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Apontamentos sobre a noção historiográfica de construção social dos regimes autoritários:

re-posicionando a questão do esquecimento e da formação


DANIEL PINHA SILVA1*

O objetivo principal deste texto é trazer alguns apontamentos preliminares acerca das
noções de construção social dos regimes autoritários e ditadura civil-militar como chaves de
leitura historiográfica para a compreensão da experiência da Ditadura Militar brasileira –
tomando como referência principal os trabalhos recentes do historiador Daniel Aarão Reis
Filho. Deste modo, a comunicação opera, fundamentalmente, com as contribuições de
Andréas Huyssen acerca dos usos e abusos do esquecimento público, com vistas à formação
de uma sociedade democrática pós-experiência ditatorial. Por se tratar de um tema de
dimensão pública, capaz de afetar uma comunidade de leitores que ultrapassa os limites do
debate acadêmico-disciplinar, o presente trabalho põe em evidência as disputas de memória e
os efeitos por parte de possíveis leitores do tempo presente, incitados a partir da escrita da
história propriamente acadêmica. Deste modo e em diálogo com as proposições de Huyssen,
realizo apontamentos que requalificam a dimensão do esquecimento no jogo da memória, em
função das necessidades de formação de uma nova cultura democrática por parte dos leitores
do tempo presente.
Este é um ponto que não escapa ao propósito historiográfico de Daniel Aarão Reis e
de sua formulação acerca da construção social dos regimes autoritários: o problema da
formação do leitor do tempo presente compõe, de maneira decisiva, o acento acerca da
participação civil na construção da Ditadura Militar brasileira. No entanto, ao enfatizar a
posição antidemocrática dos militantes de oposição ao regime que optaram pela luta armada
revolucionária e a construção de uma memória de vitimização constituída a partir da atuação
deles, esta chave analítica se arrisca a, não apenas distanciar-se de seu propósito formador de
uma cultura democrática no tempo presente, como também, arrisca-se a amenizar a força das
relações assimétricas existentes entre Estado e sociedade constituintes do período ditatorial.
Ao tratar dos usos públicos da memória – por meio da analise dos casos alemão pós
nazismo e argentino pós ditadura – Huyssen destaca pontos que elucidam novas formas de
pensar o caso brasileiro. O que está em jogo nesse sentido é a compreensão de um
esquecimento que não conduz a uma posição conciliatória – tal como proposta pela Lei de
Anistia brasileira de 1979 – mas, ao contrário, um esquecimento necessário e capaz de
1
Professor dos Departamentos de História da UERJ e da PUC-Rio. Doutor em História Social da Cultura pela
PUC-Rio
fecundar uma condição de ruptura democrática que, a partir do reconhecimento da assimetria
das relações entre Estado e sociedade característicos do período ditatorial, requalifica os
lugares das vítimas da Ditadura – incluindo os militantes de luta armada.

1. Duras verdades brasileiras e o propósito formador da escrita da história

Inicialmente tratarei da reivindicação formadora presente na chave de análise proposta


por Daniel Aarão Reis acerca da construção social dos regimes autoritários. Em um texto
publicado no conjunto dos eventos e comemorações em torno dos quarenta anos do Golpe
Militar de 1964, Daniel Aarão Reis acentua as dificuldades de a sociedade brasileira enfrentar
as lembranças do apoio no passado a um regime político amplamente condenado no presente,
ou seja, ver-se associada a uma experiência ditatorial.

A sociedade brasileira, depois que aderiu aos valores e às instituições democráticas, enfrenta
grandes dificuldades em compreender como participou, num passado ainda muito recente, da
construção de uma ditadura, que definiu a tortura como política de Estado. E, apesar de o
regime ter sido considerado abominável, não o expulsou a pedradas ou a tiros, antes
compadeceu-se de um processo de transição pelo alto,lento, seguro e gradual e de uma
anistia recíproca. Mas a ditadura militar, não há como nega-lo, por mais que seja doloroso,
foi um processo de construção histórico-social, não um acidente de percurso. Foi processada
pelos brasileiros, não imposta, ou inventada, por marcianos. Reconhecê-lo pode ser um
exercício preliminar para compreender seus profundos fundamentos históricos e sociais e
para criar condições para que o abominável não volte a assombrar e a atormentar a história
destes brasis. (REIS, 2004: 50)

