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CARAS DE PLAUTO

de Atilio Bari

adaptação livre de MENECMOS,


de Plauto

Prêmio Especial de Teatro Popular


Festival de Teatro de Resende – RJ - 1992
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Personagens

(por ordem de entrada em cena)

Coro (umas seis pessoas, podem estar com máscaras)

Escova, um parasita

Menecmo, um dos gêmeos

Erócia, a prostituta

Cilindro, o cozinheiro

Sósicles, o outro gêmeo

Messenião, o escravo

Matrona, esposa de Menecmo

Velho, pai de Matrona

Médico
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PRÓLOGO

MÚSICA DE INTRODUÇÃO, CLARINS, TROMPAS, ETC..

ENTRA O CORO, SOLENE.

Coro - Ai de nós, pobres mortais,


Que não temos um momento de paz,
Sujeitos que estamos à vontade dos deuses.
Salário atrasado todos os meses,
Ônibus lotados, muito trabalho
E poucos feriados.
Mas nada disso se compara
Às desgraças que os céus nos impõem.

Coreuta - Somos como cães sem dono


Legados ao mais completo abandono.

Coro - Au! Au! Au!

Coreuta - Caiiiimmm...

Coro - Prova do sofrimento humano


É esta tragédia que vamos contar,

Coreuta - Tragédia? Não é uma comédia?


Me falaram que era uma comédia.

Coreuta 2 - Pra mim também.


Aliás, eu só vim porque me falaram que era pra rir.

Coreuta - Eu não gosto de tragédia.


De tragédia já chega a minha vida.
Eu gosto de teatro pra me divertir.

Coreuta2 - Eu também. Quer saber? Tô indo.


Eu tenho Netflix...

Coreuta - Vou com você,


A gente vê um filme e toma uns drinques.

Coreuta2 - Fechou...
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Coreuta - Partiu. Hashtag tô fora.

O COREUTA E O COREUTA 2 SAEM.

Coro - Prova do sofrimento humano


É esta tragédia que vamos contar,
E que se passa aqui, neste lugar
Chamado Epidano.

Coreuta 3 - Vivia em Siracusa um velho mercador


Pai de dois gêmeos tão parecidos
Que até a ama que lhes dava os seios
Não distinguia um do outro.

Coreuta 4 - Os seios?

Coreuta 3 - Gêmeos.

Coreuta 4 - Os seios eram gêmeos?

Coreuta 3 - Não; os meninos é ,que eram seios.


Não: os meninos eram gêmeos, ô tapado.
Gêmeos tão gêmeos que a própria mãe os confundia.
Todos os confundiam.
Eles mesmo se confundiam.

Coro - Era uma puta confusão.

Coreuta 3 - Mas eis que um dia,


Sempre há um dia,
O pai foi a Tarento vender uma mercadoria
E levou consigo um dos meninos.

Coro - Não sabia qual.

Coreuta 4 - Lá chegando,
A cidade estava em festa:
Gincanas, jogos, competições.
O pobre do menino, um caipirão,
Se perdeu na multidão.

Coreuta 3 - Um mercador muito rico o encontrou,


E sentiu assim uma... uma... uma coisa, entende... assim...
Gostou do garoto, sabe como é?
E trouxe-o consigo para cá, para esta cidade.

Coro - Epidano.
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Coreuta 4 - O pai ficou tão desesperado


Que teve um treco e pumba: morreu de desgosto!

Coro - Coitado!

Coreuta 3 - O avô, em Siracusa,


Quando soube da desgraça,
Mudou o nome do outro gêmeo,
E deu-lhe o mesmo nome do garoto roubado:

Coro - Menecmo.

Coreuta 3 - Para perpetuar a sua memória...

Coreuta 4 - Bem, em resumo: essa é a história.


Os dois irmãos têm o mesmo nome, tá?

Coro - O gêmeo roubado teve sorte,


Herdou a fortuna do seu raptor.
Hoje é um rico morador de Epidano.

Coreuta 4 - O outro, que continuou morando em Siracusa,


É um pobre coitado,
Vagueia pelo mundo à procura do irmão,
E eis que hoje está chegando a este lugar...

Coro - Epidano.

Coreuta 4 - Exatamente... Acompanhado de um escravo.

Coro - Senhoras e senhores,


A cidade de Epidano hoje é aquí,
Enquanto durar essa peça.
Agora, cala-se a nossa voz.
Pois é a comédia que falará por nós.

Coreuta 3 - Mas não é uma tragédia?

Coreuta 4 - Não, sua besta. É uma comédia.

Coreuta 3 - Não tô entendendo.


Uma hora dizem que é uma comédia,
Outra hora dizem que é uma tragédia.

Coreuta 4 - É uma comédia trágica.

Coreuta 3 - Uma tragédia cômica.


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Coro - Comédia trágica


Tragédia cômica.
O homem é tão cruel
Que ri até da bomba atômica.
Tragédia cômica
Comédia trágica.
Do choro ao riso assim ó:
Num passe de mágica.

O CORO VAI SAINDO. DO MEIO DELE, SURGE ESCOVA.

CENA 1
Escova

Escova - Oi.
O pessoal me chama de Escova.
Acho que é porque quando eu como
Eu deixo a mesa limpa...
E é verdade, não posso negar.
Do couvert até a sobremesa,
Eu como mesmo de tudo. E bastante.
É só o que eu quero da vida:
Pratos e copos em fartura!
E quando eu morrer,
Já falei pra todo mundo
Pra encher de comida a minha sepultura,
Porque eu não quero passar fome lá no fundo.
Por falar em passar fome,
Já não como há uma hora!
Porisso estou vindo aquí,
À casa de Menecmo,
A quem já estou penhorado há um tempão.
Gosto muito dele! Faz belos banquetes!
Ele próprio é um comilão!
Bom moço... generoso... chegado numa boa mesa
E num bom leito,
Que eu uso pra dormir, ele não...
Companheirão! É o amigo perfeito!
Ôpa! É êle! Vem vindo!
Xiii! Está saindo?

ESCOVA OBSERVA.
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CENA 2
Menecmo e Matrona (esta fora de cena)

Menecmo - (para a coxia)


Se você não fosse uma idiota descontrolada
Saberia o quanto isso me desagrada!

Matrona - (lá de dentro)


Volta!
Vem viver outra vez ao meu lado!

Menecmo - (É difícil de suportar.


Parece que faz questão de me irritar!
Toda vez que o pobre marido sai
É essa ladainha: “onde vai?,
“Que vai fazer”? “com quem”? “vai demorar”?...)

Matrona - (lá de dentro)


Onde vai? Que vai fazer? Com quem? Vai demorar?

Menecmo - (Parece que eu me casei com um guarda aduaneiro


Que me prende, me vigia, me interroga o tempo inteiro!
Mas a culpa é minha!
Eu mimei você demais, Matrona!
Te acostumei mal, é nisso que dá.)

Matrona - (lá de dentro)


Eu só quero você, e mais nada!

Menecmo - (Ai, as burrices que a gente faz!


Eu lhe dou as roupas mais finas,
Não lhe faltam comida, criados, jóias,
Nada lhe falta, e não me deixa em paz.)

(para a coxia)
Ah, mas já que é assim,
Será doce a minha vingança.
Já que quer me segurar, me espionar,
Já que não tem confiança,
Então eu vou mesmo arranjar uma rapariga
E convidá-la para... para jantar!

Matrona - (lá de dentro)


Aaaaaaaiiiiii! Adultério! Traição!

Menecmo - É isso aí! Adultério! Traição!


Assim você fica feliz
E vai poder dizer que tem razão!
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Não é isso que você queria?

CENA 3
Escova e Menecmo

Escova - Lá vai ele pra putaria!


Pensam que é de verdade essa briga?
Que nada! Isso é mais falso que nota de trinta...
Só uma coisa me intriga:
Se ele vai jantar fora,
É a mim que ele castiga!
Onde é que eu vou encher a minha barriga?

Menecmo - Arre, que eu acho que deu certo!


É como eu digo: marido pra ser feliz,
Tem que ser esperto.
Tapeei a carcereira..
E viram com que técnica? Que maestria?
Quando eu voltar, já estará arrependida!
Senhores maridos aquí presentes,
Aproveitem o know-how,
Que uma aula como esta não se encontra todo dia!
Ah, mas há ainda um toque final... O supremo feito!
Numa manobra sutil, num gesto perfeito,
Surrupiei da minha mulher esta mantilha
(mostra-a escondida sob o manto)
E vou levá-la à minha rapariga.
O que ela não me dará em troca disto?

