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OBSERVADOR

CIVILIZAÇÃO

“Silêncio” não é “um retrato histórico”


José Miguel Pinto dos Santos
25/1/2017, 20:57

A nossa grande falha civilizacional é epistemológica. Já não se acredita que a realidade seja percetível
objetivamente. Vivemos tempos em que todos somos Pilatos, prontos a ripostar “o que é verdade?"

O problema fundamental da nossa era não é económico nem financeiro. Tão pouco é social ou
político. Nem sequer é o populismo ou a proliferação de leis e regulamentos que coartam a
liberdade e iniciativa dos indivíduos. A grande crise da Europa e da sua civilização é filosófica.
Mas não é principalmente uma crise nem metafísica nem sequer ética. A nossa grande falha
civilizacional hoje é epistemológica. Já não se acredita que a realidade seja percetível
objetivamente. Vivemos numa época em que todos somos Pilatos, prontos a ripostar “o que é a
verdade?” e, ato continuo, virar-Lhe as costas com mais desplante e cinismo que o do verdadeiro
Pôncio. Hoje, o ceticismo já não é um tique chique de professor de filosofia, como foi no século
dezanove, mas um reflexo imbuído em todos os cidadãos pelo sistema escolar obrigatório.

Assim é natural que a ficção tenda a se sobrepor à realidade. Vivemos na realidade virtual na
política, na economia e na gestão empresarial. Quando se desvanece a convicção que o
conhecimento humano é capaz de aceder à realidade e apreendê-la restam as opiniões e sobra a
crença de que de todas as opiniões têm igual valor. Nesta situação as “narrativas” tornam-se mais
relevante que os fatos.

As narrativas do PS sobre a TSU e da imprensa europeia sobre Hillary Clinton dariam bons
exemplos. Mas outro exemplo, quase tão mediático, é-nos oferecido pela narrativa do filme
“Silêncio”. Que ficção não é História é a desculpa do costume para casos destes. Como a narrativa
de “Silêncio” é vendida como ficção, argumenta-se que não tem de corresponder aos fatos
estabelecidos pela ciência histórica. O problema é que, como já não se acredita na possibilidade
de qualquer réstia de objetividade na História, e também porque se consome cada vez mais
ficção, a narrativa que fica na cabeça é a da ficção e a que desaparece é a da História. A ponto dos
jornais se referirem à ficção de “Silêncio” como “um retrato histórico”. A atitude mental da nossa
época é conducente a que o retrato virtual oferecido por Scorsese sobre Cristóvão Ferreira e os
dois jesuítas que vão para o Japão em sua busca se torne mais real que a realidade histórica
cristalizada em dezenas de manuscritos do século dezassete que chegaram até nós.

Mas qual é o retrato histórico de Cristóvão Ferreira (c. 1580—1650) que nos oferecem as fontes
do século dezassete? Para quem estiver interessado em saber mais existe material detalhado e
acessível na net (meu aqui e outro melhor aqui). Mas podemos resumidamente referir que
Ferreira nasceu em Torres Vedras, arquidiocese de Lisboa, cerca de 1580, e que entrou para a
Companhia de Jesus em 1596. Fez dois anos de noviciado em Campolide e depois, a partir de
1598, frequentou o Colégio das Artes em Coimbra. Em Abril de 1600 embarcou numa nau para a
Índia e chegou a Macau em Agosto de 1601. Aqui completou a sua formação intelectual
frequentando os cursos de filosofia (3 anos) e teologia (4 anos) do Colégio da Madre de Deus. Foi
ordenado em finais de 1608 e depois embarcou para o Japão na primeira nau disponível, na
Madre de Deus, precisamente na sua última viagem. Ferreira não assistiu ao épico combate que
resultou na destruição desta embarcação em Nagasaki, porque logo a seguir a desembarcar foi
para o seminário de Arima. Em Macau e em Arima aprendeu o japonês a ponto de se tornar
completamente fluente. Em 1610 foi para a capital imperial onde se tornou conhecido e popular
nos círculos intelectuais, especialmente entre o grupo que veio dar origem à wasan, a matemática
japonesa, e entre os cosmólogos independentes, que começavam então a contestar a cosmologia e
o calendário oficiais. Também ficou conhecido, no imaginário japonês, pela prática ativa das sete
obras de misericórdia corporais: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede,
vestir os nus, visitar os encarcerados, abrigar os sem abrigo, visitar os doentes e sepultar do
mortos.

