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DIFERENTES ABORDAGEMS PARA A PESQUISA QUALITATIVA: FUNDAMENTOS


EPISTEMOLÓGICOS
Professor Carlos Antonio
Metodologia
Resumos diversos (Kerlinger, Cozby, Bachrach, Campos).

A FENOMENOLOGIA

A Fenomenologia apresenta uma tendência dentro do idealismo filosófico e, dentro


deste, ao denominado idealismo subjetivo. Correntes importantes do pensamento como o
existencialismo, tiveram base na fenomenologia de Husserl. Duas correntes principais
caracterizam o Existencialismo: a corrente ateísta com Heiddeger, Sartre, Merleau-Ponty
e a corrente teísta com Van Breda, Mercel e Jaspers, entre outros cujas raízes remontam
a Soren Kieekegard que defende o homem como um ser intimamente pessoal. Introduziu
alguns termos que caracterizou como próprios do mundo humano: a angústia, temor,
desesperação etc.
As origens da filosofia de Husserl (1859-1938) encontram-se provavelmente em
Platão, Leibnitz, Descartes e Brentano. Segundo este último, a psique é “intencional”.
A Fenomenologia passou por muitas transformações com os filósofos franceses,
alemães, norte-americanos e Ingleses. Estes últimos, na década de 70, iniciaram uma
corrente fundamentalmente de natureza sociológica que avançou no campo da educação
com implicações para o currículo escolar, pesquisa e ensino. O pensamento de Husserl é
conservado nos centros de Louvaina, na Bélgica, na Universidade Católica e na
Sociedade Fenomenológica Internacional em Búffalo, nos EUA, onde é regularmente
publicada a revista Filosofia e Investigações Psicológicas.
Husserl tentou inicialmente estruturar sua filosofia como uma ciência rigorosa.
Depois voltou-se para a investigação do “mundo vivido” pelos sujeitos considerados
isoladamente. A tarefa da Fenomenologia como uma ciência rigorosa deveria ser de
estabelecer as categorias puras do pensamento científico. Através desta, chegou-se a
“redução fenomenológica”, onde o fenômeno isento de elementos pessoais e culturais
estaria na categoria das “essências”, sendo a intencionalidade a idéia básica e
fundamental da Fenomenologia.
A Fenomenologia é o estudo das essências sem perder de vista a “facticidade” do
homem no mundo. Afirma que o mundo existe antes da reflexão e busca o contato
ingênuo com o mundo com a finalidade de lhe conferir um status filosófico. Trata-se de
descrever e não de explicar e nem de analisar. Esta conotação coloca o homem como
centro do universo epistemológico onde o conhecimento é sempre uma visão do sujeito
que conhece. A possibilidade do conhecimento não se encontra no conhecimento
transcende das ciências. Estas não são sistemas de verdades, mas apenas “fenômenos
de ciência”. Para se determinar a possibilidade do conhecimento, precisa-se da “redução
fenomenológica” que, segundo Husserl, é o segundo passo de método fenomenológico. O
primeiro é o questionamento do conhecimento. O que significa a suspensão, a colocação
entre parênteses das crenças e proposições sobre o mundo natural. A “redução
fenomenológica”, além da redução eidética que conclui as essências, apresenta a
redução transcendental. Através dela se questiona a existência mesma da consciência
que elimina o que a ela é dado e se dirige a sustentar sua pureza intencional, surgindo,
assim, segundo Husserl, a consciência pura. A intencionalidade afirma que não é
possível nenhum tipo de conhecimento se o entendimento não se sente atraído por algo,
concretamente, por um objeto.
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Husserl afirma que, através da “redução fenomenológica” se distingue entre o eu,
que tem uma vivência, a vivência e o mundo que pode estar influenciando o eu e a
vivência. Tal redução permite ter como dado a essência do fenômeno que se determina
por sua universalidade. Nesta perspectiva, a fenomenologia estuda o universal ou o que é
válido para todos os sujeitos. A dimensão a-histórica da fenomenologia tem sido ponto de
ataque dos seus adversários por perder a historicidade das condições geradoras dos
fatos, privilegiando sua singularidade existencial. A fenomenologia exalta a interpretação
do mundo que surge intencionalmente à nossa consciência. Por isso, na pesquisa, eleva
o ator com suas percepções dos fenômenos, sobre o observador positivista.
O contexto cultural onde se apresentam os fenômenos permite, através da
interpretação dos mesmos, estabelecer questionamentos, discussões dos pressupostos e
uma busca dos significados da intencionalidade do sujeito frente à realidade. Desta
maneira, o conhecer depende do mundo cultural do sujeito. A Fenomenologia ressalta a
idéia de “ser o mundo criado pela consciência”. A realidade é constituída socialmente. A
educação era vista principalmente como agente da socialização; na fenomenologia, a
própria socialização é considerada como uma relação recíproca. Pode-se afirmar que um
dos méritos da fenomenologia foi ter questionado os conhecimentos do positivismo,
elevando a importância do sujeito no processo da construção do conhecimento.