Escova - O que dá pra todo mundo, pelo visto...


Ai, e agora? Que fome! Que aflição! Que porra!
Ah, não! Eu vou falar com ele. Afinal é meu amigo!
Não vai querer que eu morra!
Ei, você, psiu!

Menecmo - Ai, cacete! Será uma emboscada?


Quem é? Se acuse!
Se for por parte da minha mulher,
Vai tomar porrada!

Escova - Que nada! Pode ficar descansado!


Sou eu: Escova! Este pobre coitado!

Menecmo - Ora, salve! Quase me assustou, amigo!


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Escova - Que mania do povo, se assustar comigo!

Menecmo - Chegou em hora oportuna.


Quer ver um trabalho supimpa?

Escova - Cozinhado por quem?


Traga a panela que eu a deixo limpa!

Menecmo - Vou lhe mostrar algo majestoso, divino.


Não há quem não o ache lindo.
Olhe aquí, debaixo do meu manto!
(Escova se afasta e olha para outro lado)

Escova - Êpa! O que que há? Tá me confundindo?

Menecmo - Venha ver! Você vai gostar!

Escova - Essa não! Tá querendo me cantar?

Menecmo - Vamos, eu ordeno. Olhe para mim!

Escova - Ai, ai, ai, que triste fim...


(olha dentro do manto de Menecmo)

Menecmo - E então? O que tem a dizer?

Escova - Onde vamos comer?

Menecmo - Estou falando da mantilha! Que tal?

Escova - Legal...

Menecmo - Só isso? Não tem mais nada a dizer?

Escova - Ah, sim, claro: onde vamos comer?

Menecmo - Mas que espírito pobre! Francamente...


Você está me decepcionando... (faz menção de sair)

Escova - Êpa! Desse jeito acabo não jantando!

Ora, que isso, eu estava brincando!


(exagera) Mas que lindo, meu! Que beleza!
Chocante, cara! Do cacête!

Menecmo - Ah, vejo que gostou mesmo, hein?


Realmente é uma coisa muito fina.
E o cheiro! Sinta o cheiro!
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Escova - Êêêê... está bem, mas vou cheirar a parte de cima... (cheira dentro
do manto)

Menecmo - E então? E aí? Que cheiro tem, hein? Diga!

Escova - Cheiro de... furto! De jantar! De rapariga!

Menecmo - Mas que adivinhão de uma figa!


Furtei-a da minha mulher
E vou levá-la aí pra minha amiga!

COLOCA A MANTILHA SOBRE O SEU MANTO.

Escova - Erócia! A mundana!

Menecmo - E sabe o que mais?


Mando que ela faça um banquete para nós, meu rapaz.
E que nos sirva na mais fina porcelana!

Escova - Belo, belo, belo! Assim é que se fala! Vamos!

Menecmo - E enquanto o dia amanhece,


Bebemos, cantamos, amamos...

Escova - Belo, belo, belo! Assim é que se fala! Vamos!

Menecmo - E quando surgir no horizonte


A primeira estrela da manhã...

Escova - Belo, belo, belo! Assim é que se fala! Vamos!

Menecmo - Mas que agitação é essa? Não pode esperar um momento?

Escova - Mas é que assim você atrasa o acontecimento!

Menecmo - Tem razão. Vamos ao que importa. Bata!


(Escova bate em Menecmo)
Na porta, idiota! Espere! Não precisa.
Vejo surgir a sua doce imagem! Ei-la! Em pessoa!

Escova - Queria que fosse o que? Uma filmagem?

Menecmo - Veja como a alvura desse corpo


Sobrepõe-se ao brilho do sol,
Que, envergonhado, se oculta!

Escova - Eu acho é que o sol não gosta de puta!


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CENA 4
Menecmo, Escova e Erócia

Menecmo - Oh, é você!

Erócia - Ih, é você!

Menecmo - É você, amor!

Erócia - É. Sou. Por que?

Menecmo - Erócia, minha paixão!

Erócia - Ih, pronto...


(Fingida) Menecmo, meu coração!

Escova - E eu?

Erócia - Sai pra lá, paspalhão.

Menecmo - Você é o sopro da minha vida!

Erócia - Você é... a alma da minha alma.

Menecmo - Você é a minha deusa querida!

Erócia - Você é... o meu guerreiro ardente.

Escova - Xi! Vai mal! Acho que tô numas de excesso de contingente.

Menecmo - Gostou da minha nova vestimenta?


Comprei-a hoje cedo, no “Ao Grego Elegante”.
Traje completo: sandália, manto e chapéu.

Escova - Não sei pra que tanto investimento.


A embalagem não melhora o que tem dentro.

Erócia - Oh, mas que deslumbrante!


Parece um deus descido do céu.

Escova - Óia! Já tô sentindo cheiro de tramóia.


Espreme, suga, seca e manda pro beleléu.

Menecmo - Querida, quero que prepare em sua casa


Uma batalha para o seu guerreiro.
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Erócia - Ôpa! Grana! Bufunfa! Dinheiro!


(para Menecmo) Como queira, benzinho...
Mas para três? O que tem em mente?

Escova - Alguma indecência.

Menecmo - Primeiro, nós três combateremos


As garrafas e as travessas.

Escova - Opa! Falou, excelência!

Menecmo - Mas depois dos pratos quebrados,


Eu serei o seu combatente!

Erócia - Hummm... e vai me abater? Me invadir? Me dominar?

Menecmo - Hum, hum...


(para Escova) Viu como ela fala comigo? Como me ama?

Escova - Ô, meu amigo, deixa de bobagem.


Essa aí é pós-graduada em sacanagem!
Especialista em golpe de cama!

Menecmo - Erócia, quando te vejo, minha bela,


Que ódio que eu sinto da minha mulher, aquele... quisto!

Erócia - É? E por que é que está usando


Uma peça da roupa dela? O que é isto? (aponta a mantilha)

Menecmo - Ah, isto, minha flor, é um presente!


Se quer saber, roubei da minha mulher!

Erócia - Presente? Oh, querido, você é demais!


Sabe como ser o meu preferido.

Menecmo - Venha, Escova, me ajude. (despe a mantilha)


Corrí grandes perigos para furtá-la.
Nem Hércules teria tanta coragem!
E foi por você que o fiz!

Escova - É bobo, mas é feliz...

Erócia - Aprecio o que fazes por mim,


E garanto que serás bem recompensado...

Menecmo - Comprei-a por quatro moedas, no ano passado.


É sua, agora.
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Escova - Quatro moedas jogadas fora...

Menecmo - Bem, querida, já sabes o que quero.

Erócia - (esfregando-se em Menecmo) Claro que sei...

Escova - O banquete!

Erócia - Ah, sim, querido.


Cuidarei pessoalmente da mesa.
Mas preciso de uma grana aí para a despesa.

Menecmo - Claro. Tome dez moedas. É suficiente, não?

Erócia - Oh, querido, você sabe, essa inflação...

Menecmo - É verdade. Tome mais dez.

Escova - Puta merda! É dinheiro paca!


Dá pra comprar uma vaca!

Menecmo - Mande buscar aves, ovos, uvas,


E vinho, muito vinho...

Erócia - Claro, queridinho...

Menecmo - Enquanto isso nós vamos à praça,


Que hoje é dia de comício.

Erócia - Não demore, querido. Prepararei a alcova.

Menecmo - Não, Erócia, eu não demoro. Venha comigo, Escova.

Escova - Ô se vou! Fico no teu pé!


Não te largo por nada!
Você é meu amigo de fé,
Meu irmão camarada!

MENECMO E ESCOVA SAEM.

CENA 5
Erócia e Cilindro
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Erócia - Cilindro! Cilindro! Cilindro!


Mas onde andará esse cozinheiro?
Cilindro!

Cilindro - Pronto, pronto, pronto... Chamou?

Erócia - Não, eu não chamei.


Eu gritei, berrei, esgoelei!

Cilindro - Eu estava no banheiro, né?

Erócia - Outra vez? Teu lugar não é no banheiro,


É no fogão, no meio da panelada.

Cilindro - Ah, é? Quer que eu faça na panela


O que eu faço na privada?

Erócia - Olha a baixaria. Não seja mal-educado.


