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Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro Biomédico Faculdade de Enfermagem Cláudia de Souza

Universidade do Estado do Rio de Janeiro Centro Biomédico Faculdade de Enfermagem

Cláudia de Souza Moraes

Condições de trabalho e saúde dos trabalhadores de enfermagem que atuam em clínica médica

Rio de Janeiro

2005

Cláudia de Souza Moraes

Condições de trabalho e saúde dos trabalhadores de enfermagem

que atuam em clínica médica

trabalhadores de enfermagem que atuam em clínica médica Dissertação apresentada como requisito parcial para a

Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-graduação em Enfermagem, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Enfermagem, Saúde e Sociedade.

Orientadora: Prof.ª Dra. Maria Yvone Chaves Mauro

Coorientadora: Prof.ª Dra. Maria Therezinha Nóbrega da Silva

Rio de Janeiro

2005

CATALOGAÇÃO NA FONTE

UERJ/REDE SIRIUS/CBB

M827

Moraes, Cláudia de Souza.

Condições de trabalho e saúde dos trabalhadores de enfermagem que

atuam em clínica médica / Cláudia de Souza Moraes. - 2005.

101 f.

Orientadora: Maria Yvone Chaves Mauro

Coorientadora: Maria Therezinha Nóbrega da Silva.

Dissertação (mestrado) Universidade do Estado do Rio de Janeiro,

Faculdade de Enfermagem.

1. Saúde e trabalho. 2. Qualidade de vida no trabalho. 3. Enfer magem

do trabalho Fatores de risco. 4. Ambiente de trabalho Fatores de risco.

I. Mauro, Maria Yvone Chaves. II. Silva, Maria Therezinha Nóbrega da. III

Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Enfermagem. IV.

Título.

CDU

614.253.5

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial

desta dissertação, desde que citada a fonte.

Assinatura

Data

Cláudia de Souza Moraes

Condições de trabalho e saúde dos trabalhadores de enfermagem

que atuam em clínica médica

Aprovada em: 27 de dezembro de 2005

Banca Examinadora:

Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-graduação em Enfermagem, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Enfermagem, Saúde e Sociedade.

Profª. Dra. Maria Yvone Chaves Mauro (Orientadora) Faculdade de Enfermagem da UERJ

Profª. Dra. Sheila Nascimento Pereira Farias Escola de Enfermagem Anna Nery da UFRJ

Profª. Dra. Maria Therezinha Nóbrega da Silva Faculdade de Enfermagem da UERJ

Rio de Janeiro

2005

DEDICATÓRIA

Dedico este estudo a todos que participam com entusiasmo na luta pela preservação da saúde das pessoas que trabalham, em especial à Profª Dra. Maria Yvone Chaves Mauro, minha orientadora, que com competência e dedicação luta por melhores condições de trabalho para a Enfermagem. Aos colegas e trabalhadores da enfermagem das Unidades Especializadas de Clínica Médica do HUPE / UERJ: Pneumologia, Dermatologia, Neurologia e DIP que participaram como sujeitos desta pesquisa, dando suas contribuições.

AGRADECIMENTOS

Meu carinhoso agradecimento à minha família: Edmilson, meu marido, e Mateus e Julia, meus queridos filhos, pelo apoio e força neste projeto, e pela compreensão nas horas ausentes do convívio familiar.

À Prof.ª Maria Therezinha Nóbrega da Silva, pelas valiosas contribuições,

orientações, incentivo e atenção.

À Prof.ª Luciana Assad pelo apoio, amizade, incentivo e ajuda no início do

trabalho, quando as dúvidas eram muitas. Aos professores do Mestrado da UERJ, que contribuíram para meu crescimento acadêmico. Aos professores, membros da Banca Examinadora, pelas reflexões críticas nos encaminhamentos de seus pareceres. Aos colegas da turma de Mestrado pelo prazer da convivência.

À Abilene, Renata, Ana Lúcia, Vítor, Fernando e Rodrigo, por compartilhar

momentos de dificuldade e de alegria. Ao Prof. Sérgio Marques, Coordenador de Enfermagem do HUPE /UERJ, que me apoiou e liberou parcialmente da assistência no período de dois anos para viabilizar o desenvolvimento dessa pesquisa. Ao Enfermeiro Carlos Cruz, Chefe de Seção de Enfermagem da Unidade Coronariana do HUPE /UERJ, por compreender a minha necessidade de horários de

estudo e adequar a minha escala de plantões a esta realidade. Aos colegas de enfermagem do Hospital Universitário Pedro Ernesto, que sempre me apoiaram e incentivaram. À Carmem, amiga, mãe, conselheira, “formativa”, por me ajudar a compreender e acreditar nas minhas possibilidades. Seu amor, incentivo e cuidado durante todo o caminhar da pesquisa me permitiu realizar este sonho. À amiga Jacira, companheira no trabalho, por todo carinho e apoio. À Marilia Duarte, que digitou este trabalho e incansavelmente me acompanhou nesta trajetória de construção do trabalho, atendendo minhas solicitações urgentes e inúmeras revisões. Agradeço a todos que de forma direta ou indireta contribuíram para meu crescimento como pessoa e profissional.

Tu encontrarás, sempre, no teu caminho, alguém para a lição de que precisas. Aprende, mesmo que não queiras. Feliz é o que aprende

Cora Coralina

RESUMO

MORAES, Cláudia de Souza. Condições de trabalho e saúde dos trabalhadores de enfermagem que atuam em clínica médica. 2005. 101 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) Faculdade de Enfermagem, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de janeiro, 2005.

Trata-se de um estudo descritivo cujo objeto é a saúde dos trabalhadores de enfermagem e sua relação com as condições de trabalho em enfermarias de clínica médica, desenvolvido em um Hospital Universitário na cidade do Rio de Janeiro. Os objetivos orientaram para: caracterizar o perfil profissional dos trabalhadores de enfermagem; identificar, na perspectiva dos trabalhadores de enfermagem, as condições de trabalho e os fatores de risco à saúde existentes nas enfermarias de clínica médica; analisar os problemas de saúde identificados pelo trabalhador de enfermagem e a sua relação com as condições de trabalho por ele descrita em enfermarias de clínica médica. A pesquisa foi realizada no período de 2004 a 2005.

O referencial teórico fundamentou-se nos estudos de especialistas das áreas de

ergonomia, saúde do trabalhador e riscos no trabalho de enfermagem. A população

foi de 41 trabalhadores de enfermagem que atuam nas unidades especializadas de

clínica médica, sendo 73,2% de servidores públicos e 26,8% de prestadores de serviço temporário e bolsistas; a faixa etária predominante é de 40 a 49 anos; 73% são do sexo feminino; 90% com dupla e tripla jornada, com carga horária semanal de mais de 50 horas. Os riscos ocupacionais percebidos foram: manutenção de posturas inadequadas, esforço físico que produz fadiga, ritmo de trabalho acelerado,

manipulação de cargas pesadas, risco de contrair infecção, temperatura inadequada, falta de materiais e insumos e iluminação insuficiente. Os problemas de saúde relacionados com as condições de trabalho foram: distúrbios osteomusculares, varizes e estresse. Os trabalhadores se interessam pela prevenção de riscos ocupacionais, porém não participam na instituição, da elaboração das políticas e estratégias na área de saúde do trabalhador. Com os resultados deste estudo e o respaldo da literatura, pode-se concluir que os problemas de saúde e condições de trabalho estão inter-relacionados; que a carga horária excessiva devido a dupla e tripla jornada, acrescido do cuidado com os filhos, idosos e afazeres domésticos, sem a prática regular de cuidados com sua saúde, tornam esses sujeitos mais vulneráveis a problemas de saúde.

Palavras-chave: Saúde do trabalhador. Condições de trabalho. Riscos ocupacionais.

Enfermagem em clínica médica.

ABSTRACT

Is about a descriptive study whose object is the knowledge of the nursing workers on its health, relating it with the conditions of work in infirmaries of Medical Clinic, developed in a University Hospital in the city of Rio de Janeiro. The objectives had guided stop: to characterize the professional profile of the nursing workers; to identify, in the perspective of the workers of nursing, the conditions of work and the factors of existing risk to the health in the infirmaries of Medical Clinic; to analyze the problems of health identified by the worker of nursing and its relation with the conditions of work for described it in infirmaries of Medical Clinic. The research was carried through in the period of 2004 the 2005. The theoretical referential was based on the studies of specialists of the areas of ergonomics, health of the worker and risks in the nursing work. The population was of 41 workers of nursing who act in the Specialized Units of Medical Clinic, being 73.2% of public servers and 26.8% of rendering of temporary service and scholarship holders; predominant the etária band is of 40 the 49 years; 73% are of the feminine sex; 90% with pair and triple day, weekly horary load of more than 50 hours. The perceived occupational risks had been: maintenance of inadequate positions, physical effort that produces fatigue, rhythm of sped up work, weighed load manipulation, risk to contract infection, inadequate temperature, lack of materials and insumos and insufficient illumination. The related problems of health with the work conditions had been: riots osteomusculares, varizes and stress. The workers if interest for the prevention of occupational risks, however the politics institution of and strategy in the area of health of the worker do not participate in. With the results of this study and the endorsement of literature, it can be concluded that the problems of health and conditions of work are interrelated; that the extreme horary load which had the pair and triple day increased of the care with the children, aged and domestic tasks, without practical the regular one of cares with its health, the health problems become these more vulnerable citizens.

Keywords:

medical clinic.

Health of the worker. Work conditions. Occupational risks. Nursing in

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Quadro 1 Demonstrativo de recursos humanos das unidades especializadas de clínica médica / Hospital Universitário Pedro Ernesto / RJ

Gráfico 1

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação ao sexo - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Gráfico 2

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à faixa etária - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Gráfico 3

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação ao estado civil - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Gráfico 4

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação ao nível de escolaridade - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Gráfico 5

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação à carga horária semanal - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

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53

LISTA DE TABELAS

Tabela 1

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem por categoria, das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 2

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem por categoria e vínculo institucional - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 3

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao

tempo de trabalho no setor que exerce suas funções - unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro,

2005

Tabela 4

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao tempo que trabalham na enfermagem - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 5

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao tipo de jornada de trabalho - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 6

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao

meio de transporte utilizado para deslocar-se para o trabalho - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro,

2005

Tabela 7

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao tempo gasto para chegar ao trabalho - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 8

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação à faixa salarial - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 9

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação a ter filhos - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 10

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação a ter idosos em casa sob seus cuidados - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

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Tabela 11

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à

ajuda dos familiares para a realização das tarefas domésticas - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro,

2005

Tabela 12

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à vacinação - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 13

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à realização de exame clínico anualmente - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 14

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à prática de atividade física com regularidade - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 15

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao controle de seu peso - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 16

Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação à quantidade de horas de sono dormidas - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 17 Distribuição dos problemas no ambiente de trabalho conforme grau de freqüência: freqüentemente, na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 18 Distribuição dos problemas no ambiente de trabalho conforme grau de freqüência: às vezes, na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 19 Distribuição dos problemas no ambiente de trabalho relacionados aos riscos ergonômicos conforme grau de freqüência na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

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Tabela 20 Distribuição dos problemas no ambiente de trabalho relacionados aos riscos biológicos, físicos e químicos, conforme grau de freqüência na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

Tabela 21 Distribuição dos problemas no ambiente de trabalho relacionados aos riscos de acidentes, conforme grau de freqüência na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

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Tabela 22 Problemas de saúde relacionados com as condições de trabalho na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro,

Tabela 23

2005

Interesse dos trabalhadores na prevenção dos riscos existentes no local de trabalho das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005

71

75

INTRODUÇÃO

SUMÁRIO

1

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

1.1

Saúde do trabalhador

1.1.1

Evolução da legislação sobre a saúde dos trabalhadores

 

1.2

Trabalho de Enfermagem

 

1.2.1

A enfermagem como profissão

1.2.2

Condições do trabalho de enfermagem

 

1.2.3

Riscos no trabalho de enfermagem

 

1.2.4

Fatores de penosidade do trabalho de enfermagem

 

1.3

O Trabalho de enfermagem e a ergonomia

2

METODOLOGIA

2.1

Tipologia do estudo

2.2

Campo da pesquisa

2.3

Amostra

2.4

Coleta de dados / Instrumento

 

2.5

Tratamento dos dados

3

APRESENTAÇÃO,

ANÁLISE

E

INTERPRETAÇÃO

DOS

RESULTADOS

3.1

Características do perfil profissional dos trabalhadores de enfermagem que atuam em clínica médica

3.1.1

Identificação dos trabalhadores de enfermagem

 

3.1.2

Dados dos trabalhadores de enfermagem

 

3.1.3

Dados econômicos dos trabalhadores de enfermagem

 

3.1.4

Dados referentes à família dos trabalhadores de enfermagem

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3.2

Condições do ambiente de trabalho e os fatores de risco ocupacionais nas unidades especializadas de clínica médica

3.2.1

Riscos ergonômicos

 

3.2.2

Riscos biológicos , físicos e químicos

 

3.2.2.1

Riscos biológicos

 

3.2.2.2

Riscos físicos

3.2.2.3

Riscos químicos

3.2.3

Riscos de acidentes

 

3.3

Problemas

de

saúde

relacionados

com

as

condições

de

trabalho

3.3.1

Distúrbios osteomusculares e vasculares

 

3.3.2

Distúrbios psicoemocionais

 

3.4

Interesse

dos

trabalhadores

na

prevenção

dos

riscos

no

trabalho

4

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

 

4.1

Conclusões

 

4.2

Recomendações

 

