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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RP
Nº 70010973402
2005/CÍVEL

APELAÇÃO. INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE E


MATERNIDADE. PRESCRIÇÃO. INOCORRÊNCIA.
PROVA DO VÍNCULO BIOLÓGICO. PARENTALIDADE
SOCIOAFETIVA.

O direito de conhecer a descendência genética


é imprescritível.

Caso em que, ao registrarem a investigante os


pais registrais fizeram uma “adoção à brasileira”. Ao
depois, os pais registrais foram os pais socioafetivos
da investigante.

Verdade socioafetiva que prevalece sobre a


verdade genética.

NEGARAM PROVIMENTO AO AGRAVO RETIDO.


DERAM PROVIMENTO AO APELO.

APELAÇÃO CÍVEL OITAVA CÂMARA CÍVEL

Nº 70010973402 COMARCA DE SALTO DO JACUÍ

E.N.O.F. P.J.M.S.
.
APELANTE;

.I.F.V.
. APELANTE;

.G.A. APELADO;
.

.M.V. INTERESSADO.
.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos.
Acordam os Magistrados integrantes da Oitava Câmara Cível do
Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em negar provimento ao agravo
retido e em dar provimento ao apelo.

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Custas na forma da lei.


Participaram do julgamento, além do signatário (Presidente), os
eminentes Senhores DES. JOSÉ ATAÍDES SIQUEIRA TRINDADE E DRA.
CATARINA RITA KRIEGER MARTINS.
Porto Alegre, 04 de agosto de 2005.

DES. RUI PORTANOVA,


Relator.

RELATÓRIO
DES. RUI PORTANOVA (RELATOR)
MARIA G. ajuizou ação de investigação de paternidade e
maternidade contra NESTOR e ESPÓLIO DE MARIA V.

Ao final, a demanda foi julgada procedente para o fim de declarar


que NESTOR e MARIA V. são pais biológicos de MARIA G.

Apelou o Espólio, reiterando os termos do agravo retido interposto


contra a decisão que afastou as preliminares de prescrição e carência da ação
por impossibilidade jurídica do pedido. No mérito, o Espólio alegou não haver
prova da paternidade e maternidade biológicas. Pediu fosse reformada a
sentença.

Vieram as contra-razões, postulando a manutenção da sentença.

O Ministério Público deste grau de jurisdição manifestou-se pelo


parcial provimento do apelo.
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É o relatório.

VOTOS

DES. RUI PORTANOVA (RELATOR)


Agravo Retido.

O apelante reitera os termos do agravo retido interposto contra


decisão que afastou as preliminares de prescrição e de carência de ação por
impossibilidade jurídica do pedido.

Diz que o direito de investigar a paternidade estaria prescrito,


razão pela qual o pedido seria juridicamente impossível.

Primeiro, ressalto que prescrição não se confunde com


possibilidade jurídica. Prescrição diz com o mérito da pretensão; possibilidade
jurídica é condição para o próprio exercício do direito de ação.

Eventual prescrição do direito em causa não tem vinculação


alguma com impossibilidade jurídica do pedido.

Ao depois, entendo que o direito ao reconhecimento da filiação é


imprescritível, na esteira de julgados majoritários desta Corte e do STJ, dos
quais são exemplos paradigmáticos os arestos abaixo transcritos:

“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÕES DE ANULAÇÃO DE


REGISTRO DE NASCIMENTO E INVESTIGAÇÃO DE
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PATERNIDADE. PRESCRIÇÃO. (...). O prazo


prescricional do art. 178, § 9.º, VI, do antigo Código Civil
que vigia ao tempo do ajuizamento da ação anulatória do
registro de nascimento, de há muito não mais vigorava,
sendo imprescritível a referida ação. (...). Apelação
provida para julgar improcedentes ambas as ações.”
(ApC N.º 70007876568, 8ª Câmara Cível, TJRS, Relator:
José Ataídes Siqueira Trindade, Julgado em 22/04/2004)

“DIREITO CIVIL.
ARTS. 178, § 9º, VI, E 362, DO CÓDIGO
CIVIL. ORIENTAÇÃO DA SEGUNDA SEÇÃO. É
imprescritível o direito o filho, mesmo já tendo atingido
a maioridade, investigar a e pleitear a
alteração do registro, não se aplicando, no caso, o prazo
quatro anos, sendo, pois, desinfluentes as regras dos
artigos 178, § 9º, VI, e 362 do Código Civil então vigente.
Precedentes. Recurso especial não conhecido.” (RESP
N.º 466783/RS, 3ª TURMA, STJ, RELATOR: MIN.
CASTRO FILHO, JULGADO EM 19/04/2005)

Por isso, nego provimento ao agravo retido e passo a analisar o


mérito.

