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COLEÇÃO 10

COLEÇÃO 10

©

2007, Editora Sundermann

A editora autoriza a reprodução de partes desse livro para fins acadêmi­ cos e/ou de divulgação eletrônica, desde que mencionada a fonte.

Supervisão editorial: João Ricardo Soares e Luiz Gustavo Soares Produção editorial: Fernando Ferrone Revisão: Luiz Gustavo Soares e Diego Siqueira

Projeto gráfico, capa e editoração eletrônica: Kit Gaion

Dados internacionais de catalogação (CIP) elaborados na fonte por Iraci Borges - CRB 8 2263

Weil, Josef, org. O Oriente Médio na perspectiva marxista. São Paulo: Editora Sundermann, 2007. 248p. (Coleção 10, 5)

ISBN: 978-85-99156-19-3

1. Sionismo. 2. Imperialismo. 3. Povos árabes – libertação. 4. Povos muçulmanos – liberta­ ção. I.Título. II. Parras, Angel Luis. III.Toledo, Cecília. IV. Welmovicki, José, colabs.

CDD 322

Índice para catálago sistemático

Sionismo. Imperialismo. Oriente Médio. Marxismo.

Com exceção do último artigo, escrito especialmente para esta coletânea por A. L. Parras e traduzido por Diego Siqueira, todos os textos foram inicialmente publicados na revista Marxismo Vivo em seus números 3, 9 e 14.

Editora Sundermann Rua Matias Aires, 78 • 01309-020 • Consolação • São Paulo • Brasil +55 -11 3253 5801 (tel) • +55 -11 3289 8097 (fax) vendas@editorasundermann.com.br • www.editorasundermann.com.br

Josef Weil (org.)

O Oriente MédiO na perspectiva Marxista

• www.editorasundermann.com.br Josef Weil (org.) O Oriente MédiO na perspectiva Marxista São Paulo, 2007
• www.editorasundermann.com.br Josef Weil (org.) O Oriente MédiO na perspectiva Marxista São Paulo, 2007

São Paulo, 2007

07 Introdução

José Welmovicki

parte 1

SUMÁRIO

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O que é Israel?

Alejandro Iturbe e Josef Weil

39

Cinco décadas de pilhagem e limpeza étnica

Cecília Toledo

75

A encruzilhada palestina

Angel Luis Parras e Josef Weil

109

A derrota de Israel no Líbano

Alejandro Iturbe e Josef Weil

parte 2

129

Islã: da Porta sublime à porta do Inferno

Cecília Toledo e José Welmovicki

139

Os novos cruzados

Cecília Toledo e José Welmovicki

parte 3

167 Islamismo, expressão distorcida do nacionalismo

Angel Luis Parras

INTRODUÇÃO

José Welmovicki

Há uma região que não sai do noticiário em nossos telejornais, dos jornais diários e nas revistas semanais, desde pelo menos 2001. Os atentados de 11 de setem­ bro, a invasão do Afeganistão e depois do Iraque, a guer­ ra permanente de Israel contra palestinos e o Líbano e demais povos árabes colocam sempre na tela e nas man­ chetes internacionais o Oriente Médio ou as questões derivadas das lutas desta região. Nossos meios de co­ municação, ecoando a mídia dos países ocidentais mais poderosos, costumam explicar esses fatos com uma simples acusação preconceituosa e racista: identificam os milhões de trabalhadores e jovens muçulmanos com o “fanatismo religioso”. Nas livrarias e revistas, os artigos e livros “sérios” de

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figuras acadêmicas como Samuel Huntington falam em “choque de civilizações”. Portanto, tudo se resumiria às “disputas religiosas” ou a um suposto atraso cultural que os impediria de aceitar a “democracia ocidental”. Diga­se de passagem que esse é o sustentáculo da dou­ trina Bush. Na Europa não é diferente: racistas como Le Pen (que teve seus lemas incorporados por Sarkozy na última eleição na França) e Haider na Áustria, ocor­ rendo casos similares com políticos da Holanda, não são apenas fenômenos excêntricos. Claro, posições como essas só podem causar repug­ nância aos lutadores do movimento sindical, popular e à juventude. Há também aqueles que entendem não ser somente uma luta religiosa, que admitem que existe um conflito de interesses, mas que agregam que nenhum lado tem razão e que “nós devemos condenar todos os que fazem a guerra” e lutar “pela paz”, “nem Bush nem Jihad”, “nem Israel nem palestinos”. Nada mais equivo­ cado do que tentar aparecer como o “justo meio-termo”, o “equilibrado” num conflito tão decisivo: quem tenta ficar em cima do muro acaba por apoiar um dos lados, nesse caso, o dos poderosos. Nós temos uma posição e não a escondemos: é ao lado dos povos oprimidos. É essa posição que vai se refletir nos materiais que publicamos nesta coletânea.

O Oriente Médio na perspectiva marxista

Nosso objetivo com essa coletânea tampouco é resumir- se a ser simpático à causa palestina ou dos povos contra o imperialismo. Teremos alcançado o objetivo se formos além de posições superficiais e ajudarmos a embasar o posicionamento de quem nos ler. Por isso, selecionamos as questões centrais em discussão no Oriente Médio para estudar mais de perto e reunir análises fundamen­ tadas que dêem um outro olhar sobre cada uma. Um olhar comprometido com a luta contra o impe­

rialismo, contra o racismo e de apoio à libertação nacio­ nal. Neste livro reunimos ensaios e textos que buscam jogar luz nos reais motivos dos conflitos do Oriente Médio, na sua importância mundial e no papel que os povos dessa região heroicamente vão assumindo na luta

e que podem inspirar a nossa América Latina também em confronto com a mesma dominação imperial.

Os reais motivos do acirramento da situação no Oriente Médio

Embora pareça uma questão óbvia, há que se res­ ponder aos argumentos da mídia de que tudo não passa

de disputas religiosas. Para os que como nós vemos que

o dominante no mundo é o imperialismo e seus interes­

ses econômicos, o acirramento da situação que ocorre é

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reflexo dos ataques que o imperialismo desfere contra os trabalhadores e os povos de todo o mundo. O Oriente Médio é a região-chave para o controle do petróleo e das fontes de energia. Frente ao apetite voraz dos impe­ rialismos estadunidense e europeu, vários povos dessa região lutam por sua independência. A peculiaridade da situação atual é que ao contrário do esperado pelo governo Bush, no Iraque e no Afega­ nistão desenvolvem­se guerras de libertação nacional que atacam as ocupações militares, colocando como possibilidade real a derrota e a expulsão dos invasores. Em particular, o elemento mais avançado é a luta dos iraquianos contra as tropas de ocupação dos Estados Unidos e seus aliados. Embora haja enfrentamentos entre setores da comunidade e esta seja a intenção dos ocupantes estadunidenses e de seus títeres no gover­ no de Bagdá, o fato central é a luta do povo iraquiano, a resistência contra a ocupação, que já infligiu mais de 3.300 mortos às tropas dos Estados Unidos. Esse curso desfavorável da guerra no Oriente Médio atingiu o país como um bumerangue, incidindo sobre as eleições legis­ lativas e se expressando como uma maré de votos con­ tra Bush. A derrota do governo, a divisão na cúpula dos partidos estadunidenses, a votação do Congresso para marcar uma data para volta dos soldados refletem essa

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situação cada vez mais pantanosa para o imperialismo no conjunto do Oriente Médio. Nessa ocupação, está sendo decidida boa parte do destino da atual política do imperialismo estadunidense. Uma derrota de Bush e dos Estados Unidos abrirá condições muito mais favo­ ráveis para o avanço da liberdade dos povos do mundo inteiro.

As verdadeiras questões em jogo no Oriente Médio

As verdadeiras questões-chave no Oriente Médio envolvem o sionismo e Israel, a definição do islamismo e dos movimentos fundamentalistas. A primeira delas em que a confusão é grande (e interessada) é o caráter de Israel. Em geral, associa-se Israel a um país qual­ quer como o Brasil, ou com os Estados criados após a II Guerra Mundial (1939-1945), como Índia ou Indonésia, após se libertarem dos respectivos imperialismos. Ou seja, um Estado nacional a mais, com a peculiaridade de que se trataria do Estado criado pelos judeus perse­ guidos sobreviventes da fúria anti­semita do nazismo. E que agora estariam novamente submetidos a novos ad­ versários que os querem liquidar, os árabes. Daí, Israel, a “única democracia do Oriente Médio” (como disse

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alegremente o correspondente da rede Globo M. Lo­ sekan durante a cobertura da segunda invasão ao Líba­ no) seria merecedor de toda a “solidariedade” dos povos de todo o mundo. Convidamos vocês a ler o artigo dessa coletânea

sobre origem e atual política do sionismo e Israel para conhecer informações ocultas cuidadosamente pela im­ prensa e mídias como a Globo. Nem Israel é uma de­ mocracia, mas sim um Estado racista, nem é um pobre Estado isolado, mas sim um “Estado policial” armado até os dentes a serviço dos Estados Unidos e sua po­ lítica. Pronto para esmagar os palestinos ou invadir os vizinhos para impor sua força e servir a seu amo. Mas

a crise também atingiu esse outro baluarte dos Estados

Unidos na região. Ocorre que o povo libanês em 2006 derrotou a invasão do até então “todo-poderoso” exér­ cito sionista de Israel e isso agravou ainda mais a crise política do governo Bush. Por último a questão em que mais se joga confusão:

o nacionalismo árabe e o fundamentalismo islâmico. Se

fossemos acreditar no que sai nas TVs e imprensa, es­ taríamos diante de povos bárbaros, com uma cultura e religiões primitivas, adequadas à violência e ao fanatis­ mo. Também se falava isso dos indígenas e lutadores da América Latina que combatiam os colonizadores por­

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tugueses e espanhóis. Já no século 19 e 20, os europeus que ocuparam a Ásia e África justificavam sua coloniza­ ção dizendo que se tratava de povos atrasados, aos quais se devia levar a “civilização ocidental”. Na verdade, sempre houve resistência contra os in­ vasores desde a época de Lawrence da Arábia logo de­ pois da I Guerra Mundial (1914-1918). Vários dirigentes árabes e persas surgiram nessas lutas como Nasser do Egito, o partido Baath do Iraque e Síria ou Mossadegh do Irã. Esses partidos e líderes tinham um limite muito grande por serem defensores de um capitalismo nacio­ nal independente numa época em que o imperialismo não deixava espaço para uma autonomia relativa. Im­ punham regimes bonapartistas e tratavam de controlar as massas, reprimindo sua organização independente, e foram todos derrotados pela ação do imperialismo, por Israel e por suas próprias vacilações ao enfrentar o im­ perialismo, refletindo mais cedo ou mais tarde a sub­ missão de suas respectivas burguesias aos ditames do império. Frente a essas derrotas, novas forças surgiram tentan­ do acaudilhar as massas em rebelião, e a partir da Revo­ lução iraniana de 1979 dirigentes burgueses religiosos, como os aiatolás iranianos ganharam peso e passaram a cumprir um papel semelhante, agregando aos limites

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dos antigos nacionalistas árabes a ideologia religiosa re­ acionária na sua pregação. Propõem Estados islâmicos:

regimes bonapartistas e ditaduras com manto religioso, que buscam desmontar e enfrentar todo processo revo­ lucionário, perseguem os ativistas operários e juvenis e toda corrente que não aceite seus planos políticos e suas doutrinas reacionárias. Como explica o artigo de Angel Luis Parras “Em todos os casos, por sua natureza burguesa e teocrática, nunca são conseqüentes na luta contra o imperialismo ”. Aqui a confusão é forte também na esquerda mun­ dial: a posição mais comum é compará­los ao fascismo e, portanto, até justificar os golpes militares contra eles. Muitas organizações dizem que, ao contrário das cor­ rentes burguesas e pequeno­burguesas anteriores e de outros países coloniais e semicoloniais, com as correntes islâmicas não se pode fazer nenhum acordo de unidade de ação e de luta no campo militar contra o imperialis­ mo. Alguns dizem que entre o imperialismo e os funda­ mentalistas se trata de dois setores igualmente reacio­ nários e que a política deve ser chamar à “paz”. Reproduzimos o texto de A. L. Parras nesta coletâ­ nea que parte de outros critérios e tira outras conclusões. Parte dos ensinamentos de Lenin e Trotsky diante do enfrentamento de um país mais débil contra o impe­

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

rialismo. Estes diziam que defendemos a derrota do imperialismo e, portanto, a vitória do país agredido, in­ dependentemente de quão reacionária seja sua direção e seu regime. “O fundamentalismo é um fenômeno similar ao na­ cionalismo burguês. Por isso, preservando a indepen­ dência política e de classe e sem dar apoio político a essas direções, chamamos a unidade de ação com as correntes islâmicas que enfrentam o imperialismo”. Como se pode ver, nesta coletânea estão colocados pontos de vista bem diferentes do que se lê e se escuta em nossa mídia e esperamos que possam ajudar a en­ tender um tema tão importante hoje para a ação transfor- madora na realidade. Mais ainda quando a causa dos po­ vos do Oriente Médio é a mesma dos povos da América Latina e de nosso país. Esperamos que os materiais aqui reunidos ajudem nessa compreensão.

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PARTe 1

O estado de israel

O QUe É ISRAeL?

Alejandro Iturbe

Josef Weil

A lenda sionista conta que a criação de Israel foi como uma a mais das nações que conseguiram sua inde­ pendência política no pós-II Guerra, com rebeliões ou guerras de libertação nacional contra seus colonizadores imperialistas. Índia, Indonésia, Argélia, Vietnã são al­ guns dos exemplos mais marcantes desse processo. Em primeiro lugar, a implantação de Israel difere totalmente destes exemplos, pois ele é um enclave ins­ talado na Palestina para defender o imperialismo em terras estratégicas e com base a uma transplantação de uma população externa à região, os judeus. Apoiada na perseguição anti­semita, uma imigração, em especial da Europa oriental, é estruturada pela organização mundial

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sionista, financiada por milionários como Rothschild e estimulada pelas metrópoles como a Inglaterra, para garantir a fidelidade desses novos ocupantes a seus pa­ trocinadores imperialistas. A comparação correta é com os colonos ocidentais implantados no século 19 e 20, nas colônias, a exemplo dos ingleses na Rodésia (hoje Zimbábue) e nas Malvinas. Ou dos franceses na Argélia, afrikaners no sul da África etc. Não por acaso as potências imperialistas os promove­ ram e os líderes de todas essas empresas colonizadoras como Cecil Rhodes se respeitavam e tiveram relações políticas. Não são uma nacionalidade local que é opri­ mida pelos impérios, mas uma população estrangeira que se instala nas terras dos nativos e exerce um pa- pel opressor e a serviço de seu imperialismo nessa área. Como são transplantes de uma minoria colonizadora, para manter­se tem um caráter racista e militarista. Como eram o governo branco da Rodésia, os colonos franceses na Argélia e a África do Sul do Apartheid. O Estado de Israel serviu para as grandes potên­ cias imperialistas disporem de um cão de guarda numa região estratégica, o Oriente Médio. O líder sionis­ ta Chaim Weizmann, posteriormente presidente de Israel, chegou a garantir ao imperialismo inglês no fim da I Guerra Mundial: “uma Palestina judaica seria uma

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

salvaguarda para a Inglaterra, em particular no que diz respeito ao canal de Suez”. Apoiado nessa população de colonos que se deslocaram para a Palestina atraídos pela pregação sionista, Israel sempre se comportou de acordo a esse projeto e a essa finalidade.

Um estado racista

Israel desde sua fundação se constitui como Esta­ do racista, ideológica e legislativamente. Israel é ofi- cialmente um Estado judeu, ou seja, não de qualquer habitante que ali resida, mas somente daqueles que se consideram da fé ou de descendência judaica. Para ficar mais claro este caráter, 90% das terras reserva-se exclu­ sivamente para os judeus via Fundo Nacional Judaico, que por estatutos não pode nem vender, nem arrendar, nem sequer permitir que essa terra seja trabalhada por um “não judeu”. Mais ainda, proíbe-se aos palestinos qualquer compra ou mesmo arrendamento das terras anexadas pelo Estado desde 1948. Ao mesmo tempo, os judeus do mundo inteiro po­ dem legalmente emigrar e obter, com a nacionalidade is­ raelense, um sem número de privilégios sobre os nativos não judeus. Desde sua fundação existe um sistema de discriminação racial que domina absolutamente todos os

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destinos das vidas palestinas; o que se diria hoje de um país que tivesse como política oficial a expropriação de terras de judeus, ou que simplesmente proibisse que um cidadão de seu país pudesse assentar-se nele se se casas­ se com uma mulher judia? Obviamente dir-se-ia tratar- se de um flagrante caso de discriminação, de anti­semi­ tismo e seguramente, seria comparado com o nazismo ou com o Apartheid sul-africano. No entanto, isso em Israel é legal através de uma série de instituições e leis que restringem somente aos cidadãos não judeus de Israel. Dentre essas leis, destacam­se algumas. A Lei de Nacionalidade estabelece claras diferenças na obtenção da cidadania para judeus e não judeus. Pela Lei de Ci­ dadania, nenhum cidadão israelense pode casar-se com um residente dos Territórios Ocupados da Palestina; em caso de realizar­se a união, os direitos de cidadania em Israel se perdem e a família se não é separada, deve emigrar. Pela Lei de Retorno, qualquer judeu do mun­ do pode ser cidadão israelense. No caso dos cidadãos palestinos do Estado de Israel que tem familiares no es­ trangeiro, estes não podem obter o mesmo beneficio so- mente pelo fato de não serem judeus. A Lei do Ausente permite a expropriação de terras que não hajam sido trabalhadas durante um tempo. Paradoxalmente, nunca foi expropriada a terra de um judeu e a maioria delas

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foram expropriadas de refugiados palestinos no exílio, assim como de palestinos cidadãos de Israel e todo pa­ lestino que residindo na Margem Ocidental tenha terras na área ampliada de Jerusalém. Estas leis – apenas uma parte do total utilizado ex­ clusivamente contra a população árabe em Israel – não só tem um elemento econômico importante (pela perda de numerosas extensões de terras), mas principalmente possuem um componente social: a divisão de famílias, forçando-as a emigrar. Começou a ser denunciado o fato de impedir até mesmo a realização de casamentos entre pessoas não judias que habitem áreas distintas dos ter­ ritórios ocupados, ou até mesmo a reunificação de famí­ lias, marido e mulher, pais e filhos:

Em 2000, similarmente eles ‘reavivaram’ regras que

foram tomadas com respeito aos palestinos cujos côn- juges eram cidadãos de países árabes, ou seja, não ocidentais. Eles não tiveram permissão para retornar

a suas casas. Entre 1994 e 2000, durante os anos de

Oslo foram dadas instruções para atrasar o processo

de ‘unificação familiar’ pelo qual dezenas de milhares de famílias nos territórios ocupados estão esperando,

a um mínimo. Estas famílias não estão morando em

Haifa ou Ashkelon, mas na Margem Ocidental e na Faixa de Gaza.

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Os postos de controle “só para palestinos”, com as esperas propositais e irritantes nas suas entradas im­ postas pelo exército de ocupação, contrastando com as modernas e livres estradas “só para judeus” são um outro elemento de exasperação para fazer com que os palestinos desistam de ali ficar, mas ao mesmo tempo de revolta profunda.

A construção do Muro ao largo e dentro dos limites

municipais de Jerusalém impedirá definitivamente

a volta dos palestinos expulsos de Jerusalém pelo

confisco de suas terras, a demolição de suas casas ou

pressões de grupos de colonos extremistas. Perderão seus direitos de residência permanente em Jerusa- lém segundo a política do “centro de vida” e nunca mais poderão entrar na cidade sem permissões espe- ciais. As propriedades que tiverem abandonado em Jerusalém podem ser desapropriadas segundo a lei israelense de Proprietários Ausentes.

Uma sociedade cada vez mais violenta e racista

Um Estado como o israelense necessita permanente­ mente exercer a violência contra a população dominada.

