua para indicar que a situação descrita
pe 0 3_n_i_:§_ç3_d_ent aqui o que sabemos a propósito do mundo real.
Pode parecer su › - ndenteque tenhamos decidido incluir numa mesma
categoria as modalidades e o chamado período hipotético, subordinando-os
a uma rubrica mais geral, chamada “mundos”, mas não há motivos para essa

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R. ||_¿R| u R. M. BÁSSO

surpresa¿ , dada1 ¢1 maneira


C 3 como entendemos a interação verbal dos falantes das

linguas naturais A interação verbal tem sido descrita freqüentemente como


uma prática que resulta em enriquecer o repertório de dados disponíveis para
il - ' ` ' m um '
o interlocuto“r,”qt_1_§__gHHllana f P ' . PO de-se
m%.§-å..Q.._Il1_ê!.Q.1'
tainbiéiiri pensar a interação verbal e o rocesso df.å._Í.I.1f¶LlÍ..II1š1..§É9,¿%.ÍP.IQCaï1Y1do
pelos interlocutores como uma prog_rc:__ss_i_va_ r_e_d_tigt;_ão__dWa__ip__§.ç_rrt_ç¿;_a: um enun-
c ade de que se realizem estados de coisas
incompatíveis com aquele enunciado, no mundo que está sendo descrito, é
ipsofitcto afastada. Em termos de mundos possíveis, isso significa excluir todos
os mundos ossiveis em ue uma certa proposição seria falsificada. Consi-
derado nesta perspectiva, quqe,i;_p_ç_r_ip_c_lo hipotético realiza uma operaçao
mm ' re mundo s.- n . margem previa de in certeza Hdescartando
__=____:___ë_
todos os mundos em que o antecedente é verdadeiro e o <;_0nSequen_t_¢..._CíHlS0-
Ao mesmo tempo em que proporciona aos falantes o uso desse mecanismo
j geral, a gramática do português os obriga a escolher entre várias ossibilidades,
algumas das quais exemp i cadas a seguir:

- a verdade ou falsidade do antecedente está de__f__i_r_iida oantecedente é falso


®/ no mundo real (condicional contrafactual): Se eu eifivessecom-câifirmínt
`“ fica ospital.

(7-36) bom se eu tivesse que definir a televisão de casa eu diria que é um... um
inóvel no qual a gente apóia alguns objetos sobre a mesma né? e... eu não
vejo televisão... acho até que a antena... interna da minha atrapalha esta...
esta pequena mesa que a televisão representa...
[D2 SP 255, eu _n_ã9_ tenho que definir a televisão de casa, mas se eu tivesse...]

°¬ef* a as o locutor

- a v rdade ou faíidadle do antecedente está Cb §__/ /_/,,não


É sa_b%_¿s%stesja'ƒoram fiitos, mas eu ainda não os recelti. De umaforma ou
/ de outra, m cáncer. ten/10 no maïisimv um ave de vida-

(7-37) Se eu tiver grana _ que vai ser dificil, depois de eu comprar esse aparta-
mento -- eu sou capaz até de, juntar as duas salas, com uma porta de correr,
entendeu?
(pensar o texto acima no seguinte contexto: não sei quanto valem as minhas
açöes, e também não estou informado sobre as gastos da construção, mas
se eu tiver grana...) -
1

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5.*
si

t-i:.~'›;1
-.
0 VERBO
,-

,I

. ' "
fin '

-\ a verdade ou falfidlade do antecedente não está defin__ì§la, porque Se refere


~ ao fiituro: Se (algum dia) eu estiver com cáncer. quero ser tratado pelo doutor
Varela. .

(7-38) eu sou professoi' e acho que se um dia se algum dia, eu consegui(r) coloca(r)
na cabeça de uma daquelas pessoas que me ouve, de uma daquelas pessoas
que me ouve, através dos meus instrumentos de ensino, no caso é o Di-
reito, se algum dia eles entenderem que aqueles mecanismos são mecanis-
mos de de explicitação do humano, de comunicação, de afirmação do in-
dividuo da individualidade, da busca do justo, enfim, da tentativa de al-
cance daqueles, daquilo que eu considero o essencial, aquilo que dignifica
a vida, aquilo que diz a vida como, como válida, por aquilo que gente pode
vive(r) se algum dia um desses, dessas pessoas que me ouvem conseguirem
incorpora(r) algum daqueles conceitos que eu estou ali colocando, e um
daqueles conceitos ajudá-lo a, a, a vive(r) um pouquinho melhor ou pelo
menos aceita(r) a vida como ela é, e, e, reforma(r), e procura(r) em termos
existenciais de criação, e de consolidação de seus status humano, a função
A do ensino pra mim foi exaurida, não tem mais sentido, os conteúdos que
' nós ministramos são apenas a forma, apenas a parte formal de coisas mui-
fo mais importantes, coisas muito mais fundamentais se vocês disserem
pra qualquer aluno de vocês
_ [Dz POA 120]
`\
Notável em tudo isso é que ¿,\,. eles é feita através das formas
ø

verb ` ais particularmente "ff----f -¬3_›/


(D0 9,
is en as visivcis nas desinências
que a gramática tradicional
Ñ
qualifica de “modo”. ' A
6

7.4. 0 modo como um aio de f a: operagöes de caráter


ilocucional sobre um dícfum
ø
`

Na seção 7.1., ao interpretarmos os nomes tradicionais dos modos, rela-


cionamos a distinção entre indicativo e imperativo à realização de dois tipos
diferentes de açöes verbais: informar e orden_ar. Para explicarmos corretamente
o que entendemos por ação verbal, convém situarmos essa noção num âmbito
-
mais 'co, u assando a o inião corrente e va a de ue a linguagem
serv “para comunica ”. Muito do que se fez até hoje† em matéria de reflexão
sobre a m partiu desta últi e utilizou como protótipo de
comunicação episódios em que um dos falantes, o que detém as informaçöes
`¬›;_.*
iv'
“iz
rd ~_
_.=¬