CONTEXTUALIZANDO AS CIÊNCIAS SOCIAIS

Nascidas no final do século passado, as Ciências Sociais se pautaram no


imaginário setecentista, que consistia em desenvolver um saber sistemático sobre a
realidade, com base no modelo temporal newtoniano e no dualismo cartesiano.
Marcada desde suas origens pelo empirismo das Ciências Naturais e pelo sistema de
metrificação das Ciências Matemáticas, ao longo do tempo as Ciências Sociais se
transformaram em metanarrativas de fundação e suporte da modernidade, sempre com o
objetivo de discernir os problemas dos agrupamentos humanos inseridos numa realidade
permanentemente cambiante.
A história das Ciências Sociais, como toda a história intelectual do século XIX foi
marcada por um processo de disciplinarização que consistia em produzir conhecimentos e
reproduzir reprodutores deste conhecimento no âmbito das universidades e instituições de
ensino. Esta disciplinarização deu-se com o intuito de garantir e fazer avançar um
conhecimento objetivo sobre a realidade com base nas descobertas empíricas.
Michel Foucault em sua obra As palavras e as coisas, traçou um perfil do que
seriam as Ciências Humanas (e Sociais) no plano geral dos saberes. Para este autor, o
aparecimento das Ciências Humanas coincide com o aparecimento do conceito de
Homem na cultura ocidental, possibilitado pelo surgimento de conceitos como vida,
linguagem e trabalho. Em sua arqueologia, Foucault advoga a tese que estes saberes não
se adaptavam ao modelo de ciência em vigor desde o século XVII, restrito aos cânones
da observação, teste e repetição. Ao afirmar que o senso comum contém saberes que
podem ser considerados científicos e que a lógica de construção destes saberes implica
em algum tipo de mérito, em algum grau de confiabilidade, ele deu um novo significado a
apreensão do real, a formulação de teorias e métodos de investigação do social.
Dentro deste processo, as Ciências Sociais imprimiram o caráter de cientificidade
ao estudo das representações sociais e dos saberes produzidos através do processo
comunicativo. A ciência do homem tornou-se possível pelas representações que
indivíduos ou sociedades têm de suas relações de produção, dos modos como tal
produção se processa, bem como dos mecanismos que a implementam. Estas mudanças
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implicam em uma outra, significativa: O objeto das Ciências Humanas passou a ser aquilo
que é simbolizado pelo homem, não o próprio homem. Os espaços sociais deixam de ser
analisados pelo viés restritivo do modelo newtoniano para ganharem o status de palcos
abertos de realização da criatividade humana. Espaços multifacetados, frutos de uma
ampla gama de ações, interações, ritmos e pulsações que lançam um novo olhar sobre as
práticas sociais dos grupos através do simbólico.
Os modelos teóricos construídos entre os séculos XIX e XX se exauriram,
possibilitando com isso muito mais que o aparecimento de novas teorias, mas o
afloramento de um novo paradigma, o da complexidade. As recentes transformações,
ocorridas em níveis planetários, exigem das Ciências Sociais uma maleabilidade prática e
uma capacidade teórica ainda maior que outras áreas do conhecimento, no sentido de
responder aos desafios impostos por uma sociedade de alta complexidade.

