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Superior Tribunal de Justiça

HABEAS CORPUS Nº 84.289 - SP (2007/0129019-9)

RELATOR : MINISTRO FELIX FISCHER


IMPETRANTE : RODRIGO CÉSAR BELARMINO
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA MILITAR DO ESTADO DE SÃO
PAULO
PACIENTE : RODRIGO CÉSAR BELARMINO (PRESO)
EMENTA

EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS. REGIME SEMI-ABERTO.


TRABALHO INTERNO. DESCUMPRIMENTO. FALTA GRAVE.
CARACTERIZAÇÃO. REGRESSÃO. PERDA DOS DIAS REMIDOS.
POSSIBILIDADE.
I - Tendo em vista que questões suscitadas pelo impetrante, consistentes na
nulidade dos procedimentos administrativos em razão do descumprimento de prazos, no
argumento de que só haveria uma falta grave ao invés de duas - vez que uma estaria
absorvida pela outra - e na inconstitucionalidade da imposição de trabalho interno
consistente em realização de faxina - por configurar pena de trabalhos forçados - não
foram apreciadas pelo e. Tribunal a quo, fica esta Corte impedida de examiná-las, sob
pena de supressão de instância (Precedentes).
II - O apenado, no cumprimento de pena privativa de liberdade em regime
semi-aberto, deve submeter-se a regras de disciplina previstas nos diplomas normativos que
regem a execução penal, incluindo-se em seus deveres o exercício satisfatório do trabalho
interno (LEP, artigos 31 a 35), em atividades de manutenção do estabelecimento prisional,
não ficando a seu alvedrio o momento e a forma como será realizado.
III - Constitui falta grave a recusa, pelo apenado, à execução de trabalho interno
regularmente determinado pelo agente público competente, ex vi dos artigos 39, inciso V, e
51, inciso III, da LEP.
Writ parcialmente conhecido e, nessa parte, denegado.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas,


acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade,
conhecer parcialmente do pedido e, nessa parte, denegar a ordem. Os Srs. Ministros Arnaldo
Esteves Lima, Napoleão Nunes Maia Filho e Jorge Mussi votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, justificadamente, a Sra. Ministra Laurita Vaz.

Brasília (DF), 04 de março de 2008. (Data do Julgamento).

MINISTRO FELIX FISCHER


Relator

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HABEAS CORPUS Nº 84.289 - SP (2007/0129019-9)

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO FELIX FISCHER: O retrospecto dos fatos está


bem delineado no parecer de fls. 76/89, verbis:

"Cuida-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado em favor de


RODRIGO CÉSAR BELARMINO, condenado a dezessete anos e seis meses de reclusão,
em regime fechado, por infração aos arts. 225, § 2º (duas vezes), 225, caput (três vezes) e
233 (quatro vezes), todos do Código Penal Militar, impugnando acórdão da Primeira
Câmara do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo confirmatória de decisão
de primeiro grau que regrediu o paciente ao regime fechado, em virtude de cometimento
de falta grave, lavrada nos seguintes termos:

