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Literatura mesoamericana

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As tradições da literatura mesoamericana indígena remontam às formas comprovadamente mais antigas de escrita na região
mesoamericana, as quais datam de meados do primeiro milénio a.C.. Muitas das culturas pré-colombianas da Mesoamérica são
reconhecidas como sociedadeliteratas, que produziram váriossistemas de escrita mesoamericanoscom vários graus de complexidade
e completude. Os sistemas de escrita mesoamericanos surgiram independentemente de outros sistemas de escrita do mundo, e o seu
desenvolvimento representa uma das muito poucas origens deste tipo nahistória da escrita.

A literatura e textos criados pelos indígenas mesoamericanos são os mais antigos que se conhecem das Américas sobretudo por duas
razões: primeiro, o facto de as populações nativas da Mesoamérica terem sido as primeiras a entrar em contacto intensivo com
europeus, assegurando assim que muitas amostras de literatura mesoamericana fossem documentadas sob formas duradouras e
inteligíveis. Em segundo lugar, a longa tradição da escrita mesoamericana que indubitavelmente contribuiu para que os nativos
mesoamericanos adoptassem prontamente o alfabeto latino dos espanhóis, criando muitas obras literárias escritas durante os
primeiros séculos a seguir à conquista do México. Este artigo resume o conhecimento actual sobre as literaturas indígenas da
Mesoamérica no seu sentido mais amplo e descreve-as segundo o seu conteúdo literário e funções sociais.

Índice
Literatura pré-colombiana
Literatura linguística versus literatura pictórica
Inscrições monumentais
Códices
Literaturas pós-conquista escritas em grafia latina
Relatos históricos
Documentos administrativos
Narrativas mitológicas
Poesia
Teatro
Relatos etnográficos
Colecções de tratados vários
Referências

Literatura pré-colombiana
Ao definir literatura no seu sentido mais lato como incluindo todos os produtos da "literacia" o que se torna sobremaneira interessante
sobre uma comunidade literata é o uso que ela dá a essa capacidade. Por outras palavras, sobre que escreviam e falavam as pessoas
dessa comunidade? E porque o faziam? Quais os géneros literários encontrados na Mesoamérica? A resposta a esta questão é
complexa e é o tema do que segue deste artigo, no qual se tentará descrever e resumir o que se sabe sobre os géneros e funções das
literaturas indígenas da Mesoamérica.

Podem identificar-se três temas principais nas literaturas mesoamericanas:

Religião, tempo e astronomia: as civilizações mesoamericanas partilhavam um interesse no registo e contagem do


tempo através da observação doscorpos celestes e de rituais religiosos em que se celebravam as suas diferentes
fases. Não é surpreendente que uma grande parte da literatura mesoamericana que chegou até nós trate
exactamente sobre este tipo de informação. Em particular
,
exactamente sobre este tipo de informação. Em particular ,
a verdadeira literatura pré-colombiana, como oscódices
maias e astecas, é sobre informações astronómicas e
calendáricas, bem descrições dos rituais ligados à
passagem do tempo.
História, poder e legados: outra grande área da literatura
pré-colombiana encontra-se gravada em estruturas
monumentais como estelas, altares e templos. Este tipo
de literatura tipicamente documenta o poder e tradições,
registando vitórias militares, ascensões ao poder ,
dedicações de monumentos e casamentos entre
linhagens reais.
Géneros míticos e fictícios. Existentes sobretudo em
versões pós-conquista e muitas vezes dependentes de
tradições orais ou pictóricas, a literatura míticas e
narrativa da Mesoamérica é muito rica, e podemos
apenas imaginar o quanto terá sido perdido.
Literatura quotidiana: alguns textos constituem um tipo de
literatura quotidiana, como por exemplo descrições de
objectos e de seus proprietários, bem como inscrições,
mas trata-se de uma fracção muito pequena da literatura Reprodução da página 13 original docódice
conhecida. borbónico, mostrando elementos de um
almanaque associado à 13ªtrecena do
tonalpohualli, a versão asteca do calendário
Literatura linguística versus literatura mesoamericano de 260 dias. Um exemplo de um
pictórica texto sobretudo semasiológico, que tem significado
e que pode ser lido, mas que não representa
Geoffrey Samson faz a distinção entre dois tipos de escrita. Um deles fonemas da língua realmente falada.
é por ele chamado semasiográfico, incluindo tipos de escrita
pictórica ou ideográfica que não estão necessariamente ligados à
linguagem fonética mas que podem ser lidos em diferentes línguas (este tipo de escrita é utilizado por exemplo em sinais rodoviários
que podem ser lidos em qualquer língua). O outro tipo de escrita é a escrita fonética chamada por Sampson escrita glotográfica e que
representa os sons e palavras das línguas que permitem leituras linguísticas precisas de um texto que é o mesmo em cada leitura.[1]
Normalmente apenas este último tipo é considerado escrita verdadeira mas na Mesoamérica não se fazia qualquer distinção entre os
dois tipos e portanto escrever, desenhar ou fazer retratos eram vistos como conceitos intimamente relacionados ou mesmo idênticos.
Tanto na língua maia como na asteca existe uma só palavra para escrevere desenhar (tlàcuiloa em nauatle e tz'iib' em maia clássico).

