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Contextos Clínicos, 9(2):178-193, julho-dezembro 2016

2016 Unisinos - doi: 10.4013/ctc.2016.92.04

Atravessamentos das histórias maternas na relação


com filhos(as) adolescentes e a sexualidade

The crossing of mother histories in the relationship


with teenage offspring and sexuality

Sabrina Dal Ongaro Savegnago


Universidade Federal do Rio de Janeiro. Av. Pasteur, 250, Pavilhão Nilton Campos,
Urca, 22290-902, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. sabrinadsavegnago@gmail.com

Dorian Mônica Arpini


Universidade Federal de Santa Maria. Av. Roraima, 1000, prédio 74B, Cidade Universitária,
Camobi, 97015-900, Santa Maria, RS, Brasil. monica.arpini@gmail.com

Resumo. Este artigo tem como objetivo refletir a respeito do diálogo sobre
sexualidade, a partir do olhar de mães de adolescentes, apresentando tanto
a forma como as participantes relataram ter vivenciado essa questão durante
sua própria adolescência quanto o modo como elas afirmaram tratar essa te-
mática com seus/suas filhos(as) adolescentes. O estudo foi de caráter qualita-
tivo, e as técnicas utilizadas foram os grupos focais e as entrevistas semiestru-
turadas. Os resultados, após Análise de Conteúdo, indicam que a maioria das
participantes teve um passado marcado por silenciamentos, tabus e traumas
em relação à questão da sexualidade. Muitas delas destacaram suas tentativas
para não reproduzir o modelo familiar, ou seja, rompendo com o silêncio em
relação ao tema e procurando abordá-lo com seus filhos e filhas. Salienta-se,
assim, que, apesar de por vezes não sentirem-se preparadas para abordar o
tema da sexualidade com os(as) filhos(as), as mães parecem estar se esforçan-
do para superar a forma como essa experiência foi vivenciada por elas.

Palavras-chave: adolescente, família, sexualidade.

Abstract. This article aims to reflect about the dialogue of sexuality from the
point of view of teenagers’ mothers, featuring how the participants reported
having had their own experience on this issue during their adolescence, as
well as how they say they cope with this subject with their teenage sons and/
or daughters. Focal groups and semi-structured interviews were performed.
The results, after the analysis of content, indicated that the majority of the par-
ticipants reported a past marked by silence, taboos and trauma on the issue
of sexuality. Many of them highlighted their attempts to not reproduce this
family model, in other words, breaking the silence in relation to this subject,
seeking to approach the theme with their offspring. It is emphasized, in this
way, that although these mothers sometimes do not feel prepared to address
the topic of sexuality with their children, most of them seemed to strive to lead
it in a different way that the one conducted by their own parents.

Keywords: teenagers, family, sexuality.

Este é um artigo de acesso aberto, licenciado por Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), sendo
permitidas reprodução, adaptação e distribuição desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.
Sabrina Dal Ongaro Savegnago, Dorian Mônica Arpini

Introdução crianças sabiam de tudo a esse respeito (Elias,


1994 [1934]; Foucault, 2012 [1988]).
Ao longo da evolução histórica, a família O início do século XVIII começa a definir
vem sofrendo várias transformações, porém, a família nuclear, a partir do surgimento da
continua assumindo o papel de matriz do instituição escolar, da privatização da vida
processo civilizatório, como condição para familiar, do desenvolvimento de uma atitude
a humanização e para a socialização (Petri- mais igualitária dos pais perante os filhos, da
ni, 2003). Uma das mudanças significativas maior permanência das crianças com os geni-
ocorridas na instituição familiar nos últimos tores e do desenvolvimento de um sentimento
séculos refere-se à forma como a sexualidade moderno de família (Ariès, 1981 [1975]), que
veio sendo tratada nesse espaço, em relação à implica em uma lógica afetiva (Roudinesco,
infância e à adolescência. Desse modo, desta- 2003) e na retração da sociabilidade, o que
cam-se dois momentos importantes nos quais transformou a família em uma organização
essa questão é tratada de formas distintas no mais fechada e reservada (Ariès, 1981 [1975]).
contexto ocidental: o primeiro, característico Destaca-se que, a partir do desenvolvimen-
da sociedade medieval, e o segundo, corres- to da sociedade industrializada-burguesa, a
pondente à emergência da sociedade indus- orientação rumo à privacidade não se deu
trializada burguesa. apenas em relação à instituição familiar. Hou-
Em relação ao primeiro período, Ariès ve também uma “privatização” das questões
(1981 [1975]) aponta que, durante a Idade Mé- que envolviam a sexualidade. Ou seja, houve
dia, a família era mais uma realidade moral e um maior ocultamento da sexualidade e segre-
social do que sentimental, já que a vida naque- gação da mesma da vida social, além de um
la época era essencialmente uma experiência maior controle dos impulsos. As questões se-
vivida em público, havendo poucos espaços xuais começaram a ser cada vez mais oculta-
de privacidade e intimidade familiar. Ela cum- das dos olhos infantis, cercadas por medo, ver-
pria a tarefa de assegurar a transmissão da gonha e por uma “conspiração do silêncio”.
vida, dos nomes e, principalmente, dos bens Nesse momento, tornou-se tão natural não
(Ariès, 1981 [1975]; Roudinesco, 2003). Além falar sobre sexualidade como teria sido falar
da falta de um “sentimento de família”, des- dela na Idade Média. Desse modo, aos poucos,
taca-se a ausência do “sentimento de infância” a família nuclear se transformou no principal
até os últimos anos do século XVI e início do instrumento para o controle dos impulsos e do
XVII. Nesse período, a infância era ignorada, comportamento dos jovens (Elias, 1994 [1934]).
considerada um período de passagem que Assim, Elias (1994 [1934]) salienta que,
seria rapidamente ultrapassado. Além disso, diante da rigorosa “conspiração do silên-
durante Idade Média, a adolescência não ocu- cio”, que teve seu auge durante o século XIX,
pava lugar definido, sendo confundida com a e das restrições sociais à fala sobre questões
infância até o século XVIII (Ariès, 1981 [1975]). sexuais, construiu-se um espesso muro de
Nesse contexto, as crianças conviviam des- sigilo ao redor do adolescente, dificultando
de cedo na mesma esfera social dos adultos, o esclarecimento sexual. O autor destaca, no
apesar de submissas e socialmente dependen- entanto, que a derrubada desse muro seria
tes (Elias, 1994 [1934]). Não havia reservas necessária em algum momento. Nesse senti-
diante delas com relação às questões sexuais, do, pode-se questionar em que condição se
e o hábito de se realizar brincadeiras envol- encontra esse muro em nossa sociedade con-
vendo crianças em torno desse tema era tido temporânea. De forma mais específica, como
como algo natural. Acreditava-se que a criança as questões relacionadas à sexualidade estão
fosse alheia e indiferente à sexualidade. Além sendo abordadas junto aos adolescentes nos
disso, ainda não existia o sentimento de que as contextos familiares atuais? Haveria uma
referências a assuntos sexuais pudessem atin- abertura maior para se falar sobre sexualida-
gir a inocência considerada própria da criança de, ou ainda se trata de uma questão envolta
(Ariès, 1981 [1975]). Durante o período medie- por tabus, medos e silenciamentos?
val parece ter havido maior liberdade para se Numa tentativa de responder a essas ques-
falar sobre questões relacionadas com a sexua- tões, parece ser importante considerar que a
lidade. Era mínimo o segredo sobre o assunto sexualidade teria passado por transformações,
entre os próprios adultos e, em consequência, destacando-se aqui a perspectiva Freudiana,
entre eles e as crianças. Essa abertura pare- do século XX, na qual a sexualidade ocuparia
cia estar naturalizada e se considerava que as uma centralidade na constituição psíquica.