“O sentenciado praticou falta considerada de natureza leve e média, por ter


no dia 15-11.2005, deixado de responder revista, sendo que ao ser procurado pelo Cb
PM Adilson foi constatado que se encontrava no alojamento, deitado em sua cama
assistindo televisão, contrariando normas vigentes naquela Casa Penal.
Ouvido no Procedimento Disciplinar no Presídio Militar “Romão Gomes”, o
reeducando alegou que não acordou com o toque da alvorada tendo em vista ter tomado
medicamento para dormir, sendo que este remédio causou ressaca e ao acordar não
percebeu se a televisão estava ligada ou não.
O sentenciado nada apresentou para demonstrar a inexistência da falta
imputada. Os motivos alegados não justificam em nada sua conduta. É sabido por todos os
internos do dever de entrar em forma para conferência matinal, bem como a proibição de
deitar ou permanecer deitado depois do toque alvorada, portanto se escusar no fato de ter
tomado remédio para dormir não o elide de punição.
O sentenciado praticou falta considerada de natureza grave, por ter no dia
17-02-2006, se recusado a assinar a escala de serviço, quando esta foi lhe dada ciência
pelo Oficial de Dia, Ten. Roberlei, sendo que ao ser interpelado pelo oficial, informou que
se encontrava cansado e que de qualquer forma não iria cumprir a referida escala,
contrariando normas vigentes naquela Casa Penal.
Ouvido no Procedimento Disciplinar no Presídio Militar “Romão Gomes”, o
reeducando alegou que se encontrava com problemas particulares e, em virtude disto,
estava fora de seu estado normal e psicológico afetado; que não assinou a escala por
estar cansado e estafa mental; que não teve a intenção de quebrar a disciplina; que na
data da escala foi até o local para realizar o serviço, mas foi informado pelo interno
Azevedo que quem estava escalado naquele serviço local era ele, sendo que voltou para
seu alojamento para aguardar outras ordens.
O sentenciado nada apresentou para demonstrar a inexistência da falta
imputada. Os motivos alegados não justificam em nada sua conduta. Ressalta-se que o
interno não possui esta prerrogativa, muito menos sob a alegação de cansaço, pois
trata-se de ordem e, na condição de preso militar tem a obrigação de observar as normas
de conduta estabelecidas naquela Casa Penal.
O sentenciado praticou falta considerada de natureza grave, por ter no dia
18-02-2006, deixado de efetuar limpeza na antiga fábrica de blocos do PMRG, serviço
para qual se encontrava prévia e nominalmente escalado, não apresentando a quem de
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direito o motivo que pudesse justificar a falta.
Ouvido no Procedimento Disciplinar no Presídio Militar “Romão Gomes”, o
reeducando alegou que compareceu no local onde se encontrava escalado para cumprir
sua escala, entretanto foi informado pelo interno Azevedo que quem estava escalado
naquele local era ele, sendo que voltou para para seu alojamento para aguardar outras
ordens.
O sentenciado nada apresentou para demonstrar a inexistência da falta
imputada. Os motivos alegados não justificam em nada sua conduta. Ademais o
reeducando ao perceber que havia outro interno executando o seu serviço, deveria ter se
apresentado ao Oficial de Dia, para relatar os fatos e receber novas ordens, ao invés de
ir para seu alojamento.
O sentenciado praticou falta considerada de natureza média, por ter no dia
19-02-2006, sido surpreendido no interior da padaria, sem autorização de quem de
direito, aliado ao fato de não estar portando crachá de identificação.
Ouvido no Procedimento Disciplinar no Presídio Militar “Romão Gomes”, o
reeducando alegou que se dirigiu até a padaria para oferecer pães velhos para fazer
torrada; que o comunicante apresenta uma prevenção em relação ao mesmo.
O sentenciado nada apresentou para demonstrar a inexistência da falta
imputada. Os motivos alegados não justificam em nada sua conduta.
Diante do exposto e tendo em conta que o sentenciado cometeu duas faltas
de natureza greve, conclui-se que ele não tem mérito para cumprir a pena em regime mais
brando, devendo ser regredido ao regime fechado, até que demonstre o contrário e possa
ser beneficiado com progressão.
Ademais, deve perder as remições concedidas até o cometimento da falta, ou
seja, as remições concedidas nos autos do Reg. de Execução nº 310/04, Reg. de Execução
nº 118/05 e no Reg. de Execução nº 159/06, nos termos do art. 127 da Lei de Execução
Penal.
Posto isto, REGRIDO o sentenciado RODRIGO CESAR BELARMINO
para o regime fechado, com fulcro no artigo 118, inciso I, da Lei nº 7.210, de 11-07-84,
bem como decreto a perda dos dias já remidos anteriores a 18-02-2006, nos termos do
artigo 127, do mesmo diploma legal.
Para eventual pedido de progressão ao regime semi-aberto, o sentenciado
deverá cumprir 1/6 (um sexto) da pena, no atual regime, tomando por base a data desta
decisão e o restante da pena que falta a cumprir.
Comunique-se imediatamente o Sr. Comandante do Presídio Militar “Romão
Gomes”.
Elabore-se novo cálculo.” (fls. 55/57).

