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OS PIONEIROS DE ROCHDALE E AS DISTORÇÕES DO COOPERATIVISMO NA AMÉRICA LATINA

E AS DISTORÇÕES DO COOPERATIVISMO NA AMÉRICA LATINA Ivete Manetzeder Keil Silvio Tavares Monteiro São Leopoldo
E AS DISTORÇÕES DO COOPERATIVISMO NA AMÉRICA LATINA Ivete Manetzeder Keil Silvio Tavares Monteiro São Leopoldo

Ivete Manetzeder Keil Silvio Tavares Monteiro

São Leopoldo (RS), Agosto de 1982.

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1. OS PIONEIROS DE ROCHDALE, OS PRECURSORES DO MITO

A opressora dinâmica social dos anos 40 do século XIX na Inglaterra,

baseada numa violenta exploração do trabalho e alta remuneração do capital, define um campo fértil para os sentimentos e experiências socialistas, como a de Rochdale, baseada nas idéias de Robert Owen.

Num contexto de desemprego e de fome, os operários e artesãos de Rochdale, num número de vinte e oito, fundam em 1843 uma sociedade baseada na ajuda mútua, visando a melhoria de suas condições de vida e bem estar comum que, segundo seus fundadores, propunha:

Abrir um armazém para a venda de provisões, roupas, etc

Comprar ou construir um certo número de casas, destinadas aos membros que desejam ajudar-se mutuamente para melhorar sua condição doméstica ou social.

Iniciar a fabricação dos artigos que a sociedade estimar conveniente para proporcionar trabalho aos membros que estiverem desocupados ou sujeitos a repetidas reduções de seus salários;

A fim de dar a seus membros mais segurança e maior bem estar, a sociedade comprará e adquirirá terras que serão cultivadas pelos sócios desocupados ou cujo trabalho for mal remunerado;

Tão logo seja possível a Sociedade procederá a organizar as forças da produção, da distribuição, da educação e do seu próprio governo; ou, em outros termos, estabelecerá uma colônia que se bastará a si mesma

e na qual os interesses estarão unidos. A Sociedade ajudará a outras

sociedades cooperativas para estabelecer colônias similares; A fim de propagar a sobriedade a Sociedade estabelecerá, tão logo seja possível,

um salão de combate aos vícios.

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Assim, criava-se, em 1843 a SOCIEDADE DOS PROBOS PIONEIROS DE ROCHDALE, cujas intenções globais transcrevemos acima e que demonstram não apenas sua ambição como uma tentativa de transformação radical da sociedade em que viviam.

O movimento reformador dos Pioneiros reflete de forma clara uma postura altamente democrática, humanística, deixando antever uma clara postura contrária e de resistência à forma individualista e desumana com que o capitalismo da época agia.

Embora suas atividades iniciais tenham sido cheias de dificuldades, e isto é amplamente divulgado por toda literatura, os Pioneiros prosseguiram em seu intento de criar condições alternativas para a sua sobrevivência como indivíduos através de uma ação grupal. A sistemática de reuniões semanais, visando a discussão e operacionalização da cooperação, reforçam a prática de uma democracia direta, isto é, de auto-gestão.

Sua posição social – tecelões, alfaiates, impressores, vendedores

– criava um posicionamento político onde socialistas,

cartistas e mesmo neutros conviviam tendo como proposta comum a necessidade de agir coletivamente para melhorar suas condições de vida,

compreendendo a necessidade da criação de uma atividade que fosse o germem inicial de uma transformação radical na sociedade de sua época.

ambulantes, etc,

A lenta e difícil operacionalização de suas intenções ocorre, como todos sabem, através de um armazém de consumo cooperativo, e pela aplicabilidade de seus notórios princípios:

Adesão livre

Controle democrático

Retorno dos excedentes em proporção às operações

Taxa limitada de juros ao capital social

Neutralidade política, religiosa, etc

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Educação cooperativista

Integração cooperativa

O importante é notar-se que estes princípios não nascem com a Sociedade, vão surgindo no seu processo de afirmação. O princípio de neutralidade, por exemplo, surge devido à necessidade de evitar-se que

ocorram litígios entre os sócios devido a motivos religiosos pois Rochdale não

é uma empreendimento “neutro”, é claramente hostil, em sua proposta inicial, à sociedade capitalista envolvente.

Para fornecer alimentos de melhor qualidade aos seus sócios surge em 1850 uma cooperativa de produção ligada à Rochdale – a Sociedade do Moinho Farinheiro do Distrito de Rochdale que propunha-se a distribuir entre os sócios os resultados em proporção às compras e não em proporção ao capital.