Quando se deu a proscrição do Cristianismo e a expulsão dos


missionários em 1614 Ferreira passou à clandestinidade. Em 1617 deixa a
capital e passa a exercer a sua atividade em Kyushu, especialmente em
Nagasaki e arredores. Em 1633 o padre Sebastião Vieira (1571—1634), o
responsável pela missão jesuíta no Japão, também ele na
clandestinidade, é preso pelas autoridades e Ferreira assume a direção de
empresa jesuíta. Por pouco tempo, porque no ano seguinte também ele é
capturado. O que tornou Ferreira notável e conhecido em todo o mundo,
de Nagasaki a Edo e do Rio a Cracóvia, foi o de ter sido o primeiro
missionário a apostatar. A Cristandade ficou incrédula e os jesuítas em
choque. Fizeram-se jejuns e penitências públicas por todo o lado, de Goa
a Vilnius. Antes dele outros padres e irmãos, e muitas centenas de leigos,
tinham sido submetidos à laje, ao cavalo de madeira, à suspensão, ao
caldeirão, à fogueira, à cruz e à fossa sem cederem nas suas convicções relativamente à Verdade.
Ferreira tinha sido posto na fossa.

A fossa, diga-se de passagem, era considerado o tormento mais excruciante de todos, de acordo
com relatos coevos que chegaram até nós. O supliciado era revestido com um mino, uma fatiota
de palha de arroz, atado com força à volta de todo o corpo, nos pés e pernas, abdómen, braços e
tórax, e pendurado de cima para baixo mas de modo que a cabeça ficasse numa fossa, onde
usualmente era posto excremento; um sobrado, apenas com espaço para o pescoço, era posto à
volta do cachaço para que não pudesse sentir a luz e fazer uma ideia da passagem do tempo; e
eram feitos dois golpes nas têmporas de modo a evitar uma morte prematura devido à subida da
pressão sanguínea no cérebro. E, já agora, valerá a pena notar que não havia intervalos para
refeições, sonecas, ou outras atividades motoras ou excretoras: uma vez na fossa só a morte ou a
submissão às exigências da política estatal interrompia a violência. As dores, que se começavam a
sentir pouco depois da pessoa ter sido pendurada, são sempre descritas como sendo
indiscritíveis: todas as fontes referem que nenhum outro tipo de dor pode ser dado em
comparação. A morte ocorria usualmente ao fim de dois a cinco dias, mas uma das mãos era
deixada livre fora do mino para que a vitima da violência do Estado pudesse dar um sinal
previamente estipulado de que acedia às exigências que lhe eram feitas. Juntamente com
Ferreira, a 18 de Outubro de 1633, foram postos na fossa outros cristãos, um dos quais o padre
Nakaura Julião (1568—1633), que tinha sido um dos quatro embaixadores japoneses à Europa
em 1582-1590 e colega de Ferreira no Colégio da Madre de Deus. Mas enquanto Nakaura exalou
o seu espirito ao fim de quatro dias de tortura, Ferreira, que era o chefe, fez o sinal com a mão ao
fim de seis horas.

Que Ferreira tenha apostatado levado pela angústia do sofrimento que os cristãos padeciam é
uma estória bonita, e que consola a muitos espíritos contemporâneos, mas é ficção. É de frisar
que os diálogos de “Silêncio” não são apenas ficção, muitos deles são ficção improvável. Nenhum
dos que com ele estavam na fossa foi libertado, e quase nenhum das centenas que se lhe seguiram
quiseram ser poupados ou foram poupados. Os japoneses do século dezassete eram rijos, rijos na
fé e na incredulidade, rijos na capacidade de sofrer e rijos na capacidade de infligir sofrimento.
Seres muito diferentes dos leitores fofos e adocicados de Endo Shusaku na década sessenta, e dos
cinéfilos de hoje.

Depois da apostasia Ferreira foi naturalizado japonês, foi-lhe atribuído o nome de um criminoso
que tinha sido justiçado, Sawano Chuan, foi-lhe imposta como família a mulher e os filhos do
condenado, e foi feito funcionário público. Nas suas novas funções Sawano Chuan participou
como interrogador de cristãos que eram torturados, com o fim de obter denúncias de outros
correligionários, e no processo ganhou má reputação entre os cristãos japoneses. Foram-lhe
também encomendadas várias obras pelo governo, entre as quais um tratado anticristão,
Kengiroku, e um tratado sobre a cosmologia ocidental, Kenkon Bensetsu, que tem como
peculiaridade ser o primeiro tratado escrito em japonês em que se expõe a esfericidade da Terra,
e em que se explica como se pode perceber que na realidade esta é de fato redonda, e que não se
trata de apenas mais uma teoria que quem quiser pode aceitar se lhe apetecer.

