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Cruzamentos, territórios e patrimônio religioso: sobre

a doçura como referência cultural nas comemorações


de Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes nas
praias do Laranjal, Pelotas/RS, em 2007 1
MARÍLIA FLOÔR KOSBY

resumo Este estudo etnográfico analisa a ce- entrar na Lagoa! Era a sereia. A Iara chamou,
lebração religiosa que acontece todos os anos no e ela foi. Iara cantou uma canção que não se
dia 2 de fevereiro em Pelotas: as comemorações do sabe cantar, com uma voz que não se ouve, que
feriado oficial de Nossa Senhora dos Navegantes. não se imita. E ela, encantada, mergulhou sem
Especificamente, desenvolve-se na observação dessa medo, no desconhecido escuro da Lagoa dos
cerimônia nas praias lacustres do Laranjal e colônia Patos. Se não fossem as súplicas de suas acom-
de pescadores Z3, costa leste de Pelotas/RS, banha- panhantes, a senhora de roupas brancas e guias
da pela Lagoa dos Patos. Toda a análise é permea- azuis teria seguido a canção inebriante, teria
da pela noção de “encruzilhada”, sugerida por José tocado o mundo da sereia. Sereia que não leva
Carlos Gomes Anjos, em substituição à noção de nome de santa, mas tem devotos, ganha flores,
sincretismo, com o intuito de considerar as múlti- doces, pentes, espelhos. Iara nunca virou santa,
plas entidades, divindades e manifestações religiosas mas Iara atende pedidos, a sereia escuta pro-
que se cruzam durante os festejos. Tal conceito é messas. Era 2 de fevereiro, e Iara queria seus
baseado na reflexão sobre como a cosmovisão afro- adoradores todos em volta, no fundo das águas
religiosa lida com a diferença. Além disso, ela per- do balneário dos Prazeres.
mite perceber o quanto essa lógica não se restringe
às terreiras2, mas permeia as estratégias identitárias Iemanjá é também associada a diferentes mães-
de grupos aparentemente tão contrastantes como a d’água da mitologia indígena, sendo por isso
comunidade católica e o “povo de religião”. mesmo chamada Iara, a Mãe-d’água (Vallado,
palavras-chave Patrimônio cultural. Afro- 2002, p. 37).
religiosidade.
Há quem diga que dos fartos seios de Ie-
Na madrugada do feriado em que se come- manjá fizeram-se dois rios que logo viriam ser
moram oficialmente os festejos em homenagem o mar, sua morada. Há também quem acre-
à Nossa Senhora dos Navegantes, Maria “Mãe dite que foi de suas lágrimas que ele surgiu,
dos Pescadores”, no último banco do ônibus quando Oxalá, ao beber vinho de palma em
que trazia, lotado, passageiros da praia de volta demasia, quebrou a promessa de não caçoar
à cidade, a mulher encharcada, apesar de não dos enormes seios dela. A Lagoa, naquela noi-
ser “de religião”, dizia-se devota de Iemanjá. A te, era um mar. Nessa época do ano as águas
interlocutora havia levado as filhas e flores para doces abaixam-se para que o oceano co-habite
saudar a orixá3 “Rainha do Mar”. seu leito, translucidando de verde a costumei-
Conforme seus relatos, ia embora mais ra turvação da Lagoa dos Patos.
cedo, pois o fundo das águas causara-lhe uma A noite clara que se apresentava parecia
perigosa tentação – logo ela que sempre evitara exibir com vaidade os mais bonitos frutos da