Neste trecho, ficam evidentes alguns dos pontos persistentes na análise de Reis acerca da
experiência da Ditadura Militar Brasileira e que conduzem a duras constatações para uma
sociedade brasileira que condena a experiência ditatorial: 1) o acento à violência cometida
pelo Estado neste período e, por conseguinte, as dificuldades da sociedade assumir, em meio à
vigência dos valores democráticos, a responsabilidade de participação em um regime que
praticou uma violência sistêmica contra os seus cidadãos, isto é, a dura constatação de que a
sociedade brasileira construiu a ditadura; 2) os militares conduziram o processo de
redemocratização, incluindo a aprovação de uma lei de anistia recíproca, capaz de perdoar,
igualmente, crimes e violações cometidas por agentes do Estado e militantes de luta armada, o
que leva à dura constatação de que a democracia estabeleceu-se a partir de vínculos de
continuidade com a ditadura; 3) o reconhecimento de que a ditadura é uma construção social
operada por brasileiros, elevando ao primeiro plano o protagonismo e a capacidade de
intervenção política dos atores históricos na ação política, privilégio este que se sobrepõe a

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uma visão de história totalizadora e processual, capaz de mover-se autonomamente e de
isentar ou anular o espaço de atuação política dos sujeitos históricos. Neste sentido, para Reis,
a história seria resultado de ações humanas: eis uma constatação que se torna dura na medida
em que esta ação humana teria provocado a existência de um regime produtor de uma
hegemonia da violência, do silenciamento e da prática da tortura. No entanto, neste último
ponto, Aarão Reis evidencia um princípio ético formativo para a escrita da história, ao
assegurar que a compreensão dos fundamentais históricos-sociais, tarefa da escrita da história,
é capaz de “criar condições para que o abominável não volte a assombrar e a atormentar a
história destes brasis”. Desta maneira, Reis não recusa uma função pedagógica para a escrita
da história, enaltecendo a capacidade da historia elucidar formas de evitar que regimes
autoritários possam voltar a acontecer no futuro; isto é, à escrita da história caberia sim uma
possibilidade orientadora.
É tendo em vista a mobilização de Reis acerca deste potencial orientador da produção
historiográfica que devemos ler a passagem abaixo, extraída de seu livro mais recente, agora
em comemoração, em 2014, aos cinqüenta anos do golpe de 64. A apresentação de duras
verdades continua sendo uma tópica privilegiada e, desta vez, ele afirma a fragilidade das
dicotomias que compõem a memória sobre a ditadura.

“Como já ocorreu muitas vezes na história, ao virar as costas para o passado ditatorial e
empreender a construção de uma alternativa, grande parte da sociedade brasileira preferiu
demonizar a ditadura vigente nos anos anteriores e celebrar novos valores – democráticos.
Tais valores, aliás segundo diferentes diferentes, mas convergentes versões, nunca teriam sido
revogados da consciência nacional. O país fora, pura e simplesmente, subjugado e reprimido
por um regime ditatorial denunciado agora como uma espécie de força estranha e externa.
Como uma chapa de metal pesado, caída sobre vontades e pensamentos que aspiravam à
liberdade. (...) Numa arquitetura simplificada, muitos se confortavam com raciocínios
polarizados. Opressão e liberdade. Ditadura e democracia. Repressão e resistência. Esta
última palavra tornou-se um mote, repetido à exaustão. A sociedade fora silenciada pela
força e pelo medo da repressão. Mas resistira. Por diferentes meios e caminhos, inúmeras
vezes em silêncio, articulando os mais diferentes setores. Assim, a luta revolucionária contra
a ditadura seria reinterpretada como uma forma de resistência ao absoluto fechamento do
regime, uma tentativa imposta pela ausência de brechas institucionais que viabilizassem, de
algum modo, as lutas democráticas, uma reação desesperada à falta de alternativas. Como se
coubesse à ditadura a responsabilidade pela luta armada.” (REIS, 2014: 8-9)

Aqui o autor afirma a existência de dicotomias que, a um só tempo, reduzem a complexidade


da compreensão dos acontecimentos – “arquitetura simplificada”, “raciocínio polarizado” –
isentando a responsabilidade de ação por parte de quem apoiou a ditadura. Além disso,
existiria uma versão hegemônica consolidada na memória coletiva sobre a ditadura de que as
esquerdas armadas saíram vitoriosas nas batalhas de memória, ainda que derrotadas em sua