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'IA ."›
W.
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e-IF/1' _
." ` -
¿ _, Ís",
1'? Q I
i' '-

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I. ILÃRI1 R. M. BASSO

no primeiro momento, trfiiisinite essas incsmas informaçócs a um ouvinte


supostamcntc tlesiriforinado c iiiteiessado. lioi essa a conccpção de linguagem
que aliineiiioii toda zi lingiiísiicri esiriiiiirzil. Quando se parte dessaconccpção,
a Comunicação é gerzilmentc descrita corno uma “transmissão (lc conteúdos”,
e a própria linguagem é entendida como uni código, que permite dar-lhes
forma. Há méritos nessa concepção, mas, para cxplanarmos o que entendemos
aqui por “ação verbal”, é mais intercssante descrcvcrmos um caso concreto
de ação verbal, analisando sua estrutura, enquanto ação. Consideremos, por
exemplo, este trecho do NURC:

(7-39) não: o meu problema é o seguinte eu quando tinha onze anos o meu pai
prometen me dá um: violão... c se eu passasse pro ginásio eu ganharia um
violão né? ai eu passei e ele não me deu o violão porque achava que me
desestimulava né? então eu fiquei em quatro disciplinas imagine?
[DZ REC 340]

O informante começa contando que o pai fez uma promessa. Pensa ue


o leitor não deveria ter dificuldades maiores para aceitar que um prome a é
uma ação verbal, ou, para usar o termo técnico que se consagrou ' eratura
_ I I

sobre o assunto, u ato 1 e fal fazer promessas envolve tipicamente algum


uso da linguagem: alias, a inguagem disponibiliza palavras e construçöes que
resultam apropriadas para que a promessa possa efetivar-se. Mas um ato de
fal 3113"oré › tecnicamente falando ›_P
"a enas,_.___._-
uma a 9 ão (I ual Cl uer em Cl ue a fala
intervém. Para explicarmos melhor o conceito de ato de fala que queremos
Ídiiiïar aqui, Convém que nos reportemos a uma distinção célebre, que diz
respeito a três niveis de participação que a fala pode ter na ação humana:°5

(i) no primeiro desses niveis, os falantes utilizam as expressöes lingüísticas


de acordo com a gramática e com a significação que as caracteriza na
lingua; _
(ii) num outro nivel ainda, a ação verbal dos falantes tem conseqiiências,
com as quais os próprios falantes terão de arcar;

A promessa da história ilustra bem esses dois niveis: pelo relato do informante,
podemos imaginar (i) que o pai se servia corretamente de recursos fonológicos,
sintáticos, fonéticos etc. disponíveis na lingua; por exemplo, ele pronunciou
“prometo te dar um violão” ou “vou te dar um violão se você passar de ano”;

332
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0 VERBO

f 0 al ' . . .
alem disso, sua promessa (ii) teve vários efeitos, alguns deles imprevis . ,
- ua
por exemplo, o fato de que o filho se desinteressou pelos estudos e contin
frustrado vários anos depois. Nada disso, porém, e relevante para definir os
atos de fala, cuja caracterização tem que ser feita

(iii) num terceiro nivel, no ual o m sua


relapão com os interlocutoreslš) que conta para caracterizar o ato relatado
em (7-39) como uma promessa é o fato de que ao final da fala paterna
relatada em (7-39) constatamos ter havido uma mudança de relação entre
os interlocutores, que é conseqiiência direta do fato de ter sido usada a
expressão “eu prometo”. A mudança refere-se ao fato de que a fala do
pai (no exemplo em questão) criou para o próprio pai 0 _C01T1Pf01T11530.
_ I
de dar um violao para o filho caso ele passe no ginásio.
/
.

No mesmo når§lp eter", podemos considerar toda uma série de


outros atos de fala: ameaçar, perdoar, ordenar, permitir, absolver dos pecados,
condenar, aceitar as condiçôes para a compra de uma casa, fichar um contrato, e
assim por diante. Obviamente, para que cada um desses atos seja realizado de
maneira feliz, a linguagem não basta: é preciso que vigorem certas condiçöes
(por exemplo, uma promessa sabidamente impossível de cumprir ou feita de
brincadeira não cria compromissos para ninguém); e cada um desses atos tem
. , . _.
S11 ' 7'! ias formulas verbais e suas s construçoes sintaticas.
Éla
0*r:e conta para nós aqui é que 'isi(_flexóe que costumamos chamar “dc
ïbl-- basicamente o indicativo, `untivo, o im erativo _ são mo-
biliza s de maneiras diferentes, confor ato de fala ue retendemos
realiza entaremos ser um pouco mais especificos sobre tudo isso, mas
para tanto precisamos explicitar duas conseqüências que se impöem quan-
do se considera a atividade lingüistica na perspectiva dos atos de fala. A
primeira é que, ao considerarmos a variedade e a freqüência com que rea-
lizamos atos de fala, somos levados a abandonar o conceito banal de com
f I 1 `
nicaçao de que falavamos alguns paragrafos acima: a fun ão ma'
__.
lingua nãpj: gransmiti ' forma oes; e a ir sobre os interlocuto s. É ela
Qe
` 0 `_
que as vezes agimos sobre nossos interlocutores apenas no sentido de tenta
informá-los, ou de dar ciência a eles de nossas opiniöes, mas isso pode então
ser encarado como apenas mais um dos tantos atos de fala possíveis; a se-
gunda explicitação diz respeito ao fato de que todo ato de fala é sempre uma
________________í_______