REFERÊNCIAS

APÊNDICE A - Termo de consentimento livre e esclarecido

APÊNDICE B - Questionário sobre o levantamento sócio-cultural- econômico-laboral do trabalhador de enfermagem

APÊNDICE C Questionário sobre condições de trabalho

APÊNDICE

D

Questionário

sobre

problemas

de

saúde

do

trabalhador

APÊNDICE E Questionário sobre o interesse dos trabalhadores na prevenção dos riscos no trabalho

APÊNDICE F Problemas de saúde percebidos pelos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas

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APÊNDICE G Problemas de saúde provocados pelas condições de trabalho na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas

APÊNDICE H Problemas de saúde agravados pelas condições de trabalho na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades especializadas de clínica médica especializadas

ANEXO Aprovação do Comitê de Ética

99

100

101

16

INTRODUÇÃO

Vivemos numa sociedade em mudanças onde o indivíduo faz parte da estrutura social principalmente por meio do trabalho que desenvolve, e o trabalhador, lançando mão de suas energias físicas e mentais, contribui para a sociedade através da atividade produtiva. Hoje o trabalho constitui uma das práticas mais importantes da vida do ser humano, porque é dessa atividade que o homem tira os elementos para a sua própria subsistência e de sua família. Entretanto, na realidade da dinâmica do processo de trabalho na enfermagem, observa-se que o modo como é realizado e pelas condições do ambiente em que é executado, vem gerando impacto negativo na saúde física e mental desses trabalhadores. Segundo Picaluga (1982) o processo saúde-adoecimento do trabalhador resulta da complexa e dinâmica interação das condições gerais da vida, das relações de trabalho, do processo de trabalho e do controle que os próprios trabalhadores colocam em ação para interferirem nas suas próprias condições de trabalho. Quando se fala de condições de trabalho, é falar a respeito das condições físicas, químicas e biológicas do ambiente de trabalho, planta física, temperatura, poeiras, ruídos que repercutem sobre a saúde dos trabalhadores. As condições de trabalho expressam um conjunto de fatores que determinam a qualidade e a produtividade do trabalho. Portanto, a relação entre o trabalho de enfermagem e o processo saúde-adoecimento é a temática que fundamenta este estudo. Ingressei num hospital universitário após aprovação em concurso público, onde fui lotada numa das enfermarias de clínica médica. Embora feliz por ter sido aprovada e trabalhar num hospital universitário, fiquei decepcionada com as condições ambientais da enfermaria. Primeiramente as instalações físicas da enfermaria estavam em péssimo estado de conservação e limpeza: paredes sujas, descoloridas, desgastadas, com infiltrações, instalações elétricas expostas, precária iluminação e ventilação, instalações sanitárias danificadas com ralos e tanques do expurgo entupidos, chuveiros desativados. Quanto ao mobiliário, encontrava-se em péssimas condições de uso, com presença de ferrugem, faltando peças. Os pés de alguns leitos foram cortados diminuindo a sua altura, o que obrigava o trabalhador de enfermagem a flexionar o corpo para atender o paciente acamado, gerando uma sobrecarga da

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musculatura da coluna e exigindo grande esforço do trabalhador para deslocamentos dos pacientes. As atividades referentes à higiene do paciente exigiam muito tempo e disposição do trabalhador para serem realizadas. As cadeiras higiênicas não entravam no box de banho (as portas apresentavam larguras inferiores ao tamanho das cadeiras), obrigando ao trabalhador a maior esforço físico para movimentá-las e a necessidade de proceder o cuidado fora do box, ameaçando a integridade física do paciente. Quando terminava o banho do paciente, o banheiro estava completamente alagado. Quase sempre outro problema era acrescido a esta dificuldade: aquecer água num fogão de duas bocas instalado no posto de enfermagem para realização dos banhos, haja vista que o chuveiro sempre queimava. Esta enfermaria possuía uma varanda, na qual foi adaptada uma parte do local para descanso dos funcionários no período noturno. A mesma área também era utilizada para estoque de materiais. Nos dias mais frios tornava-se impossível o funcionário permanecer no local devido à baixa temperatura, obrigando a permanência dos trabalhadores no posto de enfermagem durante todo o plantão. Outro problema constante no ambiente era a presença de “baratinhas”, que circulavam pelas gavetas, bancadas, mesinhas de cabeceira, etc., sendo necessário periodicamente dedetização do ambiente. Permaneci nesta unidade como enfermeira líder durante dois anos, sendo transferida para outra unidade, quando a enfermaria ficou desativada para obras. Exerci também atividades profissionais na enfermaria de pneumologia deste hospital, por quatro anos, como chefe da unidade. Este setor, também apresentava características semelhantes quanto às condições do ambiente da enfermaria de clínica médica, tendo como agravante um espaço físico inadequado para o número de leitos existentes. As distâncias entre os leitos eram inferiores a um metro, aumentado consideravelmente o risco de transmissão de tuberculose entre os pacientes, patologia esta com incidência elevada de internações na enfermaria. Após algumas lutas e reivindicações foi criada a primeira comissão de controle de tuberculose no hospital, da qual fiz parte. A partir desta comissão foi viabilizado treinamento específico aos profissionais de saúde sobre transmissão e prevenção de tuberculose e fornecido aos profissionais máscaras específicas para prevenção de tuberculose. Foi também elaborado um projeto de reforma da enfermaria com acréscimo de quartos de isolamento para os pacientes com suspeita

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ou em tratamento para tuberculose, mas até o ano de 2004 ainda não tinha sido autorizado pela direção do Hospital. Durante estes anos, atuando como enfermeira na área de clínica médica, pude vivenciar e compartilhar com os trabalhadores de enfermagem destas unidades, suas preocupações frente estas precárias condições de trabalho, risco à saúde e desconforto por eles experienciados na realização do trabalho de cuidar de clientes hospitalizados. Preocupava-me também, o número expressivo de afastamentos do trabalho por licenças médicas. Grande parte dos trabalhadores justificava suas ausências como conseqüência do estresse vivenciado no ambiente de trabalho. Esta situação é

referida por Estryn-Behar (1996) em seus estudos, confirmando que o estresse físico é um dos determinantes primários de alterações na saúde dos trabalhadores da área hospitalar, o que interfere na qualidade dos cuidados prestados aos pacientes. Como gerente de enfermagem em unidades de clínica médica, no período de 2000 a 2003, constantemente ouvia reclamações dos trabalhadores de enfermagem acerca da dificuldade para desempenharem suas tarefas naqueles ambientes de trabalho. Apontavam inúmeros motivos relacionados ao ambiente e à organização do trabalho, e sentiam-se cansados e insatisfeitos. Alguns trabalhadores verbalizavam o desejo de serem transferidos para outras unidades do hospital, às quais eles denominam “unidades tranqüilas”. A partir desta problemática, comecei a refletir sobre o contexto das condições

de trabalho influenciando o meio ambiente, a organização, o processo de trabalho e

a sua relação com a saúde do trabalhador. Freqüentemente, as condições

inadequadas do ambiente de trabalho tornam-se rotineiras e não são percebidas pelos gerentes, e nem pelo próprio trabalhador de enfermagem, o qual se conforma com a situação, não procurando modificá-la. Como conseqüências desta situação evidenciam-se a queda do rendimento no trabalho e o aumento de acidentes de

trabalho, aparecimento de doenças e maior número de afastamentos dos trabalhadores

do local de trabalho, caracterizado pelo elevado absenteísmo.

Estudiosos do problema, entre eles Mauro (1991), afirmam que os riscos ocupacionais quando não submetidos a controle, levam ao aparecimento de acidentes e doenças profissionais e do trabalho. No que diz respeito às unidades de clínica médica, acredito que o exercício profissional desenvolvido nestes ambientes vem trazendo para os trabalhadores

19

sobrecargas de trabalho e insatisfação. O estudo sobre “Condições de trabalho, saúde, conforto e direitos humanos de trabalhadores de enfermagem”, realizado no primeiro semestre de 2003, por quatro grupos de alunos da quarta turma de mestrado da Faculdade de Enfermagem da UERJ nas unidades de clínica médica de um hospital universitário, evidencia que as condições encontradas nestas unidades implicam em riscos e agravos à saúde dos trabalhadores. Este fato acrescido das deficiências materiais entre outras, produzem repercussões emocionais e psicológicas nos profissionais causando desconforto aos que praticam suas atividades neste cenário. Discutindo os direitos humanos dos trabalhadores de enfermagem, Vieira (2003) analisou que aos poucos ocorre uma deteriorização no ser profissional, que busca atingir satisfação pessoal a partir do trabalho executado e, conseqüentemente, tem reflexo na sua condição de saúde devido ao descontentamento em ter que vivenciar seu trabalho neste cenário. Numa perspectiva de que o direito à execução de trabalho digno não é alcançado, é possível perceber a descaracterização progressiva dos profissionais de saúde, uma vez que adotam um comportamento, ora de passividade, ora de revolta, refletido nas ações realizadas. Quando, na relação entre o trabalho e o trabalhador, não existe mais espaço que possibilite a liberdade de invenção sobre a própria organização do trabalho, de modo a adaptá-lo às necessidades do trabalhador, este pode ter bloqueada sua capacidade criativa sobre o trabalho. Inicia-se, então, a luta do trabalhador contra o “sofrimento” (DEJOURS, 1992). Os resultados deste estudo despertaram em mim a reflexão e a necessidade de investigar e ampliar a discussão sobre esta realidade, da qual já fiz parte enquanto enfermeira, e fui buscar conhecimentos para estudar estas questões na área da saúde do trabalhador. O objeto de estudo é a saúde dos trabalhadores de enfermagem e sua relação com as condições de trabalho em enfermarias de clínica médica.

Questões Norteadoras

Quais as características profissionais dos trabalhadores de enfermagem? Quais são os fatores de riscos existentes no ambiente de trabalho identificados pelo trabalhador de enfermagem?

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Objetivos

Existem problemas de saúde identificados pelo trabalhador de enfermagem, relacionados às condições de trabalho?

1. Caracterizar o perfil profissional dos trabalhadores de enfermagem.

2. Identificar, na perspectiva dos trabalhadores de enfermagem, as condições de trabalho e os fatores de risco à saúde, existentes nas enfermarias de clínica médica.

3. Analisar os problemas de saúde identificados pelo trabalhador de enfermagem e a sua relação com as condições de trabalho por ele descritas, em enfermarias de clínica médica.

A saúde do trabalhador é um tema emergente na atualidade. Possui relevância não só em seus aspectos teóricos e econômicos, mas principalmente em seus aspectos práticos. Todavia, nota-se uma grande deficiência de conhecimento dos profissionais acerca deste assunto. A relevância deste estudo está em permitir aos trabalhadores de enfermagem refletir sobre a natureza do trabalho que realizam e sua organização, compreendendo que a permanente exposição a fatores de riscos pode produzir doenças ou sofrimento decorrente do trabalho em hospitais: “E entre os estudos realizados nesta área, há unanimidade sobre a influência e, ao mesmo tempo, a complexidade das relações entre saúde e trabalho, requerendo a construção de modelos novos e necessariamente interdisciplinares de investigação.” (PITTA, 1994, p. 21).

Acredito que a consciência sobre a relação do trabalho de enfermagem com as condições inerentes à sua atividade, contribuirá para encorajar os trabalhadores de enfermagem a cuidarem e gerenciarem sua própria saúde, favorecendo mudanças no estilo de vida que promovam saúde e bem estar, bem como satisfação e crescimento profissional. Este estudo se justifica pela presença de problemas identificados nas condições existentes no meio ambiente do trabalho de enfermagem, já desvelados por outros autores (HAAG, 1997; MAURO, 1991; PITTA, 1994; REIS, 2003; SILVA FILHO, 1977; VIEIRA, 2003), o qual tem gerado adoecimento para os trabalhadores de enfermagem, havendo, portanto, uma necessidade de produção de estudos

21

científicos com vistas a uma futura melhoria na saúde e bem estar desses trabalhadores. Verifica-se, também, a existência de poucas pesquisas publicadas sobre o assunto, focando trabalhadores de enfermagem numa determinada área de atuação no contexto hospitalar. Segundo Souto (2003), nos dias de hoje, as empresas necessitam valorizar o seu capital humano e despertar para a relevância do conhecimento da saúde física e mental dos trabalhadores. Esses territórios laborais são espaços importantes de discussão para implantação de práticas que visem a mudança no meio ambiente do trabalhado, reduzindo os riscos impostos e incrementando a satisfação do trabalhador com seu local de trabalho. Acredita-se que os resultados deste estudo disponibilizarão material científico a todos os profissionais envolvidos na gestão de serviços de saúde, auxiliando na construção de propostas participativas de promoção à saúde e ao bem estar do profissional de enfermagem, fornecendo subsídios para um melhoramento das condições e da organização desse trabalho.

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1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Este

estudo

enfermagem.

aborda

trabalho

e

saúde,

1.1 Saúde do Trabalhador

e

condições

de

trabalho

na

A história do trabalho remete aos primórdios da humanidade. Para viver, sobreviver e evoluir o homem superou dificuldades de cunho imediatista e as de longo prazo. Desenvolveu o seu poder inventivo, e buscou, continuamente, satisfazer suas necessidades de auto-realização (BULHÕES, 1986).

Nos dias atuais, o trabalho humano é sobretudo obrigatório. Trata-se de uma atividade convencional que antigamente visava exclusivamente o sustento biológico. Atualmente o trabalho é atividade sofisticada acompanhado à era tecnológica e transformou-se em posição, em status que eleva e dá importância ao ser humano (MIELNIK, 1976, p. 47).