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“grande mãe africana do Brasil”4 do estômago vinham das terreiras de Umbanda. Dezenas,
de Iemanjá nasceram todas as estrelas, as nuvens espalhadas, grupos de fiéis em rodas, cavalos de
e, além delas, nove dos doze orixás cultuados umbanda7 emprestando seus aparelhos8 às en-
no Batuque: Bará, o senhor da rua e das encru- tidades desejosas de se manifestarem na noite
zilhadas, o regulador dos caminhos; irmão de de festa. Dançavam, bebiam, riam, fumavam,
Bará, Ogum, dono do ferro, da guerra, das fer- aconselhavam, orientavam, caboclos, pretos-
ramentas, da faca, protetor dos trabalhadores e velhos, exus, pombagiras e ciganos. Como ma-
dos caminhantes; Iansã, a deusa dos ventos, das jestades nos seus tronos, nos congás, na areia
borboletas e das tempestades, domina os espíri- mesmo ou debaixo das árvores, imagens das
tos dos mortos e habitantes de planos inferiores; entidades – e em alguns casos de orixás – rece-
Xangô, senhor do fogo, foi rei de Oyó, é deus biam as honras dos filhos de suas terreiras. As
do trovão e da justiça; Odé e Otim regulam a rodas de terreiras geralmente continuam seus
caça, são o par, o homem e a mulher, represen- rituais praianos até o amanhecer.
tam o equilíbrio dos opostos, têm as mesmas Logo nas primeiras horas da manhã, al-
incumbências; Obá, que “escolheu a guerra guns quilômetros adiante do Balneário dos
como prazer nessa vida”5; Ossaim, que conhece Prazeres, na colônia Z3, comunidade formada
os segredos das plantas litúrgicas e medicinais; e principalmente por pescadores e suas famílias,
Xapanã, que tem poder sobre a doença e a cura, o caminho das celebrações levava às redonde-
é dono da “Vida e da Morte”6. zas do católico Santuário Nossa Senhora dos
À noite, só Iemanjá, Iara e aqueles que as se- Navegantes, onde encontrava-se a imagem da
guiam águas adentro podiam perceber o sal do santa, de manto branco, no seu barquinho com
mar. Pois quem se detinha às areias nem sequer o menino Jesus nos braços (imagem 1).
imaginaria outra qualidade que não a doçura. Trazida em carreata da Igreja Sagrado Cora-
Doçura dos montes de açúcar que se confun- ção de Jesus, situada no bairro do Porto, chegara
diam com o próprio chão – crivados de velas a imagem à vila de pescadores para dar início às
coloridas acesas, desenhavam sob os pés o céu. comemorações, com a celebração de uma mis-
Doçura dos quindins de Oxum, merenguinhos sa pelo bispo Dom Jaime. Nos dias anteriores
de Iemanjá e cocadas de Oxalá, que compu- à chegada da santa à igreja do porto, ela passa
nham as ornamentadas bandejas de oferendas algumas noites em capelas de diferentes bairros
para esses orixás, os orixás de praia, de mel, ve- da cidade, onde são celebradas missas quando
lhos pais de todos e de tudo. de sua chegada e procissões quando de sua par-
Nas mesmas areias doces que mostravam o tida para outro bairro (Bairros; Moura, 2007)9.
caminho até o lar da sereia Iara, homens e mu- Rodeada por velas, flores e cartas, a imagem de
lheres de um grupo de dança afro, em coreogra- devoção permanece no santuário para, às três
fias precisas, homenageavam Iemanjá, frente à horas da tarde, partir em procissão lacustre até
grande imagem sob holofotes da deusa africana o porto da cidade, no canal de São Gonçalo,
de pele alva, corpo esguio e olhos azuis, cabelos passando o Pontal da Barra, após contornar as
negros e longos. O som dos tambores que guia- praias do Laranjal (Balneário dos Prazeres, San-
vam os passos da dança chegava aos ouvidos to Antônio e Valverde), bairro que contempla a
das milhares de pessoas que visitavam a praia. orla da Lagoa que cerca a costa de Pelotas.
Tão logo cessaram as cerimônias oficiais, Enquanto não partiam as embarcações, as
com a presença de autoridades administrativas festas circundavam a pequena igreja: shows
do município, os tambores que então soavam musicais e uma imensa quantidade de pratos à