333

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ic

operação sobre algum conteúdo proposicional. Isso faz com que, simplifi-
can o muito sua escrição, os atos de fala obedeçam sempre a um esquema
_ em dois niveis que lembra de perto aquele que propusemos em 7.3.4. para
a modalidade, entendida como uma operação sobre mundos:

(7-40) Esquema básico dos atos de fala:


A (P)

Podemos, agora, ser mais claros sobre a relação das flexóes de modo com
os atos de fala. Em sintese, as flexóes de modo são um dos tantos recursos
lingüísticos por meio dos quais reáffm e, no

sermos exaustivos, e simplificando ao extremo,“° vamos apontar no Quadro 7.1


a seguir alguns dos atos de fala que podem ser expressos através das flexöes de
modo. Vale lembrar que o uso da flexão de mod é apenas uma das maneiras
possíveis para identificar o ato de fala; umaneira, também registrada
no Quadro 7.1, é o uso dos verbos chamados performativos (como prometo,
juro, eu vos declaro marido e mulher, eu declaro o réu culpado etc.) que são
usados, tipicamente, na primeira pessoa do singular do indicativo:
¡_

I Quadro 7.1 '


Expresso por Q Indicativo Subjuntivo Subjuntivo imperativo Verbo -
natureza do ato de fala l precedido I Q performativo
- I de Lío etc. I r *`
_ ¡_ _ _ "¬ 7

Asserção I Informação __ (7-41) 1 _ '_ ' ' (7-413) l


_ _ .I

Ordem/ Pedido _ __ _ _ _ _ __ (7-42) (7-42a) |


Pedido de iriformação | (7-43) l 2 (7-43:1)
(pergunta) __ I 1...-
A _
I
i _
'
Proibição I _ Í (7-44) j _ P (7-44:1)
Promessa (7-45) ' , (7-451)
Volição (7-46) (7-46:1) I
(votos de ue P)
í 1 í 1 ¡sí í i Z

As passagens transcritas a seguir em (7-41)-(7-46) exemplificam os casos con-


templados no quadro. Pensamos que a distinção dos atos de fala discriminados
na primeira coluna é intuitiva, e não tentaremos explicá-la;" (7-46) mostra
que, quando se quer exprimir volição, o subjuntivo precisa vir acompanhado
de outros operadores, no caso tomara que:
n
`.

334

9- r' -
. à
- I - › ..f|t-I--I I - __

Scanned by CamScanner
0 VERBO

(7-41) Em rcfiescos assim, eu ostomuito de laranja, de usar laranja seleta pra fazer
suco de laranja.
[DID R] 328]

(7-41a) a gente andou alguns quilômetros né, então a gente anda muito aqui, então
eu digo que a minha roupa é, é assim, é um dia eu uso uma camisa, que é a
primeira que eu pego no, no guarda-roupa.

(7-42) isso êfiinçao... da dessa sociedade consumista ela só quer... gastar so' quer consu-
mir... essa bistória de guardar de conservar isso acabou... você vê que a criança
/ioje suja tudo estraga tudo bota os pês na cadeira ninguêm diz mais 'fig o pé
da cadeira... nem que “nao ¿aga isso que êfeio” essa /iistária ¿z¿o_j2z_;a que papai
do cêu BR!GA... isso é coisa queja' ERA
' I [D2 REC 266]

(7-42a) Paga isso direitinho, eu estou mandando!

(7-43) Doc. - ubn u/on... e... como ef que se espal/aa... o o grão na terra... semear?
Inf. - bom isso é uma coisa que eu não sei porque... é uma e'/9 isso aíac/ao que
de inicio era... - que eu me lembre /Ja' uns vamos dizer /id uns trinta anos
atrás... _ erafeito tudo à mâo... e
Doc. - precisa de uma técnica especialpra isso? 1
Inf. - não... primeiropassava o arado pa/ avava um sulco... na terra... e depois
sejogava o grao...
[DID SP 18]

(7-43a) Deus mandou mandou multiplicar mas no momento não ta' dando. --Mas eu
perggnto..F. naquela época, quantos habitantes
' -
tinha a terra? _ Mas az, va;.
]
ter é que sepensar é que a Biblia deveria ser um livro seri`iÍssi'mo; um livro que
previsse tudo isso.
'_ [D2 REC 266]

(7-44) você Ligdigg que Olinda desapareceu... não pelo contra'ri'o você não descon/rece
uma pesquisa agora da ONU determinou o seguinte que Olinda e' o maior
conjunto barroco existente no mundo atualmente
I [Dz REC 05]
(7442) EU W ,Pldlä de dizer que Olinda desapareceu. (adaptado do exemplo
acima). . .

(745) EU Ey@ uma bicicleta se você passar de ano.

_ ____________ 335
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R. . Ro Mo

(7-45:1) Eu pgïtg te dar uma bicicleta se você passar de ano.

(7-46) porque eles (es)tão afim de mete(r) a mâo nos indios, nê e eu (es)tou torcendo
que os indios metan: a máo neles aqueles gigantes que eles dizem que é que é
mentira. que de... que deve se(r) fizntasia, que têm os pes desse taman/vo, mas
mio dcveni se(r) gigan... tomara que de dois metros, que líquidem todos
os brancos que aparecerern por la' eu acho divino que nos filmes de bang-bang
sempre torço pelos indios eu quero deixa(r) bem claro isso aqui so(u) sempre a
fizvor deles o negócio ê esse: o negócio existe mesmo
[D2 POA 37]

(7-46a) Eu dese_`|o a você que você tenha muito sucesso.