CIÊNCIA EMPÍRICA:

É um tipo de conhecimento (teoria) que assume a margem de erro (probabilidade) e que


se produz através de um método de observação sistemática de fenômenos observáveis, é
passível de refutação e replicabilidade com objetivo de conhecer a realidade,
possibilitando controlar e prever os eventos nela existentes.

Critérios de cientificidade:
 Estuda fenômenos observáveis;
 Sistematização no processo de busca do conhecimento;
 Probabilidade – refletindo a possibilidade de falhas humanas, instrumentais e de
pouca estática dos fenômenos observáveis;
 Constituída por um discurso lógico dos fatos -> teoria
 Critérios da refutabilidade (Popper 1974, 1982, 1988) – possibilidade de
contestação, negação. Expõe as condições em que a afirmativa deixaria de ser
verdadeira;
 Critérios da replicabilidade (Sinotmam, 1976) – obtenção do mesmo resultado
seguindo o método do cientista que chegou ao conhecimento.

Objetivos da ciência:
 Explicar como os fenômenos se comportam (primordia);
 Compreender a lógica da natureza;
 Estabelecer leis e teorias sobre a relação entre fenômenos empíricos;
 Conhecer a realidade com a finalidade de controlar e prever eventos nela
existentes.

A ciência é um sistema de conhecimento cujo objetivo de estudo são os fenômenos


observáveis (na psicologia o objeto é o indivíduo, na sociologia é o grupo), usando como
método a observação empírica, cujo produto do conhecimento é a teoria.
 Sistema de conhecimento – Ciência
 Objeto de estudo – Fenômenos observáveis
 Método – Observação empírica
 Produto do conhecimento – Teoria

Seqüência da cientificidade:
1o ) Hipóteses – são eventos da realidade, deve ser sintética e unívoca (não contraditória,
condicionais ou infinitas), devendo expressar um único resultado possível;
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2 ) Teste empírico das hipóteses – hipótese confrontada com a realidade, utilizando
o

métodos e técnicas para coleta de dados e avaliação estatística (critério da


probabilidade);
3o ) Coleta de dados
4o ) Confronto dos resultados com a hipótese – se confirmada temos os fatos;
5o) Reunião lógica dos fatos – teoria que é a explicação lógica dos fenômenos da
realidade.
A teoria científica cumpre o critério da refutabilidade através da replicabilidade.

ESTUDOS QUALITATIVOS E QUANTITATIVOS:

Pesquisa qualitativa:
 Estuda aspectos subjetivos-qualitativos.
 É de índole interpretativa, se realiza com grupos pequenos,
 Participação ativa do pesquisador e investigado.
 As de maior uso são: participativa, pesquisa-ação e etnográfica.

Pesquisa quantitativa:
 Variáveis se selecionam e se definem de antemão;
 Confiabilidade na informação, se realiza com grupos grandes,
 Análise causal-correlacional
 Expoentes fundamentais:
o Descritiva – Não tem hipóteses. Fase preparatória, permite ordenar os
componentes do estudo,
o Analítica – Compara variáveis entre grupos de estudo e controle sem
manipular variáveis,
o Experimental – Grupos divididos aleatoriamente em controle e de estudo e
são analisados com respeito a um fator medida introduzido pelo
investigador.