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agenda política revolucionária – “Assim, as esquerdas, derrotadas no campo dos enfrentamos
sociais, puderam ressurgir vitoriosas nas batalhas de memória” (REIS, 2004: 40). Tal visão
constitui-se por meio da produção discursiva de um processo de vitimização que, ao fim e ao
cabo, isentava de responsabilidade de ação (também) a ação das esquerdas armadas. Eis a
retomada de um ponto caro às analises anteriores de Reis2 (REIS 1990, 2000, 2004): a
memória hegemônica pós ditadura teria negado a existência de uma ofensiva revolucionária
por parte das esquerdas armadas, como se estas estivessem apenas reagindo a um contexto
violento construído pela Ditadura. Trata-se, portanto, de um segundo princípio de isenção.
Nega-se por meio destas memórias que a luta armada tivesse intenções revolucionárias
anteriores ao próprio estabelecimento da Ditadura Militar, ou que elas se contentassem
meramente com o restabelecimento das instituições democráticas suspensas em 64; ou seja, o
projeto revolucionário de rompimento com o modelo capitalista de produção sucumbira a um
impulso vitimista, que passou a identificar na própria ação apenas a égide da “resistência”: eis
o cerne do incômodo do historiador, a partir do qual ele desenvolve o argumento presente na
introdução de seu último livro sobre o tema, citada aqui e intitulada “Ditadura no Brasil, uma
incômoda e contraditaria memória”. O autor afirma, “como se coubesse à ditadura a
responsabilidade pela luta armada”, deixando para seu leitor contemporâneo que não, que a
responsabilidade pela luta armada era dos seus próprios agentes; e se estes agiram assim no
passado, deveriam assumir esta responsabilidade no presente.

2. Vitimização da oposição à Ditadura e esquecimentos públicos voltados à formação

E assim ele avança no argumento acerca de uma escolha deliberada pela construção de
um discurso vitimizador das esquerdas, dando como exemplo, a publicação, em 1985, do livro
Brasil: nunca mais, de D.Paulo Evaristo Arns.

“A vitimização dos que lutaram contra a ditadura e a vigorosa denúncia contra ela
ganhariam uma obra de síntese quando veio à luz, alguns anos mais tarde, o livro Brasil:
nunca mais. Um longo trabalho preparado desde fins dos anos 1970, sob os auspúcios da
Arquiocese de São Paulo. Oferecia-se ali, com base nos processos arquivados no Supremo
Tribunal Militar (STM), copiados em segredo, uma sistematização fundamentada das
denúncias contra as violações dos mais elementares direitos humanos, perpetrados pela
‘comunidade de informações’, com a cumplicidade, ativa e passiva, dos tribunais, militares e
civis, e do conjunto das instituições republicanas. Os perseguidos pela mão pesada da
ditadura não passavam de vítimas, torturadas, exiladas e assassinadas por um regime cruel e
desumano.” (Idem, 9)

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Citar livros de Reis sobre.

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“Nesse quadro complexo de memórias diferenciadas e contraditórias, não se pode ignorar, no
entanto, a predominância, largamente hegemônica, das referências propostas e fixadas em
1985 pelo Brasil: nunca mais. Elas se tornaram uma espécie de lugar comum. Habitam
discursos políticos, livros didáticos, filmes e materiais diversos de análise e divulgação.
Podem ser sintetizadas numa tese: a sociedade brasileira viveu a ditadura como um pesadelo
que é preciso exorcizar.” (Idem, 13)

Esta versão se tornaria, posteriormente, a hegemônica e a porta de entrada para análise da


ditadura brasileira. O contraponto não tivera o mesmo sucesso. Em reação à comoção
produzida acerca de Brasil: nunca mais, o ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves
autorizou a realização de um projeto chamado Ovril, cujo objetivo seria apresentar a versão
dos militares acerca dos acontecimentos que envolveram o golpe e a ação dos militares contra
seus opositores. Um texto que, ao cabo, não fora publicado, por ser considerado inconveniente
diante das circunstâncias.

