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MONARQUIA E CAPITALISMO

Décio Saes
Universidade Estadual de Campinas

RESUMO

O objetivo do artigo é responder a seguinte questão: a Monarquia, como instituição, choca-se com
as características centrais do Estado capitalista, ou logra acomodar-se à sua estrutura? Nesse caso,
qual ê a sua função política? O primeiro passo é a conceituação de "Monarquia" e de ''República"
como modos alternativos de investidura do chefe de Estado, possíveis em tipos históricos diversos de
Estado (escra\fista, feudal, capitalista) e em formas diversas de Estado (democrático, ditatorial).
Genericamente, a Monarquia suscita nas massas a emergência da consciência de súdito (sentimento
de fidelidade pessoal ao chefe de Estado). No Estado capitalista, em particular, a presença da
Monarquia ou determina a articulação da consciência de súdito com a consciência de cidadania
(caso em que pode ser bloqueado o desenvolvimento de uma consciência de cidadania propriamente
política); ou então frustra a emergência até mesmo de uma consciência de cidadania civil em setores
sociais determinados (campesinato). Em qualquer um desses casos, a Monarquia reforça a ação
estatal bloqueadora do desenvolvimento ideológico e político das classes populares; e contribui, ao
simbolizar a continuidade do aparelho de Estado (capitalista), para a diminuição do impacto das
crises políticas.

PALAVRAS-CHAVE: Monarquia, Estado capitalista, cidadania.

I. INTRODUÇÃO políticas da proposta de restauração da


Monarquia no Brasil. Esse desinteresse
Os monarquistas brasileiros obtiveram de praticamente todas as correntes
uma pequena porém efetiva vitória polí­ políticas no que diz respeito ao
tica, ao lograrem introduzir na Constitui­ significado político da proposta
ção Brasileira de 1988 um dispositivo (o monarquista de certo modo se explica, e
artigo 2o. do "Ato das Disposições mesmo se justifica, pelo fato de que essa
Constitucionais Transitórias") determi­ proposta não parece contar com uma
nando a realização, em 1993, de um base sequer razoável de apoio social no
plebiscito sobre as assim chamadas Brasil. Diante da inexpressividade do
"formas de governo" (República x Mo­ movimento monarquista, as demais
narquia). Essa vitória, porém, não tem correntes políticas tendem a considerar
induzido as demais correntes políticas - essa proposta como uma excentricidade,
e, aqui, pensamos especialmente nas ou como o derradeiro espasmo político
correntes políticas de esquerda - a de um grupúsculo ultra-conservador.
analisar sistematicamente as implicações
Já o pesquisador de Ciência Política centrais do Estado Capitalista? Ou ela
não pode se comportar como as pode, ao contrário, acomodar-se a sua
correntes políticas republicanas. estrutura? E, no caso de essa acomoda­
Enquanto cientista, ele deve, ainda que ção ser possível, qual é a função política
reconhecendo a inexpressividade do da Monarquia dentro do Estado capita­
movimento monarquista no Brasil, olhar lista?
de um outro modo a proposta de Para tratarmos sinteticamente essas
restauração da Monarquia. Esse outro questões, teremos previamente de recon-
olhar se impõe, no mínimo, pelo fato de ceituar a Monarquia e o Estado capita­
que a pretendida restauração da lista. A seguir, poderemos tentar a carac­
Monarquia estaria longe de transformar terização dos termos da coexistência
o Brasil num caso excepcional e ex- (conflituosa ou funcional) entre ambos.