Segundo Blanchar (1975 apud MAURO, 1991) o trabalho desempenha uma função importante na vida do homem e deve preencher três objetivos fundamentais:

1. O trabalho deve respeitar a vida e a saúde do trabalhador; é o problema da segurança e da salubridade dos locais de trabalho.

2. O trabalho deve deixar-lhe tempo livre para o descanso e lazer; é a questão da duração do trabalho e de sua coordenação para a melhoria das condições de vida fora do local de trabalho.

3. O trabalho deve permitir ao trabalhador sua própria realização pessoal,

ao mesmo tempo em que presta serviços à comunidade: é o problema do tipo de atividade e da organização do trabalho. Para que o trabalho venha a ser uma medida de valor nas sociedades modernas, ou seja, para que se possa trocar o tempo por dinheiro, foi necessária uma mudança na configuração de valores, uma transformação cultural lenta e gradual ao longo dos séculos (SILVA; JARDIM, 1977). Para Mielnik (1976) o homem não trabalhava apenas pelo salário que recebia, também o fazia pela satisfação emocional profunda que sentia com a realização e o resultado que colhia através do seu esforço.

23

O trabalho tornou-se para o homem fonte de satisfação psíquica, bem como de

realização social e status. Ele constitui um espaço importante de relações interpessoais

e de desenvolvimento dos conhecimentos e capacidades. Para Mauro (1997, p. 81):

É possível o homem desenvolver o seu ciclo de vida numa perspectiva saudável, incorporando o trabalho como um sentimento pessoal, social e da saúde. E é esperado que, no processo de crescimento, desenvolvimento e na função do ser humano, na fase adulta, que este seja independente e se sustente.

O direito enuncia o trabalho fundamentalmente como o “direito-dever”: dever

de trabalhar, dever social de trabalhar. Moraes Filho (1956) cita o direito de trabalhar não só como meio de assegurar a própria subsistência e a do núcleo familiar, mas também, de ter acesso a outros bens, tais como a educação, a escola, a cultura, o lazer, a saúde. É um direito público subjetivo, quer dizer, o cidadão pode exigir do estado, políticas públicas que concretizem a oportunidade de trabalhos para todos e não, apenas, para alguns.

Sendo o trabalho a atividade vital específica do homem, ele mediatiza a satisfação de suas necessidades pela transformação prévia da realidade material, modificando a sua forma natural, produzindo valores de uso. O homem é um agente ativo, capaz de dar respostas prático-conscientes aos seus carecimentos, através da atividade laborativa (IAMAMOTO 2001, p. 40).

O provimento das necessidades biológicas humanas é a função primordial do

trabalho. Entretanto, Mauro (1991) diz que existem funções de outras naturezas, tais

como:

a.

O trabalho propicia o aplauso social, uma vez que o indivíduo que não trabalha é mal visto pela sociedade;

b.

O trabalho alivia a tensão emocional funcionando como uma válvula de escape ou uma derivação para as emoções acumuladas;

c.

O trabalho estimula a imaginação e ativa a criatividade porque afeta poderosamente a atividade mental e estimula a inteligência, procurando obter melhores formas de expressão da produtividade;

d.

O trabalho condiciona o progresso e o bem-estar humano porque cada trabalhador é considerado parte do processo de melhoria de sua comunidade.

O

trabalho pode ser visto sob vários ângulos, entre outros, o sociológico, o

jurídico, o político, o econômico, o filosófico. Em geral se dá mais ênfase ao trabalho sob o aspecto econômico, como instrumento de produção de bens e serviços.

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Para Marx (1986), o trabalho no capitalismo é determinado pela existência da sociedade privada, dos meios de produção que implica na exploração do homem pelo homem e pela lei fundamental desse tipo de sociedade, a lei da mais valia. 1

Todo trabalho, seja ele qual for, não pode ser concebido apenas como fruto do castigo, como sinal de escravidão e muito menos como uma mercadoria, mas como meio de que o homem se serve para “criar o mundo” que o cerca. Portanto, o homem não pode “coisificar-se” ao integrar o mundo do trabalho. Ele não pode ser, em qualquer que seja o regime de produção em que se insira, apenas uma peça, um mecanismo que se substitui ou se reforça, que se coloca e ou que se tira, e cuja depreciação se calcula e de que se desfaz quando se torna “não útil” (CASTRO, 1998, p. 73).

Ainda, segundo o autor, embora todo trabalho, em princípio, dignifique a pessoa, há trabalhos, cujos objetos são tratados com mais dignidade do que o homem. Os trabalhos, que têm como objeto a própria pessoa humana, têm uma maior dignidade do que muitos outros. É o que se dá com o trabalho que tem por objeto a saúde quando inserido em uma finalidade social.

1.1.1 Evolução da legislação sobre a saúde dos trabalhadores

A preocupação dos trabalhadores pela preservação da saúde no trabalho tem uma trajetória histórica, com lutas específicas que alternam êxitos e fracassos por melhores condições de trabalho. Até o século XVII não havia nenhuma preocupação com a saúde do trabalhador. O ano de 1633 marca o nascimento de Bernadino Ramazini, historiador, poeta, filósofo, clínico, epidemólogo, médico e especialista em saúde pública. Ramazini além de ser o primeiro a estudar com afinco as doenças profissionais, descrevendo-lhes os sintomas com total propriedade, válidas até hoje, ele ainda condenou a falta de ventilação e temperaturas indesejáveis, aconselhou as pausas, o exercício e a postura correta e a prevenção da fadiga, ressaltando a importância do ensino da Medicina do Trabalho a ser realizado no próprio ambiente do trabalhador (BULHÕES, 1986).

1 Chama-se mais valia ao valor suplementar que o operário produz durante todo o tempo suplementar em que continua a trabalhar depois de produzir o valor da sua força de trabalho. O aumento da mais valia absoluta pode ser conseguido através da extensão da jornada de trabalho e do aumento da intensidade do trabalho. O aumento da mais valia relativa é obtido com a redução do tempo de trabalho necessário para que o trabalhador crie um valor equivalente ao de sua força de trabalho (MARX, 1986).

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Foi, contudo, a introdução da máquina no trabalho que transformou profundamente a sociedade na segunda metade do século XVIII. Vozes como a de Byron, Shelley e Persival Thomas, aliadas ao clamor da opinião pública se fizeram ouvir em favor dos trabalhadores mortos ou mutilados. Devido a essas pressões, surge em 1802 a “lei da preservação da saúde” (BULHÕES, 1986). A legislação sobre o trabalho no Brasil começa a ser implementada a partir do final da década de 1910. E, em 1919 surge a 1ª Lei Acidentária – 15/01/1919 – estabelecendo a responsabilidade patronal em casos de acidentes no trabalho ( Em 10/11/44 é decretada a 3ª Lei Acidentária, considerada até hoje a lei mais completa quanto à proteção dos trabalhadores e seus dependentes. Ela surge nos marcos do populismo de 1944, no Governo Vargas (REBOUÇAS, 1989). Segundo Haag (1997) é em 1943 que a Consolidação das Leis dos Trabalhos – CLT entra em vigor, constituindo um marco importante no campo da proteção legal aos trabalhadores. É também nesse período, 1945, que surge a Organização Mundial de Saúde – OMS – organização de proteção à saúde. Na década de 60 é criado o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS. Os institutos de aposentadoria e pensões são unificados, surgindo o INPS, hoje INSS, e o acidente de trabalho é assegurado. Segundo Monteiro (1998, p. 10) acidente de trabalho é “aquele que ocorre

pelo exercício do trabalho provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução da capacidade permanente ou temporária para o trabalho”. Isso diz respeito também à causa que, não sendo única, tenha contribuído para o resultado; pode ocorrer no local de trabalho, a serviço da empresa e nos intervalos ou a caminho. Além dos acidentes de trabalho, existem as doenças ocupacionais: são as doenças resultantes da ocupação do trabalhador e podem ser segundo Mendonça (2001):

a) Doenças profissionais, isto é, doenças que resultam do exercício de uma determinada profissão. Dada a sua tipicidade relacionada ao exercício profissional peculiar a determinada atividade, prescinde da comprovação do exercício da atividade, havendo presunção legal de que a doença é dela decorrente.

b) Doenças do trabalho, isto é, aquelas desencadeadas em função de condições especiais em que o trabalho é realizado sem ele ser relacionado diretamente, por isso necessitam de comprovação do nexo causal.

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Porém REBOUÇAS (1989) coloca que para a legislação brasileira, calcada no conceito positivista, obediente aos interesses do capital e do órgão securitário e compensador dos danos do trabalho, para a Previdência Social, só é doença do trabalho, a doença “profissional” ou “ocupacional”, aquela em que é fisicamente demonstrável a relação de causa e efeito entre trabalho e doença. Considerando que a maioria dos agentes físicos e químicos, tanto quanto o modo de organização e as relações do trabalho, o parcelamento da atividade e a dupla apropriação do trabalho, desgastam o corpo e a saúde dos trabalhadores, de forma lenta; as doenças do trabalho, mesmo as ditas profissionais, se desenvolvem por meses e anos e podem evidenciar seus primeiros sinais quando o trabalhador não mais exerce aquela atividade ou não mais trabalha (REBOUÇAS, 1989). A fim de orientar as obrigações das empresas em relação ao trabalho, o Ministério de Trabalho publicou em 08 de junho de 1978, a Portaria 3.214, contendo 28 Normas Regulamentadoras – NRs, que hoje são em maior número, incluindo a NR 32, que estabelece medidas de proteção à saúde dos trabalhadores das instituições prestadoras de serviços de saúde, sendo a primeira desse gênero. As normas de segurança e medicina do trabalho (na antiga redação, higiene do trabalho), constituem-se em dispositivos vitais na prevenção de acidentes e na defesa da saúde do empregado, evitando o sofrimento humano e o desperdício econômico lesivo às empresas e à economia do país (MENDONÇA, 2001). Ficou estabelecido a partir da Portaria 34 de 11 de dezembro de 1987, que em todo território nacional as empresas públicas ou privadas e órgãos da administração direta ou indireta, com empregados regidos pela CLT, devem obrigatoriamente ter serviço especializado em Segurança e Medicina do Trabalho – SESMT, obedecendo à graduação de risco da atividade desenvolvida e o quantitativo de pessoal do estabelecimento, conforme NR 4 (HAAG, 1997). Assunção (2003) diz que na atualidade, criou-se um movimento considerado processo de precarização do trabalho, por implicar mudanças nas relações de trabalho, incluindo as condições de trabalho, e as relações de emprego que apontam para maior instabilidade e insegurança para os trabalhadores. Além da flexibilização da produção e da sua gestão, as relações de emprego também são flexibilizadas à medida que passam a ser entendidas como a possibilidade de se contratar trabalhadores sem os ônus advindos da legislação do trabalho, que foi consolidada ao longo das últimas quatro décadas, pela proteção de

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direitos e garantias mínimas, como 13º salário, férias, FGTS, entre outros (ASSUNÇÃO, 2003).

A Constituição Brasileira incorpora o direito à saúde em nosso ordenamento

jurídico ao dispor:

Art. 196 – A saúde é direito de todos e dever do estado, garantido mediante políticas sociais que visem redução do risco, de doença e de outros agravos e ao acesso universal e iqualitário às ações e serviços para a sua promoção, proteção e recuperação (BALERA, 1992, p. 17-18).

Para Rebouças (1989, p. 22) “saúde não é um estado, mas reflexo dinâmico da vida e da sociedade, tanto a nível individual quanto coletivo.” Na declaração de ALMA ATA sobre atenção primária de saúde (APS), de 1978, foi recomendado que a atenção à saúde deveria ser prestada o mais perto

possível do lugar onde moram e trabalham as pessoas. Também se recomendou, entre outras coisas, que se desse prioridade aos trabalhadores expostos a riscos (ICN, 1989).

A relação risco-doença é considerada quando se trata de fatores específicos,

mas grande parte dos problemas de saúde ligados ao trabalho não é específica. Para Rebouças (1989), com o avanço técnico-científico e a organização

científica do trabalho, o desgaste da força de trabalho se externa sob formas mais sutis, revelando-se através de distúrbios orgânicos, psico-orgânicos ou psíquicos que podem evoluir para doenças caracterizadas e diagnosticadas por exames médicos e biológicos, sem que se possam individualizar suas causas. Hipertensão, infarto, doenças coronárias, gastrites, úlceras, neuroses, psicoses, asmas, todas elas, de um ou outro modo, tidas como doenças do “stress” ou tensão podem ter e certamente têm relação com o trabalho, na forma em que é organizado, parcelado e apropriado, a sua principal causa, embora ele não seja, necessariamente, identificado como tal.

O autor ainda esclarece que além daqueles fatores relacionados com a

organização do trabalho, constituem fontes de tensão e desgaste emocional, o risco

de acidente e intoxicação por produtos químicos, pois significam para o trabalhador uma ameaça permanente à sua integridade física e ainda a constante exposição ao barulho, calor e a adoção de posturas forçadas e incômodas.

O efeito do trabalho sobre a saúde é muitas vezes silencioso e não

apreendido pelo saber estritamente médico.

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Para Dejours (1992) a forma como se reveste o sofrimento psíquico do trabalhador varia com o tipo de organização do trabalho. Contra a angústia do trabalho, assim como contra a insatisfação, os operários elaboram estratégias defensivas, de maneira que o sofrimento não é imediatamente identificável. Assim, disfarçado ou mascarado, o sofrimento só pode ser revelado por meio de uma capa própria a cada profissão, que constitui, de certa forma sua sintomatologia. Segundo Assunção (2003), a relação saúde e trabalho não dizem respeito apenas ao adoecimento, aos acidentes e ao sofrimento. Para os trabalhadores, a saúde é construída também pelo trabalho. Em primeiro lugar, porque ao conseguir os resultados desejados pela hierarquia, sem contar com as condições ideais, e ao dar conta das demandas complexas, inusitadas e não previstas, os trabalhadores reafirmam a sua auto-estima, desenvolvem as suas habilidades e expressam as suas emoções.