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Atravessamentos das histórias maternas na relação com filhos(as) adolescentes e a sexualidade

Dessa forma, o termo passa a ser entendido uma ansiedade, que se estende para além das
de forma mais ampla, permeando toda relação idades consideradas juvenis, de se permanecer
pais-filhos (Freud, 1996a [1940]; Laplanche e adolescente/jovem o máximo de tempo possí-
Pontalis, 1996), ganhando importância e des- vel e uma tendência de prolongamento des-
taque. No entanto, embora amplamente dis- sa fase (Debert, 2010; Enne, 2010; Kehl, 2004,
cutida pela psicanálise, a sexualidade parece 2008). Assim, muitas vezes a adolescência é
se manter sempre enigmática e uma tarefa de retratada como um momento em que se dá o
difícil abordagem para os pais. Assim, parece auge da liberdade, beleza, capacidade, inte-
haver maior abertura para se tratar do tema, ligência, força e prazer, o que a tornaria uma
no entanto, isso não significa que os tabus, referência para as outras faixas etárias (Pereira
medos e silenciamentos ainda não estejam e Gurski, 2014; Takeuti, 2012). Trata-se de uma
rondando a abordagem da temática (Costa et visão romântica, cristalizada a partir dos anos
al., 2014; Nery et al., 2015; Ressel et al., 2011; de 1960, resultado, entre outras coisas, do de-
Savegnago e Arpini, 2016). senvolvimento da indústria cultural e de um
Como mencionado anteriormente, a ado- mercado de consumo dirigido aos adolescen-
lescência ainda não ocupava um lugar defi- tes e jovens (Dayrell e Carrano, 2002).
nido durante a Idade Média. Trata-se de um Por outro lado, pode ocorrer que, diante da
conceito relativamente recente, que surgiu na adolescência dos filhos, os pais angustiem-se
sociedade moderna ocidental, quando essa principalmente em decorrência das evocações
etapa da vida começou a ser reconhecida como conscientes e inconscientes de suas fantasias e
uma etapa distinta do desenvolvimento huma- de comportamentos presentes em sua própria
no, considerando-se suas demandas e caracte- adolescência (Cardoso, 2008; Levisky, 1995; La
rísticas fisiológicas e psicológicas específicas Robertie, 1999). Nesse sentido, as dificulda-
(Sprinthall e Collins, 2003). A puberdade, que des dos adultos em lidar com as questões do
se refere ao desenvolvimento dos caracteres adolescente, principalmente àquelas ligadas
sexuais secundários e da capacidade reprodu- à sexualidade, a decisões ou dúvidas existen-
tiva, engloba processos fisiológicos que se im- ciais, podem se relacionar ao fato de que estas
põe inexoravelmente ao sujeito (Corso e Cor- remetem às questões de suas próprias vivên-
so, 2011) e é reconhecida em todas as culturas cias, as quais lhes angustiam (Nery et al., 2015;
(Kehl, 2004). Por outro lado, a adolescência, Sarti, 2004). Além disso, para Calligaris (2000),
enquanto interpretação social e psicológica o adolescente é um bom intérprete do dese-
desse período de transformações e plenitude jo do adulto: quando o adolescente atua, ele
físicas (Corso e Corso, 2011) não pode ser con- pode estar realizando um ideal que correspon-
siderada universal e natural, se constituindo de a algum desejo reprimido do adulto. No
em uma construção social e histórica (Mayor- entanto, o adulto nem sempre reconhece sua
ga, 2006), considerando-se inclusive que ainda relação com esse desejo, podendo reprimi-lo
hoje existem sociedades nas quais ela não é re- ainda mais no adolescente.
conhecida (Sprinthall e Collins, 2003). No sentido de justificar a importância de
Assim, quando o conceito de adolescência é se abordar a relação entre adolescência e se-
referido neste artigo, é importante considerar xualidade, destaca-se o embasamento teórico
sua dimensão de não universalidade, além do da psicanálise freudiana, que entende a ado-
fato de que os autores que embasam a discus- lescência como um processo psíquico organi-
são referem-se especificamente à adolescên- zador da vida do sujeito, principalmente no
cia da sociedade ocidental. Destaca-se ainda que concerne à sexualidade. Ou seja, nesse
que, apesar de ser uma etapa que possui uma momento, em que há uma retomada do desen-
tendência à generalização, a mesma conserva volvimento psicossexual que havia se iniciado
suas peculiaridades diante das singularidades na infância, se confere sentido à sexualidade
de quem a vivencia e do contexto no qual cada infantil e significado do que está por vir na
adolescente está inserido. vida adulta (Freud, 1996b [1905]; Marty e Car-
Para os adultos, a adolescência pode re- doso, 2008).
presentar tanto um ideal quanto se constituir De modo geral, a temática da sexualidade
em uma fonte de angústias. Em relação à ado- tem sido amplamente abordada na sociedade
lescência como ideal, alguns autores vêm ob- atual, muitas vezes até banalizada, o que pode
servando que, nas últimas décadas, esta vem confundir os pais em relação ao saber dos fi-
ocupando um espaço privilegiado, ganhando lhos acerca do tema. No entanto, salienta-se
um prestígio, no sentido que há um desejo e que, mesmo reconhecendo que a sexualidade

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Sabrina Dal Ongaro Savegnago, Dorian Mônica Arpini

esteja intensamente presente em diversos con- à identificação de que, dentre os usuários des-
textos, essa presença não se converte em um sa instituição, encontravam-se mães de adoles-
saber que possa dar conta de suprir as dúvidas centes oriundas de grupos populares. Partici-
e angústias dos adolescentes em relação ao as- param 17 mães de adolescentes, usuárias do
sunto. Desse modo, os pais não poderiam ser referido CRAS. Destas, nove foram entrevis-
desresponsabilizados de sua importante tarefa tadas individualmente (E) e oito participaram
na abordagem do tema (Savegnago e Arpini, de grupos focais. Foram realizados dois gru-
2013). De forma semelhante, Heilborn (2012) pos focais (GF1 e GF2), com a presença de cin-
aponta para a necessidade de se avaliar o atual co mães no primeiro e três mães no segundo
cenário social, que, ao mesmo tempo em que grupo. A média de idade das participantes foi
estimula o exercício da sexualidade como um de 40,94 anos, tendo em média 4,4 filhos. Em
caminho para a autonomia, muitas vezes in- relação à escolaridade, a maioria das mães (10)
terdita o diálogo aberto sobre a temática. possuía o ensino fundamental incompleto.
Housel (2004) e Solis-Ponton (2004) têm A Tabela 1 apresenta os dados sociodemo-
trabalhado a temática da parentalidade e sua gráficos levantados das mães participantes das
relevância para a compreensão das relações entrevistas, a Tabela 2 refere-se às participan-
familiares, destacando as importantes trans- tes do primeiro grupo focal, e a Tabela 3 diz
formações vivenciadas pela família e seu im- respeito aos dados das mães que integraram o
pacto. Esses estudos salientam a importância segundo grupo. Buscando manter o anonima-
do exercício parental materno e paterno e da to das participantes, seus nomes foram subs-
contribuição e relevância de ambos nos cuida- tituídos por códigos (por exemplo, M1, M2,
dos com os filhos. No entanto, a despeito de M3...) nas tabelas de dados sociodemográficos
todas essas mudanças, as mães ainda ocupam e ao longo do texto.
um lugar privilegiado nas relações de cuidado
com os filhos, sendo presente a concepção de Instrumentos e procedimentos
que os filhos e a casa seriam atribuições da pa-
rentalidade materna (Borsa e Nunes, 2011; Ro- Com o intuito de alcançar os objetivos pro-
cha-Coutinho, 2003). Cabendo então às mães postos no projeto e de compreender de forma
a abordagem das questões que remetem à se- ampla e profunda a reflexão de mães no que
xualidade (Ressel et al., 2011) se refere ao diálogo sobre sexualidade com
Nesse sentido, este artigo, que contou com os(as) filhos(as) adolescentes, realizou-se um
a participação de mães, tem como objetivo estudo qualitativo. Foram realizadas entrevis-
refletir a respeito da vivência da sexualidade tas semiestruturadas e grupos focais, técnicas
na relação entre mães/filhos(as) adolescentes, estas que se mostram adequadas para investi-
Pretende-se apresentar tanto a forma como as gações qualitativas e atenderam aos objetivos
mães participantes relataram ter vivenciado deste estudo. Entende-se que, a partir do uso
essa questão durante sua própria adolescên- de técnicas diferentes, é possível captar os di-
cia quanto o modo como elas afirmaram tratar versos aspectos envolvidos na constituição do
essa temática com seus filhos e filhas adoles- objeto que está sendo pesquisado. Dessa for-
centes. Tendo em vista esse passado que se faz ma, foi utilizada a estratégia metodológica de
presente nos relatos das participantes, busca- triangulação dos dados coletados, a partir das
-se pensar como se configuram encontros e duas técnicas utilizadas. Ou seja, foram combi-
desencontros entre elas e seus filhos e filhas nados dois instrumentos distintos (entrevistas
adolescentes no que se refere às questões que e grupos focais), a fim de conferir maior abran-
envolvem a sexualidade. gência e profundidade à análise do fenômeno
pesquisado (Jovchelovitch, 2000).
Foram realizadas entrevistas semiestrutu-
Método
radas com questões abertas, as quais permi-
tiram o acesso aos dados básicos para a com-
Participantes preensão detalhada das crenças, significações,
atitudes, valores e comportamentos dos sujei-
A pesquisa em questão foi realizada com tos no que se refere ao assunto proposto (Gas-
mães que tinham filhos e filhas adolescentes, kell, 2005). Os grupos focais complementaram
de um Centro de Referência e Assistência So- as entrevistas, visto que, nesses, devido à inte-
cial (CRAS) de uma cidade do interior do Rio ração de seus membros, foi possível esclarecer
Grande do Sul. A escolha do local relaciona-se temáticas surgidas nas entrevistas individuais.