travagente no quadro dos Estados capi­
talistas contemporâneos. Observando
rapidamente o mundo atual, podemos fa­ II. OS CONCEITOS DE
zer algumas constatações a esse respeito. MONARQUIA E ESTADO
Em primeiro lugar, a Monarquia existe CAPITALISTA
em inúmeros países capitalistas avança­
dos, como a Grã -Bretanha, os países es­ A análise, que empreenderemos a
candinavos (Suécia, Noruega, Dina­ seguir, do modo de coexistência entre
marca), os países do BENELUX Monarquia e Estado capitalista toma
(Bélgica, Holanda, Luxemburgo) ou o como pontos de partida uma certa teoria
Japão. Em segundo lugar, na Espanha de do Estado em geral e uma certa teoria do
1975 - então considerada como Estado capitalista em particular'. Essas
"periferia" da Europa capitalista -, a premissas teóricas implicam o abandono
derrubada do fraquismo e a redemocrati- de certas acepções que a expressão
zação do Estado se fizeram acompanhar "Monarquia" - e, complementarmente, a
da restauração da Monarquia. Em tercei­ expressão "República" - assumiram no
ro lugar, existem, hoje, propostas de passado.
restauração da Monarquia até mesmo em Nalguns contextos históricos, a ex­
países do antigo bloco comunista, como pressão "Monarquia" foi utilizada, em
a Rússia ou a Romênia. linguagem política corrente, para desi­
A consideração desses fatos nos gnar um tipo histórico pré-capitalista de
leva, antes de mais nada, a concluir que a Estado (como Estado antigo ou Estado
Monarquia não é um tema do passado, medieval), cabendo à expressão
mesmo considerando a derrota dos mo­ "República" designar um tipo de Estado
narquistas no plebiscito de 1993. E, mais radicalmente diferente: o que chamaría­
ainda, ela nos obriga a reconhecer que a mos hoje de um Estado burguês
instituição da Monarquia tem coexistido, moderno ou Estado capitalista. Tome-se,
na prática, com Estados capitalistas, in­ a título de exemplo, o discurso
clusive em países avançados do Primeiro
Mundo. Essas conclusões nos estimulam 1 A teoria do Estado em geral é a teoria marxiana do Estado,
codificada por Engels em A origem da família, da p ro p rie­
a tratar em termos teóricos as seguintes
dade privada e do E stado; a teoria (marxista) do Estado capi­
questões: A Monarquia, como institui­ talista em particular é aquela apresentada por Nicos
ção, choca-se com as características Poulantzas em P ouvoir politique et classes sociales.
republicano de líderes políticos e dinástico e hereditário de definição da
intelectuais como Silva Jardim e Alberto chefia de Estado, correspondendo à
Salles no Brasil da década de 1880. desaristocratização da investidura do
Nesse discurso, "ordem monárquica" chefe de Estado.
equivale a "ordem social fundada no Esses modos diferenciados de in­
privilégio" e "ordem republicana" vestidura do chefe de Estado não corres­
significa "ordem social fundada na meri- pondem, um a um, a tipos históricos di­
tocracia e na cidadania". versos de Estado; cada um desses tipos
Noutros contextos históricos, a ex­ pode abrigar tanto um como outro
pressão "Republica" chegou a ser usada desses modos de investidura. A
para designar a forma democrática de instituição monárquica existiu em
Estado, cabendo à expressão Estados feudais como o francês, o belga,
"Monarquia" designar um Estado ditato­ o inglês, etc., na Idade Média; em
rial ou "tirânico". Essas acepções apare­ Estados do modo de produção asiático
cem - e muito provavelmente refletem como o Egito do período dos faraós; e
um certo uso social das expressões - em em Estados capitalistas da atualidade,
obras históricas de Marx, como O como o britânico, o japonês, etc. Quanto
dezoito brumário e As lutas de classes à instituição republicana, ela existiu em
na França. Estados escravistas, como a Roma ou a
Hoje, não podemos mais manter es­ Atenas da Antiguidade; em Estados
sas acepções de "Monarquia" e de feudais, como certas cidades italianas ou
"República" na análise política, pois elas holandesas da Idade Média; em Estados
indicam um amálgama, praticado na capitalistas da atualidade, como o norte-
linguagem política corrente e transposto americano, o francês ou o brasileiro.