As gravuras são por vezes lidas foneticamente e textos que supostamente deveriam ser lidos são por vezes de natureza muito
pictórica. Tal torna difícil aos estudiosos actuais a tarefa de distinguir se uma inscrição em escrita mesoamericana representa uma
língua falada ou se deve ser interpretada como um desenho descritivo. O único povo mesoamericano que sabe sem sombra de dúvida
ter desenvolvido um sistema de escrita completamente glotográfico ou fonético foi o povo maia, e mesmo a escrita maia é em grande
medida pictórica e muitas vezes apresenta fronteiras pouco nítidas entre imagens e texto. Os estudiosos discordam da foneticidade de
outras escritas e estilos iconográficos mesoamericanos, mas muitos muitos deles mostram a utilização do princípio de rébus e um
conjunto de símbolos altamente convencionalizado.

Inscrições monumentais
As inscrições monumentais eram muitas vezes registos históricos das cidades-estado. Entre os exemplos mais famosos incluem-se:

Escadaria Hieroglífica deCopán, onde está registada a história de Copán por meio de 7 000 glifos nos seus 62
degraus.
As inscrições de Naj Tunich registando a chegada de peregrinos nobres à caverna sagrada.
As inscrições na tumba dePacal, o famoso governante dePalenque.
As muitas estelas de Yaxchilán, Quiriguá, Copán, Tikal e Palenque e de inúmeros outros sítios arqueológicos maias
Outra função destes tipos de inscrições históricas era servirem para consolidarem o poder dos governantes que as utilizavam também
como um tipo de testemunho propagandístico desse mesmo poder. Mais frequentemente os textos hieroglíficos monumentais
descrevem:
Governação: ascensão e morte de governantes, e a reclamação de ascendência de
linhagens nobres.
Guerra: vitórias e conquistas.
Alianças: casamentos entre linhagens.
Dedicações de monumentos e construções.
O renomado epigrafista David Stuart escreveu o seguinte acerca das diferenças de conteúdo entre os textos
hieroglíficos monumentais de Yaxchilán e de Copán:

“ "Os temas principais dos monumentos conhecidos em Yaxchilán


são a guerra, dança e rituais de sangria, com vários registos de
ritos dedicatórios de construções." A maioria dos registos de
guerras e danças acompanham cenas com governantes, os
quais são representados de modo proeminente em todos os
textos. Os textos de Copán apresentam uma ênfase menor da
narrativa histórica. As estelas da praça grande, por exemplo,
estão inscritas com fórmulas dedicatórias que nomeiam o
governante como "dono" do monumento, mas raramente
registam qualquer actividade ritual ou histórica. As datas de
nascimentos são praticamente inexistentes em Copán, tal como
Uma inscrição
são os registos de guerras e capturas. Assim, os governantes de
monumental em
Copán não possuem a história personalizada que lemos nos
hieroglifos
textos de centros mais recentes das terras baixas ocidentais,
como Palenque, Yaxchilán e Piedras Negras."[2] ” maias em
Naranjo, relativa
ao reinado do
rei Itzamnaaj
Códices K'awil

Ver também códices maias e códices astecas para


descrições mais completas dos diferentes códices.

Restam actualmente vários códices pré-colombianos escritos em papel amate revestido


de gesso.

