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Universidade Federal da Bahia

Teoria do Direito Civil II


Prof. Pedro Lino
Lúcia C. Neco

Vícios do consentimento em doações a entidades religiosas

1. Objetivo

Este trabalho tem o objetivo de apresentar argumentos utilizados nos processos de anulação de
doações a entidades religiosas baseados na ocorrência de vícios do consentimento através da análise
jurisprudencial.

2. Conceitos
De forma preliminar, é interessante que sejam apresentados, mesmo que resumidamente, alguns
conceitos utilizados neste trabalho. O primeiro deles é o conceito de doação do âmbito do Direito Civil. A
doação é um exemplo de negócio jurídico como ato de liberalidade. Está disciplinada no Art. 538 e
subsequentes do Código Civil (Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - CC02):

Art. 538. Considera-se doação o contrato em que uma pessoa, por liberalidade,
transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra.
É prática comum nas entidades religiosas a doação de seus membros na forma de bens ou
quantias. Considerando sua natureza não comercial, a prática é uma forma de manter a entidade
funcionando.

Também importante para discutir os exemplos jurisprudenciais acerca da anulabilidade de


doações a entidades religiosas, são os conceitos dos vícios do consentimento que estarão presentes nestas
decisões.

Os vícios do consentimento se manifestam quando a vontade real não corresponde a vontade


declarada. Considerando que a vontade é algo que estrutura o negócio jurídico é preciso que ela se
manifeste de forma livre, que não hajam interferências. Em uma divergência, há a abertura da
possibilidade de anulabilidade do negócio jurídico.

Os principais vícios são o dolo, a coação e o erro. Nos casos a que este trabalho se refere,
estaremos apenas tratando dos dois primeiros vícios.
O dolo se manifesta quando há emprego de ardis para conduzir alguém a uma prática de um
negócio jurídico. O emprego do dolo pode ensejar a anulação do negócio de acordo com o Art. 145 do
CC02:

Art. 145. São os negócios jurídicos anuláveis por dolo, quando este for a sua causa.
Já a coação se caracteriza quando há pressão física ou moral para induzir uma pessoa a realizar
um negócio jurídico através de ameaças, como exposto no Art. 151 do CC02:

Art. 151. A coação, para viciar a declaração da vontade, há de ser tal que incuta ao
paciente fundado temor de dano iminente e considerável à sua pessoa, à sua família, ou
aos seus bens.
Parágrafo único. Se disser respeito a pessoa não pertencente à família do paciente, o
juiz, com base nas circunstâncias, decidirá se houve coação.

3. Análise da Jurisprudência

O primeiro caso analisado é de autoria de uma senhora que doou todos os seus bens a Igreja
Universal do Reino de Deus. Esta pessoa entrou com uma ação de indenização alegando coação moral por
parte da igreja para a realização destas doações. Como a senhora tinha passado por um divórcio, além da
desfeita de uma parceria comercial e recente internação em hospital psiquiátrico, a igreja lhe prometia a
extinção de suas dores, garantindo a melhora de sua condição a partir da doação de seus bens, além da
ameaça de mal se não o fizesse.

A autora alega que estaria bastante vulnerável, considerando as razões acima expostas, e dessa
forma, foi ludibriada pelas promessas e ameaças da igreja, doando todos os seus bens, o que resultou em
um estado de miséria.

O caso é analisado a partir do julgamento de recurso no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul
a partir da sentença desfavorável a autora (TJ-RS - AC: 70039957287 RS, Relator: Iris Helena Medeiros
Nogueira, Data de Julgamento: 26/01/2011, Nona Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça do
dia 10/03/2011). Especialmente neste caso, não há a discussão direta sobre a anulabilidade da ação,
considerando que este pedido foi feito apenas em recurso. Porém, afirmo aqui sua pertinência,
considerando que o processo se atém a discussão sobre a coação e sobre a existência de danos materiais e
morais a autora.

Por decisão unânime dos desembargadores, foi identificada a coação moral realizada pelos
pastores da referida igreja para com a autora, caracterizando que, sem esta coação, o negócio nunca teria
ocorrido. Esta decisão foi sustentada por provas testemunhais que atestaram o tom de ameaça no discurso
dos pastores juntamente com suas promessas de graça divina, é baseada principalmente no conteúdo do
Art. 152 do CC02 que agravam a situação de coação pelas condições psicológicas da autora.

Art. 152. No apreciar a coação, ter-se-ão em conta o sexo, a idade, a condição, a saúde, o
temperamento do paciente e todas as demais circunstâncias que possam influir na gravidade dela.
Assim, entendeu-se que sua vontade declarada não condizia com a vontade real, a partir da
pressão realizada pelos pastores caracterizando coação moral, como exposto na argumentação da relatora:

Percebo que a autora não manifestou sua vontade forma natural porque sofreu
interferência do discurso religioso, o qual, nesses anos todos de culto maníaco,
adquiriu aptidão para lhe incutir temor legítimo de sofrer as conseqüências nefastas
propaladas pelos Pastores.
Em outras palavras, a autora foi coagida moralmente, e, por isso, não tinha
condições de exercer seu livre arbítrio, nem de fazer frente à pressão incutida pelo
discurso dos pastores porque possuía estava vulnerável e possuía condição
psiquiátrica pré-existente capaz de mitigar sua voluntariedade.
(TJ-RS - AC: 70039957287 RS, Relator: Iris Helena Medeiros Nogueira, Data de
Julgamento: 26/01/2011, Nona Câmara Cível, Data de Publicação: Diário da Justiça
do dia 10/03/2011).
O segundo caso é uma ação de anulação de ato jurídico na qual a Autora alega ter feito doações a
Igreja Universal do Reino de Deus sob coação moral que somavam uma quantia de mais de quarenta mil
reais em um lapso temporal de três meses.