Pegue este dinheiro.
Tome, leve cinco... não, cinco não... três moedas.
Pegue uma cesta e vá ao mercado.

Cilindro - E o que devo comprar?

Erócia - O que quiser, sei lá.


Coisas baratas, mas não coisas de pobre.
O suficiente para três pessoas,
Que não falte nem sobre.

Cilindro - Xi, pelo visto a clientela hoje não é nobre.


Quem são as visitas?

Erócia - Menecmo e o seu parasita.

Cilindro - Então, os seus cálculos estão errados.


Só o parasita come por quatro!

Erócia - Bem, já sabe quem são os convidados.


Cuide para que dê tudo certo, e bem arrumado, sim? (sai)

Cilindro - Ai de mim! Com essa mixaria,


Vou ter que fazer milagre.
Ai, como ela me judia! (sai)

CENA 6
Sósicles e Messenião
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(Sósicles entra, seguido por Messenião carregando uma mala)

Sósicles - Arre, finalmente!


A meu ver, Messenião,
O maior prazer de quem navega é pisar em terra!

Messenião - Nem me fale, senhor, nem me fale!


Se bem que prá mim tanto faz.
No mar, eu enjôo, esgomito, tenho diarréia,
Mas em terra, andamos, andamos e andamos
Até não poder mais!
Senhor, eu não entendo. O que lhe vai na idéia?

Sósicles - Ora, então não sabe? Procuro por meu irmão!

Messenião - Mas já andamos por tudo que existe!


A Grécia inteira, a Espanha, o Chipre!
Até da China já chegamos perto!
Ainda bem que o resto do mundo
Ainda não foi descoberto...

Sósicles - Pois eu não vou desistir


Embora também já esteja cansado...
Se estivesse procurando uma agulha,
Na certa já teria encontrado.

Messenião - Ele já deve estar morto, senhor.


Não adianta continuar a bater de porto em porto!

Sósicles - Isso quem decide sou eu!


Só pararei quando encontrá-lo
Ou souber quando, como e onde ele morreu!
Quem é você, pra discutir o meu comando?
Enquanto viver às minhas custas
Sujeite-se a fazer o que eu mando!

Messenião - Caramba! Ficou bravo!


Disse isso pra me lembrar que sou escravo.
Não gosto deste lugar...
Senhor, não gosto deste lugar.
Epidano é uma terra de mundanas, de beberrões, gente vulgar.
Senhor, acredite em mim: é melhor voltar.
De mais a mais, o nosso dinheiro já está no fim...

Sósicles - Nosso dinheiro, não! MEU dinheiro... Passe a bolsa para cá.

Messenião - Não confia em mim?


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Sósicles - Como você disse, o dinheiro já é pouco.


Vai que aparece algum safado
Ou alguma fulana que te deixe louco...
Se é verdade que o povo daquí não presta,
Deixa que eu guardo o que nos resta.

Messenião - Pra que? Pra comprar essas roupichas chinfrim?

Sósicles - É moda nesta cidade!


Gostei daquela loja: “O Grego Elegante”.

Messenião - Parece roupa de gestante...

Sésicles - Todos os rapazes de bem se vestem assim.

Messenião - É? E como é que se vestem os rapazes de mal?

Sósicles - Eu gosto de andar na estica.


Todo mundo usa... então comprei uma igual.

Messenião - É... o senhor sempre foi mesmo muito original...

Sósicles - Ora, cale a boca, ô titica.


Quem decide o que eu visto sou eu.
Só resmunga! Só reclama! Só implica!

CENA 7
Sósicles, Messenião e Cilindro

Cilindro - (entra com uma cesta de compras cheia de coisas)


Até que fiz boas compras com a miséria que ela me deu!
Franguinhos de leite, queijo bola,
Frutas, legumes, coca-cola, torresmo pururuca...
Vou fazer juz à minha fama de mestre-cuca!
Ih! Mas quem eu vejo! O senhor Menecmo!
O convidado principal já se adianta,
E eu ainda nem comecei a janta!
Vou falar com ele.

(aproxima-se)
Salve, senhor!

Sósicles - Os deuses o guardem... seja lá quem for...

Cilindro - Ah, acho que ele quer brincar. É um bobalhão.


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Senhor, o outro convidado, onde está?

Sósicles - Convidado? De que convidado você indaga?

Cilindro - Do seu parasita, senhor. Aquela praga.

Sósicles - Parasita meu? Este homem está maluco!

Messenião - Eu falei que o povo daquí não presta.


Cuidado com esse eunuco!

Sósicles - De que parasita você fala?

Cilindro - Escova!

Messenião - Escova? Temos uma aquí na mala...

Cilindro - Senhor, ainda é cedo para o jantar.


Fui ao mercado comprar os acepipes
E nem acabei de voltar...

Sósicles - Jantar? Acepipes? Do que é que está falando?


Ora, já sei o que quer: uma moeda, não é?
Pois tome e vá andando.

Cilindro - Mas que ofensa! Me tratando como um mendigo?


Se não fosse quem é, ia ver comigo
Levava um esculacho!
Ou será que não é quem eu penso que é?
Ãhnnn... O senhor se chama... Menecmo... eu acho...

Sósicles - Sim, esse é o meu nome.


Do jeito que você fala, até parece gente de senso.
De onde você me conhece?

Cilindro - Mas se o senhor é amante... amigo... cliente, sei lá,


Da minha ama, Dona Erócia, que mora aquí em frente!

Sósicles - Ora, o que é isso! Ninguém aquí nunca me viu!

Messenião - Posso rachar a cabeça desse imbecil?

Cilindro - Mas se eu mesmo, senhor,


Tantas vezes já lhe enchí o copo?

Sósicles - Que encheu o meu copo, o que!


Quem está se enchendo sou eu!
Esse é o tipo de brincadeira que eu não topo!
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Cilindro - O senhor nega?

Sósicles - De pés juntos!

Cilindro - O senhor não mora nesta casa?

Sósicles - (grita) Que um raio parta quem mora aí,


E o transforme num defunto!

Cilindro - Ai! Esse defunto me assustou!


Ah, mas que idiota que eu sou!
É claro, ele está disfarçando!
Na certa não quer que esse outro saiba
Que ele e a minha patroa...

(para Messenião)
Eh, eh, eh, eu estava brincando.
Não conheço ele não... Nunca o ví... Foi apenas uma piada...

Messenião - Vai levar uma porrada.

Cilindro - (para Sósicles) Senhor, essa foi boa!


E quase que eu estrago!
(mostra a cesta) Ah, o que acha disto?
Basta para três, ou devo buscar mais?

Sósicles - Não é possível! O que é que deu em você, ô rapaz?

Cilindro - Tudo bem, tudo bem, tudo bem... já entendí.


(sussurra) Logo logo estará tudo preparado.
Eu vou indo. Qualquer coisa, não hesite,
Pode contar aquí com o Cilindro! (sai)

Messenião - Ai, que lindo...

Sósicles - Eu lá quero saber de cilindro ou de quadrado?


Ele que vá para o inferno, esse maldito!
Mas como é que ele sabe o meu nome, esse danado?
Isso está muito esquisito...

Messenião - Eu falei, senhor. Lembra do que eu tinha dito?


As marafonas vêm até o porto, à cata de dinheiro,
E perguntam pelo nome dos passageiros...
Aí deve morar uma dessas donas.

Sósicles - Ah, sim, entendo... Bem que pode ser isso.


Veja! Vem vindo alguém lá de dentro!
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CENA 8
Erócia, Sósicles e Messenião

Erócia - Cilindro, seu paneleiro!


Vê se sai desse banheiro e anda logo com a comida!
Já tô fudida com esse cozinheiro!

Ai, como é difícil ganhar a vida honestamente...


Além de... prestar o serviço própriamente dito,
Tenho que cuidar de tudo pessoalmente:
A casa, a limpeza, a roupa de cama...
Porque sabe, é como mamãe dizia:
“Minha filha, vê se não esquece:
Um ambiente agradável arruína os amantes,
E a nós enriquece.”
E olhe que ela era ótima profissional!
Mas onde está o convidado?
Cilindro disse que o viu, todo ansioso...
Ah, alí está aquele bobalhão generoso.

É melhor me aproximar...
Iú-ú! Benzinho! Não fique aí na rua!
Venha para dentro, meu gatinho. A casa é toda sua!
Está quase tudo pronto, como mandou...
Viu? Até que não demorou...
Podemos ir “comendo” umas coisinhas, se quiser...

