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PERSPECTIVAS

Revista de Ciências Sociais


UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

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Antonio Manoel dos Santos Silva
Vice-Reitor
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FUNDAÇÃO EDITORA DA UNESP

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Editor Executivo
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Maria Apparecida F. M. Bussolotti
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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

PERSPECTIVAS
Revista de Ciências Sociais

ISSN 0101-3459
PRSVDY

Perspectivas São Paulo v.20/21 p.1-329 1997/1998


A correspondência e os artigos para publicação deverão ser encaminhados a:
Correspondences and the articles for publication should be addressed to:

PERSPECTIVAS: Revista de Ciências Sociais


Correspondência: Marcia Cortese Barreto
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Caixa Postal 174
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Assessoria Técnica
Diretora Técnica de Serviço: Marcia Cortese Barreto
Bibliotecária: Cristina Aurora B. Giollo Santos
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Secretária Executiva: Eliane Aparecida Camara Haddad

Publicação anual/ Annual publication


Solicita-se permuta/ Exchange desired

PERSPECTIVAS. Revista de Ciências Sociais (Fundação Editora da


UNESP) São Paulo, SP – Brasil, 1976/1977, 1980-
1976-1977, 1-2
Publicação interrompida em 1978 e 1979
1980-1996, 3-19
1997/1998, 20/21
ISSN 0101-3459
PRSVDY

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américaine D’Articles; Bulletin Signaletique; Clase-Cich-Unam; Sociological Abstracts;
Sumários de Educação; IBZ – International Bibliography of Periodical Literature; IBZ –
CD-ROM
SUMÁRIO/CONTENTS

SOCIEDADE CIVIL E POLÍTICA

■ Ação coletiva e opção política


Collective action and political option
Aloísio Ruscheinsky ..................................................................... 11

■ Democracia e sociedade civil na década de 1970: uma análise


da elaboração de intelectuais marxistas acadêmicos
Democracy and civil society in the 70’s: an analysis made by
academic marxists
Luiz Fernando da Silva ................................................................. 39

CULTURA POLÍTICA

■ Eros para presidente – A República alemã sonhada por Thomas


Mann
Eros for president – The German Republic idealized by Thomas Mann
Richard Miskolci ........................................................................... 67

■ Censura e modernização cultural à época da ditadura


Censure and the cultural modernization under the dictatorship
Renato Franco ............................................................................... 77

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QUESTÃO AGRÁRIA

■ O agrarismo brasileiro na interpelação de Caio Prado Jr.


The Brazilian agrarian question according to Caio Prado Jr.
Raimundo Santos .......................................................................... 95

■ Homens e mulheres nos assentamentos: violência, recusa e


resistência na construção de um novo modo de vida
Men and women in the settlements: violence, refusal and resistence
on the building of a new life
Vera Lúcia Silveira Botta Ferrante,
Luís Antonio Barone ................................................................... 121

TEORIA SOCIAL

■ Notas a respeito da concepção marxiana de método presente


nos Grundrisse
Some remarks on the marxist conception of method in Grundrisse
Jesus J. Ranieri ........................................................................... 151

■ Das relações entre ética e sociedade na teoria sociológica de


Durkheim
On the relation between ethics and society in the sociological theory
of Durkheim
Jorge Luis Cammarano González .............................................. 171

AMÉRICA LATINA

■ A política externa dos Estados Unidos e a trajetória do


desenvolvimento cubano
The external politics of the United States and the Cuban development
Luis Fernando Ayerbe ................................................................ 197

6 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 1-329, 1997/1998


■ Multiculturalismo e identidade: dilemas e perspectivas no
caso peruano
Multiculturalism and identity: dilemma and perspective in
the Peruvian case
Urpi Montoya Uriarte ................................................................. 223

TRADUÇÕES /TRANSLATIONS

■ A reestruturação capitalista e o sistema mundial


Immanuel Wallerstein (autor)
José Flávio Bertero; Ana Maria de Oliveira Rosa e Silva
(tradutores) .................................................................................. 249

■ Decisões públicas e deliberação


Giandomenico Majone (autor)
Marcia Teixeira de Souza (tradutora) ........................................ 269

RESENHAS/REVIEWS ..........................................................................295

ÍNDICE DE ASSUNTOS ........................................................................315

SUBJECT INDEX ...................................................................................317

ÍNDICE DE AUTORES/AUTHORS INDEX ..........................................319

ÍNDICE DE TRADUÇÕES/TRANSLATIONS INDEX ..........................321

ÍNDICE DE RESENHAS/REVIEWS INDEX .........................................323

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SOCIEDADE CIVIL E POLÍTICA
AÇÃO COLETIVA E OPÇÃO POLÍTICA

Aloísio RUSCHEINSKY1

■ RESUMO: O estudo de alguns eventos históricos recentes conduz à identifi-


cação de uma trajetória das demandas populares, enquanto legítimos direi-
tos do cidadão, rumo a crescentes conexões com opções políticas. Tal traje-
tória constitui um desafio à compreensão atual das ciências sociais e, a
partir de um ponto de vista, um processo pedagógico de dimensões funda-
mentais. A menção à trajetória percorrida pela ação popular, agregando
opções políticas em sua implementação, significa um reconhecimento do
fato de que toda atividade pública inerentemente tem uma dimensão de
referência à esfera do poder de decisão.

■ PALAVRAS-CHAVE: Movimento social; política; demanda popular.

A presença dos setores populares no cenário nacional tornou-se


tema importante de análise, iniciando seu surto na ciência social brasi-
leira antes mesmo do temário sobre a emergência dos movimentos so-
ciais. Muitos relatos resumem-se às formas de como a população de
baixa renda envolveu-se com os problemas da sua vida cotidiana, mor-
mente por causa do intenso ritmo da migração campo-cidade, às vezes
sem referirem-se a mobilizações coletivas e muito menos a
posicionamentos partidários.
O intuito fundamental do presente texto consiste em apontar um
ritmo de desenvolvimento que circunscreve as demandas populares e o

1 Departamento de Educação e Ciências do Comportamento – Fundação Universidade do Rio


Grande – FURG – 96201-900 – Rio Grande – RS.

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transcurso para a opção expressamente política. Ora, esta trajetória, do
ponto de vista de mudança do horizonte cultural, pode ser integral-
mente interpretada como um processo pedagógico, pois envolve uma
dimensão com características educacionais a propósito do comporta-
mento perante a realidade social. Diante desta caracterização entende-
se que a mobilização coletiva constrói demandas populares e arregimenta
o coletivo para uma ação política.
A maior parte da literatura que lança um olhar sobre a questão
partidária no contexto urbano dos movimentos sociais localiza seu ob-
jeto de análise no espaço histórico da redemocratização ou da
reformulação partidária. Nesta trajetória acumulam-se várias ópticas,
seja da contestação do Estado autoritário ou da consolidação de novos
sujeitos, seja o impacto da reforma partidária. Diversos autores propu-
seram-se a analisar na diversidade os movimentos sociais nas suas
relações com o sistema institucional, e alguns, de modo particular, sob
a vigência do pluripartidarismo. Desta forma, é possível distingui-los
pelo enfoque adotado:
1 A tendência descritiva tende a ressaltar um elenco de movimen-
tos permanecendo colada ao campo empírico, ou recuperar a história
de mobilizações na sua diversidade e nos múltiplos relacionamentos
entre os atores sociais.
2 As análises que propõem a necessidade da relação dos movi-
mentos sociais com a organização partidária, para atingir outro pata-
mar de eficácia nos conflitos, tendem a amarrar o significado político
dos mesmos na medida em que sua potencialidade está conectada à
dinâmica conjugada à ação partidária.
3 A mudança do patamar autoritário do Estado, particularmente
com o advento da eleição de adeptos da democracia participativa e a
configuração de movimentos consistentes, permitiria a construção de
uma relação mais democrática (Coelho, 1992; Cardoso, 1983, 1989).
4 O enfoque de pesquisas sobre a cultura política, tais como a
alteração da visão de mundo por meio da mobilização popular (Pardini,
1989), em que a questão partidária não se faz presente pelo simples
fato da refutação, pois movimentos rejeitariam temáticas mais
abrangentes; por vezes, são análises com graves deficiências nos ins-
trumentos de investigação para chegar aos objetivos propostos.
5 A multiplicidade das iniciativas, gerando variados movimentos
sociais, permite operar uma síntese, elucidando as suas propostas por
caminhos tortuosos, sem expressar qual o relacionamento explícito com
os partidos (Gohn, 1991), inclusive com ausência de um parâmetro úni-
co ou semelhante de relacionamento possível com os partidos políticos.

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6 A performance dos movimentos sociais por meio de suas pautas
e de seus posicionamentos políticos remete a um relacionamento com
as instituições (Cardoso, 1988; Barreira, 1992, 1993), de tal forma que
com essas relações estabelecidas e entre uma diversidade de movimentos
formam-se redes (Scherer-Warren, 1993; Doimo, 1995) de intercâmbio.
7 O percurso pela literatura mostrou a ausência de estudos publi-
cados que relacionassem de modo mais pertinente o Partido dos Traba-
lhadores e a conexão histórica com os movimentos sociais.2 Há al-
gumas exceções (Bocchi & Camargo, 1990; Gohn, 1991), sem considerar
as pesquisas em andamento dada a relevância desta óptica. Aliás, pela
forma como Gohn acrescenta ao seu estudo um epílogo tratando da
opção política, dá a impressão de que, segundo a sua compreensão, a
relação entre partido e movimentos era menos efetiva ou secundária
para a análise e a visualização dos atores sociais no jogo da luta polí-
tica. Melhor ainda, mostra que nesta análise a preocupação principal é
a relação dos movimentos com o Estado. Por sua vez, a análise de
Doimo (1995) esforça-se para apontar a distância entre movimentos e
institucionalidade e, como conseqüência, os primeiros avessos à repre-
sentação e aos partidos políticos.
O desenvolvimento do relacionamento entre demanda popular e
opção política, colocado aqui em questão, permite que se aponte uma
sucessão de fases distintas. A primeira fase da relação entre partidos
políticos e movimentos sociais a partir da abertura para a democracia
se visualiza pela forma como se adensou o partido de oposição ao re-
gime militar. Desta forma, na década de 1970 a ênfase se dava sobre o
discurso da autonomia política, até independente do tipo de reivindi-
cação que viesse a ser feita, porém se estabelecia uma tênue conexão
com a representação política por meio de lideranças com dupla atua-
ção. A segunda fase destaca o impasse dos movimentos sociais ante a
reformulação e o pluralismo partidário, assim como ante o fato de vir à
luz um partido popular apresentando-se como desembocadura política
dos mesmos.
Uma terceira fase visualiza-se como um momento histórico em que
parece consolidar-se a homogeneidade dos posicionamentos políticos
dos militantes e expressa-se na temática que passamos a abordar rela-
cionando demanda popular e opção política.3 A questão partidária e a

2 Para obter uma explanação mais ampla sobre esta temática, consultar o texto do autor
(Ruscheinsky, 1996).
3 Com o transcurso de uma série de fatores sucessivos passa a ter os primeiros contornos a
terceira fase apontada, referindo-se ao caso paulista em particular. A gestão administrativa

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representação política aparecem no debate, deixando de lado a impor-
tância secundária, ou melhor, restrita à parcela das lideranças. Neste
ínterim exerce papel importante a perspectiva das relações consoli-
dadas entre as bases dos movimentos e o quadro partidário. Além dis-
to, poderia ser destacada com muita ênfase uma quarta fase que, por
sua vez, coincidiria com o transcurso de administrações petistas; e
uma quinta fase, que vem se vislumbrando e crescendo em destaque
nos anos 90, evidencia-se como a relativização da proximidade entre
os dois agentes conforme assinalamos no presente momento. Em cada
uma das cinco fases é possível destacar um conjunto de aspectos refe-
rentes ao relacionamento entre movimentos e atores sociais confor-
mando as respectivas redes de interação.

1 As mudanças da década de 1980


e os movimentos sociais

Feita esta trajetória, resta afirmar a existência de um campo de


pesquisa pouco explorado – considerando a óptica do presente estudo,
ou seja, as reivindicações na diversidade de seus movimentos – con-
frontado com a perspectiva partidária. Cabe destacar a referência na
presente análise a um leque amplo da demanda popular, tendo em vista
a existência da diversidade de movimentos, remetendo por vezes à mes-
ma temática e diferentes denominações. Os movimentos, em continui-
dade e diferenciando-se de experiências dos anos 70, apresentam-se
como sintomáticos dentro do fenômeno urbano brasileiro, quando se
reduz significativamente o padrão da expansão periférica do crescimento
da cidade, ocorrendo a reestruturação do espaço urbano; a formulação
de políticas públicas, então, adquire uma dimensão fundamental.
A construção pública das demandas sociais supõe redes de comu-
nicação urbana ou socialização de informações. Nesse contexto os in-
telectuais interrogam-se quanto ao permanente, temporário ou ao possí-

Montoro/Covas deu vazão parcial à demanda por participação em diversos níveis. A mobilização
pelas eleições diretas à presidência da República, com seu auge em 1984, mexeu diretamente
com a questão das reais possibilidades de representação política, com a vigência das regras
democráticas sobre o processo eleitoral. O processo resultou na aliança política denominada
Nova República – com exclusão de parcela das forças que apostava tudo na volta das eleições
diretas e, ao mesmo tempo, sem que esta se visualizasse claramente como a expressão dos
anseios populares contidos nas mobilizações.

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vel andamento integrado, paralelo ou divergente diante de outros mo-
vimentos. Questão complexa apresenta-se ao tratar de delinear com
precisão o recorte analítico (Ammann, 1991), de buscar categorias que
dêem conta do objeto, sem deixar de englobar qualquer movimento
que se paute por objetivo similar. A interrogação fundamental procede
da importância de investigar a ampliação e a multiplicidade dessas
mobilizações em formas próprias e semelhantes nos quadrantes da rea-
lidade urbana e a sua configuração ao longo dos anos mediante um
crescente relacionamento com o Partido dos Trabalhadores. Isto sem
desconsiderar as especificidades segundo as regiões do país e as parti-
cularidades das respectivas cidades.
A análise propriamente política dos movimentos tende a privile-
giar o processo de pressão que busca reordenar a forma da distribui-
ção dos bens produzidos por iniciativa pública. Ao mesmo tempo,
engloba as iniciativas de romper com a situação histórica marcada pela
reprodução de mecanismos de subordinação, por meio de alterações
da lógica que marca o ordenamento político, da incidência sobre a
distribuição do orçamento público e da via partidária contemplando a
representação política.
Cabe ainda, ao longo da interpretação da trajetória dos atores, res-
saltar a busca da diferenciação entre o discurso partidário e a prática
efetiva dos respectivos partidos junto às mobilizações. Além disto, evi-
denciar a presença dos movimentos sociais no discurso partidário, to-
davia de forma bem diferenciada, especialmente no programa, nos do-
cumentos e nas resoluções da agremiação. A definição de papéis
atribuídos a ambos – movimento social e partido político – varia ao
longo do tempo. Os militantes dos movimentos alteram a definição do
papel e o caráter da mobilização da qual tomam parte, bem como das
tarefas que pretendem cumprir ao longo do tempo. Neste sentido, os
movimentos sociais podem ser visualizados não propriamente aparta-
dos dos partidos políticos, porém tendendo a interferir na agenda da
agremiação e reconstituindo o sistema político de representação.4
Se é permitido referir-se à existência de uma crise quanto à temática
enfocada no presente texto, como alegam muitos autores, seria possí-

4 Por mais que aqui se insista no relacionamento entre movimentos sociais e partidos, por certo
as análises dos novos movimentos sociais revelam a crise existente no sistema político de repre-
sentação de interesses, ou seja, que a forma tradicional de organização partidária fica aquém de
problemas modernos encarados pelos novos movimentos sociais. Confira-se a propósito a com-
preensão de Touraine sobre a estranheza entre partidos de esquerda na Europa e seu relaciona-
mento com temas culturais, ecológicos, de gênero, entre outros.