“Na segunda metade dos anos 1980, reagindo à comoção, às polêmicas e às acusações
suscitadas por Brasil: nunca mais, o ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves,
autorizou, em 1985, a Seção de Informações do Centro de Informações do Exército (CIE) a
preparar versão própria dos acontecimentos. Tomou corpo, então o chamado Projeto Ovril
(‘livro’, ao contrário), que resultou, dois anos depois, num volumoso trabalho de quase mil
páginas, justificando o golpe e explicando a ditadura como recurso último e legítimo contra
ações esquerdistas que desembocariam, caso não fossem contidas pela violência, na
instauração de uma ditadura socialista no país. Considerado inconveniente nas circunstâncias,
o texto acabou não sendo divulgado.” (Idem, 11)

Três considerações se fazem necessárias diante da exposição dos argumentos


apresentados por Reis. A primeira diz respeito a uma generalização da categoria “esquerdas”,
como se a estas correspondessem exclusivamente aos grupos que adotaram a tática da luta
armada como forma de combate de combate à Ditadura Militar – ou, em outras palavras,
como se coubesse aos grupos de luta armada a exclusividade do combate à Ditadura. Com
Maria Paula N. Araújo (2007) é possível identificar a diversidade de movimentos contrários
ao regime e que adotaram diferentes táticas de enfrentamento – inclusive, mas não somente, a
luta armada revolucionária. Ou seja, a luta anti-ditatorial no final de década de 1970 reuniu
diferentes atores políticos – organizações da sociedade civil como Ordem dos Advogados do
Brasil e Associação Brasileira de Imprensa, movimento estudantil, sindicatos, dentre outros –
que construíram um arco ampliado de oposição, definidora de uma concepção de democracia
que se instituiu em completa oposição às heranças deixadas pelos militares, ainda que a eles
tenha cabido o protagonismo da transição política. Portanto, as antíteses “opressão e
liberdade”, “ditadura e democracia”, “ repressão e resistência” poderiam caber nos discursos
políticos dos militares e de seus opositores da luta armada revolucionária, tendo em vista uma

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recepção brasileira do vocabulário político da Guerra Fria. No entanto, esta não é seria
suficiente para compreender a formação do discurso hegemônico em torno da resistência à
Ditadura. Em outras palavras, não era necessário assumir um discurso e um projeto comunista
ou revolucionário para aderir às lutas anti-ditatoriais, e é esta concepção andi-ditatorial a que
compõe o fio predominante na narrativa presente em Brasil: nunca mais. Afinal, as medidas
tomadas pelos militares implicaram não apenas na antecipação e combate a uma possível
revolução comunista, mas também na suspensão do estado liberal de direitos instituído pela
Constituição de 1946 (TOLEDO, 2004); logo, a oposição à Ditadura Militar se constituíra
também, desde os seus primórdios, em termos de uma luta pela restauração dos princípios
democrático-liberais suspensos desde 1964.
A segunda consideração se refere ao papel específico da luta armada revolucionária e a
adequação do termo “resistência” a essa atuação. Para este caso vale lembrar a análise de
Marcelo Ridenti (2004). Para Ridenti, qualificar de democrática à luta armada revolucionária
é inadequado porque o sentido da ação da luta armada revolucionária não era o retorno à
democracia liberal-representativa suspensa em 64, mas sim a proposição de uma ruptura mais
ampla, tendo em vista a superação do modo de produção capitalista. Neste sentido, a luta
armada revolucionária não dependeria do golpe e da Ditadura Militar para existir e propor
uma atitude ofensiva – para usar os termos de Daniel Aarão Reis – porque o próprio regime
constitucional de 1946 não contemplava às suas aspirações. Desse modo, a noção de
“resistência democrática” encobriria o projeto de Revolução subjacente às ações da luta
armada. Entretanto, tal observação não tornaria inadequado o emprego do termo “resistência”
(RIDENTI, 2004: 40): em condição de desvantagem desde que a suspensão de direitos foi
operada efetivamente pelos militares apoiados pelas direitas, os militantes de luta armada
promoviam, indubitavelmente, ações de resistência, tendo em vista a assimetria existente
entre Estado e Sociedade, marca definidora das relações ditatoriais. Neste sentido, considerar
equivalentes as ações de violência política empreendidas pelo governo e pela oposição
armada é incorrer no risco de anular a própria condição de assimetria constituinte da Ditadura
Militar – como se este contexto admitisse algum tipo de manifestação pública contrária, ou se
as relações entre Estado e sociedade deste contexto admitissem a existência de um pacto entre
iguais.
A terceira consideração que gostaria de fazer diz respeito às relações entre memória,
escrita da história e formação. Conforme vimos linhas acima, Daniel Aarão Reis não deixa de
reivindicar para a escrita da história uma dimensão formativa e orientadora. De pronto, uma
pergunta sobressalta: a qual princípio democrático/formador do leitor contemporâneo orienta-

