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colunistas de Letras: algumas reflexões e
pergunte sobre ciência
muitas indagações (Parte 1)

Primeira reflexão: o problema da transposição


didática dos temas semânticos
No artigo anterior, publicado nesta coluna em setembro último,
discutimos a possibilidade de um tratamento discursivo do Roberto Leiser Baronas
Escolha uma edição enunciado concessivo. Na ocasião procuramos mostrar com São Carlos, SP, Brazil
esse tipo de tratamento que o discurso possui lugares nos quais
se ancora mais fortemente na língua, isto é, que há lugares em Doutor em Lingüística e Professor
que o discurso belisca mais fortemente a língua. No nosso no Departamento de Letras e no
entendimento, o tratamento didático de tais beliscões poderia Programa de Pós-Graduação em
deixar um pouco menos opaco o posicionamento ideológico dos Lingüística da UFSCar. Traduziu
quem somos sujeitos nas suas enunciações. diversos artigos e livros de
Dominique Maingueneau, Jacques
Guilhaumou, Oswald Ducrot e
links Jean-Jacques Courtine. É
Neste texto, com base em poucas reflexões e muitas organizador e autor de diversos
podcasting livros e artigos no domínio da
indagações acerca da necessidade premente de inovações Análise do Discurso de orientação
pedagógicas no processo ensino/aprendizagem de semântica francesa. Foi um dos elaboradores
fale conosco nos Cursos de Letras, asseverando que todo professor deve ter do Plano Estadual de Ciência e
espírito de pesquisador e, como bom ladrão de palavras, Tecnologia para o Estado de Mato
tomando-as dos lábios de Gramsci, tenho como hipótese de Grosso - 2004/2007 e também do
trabalho que “o professor, independentemente do campo de projeto de criação do Centro
Estadual de Educação Profissional

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saber em que se inscreva, deve necessariamente ter dúvida na e Tecnológica de Mato Grosso -
teoria, mas nunca na prática”. CEPROTEC-MT. É editor
responsável pela Revista de
Popularização Científica em
Ciências da Linguagem -
Ao longo de meus doze anos de trajetória profissional como Linguasagem. Tem experiência na
formador de formadores na Educação Superior na área de Letras área de Lingüística e Formação de
Professores com ênfase no
tenho observado que o desenho curricular dos Cursos de Letras domínio da Análise do Discurso,
seu e-mail aqui tem dado bastante importância aos pressupostos teóricos que o atuando principalmente nos
orientam. As implicações didáticas decorrentes dessas escolhas seguintes temas: análise do
teóricas que sustentam tais desenhos têm sido, no entanto, na discurso, discurso político, derrisão,
melhor das hipóteses, relegadas a um segundo plano. Na interpretação, leitura e lingüística.
organização desses currículos, as disciplinas, seus respectivos
objetivos e seleção dos conteúdos, salvo raríssimas exceções,
privilegiam somente os aspectos teóricos. Não há efetivamente
uma preocupação desses guias curriculares com o tratamento
didático que tais conteúdos poderiam/deveriam receber por parte
dos professores. A articulação entre teoria e prática, quando
acontece, geralmente no final dos Cursos, se resume a
pouquíssimas disciplinas de metodologia do ensino.

Um bom exemplo do que estou enunciando é o que sugere como


proposta de trabalho a ficha de caracterização da disciplina
“Estudos lingüísticos: semântica” do Curso de Letras da UFSCar,
cuja ementa é “Introdução à Semântica. A significação nos
conceitos clássicos. Estudos de Pragmática. Língua e
Enunciação. Sentido e Referência. Princípios de Semântica
Argumentativa. Introdução à Estilística” e os objetivos gerais são
“levar o aluno a: 1) compreender os conceitos fundadores de
Semântica e Pragmática e 2) perceber os deslocamentos
produzidos pela Semântica da Enunciação”. A ementa e os
objetivos não têm nenhuma preocupação com os possíveis
tratamentos didáticos que os conteúdos, temas semânticos a
serem abordados poderiam/deveriam receber. Diante da ementa
e dos objetivos, é possível asseverar que essa disciplina se
assenta na suposição de que basta oferecer ao futuro professor
de língua materna uma boa fundamentação teórica acerca de
correntes e temas semânticos para que este desempenhe uma
prática pedagógica que desenvolva nos seus alunos
competências e habilidades de forma que estes possam o mais
eficazmente possível realizar “todas as funções próprias da
língua: expressar sua personalidade, comunicar-se de maneira
eficaz com os outros, elaborar conceitos que permitam organizar
a percepção do mundo, fazer da linguagem um instrumento de
raciocínio e um objeto de fruição estética” (Ilari & Basso, 2006, p.
231).