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base de peixes servidos em longas mesas na rua ções em movimento. Azul e branco coloriam
ou dentro do salão da comunidade. Muitas das todos os horizontes, as cores que os fiéis católi-
pessoas que chegavam à colônia de pescadores, cos dedicam a sua santa das águas.
atraídas pelo almoço, vinham saborear a fartu- Um único barco entre os que formavam a
ra dos peixes que a devoção à santa “Rainha do procissão destoava dos outros. Era diferente
Mar” traz àqueles que sobrevivem das águas. porque, além das bandeiras azuis e brancas,
Na beira da água, dezenas de barcos de trazia outras no mesmo número, mas de cor
pesca tremulavam redes de bandeirinhas azuis vermelha; a cor de Bará, orixá que no Ba-
e brancas que desciam desde seus mastros até tuque rege o ano de 2007. Eram para Bará
as bordas das embarcações, decorando toda as bandeiras, e eram de Bará para Nossa Se-
vista de quem de dentro olhava. Eram os nhora dos Navegantes, de Bará para Iemanjá.
preparativos para a procissão, muitos balões E para elas também fora enfeitado de azul e
verde-e-amarelos e, no alto dos mastros, pre- branco um outro barco, de nome “Poderosa
dominava a altivez de bandeiras do Brasil ou cigana”, tendo no casco pintada uma ima-
do Rio Grande do Sul. gem da entidade cultuada pelos umbandis-
tas, vestida de vermelho e segurando sua saia
envolta em labaredas.
Bará e a cigana acompanhavam Nossa Se-
nhora dos Navegantes, representavam-na em
suas cores, homenageavam-na em cortejo. Mas,
além da santa, havia outra, uma deusa a ser ce-
lebrada. Ao aproximar-se o séqüito do Balneá-
rio dos Prazeres, via-se uma multidão (imagem
2) que se dirigia da praia para a laguna; com
água até o peito, os maiores carregavam nos
ombros Iemanjá em seu barquinho (imagem
3), as outras centenas de pessoas tinham nas
mãos rosas vermelhas, pentes, espelhos, ima-
gens, traziam os filhos pequenos para saudar a
santa que se aproximava. Sacudiam os braços,
batiam palmas, em gestos de euforia jogavam
água para o alto, água que ao sol cintilava – daí
uma das cores rituais de Iemanjá ser o pratea-
do, justamente por ser a cor da cintilação das
águas sob a luz do sol.
O encontro da orixá Iemanjá com Nossa
Imagem 1: Foto do acervo Marília Floôr Kosby, 2007.
Senhora é uma homenagem mútua, é um en-
De dentro do barco Terra Sul, que carregava contro planejado por representantes da Igreja
o emblema “Salve Maria, Mãe dos Pescadores”, Católica e da Federação de Cultos Afro-bra-
acompanhamos o trajeto da embarcação que sileiros. No planejamento do ritual, o cortejo
transportava Nossa Senhora dos Navegantes faz duas voltas em círculo, no meio da Lagoa
pelas águas transparentes, através das quais se dos Patos, assim que chega ao encontro dos
podia ver no fundo a silhueta das comemora- devotos de Iemanjá, reverenciando a orixá e

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dispondo a santa em reverência. Neste ano, brasileiro. Umbanda (caboclos e pretos-velhos


em vez de seguir até o porto da cidade, os e/ou cruzada, incluindo os exus), Batuque e
barcos saudaram Iemanjá no Balneário dos Catolicismo são cultuados na mesma celebra-
Prazeres e, em seguida, retornaram ao ponto ção e, na maioria das vezes, pelos mesmos fiéis.
de partida, a colônia Z3. O ritual terminou Fiéis estes que talvez não adotem em seus dis-
onde os envolvidos acreditavam dever termi- cursos palavras de louvor ao santo “dos outros”,
nar, cumpriu os passos que precisava para ter mas, sim, em lugar disso, tragam com recor-
a eficácia que se esperava. rência o respeito à diversidade como justifica-
Em detrimento de uma idéia de pureza re- tiva para o fato de o ritual de saudação mútua
ligiosa, de crenças originais ou rituais genuínos entre Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes
e imutáveis, as festas do dia 2 de fevereiro de tenha se tornado o ápice das celebrações. Em
2007, nas praias lacustres de Pelotas, permiti- especial, quando tais crenças perpassam cami-
ram perceber as múltiplas interpretações que nhos dos territórios da cosmovisão religiosa
recebem mitos e símbolos sagrados, bem como afro-brasileira, é imprescindível considerar o
as diversas associações que constroem a relação tratamento que a diferença recebe na lógica
rito e sociedade, em um contexto religioso que dessas religiões, a qual “ao invés de dissolver
mobiliza diferentes grupos de credo da cidade. as diferenças, conecta o diferente ao diferente”
Comemorações que reverenciam e são reveren- (Anjos, 2006, p. 22). No entanto, mesmo que
ciadas santas, sereias e orixás revelam ao olhar os devotos de orixás e de entidades da Umban-
etnográfico a teia de atualizações, de apropria- da tragam estampadas seus objetos de culto nas
ções e de cruzamentos de práticas e elementos embarcações da procissão lacustre cristã – seja
religiosos dos quais os sujeitos valem-se na ela- em cores, seja nas imagens – o que se percebe
boração de suas concepções de mundo. O que é que também os católicos incorporam ao seu
mostra, em uma análise de ritual, uma parte ritual a homenagem à Iemanjá.
do complexo sistema de crenças e valores que Entretanto, antes de se tratar de uma de-
co-existem na constituição do quadro religioso monstração fervorosa de liberdade de culto, da

Imagem 2: Foto do acervo Marília Floôr Kosby, 2007.