Os primeiros anos foram muito difíceis para a “Sociedade do Moinho”, principalmente pela inabilidade industrial do chefe molineiro e pelo reduzido capital que impossibilitava a compra de grão selecionado, comprometendo desta forma a atividade produtiva.

O surgimento deste fato criou contradições nos propósitos cooperativos dos membros da Sociedade dos Probos Pioneiros, mas a Sociedade do Moinho conseguiu sobreviver – apesar da tentativa de alguns sócios de retirar suas cotas – e afirmar-se.

Seguindo seus propósitos iniciais, os pioneiros criaram em 1855 a

SOCIEDADE COOPERATIVA MANUFATUREIRA DE ROCHDALE (tecelagem) ingressando na atividade industrial que era o “carro chefe” da dinâmica social inglesa do período. O importante é a instauração do princípio de que o retorno dos excedentes seria distribuído em igual percentagem entre o capital alocado

e o trabalho realizado pelos sócios resguardando-se 5% de juros ao capital.

Nesta sociedade, onde os Pioneiros procuram ser fiéis aos seus princípios socialistas, os trabalhadores-sócios têm direito a voto e o capital

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continua subordinado ao trabalho. Assim, os Pioneiros, muito inicialmente desempregados de indústrias têxteis, coroavam a sua atividade com a criação de uma indústria de tecelagem onde o trabalho tinha participação nos resultados.

Como afirmava o próprio Almanaque da Sociedade:

“A SOCIEDADE COOPERATIVA MANUFATUREIRA DE ROCHDALE tem por objetivo assegurar a cada um de seus membros os benefícios do emprego de seu próprio capital e de seu trabalho nas manufaturas de algodão e lã, melhorando desta forma a situação doméstica e social de todos os seus membros”.

A população, preocupada com a necessidade de emersão dos trabalhadores na estrutura econômica, como suporte para alterar as condições

sociais dos trabalhadores, vislumbram confiantes a possibilidade do surgimento

de uma nova era.

Rochdale já havia aprendido a confiar nos empreendimentos dos Probos Pioneiros. O crescimento do número de sócios e de pessoas que confiavam seus capitais às atividades dos Pioneiros confirma isto.

Todavia, a proposta de participação do trabalho em condições

superiores ao capital no empreendimento da indústria têxtil provoca polêmicas.

O sucesso do empreendimento industrial com gestão e distribuição tão

democráticas era uma ameaça ao setor industrial da época e diminuiu as

possibilidades de lucro dos meramente acionistas.

Em setembro de 1860, conduziu-se uma importante assembléia, tendo como temática, essencialmente, a determinação da forma de remuneração do trabalho. Sob a pergunta “se outorgará ou não um prêmio ao trabalho?” as discussões foram acirradas.

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Os fundadores da Sociedade de Rochdale bateram-se violentamente pelos seus princípios que subordinavam o capital ao trabalho. Com 571 votos contra a participação do trabalho nos resultados líquidos da atividade da Sociedade Manufatureira contra apenas 270 votos a favor da manutenção deste princípio encerraram-se os debates, mantendo o princípio da participação do trabalho nos resultados pois, não houve os 2/3 de votos necessários para a alteração dos estatutos.

Durante mais dois anos este princípio foi mantido. Sob a argumentação de que os velhos fundadores defendiam idéias socialistas os anticooperadores (capitalistas), comerciantes, administradores, etc., conseguiram finalmente alterar este princípio.

Assim, a Sociedade dos Probos Pioneiros, marco inicial do cooperativismo moderno, abandona sua proposta inicial e instaura dentro de suas atividades o reconhecimento da exploração do homem pelo homem, ao negar ao trabalho a participação proporcional na distribuição dos benefícios.

Podemos observar isto quando em 1867, por ocasião de grandes solenidades que inauguram novos edifícios para as múltiplas atividades da Sociedade, o movimento é avaliado por um dos seus fundadores, John Brerley (Secretário), o que afirma:

Em 1855 se estabeleceu, nesta cidade uma cooperativa de produção seu propósito era entregar parte das utilidades obtidas ao capital e parte ao trabalho. Esta sociedade teve muito êxito em seus primeiros anos mas, os sócios capitalistas pensaram que os trabalhadores iriam receber demasiados benefícios. Resolveram, então, suprimir a parte reservada ao trabalho. Esperamos ver, dentro em pouco, restabelecido este direito e os princípios de cooperação completamente desenvolvidos, pois estamos convencidos que encerram incalculáveis vantagens para o povo” 1 .