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Para manter seu caráter colonial e racista, ele não pode tolerar resistência interna, nem desafios em suas fron­ teiras. Tem que ser expansionista e reprimir qualquer mínima contestação à sua natureza. Desde sua fundação, a fim de impor a ferro e fogo sua natureza racista, Israel praticou uma permanente limpeza étnica dos palestinos arrancando­os de suas terras ancestrais. Por isso, sempre teve como política consciente agredir os vizinhos árabes tanto para arran­ car terra e fontes de água, quanto para impor a vontade imperialista na região, impedindo o desenvolvimento de qualquer nacionalismo que o ameaçasse, como fi­ zeram com Nasser, e perseguindo implacavelmente os lutadores palestinos. Dos mais de dez mil presos políticos que apodrecem nos cárceres sionistas, centenas são menores. A tortu­ ra praticada sob autorização da justiça, os “assassinatos seletivos” nos territórios são a rotina que este monstro racista tem a apresentar como expressão de sua essência nazista. Isto pois quando um Estado persegue um povo inteiro com objetivos de eliminar sua identidade, de tor­ ná-lo escravo ou expulsá-lo, não há outro nome a dar ao regime desse Estado. Para defender tal caráter do Estado, a população is­ raelense vive sempre em pé de guerra. Uma população

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que foi educada a estar sempre ao serviço do Exército, pois só a força das armas pode garantir uma situação como essa. Por isso, são as Forças Armadas sua mais im­ portante instituição. E o papel desse Exército é impor aos palestinos e povos vizinhos a submissão, o saque de suas terras, com o uso extremo da violência. Essas exigências permanentes em nome da “segu­ rança de Israel” criam uma realidade de permanente chamado às armas. Todos os homens e mulheres ser­ vem respectivamente três e dois anos ao completar 18 anos e são reservistas por quase toda a vida, fazendo treinamentos anuais de um mês. Mesmo assim, não conseguem a tão ansiada “segurança”. Até a primeira derrota em 2000, ainda eram anestesiados pelo mito do exército invencível. A violência em Gaza ou na Cisjordânia não é noticia­ da em Israel. Afinal, os palestinos não são considerados seres humanos, que fossem mortos ou torturados pelas Forças Armadas para o establishment era uma decorrên­ cia do “direito a se defender”. Antes a questão nem en­ trava na pauta dos jornais israelenses, aparecia como um problema de polícia exclusivo dos territórios. Havia ape­ nas que impedir os atentados suicidas com mais repres­ são ainda e isolá-los totalmente, daí o projeto do “Muro da Vergonha”. O resto, o Tsahal (Exército) garantiria.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

A situação econômica é desastrosa. Israel só sobrevi­ ve graças ao sustento estadunidense. Sua economia gira totalmente em torno da guerra em detrimento de todos

os demais setores. O que se vê é uma cultura militarista

e sanguinária. Os mercenários israelenses são conhecidos

no mundo inteiro, recrutados em guerras coloniais ou por

ditaduras, caso semelhante aos mercenários sul-africanos. As divisões e desigualdades entre diferentes grupos da população e setores de imigrantes judaicos são pa­ tentes. Os judeus orientais ou sefaradis recebem melhor trato que os árabes israelenses, mas são discriminados em relação aos ashkenazis originais da Europa. A imigra­ ção de um milhão de russos (judeus ou supostos judeus) originou um clã pouco apreciado pelos outros grupos sociais, por sua fama de aproveitadores e permanentes negociadores de subsídios do Estado. Os partidos que os representam são de extrema direita e estão sempre

a exigir suculentos cargos e negociatas para manter seu

apoio ao governo de turno. Outro setor que cumpre um papel de parasita e é sustentação direta da extrema direita religiosa e de seus políticos racistas e corruptos são os colonos que vivem nos territórios ocupados em 1967. Como se viu na “de­ socupação” de Gaza, seus interesses são exigir mais e mais regalias do Estado para ser a ponta de lança da

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colonização e da expulsão dos palestinos. Geralmente quem cumpre esse papel são os judeus das últimas levas de imigrantes a chegar a Israel, os russos ou orientais, aos quais o Estado sionista destina terras financiadas, subsídios, com a condição de que aceitem viver em bunkers ao lado da população árabe e ser ponta de lança em agredi­los, atacar seus olivais, fazer com que saiam das poucas terras que lhes restam. Por último, nos últimos anos tem havido uma popu­ lação flutuante de imigrantes temporários ilegais trazidos dos lugares mais distantes e sem conexão com a região, como Filipinas e outros pontos da Ásia. Eles são trazidos para substituir a mão de obra palestina, à medida que os fechamentos de fronteiras impedem que estes trabalhem nas empresas dentro do território de 1948. Esses duzentos e cinqüenta mil semi­escravos não judeus são fundamen­ tais em áreas como construção, mas não tem nenhum di­ reito, são párias que deixam ainda mais precários os laços da sociedade em Israel, vivendo à sua margem.

Apesar das crises e diferenças, os colonos defendem seu estado

Claro que há um laço comum que liga todos os ci­ dadãos judeus israelenses: eles sabem que de uma ma­

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

neira ou outra vivem do saque a outro povo e do apoio que têm do imperialismo para cumprir o papel de cão de guarda na região. Sabem que os povos árabes e muçulmanos são suas vítimas e temem que essa massa se una e os expulse. Por isso, a única coisa que susten­ ta hoje a coesão dessa sociedade racista e violenta é o medo ao “inimigo comum”, o que é permanentemente lembrado com força pelos dirigentes israelenses de to­ das as cores. “Ou eles ou nós” é a mentalidade primitiva usada para manter a união, é o único nexo possível de união, ou “nosso direito à existência” enquanto Estado racista, enquanto privilegiados saqueando os nativos e explorando seus escravos. Devido a isso, a maioria dos israelenses está a favor da “separação” e da limpeza étnica de palestinos e da des­ truição do Hezbollah; apoiou a guerra contra o Líbano, inclusive seu caráter genocida. Por isso, a cada guerra, mesmo com as derrotas, os políticos que se fortalecem são os mais fascistas do espectro político sionista.

Um exército em processo de corrupção

Mas se é assim, porque a derrota abriu uma profunda crise? Porque mostrou que Israel é “um país vulnerá­ vel”. Que o Exército e a superioridade militar não lhes

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dão uma garantia eterna, e os refugiados de Haifa e do norte do país provaram na carne essa situação. E de­ pois de anos sem batalhas contra os exércitos árabes, já percebem que não conseguem enfrentar uma guerrilha. Uri Avnery, pacifista israelense da organização Gush Shalom escreveu um artigo em que faz um diagnóstico avassalador:

a ocupação está corrompendo nosso Exército [

última guerra séria de nosso Exército foi a Guerra do Yom Kippur (1973). Depois de vários importantes reveses, obteve uma vitória impressionante. Porém, quando isso ocorreu a ocupação só tinha seis anos. Agora, trinta e três anos depois, vemos o dano feito pelo câncer chamado ocupação, que já se espalhou a todos os órgãos do corpo militar.

A

]

Generais como Dan Halutz, comandante supremo que se preocupou em lucrar na Bolsa no mesmo dia em que se decidia a invasão, são um sintoma do grau de de­ terioração da moral e das relações nas antes incensadas cúpulas das Forças Armadas israelenses. Avnery refere-se ao fato de que a descomunal desi­ gualdade entre as Forças Armadas sionistas e os resis­ tentes palestinos levou a que os oficiais e soldados is­ raelenses se acostumassem durante vários anos a atacar

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

seus alvos sem ter de se preocupar com a resposta, como os pilotos da força aérea que bombardearam e assassi­ naram à vontade sem correr riscos. Mas agora têm que enfrentar uma verdadeira guerrilha, e aí não têm moral nem treinamento necessários:

Durante trinta e nove anos foram obrigados a realizar o trabalho de uma força policial colonial: correr atrás de meninos que atiram pedras e coquetéis molotov, arrastar mulheres que tratam de impedir que pren- dessem seus filhos, capturar pessoas que dormem em suas casas.

O problema é que isso vale não somente para os que perseguem palestinos nos territórios ocupados, é a ca­ racterística intrínseca de um Estado policial colonial. E para um enclave, ter um problema desta gravidade em suas Forças Armadas é aterrador, gera uma insegurança em todos os níveis da sociedade. À medida que a reali­ dade vai mostrando­se cada vez mais perigosa como ten­ dência, muitos israelenses se cansam deste ambiente, fato que se traduz num número não desprezível de fu­ gas. Essas cifras escondem cuidadosamente, mas já são um fato: um número considerável de israelenses, muitos deles da elite intelectual e profissional, busca uma so­ lução individual para sair do inferno da guerra perma­

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nente migrando. Esses emigrantes saem discretamente alegando ir estudar ou trabalhar no estrangeiro (princi­ palmente Estados Unidos e Europa), mas muitos ficam fora e só visitam o país brevemente para ver as famílias. Na propaganda sionista, nem se menciona esse fato; só se mostram os novos imigrantes judeus que chegam para fixar-se em Israel, chegando ao aeroporto mesmo durante a guerra, tentando demonstrar uma ardente fé sionista. Outra cifra que vai aumentando é a deserção não explícita, saída de jovens em idade militar, que tra­ tam de evitar as frentes e o serviço em territórios pales­ tinos ou libaneses.

Podem o povo israelense e seus operários voltar-se contra o sionismo?

As crises em Israel e em especial no Exército são muito importantes porque debilitam o Estado, abrem brechas para que a resistência possa golpear, e preparam sua derrota. Contudo não pensemos que se trata de um país normal, inclusive se o comparamos com um país imperialista. Aqui a população é formada por colonos, dependem da manutenção do Estado racista para man­ ter seu nível de vida e sua proteção contra as reivindi­ cações dos povos espoliados. Vejamos o que conta uma

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

crônica de uma militante espanhola que passou várias semanas com os palestinos e depois em Israel e nas co­ lônias sionistas da Cisjordânia:

…o sentimento de prepotência e superioridade dos israelenses e sua concepção dos palestinos e árabes em geral como seres inferiores, incivilizados, violen- tos e os quais temem de uma forma totalmente irra- cional. Este sentimento se aguça durante o serviço militar e podes percebê-lo com toda sua crueza em cada um dos checkpoints que tens que atravessar. É habitual ver como os soldados tratam os palestinos como animais.

Visitando uma colônia na Cisjordânia, ela relata:

O que se vê e se sente quando passeia por ali é que

são lugares sem alma. São lugares tão artificiais, tão alheios ao entorno que os rodeia, que indubitavel- mente a maneira mais acertada de qualificá-los é de “câncer”. Câncer, como tecido que cresce totalmen-

te diferente ao tecido sobre o qual se localiza e que,

além disso, é daninho e pode ser letal. Outra coinci- dência entre as colônias e o câncer é seu tratamento. Seu tratamento não pode ser outro que a destruição

desse novo, alheio e daninho tecido, sua destruição ou sua extirpação radical. E não há outra saída.

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A chantagem do anti-semitismo

Desde que Israel surgiu, seus dirigentes e o sionismo utilizaram a chantagem do Holocausto nazista para im­ por sua política. Frente ao massacre nazista, a comoção mundial foi utilizada pelo sionismo para vender a idéia de que única saída para a perseguição era a criação de um Estado judeu na Palestina. Esse Estado seria um re­ fúgio e única garantia de paz e segurança para todos os judeus do mundo. Essa gigantesca falácia agora se mos­ tra em toda sua crua realidade. Ao se basear na espo­

liação de outro povo, o palestino, ao se converter neste monstro colonial, racista e opressor, converteu-se hoje na “maior fábrica de vírus do anti-semitismo”, segundo a expressão de Uri Avnery. Mas os sionistas não desistiram de usar o fantasma do anti­semitismo, agora para impedir a divulgação e tirar

a atenção de sua crueldade com os palestinos, ou pelo

menos inibir as críticas, e incitar mais judeus a que se ins­

talem em Israel “para defender seu único refúgio”. Mas a chantagem do anti-semitismo, esse terrorismo intelectual

e moral, essas constantes mentiras fomentadas pelos po­

líticos imperialistas e pela mídia servem para tentar calar os críticos. A manipulação permanente do genocídio dos judeus pelos sionistas também acaba por se desgastar.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

O estudo do nazismo e do ascenso do fascismo mos­ traria que ele foi tolerado e estimulado pelos regimes “democráticos” dos países imperialistas pois esperavam que eles pudessem reprimir os seus movimentos ope­ rários e invadir a URSS. E que o sionismo da época foi cúmplice e nada fez para salvar os judeus da Europa ocidental das câmaras de gás. Agora em nome de evitar o anti­semitismo querem que se avalize os métodos genocidas de Israel, se calem ante os crimes de Israel e sobre o local onde está o ver­ dadeiro fascismo de hoje.

A polêmica sobre a natureza e a solução para a Palestina

Podemos dizer que é cada vez maior o número dos que se horrorizam com a ação genocida de Israel, re­ pudiam os assassinatos e buscam uma saída para essa situação permanente de guerra na região. Entre esses há três posições sobre qual deve ser a saída. A mais difundida era a solução dos “dois Estados”, um judeu e outro palestino, no mesmo sentido da pro­ posta da ONU de 1948. Desde os acordos de Oslo, havia uma pressão muito forte para que os palestinos aceitassem essa solução e a traição da OLP sob a direção

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de Arafat permitiu a implantação deste “engendro”, a ANP, que legitimava Israel e se colocava a tarefa impos­ sível de articular um “Estado” de bantustões totalmen­ te dominados econômica e militarmente pelo opressor racista. Como bem classificou Edward Said na época, algo como o governo colaboracionista de Vichy sob a dominação nazista na França. Essa alternativa seria a coexistência lado a lado de um Estado racista e outro das populações excluídas, ou seja, do câncer ao lado do tecido vivo. Porém depois de quase 15 anos de Oslo, alguns de seus partidários na esquerda começaram a ver que ela é cada vez mais inviável, pela própria ação de Israel, cada vez se apropriando de mais terras e expulsando mais palestinos. O “Muro da Vergonha”, o roubo de mais da metade das terras da Cisjordânia, das fontes de água etc. inviabilizaram sequer o mini­Estado destinado aos palestinos em Oslo. O enclave sionista não aceita reti­ rar-se de territórios ocupados em 1967, nem dar nenhu­ ma autonomia real aos palestinos nem muito menos anexar os territórios dando direitos aos palestinos, pois temem o “perigo demográfico” de anexar três milhões de “não judeus”. Não se pode pôr um fim à política de apartheid imposta na Palestina por uma sucessão de leis e reformas pressionadas pela revolta palestina, algo

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como o que se passou no fim do Apartheid na África do Sul. Voltamos a ter a grande questão colocada na ordem do dia: é necessário destruir o Estado de Israel e qual­ quer outra solução só fará perpetuar a opressão e expan­ são do câncer. E essa destruição só pode ser feita pela luta unificada política e militar não somente das mas­ sas palestinas como das massas árabes e muçulmanas. Nessa luta, são positivos cada golpe infligido ao Esta­ do a seu Exército e a aparição de uma insegurança que leva cada vez mais gente a pôr em dúvida sua estada lá. Só depois de anos de rebelião, ações guerrilheiras, e uma campanha mundial a favor da independência da Argélia, os grupos fascistas como a OAS foram derrota­ dos, os colonos da França foram obrigados pela insurrei­ ção argelina a abandonar seus enclaves e a Argélia pôde enfim comemorar sua independência. Aqui entra outro problema: em Israel por sua natu­ reza de Estado policial, todas as estruturas são parte do sistema militar, por isso todos os judeus lá são soldados na ativa ou na reserva até os cinqüenta anos de idade. Um kibutz é uma fortaleza armada dos colonos; uma cidade israelense, o mesmo. O quartel­general está em Tel Aviv. Assim, qualquer estrutura do Estado é alvo necessário da guerra de libertação nacional. Os fogue­

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tes que caíram sobre as cidades do norte são uma arma legítima da resistência e, ao abater o moral dos colonos, ajudam o objetivo de destruir o Estado genocida. Ade­ mais, esse foi o efeito dos que atingiram Haifa ou outras cidades. Nada mais injusto que o “meio justo” da Anis­ tia Internacional que condena os dois lados por igual, por “crimes de guerra”. Essa destruição do Estado de Israel permitiria a re­ cuperação do território histórico da Palestina e a cons­ trução de uma Palestina laica, democrática e não racista, antiga reivindicação da OLP dos anos 1970. Nessa Pa­ lestina sem muros nem campos de concentração, os mi­ lhões de refugiados poderiam retornar e todos os judeus que quisessem viver em paz poderiam permanecer da mesma forma em que durante muitos séculos viveram no mundo árabe.

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CINCO DÉCADAS De PILHAGeM e LIMPeZA ÉTNICA

Cecília Toledo

“Foi para uma terra sem povo que lentamente, no final do século passado, começou a se encaminhar um povo sem terra”. Essa história, que desde a fundação de Israel em 1948 vem sendo martelada na cabeça dos povos do mundo inteiro, começa a ruir. E já não mais apenas por obra dos marxistas revolucionários, mas dos próprios israelenses. Tom Segev, um dos mais destaca­ dos historiadores de Israel da atualidade, entrevistado recentemente pelo jornal Folha de S.Paulo, demonstra essa falácia. Autor do livro 1949, Os Primeiros Israelen- ses, Segev baseia-se no diário do pai-fundador de Israel, David Ben Gurion, no qual ele descreve sua política para forçar a saída dos árabes do recém-criado país. O livro,

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antes repudiado por mostrar que a versão oficial – em voga até então – era fantasiosa e que os árabes não dei­ xaram Israel por vontade própria – mas foram expulsos com requintes de crueldade – já está inclusive sendo adotado nas escolas. Esse “reconhecimento” por parte da História ofi­ cial é um tanto quanto tardio se levarmos em conta que outros autores, em especial os marxistas, já haviam, exaustivamente, contado a história real do sionismo e desmascarado uma das mais monumentais falsifica­ ções históricas já feitas até hoje. Entre esses historia­ dores marxistas destacam-se o militante revolucionário Abraham Léon, morto nas câmaras de gás de Auschwitz aos 26 anos, e autor do importante livro A Questão Ju- daica, e Ralph Schoenman, que escreveu a História Oculta do Sionismo, um relato detalhado e que não dei­ xa dúvidas sobre a ocupação sionista da Palestina. No entanto, esse reconhecimento é mais uma demonstra­ ção de que a situação é tão grave e o avanço da Intifada tão forte que até importantes historiadores israelenses já estão admitindo que a ideologia “da terra sem povo” é pura invencionice, e negam a torrente de mentiras que os sionistas vêm pregando há décadas e que serviram para iludir muita gente.

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Judeus: um povo-classe nas sociedades pré-capitalistas

Abraham Léon parte da proposta de Marx para de­ monstrar que a suposta originalidade do povo judeu tem causas materiais e históricas, sem qualquer relação com Jeová ou uma pseudo “essência” racial imutável, como supõem tanto os anti-semitas quanto os sionistas. Segundo Marx, para entender a questão judaica, “não devemos buscar o segredo do judeu em sua religião, mas o segredo da religião no judeu real”. Partir da reli­ gião, como normalmente se costuma fazer, não resolve a questão judaica; para entendê­la é preciso entender o judeu em seu papel econômico e social. Léon vai em busca das origens do povo judeu e che­ ga à importante e rica noção de povo-classe. Nas so­ ciedades pré­capitalistas, os judeus foram uma classe social, um povo­classe, como são, entre outros povos, os ciganos. Os judeus representavam as formas “pré-histó­ ricas” do capital, tanto no mundo antigo como no mun­ do feudal. No feudalismo, as transações com dinheiro ocorriam relativamente à margem do modo de produ­ ção, já que essas sociedades eram produtoras de valores de uso e não de troca. Por ser uma atividade marginal, era exercida por “estrangeiros”, por povos-comercian­

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tes, como os fenícios, os judeus e os lombardos. Esses eram povos-classe que, como dizia Marx, existiam nos poros da sociedade produtora de valores de uso. Assim, os judeus são a sobrevivência de uma velha classe mer­ cantil e financeira pré­capitalista. Sobre essas relações materiais dos judeus se assenta­ va uma superestrutura institucional e ideológica: auto­ ridades comunitárias, uma religião “especial” e o mito de considerarem­se descendentes do primitivo povo hebreu que habitava a Palestina no início de nossa era. Essa superestrutura ajudava a manter a coesão do povo­ classe mas, ao mesmo tempo, falsificava a verdadeira natureza de sua existência. É o fenômeno da falsa cons­ ciência, comum a todas as ideologias. E explica porque não há unidade racial entre os judeus. Oculto sob esse manto ideológico-religioso, ocorria o fenômeno da in­ corporação de indivíduos ou grupos inteiros ao povo- classe. Isso explica que tenha existido judeus de “raça” mongólica no Daguestão, judeus negros (os falasha) na Etiópia, judeus árabes no Islã e judeus de origem eslava na Europa oriental. Isso prova que a descendência co­ mum de Abraão ou dos habitantes da Palestina no início de nossa era é puro mito. Com o desenvolvimento do capitalismo, a velha classe comercial pré­capitalista judaica foi perdendo

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as bases materiais de sua existência como povo-classe. Na Europa ocidental, especialmente na Inglaterra, os judeus começam a assimilar­se de forma natural. Porém antes que esse processo atingisse a Europa oriental, de capitalismo mais atrasado, entramos na etapa imperia­ lista do capitalismo, em decomposição no mundo todo. Os judeus, tanto na Europa ocidental quanto na oriental, passaram a enfrentar uma situação dramática. Ao colocar a solução do problema judaico nos termos da luta pelo socialismo, o marxismo começou a exer­ cer uma grande atração sobre as massas judaicas. Seu caminho era fundir-se com a classe trabalhadora em suas lutas contra o capitalismo, pois para as massas ju­ daicas miseráveis de Varsóvia ou de Kiev, o caminho seguido por seus correligionários mais afortunados da Inglaterra ou da França, da assimilação como burgueses nos marcos do capitalismo, já lhes estava fechado. Na Rússia, enquanto o império czarista alentava os choques entre russos e polacos ou ucranianos, ou destes contra os judeus, e enquanto o Império Austro-Húngaro fazia o mesmo no mosaico de povos que dominava, os mar­ xistas revolucionários chamavam a unidade de todos os trabalhadores (de qualquer língua, nacionalidade ou “raça”) para lutar contra esses regimes e contra toda a burguesia imperialista européia.

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Por isso, muitos operários, estudantes e intelectuais de origem judia ingressaram nas fileiras socialistas e se assimilaram aos trabalhadores de seus países. Mas o ve­ lho povo-classe, nas condições do capitalismo moderno, era cada vez menos homogêneo. E assim também fa­ mílias ricas, como os Rothschild e outros milionários, se ligaram à burguesia imperialista dos diversos países europeus. E, entre as saídas burguesas para o problema judaico apontadas por esses setores, a mais importan­ te é o sionismo. Outra saída reformista foi proposta por aqueles que ficaram conhecidos como bundistas.