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Imagem 3: Foto do acervo Marília Floôr Kosby, 2007.

ufanista miscelânea religiosa do mestiço Brasil, até o porto, após as saudações trocadas com os
onde a síntese das crenças e das raças criaria devotos da mãe orixá ou da sedutora sereia?
uma tendência à tolerância, em um triunfo da Por que milhares de pessoas irrompem laguna
igualdade de direitos, o que de fato emerge nes- adentro com uma imagem sobre os ombros
se encontro lacustre é a intensidade depositada para chegar o mais próximo possível de uma
no não-território que a água representa. frota de barcos que homenageia a Mãe de uma
Por que nas areias os cultos não se rela- religião que aparentemente tanto contrasta
cionam? Por que a Iemanjá da madrugada no com a cosmovisão afro-religiosa?
Balneário dos Prazeres não ganha aplausos e Se seguirmos a idéia de José Carlos Gomes
orações da comunidade da Z3? Ou, então, por Anjos, o patrimônio étnico cristalizado na re-
que não há oferendas nas margens das praias ligiosidade afro-brasileira seria o núcleo de um
da colônia de pescadores? Por que nas areias as habitus mutável e não-fixo, por sua maneira
identidades ganham contornos mais nítidos e de lidar com as diferenças e as identidades, o
as fronteiras têm delimitações territoriais tão seu nomadismo das perspectivas, das entidades
rígidas? Está certo que cada localidade possui sacralizadas, dialogaria simetricamente com a
populações peculiares com suas disputas políti- filosofia ocidental; católicos e afro-religiosos
cas particulares, que também envolvem o cam- adotam estruturalmente estratégias identitá-
po religioso e mesmo étnico – refletindo seja rias semelhantes – o que permite que barcos
no conflito entre evangélicos e católicos, seja batizados de “Poderosa Cigana”, por exemplo,
na marginalização das religiões afro-brasileiras. ou decorados com a cor símbolo de um orixá
Mas o que se está discutindo aqui não são os componham uma procissão promovida pela
aparentes antagonismos, e, sim, as convergên- Igreja Católica. Certo: substitui-se o conceito
cias implícitas, condensadas em um ritual que de sincretismo pelo de cruzamento religioso
se altera, que não segue a ordem antes prescrita. e estão explicadas as reverências entre ambos.
Por que a procissão católica, com toda a opu- Sim, mas isso não é suficiente para entender
lência de seus barcos, não seguiu seu percurso porque isso só ocorre quando a firmeza do chão

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deixa de ser o cenário para dar lugar à fluidez são percebidos como caminhos”, o que faz “da
das águas, culminando no desfecho das cele- vida um território”. Para que os desejos acon-
brações. Se as águas têm dono, proprietário teçam, é preciso que haja fluxo nos caminhos,
legítimo, nesse campo, a Lagoa dos Patos é por isso a encruzilhada pode ser vista como um
domínio de Iemanjá, Nossa Senhora dos Na- não-lugar, por onde circulam energias nômades,
vegantes, Iara. não fixas e não territorializadas.
Nesse ponto, é importante situar que, ao O que dizer, então, de um encontro entre
optar pela análise específica de uma relação dois grupos de fiéis, uns que entram em dire-
que se desenrola na dimensão religiosa, o con- ção ao leito da laguna e outros que têm como
ceito de campo elaborado por Pierre Bourdieu trajeto toda a orla da mesma? Mais ainda: um
subsidia a formulação de algumas conclusões encontro que se dá em uma laguna que se des-
deste estudo. O campo, nesse caso o campo re- territorializou para, por certo período, dar lugar
ligioso, é uma instância que existe porque há o ao mar? A própria Lagoa dos Patos no dia 2 de
conflito, o que revela uma estrutura de pensa- fevereiro de 2007 era um não-lugar, um territó-
mento que não se restringe especificamente às rio onde não se pode ser algo sem deixar de ser
cosmovisões afro-brasileira ou cristã, mas que outro e, ao mesmo tempo, sem perder a possi-
permeia ambas: bilidade de voltar a ser o que se era. Quando
os devotos de Iemanjá encontram a procissão de
Um campo, e também o campo científico, se Nossa Senhora dos Navegantes no meio do per-
define entre outras coisas pela definição dos curso, essa tem trancado o seu fluxo; a pretensão
objetos de disputa e dos interesses específicos de encerrar todo o território lacustre que toca
que são irredutíveis aos objetos de disputa e aos a orla da cidade – da Z3 ao porto – e fechar o
interesses próprios de outros campos [...] e que circuito no qual a Santa Rainha do Mar, Mãe
não são percebidos por quem não foi forma- dos Pescadores, compreenderia ser de seu domí-
do para entrar nesse campo [...] para que um nio, ou seja, as águas, é interrompido. Um traje-
campo funcione, é preciso que haja objetos de to que a multidão com a orixá/sereia nas costas
disputas e pessoas prontas para disputar o jogo, jamais conseguiria completar. Nem por isso a
dotadas de habitus que impliquem no conheci- descontinuidade, que do cruzamento de corte-
mento e no reconhecimento das leis imanentes sias decorre, seria a intenção premeditada e cíni-
do jogo, dos objetos de disputas etc. (Bour- ca dos afro-religiosos de barrar a demonstração
dieu, 1983, p. 89). de poder que representava o séqüito católico. O
encontro, segundo alguns dos organizadores das
Entretanto, segundo o conceito de encru- celebrações, ocorre todos os anos – a desconti-
zilhada utilizado por Anjos (2006), na cosmo- nuidade é a peculiaridade de 2007.
visão afro-brasileira, as diferenças cruzam-se10 Ser um banhista, velejador, morador do
em caminhos plurais, sem se fundirem, onde o Laranjal, pescador ou somente devoto de
processo de subjetivação é um puro processo e Iemanjá ou Nossa Senhora dos Navegantes,
as diferenças subexistem. Na religiosidade afro- ou tudo isso junto, são identidades, ainda
brasileira, a encruzilhada, o cruzamento de ruas, seguindo Anjos (2006), não essencializa-
de caminhos, é uma percepção espaço-temporal das, mas intensificadas pelo que representa
a partir da qual a “pessoa de religião” organiza o a água para esses sujeitos na sua elaboração
agenciamento de sua subjetividade. Para os afro- do mundo e de si mesmos. A emergência
religiosos “os empreendimentos da vida também dessa intensidade urge, especificamente,