Sósicles - (para Messenião) Com quem fala essa mulher?

Messenião - Ora, foi com o senhor que ela falou. Pelo menos, parece...

Erócia - Oh, querido, Vênus determinou que só a você eu amasse


E você bem o merece.
Você é a minha paixão, a minha alegria, a minha prosperidade...

Sósicles - Acho que ela é maluca de verdade!


Como pode tratar um estranho
Com tamanha intimidade?

Messenião - Pra mim não é surpresa. As rameiras são assim:


Usam todas as garras pra capturar uma presa!
Deixa que eu falo com ela.
Ei, mulher. Ei, madame, estou falando com a senhora.
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Erócia - Que é? O que você quer, fedorento?


Não vê que estou ocupada?
Não posso atender agora.

Messenião - Escuta aqui um momento:


Onde conheceu esse homem?

Erócia - Ora, essa... aquí mesmo em Epidano. Por que pergunta?

Messenião - Ah, vá! A senhora está brincando...

Erócia - Ah, sai daquí, seu atrevido. Que cara de pau!


Menecmo, meu bem, vamos entrar?
Este ambiente aquí fora está me fazendo mal...

Sósicles - Não entendo! Tem algo errado!


Ela sabe até o meu nome!
Estou ficando cada vez mais pasmado!

Messenião - Patrão, cuidado!


Aquele tal do... redondo... já deve ter lhe contado...
Não tire o olho da bolsa!

Sósicles - Ah, fez bem em me avisar.(entrega a bolsa para Messenião)


Tome, fique com ela, esconda.
Senhora, ouça: agradeço o seu convite,
É muita amabilidade, mas devo recusar.

Erócia - Recusar? Como?


Então por que mandou fazer o jantar,
Quando me deu a mantilha?

Sósicles - Mantilha? Que mantilha? Eu mandei fazer um jantar?

Erócia - Naturalmente!
Pra você e pra aquele seu parasita, que não serve pra nada!
Eu até dispensei os outros clientes!

Sósicles - Bolas, que parasita?

Erócia - Escova!

Messenião - Escova? Temos uma aquí guardada...

Erócia - Estou falando daquele peste que te segue por toda a ilha.
Estava com você, quando me deu a mantilha!
Aquela que você roubou da sua mulher!
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Sósicles - O quê? Eu lhe dei uma mantilha? Roubada da minha mulher?


Ah, não, agora você extrapolou!

Erócia - Ora, querido, que graça tem zombar comigo


E negar o que se passou?

Sósicles - Pois torno a negar. Caramba! Então eu não sei?


Eu estava há dias num navio!
Ainda hoje foi a bordo que almocei!
Saí do navio direto para cá, e de repente a encontrei.

Erócia - Almoçou a bordo? Num navio?

Messenião - Pois é, dona! Eu até esgomitei!

Erócia - Querido, pare de brincadeira.


Pois então eu não conheço a tua ficha inteira?
Hein, Menecmo? Filho de Mosco? Natural de Siracusa, na Sicília?
Onde reinava Agátocles, e agora reina Hierão? E então?

Sósicles - Caramba! O que você diz é verdade!

Messenião - Como é que ela sabe? Barbaridade...

Sósicles - (para Messenião) Palavra, que eu não sei como


Continuar a dizer não...

Messenião - Patrão, é preciso juízo e cuidado.


Se passar aquela soleira, está arruinado!

Sósicles - Ora, cale-se! Faço o que eu quiser!


O que pensa que eu sou? Algum retardado?
Vou fingir que concordo com essa bobagem
E aposto que faturo, de cara, a mulher e a hospedagem.
(monta pose e se aproxima de Erócia)
Hã... escute... querida... se há pouco eu te contradizia,
Não foi por maldade...
É que esse aí é... é parente da minha mulher,
E sabe... eu não quero que ele vá contar
A estória da... da mantilha e... jantar.
Agora, se você quiser, vamos para dentro.

Erócia - Claro, queridinho. E o parasita? Não vai esperar?

Sósicles - O parasita? Que parasita? Ah, o parasita...


Ah, não, não! Nós tivemos um... um desentendimento.
Olha, e se ele vier, não quero nem que o deixe entrar!
22

Erócia - Ótimo. Melhor assim...

Sósicles - Agora vá e me espere, que eu já vou...

Erócia - Não demore, tá, meu quindim... (entra na casa)

Sósicles - Vai, vai, vai que eu já vou...


Messenião, venha cá, venha cá, venha cá.

Messenião - Sim senhor, sim senhor, sim senhor...


O senhor precisa de mim?

Sósicles - Rapaz, que sorte! Não sei bem qual é a dela,


Mas acho que vou ficar numa boa!

Messenião - Ih, meu amo, já tô vendo tudo!


O senhor não tem prática com mulher à toa!

Sósicles - Ora, acha que eu não me cuido?


Leve a mala e guarde-a em algum lugar
E depois aproveite para descansar.
E não se preocupe, essa coitada é uma bobalhona.
E o que é melhor: parece rica! (entra na casa)

Messenião - Pode ser... Mas se fizer alguma asneira,


A gente ó, se estrumbica!

Pronto, agora sim!


Um navio pirata rebocando uma chalupa...
Ai de mim, o que fazer?
Bem, se algo acontecer, não será minha culpa.
Mas que idiota que eu sou, que só reclamo!
Um escravo existe pra quê? Pra obedecer,
E não pra governar o amo.
Não quero nem saber... (sai)

CENA 9
Escova

Escova - Mas que besteira que eu fui fazer!


Quem foi que inventou comício?
Um monte de gente em pé, uma multidão!
Eu só tinha mesmo é que me perder!
Comício! Coisa de gente burra,
23

De desocupados... (que nem eu)...


Aquele passa-passa, aquele empurra-empurra...
Tinha que dar no que deu!
Mas que asneira! Nem pra parasita eu presto!
Menecmo deve estar se regalando...
Será que eu ainda pego pelo menos um resto?
Vou lá. A esperança é a última que morre...
Mas olhem: tem alguém saindo! Quem é?
Menecmo! De coroa na cabeça!

(Sósicles está saindo da casa de Erócia, com uma coroa de flores na


cabeça)
Pronto, agora sim! Lá se foi o rango e o porre!
A partida está perdida! A mulher está com ele...
Na certa, beijinhos de despedida...

CENA 10
Erócia, Sósicles e Escova

(Erócia e Sósicles estão saindo da casa. Ela vem estalando um chicote, ele se encolhe
todo. Escova observa)

Erócia - Oh, meu Adônis, meu Vulcano, meu Ajax querido!


Posso te fazer um pedido?

Sósicles - Ui! Será uma ordem, meu tesouro...

Erócia - Leve a mantilha a mestre Cordelião


E mande que ele borde o meu nome no centro,
Bem grande, com fios de ouro!

Sósicles - Ah, sim, a mantilha... boa idéia a sua.


Assim a minha mulher não vai reconhecê-la,
Caso se encontre com você pela rua...

Erócia - Isso mesmo! Espere, que eu vou buscá-la (entra na casa)

Sósicles - Mas que sorte a minha, quem diria!


Caiu do céu essa guria!
Bebí, comí, desfrutei a rapariga...
Foi só concordar com tudo o que ela dizia...
E ainda saio lucrando com essa biruta!

Escova - Que filho da puta!


Não sei o que está falando,
Daquí quase não se escuta.
24

Mas se vê que está bem tratado:


Comido, bebido e trepado.
Desgraçado! Por que não me esperou?
Eu vou falar com ele, ah, se vou!
Ei! Ou! Psiu!

Sósicles - Êêêê... quem é esse que vem em minha direção?

Escova - Então é assim, né? Exijo uma explicação!


Me largou plantado no comício que nem barata tonta,
E enterrou a janta sem mim! Que bilontra!

Sósicles - Moço, vejo que está nervoso,


Mas guarde os seus insultos,
Que eu não os mereço.
Pois se nem ao menos o conheço!

Escova - Que calhorda! Que animal!


Por que quer me arruinar, se nunca lhe fiz mal?
Pilantra! Vergonha da humanidade!

Sósicles - Mas só tem louco nesta cidade?


Escuta aquí, ó: dá o fora e toma a tua linha!
Não tenho muita paciência com quem me aporrinha!

Escova - Ah, muito bem, muito bem... É assim, né?