O que foi o bundismo

Os bundistas eram membros do Bund, a União Ge­ ral de Operários Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia, fundada em 1897. Surgiram na Rússia como um setor da social-democracia, tanto que, no início, fez parte do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), mas quando este se dividiu, o Bund colocou-se contra os bolcheviques. A base social do Bund era constituída por setores de artesãos, semiproletários ou operários de pequenas oficinas, especialmente da indústria de vestuário. Era um vasto setor com um pé no velho gueto e outro no

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proletariado industrial moderno. Isto se refletia na ideo­ logia do Bund, que por um lado se reivindicava marxista e revolucionário, e de outro, negava o internacionalis­ mo ao levantar barreiras entre os operários de distintas nacionalidades. Com a bandeira de defender a cultura nacional, pregava que os operários judeus deveriam or­ ganizar­se de forma separada dos operários russo, polo­ neses etc. Assim, acabava por fazer o jogo da burguesia, ao dividir os trabalhadores de cada fábrica ou cidade se­ gundo sua origem nacional ou “racial”. Esse caráter contraditório – reflexo de uma contra­ dição real de sua base social – determinava que, apesar de sua capitulação ao nacionalismo burguês, o Bund não propunha que os trabalhadores judeus se separassem da luta de classe e se unissem à burguesia judia para ir co­ lonizar a Palestina ou algum outro território. Quem fez isso foram os sionistas.

O surgimento do sionismo

Também em 1897, quando surgiu o Bund, realizou-se em Basiléia, Suíça, o Congresso de Fundação da Orga­ nização Sionista. O pano de fundo da irrupção do movi­ mento sionista foi a rápida capitalização da economia rus­ sa depois da reforma de 1863, o que tornou insustentável

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a situação das massas judaicas das pequenas cidades. No

Ocidente, as classes médias, trituradas pela concentra­

ção capitalista, começavam a se voltar contra o elemento judaico, cuja competição agravava sua situação. Em meio a esse clima, surgiu na Rússia a Associa­ ção dos Amantes de Sion e é publicado o livro de Leon Pinsker, A Auto-emancipação, preconizando o retorno

à Palestina como única solução possível para os judeus.

Logo depois, um jornalista judeu de Budapeste, Te­ odoro Herzl, escreve O Estado Judeu, que até hoje é considerado o evangelho do movimento sionista, segun­ do Abraham Léon. Na França, o barão de Rothschild, junto com outros magnatas judeus, opõe-se à chegada em massa de imigrantes judeus nos países ocidentais e começa a apoiar a obra de colonização judaica da Pales­ tina. “A seus ‘irmãos desafortunados’ a volta ao país de seus ‘antepassados’, ou seja, a ir o mais longe possível, nada tinha de desagradável para a burguesia judaica do Ocidente, que temia, com razão, o crescimento do anti­

semitismo”, diz Léon. Assim, ainda que a Organização Sionista passasse a disputar a mesma clientela que o Bund e inclusive o socialismo revolucionário, seu caráter de classe era marcadamente distinto: aparecia como o programa de um setor da grande burguesia judaica, que terminaria sendo dominante dentro dela.

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No princípio, o sionismo apareceu como uma reação da pequena burguesia judaica, duramente golpeada pela crescente onda de anti­semitismo, tendo que se bandear

de um país a outro, que queria atingir a terra prometida

a todo custo para livrar-se dessa situação. No entanto, o

sionismo procura assentar-se em uma explicação religio­ sa para justificar sua existência. No ano 70 da era cristã, os judeus teriam sido expulsos de Jerusalém, ocupada pelos invasores romanos. Como na Bíblia, Jerusalém era considerada a pátria dos judeus, eles teriam sido expa­ triados; foi a famosa diáspora, que espalhou os judeus pelos quatro cantos do mundo. Voltando a Marx, para entender a questão judaica é preciso partir das condições materiais de vida do judeu e não da religião, das fantasias e ideologias criadas ao longo da História. “Enquanto o sionismo é, realmente, produto da última fase do capitalismo, ou seja, do capi­ talismo que começa a se decompor, vangloria­se de ter sua origem em um passado mais que bimilenário. Em­

bora o sionismo seja essencialmente uma reação contra

a crise do judaísmo gerada pela combinação do desmo­

ronamento do feudalismo com a decadência do capita­ lismo, afirma ser uma reação contra a situação existente desde a queda de Jerusalém, no ano 70 da era cristã”, diz A. Léon.

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Mas o próprio surgimento do movimento sionista re­ futa essas pretensões. “Como crer que o remédio a um mal existente há dois mil anos só tenha sido encontrado no final do século 19? O sionismo vê a queda de Jerusa­ lém como causa da dispersão e por conseguinte, a origem de todos os males dos judeus no passado, no presente e no futuro”. “A fonte de todas as desgraças do povo ju­

deu está na perda de sua pátria histórica e sua dispersão em todos os países”, declarou a delegação “marxista” do Poale Zion no Comitê holando-escandinavo. Essa história dos judeus, como é contada pelos sio­ nistas, trata de criar o pano de fundo para justificar a ocupação da Palestina. Assim, depois da violenta dis­ persão dos judeus por obra dos romanos, os judeus não quiseram assimilar-se. Imbuídos de sua “coesão nacio­ nal”, “de um sentimento ético superior” e de “uma in­ destrutível crença em um Deus único”, teriam resistido

a todas as tentativas de

O que não é verda­

de, já que, como vimos anteriormente, houve ao longo desses dois mil anos inúmeros casos de assimilação. En­ tretanto, de acordo com a história construída pelos sio­ nistas, isso jamais teria ocorrido; a única esperança dos judeus durante esses dias sombrios que duraram dois mil anos era retornar à antiga pátria. Segundo A. Léon, nunca o sionismo havia se co­

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locado essa questão de forma séria. Por que, pergun­ ta, durante esses dois mil anos jamais tentaram voltar realmente a essa pátria? Por que foi necessário esperar até o fim do século 19 para que Herzl os convencesse dessa necessidade? Por que todos os seus predecessores eram tratados como falsos messias? Para responder a es­ sas incômodas perguntas, o sionismo recorre aos mitos. “Enquanto as massas acreditaram que deviam esperar na Diáspora até a chegada do Messias, foi preciso sofrer em silêncio”, diz Zitlovski. No entanto, como diz Léon, essa explicação não explica nada. Trata-se precisamen­ te de saber porquê as massas judaicas acreditavam que deviam esperar o Messias para poder “regressar à sua pátria”. Como a religião é um reflexo ideológico dos in­ teresses sociais, a partir do final do século 19, ela come­ çou a deixar de ser um obstáculo para o avanço do sio­ nismo e a se transformar numa cortina de fumaça para seu expansionismo, servindo para encobrir e justificar todas as suas mazelas. Essas concepções idealistas do sionismo são insepa­ ráveis do dogma do anti­semitismo eterno, ou seja, de que aconteça o que acontecer, os judeus serão sempre perseguidos. Dessa forma, o sionismo transpõe o anti- semitismo moderno para toda a História, economizando o trabalho de investigar as diversas formas de anti-se­

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mitismo e suas causas, e inclusive omitindo o fato de que em diversas épocas históricas os judeus não foram oprimidos, mas opressores, como membros da classe dominante. “Na verdade, a ideologia sionista, como toda ideolo­ gia, não é senão o reflexo desfigurado dos interesses de uma classe. É a ideologia da pequena­burguesia judaica, oprimida entre o feudalismo em ruínas e o capitalismo em decadência”, sintetiza A. Léon. Ele ressalta um fato justo, ou seja, que a refutação das fantasias ideológicas do sionismo não refuta, naturalmente, as necessidades reais que o fizeram nascer. É o moderno anti­semitismo e não o mítico anti-semitismo “eterno” o melhor agita­ dor em favor do sionismo. Assim a questão fundamental é saber em que medida o sionismo é capaz de resolver não “o eterno problema judaico” mas a questão judaica na época da decadência capitalista. Os defensores do sionismo comparam­no com os demais movimentos nacionais. Porém o movimento nacional da burguesia européia é conseqüência do de­ senvolvimento capitalista; reflete a vontade da burgue­ sia de criar as bases nacionais da produção, de abolir os resquícios feudais. Mas no século 19 – época do flores­ cimento dos nacionalismos – a burguesia judaica, longe de ser sionista, era profundamente assimilacionista. O

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processo econômico que fez surgir as nações modernas lançava as bases para a integração da burguesia judaica na nação burguesa. Só quando o processo de formação das nações chega ao fim, quando as forças produtivas deixam de crescer, premidas pelas fronteiras nacionais, surge o processo de expulsão dos judeus da sociedade capitalista e o moderno anti­semitismo. A eliminação do judaísmo acompanha a decadência do capitalismo. Longe de ser um produto do desenvolvimento das for­ ças produtivas, o sionismo é justamente a conseqüência da total paralisia desse desenvolvimento, da petrifica­ ção do capitalismo, nas palavras de A. Léon. Assim, enquanto o movimento nacional é um produto do pe­ ríodo ascendente do capitalismo, o sionismo é fruto da era imperialista. A tragédia judaica do século 20 é uma conseqüência direta da decadência do capitalismo. Com toda razão, A. Léon lembra que justamente está aí o principal obstáculo para a realização do sionis­ mo, e esta é a chave para se compreender a crise atual que vive a Palestina desde a fundação do Estado de Is­ rael (1948). A decadência capitalista, base do crescimen­ to do sionismo, é também a causa da impossibilidade de sua realização. A burguesia judaica vê­se obrigada a criar um Estado nacional e assegurar as condições para o desenvolvimento de suas forças produtivas justamente

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na época em que as condições para isso desapareceram há muito tempo. A decadência do capitalismo, se por um lado colocou de forma tão aguda a questão judaica,

por outro, torna impossível sua solução pela via sionista.

E não há nada de assombroso nisso, diz Léon. Não se

pode suprimir um mal sem destruir suas causas. “O sio­ nismo quer resolver a questão judaica sem destruir o ca­ pitalismo, principal fonte dos sofrimentos dos judeus”. Isso marca, como ferro em brasa, o caráter de clas­ se do movimento sionista. É certo que os pioneiros da colonização da Palestina eram artesãos, pequenos co­ merciantes pobres, pessoas sem grandes posses. Dessa forma, tratou-se de criar uma imagem “plebéia” e até “operária” e “socialista” ao sionismo. Seus defensores, principalmente os que se dizem de esquerda, aceitam a idéia de que o movimento sionista não era um fator pro­ gressivo na política européia, mas argumentam que isso era secundário frente a um fato essencial: o sionismo se­ ria o movimento de libertação nacional do povo judeu.

E do “povo mais pobre”, daí ser uma “causa justa”.

É claro que não estava nos planos de Rothschild e da grande burguesia judaica irem pessoalmente à Palestina cultivar a terra. O que fizeram foi impulsionar um mo­ vimento para confinar os judeus mais pobres na Terra Santa e, com isso, afastá­los da luta de classes na Europa

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e dos partidos de esquerda, e, por outro lado, livrarem­ se – eles em primeiro lugar – da fúria anti-semita que crescia a olhos vistos. Outro objetivo desse movimento impulsionado pela burguesia judaica era transferir essas massas para fora da Europa para constituir um Estado judaico num ponto estratégico, em meio às maiores re­ servas de petróleo do mundo, ameaçadas pelo ascenso das massas árabes. Por isso, o Estado de Israel se tor­ nou um enclave do imperialismo na região, o policial do mundo árabe.

Uma região “vazia”

Segundo os sionistas, a Palestina era uma região pra­ ticamente vazia. “Vastas regiões do país permaneciam inexploradas e pertenciam a senhores feudais ausen­ tes. Estavam infestadas de malária e, além de algumas barracas de beduínos dispersas, estavam desabitadas e, por isso, disponíveis”. Nas vizinhanças da Terra Santa havia apenas alguns núcleos heterogêneos, muçulma­ nos, chequizes, maronitas, cristãos e gregos ortodoxos. “Foi para uma terra sem povo que lentamente, no final do século passado, se começou a encaminhar um povo sem terra”. Vivia-se a época da expansão colonial da Europa na

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Ásia e África. É nesse marco histórico que se inicia o sionismo. E a Palestina, longe de ser uma terra vazia e sem dono, estava ocupada por outro povo, o povo árabe. Isso era um problema para a burguesia judaica européia, tanto que Herzl nem menciona a palavra “árabe” em seu livro, apesar de saber, obviamente, da existência dos árabes. Essa falsificação, escondida durante tantos anos, não resiste mais à evidência dos fatos e, principalmen­ te, ao recrudescimento da luta palestina, obrigando até mesmo os historiadores oficiais de Israel a reconhecer que aquela não era “uma terra sem povo”. Esse foi o papel reservado aos desesperados judeus da Europa oriental: servir de ponta de lança dos planos colonizadores da burguesia imperialista, em especial os Estados Unidos, interessados em criar um enclave no Oriente Médio. Com um discurso filantrópico, a expan­ são colonial usava as massas miseráveis de judeus para seus fins nada louváveis. Quem poderia se opor a que os pobres judeus saíssem da escuridão dos guetos para o sol da Palestina? Infelizmente, essa troca, por mais benéfica que tivesse sido para eles, foi feita às custas dos árabes, massacrados e, estes sim, expulsos da terra que possuíam de fato, e não por obra e graça de uma história bíblica.

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Declaração Balfour: a segunda etapa do sionismo

A política de Teodoro Herzl, o pai do sionismo, e seus sucessores foi a de se aproveitar do processo de expansão colonial imperialista para ocupar a Palestina. Para isso, precisava que alguma potência imperialista abraçasse a causa sionista. Assim, sua atividade prin­ cipal foi as gestões perante as diversas potências euro­ péias, buscando inserir o sionismo como parte de sua política colonial. Esse apoio veio, em primeiro lugar, da Inglaterra, um império que, desde meados do século, expandia-se a todo vapor. As gestões de Herzl em Londres foram bem acolhi­ das, mas havia um problema objetivo: a Palestina es­ tava nas mãos da Turquia. A Inglaterra então ofereceu a Herzl colonizar Uganda ou o Sinai egípcio, mas essa possibilidade não se concretizou. Havia um segundo problema objetivo: o sionismo não era muito forte entre as massas judaicas. Os que queriam emigrar, o faziam maciçamente para a América; tanto que uma das op­ ções discutidas foi a constituição do Estado sionista na Argentina. Pouquíssimos judeus iam para a Palestina. E uma boa parte dos que ficavam eram anti­sionistas, ou estavam sob a influência dos partidos de esquerda.

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Com a I Guerra Mundial, chegara a hora da repar­ tição da Turquia. Para apressá-la, a Inglaterra utiliza o movimento nacional dos árabes que havia começado a despertar. E, por outro lado, firma um acordo com a França, de repartição da zona, além de assinar a cha­ mada Declaração Balfour (2 de novembro de 1917), que ficou conhecida como a “aliança de casamento” entre o sionismo e o imperialismo inglês. Assim começava a segunda etapa do sionismo, que culminaria com a criação do Estado de Israel. Além de dar aos ingleses um valioso auxiliar para estabelecer um futuro protetorado na Palestina, a Declaração Balfour colocava em mãos inglesas uma poderosa arma para li­ quidar o movimento nacional árabe, fortalecer a política de guerra do imperialismo britânico e sua luta contra a Revolução russa (1917). O caminho em direção a Israel estava sendo traçado com as seguintes características: 1) por uma declaração unilateral de uma grande potência imperialista; 2) essa declaração impunha o destino de uma região da Ásia que jamais havia pertencido à Inglaterra, que dava de presente a lorde Rothschild o território de uma nação alheia; 3) não levava em conta os desejos do povo pa­ lestino, que era 93% árabe em 1917. Esses 93% eram reduzidos à condição de não judeus, confinados em um

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“lar nacional judaico”, ou seja, tratados como estrangei­ ros em sua própria terra.

O mandato britânico (1918-1948)

No final da I Guerra Mundial, os Aliados (Inglaterra, França, Itália e Estados Unidos) criaram a Sociedade das Nações, antecessora da atual ONU, que “outorgou”

à Inglaterra o mandato sobre a Palestina. Porém naque­

les tempos as coisas não corriam muito tranqüilamente para o imperialismo. Havia surgido, pela primeira vez na História, um Estado operário, a URSS que se opu­ nha à expansão colonialista e em todo o mundo colonial começava uma grande onda de lutas antiimperialistas. Dentro do mundo árabe, o Oriente Médio concen­ trou as lutas mais importantes contra os imperialismos inglês e francês. A Palestina foi o eixo dessa luta, es­ pecialmente durante a insurreição de 1936-1939, que começou com uma greve geral que durou seis meses

e, para ser sufocada, exigiu a metade dos efetivos de todo o Exército britânico, um dos mais poderosos do mundo nesse momento. Centenas e centenas de pa­

lestinos foram mortos, detidos e condenados à forca ou

a longas penas de prisão. Em 1939, o povo palestino

estava derrotado. Essa é a chave para entender a rela­

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tiva facilidade com que em 1947-1948 foi instalado aí o Estado de Israel. A ocupação, explica Jon Rothschild, deu-se em base a três pilares do movimento sionista: kibush hakarka (conquista da terra), kibush haavoda (conquista do tra­ balho) e t’ozteret haaretz (produto da terra). “Detrás dessas sonoras palavras havia uma dura realidade. Con­ quista da terra significava que toda a terra possível fosse adquirida (legalmente ou não) dos árabes, e que nenhu­ ma terra de judeus fosse vendida ou de alguma maneira retornasse aos árabes. Conquista do trabalho significava que nas fábricas e terras de judeus dava­se preferência aos trabalhadores judeus. O trabalhador árabe era boi­ cotado. De fato, a Histadrut, que hoje se diz a central operária em Israel, foi criada para impor o boicote aos trabalhadores árabes. Produto da terra significava prati­ car o boicote à produção árabe por parte dos colonizado­ res judeus, e manter somente a compra de produtos das terras ou negócios judeus”. Essa política de ocupação – da qual os sionistas fa­ ziam propaganda dizendo que era uma política “so­ cialista”, que visava ajudar os trabalhadores e pobres judeus – significou a desgraça para o povo palestino, porque foi imposta sobre a terra que eles ocupavam. Apesar de serem minoria no início (depois cresceram

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muito), os sionistas tinham um poder econômico mui­ to maior que os árabes, além de contar com o apoio do imperialismo. Isso lhes deu força para espoliar o povo árabe da Palestina, que ficou reduzido a trabalhadores sem trabalho e camponeses sem terra. Muito estranho esse tipo de socialismo, que ataca os trabalhadores. “Os árabes eram expulsos ou boicotados nas empresas de propriedade sionista ou de capital estrangeiro (conces­ sões), que geralmente eram administradas por gerentes sionistas. Cerca de 53% das empresas eram concessões e 40% de propriedade sionista, sendo que apenas 6% eram de propriedade de árabes (dados de 1939)”. Assim, ficava um mercado de trabalho super-reduzido para os trabalhadores árabes. Outro tanto ocorria com o t’ozteret haaretz (produto da terra), uma política que significava o boicote à força de todo produto árabe, praticado por bandos armados da Histadrut, uma repressão que não poupava nem mesmo os judeus que ousassem adquirir algum alimento produ­ zido por mãos árabes. Alijados da terra, do trabalho e da possibilidade de comercializar seus produtos, os palestinos se tornaram uma massa marginalizada e pronta para ser expulsa de suas terras. A resistência palestina, em forma de guerri­ lha, foi praticamente esmagada em 1939 pelo Exército

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britânico e a Haganá – o exército extra-oficial forma­ do pelo sionismo – num ataque conjunto para mostrar “quem manda na Palestina”. Nessa época, tinha início a II Guerra Mundial e os sionistas estavam preocupados com o destino da Inglaterra, seu imperialismo protetor, diante de uma nova repartição do mundo em zonas de influência. Queriam garantir para a Palestina a prote­ ção imperialista, já que tudo indicava que os Estados Unidos e não mais a Inglaterra seriam daí por diante o grande senhor do mundo. A suposta luta antiimpe­ rialista alardeada pelo sionismo era, simplesmente, o desejo de passar de um sócio menos forte para outro mais poderoso. Isso foi expresso com clareza por Ben Gurion:

Nossa maior preocupação era a sorte que seria reser- vada à Palestina depois da guerra. Já estava claro que os ingleses não conservariam seu Mandato. Se tinha todas as razões para crer que Hitler seria vencido, era evidente que a Grã-Bretanha, mesmo vitoriosa, sairia muito debilitada do conflito. Por isso, eu não tinha dúvidas de que o centro de gravidade de nossas for- ças deveria passar do Reino Unido para a América do Norte, que estava em vias de assumir o primeiro lugar no mundo.

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Sob a órbita estadunidense, o sionismo começou a dar passos largos em direção à criação do Estado de Is­ rael. Ao final da guerra, as grandes potências, através da ONU, não só fizeram vistas grossas à ocupação e mas­ sacre do povo palestino, como deram o estatuto legal à situação colonial criada durante a dominação britânica. Em base a uma proposta de partilha da Palestina feita durante o Mandato inglês – e que incendiou a revolta em todo o mundo árabe –, em 29 de novembro de 1947 votou-se a divisão do país em dois Estados: um sionis­ ta e outro árabe. Novamente, sem qualquer consulta ao povo palestino e com o aval da burocracia soviética, que enviou armas e aviões para ajudar o imperialismo a mas­ sacrar os árabes. Afogada a resistência palestina em um banho de sangue, o Estado de Israel foi proclamado em maio de 1948.

Israel: a tragédia palestina

Em 1947, havia seiscentos e trinta mil judeus e um milhão e trezentos mil árabes palestinos. Assim, no mo­ mento em que a ONU dividiu a Palestina, os judeus eram minoria (31% da população). Essa divisão, promo­ vida pelas principais potências imperialista com o apoio de Stalin, deu 54% da terra fértil ao movimento sionista.