para o pensamento político mais elabo­ Esses modos diferenciados de in­
rado, entre diferentes ordens de fenôme­ vestidura do chefe de Estado também
no político. As expressões "Monarquia" não correspondem, um a um, as formas
e "República" não podem mais ser usa­ diversas de Estado; cada uma dessas
das para designar diferentes tipos histó­ formas pode abrigar tanto um como
ricos de Estado (pré-capitalista, capita­ outro desses modos de investidura. A
lista) ou diferentes formas de Estado Monarquia se articulou tanto a Estados
(ditadura, democracia). ditatoriais (por exemplo: as monarquias
No quadro da teoria marxiana do absolutas) quanto a Estados
Estado em geral e da teoria de Poulant- democráticos (por exemplo: as
zas sobre o Estado capitalista em parti­ Monarquias constitucionais e
cular, "Monarquia" e "República" devem parlamentares da Europa do Norte). A
ser usadas para designar modos República se articulou tanto a Estados
específicos de investidura do chefe de ditatoriais (por exemplo: as ditaduras
Estado, sendo este cargo definido pela militares da América Latina ou as Sig-
sua função de simbolizar a unidade do norias italianas dos fins da Idade Média)
aparelho de Estado. "Monarquia" quanto a Estados democráticos (por
designa, portanto, um modo dinástico e exemplo: as democracias da França, Itá­
hereditário de definição da chefia de lia ou EUA atuais).
Estado, enquanto "República" se Esclarecidas essas relações da Mo­
configura como a negação do critério narquia e da República com os tipos
históricos de Estado e com as formas de lógica de personalização do apare-lho de
Estado, devemos indicar as característi­ Estado e do poder de Estado. Essa per­
cas da Monarquia enquanto modo espe­ sonalização do Estado se faz acompa­
cífico de investidura do chefe de Estado nhar, na direção oposta, de uma desin-
A Monarquia, enquanto instituição dividualização do titular do cargo de
política, implica a adoção do costume e Monarca. Isto significa que é figura do
da tradição aristocráticos como critérios Monarca enquanto Monarca, e não a
para a escolha do chefe de Estado; o mo­ personalidade individual que ocupa esse
narca é sempre egresso de uma família cargo, que se impões ideologicamente
aristocrática (inclusive nas monarquias aos seus súditos.
eletivas), e transmite hereditariamente o Cabe agora definir a natureza exata
seu cargo justamente por ser membro da da relação ideológica que se trava entre
aristocracia (ou então transmite heredi­ o Monarca e o Povo. A Monarquia im­
tariamente, no caso das monarquias ele­ plica o estabelecimento, no plano ma-
tivas, a condição de membro do círculo cropolítico, de uma relação ideológica de
aristocrático que fornece os postulantes fidelidade pessoal do Povo ao Monarca.
ao cargo de monarca). Desse modo, o Tal relação é análoga aquela que se
costume e a tradição aristocráticos legi­ travava, no feudalismo, entre os cam­
timam a escolha do chefe de Estado; e a poneses dependentes e o senhor feudal.
religião, por sua vez, é chamada a legi­ Ou melhor: o vínculo de lealdade pessoal
timar o costume e a tradição aristocráti­ que une o súdito ao Monarca é a
cos: o aristocrata que acede ao cargo de reprodução, no plano da relação do Es­
chefe do Estado é considerado pelas au­ tado com as classes dominadas, da rela­
toridades religiosas como um homem ção de dominação pessoal que se trava­
abençoado, desde o seu nascimento ou a va, no feudalismo, entre senhor e campo­
partir de sua consagração (conforme a nês dependente.
variante de monarquia), pela graça divi­ Chegamos, desse modo, à questão
na. central deste artigo: se o funcionamento
Mas quais são os efeitos ideológicos da instituição monárquica deflagra um
produzidos, numa formação social qual­ processo particular de dominação ideo­
quer, pela adoção de modo monárquico lógica que é análogo ao processo geral
de investidura do chefe de Estado? Inspi- de dominação ideólogica típico do feu­
rando-nos em João Carlos Brum Torres2, dalismo, como é possível a sua articula­
diremos que o funcionamento da institui­ ção a um Estado capitalista? Para res­
ção monárquica, numa formação social pondermos essa questão, temos de saber
qualquer, desencadeia a operação ideo­ o que é o Estado capitalista; devemos,
portanto, tratar aqui do conceito de
Estado capitalista. Não exporemos todos
2 Consultar João Carlos Brum Torres, 1989, Capítulo I ("O
Ministério da Monarquia"); e, especialmente, o aproveitamen­
os aspectos desse conceito, construído
to que o autor faz, no item 2 desse capítulo, das informações em empreitada teórica megistral por
de CXto Gierke (Political Theories o f the M iddle A ge) sobre a Nicos Poulantzas3. Do conceito
instituição monárquica. poulantziano de Estado capitalista,
3 Esse conceito se adia exposto em P ouvoir poli tique et
mencionaremos aqui um único aspecto,
classes sociales, 2 vol., Ed. François Maspero, Paris, 1968,
capítulo II, "I/Etat capitaliste".
