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OEstudo do Desenvolvimento Humano MUDANÇA DE POÚTICA: Violência da Comunidade e Crianças


A Perspectiva do Desenvolvimento por Toda a Vida Agressivas
Três Domínios Predominantes do Desenvolvimento Humano Estudo das Mudanças Ocorridas ao Longo do Tempo

Contextos e Sistemas Ética e Ciência


Contextos que se Sobrepõem As Implicações das Pesquisas
UMA PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO POR TODA A VIDA: Idade Novamente a História de David
e Pobreza Olhando para a Frente
EM PESSOA: A História de David
A Pessoa no Contexto dos Sistemas
Você está prestes a iniciar uma fascinante jornada por todos os
OEstudo do Desenvolvimento como Ciência
estágios da vida humana. Este capítulo servirá como um tipo de
Etapas do Método Científico guia, delineando seu trajeto pelo livro e deixando você familia-
Algumas Complicações rizado com o terreno. Falando de maneira mais específica, ele
lhe apresentará os objetivos e valores que definem o estudo ci-
Métodos de Pesquisa entífico do desenvolvimento humano e indicará as premissas
Observação subjacentes, os principais temas e as aplicações práticas de cada
RELATO DE PESQUISA: O Envolvimento Social das Crianças de 4 Anos ciência. Mas o desenvolvimento humano na verdade não se dá
como um movimento de massa, e sim de maneira individual -
OExperimento uma .p essoa e um passo de cada vez. Sendo assim, para começar
Outros Métodos de Pesquisa nossa jornada, eti gostaria de apresentar-lhe a urna pessoa em
desenvolvimento, David, filho <le meu irmão.

O ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO


David é solteiro, formado em faculdade, e está com trinta e pou- A maior parte deste livro trata do desenvolvimento no seu
cos anos, um detalhe cronológico que pode levar algumas pes- aspecto mais comum - os.padrões habituais de crescimento e
soas a conjecturarem sobre quando ela vai se casar e se estabele- modificações que todos cumprem de uina certa forma mas que
cer. Mas eu me interesso mais pelo seu passadó do que pelo seu riinguém segue exatamente. Mas a história de David é contada
futuro, e fico surpresa com sua vida atual. Comó a maioria das neste capítulo por dois motivos:
pessoas, David tem uma farm1ia que·vem cuidando dele desde
seu nascimento; escolas e professores que extraíram o que ele 11 Primeiro, as lutas e as vitórias de David oferecem um bom
tinha de melhor, e às vezes de pior; e uma vida social com cole- exemplo do objetivo subjacente do estudo do desenvolvimento
gas e uma comunidade que lhe próporcionam alegria e desgostos. , humano: ajudar o indivíduo a desenvolver sua vida da maneira
Um detalhe de seu tempo de faculdade pode parecer familiar a mais completa possível. ·
alguns de vcx;ês. Como segundanista, criticado em presença de toda 11 Segundo, o exemplo de David ilumina de maneira inusitada-
a sua turma, ele reagiu faltando a todas as aulas, logo sendo elimi- mente vívida as definições básicas e as perguntas centrais que
nado por reprovação, e passando mais de um ano em casa fazendo compõem a estrutura do nosso estudo.
biscates antes de retomar aos estudos. Com grande esforço, David
finalmente conseguiu receber seu diploma, completando o último Assim COJlO o súbito ingresso em u~_a cultura que não seja
ano com média 3,7. Como ele disse: "A própria faculdade era uma familiar nos torna mais conscientes das nossas próprias rotinas
das minhas dificuldades, mas voltei em grande estilo." diárias, hábitos e valores - dos quais em geral não nos damos
A verdade é que a faculdade era o menor de seus desafios. conta exatamente por serem tão familiares - a história de Da-
David começou a vida com tantas barreiras, que uma existência vid também ressalta os principais fatores que influenciam o de-
normal parecia impossível. Seus primeiros anos, a infância e a senvolvimento humano no seu aspecto mais comum. Começa-
adolescência foram repletos de obstáculos quase intransponíveis remos, portanto, pelas idéias que delineiam nosso trabalho e
e, muitas vezes, dolorosos. depois retornaremos a David. ·
Introdução 3

A PERSPECTIVA DO DESENVOLVIMENTO POR TODA A VIDA


Definido sucintamente, o estudo científico do desenvolvimento rociência, economia, medicina, antropologia, história e outras
humano é a área de conhecimento da psicologia que busca com- _____ - fornecem dados e idéias ao estudo do desenvolvimento.
·preender como e por que as pessoas se modificam, e como e por \ • Plástico: cada indivíduo, e cada característica de cada indiví-
que elas permanecem as mesmas '{los vários momentos de sua \ duo, podem ser alterados em qualquer ponto da vida.
vida, à medida que envelhecem,(Na perseguição desse objetivo, · [Baltes et. al., 1998; Smith & Baltes, 1999]
examinamos todos os tipos de modificações que encontramos -
simples crescimento, transformação radical, melhorias e declí-
Esta última característica, a plasticidade, ou a capacidade de
..
#

mo~c~çl!~>. é u_iµa_d~ diretrfres-riifils ~adoras da perspec-


nio -=·e quaisqu_e r elementos que permaneçam os mesmos, pro-
porcionando continuidade dia após dia, ano após ano ou geração
-tivã ·d a vida em estágios. O termo-piasticidtide denota dois as-
após geração. Consideramos fatores que vão de elaborados có- pectos complementares do desenvolvimento: as características
humanas podem ser moldadas em diferentes formatos (como
digos genéticos que estabelecem os fundamentos do desenvol-
acontece com o plástico), embora as pessoas (também como o
vimento humano às incontáveis experiências particulares que
plástico) mantenham uma certa durabilidade e substância de ano
modelam e refinam o desenvolvimento, desde o impacto da vida
para ano. Quando se trata de uma vida humana, nada é esculpido
pré-natal até as influências da farrulia, da escola, dos grupos de
em pedra para sempre. As pessoas estão sempre evoluindo, com
colegas e da comunidade no decorrer da vida. Examinamos tudo
taxas, graus, aspectos e rumos específicos de sua evolução sendo
à luz dos sempre cambiantes contextos social e cultural.
muito mais variáveis do que os cientistas jamais puderam supor.
O estudo do desenvolvimento humano não abrange somente
Estamos sempre conscientes das possíveis implicações e apli-
todos os períodos da vida como também utiliza uma perspecti-
cações de nosso estudo. Na verdade,
va por toda a vida, inclusive a primeira infância (Dixon & Lemer,
1999; Smith & Baltes, 1999). Na verdade, na "conexão recípro- o estudo do desenvolvimento originou-se da necessidade de
ca" entre o estudo da infância e da idade adulta (Baltes et al., se resolverem problemas práticos e ... de pressões para me-
1998), a perspectiva da vida em estágios ajuda-nos a ver fontes lhorar a educação, a saúde, o bem-estar e a situação legal das
de continuidade desde o início da vida até o final (como sexo crianças e de suas familias (Hetherington, 1998).
biológico, farrulia de origem e, talvez, personalidade) e de des-
continuidade (como as habilidades da fala na infância, e os há- Em virtude de ser uma ciência, o estudo do desenvolvimento
bitos saudáveis na idade adulta). humano obedece às regras objetivas da evidência. Como trata da
A perspec t:J.•va da VI"da em es-er
tiio-ios n a verdade consi"dera c·mco vida e do crescimento humanos, também apresenta implicações
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uueren tes caractens , n·cas de desenvolVllll.ento, cada uma das quais · e aplicações pessoais. Começa na infância, mas os mesmos prin-
,e exemplificada no corpo d este texto. 0 desenvolVllll.ento e: , cípios básicos se aplicam desde o momento da concepção até o
último suspiro. ,...... -. ,-, .-L:' , . . : ·1
• Multidirecional: a modificação nem sempre é linear. Ganhos Essa interação dos ·a spectos ·objetivos e·súbjetivos, da modi-
e perdas, compensações e déficits, crescimento previsível e ficação e da continuidade, do individual e do universal, do jo-
transformações inesperadas fazem parte da experiência hu- vem e do velho e do passado, do presente e futuro toma o estudo
mana. do desenvolvimento um estudo dinâmico, interativo e até mes-
• Multicontextual: cada vida humana deve ser entendida como mo transformador. De todas as ciências, o estudo do desenvol-
pertencente a muitos contextos (descritos mais adiante neste vimento humano é a menos estática, a menos previsível e a me-
capítulo ). nos estreita. E também apresenta o objetivo mais nobre: "expli-
• Multicultural: para conhecer os aspectos universais e especí- car, avaliar e promover as mudanças e o desenvôfVinlentÕ" (Ren-
ficos do desenvolvimento humano, muitas configurações cul- :- iünger &. Amsél, 1997). Em outras palavras, os cientistas do
turais - cada qual com um conjunto distinto de valores, tra- ! desenvolvimento procuram não só conhecer e medir as modifi-
dições e recursos para a vida - devem ser consideradas. : cações humanas por todos os estágios da vida mas também uti-
• Multidisciplinar: muitas áreas acadêmicas - especialmente . lizar seu conhecimento para ajudar todas as pessoas a desenvol-
psicologia, biologia, educação e sociologia, mas também neu- verem seu pleno potencial humano .
. : '

TRÊS DOMÍNIOS PREDOMINANTES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO


,
No esforço de organizar esse estudo de tantas facetas, muitas nitivo) e seu temperamento (domínio psicossocial), bem corr
vezes dividimos o desenvolvimento em três grandes domínios. dezenas de outras características do desenvolvimento perte...
O domínio biossocial inch,Ii o cérebro e o corpo, bem como as centes aos três domínios predominantes. De modo semelhante,
modificações que neles ocorrem e as influências sociais que as o conhecimento de um adolescente exige o estudo das modifi-
direcionam. O domínio cognitivo inclui os processos do pensa- cações físicas que marcam a transição do corpo de criança para
mento, as aptidões de percepção e o domínio da linguagem, além o de adulto~ o a,esenv~lvimento intelectu_a.J que leva à capaci-
das instituições de ensino que os estimulam. O domínio psicos- dade de rac1oc'mar logicamente sobre questões como a paixão
social inclui as emoções, a personalidade e as relações interpes- sexual e os objetivos do futuro, e os padrões emergentes de
soais com os membros da farrulia, com os ainigos e com a co- amizade e namoro que preparam o indivíduo para os relacio-
munidade em geral. (Veja Fig. 1.1.) namentos íntimos da idade adulta.
Os três domínios predominantes são importantes em todas Em termos práticos, considerando-se urna determinada- mo-
as idades. Por exemplo, conhecer uma criança implica estudar dificação do desenvolvimento, nem sempre é fácil decidir a qual
sua saúde (domínio biossocial), sua curiosidade (domínio cog- domínio predominante ela pertence. Onde devemos colocar a fer- ·

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t 4 . Introdução

Fig. 1.1 Os Três Domínios Predominantes. A divisão do desenvolvimento humano em três domínios predominantes torna mais fácil estudá-lo, mas lembre-
se de que pouquíssimos fatores pertencem exc lusivamente a um domínio ou a outro. O desenvolvimento não se divide em partes, mas é holístico: cada
domín io do desenvolvimento tem relação com todos os três domínios predominantes.

tilidade e a infertilidade, ou as crenças religiosas, ou a aposenta- Por conseguinte, embora o estudo do desenvolvimento seja
doria? Se você acha que devem ser incluídas no domínio biosso- organizado em domínios predominantes e depois segmentado por
cial, no cognitivo e no psicossocial, respectivamente, você está faixa etária, o estudioso do desenvolvimento está sempre cons-
de acordo com a colocação desses tópicos neste livro. Mas você ciente de que o desenvolvimento é holístico. Isto significa que
provavelmente percebeu que sempre existem sobreposições. Por cada pessoa cresce como um todo integrado, embora os diferen-
exemplo, uma pessoa pode aposentar-se por motivos biológicos tes domínios do seu desenvolvimento sejam estudados separa-
e cognitivos ou por questões sociais. damente pelos cientistas em diferentes disciplinas acadêmicas.