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se a análise de Reis, no momento em que ele questiona o esquecimento público da versão dos
militares organizada por Leônidas Pires Gonçalves? O que a versão militar mobilizaria a favor
da afirmação de um regime democrático na década de 1980? Isto porque, o propósito da
publicação de Brasil: nunca mais em 1985 parece ser o mesmo apresentado pelo historiador
no livro em comemoração aos 40 anos do Golpe. Ou seja, nas palavras de Reis, repetindo
passagem já destacada aqui:

[A Ditadura Militar] Foi processada pelos brasileiros, não imposta, ou inventada, por
marcianos. Reconhecê-lo pode ser um exercício preliminar para compreender seus profundos
fundamentos históricos e sociais e para criar condições para que o abominável não volte a
assombrar e a atormentar a história destes brasis. (REIS, 2004: 50)

A diferença de um e de outro é, portanto, estratégica, mas estão longe de se anularem: para


Reis à escrita da história convém pôr em evidência a existência de duras realidades brasileiras,
dentre as quais, a principal, a de que a Ditadura contou com participação de civis em seu
apoio; em Brasil: Nunca Mais, a questão central era tornar pública uma narrativa acerca das
diferentes formas de violência desencadeadas pelo regime. Ambas operam com a lógica do
Nunca Mais. E é provável que o texto de Pires Gonçalves tenha sido considerado
inconveniente nas circunstâncias da década de oitenta, com base nesta mesma prerrogativa.
Em jogo, estão disputas políticas em torno do esquecimento público e esquecimentos
de diferente natureza: esquecimento da violência cometida pela luta armada, tomada pela
memória antiditadura como, prioritariamente, vítima da violência cometida pelo Estado, posto
que isso garantisse o lugar de resistência atribuído a ela (luta armada) e a afirmação da
condição de assimetria existente entre Estado e Sociedade durante a vigência da Ditadura;
esquecimento/apagamento da versão dos militares no debate público democrático, tendo em
vista o quanto esta versão poderia despertar sentimentos contrários ao propósito formador da
democracia, ainda incipiente daquele contexto da década de oitenta.
Neste sentido, a contribuição de Andreas Huyssen (2014) é fundamental. No texto
“Resistência à memória: usos e abusos do esquecimento público”, Huyssen destaca a
centralidade do esquecimento nas operações de memória, por vezes malvisto e descrito como
disfunção, distorção ou falha da memória (HUYSSEN, 2014: 155). Enquanto “a memória
parece exigir esforço e trabalho o esquecimento, por outro lado, apenas acontece.” (Idem,
157). Para Huyssen, no entanto, o esquecimento é crucial para o conflito e a resolução de
narrativas que compõem a vida pública e a vida íntima. Mobilizando as distinções de
esquecimento desenvolvidas por Paul Ricouer em A memória, a história, o esquecimento –

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esquecimento como memória impedida, memória manipulada e como esquecimento
obrigatório – Huyssen destaca, além do caso alemão pós-nazismo para pensar o esquecimento
obrigatório, o caso argentino no pós Ditadura Militar para pensar no caso da memória
manipulada. Sobre o caso argentino, que nos interessa mais imediatamente, afirma Huyssen:

“Desde o fim da ditadura militar, em 1983, o país se engaja numa luta política, juridíca e
simbólica para não esquecer o destino dos ‘desaparecidos’ – as cerca de 30 mil vitimas do
terrorismo de Estado perpetrado pela ditadura militar e seus esquadrões de morte nos anos
1976-1983. O esquecimento era claramente atraente para grande parte da sociedade argentina,
depois da queda do regime, em 1983. Mas a intensa luta pelos direitos humanos travada para
se reconhecer a criminalidade do regime militar mostrou-se bem sucedida, no cômputo geral.”
(Idem, 161)