7.5. 0 modo como atitude proposicional reagôespsicológicas


a um diclum '

Falamos, mais acima, que o modo subjuntivo se especializou, por assim


dizer, como um modo que aparece em certas estruiuras de subordinação. São,
na realidade, várias estruturas entre as quais ca do periodo
hipotético (do qual tratamos rapidamente na seção 7.5.), a) todas as subor-
dinadas adverbiais regidas pelas conjunçóes desde que, para que, mesmo que,
embora,.se, e pelo advérbio talvez etc.; b) parte das subordinadas integrantes
regidas pela preposição que; c) parte das subordinadas dependentes de um
pronome relativo. Trata-se de casos bem distintos:

É as sentenças subordinadas regidas por c


ue,ainda que ' etc. presença do subjuntivo é um mero ì-
$3f-iO

matismo esencadeado pela presença da conjunção. Para outras conjungoes, o fm/


modo esperado é ,
mas o subjuntivo pode aparecer quando se trata
de caracterizar uma situação como incerta ou meramente possivel. Queremos
cor.,
(1 q P? __g_._._..i`_J 9 fl ,amm
tanto o o como o subjuntivo mudam correlativamente de sentido:
_

(7-47) Doc. - como foi que você você con conheceu?


L2 - áh a gente era estudante de engenharia ele era um ano mais adiantado
que eu... eu embora mal conhecesse ele aqui na escola a gente estagiou junto
na CELPB e e namorou... começou a a passear
' [Dz REC 279]

336

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'O VERBO

(7-48) porque eu acho que a educação é um negócio praticamente irreversível... åh


deixa marcas... por mais que a gente queira consertar vá pra pra psiquiatra
vá pra tudo quanto é livro né? ((riu)) desses orientadores... pois eu acho
que as coisas que são formadas dentro de si/ então eu fiquei pensando se eu
deveria ter feito... ou... ou ter agido de outra forma mas não me deixei levar
pelo... pelo dia-a-dia
[D2 REC 279]

(7-49) Eu até contribuo para que eles não tenham essa alimentação pesada; 0 que
fazem aqui pra mim, eles aproveitam e comem também. e
[DID R] 328]

(7-50) Enquanto houver concursados, vão sendo chamados.


[DZ SP 360]

(7-51) 0 tipo de velho que eu tô acostumada a conviver é o velho muito dinâmico


minha mãe por exemplo anda de ônibus sozinha tem setenta e um anos e
bota/ enquanto / outro dia ela foi para uma festa de casamento... ((ruído))
áh éh comigo... enguanf'ò"'e`u tava toda à vontade ainda estudando sem /
em cima da hora ela tava fazendo bóbi se ajeitando quer dizer é uma pessoa
que enfrenta a vida mas realmente 0 problema social do velho no Brasil é
de rejeição e de... de não ter vez mesmo... ah agora tá um até com gente de
fase de quarenta. anos já já rejeitam nos trabalhos
[D2 REC 279]

(7-52) L2 - oh: e você gosta de mandar a carta registrada?


L1 - não eu nunca mando não porque demora muito
L2 - é dršmora mais do que a carta simples né?
L1.- e e eu normalmente faço o seguinte eu mando carta simples... quando
não telefono...
[D2 REC 151]

(7-53) se eu fosse me ligar... a uma igreja integralmente... eu continuaría na igreja


católica... NAO_porque eu ache que seja meLHOR do que essas outras... mas
porque eu NAO VI que nenhuma fosse MElhor do que a outra... então eu
ficaria na que eu nasci não é?
[DID SP 242]

b) nas subordinadas dependentes de um pronome relativo a norma é


o uso do indicativo, alternâneia entre indicativo e subjuntivo pode
encarregar! se de marcar algumas diferenças de sentido; em (7-54), a mãe
-

337

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R. ILARI ° R. M. BASSO

não tem exatamente um noivo para a filha, mas sim um perfil de noivo; em
(7-55), onde o diretor do filme é identificado nominalmente, o subjuntivo
seria impossível:

(7-54) porque eu digo assim mas toda MÁE tem problema com a FILHA quer dizer
ai eu ai eu TIVE um problema com a minha com a minha mãe porque ali
eu era a filhìnha assim... ela queria que eu casas:se... com uma pessoa que
tivesse grazna... sabe?
[D2 REC 340]

(7-55) 0 realizador... o diretor de “Coisas nossas” foi um americano Wallace Dal-


ney... qgtí um espírito muito aventureiro já tinha feito muita coisa
na vida... inclusive conquistado posição de destaque... na fábrica de discos
Columbia... `
' [EF SP 153]

C) 110 C250 ¿HS Su a&in.m s re idas pela ue, 0


que determina o usofdo modo é ver o re ente Hã alguns, como publicar,
registrar, descubrir, que sempre pedem o indicativo; há outros, como querer,
duvidar, imaginar, torcer, quesempre pedem o subjuntivo; ha outros ainda
que aceitam os dois modos, em condiçöes contextuais a serem mais bem
compreendidas:

(7-56) esses dias eu li no jornal que um, que um individuo numa, num posto do
' INPS (i-ene-pê-esse) depredou o posto do INPS porque não, não tinha sido
atendido, que que é isso? R
_ , [D2 POA 120]

(7-57) eu duvido que vocês como professores, vocês avaliem ou venham a avaliar
O aluno, a partir desses instrumentos, desse mecanismos tradicionais de
avaliação, através de uma prova? '
[DZ POA 120]

(7-58) você vê o pessoal não está quase acostumado a ler jornais e através de jornais
só que 0 o o o o teatro é divulgado... eu não achc¿_queéh éh_haja muita
divulgação do teatroeu tenho impressão que o teatro PERde público por
falta de divulgação
' [DID SP 234]

338

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I. r
$1;-2 ' - 'W

0 VERBO
`.

(7-5 9) Doc. - com a moda do cabelo comprido, a senhora não acha que os barbeir OS
estão tendo prejuízo?
__ _ Á ~ [1Í.lÍ.D. PQA_/L4l ._