CONTEXTOS E SISTEMAS
Com freqüência pensamos no desenvolvimento como tendo ori- os sistemas ecológicos, ou contextuais, em que cada ser humano
gem dentro da pessoa-resultado de fatores internos como pro- tenta desenvolver-se.
gramação genética, maturação física, crescimento cognitivo e in- Esta visão da importância dos sistemas de desenvolvimento
clinação pessoal. No entanto, o desenvolvimento também é am- integra-se à perspectiva da vida em estágios. O psicólogo do
plamente influenciado por forças externas à pessoa, pelas circuns- desenvolvimento Urie Bronfenbrenner foi um dos primeiros a
tâncias físicas e pelas interações sociais que proporcionam in- descrever os vários sistemas que envolvem cada pessoa em de-
~entivos, oportunidades e passagens para o crescimento. Consi- senvolvimento (veja Fig. 1.2). A idéia principal é que as influ-
foradas em conjunto, grupos dessas forças externas formam os ências dentro e entre esses sistemas ou contextos são multidire-
7ontextos, ou sistemas ou ambientes, nos quais o desenvolvimen- cionais e interativas.
:o ocorre. Assim como o naturalista que estuda uma flor ou um Esta idéia é expressa com mais clareza em duas teorias das
Jeixe precisa examinar os ecossistemas que dão suporte a esse ciências naturais, a teoria da complexidade e a teoria do caos.
Jrganismo, os estudiosos do desenvolvimento têm que estudar Essas teorias salientam a imprevisibilidade e o dinamismo de


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'
-
1ntrodução 5

FB.milia Sala de
AU.la

Grupo de
Religiosa Colegas ·

Fig. 1.2 O Modelo Ecológico. Segundo o pesquisador do desenvolvimento Urie Bronfenbrenner, toda pessoa é significativamente afetada pelas in teraçõe3
entre alguns ecossistemas que se sobrepõem . Microssistemas são aqueles que de modo detalhado e imediato moldam o desenvolvimento humano. Os
principais microssistemas para as crianças incluem a família, o grupo de colegas , a turma de sala de aula, os vizinhos e, às vezes, uma igreja, um templo
ou uma mesquita . As interações entre os microssistemas, como quando pais e professores coordenam esforços para educar a criança, ocorrem através do
mesossistema. Envolvendo os microssistemas está o exossistema, que inclui todas as redes externas, tal como as estruturas comunitárias e os sistemas
educacionais, médicos, de empregos e de comunicações locais, que exercem influência sobre os microssistemas. Influenciando todos os outros sistemas
está o macrossistema, que engloba valores culturais, filosofias políticas, padrões econômicos e condições sociais. Recentemente, Bronfenbrenner acres-
centou outro sistema, o cronossistema, para salientar a importância do tempo histórico. Juntos, esses sistemas são denominados contexto do desenvolvi-
mento humano.

todos os sistemas naturais. Urna mudança de temperatura no efeito não só em urna pessoa mas também em outra pessoa mui-
oceano Pacífico, por exemplo, pode provocar urna nevasca na to distante. Como disse um cientista:
Nova Inglaterra. Na verdade, consideradas as condições corre-
tas, o bater de asas de urna borboleta em um continente pode Não existe urna forma única de explicar o que é a percepção.
causar um furacão em outro - fenômeno chamado de efeito O sistema próprio de cada indivíduo reflete um número infi-
borboleta. Isto também se !;!Plic~ aos pensamentos e às ações nito de rnicrossistemas fractais e é interligado em cada nível
humanas: uma pequenina modificação pode ter um profundo com outros aspectos da biosfera [Arden, 1998].

CON1EXTOSQUESESOBREPÕEM
Corno se pode imaginar, nem em um livro nem na vida cotidia- bater de asas provoca urna grande mudança, e como um violento
na é possível considerar ao mesmo tempo todos os fatores con- desastre que às vezes não é suficientemente forte para alterar o
textuais que podem apresentar qualquer aspecto particular do de- curso da vida de um indivíduo.
senvolvimento. Ao longo deste livro, examinaremos muitos des- No início, todavia, precisamos descrever e definir três con-
ses fatores, explorando as maneiras pelas quais os contextos es- textos que podem afetar praticamente todos os indivíduos em
pecíficos tendem a impelir o desenvolvimento nesta ou naquela cada fase do seu desenvolvimento: o contexto histórico, o con-
direção. Eles são todos interativos e recíprocos, e com urna pe- texto socioeconôrnico e o contexto cultural. Como a Fig. 1.3 in-
quena modificação tomam-se às vezes corno a borboleta cujo dica, esses três contextos não atuam isolados.
r 6 1.;itrodução

Fig. 1.3 Contextos dentro de Contextos. Três amplos contextos dentro do contexto social - a história, a condição socioeconõmica e a cultura - afetam de
muitas maneiras o desenvolvimento das crianças. As vezes de modo distante, às vezes diretamente, às vezes individualmente e às vezes de maneira com-
binada . Como esses três conceitos se sobrepõem, muitas vezes é impossível determinar se um efeito em particular provém da coorte, da classe social ou
da herança étnica.

Ü CONTEXTO HISTÓRICO mulher) promoveram independência e reivindicações. Outra


explicação é que certas invenções, entre elas a pílula anticoncep-
Todas as pessoas nascidas com poucos anos de diferença entre cional, a televisão e o computador, modificaram o significado
si são consideradas pertencentes a uma coorte, um grupo de do trabalho e da farru1ia. Outra explicação ainda é que essa coor-
pessoas cujas idades próximas significam que elas passam jun- te foi o "baby boom" - o grande número de crianças nascidas
tas pela vida. A idéia é que todas as pessoas de uma determinada na década que se seguiu à Segunda Guerra Mundial - e esse
coorte estejam sujeitas ao mesmo histórico - os mesmos aspec- grande número os convenceu de que eles poderiam ter seu pró-
tos predominantes, os mesmos eventos públicos importantes, as prio rumo (Alwin, 1997). O tamanho da coorte também faz parte
mesmas tecnologias e tendências populares. A maneira como a do contexto histórico.-A estrutura-etária da populaÇão americana
'listória afeta a vida e o pensamento de uma pessoa específica modificou-se enormemente através dos anos, e a imensa coorte
iepende em parte da idade que essa pessoa tinha quando da ocor- composta pela geração da explosão demográfica pós-guerra, tem
~ência de um dado evento. As pessoas de uma determinada co- sido uma característica manifesta dessa modificação (veja Fig. L4).
)rte tendem a ser afetadas da mesma maneira; as de coortes di-
'erentes geralmente são afetadas de qiodo distinfo. Valores como Construção Social. À medida que profundas
Por exemplo, suas atitudes em relação a dinheiro, casamento modificações econômicas, políticas e tecnológicas ocorrem no
m privacidade pessoal são as mesmas de seus pais e de seus avós? decorrer dos anos, as idéias básicas sobre como as coisas "deve-
>ara eles, a educação superior pode ter muito mais valor do que riam ser" são influenciadas por como as coisas eram antes que
iara você. Tais atitudes e valores são afetados pelas condições tais modificações tivessem ocorrido. Além disso, muitas vezes
conômicas e sociais que predominam quando a pessoa atinge a descobrimos que um ou outro de nossos pressupostos mais apre-
fade adulta- seja durante a depressão dos anos 1930, durante ciados sobre como as coisas deveriam ser não é um fato real e
•S afluentes anos 1950 ou na financeiramente instável década de sim uma construção social - uma idéia construída mais sobre
990. Na verdade, para os adultos de todas as idades, os eventos as percepções compartilhadas por uma sociedade do que sobre
o final da adolescência e dos primeiros anos da fase adulta ten- uma realidade objetiva. À proporção que as modificações ocor-
em a ser os mais significativos e memoráveis (Rubin, 1999). rem, nossas idéias básicas sobre as coisas tendem a mudar. Hoje
Outro exemplo do efeito da história: os adultos de hoje, que mesmo, por exemplo, estamos no meio de uma mudança em
ram adolescentes nos anos 1960, podem ser política e pessoal- nosso pensamento sobre computadores, e essa mudança está
1ente mais independentes e menos passivos do que os adultos ocorrendo em coorte por coorte. As coortes mais velhas tendem
1ais velhos ou mais jovens. Uma possível explicação é que as a considerar os computadores objetos a serem temidos e domi-
rcunstâncias históricas de sua juventude (o movimento pelos nados; as coortes médias os vêem como ferramentas poderosas,
ireitos civis, a guerra do Vietnã, o movimento de liberação da e as mais jovens os vêem como não mais notáveis do que esco-
Introdução 7

vas de dentes ou bicicletas. Em parte, cada coorte está certa; cada 0 CONTEXTO SOCIOECONÔ:MJCO
qual tem sua própria construção social.
Mesmo as idéias mais básicas sobre o desenvolvimento hu- - Uma segunda importante influência contextual é a condição
mano podem mudar. Nosso próprio conceito de infância, por socioeconômica, (doravante abreviada como CSE), às vezes
exemplo, como um estágio precioso e extenso da vida, é uma usada indistintamente como "classe social" (como em "classe
construção social. Em muitos contextos históricos, as crianças média" ou "classe trabalhadora"). A CSE faz parte do contexto
só recebiapi cuidados até poderem cuidar de si mesmas (com social porque influencia muitas das interações sociais e oportu-
cerca de ?-anos de idade). Em seguida, ingressavam no mundo nidades que uma pessoa possa ter.
adulto, trabalhando no campo ou em casa e-despendendo o tem- _A condição s_QcioeconôIDj_ç_a não é simplesmente uma ques-
po de descanso envolvidos nas atividades dos já crescidos. Mais tão de quão rica ou pobre uma pessoa é. A CSE é avaliada com
tarde, a construção social de que as crianças nascem corno "an- maior exatidão por meio de uma combinação de algumas variá-
jinhos" levaria a uma educação infantil inteiramente diferente da veis que se sobrepõem, incluindo a renda familiar, o nível de ins-
idéia antes aceita de que os adultos tinham de "expulsar o demô- trução, o tipo de moradia e a ocupação. A CSE de urna famHia
nio das criancinhas" para torná-las boas, adultos tementes a Deus . americana constituída de, digamos, uma criança, uma mãe de-
(Hwang et al., 1996; Straus, 1994). sempregada e um pai trabalhador que ganha 10.000 dólares por
O conceito histórico de desenvolvimento é, portanto, algo em ano pertenceria à classe baixa se o assalariado fosse um lavador
contínua mudança, porque "diferenças no ano de nascimento ex- de pratos sem instrução, morador de um bairro pobre. Essa mesma
põem as pessoas a ... diferentes prioridades, restrições e opções" farnHia seria de classe média se o assalariado fosse um estudante
(Elder et al., 1995). Se você, por exemplo, foi estudante do se- universitário que vivesse no campus e lecionasse em tempo parci-
gundo grau nos Estados Unidos no final dos anos 1970, você tem al. O ponto principal desse exemplo é que a CSE não é apenas fi-
três vezes mais probabilidades de ter sido usuário regular de nanceira: ela engloba todas as vantagens e desvantagens e todas as
maconha do que se tivesse 18 anos nos Estados Unidos no início oportunidades e limitações que podem estar associadas à condição
dos anos 1990 (Johnston et al., 1997). Os hábitos referentes a do indivíduo. A classe social é muito mais um produto da mente
consumo de drogas se alteram (cada vez mais, em menos tem- do que do bolso, muito mais o resultado das disparidades sociais
po) com cada geração de adolescentes, como explicaremos me- do que da renda pessoal, como explica o boxe Idade e Pobreza.
lhor no Cap. 14. De maneira análoga, cada nova geração define
sua chegada histórica nesta faixa etéria com roupas, modo de 0 CONTEXTO CULTIJRAL
cortar o cabelo, gírias e valores característicos. Músicas popula-
res que já foram o máximo hoje são sucessos do passado. Um A cultura é o terceiro aspecto componente do contexto social.
adolescente de 15 anos que rejeita a orientação de um adulto de Quando empregam o termo cultura, os cientistas sociais estão
30 com a frase "Você não entende; hoje está tudo diferente" se referindo a centenas de manifestações específicas do modo de
expressa algo mais do que um pouco de verdade. vida de um grupo social, desenvolvido durante os anos para pro-

~ig._ 1.4 OInchaço Populacional Causado pela Geração da Explosão Demográfica Pós-Guerra. Diferentemente de épocas anteriores, em que cada geração era
ligeiramente menor que aquel~ que lhe suc_e?ia, cada coorte hoje tem uma posição exclusiva determinada pelos padrões de reprodução da geração pre-
cedente e pelos avanços ocorridos na íl!ed1c1na ao longo do seu período de vida. Em decorrência desses dois fatores, os baby-boomers, nascidos entre
1947 e 1964'. representam um grande inchaço na população dos EUA. Dentro de mais três décadas, a linha de frente da geração do baby-boom em
grande parte intacta, começará a ingressar no grupo etário mais elevado. '

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8 Introdução

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porcionar uma estrutura social para a vida em comum. A cultura dos. Aqui está um exemplo: em muitas comunidades agrícolas
inclui valores, pressupostos e costumes, bem como coisas físi- em desenvolvimento, as crianças constituem um recurso eco-
cas (vestuário, moradia, modo de preparar a comida, tecnologia, nômico porque trabalham na fazenda da fanu1ia e, mais tarde,
trabalhos artísticos etc.). O termo "cultura" às vezes é utilizado perpetuam a unidade familiar permanecendo na terra, gerando
livremente, como em "a cultura da pobreza'\ "a cultura das cri- e criando seu1-próprios filhos e cuidan?o dos idosos. Desse
anças'', ou em "a cultura da América". Contudo, sempre que a modo, cada bebê que nasce beneficia todo o grupo familiar. Se
cultura é considerada parte do contexto social, a ênfase é posta essa comunidade familiar também for pobre e depender da agri-
mais nos valores, nos comportamentos e nas atitudes do que nos cultura de subsistência, a nutrição e os cuidados médicos são
alimentos, nas roupas e nos objetos do cotidiano. inadequados. Em conseqüência, a mortalidade infantil é eleva-
da - uma séria perda para a unidade familiar. Assim, o cuida-
Culturas: Pobre e Rural, Rica e Urbana. A cultura orienta o do com as crianças destina-se a maximizar a sobrevivência e
desenvolvimento humano em inúmeros rumos inter-relaciona- enfatizar a cooperação familiar. Os aspectos comuns dos cui-