1.2 Trabalho de Enfermagem

1.2.1 A enfermagem como profissão

A profissão de enfermagem está relacionada à prática de cuidados, uma das mais antigas da história da humanidade, e foi esta prática que garantiu a continuidade da vida e da sobrevivência da espécie (COLLIERE, 1999). Existem relatos muito antigos deste fazer, em sua maioria relacionados com a história religiosa. Pitta (1994) afirma que as primeiras vocações para o cuidado dos enfermos surgiram no âmbito da religião, fato confirmado por Pires (1998) quando cita que os hospitais, até o século XVIII, eram instituições de caráter essencialmente religioso, nos quais os doentes mais pobres eram atendidos. É no século XIX, na Inglaterra, que surge a enfermagem enquanto uma prática para possibilitar a recuperação do indivíduo doente. A enfermagem se institucionaliza justamente com a transformação do hospital. Para Almeida, (1997, p. 19): “essas novas necessidades sociais emergiram com o capitalismo; era necessário controlar a escassez de força de trabalho, e a saúde foi um dos mecanismos para possibilitar o projeto maior e assim cuidar da força de trabalho”.

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Melo (1986) afirma que é dentro deste novo hospital que ocorre a reforma da enfermagem: há uma separação da prática religiosa da prática técnico-profissional. Foi com Florence Nightingale em 1854, após servir como voluntária nos hospitais militares ingleses, na guerra da Criméia, que a enfermagem começou a tomar caráter profissional. Ela foi a responsável pela formação das primeiras enfermeiras profissionais, também chamadas “ladies nurses”, pertencentes às classes sociais mais elevadas. Estas eram responsáveis pelo treinamento e supervisão de outras mulheres, as “nurses”, de classe social inferior, que exerciam o cuidado direto ao paciente. Com Florence, surgiu a enfermagem científica, com suas características: fragmentação do trabalho, divisão de tarefas, hierarquização; um trabalho nos moldes da administração taylorista. Muitos dos princípios de Taylor serviram como base para a organização do trabalho na enfermagem: separação entre as funções de coordenação e execução, parcelamento das atividades de quem executa com a existência de uma unidade de comando, tão característico da prática da enfermagem (MELO, 1986). Desde o início, o trabalho de enfermagem se apresentou com caráter fragmentário, hierárquico e coletivo. A participação essencialmente feminina, oriunda de segmentos sociais questionáveis (religiosas, damas e mulheres da vida mundana) fez da profissão uma atividade com problemas sociais (MACHADO, 1999). Além disso, as novas enfermeiras, exigiram do governo um reconhecimento oficial do curso de enfermagem e a melhoria das suas condições de trabalho. Embora o movimento tenha sido contestado por Florence, a qual atribuía a profissão o espírito vocacional e submisso, a profissão nasceu também com outra característica: trabalho assalariado sob o modo de produção capitalista (MELO,

1986).

Pires (1998, p. 85), também afirma que: “a enfermagem, desde a sua organização como profissão, é predominantemente subordinada e assalariada.” Segundo Melo (1986), o desenvolvimento da profissão de enfermagem dentro do hospital determina uma grande divisão do trabalho entre as profissões ali existentes. O surgimento da enfermagem moderna se dá com uma divisão do trabalho médico, em que as tarefas manuais passam a ser de atribuição da enfermagem, revestidas do desenvolvimento tecnológico sob o poder da prática médica. O poder antes exercido pelos religiosos passa para o médico, novo detentor do saber e responsável pela organização hospitalar. Para Agudelo (1995), na

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relação de trabalho exercida pelos trabalhadores de saúde, o trabalho médico possui

a máxima autonomia e exerce grande poder institucional. Na verdade, a questão da autonomia técnica é de fato um problema adicional para a enfermagem. Para Machado (1999), a profissão tem uma atividade com forte

conteúdo prático e reduzida autonomia profissional. A autora reforça esta afirmativa quando cita no seu estudo que “a enfermagem se vê com forte dependência do trabalho médico”. Para ela embora a enfermagem tenha adquirido enorme conhecimento empírico do ambiente de trabalho e domínio do quotidiano do paciente, constituindo um vasto e rico campo de prática, isto não resultou no monopólio do conhecimento desta realidade, tornando-a frágil perante a concorrência no mercado de serviços de saúde. Para Pires (1998), o trabalho de enfermagem, nas instituições desenvolve-se com alguma autonomia, mas está subordinada às regras de funcionamento e legislação relativa à saúde e ao exercício das profissões. Tal fato para Machado (1999) fez da enfermagem uma profissão com forte necessidade de apoio de equipe adicional – equipe de enfermagem – hierarquizada

e subordinada tecnicamente aos profissionais diplomados: os enfermeiros. Os enfermeiros assumem a gerência do trabalho assistencial de enfermagem, controlando a globalidade do processo de trabalho e delegando tarefas parcelares aos demais trabalhadores de enfermagem (PIRES, 1998, p. 85). Segundo dados atualizados do Conselho Federal de Enfermagem são aproximadamente 800 mil trabalhadores de enfermagem sendo que 13% são enfermeiros (COFEN, 2004). De acordo com a Lei nº 7498/86, é função do enfermeiro, exercer todas as atividades de enfermagem, cabendo-lhe privativamente a direção de órgãos de enfermagem e chefia de serviço e de unidade de enfermagem, a organização e direção de serviços de enfermagem, consultoria, auditoria e emissão de parecer sobre matéria de enfermagem, consulta de enfermagem, prescrição da assistência de enfermagem, cuidados diretos a pacientes graves com risco de vida e a realização de cuidados de enfermagem de maior complexidade técnica, entre outras atividades. Aos técnicos de enfermagem cabe especialmente a participação na programação da assistência de enfermagem, a execução de ações assistenciais de enfermagem, exceto as privativas do enfermeiro, a participação na orientação e supervisão do trabalho de enfermagem em caráter auxiliar e participação na equipe de saúde. Aos

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auxiliares de enfermagem cabe as atividades mais repetidas: observar, reconhecer e descrever sinais e sintomas, executar ações de tratamento simples, prestar cuidado de higiene e conforto do paciente e participação na equipe de saúde. Diante do que preconiza a lei, fica claro a divisão do trabalho de enfermagem, porém, na realidade da prática, algumas atividades atribuídas com exclusividade ao enfermeiro, como por exemplo: “as atividades de maior complexidade”, são executadas pelos técnicos ou auxiliares de enfermagem. No estudo de Peduzzi (2002), ela destaca que no Brasil, a maioria das atividades de assistência ao paciente é realizada pelo pessoal auxiliar (técnico de enfermagem, auxiliar de enfermagem, atendente de enfermagem), ficando para os enfermeiros as atividades de ensino, supervisão e administração. Ela cita:

Os enfermeiros participam apenas eventualmente do cuidado, pois se ocupam de um elenco muito diversificado de ações centradas no planejamento da assistência e em criar condições adequadas para que esta seja executada pelos auxiliares (PEDUZZI, 2002, p. 79).

Há uma grande variabilidade de funções e atividades no trabalho de enfermagem que se sobrepõe entre os trabalhadores de enfermagem, tornando-o confuso e gerando diferenças entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Peduzzi (2002) constatou que quando os auxiliares de enfermagem fazem referência à participação das enfermeiras nos cuidados diretos, interpretam sua colaboração como trabalho equivalente ao seu. Não são consideradas as diferenças técnicas que existem objetivamente, na divisão do trabalho de enfermagem. Para Machado (1999), tal fato faz da enfermagem uma profissão que experimenta na sua própria estrutura interna, forte concorrência, não só na divisão de trabalho como na disputa por mercado de serviços de enfermagem, dificultando a especificação dos diferentes papéis e, portanto, sua profissionalização.

1.2.2 Condições do trabalho de enfermagem

Por condições de trabalho se entende o conjunto de fatores que atuam sobre o indivíduo no ambiente de trabalho (AGUDELO, 1995, tradução nossa). Segundo Marx (1986), condições de trabalho representam todas aquelas condições materiais que concorrem para o desenvolvimento do processo de trabalho, as quais não se identificam diretamente com o referido processo, mas sem as quais, este não poderia ser executado, ou o seria de modo imperfeito.

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A inexistência de boas condições de trabalho é o motivo explícito dos conflitos de trabalho nas instituições hospitalares, segundo Bulhões (2001). Para a autora, a atividade realizada pelo trabalhador pode ter conseqüências sobre seu estado físico, mental e psicológico, gerando insatisfação, desconforto, cargas de trabalho, fadiga, estresse, doenças, acidentes de trabalho e erros. Vários autores têm apontado o trabalho de enfermagem como importante fator para o desencadeamento do desgaste físico e sofrimento psíquico (ARAÚJO, 2003; BULHÕES, 1998; LISBOA, 1998; MARANHÃO, 2000; MAURO, 2001; REGO, 1993; SILVEIRA, 2001). São trabalhos que têm por objeto mostrar a relação entre a atividade desempenhada e manifestações físicas, psíquicas apresentadas por esses trabalhadores. As condições de trabalho da enfermagem podem ser caracterizadas como altamente desgastantes: sobrecargas de tarefas, jornadas prolongadas, turnos rotativos, trabalho noturno sem repouso ou com poucas horas de descanso e falta de lugar próprio para tal fim, nos serviços. Além disso, os trabalhadores de enfermagem estão expostos permanentemente a riscos biológicos, químicos, físicos

e nos dias de hoje pode-se acrescentar o risco de perder a vida, quando se trabalha em instituições expostas a situações de violência de diferentes ordens. Acrescido a esses fatores estão as carências institucionais em recursos materiais, humanos, e manutenção de equipamentos, contribuindo para o desgaste laboral do trabalhador de enfermagem, que causa deterioração progressivamente dos serviços de saúde, em especial dos públicos, impactando a qualidade da assistência aos usuários dos serviços.

1.2.3 Riscos no trabalho de enfermagem

O principal meio ambiente de trabalho do pessoal de enfermagem é o hospital. Em virtude dos baixos salários, perspectivas de duplo emprego, muitos trabalhadores de enfermagem permanecem nesse ambiente a maior parte do tempo

e conseqüentemente expostos aos riscos por um período maior. Segundo Bulhões (1998): os trabalhadores de enfermagem tornam-se vulneráveis aos riscos no ambiente hospitalar, por força de algumas características que lhe são próprias, como:

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O maior grupo individualizado de profissionais de saúde;

Presta assistência ininterrupta, 24 horas por dia;

Responsável pela execução de cerca de 60% das ações de saúde;

Categoria que mais entra em contato físico com os doentes;

É por excelência uma profissão feminina;

Bastante diversificada em sua formação profissional.

Bulhões (1998) explica que no ambiente de trabalho, o risco ocupacional pode ser ou estar: oculto, latente ou real. Oculto quando o trabalhador por falta de conhecimento ou informação não sabe de sua existência; latente quando o risco existe, o trabalhador sabe que está exposto a ele, e este só se manifesta e causa danos em situações de emergência, estresse ou a longo prazo; é real quando ele é

conhecido de todos, porém sem possibilidades de controle. A autora esclarece que o risco latente é muito comum no dia-a-dia da profissão de enfermagem: tão ou mais grave é o risco real que poderia ser evitado com adoção de medidas preventivas, como, por exemplo, as lombalgias. Os riscos ocupacionais, segundo Bulhões (1998) são classificados, de acordo com a natureza destes em:

1. Riscos físicos: ruídos, vibrações, radiações ionizantes e não ionizantes, frio, calor, pressões, umidade etc.

2. Riscos químicos: poeira, fumos, névoas, neblinas, gases, vapores, produtos químicos, quimioterápicos.

3. Riscos biológicos: vírus, bactérias, protozoários, fungos, parasitas, bacilos.

4. Riscos ergonômicos: levantamento de peso, postura inadequada, controle rígido de produtividade, ritmos excessivos, trabalho noturno, jornadas longas, monotonia, estresse físico e psíquico.

5. Riscos de acidentes: local físico inadequado, máquinas sem proteção, ferramentas inadequadas, iluminação inadequada, eletricidade, animais peçonhentos.

Estes riscos coincidem com a classificação do Ministério do Trabalho definido na NR 5 - Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA, que tem como objetivo a prevenção de acidentes e doenças decorrentes do trabalho, de modo a tornar compatível o trabalho com a preservação da vida e a promoção da saúde do empregado.

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Para Bulhões (1998, p. 173), os riscos biológicos, físicos e químicos, presentes no meio hospitalar, são os principais causadores da insalubridade e da periculosidade do trabalho de enfermagem em hospitais: “quando não devidamente controlados, esses agentes causam inúmeros acidentes e doenças profissionais ou do trabalho.” Para Alves (2002), a questão da insalubridade deve ser melhor analisada pela CLT, considerando de fato, o ambiente de forma mais global, incluindo a natureza do trabalho, a organização científica do trabalho, as técnicas e tecnologias empregadas.