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vel delineá-la em cada uma das fases apontadas.5 Destacam-se dois
momentos em especial: o passo para aceitar o debate explícito e o
empenho pela representação política para além do quadro das lideran-
ças; a defesa da relativização do relacionamento entre a esfera do mo-
vimento e aquela própria do partido. Aspectos de crise subsistem ora
de forma latente, ora manifestos, particularmente nas ambigüidades
das relações estabelecidas entre a demanda popular e a opção política.
A maioria dos movimentos sociais no contexto brasileiro, com maior
consistência ao longo da década de 1980, emerge no seio de fatores
apontados e em parte resultantes de rearticulação de lutas sociais se-
melhantes preexistentes.
As mudanças nas diversas ordens da vida social apresentam-se
como aspectos fundamentais para o desenvolvimento de um novo tipo
de manifestação pública. Na medida em que um movimento social pode
ser definido pela capacidade de exercer uma ação política que venha a
incidir como uma pressão institucional mediante sua forma orga-
nizacional (Touraine, 1973), tal movimento refere-se diretamente à di-
nâmica social. Portanto, objetiva afetar um determinado estado de rela-
ções sociais, mesmo que isto implique mudanças do sistema institucional
ou do quadro organizacional. Tal entendimento remete à ação conflitual
pelo “controle de um campo da historicidade”, como no caso da defi-
nição de políticas sociais e de distribuição do orçamento público.
As mudanças ocorridas dentro de um período podem vir a
incrementar ou a delimitar o campo de expressão dos movimentos so-
ciais. Entre as mudanças substantivas vindo a afetar a vida cotidiana
de muitos movimentos na década de 1980 somam-se diversos fatores
nem sempre sincronizados e correlatos. Entre eles, os reflexos da crise
econômica, sobretudo na forma do aumento da taxa do desemprego e
da integração crescente das mulheres no mercado de trabalho, mu-
danças que impuseram constrangimentos à participação em eventos
públicos. Frustram-se as expectativas de uma associação imediata en-
tre transição política para a democracia e a elevação nos padrões de
vida, assim como o fracasso de planos de estabilização econômica se
traduziu imediatamente num comportamento eleitoral que deu ganhos
para o partido proponente e, a médio prazo, em punição aos políticos
tidos como incompetentes.

5 Isto é, a afirmação necessita a cada momento ser qualificada em seus respectivos parâmetros e
na ambigüidade entre o velho e o novo, ou nas mudanças com a presença de aspectos inovado-
res. Neste sentido, por certo, qualifica-se a crise como positiva.

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As constantes negociações – freqüentemente mediadas por parla-
mentares – atenuaram o oposicionismo ao Estado,6 ainda mais na me-
dida em que determinados movimentos pautam seu associativismo
pelos programas de políticas públicas, ou, incentivados pela formação
de conselhos, aspiram à participação institucional. A abertura política
e o pluripartidarismo permitem um relacionamento mais específico com
partidos políticos e, portanto, reduzem-se as condições ou a necessi-
dade do discurso da autonomia ante tais instituições. Cresce a com-
preensão de que o cerne da questão posta pela demanda e que afeta
os movimentos concentra-se no momento da decisão política, em que
a criação de mecanismos que revitalizem a dimensão distributiva põe-
se como obstáculo fundamental, e é nesta óptica que se conjugam es-
forços de aproximação entre as mobilizações populares e as agremiações
partidárias.
O tipo de governo de cunho mais democrático instaurado em mui-
tas cidades após o retorno do processo eleitoral reconhece explicita-
mente a existência dos setores populares organizados, particularmente
como fonte de diálogo e graças à propagação de uma proposta
participacionista. Nesta perspectiva, criticada por uns e enaltecida por
outros (Garcia, 1984; Coelho, 1992), há um impulso decisivo para o
desenvolvimento das múltiplas expressões da demanda popular, seja
mediante aberta negociação das reivindicações, seja pela implementação
de políticas públicas contemplando a agenda construída pelas mani-
festações públicas.
O exercício de padrões políticos mistos, clientelistas, populistas e
participacionistas, em parte como contraposição e diluição das múlti-
plas reivindicações coletivas, traduz-se na proliferação de programas
sociais voltados ao imediato da subsistência e indica o empobrecimen-
to dos setores de menor renda. Alguns órgãos estatais primaram pela
descentralização, no esforço de capacitarem-se para a incorporação de
demandas, todavia sem se furtar a absorver lideranças. As leituras dos
interesses populares expressos coletivamente tornaram-se mais hete-
rogêneas e multiplicaram seus aspectos, de tal forma que se rompeu a

6 As manifestações populares envolvidas em maior ou menor grau de conflitividade, com partici-


pação mais ou menos intensa, em fluxo ou refluxo, tendem a deslocar-se de um “extremo de
rejeição às políticas estatais à aceitação em outro, não obstante mostram-se dispostos a nego-
ciar, evidenciando uma clara compreensão dos interesses em jogo ... É evidente a capacidade
em mobilizar grandes massas e causar incômodos a agências específicas. Essa capacidade é tão
significativa que é possível falar em estilo político cujas principais características são a partici-
pação maciça e as grandes manifestações” (Boschi, 1989, p.53).

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interpretação da realidade circunscrita pela aparente unidade anterior,
como se no passado os movimentos conformassem um bloco de ação.
Os movimentos atraídos pelo intuito da cidadania lançaram fun-
damentos para a participação popular e, ao mesmo tempo, sua atua-
ção política incidiu sobre a política formal, como a busca da represen-
tação política, principalmente no Parlamento. A crise de identidade
nos movimentos sociais manifesta-se pela mudança do discurso do
Estado, pela alteração do partido à sua frente, pelas mudanças no perfil
dos partidos – principalmente ao enfatizarem a participação popular –
e pela abertura parcial no processo de planejamento. As alterações
visualizadas significaram antes uma apropriação de discursos – corre-
ção da rota política do discurso – do que uma incorporação das de-
mandas populares.
A reforma do quadro partidário altera a visão da tarefa atribuída ao
partido por operar-se um processo de mudança do contexto em que
está enredado o relacionamento com os movimentos. Entretanto, tal
alteração apresentava-se insuficientemente manifesta, por ocasião da
emergência e da desenvoltura eleitoral das novas agremiações, para
suprir toda desconfiança no seio dos movimentos em relação à ação
partidária, junto à organização da pauta reivindicatória.7 Entretanto,
com o transcurso dos anos e das lidas próprias dos papéis sociais, lide-
ranças aproximam-se, crescentemente, de representantes partidários
no Parlamento, da filiação a um partido, e empenham-se em campa-
nhas eleitorais no intuito de eleger governantes do seu agrado. Apontar
para a heterogeneidade nesse campo nunca é demais, pois gera-se
dentre as lideranças populares uma pluralidade, similar a uma instabi-
lidade na busca da conformidade institucional, inclusive demonstrada
nos resultados eleitorais pelo empenho dos mesmos.
A grande maioria dos movimentos sociais, sob a dimensão em que
os tomamos aqui, ganha desenvoltura no período em que existia certa
dose de decepção em face da participação no quadro eleitoral ou de
que para a competência no pleito exigia-se ainda maior enraizamento
institucional junto às demandas populares; governos eleitos pelo voto

7 Por mais que a realidade não possa ser reduzida a nenhum dos pólos, a “participação é sempre
um ato de fé na potencialidade do outro. É acreditar que a comunidade não é destituída, mas
oprimida. É assumir que pode ser criativa e co-gerir seu destino” (Demo, 1988, p.60). De outro
lado, é necessário reconhecer que a ação política na periferia paulista possui um débito da
experiência de aplicação das orientações metodológicas de Paulo Freire, onde lideranças extraí-
ram referencial para tentar contornar a dualidade entre teoria e prática, objetivo e subjetivo,
condições de existência e ação dos agentes.

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popular e autodenominados democráticos patrocinam a imagem da
gestão pública com participação popular por meio da criação de con-
selhos e execução de alguns planos; faz-se presente um reconhecido
ufanismo com algumas grandes manifestações populares e plurais a
favor das eleições diretas para todos os níveis. No rumo dessas mu-
danças as análises centram-se crescentemente no aspecto político-
institucional dos movimentos (Jacobi, 1990), considerando o papel
democratizador da participação popular, a relação entre movimentos e
estruturas partidárias, a superação da ambigüidade na orientação polí-
tica, mesmo que sem uma conexão partidária específica e a formação
de um novo patamar de cultura política.

2 Construção dinâmica da pauta de reivindicações

Por uma série de fatores ao longo da década de 1980 diminuíram as


condições para o acesso aos pretendidos benefícios aludidos pelas po-
líticas públicas dirigidas à população de baixa renda. Dessa forma, em
parte se explica por que o mais adequado para os membros mobiliza-
dos foi juntar-se à forma do coletivo, para pressionar órgãos governa-
mentais. Segundo tal empreendimento, sem examinar os detalhes, tor-
na-se perceptível a dinâmica da construção da pauta de reivindicações.
Alguns movimentos chegam a firmar convênios com o órgão gestor dos
recursos públicos visando implementar a sua demanda, superando a
crítica daquela saída questionada. Numa perspectiva dinâmica de cons-
trução coletiva das reivindicações, declinando estratégias fundamen-
tais, e por mais que na sua origem existam outras alternativas, cres-
centemente ao longo da década de 1980 esses movimentos vêm a
pressionar o Estado para negociações. O fato, entre outras interpreta-
ções, revela uma vertente pela legalidade, de encaminhamentos pela
via institucional.
A reconstrução da base dos movimentos é uma constante, que
também influencia a dinamicidade e as alternativas na pauta ao longo
do tempo. Os resultados são fundamentais ao mesmo tempo em que se
sucede o debate em torno da cidadania; entretanto, uns mais do que
outros suportam pela sua consistência um prazo médio sem resultados.
Do contrário sobrevém o processo de refluxo.
A relação entre movimento e partido é tanto mediada pela cons-
trução dinâmica e diuturna da pauta de reivindicações, da delimitação
da experiência de mobilização, da forma de organização e do significa-
do da conquista de demandas, quanto pelos conflitos e concepções

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acerca do funcionamento da sociedade. Passa igualmente pela inter-
pretação da conjuntura política e das estratégias adequadas a empre-
gar em cada momento conjuntural. A relação remete também para a
interferência em outras instâncias articuladas por forças políticas, como
o setor imobiliário, a construção civil, a pressão sobre a definição do
orçamento estadual e municipal e a conformação de nova legislação,
especialmente no que tange às políticas sociais.
É possível estabelecer um nível de comparação, quanto maior e
mais estruturado o movimento, expandida a sua organização e até na
medida em que avança numa concepção política, não somente parti-
dária; pode-se, então, visualizar que vai criando também distância de
determinadas alternativas isoladas como solução do problema expres-
so. O fato de elaborar uma proposta de reivindicação para apresentar
ao Estado significa considerá-lo o tempo todo como interlocutor. O
movimento social voltado para a cidadania assume crescentemente que
a sua política necessita ser propositiva diante dos outros atores sociais,
especialmente os órgãos gestores dos bens públicos.
Os movimentos precisam vencer tanto o descrédito inicial ante a
postura de apresentar propostas quanto renovar constantemente a con-
vicção na organização coletiva8 do interesse enfocado como uma pos-
sibilidade certeira de melhoria da condição de vida. No entanto, os
mecanismos de construção cotidiana da vontade coletiva residem em
parte na qualidade democrática que orienta o movimento (Vigevani,
1989). Esses mecanismos requerem a existência de um patamar mí-
nimo de institucionalização. Além disso, a contrapropaganda, os desa-
fios do cotidiano, a complexidade dos trâmites de negociação política
exigem tal postura. Não significa que o movimento seja incapaz de
traduzir a contento a construção dinâmica das aspirações, pois, por
vezes, consegue alterar em parte as políticas públicas, sendo contem-
plado por programas específicos. Por meio das muitas manifestações
públicas e negociações, os movimentos podem levar o Estado a criar
ou reforçar certas linhas de financiamento,9 com alteração no quadro
de alocação de recursos.

8 A responsabilidade coletiva precisa ser construída “mesmo havendo participação maciça, os


mecanismos políticos e formais que possibilitariam o salto da idéia da igualdade à da reapropriação
pelo grupo social da capacidade de decisão coletiva não estão estabelecidos” (Vigevani, 1989,
p.108).
9 Dentro da óptica em apreço, diversos militantes do movimento manifestaram a opinião da necessá-
ria distinção entre a proposta política deles e a de um plano de política social, pois este último
consiste num programa de governo, uma perspectiva de aplicação de recursos públicos e só even-
tualmente coincide com o montante da demanda, dos ritmos e tempos do movimento social.

20 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998


A construção dinâmica da pauta de reivindicações toma em con-
sideração que os membros de movimentos podem ser caracterizados
como “desmercantilizados”; no que tange à sua situação social não
se definem por parcela de posse do bem que almejam coletivamente.
Ao mesmo tempo fazem referências de forma diversa ao mercado de
trabalho, cuja disponibilidade de tempo tende a ser flexível, em torno
de um bem não alcançável a não ser pela saída coletiva (Offe, 1988).
A demanda, todavia, não surge com a emergência do movimento, ou
a adesão a este.
Se existem interesses coletivos, estes subsistem antes como indi-
viduais. A relação entre individual e coletivo provocou um prolongado
debate que aqui não pode ser reproduzido inteiramente. A similaridade
de posicionamentos não resulta imediatamente em conjunção, pois os
supostos interesses em comum são precisamente aqueles que colocam
os indivíduos em competição (Przeworsky, 1989). Assim sendo, na pre-
sença de alguma organização – como movimento, entidades, partido,
ONGs, Estado – os membros teriam incentivo para lutar por interesses
coletivos enquanto incorporação dos particulares. O associativismo, no
intuito de coletivizar a demanda tornada explícita, possui dupla dire-
ção: arrancar do imobilismo ou da competição para direcionar a luta
contra as condições que impõem a carência; construir um organismo
com poderes para impor a disciplina coletiva, pois a pauta coletiva não
contempla necessariamente a compreensão individual. Ou seja, a ca-
pacidade de competição vai ser direcionada a um outro ator social,
sobre a decisão política, tarefa na qual o partido pode exercer papel
fundamental.
Podemos afirmar a necessidade de se distinguir momentos de um
mesmo processo de confecção da pauta de reivindicações: os processos
plurais em que o movimento se envolve afloram como articulação cons-
truída pela consciência coletiva, pela cultura política, pelas redes de
mecanismos de integração; contudo, suas oposições, antagonismos,
contradições antecedem a adesão à proposta pela mobilização pública,
existindo como mecanismos da reprodução social, ao contrário, por-
tanto, do que supõe Ribeiro (1991) baseado na compreensão de Laclau.
O conflito político que se explicita por meio da ação do movimento não
constitui uma criação deste, mas antes está retido pelas relações so-
ciais desiguais engendradas pelo contexto histórico. Daí que os rela-
cionamentos entre movimento e partido tendem a apresentar-se sob
múltipla articulação, ou melhor, ambos saem ganhando por mais que
suas relações permaneçam assimétricas e processuais. Considera-se
de fato assimétrico o relacionamento na diversidade e fragmentarie-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 21


dade, em que se ressalta um elo comum relativo à proximidade com
uma sigla partidária; ao mesmo tempo é processual na medida em que
se considera o relacionamento em seu enfoque dinâmico. No caso soam
como relações positivas, pois há um significado pedagógico que se
destaca, reconhecido até na voz de quem não simpatiza com o respec-
tivo partido.
De um ponto de vista crítico são perceptíveis as contradições entre
a demanda popular e as leis do mercado. Para exemplificar, a luta pela
moradia refere-se à distribuição de um bem de consumo para o qual há
uma quantia limitada de fundos disponíveis. Daí que existe uma grande
interrogação dentro do próprio movimento: 10 se a proposta é de distri-
buição de um bem raro sem ônus, então se ativa a imagem paternalista
do Estado, cresce o limite da capacidade de atendimento aos demais
cidadãos na mesma condição, mas possibilita angariar votos. Ainda
mais, há uma imensa discussão com respeito à taxa de retorno nos
programas sociais, sobretudo por questões tais como o nível de renda,
e a posse do bem a insere nas leis do mercado configurando-se como
valor de troca.
No que tange às demandas existem referências partidárias especí-
ficas, em que a perspectiva pedagógica do partido fica explícita no
sentido de contribuir com a dinamicidade da pauta de reivindicações.
A concomitância de ênfase pode englobar tanto a compreensão mais
geral da sociedade, e, dessa forma, reter uma perspectiva ampla para a