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Atravessamentos das histórias maternas na relação com filhos(as) adolescentes e a sexualidade

Tabela 1. Dados sociodemográficos das participantes das entrevistas.


Table 1. Socio-demographic data of the interviewed participants.

Filhos
Nome Idade Ocupação Escolaridade Com quem mora?
(sexo e idade)
Ensino Mora com os três filhos.
(M) 18, (M) 12,
M1 38 anos Doméstica Fundamental Separou-se do marido
(F) 5.
Incompleto há um ano.
Com o companheiro, a filha
Ensino Superior
M2 32 anos Dona de casa (F) 17, (F) 16 de 16 e um irmão portador
Incompleto
de necessidades especiais.
Ensino (M) 13, (M) 14,
Com os 4 filhos mais
M3 49 anos Diarista Fundamental (M) 16, (M) 18,
novos e o marido.
Incompleto (F) 23, (M) 26.
Ensino Médio
M4 45 anos Dona de casa (M) 13, (F) 9. Com os 2 filhos.
Incompleto
Ensino (M) 20, (F) 18,
Com os 3 filhos
M5 34 anos Doméstica Fundamental (F) 17, (F) 14,
mais novos.
Completo (M) 12.
Ensino (F) 27, (M) 24,
Reciclagem Com as 2 filhas
M6 47 anos Fundamental (M) 23, (M) 19,
de materiais mais novas.
Incompleto (F) 16, (F) 10.
Oficineira de Ensino Médio (F) 28, (M) 25, Com o companheiro
M7 47 anos
artesanato Incompleto (M) 16. e o filho de 16 anos.
Ensino (M) 15, (F) 13,
Com o marido
M8 33 anos Diarista Fundamental (M)11, (M) 10,
e os seis filhos.
Incompleto (F) 5, (F) 2.
Ensino
(M) 17, (M) 14, Com o marido e os
M9 33 anos Dona de casa Fundamental
(F) 12, (F) 5. quatro filhos.
Incompleto

Tabela 2. Dados sociodemográficos das participantes do grupo focal 1.


Table 2. Socio-demographic data of focus group 1 participants.

Filhos
Nome Idade Ocupação Escolaridade Com quem mora?
(sexo e idade)
Dona de casa
Ensino
(desempregada (F) 27, (F) 26, Com o companheiro e os
M10 47 anos Fundamental
no momento; é (M) 15, (M) 10. dois filhos mais novos.
Incompleto
diarista).
Ensino (F) 20, (M) 19,
Com o companheiro
M11 38 anos Dona de casa Fundamental (F) 15, (M) 1
e o bebê.
Incompleto ano e 10 meses.
Ensino
(M) 20, (F) 18,
M12 42 anos Dona de casa Fundamental Com os quatro filhos.
(M) 15, (M) 13.
Incompleto
Ensino (F) 34, (M) 32, Com o marido, as quatro
M13 56 anos Diarista Fundamental (F) 27, (F) 22, meninas mais novas
Incompleto (F) 20, (F), 17. e o filho de 32.
(M) 28, (M) 22,
(F) 21, (M) 19,
Ensino
(F) 16, (M) 11, Com o companheiro e o
M14 48 anos Dona de casa Fundamental
(M) 9... Não menino de 11 anos.
Incompleto
lembrou dos
12 filhos.

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Sabrina Dal Ongaro Savegnago, Dorian Mônica Arpini

Tabela 3. Dados sociodemográficos das participantes do grupo focal 2.


Table 3. Socio-demographic data of focus group 2 participants.

Filhos (sexo e
Nome Idade Ocupação Escolaridade Com quem mora?
idade)
Ensino (F) 14, (M) 12,
Auxiliar de Com o marido
M15 30 anos Fundamental (F) 9, (F) 7,
limpeza e os filhos.
Completo (M) 2
Ensino Médio Com o companheiro
M16 41 anos Comerciante (F) 13
Completo e a filha.
Ensino Médio Com o marido
M17 36 anos Dona de casa (M) 12, (F) 6
Completo e os filhos.

Foram utilizadas como disparadores para do CRAS e ter disponibilidade e interesse em