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Contudo, antes que se formasse o Estado de Israel, o Irgun e as Haganá já haviam se apoderado de três quar­ tos da terra e expulsado seus habitantes. Assim, dos 475 povoados palestinos que existiam em 1948, 385 foram completamente arrasados, reduzidos a cinzas e os noven­ ta restantes tiveram suas terras confiscadas. Esse proces­ so ficou conhecido como a “judaização” da Palestina. Raphael Eitan, então chefe do estado-maior das For­ ças Armadas israelenses, não podia ser mais claro quan­ do disse que

Declaramos abertamente que os árabes não têm qual- quer direito a um só centímetro de Eretz Israel. Os de bom coração, os moderados, devem saber que as câmaras de gás de Adolf Hitler serão como brincadei- ra de criança. O único que entendem e entenderão é a força. Utilizaremos a força mais decisiva, até que os palestinos se aproximem de nós de joelhos.

David Ben Gurion, em um discurso pronunciado em 13 de outubro de 1936, formulava assim a estratégia sionista:

Quando nos tornemos uma força com peso depois da criação do Estado, aboliremos a partição e nos ex- pandiremos a toda Palestina. O Estado será somente uma etapa na realização do sionismo, e sua tarefa é

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preparar o terreno para nossa expansão. O Estado terá que preservar a ordem, não com palavras, mas com metralhadoras.

E, de fato, assim foi feito. Entre 29 de novembro de 1947, data da divisão da Palestina pela ONU e 15 de maio de 1948, quando foi formalmente proclamado o Estado de Israel, o Exército sionista e as milícias pa­ ramilitares apoderaram-se de 75% da Palestina, expul­ sando do país setecentos e oitenta mil árabes. Os que ficaram foram vítimas de perseguições selvagens e uma carnificina só comparada ao holocausto nazista. Assim começou a tragédia palestina que dura até hoje.

Roubo, puro e simples, das terras e dos negócios dos árabes

É preciso entender o alcance e as conseqüências dessa política assassina por parte do sionismo. No terri­ tório ocupado por Israel depois da partilha havia 950 mil árabes palestinos, vivendo em cerca de 500 povoados e em todas as grandes cidades, entre elas Tiberíades, Safed, Nazaré, Shafa Amr, Acre, Haifa, Yaffa, Lidda, Ramle, Jerusalém, Majdal (Ashquelon), Isdud (Ashdod)

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e Beersheba. Em menos de seis meses sobraram apenas 138 mil pessoas. A grande maioria dos palestinos havia sido assassinada, expulsa pela força ou fugido, aterro­ rizada diante dos bandos assassinos das unidades do exército israelense. Em discurso pronunciado para uma platéia de es­ tudantes do Instituto de Tecnologia de Israel, Moshe Dayan, herói da Guerra dos Seis Dias (1967), não se pre­ ocupou em esconder o fato de que Israel fora fundada sobre uma tenebrosa falsificação histórica:

Viemos aqui, a um país que estava povoado por ára- bes, e estamos construindo aqui um Estado hebreu, judaico. No lugar dos povoados árabes levantamos povoados judeus. Vocês nem sequer sabem os nomes desses povoados, e não os reprovo por isso, porque esses livros de geografia já não existem. Nem os li- vros, nem os povos existem mais. Nahalal surgiu no lugar ocupado antes por Mahalul, Gevat no lugar de Jibta, Sarid no lugar de Hanifas e Kafr Yehoushu’a no lugar de Tel Shamam. Não há um só assentamento que não tenha sido construído no lugar de um antigo povoado árabe.

Com isso, grandes extensões de terra foram confis­ cadas amparadas pela Lei de Propriedades de Ausentes,

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ditada em 1950 em Israel. Até 1947, os judeus possuíam 6% da terra da Palestina. Quando surgiu formalmente o Estado de Israel, o Fundo Nacional Judaico calcula que tenha se apoderado de 90% da terra. O valor das pro­ priedades roubadas aos árabes era superior a US$ 300 milhões, em cálculos da época. Se multiplicarmos essa cifra pelo valor atual do dólar, cai a máscara: Israel tem pouco a ver com Jeová ou a terra santa, e muito a ver com a pirataria e a pilhagem. A ocupação das propriedades palestinas era indis­ pensável para que o Estado de Israel fosse viável. En­ tre 1948 e 1953, foram criados 370 povoados e assenta­ mentos judaicos, sendo 350 deles em propriedades de “ausentes”. Em 1954, calculava-se que 35% dos judeus de Israel viviam em propriedades confiscadas de “au­ sentes” e 250 mil novos imigrantes se haviam estabe­ lecido em áreas urbanas das quais os palestinos haviam sido expulsos. Dez mil empresas e comércios foram entregues a co­ lonos judeus. Se na zona urbana, o saque foi generalizado, no campo a usurpação corria solta. Todas as plantações de limão dos palestinos foram confiscadas; cobriam mais de 240 mil dunums (correspondentes a 21.200 hectares). Até 1951, um milhão de caixas de limões colhidos de pro­ priedades arrebatadas dos árabes – o que correspondia

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a 10% de todas as divisas de exportação – estavam em mãos israelenses. Nesse mesmo ano, 95% das planta­ ções de oliveiras de Israel eram feitas em terra palestina ocupada. As azeitonas que produziam representavam o terceiro produto mais exportado por Israel, depois dos limões e dos diamantes. Um terço da produção de pedra provinha de 52 pedreiras palestinas usurpadas. As terras confiscadas dos árabes iam parar num Fundo Nacional Judaico, criado em 1954 pelo governo israelense. Como lembra Schoenman, a mitologia sionista pre­ tende passar a idéia de que o espírito de sacrifício, de abnegação no trabalho e de perícia dos judeus transfor­ maram a terra desértica, descuidada por seus anteriores guardiões árabes – nômades e primitivos –, fazendo flo­ rescer o deserto. As plantações palestinas, a indústria, a madeira, as fábricas, casas e fazendas foram espoliadas e saqueadas depois de uma conquista sangrenta: “o barco do Estado é um barco pirata, a bandeira que carrega é a caveira com dois ossos cruzados”.

Racismo contra o trabalhador árabe

Mas Israel não é só isso. A sua história é uma his­ tória que começou com uma grande espoliação e isso obrigou o país a continuá-la, mais e mais. O barco da

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espoliação nunca encontrou um porto seguro. Essa viagem macabra continuou em frente, espoliando tam­ bém o mercado de trabalho dos árabes, tanto no cam­ po quanto nas cidades. Esse processo de judaização do trabalho assentou-se numa ideologia racista contra o trabalhador árabe. No campo, qualquer relação do Homem com a terra era regida por uma lei racista: “O arrendatário deve ser judeu e tem de aceitar realizar todas as atividades rela­ cionadas com o cultivo da terra somente com mão­de­ obra judaica”. Portanto, a terra não pode ser arrendada por um não judeu, nem subarrendada, vendida, hipo­ tecada, dada ou cedida a um não judeu. Os não judeus não podem ser empregados na terra e nem em qualquer trabalho relacionado com o cultivo. Em Israel, as terras estatais, que estão nas mãos do Fundo Nacional Judaico, são consideradas “terra na­ cional”, o que significa terra judaica. A contratação de trabalhadores não judeus é ilegal. Devido à escassez de operários agrícolas judeus, e dado que os palestinos ga­ nham um salário menor que os trabalhadores judeus, al­ guns agricultores judeus (como Ariel Sharon) contratam mão-de-obra árabe, violando explicitamente a lei. Schoenman ressalta que Israel emprega todas as ex­ pressões normais em um sentido racista. O “povo” sig­

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nifica somente os judeus. Um “imigrante” ou um “colo- no” só pode ser um judeu. Um assentamento significa um assentamento só para judeus. A terra nacional signi­

fica terra judaica, não terra israelense. Dessa maneira,

a lei e os direitos, as garantias e o direito ao trabalho ou à propriedade correspondem somente aos judeus. A cidadania ou nacionalidade israelense corresponde es­ tritamente aos judeus em todas as aplicações específi­ cas de seu significado e jurisdição. Como a definição de judeu baseia­se inteiramente num preceito religioso ortodoxo, ter gerações de ascendência materna judaica é o pré­requisito para gozar do direito de propriedade, de emprego e de proteção legal. Atualmente, 93% da terra do chamado Estado de Israel é administrada pelo Fundo Nacional Judaico, sendo que para ter o direito

a viver na terra, arrendá-la ou trabalhar nela, a pessoa tem de demonstrar que tem pelo menos três gerações de ascendência materna judaica.

O sionismo, o fascismo e os judeus

Se é importante que a história oficial comece a re­

conhecer que a Palestina não era uma terra sem povo,

é preciso também esclarecer outro aspecto tão sórdido

quanto esse que envolve a criação do Estado de Israel.

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Trata-se da relação do sionismo com os próprios judeus

e com o nazi­fascismo. O caráter racista do movimento sionista tem sua face mais abominável na relação que sempre manteve com os próprios judeus. Ralph Schoenman lembra que

os fundadores do sionismo estavam desesperados por combater o anti-semitismo e, paradoxalmente, consideravam os próprios anti-semitas como aliados, porque compartilhavam o desejo de arrancar os ju- deus dos países em que viviam. Passo a passo, assi- milaram os valores do ódio aos judeus e do anti-se- mitismo, chegando, o movimento sionista, a olhar os próprios anti-semitas como seus mais fiéis padrinhos e protetores.

Ele cita inclusive uma carta que Theodor Herzl en­ viou ao conde Von Plehve, autor dos piores pogroms na Rússia – os pogroms de Kishinev – com a seguinte proposta: “Ajude-me a conseguir o quanto antes a terra [da Palestina] e a revolta [contra a dominação tzarista] acabará”. Von Plehve concordou e começou a financiar

o movimento sionista. Trata-se, na verdade, de um pedido de colaboração entre a burguesia sionista e as classes dominantes de ou­ tros países para combater os judeus de esquerda, que se

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incorporavam aos partidos revolucionários. Nesse senti­ do, o sionismo, em sua colaboração com o fascismo, cum­ priu um papel sórdido, pois jogava com os sentimentos religiosos dos judeus para massacrar os que fossem de esquerda. O movimento juvenil sionista Betar serviu de bucha de canhão para Mussolini, formando esquadrões com os Camisas negras. Quando Menajem Beguin tor­ nou-se chefe do Betar, trocou suas camisas negras pelas beges – como as que os bandos de Hitler usavam. Era o uniforme que Beguin e os membros do Betar usavam em todas as assembléias e concentrações. A estratégia do sionismo foi recrutar os europeus que odiavam os judeus e alinhar-se com os movimentos e regimes mais perversos, para que apoiassem a criação de uma colônia sionista na Palestina. E essa estratégia incluiu o nazismo. A Federação Sionista da Alemanha enviou um memorando de apoio ao partido nazista em 21 de junho de 1933. Dizia:

um renascimento da vida nacional como o que ocor-

deve ocorrer também no grupo

nacional judaico. Sobre as bases de um novo Estado (nazista) que estabeleceu o princípio da raça, dese-

re na vida alemã [

]

jamos enquadrar nossa comunidade na estrutura de conjunto de maneira que também para nós, na esfe-

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

ra a nós designada, possa desenvolver uma atividade frutífera pela Pátria. [ ]

Longe de repudiar essa política, o Congresso da Or­ ganização Sionista Mundial, de 1933, derrotou por 240 votos contra 43 uma resolução que chamava a atuar con­ tra Hitler. Durante esse mesmo congresso, Hitler anun­ ciou um acordo comercial com o Banco Anglo-palestino da Organização Sionista Mundial (OSM), que significa­ va o rompimento do boicote judaico ao regime nazista em um momento em que a economia alemã era extre­ mamente crítica. A OSM rompeu o boicote judaico e se tornou a principal distribuidora de produtos nazistas em todo o Oriente Médio e norte da Europa. Fundaram, na Palestina, o Ha’avara, banco destinado a receber dinhei­ ro da burguesia judaico­alemã, com o qual se adquiriu grande quantidade de produtos nazistas.

Traindo a Resistência

Um dos reflexos mais sórdidos desta política foi a ação do sionismo em relação à resistência judaica con­ tra os massacres de judeus na Europa. Em julho de 1944, o dirigente judeu eslovaco, rabino Dov Michael Weissmandel, escreveu aos funcionários sionistas encar­

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regados das “organizações de resgate”, propondo uma série de medidas para salvar os judeus do campo de ex­ termínio de Auschwitz. Ofereceu mapas exatos das fer­ rovias e planejou o bombardeio das linhas que levavam aos crematórios. Pediu que bombardeassem os fornos de Auschwitz, que lançassem de pára-quedas munição para oitenta mil presos e bombas para explodir o campo e pôr fim à cremação de 13 mil judeus por dia. Caso os aliados se recusassem a colaborar, Weiss­ mandel propunha que os sionistas, que dispunham de fundos e organização, comprassem aviões, recrutassem voluntários e fizessem a operação. Weissmandel não era o único a pedir isso. No final dos anos 1930 e durante os anos 1940, porta-vozes ju­ deus da Europa pediram socorro, campanhas públicas, resistência organizada, manifestações para obrigar os governos aliados a colaborar. Entrentanto, sempre se deparavam com o silêncio sionista ou mesmo com sua sabotagem ativa. O rabino Weissmandel, em julho de 1944 – um ano antes de terminar a guerra – enviou aos sionistas uma carta de protesto, publicada em parte na História oculta do sionismo, de Schoenman:

Por que não fizeram nada até agora? Quem é o cul- pado por esta terrível negligência? Não são vocês os

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

culpados, irmãos judeus, que têm a maior sorte do mundo, a liberdade? Enviamos a vocês esta mensa- gem especial: informamos que ontem os alemães ini- ciaram a deportação de judeus da Hungria. Os que fo- ram para Auschwitz serão mortos com gás cianídrico. Essa é a ordem-do-dia de Auschwitz desde ontem: a cada dia serão asfixiados doze mil judeus – homens,

mulheres e crianças, anciãos, crianças de peito, doen- tes ou não.

E vocês, nossos irmãos aí na Palestina, e de todos os

países livres, e vocês, ministros de todos os reinos, por que mantêm silêncio diante desse grande assas- sinato? Silenciam enquanto assassinam milhares, já são seis milhões de judeus? Silenciam agora, quando dezenas de milhares estão sendo assassinados ou es- peram na fila da morte? Seus corações destroçados pedem socorro, choram por vossa crueldade. São brutais, vocês também são assassinos, pelo san- gue frio do silêncio com que olham, porque estão sentados com os braços cruzados sem fazer nada, apesar de que nesse mesmo instante poderiam deter

ou postergar o assassinato de judeus.

Vocês, nossos irmãos, filhos de Israel, estão loucos? Não sabem o inferno que nos rodeia? Para quem guardam seu dinheiro? Assassinos! Loucos! Quem

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faz caridade aqui, vocês, que soltam uns centavos daí, de suas casas seguras, ou nós, que entregamos nosso sangue neste inferno?

Nenhum dirigente sionista apoiou esta petição, nem os governos ocidentais bombardearam um único campo de concentração. A colaboração entre o sionismo e o fascismo fez com que o primeiro traísse a resistência e voltasse as costas para o operativo que resultou na morte de pelo menos seis milhões de judeus. Hoje, quando se lembra mais um aniversário do Holocausto, é preciso dizer com toda clareza que o sionismo não lutou de fato para impedi­lo. E, mesmo assim, o utiliza como álibi para massacrar os palestinos. Algo tão indignante que a jornalista israe­ lense Amira Hass, do jornal Haaretz, chegou a exortar os sobreviventes do Holocausto e seus descendentes a não interpretarem o assassinato de seu povo e o de suas famílias na Europa como um eterno aval para suprimir e expropriar o povo palestino e para apresentá-lo como o inimigo que substituiu os alemães. De fato, está na hora de Israel deixar de usar o Ho­ locausto como justificativa para oprimir e perseguir os palestinos, fazendo com eles o mesmo que os alemães fizeram com os judeus.

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A eNCRUZILHADA PALeSTINA

Angel Luis Parras Josef Weil

Quando escrevíamos este artigo a situação na Pa­ lestina já estava evoluindo para uma guerra aberta entre Israel e o povo palestino, segundo Robert Fisk, repórter inglês presente em Ramallah, na Cisjordânia. Qual a saída para um aparente impasse “sem solução”? Como toda situação aguda, a nova Intifada e a guerra civil colocam questões programáticas profundas. Den­ tro da esquerda a discussão sobre a Intifada e o futuro da região e de Israel têm caído no beco sem saída em torno à armadilha dos planos de paz. Parafraseando Clausewitz, poder-se-ia dizer que estudam com afinco a tática, porém raras vezes a estratégia e praticamente nunca a guerra.

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Discute­se apenas se os planos de paz deveriam ser mudados, se deveria ou não haver uma intervenção ex­ terna da ONU, para impor a paz, mas não a natureza em si desses planos, de sua íntima ligação com a aceitação do status quo de Israel como colonizador e opressor dos povos da região, em particular dos palestinos. É possí­ vel haver paz entre o colonizador e os colonizados? É possível apontar uma solução, a partir de dois Estados, um judaico e outro palestino? Do nosso ponto de vista, é necessário voltar às questões de fundo para indicar uma saída para a revolução palestina.

A chave do problema está na natureza do estado de Israel

A Intifada de Al-Aqsa colocou na ordem do dia uma realidade que vinha sendo encoberta enquanto durou o intervalo dado pela implementação inicial dos planos de paz de Oslo: que é impossível uma paz entre palestinos e judeus mantendo­se o caráter sionista do Estado de Israel. O problema está na natureza mesma e na origem desse Estado. Israel é um Estado artificial, um enclave militar do imperialismo estadunidense, constituído so­ bre a base de desalojar à força os legítimos habitantes do território, o povo palestino.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

Baseado nas idéias sionistas, Israel tem como defi­ nição ser o Estado de uma raça, um Estado teocrático, constituído em base a um critério religioso. Israel foi fundado e se expandiu baseado na dupla ideologia do povo eleito que ocupa uma terra “sem povo”. Mais ain­ da, seus dirigentes têm, desde sua fundação, insistido em que os outros povos da região não teriam identidade própria. É impossível haver paz com um Estado que se apóia na colonização e na exclusão do povo que vivia no local em que se instalou. Os fundadores do sionismo eram claros nisso. Herzl, em seu livro O Estado judeu, dizia: “Será um bastião avançado da civilização ocidental frente à barbárie oriental”. Nenhuma das correntes presentes no movi­ mento sionistas e que governaram o Estado fogem des­ sas definições básicas: que o Estado judaico é excluden- te dos demais povos, que uma política de exclusão deve ser aplicada aos árabes que habitavam a terra prometi­ da antes. Por isso, até a central sindical Histadrut, se­ guindo os ditames do Poale Zion – que daria origem ao Mapai, antecessor e um dos componentes do Partido Trabalhista de Barak e Peres – e de seu líder, Aaron D. Gordon, não somente excluía de suas fileiras os traba­ lhadores não judeus, como fazia campanhas para que os empregadores só contratassem trabalhadores judeus e

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despedissem os árabes. “Avodá ívrít” (trabalho para os judeus) é o lema da Histadrut. Apesar do financiamento de Israel ser um elemen­ to revelador da natureza desse Estado, nenhuma das correntes sionistas tem vergonha de reconhecer que desde o início foi financiado pelos Estados Unidos e

os poderosos lobbies de milionários judeus. Já nos pri­ meiros anos de sua fundação, entre 1949 e 1966, Israel recebeu US$ 7 bilhões. Para avaliar o significado dessa cifra, basta recordar que o Plano Marshall, feito para

a Europa ocidental de 1949 a 1954 chegou a US$ 13

bilhões. Israel, na época com pouco menos de dois milhões

de habitantes, recebeu – é certo que em mais tempo

– mais da metade do que receberam duzentos milhões

de europeus. Em outras palavras, Israel recebeu do im­ perialismo estadunidense cinco vezes mais por cabeça que o ambicioso plano de reconstrução européia. Uma cifra que define com certa clareza a natureza do Estado israelense é que já nos anos 1970-1980 o total da ajuda estadunidense – sem contar a ajuda da “Diás­ pora” ou dos empréstimos – representava mil dólares por habitante/ano, o que por si só equivalia a mais de três vezes o produto interno bruto por habitante do Egi­ to e da maioria dos países africanos. É superconhecido

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

o dado de que os Estados Unidos entregam a Israel uma

ajuda direta no valor de US$ 5 bilhões por ano. A ajuda incondicional e ilimitada recebida nestes 52 anos de existência é o preço pelo serviço que o Esta­ do sionista presta, é “o preço de custo” para que esse Estado garanta e desenvolva sem travas sua função es­ sencial: levar judeus para a Palestina a qualquer preço; expulsar os árabes da Palestina; desempenhar o papel de “bastião adiantado da civilização ocidental”.

As correntes que governam Israel estão de acordo na estratégia

As correntes sionistas têm em comum uma compre­

ensão e uma estratégia para os palestinos que podería­ mos resumir nas palavras de Edward Said: “O sionismo sempre quis mais terra e menos árabes: de Ben Gurion

a Sharon – passando por Rabin, Shamir, Netanyahu, e

Barak – há uma continuidade ideológica ininterrupta na qual o povo palestino é visto como uma ausência dese­ jada pela qual se combate”. As correntes sionistas mos­ tram isso ao dizer que os judeus têm todos os direitos à “terra de Israel”, então qualquer não judeu que esteja aí não possui qualquer direito.

Até Simon Peres, que às vezes parece falar uma lin-

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guagem humana, nunca se deixa levar a ponto de considerar os palestinos sequer como merecedores de um tratamento como iguais. Os judeus devem continuar sendo uma maioria, possuir toda a terra, definir as leis tanto para judeus como para os não judeus, garantir a imigração e a repatriação somente para judeus.

As definições da corrente fascista originada nos re­ visionistas de Vladimir Jabotinsky, admirador de Mus­ solini e Hitler, que teve continuidade no Likud de Be­ gin, Netanyahu e Sharon foram e são mais diretas nessa direção. O livro The Iron Wall (A Muralha de ferro) de Lenni Brenner reproduz o pensamento racista e fascista desse fundador do sionismo.