10 Questão discutida por Maria Ângela Souza in Nascimento & Barreira, 1993. Ocorre, por vezes,
que lideranças do movimento ficam desapontadas com a possibilidade da venda da casa após
longo empenho. Tanto sacrifício empreendido e por ausência de conscientização política vai por
água abaixo a luta pela melhoria de condições de vida. Esta análise parte de dois pontos de
vista: 1. como se o movimento representasse a meta de converter os membros para uma vida
asceta, onde a casa passa a ter maior dimensão ética do que comercial; 2. como se os indivíduos
de fato não continuassem no mercado. Parece que para compreender as contradições existentes
no discurso da importância da casa para o trabalhador – com a conseqüente luta árdua para
consegui-la e o fato de que número considerável quer desfazer-se dela – é necessário elucidar o
universo e a lógica que habita estas práticas. Ao conseguir um bem de consumo de maior valor
outras razões dependentes do mercado não desaparecem. Inúmeros fatores podem influenciar a
transferência nominal.
As contradições contidas no procedimento das ocupações de áreas para resolver o proble-
ma da moradia se pautam pelo seguinte: primeiro sobrepõem-se à tolerância legal, colocando-se
à margem da ordem jurídica, ou seja, contrapõem-se às regras vigentes que protegem os pro-
prietários dos ataques de invasores; segundo, na perspectiva da cidadania juntam-se forças,
num sentido inverso ao anterior, a fim de pressionar a ordem para integrar-se ao sistema de
reconhecimento da condição legal de proprietários de um imóvel urbano, ou, dito de outra for-
ma, resta o dilema de empenhar-se para auferir vantagens da mesma legislação violada. Tal fato
traz, portanto, os respectivos dilemas para os militantes partidários que tendem a acompanhar
as lutas populares e ao mesmo tempo atuam no campo da definição da legalidade.

22 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998


mencionada questão, quanto aspectos mais específicos a encaminhar:
1. Um programa social que satisfaça ao conjunto das demandas somen-
te por meio de mudanças políticas substantivas, mediante a participa-
ção da representação como força política na implantação de tais medi-
das. 2. As demandas relacionam-se com participação política, com
grandes e contínuas manifestações, com representação política, com a
construção de programas partidários. 3. A pauta de reivindicações ten-
de a conectar-se com o empenho pela democracia (Chaui, 1986), na
qual a participação política edifica-se como forma de fiscalização do
exercício do poder de decisão. 4. A participação na execução dos pro-
gramas sociais remete à possibilidade de ampliação da cidadania e
ressalta uma temática pedagógica.
Este elenco permite referenciar um significado pedagógico, de tal
forma a entreverem-se parâmetros diferentes de acordo com a sigla par-
tidária. O fato de aderir a qualquer partido, na grande maioria dos casos
das lideranças populares, refere-se à orientação pedagógica a seguir
nas lutas sociais. A busca da efetivação da pauta elaborada e modifi-
cada em determinado contexto social remete à negociação com o exer-
cício do poder de decisão. Dentro da prática em favor da pauta de rei-
vindicações a questão da manifestação pública apresenta uma
preponderância dentro das estratégias. Sob a vigência da democracia a
força dos excluídos configura-se na expressão através da multidão, as-
sumindo a chance de aparecer como ator no cenário nacional. Uma
parcela das demandas ganha novos contornos com as manifestações de
rua, com a visibilidade pública. Qualquer partido que se proponha a re-
presentar interesses configurados pelos movimentos necessita levar em
consideração este conjunto de contradições para que se baseie em pro-
postas realistas. Entretanto, entre os militantes do partido também ten-
dem a ocorrer divergências quanto à confecção da pauta: são contro-
vérsias partidárias que ressoam na prática de definição das táticas.

3 As manifestações públicas

O aprendizado da cidadania proporcionado pelo empenho nos


movimentos sociais passa por uma trajetória política que se destaca pelo
fato de compreender as carências como situação de injustiça ou ausên-
cia de direitos, frutos de relações sociais e de decisões políticas; além
disso, pelo empenho coerente, ou seja, que com esta visão o sujeito se
dispõe a lutar para implementar direitos visualizados. Mais ainda, essa
compreensão precisa ser regada com as informações sobre as formas

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 23


diversas de mobilização e a escolha de prioridades organizativas no
intento de influenciar o quadro da disputa entre forças sociais. A prática
social circunscrita por demandas e por negociação com instâncias de
poder revela noção de direitos num contexto de desigualdades (Barrei-
ra, 1993), e supõe uma referência à construção da cidadania. Nos movi-
mentos mais dinâmicos as manifestações públicas como plataforma para
negociação constituem um recurso usado permanentemente.
A razão de levar para a rua um contingente maior de pessoas parte
da compreensão de que tal é um ato educativo, e do contrário, se fosse
somente uma comissão, as garantias de atendimento diminuiriam com
chances de haver, inclusive, a possibilidade de ceder às pressões ante
a intransigência de negociação da pauta. Não obstante a presença da
manifestação do movimento na rua, parece evidente a necessidade de
destacar comissões específicas em certas circunstâncias.
Corpo visualizado coletivamente e visibilidade pública são forne-
cidos aos movimentos por meio dos atos públicos e assembléias, das
manifestações de rua e ocupações de órgãos públicos, das inúmeras
rodadas de negociação e resultados construídos, das associações for-
malmente registradas e melhorias dirigidas sob seu comando. Essas
são as expressões mais significativas para visualizar as demandas
listadas. Os movimentos mais dinâmicos e autônomos obtêm espaço
político particularmente porque adotam a tática da mobilização e as
realizam com montante elevado de integrantes, em razão do grau de
organização e do número de membros. Ao construir canais próprios,
principalmente mediante as manifestações públicas, sem dispensar
interlocutores, é possível afirmar que tal prática emerge fora dos ca-
nais instituídos, todavia não sobrevive sem conexões positivas com
a institucionalidade.
A possibilidade de exercer pressão política por parte dos movi-
mentos aparece na sua tradução em importância numérica e pela qual
transforma-se em visibilidade política pública. As reivindicações colo-
cadas em pauta ao ganharem publicidade – para a qual contribuem a
manifestação pública, o apoio de setores da sociedade civil ou de par-
tidos, o espaço no noticiário – adquirem posição que as capacita à
mesa das negociações.11 Com peso diferenciado de acordo com o mo-

11 Deste ponto de vista “muitas vezes, é menos importante o impacto imediato nos locais em que
se realizam, que o fato de obrigar os meios de comunicação a informar sobre a ação de protesto,
rompendo o silêncio que busca impor o monopólio dominante sobre as comunicações” (Evers et
al., 1982, p.139).

24 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998


mento conjuntural, verifica-se uma preocupação com a presença dos
meios de comunicação nas manifestações, prevendo a importância de
divulgar os feitos. Forma-se até lista dos órgãos a serem convidados,
inclusive com pessoas encarregadas de fazer contatos e com noção de
quais os meios e as pessoas mais acessíveis, quais repórteres atendem
com freqüência para fazer a cobertura do evento. Há mesmo uma preo-
cupação – quando existe o temor diante da conjuntura política – de que
não haverá registro, por ausência de visibilidade ou por boicote.
O controle sobre a informação e a divulgação de determinadas
leituras, as razões da manifestação, as estratégias, as conotações par-
tidárias e a ressonância pública são preocupações ordinárias, bem como
a seleção de membros destacados para informar e acompanhar os pas-
sos dos meios de comunicação durante as manifestações (com o intuito
de evitar manipulações); o uso de meios para que o conjunto dos mani-
festantes possa acompanhar os fatos, por meio da divulgação de infor-
mativos; o controle sobre a informação quando se decidem ações de
protesto, de manifestação em frente ao órgão público, para que evite
vazamento para as instâncias estatais antes da realização. Quanto a
este último aspecto, por vezes suspeita-se de um serviço de informan-
tes infiltrados na coordenação do movimento.
Posições diversas podem ser encontradas a respeito do papel das
manifestações públicas de acordo com o posicionamento partidário da
maioria das lideranças. Com freqüência se contrapôs a radicalidade do
discurso de lideranças vinculadas ao PC do B e o encaminhamento
negociado da pauta pelos militantes petistas. Os últimos teriam o mé-
rito de pensar conseqüências a médio e longo prazos, quando, median-
te as manifestações de massa na rua, nos órgãos públicos suspeitariam
de ações de confronto efetivo com a imagem pública dos governantes.
O posicionamento com discurso de cunho radical não conquistou pro-
porcionalmente mais resultados. Em diversos casos membros do movi-
mento foram reprimidos pela tropa de choque pelo fato de interrompe-
rem o trânsito em vias importantes, exprimindo assim a disposição em
reivindicar,12 mesmo beirando a ilegalidade e com a possibilidade de
serem presos.

12 O abaixo-assinado no mais das vezes é dirigido a uma instância de poder do Estado, tendo em
vista a agilização de uma política pública. Enquanto tal, não tem sido consolidado como tática
de negociação em muitos casos, pois, reconhecido como recurso muito limitado, podendo even-
tualmente acompanhar outras formas de encaminhamento, tem uso efetivo e vigência em certos
momentos que ultrapassam o seu âmbito, como para apostar nas emendas populares e em
projeto de lei. Ao que parece, ações consideradas politicamente mais eficazes são priorizadas.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 25


Para realizar a manifestação pública a organização impõe-se como
questão fundamental, assim como afirma-se essencial à participação
e à democracia. Se há uma impossibilidade mecânica e técnica de
um governo diretamente exercido pelas massas, como aponta Michels,
também numa assembléia ou manifestação pública não há tempo
hábil para cada qual formular a sua opinião e expressá-la publica-
mente, nem todos podem assumir tarefas de encaminhamento e nem
a multidão tem condições de envolver-se nas especificidades das
tensões e controvérsias. Por isso a defesa da necessidade da delega-
ção a membros capazes de representação – como acréscimo ou pa-
ralela ao contexto da manifestação de massa – com a respectiva
crítica ao assembleísmo como forma básica de definição dos momen-
tos determinantes da luta, o que equivale a romper com o basismo
(Gohn, 1991). São formas próprias de um patamar de organização,
que na análise Gohn percebe como um elenco de diferenças na con-
figuração do movimento, que levam a realçar a manifestação pública.
Organização diversificada que, por sua vez, teria referência a: articu-
lação com outras frentes de lutas sociais, estrutura interna com for-
mação de comissões, controle pela hierarquia da Igreja, presença de
membros do partido, perspectiva de independência autogestionária
perante o Estado, lentidão da capacidade decisória por causa do
assembleísmo e operacionalização complicada, presença cotidiana da
coordenação como direcionamento.
Ao encerrar a década de 1980, as diferenças crescem na direção
das divergências partidárias e diluem-se no que tange à divisão entre
as temáticas. Tudo passa a revelar a existência de extensa rede
crescentemente articulada, mesmo onde os posicionamentos políticos
são reconhecidos. Além disso, as manifestações – incluindo evidente-
mente uma referência a articulações anteriores e entre campos da luta
social – congregam uma diversidade, onde nem sempre as divergên-
cias se expressam. Parece cena comum, uma imagem de unidade para
o grande público da manifestação, e outra, se forem observadas as
relações entre grupos e agentes diversos presentes no seu interior.
A existência de conflitos parece preencher o cotidiano das mani-
festações públicas, podendo mesmo contrapor perspectivas entre mo-
vimentos. Nem sempre a sua organização é isenta de contradições, como
no caso o fato de uma mobilização desconhecer a relação entre curto e
longo prazos ou a relação entre o benefício particular e o bem geral.
Nas concentrações públicas, como manifestação de muitos em
prol da negociação das demandas, selecionam-se os órgãos públicos
de acordo com as questões postas em pauta. Pode surgir um conjun-

26 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998


to de impasses, até mesmo em relação ao partido político que está
no poder e a sua distinção diante da agremiação mais visível na
manifestação. A composição partidária numa manifestação pode con-
figurar-se a mais complexa possível, na medida da presença de
movimentos ligados a várias siglas partidárias, porém em poucos casos
as querelas partidárias explicitam-se claramente. Em outras ocasiões
peculiares no tempo e no espaço, contradições ficam temporariamen-
te ocultadas para uma atividade conjunta de militantes com diver-
gências ideológicas.
Dilemas e impasses são postos aos membros do movimento que
estão na manifestação, tais como: distinguir em cada momento a
especificidade da reivindicação e sua relação com o conjunto dos obje-
tivos postos; compreender a relação de tal órgão na engrenagem do
Estado e a possível diferenciação no atendimento por parte dos órgãos;
exigir a presença de autoridades consideradas competentes para aber-
tura de negociações (o que pode incluir a percepção de que o poder
chega até aonde está a população); participar tanto da agitação da rua
quanto assentar-se para acompanhar e entender argumentações e
posicionamentos em clima de negociação política. Esse elenco permite
a alusão à óptica múltipla e essencial da vida política, ou seja, retoma a
interrogação sobre o patamar de entendimento da realidade. O discurso
das lideranças dos movimentos tende, no caso, a querer conjugar as duas
perspectivas, atribuindo às grandes movimentações de público aspectos
simbólicos e estados de comoção. Manifestações públicas ocorrem em
ritmos e tempos diversos. As críticas a determinados procedimentos
podem ser lidas como discordância de orientação pedagógica e compre-
ensão diversa da temática da democracia no interior do movimento.
Do lado institucional põem-se encaminhamentos em vista das
manifestações públicas, tais como: momento político oportuno ante
a manifestação para proporcionar canal de negociação ou prolongar
expectativas, com os respectivos ganhos políticos ou desgaste; a repre-
sentatividade das entidades e dos movimentos presentes em compa-
ração ao conjunto das reivindicações populares da cidade como um
todo; caracterização e número das lideranças a serem recebidas, pois
pode estar posto um limite governamental e surgir possível conflito
entre lideranças do movimento; contornar as disponibilidades do orça-
mento comparando com o conjunto das aspirações, ampliando-se ou
limitando-se o que é possível negociar, inclusive considerando-se a
competência do órgão destacado.
Por vezes o momento político para a realização da manifestação
pública é meticulosamente avaliado, em meio a tensões provenientes

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 27


de afinidades partidárias. Podem mostrar-se veementes divergências
quanto à conveniência política da manifestação, particularmente quan-
do se trata de vésperas de eleições,13 criando ao movimento a oportuni-
dade de declarar que de fato não possui cor partidária. A avaliação de
algumas lideranças é de que no momento da campanha eleitoral verifi-
ca-se um refluxo de mobilização, pois as lideranças se empenham em
eleger seus candidatos. Momento apropriado para perseguir a repre-
sentação institucional, em que as lideranças estão voltadas para estes
ou aqueles e preocupadas em elegê-los. Às vezes, está em questão um
candidato que também é aquele que depois vai dar estrutura e susten-
tação política ao movimento.
As reivindicações apresentadas tendem a delinear metas ou exigir
cumprimentos, implicam alteração ou inclusão de medidas nas diretri-
zes orçamentárias. Agendar negociações com autoridade pública pare-
ce necessário tanto para encaminhamento das demandas quanto para
politização dos seus membros, pois atua contra o imobilismo e pretende
demonstrar um fator essencial: quanto a orientação na vida pública de-
pende de decisões políticas, tomadas entre outras alternativas.
A articulação descrita para a realização de manifestação pública
exige capacidade de impor-se publicamente. Nesse sentido, o volume
de mobilização e a possibilidade de repeti-la variam de acordo com a
avaliação da conjuntura política, em que o montante de indivíduos
mobilizados não equivale necessariamente a resultados.14 Tornou-se
muito freqüente a expressão motivadora da mobilização: “só com pres-
são o governo negocia”. O inverso também parece válido, a capacidade
de estabelecer negociações remete à possibilidade de mobilização. Ex-
cluem-se da presente situação enfocada as práticas clientelísticas e
privilegiamento por razões eleitorais e ocasionais.
A mobilização pública consagrou-se como uma das táticas apro-
priadas para que o movimento seja reconhecido como interlocutor, e
para que seja criado um espaço de comunicação com o poder público,
ou ainda uma ante-sala de negociações ou de confronto (Barreira, 1993).

