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SENTENÇA

I. RELATÓRIO.

Processo nº 0016291-36.2019.818.0001

Requerente: FABIOLA DE AZEVEDO LEMOS

Requerido: ELSON NUNES DOS SANTOS

Natureza da Ação: AÇÃO DE REPARAÇÃO EM RAZÃO DE PUBLICAÇÕES


OFENSIVAS EM REDE SOCIAL

Vistos, etc.

Alegações da inicial, em resumo: requerente aduziu que é professora, e pleiteia


a condenação do ora Requerido em verbas indenizatórias em razão de publicações,
supostamente, injuriosas e difamatórias, demandando, ainda, para que o requerer
a retratação por parte do Requerido.

Dispensados os demais dados para relatório, consoante art. 38 da Lei n°


9.099/95.

Passo a decidir.

II. FUNDAMENTAÇÃO.

II.1. OS PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS

Uma relação jurídica de direito material necessita de requisitos mínimos para


que tenha validade. Os pressupostos processuais são requisitos para o exame do mérito.
O magistrado precisa verificar a presença dos pressupostos de existência e validade da
relação jurídica processual antes de julgar o pedido formulado pelo autor. Diante da
divergente doutrina sobre os pressupostos processuais, iremos nos ater ao que é
necessário á análise desta lide que está sob julgamento.

Dentre os pressupostos processuais de existência, verificou-se que a petição


inicial é apta, que este juízo está regularmente investido na jurisdição, e que a citação é
válida.
A manifestação do requerido quanto à nulidade da citação, já que seu
recebimento ocorreu através de um terceiro e não a do promovido, não deve prosperar,
pois conforme enunciado nº 5 da FONAJE, a citação é valida desde que no endereço do
réu e identificado seu recebedor.

ENUNCIADO 5 ? A correspondência ou contra-fé recebida


no endereço da parte é eficaz para efeito de citação, desde que
identificado o seu recebedor.

No caso em tela, a correspondência foi evento 08, estando o AR devidamente


assinado e identificado o recebedor.

CITAÇÃO. RECEBIMENTO DA CORRESPONDÊNCIA PELO


FILHO DO RÉU. EFICÁCIA. PRAZO
RECURSAL. RÉU REVEL. ART. 322 DO CPC. RECURSO
INTEMPESTIVO. RECURSO NÃO CONHECIDO.
"A correspondência ou contra-fé recebida no endereço da parte é
eficaz para efeito de citação, desde que identificado o seu
recebedor" (Enunciado n 05 do FONAJE) Contra o revel correrão
os prazos independentemente de intimação (322 do CPC).
(RI 669/2006, DR.NELSON DORIGATTI, 2ª TURMA
RECURSAL, Julgado em 29/08/2006, Publicado no DJE
12/09/2006)

Cabe aduzir que o endereço de envio do AR é o mesmo que constava no TCO,


bem como na ordem de missão cumprida da Delegacia Geral da Policia Civil do Piauí, o
qual intimado neste mesmo endereço o requerido compareceu ao interrogatório no dia
18.12.2018 na Delegacia Geral da Policia Civil do Piauí. Por conseguinte, em vídeo
entregue pela autora na secretaria do juizado (evento 13) o requerido afirma saber, nas
suas redes sociais, da citação recebida em seu endereço referente a este processo. Por fim,
o documento comprovante do novo endereço, anexado pelo requerido, não especifica
data, sendo insuficiente para comprovar troca de domicilio a tempo da citação.

II. 2. DA REVELIA

Nos termos do art. 20, da Lei nº. 9.099/95, a ausência do réu à audiência de
conciliação ou à de instrução e julgamento tem por consequência a decretação dos efeitos
da revelia, fazendo presumir como verdadeiros os fatos alegados na inicial, se do contrário
não resultar da convicção do julgador.

Na verdade, é sabido que a revelia não importa no julgamento procedente do


pedido autoral, uma vez que a presunção de veracidade prevista como efeito material de
sua ocorrência é relativa e não absoluta e ao apreciar o pedido formulado o juiz é dotado
da prerrogativa legal de dirigir o processo com liberdade para determinar as provas a
serem produzidas, para apreciá-las e para dar especial valor às regras de experiência
comum ou técnica.
Portanto, na tarefa de conduzir o feito e entregar a prestação jurisdicional, o
Juiz não é um mero expectador ou uma figura decorativa e por certo que, muito embora
presente o efeito material da revelia, quanto à presunção de veracidade dos fatos alegados
pelo autor, aquele não decidirá, absolutamente, em direção contrária à lógica dos fatos
apurados, inclusive em respeito ao princípio da busca pela verdade real.