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lntroduçãc 9

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dados com as crianças nas comunidades rurais pobres abran- Os pais de classe média nos países pós-industriais não preci-
gem: sam ter tanto receio de que seus bebês morram, mas têm outras
preocupações. Eles acham que seus bebês necessitam de berço,
• cuidados físicos intensivos
carrinho, fraldas, cadeira alta, assentos para automóveis e brin-
• amamentação ao peito sempre que solicitada
quedos -}{idos itens bastante caros._Mesmo os alimentos, os
• imediato atendimento ao choro
cuidados infantis e o abrigo são muito mais caros em uma co-
• estreito contato físico
munidade urbana do que em uma rural, e esse é um dos motivos
• manutenção do bebê ao lado da mãe durante a noite
pelos quais a maioria das mulheres dos países desenvolvidos quer
• cuidado constante por parte dos irmãos e de outros parentes
ter apenas um ou dois filhos e as mulheres dos países em desenvol-
Todas essas medidas protegem a criança de morte prematura e vimento desejam três a cinco (Tsui et al., 1997). O resultado para
estabelecem o valor da interdependência entre os membros da os pais urbanos não vem quando a criança começa a cuidar das ove-
farru1ia (LeVine et al., 1994). lhas, e sim quando o rapaz consegue um emprego de prestígio~
•l O Introdução

ferentes. Mas, em todas as culturas, as crianças tomam-se pre-


@ Especialmente para Profissionais da Area de Saúde: Qual você acha que
seria a principal preocupação quanto aos recém-nascidos no caso de uma .pl!Iadas para assumir seu lugar no grupo social e na estrutura
família recém-emigrada de um país em desenvolvimento? E no caso de uma econômica em que foram criadas (Coles, 1999; Harkness & Su-
família em que os pais nativos sejam profissionais bem pagos? per, 1995).

Desta forma, com a esperança de garantir o sucesso dos fi- Etnia e Cultura. Um grupo étnico é um conjunto de pessoas
lhos em uma sociedade tecnológica e urbanizada, os pais de classe · que compartilham certos atributos, como ancestralidade, nacio-
média concentram seus esforços de educação das crianças em es- nalidade, religião~ou língua. Em conseqüêr~cia, os componen-
timular o crescimento cognitivo e a independência emocional. tes de uri1 grupo ltnico tendem a se reconhecer e se identificar
Eles falam com seus bebês mais do que os tocam, colocam-nos entre si e têm contatos diários semelhantes com o mundo social.
para dormir por si mesmos em seus próprios berços em seus pró- A identidade racial pode ser considerada um elemento da etnia.
prios quartos, e muitas vezes ignoram os queixumes, o choro e Na verdade, algumas pessoas de fora entendem que pessoas de
pedidos de colo para não os "estragar". mesma formação racial também pertencem ao mesmo grupo ét-
Não surpreende que estratégias paternas tão contrastantes nico. Entretanto, como os cientistas sociais ressaltam enfatica-
gerem crianças com capacidades, objetivos e expectativas tão di- mente, características biológicas (como a cor dos cabelos ou da
tntrodução 11

pele, traços faciais e aspectos corporais) que distinguem uma raça péia e indígena, unidas por uma língua e uma terra natal comum
de outra são muito menos significativas do que as atitudes e as , como elementos-chave de sua etnia.
experiências que podem originar-se da consciência étnica ou A etnia é semelhante à cultura em termos de que abrange pes-
racial, principalmente as que resultam de situações de minoria soas com crenças, valores e pressupostos compartilhados, que po-
ou de maioria (Templeton, 1998). dem afetar significativamente seu próprio desenvolvimento da
A identidade étnica, portanto, não é essencialmente genética; mesma maneira como criam seus filhos. Na verdade, às vezes etnia
ela é um produto do ambiente social e da percepção individual. e cultura se sobrepõem. Contudo, pessoas de muitos grupos étnicos
Duas pessoas podem parecer parentes próximas mas terem for- podem comp~ar uma só cultura e conservar sua identidade ét-
mações, heranças e estruturas comunitárias inteiramente diferen- nica. Dentro dê culturas multiétnicas, como as dos países mais ex-
tes e portanto terem identidades étnicas também completamente tensos de hoje em dia, as diferenças étnicas são mais evidentes em
diferentes. Duas pessoas também podem ser muito diferentes na certos valores e costumes. Alguns exemplos desses valores depen-
aparência mas compartilharem uma identidade étnica. Isso é dem de se os jovens são criados em farru1ias grandes e numer"
bastante evidente em muitos grupos étnicos da América Latina. sas, ou em núcleos familiares menores, e se cada geração v
Esses grupos incluem pessoas de descendência africana, euro- mete à vontade dos mais velhos ou reivindica sua aut-
12 .1ntrodução

A PESSOA NO CONTEXTO DOS SISTEMAS


Como cada indivíduo se desenvolve dentro de muitos contextos, é tes, e nossas diferenças individuais exigem tanto respeito e exa-
obviamente importante conhecer o impacto especial que cada con- me científico quanto cada coisa em comum que nos vincula a um
texto representa. Mas não corneta o engano de pensar que uma determinado grupo. Cada um de nós, na verdade, é um ativo
pessoa de um contexto ou sistema é como uma peça de urna má- participante de cada sistema que nos inclui. Nós contribuímos
quina complexa. Não se pode explicar os traços de personalidade, para a história de nossa coorte, ajudamos a forjar nossas circuns-
as aptidões ou ações em termos de um único contexto. Ninguém é tâncias econômicas e construímos nossos próprios propósitos a
exatamente igual à pessoa estatisticamente "média" de sua coorte, partir da nossa formação cultural (Rogoff, 1997; V alsiner, 1997).
condição socioeconôrnica ou cultura. Isso acontece porque todos Esse poder de desenvolvimento individual é bem exemplificado
são puxados em direções divergentes por muitas influências con- por David, cuja história nos fala a respeito dos vários contextos
textuais, cuja força varia de indivíduo para indivíduo, de idade para que afetaram seu desenvolvimento enquanto ao mesmo tempo
idade, de situação para situação e de farru1ia para família. revela a singularidade de cada ser humano (veja o boxe A Histó-
Cada um de nós difere de maneiras insuspeitadas de quais- ria de David).
quer estereótipos ou generalizações que possam parecer pertinen-

O ESTUDO DO DESENVOLVIMENTO COMO CIÊNCIA


Como o caso de David deixa bastante claro, o estudo do desen- todos esses fatores não é simples. Para ajudar no avanço através
volvimento exige que se leve em consideração a interação dos dessa complexidade, os estudiosos do desenvolvimento adota-
aspectos biossocial, cognitivo e psicossocial, dentro de um par- ram uma metodologia científica.
ticular período histórico específico, sob a influência de forças O m étodo científico é um caminho geral de busca de evidên-
contextuais familiares , socioeconômicas, culturais e outras. cias - .não um pensamento tendencioso -para responder a per-
Como já era de se esperar, a avaliação do impacto relativo de guntas.

ETAPAS DO MÉTODO CIENTÍF1CO


O método científico aplicado ao estudo do desenvolvimento 5. Disponibilizar as descobertas. A publicação dos resultados
envolve quatro etapas básicas, e às vezes uma quinta: da pesquisa muitas vezes é a quinta etapa do método científi-
l. Formular uma pergunta de pesquisa. Com base em uma pes- co. Nessa etapa, descrevem-se ·o procedimento e os resulta-
quisa prévia, em uma teoria específica ou na observação pes- dos com suficiente riqueza de detalhes para que outros cien-
: soal, apresente uma pergunta sobre desenvolvimento. tistas possam avaliar as conclusões. Se desejarem," outros ci-
2·. Desenvolver uma hipótese. Reformule a pergunta como uma entistas podem reproduzir a pesquisa - isto é, repeti-la e
hipótese, que é uma previsão específica que pode ser testada. verificar os resultados - ou estendê-la, utilizando um dife-
3. Testar a hipótese. Esboce e conduza um projeto de pesquisa rente conjunto correlato de objetos (pessoas que são estuda-
que forneça ~vidências - em forma de dados - sobre a ver- das) ou de procedimentos. A reprodução e a extensão são os
.dade ou falsidade da hipótese. meios pelos quais novos estudos científicos produzem conhe-
4. Tirar conclusões. Utilize os dados de pesquisa como evidên- cimentos mais definitivos e abrangentes. Somente depois que
cia qu,e confirme ou refute a hipótese. Descreva quaisquer li- vários estudos verificaram as descobertas de um determinado
mitaçõês da pesquisa e quaisquer explicações alternativas para projeto de pesquisa é que uma conclusão pode ser considera-
- -os resultados. . da confirmada e aceita como "consi~tehte", ou côriíprovada.

ALGUMAS COMPLICAÇÕES
Na .p rática atual, a investigação.científica é menos direta do que 8' Resposta da Pergunta para Profissiona.is da Area de Saúde: Como se pode
essas cinco etapas podem sugerir. Os vínculos entre pergunta, depreender do texto, a principal preocupação da família imigrante deve ser
hipótese, teste e conclusão são muitas vezes indiretos, e o deli- quanto à sobrevivência física; a da família profissionai pode ser quanto à
neamento e a execução da pesquisa são influenciados pelo (falí- realização intelectual. Pensando nisso, é possível inferir outras perspectivas:
os pais imigrantes teriam mais perguntas sobre nutrição, ganho de peso,
vel) julgamento humano (Bauer, 1992; Howard, 1996). Os va- doenças e choro; e os pais profissionais teriam muitas perguntas sobre a
lores humanos tendem a conduzir a escolha dos tópicos a serem possibilidade de retardamento mental, obtenção de bons cuidados infantis,
examinados, dos métodos que serão empregados e de como se- aprendizagem do idjl.ma e brinquedos educativos ..
rão interpretados os resultados. Reduzir os efeitos desses valores
humanos individuais sobre as pesquisas é sempre um desafio.
Além disso, sempre existe a pergunta sobre se os pesquisa-
dores têm conhecimento de todas as variáveis relevantes - o emprego, a história familiar, a personalidade - a lista poderia
quantidades que podem diferir, ou mudar, durante uma investi- continuar indefinidamente. Ademais, os pesquisadores do desen-
gação. As pessoas variam segundo o sexo, a idade, o nível de ins- volvimento têm de lidar com a variação intrapessoal, que é a
trução, a etnia, a situação econômica, a nacionalidade, os valores, variação dentro de uma pessoa no dia-a-dia, e a variação inter-

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Introdução · 13

pessoal, que é a variação entre pessoas ou entre grupos de pes- Cada uma dessas controvérsias é explicada e explorada em mais
soas. Nem sempre é fácil distinguir esses dois tipos de variação. detalhes neste livro.
Em parte devido a essa complexidade, certas controvérsias Duas outras questões parecem controversas para os que não
permeiam o estudo do desenvolvimento, cada vez com diferentes têm familiaridade com o estudo do desenvolvimento, embora não
problemas e perguntas - e muitas vezes com diferentes respostas: sejam problemas para os estudiosos do desenvolvimento:
• Natureza/criação. Quantos e quais aspectos do desenvolvi- • Religião/ciência. Os dogmas da fé religiosa e os métodos da
mento são afetados pelos genes e quantos o são pelo ambiente? ciência entram necessariamente em conflito?
• Continuidade/descontinuidade. Quanto do crescimento huma- • Indivíduo/sociedade. É possível estudar o indivíduo sem es-
no se constrói gradµalmente_no cfesenvolyimento iniçial e qual tudar a farm1ia, a comunidade e a cultura?
é o nível de transformação que ocorre subitamente?
• Diferença/déficit. Quando uma pessoa se desenvolve de maneira Para essas duas perguntas, a resposta dos cientistas que estudam
diferente da maioria das outras pessoas, em que casos essa dife- o desenvolvimento é negativa Religião e ciência são complemen-
rença deve ser considerada uma diversidade a ser celebrada e tares, não conflitantes (Gould, 1999), e os indivíduos estão inex-
quando ela deve ser vista como um problema a ser corrigido? tricavelrnente envolvidos com seu grupo social (Cole, 1999).