É impossível que alguém se assimile a pessoas que tenham sangue distinto ao seu. Para se assimilar, tem que mudar seu corpo, tem de converter-se em um deles no sangue. Não pode haver assimilação. Nun- ca haveremos de permitir coisas como o matrimônio misto pois a preservação da integridade nacional so- mente é possível mediante a pureza racial e para isso haveremos de ter esse território em que nosso povo constituirá os habitantes racialmente puros.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

Assim como os afrikaners da África do Sul, esses racistas nazistas consideram os palestinos como seres humanos inferiores, um não povo. Por isso, seus seguido- res nas colônias em territórios palestinos ainda hoje re­ petem sem maiores problemas esse discurso, “não se pode chamá-los de povo”. Os dois padrinhos e antecessores de Sharon, Me­ nachem Begin e Itzhak Shamir têm uma trajetória que coloca na prática essa concepção fascista em relação à “questão palestina”. Em 1988, Shamir dizia sobre a Intifada: “Temos de criar a barreira e conseguir que os árabes dessas zonas voltem a ter medo da morte ” Qualquer semelhança com a atual política de Ariel Sharon não é mera coincidência! Todavia os trabalhistas, apesar da retórica diferente do Likud, têm a mesma estratégia – a prática é o critério da verdade. Os dados sobre a ocupação de territórios du­ rante os últimos anos mostram a mesma política, apenas com ênfases e discursos às vezes distintos. Em 1936, Ben Gurion dizia (referindo-se à aceitação da partilha da Palestina): “Um Estado judaico parcial não é o obje­ tivo final, mas sim apenas o princípio. Estou convencido de que ninguém pode nos impedir de estabelecer­nos em outras partes do país e da região”. E agregava mais tarde: “o Estado será somente um estágio na realização

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do sionismo e sua tarefa é preparar o terreno para nos­ sa expansão. O Estado terá que preservar a ordem, não com prédicas, mas com metralhadoras.” Já em 1948, segundo seu biógrafo Bar Zohar, em sua primeira visita à cidade de Nazaré, ele haveria dito:

“porque há tantos árabes, porque não os expulsaram?”. Moshe Dayan, ministro da Defesa do governo traba­ lhista em 1967, declarava:

Somos uma geração de colonizadores e sem os ca- pacetes de aço e o canhão não sabemos plantar uma árvore, ou construir uma casa. Não retrocederemos ante o ódio de centenas de milhares de árabes em torno a nós, não desviaremos nossas cabeças para que nossas mãos não tremam de medo. Este é o destino de nossa geração. Estar preparados e armados.

Rabin, que depois ganhou o prêmio Nobel da Paz, era ministro da Defesa de Shamir em 1988 e tinha esta política para enfrentar a primeira Intifada, segundo o in­ suspeito Jerusalem Post : “A prioridade absoluta é o uso

Conside­

da violência, o emprego da força, as surras

ram isso mais eficaz que as prisões [porque] depois des­ tas podem voltar a atirar pedras nos soldados. Porém, se

as tropas quebram suas mãos, já não podem reincidir (New York Times, 21 de janeiro de 1988).

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

O último governo de maioria trabalhista, o de Ehud

Barak, foi o maior instalador de colônias desde 1992 nos territórios de Gaza e Cisjordânia ocupados em 1967. Um artigo de Nadav Shragai no Haaretz de 27 de fevereiro de 2001 relatava: “O governo começou a construção de

1.943 unidades habitacionais nos territórios ano passado

– o maior número desde 1992, de acordo com os da­

dos apresentados ontem pelo parlamentar Mussi Raz (Meretz).” Por isso não deveria surpreender tanto que o “pom­ ba” Simon Peres possa facilmente aceitar ser parte de um governo Sharon. A organização israelense Gush

Shalom – que luta pela retirada das colônias nos terri­ tórios ocupados através do boicote aos seus produtos

– publicou no jornal Haaretz de 16 de fevereiro de 2001:

“Dez dias atrás o Partido Trabalhista declarou que Sha­ ron provocaria um banho de sangue e a guerra. Agora, os líderes trabalhistas correm para integrar o governo Sharon, prontos para fornecer o álibi de que ele necessi­

ta para o banho de sangue e a guerra”.

A resposta à pergunta sobre o que leva correntes

aparentemente adversárias como Likud e trabalhistas a formarem governos de “unidade” está no acordo estra­ tégico sobre a natureza do Estado colonizador que leva a uma aliança histórica entre essas correntes, apesar das

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diferenças táticas. Por exemplo, levou a que se dividis­ sem sobre a aceitação da partilha da Palestina de 1947, mas não em relação ao que fazer com os árabes residen­ tes. O pensamento de Ben Gurion, Dayan, Rabin, Peres e Barak tem, na matriz, a idéia chave de um Estado judaico e de que é necessário construir as bases para isso às custas da expulsão da população árabe. Todas as negociações de paz são para assegurar esse marco e buscar que os palestinos aceitem viver nos guetos que lhes foram reservados.

A expansão como tarefa essencial do estado sionista

Quem defende como possível solução a conformação de dois Estados – um judaico e outro Palestino – parece apoiar-se, em primeiro lugar, num critério “racional” e “equitativo”. Suponhamos que alguém tenha a casa in­ vadida, parte de sua família assassinada, e outra parte expulsa, e a que fica está confinada em um pequeno quarto da casa. A partir daí, toda a sua vida, trabalhar, comer, educar­se, movimentar­se de um lugar a outro passa a depender dos acordos que chegue com um ocu­ pante que, além do mais, continua trazendo mais gente a esse espaço que considera como sua casa.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

Nessa situação, em que consiste o critério “racional”

e “equitativo” dos dois Estados? Em legitimar esse atro­

pelo? Em legalizar a ocupação? Porém, suponhamos que se aceite essa decisão como um imperativo. Os acordos de Oslo, como os diversos planos de paz, têm, em es­ sência, este fundamento de dois Estados, e a história mostrou-se inapelável com esse raciocínio: em meio à miséria crescente e à expulsão dos palestinos, o curso expansionista do sionismo tem sido permanente. Na medida em que a razão de ser do Estado sionista

é trazer o “povo sem terra” à “terra sem povo”, a expan­

são é intrínseca à sua própria natureza. A Palestina his­ tórica tem uma extensão de 27.242 km², Israel ocupa já mais de 22.000 km², ou seja, mais de 80% do território. A conquista de território por parte do Exército is­ raelita foi acompanhada pelo assentamento de colonos judeus. Já no primeiro ano de vigência dos acordos de paz de Oslo, Israel confiscou 670 km² de terrenos pa­ lestinos para ampliar as colônias e abrir novas estradas

entre elas, depredando, de passagem, mais de 14 mil árvores frutíferas. Nesse mesmo período, o número de colonos na Cisjordânia (sem contar Jerusalém) passou de 125 mil para 136 mil. Em dez anos de negociações de paz, o número de colonos judeus duplicou. Alguns buscam no Likud ou nos “extremistas judeus”

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Josef Weil (org.)

a razão pela qual a expansão dos assentamentos judaicos

continua, e se apóiam no fato, correto, de que surgiram em determinados momentos tensões entre colonos e o governo sionista de turno. Contudo, este fato não ab­ solve o Estado, nem o exime de forma alguma dessa

política expansionista, e tampouco disfarça o fato irrefu­ tável de que a expansão continuou, tanto sob governos do Likud quanto do Partido Trabalhista. Simon Peres afirmava, já em 1995, que os colonos não eram um obstáculo para a paz; que poderiam ficar na Cisjordânia e na Faixa de Gaza depois do fim do pro­ cesso de paz. Basta ver as atuais facilidades para a co­ lonização, indicando que não há nenhum plano real de descolonização e nisso existe acordo entre os trabalhis­ tas e o Likud. Pode-se apelar a muitos exemplos, como em Maalé Alunin, onde é extremamente vantajoso para um judeu se instalar. Mas para ver o papel do Estado basta dizer que em Hebrón, para proteger trezentos

e cinqüenta mil colonos situados no próprio centro da

cidade, há setecentos soldados; na Faixa de Gaza, no enclave de Netzarum, há um batalhão inteiro para cus­ todiar 53 famílias judaicas. Jerusalém concentra, por diversas razões, boa parte do conflito, e não por casualidade foi o cenário da ex­ plosão da nova Intifada. Os defensores dos planos de

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

paz e da “solução dos dois Estados” deveriam prestar especial atenção ao processo de Jerusalém. É em base à teoria da convivência dos dois Estados que Jerusalém foi dividida artificialmente em duas par­ tes em 1948, por resolução da ONU. A parte ocidental, ocupada por Israel, estava povoada em sua maioria por árabes. Sessenta mil palestinos dos bairros ocidentais de Jerusalém e dos povos vizinhos tiveram que aban­ donar – aterrorizados – suas casas. Em 22 de junho de 1967, Israel anexava militarmente a parte oriental, que estava sob controle jordaniano. Durante as décadas de 1960 e 1970, Israel expandiu a presença judaica me­ diante a expropriação de propriedades árabes. Durante a década de 1980, colonos judeus vinculados aos setores mais fascistas, com o apoio do Ministério da Moradia, então dirigido por Ariel Sharon, instalaram-se no bairro árabe do centro da cidade, nas proximidades de Haram al Sharif. Durante os últimos governos trabalhistas e do Likud, foi criado o projeto da Grande Jerusalém reservada ape­ nas para os judeus. Entre 1996 e 1999, somaram-se a essa expansão 42 colônias “selvagens”. E, em 21 de ju­ nho de 1998, o governo israelense deu o aval formal ao plano da Grande Jerusalém com algumas medidas, en­ tre outras, a que retirava as permissões de residência aos

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Josef Weil (org.)

árabes que figurassem no censo da ANP ou tivessem casa nos territórios administrados por ela. O plano baseou­se no objetivo declarado de manter um equilíbrio demográfico de sete judeus por cada três palestinos, em ir isolando a cidade do restante da Pales­ tina, impossibilitando o crescimento dos bairros árabes e estabelecendo assim uma área de expansão popula­ cional judaica na Cisjordânia. Mediante a anexação de terras, expropriações ilegais de municípios próximos a Jerusalém (Ramallah, Belém, Beir Sahur) foi sendo cria­ do – como diz o expert holandês Jan de Jong – um siste­ ma de dois anéis concêntricos de assentamentos judeus que rodeiam Jerusalém por completo. Como diz o pre­ feito palestino de Hebrón, “não querem viver a nosso lado, mas em nosso lugar”.

O “estado” da miséria palestina

Independentemente da retórica, na hipótese de que se reconhecesse os dois Estados, a verdade é que só a cegueira completa ou um cinismo sem limites permi­ tiria chamar de “Estado palestino” aqueles guetos de miséria cercados por colonos e militares sionistas, com franca supremacia econômica, política e militar. O expansionismo sionista vai associado a dois fatos

O Oriente Médio na perspectiva marxista

inseparáveis da vida palestina: a diáspora de quase qua­ tro milhões de palestinos, de uma população total que não chega a oito milhões, e a miséria mais completa dos quase três milhões de palestinos que vivem na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. A expansão sionista arruinou a agricultura palesti­ na. Mediante o confisco de terras, a imposição de cotas para as exportações ao mercado israelense, o controle de importação de ferramentas agrícolas ou o envio, a preços muito competitivos, do excedente agrícola is­ raelense aos territórios ocupados, acabou se reduzindo

a extensão dos cultivos, limitando o número de peões

nas granjas e empurrando os habitantes de várias aldeias para o mercado de trabalho israelense. Neste plano, não faltou a proibição aos agricultores palestinos de exportar produtos agrícolas para a Jordânia; zonas inteiras de oli­ veiras e árvores frutíferas foram destruídas. Sem dúvida, uma arma poderosa em mãos dos mili­ tares sionistas é a água. Os recursos hidráulicos, devido

à escassez, tornaram-se um dos recursos mais estratégi­

cos no Oriente Médio, e por isso zonas como as colinas de Golã foram fonte constante de disputa. Durante anos

as ordens militares sionistas incluíram a destruição de poços de água palestinos, a proibição de que cavassem

a mais de 120 metros de profundidade (os colonos sio­

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Josef Weil (org.)

nistas tinham autorização para cavar até 800 metros de profundidade), a expropriação de poços de proprietários “ausentes” etc. Desde 1982, todo o sistema hidráulico está sob administração da “Rede Nacional Israelense”. Os habitantes palestinos de Gaza e Cisjordânia dispõem de 115 milhões de metros cúbicos de água por ano, o que representa 19% dos recursos de seu país. A econo­ mia israelense e os assentamentos judaicos dispõem de 485 milhões de metros cúbicos. Em termos de infra-estrutura, só 2% das localida­ des da Cisjordânia têm rede de esgotos; apenas 21% dos habitantes conta com sistema de coleta de lixo; apenas 44% das localidades cisjordanas dispõe de fornecimento permanente de energia elétrica e apenas 20% dos habi­ tantes está conectado à rede telefônica. Em um estudo realizado no início dos anos 1990, em uma situação “melhor” que a atual, os dados em maté­ ria de saúde eram relevantes. Dos US$ 830 milhões de impostos nos territórios ocupados recolhidos pelas auto­ ridades militares israelenses, somente trezentos foram invertidos em projetos de saúde, educação e assistência social. Nesse período, os gastos da administração civil em matéria de saúde pública passaram de US$ 40,00 a 18,30 per capita, enquanto que na Jordânia a cobertura era de US$ 140,00 e em Israel chegava a US$ 370,00 per

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

capita. Portanto, não é de estranhar a falta de camas e medicamentos nos hospitais palestinos. Carentes de recursos “quinhentas escolas, oito uni­ versidades e mais onze mil empregados do setor edu­ cativo nos territórios ocupados padecem sem o menor financiamento ou diretriz”. A economia palestina vive em fase de completa pauperização sobretudo desde 1967, quando as autori­ dades jordanianas terminaram de descapitalizar toda

a Cisjordânia para favorecer a industrialização da an­

tiga Transjordânia. O papel da economia palestina na “divisão do trabalho” está determinado pelos projetos do ocupante. Assim, em um informe de 1970 do Mi­ nistério de Defesa israelense afirma-se: “por um lado, os territórios ocupados constituem um mercado suple­ mentar para as exportações israelenses e as empresas pertencentes ao setor terciário e, por outro, é provável que acabem convertendo­se em um canteiro de mão de obra não qualificada”. Já em 1987, mais de 92% das im­

portações de Gaza e Cisjordânia procediam de Israel. Como cifra comparativa, tem-se que em 1992-1993

o PIB de Israel subia para US$ 63 bilhões, o da Jor­

dânia a 4,1 bilhões e o dos territórios ocupados foi de US$ 2.200 bilhões, sendo que um terço desses ingres­ sos procede da mão de obra empregada em Israel, dos

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Josef Weil (org.)

600 mil palestinos que dependem do mercado de tra­ balho israelense. O fechamento dos territórios decretado pelo governo israelense só aumentou a asfixia desse quadro de pau­ perização. As taxas de desemprego dispararam de 23% para 50% da população ativa, e calcula-se que nos úl­ timos anos o poder aquisitivo da população de Gaza e Cisjordânia caiu 46%. Como se fosse pouco, os acordos de paz obrigam a ANP a “uma mesma política de importação” que Israel, deixando-lhe como “margem” importar determinados produtos de países árabes, em quantidades limitadas e a preços acertados previamente com Israel. Cabe então perguntar: qual é a viabilidade de um Estado sem recursos hidráulicos, sem indústrias, com a agricultura destruída, sem infra-estrutura de mora­ dia, saneamento, educação ou transporte, e sem inde­ pendência, sequer formal, para estabelecer relações comerciais exteriores? Em tais condições de coexistência entre os dois Es­ tados, o chamado “Estado palestino” não seria mais que a administração de um gueto, gerente de um bantus­ tão, cujos ínfimos recursos econômicos dependeriam da “ajuda exterior”, essa que chega a conta-gotas, depen­ dendo do quanto o doador goste das medidas adotadas.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

Acordos de paz que trazem bantustões

Já em 1988, o ex-subsecretário de Estado George Ball (administrações de Kennedy e Johnson) em seu ar­ tigo “A paz de Israel depende de um Estado apêndice dos palestinos” afirmava:

A preocupação de Israel por segurança poderia ser sa- tisfeita em boa medida redigindo um tratado formal com salvaguardas vinculadas e executáveis que impe- çam ao novo Estado palestino ter qualquer força ar- mada própria e limitem o número e tipo de armas que sua polícia possa usar. Como salvaguarda adicio- nal, o acordo poderia incluir a instalação de postos de vigilância mais amplos, numerosos e efetivos que os que atualmente funcionam no Sinai a partir do acor- do de paz de Israel com o Egito.

A assinatura, em setembro de 1993, dos chamados Acordos de Oslo, negociados em segredo entre o go­ verno israelense e a direção de Arafat, está em sintonia com essa proposta antiga dos funcionários do governo dos Estados Unidos. Mas esses acordos também devem ser explicados pela mudança na estratégia palestina que teve início em dezembro 1988 com a decisão da maioria do Congresso Nacional Palestino, dirigido por Arafat,

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de reconhecer o Estado de Israel. Essa mudança punha no centro da estratégia palestina a negociação sobre a base do reconhecimento de dois Estados. Os Acordos de Oslo eram a máxima expressão dessa estratégia, e foram seguidos por uma enorme difusão, que não poupou elogios e cumprimentos. A declaração mesma começava com a solene afirmação dos assinan­ tes de que havia “chegado o momento de pôr fim a decênios de confrontações e conflitos, de reconhecer reciprocamente seus direitos legítimos e políticos, de esforçar-se por viver em coexistência pacífica, em dig­

nidade e segurança mútua

Os direitos legítimos e a

dignidade para os palestinos resumem-se a uma “auto­ nomia” carente de recursos próprios, guetos de miséria cercados pelas Forças Armadas israelenses. Em troca, a direção de Arafat renunciou não só à autodeterminação, como também a Jerusalém e aos direitos dos refugia­ dos, ou seja, aos direitos de 55% da população palestina. Mas, além de fracionar a negociação (o tema do regresso

dos refugiados ficava de fora), Arafat empenhou-se em fracionar a resistência palestina. Edward Said definiu os Acordos de Oslo como um “instrumento de submis­ são”, como a “capitulação”. “Israel obteve dos árabes a aceitação, o reconhecimento e a legitimidade, sem ser obrigado a renunciar à soberania sobre os territórios

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

árabes ocupados, entre eles, Jerusalém oriental”. Os Acordos estão em sintonia com a manutenção de Israel enquanto Estado sionista. Impõe-se, com a rubrica de Arafat, essa visão racista e teocrática, que repete solu­ ções anteriormente impostas pelo imperialismo em suas colônias nos séculos 19 e 20. Uma definição dada por Edward Said ilustra esses antecedentes e permite dar um marco histórico ao status atual estabelecido nas negociações sobre a região:

Os acordos de autonomia com os quais os palestinos (excluímos os quatro milhões de refugiados cuja sor-

te foi jogada para a nebulosa situação do “estatuto fi-

nal”) têm que conviver são um curioso amálgama de três “soluções”, historicamente descartadas, e ide- alizadas por colonizadores brancos para o problema dos povos antigos da África e Américas do século 19. Uma delas baseava-se na idéia de que os nativos po- diam ser convertidos em irrelevantes seres exóticos privados de suas terras e mantidos em tais condições

de vida que seriam reduzidos a trabalhadores braçais temporários ou agricultores pré-modernos. Este é

o modelo índio-americano. A segunda consistia na

divisão de suas terras (reservas) em bantustões des- contínuos, e no estabelecimento de uma política de apartheid que dava privilégios especiais aos colonos

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Josef Weil (org.)

brancos (hoje os israelenses), enquanto se permitia aos nativos viver em seus guetos miseráveis; assim, estes eram responsáveis dos assuntos municipais sem deixar de estar submetidos ao controle do branco (de novo Israel). Este é o modelo sul-africano. Finalmen- te, a necessidade de que estas medidas gozassem de certo grau de aceitação requeria que um “chefe” na- tivo assinasse na parte inferior da página. Este chefe obtinha temporariamente um estatuto mais elevado do que aquele que dispunha antes, recebia apoio dos brancos, um título, um par de privilégios, e talvez, uma força policial nativa, de tal maneira que todo mundo pudesse apreciar sem dificuldade que se ha- via feito o melhor para esse povo. Esse é o mode- lo seguido pelos franceses e britânicos na África do século 19. Arafat é o equivalente do século 20 dos dirigentes africanos.

O giro na estratégia dos dois Estados é a política e a

orientação da direção de Arafat. É impossível entender

a Intifada sem esse cerco de miséria, asfixia e terror im­ posto pelo Estado sionista, mas é pertinente dizer que a Intifada também é um protesto contra essa política, que legitima o sionismo enquanto condena o povo palestino

à fome e ao desemprego.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

Sobre alguns argumentos da esquerda a favor dos dois estados

Excede os limites de espaço deste artigo e seu ob­ jetivo responder os diversos argumentos daqueles que, na esquerda, defendem como saída para o conflito uma solução pacifica baseada na conformação de dois Esta­ dos. Por exemplo, é um argumento dos que defendem a

solução “realista” afirmar que Israel já é uma realidade após cinqüenta anos de existência. A validade desse ar­ gumento seria o mesmo que afirmar, anos atrás, que o apartheid sul-africano era uma “realidade” após décadas

e deveria ser aceito pelos negros com algumas reformas.