1 In HOLYOAKE, George J. História de los Pioneiros de Rochdale. Buenos Ayres, INTERCOOP, 1969. Pág. 89.

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Assim, vinte e quatro anos depois de sua fundação, um dos Pioneiros reclamava do desvirtuamento do ideal cooperativo que consistia num grave problema que nunca foi corrigido em Rochdale.

Estas alterações na história de Rochdale fizeram com que o movimento cooperativo se afaste da corrente socialista, da qual é originário.

A partir deste instante, nega-se ao cooperativismo de Rochdale o direito de ser uma expressão de uma forma de transformação da sociedade capitalista. Embora seu sucesso seja crescente, provocando melhorias reais para seu quadro social, este mesmo sucesso ocorre de forma complementar e/ou associada às regras da economia liberal inglesa, mantendo a essencialidade da separação entre trabalho e capital na distribuição dos benefícios do empreendimento e admitindo a existência de assalariados em seu meio.

Para Marx, o movimento cooperativo é percebido como um paliativo que entorpece o surgimento de uma consciência de classe tão necessária para realizar as grandes transformações. No entanto, o próprio Marx reconhece no cooperativismo inglês do século passado, o mérito de ter demonstrado claramente, a capacidade das classes exploradas em tomarem as rédeas de seu destino e gerirem com autonomia seus empreendimentos sem necessitarem de uma classe parasitária de proprietários para dirigirem a economia.

Todos reconhecem que a proposta dos Pioneiros de Rochdale foi uma proposta ousada, com clara intencionalidade de modificação pacífica das estruturas vigentes na época e que oprimiam tremendamente os artesãos. A grande maioria dos socialistas da época era favorável às experiências cooperativas, pois seus princípios baseavam-se em atitudes democráticas, imersas na solidariedade igualitária, na participação na atividade produtiva, gestão e distribuição dos excedentes conforme a participação de cada um.

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Porém, as condições econômicas do liberalismo inglês, conflitavam-se com a proposta cooperativista. O capitalismo liberal opunha-se tenazmente ao cooperativismo e só deixou de opor-se ao mesmo, no momento em que Rochdale abandonou alguns princípios igualitários essenciais, isto é, aceitou o assalariamento, a exploração do homem pelo homem dentro de seu meio.

A partir deste momento, percebe-se a perda de uma ação transformadora no cooperativismo de Rochdale, sobrevivendo uma ação cooperativa que não prejudica os princípios do capitalismo, deixando Rochdale de ser um exemplo de possibilidade de concretizar uma nova sociedade para ser uma ação ideológica de mascaramento e de alienação da exploração dos indivíduos.

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2. O MITO DE ROCHDALE NA AMÉRICA LATINA

A cooperativa de Rochdale transformou-se no exemplo mais propalado de sucesso de cooperação na América Latina. Neste sentido, sua história, geralmente mal difundida, transforma-se numa lenda e seu sucesso é divulgado e alardeado como exemplo a ser seguido.

Os princípios dos Pioneiros de Rochdale são transformados em regras

mágicas capazes de transformar o mundo e seu poder ideológico e, para o movimento cooperativo, o equivalente ao decálogo de Moisés para o mundo ocidental Cristão.

Todavia, a mística cooperativista baseada em Rochdale, cotidianamente confronta-se com fracassos na América Latina. Cooperativas desaparecem e ressurgem, num provar constante das dificuldades de implantação de seus princípios em nosso continente e ao mesmo tempo na demonstração de seu poder ideológico de ressurgir das cinzas ou de ser implantado verticalmente como panacéia social.

O fato de não divulgar-se as condições sociais inglesas nem os detalhes históricos e transformações ocorridas com a Cooperativa de Rochdale é que a transformam num mito.

Os princípios cooperativistas, criados em Rochdale, são apresentados numa ótica simplista, falsa quando propostos como transferíveis a qualquer latitude ou longitude, em considerar as peculiaridades históricas de cada região onde pretendem que se aplique.

A estratificação dos princípios de Rochdale em dogma para o

cooperativismo, como é amplamente divulgada pelos propagandistas, nega ao movimento na América Latina, a oportunidade de criatividade, reproduzindo modelos alienígenas que não levam em conta a nossa dinâmica social e caem num pragmatismo que acaba levando a mera manipulação social.

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A divulgação de apoliticismo e neutralismo, fato que absolutamente não existia nas intenções dos Pioneiros, pois fundavam um movimento de alternativa e de resposta ao capitalismo e que propunham um neutralismo para uso interno da sociedade cooperativa, mas não absolutamente externo, pois compreendiam que seus inimigos estavam no regime capitalista envolvente. Assim, o apoliticismo e neutralismo dos Pioneiros de Rochdale é um mito, divulgado e estratificado em leis que dificultam que o movimento tenha um papel nas transformações e no desenvolvimento de nosso continente.