Os verbos que intervêm em exemplos como (7-56)-(7-59) são verbos que têm
entre seus argumentos uma proposição (ve r se ç ão 1.3.); eles informam que um
certo estado de coisas (ou sua formulação lingüística) é ou foi verbalizado, e
nesse sentido são “verbos de dizer”, ou então desc revem os sentimentos, os
-_.`
desejos e as avaliaçóes que as pessoas fazem a respeito d e determinados estados
de coisas (e então são basicamente “verbos de sentir ). Como revelam a atitu d e
ø 33 '

. ,. ' I' 1
psicológica de que é objeto uma proposiçao, consagrou-se para designa- os a
denominação de “verbos de atitude proposicional”.
Alguns dos verbos de atitude proposicional implicam que a proposição que
'
lhes serve de argumento é falsa, ou tem que ser avalrada num mun do _diferente
- . . d _ \
do real (por exemplo, com imaginar, querer, a'ese;ar, que criam mun os a
parte correspondentes às fantasias e aos desejos do sujeito). O subjuntivo _, o
modo normalmente usado nesses contextos, m as a correspondência indicativo
para expressão da realidade versus subjuntivo para a expressão da irrealidade
não é categórica:
L

(7-60) Subi ao andar de cima e confirmei que havia uma festa. -> modo indicativo
ggrg garantia de verdade
I
(7-61) Eu acho que teve uma festa. -> modo indicativo sem garantia de verdade

(7-62) O bom tenìpo permitiu que a festa fosse ao ar livre. -> modo subjuntivo
com garantia de verdade.

(7-63) Pelo barulho, eu imaginei que hoje aqui tivesse uma festa. -> modo subjun-
tivo §_ç¿n_ garantia de verdade

Hã' na lingua uma série de construçöes que permitem fazer operaçöes semân-
`
ticas sobre proposiçöes, parecidas `
com aquelas que se realizam através dos
verbos de atitude, baseadas em outras classes de palavras que não o verbo. Os
trechos transcritos a seguir contêm alguns exemplos:

(7-64) 0 ideal é que nada precisasse ser cercado né, que aspraçasfimcionassem como
um ponto de encontro porque elas foram criadas pra isso, né, de todo mun-
do, é um espaço democrático, né, todo mundo tem direito à praça. Agora

339

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_, ..-..f----v

n. num' - n. rn. mw

de repente com um, uma situação urbana como a da gente tã, né, em que
a praça é tomada por mendigos e tudo, quer dizer, é uma situação muito
complicada né, quer dizer, eu também acho que tem que resolver, a solução
não é cercar a praça, é resolver o problema social né....

(7-65) mundo atzjvico é aquele em que cada um de nóspudesse se manifestar, entende,


- e da forma mais ampla e mais aberta possivel e que tivesse condiçóes de
contestar qualquer tipo de atividade, que eu tivesse condiçöes de chegar ao
meu chefe, entende, e dizer não, não é isso que a gente deve fazer...
[DZ POA 120]

7.6. 0 modo como modalização: graus possíveis de compromeiimento


com um diclum -

_ Um dos principais resultados da discussão sobre funçöes da linguagem


que fizemos na seção 7.4. foi o reconhecimento da asserção / informação como
um ato de fala especifico, no mesmo nivel da promessa, da ordem ou da ab-
solvição de um réu por um juiz. Os inquéritos do NURC, devido à preocupa-
ção de colher informaçöes junto aos individuos entrevistados, contêm um
número enorme de atos de asserção/ informação, e a presença destes últimos
é preponderante nos inquéritos do tipo “Elocução Formal”, que consistem
invariavelmente em aulas universitarias. O que caracteriza a asserção como
um ato de fala é o fato de que o locutor assume um compromisso pessoã] com
a verdade dos conteúdos comunicados, P assando de al 8 um modo a res P on-
der por essa verdade. E isso, diga-se de passagem, que faz toda a diferença
e e formular uma proposição e assertá-la. Estamos na pri-
meira dessas situaçöes quando tratamos de uma sentença qualquer como um
objeto lingüístico, reconhecendo que ela foi construida de acordo com a sin-
taxe da lingua e que é significativa, ou quando lhe associamos uma parãfrase.
Afirmar e negar são operaçöes cognitivas que realizamos a propósito de uma
proposição, sem necessariamente comprometer-nos com sua verdade ou fal-
sidade (realizamos essas operaçöes, por exemplo, sempre que fazemos supo-
siçöes, e o importante é que podemos supor que as proposiçöes são verdadei-
ras ou falsas). Assertamos. uma proposição (em sua forma afirmativa ou ne-
gativa) quando a declaramos verdadeira, comprometendo-nos com essa verdade.
É esse compromisso que dáuà asserção seu caráter de ato de fala, e que a distin-
gue de outros atos de fala possíveis, como, por exemplo, perguntar e ordenar.

340

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ò viano
_ _ __'__- "Tn-L "nø_~_ì¡¡ ,iii-
V Í -11- ~_~ ~~:±,_ L4; 4›_ÍÍ-¬7 “ '
O$ i

Ora,lse, por um lado, o comprometimento do falante com a verdade da l


j proposiçao assertada é a marca registrada da asserção enquanto ato de fala,
por outro lado, o falante tem a. sua disposiçao
. . ,.
toda uma gama ff E _ 1
e mecanismos
___ _ç_r_inite_m.co a ' guns desses
mecanismos são ilustrados pelo trecho do NURC transcrito a seguir:

(7-66) agora, era um bairro, quer dizer, a rua São Clemente era uma rua de, ainda
de grandes, predominantemente de boas moradias, no trecho da, da rua
Bambina em direção ao Largo dos Leöes, com as embaixadas que havia então,
a Embaixada Inglesa, a Embaixada, Portuguesa foi mais tarde até um pouco,
e que atualmente é 0 Consulado Português né, e havia a, e a Embaixada
Americana, onde hoje é a prefeitura, a Embaixada Inglesa se converteu num
colégio suiço, se_n_ão me enganq, que ainda esta la, ou a propriedade ali né,
a casa, eu nunca fui la dentro, havia outras grandes casas quer dizer, a rua
São Clemente eta a mais residencial, salvo no inicio da praia de Botafogo
até a rua Bambina, eram pequenos sobrados que alguns ainda existem hoje,
e um comércio, que eu não ia muito pr'aque1e trecho assim, mas haveria,
possivelmente, uma tinturaria, uma padaria, uma farmacia, uma coisa desse
tipo né. Outra coisa tipica do comércio é a farmacia Rui Barbosa, que QE
ter atendido o próprio Rui ali, mas que, perto da rua Eduardo Guinle, né,
a farmacia Rui Barbosa também é uma coisa antiqiiissìma, né. Então acho
que vi em Botafogo, ao vir morar em Botafogo, quase que o mesmo comér-
cio que foi da geração anterior, porque aquilo, tinha aquele padrão assim,
muito personalizado, tradicional, freguês, aquela coisa assim né. Isso, até,
eu me casar. Ainda morei em Botafo go um ano, antes d e vir pra, um ano e
meio mais ou menos até ir pro exterior, até Barcelona. Acho que nesse final
que isso foi... eu me casei em 1960, esse final da década de 50 trouxe pra
Botafogo, a primeira modificação imobiliaria com a construção de alguns
' edificios. Haveria alguns tradicionais, mas , começaram a surgir, nem sempre
¬ boas construçöes, eram um prediozinhos assim mais, mais simples que ainda
tão alguns por ai,›e, acho que dai 0 bairro foi caindo, nitidamente numa,
multiplicação oficinas...

Para entender o que acontece nas passagens assinaladas, pode ser útil lembrar
que o trecho como um todo é o relato de uma pessoa idosa, que puxa pela
memória enquanto tenta descrever o bairro carioca de Botafogo tal como o
conheceu na infância. As recordaçöes não são tão nitidas quanto ela gostaria,
e isso a leva a “atenuar” de varias maneiras as suas asserçöes. Um desses recur-
sos é o advérbio possiuelmente; outros recursos são o condicional se nao me

341

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sm

R. IMRI 0 R. M. BASSO

engano, e os verbos deve e ac/10. Não é difícil perceber nesses dois últimos
verbos dois operadores epistêmicos do tipo estudado em 7.3.3.; as proposiçöes
a que se aplicam esses operadores são por isso mesmo avaliadas não no mun-
do real, mas nos varios mundos compatíveis com as crenças (e aqui as lem-
branças) da informante _ uma manobra que resulta num compromisso
menos forte com sua verdade no mundo real. O uso de se nao me erigano tem
um efeito semelhante: consiste em relativizar aos mundos em que a infor-
mante não comete equivocos (obviamente 0 mundo real não é um deles) a
avaliação da proposição de que a embaixada inglesa se converteu num colégio
suiço. Uma análise semelhante parece dar contade possiuelmente, sobre cuja
natureza de operador modal não ha dúvida (ao passo que é delicado decidir
entre uma leitura epistêmica e uma leitura factual). O que se'pode verificar
em todos esses casos é que o falante recorre à modalização (isto é, força uma
interpretação via outros mundos que não o real) como uma forma de enfra-
quecer seu compromisso com a verdade do dictum. e assim
sej ão cooperativa: essas máximas
exigem que os locutores digam, em qualquer circunstancia, tudo aquilo que
sabem ser verdade, e tudo aquilo que sabem ser relevante. Se a informante
que se exprime em (7-66) incursiona por outros mundos, em vez de ater-se
ao mundo real, é certamente porque não tem condiçöes de fazer afirmaçöes
taxativas sobre este ú1timoj'Em todos esses casos, a busca de outros mundos
é então interpretada como um enfraquecimento de seu compromisso com o

No trecho analisado, encontramos ainda, usa ._ tu o recurso para atenuar


a asserção, duas ocorrências da forma verbtenuar a afirmação é
uma das tantas funçöes que a forma em -ria 1 -_ -- a r- nha em português culto.
A estratégia envolvida pode facilmente ser recuperada se nos lembrarmos que
se trata do mesmo uso que se faz nos jornais, e que permite aos jornalistas
eximir-se da autoría pela afirmaçãof'
Os trechos transcritos a seguir exemplificam outras formas de atenuar o
comprometimento do falante com a verdade do dictum: _

(7-67) ...mas eu sinto isso, quer dizer, eu fieo com medo de, até pra aluno como
professora, de passar uma coisa nostalgica pro aluno, mas eu mii seja
dos itens da vida moderna que eu acho que senti que foi mais rouh:-ido, é a
questão do espaço sabe, a casa, né, a casa, a, a rua, a praça, sabe, é, veja por
exemplo esse pessoal que mora na Barra.

342 /`
I

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0 VERBO

(7-68) L1 - e', porque tu ac/tas que existe o valor, eu ac/vo que nao existe o valor
L2 “ "å0› x existe valor; eusac/Jo. eu entendo que a reforma do ensino
seja algo necesscirio
[oz i1oA izo]

Da mesma forma que se pode atenuar o compromisso com a força da asserção,


pode-se dar mais força a esse compromisso:

(7-69) Marc Ferrez. Ele tem um livro sobre a avenida Rio Branco. Quando a
avenida Rio Branco foi inaugurada, foi uma, um sucesso extraordinario,
ue era linda, alias, né, co P iada da, da, da, dos P rédios co P iados do estilo
“belle époque” francés aquela coisa, né? Foi um sucesso. Ele tinha um livro
fotografando edificio por edificio da avenida Rio Branco, e alguns, alguns
flagrantes assim da avenida, não é, de longe, tirando a paisagem da avenida
(pigarro) E você olha para aquilo e, e passa depressa na avenida Rio Branco,
da vontade de chorai' (risos) não é que eu seja saudosista, não, mas era muito
melhor mesmo, nãotenhaa menor dúvida. _