a discussão grupal falas de meninas que par- participar da entrevista ou do grupo focal. As
ticiparam de uma pesquisa anterior da autora primeiras mães contatadas pela pesquisadora
que teve como tema o diálogo sobre sexualida- foram convidadas para participarem das en-
de na família (Savegnago e Arpini, 2013). Os trevistas individuais. A partir do momento em
eixos que nortearam as entrevistas foram os que foram finalizadas as entrevistas, iniciou-se
seguintes: (i) Abordagem do tema sexualida- o contato com outras mães, que foram convi-
de na família; (ii) Diálogos sobre sexualidade dadas para integrarem os grupos focais.
com o(a) filho(a) adolescente; (iii) Assuntos Ao pesquisador cabe estabelecer o rapport,
relacionados à sexualidade que são abordados ou seja, assegurar, através de uma postura
no contexto familiar; (iv) Diferenças entre con- encorajadora e tranquilizadora, que as partici-
versar com meninos e conversar com meninas pantes sintam-se à vontade para exporem suas
sobre esse tema. Se existem, quais são; (v) Bar- opiniões (Gaskell, 2005). Dessa forma, a mode-
reiras e dificuldades para que haja esse tipo de radora/entrevistadora se apresentou e fez uma
conversa com os filhos. Facilitadores para que breve introdução, com o objetivo de tranquilizar
esses diálogos aconteçam. Se existem, quais e estabelecer o enquadre para a realização do
são e como funcionam; (vi) Necessidade/im- grupo ou da entrevista. Foi utilizado o mesmo
portância de se tratar do tema da sexualidade procedimento na utilização das duas técnicas,
com os filhos. As entrevistas e os grupos focais ou seja, foram explicitados claramente os obje-
foram realizados nas dependências do CRAS, tivos do estudo e apresentada a ideia de uma
em uma sala apropriada, sendo gravados e discussão grupal ou de uma entrevista. Depois
posteriormente transcritos. da leitura e assinatura dos Termos de Consenti-
Após a autorização da instituição para mento Livre e Esclarecido (TCLE), foi solicitado
a realização da pesquisa e da aprovação do às participantes que se apresentassem, indican-
projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa do sua idade, escolaridade, ocupação e a confi-
da UFSM (parecer nº 54850 e Certificado de guração familiar, ou seja, quem morava na casa,
Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) número de filhos e idades dos mesmos. Após a
nº 05022712.8.0000.5346), iniciou-se o contato permissão das mães para a gravação em áudio,
com as prováveis participantes. A maior parte iniciou-se a entrevista ou grupo focal.
dos contatos foi feito via telefone pela pesqui-
sadora, a partir de indicações das profissionais Análise dos dados
do CRAS, e de prontuários e fichas referentes
ao programa Bolsa-Família de usuários da ins- Os dados foram analisados através do
tituição e também através da participação da método de Análise de Conteúdo Temática,
pesquisadora em um dos grupos de mulheres como proposto por Bardin (1977). Para che-
que acontecia quinzenalmente na instituição, gar às categorias, num primeiro momento, as
durante o qual foi exposta a proposta de pes- entrevistas foram sendo analisadas de forma
quisa e realizado o convite às mães ali pre- individual, à medida que foram sendo trans-
sentes. Os critérios para inclusão na pesquisa critas, e, posteriormente, procedeu-se a uma
foram: ser mãe de pelo menos um adolescente análise conjunta de todo material resultante
(do sexo feminino ou masculino), ser usuária das entrevistas. Após finalizada essa etapa, os

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Atravessamentos das histórias maternas na relação com filhos(as) adolescentes e a sexualidade

grupos focais foram analisados, cada um em sente (suas experiências junto a seus/suas
separado, e depois se procedeu à análise dos filhos(as) adolescentes).
dois grupos e, por fim, da totalidade do mate-
rial, incluindo as entrevistas individuais e os Hoje eles têm liberdade pra falá, eles têm liber-
grupos focais, partindo-se para os elementos dade pra agí. E a gente no nosso tempo não tinha
liberdade de falá nada, nem podia perguntá. Ag-
presentes considerando-se a força discursiva,
ora eles podem perguntá (M12, 42 anos, GF1).
os sentimentos manifestados, os silêncios ou
conflitos em relação à temática. Na discussão, Aquele era o tempo do não. Não pode falá nada,
optou-se por apresentar os resultados conten- não pode usá isso, não pode saí, não pode ir em
do as falas das mães de forma integrada nas amigo, não pode... ah não, é o tempo, é a época
categorias, diferenciando apenas com a letra E, do não. Era tudo proibido. Era tudo feio. Era feio
quando a fala provém de uma entrevista indi- falá. A gente tinha que se calá. [...] Capaz, a min-
vidual e GF, quando provém de um grupo fo- ha mãe nunca falô nada. Nesses anos todos, eu
cal. Esse procedimento foi adotado a partir da nunca vi. Dos anos 60, 70... tudo atrasado... eu
compreensão das autoras de que a utilização descobri por mim mesma (M10, 47 anos, GF1).
das duas técnicas possibilitou uma ampliação
da compreensão do fenômeno, na medida em Fica evidente nas falas das mães a existên-
que o mesmo foi abordado a partir de dois re- cia de dois momentos bem distintos. Um vi-
cursos técnicos complementares. venciado por elas durante sua infância e ado-
Neste artigo, serão apresentadas e discuti- lescência, denominado por algumas delas de
das as seguintes categorias e subcategorias: (i) “tempo antigo”, e outro vivido por seus filhos
o passado que se faz presente; (a) a vivência e filhas. Destaca-se que esse “tempo antigo”
da primeira menstruação; (b) a transmissão de parece não ser cronológico, mas sim geracio-
mitos e histórias envolvendo a sexualidade; (c) nal, pois as mães participantes são adultas
a experiência da gravidez na adolescência; e jovens, ou seja, passaram pela adolescência
(ii) da ausência de diálogo à tentativa de rom- há poucos anos. Em concordância com esses
pimento com o silêncio. aspectos apresentados pelas participantes, es-
tudos apontam que o panorama vem se mo-
dificando no que se refere ao diálogo sobre
Resultados e discussão
sexualidade entre pais e filhos (Castro et al.,
2004; Vilelas Janeiro, 2008). Apesar de ainda
(i) “Eu me lembro como se fosse hoje haver pouco diálogo em muitas famílias, ob-
[...] nunca foi falado sobre isso”: serva-se um aumento da qualidade e da fre-
lembranças do passado quência dessas interações, comparando-se a
algumas décadas atrás, o que, segundo Castro
A partir das falas das mães participantes et al. (2004), pode relacionar-se principalmente
da pesquisa, destaca-se que a forma como com a preocupação dos pais em relação à gra-
estas tratam as questões relacionadas à se- videz na adolescência, às DSTs e à AIDS.
xualidade com seus filhos encontra-se atra- O silêncio e a desinformação referentes ao
vessada pela sua própria história em relação tema da sexualidade vivenciados pelas mães
ao tema, o que também foi observado nos também ficam evidentes no relato de M1 abai-
estudos de Costa et al. (2014) e Nery et al. xo. Ela aponta que essa situação não foi expe-
(2015). Ao serem indagadas acerca dos diá- rienciada apenas por ela, mas era comum tam-
logos sobre sexualidade com seus filhos e fi- bém às suas irmãs. Ou seja, ela não destoava
lhas adolescentes, as mães trouxeram à tona do grupo em que estava inserida.
elementos de sua própria adolescência e de
sua história familiar. As vivências das mães A gente não teve adolescência. Agora de uns
durante a infância e a adolescência parecem tempos pra cá que eu vejo falá sobre isso. Mas
ter sido cruciais e determinantes para a for- nesses tempos não existia, não ouvia falá. [...] A
ma como elas lidam hoje com seus filhos e fi- mãe não explicava. Isso a pessoa explicava que
o dia que começasse a namorá tinha que casá e
lhas adolescentes. A maioria delas narra um
deu. Daí sê dona de casa. Deu, terminô. [...] Foi
passado marcado por silenciamentos, tabus isso que aconteceu com todas, nem foi só comi-
e traumas em relação à questão da sexuali- go. Todas as minhas irmã... A gente não teve
dade. Essas mães fizeram um contraponto adolescência nenhuma. Eu não sei o que é essa
bastante significativo entre o passado (suas adolescência. Essa coisa eu não sei. Não sei. Não
vivências com seus próprios pais) e o pre- sei te explicá, porque eu não tive. [...] A gente