MÉTODOS DE PESQUISA
Entre as perguntas apresentadas pelos cientistas do desenvolvi- tas?), a generalidade (ela se aplica a outras populações e situa-
mento e as respostas que eles encontram está a sua metodologia ções?) e a utilidade (ela pode resolver problemas da vida real?)
- não apenas as etapas do método científico, mas também as das conclusões.
estratégias específicas utilizadas para coletar e analisar dados. Algumas estratégias gerais para tornar as pesquisas válidas,
Essas estratégias são essenciais porque "os meios.pelos quais se acuradas e úteis são descritas no Apêndice A, no final deste li-
tenta esclarecer os fenômenos determinam em grande medida o vro. outras estratégias (significância e correlação estatísticas, por
valor da solução" (Cairns & Cairns, 1994). Em outras palavras, exemplo) serão descritas mais adiante. Por ora veremos méto-
a maneira como a pesquisa é delineada afeta a validade (ela mede dos específicos para o teste de hipóteses: observações, experi-
aquilo que pretende medir?), a exatidão (as medições são corre- mentos, levantamentos e estudos de casos.

ÜBSERVAÇÃO
Um excelente método para testar hipóteses relacionadas ao de- são secundária é uma ligeira tendência para diferenças étnicas
senvolvimento humano é a observação científica - isto é, ob- (veja detalhes no boxe Relato de Pesquisa).
servar e registrar, de maneira sistemática e não-tendenciosa, o
que as pessoas fazem. As observações com freqüência ocorrem
UMA LIMITAÇÃO DA ÜBSERVAÇÃO
em um ambiente natural, como uma residência, um local de tra-
balho ou uma via pública. Geralmente, os cientistas que fazem A observação naturalista é um excelente método de pesquisa,
as observações procuram ser o menos importunos possível, de mas apresenta uma grande limitação: não indica o que provoca
modo que as pessoas que estão sendo estudadas (os objetos da o comportamento observado. Se observarmos que uma mãe es-
pesquisa) ajam como sempre fazem normalmente. panca seus filhos e outra não o faz, ou que um empregado traba-
A observação também pode ocorrer em laboratório. Num local lha com afinco enquanto o outro é um relaxado, por que essas
assim, os cientistas às vezes não se fazem visivelmente presentes; diferenças existem? Alguns estudos, inclusive o descrito no boxe
no compartimento de experiências, eles podem se sentar por trás O Envolvimento Social das Crianças de 4 Anos, mostram que as
de um vidro que lhes permite ver o que acontece sem serem perce- crianças de uma formação étnica não se comportam exatamente
bidos, ou podem registrar dados com uma câmera de vídeo instala- como as de outra formação. Essas diferenças são genéticas, his-
da na parede. No laboratório, os cientistas estudam tópicos que vão tóricas, econômicas ou culturais? Mesmo que houvesse profun-
do padrão e da duração do contato visual entre a criança e a pessoa ' das diferenças entre dois grupos étnicos, a observação naturalis-
que cuida dela aos padrões de domínio e submissão que surgem ta nos permite concluir somente que uma variável (herança étni-
quando toda uma familia discute seus planos de férias. . ca no Relato de Pesquisa) está correlacionada com outra variá-
Como já vimos, entre as influências que os cientistas particu- vel (comportamento social) e não que uma cause a outra.
larmente esperam conhecer estão os efeitos da formação cultu-
ral. A observação naturalista é um bom meio de iniciar uma pes-
CORRELAÇÃO
quisa nesse tópico, porque quando pessoas de diferentes etnias
estão no mesmo ambiente, as diversidades étnicas podem mani- Diz-se que há{orrelação entre duas variáveis quando uma delas
festar-se. Por exemplo, quando são estudadas crianças anglo- tem mais - ou menos -probabilidade de ocorrer quando a outra
americanas e mexicano-americanas das mesmas turmas pré-es- variável ocorre. Por exemplo, existe uma correlação entre ter
colares, a descoberta comum de tal pesquisa é que as crianças posses e freqüentar uma faculdade: quanto mais posses tiver SP'
pré-escolares geralmente se comportam de modo semelhante, não famnia, maior é a probabilidade de que você vá para a facv1 -
importando qual seja a sua ascendência: elas brincam juntas mais A interpretação correta das correlações exige que cl' ·
do que quando estão sozinhas e raramente brigam. Uma conclu- sejam lembrados. Primeiro, o fato de duas variáveis:

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. 14 , Introdução

· ô··&ti·V:OtLV1.Ml N'f O;:'ôe~';(,: ·d·Á:s·'


cijJft.NÇÃs ·oi 4L.AN_ó:S . . .
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Ü'vàlor da observação;tientífic~ ~om~-semrus 'Clílt9 c~m'utii· ~xem~ ~~~a};:~nt~~ q~e a coleta de'.<1,ad~s, tivess~ início"-:,As~?h;~ ~~=-~~ ~:; ~: f' ' . '·
pio. Em lim.esfi!do, pesquisadores éxanrinarrun Çrianças de 4-'anos· çasJá.estavam acostumadas com os observadores quando ·es~reco'.- : .. ' . :-: _ k
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ein'váriós estabêlecinientos pré-escqhrres em niúitàs cigadi;S d9s.es~ ,. lli'úatn dados chillu;ite ·!!$ atividades nprtnais da'Jrréce5çqla: o~ dád,Ps ' .;" ~:' v}
_taâbs Unidos.é dà Europa. Estavam: irtteressadgsnó efeito da quaJi" fórain registrados metodiclllD.eiite: cadâ obse.ry~d!>r 'obSeiv.~V:à'~!k :,: ... ·" .. ~ ºF
dade.do cúidado com as crianças, especiàlmên~e· nas habilidades única criiillǪ dm:anie exatos 30 segimdos e depois gastava ei~tarp.~h- . f;
· soci~s e-lingüístiças tlos, pré~e~(;Olares . . ' . . te 30 Se~db.s para regiStrar O queéaquela criança hà~a ·feitõo-G'.li:(Ía : 1.:
. , De mqdo geral, estudos semelhantes descobriram que a qualida- · obsetvad.or cole~va c!ados sobré unia criança dçrante 1Orriiriutbs ( 1O )_
de do cui<ladô diurno aféta o desenvolvimento.ma&.que os ·reswta::. .. obser-:v.a~ \fe ·30 -~gtin_qos j.nterçé/,Jadas com Çesci;ições .es_ gjRt8 de . . . !:
dos d_~pendem. nã_o só da qualidad.e d?s cui.~cJg~~cg~p tarll~ém_ do ". · 30$egtÍii~()s}e .e~ sê~da'passava p~a out;rà_~aJ}Çli:. de aéó~do com . .,... : · ..:. 1~
respaldo econ()J.IllCo e cultl,J.aj ~ cn~ças (Sca~-,) 9,98t J>or - ~~te Ulllfl ~c?lam~eternru;ia4,a, atéqlJe todas _as cn~_as VIS a~ 1:1,y~_s,e.q:i.- . .., .• I'
m<;itjv~>, antes gue a equipe de' pes91ii.sador\!ffe pu.í!~s';s'e;-repêo/ · ~:~1>_:- sid~: pb~~ry'a~poroitênta per.(ÇJ.los de,30 S,~~~!'?S: é .. _ ,; . -~~, , .. ; . : ;~ : . 1
t~~~e~:pes'éi~Js·a,s, anteripres, eles ;ti~éram d~~te~tID::.Qtltrâ?hi~étes$? P,~nli,atjda?~s_ sdci~~ que ºS.:êientis~ ~ta,Y.~~ü~,c~d~·-~h .. · .,
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.es{lec:ífi,tif~·a,,,pe que a;for:PJ.açao élnJ.capas cn~ç~ áfe:tarjaO:p.odo. . ~~'.si,_d~r· 9p_er:ac10n~ente-d.efµll~ ---..1sto..e;, 51~fllta,S eip. -jlIIla . '· r'

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sol1tana. desocupada ou empenhada tsoladlifilente em uma.afi- . •: ,. . '··

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~W;P~~%~ºe:!:~::!~~~~~Efl~:!~~~inU:~~~~ª~:.~S:!~!· · ·• .· iii.f:{;ffià_:.~~~·óí:vi~~1:.~~:~~~s~~ ·vei:b~~;·'. c~~~á'e~{s~?,~~ · ~ · ;·:-·:.·· ·\. ·f'.
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. <fos. :V~mqs aqiiÍ :Uma ;pequ.ena p,liiie.d.éle, fócáliZªda em~ Ôbsej.y;t- ~ p.iiJ~vr?~~~a~qfl.'~~e1:!d? ou~,;Ç.n~çi:s, discu~,d()~ OU ~):!,.Yl?]~::- . . t ·.
_Ções' íià'tunilis~· i:le 9?5 cnailÇas eliro-afueàcanaS,f:: 96'fatinp-"~eii~. da: e,w::<!p.e~,~.~; ns1c:a~; como beliscpes,.pancaililS;·elI_lpq.rrcx:g;. !.
· cana8;(Farver-8t Frosch;J9,96). · - · . · · · ~~agarrru1~º ?utras _Cf!anǪ5 ~. .- .· · .·• · :.: j.
Cómo Üml). hipótese a ser testada era a influência>da'etni~·gutpis '- . '·. ·- r
O·Procedimentq de Pesquisa variáveis; _coriio-idade,-GSE, sexo, tipo depro'grama e-loc.aliiaç.ão; _ t

DeY.enios ~embrar que a observação'naturaljs..~ ~'W~i:i·~isteriláti~ · ~~=~~~ritl~~é~;:~:~~~r;:~if~'.iÍ~it~~j!Y:'' . .!f-.<;


ca, f.~i~ PS?FllIÍ1 obs_i;:rvador trei.hado:que.sej · · · _. _4iscr$to-qµiw-to . .Metli:Cle:ifos' éotpp:On~iíi.es'<le cadã_grupo.era coJ!ipo§ia::di'niêiljij98;ê, : ·.:
cpo~str~t ~es~e,e~~do!. os p~cjui_~~do!~ d~e . e~-~~g~~~p'c>' . -a ~~,çfâ'.ílie~d~:Çd~~eili?as, é as_crian~as_partj~p!vru;n~~~~úi~~f -~-,·_: >_... .. J
colli!1derável nas ~filas de a:ula faniilianzando-s.e .r1Jnncand.<?·<'..~~· ll;'.' . pos êl~. Pr'lgrru;n~s f Pt~:c::scol;i par!! Cfl.!ffiÇas de:ba.ixar~nél.a,;çr:ec.Jie$, ·-. ·.. , .. · 1:
. -~.. ~; . . . . . r . -~ -~ :; , .·:.< 2
• ...

ionadas não signific(l que elas ocorram juntas em todas as instân- Tabela 1.2 Possíveis Explicações para uma Correlação Positiva
ias. Algumas pessoas abastadas jamais terminam o nível médio, entre Riqueza e Instrução
nquanto muitos estudantes pobres cursam urna faculdade. Possível explicação: Maior renda gera maior instrução.
Segunqo, a corr~l(lção não mostra a causa. Mesmo quando
uas variáveis são estreitamente (ou altamente) correlacionadas, Possível explicação: Maior instrução gera maiqr renda.
ão podemos, e até nem mesmo devemos, dizer que uma delas Possível explicação: Os valores familiares geram renda e instrÍlção.
msa a outra. A correlação entre educação e posses não implica
Conclusão: A correlação indica uma conexão, não a causa.
~cessariamente que possuir mais dillheiro conduza diretamen-
' a maior instrução. O inverso pode ocorrer: pessoas instruídas
Jdem ficar.mais ricas, caso em que a instrução leva a mais pos-
:s,. o que torna a instrução mais acessível aos descendentes de outra. Devido à maneira como a correlação é calculada, o valor
:ssoas ricas. Ou pode haver uma terceira variável, talvez a in- positivo mais elevado de uma correlação é expresso como + 1,0
ligência ou valores familiares, que responda pelos níveis de e o maior valor negativo como -1,0. As correlações mais reais
1ueza e instrução. Essas possibilidades são apresentadas na não são nem tão altas nem tão baixas: uma correlação de 0,5 tem
ibela 1.2. representatividade. Duas variáveis que não são relacionadas en-
Uma correlação é positiva se a ocorrência de uma variável tre si têm correlação zero, ou 0,0 (exatamente entre+ 1,0 e -1,0).
ma mais provável que a outra ocorra, e é negativa se a ocor- No estudo feito na pré-escola descrito detalhadamente no boxe
11cia de uma faz com que seja menos provável a ocorrência da O Envolvimento Social das Crianças de 4 Anos, não temos como

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Introdução 15

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. ~·(' ·.,. ~ ..dos (New!!:[k;·Ú~troit; San fosé e Ms Ahgeles:). : : . .. . bilidade de.os'iêsul~dos refletliêin diferenças reais e não viíriaçõeS
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. : .. ' ... · ~_..; :_ ~e yoc~ fçiss~ _ú ní.dos pesqhl~adores ~i::!Jlados a _esse projeto, . aleatóiias. (ObseP,:e·qbe iW~~a '. 'siin,ifiê.~éia" aqui sigmflca algo
. ; ~penüfaqu~;nêssa sifuação,-ãs rnanças fossem principálm.e1itesol completamente diferente dõ se'u s~ntido)iábifual; ela se refere à va-
'ciãveis, s 0íitiíri~s oir agressivas? Coiiio se·pb<le· ver na Tabela U, tidade dos resuitados êspêCí(icos e rião' a!:> vitlor cientffic6 dó estu-
na foaior'parte do tem~ cisli:s crianças de 4 .anosse relacionavam cfo)De rrio<lo g~ràJ.; ós fêsultàqos ,são êstâtis~camente ~ignificati_.
~oéiai.fu.énteliei;D.. Ná·verdàde, a diférenÇa ei:J.'t{e O tempb médio des" . ,- VÓS Se houVei"rnenos de uma
~~ibilid&de em 20 de que tenll~ OCOF
: pendido_em atlviçlades sociais e solitáflas era significativa. Essa des- ·ridO por acàsq.-=:=--jsto é;~•llÍVel de si~c.ância deJ/20; ou0,05;·
co.berta tem PI9P\lbilidade.'de ser encontrada em todos os grµpos pré- :A.Igun~ r~úÍfàdos sã~ sigrtiÍkaiiv,!)sno riívé1 Q-,0 L(somente 1 pos- ' ge
.. -. escolare-s sêmeíhantes. Tambéril 'podeirio_s:,\;erijgeiras 'diferenças · sibilidadeéiri lQO·âe~ OC:ôrrência poracasq}õu no nível .deO,OQl (1

t' ·'.·~~~~~;~ç;.ro~~~·~j'º'ºº"'m~··~-. · ~:1118};!;~·'.