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quando esses sujeitos reconhecem na Lagoa incluindo os exus), Batuque e/ou Linha Cruza-
dos Patos uma desterritorialização: da (quando incluem as outras três modalidades
no mesmo templo), “espaços para percursos
Todos os anos a Lagoa salga, mas como este há nômades”, em que raças, nações e divindades
muito tempo nós não víamos. Até a cor, é mais seriam um patrimônio simbólico de intensida-
mar que Lagoa! (Moradora da Z3, familiar de des diversas, e não “essências identitárias per-
pescador. Fonte: Diário de campo.) tencentes a indivíduos”. Aqui cabe transpor o
conceito de intensidade de Deleuze e Guattari,
Acampar no Barro Duro é bom porque tem ár- a partir da tradução de Anjos em sua obra:
vores, é tão bonito! Ainda mais este ano, que a
água está bem clarinha, dá para tomar banho. Nunca se trata, no entanto, de identificar-se a per-
Parece o Cassino, só que melhor! (Banhista, sonagens, como se diz erradamente de um louco
acerca das placas que identificam as praias do que “se tomaria por [...]”. Trata-se de algo total-
Totó e dos Prazeres como próprias para banho. mente diferente: identificar as raças, as culturas e
Fonte: Diário de campo.) os deuses a campos de intensidade sobre o corpo
sem órgãos. Identificar os personagens a estados
A água doce é uma referência para esses su- que preenchem esses campos, a efeitos que fulgu-
jeitos, como pode apontar o conceito de pa- ram e atravessam esses campos [...] não há um eu
trimônio imaterial, sobre o qual Pedro Paulo que se identifica com raças, com povos, com pes-
Funari afirma: soas, sobre uma cena da representação, mas nomes
próprios que identificam raças, povos e pessoas
Uma paisagem não é apenas um conjunto de com regiões, com limiares ou com efeitos numa
árvores, montanhas e riachos, mas, sim, uma produção de quantidades intensivas [...] (Deleuze;
apropriação humana dessa materialidade (Funa- Guatarri, 1976 apud Anjos, 2006, p. 23).
ri, 2006, p. 25).
A lacuna a ser preenchida, a conexão a ser
O encontro entre divindades, entidades, feita, na identidade religiosa dos envolvidos di-
seus devotos e todas as reverências envolvi- retamente nas celebrações pelotenses de Nossa
das, como já foi dito, era algo esperado. No Senhora dos Navegantes, em 2007, referia-se
entanto, no cruzamento, as diferenças não se à qualidade da Lagoa dos Patos que convergia
completam, não se esgotam; ao contrário, na mutuamente nos cultos à Maria, Mãe dos Pes-
encruzilhada que se constituiu no encontro, cadores, e à Iemanjá, a “Grande Mãe Africana
no não-lugar que estava sendo a Lagoa dos do Brasil”, e que se desterritorializava naque-
Patos, os atores passam a não-ser, ou melhor, le momento, qual seja, a fertilidade de suas
a serem aquilo que de seu que podiam en- águas, depositada principalmente na doçura.
contrar em um “outro”. Mas onde se encon- Os orixás de praia são também os orixás de
tra o outro quando se está na encruzilhada, mel – Oxum, Iemanjá e Oxalá, os pais dos
onde ninguém é em um território que não é outros orixás –, e as areias do Balneário dos
mais o mesmo lugar? Prazeres, na noite anterior, tinham morros
Quando discute a lógica da diferença na de açúcar, bandejas de quindins, cocadas e
religiosidade afro-brasileira, Anjos (2006, p. merenguinhos. Nos braços da santa que con-
22) reconhece nos terreiros de Umbanda (ca- duzia a procissão, a cândida imagem de um
boclos e pretos-velhos e/ou umbanda cruzada, menino Jesus.