184 Contextos Clínicos, vol. 9, n. 2, Julho-Dezembro 2016


Sabrina Dal Ongaro Savegnago, Dorian Mônica Arpini

não teve infância quase, porque botaram a gente lescência não se propagou do mesmo modo e
na lavoura trabalhá cedo. E não teve estudo, não ao mesmo tempo em todos os grupos sociais.
teve infância, não teve estudo, não teve juventu-
de (M1, 38 anos, E).
“Onde é que eu me machuquei?”:
Além do relato de que as possibilidades o trauma na vivência da primeira
de diálogo sobre sexualidade em sua famí- menstruação
lia eram escassas, chama atenção a afirmação
dessa mãe de que “não teve adolescência”. Ela A primeira menstruação, a qual deveria se
associa isso ao fato de ter sido precocemente constituir em um evento natural/esperado na
inserida em atividades laborais e não ter dedi- vida de toda adolescente, ocorreu de forma
cado esse momento da vida aos estudos. Tal- traumática para a maioria das mães partici-
vez para essa mãe a possibilidade de dedicação pantes deste estudo, segundo o relato das mes-
exclusiva aos estudos fosse um dos elementos mas. Foram muitas as narrativas de histórias
que definiria a condição de adolescência. envolvendo a primeira menstruação, as quais
Conforme mencionado anteriormente, foram acompanhadas de emoção e riqueza
o conceito de adolescência é recente, ten- de detalhes, o que pode sinalizar para o quão
do surgindo no Ocidente em torno do final marcantes foram tais experiências para essas
do século XVIII (Ariès, 1981 [1975]) e sendo mulheres.
reconhecido e consolidado a partir do sécu-
Assim, quando veio a minha menstruação, eu não
lo XX (Sprinthall e Collins, 2003). Sprinthall
sabia o que que era. Eu tava tomando banho num
e Collins (2003) afirmam que ainda que de- açude e daí a gente tava brincando com um vidri-
terminados componentes psicológicos e cor- nho de xampu, que uma jogava pra outra, e daí
porais tenham sempre existido no jovem, quando olhei assim eu disse “Nossa, eu acho que
independentemente do momento histórico, a me machuquei”. E a menina veio e me explicô, né,
sociedade nem sempre reconheceu as carac- me explicô “Não, é tal coisa... é assim...”. Eu acho
terísticas específicas da adolescência. Assim, que se ela [a mãe] tivesse me falado talvez eu tives-
em um processo que se iniciou nas nações e se... Porque os sinais vêm, talvez eu tivesse me pro-
tegido, talvez não tivesse passado por isso. Porque
culturas industrializadas, os adultos passa- eu fiquei muito constrangida, né. Imagina, num
ram a considerar as demandas e as caracte- grupo de amigas ali, né. Pra mim, que o assunto
rísticas fisiológicas e psicológicas próprias era desconhecido, nossa, um horror! Eu chorava,
da adolescência e começaram a reconhecê-la chorava, não conseguia pará de chorá de vergonha.
como uma etapa distinta do desenvolvimento Me escondi dela [da mãe], me escondi por meses.
humano. Desse modo, esse período passou a Ela ficô sabendo eu acho que bastante tempo depois.
ser estudado mais profundamente e configu- Tinha uma vergonha imensa de tocá sobre certos
assuntos com ela... [...] E eu acho que até que é um
rou-se em um campo de estudo com legitimi-
assunto que... não tem uma dimensão... como é que
dade própria. De acordo com Birman (2008), eu vô te falá? A vergonha que eu passei, o constran-
a infância e a adolescência foram delimitadas gimento em falá sobre estas coisas, entende, poderia
em suas especificidades enquanto idades da ter sido evitado (M9, 33 anos, E).
existência humana na modernidade. Esse
processo veio acompanhado de um investi- A partir desse relato, pode-se compreender
mento social maciço na infância e na adoles- a estranheza e o sofrimento vivenciados por
cência, que passaram a “condensar o Capital essa mãe. Sentimentos como vergonha, cons-
simbólico e econômico da futura riqueza das trangimento, medo e tristeza acompanharam
nações” (Birman, 2008, p. 95), e assim torna- a experiência da primeira menstruação da
ram-se alvo de ações e intervenções educati- maioria das mães participantes deste estudo, o
vas e médicas. que também pode ser visualizado no seguinte
No entanto, ainda hoje existem sociedades depoimento:
nas quais a adolescência não é reconhecida.
Esse aspecto fica evidente, por exemplo, em Quando veio a minha menstruação eu fiquei apa-
contextos onde crianças passam diretamente vorada. Chorei, chorei, chorei, apavorada... Onde
para o mundo adulto, a partir de casamentos é que eu me machuquei? Nós tava com a minha
realizados entre 13 e 14 anos de idade (Sprin- tia. “Tia, eu me machuquei”. “Aonde?”. “Eu me
thall e Collins, 2003). Desse modo, conside- machuquei, a minha calcinha tá puro sangue. Eu
rando a realidade apresentada pela fala de me machuquei não sei aonde”. Aí a tia me ex-
M1, poder-se-ia pensar que o conceito de ado- plicô, que a mulher quando chegava uma certa

Contextos Clínicos, vol. 9, n. 2, Julho-Dezembro 2016 185


Atravessamentos das histórias maternas na relação com filhos(as) adolescentes e a sexualidade

idade menstruava... Ela disse “Tu não sabia?”. “A minha mãe falava assim que o que
Eu disse “Eu não”. “Mas agora a gente usa o mo- trazia os bebês era a cegonha”: a
des assim até passar...”. Ela foi lá e comprô, me transmissão de mitos e histórias
explicô como é que usava. Aí passô... Mas antes,
envolvendo a sexualidade
mas olha, eu chorei, nem saía de casa chorando...
(M12, 42 anos, GF1)
De acordo com as mães participantes do
estudo, era muito comum, durante sua infân-
A primeira menstruação, também chama-
cia e adolescência, a narrativa de histórias re-
da de menarca, é um acontecimento muito
lacionadas à sexualidade por parte dos pais.
importante na vida de toda adolescente, pois
A principal delas era a transmissão da crença
representa a passagem da infância para o sta-
de que “beijar engravida”.
tus de mulher e denota que a menina adqui-
riu a maturidade biológica que a torna fisica- Quando a gente era criança, eu lembro que a
mente capaz de exercer a maternidade. Desse minha mãe dizia que se a gente sentasse quan-
modo, a menina pode vivenciar sentimentos do tivesse um casal deitado na cama, a gente não
de angústia, por ter que lidar com um acon- podia sentá na cama. Ou então, beijá na boca en-
tecimento novo que sinaliza para a presença gravidava. Eu fui criada assim. Eu não sou tão
de sua sexualidade. Ao mesmo tempo, senti- velha, tenho 33 anos. Mas a minha mãe, ela tinha
mentos de alívio e orgulho também podem se cabeça de mais velha (M2, 32 anos, E). Nós per-
fazer presentes, pelo fato de a menstruação ser guntava pra ela [mãe] de onde que vinha o nenê.
um dos sinais que marca o ingresso da meni- E ela falava “tem que dá beijo no teu pai pra mim
tê nenê”. E eu acreditava (M11, 38 anos, GF1).
na no “mundo feminino” e a aquisição de um
Eu tinha medo depois de beijá... (M12, 42 anos,
novo status, não mais de criança, mas de mu- GF1). Imagina... ficá grávida com um beijo... [ri-
lher (Seron e Milani, 2011). No caso das mães sos]. Eu era muito infantil... Ai... no tempo da
participantes, a primeira menstruação parece minha avó, da minha mãe... Imagina, que inocen-
ter sido vivenciada como um evento negativo te, né (M10, 47 anos, GF1).
e inesperado. O fato de a menarca significar
que a menina encontra-se fisicamente capaz Chama a atenção no relato de M2 que ela
de reproduzir, além de apontar para a presen- afirma “não ser tão velha”, pois tem apenas
ça da sexualidade na adolescente, poderia ser 33 anos. Ou seja, em um primeiro momento,
considerado um dos fatores que teria influen- poder-se-ia pensar que as situações relatadas
ciado no silenciamento dos pais para com esse por essas mães aconteceram há muito tem-
assunto. Assim, ao não falar sobre a menstrua- po, “num tempo antigo”, como elas mesmas
ção, em um primeiro momento, poderíamos dizem. No entanto, destaca-se que a maioria
pensar que se estaria negando o seu apareci- das mães vivenciou essas situações há poucas
mento e, consequentemente, a presença da se- décadas. Assim, pode-se inferir que o tabu que
xualidade e a possibilidade do seu exercício. envolve a sexualidade no âmbito familiar ain-
da se faz presente de forma intensa na contem-
Eles nunca me explicaram sobre a menstruação. poraneidade.
Nem negócio de homem, namorado... que eu na-
De acordo com as mães, a utilização da
morava, né, também não. Eu me lembro, eu tava
cortando lenha, acocada, eu olho aquela san-
história de que “a cegonha traz os bebês” tam-
gueira... “Meu Deus, será que eu me cortei?”. bém se fazia presente de forma significativa
Eu corri pra dentro e falei com uma tia minha. no discurso de seus pais, a fim de explicar o
E a minha tia me disse “Não, tu tá vendo que tu nascimento dos bebês, de modo que não fos-
tá moça? Tá vindo as coisa pra ti, assim, assim, se necessário mencionar as questões sexuais
assado”. Daí a minha tia me explicô, né. Porque envolvidas nesse fenômeno. Desse modo,
a mãe nunca falô nada comigo (M11, 38 anos, destaca-se o importante “lugar” que os mitos
GF1). ocuparam, uma vez que, através deles, parece
ter sido possível evitar falar sobre questões re-
Salienta-se aqui o papel assumido por tias, ferentes à sexualidade, reforçando a crença na
amigas ou irmãs diante dessas situações, uma inocência da infância e da adolescência.
vez que, conforme as participantes referiram,
suas mães não abordavam esse tema com elas. Assim, eu me lembro, essa história... essa terceira
Desse modo, muitas vezes elas encontravam aqui [referindo-se à vinheta]. Essa é parecida com
esclarecimento com pessoas próximas que já algo que eu vivi no meu passado. Naquele tempo
tivessem passado pela experiência. que diziam pra gente que era a cegonha que trazia