cuja abordagem é indispensável ao
tratamento da questão central deste
artigo. Ou seja: o Estado capitalista se em que converte todos os homens em
especifica por aplicar às relações sociais sujeitos individuais de direitos, cria a
um conjunto de normas - isto é, um forma-cidadania e atomiza as classes
direito - que igualizam homens inseridos sociais através da individualização dos
em diferentes lugares (proprietário dos seus membros, tem necessariamente de
meios de produção, produtor direto não se apresentar como representante da so­
proprietário) do processo social de pro­ matória de todos esses indivíduos por ele
dução. Por essa via, o Estado capitalista criados: isto é, como representante de
converte todos os homens, independen­ todo o Povo. Nessa medida, o Estado
temente de sua situação econômica, em capitalista se legitima pelo princípio da
sujeitos individuais de direitos. representação popular, ou da soberania
Ao impor esse conjunto de normas popular no Estado.
igualizadoras a todos os homens, qual­
quer que seja a sua condição sócio-
econômica, o Estado capitalista cria a III. CONSCIÊNCIA DE SÚDITO E
forma ideológica da cidadania. A ope­ CONSCIÊNCIA DE CIDADANIA
ração da cidadania significa que todos os
homens passam a se sentir em situação Neste ponto, podemos voltar à
igual diante do Estado (é o sentimento nossa questão básica: como é possível a
de igualdade de uns e de outros articulação da instituição monárquica,
enquanto relacionados ao Estado), e a se que se legitima pelo costume
considerar envolvidos numa relação aristocrático e confere a todos os
impessoal com o Estado. O efeito homens a condição de súditos, com o
político principal da imposição dessas Estado capitalista, que se legitima pelo
normas igualizadoras e da criação da princípio da representação popular e
forma-cidadania é a individualização confere a todos os homens a condição de
dos membros das classes sociais cidadãos? Essas instituições diversas -
antagônicas e, nessa medida, a própria monarquia, Estado capitalista - não
atomização dessas classes sociais produzem efeitos ideológicos con­
antagônicas. traditórios? E, nesse caso, a sua coexis­
Os Estados pré-capitalistas (como o tência não é necessariamente conflituosa
Estado antigo, ou o Estado feudal) não e, portanto insuscetível de perdurar por
impunham às relações sociais normas muito tempo?
igualizadoras, nem promoviam a criação A resposta a essa questão - ou con­
da forma-cidadania; por isso, o seu fun­ junto de questões - não é simples. Para
cionamento não era suscetível de pro­ respondê-la, temos de considerar, do
duzir o efeito político de individualização ponto de vista teórico, duas hipóteses.
dos membros das classes sociais Na primeira hipótese, a consciência de
antagônicas e de atomização dessas súdito se articula de um modo complexo
mesmas classes sociais. à consciência dc cidadania. Tal articula­
Mas qual é a conseqüência específi­ ção é teoricamente possível; ela se con­
ca, no plano da legitimação do próprio cretiza quando o indivíduo pensa que
Estado capitalista, da aplicação de nor­ tem direitos perante o Estado na medida
mas igualizadoras e da operação da ci­ em que tais direitos lhe foram
dadania? O Estado capitalista, na medida outorgados pelo monarca, e quando,
complementarmente, ele pensa que tem fidelidade pessoal com o Monarca; e
deveres para com o Estado na medida ffustrar-se-à a emergência não só da
em que deve prestar fidelidade pessoal consciência da cidadania propriamente
ao Monarca. política como também da consciência de
Nesse caso, a consciência de cida­ cidadania elementar, puramente civil.
