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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº. : 0140708-63.2015.8.05.0001


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : BRADESCO SAUDE S A

Recorrido(s) : GENILDO SOUZA

Origem : 12ª VSJE DO CONSUMIDOR (VESPERTINO)


Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

VOTO EMENTA

RECURSO INOMINADO. PLANO DE SAUDE. REAJUSTE POR


SINISTRALIDADE. CLÁUSULA CONTRATUAL ABUSIVA. ONEROSIDADE
EXCESSIVA. VIOLAÇAO DO DEVER DE INFORMAÇAO E À BOA FÉ
OBJETIVA. NECESSIDADE DE REVISÃO DO CONTRATO PARA
MANUTENÇÃO DO EQUILIBRIO CONTRATUAL. AFASTADO O REAJUSTE.
DEVOLUÇÃO SIMPLES DOS VALORES PAGOS A MAIOR. RECURSO
CONHECIDO E IMPROVIDO.

1..Trata-se de recurso contra sentença que julgou procedente o


pedido , nestes termos: “ Ante o exposto, julgo PARCIALMENTE PROCEDENTE a
presente ação, para determinar a manutenção do contrato, declarar a abusividade dos
reajustes por sinistralidade aplicados em 2014 (10,34%) e 2015 (13%), determinando que
sejam cancelados. Deverá a ré efetuar o cálculo do quanto pago a maior pela parte autora e
restituí-la, em sua forma simples, com correção monetária pelo INPC desde cada desembolso
e juros de mora de 1% ao mês desde a citação. Deverá a ré, ainda, emitir os boletos vincendos
observando o novo montante na forma ora determinada, sob pena de multa mensal de R$

200,00..;”

A demanda persegue a anulação da cláusula abusiva que prevê


reajuste das mensalidades por sinistralidade, mantendo-se o índice legal
no contrato inicial e a devolução do indébito dos valores pagos a maior
em 2014 (10,34%) e 2015 (13%), devidamente corrigidos.

1. No mérito, quanto ao valor e alterações das contribuições mensais


prestadas pelo usuário do plano de saúde, como se sabe, existem três tipos de
reajustes no tocante aos contratos de prestação de assistência à saúde: reajuste
por faixa etária, reajuste financeiro (inflação dos custos médicos, hospitalares e
farmacêuticos) e, por fim, reajuste por sinistralidade. A matéria em discussão
cuida dos reajustes por sinistralidade
2. Tratando-se de contrato baseado em relação de consumo,
principalmente os de adesão, como é o presente, largamente utilizados
de forma standardizada, não pode ser considerado como um assunto do
interesse restrito e exclusivo das partes, eis que do interesse de todos,
pois que juntos estão potencialmente expostos a se sujeitar a eles.
Assumem, então, uma feição coletiva que interessa à sociedade
controlar, lembrando aqui o papel da ANS, no que fica bem claro, em
face da relevância pública dos serviços de saúde e do objetivo
constitucional de construção de uma sociedade livre, justa, e solidária.

3. Portanto, cumpre considerar que existe, in casu, uma indisponibilidade


do objeto do contrato que envolve assistência à saúde, ou seja, as
partes não podem transacionar livremente com a mesma desenvoltura
com que fariam se o objeto fosse um produto comercial qualquer e, por
conseguinte não há como afastar do Judiciário a apreciação de causa
que envolve direito individual que importe em ofensa a princípio de
ordem pública.

4. Com efeito, o CDC trabalha com cláusulas gerais, como a da conduta


segundo a boa-fé, do combate ao abuso e ao desequilíbrio contratual,
logo é possível ao juiz considerar que a nova lei consolidou o que é (e já
era) abusivo segundo o CDC e o ofensivo, pois suas normas estão em
vigor. O espírito do intérprete deve aqui ser guiado pelo do art. 7º do
CDC, que como uma interface aberta do sistema tutelar dos
consumidores (lex specialis ratione personae), estabelece que a
legislação tutelar incorpora todos os direitos assegurados aos
consumidores em legislação ordinária, tratados, etc. A ratio legis é, pois,
de incorporar os ‘direitos’ assegurados nas leis especiais e não os
deveres, os ônus, ou o retroceder da interpretação judicial já alcançada
apenas com a lista de direitos já assegurados pelo CDC.

5. Destarte, em se tratando de relação de consumo, é essencial que


os reajustes praticados pelas seguradoras e operadoras de planos
de saúde não onerem o contrato de modo a colocar o consumidor
em condição de desvantagem excessiva, comprometendo o
equilíbrio da relação a ponto de, por exemplo, forçar a sua
desistência do contrato.