Todo o conhecimento teórico proposto pela disciplina, apesar de

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ser muito pertinente é de pouca relevância no momento em que
o jovem professor se depara com situações reais de sala de aula.
Quando este tem de mediar aos seus alunos do ensino médio
temas semânticos tradicionais como a diferença entre “sinonímia
de palavras e paráfrase”, por exemplo. Embora ele tenha
aprendido no Curso de Letras que a primeira se constitui
classicamente “numa identidade de significação que não pode
ser pensada fora do contexto em que as palavras são
empregadas” e a segunda como “um fenômeno que apesar de
possuir um fundamento real em semelhança de significação das
palavras ou construções gramaticais, essas semelhanças nunca
são completas, idênticas”, na hora de realizar a didatização
desses conteúdos, o jovem professor acaba por reproduzir
literalmente tais conceitos. Ou seja, por não ter tido em sua
formação uma reflexão acerca de possibilidades de transposição
didática, o jovem professor deixa de enfatizar como tais
conceitos funcionam lingüisticamente em um texto, que efeito de
sentido argumentativo eles poderiam produzir, por exemplo.

Segunda reflexão: o problema da carência de


materiais didáticos que tratam da significação
Se realizarmos uma leitura rigorosa em livros didáticos de língua
portuguesa, quer seja nos mais antigos ou nos mais modernos,
tanto nos destinados ao ensino fundamental quanto nos
destinados ao ensino médio, excetuando-se raríssimas
exceções, constataremos que a significação, o estudo do sentido
de uma palavra, sintagma, frase, texto ou discurso recebe
nesses compêndios pouquíssima atenção. Temas mais “nobres”
como ortografia, acentuação, classificação das palavras,
regência, concordância, colocação pronominal, entre outros
ocupam praticamente todas as páginas dos manuais didáticos de
língua portuguesa. Ao olharmos para a história do livro didático
no Brasil constatamos que esses manuais seguem até hoje uma
certa lógica que prioriza questões ortográficas e sintáticas. As
questões semânticas quando aparecem, ou figuram
marginalmente, ou são tratadas da mesma maneira que uma
questão gramatical. A esse respeito asseveram Barros &
Bintencourt (2004, p. 1): “No âmbito dos estudos tradicionais da
linguagem, é fato notório e corriqueiro a divisão da Gramática em
três disciplinas principais: Fonética (lato sensu), Morfologia e
Sintaxe. A Fonética focaliza os componentes sonoros das
línguas (vogais, consoantes, sílabas, etc). A Morfologia toma por
objeto de análise a palavra. A Sintaxe, por sua vez, trata das
relações que se estabelecem entre os termos da frase. Nesta
tripartição, o exame das significações é feito de modo parcial e
acidental. Trata-se, portanto, de divisão que não deixa espaço
próprio e apropriado para a Semântica, o que constitui verdadeiro
absurdo, uma vez que a linguagem é na sua essência uma
atividade semiológica, um modus faciendi em que significado e

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significante mutuamente se reclamam, sendo que este tão-
somente existe para a materialização e manifestação daquele”.

Essa lógica está presente desde o primeiro livro didático de


Língua Portuguesa, “Compêndio da Ortografia da Língua
Nacional, de A. A. P. Coruja, publicado no Rio de Janeiro pela
Tipografia Francesa em 1848. Num livro didático mais “moderno”
como o de Tesoto & Discini (1994), intitulado “Novo texto &
contexto” da Editora do Brasil de São Paulo, destinado a alunos
da quinta a oitava série do ensino fundamental, embora o
compêndio se proponha como uma obra que procura priorizar a
interpretação de texto, portanto objetiva dar conta de uma
questão de ordem semântica, o que prevalece na prática são
exercícios que pouco têm a ver com problemas semânticos. A
título de exemplo, para corroborar nossa afirmação, mobilizamos
a proposta de exercício presente na página 159: “Redação”.
“Conotação e denotação”. “1 - Crie frases conotativas com essas
palavras: noite, caminho, entardecer, relógio, avião e 2 – Crie
frases conotativas com esses verbos: apagar, secar, inundar,
plantar”. O exercício proposto trata de um tema semântico,
conotação/denotação, da mesma maneira que são tratados
temas gramaticais, tais como regência e concordância.

O tratamento didático dado ao tema semântico da conotação-


denotação proposto por Tesoto & Discini se constitui num forte
argumento em defesa de nossa hipótese de trabalho de que a
significação figura apenas marginalmente e gramaticalizada nos
manuais didáticos de língua portuguesa. Sobre isso nos alerta
Ilari (2001, p. 11), “simplesmente não existe em nosso ensino
uma tradição de tratar do sentido através de exercícios
específicos, e isso leva o professor da escola média a acreditar
que, nessa área, não há nada de interessante a fazer.

Tal postura adotada pela grande maioria dos manuais didáticos


de língua portuguesa implica uma redução muito grande das
atividades que poderiam/deveriam ser realizadas pelo professor
em sala de aula. Os compêndios didáticos ao privilegiarem
apenas conteúdos gramaticais deixam de sugerir aos
professores outras possibilidades de explorar os processos de
criação de sentidos, abrindo assim perspectivas para um ensino
de língua portuguesa mais criativo e motivado. Até o próximo
encontro.

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colunas Roberto Baronas


Roberto Leiser Baronas - Enunciados Concessivos: uma leitura discursiva - 25/08/2009

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Roberto Leiser Baronas - A necessidade de qualificação do debate em relação à língua... - 18/06/2009

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