dania não descarta a consciência de súdi­ Esse quadro nada tem de desfúncional
to; aqui, a consciência de cidadania se para o Estado capitalista, pois a submis­
realiza concretamente com a mediação são ideológica das classes populares é
da consciência dc súdito. Essa articula­ sempre favorável à sua conservação,
ção complexa de duas formas diversas de mesmo quando tal submissão não se pro­
consciência não leva o indivíduo a de­ cessa por uma via especificamente capi­
sacreditar da cidadania em sua dimensão talista.
básica, civil; nesse sentido, ela é plena­ De outro lado, nesta mesma hipóte­
mente funcional para conservação do se, as massas trabalhadoras urbanas
Estado capitalista. permanecem, em parte ou no todo, estri­
E mais ainda: essa articulação pode tamente submetidas aos efeitos ideológi­
minar o desenvolvimento de uma consci­ cos emanados da estrutura do Estado
ência de cidadania propriamente política, capitalista; e desenvolvem exclusiva­
bloqueando a emergência da aspiração mente uma consciência de cidadania.
popular à participação política efetiva. Pelo fato de já terem se libertado das
Entenda-se que esse bloqueio nada tem relações de dominação pessoal, ainda
de funcional para a conservação do vigentes em certas áreas rurais, essas
Estado capitalista. Para constatá-lo basta classes podem se mostrar indiferentes à
percorrer as formulações de inúmeros suprema relação de lealdade pessoal que
cientistas políticos neo-liberais (de é aquela que se trava entre um monarca
Schumpeter a Lipset), para os quais uma e o súdito. Assim, tais classes
boa dose de apatia política é indispen­ permanecem imunes aos efeitos
sável ao bom funcionamento das institui­ ideológicos da presença da Monarquia, e
ções democráticas do Estado dito oci­ desenvolvem até mesmo uma hostilidade,
dental (vale dizer, do Estado capitalista). maior ou menor (que vai desde a postura
Numa segunda hipótese, a irônica até a critica aberta), com relação
instituição monárquica, de um lado, e a a essa instituição. Entenda-se que a
estrutura do Estado capitalista, de outro, hostilidade popular à Monarquia não é
produzem efeitos ideológicos disfúncional para a conservação do
compartimentados, que incidem sobre Estado capitalista, pois a critica ao
diferentes classes sociais e, portanto, não princípio aristocrático não leva, por si
chegam a entrar em contradição. Isto é: só, ao desvendamento da essência do
por um lado, a monarquia polariza Estado capitalista (isto é, a sua natureza
ideologicamente setores camponeses de classe). Esse ponto foi sublinhado por
ainda inseridos em relações de produção Marx nas suas obras históricas: ali onde
pré-capitalistas e, portanto, envolvidos existe uma Monarquia, é possível que as
em relações de lealdade pessoal com os classes populares queiram derrubá-la
proprietários de terra. Nesse caso, tais com o objetivo precípuo de integralizar a
setores camponeses resumirão a sua cidadania, nos limites do Estado
relação com o Estado à pura relação de capitalista.
Em nenhuma das duas hipóteses que ticas é a função de simbolizar a continui­
construímos, podem ser detectados efei­ dade do aparelho de Estado (capitalista);
tos ideológicos da coexistência entre a isto é, de representar a etemização do
Monarquia e a estrutura do Estado capi­ aparelho de Estado (capitalista), por
talista que sejam prejudiciais para a con­ cima das sucessivas mudanças de gover­
servação desse Estado. Bem pelo con­ no. Essa função política não desprezível
trário: a exploração teórica dessas hipó­ de um ponto de vista conservador, já que
teses nos permite sustentar que a Monar­ a imagem de "vacância de poder" - ou
quia tende a funcionar, nas formações "vazio de poder" - constitui, nos Estados
sociais capitalistas, como um elemento capitalistas, um fator de amplificação das
de reforço dos mecanismos ideológicos crises políticas, na medida em que pode
de conservação do Estado capitalista. incentivar a intervenção das massas na
cena política. A monarquia, ao sim­
IV. AS FUNÇÕES POLÍTICAS DA bolizar a continuidade do aparelho de
MONARQUIA NO ESTADO Estado (capitalista), contribui para o en­
CAPITALISTA fraquecimento dessa imagem e, conse­
quentemente, para a diminuição do im­
Podemos agora, à guisa de conclu­ pacto das crises políticas.