Mérito.

Estamos diante de hipótese que se convencionou chamar de


adoção à brasileira. Os pais registrais registraram a apelada como se filha
deles fosse, mesmo sabendo que isso não era verdade.

Em casos como o presente a orientação da Corte é frontalmente


contrária aos interesses da apelada.

Assim:

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“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO NEGATÓRIA DE


PATERNIDADE CUMULADA COM EXONERAÇÃO
DE ALIMENTOS. ADOÇÃO À BRASILEIRA. O
reconhecimento espontâneo da paternidade daquele
que, mesmo sabendo não ser o pai biológico,
registra como seu o filho da sua companheira,
tipifica verdadeira adoção, irrevogável, descabendo,
posteriormente, a pretensão anulatória de tal
registro, por não demonstrado vício de
consentimento. Improcedência da ação mantida.
Apelação desprovida.” (APC N.º 70008096562, 8ª
CÂMARA CÍVEL, TJRS, RELATOR: JOSÉ ATAÍDES
SIQUEIRA TRINDADE, JULGADO EM 22/04/2004)

“APELAÇÃO CÍVEL. NEGATÓRIA DE


PATERNIDADE, ANULAÇÃO DE REGISTRO CIVIL.
Ao assumir a paternidade do filho de sua ex-
companheira, falseando com a verdade registral,
assumiu todos os deveres inerentes à paternidade.
Prática de adoção à brasileira, que, como tal,
caracteriza-se pela irrevogabilidade. Recurso
desprovido. Voto vencido.” (APC N.º 70006440002,
8ª CÂMARA CÍVEL, TJRS, RELATOR: ALFREDO
GUILHERME ENGLERT, JULGADO EM
18/09/2003)

“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO NEGATÓRIA DE


PATERNIDADE. PAI REGISTRAL. O
reconhecimento espontâneo da paternidade por
quem sabe não ser o pai biológico tipifica verdadeira
adoção (adoção à brasileira), a qual é irrevogável,
descabendo postular-se anulação do registro de
nascimento, salvo se demonstrada de forma
convincente a existência de vício de consentimento,
o que inocorreu. Apelação provida. Voto vencido.”
(APC N.º 70006173769, 8ª CÂMARA CÍVEL, TJRS,
RELATOR: ALFREDO GUILHERME ENGLERT,
JULGADO EM 18/09/2003)

“APELAÇÃO. NEGATÓRIA DE PATERNIDADE,


ANULAÇÃO DE REGISTRO CIVIL. Quem registra
filho de sua companheira como sendo seu, leva a
feito a chamada 'adoção à brasileira', que, como tal,
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caracteriza-se pela irrevogabilidade. Filho não é um


objeto descartável, que se assume quando convém
e se dispensa quando inconveniente. Desproveram.
Unânime.” (APC N.º 70004973095, 7ª CÂMARA
CÍVEL, TJRS, RELATOR: LUIZ FELIPE BRASIL
SANTOS, JULGADO EM 26/03/2003)

“NEGATORIA DE PATERNIDADE. ADOCAO A


BRASILEIRA. Quem registra como seu o filho da
companheira, apesar de desconfiar não ser o pai,
não age em desconformidade com sua vontade, não
ocorrendo vicio de consentimento. Dita postura
configura o que se vem chamando de adoção a
brasileira. Descabe anular o registro perseguido
longo tempo apos a separação, pelo só fato de
haver sido intentada ação de alimentos. Embargos
acolhimentos, por maioria.” (EI N.º 70004843850, 4º
GRUPO DE CÂMARAS CÍVEIS, TJRS, RELATOR:
MARIA BERENICE DIAS, JULGADO EM
11/10/2002)

Logo, já aqui se vislumbra o provimento do apelo.