186 Contextos Clínicos, vol. 9, n. 2, Julho-Dezembro 2016


Sabrina Dal Ongaro Savegnago, Dorian Mônica Arpini

o bebê. Coisa bem antiga... E quando passava um de conhecimento ou, ainda, por um sentimen-
helicóptero em cima da minha casa, a gente ficava to de insegurança, que pode estar presente
feliz da vida. Daí diziam também que era avião tanto naquele que transmite quanto naquele
que trazia. Então ficava pedindo pro avião trazê que recebe a informação.
bebê... (M10, 47 anos, GF1).

Destaca-se a importância atribuída por es- “Eu acho que aconteceu isso comigo
sas mães quanto ao fato de que não se deve- por falta de conversa”: a experiência da
riam transmitir ensinamentos “equivocados”, gravidez na adolescência
os quais por vezes causaram-lhes medo, con-
fusão e angústia. Uma mãe, quando questio- A gravidez durante a adolescência, ou logo
nada se acreditava que hoje ainda se fala sobre após o término dela, se fez presente para várias
cegonha, afirmou: das mães entrevistadas. Das 17 participantes,
quatro tiveram seu primeiro filho na adoles-
Não, não se fala, né, porque é vergonhoso, né, é cência (entre 12 e 17 anos) e sete delas engra-
vergonhoso a cegonha... [risos]. Eles nem sabem o vidaram entre 18 e 20 anos de idade. Isso evi-
que é cegonha, né. Eu acredito que hoje as crian- dencia que a questão sexualidade/sexo, apesar
ças nem sabem o que é cegonha. Eu acho que lá na de silenciada no contexto familiar, se fazia
terceira, quarta série, quando tão estudando, daí vê
presente na vida de cada uma delas. Assim,
aquele que fala dos animais, daí sim eu acho que
eles vê. Tal animal, com bico grande, não é aquele
pode-se constatar que o silêncio em relação ao
que traz os bebês... [risos] (M9, 33 anos, E). tema não barra o exercício da sexualidade. Ao
contrário, muitas mães atribuíram justamente
Na opinião das mães, esse tipo de atitude à falta de informação e diálogo familiar a ocor-
por parte dos pais, além de ser algo “vergo- rência de sua gravidez.
nhoso”, é antigo e ultrapassado. No entanto,
Eu acho que isso é importante, né. Porque que
salienta-se que esse é um discurso ainda pre-
nem assim ó, eu engravidei da M, eu não tinha
sente no contexto atual. Estudo realizado por noção do que era sexo. E eu hoje... Esses dias eu
Savegnago e Arpini (2013) com adolescentes tava falando com ela, eu teria namorado da mes-
do sexo feminino evidenciou que a narrativa ma forma, mas eu não teria tido ela com 15 anos
de histórias, como a da cegonha, por exemplo, (M15, 30 anos, GF2). Ah... era bem diferente.
eram comuns nas famílias das meninas, confi- Tanto é que... que eu acho que aconteceu isso
gurando-se em uma estratégia utilizada pelos [gravidez] comigo por falta de conversa. Porque
pais e mães diante da curiosidade das adoles- eu simplesmente fui fazendo as coisas, as coisas
foram acontecendo e ninguém... Eu não tinha
centes. A transmissão de informações errô-
com quem conversá, ninguém me falava nada,
neas, como a de que o beijo leva à gravidez, né. Ninguém me dizia: “Olha, não é assim minha
também foi apontada pelas adolescentes como filha, não é assim. A vida não é assim... Botá um
sendo utilizada pelos pais. Segundo elas, isso filho no mundo é...” (M5, 34 anos, E).
poderia ser entendido como uma forma de
amedrontá-las e, assim, deter e/ou postergar o A participante M15 afirmou que se tivesse
exercício da sexualidade, ao menos tempora- recebido orientações na família sobre o assun-
riamente (Savegnago e Arpini, 2013). to, os acontecimentos teriam tomado um cur-
Resultados semelhantes foram encontra- so totalmente diferente, ou seja, talvez ela não
dos no estudo de Walter (2014), que teve como tivesse engravidado tão cedo. M5 apontou a
objetivo desvelar as memórias sobre sexuali- falta de uma orientação sobre sexualidade, a
dade, referentes aos mitos e crenças apreendi- partir da qual poderia ter conduzido sua ado-
dos, de jovens de 18 e 21 anos, do município de lescência. Visto que não tinha espaço para diá-
Canoas, RS. Os jovens relataram vários mitos logo sobre o tema junto a seus pais, essa mãe
e crenças que marcaram as primeiras informa- teve que se haver com a tarefa de descobrir e
ções obtidas na infância sobre a temática da se- entender esse fenômeno de forma solitária.
xualidade, como, por exemplo: que a cegonha O relato a seguir mostra uma experiên-
traz os bebês, que o beijo pode engravidar e cia difícil, relatada por uma das mães parti-
que o pai coloca uma semente dentro da mãe. cipantes, a qual refere ter tido uma gravidez
O autor afirma que a mitologia construída por não planejada. A mãe coloca que, apesar de
informações não corretas permeia a sexualida- já ter passado pela adolescência, não tinha
de em todas as idades e ressalta que, muitas informações suficientes e importantes sobre
vezes, a utilização dos mitos ocorre pela falta gravidez e contracepção, afirmando não ter