Tão progressista como exigir a San Martín que fosse realista diante do fato evidente de mais de três séculos de presença espanhola na América Latina. Queremos nos referir, particularmente, a uma cor­ rente de esquerda que advoga pela solução dos dois Estados e a retomada das negociações de paz: o Se­

cretariado Unificado da IV Internacional (SU). Mi­ chel Warshawski, dirigente de seu grupo israelense e

especialista no tema, sobre o qual escreve artigos para

o jornal Rouge da LCR, seção francesa do SU, advoga

por uma “verdadeira paz” e a “coexistência entre dois

Estados, sob auspícios da ONU”.

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Segundo Michel Warshawski:

Para deter a loucura assassina em curso, é necessária uma intervenção internacional, decidida a impor, ao

menos, a retirada das forças militares israelenses e a redefinição de um marco de negociações que possa pôr fim ao diktat israel-estadunidense. Os palestinos pedem uma proteção internacional e este chamado deve ser retomado com vigor pelo movimento de solidariedade que começa a se reorganizar em todo

o mundo, depois de sete anos de confusão mantida

pelos acordos de paz. Uma força de interposição internacional seria, sem

dúvida alguma, a solução menos custosa. É o que pe- dem os palestinos. É também o que pode acelerar

o reinício das negociações, que o governo de Barak,

mais isolado que nunca e incapaz de tomar a menor decisão – a não ser a de golpear – sabe ser inevitável. Neste sentido, uma intervenção internacional não serviria somente para evitar o massacre dos palesti-

nos, mas também para limitar o número de vítimas do lado de Israel, que não vai parar de aumentar, como confirma o último atentado de Gaza.

Ou seja, diante de tal ofensiva – impossível de ser derrotada por causa da desproporção de forças – o “re­

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

alista” e o “revolucionário” é apelar para a boa vontade de uma intervenção internacional para, nada mais nada menos, impor a retirada das tropas israelenses? Os di­ rigentes do SU adotaram esse hábito político de exigir

a intervenção da ONU frente a qualquer conflito que

se dê no mundo (Bósnia, Kosovo, Timor, Chechênia). Curioso pacifismo este que encontra na exigência de in­ tervenções militares da chamada “comunidade interna­ cional” a solução para todos os problemas. Curioso anti­ militarismo este que converte os exércitos da ONU nos instrumentos políticos de todas as soluções. E infeliz e lamentável a política que chama as massas permanen­ temente a confiar em instituições como a ONU, como se esta fosse neutra ou alheia aos problemas, como se a ONU ou os exércitos que intervenham em seu nome estivessem acima dos grandes Estados, acima das clas­ ses, como se não fossem serviçais do imperialismo, em particular do estadunidense. Para Warshawski, parece que “a comunidade inter­

nacional”, ou a ONU poderiam ter outra política para

o conflito, qualitativamente diferente, dos “planos de

paz” que vêm sendo aplicados. Como se junto com a in­ tervenção militar da ONU chegassem os planos de paz “verdadeiros”, nos quais seriam reconhecidas as legíti­ mas reivindicações palestinas.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

Não se lembra que foi a ONU que repartiu a Palesti­

jovens palestinos que protagonizam a Intifada. E se os

na para permitir, primeiro, que se formasse e depois que fosse legitimado internacionalmente o Estado sionista? Não se lembra que foi a ONU que aprovou perseguir militarmente todos os que se levantaram em armas con­

jovens palestinos não aceitarem parar de atirar pedras, se se negarem a ficar quietos à espera de novos “planos de paz”? A solução proposta por Warshawski só é possí­ vel com a condição de parar a Intifada, porque do con­

tra

sua resolução de repartir a Palestina? E não foi sob os

trário os jovens palestinos terão de enfrentar o Exército

auspícios da ONU que se negociaram, primeiro em se­ gredo, depois se assinaram os vergonhosos Acordos de

israelense e o da ONU. Warshawski afirma que essa intervenção “é o que pe­

Oslo que tantos sofrimentos trouxeram aos palestinos e contra os quais luta hoje a Intifada? Michel Warshawski sabe perfeitamente que den­

dem os palestinos”. Deveria dizer, com mais precisão, que isso é o que pede Arafat! Não precisar isso é a forma de confundir a defesa dos palestinos e sua Intifada com a

tre

todas as organizações da esquerda mundial, só a

defesa de Arafat e sua política. Arafat clama pela ONU,

IV

Internacional levantou, em 1948, sua voz contra a

para negociar com Israel e para acabar com uma Intifada

constituição do Estado de Israel. “Abaixo a divisão da Palestina!, Abaixo a intervenção imperialista na Pales­ tina!, Fora do país todas as tropas estrangeiras, os ‘me­ diadores’ e ‘observadores’ da ONU!”, dizia a declaração da IV Internacional. Warshawski deveria reconhecer ao menos que a defesa de “ambos os Estados”, da coexis­

que surgiu apesar dele e, em boa medida, contra ele. Propor como solução pedir a intervenção da ONU, independentemente da vontade que acompanha essa proposta, acaba se convertendo no apoio à permanência do Estado de Israel; o apoio à política de Arafat, em outra palavras, é o oposto ao apoio incondicional à Intifada.

tência entre eles e o pedido insistente de intervenção da ONU feito pelo SU hoje é uma posição diametralmente oposta à declaração programática da IV Internacional. Warshawski exige “uma força de interposição in­ ternacional” que, se concretizada, obviamente estará obrigada a se interpor entre o Exército israelense e os

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Retomar a defesa de uma Palestina laica, democrática e não racista

A fortaleza do Estado de Israel, sua existência por mais de cinqüenta anos, não se explica por seu poderio

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militar, nem sequer contando com todo o arsenal esta­ dunidense. Como em toda guerra, é a política e não os meios técnicos militares – apesar de serem importantes – o elemento determinante. É difícil, na história dos Estados, encontrar um que, enquanto mantém sua do­ minação a ferro e fogo, expulsa, saqueia e assassina, seja apresentado como a “pobre vítima sitiada”, “cercada de inimigos”, a quem “não se deixa viver em paz”. O sionismo conta com o auxílio da televisão e da imprensa mundial, com o apoio dos Estados mais po­ derosos e influentes, além das inúmeras emissoras de televisão, jornais, clubes das poderosas comunidades sionistas no mundo e os grandes lobbies milionários. Conta também com inúmeras organizações políticas, sindicais, culturais, incluindo boa parte da esquerda, que acabam fazendo parte da canalhesca manobra de capitalizar para o sionismo o sofrimento do povo judaico com o Holocausto (vide capítulo anterior), de confundir deliberadamente judeus com sionistas, de adocicar, jus­ tificar ou minimizar o terror de todo um Estado. O giro de uma parte da direção palestina, a que é dirigida por Arafat, e sua estratégia de dois Estados, é, acima de tudo, um triunfo do sionismo, porque legiti­ ma o direito de um Estado sionista existir. A partir daí, qualquer negociação só pode levar, mais cedo ou mais

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

tarde, ao retrocesso sistemático, ao gueto e a miséria. Como afirma Ralph Schoenman, trotskista judeu es­ tadunidense em seu livro História oculta do sionismo,

Na realidade, os supostos defensores dos direitos pa- lestinos que exigem a aceitação e o reconhecimento do Estado de Israel, seja como for que se disfarcem, estão atuando como advogados do Estado colonial estabelecido na Palestina. Utilizam a cobertura pseu- do-esquerdista da autodeterminação para “ambos os povos”, mas essa sofisticada utilização do princípio da autodeterminação, equivale a um chamado enco- berto a uma anistia a Israel.

Esse giro estratégico da direção da Al Fatah teve e tem como destinatário o governo estadunidense e

as burguesias européias. Trata-se de mostrar “sentido comum” e agradar os possíveis doadores. Agora sim,

a OLP defende uma política “integradora”, “não ex­

cludente”, de “convivência entre árabes e judeus”, re­

petem reiteradamente os defensores do giro estratégi­ co. Até nesse aspecto tão crucial de toda luta, como a batalha ideológica, o giro parece um certo reconheci­

mento tácito dos reiterados e reacionários tópicos que

o sionismo sempre agitou: “os palestinos querem aca­

bar com os judeus”, “querem atirá-los ao mar”, “acabar

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Josef Weil (org.)

com o Estado de Israel é anti-semitismo, perseguição aos judeus”. Que outro programa, a não ser o programa funda­ cional da OLP, propunha a convivência entre árabes e judeus em um só e mesmo Estado? A proposta de uma Palestina democrática, laica e não racista defendi­ da pelo programa da OLP aprovado em 1969, marcou toda uma perspectiva de emancipação, que buscava a convergência entre árabes e judeus, sobre a base da eliminação do colonialismo sionista. Uma Palestina na qual os judeus que não faziam parte da invasão sionista eram “considerados como palestinos” Esse programa afirmava:

O movimento de libertação nacional palestino não luta contra os judeus enquanto comunidade étnica e religiosa. Luta contra Israel, expressão de uma coloni- zação e baseada em um sistema teocrático racista e ex- pansionista, expressão do sionismo e do colonialismo.

Apontava assim uma estratégia para revolução pales­ tina, atraindo o apoio de massas na Palestina e no res­ to do mundo árabe assim como de parcelas das massas mais pobres prejudicadas pelo predomínio sionista e de camadas da juventude judaica cansadas de servir de car­ ne de canhão numa guerra sem fim para garantir os ob­

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

jetivos colonialistas insaciáveis de Sharon, Peres e com­ panhia. Um programa e uma estratégia que punham ênfase especial em não confundir de forma alguma os judeus com os sionistas. O então recém-nomeado presidente, Yasser Arafat, explicando o programa fundacional da OLP, dizia:

“Como presidente da OLP, conclamo os judeus, a cada um individualmente, a reconsiderar sua opinião sobre o caminho para o abismo pelo qual o sionismo e os diri­

Fazemos a vocês o

mais generoso dos apelos para que vivamos efetivamente

uma paz justa, juntos em nossa Palestina democrática”.

A Intifada, de 1988 a 1992, abriu pela primeira vez a

necessidade de que Israel, com apoio dos Estados Uni­ dos, tivesse que negociar, e permitiu a sobrevivência da direção da Al Fatah. E Arafat se pôs à cabeça da nego­ ciação, nos moldes do imperialismo estadunidense, para chamar a paz e trair os heróicos combatentes das pe­ dras. Qual é a avaliação, depois de mais de uma década,

gentes israelenses os conduzem [

]

desse giro? Arafat é hoje o presidente de um bantustão de miséria e sofrimento, cercado de questionamentos quanto à sua autoridade, em meio a denúncias de cor­

rupção, torturas e da divisão da resistência palestina.

A nova Intifada não apenas repete as cenas de heroís-

mo do povo palestino e renova, com sua juventude, o

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compromisso com a luta, mas é também um questiona­ mento objetivo, de cima abaixo, desse giro estratégico, da política dos dois Estados e os “acordos de paz”. Edward Said diz que, em defesa da Intifada, é preciso abrir “uma segunda frente”. Está correto, pois defender hoje a causa palestina, apoiar a Intifada exige, a nosso ver, redobrar esforços para explicar incansavelmente em todos os lugares do planeta as razões da luta palestina, contradizer os argumentos falaciosos do sionismo, que­ brando o cerco que se quer levantar sobre a Palestina e rodeando assim de solidariedade a heróica Intifada. Quando se fala dos planos de paz como “saída para o conflito” e se renuncia à batalha estratégica pela Pa­ lestina democrática, laica e não racista em nome de um suposto realismo diante da “força do inimigo”, convém dizer-lhes que não se trata de menosprezar nem um mi­ límetro a força do sionismo e do imperialismo, mas é bom lembrar que recentemente os combatentes do Lí­ bano conseguiram a retirada das tropas de Israel, para a qual colaborou a mobilização das mães dos soldados judeus que não agüentavam mais a perda de seus filhos em uma guerra sem sentido. A partir do Líbano, começaram a aparecer os sinto­ mas da exaustão da juventude judaica com os anos de guerra em prol do colonialismo. Já existem grupos de

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

ação contra a ocupação dos territórios ocupados dentro de Israel (Gush Shalom) e soldados como Noam Kuzar, que se recusam a servir neles, orientados por grupos como o Yesh Gvul. Seria impensável há alguns anos que, como em 2001, no dia da comemoração da funda­ ção de Israel houvesse uma contra-manifestação desses grupos reunindo judeus e palestinos em Jerusalém. A resistência palestina e árabe ao colonialismo sionista permitiu que se abrissem as primeiras brechas na antes considerada invencível força armada israelense. E hoje a coragem dos ativistas da Intifada não se abate apesar dos assassinatos, tiros e ameaças do Exército sionista. Em suas mentes, corações e ações repousa a esperança e o futuro do povo palestino e de sua revolução.

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A DeRROTA De ISRAeL NO LÍBANO

Alejandro Iturbe

Josef Weil

A recente invasão de Israel ao Líbano e seu resul­ tado com a vitória de Hezbollah não significaram uma guerra a mais entre as sucessivas que o Estado sionista desfechou em seus 58 anos de existência. Uma nova realidade desenhou-se na esteira da invasão e da der­ rota de Israel nas mãos da resistência libanesa. Desnu­ dou­se tanto a natureza genocida desse Estado como a crescente fragilização política e militar à medida que enfrenta cada vez maior repúdio e maior resistência dos povos árabes e muçulmanos. A demonstração de que “é possível derrotar o sionismo” espalhou-se por todo o Oriente Médio. Até mesmo no interior de Isra­ el vozes do aparato de Estado e sionistas declaram­se

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preocupados com a própria sobrevivência do Estado racista. Aqui é necessário recordar o papel de cada um deles na região e a história de 58 anos de conflitos bélicos entre Israel e seus vizinhos. Apesar do mito de ser o pequeno país – o Davi contra o Golias – na verdade, Is­ rael nunca esteve sob real perigo nas guerras anteriores. Com o apoio total das potências imperialistas, frente a inimigos com governos corruptos como os dos países árabes, as batalhas foram curtas e demolidoras, como na famosa Guerra dos Seis Dias em 1967, ou no blitzkrieg sobre o Sinai de 1956. Nesta última guerra, frente não a um exército regular, mas a uma organização de resistência que utilizou a clássica guerra de guerrilhas, como fez o Hezbollah, Is­ rael foi derrotado e saiu em crise, tanto o governo como as Forças Armadas, antes consideradas invencíveis. Até os famosos comandos israelenses foram fragorosamente derrotados, em dois episódios: a “tomada de Bint Jbeil”, que depois de proclamada a todas as redes de televisão, resultou em um contra-ataque fulminante do Hezbollah com dezenas de tropas israelenses mortas e feridas e a evacuação do Tsahal da cidade. O outro foi uma tentativa de Israel logo após o ces­ sar-fogo de raptar um alto dirigente do Hezbollah no

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vale do Baalbek: tentaram enganar a população local, disfarçando­se de soldados libaneses, falando árabe e chegando de madrugada, mas a população desconfiou de seu linguajar incomum, avisou a guerrilha. Flagra­ dos e repelidos, tiveram que enfrentar um combate que acabou com a morte de um tenente­coronel e mais um ferido grave dos comandos israelenses e uma fuga pre­ cipitada da tropa sionista em um helicóptero sob o fogo da guerrilha, sem conseguir seu objetivo. Israel despejou uma quantidade impressionante de bombas e mísseis nas cidades e nas vilas de todo o Lí­ bano. Mobilizou mais de trinta mil soldados e utilizou a mais moderna tecnologia militar. Apesar disso, nunca conseguiu quebrar a capacidade militar de Hezbollah que, mesmo no final do conflito, continuava dispa­ rando mais de duzentos foguetes diários ao território israelense. As tropas israelenses sofreram um alto nú­ mero de baixas, e também a destruição de numerosos tanques e equipamento militar. Havia décadas que Israel não via seu território ata­ cado em um conflito militar. Neste caso, o norte do país, incluída Haifa, a terceira cidade israelense, foi permanentemente afetada pelos foguetes lançados pelo Hezbollah. Como resultado, milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas e, pela primeira vez

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na história de Israel, formar acampamentos de refugia­ dos. Nem sequer havia abrigos para alojar as pessoas em perigo no norte. Apesar do primeiro­ministro israelense Olmert e o presidente estadunidense George Bush afirmarem que Israel ganhou a guerra contra os “terroristas do Hez­ bollah”, é cada vez mais difundida a noção de foi o con­ trário que se deu. Apesar de toda a destruição sofrida pelo Líbano, o Exército sionista sofreu uma dura derrota

e teve que se retirar sem atingir seus objetivos políticos

e militares. Trata-se de um fato de imensa importância porque põe na ordem do dia a possibilidade de concre­

tizar uma tarefa histórica: a destruição do Estado racista

e policial de Israel.

O ReSULTADO DA GUeRRA

Como dizia o jornal Correio Internacional 123:

A melhor demonstração do verdadeiro resultado da guerra é o claro contraste entre o festejo dos habi- tantes do sul do Líbano quando voltavam a seus po- voados, apesar de encontrá-los quase destruídos, e a grave crise política que se abriu em Israel.

O ataque israelense tentou dar uma resposta ofen­

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siva a duas crises combinadas. Porém, como a de Bush no Iraque, a política de Olmert enfrentou um colossal ascenso de massas árabes e muçulmanas, cuja expressão mais alta são as guerras de libertação nacional contra o invasor imperialista. Sem dúvida, o Hezbollah desenvol­ veu uma força militar eficiente e seus milicianos com­ batem com valentia e determinação. Porém, o decisivo foi a política. Quando as massas libanesas, começando pelos xiitas, mas não somente elas, também amplos seto- res dos sunitas, cristãos, ateus etc. perceberam que se tratava da defesa da soberania contra o odiado invasor sionista, respaldaram totalmente a resistência seja por apoio direto seja por simpatia explícita e uniram suas vozes contra os agressores. Uma pesquisa constatou 85% de apoio ao Hezbollah no auge da guerra, apesar de toda destruição causada e que Israel tentou utilizar para divi­ dir o povo libanês, responsabilizando o Hezbollah pela catástrofe e se aproveitando de que o Hezbollah tinha uma base forte apenas entre os xiitas. Mas essa luta foi respaldada pelo conjunto do povo libanês, que o apoiou ou defendeu sua razão para combater e forneceu, afinal de contas, seus combatentes. Quando acabou a guerra, os refugiados que retornavam a seus lugares destruídos gritavam seu ódio a Israel e muito deles davam vivas ao Hezbollah.

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Crise grave em Israel

Um Estado em perigo era o título de um artigo do Haaretz de 02 de setembro de 2006. Refletindo um de­ bate interno acirrado depois da guerra, em que em geral

o foco se centra no papel do governo e da cúpula militar,

este artigo de Yair Sheleg tenta discutir a nova realidade criada pela derrota no Líbano. Mas por que uma derrota abalaria tanto um país como Israel? Temos que entender que se trata de um país cuja natureza é ser um “Estado policial”, ou seja, garantir a ferro e fogo, via uma superioridade militar in­ contrastável, seu predomínio na área e a garantia que oferece aos interesses imperialistas. Vários comentaris­ tas estadunidenses informavam o descontentamento do governo Bush por Israel não ter “entregue a fatura” que prometera: liquidar o Hezbollah em poucos dias e livrar

a região de um inimigo armado e desafiador. O fracasso

em conseguir essa meta desacredita Israel aos olhos do imperialismo, que ameaça relativizar seu compromisso de adesão total. Afinal Israel sempre foi considerado peça-chave na política de “guerra contra o terror” iniciada por Bush em 11 de setembro de 2001. Essa política está total­ mente empantanada no Iraque e, agora, reaberta no

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Afeganistão. A crise da política dos Acordos de Oslo de­ pois do triunfo eleitoral do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas, em árabe) tinha agravado a situação. Olmert e Bush acreditaram que obteriam uma vitória rápida e contundente no Líbano que lhes permitiria começar a reverter essa crise. Mas Israel não somente não conseguiu essa vitória contundente como foi derro­

tado, e isso aprofundou ainda mais a crise da política do imperialismo. Isso também gera uma insegurança dentro do próprio Estado de Israel. Além de uma disputa entre todas as forças políticas para achar os culpados e ver uma saída.

A oposição de direita diz que o problema foi a vacilação

em invadir por terra com tudo logo no primeiro dia de guerra, e exige levar às últimas conseqüências a missão de destruir Hezbollah e Hamas, ainda que às custas de milhões de mortos e de baixas muito maiores no Exér­ cito. Sucedem-se manifestações pedindo a cabeça de Olmert e/ou de Peretz e a volta imediata dos soldados

capturados na praça de Tel Aviv. Alguns pacifistas, um

setor minoritário, afirmam que era melhor ter negociado

a troca dos soldados tomados como reféns entre Israel

e o Hezbollah, assim como com o soldado seqüestrado em Gaza com Hamas. O comando do Exército também

é fortemente criticado e muitos pedem sua cabeça.