Consoante a lição de Calmon de Passos:

Os fatos não contestados, isto é, todos os que integram a


demanda do autor e servem de suporte ao seu pedido, todos eles
são reputados verdadeiros, eliminada a possibilidade de o réu
fazer a prova em contrário (PASSOS, Jose Joaquim Calmon de
Passos. Comentários ao Código de Processo Civil vol. III. Rio de
Janeiro Forense p. 349).

Assim também os Enunciados 20 e 78 do FONAJE corroboram esse


entendimento, ressaltando a necessidade da presença da parte autora em audiência:

Enunciado 20 - O comparecimento pessoal da parte às


audiências é obrigatório. A pessoa jurídica poderá ser
representada por preposto.

Neste sentido vejamos julgado do Tribunal de Justiça de São Paulo.:

Recurso Inominado. Revelia- o não comparecimento da parte à


audiência de instrução e julgamento acarreta a decretação da
revelia, nos termos do art. 20 da Lei 9.099/95 - o,
comparecimento do advogado não afasta a necessidade de
comparecimento pessoal da parte - recurso IMPROVIDO. Nona
Turma Cível. Relator: Alessandra Laskowski. Julgado
em 22/09/2010.? Grifei

Assim, no caso dos autos, além da ausência injustificada do réu, os fatos


apresentados pelo autor são verossímeis, razão pela qual se justifica a decretação dos
efeitos da revelia, com a presunção de veracidade dos fatos alegados na inicial.

A parte ré, justamente por ser revel, não apresentou fato modificativo ou
extintivo do direito, ônus do qual não se desincumbiu (art. 373, II, NCPC), de modo que
restou incontroverso que o réu injuriou a Requerente publicamente nas redes sociais.

Decreto, pois, a revelia.

II.3. DO MÉRITO.
O artigo 186 do Código Civil, disciplina: ?aquele que, por ação ou omissão
voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito.

O requerido, conforme documentos, fotos, boletim de ocorrência, TCO e


depoimentos juntados no evento 01 dos autos, exteriorizou algumas manifestações
relacionadas à requerente, tais como:

?doutrinar seus alunos em sala de aula?

?(...) de forma a doutrinar alunos e formar uma personalidade


moldada para os interesses pessoais da referida professora?

?Atenção pais, muito cuidado com quem seus filhos estão


lidando dentro da sala de aula. Há Professores e há
doutrinadores. Gente que não suporta o divergente , não respeita
o pensamento contrário e vende sua verdade como única. Nunca
é demais lembrar que essa galera naturaliza o uso de drogas e
a banalização do sexo. Fiquem alertas?.

?Isso é revisão ou show de stand up? cuidado alunos?

?a aula era mais voltada para o sexo e a vida dela do que o


conteúdo propriamente dito

?Ela falava mais imoralidade dentro da sala de aula do que


repassava o conteúdo da disciplina?

?Essa professora é a doutrinadora de uma certa escola privada


, aliás de várias?.

?e eu afirmo o público que ela era líder eram jovens que usam
drogas que gostam dessa vida?.

?90% da aula falando imoralidade?.

?Nem se vestir com respeito pra entrar numa sala de aula ela
tem?
Ademais, o requerido publicou durante vários dias em suas redes sociais, de
ampla repercussão com mais de 44 mil seguidores, mensagens injuriosas com diversas
acusações contra a autora, questionando acerca de sua capacidade técnica para lecionar
aulas, imputando-lhe inclusive a pratica de Homofobia (evento 01).

Não se ateve a publicar informações com fim de levantar o debate, mas sim
expressando de forma pessoal suas impressões, atribuindo a requerente adjetivos e
acusações ofensivas, maculando a reputação e imagem da autora que teve sua conduta
desnecessariamente questionada pela sociedade e pelas escolas, considerando, in casu,
tratar-se de professora.

No tocante à parte autora, trata-se de profissional, inclusive representante de


uma categoria com atuação importantíssima para a evolução humana, a qual possui
deveres a cumprir e honra a zelar, tendo esta sido desrespeitada pela conduta ilícita do
Requerido. Observou-se a existência de comentários que denigriram e macularam a
conduta de um Mestre dentro de sua sala de aula bem como colocaram em duvida sua
capacidade, desqualificando a imagem da mesma.