. ~triicas:ftos íriclic~ de agressõ~s: :Paráj.nterprétar essaÚleséõbertas, possibiliê!àae'em"l 000) :& aiforença'S éüriéas nos co.nipoitamen

,, Sempre que ehcoqtràm _diferenças entre d01s grupos, os pesgwsad<J'-cas effi:têrinos dê ·s.&:iàoilidade/ OsJatin'O""arirericari6s h:nüiam.wfr ··
~F· ·. : _... )r~ ~êm ~ -c_onsid~rar ~ P§ssi?.ili~_ªd~ de ·9ue .ª · dif~ren_çª teÍlha ocor-.
pouco' ~ais .ª-ffi~r sõ4timC>~"do~~e os e~~~can?~~ :~}rm po~cº ·;_:
::' " ndo puramente por acaso. Por exemplo, se os pesqwsadores desse . : menos a ser socíáveis!'EfuOórà: os índii:e8 de agressão foss em bài- -

G~; ·:·. ·- .·;~Icit~te.e~;&:.±í~~~~8dJi:~l~4~~~~~~~fv~difJ~~:f,'(ti5~;~~~~~i:~~%~i~~~~il~;~jW~~~n~~~Th~:!vét~,:~


• ·· · Ser, P,Or !\C_aSÕ'.· da ffi~~a ~tnia.: ~ss§ d~storc;e_tj.á serilii:n~IÍte' as COn- . ._ · nicaÚriutrevidetlte/rêm cri~Çi:(s 'dê Vári~ cida<iés: aS.64 Ctil!IÍÇaS._ ·
·~-~:: . . clusQ~S ' <{l:>seiyàçõe~· ca.~~ll ni~ta:i·v~z:sj1:11gani t<>?o U~ gru~ deLqs AilgeÍ~ (~eta~~-la~~;~ metád.~-'~pt~Cas)agiârri d~ modo , _
... _. C:º!Il ~as~ ~Il.1: apeq~: lJ,m el).tre dois 1Ild1v1duos notáveis, ~as. os. CF muito semelhante às 1:?8. erlª1;J.Ç~ das 'outras cidad~nuiJ. únportan- .
.;· 'e~tistas(\eve.1!1 ~Y.iti4- .es~~ erro. ·' ·_·:" · .· . . . • . · . _ · , . · ~e detalhe ~scu!i-.do ÍI() boxe· yiol~ncta diJ: :p omunidade fCril!nças.
ParadetenrunarseosresultftdosdeU1IlªPesqwsasao:meracom- Agressivas. ' • .. -... _.. ,· .·. . · ... · ·., · . · ·
cidência 01.1.não; gs pe~q~~adores aplicam o testé da signifjcãncia . · .. ·· · · ·
._
. es~tíSfica.' A f6nnulâ _µiatemãticapara êalcuiàr a s~gnificâiJ.cfa in" .· :~:1..~
..: c1.ui muitosf.atores; ~ntre'. ~leso tâm.anh .. o da àm.ostra; o tamanho dá
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. "agrajita
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.. os;as8im
. . como
van;i.çãó. entro de cà~ grupóe à diferença entre ;is m . as · os 01s unia explicação de·àigun;,·~0 'êS~co ao rriétodo _&êntffico ~ n~ éiiso, a sig~·
!,. _irupós. ~plic;ando ~ fórD,µIa , 'ós cientlstaH:alçulam o 'J~vdde sig- nificânda estatística · _. · - -

dizer o que causou o quê. Por exemplo, aquelas crianças passa- Dado o nosso reconhecimento da importância do contexto
vam a maior parte do tempo brincando alegremente juntas por- social, outra hipótese é que a vizinhança seja a variável princi-
que isso é da natureza das crianças de 4 anos? Ou bons programas pal, e as diferenças dessa vizinhança sejam as causas das dife-
pré-escolares proporcionam .muitas oportunidades de interação renças étnicas. Para responder perguntas sobre causa e efeito, nem
social e conseguem manter a agressividade em um nível míni- a observação nem a correlação são definitivas. Para demonstrar
mo? Além disso, o que causou a tendência nas diferenças étni- causa e efeito, precisamos de um experimento.
cas? Podem ter sido os genes, a família ou a língua. Na verdade,
novos estudos poderiam revelar que se trata de uma variação ale-
atória que desapareceria em vez de se repetir. Como explica o O Especialmente para Cientistas Sociais: Existe uma correlação positiva entre
Relatório de Pesquisa, os testes de significância estatística indi- o número de cegonhas que vivem em certas cidades da França e as taxas
de natalidade nessas cidades. Isso prova que as cegonhas trazem os bebês?
cam a probabilidade de os resultados serem produto do acaso.

0 EXPERIMENTO
Um experimento é uma investigaç~o destinada a identificar mente expõem um grupo de pessoas a um determinado tratamento
causa e efeito. Nas ciências sociais, os experimentadores geral- ou condição para verificar se o comportamento delas se modifi-
r-·· • 16 Introdução .

caem conseqüência disso. Em termos técnicos, os experimenta- tos não reajam de nenhuma dessas maneiras, quase todos os objetos
dores manipulam uma variável independente (o tratamento im- experimentais estão mais nervosos do que normalmente estariam.
posto ou a condição especial). Em seguida observam como essa A última parte do experimento em pré-escola descrito no boxe
mudança afeta o comportamento específico que eles estão estu- Mudança de Política evitou as armadilhas da artificialidade por
dando, que é denominado variável dependente. Desse modo, a ser um "experimento in natura". Utilizando crianças pequenas,
variável dependente é o tratamento novo e especial; a variável ele também reduziu o efeito da conscientização do objeto. Con-
independente é a resposta (que pode ou não ser afetada pelava- tudo, outro problema é que a maioria dos experimentos é de
riável independente). Descobrir quais variáveis independentes duração muito limitada, embora o desenvolvimento humano real
afetam quais variáveis dependentes, e qual a extensão desse efei- leve anos para se formar, modificar e transformar.
to, é o propósito do experimento. (Veja exemplo no boxe Vio- Todas essas limitações acrescentam camadas de artificialida-
lência da Comunidade e Crianças Agressivas.) de potencial à pesquisa experimental. Por esse motivo, um ex-
Comparando as mudànças de uma variável dependente que perimento é mais valioso no estudo do desenvolvimento quando
ocorrem depois que uma variável independente (experimental) combinado com outros métodos em vez de ser realizado de for-
é imposta, os pesquisadores muitas vezes conseguem descobrir ma exclusiva. Na verdade, os resultados do estudo na pré-escola
o vínculo existente entre causa e efeito. Esse é o motivo pelo qual foram reforçados por outras pesquisas, publicadas ou não, ob-
os experimentos são realizados: porque nenhum outro método servacionais e experimentais. Isso é o que os cientistas fazem
de pesquisa pode apontar com tanta exatidão o que conduz a quê. quando se torna importante responder a uma determinada per-
Mas ainda resta uma questão: até que ponto as descobertas gunta: eles combinam observações e experimentos, em condi-
de uma situação experimental artificial se aplicam ao mundo real? ções naturais "de campo" e em condições controladas de labora-
Um problema importante com muitos experimentos é que a si- tório. Os resultados desses vários estudos costumam levar às mes-
tuação controlada, com os cientistas manipulando a variável in- mas conclusões e o processo de descoberta científica se aproxi-
dependente, é, sob aspectos importantes, diferente da vida nor- ma do encontro da resposta da pergunta central (Anderson et al.,
mal diária. 1999). Além disso, os cientistas responsáveis pelo estudo na pré-
Além disso, todos os experimentos (exceto aqueles feitos com escola reexaminaram pessoalmente as mesmas crianças três anos
crianças muito pequenas) são prejudicados quando os participantes mais tarde e descobriram (em pesquisa ainda não publicada) que
sabem que são objetos de pesquisa. Os objetos, em especial adultos o contexto geral da vizinhança afetava o progresso do tempera-
mais velhos, podem tentar produzir os resultados que eles acham mento, das atitudes e os padrões de comportamento das crianças
que o experimentador está procurando, ou, principalmente se forem - conclusão a que também chegaram outros cientistas (Garba-
adolescentes, podem tentar prejudicar o estudo. Ainda que os obje- rino & Kostelny, 1997; Rutter et ai., 1998).
,r

ÜUTROS MÉTODOS DE PESQUISA


Sempre que possível, os pesquisadores procuram verificar e es- é perguntar aos pais e professores sobre as crianças. Por exem-
tender os resultados dos esnidos científicos. Como vimos, eles plo, no estudo feito na pré-escola que discutimos nos boxes Re-
podem fazer isso reproduzindo pesquisas realizadas anteriormen- latório de Pesquisa e Mudança de Política, os pesquisadores fi-
te com os mesmos métodos mas com outras populações de obje- zeram aos professores de pré-escola uma série de perguntas so-
tos ou utilizando diferentes métodos para investigar a mesma bre.as interações sociais de cada crianÇa. As respostas dos pro-
questão. Além da observação e da experimentação, dois desses fessores confumaram os resultados da observação naturalista.
métodos são os Jevantamentos e os estudos de casos. Particularmente significativas (nível de 0,001) foram as taxas,
observadas pelos professores, .de indecisão e timidez das crian-
ças - traços que tinham maior probabilidade de ser encontra-
0 LEVANTAMENTO
. :.. dos nas crianças latino-americanas do que nas euro-americanas .
Em um levantainento científico, as informações são coletadas Infelizmente, a obtenção de dados válidos por meio de uma
a partir de algumas pessoas, por meio de entrevistas pessoais, entrevista ou de um questionário é mais difícil do que pode pa-
questionários escritos, ou por algum outro meio. Essa é uma recer, porque esses métodos são vulneráveis a tendenciosidade
maneira fácil, rápida e direta de obter dados. Os levantamentos da parte do pesquisador e dos respondentes. Além disso, muitas
são especialmente úteis quando os cientistas desejam aprender pessoas entrevistadas dão respostas que elas acham que sejam o
mais sobre crianças, uma vez qu.e um Jlleio óbvio de se fazer isso que o pesquisador espera, ou que expressam uma opinião e não
um fato, ou que elas pensam que as farão parecer mais inteligen-
tes ou "boas".
Tabela 1.3 Liberdade de Imprensa Por exemplo, em um levantamento perguntou-se a adultos dos
Você acha que os Estados Unidos devem pennitir que Estados Unidos: "Você acha que os Estados Unidos devem per-
correspondentes comunistas de outros países enviem notícias tal mitir que correspondentes comunistas de outros países venham
como eles as vêem? (Percentual de respostas afirmativas.) aqui e enviem notícias tal como eles as vêem?" Cerca de metade
r .
Idade dos Respondentes
18 a 54 55+ O Resposta para Cientistas Sociais: Uma correlação entre duas variáveis
pode ser causada por algo diferente dessas variáveis. As cidades com mui-
Primeiro grupo 55% 43% tas cegonhas provavelmente são mais silenciosas, têm espaços mais am-
plos, aspecto mais rural e mais fazendas; essas cidades costumam ter me-
Segundo grupo 81% 44% nos riqueza e mais religiosidade. Todas essas variáveis podem afetar as ta-
xas de natalidade. ·
Fonte: Knauper; 1999.
Introdução 17

respondeu que sim, sendo os adultos mais jovens ligeiramente porção de adultos de mais idade do segundo como no primeiro
mais dispostos a concordar (veja Tabela 1.3). Em seguida, a grupo concordou (44% contra 43% ). Por que o contraste? O se-
mesma pergunta foi submetida a outra amostra semelhante de gundo grupo foi preparado ao responder antes a outra pergunta:
adultos. O segundo grupo de adultos jovens tinha probabilidade se eles achavam que um país comunista "devia permitir que cor-
muito maior de responder afinnativamente do que o primeiro gru- respondentes americanos fossem lá e enviassem notícias da
po (81 % contra 55%), enquanto mais ou menos a mesma pro- maneira como eles viam as coisas" (Knãuper, 1999).
18 Introdução

