Você está na página 1de 4

Como sabemos, Ario radicalizou as tendências subordinacionistas existentes na

tradição origenista anterior até o ponte de negar a divindade do Filho, reduzindo-o a


poíema, a uma simples criatura. Ário nega rotundamente a possibilidade de uma
autêntica geração em Deus e, consequentemente, não tem inconveniente em afirmar
que a filiação do Verbo não tem lugar por geração, mas por graça. Mais ainda, a
existência do Verbo estaria em dependência da criação do mundo, pois Deus teria
criado o Verbo para criar o mundo através dele.

O Concílio de Niceia foi convocado pelo Imperador Constantino, preocupado que as


lutas teológicas pudessem tirar forças à unidade do Império. Foi o imperador também
quem ocupou a presidência de honra. Ao Concílio assistiram uns trezentos bispos. A
representação ocidental foi bem mais exígua: quatro bispos, contando a Osio de
Córdoba, que parece ostentar a representação da sede de Roma, e dois presbíteros.
Ário, que era só presbítero, compareceu algumas vezes – segundo conta Rufino -, pois
sua doutrina era o assunto central das discussoes. No Concílio, se trataram também a
data da Páscoa e algumas questões disciplinares.

O documento chave do Concílio é o Símbolo, no qual se professa explicatamente a


perfeita filiação e divindade do Verbo, quer dizer, sua consubstancialidade com o Pai.
Trata-se do Símbolo que se utilizava na Igreja de Cesareia, ao que somente se lhe
acrescentam algumas frases que o fazem mais aptos para rechazar o arianismo. Em um
apêndice, acrescentado ao Símbolo, também de caráter dogmático, rechaçam-se as
principais proposições arianas tal e como se recolhem na Carta de Alexandro de
Alexandria aos bispos, já citada. O Símbolo de Niceia não é, pois, uma formula redigida
ex novo, mas que as afirmações propriamente nicenas são muito escassas. Assim, são
verdadeiramente significativas e esclarecedoras do sentido o que os Padres tomaram
as afirmações do Símbolo de Cesarea.

Imponhe-se uma primeira observação: a estrutura do Símbolo é claramente trinitária,


ou seja, o Símbolo está composto conforme a um esquema de três ciclos, o primeiro
dedicado ao Pai, o segundo dedicado ao Filho, o terceiro ao Espírito Santo.

O Pai é professado como o princípio e a fonte da unidade na Trindade. Encontramo-


nos ante uma exposição genética da divindade, que flui do Pai e se derrama no Filho e
no Espírito Santo. Ao Pai se lhe atribuiu desde sempre o título de único Deus, como
equivalente a Javé. Recolhe-se assim a revelação monoteísta do Antigo Testamento, a
do único Javé, que se opõe à multidão de deuses. Este “único Deus”não designa aqui
direta e formalmente a substância divina, mas que se refere ao Deus-Pessoa, em
concreto, à Pessoa do Pai, que é o que se manifesta no Antigo Testamento.

Segue o ciclo dedicado ao Filho. Em vista dos subterfúgios de Ário para negar a
perfeita divindade do Filho, os Padres de Niceia decidiram incluir uma glosa de suma
importância: “Isto é, da essência(ousía) do Pai”. Os Padres assistentes do Concílio,
especialmente Santo Atanásio, que acude como diácono de Alexandro de Alexandria,
testemunharam depois a intenção do Concílio ao introduzir este inciso: sublinhar a
estrita geração natural do Filho por parte do Pai. O Concílio quer proclamar em
forinequívoca que o Filho não é ago feito pelo Pai, mas uma comunicação do próprio
ser do Pai por modo de geração.

É de suma importância doutrinal e teológica o inciso “es decir”. Os Padres de Niceia


têm uma a convicção de que nos incisos que são acrescentados não estão dando um
passo mais além da afirmação de que o Filho é gerado pelo Pai. Não se trata de um
desenvolvimento ou evolução da doutrina professada anteriormente, mas de assinalar
o sentido em que essa mesma doutrina há de ser tomada. A expressao gerada há de
tomar-se, pois, em toda a sua radicalidade. Trata-se de uma geração na qual o Pai
“entrega” verdadeiramente ao Filho sua própria substância. Não é, pois, uma geração
por graça, mas uma geração por natureza.

Especial importância teológica reveste o fato de que, para reafirmar o quanto se vem
dizendo em torno da filiação do Verbo, utiliza-se um termo filosófico e não bíblico:
homousios. Precisamente porque o Pai entrega ao Filho sua própria substância ao
gerar-Lhe, é necessário dizer que o Filho tem a mesma substância que o Pai. A
intenção do Concílio é patente: rechaçar a “helenização” do Cristianismo propugnada
por Ário. E para rechaçar o compromisso ariano com o pensamento helênico, utiliza
um termo próprio da cultura grega.