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Desterritorializados, ambos os séqüitos, sempre voltada ao fracasso para restabelecer a


dentro d’água, encontraram na experiência um continuidade de um vivido [...] (Lévi-Strauss,
do outro o traço de doçura – representado nas 1971 apud Anjos, 2006, p. 603).
imagens –, que preenchia o domínio territorial
que se desvanecera na salinidade. Como expe- Não se pensava a laguna sem pensar no sal
riência ritual, o “fracasso lógico” não permite da água; como, então, se pensar como um sujei-
que se cristalize a identidade colada constante- to relacionado e identificado com uma laguna
mente à alteridade. Então, inesperadamente, os de água doce que não se pode reconhecer como
barcos retornam à colônia Z3. tal? Quando os barcos começam a se deslocar
A incorporação é um conceito bastante re- circularmente, em frente à imagem de Iemanjá,
visitado quando o assunto são os processos de sem parecer terem mais um destino a cumprir,
transe experimentados em religiões de matriz a não ser fazer esse movimento, e os afro-reli-
africana; assim, conforme José Carlos G. An- giosos agitam as águas euforicamente, envoltos
jos, na incorporação: nos pingos cintilantes, sem que isso implique
em qualquer finalidade prática, o processo de
A diferença é carregada para dentro do sujeito deslocamento do eu se dá no sentido de o ob-
a ponto deste não poder mais se suportar como jeto de louvação ser incorporado pelo próprio
tal [...]. Trata-se de uma experiência radical de sujeito que saúda, e que então saúda a si mes-
alteridade: o “outro” introduzido no “mesmo”. mo incorporado no outro e incorporado pelo
Que essa operação tenha a ver com território, a outro. Um outro que é estranho, mas que na
linguagem êmica o diz na expressão de “se ocu- estranheza e no conflito constitui a intensidade
par” – o santo, o exu, o caboclo “se ocupa” da que permite a ambos reconhecerem um traço
pessoa, faz de seu corpo um território no qual de suas identidades. A água doce é essa intensi-
pode cavalgar – o corpo é o “cavalo-de-santo”, o dade, e o poder sagrado sobre ela é o principal
terreiro é o lugar de sobreposição de territórios elemento que parece se diluir quando o territó-
(Anjos, 2006, p. 21). rio, que é a Lagoa dos Patos, se desterritorializa
para dar lugar às águas desconhecidas do mar,
Trago o exemplo da incorporação menos frente às quais o domínio da Iemanjá, da Iara
por seu caráter radical do que pelo próprio pro- e da Nossa Senhora dos Navegantes cultuadas
cesso de ceder o corpo e a consciência ao outro em Pelotas também não se substancializa.
como um “ato intelectual desterritorializante” A descontinuidade, o atravancar da procis-
(idem), a plena afirmação de um pensamento são, a saudação mútua de si mesmo e o retor-
da diferença calcado na própria “obstinação do no dos barcos à colônia Z3, o território, logo
corpo ritualístico nessa impossibilidade de pen- após o encontro das divindades, é a cosmovi-
sar” (ibidem), que é o ritual, no sentido dado são afro-religiosa colada na estrutura ociden-
por Lévi-Strauss: tal de pensamento. Portanto, calcando-se na
contingência desses rituais religiosos, pensar a
[...] o ritual representa um abastardamento do constituição do patrimônio cultural brasileiro
pensamento submetido às servidões da vida. Ele seguindo a noção de intensidades, muito mais
reconduz ou, antes, tenta em vão reconduzir as do que de essencialidades, traz arcabouços
exigências do primeiro a um valor limite que ele para a compreensão de como as referências
não pode jamais atingir, senão o próprio pen- culturais – vistas por Arantes como “[...] obje-
samento se aboliria. Essa tentativa desesperada, tos, práticas e lugares apropriados pela cultura