Mas eu me vingo, escuta o que eu te falo.
O castigo vem à cavalo.
Tua mulher vai saber de tudo!
E bem detalhado! Desde a hora em que te encontrei
Vestindo a mantilha que tinha roubado!

Sósicles - Eu? Vestindo mantilha? Me chamou de viado?


Vá pro inferno, seu doido varrido!

Escova - Cê tá é fodido! Ninguém zomba de mim!


Vou contar tudo pra tua mulher: tintim por tintim!
Tintim por tintim...
Tintim por tintim... (sai)

CENA 11
Erócia e Sósicles

Erócia - (voltando com a mantilha e o bracelete)


25

Iú-ú! Querido, com quem estava falando?

Sósicles - Um maluco passou por aquí


E me encheu de desafôro!

Erócia - Ih, só tem maluco em Epidano.


Ah, deixa eu te falar: adorei o bracelete de ouro!

Sósicles - Bracelete? Que bracelete? Não sei de nada!

Erócia - Oh, mas que adorável distraído!


O que roubou da sua mulher na semana passada!

Sósicles - Essa não! Estou cada vez mais confuso!

Erócia - Pois então: achei-o lindo, mas não o uso...


Está muito apertado, me deixa marcas horríveis!
Não poderia levá-lo ao ourives
E mandar acrescentar duas argolas? Ou melhor: três...

Sósicles - Ah, claro, claro... Passe a mantilha e o bracelete


Que já mando arrumar tudo de uma vez.

Erócia - Oh, querido, você é um amor.

Sósicles - Ora, que isso, por favor... Agora, vai, vai...

Erócia - Sim, xuxu... Bye-bye...

Sósicles - Vai, vai...

Erócia - Bye-bye...

Sósicles - Ah, os deuses me amam, pelo visto!


Quanto não valerá tudo isto?
Devo apressar-me e ir embora.
Olha, gente,
Não é que eu seja ladrão, não!
Sou homem de bem.
Mas estou quase sem vintém,
Tenho que aproveitar a ocasião...
Ah, é melhor tirar esta coroa e joga-la para lá.
Porque assim, no caso de alguém me seguir,
Vai tomar o rumo errado,
Pois eu vou é pro outro lado.
Adeus, antro de perdição!
Preciso encontrar o Messenião... (sai)
26

CENA 12
Matrona, Escova e Menecmo

(Matrona, saindo de casa, seguida por Escova)

Matrona - Oh, ingrato! Cruel!


Ele há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada,
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar!
Não, isso eu não vou aturar, não!
Ele não sabe do que eu sou capaz.
Roubando as minhas coisas pra levar para a amante!
Tenho meus direitos conjugais!

Escova - Pois é! Vamos pegá-lo em flagrante.


Ele estava aquí, ó, bêbado e coroado,
Esperando que a outra lhe desse a mantilha.
Olha, aquí está a coroa!
Prova de que não minto.
Upa, aí vem o safado!
Venha, vamos fazer-lhe uma armadilha. (escondem-se)

(Entra Menecmo)

Menecmo - Mas que confusão, que suplício!


Maldita hora que eu inventei
De assistir a esse comício!
A multidão, quando se inflama,
Age de forma irracional!
Não tive como escapar, e no final
A turma ainda me chama pra discutir plataforma eleitoral!
Imagina! Do jeito que vai mal
A Câmara, o Congresso Nacional!
Bando de caras de pau!
Mas é bem feito pra mim, me meter onde não devia!
Estraguei o meu melhor dia...
Mandei aprontar a janta, a amiga me esperava...
Mas com essa é que eu não contava.
Deve estar zangada, eu sei.
Ou talvez não, por causa dos presentes que lhe dei.

Escova - Então, que me diz a senhora?

Matrona - Ah, maldito, é chegada a sua hora!


27

Menecmo - Bem, de nada adiantam estes lamentos.


Será que Erócia está zangada comigo?
Vem, vou entrar e ver se ainda consigo
Desfrutar uns bons momentos!

Matrona - (avança sobre Menecmo) Parado!


Seu canalha de uma figa!
Tome isto (chuta-lhe o saco)

Menecmo - Ai! Mas o que é isso, mulher? Ai, que eu morro!

Matrona - Vai ficar de luto a perereca da tua amiga!

Escova - Agora é que eu quero ver! Começou o esporro!

Matrona - E tome mais, canalha!


Me roubando escondido!

Menecmo - Ai, caramba! Estou perdido!


Maldito! Você me caguetou!

Matrona - Onde já se viu? Patife duma ova!

Menecmo - Ai, chega! Para! Para! Para!


Até tu, Escova?
Afinal, do que se trata?

Escova - Ainda pergunta? Que falsidade!

Matrona - Você... você me trocou por essa perdida! (chora)

Menecmo - Ora, o que é isso, querida.


Você sabe o quanto eu te amo!

Escova - Mas olhem só! Quem diria! É um ator nato!


Merecia o prêmio da Academia!
Ela fraqueja... Preciso ajudá-la!

(para Matrona)
A mantilha!

Matrona - (chorando) Hein...?

Escova - A mantilha!

Matrona - (para Menecmo) A mantiiiiilhaaaa...

Menecmo - Mantilha? Que mantilha?


28

Matrona - (para Escova) Que mantiiiiilhaaaa...?

Escova - Como “que mantilha”? A mantilha! O bracelete!

Matrona - (para Menecmo) O braceleeeeteeeeee...

Menecmo - Bracelete? Que bracelete?

Matrona - (para Escova) Que braceleeeteeee...?

Escova - Ai, cacête, assim não dá!


Eu já tô uma pilha!
Vou ter que cuidar disso pessoalmente.

(para Matrona)
Vai, geléia, sai da frente.

(para Menecmo)
Você roubou!

Menecmo - Contesto!

Escova - Covarde!

Menecmo - Cachorro!

Escova - Canalha!

Menecmo - Calhorda!

Escova - Imoral!

Menecmo - Idiota!

Escova - Inhorante!

Menecmo - Imbecil!

Os dois - Vai pra puta que o pariu!

Escova - Não adiantou nada, mas pelo menos eu desabafei...

Menecmo - Oh, querida, me diga: o que aconteceu com a mantilha?

Matrona - Sumiu...

Menecmo - Sumiu? Mas como? E o bracelete?


29

Matrona - Sumiu...

Menecmo - Também sumiu? Ah, mas não é possível! Recuso-me a crer...!


Espera lá! É de uma mantilha vermelha que fala?
(Matrona responde “sim” balançando a cabeça, entre lágrimas)
E um bracelete de ouro? De argolas?
(Matrona faz sinal de “sim”)

Escova - Vamos, desembuche. Confesse que roubou, ora bolas!

Menecmo - Ah, mas então é isso! Está tudo explicado!


Acabo de me lembrar!
Emprestei-os à tia de um amigo meu,
Uma senhora distinta, de comportamento exemplar,
Para que fosse ao teatro
Ver uma comédia de Menandro!

Escova - Mas que malandro! Só uma burra ia acreditar!

Matrona - Verdade, querido? Oh, que burra que eu sou!

Escova - Acreditou!

Menecmo - A culpa foi minha, de não te avisar.


Acabei esquecendo, por causa do comício.

Matrona - Ah, mas eu não quero que empreste as minhas coisas...


Não gosto disso...

Menecmo - Está bem, querida. Desculpe.


Vou buscá-las de volta agora mesmo.

Escova - E eu vou dar no pé, bem depressa,


Porque se ele me pega vou virar torresmo...

(para a platéia)
Tcháu procês!
Acabou-se a minha parte nesta peça... (sai)

Menecmo - Bem, agora que está tudo resolvido,


Vá para casa, querida,
Que eu vou cumprir o prometido.
Até já, minha pombinha...

Matrona - Até já, meu pombinho... (entra na casa, dando tchauzinhos)


30

CENA 13
Menecmo e Erócia

Menecmo - Ah, ainda bem que eu sou um mestre


E ela é uma bobinha.
Ai, como ela me enche o saco!
Mas é que o pai dela é rico,
E já tá velho que é um caco...
Então, sabe como é, tenho que aguentar
Se quiser tirar algum proveito.
Agora, toca a falar com a outra... que trabalheira!
Vou ter que pedir de volta a mantilha e a jóia.
Depois eu substituo, de qualquer maneira.
Mas Erócia é tão compreensiva,
E eu sei que ela me ama.
Com ela não haverá problema.

(chama)
Erócia! Erócia!