Esses resultados indicam que os adultos mais velhos são não nificância estatística dependa desses dados quantitativos, ou nu-
apenas mais conservadores e menos dispostos a ter boa vontade méricos.
como também estão mais dispostos a revelar esses traços? Ou Contudo, a coleta e interpretação das informações dos estu-
será que eles têm a sabedoria da experiência adquirida durante a dos de casos refletem as tendências e o conhecimento do pes-
Guerra Fria, bem como a força de suas convicções? Ou poderia quisador. Mesmo quando um estudo de caso é cuidadosamente
ser que os adultos mais jovens são mais lógicos e coerentes quan- interpretado, as conclusões se aplicam com certeza a apenas uma
do relembrados de suas convicções? Outras pesquisas serão ne- pessoa. Não obstante, o estudo de caso tem três usos importantes:
cessárias para det;mmar ainterpretação correta dos resultados
• fornecer um ponto de partida que sirva de estímulo para ou-
desses levantamentos, mas é evidente que a ordem específica das
tra pesquisa;
perguntas dos levantamentos às vezes faz uma significativa di-
• conhecer muito bem um determinado indivíduo;
ferença nas respostas.
• exemplificar verdades generalizadas, como no caso de David.
Lembre-se, entretanto, de que não .existem conclusões seguras
0 ESTUDO DE CASO
sobre pessoas em geral que possam ser extraídas. de uma amos-
Um estudo de caso é o estudo intensivo de um indivíduo. Em tra de tamanho 1, ou mesmo de tamanho 10 ou 20, não impor-
geral, o estudo de caso se fundamenta em entrevistas com o ob- tando quão profundo e detalhado seja o estudo.
jeto do estudo sobre seu retrospecto, seu pensamento atual e suas Evidentemente, existem muitas maneiras de coletar dados con-
ações; pode também utilizar entrevistas com pessoas que conhe- cernentes a desenvolvimento, e cada método compensa as defici-
cem o indivíduo. Outros materiais de estudos de casos podem ências dos outros. Os pesquisadores podem observar pessoas em
ser obtidos por meio de observações, experimentos e testes pa- seu ambiente natural ou em laboratórios, podem extrair reações ex-
dronizados, com<Vinventários de personalidade e testes de inte- perimentalmente em condições controladas ou tirar proveito de
ligência - experimentos naturais incomuns. Eles podem fazer levantamentos
Os estudos de casos podem fornecer um grande número de com centenas e mesmo milhares de pessoas, entrevistar um peque-
detalhes, o que os torna ricos para gerar novas visões. Muitos no número de pessoas em grande profundidade, ou estudar uma só
estudiosos do desenvolvimento preferem os estudos de casos vida em detalhes. Como cada método tem falhas, nenhum deles
exatamente por e~s.e motivo: a complexidade da vida humana fornece dados com escopo e precisão suficientemente amplos piµ-a
é mais fácil de ser compreendida através das ricas informações levar a conclusões cabais. Mas cada um deles leva os pesquisado-
qualitativas, ou descritivas, de um estudo de caso do que por res para mais perto dos problemas e das respostas. Juntos, eles
meio de um estudo que envolva apenas números, embora a sig- podem comprovar ou desmentir teorias e hipóteses.

. ESTUDO DAS MUDANÇAS OCORRIDAS AO LONGO DO TEMPO


Lembre-se da definição que introduz a seção Perspectiva da Vida ·deve ser capaz de lidar com coisas que se modificam e continu-
em Estágios, no início do capítulo: o estudo do desenvolvimen- am ao longo do tempo.
to humano procura saber como e por que as
pessoas mudam e Nem sempre as mudanças são diretas e lineares; o desenvol-
como e quando permanecem as mesmas nos vários momentos vimento pode ocorrer de modo irregular, em ziguezagues, em
de sua vida, à medida que envelhecem. De acordo com isso, para .. etapas e também de outras maneiras (veja Fig. 1.6). Os cientis-
que a pesquisa seja inteiramente dedicada ao desenvolvimento, tas do desenvolvimento têm de projetar suas pesquisas de modo
a incluir o tempo ou a idade como fator. Em geral, fazem isso
com um dos seguintes projetos de pesquisa: com cortes transver-
sais ou com cortes longitudinais.

PEsQUISAS TRANSVERSAIS
O modo mais conveniente, e portanto mais comum, de incluir a
idade em um estudo sobre o desenvolvimento é projetar uma pes-
quisa transversal. Num estudo desse gênero, grupos de pesso-
as que diferem em idade mas compartilham outras característi-
cas importantes (como o nível de instrução, a condição socioe-
conôrnica e a formação étnica) são comparados em relação à
variável que esteja sob investigação. Vimos a discussão sobre o
levantamento de atitudes a respeito da liberdade dos correspon-
dentes. Adultos jovens foram comparados com adultos mais
velhos que erlllJ! semelhantes em outros aspectos além da idade,
como nacionafidade e sexo. Quaisquer diferenças na variável
dependente encontradas entre um grupo etário e outro são, pre-
·'fig. 1.6 Padrões de Crescimento do Desenvolvimento. Muitos padrões de cres- sumivelmente, resultados de processos de desenvolvimento re-
cimento do desenvolvimento foram descobertos por pesquisas cuidadosas. lacionados à idade.
Embora o progresso linear (ou quase-linear) pareça mais comum (as pesso-
as ficam mais espertas quando se tornam mais velhas, não é?), os cientistas·
O projeto transversal parece então bastante simples. Contu-
agora estão descobrindo que quase nenhum aspecto das modificações hu- do, é muito difícil garantir que os diversos grupos que estão sen-
manas segue o padrão linear com exatidão. do comparados sejam semelhantes em todas as variáveis da for-
1ntrod ução 19

mação, exceto quanto à idade. Suponha que se descubra que um • As conseqüências de um atraso precoce nas capacidades
grupo de crianças de 1O anos é aproximadamente 30 centíme- motora ou de linguagem (Os atrasos na capacidade motora
tros mais alto do que um grupo comparável de crianças de 6 anos. com freqüência desaparecem, enquanto os.atrasos na lingua-
Parece razoável concluir que, durante os quatro·anos decorridos gem costumam persistir [Silva, 1996].)
entre os 6 e os 10 anos de idade, as crianças ganhem 30 cm em • Os efeitos do alistamento militar sobre os delinqüentes juve-
altura. Não obstante, mesmo uma conclusão óbvia como esta nis (Surpreendentemente, ocorreu um resultado positivo
pode estar errada. Com efeito, outras pesquisas mostram que a [Sampson & Laub, 1996].)
maioria das crianças cresce menos do que isso - uns 25 centí- • Os efeitos da menopausa (Podem aumentar temporariamente
metros, e não 30 - entre essas idades. Pode ser que as crianças a depressão, mas não em termos longitudinais, e mesmo os
de fó anos do estudo tivessem sido mais biiD afuneiitadas du- efeitos temporários ocorrem em uma mill6na das mulheres
rante sua vida do que as crianças de 6 anos, ou que ·alguma outra [Avis, 1999].)
característica relevante não tenha sido levada em consideração.
Seguramente, se um dos grupos incluísse mais meninos do que Pesquisas longitudinais repetidas podem revelar não só o grau
meninas, ou mais africanos do que asiáticos, a diferença de altu- de modificações mas também o processo dessas modificações.
ra refletiria outros fatores além da idade. As crianças aprendem a ler subitamente, ao "descobrir o códi-
Naturalmente, os bons cientistas tentam formar grupos pare- go", ou aos poucos? A resposta não pode ser encontrada por uma
cidos em todas as variáveis de respaldo relevantes. De qualquer simples comparação de crianças pré-alfabetizadas de 4 anos com
modo, mesmo que dois grupos transversais sejam idênticos, com crianças de 8 anos que lêem fluentemente. Contudo, o acompa-
exceção da idade, eles ainda refletirão diferentes coortes por causa nhamento das crianças mês a mês mostrou que aprender a ler é
das experiências históricas peculiares que afetaram cada grupo um processo gradual, embora certos aspectos possam ser absor-
etário. As modificações na assistência médica (as crianças de hoje vidos repentinamente (Adams et al., 1998).
quase nunca contraem doenças "da infância"), na dieta (menos Evidentemente, a pesquisa longitudinal é "um projeto de es-
carne para as crianças pequenas de hoje), nas condições de mo- colha da perspectiva do desenvolvimento" (Caims & Caims,
radia (o espaço para brincar é mais escasso nas residências mo- 1994). Você poderá ver os resultados de muitos estudos longitu-
dernas) e em outros fatores históricos podem distorcer os resul- dinais ao longo deste livro. Não obstante, esse projeto tem algu-
tados transversais, mesmo no caso de uma variável biológica mas desvantagens. Com o passar do tempo, alguns objetos de
como a altura. Se pessoas de 20 anos de idade desejarem saber pesquisa podem sair do estudo, se mudar ou morrer. Essas mu-
como será sua vida quando estiverem com 80 anos, não devem danças podem distorcer os resultados finais porque aqueles que
simplesmente examinar a vida de um grupo de pessoas de 80 anos saem podem ser diferentes (talvez mais rebeldes, ou de CSE mais
que lhes sejam semelhantes em traços como genética, situação baixa) daqueles que continuam. Além disso, algumas pessoas que
socioeconômica, formação étnica e nível de instrução. Isto se permanecem podem mudar por causa do seu envolvimento na
deve ao fato de que, no ano de 2060, muitos outros fatores se terão pesquisa ("melhorando" depois de uma série de testes, por exem-
modificado e poderão afetar a maneira como as pessoas mais plo, simplesmente porque se tomam familiarizadas com os tes-
idosas estarão vivendo naquela época. tes); isso toma os resultados do estudo menos aplicáveis à pes-
soa em desenvolvimento média, que não participa do estudo.
O maior problema de todos talvez seja o fato de que as inves-
PESQUISAS LONGITUDINAIS tigações longitudinais sejam demoradas e dispendiosas. Elas
Como recurso para descobrir se a idade, e não alguma outra va- envolvem maior dedicação dos cientistas e dos órgãos de fman-
riável de formação ou histórica, é de fato o motivo de uma apa- ciamento do que as pesquisas transversais.
rente modificação de desenvolvimento, os pesquisadores podem
estudar os mesmos indivíduos durante um longo espaço de tem- PESQUISA TRANSEQÜENCIAL
po. Como um projeto de pesquisa longitudinal permite que os
pesquisadores comparem informações sobre as mesmas pessoas Como se pode ver, as pesquisas transversal e longitudinal per-
em diferentes idades, ele elimina os efeitos das variáveis relati- mitem que os cientistas examinem o desenvolvimento através do
vas à formação, mesmo aquelas das quais os pesquisadores não tempo, mas cada tipo de estudo tem suas falhas. Como esses dois
estão conscientes. Se soubermos qual era a altura de um grupo métodos tendem a compensar as desvantagens um do outro, os
de crianças aos 6 e aos 1O anos, podemos afirmar sem sombra cientistas criaram diversas maneiras de utilizar os dois juntos
de dúvida quanto elas cresceram, em média, durante os quatro (Hartman & George, 1999). O mais simples é a pesquisa tran-
anos intermediários. seqüencial (também conhecida como seqüencial por coorte ou
A pesquisa longitudinal é especiâlmente útil no estudo do setzüencial por tempo) (Schaie, 1996). Com esse modelo, os pes-
desenvolvimento durante um longo espaço de tempo (Elder, quisadores primeiro estudam vários grupos de pessoas de dife-
1998). Esse tipo de pesquisa tem proporcionado valiosas e às rentes idades (uma abordagem transversal) e depois acompanham
vezes surpreendentes descobertas em muitos tópicos, entre eles esses grupos longitudinalmente.
os seguintes: No modelo transeqüencial, podemos comparar as descober-
tas relativas a um grupo de, digamos, pessoas de 50 anos de ida-
• O ajustamento das crianças ao div6rcio (Os efeitos negati- de com as desco)ertas relativas ao mesmo grupo aos 30 anos,
vos permanecem, principalmente no caso de meninos em ida- bem como com descobertas sobre grupos que tinham 50 anos uma
de escolar e mais velhos [Hetherington & Clingempeel, ou duas década antes e grupos que têm 30 anos agora. Desse
1992].) modo, a pesquisa transeqüencial possibilita que os cientistas se-
• O papel dos pais no desenvolvimento dos filhos (Mesmo há parem diferenças relativas à idade cronológica das diferenças re-
50 anos, os pais tinham uma influência muito maior em rela- lacionadas ao período histórico. Esse método tem fornecido mui-
ção à felicidade futura dos filhos do que o estereótipo do pai tas informações surpreendentes sobre a inteligência adulta (veja
distante implica [Snarey, 1993].) Cap. 21).
26 Introdução