O princípio democrático (cada homem um voto) funcionou inicialmente entre os Pioneiros, reforçado pelas suas condições igualitárias. Mas, este mesmo princípio demonstrou ser uma armadilha do liberalismo que consiste em afirmar que basta dar o direito de voto para todos sejam iguais. Na América Latina, uma sociedade de desigualdades profundas e de tradição autoritária, a divulgação e operacionalização do princípio democrático serve para dar uma máscara liberal à nossa realidade que necessita primeiro da quebra das longamente estratificadas oligarquias para depois construir-se um espaço realmente igualitário e democrático.

Entre os muitos autores que demonstram o perigo da aplicação mecanicista dos princípios de Rochdale na América Latina está Fals Borda, que afirma:

a nível local, que é crucial nestes casos, a admissão depende

das lealdades pessoas ou familiares, ou fica ao capricho de um chefe ou coronel, que é quem tem a última palavra; o controle democrático debilita-se pelas características autoritárias da sociedade, que impõe

limites ao voto pessoa e a conduta dos membros dentro da cooperativa; A distribuição das sobras se interpreta como um ganho justificado e como resultado do espírito capitalista que impera na sociedade, simplesmente fortalecendo o instinto de lucro dos membros e não o solidarismo; A taxa limitada de juros ao capital reforça esta atitude e cria um grupo de membros privilegiados que cooperam só em proporção aos juros que obtenham; A neutralidade

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política e religiosa é destruída pelas tensões sociais e políticas existentes na sociedade em geral e pela violenta luta partidária que se transmite às cooperativas e as converte em novas áreas de conflito; É muito difícil exigir pagamentos à vista para gente que vive endividada; O impulso à educação é igualmente ilusório, quando nem sequer o estado podia cumprir com suas obrigações mínimas no referente à educação primária” 2 .

Não podemos esquecer que a transferência do mito de Rochdale para o nosso continente ocorre quando o cooperativismo dos Pioneiros já foi devidamente deputado de seus aspectos contestatórios e, transformando-se num cooperativismo de serviço, não ameaça a economia capitalista liberal, pelo contrário, a complementa.

Assim, este cooperativismo complementar ao capitalismo, perde seus aspectos solidaristas e sua força de transformação social e passa a crescer, nas regiões onde consegue afirmar-se (como a Argentina e Sul do Brasil), aceitando aberta ou dissimuladamente a economia da busca do lucro e crescendo sob o uso contraditório da exploração da mão-de-obra assalariada.

A busca da participação máxima nas decisões, típico de uma sociedade de pessoas e, portanto, de iguais, é burlada na implantação do modelo cooperativista na América Latina, pois temos a característica de que as Assembléias Gerais reúnem-se muito pouco e as cooperativas acabam adotando a práticas das sociedades anônimas (sociedades de capital, de acionistas), de realizar apenas uma assembléia anual para fins meramente de formalidade democrática. Isto demonstra até que ponto a idéia de cooperação foi abandonada e o princípio democrático deixado de lado na administração do empreendimento cooperativo.

Quando nossas cooperativas têm sucesso isto no sentido de cooperativismo empresarial, isto é, um cooperativismo distorcido – a fraca e

2 BORDA, Orlando Fals. Formación y Deformación de La Política Cooperativista en la America Latina, in “Lucha de Classes na América Latina (bibliografia consultada)

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alterada utilização da Assembléia Geral (onde ocorre a soberania da prática democrática), leva ao “absolutismo gerencial”, produtos de uma radical absorção das faculdades de gestão econômica pelas pessoas que exercem a responsabilidade executiva, responsabilidade esta alienada ao quadro social.

Muitas vezes, a transferência mecanicista dos princípios Rochdaleanos, contribuem para o fracasso da cooperação e a explicação destes fracassos e

distorções são jogadas sobre os indivíduos, sobre o ambiente tropical, sobre a

, resgatar de nossa realidade histórica de continente dominado e de sociedade de profunda desigualdade social os fatores que impedem a operacionalização de princípios democráticos igualitários em ambientes marcados pelas diferenças e autoritarismos.

sem notar-se a necessidade de explicações que procurem

cultura, etc

Ou, pelo contrário, quando as cooperativas atingem sucesso, reforça-se a idéia de que os princípios Rochdaleanos estão acertados e não se percebe as distorções que os mesmos sofreram, chegando a um ponto de não conseguirmos mais ver cooperativas em empresas que agem como sociedades de acionistas.