A sentença julgou a demanda procedente em razão da prova do


vínculo biológico.

Contudo, é possível investigar-se os fatos à vista da paternidade


socioafetiva.

É essa paternidade que rege o caso de reconhecimento de


paternidade por aqueles que não são os pais biológicos.

No caso dos autos, a paternidade socioafetiva é inquestionável e


fica clara pela simples leitura da inicial. A autora-apelada foi criada como filha

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dos pais registrais por mais de 50 anos. Só agora, depois de todo esse tempo,
é que veio a ação de investigação de paternidade.

A paternidade socioafetividade prevalece sobre a paternidade


biológica. São pais aqueles que amam, não aqueles que doam o esperma e o
óvulo. É pai aquele que concorre ao filho o arcabouço sentimental necessário à
formação da personalidade e do caráter.

O DNA e a Verdade Socioafetiva.

O direito de investigar a paternidade, na contemporaneidade, tem


dois marcos: o DNA e a paternidade socioafetiva.

Paternidade sócio-afetiva é a relação que, procedendo da


realidade social, se desenvolve entre aquele que apresenta um estado de filho
perante quem socialmente possui um estado de pai.

A relação social se dá quando uma pessoa de fato cria, educa e


acompanha o desenvolvimento de outro indivíduo a ponto de configurar
verdadeiro estado de pai e filho.

Ou seja, é aquela relação de afeto que ao longo do tempo vai


criando raízes a ponto de – apesar da verdade biológica – criar uma verdade
social.

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Se a lei não garantir o respeito para com as relações de afeto


livremente estabelecidas pelos indivíduos, haverá lesão à própria dignidade
humana. É, pois, impossível haver dignidade sem liberdade de amar.

“Pensar sobre filiação e o estabelecimento da paternidade


corresponde a refletir sobre o sistema jurídico da família e o desenho
normativo de um dos princípios fundamentais da sociedade.

Da família matrimonializada por contrato chegou-se à família


informal, precisamente porque afeto não é um dever e a coabitação uma
opção, é um ato de liberdade” (Luiz Edson Fachin, in A nova filiação – crise e
superação do estabelecimento da paternidade, ed. Fabris, p. 123 e 133). Grifei.

Nesse passo, é fundamental que o julgador atente cum granus


salis ao caso posto sob judice, para o fim de analisar se, além da verdade
biológica, existe uma verdade social.

Não pode o julgador perder de vista determinados aspectos da


vida das partes que podem levar a um verdadeiro estado social que o Judiciário
não deve fechar os olhos.

Nesta alçada é que se trabalham as contingências decorrentes da


existência de uma paternidade biológica concomitantemente com uma
paternidade afetiva – pois pai é quem que de fato constitui estado de pai,
diante do estado de filho estabelecido pela livre vontade afetiva do ser humano.

Por isso é que é a afetividade quem dá o norte da paternidade.

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O registro de nascimento nos fornece uma verdade formal. O


DNA nos fornece uma verdade real. A afetividade nos dá uma verdade social.

O DNA pode dizer: ‘é filho’ e a verdade socioafetiva dizer ‘não é


filho’. O DNA pode dizer: ‘não é filho,’ e a verdade socioafetiva dizer ‘é filho’. O
registro pode dizer ‘é filho de A’ e a verdade socioafetiva diz ‘é filho de B’.

A verdade socioafetiva é maior que o DNA.

Em nome do DNA pode-se passar por cima da coisa julgada. Mas


em nome da verdade socioafetiva pode-se passar por cima do DNA. Tudo vai
depender da verdade socioafetiva.

É a vitória do afeto sobre o formal. É a vitória do afeto sobre o


documento. É a vitória do afeto sobre a biologia genética. É o direito voltando
seus olhos para valores espirituais, abandonando o materialismo, o formalismo
e o legalismo.

Então, mesmo podendo a qualquer tempo o investigante vindicar


estado contrário ao que resulta do registro de nascimento, caso provado que
este registro de nascimento reflete a verdade social, permanecerá como está.
Caso contrário, altera-se o registro.