13 As eleições costumam ser um momento de ampliação das expectativas exatamente porque


mobilizam maior volume de cidadãos ou tendem a ser um momento de refluxo do movimento
ante o envolvimento na campanha eleitoral de acordo com a estruturação do mesmo. Os acon-
tecimentos demonstram controvérsias quanto à autonomia de calendário, ao que é eleição e ao
que é movimento.
14 Aparece também a controvérsia de que na preparação de um ato tira-se uma comissão tomando-
se por base os movimentos presentes, e, na hora da manifestação, ao abrir-se a oportunidade de
negociar, aparecem outros, quase sempre de menor expressão, no intuito de forçar sua presença
no grupo seleto com direito à mesa de debate sobre a pauta.

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O momento subseqüente ainda depende da lógica pertinente às regras
da burocracia, à influência sobre o implemento de políticas públicas.
Por meio da manifestação os movimentos sociais resgatam a rua, a
praça e os espaços e prédios públicos como um lugar de publicizar, de
sensibilizar a opinião pública, bem como um instrumental para acumu-
lar capacidade política para negociar. Todavia, simultaneamente, por
um certo espaço de tempo, os setores do Estado podem contornar a
situação posta pelo movimento mediante atalhos como promessas, bu-
rocracia, exigências complicadas de preencher.
Ao longo dos anos tornou-se perceptível uma contradição no dis-
curso e na ação da maioria dos movimentos, diante do descrédito atri-
buído e da utilização do campo político. De um lado, afirma-se a inefi-
cácia dos governos, da representação política, em que o protesto
apresenta-se como referência negadora; de outro, propõe-se no tempo
oportuno a ação no campo institucional, por meio da representação po-
lítica própria. Para além dos equívocos, oferece-se um momento apro-
priado para tratar do relacionamento entre democracia direta, como
participação do conjunto do movimento nas decisões, e democracia re-
presentativa, como instâncias de decisão em que a voz passe a perten-
cer aos eleitos.
O relacionamento com as instituições acompanha uma trajetória
em que se incorpora diversamente um conjunto de fatores políticos. As
propostas tendem igualmente a encaminhar-se para que suas pautas
transformem-se em políticas sociais, cuja gestão estaria aberta à parti-
cipação da população organizada. Desde a sua emergência, a tendên-
cia marcante consiste em assumir uma dupla posição de movimento
organizado como “grupo de pressão”, via privilegiamento das mobiliza-
ções públicas, e de agência, vínculo ou implemento de políticas so-
ciais. A temática da demanda, no mais das vezes corporificada como
prioridade por metas de programas sociais, só aparentemente faz o
movimento optar por via única de encaminhamento, como seja a opção
de pressionar e negociar. Costuma-se juntar a opção política construída
nas ruas e a participação nas instâncias legalizadas, em que os conse-
lhos de composição múltipla são exemplares nítidos.

4 Da relação com outros movimentos às opções


partidárias

Pesquisas que tentavam analisar a experiência de relacionamento


frutífero entre movimentos sociais e Igreja (Doimo, 1995) parecem au-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 29


mentar na primeira metade da década de 1980, com umas mais desta-
cadas do que outras no que tange à relação com partidos políticos. A
presença da Igreja Católica para a emergência das mobilizações popu-
lares, embora fundamental e mesmo muito visível, não aparece da mes-
ma forma e intensidade em todas as oportunidades e espaços.
Na modificação do horizonte do enfoque constituem parte signifi-
cativa os critérios utilizados na análise política (Ribeiro, 1991): as forças
políticas atuantes nos processos de mobilização, os formatos políticos
selecionados para a expressão das reivindicações, os canais acionados
para a demanda atingir a visibilidade pública, as estratégias imple-
mentadas pelos movimentos, a abrangência dos interesses sociais e a
possibilidade de representação política. Com tais parâmetros a inci-
dência passa a contemplar preferencialmente os mecanismos e prá-
ticas da participação ou, dito de outra forma, a inserção no jogo da
democracia, com a respectiva disputa no espaço político institucional.
Em contraste com este encaminhamento encontra-se a recente análise
de Doimo (1995), que aponta a continuidade da resistência à proxi-
midade com a institucionalidade como característica permanente dos
movimentos sociais e, como conseqüência, uma aversão à representa-
ção política e aos partidos.
Diferenças podem ser constatadas nas diversas experiências, seja
na fase inicial ou ao longo do percurso, quando se verifica uma preocu-
pação de que grupos de esquerda, intelectuais pouco dedicados ao
trabalho de organização de base, venham a ganhar espaço na coorde-
nação. Isto advém da concepção de que na genuinidade dos movimen-
tos, estes deveriam ser conduzidos por lideranças oriundas das classes
populares, exatamente com o intuito de não constituir uma cúpula com
limitada compreensão dos reais valores, interesses e necessidades po-
pulares; neste rumo privilegiariam de imediato questões políticas mais
gerais em detrimento da demanda posta e do trabalho de base, até
mesmo limitando a participação.
Os movimentos sociais em geral, ainda na primeira metade da dé-
cada de 1980, tendiam, por um lado, a declarar-se autônomos em rela-
ção à esfera partidária, até por força da conveniência social, da neces-
sária afirmação do apartidarismo por parte dos estatutos das entidades
legais e ainda por razões de imagem pública perante as negociações
com órgãos públicos; por outro, as práticas partidárias revelam debi-
lidade entre a definição estatutária e a ação cotidiana, em que os agen-
tes respondem melhor aos interesses de representação não da coleti-
vidade, mas dos próprios indivíduos e setores afinados com sua situação
social.

30 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998


A evolução histórica das manifestações por meio das lutas sociais
permite perceber que cada vez mais cresce a ousadia de reverter a
imagem coletiva e absenteísta descrita antes. O discurso engloba a
formação política, bem como o combate por uma idéia de política vol-
tada para a defesa de interesses comunitários.15 Neste organograma,
atribui-se ao eleitor a tarefa de acompanhar e vigiar a atuação dos
parlamentares no legislativo e de conferir a aplicação de programas e
orçamento por parte do executivo. Além disso, no decorrer do tempo,
com as múltiplas articulações e os encaminhamentos sendo condu-
zidos no nível político, criaram-se quadros tidos como próprios ao mo-
vimento, ou seja, um grupo praticamente profissional que preenches-
se todas as atividades de mando.
Na fase declarada autonomia, em que se mantinha o debate sobre
a demanda dentro dos limites do movimento, bem como na qual suas
instâncias e a atuação diferenciavam-se de maneira explícita de qual-
quer partido, as lideranças conseguiam trabalhar em torno do movi-
mento e, freqüentemente, em outro momento e espaço reunir os inte-
ressados de forma paralela enquanto partido. Compreende uma fase
de realizar as duas tarefas, separando expressamente as duas ópticas.
O fato de fazer questão de conduzir o movimento de forma específica
e paralela às discussões do partido servia assim para evitar qualquer
intervenção de políticos eleitoreiros, bem como a presença explícita
de uma bandeira de partido dentro do movimento. Essa tática possuía
também, como referência básica, a possibilidade da convivência com
adeptos de diversas siglas permanecendo integradas à coordenação
de modo consensual. Permitia manter o movimento como um agrega-
do de lideranças com visibilidade plural, quando no caso trabalhavam
lado a lado membros ou simpatizantes partidários.
A construção do debate e a aproximação declarada com uma si-
gla partidária poderiam ser influenciadas por uma campanha eleitoral
cujas discussões rebatiam outras leituras. Entretanto, por determinado
tempo houve um pacto de silêncio no seio das lutas sociais, evitando
tratar-se de temáticas afetas à esfera partidária com medo de uma pos-
sível interferência externa ou indesejada. A questão da ênfase na au-

15 Pouco a pouco, os protagonistas da organização, centrada sobre reivindicação imediata, vão


descobrindo diferenciadamente ou admitindo publicamente que a atividade política, longe de
ser-lhes alheia, os coloca como atores da cena: “tudo o que fazemos e realizamos possui conteú-
do político, tanto assim que não adianta propor-se a não se meter em confusão política”. Essa é
uma das afirmações que foram adquirindo consenso.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 31


tonomia, em lugar de se pensar nos múltiplos relacionamentos, fazia
que o contexto das lutas sociais permanecesse extremamente distan-
te da questão partidária. Todavia, entre outros momentos excepcio-
nais, uma situação nova deu-se na época das eleições para o Con-
gresso Constituinte. Naquele momento começou a se refazer o debate,
gerando uma outra articulação diante dos atores, que se caracteriza
como uma intervenção partidária. Nesse procedimento pedagógico o
patamar político foi sendo modificado, passando a tratar-se como per-
tinente tudo o que dissesse respeito à relação entre partido e movi-
mento. As temáticas propostas para a nova Constituição, bem como
os obstáculos ante os encaminhamentos desembocavam no debate da
importância de reconhecer patamar de cidadania na política partidá-
ria. A experiência dos encaminhamentos da pauta, na sua multiplicidade
e ampliação, assim como um sem-número de percalços para a sua
negociação e implementação introduzem, quase obrigatoriamente, a
discussão das alternativas de poder e, portanto, dos partidos que po-
dem vir a ocupá-lo: buscando verificar qual dos discursos torna mais
plausível a efetivação das reivindicações.
O discurso de aglutinação para congregar de forma coletiva os
membros do movimento centra-se sobre a insistência de que a socie-
dade funciona organizada. Com ou sem partido político a base elemen-
tar de qualquer sociedade é que existem diversos tipos de organização
dos cidadãos. Tal discurso abre caminhos novos para o aprofundamento
de uma temática cara à reflexão sociológica: a organização no campo
popular e o vínculo com partidos políticos.
A percepção da proximidade com a institucionalidade partidária
de alguma forma dá-se concomitantemente com a consolidação do re-
lacionamento entre movimentos sociais do mesmo espaço geográfico,
formando como que redes de intercâmbio. Entretanto, a afirmação da
dimensão propriamente política não se deu de forma idêntica e sem
conflitos, nem no conjunto de um mesmo movimento, nem em termos
comparativos entre espaços geográficos. Por mais que a assessoria seja
técnica, e enquanto tal possa manter-se apartidária, também ela sofre
os confrontos com as perspectivas partidárias.16 E na prática cotidiana

16 A volta ao regime democrático representou um processo em que se afirmaram múltiplas recons-


truções institucionais e efetivaram-se mobilizações sociais diversificadas e de massa. As mu-
danças operadas pela transição ao regime democrático, com a pluralidade de partidos, a viabi-
lidade da representação política e a prática de solicitar agendamento de negociações aos órgãos
estatais, se em alguns casos significou esfacelamento, fragmentação ou refluxo, em outros pare-
ce ocorrer o processo inverso.

32 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998


conformam-se disputas de projetos alternativos nos quais as respecti-
vas opções partidárias podem ser visualizadas.
Considerando a passagem da década de 1980 para os anos 90, as
demandas que sobreviveram como lutas sociais desembocaram e con-
jugaram-se crescentemente em entidades, e, paralelamente, a maioria
das lideranças atingiu uma identificação e uma lealdade com determi-
nado partido. Ora, isto também significa que além de somatórios e apro-
ximações, viabilizaram-se possibilidades de novas fragmentações, de
outros recortes, em face dos procedimentos partidários. Mais do que
isto, possibilidades de alterar o patamar da cultura política. O debate
sobre o relacionamento entre o movimento e o partido, ou melhor, a
presença de militantes integrantes de ambas as organizações projeta
um processo de mudança no horizonte cultural.
Freqüentemente, movimentos conjugam esforços para reivindicar
controle ou influenciar alguns mecanismos de tomada de decisão,
cogitando a participação em dimensões da gestão pública, assim como
buscando consolidar uma representação parlamentar. Neste sentido a
pressão tem sido exercida sobre o espaço político de determinadas
decisões, seja no legislativo, seja no executivo, destacando-se de modo
peculiar a confecção e a aplicação do orçamento. Há sentido em cogi-
tar participação entre partes desiguais e diferentes, ou seja, o funda-
mento da participação encontra-se no possível rompimento do pata-
mar da desigualdade. No limite das reivindicações por melhoria das
condições de vida, estas se põem no rumo do estabelecimento de re-
lações entre democracia, políticas de justiça social e cidadania. “Quanto
mais os vários participantes do debate aceitarem a legitimidade de
uma multiplicidade de definições do que é possível e criarem institui-
ções (ou utilizarem as existentes) para mediar os conflitos inevitáveis
que daí resultam, tanto mais provável será um resultado democrático”
(Keck, 1991, p.35).
Aliás, no processo de redemocratização no percurso dos anos 80,
a sociedade civil tornou-se o principal campo de interação política, no
qual uma multiplicidade de atores se mobilizou na organização par-
tidária. Os movimentos sociais não tiveram suas ópticas absorvidas
por outros encaminhamentos com este processo que pode ser deno-
minado incorporação de agendas. Alguns, ao contrário de desapare-
cerem, tornaram-se mais consistentes, abrangentes e ativos na década
mencionada do que os que lhes serviram de contrapartida nas fases
iniciais da transição. Keck justifica diferenças de orientação, de tempo
e de espaço, pois as lutas sociais com as respectivas manifestações
populares foram vistas com freqüência sob a estruturação de uma

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 33


oposição democrática ampla. No decorrer da década ressaltam-se as-
pectos da capacidade de proposição própria, bem como mudanças
substantivas no contexto em que se define o papel político dos movi-
mentos sociais.