Narrativas históricas

;Códices mixtecas

Códice Bodley
Códice Colombino-Becker
Códice Nuttall (Relato da vida e tempos do governante
Oito Veado Jaguar Garra e das dinastias Tilantongo,
Tozacoalco e Zaachila).
Códice Selden
Códice Vindobonensis

;Códices astecas

Códice Mendoza (parte 1 é a história da fundação de


Tenochtitlan)

Administrativo

Códice Mendoza (Part 2 é composta por registos de


tributos astecas) Uma página do códice de
Dresden (maia, pré-colombiano)
Textos astronómicos, calendáricos e rituais

Origens centro-mexicanas:
Códice Borbónico
Códice Magliabechano
Códice Cospi
Códice Vaticanus B (ou Códice Vaticanus 3773)
Códice Fejérváry-Mayer
Códice Laud

Códices maias:

Códice de Paris
Códice de Madrid
Códice de Dresden

Com autenticidade disputada:

Códice Grolier

Literaturas pós-conquista escritas em grafia latina


A maior parte da literatura mesoamericana conhecida actualmente foi
escrita após a conquista espanhola. Tanto europeus como maias
começaram a documentar por escrito a tradição oral local utilizando
o alfabeto latino para escrever nas línguas indígenas pouco tempo
depois da conquista. Muitos destes escritores eram monges e
sacerdotes que na tentativa de converter os povos nativos ao
cristianismo e traduzir as escrituras sagradas adquiriram um bom
domínio das línguas indígenas e muitas vezes elaboraram gramáticas
e dicionários destas línguas. Estas primeiras gramáticas das línguas
nativas sistematizaram a leitura e escrita das línguas indígenas no
tempo em que foram escritas e ajudam ainda hoje na sua
compreensão.

As gramáticas e dicionários mais conhecidos entre os mais antigos,


são os da língua dos astecas, o náuatle. Exemplos famosos são os
trabalhos de Alonso de Molina e André de Olmos. Mas também a
língua maia e outras línguas mesoamericanas têm gramáticas e
Página do códice florentino (ca. 1580) mostrando dicionários antigos, alguns de muito alta qualidade. A introdução do
náuatle escrito com grafia latina.
alfabeto latino e a criação de convenções para a escrita das línguas
indígenas permitiu a subsequente criação de variados tipos de textos.
Ao mesmo tempo, os escritores indígenas faziam uso das novas técnicas para documentarem a sua própria história tradições na nova
escrita, enquanto os monges levavam a literacia às populações indígenas. Esta tradição durou apenas alguns poucos séculos, e devido
a decretos reais que determinavam que o espanhol era a única língua do Império Espanhol, por volta de meados do século XVIII a
maioria das línguas indígenas não possuíam uma tradição de escrita viva. As literaturas orais, porém, continuaram a ser transmitidas
até à actualidade em muitas línguas indígenas e começaram a ser recolhidas pelos etnólogos no princípio do século XX, no entanto
sem promoverem a literacia em línguas indígenas nas comunidades em que trabalhavam.

Nos primeiros séculos pós-conquista, foi produzido um grande número de textos em línguas mesoamericanas. Tal corpo literário,
após cem anos de estudo, permanece conhecido apenas superficialmente e lar
gamente desconhecido do grande público.

Relatos históricos
Muitos dos textos pós-conquista são relatos históricos, quer sobre a forma de anais que relatavam ano a ano os acontecimentos de um
povo ou cidade-estado muitas vezes baseando-se em documentos pictóricos ou relatos orais dos membros mais idosos das
comunidades. Mas também, por vezes, relatos literários personalizados sobre a vida de um povo ou estado e quase sempre
incorporando dados históricos reais, míticos e materiais. Não existia uma distinção formal entre estes dois tipos de literatura na
Mesoamérica. Por vezes, como no caso do Chilam Balam maia, os relatos históricos dos livros incorporavam também material
profético, um tipo de história adiantada.

Anais

Anais dos Caqchiqueles


Livros Chilam Balam livros de Chumayel, Maní, Tizimin, Kaua, Ixil, e Tusik
Anais de Tlatelolco, Anais de Tlaxcala, Anais de Cuauhtitlan
Numerosas histórias locais de um único estado indígena na forma de anais ou códices
pictóricos.

Historias

Cronica Mexicayotl de Fernando Alvarado Tezozomoc


Códice Chimalpahin de Domingo Francisco de San Antón Muñon Chimalpahin
Quauhtlehuanitzin
Lienzo de Tlaxcala uma história pictórica da conquista porDiego Muñoz Camargo.

