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18/12/2018 Mulheres e mães - 13/12/2018 - Contardo Calligaris - Folha

Contardo Calligaris (/colunas/contardocalligaris/)


ccalligari@uol.com.br (mailto:ccalligari@uol.com.br)

Mulheres e mães
Sugestão aos homens: tentem não se casar com a Virgem Maria

13.dez.2018 às 2h00

EDIÇÃO IMPRESSA (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2018/12/13/)

A futura ministra de Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves


(https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/12/ministra-de-direitos-humanos-diz-que-mulher-nasceu-para-ser-mae-e-

ideologia-de-genero-e-morte.shtml),
declarou que mulher nasce para ser mãe. As mulheres
seriam mais bem servidas sem ministério algum. Para o que serve uma ideia
dessas?

No começo dos anos 1970, eu terminava uma segunda graduação, em


Genebra, Suíça. Com alguns colegas, à noite, oferecia um ensino gratuito a
imigrantes italianos, para que pudessem ser aprovados no exame final do
ensino fundamental, sem o qual era impossível se candidatar a empregos
públicos na Itália.

O Centro Social Protestante de Genebra oferecia locais, material e, ao fim de


cada ano, um ônibus para levarmos os alunos até a cidade italiana mais
próxima, onde fariam o teste.

Os alunos eram imigrantes sazonais. Ou seja, eles podiam trabalhar na Suíça


por 11 meses; depois disso, eram obrigados a voltar à Itália e lá permanecer

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um mês, antes de regressarem e retomarem o trabalho. Era um jeito de


contornar as leis suíças, segundo as quais, se permanecessem um ano, eles
ganhariam o direito de chamar mulher e filhos, a quem o Estado deveria
garantir saúde e educação.

Mariza Dias Costa/Folhapress

Meus alunos, sazonais há anos, eram todos pais de famílias numerosas (entre
6 e 11 filhos). A cada ano, eles voltavam para casa e, durante um mês, faziam
o que era preciso para engravidar a mulher. Nove meses mais tarde, na Suíça,
recebiam (pelo correio) a primeira foto do recém-nascido.

Eles não gostavam que a mulher não engravidasse. Eu não entendia bem o
porquê, considerando que eles se queixavam do número crescente de bocas
que precisavam sustentar. Quando eu questionava a necessidade da gravidez
anual, eles respondiam: "Professo'... una donna sola... con tutti i picciotti..."
—professor, uma mulher sozinha, com todos os garotos que têm por aí, se
ela não estiver grávida"¦

Em regra, eu escutava essas explicações com a expressão cúmplice que era


esperada, tipo "entendo, claro". Até que uma noite não me aguentei e
argumentei que uma mulher grávida, contrariamente ao que eles pareciam
pensar, tem desejos sexuais intensos e, no próprio último mês, pode

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literalmente subir pelas paredes. Ou seja, certo, estando grávida, ela não
engravidaria de outro. Mas... Transar, por que não?

Quase todos sabiam por experiência (mas tinham "esquecido") que a


gravidez não apaga o desejo sexual da mulher, longe disso. Agora, com minha
observação, eles se lembravam disso e do fato de que, na verdade, eram eles
que evitavam transar com a mulher grávida.

Apesar disso tudo, acreditavam que, na ausência deles, a gravidez fosse o


grande baluarte contra "os cornos", contra a traição.

Nunca percebi de maneira tão clara a oposição que nossa cultura tenta (e
consegue) manter entre mulher e mãe. O fato que as mulheres deles
engravidassem parecia excluí-las do conjunto das mulheres: enquanto
fossem mães, não seriam mulheres.

De onde e como se sustenta essa oposição?

Muito sinteticamente, só para começar a pensar. O Antigo Testamento


(Gênesis, com a história de Adão e Eva, em particular) serve perfeitamente à
misoginia dos padres da Igreja dos séculos 3º e 4º: eles gostariam de amar só
a Deus, mas, quando passa um rabo de saia, se distraem. A culpa é da mulher,
eterna Eva tentadora, não é? Como diz Tertuliano: ela é a porta por onde o
Diabo entra.

Portanto, para os homens servirem a Deus, é preciso que controlem seu


desejo, cuja fonte é a tentação que viria do desejo das mulheres. Pois bem, a
Virgem Maria foi a grande invenção cristã para controlar o desejo sexual
feminino.

Com Maria, ser mãe se tornava possível (e glorioso) sendo virgem antes,
durante e depois do parto —semper virgo.

Você é mulher? Seja mãe como a Virgem Maria.

Você é homem? Pense em Maria, a santa mãe, quando se sentir tentado por
uma mulher. Eventualmente, você vai ter uma vida sexual inibida e miserável
com a mãe de seus filhos (pois pensar que ela é mãe como Maria pode ser

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brochante). Mas não se preocupe, esse é o preço da sua tranquilidade e da


solidez da família, não é?

Justamente, não é. Esse é apenas o preço da misoginia. Na cultura ocidental


cristã, a idealização da figura materna está sempre a serviço da misoginia: é
um jeito de silenciar o desejo feminino, "protegendo" os homens das
"tentações".

Não é uma razão para não ter filhos, mas, sugestão aos homens: tentem não
se casar com a Virgem Maria. E evitem pensar em Maria quando sua mulher
engravidar.

Contardo Calligaris
Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador da série PSI (HBO).
ter.com/ccalligaris)

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