Por outro lado, nos encontramos nos começos do uso da linguagem filosófica para
expressar a fé. Isto explica que a linguagem seja, todavia, muito fluida, sem que os
termos tenham adquirido o sentido exato que adquiriram posteriormente, no século
IV. Aqui “hypostasis”- etimologicamente, o que está embaixo – aparece equivalente a
“ousía”, substância ou essência, ou seja, o que uma coisa é. A distinção entre “ousía” e
“hypostasis”, irá se estabelecer poucas décadas mais tarde, com os Padres Capadócios.
Em qualquer caso, Niceia, ao dizer que o Filho é gerado da “ousía”do Pai, está dizendo
que é gerado da essência ou substância. O Verbo provem da “essência”, como quem
diz das mesmas entranhas do Pai e não é, como as criaturas, fruto externo de um ato
de sua vontade onipotente.

Aí está o iter idearum do Símbolo ao usar o homousios: Jesus Cristo é Filho, logo é
gerado; é gerado, logo provém da mesma essência do Pai; provém da essência do Pai,
logo não tem essência diversa da sua, pois todo filho recebe a mesma natureza do pai.

À luz deste raciocínio se explica a intencionalidade com que os Padres escolhem as


demais expressões para reafirmar o mesmo ensinamento: o Verbo é Deus de(ex) de
Deus, Luz de (ex) Luz. A preposição ex denota a procedência e a matéria da qual está
feita uma coisa. Estas expressões, por sua vez, evocam numerosas passagens bíblicas.
São, além disso, aptos para signficar a procedência de um ser espiritual, que procede
sem que aquele que lhe dá o ser padeça diminuição em sua substância.

A divindade do Filho fica, portanto, claramente professada, baseando-se precisamente


no fato de que o Filho procede do Pai por via de geração. Para suprimir ambiguidades
de linguagem, os Padres de Niceia insistem ainda mais, rechaçando explicitamente o
uso ariano do termo “poíema” como expressao aplicável ao Verbo. Assim se evita que
o Verbo possa ser entendido como criatu ra.
O ponto neuvrálgico do Símbolo é o “homousios”. Trata-se de um vocábulo que desde
o primeiro momento incomodou não somente a arianos; incomodou também aos
semiarianos. Como se verá imediatamente, a luta pela implantação ou o rechaço da
doutrina nicena se entravará precisamente em torno da aceitação ou o rechaço deste
vocábulo: os que defendem a fé de Niceia se reconhecem na aceitação do homousios;
os que a rechaçam se denominarão “anomeus”(que rechaça absolutamente a paridade
substancial) e homeousianos(que rechaçam a igualdade de substância, mas aceitam a
semelhança).

Em um primeiro momento, o termo “homousios”não implicava mais que a


afirmação de que o Filho possui a mesma substância ou essência do Padre, sem entrar
no fato de que desta participação implique o que as duas substâncias ou essências – a
do Pai e a do Filho – sejam numericamente a mesma. Esta é uma questão que será
pontualizada mais tarde. Nas primeiras discussoes com os arianos não se colocou a
distinção entre unidade específica e unidade numérica de essência entre o Pai e o
Filho; o que se debatia era se a natureza do Filho é criada ou não, ou seja, se o filho
pertence à esfera da divindade ou à esfera do ser criado. Daí que não se possa dizer,
falando numa perspectiva histórica, que o termo “homousios” estivesse utilizado por
Niceia em um primeiro momento para designer a unidade numérica da essência
divina.

No entanto, no Símbolo de Niceia sim se afirma esta unidade numérica da


essência divina. Esta afirmação, tão importante na doutrina trinitária, encontra-se
implícita na confluência de duas afirmações realizadas em Niceia: a primeira, Deus não
é mais que um, uma substância não pode multiplicar-se, nem dividir-se em diversos
sujeitos; a segunda, a essência do Filho é igual em tudo a do Pai, com uma perfeita
identidade. Destas duas afirmações se segue que a substância do Filho tem que ser
numericamente a mesma que a do Padre, já que o Filho não pôde receber a substância
paterna por multiplicação ou divisão. Consequentemente, ou o Filho tem a mesma
substância, inclusive em número que o Pai, ou não recebeu a mesma substância.

Isso vai sendo enraizado aos poucos na vida da Igreja. Embora se pensasse que
com a introdução desse novo termo, a crise Ariana seria solucionada, não foi, de fato,
o que aconteceu. Foram necessárias diversas pontualizações e esclarecimentos
posteriores ao longo da história. De toda forma, mesmo com a Crise Ariana, a Igreja
permaneceu na ortodoxia, à exemplo de Santo Atanásio, mantendo a fé na sua
integralidade e pureza.