Busca-se a anulação dos procedimentos administrativos em que se fundou a


decisão do Juiz das Execuções para regredir o paciente a regime mais rigoroso,
sustentando que as condutas consideradas como falta grave, ocorridas em 17 e 18 de
fevereiro de 2006, guardariam íntima relação entre si, “sendo impossível tratar uma
distintamente em relação à outra, pois, a primeira se perfaz num preâmbulo da seguinte”;
no seu entender, “é óbvio que a conduta de não realizar o serviço de faxina na fábrica de
blocos, indubitavelmente, absorve a recusa em assinar a escala atinente ao serviço, sendo
que ambas se consubstanciam, in tese, em uma única falta, uma vez que, repita-se, ligam-se
ao desejo do Paciente em não realizar a mencionada faxina na fábrica de blocos. Assim
sendo, não há como conceber a hipótese de aplicação de duas punições disciplinares, até
sob pena de incorrer em 'bis in idem', gerando, fatalmente, nulidade absoluta.” (Fl.11)
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Aduz malferimento aos princípios da ampla defesa, contraditório e do
devido processo legal, porquanto não observados, nos aludidos procedimentos
administrativos, os prazos previstos no Regimento Interno de Execução Penal do Presídio
da Polícia Militar Romão Gomes – RIPMRG; que o paciente foi constrangido a
“apresentar suas Informações Preliminares imediatamente tão logo fora cientificado da
comunicação disciplinar (sendo que a norma lhe facultaria o prazo de dois dias), ou não
estaria autorizado a deixar o Presídio (naquela oportunidade o Paciente ainda exercia
trabalho externo)”; afirma que logo após elaborar as Informações Preliminares, “recebeu
ciência dos respectivos Termos Acusatórios, sendo certo que, da mesma forma, foi
obrigado a apresentar suas Razões de Defesa imediatamente (sendo que a norma lhe
facultaria o prazo de cinco dias), ou, igualmente, não estaria autorizado a deixar o
Presídio”; sustenta que, diante disso, restou evidente “o desmedido prejuízo causado pela
Administração ao Paciente, mediante a detestável coação moral que lhe foi imposta,
consubstanciando-se em cerceamento do seu Direito de Defesa”; acrescenta que “as
publicações das decisões se deram em 17 de abril de 2006, portanto, descontando o dia
do recebimento, após cinqüenta e cinco dias, quando, de acordo com o RIPMRG, o
Comandante teria, para externar sua decisão, o prazo de 15 dias, prorrogáveis por mais
cinco”. (Fls.12/13)
Sustenta, ainda, a inconstitucionalidade dos arts. 31, caput, 39, II e 50, VI,
todos da Lei nº 7.210/84, seja porque ninguém está obrigado a fazer alguma coisa, salvo
se em virtude de lei – a obrigação de trabalhar priva o preso de exercê-lo segundo a sua
vontade –, seja porque a Constituição Federal veda a pena de trabalhos forçados, seja
por conta da inobservância do limite constitucional da jornada de trabalho, pois o
paciente já trabalhava, como estagiário, durante 45 horas semanais, não lhe sobrando
tempo para descanso e lazer; por conta disso, entende ilegal a ordem para realização de
serviço de faxina, cujo descumprimento causou a regressão.
Aduz, por fim, ofensa aos princípios da razoabilidade, proporcionalidade e
impessoalidade, porquanto havia possibilidade de distribuir os serviços de faxina entre os
voluntários, no universo de duzentos presos, alguns deles sem qualquer trabalho; que,
assim, a ordem administrativa deixou de “atentar para os princípios da impessoalidade e
finalidade, uma vez que a tarefa foi cumprida sem nenhum problema por outros internos,
assim como, deixou de observar o princípio da razoabilidade”; afirma que a decretação
da perda dos dias remidos e regressão de regime, embora previstas na LEP como
alternativas disponíveis ao Juiz para a hipótese de cometimento de falta grave, à luz ainda
do Princípio da Proporcionalidade, só se recomendam em caso de justificada necessidade.
Requer a concessão da ordem para que sejam anulados os procedimentos
administrativos que fundamentaram sua regressão de regime – PMRG-032/161/06 e
033/161/06 – restabelecendo o regime semi-aberto e a remição pelo trabalho.
Pedido de liminar indeferido (fls. 68), sendo prestadas as informações.
Este o teor da fundamentação do acórdão impugnado, encontrado no portal
do TJMSP (documento anexo):