Erócia - Sim, Menecmo, o que deseja?

Menecmo - Ó minha Vênus ardente, estou num dilema:


Minha mulher descobriu tudo!

Erócia - Tudo?

Menecmo - Tudo!
Devolva-me a mantilha que te dei de presente.
Mas não se preocupe, meu amor,
Depois eu te compro outra, do dobro do valor.

Erócia - Ué, mas se eu já entreguei a você


Junto com o bracelete,
Pra que mandasse reformar!

Menecmo - Ora, o que é isso? Pare de brincar,


Que o caso já está muito complicado...

Erócia - Pois então não entreguei a você a mantilha e a jóia,


Agora há pouco,
Depois do jantar?

Menecmo - Mas como, se eu estava no comício, e acabei de voltar?


Jantar? Que jantar?
31

Quer me deixar louco?

Erócia - Ah... eu já vi tudo! Já tô entendendo!


Você está é forjando desculpas pra me enganar!
Escuta aqui, ô malandro:
Você me deu os presentes porque quis,
Eu não te pedí porra nenhuma!
Agora vem com esse papo de aranha!
Qual é, cara? Eu não nascí ontem!
Tô entendendo a tua manha! Entrando numa!
Eu aquí, te dando os meus favores,
Aguentando teu bafo, teu ronco, teus fedores,
Te facilitando as trepadas
Pra no fim ser tapeada?
Quer saber? Some da minha vida,
Já que não serve pra nada! Cacete!
Vai procurar outra palhaça quando quiser uma orgia!
A mantilha e o bracelete?
Enrola tudo e enfia! (entra na casa, pisando duro)

Menecmo - Nossa! Que fúria! Que horror! Que dia!


Não quer devolver os presentes,
E no final ainda me arrasa!
E agora, o que é que eu vou dizer lá em casa? (sai)

CENA 14
Sósicles e Matrona

Sósicles - (entrando em cena, com a mantilha e o bracelete)


Acho que fiz besteira deixando o dinheiro com Messenião...
Deve ter se afundado em alguma espelunca, aquele cão!

Matrona - (saindo à porta da casa)


“Eu tenho tanto pra te falar
Mas com palavras não sei dizer...”
Oh, onde andará o meu pombinho, que não chega nunca?
Oh, mas eis que o vejo!
E traz a mantilha e o bracelete!
Mas que amor! Vou tascar-lhe um beijo!

(corre e beija Sósicles)

Sósicles - Mas o que é isso, mulher?


Não tem vergonha?

Matrona - “Besame, besame mucho...”


32

Sósicles - Ora, vê se para com isso!

Matrona - Mas, querido, o que foi que eu fiz?


Eu só quero ver você feliz!

Sósicles - Ih, na certa é uma meretriz...


Olha, eu não tenho um tostão, tá?
Vai procurar outro freguês.

Matrona - Oh, me chamando de meretriz?


Não posso tolerar essa ofensa!
Prefiro ficar sem marido
Do que aguentar esses ultrajes!

Sósicles - A mim pouco importam as tuas bobagens!


“Prefiro ficar sem marido”, diz ela...
Isso até parece diálogo de novela!

Matrona - Seu monstro!


E eu, que vim correndo ao seu encontro! (chora)

Sósicles - Pronto! Ainda tenho que aguentar choradeira...


Vai procurar tua turma, sua rameira!

Matrona - (grita) Papai!

Sósicles - Quem? Eu? A mulher é louca de pedra!

Matrona - Papai!

Sósicles - Ai, que merda!

CENA 15
Velho

Velho - (saindo da casa)


Ai, ui! Ui, ai!
Já vou, minha filha, já vou!
Apresso o passo o mais que posso,
Mas minha idade não permite exageros...
Falta-me ligeireza e visão...
O corpo me pesa, as forças se vão.
Estou acabado de velho...
Velhice é artigo ruim, mercadoria ordinária...
33

É gota, é reumatismo, é urticária,


O sangue que não circula,
Catarata, a boca seca, a hemorróida que não tem cura...
E o nariz, então? Remela dura!
É um mundaréu de doença:
A urina fosca, a bosta escura...
Já estou é com os pés no caixão!
Mas o que será que ela quer?
Ah, pelo jeito é briga de marido e mulher!
Não gosto disso, não...
Olha a cara dos dois!
Pois é: casa quem quer,
Aguenta, depois!

CENA 16
Velho, Matrona e Sósicles

Matrona - (chorando) Oh, papai, ainda bem que você veio!

Velho - Xiii... o negócio aquí tá feio...


Algo errado, pra me chamar?
Por que é que está carrancuda?
E ele, por que essa cara trombuda?
Fale logo, sem espichar,
E alto, porque senão eu não escuto!

Matrona - Não posso mais viver com esse bruto!


Eu quero ir embora!

Velho - Ei, mas o que é isso?


O que está acontecendo?

Matrona - Estou sendo desprezada, papai.


Esse monstro tem me traído!

Velho - Ora, então é isso! Rusgas de amor! Ciúmes do marido!

Matrona - Ele tem coisa com a sirigaita da casa em frente!


Uma mulher à toa!

Velho - É? O danado tem bom gosto! Ela é muito boa!

Matrona - Come e bebe na casa dessa tal...

Velho - Ora, é apenas um hábito social...

Sósicles - O velho até que é legal!


34

Matrona - Papai, eu não estou entendendo!


O senhor o está defendendo?

Velho - Ora, não vejo nada que justifique


Esse teu ataque, esse chilique.
Ele te conserva com jóias e vestidos,
Satisfaz os teus caprichos
E provê o teu sustento.
Isso é o que importa!
(aponta para a casa de Erócia) Isso aí é coisa de momento...
O que você quer? Enjaulá-lo como um bicho?

Matrona - Mas ele me furta mantilhas e jóias


Para dar de presente praquela lambisgóia!

Velho - Ôpa, ôpa, ôpa! As jóias? A mantilha?


Que você comprou com o meu dinheiro?
Mas que trapaceiro!
Isso é muito grave, minha filha!
Tem certeza? Se não, farei de conta que não ouví.

Matrona - Pois veja, papai: estão com ele o bracelete e a mantilha!


Trouxe de volta porque eu descobrí!

Velho - Bem, nesse caso, então... vamos ver.


Vou tomar o seu depoimento.
Menecmo, venha cá um momento.
Eh, eh, eh... Por que essa cara amarrada?
Essas coisas se arranjam!
Por que se preocupa?

Sósicles - Essa mulher é maluca!


Juro que não roubei nada!
Nem mesmo sei onde ela mora!

Velho - Ah, meu filho, para com isso...


Que piada mais fora de hora...

Sósicles - Pois é verdade, velho. E não me chame de filho


Pois o senhor me é completamente estranho!

Velho - Ah, quer dizer que agora já não me conhece?


Safado! Umas boas lambadas é o que você merece!
Vamos falar sério, meu filho...
Um homem desse tamanho!

Sósicles - (grita) Eu estou falando sério!


Não te conheço! Não sei quem é!
35

Soube agora que é pai dessa jumenta,


Desse diabo de mulher que me atormenta!

Matrona - Papai, estou com medo! Eu nunca o ví assim!


Veja como ele olha pra mim!

Velho - Vamos com calma, minha filha,


Porque eu também já estou indeciso...
Parece que seu marido de repente perdeu o juízo!

Sósicles - Que boa idéia me deu esse rabugento!


Vou me fingir de louco!
Quem sabe assim os afugento
E vou-me embora da cidade?

(avança sobre eles, gritando)


Uááááááá.....

Velho - Cuidado, minha filha! O caso requer seriedade!


Acho que o danado é epiléptico.
Saia de fininho, sem que ele a veja,
E vá correndo chamar um médico!

Matrona (sai correndo)


Já estou indo!
Doutor! Doutor!
Ai! Um médico, por favor!
Doutor! Doutor!

Sósicles - Está dando resultado! Ela já foi!


Agora é só dar um jeito nesse velho desdentado!

(grita como se estivesse num delírio)

Oh, Apolo, o que me ordenas?


Que suba em teus cavalos bravios
E galope em desvario?
Ouço e não discuto: obedeço apenas!

(galopa pelo palco)

Velho - Misericórdia! Que doença cruel e terrível!


Agora há pouco estava bem!
Um processo de demência incrível!
E esse médico que não vem?

Sósicles - (gritando)
Já montei, Apolo! Tenho as rédeas na mão!
36

O que mandas agora?