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na construção de sentidos de identidade [...]” constitui dos balneários Valverde e Santo Antônio,
(Arantes, 2000 apud Freire, 2005) – podem do Balneário dos Prazeres (conhecido também como
Barro Duro) e da colônia de pescadores Z3. A Lagu-
ser apreendidas e elaboradas nos cruzamentos
na dos Patos Liga-se ao Oceano Atlântico através da
de diferentes cosmovisões, sem que os sujeitos barra de Rio Grande.
envolvidos dissolvam suas identidades, mas, 2
Em Pelotas e outras cidades do Rio Grande do Sul, ao
ao contrário, afirmem-nas justamente onde o contrário do que se encontra na literatura sobre reli-
“outro” toca o mesmo. giões de matriz africana em outras partes do Brasil, o
termo “terreira” é utilizado no feminino, sendo referi-
Crossroads, territories and religious patri- do tanto às “casas de religião”, templos onde se prati-
cam tais religiões, quanto às cerimônias periódicas de
mony: about the sweetness as a cultural refe-
uma religião específica, a Umbanda. Respectivamen-
rence in the Iemanjá and Nossa Senhora dos
te, pode-se ouvir frases do tipo “Fui ao Batuque na
Navegantes celebrations on Laranjal beach, terreira do Sandro” ou “hoje tem terreira no Paulo”.
Pelotas/RS, in 2007 3
Entre os interlocutores com quem estudo em Pelotas,
o gênero da palavra “orixá” segue o gênero do deus
abstract This ethnographic study analyses – ou santo, como também são chamados os orixás es-
the religious celebration that takes place every pecíficos de cada pessoa – ao qual se refere. Por exem-
year on the February 2nd in Pelotas, the offi- plo, “a orixá de Viviane é Iemanjá” e “a santa dela é
velha, ela é filha de Iemanjá Bomi” ou ainda “Juliano
cial holiday of Nossa Senhora dos Navegantes.
é do orixá Ogum, o santo dele é um santo muito vio-
These celebrations were researched in Laranjal´s lento”. Também quando se fala dos orixás em termos
lacustrines beaches and at the Z3 fishermen set- mais genéricos, descrevendo-os, por exemplo, como
tlement located at the east coast, which is fin- forças cósmicas da natureza e da vida em sociedade,
ched by Lagoa dos Patos in Pelotas. The whole o gênero da palavra segue a mesma lógica: “Iansã é a
analysis is interposed by the notion of “Encruzi- orixá dos ventos, é a santa do movimento” e “Oxalá é
um santo sábio, ele é o orixá da clareza”.
lhada” (or “Crossroads”), suggested by José Car-
4
Vallado, 2002.
los Gomes Anjos as a replacement to the notion
of syncretism, with the aim to consider multiple
5
D’oxalá, 2003. p. 111.

entities and some kinds of religious manifesta-


6
Prandi, 2001. p. 314.
tions that cross each other during the celebra-
7
São chamados de cavalos de umbanda os devotos que
tion. That concept is based on the reflection emprestam seus corpos para as entidades (exus, pom-
bagiras, caboclos e pretos-velhos) manifestarem-se
about the ways in which the African Religious
nos rituais da religião.
Cosmovision works with difference. Moreover 8
Na Umbanda, a palavra “aparelho” quer dizer corpo
this Cosmovision allows the perception of how físico, o corpo que os cavalos de umbanda emprestam
much this logic isn´t restricted to the “terreiras” à manifestação das entidades.
(or “lawns”) but interposes identitary strategies 9
As informações acerca da missa de comemoração do
from groups apparently so contrastive as the ca- Dia de Nossa Senhora dos Navegantes e do trajeto da
tholic community and the “people of religion”. imagem da santa pela cidade são baseadas na etno-
keywords Cultural. Heritage. African religiosity. grafia de conclusão da disciplina de Antropologia II,
trabalho elaborado por Amanda Moura e Jacqueline
Bairros, alunas do curso de Turismo da Universidade
Notas Federal de Pelotas.
1
Lagoa dos Patos é a denominação popular dada à
10
A discussão trazida pelo conceito de “cruzamento”,
laguna que, além de outras zonas litorâneas da re- de Anjos, pode ser enriquecida pela análise da pesqui-
gião sul do Rio Grande do Sul, banha o bairro do sa de Sérgio Ferretti sobre sincretismo religioso, apre-
Laranjal, ao leste de Pelotas. O bairro do Laranjal se sentada no livro Repensando o sincretismo (1995).