1.2.4 Fatores de penosidade do trabalho de enfermagem

Para Bulhões (1998) o trabalho de enfermagem, além de insalubre e perigoso (periculosidade), é penoso, embora a legislação brasileira ignore tal fato. Como penosidade, a autora compreende o sofrimento que decorre dos elementos envolvidos na carga de trabalho. Quando se fala em cargas de trabalho, segundo Brito; Firpo (1992), é um conceito utilizado pela ergonomia que busca sintetizar a idéia de que, no nível dos processos de trabalho, a saúde dos trabalhadores é uma conseqüência da relação entre o trabalhador e sua atividade de trabalho. Explicitando melhor a compreensão, os autores explicam que o trabalhador ao realizar uma atividade específica, ele enfrenta uma série de dificuldades, gerando processos de adaptação que se traduzem em desgaste. No estudo de Silva (1998), fundamentado no referencial teórico metodológico operacional desenvolvido por Laurell; Noriega:

Essa relação trabalho-saúde expressa-se no corpo biopsíquico dos trabalhadores de enfermagem pelo desgaste por eles sofrido, provocado pela exposição às cargas de trabalho, geradas nos processos de trabalho, submetidos que estão aos processos de valorização da produção em saúde na sociedade capitalista (SILVA, 1998, p.

604).

Laurell; Noriega (1989), distinguem dois tipos de cargas: as cargas de materialidade externa: cargas biológicas, físicas, químicas e mecânicas; e as cargas de materialidade interna que constituem as cargas fisiológicas e psíquicas. Dentre os autores consultados (AVENDAÑO, 1997; BULHÕES, 1998; DEJOURS, 1994; LAURELL; NORIEGA, 1989; SILVA, 1998), há diferentes

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classificações teóricas sobre o significado de cargas de trabalho. Para melhor compreensão da penosidade do trabalho de enfermagem, cito os fatores relacionados com as respectivas cargas físicas mentais e psíquicas do estudo de Bulhões (1998). Para a autora, a carga física está relacionada com distâncias e deslocamentos, postura, posições incômodas e repetidas, levantamento, sustentação e transporte de cargas, elevação da temperatura corporal. A carga mental está ligada às interrupções numerosas e freqüentes, erros, nível de iluminamento, nível sonoro, complexidade e multiplicidade de informações a tratar, comunicações numerosas. E carga psíquica decorre da confrontação com sofrimento, incapacidade, morte, falta de reconhecimento por parte de colegas e chefes, brevidade nas comunicações com doentes e colegas, trabalho noturno e em turnos alternados, trabalho contínuo, falta de participação nas decisões, condições de penúria imposta pelos baixos salários, entre outros. Como conseqüência das cargas de trabalho, muitos são os efeitos negativos sobre a saúde dos trabalhadores de enfermagem como a exaustão, fadiga, lombalgias, distúrbios da memória e da atenção que predispõem o trabalhador ao acidente; distúrbios de humor, irritabilidade, ritmo do sono, seguidos de distúrbios somáticos como cefaléia, taquicardia, pirose gástrica e distúrbios tipo colítico. Pode surgir ansiedade, consumo de álcool e drogas entre outros (ALVES, 2002). Alguns estudos vêm apontando o absenteísmo, aparecimento de doenças, relacionados a fatores ligados à organização e condições do trabalho de enfermagem. Dentre eles há o de Reis (2003), que investigou os fatores relacionados ao absenteísmo por doenças em profissionais de enfermagem num hospital universitário de Minas Gerais. Cerca de 57,6% da população estudada afastou-se de suas atividades laborais pelo menos uma vez no período de doze meses. Os grupos com maior demanda foram técnicos de enfermagem e do sexo feminino. O estudo de Araújo (2003) objetivou avaliar a ocorrência de distúrbios psíquicos menores entre trabalhadoras de enfermagem num hospital de Salvador, cujos resultados evidenciaram a prevalência de 33,3% de Distúrbios Psíquicos Menores, variando de 20% entre enfermeiras a 36,4% entre auxiliares de enfermagem. Vale ressaltar neste estudo que a maioria das trabalhadoras de enfermagem tem mais de dez anos na ocupação e duplo emprego, indicando demandas elevadas do trabalho em enfermagem.

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Este estudo denota sérios problemas de saúde mental na população estudada. Em estudos semelhantes em trabalhadores de hospital, Pitta (1994), encontrou prevalência de 20,8% de Distúrbios Psíquicos Menores. Estes estudos comprovam que a alta exigência do trabalho é fator preditor para problemas psicossociais no trabalho. Na pesquisa de Silva (1998), a autora buscou a compreensão do processo saúde-doença, considerando que a exposição dos trabalhadores de enfermagem a uma diversidade de cargas que gera processos de desgaste não tão facilmente evidenciados. Como resultado foi conformado um perfil de morbidade onde se sobressaiu os ferimentos perfuro cortantes e os problemas ósteo-músculo-articulares. Bulhões (1998) cita na sua obra, um estudo realizado com 1238 enfermeiras francesas, as quais foi solicitado que respondessem o que elas consideravam mais penoso no seu trabalho. Foram descritas 2993 penosidades. Concordando com Laurell & Noriega (1989, p. 122), entendemos que a exposição dos trabalhadores de enfermagem às cargas de trabalho gera processos de desgaste. Nesta perspectiva, o trabalho de enfermagem é um processo técnico que envolve o cuidar e administrar, gerando cargas de trabalho que ocasionam o desgaste destes trabalhadores. Neste contexto, cabe refletir sobre a nossa prática e como estamos inseridos neste processo saúde-doença-trabalho. Segundo Ferreira (2000), o conhecimento é imprescindível para gerar a transformação, bem como a conscientização do trabalhador neste processo.

1.3 O Trabalho de Enfermagem e a Ergonomia

Diante das inadequadas condições de trabalho oferecidas aos trabalhadores nos hospitais de muitos países, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), desde a década de 40, tem considerado o problema como tema de discussão e tem feito recomendações referentes à higiene e segurança com a finalidade da adequação das condições de trabalho aos trabalhadores.

O princípio consagrado nas convenções internacionais de que o trabalho deve

adaptar-se ao homem estabelece-se com o surgimento da ergonomia a partir de 1950.

A definição de ergonomia dada pela Associação Brasileira de Ergonomia –

ABERGO, em 1998, diz:

37

Ergonomia é a disciplina científica que trata da compreensão das interações entre os seres humanos a outros elementos de um sistema, e a profissão que aplica teorias, princípios, dados e método, a projetos que visam otimizar o bem-estar humano e a performance global dos sistemas. A Ergonomia visa adequar sistemas de trabalho às características das pessoas que nele operam (RIO; PIRES, 2001, p. 31).

Pode-se afirmar que a ergonomia tem por objeto a adaptação e melhoria das condições do trabalho ao homem, tanto em seus aspectos físicos como nos psíquicos e sociais, mas a ergonomia reconhece que, enquanto não se consegue adaptar o trabalho totalmente ao ser humano, é necessário que se adotem medidas de adaptação das pessoas ao trabalho (RIO; PIRES, 2001). Estryn-Behar e Poinsignon (1989) descrevem no seu estudo os fatores que interferem nas condições de trabalho hospitalar: o desenvolvimento rápido e contínuo da tecnologia médica, a grande variedade de procedimentos e exames realizados, o aumento constante do conhecimento teórico e prático exigido na área de saúde, a especialidade do trabalho, a hierarquização, o ritmo e o ambiente físico, o estresse e o contato com o paciente, a dor e a morte. Para as autoras estes fatores potencializam a carga de trabalho, ocasionando riscos à saúde física e mental dos trabalhadores do hospital. Nesse sentido, a abordagem ergonômica para análise da situação de trabalho de enfermagem tem sido utilizada por estudiosos no mundo todo. No Brasil, Mauro (1976) foi a pioneira em utilizar os princípios ergonômicos para analisar o trabalho de enfermagem. Segundo Mauro (2001), é a metodologia ergonômica que, no hospital, auxilia os estudos da interação dos fatores individuais (fadiga, rigidez, idade, treinamento), as circunstâncias do trabalho (organização do trabalho, escalas, mobiliário, planta física, equipamentos, comunicação), o apoio psicológico dentro da equipe de trabalho e as questões ambientais que afetam o desempenho do trabalho. Existem Normas Regulamentadoras (NRs) do Ministério do Trabalho que integram a legislação brasileira referente à saúde dos trabalhadores e também ajudam na compreensão dos processos de trabalho. Uma delas, a NR-17 (Portaria nº 3.751, de 23/11/90) é dedicada à ergonomia. Esta norma regulamentadora visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente (MENDONÇA, 2001).

38

Dessa forma, considera-se que os princípios ergonômicos e sua aplicabilidade junto à análise do trabalho em instituições hospitalares contribuam para as melhorias das condições de trabalho na enfermagem. É com apoio da Ergonomia que este estudo busca a compreensão das condições de trabalho de enfermagem no hospital selecionado.

39

2 METODOLOGIA

2.1 Tipologia do Estudo

Trata-se de um estudo descritivo com abordagem quantitativa, fundamentado em referenciais ergonômico, epidemiológico e humanista, uma vez que os

conhecimentos sobre os indivíduos só são possíveis com a descrição da experiência humana, tal como ela é vivida e tal como ela é definida por seus próprios autores (POLIT, 1995). Baseado no mesmo autor, esta é uma investigação descritiva porque, a finalidade dos estudos descritos é observar, descrever e documentar os

A descrição quantitativa envolve a predominância, a

incidência, o tamanho e os atributos mensuráveis de um fenômeno. O direcionamento descritivo, segundo Santos e Clos (1998, p. 12) é uma investigação onde ocorre “um delineamento da realidade uma vez que esta

descreve, registra, analisa e interpreta a natureza atual ou processos dos

Segundo Triviños (1990), este tipo de estudo reside no desejo de

conhecer a comunidade, seus traços característicos, seus problemas e seus valores. Na abordagem quantitativa, segundo Leopardi (2001), o interesse está em fatos objetivamente detectados e observáveis, seja em sua produção, seja em seu desenvolvimento. É utilizada quando se tem um instrumento de medida utilizável e válido, deseja-se assegurar a objetividade e a credibilidade dos achados, os instrumentos não colocam em risco a vida humana, a questão proposta indica a preocupação com quantificação quando necessita comparar eventos, ou quando for desejável replicar estudos.

fenômenos

aspectos da situação

”.

2.2 Campo da Pesquisa

O estudo foi realizado em um hospital universitário, localizado no município do Rio de Janeiro. Para melhor entendimento traço um perfil do hospital com o objetivo de contextualizar o local onde ocorrem as atividades laborativas dos profissionais envolvidos na pesquisa. Caracterizado como um hospital de grande porte, com aproximadamente 600 leitos, considerado centro de excelência e referência para o Estado do Rio de Janeiro na área de ensino, assistência e pesquisa. Possui área

40

física de 45 mil metros quadrados, sendo um prédio de 06 andares e vários anexos. Presta serviço em mais de 60 especialidades e subespecialidades da área médica, as quais se completam com a assistência multiprofissional.

O serviço de clínica médica possui 15 unidades de internação, dentre as

quais, 04 recebem a classificação de “clínicas básicas”. As demais são denominadas clínicas médicas especializadas: pneumologia, cardiologia, neurologia, dermatologia, hematologia, psiquiatria, nefrologia, adolescentes, DIP (doenças infecto parasitárias), unidade coronariana e CTI adulto. Atualmente, a instituição é mantida com recursos do Ministério da Educação e

o Sistema Único de Saúde – SUS, porém o hospital enfrenta há alguns anos uma

difícil situação econômico-financeira considerando que estes recursos atualmente repassados para o hospital são insuficientes para a sua manutenção. Tais circunstâncias contribuem para ambientes de trabalho, especialmente no serviço de clínica médica, com difíceis condições de trabalho (falta e/ou manutenção de equipamentos, mobiliários hospitalares defeituosos e/ou quebrados, falta de materiais etc), inadequação dos postos de trabalho e insegurança nos ambientes (riscos ocupacionais). Considerando o estudo sobre condições de trabalho, saúde, conforto e direitos humanos de trabalhadores de enfermagem realizado nas quatro unidades básicas de clínica médica deste hospital, optou-se por realizar este estudo em outras quatro unidades de clínica médica especializadas, a saber: pneumologia, dermatologia, neurologia e doenças infecto parasitárias. Estas unidades de internação, campo da realização da pesquisa, localizam-se no segundo andar desse hospital. A unidade de pneumologia tem capacidade para 17 leitos de internação, sendo

09 leitos para a clientela masculina e 08 para clientela feminina. Os clientes têm mais de 18 anos de idade com patologias respiratórias agudas e crônicas, de longa, média

e curta permanência. Anexas à enfermaria existem três salas, nas quais a equipe de enfermagem atua no atendimento aos clientes: sala de broncoscopia, sala de reabilitação respiratória e sala de prova de função respiratória.

A unidade de dermatologia tem 12 leitos, distribuídos entre a clientela

masculina e feminina conforme a demanda de internação. Presta atendimento a clientes adultos com patologias dermatológicas agudas e crônicas geralmente com tempo de permanência que varia de médio e longo.

41

A unidade de neurologia tem capacidade para 18 leitos, porém por falta de

médicos especialistas na área, atualmente tem 06 leitos para clientela masculina e

06 leitos para clientela feminina. Presta atendimento a pessoas com patologias neurológicas, na sua maioria com grau de dependência total dos cuidados de enfermagem.

A unidade de doenças infecto parasitárias (DIP) tem capacidade para 12

leitos e 03 quartos de isolamento. Presta atendimento a clientes com diferentes patologias infecto-contagiosa.