Trata-se de um caso claro de operação de memória/lembrança, tendo em vista a fecundidade


de um novo regime democrático: um Nunca mais, que salienta a dimensão da ruptura e
requisita a memória dos perseguidos pelo regime. Tendo em vista as necessidades de
afirmação democrática do presente, o lema em torno da defesa dos direitos humanos tornou
universal uma causa que seria, a princípio, de quem apenas sofreu diretamente com a
violência cometida pelo Estado.
Tornou-se importante, de um ponto de vista político, que a sociedade argentina
firmasse um pacto nacional democrático capaz de estabelecer um corte, partindo do
reconhecimento dos crimes cometidos pelos agentes da ditadura. Por outro lado, optou-se
claramente por um esquecimento da violência cometida pelos militantes de luta armada
revolucionária, sem que, com isso, eles se tornassem os protagonistas da democracia ou
heróis da resistência. Tornar equivalente, por meio da disputa narrativa, os crimes do Estado
e da resistência seria uma forma de equiparar o incomparável, isto é, uma relação baseada na
assimetria: a violência cometida por setores da oposição que optavam pela resistência armada
e a violência cometida por um Estado que se fundava na negação dos mecanismos formais de
oposição ao regime – tendo em conta, neste sentido, os termos do modelo democrático liberal-
representativo, isto é, a negação de mecanismos tais como eleições, partidos, direitos
políticos, livre manifestação da oposição, dentre outros. Mesmo que os segmentos da
esquerda armada não projetassem este futuro democrático, eles não se tornaram menos
vítimas do regime. Em outras palavras, a opção político-ideológica de luta não poderia ser
considerada um critério capaz de atenuar o impacto da violência de Estado – a não ser que a
opção fosse seguir a posição narrativa privilegiada pelos ditadores.

“No nível narrativo, o relatório Nunca más estabeleceu a figura do desaparecido como uma
vítima inocente do terrorismo de Estado. Essa estratégia “esqueceu” a dimensão política da

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insurgência esquerdista que a ditadura militar vinha tentando extirpar. Esse esquecimento foi
necessário, na época, por duas razões: primeiro, foi necessário para invalidar os argumentos
apresentados pela defesa dos generais, que se baseavam na idéia de que o golpe e a repressão
tinham sido causados pelo terrorismo armado da esquerda radical. (...) Segundo e mais
importante, foi necessário para permitir que toda a sociedade argentina, inclusive os não
participantes e os beneficiários da própria ditadura, se congregassem em torno de um novo
consenso nacional: a separação clara entre criminosos e vitimas, culpados e inocentes. (...)
“É claro que o relatório da Comissão havia condenado explicitamente todas as formas de
violência armada, tanto do Estado quanto da guerrilha de esquerda. Mas, ao transformar todos
os 30 mil desaparecidos em vítimas passivas, ele apagou a história política do conflito, junto
com as filiações políticas dos indivíduos.” (Idem, 163)

3. Conclusões provisórias e uma provocação

O que estava em jogo, portanto, não era estabelecer uma distinção acerca de qual era a
convicção ideológica do corpo morto pela ditadura, tampouco o modo pelo qual esse corpo,
quando vivo, optou por resistir à Ditadura. A defesa central do Nunca Más nesta batalha de
memória era a construção de uma narrativa que acentuasse a violência cometida pelo Estado
contra cidadãos argentinos, em meio a um regime que se legitimava por meio da violência
sistêmica. Eis o sentido de uma memória que produz esquecimentos públicos com vistas à
formação de uma sociedade com valores democráticos.
Ao historiador cumpre, sem dúvida, o papel de problematizar a construção e as
batalhas de memória, estabelecendo critérios específicos de definição da verdade por meio da
história disciplinar – eis uma das primeiras lições deste ofício. Encerro esta comunicação com
uma pergunta/provocação, evocando a tópica da dura realidade, muitas vezes retomada pelo
historiador Daniel Aarão Reis; não uma dura realidade acerca das relações entre sociedade
brasileira e seus vínculos com a Ditadura, mas sobre a dura realidade acerca do próprio lugar
dos historiadores nesse debate. Pergunto: caberia ao historiador, ao tratar de temas de
interesse público – voltados, desse modo, para uma comunidade mais ampla de leitores,
acadêmicos ou não – caberia a ele inibir a vocação formadora da escrita da história em nome
de um confronto com a memória? Em nome de qual princípio de formação é válido o
questionamento historiográfico a uma memória que não se solidificou como memória das
esquerdas, mas sim como memória anti-ditatorial fundadora de um novo regime democrático?

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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