(aponta para o velho)
Que arranque fora os olhos desse velho
E os atire ao primeiro cão? Pois não!
(avança sobre o velho, gritando)

Velho - Eia! Eia! Arreda, capeta! Eu, hein, violão!


(sai em desabalada carreira)

Sósicles - Ah, ah, ah... arre que se foram, afinal!


A intrometida e o caduco...
Mas que lugar é este.
Que só tem maluco?
Por enquanto estou a salvo,
Mas por quanto tempo eu não sei.
Me arranco sem demora...
Se o velho perguntar,
Digam que eu... sei lá: desintegrei! (sai)

CENA 17
Velho, Médico e Menecmo

Médico - (entra em cena, seguido pelo velho)


Mas que doença o senhor acha que ele tem?

Velho - Eu sei lá! Se soubesse não mandava lhe chamar!

Médico - Que sintomas ele apresenta? Delira? Geme?


A boca espuma? O rabo treme?
E os dentes? Estão inteiros ou quebrados?
As pernas estão firmes? Anda de frente ou anda de lado?

Velho - Afinal, o senhor é médico de gente ou de cavalo?

Médico - O senhor me disse que ele galopa!

Velho - Sim, e porisso é que é preciso cura-lo!

Médico - Nada mais fácil! Ele ficará são!

Velho - Não sei, não... Lá vem ele. Cuidado!

Médico - Não se preocupe, em breve estará curado. Venha.


Primeiro, vamos fazer uma observação... (escondem-se)

(Menecmo entra)
37

Menecmo - Ah, que dia nojento! Nada deu certo!


Será um castigo dos deuses
Ou sou mesmo um azarento?
Aquele maldito parasita, os transtornos que me causou!
Que vergonha! Quase me desmoralizou!
Se não sou de circo, caio no ridículo!
Mas ele não perde por esperar,
Que ainda o ponho no pinico.
A vagabunda... me deixou na mão...
Não quis devolver a mantilha...
Mas não me admira!
É próprio de gente dessa classe.
Que um raio a partisse ao meio
E fulminasse aquela vacona!
Mas o que é que eu vou dizer pra Matrona...?

Velho - O que é que ele disse? O que é que ele tem?

Médico - Resmunga da vida... Coisas sem nexo.


Delira, por certo! Não me parece bem...
Talvez um tumor no cérebro, um abcesso!

Velho - E o que está esperando? Vá lá tratá-lo! (empurra o médico)

Médico - Ãhhnnn... muito boa tarde, senhor Menecmo...!


Tudo bem?
Por que não está agasalhado?
Seria melhor, para o seu estado...

Menecmo - Ah, não! Outro demente?


(grita) Ora, vá se danar!
Se manda! Saiu da minha frente!

Médico - (correndo de volta para o velho)


O caso é grave!
Loucura num estágio adiantado!
Precisaria de um eletrochoque, penicilina, antibiótico,
Mas nada disso ainda foi inventado!

Velho - Como está atrasada a medicina...!

Médico - Vou tentar trazê-lo para um estado hipnótico.

Velho - Vai, conserta a cachola do psicótico...

Médico - (aproxima-se de Menecmo balançando um relógio)


Olhe para isto... relaxe...
38

Está se sentindo cansado... muito... cansado...


Solte as pálpebras... deixe-as cair...
Isso... você vai dormir... dormir...

(o velho adormece)

Relaxe... isso...
Ótimo! Estamos progredindo!
Me diga, agora: o que é que você sentiu?

Menecmo - (grita) Vai pra puta que o pariu!

(o velho acorda, assustado)

Mas que diabo é isso? O que é que estão fazendo?


Até o senhor, meu sogro, está metido nesse serviço?

Velho - Acalme-se, filho, e confie na gente!

(para o médico)
Viu? Antes não sabia quem eu era,
Agora me reconheceu!
Acho que a loucura dele é intermitente!

Médico - (de longe)


O senhor andou bebendo vinho estragado?
Adormece facilmente, ou fica de olho arregalado?
Urina e defeca regularmente?
Sente o olho duro? O intestino latejando?

Menecmo - Mas do que é que estão falando? Não entendo nada!

Velho - Não disse? Não disse? Não disse?


Está com a cachola avariada!
Desprezou a mulher, galopou pelo palco, esqueceu até onde mora!
E queria me arrancar o olho!
O cérebro dele virou repolho!

Menecmo - Sumam daquí, me deixem em paz!


Será que vai demorar muito pra acabar este dia?

Médico - Acho melhor amarra-lo... O caso é de lobotomia!


(o médico e o velho pegam uma corda e um porrete)

Menecmo - Eu devo ter sido muito ruim...


Será que os deuses se zangaram comigo?
Parece que o mundo inteiro está contra mim!
Piedade, Júpiter, piedade!
39

Parece que estou num pesadelo!

Médico - Um... dois... três... já!

(batem na cabeça de Menecmo e o amarram)

Ih, ih, ih! Pronto, aí está! Amarre bem. Precisamos prendê-lo


Antes que desperte. Deixe-o no chão.
Eu vou pra casa preparar a operação.
Vou mandar o meu assistente
Vir buscar o paciente. (sai)

Velho - Está bem, está bem, eu vou chamar minha filha...


Mas quem diria!
Menecmo, meu genro, tão inteligente,
Uma pessoa tão boa, tão viva,
Agora taí, ó: doidinho da silva! (sai)

CENA 18
Messenião e Menecmo

(Messenião entra em cena)

Messenião - É como eu digo:


Eu sou um bom servo, me dedico ao meu amo,
Cuido das suas coisas diligentemente,
Esteja ele ou não presente.
O escravo desonesto ou indolente, esse merece castigo.
Porisso tenho comigo servir bem ao patrão,
Respeitá-lo, obedece-lo, e estar pronto para o serviço
Em qualquer ocasião.
Agindo assim, eu nada receio, e quem sabe até se um dia,
Como recompensa dos meus trabalhos, ele me dê a alforria!
É o que eu mais queria...
Bem, deixei guardada a bagagem num estalajadeiro,
Mas da bolsa não me separo, não: trago comigo o dinheiro.
Vou bater à porta daquela dona e chamar o meu amo,
Conforme ele mandou... (vai em direção à casa de Erócia)

Menecmo - (gemendo) Onde estou? Será que eu morrí...?

Messenião - Ué! Que estranho! Parece que eu conheço aquele alí!

Menecmo - O que fizeram comigo aqueles desgraçados?


40

Messenião - É o meu amo! O que fizeram com ele, coitado?

Menecmo - E esse, quem será?


Com esse jeito esquisito e essa cara de tarado?

Messenião - Eu sabia... deve ter feito alguma asneira


Pra estar amarrado dessa maneira...

Menecmo - Ei, você! Me ajude aquí, por piedade!


Não vê que estou amarrado?

Messenião - Ôpa! Deuses do Olimpo!


É a minha oportunidade!
Livro meu amo do enrosco,
Em troca
Peço pra ser alforriado!

Já estou indo, senhor, cheguei!


Mas antes precisamos conversar...

Menecmo - Que conversar, o que! Isso não é hora!


Venha depressa, me dê uma mão!

Messenião - Não, sabe o que é? Não que eu queira aproveitar da situação, mas...
Vamos fazer um acordo?
Eu liberto o senhor e o senhor também me deixa livre?

Menecmo - Essa é boa... O que será que ele teme?


Será que ele acha que eu vou amarra-lo?

Sim, sim, eu te deixo livre, claro!

Messenião - Verdade? O senhor me concede a liberdade?

Menecmo - Concedo, concedo, prometo, juro!


Agora venha e me desamarre!

Messenião - (desamarrando-o) Oh, senhor! Como me faz feliz! Sou livre, agora!
Minha gratidão será eterna diante da nobreza do seu gesto!
E para demonstrar-lhe o quanto sou fiel e honesto:
Eis aquí o seu dinheiro! (estende-lhe a bolsa)

Menecmo - Pensei que ele fosse meio louco,


Mas é louco por inteiro!
E o dinheiro? Que dinheiro é esse?
Não sei se pego ou não...
Vai que daí me apareça mais alguma confusão...!
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(para Messenião)
Não, não, não... Fique com ele, pode ficar. É todo seu!

Messenião - Pra mim, senhor? Mas quanta bondade!


Posso começar vida nova
Com a liberdade e o dinheiro que me deu!
Obrigado, muito obrigado, senhor!