Tendo como desfecho, logo após os ataques nas redes sociais, a demissão da
autora, sem justa causa, do único colégio que lecionava, como comprova o termo de
rescisão e seguro desemprego em anexo.

No caso em tela, vislumbro a sua perfeita adequação ao conteúdo do art. 186


do Código Civil, e a consequente invocação do art. 927 do mesmo diploma, que
configuram o dano e determinam ao causador deste a obrigação de repará-lo.

O direito à liberdade de informação e de manifestação do pensamento é um


direito fundamental previsto constitucionalmente, mas que não constitui direito absoluto,
podendo ser relativizado quando colidir com o direito à proteção da honra e à imagem
dos indivíduos, bem como quando ofender o princípio constitucional da dignidade da
pessoa humana.

O abuso do direito à manifestação de pensamento deve ser coibido em tutela


ao direito à honra e à imagem daquele que foi atingido pelo excesso praticado a pretexto
de se exercer a liberdade de expressão.

Diante desse conflito, de um lado, o direito à honra e à imagem e do outro o


direito à livre manifestação do pensamento, deve prevalecer aquele no caso concreto, haja
vista que houve extrapolação do direito à liberdade de expressão.

Ademais, firme orientação do STF sublinhando que "o direito à livre


manifestação do pensamento, embora reconhecido e assegurado em sede constitucional,
não se reveste de caráter absoluto nem ilimitado, expondo-se, por isso mesmo, às
restrições que emergem do próprio texto da Constituição, destacando-se, entre essas,
aquela que consagra a intangibilidade do patrimônio moral de terceiros, que
compreende a preservação do direito à honra e o respeito à integridade da reputação
pessoal". Daí advertir que "a Constituição da República não protege nem ampara
opiniões, escritos ou palavras cuja exteriorização ou divulgação configura hipóteses de
ilicitude penal, tal como sucede nas situações que caracterizem crimes contra
a honra (calúnia, difamação ou injúria), pois a liberdade de expressão não traduz
franquia constitucional que autorize o exercício abusivo desse direito fundamental"
(STF).

Assim, no presente caso, restou evidenciado o uso imoderado e


desproporcional dos meios de comunicação pela parte requerida, haja vista que esta
excedeu os limites da liberdade de expressão com a intenção clara de ofender a honra e a
moralidade da autora.

O dano moral se configura, sem que reste qualquer dúvida, em decorrência


dos constrangimentos e da situação vexatória que a parte autora sofreu com a conduta da
requerida, devendo o Judiciário atuar prontamente, buscando a compensação do
contratempo sofrido, além de objetivar coibir novas ações ilícitas, no caso dos autos, a
parte requerida ofendeu à dignidade, e à imagem.

Para que haja ato ilícito indenizável é necessária a ocorrência de conduta


culposa ou dolosa, nexo de casualidade entre a ação e o dano.

Verifico, portanto, que a caracterização do dano moral em decorrência da


conduta ilícita da parte requerida em atribuir a requerente adjetivos e acusações ofensivas,
maculando a reputação e imagem da autora. O dano sofrido pela parte autora resta
caracterizado com a ofensa a sua moral, a sua honra e a sua imagem, bem como com a
consequente demissão da autora da escola que lecionava no momento. O nexo de
causalidade entre a conduta e o dano se evidencia no direito constitucional do direito a
imagem, a moral e ao nome, que fora violado pela demandada com sua conduta.

Tem-se, portanto, o ato ilícito, o nexo de casualidade e o dano moral


resultante, ou seja, a presença de todos os elementos necessários à configuração da
obrigação de indenizar por responsabilidade civil.
Entendo que o dano moral é aquele decorrente de ação ou omissão que
venha a atingir o patrimônio da pessoa, ferindo sua honra, decoro, alta estima, paz interior,
bom nome e liberdade, originando sofrimento psíquico e sensorial, os quais se
aperfeiçoam por meio da dor, da angústia, do espanto, da emoção e da sensação de perda.

Neste sentido, faz-se importante transcrever os seguintes julgados:

RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS.