5 O saldo positivo

O exame de alguns elementos históricos recentes permitiu traçar


um percurso da demanda popular enquanto tal e seu crescente víncu-
lo com as opções políticas. Tal trajetória constitui um amadurecimen-
to da leitura das relações sociais em curso e, de certo ponto de vista,
um processo pedagógico de dimensões fundamentais. A menção ao
percurso desenvolvido para o reconhecimento da demanda popular às
respectivas opções políticas para a sua implementação vem a ser um
reconhecimento de que toda atividade pública possui uma inerente
dimensão de referência à esfera política. O que por sua vez ainda não
implica um necessário posicionamento partidário.
A referência efetuada ao patamar político atém-se sobretudo às
lideranças e menos pelo conjunto dos membros da maioria dos movi-
mentos enquanto tais. Todavia, na sua amplitude, ou em conjunto com
outros movimentos, a construção do relacionamento perante o partido,
por mais que pareça de competência exclusiva de ambos os pólos da
conexão, é sempre necessário traçar as influências limitativas do con-
texto histórico. Nesse aspecto as exigências da legislação partidária
exerceram orientação crucial nas circunstâncias sob as quais se
estruturam tanto entidades associativas quanto partidos. O que por sua
vez influencia a tentativa de captar com amplitude as perspectivas dos
movimentos sociais (Keck, 1991). A legislação eleitoral delimita as con-
dições de estabelecer formas democráticas mais autênticas de partici-
pação interna em razão do tipo de estrutura obrigatória.
O fenômeno freqüente da adesão de lideranças atuantes no seio
das lutas sociais ao quadro partidário deve-se também a uma com-
preensão de que, desta forma, lançam mão de mais um instrumento
para a luta social. Apresenta-se antes como mais uma aquisição para
setores da população que experienciam mais a exclusão do que a
integração. Pesa ainda o discurso capaz de se apresentar como um
projeto democrático e sem uma proposta organizativa única, estreita
e instrumental para os movimentos. Vale dizer igualmente que, nesse
contexto, é possível constatar a presença de agremiações com a de-
vida expressão eleitoral nacional, mas que, no nível de adesão par-

34 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998


tidária, detêm pouca referência nos movimentos sociais, por mais que
obtenham resultados eleitorais com base no voto popular.
A existência de um conjunto mais amplo de lutas sociais tende a
conduzir a uma opção partidária e crescentemente as lideranças po-
dem vir a pertencer ao quadro partidário, e de tal forma que a dupla
militância consiste na participação efetiva nos dois âmbitos, nos quais
o respeito à dualidade aparece como positivo. A relação entre movi-
mento e partido tende a ser conflitiva, muito mais ainda esta conexão
em comparação com a multiplicidade das dimensões da vida partidá-
ria. A acusação de sectarismo reflete nuanças da cultura política que
recusa aceitar a legitimidade do conflito de posições. A dificuldade de
aceitar o conflito no campo político de forma ativa pode fazer-se pre-
sente no discurso das lideranças populares especialmente no momen-
to de justificar a necessidade de obter representação no Parlamento e,
desta forma, rejeitar candidaturas e partidos que não se afinariam com
sua perspectiva.
Do ponto de vista da cidadania, deve ser saudado como positivo
o desenvolvimento da dimensão política das demandas explicitadas
pelas lutas sociais, de maneira fundamental, pela simples razão de
que estas dependem de decisão afeta diretamente ao exercício do
poder.

RUSCHEINSKY, A. Collective action and political option. Perspectivas (São


Paulo), v.20/21, p.11-37, 1997/1998.

■ ABSTRACT: The study of some recent historic events leads to the


identification of a path of popular demands, as legitimate citizen’s rights,
towards increasing connections with political options. Such path constitutes
a challenge of current social sciences’ comprehension and, from a viewpoint,
a pedagogical process of fundamental dimensions. The mention to the path
followed by popular acion, joining political options in its implementation,
means a recognition of the fact that every public activity inherently has a
dimension of reference to the sphere of decision power.

■ KEYWORDS: Social movement; politics; popular demand.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 35


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Perspectivas, São Paulo, 20/21: 11-37, 1997/1998 37


DEMOCRACIA E SOCIEDADE CIVIL
NA DÉCADA DE 1970: 1
UMA ANÁLISE DA EL ABOR AÇÃO
DE INTELECTUAIS MARXISTAS
MARXISTAS AC
AC ADÊM ICOS

Luiz Fernando da SILVA 2

■ RESUMO: Este artigo discute o desenvolvimento dos conceitos democracia e


sociedade civil, no Brasil dos anos 70. Defende a premissa de que seu início
foi fortemente marcado por intelectuais acadêmicos de matriz marxista. Aponta
que foi possível desenvolverem-se esses conceitos por uma vertente da de-
pendência estrutural e da concepção de Estado burocrático-autoritário.

■ PALAVRAS-CHAVE: Marxismo; dependência estrutural; estado burocráti-


co-autoritário; sociedade civil e democracia.

Introdução

Democracia e sociedade civil tornaram-se palavras-chave entre


muitos intelectuais brasileiros, principalmente após a vitória eleitoral
emedebista, em 1974. Esses temas, ao se interligarem, possibilitaram
problematizar a restrita proposta de “distensão política”, iniciada na-

1 Este artigo segue, em suas principais linhas, o capítulo IV da dissertação de Mestrado, intitulada
Pensamento social brasileiro, entre 1960 e 1980. Trajeto de um grupo de intelectuais marxistas
acadêmicos, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UNESP – Araraquara,
em outubro de 1995. Na dissertação, analisamos o movimento de elaboração teórica de um
grupo de intelectuais, composto por Fernando Henrique Cardoso, Francisco Corrêa Weffort,
José Arthur Giannotti, Paul Singer e Octavio Ianni. Todos integrantes do antigo grupo d’O Ca-
pital (1958-1964) e, a partir de 1969, membros fundadores do Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (CEBRAP). Neste artigo, em razão do que nos propomos, restringimos a análise
em torno de Cardoso, Weffort e Ianni.
2 Departamento de Ciências Humanas – Faculdade de Arte, Arquitetura e Comunicação – UNESP –
17033-360 – Bauru – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 39


quele ano pelo governo Geisel, colocando em questão a centralização
política e institucional imposta ao país, a partir do golpe civil-militar
(1964). Por outro lado, permitiram visualizar a sociedade como terri-
tório no qual poderiam surgir forças sociais capazes de se oporem ao
regime político. Essa perspectiva teórica e política, por sua vez, ini-
ciava uma crítica aos temas até então centrais no pensamento social
brasileiro, como Estado, desenvolvimento econômico, dependência,
entre outros. A crença em um Estado agente da “formação social”,
por exemplo, é questionada e a “sociedade é chamada a se
autoconstituir pela via democrática” (Pécaut, 1990, p.192). Em outras
palavras, “queríamos ter uma sociedade civil, precisávamos dela para
nos defender do Estado monstruoso à nossa frente”; desta maneira,
“se não existisse, precisaríamos inventá-la” (Weffort, 1984, p.95).
Os conceitos de democracia e sociedade civil ligaram-se, portan-
to, às lutas de resistência política ao regime militar e, também, ao
reequacionamento teórico de muitos intelectuais brasileiros voltados
para a vida pública concreta, quando se tornam “sujeitos políticos”,
galvanizando e conferindo sentido ao discurso e à prática oposicio-
nista, principalmente por meio do Movimento Democrático Brasileiro
(MDB). A década de 1970 traz à cena uma intelectualidade que estava
desiludida com os “mitos unificadores”, como nação, proletariado, povo,
revolução. O golpe civil-militar de 1964 e, posteriormente, o Ato
Institucional nº 5 (1968) abriram um difícil meio-fio, entre o confor-
mismo político e a opção pela luta armada.
Em outros países da América do Sul, ocorreu situação semelhan-
te. Vasconi (1987) observa criticamente que, entre 1960 e 1980, a dis-
cussão política nessa parte do continente transitou gradativamente
da temática da revolução (oposição, antagonismo, violência) para o
tema “democracia”. Nesse percurso, o marxismo foi sendo abandona-
do e criticado por não conseguir enfocar a esfera autônoma da po-
lítica e dos movimentos sociais, sem abstraí-los do conflito antagô-
nico entre as classes sociais fundamentais (burguesia e proletariado).
As palavras do intelectual facilmente podem ser alinhavadas naquilo
que Laclau (1986) observou como as dimensões políticas passando a
ser concebidas em um esquema de cooperação e conflito, sendo as
formas institucionalizadas como convenientes para solucionar as lu-
tas. A “lógica da contradição” fora substituída pela “lógica do con-
flito”. Nessa perspectiva, os sujeitos políticos definiriam-se com base
naquilo por que lutavam, não existindo uma realidade objetiva para
suas conformações, ao exemplo das classes sociais predeterminadas.
Nesse sentido, a política ganharia uma crescente autonomia em re-

40 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998


lação ao universo estrutural, ou seja, em relação às classes sociais.
A constatação de Vasconi e de Laclau, embora percebida por angu-
lações teóricas diferentes, aproxima-se da realidade brasileira, mas
não é suficiente para compreender o intricado campo no qual se
configurou esse problema, no pensamento social brasileiro, especial-
mente em sua dimensão marxista.
Este artigo procura apreender essa questão a partir de intelectuais
brasileiros que, durante muitos anos, mantiveram-se dentro de uma
perspectiva marxiana. Para o objetivo que nos interessa nesse texto,
vamos destacar as elaborações de Fernando Henrique Cardoso, Fran-
cisco Corrêa Weffort e Octavio Ianni, a fim de verificar as oscilações e
tensões existentes nesse deslocamento. Esses intelectuais, basicamente
Cardoso e Weffort, já no início dos anos 70 expressaram nitidamente
essa discussão, operando um deslocamento temático e teórico da dis-
cussão estrutural que realizavam nos anos 60. Ao realizar esse deslo-
camento, estiveram envolvidos por três mediações fundamentais,
construídas a partir dos anos 60: a) no plano sociológico, a discussão
sobre a dependência estrutural e a concepção de Estado burocrático-
autoritário; b) no plano epistemológico, o combate ao estrutural-fun-
cionalismo e ao althusserianismo; c) no plano social, o crescimento da
classe média e, especialmente, seus intelectuais (os “formadores de
opinião”, como diria Cardoso). No presente trabalho, abordaremos3 a
relação da dependência estrutural com a discussão sobre sociedade
civil e democracia, procurando evidenciar também a tensão e as dife-
renças existentes entre esses intelectuais, principalmente com Ianni,
no transcorrer dos anos 70 e início dos 80.

Estado burocrático-autoritário e dependência


estrutural

A caracterização do regime político brasileiro como autoritário ou


fascista foi um divisor de águas, na década de 1970, entre setores inte-
lectuais e políticos. Tal definição envolvia posturas diferenciadas no
plano da prática política, como também distintas análises sobre o ca-
pitalismo no Brasil, seu modelo econômico, suas possibilidades e sua
expressão política.

3 Para uma visão global das três hipóteses levantadas, remetemos o leitor para nossa dissertação.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 41


Em ensaio escrito em 1972, Cardoso observava que, no governo
Médici (1969-1974), havia se encerrado a face liberal conservadora ainda
presente no período Castello Branco. A cassação de Juscelino Kubitschek,
em 1965, quebrara a aliança com lideranças conservadoras, afirmando
uma tendência propriamente militarista. Neste sentido, “o integralismo
caboclo e o autoritarismo burocrático reencontraram-se e puseram em
debandada os ímpetos democrático-liberalizantes-juridicistas da outra
face do governo Castello” (Cardoso, 1975, p.199). A capacidade decisória
passara para o automatismo do sistema, compreendido como o aparato
político-administrativo, em torno de altos funcionários, do Serviço Nacional
de Informações (SNI), da direção dos órgãos de censura e de repressão
política etc. Todos, direta ou indiretamente, dependentes de órgãos in-
ternos das Forças Armadas. Esta seria a consolidação do regime autori-
tário a que se referia o intelectual. A relação entre a ordem política e a
sociedade, por sua vez, fora preenchida por meio de “formas simbólicas
e ritualizadas de adesão” e pela política que a “tecnocracia” estabelecia.
Entre o Estado e a sociedade estava havendo uma “nova reordenação”,
na qual os setores empresariais nacionais e estrangeiros articulavam-se
com a burocracia do Estado. Neste sentido, o sistema político brasileiro
poderia ser representado como anéis que se cruzariam entre as estrutu-
ras burocráticas pública e privada. Os setores da burocracia das empre-
sas públicas poderiam ser captados pelo sistema de interesse das em-
presas multinacionais, o mesmo ocorrendo com diversos setores do Estado,
como ministérios, secretarias e grupos executivos. Em outras palavras,
os interesses de setores da sociedade civil expressavam-se no Estado
pela “mediação das organizações burocráticas”.
O regime autoritário burocrático estaria associado à nova dinâmi-
ca do sistema produtivo no país. Cardoso formulou uma perspectiva
analítica próxima de Ianni e Weffort, em relação ao caráter da “depen-
dência estrutural”,4 associada ao final do ciclo populista, e coerente

4 Uma definição precisa desse conceito, que norteou as análise de Cardoso, Weffort e Ianni, entre
outros, encontra-se em uma citação do próprio Cardoso: “A ‘dependência estrutural’, tal como
a concebemos, se distingue do conceito de ‘dependência externa’ utilizado pelos economistas e
da idéia que existe um ‘setor estrangeiro’ nas economias subdesenvolvidas ... Entretanto, essa
diferenciação parece modificar-se quando a economia interna se internacionaliza, isto é, quan-
do passa a operar estruturalmente vinculada ao modo internacional de produção industrial-
capitalista, adotando suas técnicas produtivas e mantendo relações do controle acionário nacio-
nal e externo” (Cardoso, 1970, p.178). Na realidade, esse conceito, a partir dos anos 60, estava se
desenvolvendo no debate latino-americano, não sendo correto identificar apenas em um intelec-
tual o surgimento dessa discussão. Basicamente, a idéia de “dependência estrutural” contrapu-
nha-se às primeiras formulações cepalinas e às teses dos partidos comunistas.

42 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998


com as novas forças econômicas surgidas na economia brasileira. Sua
problematização principal, no início da década de 1970, mantinha-se
em torno da associação crescente entre empresas estrangeiras e em-
presas locais, ao lado do impulso do setor estatal na economia, o que
estaria possibilitando o desenvolvimento do capitalismo no país. Por
um lado, o capitalismo internacional; por outro, setores das Forças Ar-
madas e da tecnocracia estatal que tiveram como marca o anti-
populismo. Ao dispensar o termo “ditadura”, para definir a situação
política brasileira, não estava apenas realizando uma opção de estilo.
Enquanto a caracterização “ditatorial” ou fascista abria-se à concep-
ção do Estado enquanto “comitê executivo” das classes dominantes,
a caracterização “autoritário e burocrático” possibilitava analisar o
Estado como espaço de contradição. O Estado seria o espaço privile-
giado, no qual ocorriam as articulações políticas entre as classes e no
qual se estruturava primariamente a ideologia: “um feixe objetivo de
conexões de interesse” e um “cadinho de ilusões”. Ao mesmo tempo
que consolidava interesses e moldava políticas específicas que deline-
avam o perfil dos vencedores, o Estado elaborava também o retrato
transfigurado deles. Dizia Cardoso:

eu penso o Estado como forma, como arena, como matriz de valores e last
but not least, como organização. Penso-o, pois, como objetivamente contra-
ditório, na medida em que ele sintetiza o interesse particular e a aspiração
geral e que nele se degladiam interesses não sempre hegemônicos. Entender
o modelo político do Brasil consiste, antes de mais nada, em explicitar a for-
ma estatal, a organização estatal, a ideologia do Estado, as políticas por ele
engendradas. Ao fazê-lo, explicitam-se os que mandam, os que são benefi-
ciados, os que são excluídos e os que participam. (Cardoso, 1975, p.196)

Ianni, embora partindo também da noção de dependência estru-


tural, manteve-se em outra perspectiva sobre o Estado brasileiro, se-
guindo os pontos-chave de suas análises dos anos 60, especialmente
encontradas em O colapso do populismo no Brasil (1978). A ditadura
militar representava a vitória do “capitalismo dependente” ou “asso-
ciado”; desta maneira, o poder econômico conquistara o poder polí-
tico. O Estado fascista, criado em 1964, expressava a vitória de um novo
e poderoso bloco de poder, sob o mando dos interesses da burguesia.
O autor não tinha meio-termo para designar o que acontecera a partir
de 1964. Termos como “ditadura militar”, “Estado fascista” e “imperia-
lismo” aparecem e reaparecem continuamente em seu pensamento,
procurando evidenciar a relação do Estado brasileiro com a burguesia
(nacional e internacional).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 43


Em seus textos, Ianni refere-se à cultura imperialista como ma-
neira de manter a dominação dos países colonizados e dependentes,
através dos meios de comunicação de massa e do sistema de ensino.
Quando ocorrem lutas para eliminar a dominação externa ou para aca-
bar com a dominação burguesa, a “burguesia imperialista” movimen-
taria todo seu arsenal técnico-científico e seus cientistas e técnicos
para evitar os movimentos de ruptura revolucionária. A preocupação
com o imperialismo, enquanto sistema de dominação internacional, di-
vidindo suas áreas de influência pelo mundo, é nítida nesse intelec-
tual. Em relação à América Latina, na qual Ianni concentra sua análi-
se, essa dependência ocorria como forma de dominação com o apoio
de setores da burguesia e da classe média locais. Não seria possível
perceber o regime político de países como Brasil, Argentina, Chile,
Paraguai e outros como simplesmente militar, pois a militarização do
poder político seria a expressão de um estágio de desenvolvimento
das relações de produção (“alienação do proletariado urbano e rural”),
nos quadros do capital monopolista.