“(...)
Em que pesem os argumentos colacionados pela esforçada Defesa, o pedido
não comporta acolhida.
Exsurge dos autos que o reeducando cumpre pena privativa de liberdade
unificada em 17 anos e 06 meses de reclusão, a ser cumprida no regime fechado, por
infração aos artigos 225, §2º (duas vezes); 225, “caput” (três) vezes; 233 (quatro vezes),
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todos do CPM (fls. 19), sendo promovido ao regime semi-aberto aos 12.04.05.
Segundo a decisão impugnada, o reeducando não tem mérito para cumprir a
pena em regime mais brando posto que cometeu duas faltas graves (aos 17.02.2006 e
18.02.2006), devendo ser regredido ao regime fechado, até que sua conduta possa ser
considerada adequada para que seja beneficiado com a progressão.
O magistrado a quo entendeu que o Agravante nada apresentou para
demonstrar a inexistência das faltas que lhe foram imputadas, posicionamento aqui
combatido pela Defesa, argüindo o abuso e a ilegalidade das ordens descumpridas e a
desproporcionalidade da pena aplicada ao caso.
Ocorre que, a despeito das considerações da defesa, infere-se que o
Agravante cumpre pena privativa de liberdade e, na condição de interno de
estabelecimento prisional, deve respeitar as normas disciplinares ali vigentes,
submetendo-se ao Regimento Interno do Estabelecimento Prisional e a Lei de Execução
Penal.
A Lei determina a regressão de regime de cumprimento de pena quando do
cometimento de transgressão de natureza grave pelo reeducando.
Neste sentido, nenhum reparo merece a decisão atacada.
Por outro lado, os motivos para a aplicação da punibilidade, aqui
discutidos, também o foram em sede própria, sendo que o Agravante não logrou êxito em
provar a inexistência da falta.
Descabe, em Agravo em Execução, reanalisar o mérito da punição
disciplinar.
Tendo em vista que a Defesa, em prequestionamento expresso, postulou a
manifestação quanto à validade da decisão impugnada, à luz da legislação pátria,
impõe-se algumas considerações.
Reclama a defesa que o ora Agravante, como preso provisório, não está
sujeito à obrigatoriedade do trabalho interno no presídio, tendo, inclusive, optado pelo
trabalho externo, qualificando como “trabalhos forçados”, aqueles que lhes foram
determinados através da escala.
A teor do disposto no art. 27, inciso XXX do Regimento Interno a que se
submete o Agravante, figura entre os deveres do preso: “submeter-se às atividades
laborativas de qualquer natureza, quando escalado”.
Em suma, depreende-se dos autos que o Agravante deixou de assinar a
escala de serviço, quando esta lhe foi dada ciência pelo Oficial do dia, incidindo em falta
grave. De outra banda, também não compareceu ao local para a realização do trabalho
para o qual estava escalado, ensejando a aplicação de reprimenda. Tais punições, de
natureza grave, segundo a norma de execução penal, ensejam a regressão de regime de
cumprimento de pena.
Cabe destacar que a atividade laborterápica, bem como a hierarquia e
disciplina são mecanismos indispensáveis para a ressocialização do sentenciado, escopo
pretendido pelas normas de execução penal.
Não se pode olvidar que, in casu, cuida-se da restrição de direitos, entre os
quais, a privação da liberdade, oriunda de condenação em sentença criminal.
Em linhas gerais, o preso deverá submeter-se ao trabalho, respeitadas as
condições individuais, habilidades e restrições, sendo obrigatório ao condenado à pena
privativa de liberdade (art. 112 e art. 116 respectivamente do Regimento Interno do
Presídio), destinando-se um dia para o descanso semanal (§ 1º art. 117 do aludido
Regimento).
E, em que pesem as argüições defensivas quanto à violação do art. 33 da
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Lei de Execução Penal, a interpretação do referido instituto não permite a conclusão pela
ilegalidade do desenvolvimento da atividade laboral, nos moldes em que ocorreu no
presente caso. Senão vejamos:
Art. 33 - A jornada normal de trabalho não será inferior a 6 (seis), nem
superior a 8 (oito) horas, com descanso nos domingos e feriados.
Parágrafo único – Poderá ser atribuído horário especial de trabalho aos
presos designados para os serviços de conservação e manutenção do estabelecimento
penal.
Anote-se que, segundo a doutrina, “É comum, nos estabelecimentos
penitenciários, que os condenados trabalhem aos sábados, domingos e feriados, quando
nas atividades acima exemplificadas. A estes, agregue-se também o preparo da
alimentação, no mais das vezes entregue aos próprios condenados, muito embora com a
supervisão da administração do presídio. Evidente que, em casos tais, deverá haver a
necessária compensação das horas trabalhadas, de modo a não prejudicar o descanso,
bem como a remição respectiva” (KUEHNE, Maurício in “Lei de Execução Penal
Anotada”, 5ª Ed., Editora Juruá, 2005, pág. 117).
Ressalte-se, também, o trabalho do preso não está sujeito ao regime da
Consolidação das Leis do Trabalho (art. 111, § 2º - Regimento do Presídio Romão Gomes),
sendo as condições para a realização da atividade, aquelas determinadas pela Lei de
Execução Penal e pelo Regimento Interno do estabelecimento penal em que o reeducando
se encontra recolhido.
Por oportuno, repita-se, a lei expressamente prevê o benefício da remição de
pena pela execução do trabalho do preso.
Quanto à hipótese ventilada pela Defesa, em relação ao preso provisório,
resta esclarecer que, ao reeducando, nessa condição, o trabalho externo é vedado, à vista
do disposto na Lei de Execução Penal e no Regimento Interno do Presídio.
Do exposto e, acolhendo a manifestação ministerial, esta Egrégia Primeira
Câmara Nega Provimento ao Agravo para manter a decisão impugnada, por seus próprios
e jurídicos fundamentos.”

Estes, em resumo, os fatos" (fls. 77/83).

A douta Subprocuradoria-Geral da República se manifestou pelo parcial


conhecimento do writ e, nessa parte, pela denegação da ordem em parecer assim ementado:

"HABEAS CORPUS ORIGINÁRIO. CRIME MILITAR.


EXECUÇÃO PENAL. FALTA GRAVE. RECUSA DE REALIZAÇÃO DE
TRABALHO INTERNO. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE.
FALTA GRAVE. REGRESSÃO. PERDA DOS DIAS REMIDOS. NULIDADE
DE PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO.
Questão relativa à nulidade dos procedimentos
administrativos instaurados pela Administração Penitenciária para
apuração das faltas, em razão do descumprimento de prazos – seja
daqueles deferidos à defesa, seja os relativos à autoridade processante
para proferir decisão – não foi examinada pelo Tribunal de Justiça Militar,
ora indigitado coator.
Também não foi objeto de decisão pela Corte Militar, a
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alegação de que haveria uma só falta grave, à consideração de que a
recusa em assinar a escala de serviço (primeira falta) estaria absorvida
pela não realização do serviço de faxina na fábrica de blocos (segunda
falta), não podendo ser punido duas vezes.
Em tais segmentos, a súplica não comporta conhecimento
pelo Superior Tribunal de Justiça, pena de supressão de instância.
O trabalho forçado proibido pelo art. 5º, XLVII, c, da
Constituição Federal, é o que tem a conotação de pena, castigo, e não
aquele que visa à reeducação do interno, preparando-o, inclusive, para o
exercício de atividade profissional quando egresso do sistema penal
A própria Convenção Americana sobre Direitos Humanos –
Pacto de San José – segundo a qual “Ninguém deve ser constrangido a
executar trabalho forçado ou obrigatório”, diz em seu artigo 6º, 3, a, que
não têm tal característica “os trabalhos ou serviços normalmente exigidos de
pessoa reclusa em cumprimento de sentença ou resolução formal expedida
pela autoridade judiciária competente”.
Também as Regras Mínimas da ONU prevêem que todos os
presos devem ser submetidos à obrigação de trabalho, tendo-se em conta
sua aptidão física e mental.
A obrigação de realização de serviços intramuros, como
faxina no estabelecimento penal, serviço de cozinha, padaria, lavanderia,
enfermagem, etc., não pode ser considerada como trabalho forçado, nos
termos em que proibido pela Constituição Federal, pois diz que não haverá
pena de trabalhos forçados.
Assim, o paciente não poderia recusar-se a prestar o serviço
para o qual fora escalado, sob pena de incidir em falta grave, nos termos
do art. 50, VI, c/c o art. 39, V, da Lei de Execução Penal.
O cometimento de falta grave pode determinar a regressão de
regime carcerário, nos termos do art. 118, I, da Lei de Execução Penal,
assim como a perda dos dias remidos, segundo previsão do art. 127, da
mesma Lei.
Parecer pelo conhecimento parcial da súplica, indeferindo-se
a ordem em tal extensão" (fls. 76/77).