Contextos Clínicos, vol. 9, n. 2, Julho-Dezembro 2016 187


Atravessamentos das histórias maternas na relação com filhos(as) adolescentes e a sexualidade

recebido orientações sobre esse assunto por quais atribuem as causas desse acontecimento
parte de seus pais. principalmente à falta de diálogo e orientações
sobre sexualidade no âmbito familiar.
Eu engravidei com 18 anos pra 19. Não foi plane-
jada, eu namorava e aconteceu. [...] Mas, assim,
eu engravidei e não contei, fiquei pra... Engravi-
(ii) “Tenho que conversá e dizê muita
dei e fui ficando dentro de casa... entendeu? Aí coisa pra eles, porque pra mim fez
um dia eu tô escovando, que a casa era de tábuas muita falta isso aí”: da ausência de
e eu escovava aqueles taboão, sabe... eu lavando
a casa, escovando... A mãe olhô: “Filha, tu tá
diálogo à tentativa de rompimento
barriguda?”. E eu disse assim: “Eu não, mãe!”. do silêncio
Ela disse: “Vem cá, levanta e vem aqui!”. Aí eu
cheguei perto dela e ela levô a mão aqui embaixo A partir das vivências familiares difíceis
da minha barriga e disse: “Tá sim, e isso aí é de durante a infância e a adolescência no que se
três meses. Tá bem dura a tua barriga embaixo”. refere à sexualidade, conforme apontado na
E eu disse: “Faz quatro meses que eu não mens-
seção anterior, muitas das mães participantes
truo”. E ela disse: “Tá, tá com três mês passado,
fechando os quatro”. Chamô meu pai. Hummm... deste estudo destacaram suas tentativas para
“Vagabunda, sem vergonha”, isso e aquilo... Aí não reproduzir o modelo familiar, ou seja,
eu fui morá junto. [...] E daí foi... A mãe ficou até romper o silêncio em relação ao tema e procu-
bem tranquila... Mas quem extrapolô mais, quem rar abordá-lo com seus filhos.
berrô foi o meu pai (M7, 47 anos, E).
Eu acho que já que eu não tive isso aí, como a
Estudos têm mostrado que adolescentes que mãe não explicô, não disse nada, eu acho que pra
possuem um espaço para diálogo sobre sexua- eles eu tenho que explicá e tenho que conversá
lidade com seus pais têm menor probabilidade e dizê muita coisa pra eles, porque pra mim fez
de engravidar durante adolescência (Aquino et muita falta isso aí. Faz muita falta (M1, 38 anos,
E). Porque como faltô pra mim, né... daí eu acho
al., 2006; Bozon e Heilborn, 2006; Pick e Palos,
que é muito importante. [...] Na minha vida tudo
1995; Sousa et al., 2006; Valdés, 2005). No entan-
aconteceu por falta de informação. Por isso que
to, considerando-se que a gravidez na adoles- eu falo, explico as coisa (M5, 34 anos, E).
cência se constitui em um fenômeno complexo,
é importante deixar claro que suas causas não Algumas mães, como M5, acreditam que a
estão relacionadas exclusivamente à desinfor- falta de informação e diálogo sobre sexualida-
mação sobre questões sexuais. de trouxe-lhes prejuízos. Essa mãe, por exem-
Dadoorian (2003) ressalta que a gravidez plo, atribui a gravidez não planejada à falta de
durante esse período pode estar ligada ao dese- orientação sobre sexualidade, principalmente
jo da adolescente de ter um filho, a fim de tes-
acerca do uso correto da pílula anticoncepcio-
tar sua feminilidade, a partir da comprovação
nal. Destaca-se assim o interesse demonstrado
de seu potencial reprodutivo. Além disso, por
através da fala de M5 e de outras mães partici-
vezes as adolescentes têm conhecimento dos
pantes no sentido de orientar os(as) filhos(as)
riscos e das formas de evitar a gravidez, mas
em relação a assuntos referentes à sexualidade
não põe em prática isso e geralmente não sa-
que foram pouco abordados quando elas pró-
bem explicar o que as leva a agir dessa maneira
prias vivenciaram a adolescência. A fala da par-
(Tavares, 1996). A história familiar de gravidez
ticipante M8 também demonstra tal aspecto.
na adolescência também tem sido descrita na
literatura como um dos fatores associados à
A M [filha] acha muito importante, assim, que eu
ocorrência de gravidez em adolescentes. Ou- previní ela bem, assim ó “M, chega em tal idade,
tro argumento utilizado na compreensão desse tu vai tê a tua idade, tu vai menstruá, tu vai tê
fenômeno é a ideia de que, para muitas ado- teu o período de menstruá. Tu vai tê que te cuidá,
lescentes de grupos populares, a maternidade porque daí tu tá mocinha. Tu vai tê que aprendê
pode tornar-se o papel social mais importante te cuidá, usá o absorvente direitinho...”, eu dizia
por elas desempenhado e se constituir em um pra ela tudo assim, sabe (M8, 33 anos, E).
projeto de vida e reconhecimento social (Uziel
e Santana, 2008). Apesar de encontrar-se implí- Fica evidente nessa fala a importância
cita em muitos casos, a questão da associação dada pela mãe para que a filha fosse bem es-
entre gravidez e projeto de vida não fica explí- clarecida quanto às questões que envolvem a
cita no discurso das mães participantes desta menstruação, a fim de que a menina pudesse
pesquisa que engravidaram na adolescência, as lidar com esse acontecimento de forma mais

188 Contextos Clínicos, vol. 9, n. 2, Julho-Dezembro 2016


Sabrina Dal Ongaro Savegnago, Dorian Mônica Arpini

tranquila. Isso se contrapõe à forma como a lhas, a maioria das participantes demonstrou
ocorrência da menstruação, em especial a me- esforçar-se para que esse diálogo aconteça, o
narca, foi experienciada pela maioria das mães que pode ser considerado um importante pro-
participantes da pesquisa, como foi destacado cesso de mudança. As falas a seguir ilustram
anteriormente. Em concordância com esse as- tal constatação.
pecto, Brandão (2004) aponta ser comum os
genitores afirmarem que, apesar das dificul- Eu falo com eles, eu converso com eles, explico
dades enfrentadas, costumam dialogar sobre pra eles, entende, eu e os meus guris, no caso,
sexualidade com os(as) filhos(as) muito mais eu explico pra eles, tento conversá, digo que não
precisa tê medo sobre falá comigo... todas as coi-
do que, quando adolescentes, conversaram
sas tem que falá pra mim, passá pra mim antes,
com seus próprios pais. eu digo pra eles assim né (M1, 38 anos, E). Eu
Apesar de a maioria das mães reprovarem falo de sexo, de sexualidade com todos. Tanto com
a forma como seus pais conduziram as ques- os meninos quanto com as meninas. Se não elas
tões relacionadas à sexualidade durante sua vêm... e geralmente é as mais velha... os mais ve-
adolescência e esforçarem-se para mudar essa lho, eles sempre vêm a mim. Qualquer problemi-
realidade, algumas delas trouxeram relatos nha que eles têm, eles vêm, me procuram e aí eu
que parecem sinalizar uma repetição desse dô a minha opinião, falo, né. A gente tem abertu-
modelo passado de educação/orientação. Esse ra pra falá sobre tudo. E eu não tenho vergonha
de falá com eles (M5, 34 anos, E).
aspecto pode ser percebido na fala abaixo.