Em outros termos, quando se acentua a alienação do produtor de mais-


valia e se exacerbam as contradições de classes, no contexto do capitalismo
monopolista, que também monopoliza o aparelho estatal, torna-se mais ur-
gente e necessária a militarização do poder político. Essa é a situação na
qual surge a ilusão de que a burguesia não detém ao menos parte significati-
va do poder; ou de que as razões militares (luta contra a subversão, expan-
sionismo geopolítico) superam e suprimem as razões da burguesia, nacional
ou estrangeira. (Ianni, 1979, p.137)

A “ilusão” de que a burguesia não detém o poder, como Ianni


observa na citação acima, é a pedra angular da análise de Cardoso,
que já se manifestava em Dependência e desenvolvimento na América
Latina (1970), mas principalmente em Modelo político brasileiro e ou-
tros ensaios (1977) e Autoritarismo e democratização (1975). Para Ianni,
a militarização do poder estatal, no Brasil e em outros países, não sig-
nificava a autonomia política de uma tecnoburocracia civil e militar.
Em Weffort, encontra-se também uma visão muito próxima à de
Ianni sobre a relação capital internacional e nacional. Para ele, o de-
senvolvimento econômico ocorrido naqueles anos sob o manto ditato-
rial teria se efetivado com a participação do grande capital internacio-
nal. Seria um desenvolvimento associado, no qual os empresários, os
políticos governistas e os que se beneficiavam da então ordem política
estariam inteiramente conformados com a situação política vigente.
Inconformados estariam os intelectuais e os políticos oposicionistas,

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em razão da falta de liberdade de expressão, como também em decor-
rência da arbitrariedade existente nos mecanismos de decisão políti-
ca. Mas sua atenção recairia principalmente sobre os trabalhadores
como oposição ao regime. É possível perceber isso quando Weffort
problematiza a idéia de “empresário nacional”, contida no programa
do partido oposicionista. O MDB prometia defender o empresariado local,
o estado de direito e a distribuição de renda.

Para começar, de que empresariado nacional se trata? A maioria do


empresariado nacional já não deu mostras suficientes de que não pretende
ser defendido dos grandes capitais internacionais mas, pelo contrário, asso-
ciar-se com eles? Quem é realmente nacional na economia: os empresários
que desde meados dos anos 50 vêm-se associando ou os trabalhadores que,
além de se acharem sob um regime de compressão salarial que serve de
maneira imediata aos grandes capitais, encontram-se ainda, como consu-
midores, submetidos às regras de um mercado de tipo monopolista? (Weffort,
1973, p.5)

Existia uma aproximação entre a perspectiva analítica de Ianni e


de Weffort, uma vez que enfatizavam o grau de alianças estabelecidas
entre a burguesia local e a internacional, por meio do desenvolvimento
associado que se colocava em curso. Isso os fazia enfocar as camadas
populares, especialmente os trabalhadores, como centrais na oposição
ao regime ditatorial. Mas a convergência entre ambos se distanciava
logo em seguida. Para Ianni, o Estado era um instrumento monolítico e
totalmente avesso às possibilidades de ampliação democrática. Weffort,
ao contrário, visualizava uma possibilidade institucional, ressaltando,
contudo, a perspectiva dos trabalhadores, a partir da sociedade civil.
Referindo-se ao arrocho salarial e à concentração de renda, o intelec-
tual afirmava, por exemplo, que se tratava de “reivindicar instrumentos
institucionais que transformem a possibilidade de uma melhor distri-
buição da riqueza num mecanismo normal da vida social” (Weffort, 1973,
p.5). Nesse sentido, aproximava-se de Cardoso e de outros intelectuais
do Cebrap, como Paul Singer e José Arthur Giannotti.
Cardoso também considerava que a “burguesia nacional” (agrária,
comercial, industrial e financeira) beneficiou-se diretamente da depen-
dência estrutural (Cardoso & Falleto, 1970), além de setores da classe
média (intelectuais, burocracia estatal, forças armadas etc.) e, inclusi-
ve, os trabalhadores ligados ao setor internacionalizado da economia.
No entanto, o processo de cooptação política não seria tão simples,
pois envolvia a integração desses interesses. Por outro lado, Cardoso
resistia à idéia de um antiimperialismo:

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 45


na medida em que progride o processo de internacionalização das nações
dependentes, torna-se difícil perceber o processo político em termos de um
conflito entre a Nação e a antiNação, sendo esta última concebida como o
Poder Externo (internacional) do Imperialismo. A antiNação está dentro da
“nação” – por assim dizer – no seio da população local e em diferentes estra-
tos sociais. Acrescente-se que colocar este problema nos termos da existên-
cia de uma Nação internamente ocupada não é tarefa fácil: há muito poucos
“outros” em termos culturais e nacionais, que representem a presença do
“inimigo”. (Cardoso, 1972, p.200-1)

Nesse período, ele ressaltava que o processo político mantinha uma


certa autonomia em relação ao condicionamento estrutural. Para ele,
não caberia apenas caracterizar a nova forma de dependência que es-
tava ocorrendo no país, mas evidenciar também as conjunturas políti-
cas por meio das quais são colocadas e recolocadas as alternativas de
grupos, classes e indivíduos, que estariam recriando a história.

não há motivos para crer que o modelo de desenvolvimento econômico ado-


tado subordina, de forma imediata, o regime político, nem tampouco para
acreditar, recíproca e simetricamente, que dado um regime político seja pos-
sível inferir de suas características as políticas econômicas que serão postas
em prática. (Cardoso, 1972, p.56)

Essa situação política, caracterizada por regimes autoritários, como


o brasileiro, possibilitava a atuação de núcleos oposicionistas em diver-
sos setores da sociedade, uma vez que esses regimes não eram
“mobilizadores de massa”, nem se sustentavam por meio de organiza-
ções partidárias. Cardoso dizia que os núcleos opositores, na imprensa,
nas universidades, nos sindicatos, nas igrejas etc. não eram cortados, e
que esse “pluralismo pervertido” não derivava da decisão dos setores
que dominavam o aparelho de Estado, visto que eles não dispunham da
cumplicidade de toda a máquina estatal, nem da maioria da sociedade.
Se a situação política brasileira colocava em pauta a consolidação
de um regime burocrático-autoritário, após 1964, Cardoso e Weffort res-
saltavam que esse quadro se encontrava em uma tendência contem-
porânea de burocratização estatal, até mesmo em países capitalistas
adiantados. Nesses países, entretanto, tal tendência constantemente
era barrada pela sociedade civil. No Brasil existia um ritmo de cresci-
mento econômico – apesar da dependência, do imperialismo e do lati-
fúndio – que aproximava o caso brasileiro das nações desenvolvidas, o
que possibilitaria também formas de controle sobre o Estado, a partir
da organização da sociedade civil. Esse é o ponto nodal da compreen-

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são de sociedade civil, para esses intelectuais, ou seja, exercer o con-
trole sobre as decisões estatais e suas políticas públicas. Por outro lado,
seriam as transformações sociais e econômicas que estavam possibili-
tando organizar a vida política e institucional brasileira, nos parâmetros
das sociedades capitalistas centrais. No cerne dessa discussão encon-
trava-se a questão da modernização da sociedade brasileira.

Concedendo (só para facilitar o argumento) que o Brasil é um país em


transformação econômica e social, a primeira preocupação dos que têm res-
ponsabilidade política ... deveria ser: como colocar a vida política (tudo: par-
tidos, regimes, formas de participação, ideologias) em compasso com uma
sociedade que se transforma. (Cardoso, 1973a, p.4)

A burocratização do Estado seria inevitável na “sociedade indus-


trial de massas”, isto porque esta exigia decisões cada vez mais técni-
cas do aparelho estatal. No entanto, a burocratização não poderia res-
tringir as decisões políticas aos gabinetes, sem que se soubesse “em
nome do que e com que objetivos impulsiona a máquina do Estado”,
como diria Cardoso. De outro lado, porém, não esquece de salientar o
aspecto autoritário existente na tradição brasileira. Existia uma tradi-
ção autoritária no Brasil que, historicamente, incapacitou a sociedade
para impor controle sobre os governantes e o Estado. A possibilidade
de limitar e controlar o poder encontrava-se muito mais na capacidade
de “associação autônoma” dos grupos e das classes sociais. Apresen-
ta-se, portanto, a idéia de sociedade civil, democracia e participação
política, tendo como parâmetro uma crítica ao Estado como concebido
na tradição autoritária brasileira.

Refiro-me à vigência continuada entre nós desta concepção de valoriza-


ção do Estado (e de uma correspondente desconfiança em relação à socieda-
de) que é um dos aspectos mais salientes de nossas tradições autoritárias.
Neste país de dimensões continentais, a sociedade, por sua vez de enorme
heterogeneidade social e regional, apareceu sempre para as elites como es-
sencialmente incapaz de estabelecer a sua própria ordem. Caberia então ao
Estado (ou melhor à burocracia do Estado) fazê-lo, assumindo assim a função
de educador da sociedade, de criador da consciência nacional e no limite de
criador da própria Nação. E o que é pior, uma sociedade que se concebe
como incapaz de governar deveria também ser praticamente ingovernável fora
dos regimes fortes. (Weffort, 1974a, p.4)

A crítica ao pensamento social brasileiro foi um dos desdobramen-


tos da discussão sobre democracia e sociedade civil. Perderia impor-
tância uma conduta iluminada do Estado e de suas elites autoritárias

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 47


como forma de resolver os impasses brasileiros. Em seu lugar, outros
temas teriam que ser propugnados, como a desigualdade social, as li-
berdades políticas e os aspectos que afligiam a maioria da população,
em seu cotidiano. Neste sentido, os antigos “mitos da oposição”,
advindos do período populista, tinham que ser desfeitos. Entre esses
mitos, ainda nos anos 70, eram fortemente presentes: a economia es-
tagnada em razão do imperialismo e das oligarquias; a crença no Es-
tado desenvolvimentista e nacionalista; a inviabilidade da participação
política da população.

O importante é descansar menos na ação do Estado, conceber menos a


relação política como se ela se desse diretamente entre cada grupo da socie-
dade e o Estado, pensar menos (como se a oposição estivesse no governo)
quais são as políticas adequadas para o Estado, e procurar definir os obje-
tivos e as políticas para cada agência social, para cada grupo, para cada pro-
blema (como pressionar para obter e melhorar a educação, como e por que
criticar o Plano Nacional de Habitação, como cada um destes programas é
um problema e qual o limite de solução que o regime e a ordem dada impõem
a eles; como, portanto, reivindicar não quer dizer aderir etc.). O importante,
por fim, menos do que radicalizar verbalmente e tomar uísque à noite dian-
te do peso morto das condições adversas, é procurar colocar concretamen-
te alternativas e criar forças que permitam uma transformação. (Cardoso,
1973b, p.8)

Cabe ressaltar que estava sendo proposta não apenas uma ação po-
lítica de denúncia ao regime militar, mas principalmente uma ação na
qual a centralidade política desenvolvia-se em torno da reivindicação
feita ao Estado, colocando “concretamente alternativas”. Há uma inflexão
do pensamento político, descartando-se de grandes temas e propondo
a recuperação de questões mais cotidianas.
A dificuldade das oposições estaria justamente em equacionar
essa contradição presente no capitalismo brasileiro, entre, de um lado,
o desequilíbrio regional, má distribuição de renda, pauperismo rural e
urbano e, de outro, bolsões de prosperiade urbano-industrial. As opo-
sições olhavam somente “um lado da moeda”, deduzindo “racional-
mente” toda uma estratégia e um conjunto de táticas que levaram ao
seu isolamento no conjunto da sociedade. Elas teriam partido da pre-
missa, segundo Cardoso, de que o capitalismo brasileiro não poderia
avançar e, por outro lado, dada a fraqueza da sociedade civil (dos gru-
pos sociais, dos sindicatos, das associações profissionais etc.), não
haveria chances – como houve nas outras sociedades industriais – para
que as massas urbanas se organizassem e atuassem politicamente.

48 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998


Logo, as transformações da sociedade brasileira deveriam vir do
campo (atrasado, espoliado e marginal do desenvolvimento) e dos
núcleos políticos exemplares, conscientes da verdade profética da
inviabilidade do desenvolvimento. Imbricado a essa visão de estagna-
ção econômica, outro mito seria a idéia de uma sociedade imóvel,
completamente apática dos destinos políticos, em decorrência do de-
senvolvimento econômico no país. Dessa submissão apenas se salva-
riam as massas espoliadas e marginalizadas,

como se os operários das fábricas, por viverem numa situação mais “adianta-
da” que a dos “camponeses” pobres ou dos favelados sem emprego (como se
as pesquisas não mostrassem todo o tempo que as favelas são também habi-
tadas por trabalhadores!) estivessem contaminados de antemão pela prospe-
ridade, como se os profissionais liberais não tivessem, até por razões pura-
mente ideológicas, como no caso dos magistrados, boas razões para não se
alinharem com o governo, como se os homens das novas profissões (os publi-
citários, os técnicos, os programadores de computador, os cientistas), só por
serem num dado momento parte do sistema, não pudessem, noutro momen-
to, voltar-se contra ele. (Cardoso, 1973b, p.8)

A nova perspectiva sobre o Estado brasileiro, por outro ângulo, sig-


nificou um passo importante na discussão que até então se apresenta-
va no campo oposicionista. Muda a concepção de fundo sobre o Esta-
do, como a presente em Cardoso (1972), Weffort (1966), mas se mantém
em Ianni (1965, 1981). Essa análise reequaciona a maneira de visualizar
a “política”. Esta não poderia ocorrer em torno de um discurso
antiimperialista formal, “desligado da prática cotidiana das camadas
da população que estão excluídas do jogo do poder” (Cardoso, 1973b,
p.8). A prática política devia se nortear pelos problemas concretos da
população, reivindicando soluções. O que estava sendo proposto era o
estabelecimento de canais de negociação com o Estado, em suas di-
versas agências, e não uma luta contra o Estado, mesmo que estivesse
presente uma forma extremamente centralizadora e autoritária. Desta
maneira, ocorre um esforço no sentido de tornar pragmático o pensa-
mento político oposicionista, dentro de uma estreita visão de partici-
pação política e de democracia. O distanciamento da perspectiva anti-
imperialista, revolucionária e de luta de classes possibilita estabelecer
uma aproximação com o tema democracia e sociedade civil, eliminan-
do progressivamente a perspectiva de luta de classes.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 49