Uma Observação Longitudinal de Kirsten A pesquisa longitudinal é ideal para a realização de descobertas, como a definição de estudo do desenvolvimento,
tratado no início deste capítulo que estabelece: "como e por que as pessoas se modificam e como e por que elas permanecem as mesmas, à medida que
envelhecem." Estas fotografias de Kirsten aos 5 meses, 18 meses, 5 anos, 8 anos e 12 anos ilustram bem este ponto. Sob alguns pontos de vista as mudan-
ças são evidentes- da calvície à longa cabeleira, por exemplo. Modificações semelhantes podem ser vistas em quase todás as crianças, embora o padrão
de Kirsten seja um tanto incomum uma vez que seu cabelo só começou realmente a crescer quando ela já estava com quase 3 anos de idade. Sob outros
aspectos, a continuidade é clara: ela se envolvia emociorialmente em todas as idades. Isto se tornou mais evid ente quando ela começou a andar e escondia
de seus pais alguma coisa proibida, mas também é aparente nas outras fotos.
Agora, aos 13 anos, não é de surpreender que ela seja tão característica em Cõsos previsíveis, como no balé, em seus escritos, na sensibilidade social
e no entusiasmo. Ela também é típica de sua coorte - gosta de rapazes, computadores e televisão - como uma. pesquisa transversal também demons-
traria. As pesquisas longitudinais (e, neste caso, até mesmo fotografias longitudina is) também ajudam a identifica r o impacto de eventos incomuns que não
são típicos de uma determinada criança ou das crianças de modo geral.

ÉTICA E CIÊNCIA
Todo cientista deve 'se preocupar com a ética na condução e na mentos da pesquisa aos pais e ser especialmente sensíveis a
co:triunicáÇfo dos resultãdos dai pesquisas. No nível má.is ele- quaisquer indícios de desconforto na criança ... ·
mentar, os pesquisadores que estudam os humanos devem ga- 11 Os investigadores devem manter em sigi.Jo todas as informa-
rantir que seus objetos não sejam prejudicados pelo processo de ções obtidas sobre os participantes da pesquisa.
pesquisa e que a participação desses objetos seja voluntária e
Esses mesmos princípios gerais - não causar dano, obter o
confidencial. Nos estudos sobre o desenvolvimento, a necessi-
consentimento informando, explicar os procedimentos e manter
dade de proteger os participantes. é especialmente acentuada
o sigilo de todas as informações pessoais sobre os participantes
quando se trata de crianças. Nos Estados Unidos, a Society for
- são endossados pelos pesquisadores que também estudam
Research in Child Development (SCRD, 1996) enumera as se-
adultos; na verdade, são endossados pelos cientistas que estudam
guintes precauções éticas:
qualquer aspecto do comportamento humano. Em termos mun-
11 O investigador não deve realizar qualquer operação de pes- diais, muitos governos e orgamzações profissionais exigem ex-
quisa que possa causar dano físico ou psicológico à criança ... trema atenção ao consentimento, ao sigilo e ·ao bem-estar dos par-
11 Antes de solicitar o consentimento ou a aceitação da criança, ticipantes de pesquips. Nos Estados Unidos, todas as faculda-
o pesquisador deve informá-la sobre todas as características des ou universidades têm um conselho institucional de revisão
da pesquisa que podem afetar a sua disposição de participar e que examina todos os planos de pesquisas antes que qualquer
deve responder a todas as perguntas da criança em termos estudo possa ser iniciado (Fisher, 1999).
adequados à compreensão dela. [A criança pode] interrom- Essas diretrizes éticas - desenvolvidas e impostas em parte
per a sua participação a qualquer momento. como resultado de abusos do passado - tratam somente de par-
e ... Os pesquisadores que estiverem trabalhando com crianças te do problema. No caso dos pesquisadores contemporâneos, os
devem envidar especiais esforços para explicar os procedi- problemas mais espinhosos não surgem durante a pesquisa, e sim
r
1
Introdução ::n

antes e depois de sua realização. Todo estudo proposto deve ser velhos podem ficar embaraçados com testes de capacidade intelec-
analisado antecipadamente para se verificar se seus benefícios tual. Muitas vezes, os estudos que têm o maior benefício social po-
superam os custos em termos de tempo, dinheiro e mesmo em tencial envolvem os grupos mais vulneráveis, como crianças que
dificuldades momentâneas. foram maltratadas ou adultos que sofrem de câncer. Na verdade,
No desenvolvimento humano, a possibilidade de ocorrerem re- em pesquisas sobre medicamentos para combater a AIDS, alguns
veses varia com a idade e com as condições do objeto em estudo. grupos (mulheres, crianças e viciados em drogas) foram excluídos
Uma criança pequena pode ficar desorientada ao ser separada, como objetos de pesquisa por causa da possibilidade de que os me-
mesmo que por poucos minutos, do seu responsável; crianças mais dicamentos experimentais pudessem lhes causar algum dano ines-
velhas são mais susceptíveis à perda da auto-estiina e da privacida- perado; em conseqüência, por ironia, os primeiros tratamentos que
-de; ospãisaeaôõlescentes pooem não qüeferque ãlguêm faça â - se mostrarameficazes mmcãforam testados naspessoas quemais
seus filhos perguntas sobre sexo, drogas ou corretivos; adultos mais poderiam precisar delas (Kahn et al.; 1998).

As IMPLICAÇÕES DAS PESQUISAS


Depois de concluída uma investigação, surgem outras questões ouvia música alguma (Rausher et ai., 1993; Rausher & Shaw,
éticas concernentes à divulgação das descobertas da pesquisa. 1998). Esse "efeito Mozart" também foi mal interpretado; o go-
Uma evidente violação da ética científica é "induzir" os dados, vernador do es"tado da Geórgia havia determinado que todos os
arrumando os números de maneira tal que uma determinada con- recém-nascidos recebessem grátis um CD de Mozart para me-
. clusão pareça ser a única lógica. Às vezes isso pode ser feito sem lhorar a inteligência, e a Flórida aprovara uma lei exigindo que,
intenção, motivo pelo qual a repetição é tão importante. A frau- para obter financiamento do estado, todas as creches daquele
de deliberada relativa aos dados é motivo de ostracismo pela estado tocassem música clássica. O verdadeiro estudo inicial era
comunidade científica, demissão do cargo de ensino ou de pes- irrelevante para crianças muito pequenas, e os resultados para es-
quisa, e, em alguns casos, de ação criminal. Além disso, "na di- tudantes universitários não podiam ser repetidos em estudos ul-
vulgação dos resultados ... o investigador deve estar ciente das teriores (Steele et al., 1999; Narais, 1999).
implicações sociais, políticas e humanas de sua pesquisa" (SRCD, Como esses exemplos mostram, mesmo quando o método
1996). científico é cuidadosamente empregado e são observadas todas
O que significa "ciente" das implicações? Um exemplo pode as garantias para os participantes, a ética exige atenção às impli-
esclarecer isso. Recentemente, uma tempestade de controvérsi- cações dos resultados. As conclusões devem ser divulgadas com
as foi criada por um estudo de estudantes universitárias que se honestidade e cuidado; generalizações precipitadas, baseadas em
tomaram sexualmente envolvidas com adultos antes de atingir a um estudo apenas, com freqüência são falsas.
idade legal de consentimento (Rind et al., 1998). A pesquisa in- Para finalizar, todo leitor deste livro deve considerar o aspec-
formou corretamente que as conseqüências dependiam de mui- to ético mais importante de todos: os cientistas estão estudando
tos fatores, mas alguns leitores do artigo entenderam que a pes- os problemas cruciais para o desenvolvimento humano? Sabe-
quisa concluía que o envolvimento sexual de adultos com me- mos o suficiente sobre o crescimento infantil a ponto de poder-
nores era às vezes aceitável. O artigo real era uma meta-análise, mos assegurar que todo ser humano atingirá seu pleno potenci-
que é uma compilação de dados de muitas outras fontes, de modo al? Sabemos o suficiente sobre os impulsos e ações sexuais hu-
que não havia participantes diretamente envolvidos. Entretanto, manos para prevenir as doenças sexualmente transmissíveis,
programas de entrevistas e candidatos políticos condenaram o evitar a gravidez indesejada, impedir o abuso sexual e curar a in-
estudo - Hão por causa de seus resultados, mas devido à má in- fertilidade? Sabemos o suficiente sobre o estresse, a pobreza e o
terpretação que fizeram deles. A má interpretação deveu-se a preconceito para fazer com que os seres humanos sejam mais fe-
vários motivos, mas um deles foi que os autores do artigo não lizes e menos deprimidos? Sabemos o suficiente sobre aprender
foram suficientemente cuidadosos quanto às inferências que durante a vida para fazer com que todos tenham toda a sabedo-
outras pessoas poderiam fazer. ria que puderem? A resposta a todas essas perguntas é um sono-
Em outro projeto de pesquisa, um grupo de estudantes uni- ro Não! Às vezes, aspectos morais como o consentimen~o infor-
versitários que ouvia Mozart antes de realizar um teste de conhe- mado e a confidencialidade nos desviam das questões éticas
cimento alcançou marcas melhores do que outro grupo que não maiores, excluindo as pessoas que mais poderiam se beneficiar.

NOVAMENTE A HISTÓRIA DE DAVID


Lidei com esses problemas quando rascunhei a história de Da- leu-o com sua lente de aumento, e me falou em tom normal: "Por
vid para uma edição anterior deste livro. Pude perceber que sua mim, está tudo bem com a publicação do livro." Mais tarde eu
história transmitiria a luta e a esperança do desenvolvimento hu- soube que ele havia discutido com os pais alguns aspectos de sua
mano. Mas eu não estava segura de que a sua publicação não iria, . infância que elt~ nunca lhe haviam contado, inclusive a real ex-
de alguma maneira, magoá-lo. Primeiro perguntei ao meu irmão tensão de suas inúmeras deficiências congênitas.
e à minha cunhada. Eles responderam que não se opunham, de-
pendendo do que eu escrevesse. Escrevi a seção e mostrei-a a eles,
que a corrigiram em pequenos detalhes.
Depois, perguntei a David, que na época era adolescente e @ Especialmente para Educadores: Embora um único estudo de caso nun-
costumava apresentar um comportamento imprevisível e anta- ca seja suficiente para se fazer uma generalização, o que a história de David
sugere quanto a testar pré-escolares com graves deficiências?
gônico. Ele levou o rascunho dos meus originais para o quarto,
Introdução

Com o passar dos anos, David tornou-se ~ada vez. mais inte- de impor idéias preconcebidas e pressupostos sobre os resulta-
r
ressado em sua história neste livro. Ele tem sido convidado a dar dos das pesquisas. No caso de David, muito me agrada dizer que,
palestras em minha faculdade para responder perguntas de alu- ano após ano, ele tem ficado orgulhoso por ser incluído. Mas o
nos ·a respeito de sua vida, comparece aos eventos de vendas da pãpel ético do cientista vai muito além de simplesmente não
minha editora, aprendeu sobre edição com meus editores e está causar danos. Ele engloba a consciência das "implicações soci-
ansioso por responder às minhas perguntas para manter atuali- ais; políticas e humanas" da pesquisa. Minha obrigação é a eta-
zada cada edição. pa 5 do método científico: publicar os resultados para que ou-
Uma lição básica sobre ética em pesquisa é olhiµ- com muita tros possam aprender. De acordo com isso, eis aqui a mais re-
atenção as respostas de determinados objetos de estudo, em vez cente atualização da história de David.