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A sensação de vitória nas massas árabes e muçulmanas

A derrota das tropas sionistas gerou uma imensa ale­ gria nos povos árabes e muçulmanos. Um dirigente ára­ be expressou isto com muita clareza:

Durante anos e anos, disse-se aos árabes das gerações

anteriores que nada se poderia fazer contra a força de Israel. Agora todos os árabes estão despertando para

a nova realidade [

sação se alastra como fogo em palha seca por todo o

É uma sensação de

poderio que poderá por fim selar a sorte não só de Israel, mas também desses governos árabes que são vistos por seus cidadãos como “vendedores” da fal- sa idéia da impotência árabe para ocultar sua própria impotência e sua corrupção.

mundo árabe e muçulmano [

para além do Líbano, essa sen-

]

]

Esta “sensação de poderio” significará seguramente um grande impulso para a luta das massas árabes e mu­ çulmanas, não só contra Israel, mas também contra os governos responsáveis de décadas de capitulação, espe­ cialmente os mais amigos de Israel ou do imperialismo, como os da Arábia Saudita, Egito e Jordânia. Podemos acrescentar que será também um estimulante para a

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luta dos povos iraquianos e afegãos contra a ocupação imperialista de seus países. Assim mostram os exemplos a seguir:

A rua árabe foi entrando em uma situação parecida a quando se esquenta uma panela de água: foi esquen- tando pouco a pouco até chegar ao ponto de ebuli- ção. Significativas foram as manifestações no Egito, por exemplo: onde os irmãos muçulmanos mistura- vam-se com a esquerda do movimento Kefaya (“Bas- ta!”), onde retratos do xeique Nasrala misturavam-se com os de Nasser e Che e onde a televisão Al Manar compete às claras com a Al Jazeera. Mas não só no Egito. Em todo o mundo árabe centenas de manifes- tações, cada qual mais massiva, tomaram as ruas com um grito unânime: “Sem justiça não há paz”. Essa concepção positiva da paz que tanto assusta o impe- rialismo em qualquer parte do mundo: resolução das causas que geram os conflitos. E no Oriente Médio esse conflito tem um responsável: Israel.

Na Arábia Saudita houve manifestações muito repri­ midas, com várias prisões, mas não se pôde deixar de noticiar que os xiitas do noroeste estão extremamen­ te descontentes com a monarquia e têm uma enorme simpatia pela luta dos seus irmãos do Líbano e pelo

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Hezbollah. Até no Bahrein – sultanato petroleiro onde existe uma base dos Estados Unidos – houve protestos exigindo justiça no Líbano.

A ONU desacreditada

A ONU saiu extremamente comprometida e desa­ creditada ao se mostrar como um instrumento da opres­ são imperialista e sustentáculo de Israel. Supostamente uma instituição a serviço da paz e do respeito às na­ ções, não foi capaz sequer de garantir um cessar-fogo quando havia claras mostras do caráter genocida dos ata- ques israelenses. Colocou a culpa permanentemente no Hezbollah pelo início da guerra e declarou-se sempre pelo seu desarmamento via a anterior Resolução 1559, exatamente a política central de Bush e dos sionistas. Nada mais ilustrativo para o entendimento do desgaste dessa instituição imperialista do que a manifestação nas ruas de Beirute contra a representação diplomática da ONU no dia em que os manifestantes – não somente apoiadores do Hezbollah, mas pessoas de várias posi­ ções políticas – queriam invadir sua sede aos gritos de “Morra América, morra Israel!”. Ou ainda a visita conturbada de Kofi Annan a Beirute depois do cessar-fogo, quando foi cercado de

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manifestantes com bandeiras do Líbano e do Hez­ bollah, cobrando-lhe aos gritos que tomasse posição contra Israel. Alguns deles, entrevistados pelas redes de televisão, diziam que Annan não devia tentar enga­ nar o povo libanês enquanto Israel continuava a manter o bloqueio naval e aéreo ao Líbano. As massas libanesas perceberam que o direito de veto dos cinco integrantes do Conselho de Segurança da ONU transformou-se na prática, pela relação Estados Unidos-Israel, em direi­ to de veto do Estado sionista ante qualquer aspiração legítima das populações da região. E ao exercício sem contestação de toda a força militar genocida e do arse­ nal de armas proibidas até mesmo pela convenção de Genebra, como as bombas de fragmentação. O governo de Israel cinicamente diz que agiu sem violar as con­ venções internacionais e essas afirmações são recebi­ das sem qualquer ameaça de sanção efetiva ao governo de Israel. Na verdade, a aposta de Bush e Olmert era de arra­ sar com a resistência libanesa em semanas, mas o tiro saiu pela culatra e a derrota das tropas sionistas não fez mais que potencializar a crise da política imperialista no Oriente Médio. Um exemplo disso foram as dificulda­ des e vaivéns para formar a força de paz prevista pela Resolução 1701 da ONU.

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Como corresponde ao rol de ferramentas do imperia­ lismo que tem esta organização, esta resolução não con­ denava a agressão sionista nem a destruição ocasionada. Limitava-se a chamar o cessar-fogo e enviar os “capace­ tes azuis” ao lado libanês da fronteira. Ao mesmo tem­ po, insistia no mandato de outras resoluções anteriores, como a 1559, para “desarmar o Hezbollah”. O objetivo real da resolução é de amenizar a derrota do Exército israelense e que a “força de paz” estabe- lecesse uma zona tampão entre Israel e Líbano e impe­ disse os ataques de foguetes do Hezbollah. Muitos dos países convidados a enviar tropas recusaram-se a ir ou propuseram um contingente reduzido. A antiga potência dominante no Líbano e com intenções de retomar sua influência, a França, não assumiu a responsabilidade de chefiar e mandar três mil homens, pois seus generais re­ cusaram a proposta e queriam mandar apenas duzentos, pois ainda têm presente a lembrança de sua participação em outra força da ONU nesse país na década de 1980, que foi literalmente “pelos ares”. Isso gerou protestos de Bush, pressões a que outros países imperialistas da Europa saíssem a oferecer-se para substituir a França, como Itália e Espanha. Para aqueles que ainda querem ver na ONU um “instrumento da paz”, é impossível esconder essa ima­

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gem que ficou nítida aos olhos de militantes árabes e muçulmanos, como revela esse trecho de entrevista de um militante do Hezbollah dada a Mohamad Ali Nayel, Nicole Younness y Jaume d’Urgell:

A ONU sempre defendeu os interesses dos Estados Unidos e de seus amigos, os ocupantes da Palestina e agressores do Líbano. Ponhamos em questão o exem- plo dos seqüestros. Por que, quando os ocupantes da Palestina seqüestram alguém e torturam-no duran- teonze anos, não se dá a isso o nome de terrorismo? Por que Annan não aparece na televisão condenan- do esse tipo de ato? Por que condena unicamente as ações (proporcionalmente insignificantes) realizadas pelo Hezbollah? Em minha opinião, quando um or- ganismo internacional que aspira ocupar o lugar a que a ONU pretende, mostra-se como juiz e litigante de um modo tão evidente, sua justificação desaparece.

Uma nova guerra é inevitável

O cessar-fogo pactuado no Líbano é sumamente precário. Israel continuou a manter o bloqueio naval e aéreo por mais três semanas depois do “cessar-fogo”. O governo israelense declarou que Israel deve se preparar

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“para uma segunda ofensiva” contra o Hezbollah. A não o Líbano curve-se totalmente e o Hezbollah

ser que aceite desarmar-se ou as tropas da ONU e do Exército libanês o imponham, o que parece extremamente di- fícil de acontecer pelo resultado da guerra. Neste caso, Israel não vai admitir a presença de um desafio dessa magnitude em sua fronteira. Uma nova mostra de que a origem das guerras e conflitos na região é o caráter de policial do imperialismo do Estado de Israel. Em algum

tempo, o Estado sionista voltará a atacar e já está se pre­ parando, lambendo suas feridas, para fazê­lo. Uma nova demonstração também de que não poderá haver paz no Oriente Médio até que não se derrote definitivamente

e se destrua a Israel. A derrota que sofreu no Líbano de­ monstra que, com uma luta unificada das massas árabes

e muçulmanas, seria possível fazê-lo.

A perda da imagem de Davi frente a Golias

Durante muitos anos, poderíamos dizer especialmen- te entre sua fundação em 1948 e o ano de 1973, da guer­ ra do Yom Kippur, Israel apresentava-se ante a opinião pública como o pequeno Estado nascido da vontade dos perseguidos judeus e acossado pelas hordas árabes e muçulmanas que simplesmente não o queriam deixar

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existir. Apoiados na resolução da ONU, com o respal­ do tanto dos Estados Unidos quanto do da URSS e na comoção mundial despertada pelo genocídio nazista, os sionistas souberam manobrar para passar essa imagem ante o mundo, inclusive com uma boa parte da esquer­ da apoiando sua política, apontando os kibutzim como ilhas de “socialismo” num mar de regimes feudais e despóticos nos países árabes. Dizia-se que, depois de tanto sofrimento, os judeus queriam apenas instaurar um país com os princípios de democracia, igualdade e sem perseguições religiosas. E que seriam atacados por­ que esses governos árabes odiavam esse “exemplo” de liberdade e prosperidade. E os palestinos, que para os sionistas não eram um povo, seriam apenas joguete desses tiranos, que os uti­ lizariam para atacar Israel. As mentiras propaladas para sustentar essa tese eram incríveis. Uma das mais repug­ nantes foi a versão de que os palestinos que haviam sido expulsos de suas terras entre 1947 e 1948 pelo Haganá e pelos grupos terroristas sionistas com líderes como Me­ nachem Begin, Sharon e Shamir, ambos posteriormente primeiros-ministros, teriam sido vítimas de uma supos­ ta “propaganda das rádios árabes que os convidavam a sair”. E todo aquele que se atrevia a contestar essas mentiras era logo acusado de “anti-semita”.

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Agora, a máscara do monstro vai caindo. As cenas do Líbano mostraram a brutalidade, o desprezo às vi­ das de civis, a destruição da infra­estrutura para impor a rendição mesmo às custas de fome, falta de remédios etc., a ponto dos observadores da ONU e organizações como Anistia Internacional e HRW que sempre evita­ vam uma posição nessa área, terem condenado Israel e declarado suas ações “crimes de guerra”. Nos anos 1950-1970, uma série de intelectuais de esquerda acei­ tava o discurso de Israel como sendo o oásis “socialista” ou “democrático” na região. Com as últimas ações, cada vez mais setores médios, da esquerda e a intelectuali­ dade progressista vão se distanciando e inclusive come­ çando a denunciar o próprio papel de Israel como Esta­ do terrorista na região. O português prêmio Nobel José Saramago declarou “Israel está fazendo perder o capital de compaixão, de admiração e de respeito que o povo judeu merecia pelos sofrimentos por que passou. Já não são dignos desse capital”. O argentino Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, chamou Israel de “Estado terro­ rista”. O ex-candidato a presidente dos Estados Unidos, Ralph Nader, classificou a agressão de Israel ao Líbano de “bombardeio terrorista”. Na Europa e na América Latina cresceu muito a re­ pulsa aos métodos de Israel, apesar de toda a blindagem

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

da mídia que defende a tese da “única democracia do

Oriente Médio assediada pelos terroristas do Hezbollah

e Hamas”. Na Inglaterra, uma pesquisa durante a inva­

são deu uma ampla maioria de 62% contra a agressão ao Líbano, em total contradição com a política de Tony

Blair de apoio incondicional a Israel. Isso ocasionou um debate público entre figuras de peso do Labour Party,

o próprio partido de Blair, sobre se era correto continu­

ar com essa posição de aliado incondicional de Israel e de Bush. Cada vez mais Israel é associado à política genoci­ da de Bush e do imperialismo no Oriente Médio. No Oriente Médio, os governos que tentam aparecer como “moderados” e acenam com acordos aceitando o status quo e o papel de Israel como potência colonial e milita­ rista perdem rapidamente o respeito de seus habitantes, são atacados politicamente como covardes ou cúmplices dos massacres. No único lugar em que ainda tem uma maioria

apoiadora na população, os Estados Unidos, Israel tam­ bém sofreu um desgaste: embora continue o apoio total de ambos os partidos republicano e democrata e uma postura totalmente pró-sionista não só do governo como do Congresso, 54% dos votantes democratas e 39% dos republicanos estão a favor de uma política de neutra­

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lidade, oposta ao atual alinhamento total com Israel. Para quem conhece o peso do lobby sionista nos Es­ tados Unidos, é um número indicativo do desgaste até mesmo nos Estados Unidos. Uma petição de judeus dos Estados Unidos contra a agressão de Israel aos povos libaneses e palestinos já tem mais de mil assinaturas. A tal ponto chegou o desgaste da imagem que até Brzezinski, ex-assessor de inteligência exterior de Re­ agan, da junta de segurança nacional que assessorava Bush pai e em particular grande “amigo de Israel”, co­ meça a dizer que são necessárias mudanças na política de seu eterno aliado.

Odeio dizê-lo, mas vou dizer. Penso que o que os isralenses estão fazendo agora, por exemplo no Líbano, é na prática, na prática – talvez não na inten- ção – uma matança de reféns. Uma matança de reféns. Pois quando se mata trezentas pessoas, quatrocentas pessoas – que nada têm a ver com as provocações do Hezbollah – e isto se faz na prática com deliberação e indiferença pela magnitude do dano colateral, está se matando reféns com a esperança de intimidar os que se quer intimidar. E o mais provável é que não se os intimide. Simplesmente se os ultraja e se os converte em inimigos permanentes cujo número não cessará de crescer.

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PARTe 2

História do islã

ISLÃ: DA PORTA SUBLIMe À PORTA DO INFeRNO

Cecília Toledo

José Welmovicki

“Porta sublime” é como ficou conhecida a corte que dominava o mundo árabe na época do Império Otomano (1299-1922) . Depois da I Guerra Mundial, o Islã passou a padecer sob o domínio de outro império, muito mais sanguinário, o britânico, e agora padece sob as botas do infame imperialismo estadunidense. Nestes artigos fa­ zemos uma retrospectiva de alguns dos principais acon­ tecimentos que marcaram essa conturbada história. Para isso, usamos duas fontes básicas: a revista Correio Inter- nacional 7 (agosto de 1984), dedicada à guerra Irã-Ira­ que, e a 19 (maio de 1986), dedicada ao Islã, com artigos importantes escritos por Gabriel Massa e Jan Poliansky,

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e o livro de Tariq Ali, Bush na Babilônia, recentemente lançado no Brasil. Nosso objetivo é oferecer aos leitores um panorama do Islã, ressaltando os momentos mais importantes de sua história, tão rica e tão complexa, no sentido de colaborar para uma melhor compreensão do que vem ocorrendo hoje no Iraque. Este primeiro artigo aborda, de forma sucinta, o sur­ gimento do Islã, tendo em conta que desde os princí­ pios da civilização, o Oriente Médio desempenhou um papel importante na História da Humanidade. Durante mais de dois milênios, diversos impérios tentaram dominar a região do Oriente Médio, vital de­ vido a seu comércio e produção de alimentos. Sucede­ ram-se os egípcios, assírios, babilônios, persas, gregos, romanos e bizantinos. Os gregos e bizantinos deixaram importantes contribuições culturais, mas nenhum desses impérios conseguiu impregnar com sua cultura os povos do Oriente Médio, e menos ainda dar-lhes uma unidade política que sobrevivesse à dominação imperial. Árabe – adjetivo que hoje identifica mais de 180 milhões de pessoas, desde o Saara Ocidental até o Ira­ que – no começo do século 7 só identificava a população da Península Arábica. A limitação de recursos nas franjas litorâneas fazia com que os excedentes de população, as tribos mais débeis, fossem obrigados a emigrar para o

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

deserto. Essas tribos expulsas foram convertendo-se nos ferozes beduínos. A cultura beduína era essencialmente de subsistência, baseada no pastoreio, uma agricultura mínima nos oásis, e complementada pela razzia, palavra árabe que designava os ataques a outras tribos beduínas, às caravanas comerciais ou às aldeias camponesas para roubar víveres. No início do século 7, um próspero comerciante de Meca, principal cidade de Hedjaz, na costa ocidental da península arábica, chamado Maomé, refletindo as ne­ cessidades do setor mais dinâmico da classe comercial que se desenvolvera na região, começava uma pregação religiosa-política que o levaria, em menos de vinte anos, a se transformar no líder de um Estado teocrático árabe unificado. O Islã expandiu sua hegemonia para além dos limi­ tes da Península Arábica. O instrumento religioso para isso foi a jihad, a guerra santa. A burguesia comercial cresce. As caravanas avançavam atrás das tropas con­ quistadoras. O impressionante fluxo de riquezas que chegavam ao centro do império como botim de guerra deu aos soldados islâmicos a possibilidade de um rápido enriquecimento e sua consolidação em uma casta mili­ tar que deixou de lado suas origens beduínas. Esta casta burocrático­militar institucionalizou­se

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com a consolidação do império, o advento da dinas­ tia dos omeyas ao poder e o translado da capital para Damasco. Apesar da forma do Estado ser similar a de muitos países asiáticos – uma casta de administradores decidindo os destinos do país – a formação econômico- social subjacente tinha fortes elementos capitalistas. Uma boa parte da produção artesanal das cidades e da produção agrícola estava especializada por zonas e destinada ao mercado, e não eram raras as oficinas com mão de obra assalariada. No campo primava a peque­ na propriedade privada, em geral em mãos de dhimis (estrangeiros não assimilados ao Islã) que pagavam im­ postos ao Estado. Os poucos latifundiários recebiam a maior parte da renda em dinheiro, não em espécie, mais parecidos com a burguesia do que com os senhores feudais europeus. A civilização árabe era essencialmente urbana, giran­ do em torno do comércio, do artesanato e de um cres­ cente setor financeiro. Apesar das proibições corânicas ao empréstimo a juros, um grande setor da burguesia comercial dedicava-se às atividades financeiras e aos poucos passava a controlar as grandes cidades, que vão se tornando cada vez mais autônomas. No campo, os dhimis sobreviviam sem grandes dificuldades econômicas, porém, nas cidades, os co­

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

merciantes e pequenos artesãos sofriam a opressão e a miséria. Seria dessas classes urbanas de onde sairia maior parte dos grandes movimentos de protesto na história do Islã. Um aspecto essencial do império e que se conser­ varia no mundo islâmico foi a tolerância em relação às comunidades não­muçulmanas. É verdade que, du­ rante os primeiros anos, os povos conquistados eram obrigados a adotar a fé muçulmana, uma herança da mentalidade beduína. Contudo, depois, o estabeleci­ mento de um império de comerciantes e administra­ dores percebeu que era mais vantajoso não destruir os setores sociais existentes entre os povos conquistados, mas integrá-los à sociedade muçulmana como clientes ou sócios menores dos grandes comerciantes, pagando impostos ao Estado em troca de proteção. Essa polí­ tica chegou ao apogeu durante o reinado da dinastia dos Abássidas, que optaram por assimilar ao Islã todos os que assim o desejassem, levando ao máximo a in­ tegração das culturas árabe e dos povos conquistados. Essa tolerância manifestou-se em grandes exemplos de convivência, como a dos muçulmanos, cristãos e ju­ deus na Espanha árabe – em contraste absoluto com a Espanha cristã posterior à Reconquista (1492) – e a integração total dos judeus na sociedade árabe durante

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treze séculos. Algo que só o imperialismo e o sionismo conseguiriam, não sem grandes esforços, destruir.

A civilização islâmica

Menos de duzentos anos depois de Maomé, a socie­ dade islâmica havia chegado ao seu apogeu. Bagdá che­ gou a um milhão de habitantes. Era a cidade mais rica e povoada do mundo. Mas não reinava sozinha. Em todo o império floresciam dezenas de cidades com mais de cem mil habitantes. Bagdá comercializava com o mundo inteiro, des­ de a China até a Espanha. Todas as rotas comerciais passavam pelo império árabe. O ouro do Sudão viajava ao Oriente, de onde vinham a seda e as especiarias. O tráfico de ouro e escravos tornou­se o sustento econô­ mico do Islã. Uma navegação contínua animava o Me­ diterrâneo, o Mar Vermelho e o Índico. As embarcações árabes tocavam todos os portos da África oriental e da Ásia meridional. Chegavam inclusive até a Malásia e a China. O dinar, moeda árabe de ouro, era procurada por todas as partes. Esse auge do comércio e da riqueza não esteve divor­ ciado do desenvolvimento cultural, artístico e científi- co. Muito pelo contrário. Com a assimilação dos povos

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conquistados, a cultura chegou a um nível que não havia alcançado nem sequer na Antigüidade clássica em sua época de esplendor. O desenvolvimento da navegação, das matemáticas, astronomia e medicina são alguns dos que serviram de base para o avanço científico que pro­ moveu o Renascimento na Europa. A arte floresceu a partir da herança bizantina e persa, manifestando-se essencialmente na arquitetura e em uma impressionan­ te produção literária. O idioma árabe transformou­se na língua dominante em todo o império e hoje é praticado do Marrocos ao Iraque, nos países islâmicos não-árabes, na Ásia central e do Sul, e deixou para sempre inúmeras palavras no vocabulário espanhol.

A decadência do Islã árabe

Enquanto a riqueza do império chegava ao seu ponto mais alto, as revoltas populares urbanas, fomentadas pe­ las enormes diferenças sociais, assim como os levantes de escravos, se espalhavam. Por outro lado, o avanço dos navegantes­comerciantes europeus no Mediterrâneo começou a minar uma das principais fontes da riqueza árabe. Tudo isso contribuiu para a instabilidade de um império que se estendia por vários milhões de quilô­ metros quadrados. Por outro lado, para os comerciantes

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não era necessária a unidade política. Bastava a unidade cultural, a língua comum e a facilidade de deslocamen­ to no seio do mundo islâmico. Já no ano 773, a Espanha conseguia sua independên­ cia, assumindo a denominação de Califado de Córdoba. Três séculos depois, a autoridade do califa de Bagdá era só nominal fora dos limites do Iraque, enquanto que as an­ tigas províncias eram, de fato, reinados independentes.