A sociedade civil e o MDB

A concepção de sociedade civil, entendida como os múltiplos in-


teresses existentes na sociedade, torna-se central a partir de meados
dos anos 70. Segundo essa perspectiva, a intelectualidade oposicionis-
ta vai pensar e engajar-se no processo de institucionalização política
brasileira. Entre os intelectuais cebrapianos, amalgamados nas formu-
lações de Cardoso, tal reflexão ganha impacto teórico e político mais
amplo. Além de ampliarem sua influência para setores emedebistas,
mediante a formulação do Manual Eleitoral do MDB de 1974 e dos inú-
meros debates realizados em diretórios desse partido, também aproxi-
mam-se da Igreja Católica. Por meio da abordagem de temas como con-
centração de renda, trabalhadores e cidadania, autoritarismo e
democratização na sociedade civil, os livros São Paulo 1975: cresci-
mento e pobreza (1976) e São Paulo, o povo em movimento (1980) per-
mitem visualizar a aproximação da Comissão de Justiça e Paz da
Arquidiocese de São Paulo com os intelectuais cebrapianos. Nesses
textos, a preocupação central era assinalar os desdobramentos sociais
do tipo de crescimento que havia ocorrido no país, especialmente na
capital paulista, como também as formas de organização que estavam
assumindo as “massas populares urbanas”, dentro de uma perspectiva
analítica já consolidada pelos cebrapianos. Ao lado desses temas, ou-
tros como o movimento negro e os problemas das mulheres passam a
ter visibilidade para esses intelectuais.
Em decorrência do bloqueio dos canais institucionais de represen-
tação política, esses intelectuais percebiam que as “relações in-
terpessoais e as redes informais” eram reforçadas para solucionar os
problemas cotidianos da população. Eram as organizações de base que
começavam a ser vistas como afirmação dos sentimentos populares mais
imediatos. Embora essas formas de organização não fossem suficientes
para mudar a situação política e econômica mais geral na sociedade,
poderiam desempenhar um papel importante nas mudanças, na medi-
da em que se convertessem em “malhas de uma rede de organização
autônoma da população”. O atendimento das necessidades humanas
básicas, como o emprego, a alimentação, a educação, a moradia, seria
essencial para a instauração de liberdades efetivas. Mas a luta por esse
atendimento exigiria a utilização das liberdades possíveis no momento
imediato. Estas resultariam da própria prática diária da população, que
utilizava as brechas e os canais disponíveis.
Encarar a liberdade do ângulo popular significa hoje estender a prática
da confiança na própria atuação, da parte dos grupos de base e organizações

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representativas de massa. O percurso de uma democratização substantiva
passará pela multiplicação de organizações populares e pelo seu robus-
tecimento. A liberdade deixará assim de ser um mero preceito legal sem efi-
cácia para converter-se em um estilo de convivência baseado no atendimen-
to das necessidades sociais e no respeito às crenças plurais. (Cebrap, 1976,
p.155)

“Democracia substantiva” foi um conceito utilizado por Cardoso


para estabelecer uma relação entre as liberdades políticas (institucionais)
e as igualdades sociais. Nessa perspectiva, deveriam ser aproveitadas
todas as possibilidades disponíveis, enquanto organizações de base e,
também, os canais políticos existentes em torno do MDB.
Até 1973, prevalecia entre os intelectuais uma postura crítica em
relação às possibilidades institucionais e aos partidos “consentidos”.
Como Weffort observava, “nenhum dos dois existiu pois a rigor nem
ARENA governou nem o MDB se opôs”. Expressando esse ceticismo, o
autor ainda afirmava

que as eleições tendiam a servir menos como “mecanismo democrático de se-


leção de governantes e de programas de governo” que como técnica de ma-
nipulação. Deste modo, tão importante como a eleição seria a propaganda
em torno dela, e seus resultados apresentados como fonte de legitimação do
regime. (1972, p.4)

Naquele período, evidenciava-se claramente a derrota política e


militar de diversas organizações revolucionárias. A guerrilha urbana
e rural havia se esfacelado. Nesse quadro, começavam a convergir as
esquerdas revolucionárias para a implantação de trabalho de base,
nos bairros periféricos e nas fábricas. Principalmente a partir de 1974,
naqueles setores de esquerda, configuram-se as primeiras propostas
de apoio condicional ao MDB. Até aquele período, com exceção do
PCB, as organizações revolucionárias criticavam os “partidos consen-
tidos” e pregavam o voto nulo nas eleições. A convergência para a
discussão institucional tinha como centralidade a questão das liber-
dades políticas, muito embora concentrasse seus poucos quadros e
energia nos trabalhos de organização de base, por meio de sindica-
tos, oposições sindicais (metalúrgicos, bancários, jornalistas, profes-
sores) e em “aliança implícita” com a Igreja, nos bairros periféricos
das médias e grandes cidades, como também em áreas rurais. A
situação de derrota, dispersão e contínua perseguição repressiva
impossibilitou à esquerda visualizar e analisar concretamente a con-
juntura que se abria em meados dos anos 70.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 51


Para Cardoso, dois problemas colocavam-se para mudar a situa-
ção política então vigente: por um lado, uma oposição mais ampla do
que a existente no quadro partidário de então; por outro, o problema
extrapolava os limites mesmo de uma oposição combativa: um pro-
grama de reinstitucionalização do país exigiria a criação de “um es-
tado de espírito” e de formas de pressão que permitissem questionar
a fundo a base do modelo político existente. E isto dependeria de
uma ativa participação dos “formadores de opinião”, independente-
mente de estarem dentro ou fora da política. Seria uma tarefa mais
ampla, “cívica”, “civil e dos cidadãos”.
A discussão apresentava-se articulada entre a igualdade de
cidadania política e a igualdade social (realizada por meio da distri-
buição de renda). O problema residia, portanto, na democracia do ponto
de vista econômico e social; seria impraticável sem a participação da
maioria da população: os trabalhadores. Isto porque a sociedade vivia
sob o peso das grandes organizações burocráticas e das grandes em-
presas; neste sentido, a democracia seria pluralista ou não existiria.

Significa dizer que ou surgem da sociedade as associações que, articu-


lando os indivíduos dispersos, permitirão contrabalançar o peso dos monopóli-
os e da burocracia ou estas tenderão a um poder ilimitado. (Weffort, 1974a, p.4)

O conceito “sociedade civil” aparece em Weffort com toda a ex-


pressão que ganharia no transcorrer dos anos, ou seja, uma
contraposição de associações ao Estado e aos monopólios. Essa
angulação permitia realizar uma crítica ao antigo MDB, talvez mais
central na formulação de Weffort: por que o estado de direito não in-
teressaria também aos trabalhadores? As preocupações dos trabalha-
dores, segundo o autor, não se restringiam às questões socio-
econômicas. O MDB deveria superar essa concepção liberal, para se
tornar um partido popular:

Se os partidos da oposição puderem superar esta tradição no sentido de


uma concepção mais moderna de democracia, aquela velha e preconceituosa
separação entre o pão e a liberdade deixaria certamente de existir. Na reali-
dade, em particular numa situação como a atual, os trabalhadores podem ter
tanto interesse na reformulação dos direitos sociais, por exemplo, como os
intelectuais em assegurar garantias para a liberdade de expressão, simples-
mente porque num caso e noutro o que está em jogo é o trabalho de cada um.
Enfim, não se trata apenas de reivindicar uma melhor distribuição de riqueza.
De fato, este objetivo não se esgota em si mesmo a não ser que ainda se esteja
pensando no modelo de um Estado paternalista. (Weffort, 1974a, p.4)

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Direitos sociais e direitos políticos deveriam articular-se na pers-
pectiva de democracia no país. Esta preocupação não existia no par-
tido oposicionista, pois o MDB partia de uma forte tradição “liberal
juridicista e individualista”, existente no pensamento social brasileiro,
que havia definido o âmbito do debate sobre o restabelecimento do
estado de direito no país. Por esta óptica, as formulações presentes
historicamente nas formulações jurídico-institucionais do partido oposi-
cionista sofriam uma séria crítica. O modelo de Estado não poderia
limitar-se, portanto, ao paternalismo como concebido na tradição bra-
sileira, desarticulado de uma sociedade civil na qual os trabalhadores
teriam peso importante. Em relação às suas posições de 1973, Weffort
realizava uma mudança de atitude em relação ao MDB, pois suas crí-
ticas posteriores eram no sentido de “corrigir a rota” desse partido.
Weffort expressou claramente o sentimento de uma parte da
intelectualidade sobre a vitória emedebista no pleito de 1974. Para
ele, teria ocorrido uma separação entre o “velho” MDB e o “atual”,
que possibilitou o “encontro da oposição com o povo”, constituindo
esse fato um amplo movimento democrático de alcance nacional. Ainda
para ele, naquele período a oposição teve de passar por desesperan-
ças e desilusões, até que aceitasse o caminho de uma luta demorada
pela construção da democracia: “uma atmosfera generalizada de de-
sesperança que certamente teria que afetar os poucos políticos da
oposição que persistam no combate miúdo de construir pedaço por
pedaço um caminho novo” (1974b, p.5). Nessa vitória emedebista, o
mais importante seria a “emergência popular”, no sentido de tornar
o MDB um “movimento político de massa”:

o que importa sobretudo é compreender que o povo, melhor talvez que os


líderes, compreendeu que as suas reivindicações econômicas necessitam de
um clima de liberdade para se expressar. Mais do que a vitória do MDB, o
fato radicalmente novo deste 15 de novembro consistiu portanto no despertar
da população brasileira para o exercício da democracia. Uma boa parte das
elites, e não apenas as do oficialismo mas também de alguns setores da opo-
sição que a desejavam mas que terminaram por descrer de que fosse possí-
vel, assistiu estupidificada à emergência popular para o exercício da ativida-
de política, quer dizer que para o restabelecimento dos fundamentos de legi-
timidade da República. É evidente que se trata apenas de um ponto de parti-
da para o objetivo final da restauração democrática. (ibidem, p.5)

Na perspectiva de Cardoso, Weffort e outros intelectuais, 1974 ca-


racterizava-se como a reativação da sociedade civil contra o Estado
burocrático-autoritário, por meio do instrumento político disponível

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 53


naquele momento. Nesse sentido, aquele ano foi “uma luz no fim do
túnel” pelo que significaram as eleições de novembro, mas outros fatos
políticos apresentaram-se naquele ano, ligados à sucessão presiden-
cial e à perspectiva da “distensão” política. Ou seja, o início de um
lento, gradual e arbitrário processo de democratização do país, basea-
do em um calendário formulado pelo governo, envolvendo eleições,
habeas-corpus, fim da censura prévia, anistia, eleições para prefeitos e
governadores, que enredou por completo o partido oposicionista em
uma visão formalista de democracia. Dentro desse espaço institucional,
com uma esperança de retorno às liberdades políticas, a oposição se
enquadrou, num ritmo de institucionalização que se sucedeu principal-
mente nos nomes: distensão (Geisel), abertura (Figueiredo) e transição
(Tancredo/Sarney). As lutas sociais, que existiam embrionariamente nos
anos 70, emergiram na sociedade no final daquela década, questionan-
do a discussão sobre democracia e apontando outros caminhos.

As lutas e os movimentos sociais,


no final dos anos 70

Na história política brasileira, o final dos anos 70 caracterizou-se


como a emergência dos movimentos sociais, de base operária e po-
pular, como principais sujeitos políticos na luta contra o regime mili-
tar. A partir desse momento, o eixo da discussão democrática toma
novo rumo, sendo deslocado das iniciativas exclusivas dos setores bur-
gueses e liberais. A discussão entre 1974 e o final da década passava
principalmente pelo eixo de fortalecimento do MDB como alternativa
política, reduzindo a discussão sobre democracia à institucionalização
do país. A partir daquele momento, esses diversos setores sociais
recolocam a discussão sobre democracia com novos conteúdos. O re-
gime político, por sua vez, procurava de todas as maneiras se auto-
reformar, por meio de um lento processo de liberalização política sob
seu controle.
Em seu O ABC da classe operária (1980), Ianni expõe com todas
as letras, com base em uma análise sobre a greve dos metalúrgicos
do ABC, em 1979, a sua perspectiva marxista. Mantinha sua con-
ceituação de classes sociais e sua caracterização sobre o Estado bra-
sileiro, mas agora enfatizava as lutas sociais, procurando enxergá-las
em seu âmago e no terreno concreto em que ocorriam. Certamente,
essa angulação não existia anteriormente em seus trabalhos. A atu-
ação dos empresários, enquanto membros da burguesia nacional e

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estrangeira, mostrava sua aliança com os aparatos repressivos e um
total descompromisso com o processo democrático. Nesse sentido,
essa greve estava desmascarando a “conversa da burguesia sobre a
questão democrática” (Ianni, 1980, p.24).
A ditadura militar procurava consolidar no país um Estado auto-
ritário, organizado de cima para baixo, no qual não se colocaria espaço
para a “classe operária e o campesinato”. Por outro lado, a abertura
política objetivava principalmente reconquistar o apoio político da
classe média e de setores liberais descontentes. A greve dos me-
talúrgicos do ABC colocava em xeque justamente essa “farsa da re-
forma política”, uma vez que forçava a discussão de questões que
eram centrais para a maioria da população, como as condições de
trabalho, salários, organização sindical independente do Estado etc.

A questão da democracia, em vários dos seus aspectos políticos, econô-


micos e sociais, é recolocada pela luta da vanguarda da classe operária brasi-
leira, formada na área do ABC, isto é, São Bernardo, Santo André, São Caeta-
no e Diadema; todos municípios da vasta e densa concentração industrial
formada na região da Grande São Paulo. O povo brasileiro, em especial os
operários do País, por meio dos acontecimentos de abril e maio, mostraram
também à burguesia, militares e policiais, qual é a sua proposta para um re-
gime democrático. Trata-se de uma democracia de base popular e não restri-
ta ao âmbito da burguesia e certos setores da classe média. Trata-se de uma
democracia na qual o operário e o camponês, todos os trabalhadores da in-
dústria e agricultura, tenham voz e voto, participem do poder político e alar-
guem a sua participação no produto do próprio trabalho. Um regime político
no qual os trabalhadores da cidade e do campo não sejam tratados como
súditos, como povo subordinado, conquistado; mas como gente, cidadãos,
no mínimo, por agora. (Ianni, 1980, p.68-9)

Ianni centra a análise em uma sociedade civil ativa, basicamente


os assalariados e o povo brasileiro, lutando “de baixo para cima” para
a conquista das liberdades políticas e da democracia. A arena dessa
luta seriam os bairros, as fábricas e os sindicatos, as comunidades
eclesiais de base, as comissões de fábrica e oposições sindicais –
terreno para o aparecimento de partidos de composição operária, con-
duzindo ou influenciando os rumos da “revolução democrática”. Ao
mesmo tempo em que enfoca a questão da classe, amplia sua visão
para a dimensão étnico-racial (negros, brancos, mestiços, índios), de
gênero (homens e mulheres), de religião (católicos, protestantes,
umbandistas). A heterogeneidade social, para Ianni, não seria um atri-
buto negativo para a consolidação de uma classe social. Perspectiva

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 55


analítica diferenciada da que o autor e outros de seu grupo tinham
a respeito da composição do proletariado, na década de 1960.
Ianni realiza uma análise muito própria da sociedade civil e da
democratização, coerente com sua caracterização do Estado brasilei-
ro de então como fascista. A crise de hegemonia estaria no centro da
crise da ditadura, a partir de 1974. Ela estaria perdendo credibilidade,
mesmo para setores que a haviam apoiado, como a Igreja Católica,
setores da classe média e militares. O povo brasileiro, especialmente
a classe operária e o campesinato, “a maioria da sociedade civil”,
exigiria cotidianamente o fortalecimento dos direitos democráticos,
da cidadania, liberdade sindical, partidos políticos livres.

Sob várias formas, devagar ou de repente, o povo recomeçou a tecer os


fios da democracia construída de baixo para cima, sem tutelas, a partir da
fábrica, fazenda, sindicato, partido. São preciso muitos, operários e campo-
neses, empregados e funcionários, intelectuais e estudantes, homens e mu-
lheres, negros, mulatos, índios, mestiços, brancos, católicos, protestantes,
umbandistas, muitos, assalariados da cidade e do campo, para tecer a manhã
da democracia. Em todos os lugares caminha a luta pela democracia, pelas
liberdades democráticas, pela reconquista de todos os direitos que a ditadura
usurpou do povo brasileiro desde 64; e pela conquista de direitos democráti-
cos que nunca a burguesia permitiu que o povo, principalmente a classe ope-
rária e o campesinato, conquistasse. (Ianni, 1981, p.225)

No final dos anos 70, a perspectiva principal de Octavio Ianni


manteve-se como se desenvolvera dentro de parâmetros anteriores,
mas certamente algumas reconsiderações tiveram que ser realizadas
em seu pensamento. Seu enfoque debruça-se na dinâmica local das
classes sociais, do Estado, da sociedade civil, em torno de suas
especificidades. Por outro lado, não havia como negar que ocorrera
um intenso desenvolvimento capitalista no país.
Para Weffort, mantinha-se em aberto a crise de hegemonia, que
não estava conseguindo ser implementada concretamente, nem en-
quanto hegemonia popular, nem conservadora. Em sua análise, man-
tinha-se no quadro político uma “tendência indesejável” de disjunção
entre as questões sociais e de liberdade política, que não conseguiam
ser articuladas concretamente nas lutas sociais. A relação entre a
igualdade econômica e a política foi uma tecla na qual Weffort havia
constantemente batido, na primeira metade dos anos 70. No quadro
que se abria nos anos 80, entretanto, ele percebia a dificuldade em
estabelecer, no plano prático, o que fora defendido teoricamente. Por
outro lado, verificava que existia um condicionamento na discussão

56 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998


da reorganização partidária e institucional. Enquanto isso, havia uma
eficácia governamental em implementar sua ação no plano econô-
mico, sem nenhum tipo de controle político.