cadernos de campo, São Paulo, n. 17, p. 27-36, 2008


 | M F K

Nessa obra, o autor traz uma discussão detalhada dos BOURDIEU, Pierre. Questões de Sociologia. Rio de Janei-
“usos e sentidos do conceito de sincretismo religio- ro: Ed. Marco Zero, 1983. 208 p.
so”, a partir de suas pesquisas etnográficas em São D’OXALÁ, Babalawô-Orixá Cabral. Divindades africa-
Luís do Maranhão, na Casa das Minas, terreiro de nas: África, Brasil, Rio Grande do Sul. Pelotas: Editora
Tambor de Mina, religião afro-brasileira dessa região. e Gráfica da UFPel, 1995. 252 p.
Tendo apontado os vínculos do culto aos voduns FERRETTI, Sérgio Figueiredo. Repensando o sincretis-
(divindades de matriz africana) com o catolicismo, mo: Estudo sobre a Casa das Minas. São Paulo: Editora
as religiões ameríndias e o espiritismo Kardecista, o da Universidade de São Paulo; São Luís: FAPEMA,
autor agrupa o conceito de sincretismo em algumas 1995. 234 p.
variantes: convergência, paralelismo, mistura e sepa- FREIRE, Beatriz Muniz. O inventário e o registro do pa-
ração (quando não há sincretismo) e afirma “nem to- trimônio imaterial: novos instrumentos de preserva-
das estas dimensões ou sentidos do sincretismo estão ção. In: CERQUEIRA, F.V. Cadernos do LEPAARQ.
sempre presentes, sendo necessário identificá-los em Textos de Arqueologia, Antropologia e Patrimônio.
cada circunstância”. Apesar disso, Ferretti percebe a Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e
impossibilidade de delimitar fronteiras precisas entre Arqueologia. Pelotas, v. II, n. 3, p. 11-20, 2005.
os elementos que elenca, como negros e aqueles vin- FUNARI, Pedro Paulo; PELEGRINI, Sandra C. A. Patri-
dos de outras tradições, e conclui que “tradição e sin- mônio histórico e cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
cretismo têm limites ambíguos, e que o sincretismo, Editor, 2006. 72p.
portanto, está presente mesmo nos grupos afro-bra- PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo:
sileiros mais tradicionais”. Assim, o autor funda seu Companhia das Letras, 2001. 591p.
argumento na perspectiva do sincretismo como estra- VALLADO, Armando. Iemanjá, a grande mãe africana do
tégia de resistência e adaptação das camadas negras Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2002. 260p.
marginalizadas: “A Casa das Minas [...] é ao mesmo
tempo um núcleo dinâmico de resistência cultural e
de preservação da identidade do negro”.
Agradecimentos

Expresso neste espaço a felicidade de ter a


Referências bibliográficas presença – tanto no trabalho apresentado aci-
ma quanto em meu encontro com as pesquisas
ANJOS, José Carlos Gomes dos. No território da linha
cruzada: a cosmopolítica afro-brasileira. Porto Alegre:
etnográficas entre religiões de matriz africana –
Ed. UFRGS, 2006. 126 p. de minha orientadora Profa. Flávia Rieth, e da
BAIRROS, Jacqueline; MOURA, Amanda. Tem povo que amiga Viviane D’Iemanjá Bomi (Viviane Fa-
vem por fé, tem povo que vem pela barriga: estudo so- rias Dutra). Em especial, destaco a participação
bre a culinária e o artesanato de uma vila de pescadores da amiga e turismóloga Aline Martins da Silva
como atrativos turísticos, Z3, Pelotas. Sem paginação.
na pesquisa de campo, realizada nas praias do
Trabalho de conclusão de disciplina – Antropologia
II – Bacharelado em Turismo, Universidade Federal
Laranjal, em Pelotas, durante todo o longo dia
de Pelotas, Rio Grande do Sul. 2007. 2 de fevereiro de 2007.

autor Marília Floôr Kosby


Mestranda em Ciências Sociais/UFPel

Recebido em 10/03/2008
Aceito para publicação em 12/11/2008

cadernos de campo, São Paulo, n. 17, p. 27-36, 2008

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