(7-70) sabemos por exemplo... que... toda e qualquer cirurgia... no campo médico...
propriamente dito... implica... oârigatoriamente... em despesas... as mais
elevadas... despesas essas que os associados nao têm realmente condiçôes... de...
conseguir... um meio ou uma maneira... digamos assim... de levar adiante
aquela coisa...
. [DID REC 131]

(7-71) numa persiinalidade que esta' se criando vai surgir em...em decorrência disso:
do que ela viu em-pequena, do que ela ouviu em pequena, evidenitemente, se
uma criança se cria numafizmilia em que...ninguém tem religião nen/auma,
em queƒalam dos padres, em quefizlam dos reverendos, enfim...que... “esses
caras só querem tirar din/7eiro”-- isso a gente ouve muito, evidentemente essa
criançajci vai...vai se(r) muito mais dificil recupera'-la ou encamin/ni-la pra
uma religiao
.

[DID POA 45]

(7-72) a verdade é que tanto no sexo fiminino quanto no masculino /oa' sempre uma
produçao significante embora pequena mas de /vormônio do sexo oposto... en-
tendeu?
[EF SSA 49]

.J

343

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*` ` p-ev

I. ILIRI 0 R. M. BASSO

7.7. Teniutiva de sintese

Podemos, finalmente, traçar 0 contorno da região semántica do modo, lo-


calizando em seu interior a contribuição exercida pelas flexöes a que a tradição
gramatical chamou de modos.
Em primeiro lugar, cabe ressaltar que todas as linhas de investigação a que
acabamos recorrendo nesta scção, com 0 objetivo de conceituar ou esclarecer
a noção de modo, desenvolveram para seu próprio uso esquemas em que se
representam um conteúdo proposicional e uma operação de algum tipo efetuada
sobre esse conteúdo. E imediato ver nesses esquemas a versão moderna da velha
distinção escolástica do modus versus dictum, que sai, assim, confirmada ao final
de nossa discussão. De acordo com essa constatação, podemos definir como
área semántica do modo aquela em que operamos sobre conteúdos proposicio-
nais, e isso define a primeira coordenada de nosso mapeamehto. A segunda
coordenada é dada pelo fato de que, de todas as 0-peraçöes que podemos fazer
sobre um conteúdo proposicional, contam aquelas que têm interesse numa
perspectiva interpessoal. Essa condição leva, por um lado, a excluir da área do
modo operaçöes como a negação, a localização no tempo e vários tipos de mo-
dificaçöes adverbiais que poderiam ser representadas como operaçöes sobre
uma sentença, e leva a incluir na área semántico-pragmática do modo os atos
de fala, o trabalho que os falantes fazem, no sentido de modular o compromis-
so de suas asserçöes e a avaliação da verdade das proposiçöes em face de dife-
rentes sistemas de referência compartilhados com os interlocutores.
Em nenhuma dessas areas, os modos do verbo, entendidos como formas
de flexão, dão conta de expressar todas as opçöes disponíveis para um locutor
do português. Mas em todas essas areas os modos verbais acabam desempe-
nhando algum papel, junto com outros recursos que vão desde o uso de
outros morfemas que a gramática tradicional classificou como tempos (por
exemplo, o futuro do pretérito) até um uso abundante da subordinação de
sentenças, de adjuntos e de vários tipos de auxiliares e outros operadores.
'Procuramos incluir tudo isso no Quadro 7.2, na verdade uma justaposição
de quatro tabelas, que, no seu conjunto, devem ser entendidas como pró-me-
mória, e eventualmente como uma espécie de sumario de questöes pertinentes,
e não como uma explicação, muito menos como uma explicação exaustiva do
modo. Usamos quatro tabelas justapostas, e não uma só, por entender que a
primeira funciona como uma espécie de entrada para as demais, num sentido

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1

Ru l

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ü vtnso

que deveria se r intuitivamente óbvio. Quanto à leitura propriamente dita das


tabelas, as colunas da esquerda referem-se a possíveis opçöes significativas e as
da direita, a sua expressão lingüistica. Os negritos servem para situar nesse
conjunto 0 uso de Hexoes ' que, tradicionalmente,
` ` rece b em o nome de modo.

Quadro 7.2
' S Auxiliares e P 1A '
a) Modo,eoutros * Adjuntos i
morfemas verbais j operadores
Ordem, pedido Imperativo * Ordeno que...

Desejo, volição Subjuntivo j Verbo regente: descjar; querer; espe-


t ti A I
OP a vo J rar; temer etc.
Promessa Indicativo
fala
e
Pedido de informação ` interrogaçao pergunto se... e outros recursospara a
Atod(pergunta) direta 3 1 ƒormaçáo de interrogaçôes indiretas

| A Asserção Indicativo 1

' ' Atos de fala dependentes j Indicativo


L J
do uso de performativos I Í _
I

S Modo, e outros Adjuntos Auxiliares e


b) morfemas verbais j operadores

Estratégia 1: o dictum não aparentemente parece que..., diz-se


é objeto de conhecimento, etc. que...,
; acho que... e outros v.
' mas sim de opinião l
Si
`› l de opinião
SCI ecimento promisso ldever (epistêmico) Í
rL
Cl
çãoo Estratégia 2: o falante não Condicional _ Verbo regente: diz-se
Enfraqu dcom
| . responde pessoalmente pela “jornalistico” que... f
| miaassso verdade do dictum
pro
c Neutro . Í Indicativo' Í Í Í
COITI
' Estratégia: insistir na coin- ' mesmo, bem
cidência da linguagem com . Í
letc.