OLHANDO PARA A FRENTE


Os piores problemas de David já ficaram para trás. No domínio Examinando a vida de David até aqui, podemos ver como os
biossocial, os médicos ajudaram a melhorar sua qualidade de aspectos predominantes e os contextuais interagem entre si para
vidà: um olho artificial substituiu o olho cego; uma cinta ·ajuda afetar o desenvolvimento, positiva e negativamente. Também
sua postura e uma cirurgia corrigiu o maxilar desalinhado, me- podemos ver a importância da ciência e sua aplicação. Sem pes-
lhorando sua aparência e sua fala. No aspecto cognitivo, aque- quisas que mostrassem o papel essencial da estimulação senso-
le pré-escolar que tinha um grave "retardamento" está inician- rial no desenvolvimento infantil, por exemplo, os pais de David
do carreira como tradutor (uma opção interessante para alguém não teriam aprendido como manter sua jovem mente ativa. Sem
que tinha de escutar·'com muita atenção o que as pessoas dizi- os esforços de centenas de cientistas do desenvolvimento que
am porque não podia ler as expressões faciais). E, no aspecto provaram que as escolas poderiam ensinar mesmo a crianças com
psicossocial, a criança antes absorta consigo mesma é hoje um graves deficiências, David poderia nunca ter aprendido a ler. Ele
jovem sociável, que gosta de cultivar amizades. Embora ainda poderia ter levado uma vida doméstica e restrita, como já ocor-
viva na casa dos pais; ele está pretendendo "voar sozinho" bre- reu com muitas crianças com problemas semelhantes. Muitas
vemente. crianças com o nível inicial de deficiências de David passaram a
Isso não significa ·que a vida de David seja um velejar tran- vida inteira em instituições que só fornecem cuidados de custó-
qüilo. Cada dia apresenta suas lutas, e David, como todos os dia e morreram antes dos 30 anos de vida.
demais, tem seus momentos de dúvidas e de depressão. Como A história de David faz mais do que ilustrar aspectos predo-
ele me disse certa vez: minantes e contextais. Sua vida é exemplo de uma verdade uni-
versal: nenhum de nós é simplesmente un1 produto de nossa his-
Às vezes tenho pensamentos extremamente ruins ... sonhos
tória passada e da situação presente. Cada pessoa é um indivíduo
de puro simbolismo. Em um deles estou jogando em uma que, de maneira ímpar, reage e atua sobre a constelação de con-
máquina de pinball toda quebrada - o vidro manchado, per- textos que influenciam seu desenvolvimento. E toda pessoa é gol-
nas tortas e· bambas, o botão acionador frouxo. Tenho de lu-
peada, como David o foi, por todas as circunstâncias genéticas e
tar muito para conseguir uma pontuação decente. contextuais da vida; mas cada pessoa também exerce um efeito,
Não obstante, David nunca perde o ânimo, pelo menos não por e um pequeno evento muitas vezes se torna um ponto de infle-
muito tempo. E ele continua a "trabalhar realmente" em sua vida, xão na ·trajetória do desenvolvimento: Os próximos capítulos
não importa em quê, e ponto ·por ponto seu "escore" vai deste livro descrevem quando e como esses eventos essenciais
melhorando. ocorrem.

CONTEXTOS ESISTEMAS
4. Uma abordagem ecológica ou contextual do:desenvolvimento foca-
OESTUDO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO liza as interações entre o indivíduo e as diversas estruturas em que o
desenvolvimento ocorre. Algumas dessas estruturas envolvem os aspec-
1. O estudo do desenvolvimento humano investiga como e por que as tos físicos que interagem com o indivíduo e o circundam - a disposi-
pessoas se modificam e como e por que elas permanecem as mesmas à ção física da vizinhança, a natureza do clima etc. A maioria das estrutu-
medida que envelhecem. O desenvolvimento envolve muitas áreas aca- ras, entretanto, diz respeito à pessoa que cria o contexto social para o
dêmicas e práticas, especialmente biologia, educação e psicologia. desenvolvimento do indivíduo.
2. A perspectiva da vida em estágios vê o desenvolvimento humano 5. Os contextos sociais modificam-se com o tempo, à proporção que
em cada idade como um processo contínuo. Essa perspectiva enfatiza a os eventos históricos e as condições (o contexto histórico) remodelam
natureza multidirecional, multicontextual, multicultural, multidiscipli- as circunstâncias e ª'-'.perspectivas que envolvem o desenvolvimento.
nar e plástica do desenvolvimento. Existe uma grande diferença entre ser criança numa era em que sérias
3. O desenvolvimento pode ser dividido em três domínios: o biossoci- doenças muitas vezes significavam a morte e em outra em que, exceto
al, o cognitivo e o psicossocial. Embora essa divisão tome fácil estudar por acidentes, quase todas as crianças têm possibilidade de alcançar uma
os intricados aspectos do desenvolvimento, os pesquisadores observam idade avançada.
que em cada domínio o desenvolvimento é influenciado pelos outros 6. O desenvolvimento também é bastante afetado pela condição socio-
dois, assim como o corpo, a mente e as emoções sempre afetam uns aos econômica de uma pessoa, pelos seus valores culturais e por sua etnia.
outros. As influências desses contextos sociais muitas vezes se sobrepõem, re-

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Introdução 23

ta- 14. Nenhuma pessoa é simplesmente um produto do seu passado ou de


1e,
8 Resposta para Educadores: Os testes, tal como o teste de Q~ que mostrou sua situação presente. O desenvolvimento é algo contínuo para todos
que David tinha um retardamento profundo, são uma afirmaçao do presen-
:o te mas nem sempre conseguem prever o futuro, Um ensino eficaz pode ter nós, o que é um dos motivos pelos quais as pesquisas nesta área conti-
u~a influência decisiva, embora seja improvável que os professores consi- nuamente descobrem novos aspectos do crescimento no transcurso da
ão
gam apagar o legado dos danos neurológicos precoces. vida.
:i-
a-
u- . M
forçando e às vezes coÍ:l~endo uns aos outros. Em última análise,
e- porém, o caminho de cada indivíduo é único, sendo influenciado, mas TERMOS-CHAVE . .·- -:·
não deterniiiiado, por esses co õtextcfs. .
estudo científico do método científico
desenvolvimento humano hipótese
OESTUDO DO DESENVOLVIMENTO COMO CIÊNCIA perspectiva da vida em reprodução (de pesquisa)
7. O método científico é empregado pelos pesquisadores do desenvol- estágios objetos de estudo
vimento. Primeiro eles apresentam uma questão a ser pesquisada. De- plasticidade variável
pois desenvolvem uma hipótese, coletam dados e por fim testam a hi- domínio biossocial observação científica
a pótese e tiram conclusões com base nesses dados.
domínio cognitivo correlação
!l
8. Com freqüência, a etapa final do método científico é publicar a domínio psicossocial significância estatística
pesquisa em detalhes suficientes para que outros possam avaliar suas efeito borboleta experimento
conclusões e, se assim decidirem, reproduzir a pesquisa ou estender suas coorte variável independente
descobertas por meio de pesquisas de sua própria autoria. Isso é essen-
construção social variável dependente
cial porque as conclusões baseadas em um único estudo muitas vezes
são controversas·e passíveis de interpretações errôneas.
condição socioeconômica levantamento
(CSE) estudo de caso
cultura pesquisa transversal
MÉTODOS DE PESQUISA grupo étnico
raça
pesquisa longitudinal
pesquisa transeqüencial
I
9. Um método comum de coletar dados de pesquisas sobre desenvol-
vimento é a observação, que fornece dados válidos mas não identifica
causa e efeito. As experiências em laboratório indicam as causas, mas
não são necessariamente aplicáveis à vida cotidiana.
PERGUNTAS-CHAVE -. - , I
10. Os levantamentos e os estudos de casos também são meios úteis de
coleta de dados, mas podem ser facilmente distorcidos a menos que o
método científico seja rigorosamente seguido. 1. Qual é o foco principal do estudo do desenvolvimento humano?

11. As pesquisas sobre o desenvolvimento geralmente são realizadas 2- Como uma perspectiva da vida se aplica ao estudo da inf'ancia ou
para detectar mudanças no decorrer do tempo. Uma pesquisa transver- da adolescência?
sal compara grupos de pessoas de diferentes idades; um projeto longi- 3. Nomeie e descreva os três aspectos predominantes nos quais o es- '
tudinal (que é preferível, mas muito mais difícil de ser realizado) estu- tudo do desenvolvimento humano costuma ser dividido.
da os mesmos indivíduos durante um longo espaço de tempo. Os cien-
tistas combinam os dois métodos na pesquisa transeqüencial, que pode 4. Como o contexto histórico pode diferir para alguém que nasceu em
proporcionar resultados mais abrangentes. 1900 e uma outra pessoa nascida no ano 2000?
5. Quais os três fatores socioeconôrnicos que constituem a CSE, e
como cada um deles pode afetar o desenvolvimento?
ÉTICA ECIÊNCIA
6. Quais as diferenças entre cultura, etnia e raça?
12. A ética na condução e divulgação de pesquisas é uma preocupação
de todo cientista. Antes que um estudo seja iniciado, seus benefícios 7. Quais as vantagens e as dificuldades do método científico?
potenciais devem ser ponderados em relação a seus custos potenciais 8. Quais são as etapas do método científico?
em termos de tempo, dinheiro e embaraços para os participantes. Du-
rante o estudo, o pesquisador tem a obrigação ética de garantir que os 9. Quais as vantagens e desvantagens da pesquisa observacional?
objetos de estudo não sofram dano, que a sua participação seja sempre 10. Quais as vantagens e desvantagens da pesquisa experimental?
voluntária e que todas as informações sobre eles sejam mantidas em
sigilo.
. · 11. Compare os diferentes empregos da pesquisa longitudinal e da pes-
~uisa transversal. Como as vantagens de cada método são combinadas
13. Depois de um estudo ter sido concluído, o pesquisador deve tomar
na pesquisa traiiseqüencial?
providências para garantir que os resultados sejam honestamente divul-
gados e não fiquem sujeitos a interpretações errôneas. Isso nem sempre 12. De Acordo com Sua Experiência Algum dos três aspectos predo-
é feito, em parte porque algumas pessoas às vezes tomam como defini- minantes do desenvolvimento é mais importante em sua própria vida
tivo um resultado preliminar e exageram a sua importância. do que os outros dois? Por quê?
·.: ·: · .. ·

-=------------.. ' .

· -.·'
.·.,. ~· .·

N ão há l'lada p e l"-»'\al'\el'\te, exceto a wu~da l'lça.


Heráclito, fragmento (século VI a. C.)

SUMÁRIO
FOCO
Victor, o Menino Selvagem
deAveyron
Como o Estudo do
Desenvolvimento Humano
Evoluiu
Primeiras Abordagens
A Psicologia do
Desenvolvim ento Torna-se
uma Ciência
Estudando o Ciclo de Vida
O Desenvolvimento Humano
Foc o Hoje: Um Campo em
Vi ctor, o Menino Selvagem de fi,veyron* Evolução

No dia 8 de janeiro de 1800, um menino nu apareceu nos O Estudo do Desenvolvimento


Humano: Conceitos Básicos
arredores da vila de Saint-Sernin, na província de Aveyron , sul
da França. O menino, que tinha apenas quatro anos e um Processos do Desenvolvimento:
Mudança e Estabilidade
metro e trinta e sete de altura, mas aparentava ter uns 12
anos, havia sido visto várias vezes nos últimos dois anos e Domínios do Desenvolvimento
meio, subindo em árvores, correndo de quatro, bebendo água Períodos do Ciclo de Vida
nos córregos e coletando frutos e raízes. Influências no
Quando o menino de olhos negros chegou a Saint-Sernin, Desenvolvimento
ele nem falava nem respondia quando lhe dirigiam a palavra. Hereditariedade e Ambiente
Como um animal acostumado a viver no mato, rejeitava ali-
O Papel da Maturação
mentos que lhe preparavam e rasgava as roupas que tentavam vestir nele. Parecia
Contextos do Desenvolvimento
óbvio que ou ele havia perdido os pais ou tinha sido abandonado por eles, mas há
quanto tempo isso aconteceu, era impossível saber. Influências Normativas e
Não-normativas
O menino surgiu em um tempo de agitação intelectual e social, quando uma
perspectiva nova e científica começava a substituir a especulação mística. Os filóso- Cronologia das Influências:
fos debatiam questões sobre a natureza dos seres humanos - questões que se Perfodos Críticos ou
.·.· Sensíveis
tornariam centrais para o estudo do desenvolvimento humano: as qualidades, o com- ' . ~.
portamento e as idéias que definem o que significa ser humano são inatas, adquiridas Abordagei:n de Saltes
ou ambas as coisas? Qual a importância do contato soeial durante os anos de for- ao Desen'1plvirrientq do
mkção? Sua falta pode ser superada? O estudo de uma criança que cresceu isolada Ciclo de Vid;:i
poderia apresentar evidências do impacto relativo da "natureza" e da "experiência" QÜAÓRÓ 1-1:
(criação, escolaridade e outras influências da sociedade). Àpiotundando o . ·
Após observação inicial, o menino, que veio a se chamar Victor, foi enviado para CotJheClm~nto: o Es tudo do
uma escola de surdos e mudos em Paris. Ali ele foi encaminhado a Jean-Marc-Gas- Ciclo de Vida: Crescendo em
pard ltard, um ambicioso praticante da psiquiatria, na época uma ciência emergente. tempos D!fíceis ,
ltard acreditava que o desenvolvimento de Victor havia sido limitado pelo isolamento,
e que ele simplesmente precisava aprender as habilidades que as crianças em socie- QUADRO 1-2: '.
dade normalmente adquirem. Em Termos Práticos: Existe
um Petíàdo Critico para a ·
Aciúisição da Linguagem? .·
*As fontes de informação sobre o menino· selvagem de Aveyron são Frith (1989) e Lane (1976).

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