Os personagens Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe da estória são ficção, mas a estupefação
de muitos jesuítas ao ouvirem da apostasia fez com que de fato alguns fizessem longas e
arriscadas viagens para contactar Ferreira e chamá-lo à razão. O primeiro foi o padre Marcello
Mastrilli (1603—1637), que partiu da longínqua Itália e em 1637 chegou ao Japão, onde foi
imediatamente apanhado e posto na fossa sem chegar a se encontrar com Chuan ou com cristãos
japoneses. Como ao fim de três dias ainda não tinha morrido, as autoridades impacientaram-se e
decidiram acelerar o processo com a sua decapitação.

Outro foi o padre Pedro Kibe Kasui (1587—1639), que viajou clandestinamente do norte do Japão
para se encontrar com Chuan. Também foi preso mas teve a sorte de ver a fruição do seu desejo
de ser interrogado pelo apostata. Aproveitou-a para lhe implorar que regressasse ao
Cristianismo, mesmo com o custo da vida. Não teve no entanto qualquer poder persuasivo no ex-
jesuíta, foi posto na fossa e morreu. Foi beatificado em 2008.

Seguiu-se em 1643 um grupo composto pelos padres Giovanni Rubino (1578—1643), Alberto
Mezchinski (1598—1643), Diego Morales (1604—1643), Francisco Marques (?—1643) e António
Capace (1606-1643) a que se adicionaram três catequistas. Rubino, que tinha sido provincial
jesuíta na India, partiu de Goa mas as autoridades em Macau não o deixaram rumar para o
Japão. Teve então de ir para Manila, onde arranjou um junco para o seu grupo. Assim que
puseram pé em Kagoshima foram presos antes de qualquer ensejo de contato com cristãos locais.
Foram tratados com todas as cortesias da etiqueta japonesa para com os inimigos do Estado:
começaram na laje e terminaram todos, literalmente, na fossa.

Finalmente, um último grupo, composto pelos padres Pedro Marques (1575—1657), Afonso de
Arroyo (1592—1643), Giuseppe Chiara (1602—1683), Francesco Cassola (1603-1644), André
Vieira (1611-1678) e cinco leigos, tentou também reconverter Chuan. Nenhum deles tinha sido
discípulo de Ferreira, mas não há que duvidar da preocupação fraternal que nutriam pela sua
vida espiritual. Foram apanhados em Oshima por um grupo de pescadores e enviados para Edo,
onde foram processados. Ao contrário das suas expetativas não lograram convencer Chuan, antes
foram convencidos por ele, se bem que com a ajuda do argumento esmagador da laje e outros
instrumentos coadjuvantes. Depois de apostatarem também eles receberam um nome japonês,
mulheres de ladrões decapitados e uma pensão vitalícia para seu sustento. No entanto, ao
contrário de Chuan que gozava de alguma liberdade de movimentos em Nagasaki, estes foram
confinados, até à morte, no Kirishitan Yashiki, uma prisão-quinta, em Edo, que os isolava de todo
o mundo. Embora não tenham estado em contato com cristãos japoneses terão sido estes os
missionários que serviram de inspiração para o Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe de
“Silêncio”.

Não há dúvida que a novela de Endo Shusaku é de uma beleza literária notável ao retratar a
complexidade dos sentimentos de um cristão empenhado e convicto sob a pressão atroz dos
sofrimentos próprios e daqueles que estima. E o mesmo se pode dizer do filme de Scorsese em
que o encanto da paisagem e a beleza da banda sonora são acrescentados ao trama empolgante
do drama. No entanto é lamentável que ambos tentem sub-repticiamente passar por realidade o
que não passa de ficção usando uma técnica ardilosa: juntando a um personagem histórico de
carne e osso duas figuras fantasiosas de padres que nunca existiram. O autor poderia ter escrito a
mesma estória sem lá ter posto o personagem histórico Cristóvão Ferreira e a novela seria só
novela; também poderia ter feito um relato fatual, com o personagem histórico Cristóvão Ferreira
acompanhado de outros personagens históricos, como Chiara ou Cassola, e teria então escrito
História. Mas escolheu misturar tudo.

Qualquer argumento em defesa da realidade histórica e contra a sua contaminação por fantasias
será de difícil aceitação na idade do pokemon-go, da geringonça e de Donald Trump Presidente.
Houve eras em que ficção era ficção e negócios eram negócios. Durante séculos filósofos
acreditaram que o conhecimento da realidade era possível. Como consequência despendiam um
esforço considerável em justificar que o conhecimento que propunham se adequava á realidade
física, social e moral, e faziam-no com entusiasmo e otimismo. Hoje esse entusiasmo e otimismo
desapareceram. Podemos até comparar a epistemologia da nossa civilização ao Sebastião
Rodrigues do filme: otimista e produtiva enquanto manteve a fé; seca, cínica e dilacerada depois
de apostatar.

Professor na AESE Business School

http://observador.pt/opiniao/silencio-nao-e-um-retrato-historico/

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