O Império otomano

No começo do século 14, o caudilho Osman conse­ guiu unificar, sob sua direção, várias tribos turcas (que depois assumiram denominações como otomanos ou osmanlis). Seu filho Orjan conquistou a cidade de Bursa, na Anatólia, e criou ali a capital. A partir desse momen­ to começava uma expansão rumo à Europa sul-oriental, destruindo o Império bizantino e apropriando-se de seus territórios. A conquista de Constantinopla em 1453, cha­ mada a partir daí de Istambul, marcou a constituição do Império otomano. Istambul seria o centro de expansão, por um lado, rumo ao centro da Europa e, por outro, em direção ao Islã árabe em decadência e desagregação. Ao contrário dos conquistadores árabes, os turcos oto­ manos chegaram ao coração da Europa, e nos territórios

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aí ocupados encontraram, em parte, estruturas de tipo feudal, impostas pelos cruzados ocidentais ao débil im­ pério bizantino. Apesar de abolida a propriedade feudal, que passou a ser propriedade do sultão, aproveitaram as divisões dos feudos, outorgados como concessão aos multezim, velhos senhores feudais cooptados pelo re­ gime otomano. Além dos multezim, dos militares e dos diversos setores burocráticos ligados ao aparato estatal, o regime otomano também se apoiava na organização dos millets, as comunidades religiosas. Apesar de não mais haver o predomínio dos comerciantes, a tradição de tolerância não se havia perdido, tanto que cristãos e judeus chegaram aos mais altos cargos do Estado. Já a partir do século , a aristocracia visigoda da Es­ panha havia começado sua resistência aos invasores ára­ bes. Mas foi apenas três séculos depois que passariam à ofensiva. Nessa época, os incipientes setores comerciais europeus começaram a se sentir suficientemente fortes para disputar o controle do comércio mediterrâneo com a burguesia árabe. Esse foi o fundamento político e eco­ nômico das cruzadas. Em dois séculos, os cruzados foram derrotados pelos militares turcos em sua tentativa de se estabelecer na Palestina. Entretanto, tiveram vitórias importantes: a to­ mada de Creta, Rodas e Chipre, o conseqüente controle

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de uma boa parte do comércio marítimo, e o estabeleci­ mento de setores de propriedade feudal tanto no Líbano como na parte européia do império bizantino. O final da Reconquista espanhola em 1492 e a posterior conquista pelos reis católicos de várias áreas no norte da África ter­ minaram por afastar a navegação árabe do Mediterrâneo. A burguesia comercial portuguesa, com um maior desenvolvimento das técnicas de navegação que a bur­ guesia árabe, pôde chegar às costas ocidentais africanas e, depois de dobrar o Cabo da Boa Esperança, atingir as costas orientais, o Oceano Índico e o Extremo Oriente, obtendo o controle tanto do tráfico de ouro e escravos da África subsaariana quanto das especiarias do Orien­ te, assim como do comércio com a Índia. Aos poucos, os navegantes árabes foram recuperando parte do comércio no Índico. No entanto, não seriam nem eles nem os portugueses que dominariam essa atividade. Um século mais tarde os navegantes holandeses estabeleceriam-se definitivamente na região. O mundo árabe havia sobrevivido às divisões políti­ cas e às invasões nômades. Mas o avanço do imperialis­ mo europeu cortou definitivamente suas principais ro­ tas comerciais, reduzindo a possibilidade de trânsito às caravanas do deserto, como ocorrera dez séculos antes da irrupção do Islã. A sorte do Islã estava lançada.

às caravanas do deserto, como ocorrera dez séculos antes da irrupção do Islã. A sorte do
às caravanas do deserto, como ocorrera dez séculos antes da irrupção do Islã. A sorte do
às caravanas do deserto, como ocorrera dez séculos antes da irrupção do Islã. A sorte do

OS NOvOS CRUZADOS

Cecília Toledo

José Welmovicki

A perda do controle do comércio no Índico foi o co­ meço do fim do Império otomano no Oriente Médio. Apesar de várias tentativas durante o século 18 de criar uma nova classe burguesa, dedicada à produção indus­ trial, o Estado osmanli continuou sendo essencialmen­ te parasitário, incapaz de enfrentar a pujante burguesia européia, em expansão. No final do século 18, os imperialismos europeus estavam em condições de aspirar a algo mais do que o controle das rotas comerciais otomanas. “Homem enfermo da Europa”. Assim Nicolau I, czar de todas as Rússias, chamava o Império otomano. Desde o final do século 18, essa doença estressava os

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países europeus: era a “questão do Oriente”, ou seja, o problema da repartição das imensas possessões da Porta sublime. A história do século 19 esteve profundamente impregnada por ela. Os imperialismos europeus começaram a solucionar rapidamente a “questão do Oriente”. Depois da fracas­ sada expedição de Napoleão ao Egito, a França ocupou a Argélia e estabeleceu “protetorados” sobre Túnis e Marrocos, e obteve direitos especiais na Síria e no Líba­ no. Por outro lado, o ascenso dos ingleses foi fulminante:

começam por Malta (1815), depois “protegem” a Costa dos Piratas e o conjunto dos emirados do Golfo Pérsico (1820), atribuem a si Áden e Omã (1839), tomam Chipre (1878), compram a Companhia do Canal de Suez (1875), apoderam-se do Egito (1882) – depois de terem esma­ gado a revolta de Arabi Paxá – e do Sudão (1898). Ao mesmo tempo, tomam posse dos protetorados da costa sul da Arábia (1886 a 1914). Outros imperialismos mais débeis, como Alemanha, Rússia, Itália e Espanha, tam­ bém tirariam sua parte do território otomano. O Império otomano não se preocupara em alterar a estrutura social do mundo árabe. Colocara-se na posi­ ção de seu parasita, contando com a colaboração de im­ portantes setores das velhas classes dominantes, então em decadência e transformadas em clientes da Porta

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sublime ou submetendo os seus opositores. Como diz Tariq Ali, “O califa-sultão não insistiu no controle total nem na obediência, contanto que os impostos fossem pagos ao Tesouro de Istambul”. A burguesia ocidental tinha outra concepção do imperialismo. Tratava de incorporar todos os países “atrasados” ao mercado mundial, explorando todos os seus recursos. Isso se manifestou desde a imposição do monocultivo de algodão ao Egito, país que durante milênios havia sido auto-suficiente em alimentos, até a expropriação dos fellahs (camponeses) argelinos e a apropriação do petróleo árabe e iraniano. Ao mesmo tempo em que a penetração imperialista destruía a antiga classe dominante, criava um novo setor privilegiado, ligado ao destino de seus amos. Na Penín­ sula Arábica, o imperialismo estadunidense favorecia a tribo beduína dos sauditas contra a tradicional família de grandes comerciantes dos Hashemitas (guardiães de Meca e, segundo a tradição, descendentes de Maomé). Nos territórios dos sauditas havia grandes poços de petróleo. No Irã, o imperialismo britânico, e depois o estadunidense, frente à existência de uma burguesia comercial (do bazar) ainda relativamente forte, preferi­ ram favorecer a formação de um novo setor ligado ao aparato estatal e militar, em torno da figura do xá Reza

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Pahlevi. Sempre é mais fácil negociar com uma classe social nova, cuja fonte de recursos essencial passa pela sua relação com o imperialismo, do que com uma classe social antiga, que possa mostrar, de vez em quando, al­ gum ar de independência.

O nacionalismo ligado ao Ocidente

A discussão sobre a “questão do Oriente”, nos go­ vernos ocidentais, tinha a ver com a partilha das pos­ sessões do Império otomano, e coincidia com um cres­ cente sentimento nacionalista no seio do povo árabe. O Estado otomano era essencialmente parasitário, não possibilitando nenhum desenvolvimento econômico sério. Como reação a isso, muitos setores árabes come­ çaram a colocar a necessidade de romper com o domínio otomano e buscar um desenvolvimento independente. Em suas origens, a poderosa burguesia árabe em expansão havia sido internacionalista. Agora, em retro­ cesso há séculos, debilitada e sem suas fontes de lucro, tornava-se nacionalista para defender o pouco que lhe restava. Em muitos países coloniais ou semicoloniais, seto­ res das classes dominantes tomaram como referência o pujante capitalismo europeu, em particular o britânico,

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para desenvolver suas sociedades. O maior exemplo dessa tendência no mundo árabe foi dado por Moham­ med Ali, um albanês que havia sido nomeado vice-rei do Egito pelo sultão otomano em 1805. Tentando ob­ ter a independência do Egito em relação à Istambul, Ali buscou tecnologia e capitais ocidentais, ainda que subordinando-os às necessidades do país. Construiu um grande setor industrial estatal, mudou o regime

das terras e introduziu o cultivo do algodão, mantendo

a produção de cereais. Apesar do regime imposto por

Ali se parecer ao que havia caracterizado o conjunto do

mundo islâmico durante séculos, na verdade tratava­se

de algo totalmente novo. O regime de Ali deveria fazer

a mediação entre a burguesia imperialista européia em

expansão e as classes locais. É o que Trotsky definiria, um século depois, como bonapartismo sui generis. Em 1831, com o apoio da França – que via uma oportu- nidade para a expansão de sua influência na região – Ali fundou um Estado sírio-egípcio independente. No en­ tanto, a dinâmica do regime ameaçava provocar o rápido desmembramento do Império otomano em um momen­ to em que as potências ocidentais não estavam ainda preparadas para tomar conta dele por completo. Assim, antes de cumprirem­se dez anos de independência, as tropas do sultão, junto com as inglesas e francesas, der­

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rotaram o Exército egípcio, obrigando Ali a voltar a seu antigo cargo de vice-rei e tanto o Egito quanto a Síria voltaram à órbita do império. Teve início, então, a máxima penetração dos capitais imperialistas no Egito, destruindo sua indústria estatal e empurrando os capitais nacionais para o campo, obri­ gando-os ao monocultivo de algodão (o Egito deixava de ser auto-suficiente em alimentos), controlando os principais investimentos – entre eles, a construção do Canal de Suez – e impondo o conseqüente endivida­ mento, empobrecimento e dependência do país ao im­ perialismo europeu. Surgem os primeiros movimentos nacionalistas, pro­ pondo a ruptura tanto com Istambul como Londres. Em 1882, explode, no Egito, a insurreição dos urabi, que exigia um regime constitucional e a ruptura com a Grã-Bretanha. Sua derrota foi obtida graças à interven­ ção direta da Frota e das tropas inglesas. Dez anos de­ pois era fundado o Partido Nacionalista, com propostas similares às do movimento urabi. Esses movimentos nacionalistas antiimperialistas con­ tavam, entre suas bases, com um importante número de camponeses e artesãos das cidades; no entanto, sua dire­ ção continuava sendo burguesa. Eram setores da burgue­ sia arruinados ou ameaçados pela avidez imperialista.

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O Oriente Médio na perspectiva marxista

O Irã, independente da coroa otomana, também bus­ cou a Europa para modernizar­se. Os resultados de sua “modernização” não foram menos nefastos para a socie­ dade iraniana do que haviam sido para a egípcia. Porém,

no Irã existia uma forte burguesia mercantil – a burgue­ sia do bazar – que não buscava a “modernização”. Junto

a ela estavam os clérigos xiitas, ulemás e aiatolás, donos de grandes extensões de terras e vinculados ao bazar. Em 1891, encabeçada pelos clérigos, juntamente com os comerciantes do bazar e as classes populares, ocorreu

a primeira insurreição antiimperialista no Irã, que se

repetiria várias vezes durante o século 20, culminando com a revolução de 1979.

A I Guerra Mundial

A primeira grande guerra de rapina imperialista em nível mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, deu pé para uma mudança no mapa político do Oriente Médio. O imperialismo queria repartir os despojos do certamen­ te derrotado Império otomano, enquanto a burguesia árabe queria conquistar a independência. Para obter o apoio árabe à sua luta contra os turcos, em novembro de 1918, os governos imperialistas de­ clararam que o objetivo da França e Grã-Bretanha ao

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continuar no Leste a guerra desatada pela ambição da Alemanha era a emancipação completa e definitiva dos povos tão longamente oprimidos pelos turcos e o esta­ belecimento de governos e administrações nacionais, cuja autoridade derivasse da iniciativa e livre escolha dos povos nativos. Enquanto as potências européias ganhavam com essa promessa os setores nacionalistas árabes para sua luta contra o poder otomano, acertavam em segredo a partilha do império, concedendo inclusive por meio da Declaração Balfour, em 1917, um “lar nacional judaico” em terras da Palestina. O resultado disso é que, com o fim da guerra, os povos árabes livraram-se do Império otomano, mas caíram sob o poder britânico e francês. “As vitórias e derrotas da I Guerra Mundial torna­ ram-se a ponte para a partida de um império e a chega­ da de outro. Enquanto os soldados otomanos rodavam para oeste, seus substitutos britânicos e franceses mar­ chavam para Leste”.

O Império britânico

A dominação do Império britânico foi um dos proces­ sos mais longos e difíceis da história do Oriente Médio. A Porta sublime foi substituída pela porta do Inferno.

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Para Tariq Ali, a autodefinição do Império britânico foi resumida com perfeição numa frase publicada no docu­ mento que instituiu o Comitê de Defesa Imperial em 1904: “O Império britânico é, em primeiro lugar, uma grande potência naval, indiana e colonial”. A expressão “potência indiana” referia-se ao esteio humano que a Índia forneceu aos ingleses para que estes exercessem sua hegemonia colonial; os soldados indianos foram uti­ lizados em ambas as guerras mundiais, assim como na colonização do mundo árabe durante o período entre guerras. E a força expedicionária que tomara as três pro­ víncias otomanas – Bagdá, Basra e Mossul – que viriam a formar as fronteiras do Estado do Iraque ao final da I Guerra, compunha-se de soldados indianos. Em 1917, os soldados indianos ajudaram os britânicos a tomar Jerusalém e Bagdá. A tática do imperialismo britânico era “dividir para reinar”, mantendo-se o mais longe possível dos campos de batalha, utilizando os soldados indianos e insuflan­ do as disputas intestinas. Tariq Ali lembra que o acordo anglo-francês (Sykes-Picot) de partilha do espólio de guerra levou à divisão do oriente árabe e à criação de novos Estados e novas fronteiras que deram ímpeto às correntes nacionalistas embrionárias já existentes. Os clãs hashemita e saudita foram fortalecidos pelos britâni-

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cos como dique de proteção contra o nacionalismo e as idéias sindicalistas e socialistas que vinham da Europa. Concebido pelo Império britânico, o Iraque foi um Estado colonial desde o berço. Em seu livro, Tariq Ali mostra como isso determinou suas estruturas e o caráter de sua burguesia, totalmente dependente das ordens e dos favores dos britânicos. Mas o povo do Iraque resistiu desde o início aos novos amos coloniais. Sobre isso, Ta­ riq Ali divulga uma estatística interessante, extraída do livro de Richard Gott, Our Empire Story (a ser publica­ do), que esquematiza a história do Império britânico:

para cada dia em que este Império existiu, houve um ato correspondente de revolta dos súditos contra seu domínio. Isto é coisa para os fiéis do novo Império pensarem enquanto a situação do Iraque continua a se desenrolar e as baixas dos Estados Unidos aumen- tam lentamente.

O tenente-coronel Lawrence – o lendário Lawren­ ce da Arábia – artífice da campanha britânica contra os turcos, escreveu um artigo a pedido do jornal Sunday Times, para dar à opinião pública de seu país uma visão do que ocorria na Mesopotâmia, hoje Iraque, durante a ocupação britânica no pós-I Guerra. Foi publicado em 23 de agosto de 1920. Aqui reproduzimos alguns trechos

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que lembram muito a atual ocupação do Iraque pelos Estados Unidos e ingleses:

O povo da Inglaterra foi levado, na Mesopotâmia, a

uma armadilha da qual será difícil escapar com dig- nidade e honra. Foi atraído a ela com mentiras, me- diante uma constante retenção de informação. Os comunicados emitidos desde Bagdá são tardios, men-

tirosos, incompletos. As coisas foram muito piores do que nos disseram; nosso governo lá, mais sanguinário

e ineficiente do que o povo sabe. É uma desgraça

para nossa história imperial, e logo a ferida pode fi- car tão inflamada que não seja mais possível aplicar-

lhe um remédio comum. [

Mesopotâmia para derrotar os turcos. Dissemos que ficaríamos lá para libertar os árabes da opressão do governo turco, e para tornar acessíveis ao mundo os

recursos de grãos e petróleo da região. A esses obje- tivos dedicamos um milhão de homens e quase um bilhão de libras. Este ano, estamos destinando 92 mil homens e cinqüenta milhões para o mesmo fim. Nosso governo é pior que o velho sistema turco. Esse regime mantinha uma força de 14 mil reservas locais

e matava, em média, dois mil árabes por ano para

manter a paz. Nós temos noventa mil homens, com aviões, veículos blindados, tanques, lanchas com ar-

]

Dissemos que íamos à

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tilharia e trens blindados. Matamos uns dez mil ára- bes revoltosos neste verão. Não podemos pensar em manter essa média: é um país pobre, escassamente povoado, mas Abd el Hamid [sultão que governou a

Turquia entre 1909 e 1910] aplaudiria se visse o que estamos fazendo. Disseram-nos que a revolta tinha motivos políticos, mas não nos disseram o que quer o povo. Pode ser que seja o que o gabinete lhe prome-

teu. [

sopotâmia escreveu um memorando pedindo mais

quatro divisões. Creio que era dirigido ao Escritório de Guerra, que agora transferiu três brigadas vindas da Índia. Se já não é possível tirar mais homens da fronteira noroeste, de onde virá o equilíbrio? En- quanto isso, nossos infelizes soldados – indianos e britânicos – estão fazendo trabalhos de polícia em uma zona imensa, sob inclementes condições de cli- ma e alimentação, pagando diariamente um alto pre- ço em vidas pela política deliberadamente errônea

O governo em

da administração civil em Bagdá. [

Há quatro semanas, o estado-maior na Me-

]

]

Bagdá esteve enforcando árabes nessa cidade por de- litos políticos, aos que chama rebelião. Os árabes não estão em guerra conosco. Com essas execuções ile- gais se busca provocar os árabes para que pratiquem

represálias contra os trezentos britânicos que man-

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Dizemos que nossa intenção

na Mesopotâmia é impulsionar seu desenvolvimento para benefício do mundo. Todos os experts afirmam que a oferta de mão de obra é o fator dominante para seu desenvolvimento. Em que medida a matança de dez mil moradores das aldeias e cidades afetará a pro- dução de trigo, algodão e petróleo? Por quanto tempo mais permitiremos que milhões de libras, centenas de soldados imperiais e milhares de árabes sejam sacrificados por uma administração colonial que não

pode beneficiar a ninguém além de si mesma?

têm prisioneiros? [

]

Chantagistas e oportunistas

A desintegração do Império otomano e a chegada dos novos amos ingleses fez com que vários grupos se­ cretos de oligarcas se tornassem públicos e passassem a se engalfinhar pelo poder, disputando os favores e mi­ galhas atiradas pelos britânicos. Os clãs árabes raramen­ te precisavam de ajuda quando era hora de trocar de lado. Numa dessas alas oportunistas estavam os hashe­ mitas, que tinham sido totalmente leais aos britânicos e receberam seus prêmios por isso: Abdulah tornou-se rei da Jordânia e Faissal assumiu o trono do Iraque. Não

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obstante, como a monarquia, assim como tudo no país, havia sido imposta de cima para baixo, teve sua legiti­ midade questionada desde o princípio e por todos os lados. Faissal sabia que, em sua maioria, os ex-oficiais e burocratas otomanos que o cercavam não eram dignos de confiança e, para não ser deposto, aproximou-se cada vez mais dos britânicos. “Sou um instrumento da políti­ ca britânica”, declarou certa vez. Com a morte de Faissal em 1933, assume o trono seu filho Gazi, que era hostil aos britânicos e acabou mor­ rendo em um “acidente” automobilístico. Tariq Ali resume:

As três primeiras décadas do regime monárquico-im- perial foram um desastre sem atenuantes para o povo local. O custo da imposição do regime colonial e de uma monarquia vinda de fora foi elevado: o uso de ar- mas químicas e do poderio aéreo provocou noventa e oito mil baixas. E havia a selvagem repressão política em casa, simbolizada pelos enforcamentos públicos:

um dos que assim foram tratados foi o líder comunis- ta Fahd. [p. 69]

Em 1941 ocorre o golpe dos Quatro Coronéis, que instaurou um governo nacionalista popular no Iraque. Depois de um mês de guerra, os britânicos conseguem

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reocupar o país. Os nacionalistas recusaram-se a colabo­ rar com os ocupantes; enquanto isso, os comunistas, se­ guindo a linha imposta por Moscou, abandonavam toda oposição efetiva. Ainda assim, durante os anos da guer­ ra e depois dela, o caldeirão continuou a ferver. A elite pró-britânica nunca entendeu plenamente a extensão de seu próprio isolamento.

A resistência

Os curdos receberam bem os britânicos, confiantes em conquistar a autonomia. Mas quando viram que isso não ocorreria, começaram a se mobilizar. Em 1914, os ingleses informaram aos iraquianos que chegavam ali “como libertadores, e não como colonizadores”. Poucos foram enganados e houve um apoio popular avassalador às fatwas, que exigiam a guerra santa contra a ocupação dos infiéis. Em sua maioria, os líderes sunitas tradicionais que tinham trabalhado intimamente com os otomanos tam­ bém se sentiam marginalizados pelos britânicos e pas­ saram a incentivar a unidade entre sunitas e xiitas para combater o inimigo comum. A população árabe como um todo sofria com as novas estruturas de domina­ ção. A imposição meio frouxa da propriedade privada

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da terra no final do período otomano foi transformada num sistema impiedoso: os proprietários foram cober­

tos de privilégios e usados para policiar a nova ordem.

A institucionalização das propriedades particulares en­

fraqueceu a estrutura tribal tradicional e, nas regiões onde isso aconteceu, criou uma classe de camponeses

sem-terra. Nas cidades, a invasão do capital estrangeiro

e sua aceitação pelos empresários locais produziu mais

uma divisão de classe e, o que era ainda mais perigoso para as autoridades imperiais, alimentou o surgimento de um nacionalismo radical e levou à formação de um Partido Comunista que logo se tornou o mais infl