É o relatório.

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EMENTA

EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS.


REGIME SEMI-ABERTO. TRABALHO INTERNO.
DESCUMPRIMENTO. FALTA GRAVE.
CARACTERIZAÇÃO. REGRESSÃO. PERDA DOS
DIAS REMIDOS. POSSIBILIDADE.
I - Tendo em vista que questões suscitadas pelo
impetrante, consistentes na nulidade dos procedimentos
administrativos em razão do descumprimento de prazos,
no argumento de que só haveria uma falta grave ao invés
de duas - vez que uma estaria absorvida pela outra - e na
inconstitucionalidade da imposição de trabalho interno
consistente em realização de faxina - por configurar pena
de trabalhos forçados - não foram apreciadas pelo e.
Tribunal a quo, fica esta Corte impedida de examiná-las,
sob pena de supressão de instância (Precedentes).
II - O apenado, no cumprimento de pena privativa
de liberdade em regime semi-aberto, deve submeter-se a
regras de disciplina previstas nos diplomas normativos
que regem a execução penal, incluindo-se em seus
deveres o exercício satisfatório do trabalho interno (LEP,
artigos 31 a 35), em atividades de manutenção do
estabelecimento prisional, não ficando a seu alvedrio o
momento e a forma como será realizado.
III - Constitui falta grave a recusa, pelo apenado, à
execução de trabalho interno regularmente determinado
pelo agente público competente, ex vi dos artigos 39,
inciso V, e 51, inciso III, da LEP.
Writ parcialmente conhecido e, nessa parte,
denegado.

VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO FELIX FISCHER: Inicialmente, observa-se, da


simples leitura do v. acórdão guerreado, que questões suscitadas pelo impetrante, consistentes na
nulidade dos procedimentos administrativos em razão do descumprimento de prazos, no
argumento de que só haveria uma falta grave ao invés de duas - vez que uma estaria
absorvida pela outra - e na inconstitucionalidade da imposição de trabalho interno
consistente em realização de faxina - por configurar pena de trabalhos forçados - não
foram objeto de apreciação e decisão pelo e. Tribunal a quo no writ originário. Por tal razão, fica
esta Corte impossibilitada de examinar tais alegações, sob pena de indevida supressão de
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instância. Nesse sentido, os seguintes precedentes desta Corte:

"PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. 1. RECURSO


EM SENTIDO ESTRITO. PLURALIDADE DE RÉUS. RÉU QUE MANIFESTA
DESEJO DE RECORRER. NÃO APRESENTAÇÃO DE RAZÕES. DECISÃO
DE PRIMEIRO GRAU QUE DETERMINA A NOMEAÇÃO DE ADVOGADO
DATIVO. JULGAMENTO DO RECURSO COM RELAÇÃO AOS DEMAIS.
NULIDADE. INOCORRÊNCIA. 2. ADVOGADO CONSTITUÍDO.
INTIMAÇÃO PESSOAL DA DATA DE JULGAMENTO. AUSÊNCIA.
NULIDADE. INOCORRÊNCIA. PRERROGATIVA DE ADVOGADO DATIVO.
3. DIREITO DE RÉU ADVOGADO SER RECOLHIDO EM SALA DE
ESTADO MAIOR. MATÉRIA NÃO ALEGADA NO TRIBUNAL A QUO.
SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. OCORRÊNCIA. 4. ORDEM DENEGADA.
(...)
3. Não pode ser analisada por esta Corte matéria não
ventilada perante a instância inferior, sob pena de indevida supressão de
instância.
4. Ordem denegada."
(HC 66969/MT, 6ª Turma, Rel. Ministra Maria Thereza de
Assis Moura, DJ 06/08/2007)