são, enunciar as funções políticas da Os monarquistas brasileiros defen­
Monarquia no Estado capitalista. São es­ deram a instituição monárquica, apresen­
sas funções que convertem a Monarquia tando-a como um fator de estabilidade
numa instituição duradoura em vários política nas sociedades contemporâneas;
Estados capitalistas da atualidade, e e recorreram, nessa defesa, ao
provocam a emergência de correntes argumento progressista segundo o qual a
monarquistas em países onde o Estado Monarquia seria, nos países
capitalista se articula à instituição politicamente instáveis, um anteparo
republicana. contra os golpes militares. Sinalizam,
A primeira dessas funções políticas é assim o papel positivo que a Monarquia
a função de reforçar a ação que o Estado teria a desempenhar na conservação de
capitalista implementa no sentido de uma forma particular de Estado
bloquear o desenvolvimento ideológico e capitalista e de um tipo particular de
político das classes populares. A monar­ regime político capitalista (o demo­
quia desempenha tal função por duas crático). Porém, a corrente monarquista
vias distintas. brasileira silencia sobre as funções que a
A primeira via consiste em bloquear Monarquia desempenharia na conserva­
a emergência de uma consciência de ci­ ção do próprio Estado capitalista: blo­
dadania política (aspiração à participação queio do desenvolvimento ideológico e
política efetiva) nos setores das classes político das classes populares, atenuação
populares já adotados de uma do impacto das crises políticas que co­
consciência de cidadania civil. loquem em perigo - pela intervenção in­
A segunda via consiste em reforçar dependente das massas na cena política -
as formas de consciência pré-capitalista a dominação politica capitalista.
nos setores das classes populares que se O discurso monarquista brasileiro é,
quer chegaram à consciência de cidada­ aparentemente, o discurso de defesa da
nia civil. A segunda dessas funções polí­ estabilidade da forma democrática de
Estado e do regime político política - eleitoral ou não - das classes
democrático; no seu centro (oculto), populares.
entretanto, está a postura de defesa da A Monarquia tenderia portanto a
estabilidade do próprio Estado desempenhar, num Estado capitalista
capitalista. Aparentemente, o que como o brasileiro, as duas funções
preocupa os monarquistas brasileiros é a políticas conservadoras acima
instabilidade política decorrente de mencionadas. Por isso, incumbe aos
conflitos travados no seio das classes intelectuais brasileiros politicamente
dominantes e temporariamente comprometidos com as classes populares
resolvidos através de golpes militares. fazer esses esclarecimentos teóricos
Porém, ninguém - nem mesmo os monar­ sobre o caráter essencialmente
quistas brasileiros - pode ignorar que a conservador e anti-popular da proposta
maior fonte potencial de instabilidade de restauração da Monarquia no Brasil.
política no Brasil atual é a não-incorpo-
ração das massas aos benefícios do capi­
talismo. Nesse contexto, a Monarquia
desempenharia o papel - o mais impor­
tante no terreno da conservação do Esta­
do capitalista - de um remédio preven­
tivo para a instabilidade política que de­
correria de qualquer tipo de ofensiva

Décio Saes é professor titular de Ciência Política na UNICAMP e autor, entre outros
livros, de A Formação do Estado burguês no Brasil (1888-1891).

BIBLIOGRAFIA

BRUM TORRES. João Carlos. (1989). Figuras POULANTZAS. Nicos. (1968). Pouvoir
do Estado Moderno. São Paulo. Brasili- politique et classes sociales. 2 vols. Paris,
ense/CNPq Maspero.