Assim, o fato de MARIA não ser filha biológica daqueles que


constam em seu registro não leva à procedência da ação.

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Ao primeiro, porque ao registrarem MARIA os pais registrais


fizeram uma “adoção à brasileira”, que é irrevogável.

Ao depois, porque os pais registrais foram os pais socioafetivos


de MARIA. E a verdade socioafetiva se sobrepõe à verdade genética.

ANTE O EXPOSTO:
a) nego provimento ao agravo retido;
b) dou provimento ao apelo para fim de julgar improcedente a
ação de investigação de paternidade e maternidade movida por MARIA G.
contra o espólio de MARIA V. e o espólio de NESTOR.

Inverto os ônus sucumbenciais.

DRA. CATARINA RITA KRIEGER MARTINS (REVISORA) -

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Mantenho a filiação registral.


Entendo que houve esse registro como se a autora filha fosse, e
não houve insurgência alguma dessa filha durante a vida dos pais registrais. A
mim, parece até imoral essa pretensão, esperar que os pais registrais faleçam
para depois, então, buscar esta alteração de filiação. Essa filha registral
sempre usufruiu da companhia desse pai e dessa mãe, de todo o afeto que,
por eles, lhe foi dado, e agora, após a sua morte, surge toda essa pretensão de
afastá-los, “retroativamente”, da função de pais que eles sempre exerceram.
Então o interesse seria, tão somente, mudar o registro? Entendo que não.
Seria receber uma nova herança? Parece-me que sim, e ainda somá-la à
herança anterior, recebida esta dos pais registrais.
Conhecida a verdade biológica através do DNA, conforme
pleiteado pela autora, essa relação biológica, que poderia ser conhecida, até
mesmo, extrajudicialmente, pode prestar-se tanto para satisfação da
comprovação das suas origens genéticas, quanto para atender remota
necessidade de algum tratamento médico. Entretanto nenhuma alteração na
relação formal de filiação é de ser procedida. Nenhum efeito jurídico é de ser
aplicado a essa comprovação.
E isso em razão da existência da relação registral e da relação
socioafetiva, entre a autora e os falecido pais registrais. Entendo pela
prevalência da verdade registral e da socioafetividade sobre a verdade
biológica.

ISSO POSTO, dou provimento ao apelo, para julgar


improcedente a demanda proposta pela apelada.
Inversão dos ônus sucumbenciais, ficando suspensa a
exigibilidade em razão da concessão da AJG, fl. 12.
É o voto.

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DES. JOSÉ ATAÍDES SIQUEIRA TRINDADE -


Também comungo da linha de pensamento da Dra. Catarina, já
tive oportunidade de externar isso.
Efetivamente, aqui está escancarada a imoralidade. A pessoa
quer mesmo obter um novo patrimônio, quer dizer, o patrimônio de uma pessoa
com a qual ela jamais conviveu, da qual ela jamais teve afeto, carinho, criação,
nunca a reconheceu como pai e nunca foi reconhecida como filha. A relação
filial ocorreu mesmo com o pai registral, com o pai socioafetivo.
Entendo e já vi tentativas ou até julgamentos no sentido de
reconhecer a paternidade, mas não modificar o registro e nem dar direito à
herança. Esse é um tema que considero um nada, porque, efetivamente, o
resultado do exame do DNA, da perícia, já declarou essa situação, já
demonstrou quem é o pai biológico. Nada mais é preciso além disso, mas
reconhecer juridicamente, por uma decisão judicial, a paternidade biológica
sem mudar o registro e sem acesso ao patrimônio, efetivamente – repita-se –,
é um nada.

APELAÇÃO CÍVEL 70010973402 – SALTO DO JACUÍ


“NEGARAM PROVIMENTO AO AGRAVO RETIDO E DERAM PROVIMENTO
AO APELO. UNÂNIME.”

IMPORTANTE. O Relator está à disposição das partes, Ministério Público, Advogados e


Juízes que atuaram no presente processo, para, caso desejem, discussão do acórdão.
Telefone (51) 32.10.62.51 E-mail portanova@tj.rs.gov.br

Julgador(a) de 1º Grau: MIGUEL CARPI NEJAR

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