A carga horária dos trabalhadores de enfermagem neste hospital é de 32

horas e 30 minutos ou 40 horas semanais, distribuídas em plantões diurnos ou noturnos de 12 horas por 60 horas de descanso, ou o cumprimento da carga horária como diarista, pela manhã (07:00 às 13:30h) ou turno manhã/tarde (07:00 às 16:00h), de segunda a sexta-feira.

2.3 Amostra

A amostra do presente estudo foi constituída por trabalhadores de

enfermagem, que desenvolvem suas atividades laborativas nas dependências das unidades de clínica médica especializadas: pneumologia, dermatologia, neurologia e

doenças infecto-parasitárias.

Os trabalhadores de enfermagem prestadores de serviço com menos de seis

meses de atividades laborais nas referidas unidades, foram excluídos deste estudo e incluídos aqueles com mais de seis meses de trabalho nestas unidades.

As escalas de serviço nos meses de agosto e setembro, correspondentes aos

meses de coleta de dados, apresentavam um total de 82 trabalhadores de

enfermagem, conforme se pode verificar no quadro 01 a seguir.

42

SETOR

ENFERMEIRO

RESIDENTE DE

AUX.

ASS

TOTAL

ENFERMAGEM

ENFERMAGEM

PNEUMOLOGIA

01

01

19

-

21

DIP

06

01

19

-

26

DERMATOLOGIA

01

01

11

01

14

NEUROLOGIA

01

-

19

01

21

TOTAL

09

03

68

02

82

Quadro 1: Demonstrativo de recursos humanos das unidades especializadas de clínica médica / Hospital Universitário Pedro Ernesto / RJ.

Fonte: Escala de Serviço – Seclin – Ago/2005

A amostra foi composta de 41 trabalhadores de enfermagem, visto que no

momento da coleta de dados, identificamos 21 auxiliares de enfermagem prestadores de serviço com menos de seis meses de atividades laborais no setor de trabalho, 08 trabalhadores de enfermagem licenciados por licença médica e 02 trabalhadores que se recusaram participar da pesquisa, alegando motivos pessoais, nada tendo contra a pesquisa e/ou pesquisadora.

2.4 Coleta de Dados / Instrumento

Os dados foram obtidos através das informações prestadas pelos trabalhadores em resposta ao questionário aplicado pela própria pesquisadora no período de agosto a setembro de 2005.

O questionário utilizado, composto de quatro partes, abordou as seguintes questões:

1. Características sócio-culturais-econômicas-laborais dos trabalhadores de

enfermagem (apêndice b).

2. Questionário sobre condições de trabalho (apêndice c).

3. Questionário sobre problemas de saúde do trabalhador (apêndice d).

4. Questionário sobre o interesse dos trabalhadores na prevenção dos riscos

no trabalho (apêndice e).

43

Na primeira parte do questionário foram consideradas as diferentes variáveis a fim de estabelecer o perfil da equipe de enfermagem (apêndice b): dados de

identificação (sexo, idade, estado civil, carga horária, faixa salarial, etc.); o trabalho na enfermagem; informações sobre a família e cuidados com sua saúde, totalizando 39 perguntas. Para Du Gas (1984), ao avaliar o estado de saúde de um indivíduo, é importante compreender o contexto social em que o mesmo vive. Ela afirma que em todas as sociedades, assim como nos subgrupos existentes são observadas certas

normas ou padrões, em relação à saúde e à enfermidade

tradições e os hábitos de uma sociedade ditam, também, comportamentos aceitáveis em relação à saúde e à enfermidade. O questionário sobre condições de trabalho (apêndice c), contém 33 variáveis relacionadas a riscos ocupacionais, tais como ergonômicos, físicos, químicos, biológicos e de acidentes. Os sujeitos da pesquisa deveriam assinalar no questionário os itens, de acordo com sua percepção, atribuindo a cada um deles um valor de freqüência das condições de trabalho na unidade de clínica médica na qual desenvolve suas atividades laborais. No questionário sobre problemas de saúde do trabalhador (apêndice d), há 32 variáveis de problemas de saúde que foram identificados pelos sujeitos como existentes ou não, e aqueles existentes deveriam ser relacionados às condições de trabalho. Sucessivamente, aplicamos também o questionário sobre o interesse dos trabalhadores na prevenção de riscos (apêndice e). Antes de proceder à coleta de dados, solicitamos autorização, por escrito, à direção da instituição e à coordenadoria de enfermagem para realização da pesquisa, a qual também foi submetida à avaliação e aprovação pelo comitê de ética e pesquisa da Instituição. No momento da entrega do questionário, os participantes foram esclarecidos pela pesquisadora sobre os objetivos e a importância do estudo e apresentado o termo de consentimento livre e esclarecido (apêndice a), em concordância à Resolução 196 de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde que trata da pesquisa envolvendo seres humanos (GAUTHIER, 1998).

Os costumes, as

44

A pesquisadora permaneceu no campo aguardando a devolução dos questionários e esclarecendo possíveis dúvidas quanto ao seu preenchimento. A coleta foi realizada conforme os respectivos turnos de trabalho.

2.5 Tratamento dos Dados

Para o tratamento utilizou-se o programa EPI-INFO. Os dados coletados dos questionários foram organizados e analisados utilizando análise estatística descritiva simples. Os dados tabulados estão organizados sob a forma de tabelas e/ou gráficos, representados por associações numéricas absolutas e relativas por percentuais.

45

3 APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

A partir dos dados levantados e interpretados, os mesmos foram organizados em quatro grupos principais, a saber:

- 3.1 Características do perfil profissional dos trabalhadores de enfermagem.

- 3.2 Condições do ambiente de trabalho e os fatores de risco ocupacionais nas unidades especializadas de clínica médica.

- 3.3 Problemas de saúde relacionados com as condições de trabalho.

- 3.4 Interesse dos trabalhadores na prevenção dos riscos no trabalho.

3.1 Características do perfil profissional dos trabalhadores de enfermagem que atuam em clínica médica

Com o objetivo de obter o perfil dos profissionais, foram levantados dados referentes à idade, estado civil, número de filhos, categoria profissional, carga horária semanal, faixa salarial, entre outros, e os cuidados que os profissionais têm com a sua própria saúde e estilo de vida.

3.1.1 Identificação dos trabalhadores de enfermagem

Masculino 27% Feminino 73%
Masculino
27%
Feminino
73%

Gráfico 1 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação ao sexo - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

Fonte: Pesquisa de campo

Ao analisar os dados do Gráfico 1, percebe-se que 73% dos sujeitos da pesquisa são do sexo feminino, fato observado por muitos estudiosos que referem que, historicamente, as atividades de cuidar tem sido delegadas às mulheres (COLLIÉRE, 1999; ESTRYN BEHAR, 1996; PITTA, 1994).

46

Diante desta realidade, é importante levar em consideração algumas

características da condição feminina no trabalho, conforme destaca Bulhões (1998,

p. 93): as mulheres enfrentam o estresse de maneira mais econômica do ponto de

vista fisiológico mas a um custo psicológico mais alto, possuem estatura geralmente

menor, sua força muscular representa em média dois terços da força do homem.

Para a autora deve haver uma preocupação maior com as condições de trabalho,

considerando que o meio ambiente hospitalar comporta uma variedade de riscos

biológicos, físicos, químicos e ergonômicos que sem controle são capazes de afetar

as diferentes fases de reprodução da mulher (BULHÕES, 1998, p. 99).

50

40

30

20

10

0

43,9 22 17,1 14,6 2,4
43,9
22
17,1
14,6
2,4

a 29 anos20 a 39 anos 30 a 49 anos 40 a 59 anos Mais de 60

20

a 39 anosa 29 anos 20 30 a 49 anos 40 a 59 anos Mais de 60 anos

30

a 49 anosa 29 anos 20 a 39 anos 30 40 a 59 anos Mais de 60 anos

40

a 59 anosa 29 anos 20 a 39 anos 30 a 49 anos 40 Mais de 60 anos

Mais de 60 anosa 29 anos 20 a 39 anos 30 a 49 anos 40 a 59 anos 50

50

Gráfico 2 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à faixa etária - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

Fonte: Pesquisa de campo

No Gráfico 2, constata-se que, em relação à faixa etária, os sujeitos do estudo

apresentam idade que variam entre 20 a mais de 60 anos, sendo que 17,1% estão

inseridos na faixa etária de 20 a 29 anos; 22% entre 30 a 39 anos; 43,9% entre 40 a 49

anos; 14,6% entre 50 a 59 anos e 2,4% com mais de 60 anos. Analisando estes

resultados, observa-se que a maioria dos sujeitos encontra-se na faixa etária entre 40 e

59 anos. Segundo Bulhões (1998, p. 84), a partir dos 35 anos, as funções

cardiovasculares, pulmonares, musculares e biomecânicas já não se encontram no

máximo de suas capacidades. Há limitações visuais, auditivas, repercussões no padrão

de sono que variam de acordo com a história profissional e estilo de vida de cada um.

47

48,7%

46,3%

48,7% 4 6 , 3 % 48,8% 51,2% solteiro casado

48,8%

51,2%

solteiro casado
solteiro
casado

Gráfico 3 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação ao estado civil - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

Fonte: Pesquisa de campo

Conforme o Gráfico 3, verifica-se que 51,2% dos trabalhadores são solteiros e 49,7% são casados.

Para Mielnik (1976, p.175) após a revolução industrial, inúmeras mutações econômicas e sociais foram impostas à vida moderna. Dentre elas, a inserção da mulher no trabalho fora de casa. Segundo o autor, o trabalho da mulher pode transformar-se em causa de conflitos conjugais, não pelo menosprezo do trabalho e sim pelo ciúme do companheiro que se considera superado em capacidade pela atividade feminina.

Embora neste estudo evidenciemos um grupo maior de solteiros (51,2%), devemos considerar a maioria de mulheres (73,2%), que vivenciam em seus relacionamentos afetivos a dificuldade de conciliar o trabalho e a família.

48

3.1.2 Dados dos trabalhadores de enfermagem

Tabela 1 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem por categoria, das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Categoria F % Auxiliar de serviços de saúde
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Categoria F % Auxiliar de serviços de saúde

Categoria

F

%

Auxiliar de serviços de saúde Auxiliar de enfermagem Técnico de enfermagem Enfermeiro Enfermeiro residente Total

2

4,9

22

53,7

9

22,0

6

14,6

2

4,9

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

A Tabela 1 indica que do total dos trabalhadores de enfermagem das unidades

de clínica médica especializadas: 53% pertencem à categoria de auxiliar de

enfermagem, seguidos de 22% de técnicos de enfermagem, 14,6% de enfermeiros,

4,9% de enfermeiros residentes e 4,9% de auxiliares de serviços de saúde.

Os dados corroboram com os dados do COFEN (2004) que indica que 53%

dos trabalhadores de enfermagem no país são auxiliares de enfermagem.

60

50

40

30

20

10

0

51,2 29,3 9,7 2,4 2,4 2,4 2,4
51,2
29,3
9,7
2,4
2,4
2,4
2,4

Ensino Fundamental CompletoEnsino Fundamental Incompleto Ensino Médio Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Superior Completo Ensino Superior

Ensino Fundamental IncompletoEnsino Fundamental Completo Ensino Médio Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Superior Completo Ensino Superior

Ensino MédioEnsino Fundamental Completo Ensino Fundamental Incompleto Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Superior Completo

Completo

Ensino MédioCompleto Ensino Fundamental Incompleto Ensino Médio Completo Incompleto Ensino Superior Completo Ensino Superior

Incompleto

Ensino SuperiorCompleto Ensino Fundamental Incompleto Ensino Médio Completo Ensino Médio Incompleto Completo Ensino Superior

Completo

Ensino Superior

Gráfico 4 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação ao nível de escolaridade — Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

Fonte: Pesquisa de campo

Destaca-se no gráfico 4 que 51,2% dos sujeitos têm o ensino médio completo e

29,3% tem o ensino superior completo, indicando que a maioria dos trabalhadores

49

de enfermagem, que atuam nas unidades especializadas de clínica médica

apresentam nível de escolaridade compatível às exigências de organização das

categorias profissionais de enfermagem.

É relevante destacar, ao analisar a tabela 1 e o gráfico 4, que nesta

instituição, os trabalhadores de enfermagem que compõe a equipe como auxiliares

de enfermagem (53,7%), apresentam nível de escolaridade a partir do ensino médio,

escolaridade exigida para o técnico de enfermagem de acordo com a Lei nº 7. 498/

1986 que “dispõe sobre o exercício da enfermagem”, regulamentada pelo Decreto nº

94.406/1987.

Tabela 2 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem por categoria e vínculo institucional — Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

   

VÍNCULO INSTITUCIONAL

 

CATEGORIA

Estatutário

Prestador de serviço temporário

Bolsista

Total

F

%

F

%

F

%

F

%

Auxiliar de Serviço de Saúde

2

4,9

0

0

0

0

2

4,9

Auxiliar de

               

Enfermagem

22

53,7

0

0

0

0

22

53,7

Técnico de

               

Enfermagem

0

0

9

22,0

0

0

9

22,0

Enfermeiro

6

14,6

0

0

0

0

6

14,6

Enfermeiro Residente

0

0

0

0

2

4,9

2

4,9

Total

30

73,2

9

22,0

2

4,9

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

A tabela 2 indica que 73,2% dos trabalhadores de enfermagem das unidades

especializadas de clínica médica são servidores públicos. 26,9% são prestadores de

serviço temporário (contratados) e bolsistas, evidenciando que a maioria são

funcionários efetivos.