Documentos administrativos
A situação dos povos indígenas da Mesoamérica no período pós-conquista também os obrigou a aprender a navegar num novo e
complexo sistema administrativo. De forma a obterem quaisquer tipos de posições favoráveis, requerimentos e petições tinham de ser
feitos às novas autoridades e a posse das terras e heranças tinham de ser provadas. Esta situação teve como resultado uma grande
quantidade de literatura em línguas indígenas, pois os documentos eram muitas vezes escritos primeiramente na língua nativa e só
depois traduzidos para o espanhol. Entre este tipo de documentos incluem-se em grande número:

Títulos (pretensões ao poder por demonstração de pertença a uma linhagem nobre pré-colombiana)
Petições (por exemplo petições solicitando a redução de impostos ou queixas sobre senhores abusadores)
Testamentos e documentos de alegação de propriedade.

Narrativas mitológicas
A literatura mesoamericana mais extensamente estudada, provavelmente porque é a mais interessante pelos padrões actuais, é a
literatura contendo narrativas mitológicas e lendárias. Os estilos destes livros são muitas vezes muito poéticos e apelativos ao sentido
estético moderno quer pela linguagem poética quer pelo seu conteúdo "místico" exótico. Muitas vezes, porém, as narrativas
mitológicas são confundidas com relatos históricos devido à falta de distinção entre mito e história nas culturas mesoamericanas.
Enquanto que muitos realmente incluem acontecimentos históricos reais, os textos mitológicos podem frequentemente ser
distinguidos pelo seu enfoque na alegação de poder baseada numa origem mítica, ao traçarem a linhagem de um povo até alguma
antiga fonte de poder.

Popol Vuh (a lendária história mitológica do povoquiché)


Códice Chimalpopoca (a principal fonte sobre o mito de criação asteca dosCinco Sóis)
Códice Aubin (Conta as deambulações míticas dos mexicas desde Aztlan até enochtitlan)
T
História Tolteca Chichimeca (o mito asteca dos lendários povos tolteca e chichimeca)

Poesia
Foram conservadas algumas colecções famosas de poesia asteca. Apesar de escritas em finais do século XVI, crê-se que sejam
relativamente representativas do verdadeiro estilo de poesia utilizado em tempos pré-colombianos. Muitos dos poemas são atribuídos
a governantes astecas nomeados, comoNezahualcoyotl. Uma vez que os poemas foram transcritos numa data posterior, os estudiosos
discutem se estes serão os seus verdadeiros autores. Muitos dos textos míticos e históricos apresentam também qualidades poéticas.

Poesia asteca

Cantares Mexicanos
Romances dos Senhores da Nova Espanha

Poesia maia

Cantares de Dzitbalché

Teatro
Rabinal Achí
Teatro Nauatle

Relatos etnográficos
Códice florentino (obra-prima de Bernardino de Sahagúnde um relato etnográfico contido em 12 volumes).
Coloquios y doctrina Christiana(também conhecidos como os diálogos de Bancroft. Descrição dos primeiros
diálogos entre astecas e monges pregando o cristianismo.)

Colecções de tratados vários


Nem todos os espécimes de literatura nativa podem ser prontamente classificados. Um exemplo típico são os livros de Chilam Balam
em iucateque, mencionado acima pelo seu conteúdo histórico, mas que contêm também tratados sobre medicina, astrologia, etc.
Apesar de pertencerem claramente à literatura maia, são de natureza profundamente sincrética.

Referências
1. Sampson
2. «David Stuart» (https://web.archive.org/web/20081216020327/http://www .peabody.harvard.edu/Copan/text.html#).
Consultado em 9 de abril de 2008. Arquivado do original (http://www.peabody.harvard.edu/Copan/text.html#)em 16
de dezembro de 2008

David Stuart: David Stuart writes about the inscriptions of Copán


Michael D Coe and Justin Kerr, "The Art of the Maya Scribe" Thames and Hudson. 1997
Jesper Nielsen, "Under slangehimlen" Aschehoug, Denmark, 2000.
Geoffrey Sampson, Writing Systems: A Linguistic Introduction, Hutchinson (London), 1985
Horcasitas, Fernando. Teatro náhuatl. I : Épocas novohispana y moderna, México: UNAM, 2004
Angel María Garibay K. Historia de la. literatura nahuatl / México : Editorial Porrúa, 1971
Karttunen, Frances and Lockhart, James. 1980. La estructura de la poesia nahuatl vista por sus variantes. Estúdios
de Cultura nahuatl 14. 15-64. : .
David Carrasco, Religions of Mesoamerica: Cosmovision and Ceremonial Centers, a Wveland 1998
Curl, John; The Flower-Songs of Nezahualcoyotl and the Songs of Dzitbalche in Ancient American Poets, Bilingual
Press, 2005, ISBN 1-931010-21-8

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