INCONFORMIDADE DA AUTORA POR INFORMAÇÕES
VEICULADAS EM MATÉRIA JORNALÍSTICA. DANO
EXTRAPATRIMONIAL CONFIGURADO. PRESENTE O DEVER DE
INDENIZAR. QUANTUM INDENIZATÓRIO MANTIDO. DEVER DE
RETRATAÇÃO AFASTADO. Caso em exame que envolve a garantia da
liberdade de expressão e de sua consequência lógica, a circulação de idéias e
notícias. Hipótese dos autos em que a parte autora postula a condenação do
réu no ressarcimento dos danos experimentados decorrentes da publicação de
artigo no Jornal Gazeta do Sul, intitulado "juramento de Hipócrates ou de
hipócritas?". Pela prova carreada resta claro que a notícia veiculada, no caso
concreto, promoveu a exposição indevida da demandante, que sofreu
constrangimento e abalo à imagem. A exposição pública e desnecessária
realizada pelo meio de comunicação enseja a compensação moral
reclamada, uma vez que ultrapassou o espaço da informação, afetando,
assim, a moral e o bem-estar social da demandante. Manutenção do
montante indenizatório fixado em primeiro grau de R$ 8.000,00,
considerando os parâmetros balizados por esta Corte, atendendo, assim, à
dupla finalidade dessa modalidade indenizatória de trazer compensação à
vítima e inibição ao infrator. Descabida a compulsoriedade da retratação
imposta ao réu. Inviável a manutenção da determinação para que o réu se
manifeste publicamente sobre assunto contrário à sua convicção, tão somente
para atender a ordem judicial. Violação do exercício da sua liberdade. Ordem
afastada. APELO PARCIALMENTE PROVIDO. (Apelação Cível Nº
70070049655, Décima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
Túlio de Oliveira Martins, Julgado em 29/09/2016)

O Código Civil não traz critérios fixos para a quantificação da indenização


por dano moral. A doutrina e a jurisprudência não são unânimes em relação aos critérios
que devem ser utilizados pelo juiz da causa. Sabe-se somente que deve o magistrado fixá-
la por arbitramento. Entendo que, na fixação da indenização por danos morais, a equidade
exige a análise da extensão do dano, das condições socioeconômicas dos envolvidos, das
condições psicológicas das partes, e do grau de culpa do agente, de terceiro ou da vítima.

Também deve ser considerada a função social da responsabilidade civil, pois


se por um lado deve-se entender que a indenização é um desestímulo para futuras
condutas, por outro, não pode o valor pecuniário gerar o enriquecimento sem causa.

Deve, pois, ser arbitrado em valor que sirva tanto de punição e desestímulo
para o infrator, como de compensação à vítima pelos danos sofridos.

Por fim, tenho como pacífico o entendimento de que ao julgador compete


enfrentar suficientemente as questões tidas como essenciais ao julgamento da causa.
Entretanto, vislumbrando a hipótese e para que não se alegue a falta de exame conveniente
a qualquer das teses não destacadas de forma específica, considero que as questões
delineadas pelos Requerentes e pelas Requerida e que não receberam a apreciação
especificada, restam refutadas, posto que não ostentam suporte legal e fático, como
também não encontram respaldo na jurisprudência de nossos tribunais, pelo que ficam
afastadas.

III. DISPOSITIVO.

Ante ao exposto, JULGO PROCEDENTE em parte o pedido formulado


pela autora, com fulcro no artigo 487, I do Código de Processo Civil, e por consequente:

I. Condeno o Requerido, a título de danos morais, no valor de R$ 5.000,00


(cinco mil reais) considerando os princípios da razoabilidade e proporcionalidade em sua
aplicação, com correção monetária a partir do arbitramento, nos termos da Súmula 362
do STJ e juros de mora a partir da inscrição indevida, nos termos da Súmula 54 do STJ,
de acordo com a Tabela instituída pela Justiça Federal;

II. Determino o Requerido, para que no prazo de 15 (quinze) dias, a contar da


intimação, remova as publicações que foram objeto deste processo, sob pena de multa
diária, no valor de R$ 500,00 (quinhentos reais) limitados a 20 (vinte dias);

III. Determinar o requerido, para que proceda com a Retratação pela mesma
via pela qual perpetrou o dano.

Sem custas e honorários de advogado, por força de isenção legal (art. 54 e 55,
caput, da Lei 9.099/95)

Registro e publicação dispensados por serem os autos virtuais.

Intimem-se.

Após o transito em julgado, arquive-se os autos.

Teresina, 26 de junho de 2019.

__________Assinatura Eletrônica__________
Dra. Glaucia Mendes de Macedo
Juíza de Direito