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3. UM COOPERATIVISMO A SERVIÇO DAS DESIGUALDADES.

Embora este documento tenha que ser breve, devemos procurar compreender a quem serve a ortodoxia cooperativista estratificada nas leis que regulam o assunto na América Latina, isto é, que já foram assimiladas e aceitas pelas nossas estruturas de poder.

A nível nacional, a ortodoxia cooperativista que temos, serve para um reformismo social. Para mascarar os conflitos de classe a nível urbano e rural, dificultando a identificação de claros objetivos por parte das classes exploradas (não é gratuitamente que o cooperativismo agrário é apresentado como panacéia para os pequenos produtores nem que as cooperativas de crédito sejam incentivadas pelas empresas urbanas). Para facilitar a modernização a nível rural, ampliando estruturas de armazenagem, facilitando a “revolução verde” que serve as multinacionais, inovações tecnológicas, penetração do

capital financeiro no campo, modernização do latifúndio, etc

A ortodoxia

cooperativista, enclausurada em nossos instrumentos legais, funciona como uma importante e estratégica peça de manutenção do atual “status quo” e da condução de uma modernização controlada e, principalmente, controladora.

A nível internacional, a divulgação da ortodoxia cooperativista de Rochdale serve para a conservação da América Latina como uma região dependente, isto é, exportadora de matérias-primas estratégicas de alimentos e atualmente local de exploração de mão-de-obra de baixo preço e exploradora de capitais. Assim, se Rochdale é muito inicial, distante no tempo, exemplos mais modernos são apresentados como as cooperativas de granjeiros dos EUA, as cooperativas de crédito da Alemanha e mesmo a excentricidade do Kibutz israelense é propagada. Tudo como exemplos a serem seguidos e que nós, latino-americanos, não conseguimos realizar devido à nossa “notória incompetência”.

Estes exemplos demonstrados têm a importante função de criar uma mentalidade de inferioridade, de incapacidade, tão necessária para que não

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levemos adiante as experiências realmente solidárias de cooperação que, estas sim, pululantes em nossas sociedades, poderiam levar a um real desenvolvimento da América Latina.

Vemos, a nível internacional, os EUA, desde o Governo Roosevelt e mais especificamente o Governo Kenedy (Aliança para o Progresso) – não devemos esquecer das ações do Ponto IV – difundir o que temos consolidado, no caso brasileiro na nossa legislação cooperativista vigente, como o modelo de cooperativismo que solucionaria nossos problemas mas que serve apenas a uma processo de modernização das velhas estruturas. A nível europeu, os interesses da Alemanha em exportar seu modelo, são amplamente conhecidos e o que ainda causa estranheza é que ainda possamos citar a Alemanha como um país que tenha algum tipo de cooperativismo para nos exportar pois seu distanciamento dos princípios de Rochdale é muito grande.

O cooperativismo deve abandonar a sua postura de falso neutralismo se quiser colaborar para o desenvolvimento das massas miseráveis de nosso continente. Sua postura não tem nada de neutra, pelo contrário, faz o jogo dos interesses dominantes. Ou o cooperativismo se renova, abrindo-se para as múltiplas e criativas práticas de cooperação solidárias e imersas no igualitarismo que existem em nossas sociedades, ou será atropelado pelo dinamismo das transformações sociais, ao contribuir em sua função de apêndice das economias capitalistas periféricas e complementar do processo de dominação em nossas sociedades.

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4. BIBLIOGRAFIA

1. GARCIA, Antônio. Cooperación Agrária y Estratégias de Desarrollo. México. Siglo Veintiuno Editores, 1976.

2. HOLYOAKE, George J. História de los Pioneros de Rochdale. Buenos Ayres, INTERCOOP, 1975.

3. MLADENATZ, Gromoslav. Historia de las Doctrinas Cooperativas. Buenos Ayres, INTERCOOP, 1969.

4. GARCIA, Antônio. Las Cooperativas Agrárias en el desarrollo de América Latina. Bogotá, Ediciones Colatina, 1976.

5. BORDA, Orlando Fals. Formación y Deformación de la Política Cooperativista en América Latina, in FEDER, Ernest. La lucha de classes en el campo. México, Fondo de Cutura Economia, 1975.

6. DRIMER, Alicia Kaplan & DRIMER, Bernardo. Las Cooperativas. (Fundamentos – Historia – Doctrina). Buenos Ayres, INTERCOOP, 1981.