omisso
Pl' os fatos Í Í Í
lesobre
o e não dá outra
| estratégia: bloquear a passa- .
HÍIO
_ 0
COITI gem pÍara outros mundos Í
Co É nem aqui nem na
' estratégia: negar I afirmar
I' d
eforço para todos os mundos = for- A China
¡
R mas de modalização _
±.l...-.- - , __- _ -F1 ïl-_ -I _- -±_ " '__ "-_" _

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-ff-u'I|¡

R. ILARI 0 R. M. BASSO

~1 _ I Ip-í, - - †~~ ¡__-íím -~ ~- ~~~~~~ __-_ _ ___. _

Modo, e outros Adjuntos * Auxiliares e operadores


C) morfemas verbais
_, l _. - _ ._ _ -_, ~ - __ ._

Factuaìs possivelmente, aux. que indìcam possibilidade ou


` necessariamente necessidade : poden dever, ter que,
ter de
dade
Ii
I-III

Epistêmicas Condicional talvez auxiliares de opinião ou certeza: po-


Moda
l epistêmico Í der, dever, ac/¡ar que...
Deònticas Í auxiliares de obrigação: poder, dever,
ter que, ter de

d) Modo, e outros Adjuntos Auxiliares e


_r _ ,
Í Í morfemas verbais Í ÍÍÍ A Í operadores

ade não-condic. Indicativo


id
el _* Real Í* Indicativo + indicativo
iona Potencial j Put. subj. + presindicat. Í Í _
Y contrafactual I Imperf. subj. + Futuro do preté-
Cond'c _ _ Í rito ou imperf. do indicativo Í

7.8. Recupitulugão

xg-Ao fechar esta seção, insistimos no interesse de poder contar com um


conceito amplo de modo. Um conceito desse tipo permite, de um lado,
evitar que as diferenças de conjugação tradicionalmente classificadas como
“modo” nos apareçam como uma idiossincrasia inútil, e, por outro lado,
permite que possamos perceber como o verbo marca presença na interação
lin g üistica efetiva,
. __ contribuindo P ara diferentes fiÍn 9 öes'daIin_-ua?
g 5 emi
, P ara
aqiíloqiie alguns autores chamaram de função “ideacional” ou “de repre-
sentação
Í/4, -_.r._.da_§›_gp__eriência” 0 verbo contribui com seufsentido básico e sua
` estrutura argumental; para a ancoragem na situaçáo concreta de enunciação,
' †"= - .,,, -_. ,ff _~_ :éflulm ,<›-_ ,___ F Í Í

0 verbo contribui com as flexöes de tempo e pessoa; as flexöes defmodo o


habilitam a exercer a macrofunção interpessoal.
Também qfuekreinos insistirno fato de que ha continuidade entre as dife-
rentes operaçöes modais que fomos levados a distinguir, para maior clareza
sobre sua natureza semântico-pragmática. Quem afirma “O assassinato do
\
prgfäto te_t_ia__s_id0 CI1comend_at_l_Q pela mafia dos transportes” está fazendo
ao mesmo tempo varias coisasf dá aentenderque não ' 'e de evidências
pessoais para confirmar a versão; marca uma adesã mais raca” à verdade do
1
"I
1

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J
0 VERBO

conteúdo proposicional; evoca um estado de coisas que poderia coincidir com


aquilo que acontece em um outro mundo; faz um ato de fala de informação;
exprime uma atitude proposicional da ordem da opinião (e não da certeza).
Inversamente, subordinar um conteúdo proposicional a um verbo que indica
a modalidade factual, da certeza (por exemplo, “O assassinato do prefeito só \
pode ter sido encomendado pela máfia dos transportes”), resulta naturalmente
numa “afirmação mais forte” e num engajamento 'maior com a verdade, do
(1116 SC O IIICSITIO COHÉCU'd O P ro p osicional fosse subordinado a um verbo. Í

8. Voz
_

Nas seçóes anteriores, caracterizamos o verbo como associado a um certo


número de papéis temáticos (seção 2.); mostramos também que esses papéis
temáticos tendemia formar grupos que são evocados simultaneamente (por
exemplo: [agente + paciente (± instrumento)] ou [experienciador + causa]).
Vimos por fim que, para determinados conjuntos de papéis temáticos, fica
claramente determinada uma hierarquia tematica, entendida como 0 fato de
que, “em condiçöes normais”, é possivel prever qual dos papéis temáticos
associados a um verbo ocupará a posição de sujeito gramatical (entendido
como o termo da sentença com o qual o verbo concorda), e como serão dis-
tribuidos dentro do sintagma verbal os demais sintagmas que expressam pa-
péis temáticos. Í i _
Quando falainos deo retornamos à questão da distribuição dos
papéis temáticos pelas posiçöes sintáticas de sujeito, objeto diretb, objeto
indireto etc., para verificar como essa distribuição interage com um outro
fenómeno, de carater' t extual e discursivo, que tem a ver com a maneira cÍ›`mo,
ao construirmos nossas sentenças, controlamos o Huxo das informaçôes que
Íïi g ¿UIQ

pretendemos passar a nossos interlocutores. Tentemos entender melhor o


que isso significa. Ao definirmos hierarquia temática, procuramos explica-la
como um dispositivo que nos orieiita na tarefa de decidir como certas funçöes
(tais como agente, paciente etc.,que são outras tantas maneiras de qualificar
os argumentos do ver o eneontram uma correspondência canônica com as
““ Ä' 1-="'“¬""' 'r ;'-f"-T --r
fun (P öes sintáticas como su'eito bjeto diretm e indire *Lad unto Si adver al.
Em-outras palavras, uma hierarquiatemátLc¿é_um P_¿;a ¢5¡ab¢_
lecer correspondências entre certas funçöes nocionais (que valem para pessoas

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