6. Muito embora a previsão contratual de reajuste das


mensalidades de plano de saúde seja um expediente admitido pela
legislação vigente, é imprescindível fiscalizar a proporcionalidade das
contraprestações exigidas pelas seguradoras e demais operadoras de
planos de saúde.
7. Desse modo, há que se analisar a alegação de abusividade do
aumento estipulado no contrato do autor e, pela análise dos autos
se afigura uma excessiva onerosidade ao consumidor,
caracterizando infringência aos arts. 6º, V, e 51, IV, do CDC.
8. Nesse diapasão, do exame das cláusulas contratuais coligidas
entabuladas entre as partes, constata-se uma flagrante inobservância
por parte da acionada do princípio da boa-fé objetiva e da transparência
e igualmente da eficiência, ao não deixar claro ao usuário do plano os
percentuais de aumento ou reajustes do prêmio, já que as fórmulas
utilizadas para alcançar o valor da mensalidade e do reajuste partem de
dados que fogem ao conhecimento comum, dificultando, ou porque não
dizer impedindo o conhecimento prévio do consumidor sobre a base de
cálculos dos reajustes, vale dizer, não esclarece como alcança os
percentuais para os reajustes dos prêmios, o que autoriza a aplicação
do art. 47 do CDC, que dispõe que as cláusulas inseridas em contratos
de consumo serão interpretadas da maneira mais favorável ao aderente.
9. Como se vê, a forma e critério para a realização do reajuste imposto na
mensalidade do plano da autora constituem ofensa aos princípios da
transparência, da informação e ainda da boa-fé objetiva, já que não
permite ao consumidor ter plena ciência de como se chegou ao novo
valor cobrado, impondo ao usuário dos serviços flagrante posição de
extrema desvantagem, merecendo revisão de cláusulas que importem
em onerosidade excessiva.

10. Enfim, a situação dos autos por constituir uma relação de


consumo, também está abrangida pela regra do art. 5º, XXXII, da
Constituição Federal, nesses termos, da análise do caso em concreto se
vislumbra uma situação de abusividade gerada pela recorrente SAUDE
BRADESCO.

11. Assim, com base no CDC, é possível estabelecer um limite à


majoração das mensalidades ocorridas no caso concreto, visando
encontrar uma perfeita sintonia aos ditames do equilíbrio contratual,
afastando a onerosidade excessiva e cláusulas que imponham
obrigações abusivas,em que pese se tratar de seguro saúde na
modalidade coletivo, em que em tese seriam afastadas as
regulamentações e restrições impostas pela ANS no que tange aos
planos individuais.
12. Em suma, há que se afastar os reajustes por sinistralidade
ocorrido no plano de saúde da parte autora, , por consequência,
assistindo direito a parte autora em reaver os valores pagos a maior em
2014 (10,34%) e 2015 (13%), devendo ser mantida a restituição, na
forma simples, do quanto pago a maior pela parte acionante.

13. Logo, a sentença fustigada é incensurável, e por isso merece


confirmação pelos seus próprios fundamentos. Em assim sendo, servirá
de acórdão a súmula do julgamento, conforme determinação expressa
do art. 46, da lei n°. 9099/95, segunda parte: “O julgamento em segunda
instância constará apenas da ata, com indicação suficiente do processo
sucinta e dispositiva. Se a sentença for confirmada pelos seus próprios
fundamentos, a súmula do julgamento servirá de acórdão”.
14. ISTO POSTO, ante as razões acima alinhadas e tudo o mais que
consta dos autos, com fulcro no art. 6º, V c/c 51, IV e §1º, III, da Lei
8.078/90, voto no sentido de CONHECER E NEGAR PROVIMENTO AO
RECURSO MANEJADO PELA RECORRENTE para manter, na
integra, a sentença objurgada em todos os seus termos. Custas
processuais e honorários advocatícios pela recorrente, estes em 20% da
condenação, nos termos do art. 55 da Lei 9.099/95.

Salvador, Sala das Sessões, 23 de Março de 2017.


BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Relatora
BELA CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ
Juíza Presidente

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA


2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº. : 0140708-63.2015.8.05.0001


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : BRADESCO SAUDE S A
Recorrido(s) : GENILDO SOUZA

Origem : 12ª VSJE DO CONSUMIDOR (VESPERTINO)


Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados
Especiais Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da
Bahia, CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ –Presidente,
MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE – Relatora e ALBÊNIO LIMA
DA SILVA HONÓRIO, em proferir a seguinte decisão: RECURSO
CONHECIDO E IMPROVIDO . UNÂNIME, de acordo com a ata do
julgamento. Custas processuais e honorários advocatícios pelo
recorrente, que arbitro em 20% sobre o valor da condenação.

Salvador, Sala das Sessões, 23 de Março de 2017.


BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Relatora
BELA CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ
Juíza Presidente