"CRIMINAL. HC. HOMICÍDIO QUALIFICADO. PRISÃO


PREVENTIVA. CARÊNCIA DE MOTIVAÇÃO IDÔNEA. DECISÃO
MONOCRÁTICA DE DESEMBARGADOR. NÃO EXAURIMENTO DA
INSTÂNCIA. TRÂNSITO EM JULGADO DA DECISÃO. CABIMENTO DO
WRIT. IMPETRAÇÃO INDEFERIDA LIMINARMENTE NA ORIGEM.
ARGUMENTOS NÃO APRECIADOS PELA CORTE ESTADUAL.
SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INCOMPETÊNCIA DESTA CORTE. ORDEM
NÃO CONHECIDA.
(...)
III. Evidenciado que a matéria de fundo, repisada na
impetração em tela, não foi objeto de debate e decisão pelo Tribunal a quo,
sobressai a incompetência desta Corte para o seu exame, sob pena de
indevida supressão de instância.
IV. Ordem não conhecida."
(HC 81744/SP, 5ª Turma, Rel. Ministro Gilson Dipp, DJ
06/08/2007)

"HABEAS CORPUS. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO


ADOLESCENTE. ATO INFRACIONAL EQUIPARADO AO DELITO
PREVISTO NO ART. 157, § 2º, INCISO I, DO CP. SEMILIBERDADE.
DESCUMPRIMENTO. MEDIDA DE INTERNAÇÃO-SANÇÃO POR TRINTA
DIAS. ALEGAÇÃO DE ILEGALIDADE DA MEDIDA. RECONDUÇÃO À
SEMILIBERDADE ANTERIOR À IMPETRAÇÃO DO PRESENTE WRIT.
AUSÊNCIA DE INTERESSE. PEDIDO DE EXTINÇÃO DA MEDIDA DE
SEMILIBERDADE. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA.
(...)
II - Tendo em vista que o pedido de extinção da medida
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sócio-educativa de semiliberdade não foi submetido à apreciação da
autoridade apontada como coatora, fica esta Corte impedida de examiná-lo,
sob pena de supressão de instância. (Precedentes).
Habeas corpus não conhecido."
(HC 67843/RJ, 5ª Turma, de minha relatoria, DJ 04/06/2007)

"PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. PROGRESSÃO


DE REGIME. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. NÃO CONHECIMENTO.
FURTO QUALIFICADO. VEÍCULO TRANSPORTADO PARA O EXTERIOR.
FORMAÇÃO DE QUADRILHA. PRISÃO PREVENTIVA. GARANTIA DA
ORDEM PÚBLICA E REGULARIDADE DA INSTRUÇÃO CRIMINAL.
PREVENÇÃO À REITERAÇÃO DA PRÁTICA DELITUOSA. ORDEM
PARCIALMENTE CONHECIDA E, NESSA EXTENSÃO, DENEGADA.
1. A alegação de impedimento à progressão de regime pelo
crime a que o impetrante/paciente cumpre pena não pode ser conhecida por
esta Corte, sob pena de indevida supressão de instância.
(...)
5. Ordem parcialmente conhecida e, nessa extensão,
denegada."
(HC 64628/MS, 5ª Turma, Rel. Ministro Arnaldo Esteves
Lima, DJ 19/03/2007)

Outrossim, quanto às matérias apreciadas pela Corte de origem, o presente


mandamus não comporta concessão.
Por encerrar toda a controvérsia, acolho como razões de decidir o bem lançado
parecer da culta Subprocuradora-Geral da República, Dra. Zélia Oliveira Gomes, nos seguintes
termos:

"De qualquer sorte, a pretensão não merece acolhimento.


Em primeiro lugar, a obrigação de realização de serviços intramuros, como
faxina no estabelecimento penal, serviço de cozinha e padaria, lavanderia, enfermagem,
etc., não pode ser considerada como trabalho forçado, nos termos em que proibidos pelo
art. 5º, XLVII, c, da Constituição Federal, onde está dito que não haverá penas de
trabalhos forçados.
O trabalho forçado proibido é o que tem a conotação de pena, castigo, e
não aquele que visa à reeducação do interno, preparando-o, inclusive, para o exercício
de atividade profissional quando egresso do sistema penal.
Aliás, as Regras Mínimas da ONU prevêem que todos os presos devem ser
submetidos à obrigação de trabalho, tendo-se em conta sua aptidão física e mental.
Celso Ribeiro Bastos, comentando o dispositivo constitucional relativo à
proibição de pena de trabalhos forçados, leciona:

“Pode parecer estranho que a Constituição proíba trabalhos forçados


justamente quando os estudos acerca dos problemas prisionais estão a evidenciar o
caráter extremamente reeducador da atividade laboral. Seus aspectos benéficos ficam

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comprovados durante o próprio encarceramento, como posteriormente, na vida em
liberdade, quando o então aprendido poderá ser de enorme valia na obtenção de
trabalho.
Para compreender-se perfeitamente essa vedação há, no nosso entender,
que se dar a devida dimensão ao qualificativo 'forçados'. O que o Texto quis excluir é a
possibilidade de imposição de trabalhos com cominação de penas, o que vale dizer,
procurou-se banir aqueles labores exigidos coercitivamente. É que aqui a própria valia do
trabalho fica posta em causa, prejudicada pelo seu aspecto coercitivo, que assumirá
certamente o ar de uma pena aflitiva suplementar. De resto, é preciso atentar-se para
possíveis abusos passíveis de ocorrência nesse campo, como nos dá conta Dostoievski, em
Recordações da casa dos mortos, ao narrar que o pior castigo enfrentado pelos detidos
era o terem de carregar pedras de um lado para outro e, depois, recolocá-las no lugar de
origem. O trabalho privado de significação prática é execrável.
É evidente que a Lei Maior não está a repelir métodos positivos de
estimulação ao trabalho que poderíamos considerar como autênticas sanções premiais.”