50

Os funcionários efetivos ingressaram na instituição por concurso público, e têm respeitado os direitos trabalhistas, como: triênios, gratificações por insalubridade, férias, 13º salário e licença médica remunerada. Além desses direitos, recebem também auxílio alimentação, auxílio creche e vale transporte. Os trabalhadores com vínculos de trabalho temporário representam 22% , os quais são técnicos de enfermagem exercendo a função de auxiliares de enfermagem. Estes trabalhadores são contratados por tempo determinado, isto é, contrato temporário, por um ano. Nesta situação, os trabalhadores não gozam dos benefícios dos funcionários efetivos, como, por exemplo, a estabilidade, férias, 13º salário, licença médica remunerada e percebem salário inferior ao do servidor. Os residentes de enfermagem representam 4,9% das equipes. São enfermeiros, bolsistas, que cumprem um programa de especialização, com treinamento teórico e prático, sendo a maior parte da carga horária cumprida na assistência direta ao paciente com supervisão dos enfermeiros. O período de residência é de dois anos, distribuídos em uma escala de revezamento neste período pelas unidades de clínica médica básica e especializada. Devido ao déficit de servidores, os trabalhadores de enfermagem, prestadores de serviço e bolsistas integram a escala de enfermagem mensal das unidades especializadas de clínica médica, a fim de viabilizar o seu funcionamento e garantir a assistência de enfermagem nas 24 horas. Segundo Dejours (1992), a repercussão da precarização nos trabalhadores leva a intensificação do trabalho e aumento do sofrimento. Nessa situação, o absenteísmo, é reduzido e os trabalhadores trabalham mesmo doentes. Nestas unidades especializadas de clínica médica a situação de trabalho da equipe de enfermagem é crítica e preocupante. Há substituição periódica dos auxiliares de enfermagem sendo necessário treinamento contínuo. Observa-se que quando a equipe está devidamente preparada tecnicamente, ocorre a substituição por novos contratados, dificultando também as relações interpessoais. No estudo de Savoldi (2004), a autora constata que para estes trabalhadores contratados, o período em que exercem suas funções, nestes setores serve de experiência e aquisição de conhecimento para comprovação em seu currículo, gerando então um fator motivacional para estes trabalhadores.

51

Tabela 3 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao tempo de trabalho no setor que exerce suas funções — Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

 

Pneumologia

DIP

Dermatologia

Neurologia

Total

Tempo de

                     

Trabalho no

F

%

F

%

F

%

F

%

F

%

Setor

6 meses

a

1

03

7,3

2

4,9

2

4,9

3

7,3

10

24,3

ano

2 anos

0

0

0

0

1

2,4

0

0

1

2,4

3 anos

0

0

1

2,4

0

0

1

2,4

2

4,9

4 anos

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

5 anos

2

4,9

1

2,4

0

0

1

2,4

4

9,8

+ 5 anos

8

19,5

11

26,8

4

9,8

1

2,4

24

58,5

TOTAL

13

31,7

15

36,5

7

17,1

6

14,5

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

Observa-se na tabela 3 que 58,5% dos trabalhadores de enfermagem permanecem há mais de cinco anos no setor de trabalho exercendo suas funções.

52

Tabela 4 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao tempo que

trabalham na enfermagem - Unidades de clínica médica especializadas,

agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Tempo de trabalho na enfermagem F % 06 meses a
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Tempo de trabalho na enfermagem F % 06 meses a

Tempo de trabalho na enfermagem

F

%

06

meses a 10 anos

12

29,0

11

a 20 anos

20

48,7

21

a 30 anos

8

19,4

+ de 31 anos

1

2,4

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

A tabela 4 evidencia que 48,7% dos trabalhadores de enfermagem trabalham

na enfermagem entre 11 e 20 anos, 29% trabalham entre 06 meses a 10 anos,

19,4% entre 21 a 30 anos e 2,4% há mais de 31 anos; demonstrando que 70% dos

trabalhadores estão expostos aos riscos no ambiente de trabalho há muitos anos.

Tabela 5 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao tipo de

jornada de trabalho - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro,

2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Jornada de trabalho F % Diurno Noturno Diurno e
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Jornada de trabalho F % Diurno Noturno Diurno e

Jornada de trabalho

F

%

Diurno Noturno Diurno e noturno Total

30

73,2

5

12,2

6

14,6

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

A tabela 5 indica que 85,4% dos trabalhadores de enfermagem exercem suas

atividades laborativas em apenas um turno de jornada de trabalho, e 14,6% em

ambos os turnos.

53

Bulhões (1998, p.149), explica que o trabalho noturno é necessário ao meio

hospitalar, porém ele é nocivo ao sono e à saúde, e quando há mudanças de turno

com muita freqüência desencadeia desequilíbrios na vida familiar e social.

Para Rutenfranz et al. (1989, p. 52) o trabalho realizado no horário noturno,

pode levar o trabalhador a apresentar esforços psíquicos maiores, ou também, nas

diferentes horas do dia, demonstrar comportamento indesejável nos processos de

trabalho ou freqüência de erros.

Mais de 50 h 41,5 40 a 50 h 12,2 30 a 40 h 36,6
Mais de 50 h
41,5
40
a 50 h
12,2
30
a 40 h
36,6
24
a 30 h
9,8
0
10
20
30
40
50

Gráfico 5 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação à carga

horária semanal - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro,

2005.

Fonte: Pesquisa de campo

Neste gráfico predominam os trabalhadores com carga horária semanal de 30

a 40 horas (36,6%) e mais de 50 horas (41,5%), evidenciando o exercício

profissional em mais de um emprego e/ou fazendo jornada de trabalho para colega

no mesmo setor de trabalho.

Vários estudos enfocando a saúde dos trabalhadores (BULHÕES, 1998;

ESTRYN-BEHAR, 1996; MAURO, 1991; PITTA, 1994) apontam que o regime de

trabalho em turnos alternados provocam alterações do ciclo biológico, perturbações

relacionadas ao sono e ao funcionamento do aparelho digestivo, bem como a fadiga

crônica caracterizada por um cansaço não superável com o período de repouso. O

trabalhador com mais de um emprego utiliza a sua folga para exercer a atividade

profissional, quando o período da folga deveria ser planejado para o descanso e

repouso.

Bulhões (2001) cita o duplo emprego como fator que pode contribuir ou favorecer

a ocorrência do erro. Outras imposições do trabalho também podem influenciar a

54

performance humana segundo a autora, tais como: carga horária semanal, jornada de

trabalho, pausas e repouso, trabalho noturno e em turnos alternados.

Neste contexto, segundo Rebouças (1989), o risco de acidentes aumenta

porque o trabalhador vivencia dificuldade de memorização, raciocínio e atenção,

exigindo-se maior esforço para realização de qualquer atividade.

É preocupante, face ao descrito, que 41,5% dos trabalhadores pesquisados

estejam sujeitos aos problemas relacionados.

Tabela 6 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao meio de transporte utilizado para deslocar-se para o trabalho - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Meio de transporte utilizado F %   Ônibus
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Meio de transporte utilizado F %   Ônibus

Meio de transporte utilizado

F

%

 

Ônibus

20

48,7

Carro próprio

11

26,8

Trem

02

4,9

Metrô

02

4,9

a pé

01

2,4

Van

02

4,9

Ônibus e trem

03

7,3

 

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

Tabela 7 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao tempo gasto para chegar ao trabalho - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Tempo gasto para chegar ao trabalho F % Menos de
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Tempo gasto para chegar ao trabalho F % Menos de

Tempo gasto para chegar ao trabalho

F

%

Menos de 30 min

7

17,7

30 min a 1h

11

26,8

1h a 1h e 30 min

12

29,2

1h e 30 min a 2h

9

21,9

Mais de 2h

2

4,9

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

55

No que se refere à relação transporte e trabalho (tabelas 6 e 7), os

trabalhadores de enfermagem das unidades especializadas de clínica médica, em

sua maioria, moram em locais distantes do trabalho, levando em média mais de uma

hora no deslocamento; os meios de transporte mais utilizados são o ônibus e o carro

próprio. Nesse sentido, é necessário, ressaltar que inúmeros fatores interferem na

produtividade do trabalhador, baixando-lhe o rendimento e provocando acidentes.

Mauro (1976) cita que dentre os fatores, há aqueles que são estranhos ao trabalho

profissional como: habitação inadequada e distante do local de trabalho, forçando a

viagens fatigantes, muitas vezes por vias de acesso mal conservadas.

Rutenfranz et al. (1989, p. 53) referem que o bom desempenho no trabalho

depende muito de a pessoa começar a trabalhar descansada. O cansaço não só

impede o bom rendimento físico como também diminui o nível de atenção e perturba

a coordenação motora e o ritmo mental.

Considerando os dados acima, 48,75% dos trabalhadores utilizam o próprio

carro como transporte, o que os sujeita a muitos problemas no trânsito, como os

habituais engarrafamentos na cidade do Rio de Janeiro. Tal situação pode gerar

estado de estresse na chegada ao trabalho, e seus efeitos podem ser associados à

irritação (NUNES, 2000). Acrescenta-se, ainda o cansaço decorrente da viagem de

ida e retorno ao lar ou a outro trabalho.

3.1.3 Dados Econômicos dos Trabalhadores de Enfermagem

Tabela 8 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação à faixa salarial -

Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Faixa salarial por salário mínimo F % 1 a 2
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Faixa salarial por salário mínimo F % 1 a 2

Faixa salarial por salário mínimo

F

%

1

a 2

7

17,1

3

a 5

15

36,6

6

a 8

9

22,0

9

a 11

4

9,8

mais de 12

6

14,6

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

56

De acordo com a tabela 8 a faixa salarial 3 a 5 salários mínimos representa

36,6%; de 6 a 8 salários mínimos 22% e mais de 12 salários mínimos são 14,6%.

Esses dados demonstram que a instituição, cenário do estudo, paga bons salários

aos seus funcionários, embora haja uma defasagem salarial há alguns anos por falta

de política de cargos e salários do Governo do Estado.

Diferentemente da situação dos servidores estatutários, os prestadores de

serviços de saúde percebem salários mais baixos exercendo a mesma função.

3.1.4 Dados Referentes à Família dos Trabalhadores de Enfermagem

Tabela 9 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação a ter filhos -

Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Filhos F % Não 15 36,6 Sim 26
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Filhos F % Não 15 36,6 Sim 26

Filhos

F

%

Não

15

36,6

Sim

26

63,4

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

Nesta tabela verifica-se que 36,6% dos trabalhadores não têm filhos e 63,4%

têm filhos.

Tabela 10 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação a ter idosos

em casa sob seus cuidados - Unidades de clínica médica especializadas,

agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Idosos em casa F % Não 28 68,3 Sim
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Idosos em casa F % Não 28 68,3 Sim

Idosos em casa

F

%

Não

28

68,3

Sim

13

31,7

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

57

Conforme a tabela 10, observa-se que 68,3% dos trabalhadores não têm

idosos em casa sob seus cuidados, enquanto 31,7% têm idosos sob seus cuidados.

Observando os dados das tabelas 9 e 10, constata-se que a maioria dos

sujeitos da pesquisa têm filhos, o que demanda atividades na educação e formação

de seus dependentes, bem como exigência de tempo e disponibilidade nos seus

cuidados. Verifica-se também que 31,7% dos sujeitos têm em casa, sob seus

cuidados idosos, contribuindo para o acréscimo cotidianamente de atividades de

assistência e atenção física e psicológica ao grupo familiar.

Segundo Mielnik (1976, p. 121), quando a mulher trabalha fora, forçosamente

os cuidados com a casa e filhos sairão prejudicados; contribuindo também para mais

um fator de estresse e tensão no ambiente de trabalho. Ressalta também que a

maioria das mulheres ao assumirem o papel de trabalhadora remunerada, continua

realizando também o trabalho doméstico.

Silva (1998) acrescenta que para o trabalhador de enfermagem, a jornada de

trabalho doméstico e seus problemas com filhos, maridos e familiares idosos,

despendem muito de seu tempo e energia.

Tabela 11 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à ajuda dos

familiares para a realização das tarefas domésticas - Unidades de clínica médica

especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Ajuda de familiares na realização das tarefas domésticas
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Ajuda de familiares na realização das tarefas domésticas

Ajuda de familiares na realização das tarefas domésticas

F

%

 

Não

26

63,4

Sim

15

36,6

 

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

A tabela 11 constata mais uma dificuldade vivenciada pelo trabalhador de

enfermagem, no que diz respeito a contar com ajuda dos familiares na realização

das tarefas domésticas. Observa-se que 63,4% não contam com ajuda, realizando

sozinhos as tarefas domésticas, comprometendo sobremaneira o período destinado

ao repouso e descanso do trabalhador. Para Bulhões (1998, p. 132), a fadiga é

58

causada por uma solicitação do organismo humano. O funcionamento prolongado e

intenso de músculos, ossos, cérebros no trabalho físico, provoca fadiga. E a sua

cronificação ocorre quando o repouso e sua forma essencial, o sono, são

insuficientes. Considerando os dados apresentados anteriormente na tabela 10 que

evidencia que 41,5% dos trabalhadores de enfermagem têm mais de um emprego e

os dados apresentados nessa tabela, pode-se constatar que estes trabalhadores

dedicam pouco tempo ao seu descanso e repouso.

Estudos semelhantes, avaliando os problemas de saúde decorrentes do trabalho

de enfermagem identificaram que o esforço físico que produz fadiga é um fator de

desconforto no ambiente de trabalho. No estudo de Savoldi (2004, pg. 88), 66,7% dos

sujeitos da pesquisa identificaram o esforço físico como fator desencadeante da fadiga,

e Mendivil (2004, pg. 40) apontou 29,2% dos sujeitos percebendo este risco.