Menecmo - Mas vejam só...


Não lhe dei coisa nenhuma,
Mas é melhor não contraria-lo...
Só espero que suma!

Messenião - Senhor, a mala! Ia me esquecendo!


Vou buscá-la na estalagem! (sai)

Menecmo - Isso, isso, boa idéia! Vá buscar o que quiser...


Não precisa se apressar!
Vai! Vai!
Vai se ferrar!
Contando ninguém acredita!
Matrona está louca da vida,
E os velhos? Queriam o que? Me matar?
E esse doido aí, com essa conversa esquisita?
Ai, eu vou ao Esculápio, tomar uma droga qualquer...
Minha cabeça vai estourar! (sai)

CENA 19
Sósicles, Messenião e Menecmo

Sósicles - (entra em cena, seguido por Messenião com a mala)


Ora, faça-me o favor!
Além de atrevido é mentiroso!
Como ousa dizer que se encontrou comigo
Se nem sequer o ví depois do jantar?

Messenião - Como não, patrão? Ah, para de zoar!


Pois se eu até o salvei, agorinha mesmo!
Estava todo amarrado!

Sósicles - Que estória é essa, Messenião ?


Nunca pensei que tivesse tanta imaginação...

Messenião - Está estranho o meu patrão!


Será que foi o sol de Epidano
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Que o deixou assim, desmiolado?

(para Sósicles)
Mas com toda a certeza o senhor se lembra
Da alforria e do dinheiro que me deu!

Sósicles - Essa não! Passe pra cá o dinheiro, que ele é muito meu!
Eu lhe dei a alforria? Imagine! Ficou louco?
Jamais o faria!

Messenião - Era o que eu temia...


Mas patrão... eu vinha vindo... o senhor alí...
Tinha uma corda... “eu tô amarrado”...
Puxa vida... O que aconteceu, patrão...?

(vê Menecmo, que está entrando pelo outro lado)

Patrão? Patrão? Patrão!

Sósicles - Pare com isso! Vá pro diabo que o carregue!


(guarda a mantilha e o bracelete na mala)

Messenião - (apontando para Menecmo) Patrão, estou vendo o senhor, patrão!

Sósicles - Ah, é? Não diga!


Que idiotice! Deve estar com febre!
Deixe de bobagem. Pegue a mala e vamos seguir viagem...
(Sósicles e Menecmo viram-se e se vêem)

Sósicles - Quem é aquele?

Messenião - (apontando para Menecmo) É... é o senhor, patrão, sem retoques...

Menecmo - Quem é esse homem?

Messenião - (apontando para Sósicles) É o senhor! Não é o senhor? (aponta para


um e para o outro) Se não é o senhor, eu não sei...
Caramba, são iguais! Parecem xeróx!

(Sósicles e Menecmo se aproximam e se examinam, andando em voltas)

Menecmo - Tem a minha cara!

Sósicles - O meu nariz!

Menecmo - O mesmo olho vermelho!

Sósicles - Parece que me vejo no espelho!


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(para Menecmo) Qual é o seu nome?

Menecmo - Menecmo é o meu nome... E o seu?

Sósicles - Não diga... Menecmo sou eu!

Messenião - Ah, estou reconhecendo este... (aproxima-se de Menecmo) É o meu


amo! Na verdade eu sou escravo deste, e pensei que era daquele!

Sósicles - Você parece que delira!


Não desembarcou comigo hoje em Epidano?

Messenião - É... foi... desembarquei...


(para Menecmo) Desculpe, foi engano.
(aproxima-se de Sósicles) Este aquí é que é Menecmo, meu amo!

Menecmo - Pois declaro que Menecmo sou eu!

Messenião - Mas como, se o senhor não desembarcou hoje em Epidano?

Menecmo - Desde pequeno vivo em Epidano,


Mas nascí em Siracusa. Sou siciliano!

Sósicles - Siracusa! É a minha terra, onde eu moro!

Messenião - Pois é, e o senhor desembarcou hoje em Epidano!

Sósicles - Afirmo, pois, que sou Menecmo, filho de Mosco!

Menecmo - Você, filho do meu pai?

Sósicles - Do seu, não! Do meu! Veja lá como fala!

Messenião - Deuses imortais, me ajudem!


Se o que eles dizem é verdade,
Acabou-se a procura do meu patrão!
Todo mundo já sacou!
Tá na cara que são irmãos!
Vou chamar o meu amo... Sr. Menecmo!

Os dois - Que é?

Messenião - Qual dos senhores desembarcou comigo hoje em Epidano?

Menecmo - Não fui eu, palerma.

Sósicles - Fui eu, sua lesma.


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Messenião - Então é ao senhor que chamo.

Sósicles - O que você quer?

Messenião - Se aquele homem não é um embusteiro,


Só pode ser o seu irmão gêmeo!

Sósicles - Mas... será?

Messenião - Nunca ví alguém se parecer tanto com outro!


Deixa comigo, patrão, que eu cuido do caso.
Em retribuição, se for mesmo o seu irmão gêmeo,
Acho que bem que eu merecia um prêmio...

Sósicles - Pois bem. Vá em frente.


Se for mesmo meu irmão, te alforrio de imediato.

Messenião - Tá. Ah, mas dessa vez quero ser alforriado de fato!
Então, vamos ao trabalho.

(assume uma pose de juiz e aproxima-se de Menecmo)


Sr. Menecmo, esse é o seu nome, não?

Menecmo - Já disse que sim!

Messenião - E como se chamava sua mãe, senhor?

Menecmo - Teuximarca.

Sósicles - Teuximarca é minha mãe!

Messenião - Quieto! Silencio no recinto, por favor,


Porque senão eu paro!

Sósicles - Desculpe. Prossiga, meu caro.

Messenião - Prossigamos pois.


Quantos irmãos eram os senhores?

Menecmo - Dois.

Messenião - E qual dos dois era o mais velho?

Menecmo - Tínhamos a mesma idade.

Messenião - Ora, como é possível isso?

Menecmo - Éramos gêmeos, né, ô raridade!


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Messenião - Hummmmm...

Sósicles - Por Jupiter! Acho que o encontrei!

Messenião - Calado! Ainda não terminei!


(para Menecmo) Em sendo gêmeos, como declara,
Por que não viviam na mesma cidade?

(música de violinos; Menecmo se dirige à platéia, em prantos)

Menecmo - Saí de Siracusa em viagem com meu pai


Quando tinha sete anos...
Perdí-me no meio do povo,
E me trouxeram para Epidano... (chora convulsivamente, todos choram)

Messenião - Muito bem, sr. Menecmo, muito bem...


E... como era... o nome do seu irmão?

Menecmo - Sósicles era o nome do meu mano...

Sósicles - (para a platéia, em prantos – volta a música de violinos, todos choram)

É isso! A estória confere!


Eu me chamava Sósicles até então!
Quando soube do seu desaparecimento e da morte de papai,
Vovô mudou o meu nome para Menecmo!
Eu o saúdo, meu irmão!

(corre para abraçar Menecmo, que o breca; os violinos param)

Menecmo - Pera lá! Não quero aparentar descrença,


Mas falta ainda uma certeza:
Na viagem papai me disse que temos um sinal de nascença.

Sósicles - Não sabia disso. Onde é o sinal?

Menecmo - Na bochecha! (bate na nádega)

Sósicles - Pois vamos conferir, depressa!


Messenião, veja!

(abaixam-se e mostram a bunda para ele)


Somos ou não somos irmãos?

Messenião - Senhores... caramba! Que situação!

Menecmo - Como é? Vai demorar muito aí?


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Messenião - Preciso examinar com cuidado,


Porque o caso é muito delicado...
Hummm... hum... hum-hum...
É... interessante...
Bem, senhores, com base nas evidencias que temos,
É com satisfação que os declaro: irmãos gêmeos!

Sósicles e Menecmo - MANO!

(gritam, abraçam-se, beijam-se; entra todo o elenco e festejam; música)

EPÍLOGO
Todos em cena

Messenião - Senhoras e senhores, acabou-se a confusão!


Esperamos que estória lhes tenha agradado.
Epidano está em festa,
E vocês são convidados!
Provavelmente isso vai terminar numa fantástica orgia!
Mas antes, pedimos os vossos aplausos
Para Plauto e para a nossa companhia!

(o elenco todo aplaude; carnaval, confete, serpentina, etc...)

FIM