A própria Convenção Americana sobre Direitos Humanos – Pacto de San


José – segundo a qual “Ninguém deve ser constrangido a executar trabalho forçado ou
obrigatório”, diz em seu artigo 6º, 3:

“Não constituem trabalhos forçados ou obrigatórios para os efeitos deste


artigo:
a) os trabalhos ou serviços normalmente exigidos de pessoa reclusa em
cumprimento de sentença ou resolução formal expedida pela autoridade judiciária
competente. Tais trabalhos ou serviços devem ser executados sob a vigilância e controle
das autoridades públicas, e os indivíduos que os executarem não devem ser postos à
disposição de particulares, companhias ou pessoas jurídicas de caráter privado;
b) o serviço militar e, nos países onde se admite a isenção por motivos de
consciência, o serviço nacional que a lei estabelecer em lugar daquele;
c) o serviço imposto em casos de perigo ou calamidade que ameace a
existência ou o bem-estar da comunidade; e
d) o trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívicas normais.

Também a Convenção sobre Trabalho Forçado ou Obrigatório, da


Organização Internacional do Trabalho, em vigor desde 1º de maio de 1932, dispõe:

Artigo 2º
1. Para fins desta Convenção, a expressão "trabalho forçado ou
obrigatório" compreenderá todo trabalho ou serviço exigido de uma pessoa sob a ameaça
de sanção e para o qual não se tenha oferecido espontaneamente.
2. A expressão "trabalho forçado ou obrigatório" não compreenderá,
entretanto, para os fins desta Convenção:
a) qualquer trabalho ou serviço exigido em virtude de leis do serviço militar
obrigatório com referência a trabalhos de natureza puramente militar;
b) qualquer trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívicas
comuns de cidadãos de um pais soberano,
c) qualquer trabalho ou serviço exigido de uma pessoa em decorrência de
condenação judiciária, contanto que o mesmo trabalho ou serviço seja executado sob
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fiscalização e o controle de uma autoridade pública e que a pessoa não seja contratada por
particulares, por empresas ou associações, ou posta á sua disposição;