Os argumentos são analisados a partir do julgamento de apelação de sentença desfavorável a ré


ocorrido no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO - AC: 201191726827 GO, Relator: DES.
BEATRIZ FIGUEIREDO FRANCO, Data de Julgamento: 26/01/2011, Terceira Câmara Cível, Data de
Publicação: Diário da Justiça do dia 26/09/2013).

A autora argumenta que as doações foram realizadas em momento de fragilidade, pois havia
perdido os seus genitores e se divorciado em um momento próximo ao que começou a frequentar os
cultos. Ainda alega que foi aconselhada a doar todos os seus bens com a promessa de restauração de seu
casamento, além da ameaça de não ser abençoada se não o fizesse.

A ré argumenta que o discurso proferido nos cultos da Igreja não pode ser considerado como
coação moral, porque se baseia apenas nos textos bíblicos e este enquadramento configuraria uma ofensa
a liberdade religiosa, protegida constitucionalmente:

Art. 5, VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o


livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos
locais de culto e a suas liturgias (Constituição Federal/1988).
Afirma ainda que a Autora não teria sido obrigada a realizar as doações.
A desembargadora relatora vota no sentido da manutenção da sentença favorável a Autora,
porque reconhece que a manifestação de vontade da mesma, por ter sido induzida religiosamente a doar
sob ameaças, não corresponde a vontade real, caracterizando um vício de consentimento. Isso se agrava
pela situação de vulnerabilidade em que se encontrava, doando muito mais do que podia. Adicionalmente,
não reconhece que a decisão afeta a liberdade religiosa, mas aponta que todas as instituições estão
submetidas ao Estado de Direito e seus regramentos.

O último caso foi analisado a partir do julgamento de uma apelação no Tribunal de Justiça do Rio
de Janeiro (TJ-RJ - APL: 00383426620108190021 RJ 0038342-66.2010.8.19.0021, Relator: DES.
MARIA REGINA FONSECA NOVA ALVES, Data de Julgamento: 18/03/2014, DÉCIMA QUINTA
CAMARA CIVEL, Data de Publicação: 24/03/2014 00:00).

O processo em questão é uma ação anulatória de negócio jurídico combinada com uma ação de
indenização acerca da doação de um imóvel para a realização de cultos da Igreja Universal do Reino de
Deus. A doação foi realizada através de documento com a presença de testemunhas. Os autores alegam
que doaram o imóvel a partir de dolo praticado pelo Representante Legal da Igreja.

Para a caracterização do dolo é necessária comprovação de que o beneficiário tenha usado de


ardis para viciar o consentimento dos autores, assim o negócio jurídico não aconteceria sem o emprego do
dolo. Segundo os votos dos desembargadores, os autores não apresentaram nenhuma prova do dolo
praticado pelo Representante da Igreja. Em contrário, prova testemunhal coletada em Juízo afirma que o
negócio foi efetuado a partir da vontade real dos autores que informaram conhecidos acerca da doação,
além de participar dos cultos que foram ministrados no local, in verbis:

“que no dia dos fatos não estava presente, no entanto, a autora esteve na casa do
depoente e confirmou os fatos, ou seja, de que havia doado seu imóvel para que
fossem realizados os cultos evangélicos pela ré, o imóvel doado era de 20mts de
comprimento por 5 mts de largura, que o depoente chegou a participar de cultos
evangélicos no imóvel doado pela autora, sendo que na época esposo da autora era
vice presidente da igreja e a autora era secretaria, no ano de 2009
aproximadamente, que também o depoente era membro da igreja mas não fazia parte
da diretoria, não sabe se houve desentendimento, acredita que a autora tenha se
arrependido como muitas pessoas fazem voto com Deus e se arrepende, que a autora
se desligou da Igreja no ano de 2009. (...) que a autora comentou com muitas
pessoas da igreja e ate vizinhos sobre a doação que fizera do imóvel à Igreja, que
com certeza o esposo da autora consentiu com a doação. (...) que a autora sempre ia
na casa do depoente e tinha terrenos próximo à sua casa e sempre ia lá.”.
Um elemento que surge deste testemunho e dos votos do julgamento é que os autores teriam se
arrependido da doação e, assim, buscaram a justiça como forma de conseguir sua anulação. Acontece que
o arrependimento não configura um vício de consentimento, pois o mesmo deve ocorrer no momento da
celebração do negócio jurídico, muito menos o vício de dolo. Dessa forma, não há hipótese que justifique
a anulabilidade deste negócio, muito menos do cabimento de indenização por danos morais, como
expressa a relatora:

Nesse contexto, o que se conclui é que houve um arrependimento da doação da posse


do imóvel por parte dos Autores, podendo-se afirmar que tal hipótese não configura
erro capaz de viciar o consentimento decorrente de dolo.
(TJ-RJ - APL: 00383426620108190021 RJ 0038342-66.2010.8.19.0021, Relator:
DES. MARIA REGINA FONSECA NOVA ALVES, Data de Julgamento:
18/03/2014, DÉCIMA QUINTA CAMARA CIVEL, Data de Publicação: 24/03/2014
00:00).