Olha, eu trato pra eles como a minha mãe tratô A curiosidade manifestada por crianças e
nós, né. Nós somo em cinco irmão, né... Então a adolescentes em torno da sexualidade é uma
minha mãe nunca falô isso pra gente. Eu tenho questão bastante significativa para a subje-
mais irmãos, e nenhum dos meus irmãos falava tividade, uma vez que tem relação com o co-
isso com eles. A gente traz eles como a gente foi nhecimento das origens de cada um e com a
trazido, né. Não precisava tá... não precisa tá fa- vontade de saber. Desse modo, a satisfação
lando nada [riso]. [...] Pra mim foi bom, né, por- dessas curiosidades pode colaborar para que
que não precisô ninguém me falá nada e mesmo o desejo de saber seja estimulado ao longo da
que... falasse ou não falasse, né, eu não ia seguí
vida. Em contrapartida, a falta de resposta às
esse troço... (M3, 49 anos, E).
curiosidades pode causar ansiedade, tensão e,
ocasionalmente, bloqueio da capacidade in-
Nesse mesmo sentido, a entrevistada M7
vestigativa (Brasil, 1998). A participante M16
afirma que acreditava que o diálogo sobre se-
fala da importância de satisfazer as curiosida-
xualidade com os(as) filhos(as) fosse desneces-
des dos(as) adolescentes, referindo que ela e as
sário, uma vez que isso não se fez presente na
outras mães participantes do grupo também
sua adolescência. “Que eu por mim, eu achei
teriam vivenciado isso quando jovens.
que nem tinha que falá nada, que ia acontecê
que nem aconteceu comigo, que a minha mãe
Mas eu olho pelo lado de cobrá... até a curiosidade
nunca falô nada. E o F [companheiro] disse: das adolescentes, porque a gente foi curiosa tam-
‘Não, nós temos que sentá pra conversá com bém, que essa menina tá expressando aqui que ela
a tua filha. Conversá isso, isso e isso’” (M7, 47 queria matá a curiosidade [referindo-se à vinhe-
anos, E). ta]. Não aprofundá o assunto, mas tirá a dúvida,
Desse modo, por vezes, pode ocorrer que né [...]. Eu acho que a gente deve matá a curio-
os pais tenham uma compreensão de que não sidade dos filhos. Como a gente vê na televisão,
deveriam reproduzir o modelo de educação tu não aprofunda, se ela pergunta “Mãe, como é
sexual recebido em suas famílias. No entanto, tal coisa?”, tu explica aquilo. Se ela ficô satisfeita
com a explicação, tu deixa quieto. Deixa ela vir
podem acabar repetindo o que vivenciaram
com outra pergunta, né. E não aprofunda tam-
junto a seus pais, por ser esse o único modelo
bém “Ah isso, ah aquilo, ah aquele outro”. Mata
relacional e educacional conhecido e aprendi- aquela curiosidade. Porque isso seguido aparece
do (Dias e Gomes, 1999). na televisão, né, quando as criança começam a
Lançando-se um olhar para a totalidade perguntá. Mata a curiosidade. Se ela se sentiu
das falas das mães participantes, nota-se que satisfeita, espera vir outra curiosidade pra matá
não houve um padrão único de atitudes em re- (M16, 41 anos, GF2).
lação ao diálogo sobre sexualidade com os(as)
filhos(as) adolescentes. Apesar de algumas Destaca-se também nessa fala a forma
mães terem relatado certo silenciamento em como a mãe relatou conduzir o diálogo sobre
relação à sexualidade junto a seus filhos e fi- sexualidade com os(as) filhos(as). Para ela, é

Contextos Clínicos, vol. 9, n. 2, Julho-Dezembro 2016 189


Atravessamentos das histórias maternas na relação com filhos(as) adolescentes e a sexualidade

a curiosidade da criança ou adolescente que mães sobre essa temática, tendo mais abertura
serve de marcador para que esse assunto seja com outros familiares do sexo masculino.
abordado. Assim, à medida que as dúvidas Dialogar com os(as) filhos(as) não é uma
vão surgindo, ela procura esclarecê-las de for- tarefa fácil. Trata-se de uma atitude que de-
ma correspondente ao que foi solicitado, pro- manda sensibilidade, paciência e tolerância,
curando não aprofundar-se tanto no assunto, além de saber ouvir e falar sem ter a certeza
evitando falar além do que foi perguntado, de que se está sendo escutado. A tentativa de
principalmente quando se trata de crianças. estabelecimento de diálogo com o(a) adoles-
De forma semelhante, o relato da participante cente pode ser uma questão delicada para os
M9 também evidencia que as conversas sobre pais, uma vez que a transmissão de valores e
sexualidade com os(as) filhos(as) devem evo- posições afetivas pode ser confundida, pelo(a)
luir conforme a idade e o interesse manifesta- adolescente, com cobranças ou pressões. Ou,
do pelos mesmos. ainda, é possível que a demonstração de inte-
resse dos pais pelas atividades e ideias do(a)
Com a M [filha], também, eu já... por ela tá fican- adolescente seja percebida por este como uma
do mocinha, sabe, tá com 12 anos, né, tá na pu- invasão de privacidade (Levisky, 1995).
berdade, né, aí eu chamo ela, já converso, já falo
“ó, tem que fazê assim”, né. Aquela... eu acredito
que aquela coisa que talvez a tua mãe tenha feito
Considerações finais
contigo, tipo não... sobre a menstruação que anti-
gamente não falavam, né, não podia, era feio. Eu A partir dos resultados apresentados e da
converso com os meus sobre isso, sobre tudo. Como discussão proposta, evidencia-se que grande
as coisas são, como elas são feitas. Não é aquele ne- parte dos relatos das mães sobre os diálogos
gócio da cegonha que traz, né. Claro que tem que tê sobre sexualidade com seus filhos e filhas ado-
um jeito, um meio, né. Há um tempo atrás, quan- lescentes vieram acompanhados de narrativas
do a B tinha 7 anos, eu expliquei assim... porque o sobre suas próprias vivências durante a ado-
pai dela teve outra família, eu me separei dele e ele lescência. Pôde-se notar que o silêncio em rela-
teve uma outra família com a outra, uma menina
ção ao tema da sexualidade no espaço familiar
com dois filhos, ela tinha um bebê e a menina tava
grávida, né. E daí eu chamei e expliquei como é
se fez presente na infância e adolescência da
que... tá, mas como? “Olha, funciona de tal for- maioria das participantes. Estas apontaram
ma... O homem planta a sementinha e começam traumas, tabus e a ocorrência de gravidez na
a namorá”, aquela coisa toda, né. Conversei dessa adolescência como efeitos da falta de diálogo
forma. Ela tinha sete anos na época, né. Só que hoje a respeito do tema. Tais vivências parecem ter
ela já tá com 12. Então o assunto já pode ser mais... uma estreita relação com a forma como essas
(M9, 33 anos, E). mães lidam com seus filhos e filhas adolescen-
tes no que se refere às questões que envolvem
Em concordância com esses aspectos, mães a sexualidade, seja pela repetição do que foi
participantes de uma pesquisa realizada por experienciado no passado junto a seus pais,
Gubert et al. (2009) afirmaram que a comuni- seja pela busca por fazer diferente com seus/
cação entre pais e filhos(as) sobre sexualidade suas filhos(as).
deveria ocorrer desde a infância até a adoles- Dialogar sobre sexualidade não se constitui
cência e que a educação sexual deve ser grada- em uma tarefa fácil. No entanto, se comparar-
tiva e constante, considerando-se as particula- mos os relatos de algumas mães referentes à
ridades de cada adolescente. sua própria adolescência com a forma como
É importante ter presente que, para as elas afirmam abordar o tema atualmente com
mães, existem diferenças na abordagem do seus/suas filhos(as), pode-se dizer que houve
tema, considerando-se o gênero do(a) filho(a) muitos avanços nesse sentido. Os relatos de al-
adolescente. A maioria das participantes refe- gumas participantes podem ser considerados
riu ter mais facilidade para conversar com as bons exemplos de superação, uma vez que,
filhas do que com os filhos. Apesar de relata- apesar da dificuldade inegável e do sentimen-
rem dificuldades e sentimentos de despreparo to de despreparo para se falar sobre esse tema
e vergonha para conversar sobre sexualida- com os(as) filhos(as) e da vivência de um pas-
de com os meninos, as mães pareciam estar sado marcado por tabus e silêncio em relação
realizando tentativas para tanto. No entanto, ao tema, a maioria das mães pareceu se esfor-
segundo as participantes, os filhos pareciam çar para abrir-se para essa questão, buscando
fugir do assunto, como se já soubessem o sufi- conduzir isso de forma diferente da realizada
ciente e pareciam ter vergonha de falar com as por seus próprios pais e, assim, fazer diferente

190 Contextos Clínicos, vol. 9, n. 2, Julho-Dezembro 2016


Sabrina Dal Ongaro Savegnago, Dorian Mônica Arpini

com seus filhos e filhas. Nesse sentido, desta- KNAUTH (eds.), O aprendizado da sexualidade:
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