O debate qualitativo X quantitativo:


o Uma das polêmicas – é a inseparabilidade do qualitativo do quantitativo;
o O termo qualitativo quando usado diz apenas que o estudo vai abordar além
da quantidade e na análise quantitativa indiretamente é feita uma análise de
qualidade de acordo com os resultados quantificados;
o O termo qualitativo faz uma oposição ao positivismo;
o O significado do termo amplo epistemológico, metodológico, instrumental.
o As bases epistemológicas da pesquisa qualitativa são diferentes da
quantitativa:
 Qualitativa -A perspectiva dialética - Marxista (sociológica)
 Quantitativa - O paradigma cognitivista vai basear as pesquisas
quantitativas – antes era o positivismo ( Positivismo – antes e
cognitivismo atualmente)
o A pesquisa qualitativa é uma oposição ao positivismo.

Estudos Qualitativos:

Enfoques na Pesquisa Qualitativa:

1. Enfoque nos aspectos subjetivistas e compreensivistas -> Põe ênfase nos fatores
conscienciais e subjetivistas dos atores;
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2. Enfoques Críticos participativos -> Adota uma visão histórico-estrutural para
conhecer a realidade para transformá-la em processos contextuais.

Construção do objetivo no método qualitativo:

 Fenômeno – está no dia a dia;


 Objeto – é retirado do fenômeno;
 Etnografia- técnica vinda da antropologia para estudar a singularidade dos
povos, ou seja, das tribos.

Pressupostos da etnografia:

1. Ecológico Naturalista:
 Influência do ambiente nos atores;
 O ambiente natural tem um valor primordial na compreensão das atividades das
pessoas.

2. Fenomenológico:
O comportamento humano muitas vezes tem mais significado do que os fatos pelos
quais eles se manifestam, daí a necessidade de descobrir as características culturais
dos participantes da pesquisa.

Estes dois pressupostos dão origem a duas características dos métodos qualitativos:
 Ambiente Natural
 Importância de significado

São cinco as características do método qualitativo (Bogdan, 1982):


1. Ênfase no ambiente natural;
2. A pesquisa é descritiva – procura captar além dos fenômenos, a sua
essência (que é o significado);
3. Preocupação com o PROCESSO e NÃO somente com aos RESULTADOS
e o PRODUTO;
4. A análise dos dados é feita individualmente – o fenômeno social é explicado
no processo dialético e compreendido na sua totalidade
5. O SIGNIFICADO é a maior preocupação no método qualitativo.

Técnicas de Coleta:
 Entrevista;
 Observação;
 Grupo de discussão;
 Grupo focal

Técnicas de análise:
 Análise de conteúdo
 Análise de discurso
 Análise documental

Técnicas de Coleta de Dados:


1. Entrevista:
o Fechada ou estruturada – é feito um roteiro padrão para as entrevistas
o Semi aberta – as perguntas são elaboradas e deixam em aberto
o Aberta – não é feito pergunta prévia, elas surgem na conversa
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 Inicial
 Subseqüente

2. Observação - Filmagem
3. Grupo de discurso – discutir temas variados
4. Grupo focal – discutir o tema central

Técnicas de Análise:
1. Análise de conteúdo (proposta de Bardin) – Princípio de saturação -> em uma
entrevista quando as respostas começam a se repetir ela pode ser suspensa, este
é o limite da coleta de dados.

2. Análise do conteúdo : transcreve a entrevista, depois elabora categorias, depois faz


a análise de cada categoria.

Para Minaÿo a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas:


1. Universo – diz respeito ao material que é coletado;
2. Juízes – as pessoas que vão elaborar as categorias (vão categorizar)
3. Categorias – aspectos importantes:
 Leitura flutuante – só lê o material (identifica palavras chaves)
 Fazer releitura – identificando categorias e sub-categorias
 Análise das categorias
3. Análise do discurso – analisa o discurso do sujeito buscando ver o contexto em que
ele está inserido e às vezes c/ análise de documento (não é assunto da prova)
4. Análise documental

Pesquisa Participante – quando o pesquisador participa no ambiente da pesquisa. Age


como facilitador, observa e faz a pesquisa.

Pesquisa ação – o pesquisador teria o objetivo de facilitar o processo, onde o objetivo é


solucionar o problema, o pesquisador age como mediador.