Murofuse (2005) constatou, em um estudo realizado com os trabalhadores de

enfermagem atendidos na divisão de assistência à saúde do trabalhador de uma

Fundação hospitalar pública, que 79,2% dos enfermeiros e 96,2% dos auxiliares de

enfermagem apresentaram algum tipo de algia na coluna vertebral em avaliações

clínicas específicas.

3.1.5 Os trabalhadores de enfermagem e os cuidados com a sua saúde

Tabela 12 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à vacinação -

Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

Vacinação

Completa

Incompleta

Desconhece

Total

 

F

%

F

%

F

%

F

%

Dupla

23

56,1

2

4,9

13

31,7

38

92,7

Antitetânica

28

68,3

4

9,8

07

17,1

39

95,1

Hepatite B

26

63,4

8

19,5

05

12,2

39

95,1

Antigripal

15

36,6

6

14,6

17

41,5

38

92,7

Fonte: Pesquisa de campo

Conforme a tabela 12, verifica-se com relação à imunização para a vacina

dupla que 56,1% estão vacinados com esquema completo de vacinação e com

59

antitetânica 68,3%. Vacinados contra hepatite B estão 63,4% e vacina antigripal 36,6%. Dado relevante a ser considerado, são 12,2% dos trabalhadores de enfermagem desconhecerem sobre a vacinação contra hepatite B. Na instituição, cenário deste estudo, é disponibilizado aos profissionais de saúde as diferentes vacinas por demanda espontânea e/ou campanhas de vacinação coordenada pela divisão de saúde do hospital.

Sanches (2002), ao avaliar a situação vacinal dos acidentados atendidos nesta divisão de saúde, constatou que 72,5% dos enfermeiros e 57,2% dos técnicos

e auxiliares cumpriram o esquema vacinal, demonstrando que um número

significativo de trabalhadores ainda não apresentavam sua vacinação adequada.

Os dados acima evidenciam que os trabalhadores ainda desconhecem e/ou subestimam a possibilidade de adquirirem doenças, em particular, a Hepatite B por meio de acidentes que possam ocorrer ao cuidarem dos pacientes. Shimizu et al. (2002) verificaram no seu estudo que um número significativo

de estudantes e trabalhadores de saúde imunizou-se contra hepatite B, porém 20%

não receberam o esquema completo. E constataram também que 3% não tomaram nenhuma dose de vacina, demonstrando que na instituição estudada é preciso uma orientação mais eficiente aos estudantes e trabalhadores sobre a importância da vacinação para hepatite B. Carvalho (2004, p. 57) em um estudo realizado no Hospital Municipal Lourenço Jorge encontrou como justificativa dos trabalhadores de enfermagem para

não tomarem a vacina contra hepatite B, a falta de tempo, resposta assinalada pela maioria dos sujeitos. Para a autora, há que se promover discussões entre os trabalhadores com o objetivo de desenvolver uma visão crítica do seu mundo do trabalho. Assim, eles poderão buscar os meios para se protegerem e exigir dos empregadores condições adequadas de trabalho. Nesse sentido, vale ressaltar a importância de conscientizar e encaminhar para a vacinação os trabalhadores, e estabelecer uma comunicação mais eficiente

do

setor responsável pela imunização com os trabalhadores, considerando o risco

de

acidentes com materiais perfurocortantes e fluídos biológicos.

60

Tabela 13 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à realização

de exame clínico anualmente - Unidades de clínica médica especializadas,

agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Realização de exame clínico anualmente F %
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Realização de exame clínico anualmente F %

Realização de exame clínico anualmente

F

%

 

Não

19

46,3

Sim

22

53,7

 

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

Verifica-se na tabela 13, que 46,3% dos trabalhadores de enfermagem não

realizam anualmente exame clínico e 53,7% realizam. Para um grupo que está

submetido a riscos constantes, preocupa esta não avaliação.

Tabela 14 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem com relação à prática de atividade física com regularidade - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Pratica atividade física regularmente F %  
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Pratica atividade física regularmente F %  

Pratica atividade física regularmente

F

%

 

Não

28

68,3

Sim

13

31,7

 

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

Na tabela 14, observa-se que 68,3% dos trabalhadores não praticam com

regularidade atividade física, enquanto 31,7% praticam atividade física.

Segundo Guyton et al. (2002, p. 917), as pessoas que preservam a aptidão

corporal, praticam exercícios físicos e controlam seu peso, conseguem benefício

adicional de vida prolongada porque a aptidão corporal e o controle de peso reduzem

de maneira significativa a incidência de doenças cardiovasculares. Os exercícios trazem

resultados para a manutenção da pressão arterial e redução do nível de colesterol, bem

como a diminuição dos distúrbios cardiovasculares. Além disso, a pessoa atlética tem

também mais reservas corporais com as quais pode contar quando adoece.

61

França e Rodrigues (1999) aconselham que atividade física regular deve ser

praticada de forma que se torne um hábito, como escovar os dentes após as

refeições ou o banho diário.

Verifica-se que não há uma preocupação dos trabalhadores de enfermagem

das unidades especializadas da clínica médica, com relação à prática regular de

exercícios físicos. O trabalhador devido à dupla, tripla jornada de trabalho sente-se

cansado e com pouco tempo disponível, não valorizando o seu auto cuidado na

promoção de sua saúde.

Tabela 15 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação ao controle

de seu peso - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Controle de peso F %   Ideal Abaixo do ideal
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Controle de peso F %   Ideal Abaixo do ideal

Controle de peso

F

%

 

Ideal Abaixo do ideal

11

26,8

1

2,4

Acima do ideal

28

68,3

 

Total

40

97,6

Dado

Ausente

1

2,4

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

A tabela 15 demonstra que 27,5% dos trabalhadores de enfermagem

consideram seu peso atualmente, ideal; enquanto 2,5% consideram estar com peso

abaixo do ideal e 68,5% consideram estar com peso acima do ideal.

Para Bulhões (1998, p. 86), o rendimento do trabalho humano resulta do produto

de variáveis, entre elas força muscular, capacidade cardiopulmonar, proporções

corporais e eficácia neurológica; e da boa condição dessas variáveis resultará na

execução das atividades. Os dados apresentados nas tabelas 19 e 20 nos leva à

reflexão sobre as condições de saúde dos trabalhadores que no exercício da sua

função estão preocupados com a promoção e recuperação da saúde do outro. A

maioria dos trabalhadores (68,3%) está com excesso de peso e não pratica atividades

físicas.

62

Tabela 16 - Distribuição dos trabalhadores de enfermagem em relação à quantidade de horas dormidas - Unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro,

2005.

de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Horas de sono habitualmente F % Menos de 6
de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005. Horas de sono habitualmente F % Menos de 6

Horas de sono

habitualmente

F

%

Menos de 6 horas

18

43,9

De 7 a 8 horas

23

56,1

Total

41

100,0

Fonte: Pesquisa de campo

Conforme a tabela 16, 43,9% dos trabalhadores dormem menos de 06 horas

e 56,1% dormem de 7 a 8 horas.

A redução do período de sono causada pelo trabalho noturno ocorre pela

mudança forçada do horário de dormir, que passa a ser de dia. Segundo Rutenfranz

et al. (1989, p. 55), dormir durante o dia é extremamente desfavorável devido a não

adaptação dos ritmos biológicos a esta inversão do trabalho noturno e repouso diurno.

Para Alves (2002), os principais problemas que os trabalhadores de turnos

referem são relacionados com: distúrbios do sono, nervosos e digestivos; o ruído do

ambiente doméstico, como a fala de criança, o choro, que são obstáculos ao sono

tranqüilo e reparador do desgaste físico e mental após a jornada de trabalho.

Considerando que 41,5% dos trabalhadores trabalham mais de 50 horas (tabela 8),

ocorre um acentuado déficit de sono, com perda de qualidade e falta de repouso.

3.2 Condições do ambiente de trabalho e os fatores de risco ocupacionais nas

unidades especializadas de clínica médica

Apresenta-se nas tabelas 17 e 18 os problemas no ambiente de trabalho percebidos

pelos trabalhadores, considerando as freqüências: freqüentemente e às vezes.

A tabela 17 mostra os problemas no ambiente de trabalho percebidos pelos

trabalhadores, considerando a freqüência freqüentemente. Destaca-se o problema

risco de contrair infecção (63,41%).

Para Bulhões (1998, p. 182), o risco de infecção está relacionado a variáveis

epidemiológicas: agente, hospedeiro e atividade ocupacional. A prevenção e

controle de riscos biológicos baseiam-se em conhecimentos diversos, envolvendo

principalmente os de higiene e biossegurança do trabalho, educação, administração,

engenharia e até recursos legislativos.

63

Exemplo de medida legislativa é a portaria ministerial nº 196 de 21 de junho

de 1983, sobre Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH). Na instituição,

campo desta pesquisa, há CCIH, atuante e participativa, porém os trabalhadores

identificam deficiências na distribuição de EPI, que são obrigações do empregador.

Para 21,95% dos trabalhadores freqüentemente há falta de máscaras e 4,88%

indicam falta de luvas.

Tabela 17 - Distribuição dos problemas no ambiente de trabalho conforme grau de freqüência: freqüentemente, na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

Nº de

   

Freqüentemente

ordem

Item

Problemas percebidos

N

%

7

Risco de contrair infecção

26

63,41

2

Ar / ventilação insuficiente

20

48,78

29

Poucas possibilidades de promoção

18

43,90

11

Distribuição inadequada dos recursos materiais no espaço físico

17

41,46

1

Temperatura inadequada

16

39,02

10

Incômodo pela falta de espaço

15

36,59

17

Esforço físico que produz fadiga

15

36,59

27

Falta de materiais e insumos para a realização do trabalho

15

36,59

20

Movimentos repetitivos com muita freqüência

14

34,15

10º

14

Ordem e limpeza insuficientes

14

34,15

11º

18

Manutenção de postura inadequada durante muito tempo

12

29,27

12º

16

Manipulação de cargas pesadas

10

24,39

13º

19

Postura forçada para realizar algumas tarefas ou operações

10

24,39

14º

9

Falta de máscaras

9

21,95

15º

3

Iluminação insuficiente

8

19,51

16º

6

Risco de contato com glutaraldeído

8

19,51

17º

23

Ritmo de trabalho acelerado

7

17,07

18º

25

Trabalho monótono, rotineiro, com pouca variabilidade de tarefas

6

14,63

19º

12

Risco de queda no ambiente de trabalho

5

12,20

20º

13

Risco de queda de materiais

4

9,76

21º

4

Ruído muito elevado ou inadequado para realização do trabalho

4

9,76

22º

21

Duração excessiva da jornada de trabalho

3

7,32

23º

15

Risco de incêndio ou explosão

3

7,32

24º

30

Desconhecimento ou formação insuficiente sobre os riscos do próprio trabalho

2

4,88

25º

28

Pouca oportunidade de decisão sobre como realizar o trabalho

2

4,88

26º

24

Risco de acidentes por sobrecarga de trabalho

2

4,88

27º

8

Falta de luvas

2

4,88

28º

5

Presença de radiação ionizante

2

4,88

64

A tabela 18 indica os problemas no ambiente de trabalho percebidos pelos

trabalhadores, considerando a freqüência às vezes.

Destaca-se o ritmo de trabalho acelerado (65,85%), seguido de postura

forçada para realizar algumas tarefas ou operações (60,98%) e risco de acidentes

por sobrecarga de tarefas (53,66).

Bulhões (1998, p. 144), afirma que o exercício de enfermagem desenvolve-se

em local de grande interposição de atividades (médicas, administrativas, financeiras,

tecnológicas). O profissional de enfermagem detentor natural da coordenação da

assistência ao doente, interage permanentemente com os médicos, e demais

profissionais de saúde envolvidos no tratamento ao doente. Deste modo além de

suas próprias funções administrativas e assistenciais, a enfermagem utiliza parte

significativa do tempo de trabalho em buscar, pedir, receber, registrar, trocar e

relatar informações.

O tratamento de informações vindas de todos os lados (doentes e seus

familiares, médicos, chefes, colegas, serviços externos

mental importante.

)

representam uma carga

65

Tabela 18 - Distribuição dos problemas no ambiente de trabalho conforme grau de freqüência: às vezes, na percepção dos trabalhadores de enfermagem das unidades de clínica médica especializadas, agosto/setembro, 2005.

Nº de

   

Às vezes

ordem

Item

Problemas percebidos

N

%

23

Ritmo de trabalho acelerado

27

65,85

19

Postura forçada para realizar algumas tarefas ou operações

25

60,98

24

Risco de acidentes por sobrecarga de trabalho

22

53,66

18

Manutenção de postura inadequada durante muito tempo

22

53,66

8

Falta de luvas

21

51,22

27

Falta de materiais e insumos para a realização do trabalho

20

48,78

17

Esforço físico que produz fadiga

19

46,34

14

Ordem e limpeza insuficientes

18

43,90

16

Manipulação de cargas pesadas

17

41,46

10º

20

Movimentos repetitivos com muita freqüência

16

39,02

11º

3

Iluminação insuficiente

16

39,02

12º

21

Duração excessiva da jornada de trabalho

15

36,59

13º

7

Risco de contrair infecção

15

36,59

14º

9

Falta de máscaras

14

34,15

15º

1

Temperatura inadequada

14

34,15

16º

6

Risco de contato com glutaraldeído

14

34,15

17º

12

Risco de queda no ambiente de trabalho

14

34,15

18º

13

Risco de queda de materiais

14

34,15

19º

4

Ruído muito elevado ou inadequado para realização do trabalho

13

31,71

20º

5

Presença de radiação ionizante

13

31,71

21º

31