Assim, determinação ao recluso de realização de faxina no estabelecimento


carcerário, por não ostentar a característica de trabalho forçado, não afronta o Texto
Constitucional.
É bem verdade que ao prisioneiro é dado, na medida do possível, eleger o
trabalho que prefere realizar, de acordo com suas aptidões físicas e mentais, podendo, a
toda evidência, discutir com a Administração penitenciária visando a um consenso sobre a
atividade que melhor se adapta ao seu perfil.
Não lhe é dado, todavia, simplesmente recusar-se a realizar determinado
trabalho, se este não tem caráter execrável, não atenta contra os bons costumes ou não
excede à sua capacidade física, sob a mera desculpa de encontrar-se cansado.
Tal recusa, evidentemente, constitui ato de indisciplina, falta grave.
De outro lado, o trabalho do sentenciado, tanto mais para justificar a
remição, submete-se à jornada de seis a oito horas diárias, não havendo proibição de
labor aos sábados ou de prestação de serviço extraordinário.
O impetrante afirma que já executava trabalho externo, pelo que a
realização de tarefa aos sábados, dentro do presídio, implicaria em extrapolação da
jornada semanal, com privação do horário de repouso e lazer.
Acontece que na realização dos trabalhos internos, mormente os
relacionados com limpeza e conservação do presídio, preparo de alimentação, lavanderia,
etc., pode ocorrer excedimento da jornada normal, desde que haja a devida compensação
ou cômputo do excesso como de efetivo trabalho para fins de remição.
Não se há de esquecer que nos termos do art. 33, da Lei de Execução Penal,
a jornada normal de trabalho do sentenciado pode variar entre 6 (seis) e 8 (oito) horas
diárias; daí se permite concluir que o legislador deixou a critério do Juiz estabelecer,
dentro desses expressos limites, a duração diária da jornada laboral, conforme as
peculiaridades do trabalho a ser desenvolvido pelo condenado. O Juiz, portanto, a
depender da maior exigência de esforço, dispêndio de energia e dedicação na realização
de determinadas tarefas pelo sentenciado, pode determinar menor duração da respectiva
jornada de trabalho, não lhe sendo defeso computar como dia de serviço, o que exceder
ao horário normal, no total de seis horas, para fim de remição (HC 39.540/SP, Rel.
Ministro Arnaldo Esteves Lima, Quinta Turma, julgado em 26.04.2005, DJ 01.07.2005 p.
577)
Assim, o fato de já haver realizado trabalho externo durante a semana, não
seria motivo para recusar a cumprir as determinações da Administração Penitenciária
Militar.
Na hipótese sob exame, o paciente cumpre pena pela prática de crime militar
e em estabelecimento penal administrado pela Polícia Militar, sendo que a sentença
condenatória transitou em julgado em 29 de novembro de 2005 (fls. 60). Portanto, não era
preso provisório.
A teor do disposto no art. 27, inciso XXX do Regimento Interno da
Penitenciária, a que se submete o paciente, figura entre os deveres do preso: “submeter-se
às atividades laborativas de qualquer natureza, quando escalado”.
A Lei de Execução Penal, por seu turno, em seu art. 31, prevê que “O
condenado à pena privativa de liberdade está obrigado ao trabalho na medida de suas
aptidões e capacidade.” O trabalho é facultativo apenas no caso de preso provisório
(parágrafo único).
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A determinação superior de realizar serviço de faxina, desse modo, não era
ilegal e o prisioneiro estava obrigado a cumpri-la.
Assim, não poderia recusar-se a prestar o serviço para o qual fora
escalado, sob pena de incidir em falta grave, nos termos do art. 50, VI, c/c o art. 39, V, da
Lei de Execução Penal.
E a recusa em cumprir a tarefa efetivamente ocorreu, pois o próprio
impetrante/paciente o admite.
Também confessa que se recusou a assinar a escala de serviço que lhe foi
apresentada pelo Oficial de Dia, Ten. Roberlei, sendo que ao ser interpelado pelo Oficial,
informou que se encontrava cansado e que, de qualquer modo, não iria cumprir a referida
escala.
Tal conduta também constitui falta grave, nos termos do art. 50, VI, c/c o art.
39, II, da Lei de Execução Penal, tanto mais se cometida dentro de Presídio Militar, onde a
disciplina se mostra bem mais rígida.
E a prática de falta grave – mesmo uma só – é motivo para a regressão de
regime carcerário, nos termos do art. 118, I, da Lei de Execução Penal, assim como para a
perda dos dias remidos, segundo previsão do art. 127, da mesma Lei.
No caso, o devido processo legal foi respeitado, pois o paciente foi ouvido
em Juízo para apresentar suas justificativas. Também foram ouvidos a Defesa técnica e o
Ministério Público.
A decisão que regrediu o paciente, assim como determinou a perda dos dias
remidos, está suficientemente fundamentada, tendo reputado insatisfatórias as
justificativas apresentadas pelo sentenciado. Além do mais, considerou que já vinha
cometendo outras faltas de natureza média, durante o curso da execução, como deixar de
responder revista, sendo que ao ser procurado pelo Cb PM Adilson foi constatado que se
encontrava no alojamento, deitado em sua cama assistindo televisão e ser surpreendido
no interior da padaria, sem autorização de quem de direito, aliado ao fato de não estar
portando crachá de identificação.
Constatou, portanto, que o paciente não estava apto ao regime semi-aberto.
Não há, pois, constrangimento ilegal a ser sanado.
À vista do exposto, opina-se pelo conhecimento parcial da súplica,
indeferindo-se a ordem em tal extensão" (fls. 84/89).

Assim, o apenado, no cumprimento de pena privativa de liberdade em regime


semi-aberto, deve submeter-se a regras de disciplina previstas nos diplomas normativos que
regem a execução penal, incluindo-se em seus deveres o exercício satisfatório do trabalho interno
(LEP, artigos 31 a 35), em atividades de manutenção do estabelecimento prisional, não ficando a
seu alvedrio o momento e a forma como será realizado.
Constitui falta grave a recusa, pelo apenado, à execução de trabalho interno
regularmente determinado pelo agente público competente, ex vi dos artigos 39, inciso V, e 51,
inciso III, da LEP.
Ante o exposto, conheço parcialmente do writ e, nessa parte, denego a ordem.
É o voto.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA

Número Registro: 2007/0129019-9 HC 84289 / SP


MATÉRIA CRIMINAL

Números Origem: 11462002 1643496 364 64202 6422002

EM MESA JULGADO: 04/03/2008

Relator
Exmo. Sr. Ministro FELIX FISCHER
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. OSWALDO JOSÉ BARBOSA SILVA
Secretário
Bel. LAURO ROCHA REIS

AUTUAÇÃO
IMPETRANTE : RODRIGO CÉSAR BELARMINO
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO
PACIENTE : RODRIGO CÉSAR BELARMINO (PRESO)

ASSUNTO: Penal - Leis Extravagantes - Crimes Militares

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"A Turma, por unanimidade, conheceu parcialmente do pedido e, nessa parte, denegou a
ordem."
Os Srs. Ministros Arnaldo Esteves Lima, Napoleão Nunes Maia Filho e Jorge Mussi
votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, justificadamente, a Sra. Ministra Laurita Vaz.

Brasília, 04 de março de 2008

LAURO ROCHA REIS


Secretário

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