Enquanto isto, o conjunto do espectro político brasileiro desde a direita, o


PDS, até a esquerda, PT, está envolvido por um debate político e não é capaz
de arranhar o negócio. A disjuntiva você tem em todos os níveis, há um pro-
cesso de fragmentação da percepção em todos os níveis. (Weffort, 1980, p.48).

O problema colocava-se em quem estaria definindo o eixo do


processo político, uma vez que, se predominasse uma visão conser-
vadora burocrática, dizia Weffort, “nós poderemos continuar discur-
sando sobre socialismo, democracia e guerras de posição”, sem nada
conseguir mudar; nesse sentido, “nós vamos ser uma espécie de
esquerda democrática dos anos 80”. Para o intelectual, havia a ne-
cessidade de aprofundar o conhecimento sobre o Estado e como a
sociedade se relacionava internamente, para conseguir compreender
os limites do regime político, como também da própria esquerda. Se
esses eram problemas em aberto para Weffort, certamente para seu
colega Cardoso, que nos anos anteriores conseguira elaborar uma
perspectiva de Estado, já estavam relativamente claras.
Em artigo de 1981, Cardoso não via com otimismo as mobiliza-
ções sociais em curso no país, revelando sinais de reservas sobre o
quadro político brasileiro. Os movimentos sociais viveriam lutas
imediatizadas, fragmentadas, que não extrapolavam os níveis
reivindicatórios para uma perspectiva política global. Ao contrário do
que analisava Weffort, haveria uma busca da hegemonia oligopólico-
autoritária fundada no Estado. Estaria solidificado o sistema de pro-
dução que criou a “sociedade burocratizada e de massas”, sendo o
regime político, principalmente a partir de 1974, o regime do grande
capital, articulado por seus técnicos e políticos – membros dos
múltiplos serviços de informação, funcionários de vários palácios,
jornalistas a serviço da comunidade de informação, cúpulas das
empresas estatais e dos ministérios. O regime não seria mais militar,
nem sequer do Alto Comando. Teria ocorrido, a partir desse período,
uma transição importante em seu caráter. O Estado e a burocracia,
ainda de acordo com Cardoso, teriam sugado da “sociedade civil” as
funções globalizadoras, distorcendo-as. Na medida em que conseguiam
cooptar a Intelligentsia – via tecnoburocracia e via enfeudamento da
Universidade aos programas de desenvolvimento estatais –, conse-
guiram propor a cara da “nova sociedade”:

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 57


A “democracia conservadora”, a institucionalização de certas regras de
acesso ao poder sem que delas derive o curto-circuito entre política e mu-
dança econômica de base, passa a ser, nessas condições, aspiração de todos
(ou quase): os agentes políticos, se não a aceitam na subjetividade, a ela se
conformam objetivamente. Mesmo os mais autênticos e puros reformadores e
lutadores contra a exploração – ao invés de denunciar e somar força no plano
político, recuam para o plano da luta imediata no círculo do cotidiano e abo-
minam, quando não vituperam, a política (e os políticos). No fundo, a regres-
são para o plano da ética é o reconhecimento tácito de que no aqui e no
agora a fragmentação de interesses e de propósitos é de tal monta que tudo
que não seja imediato e imediatamente popular aparece como abstrato ou
mistificação. Sem o saber e sem o querer, com essa postura também dão vi-
gência à lei inexorável do sistema: cada macaco no seu galho, que da árvore
cuida o imperador. (Cardoso, 1981, p.10)

A análise de Cardoso apreendia basicamente a questão da fragmen-


tação como elemento daquela conjuntura. Sem dúvida, existia uma for-
te presença do “basismo”, como forma autônoma de considerar a po-
lítica, sem os “políticos profissionais” e sem as impurezas do jogo
político-institucional, do carreirismo parlamentar, e apenas consideran-
do os movimentos diretamente em conflito. Em outro artigo, Cardoso
iria considerar que essa multifacetação seria própria de sociedades in-
dustriais de massa. No entanto, apóia-se nela como meio de se recu-
sar a pensar a questão política com base nesses setores, ou pelo me-
nos limitado por essa óptica. Dessa maneira, lança-se definitivamente
para o campo democrático-liberal, no qual encontra principal respaldo
no PMDB. As suas análises tenderiam a fazer a separação entre partido,
movimentos sociais e Estado, ao contrário do que pensavam Weffort,
Singer e mesmo Ianni, que consideravam o partido como expressão
dos movimentos sociais, operário e popular, que teriam se desenvolvi-
do naqueles anos.
Todos concordavam, entretanto, com a necessidade de mudar o
modelo econômico brasileiro. Como observava Singer, desde 1974 o
ciclo de desenvolvimento econômico iniciado em 1968 encontrava-se
em sua fase de baixa. A retomada do desenvolvimento econômico
requeria transformações estruturais que passavam, como em outros
períodos, por mudanças de caráter sociopolítico, o que permitiria um
novo padrão de acumulação. Tal impasse colocava-se dentro de uma
fase recessiva da economia capitalista mundial. No entanto, a solução
dessa crise dependeria “do processo político que se desenrola dentro
do país”.

58 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998


Se o processo político desembocar numa nova redemocratização que
conduza ao poder uma coligação de classes que dê à eliminação da miséria
máxima prioridade, é possível que o Brasil possa vir a exemplificar uma nova
via de desenvolvimento para outros países em situação similar. (Singer, 1986,
p.243)

A questão do país e de seus graves problemas sociais passava


pela mudança do modelo político e econômico brasileiro. Mas agora,
outro grave determinante entrava em cena, o endividamento externo
e as imposições do Fundo Monetário Internacional (FMI), que limi-
tavam ainda mais as “manobras políticas” e as concessões do regime
ditatorial. Nesse ponto, os intelectuais analisados estavam em con-
senso. A questão situava-se, em todo o percurso intelectual, crivada
na questão do Estado nacional e em seu redimensionamento interno.
Assim foi na década de 1960, como também na de 1970.

Considerações finais

Para Weffort, Cardoso e Ianni ocorrera um distanciamento entre


o Estado brasileiro e a sociedade civil, a partir de 1964: a sociedade
tinha se tornado inteiramente capitalista. Esses intelectuais coloca-
ram-se abertos e solidários às mobilizações sociais que transborda-
ram os limites institucionais impostos pelo regime político ao país. No
entanto, eles se diferenciam na maneira de encarar a sociedade civil
e o Estado, e principalmente em como compreender o processo de
transição política que, de fato, se iniciara a partir do final da década
de 1970.
Cardoso limitara-se ao campo democrático-liberal, ou seja, sua
atenção concentra-se na possibilidade de constituição de um sistema
político-partidário que expresse os setores organizados da sociedade
civil e possibilite a democratização do Estado. No plano eminente-
mente teórico e conceitual, ele utilizou uma análise de base marxista,
para discutir as classes sociais e o Estado, nos anos 70. No entanto,
tais formulações encobriram, talvez, o que foi principal para Cardoso:
desarticular a teoria da luta de classes de dentro da conceituação de
sociedade civil, como apresentada em Marx. A luta contra a ditadura
militar resumia-se à sociedade civil contra uma burocracia autoritária,
reinante no Estado. Weffort, por sua vez, ressalta a necessidade de
os movimentos sociais conseguirem estabelecer uma hegemonia

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 59


política, diante dos diversos setores e classes sociais, expressando-
se por meio do plano social e dos movimentos de base. Sua perspec-
tiva não é de confronto de classes, mas sim da busca de uma hege-
monia. Ianni, por sua vez, enfoca as classes sociais em sua
heterogeneidade, levando em consideração um processo de “revolu-
ção democrática”, a partir dos de baixo, que inclusive permitiria a
constituição de um partido de caráter operário. Continua visualizando
a sociedade civil, basicamente constituída por classes sociais e pela
luta entre essas, na maioria assalariados (e camadas populares) e
burguesia.
Essas três posições permitem sinalizar como se enquadrou a
intelectualidade oposicionista de São Paulo, em meio ao processo de
transição política, sobretudo a partir dos anos 80. Principalmente com
a vitória eleitoral do PMDB em vários governos estaduais, em 1982, ela
teria rompido inteiramente uma aliança anterior de compromisso social
com as camadas populares, pois muitos intelectuais se “des-solida-
rizam” com o destino das classes dominadas. Muitos intelectuais
estariam desertando de seus postos e assumindo posições governa-
mentais nas secretarias, administrações, em diversos órgãos públicos
e privados. Tornaram-se assessores, administradores, políticos, orá-
culos. Guindados pela expansão capitalista no país, tornaram-se
membros afluentes da classe média: cresceram em número, salários
e rendas; ganharam status; escrevem nos principais jornais. Por essa
razão, Oliveira é taxativo, quando diz: “Tornaram-se, pois, solidários
com o êxito do sistema capitalista no Brasil” (1985, p.23).
Nesse quadro, a resposta intelectual à Abertura Brasileira foi
decepcionante, para Schwarz (1994), pois nada esteve à altura do jogo
de cena e dos acertos nos bastidores, aos quais se dedicaram os con-
servadores dos campos autoritário e democrata. Para ele, uma parte
da intelectualidade oposicionista passou pela experiência de governo,
pessoalmente ou por amigos interpostos. O aprendizado do realismo e
dos segredos de ofício, ou do negócio, poderia valer muito à pedago-
gia política, mas limitou também a liberdade de escrita, constrangida
diante dos novos interesses criados, pois afinal de contas envolviam
também velhos amigos de oposição. Completando o quadro, o clima
do capitalismo na Europa, principalmente em razão de seu Estado de
Bem-Estar Social, nos anos 70 e 80, conferiu aval à acomodação ideo-
lógica que se seguiu com a intelectualidade brasileira.
A ditadura militar, no Brasil, teve fôlego para manter o processo de
transição política até 1985, resguardando os interesses monopólicos e
tecnocráticos. O Colégio Eleitoral, no qual disputaram indiretamente a

60 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998


eleição presidencial Tancredo Neves e Paulo Maluf, significou clara-
mente os limites das forças sociais que emergiram na sociedade: des-
de as lutas de resistência até as amplas mobilizações populares e ope-
rárias. O “realismo político” da maioria das oposições partidárias e civis
(PMDB, PDT, PCB, PC do B; OAB, CNBB, ABI), de certa maneira, deu razão
às proposições de Cardoso, que defendia um “governo de transição”,
na figura de Tancredo Neves. Cardoso comparou essa transição políti-
ca a uma guerra de cerco, no qual a “sociedade civil cercara a fortaleza
do Poder”; no entanto, nenhum dos dois lados tinha força para o golpe
final (Cardoso, 1985, p.5). “Realismo político” só interessa a quem vê
suas posições como hegemônicas, nas lutas políticas.
A concepção de Estado presente nesses intelectuais é que nos
parece amalgamar suas diferenças menores. As análises realizadas
durante vários anos, problematizando a sociedade brasileira, parecem
ter se tornado base de compreensão para todos eles. Com exceção de
Ianni, conceitos como imperialismo foram se deslocando para capita-
lismo dependente; o proletariado, para trabalhadores de maneira mais
genérica; luta de classes, para conflito, negociação e lutas sociais.
Socialismo, por sua vez, não se contrapunha à democracia, e esta sem
adjetivos (nem burguesa, nem proletária), expressando a pluralidade
do social. Mas as classes continuaram existindo, a burguesia, o Es-
tado capitalista e a exploração, ao lado certamente de uma vasta mi-
séria decorrente da ação das classes dominantes, mas que não seria
superada somente propondo o fim destas.
Cardoso se fez político pelo MDB e senador pelo PMDB; Weffort,
secretário-geral do PT; Singer, em 1989, foi secretário do Planejamento
da prefeitura petista de Luiza Erundina, em São Paulo; Ianni manteve-
se na Universidade. O campo político-partidário poderia ser considerado
determinante de campos teóricos? A distinção entre PT e PMDB ou PSDB
não foi tão relevante assim, a ponto da fratura intelectual. Esse campo
se recompõe nas últimas eleições presidenciais, em 1994, de certa
maneira. Giannotti apóia Cardoso e Weffort torna-se ministro da Cul-
tura. Singer e outros intelectuais e sindicalistas ainda tentaram, den-
tro do PT, realizar um movimento que buscasse uma aliança dos petistas
com Cardoso. Ianni talvez seja o único que manteve uma diferencia-
ção de fundo, que não se desfez com o rolar da história, ao menos até
meados dos anos 80.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 61


SILVA, L. F. da. Democracy and civil society in the 70’s: an analysis made by
academic marxists. Perspectivas (São Paulo), v.20/21, p.39-63, 1997/1998.

■ ABSTRACT: This paper discusses the development of the concepts of


democracy and civil society in Brazil in the 70’s. It status that the first ideas
about them were strongly influenced by the academic staff of a marxist live.
It also points out that these concepts could be developed due to the idea of
structural dependence and the conception of a burocratic and authoritarian
state.

■ KEYWORDS: Marxism; structural dependence; authoritarian and burocratic


state; civil society and democracy.

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Perspectivas, São Paulo, 20/21: 39-63, 1997/1998 63


CULTURA POLÍTICA
EROS
EROS PAR
PAR A PRESIDENTE – A REPÚBLIC A ALEMÃ
SONHADA POR THOMAS MANN

Richard MISKOLCI 1

■ RESUMO: “Da República alemã” (“Von Deutscher Republik”, 1922), ainda


inédito em português e com tradução deficiente em inglês, é o discurso que
marca uma ruptura nas idéias políticas de Thomas Mann (1875-1955), o qual
declara nele seu apoio à jovem e frágil República de Weimar. Nossa rese-
nha pretende expor a concepção manniana de república e sua radical psi-
cologia social que afirma uma espécie de erotismo religioso como o “encan-
to essencial” da democracia.

■ PALAVRAS-CHAVE: Democracia; república; humanitas; religiosidade; ero-


tismo.

Thomas Mann (1875-1955) é sem dúvida um dos maiores escritores


deste século e teve um papel político ímpar na luta pela democracia
nos momentos mais obscuros de nossa era. Além de escritor de ficção,
foi um exímio ensaísta e é especialmente sobre este aspecto de seu
extraordinário talento intelectual que nos ateremos nesta resenha, que
pretende introduzir velhos admiradores, e quiçá jovens curiosos, em
sua peculiar concepção da política e suas relações com a arte, a socie-
dade e as instituições.
Infelizmente, Mann tem sido muitas vezes subestimado como
escritor e pensador político. Suas idéias não são vagas nem provêm

1 Doutorando na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo


– USP – 05508-900 – São Paulo – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998 67


de um conservador acabado, como costumam afirmar certos comen-
tadores. A partir da Primeira Guerra Mundial a reflexão política pas-
sou a ser preocupação crescente em seu pensamento, o que se re-
fletiu em suas obras posteriores sem nunca cair no reducionismo do
engajamento irrefletido.
Ateremo-nos principalmente a seu ensaio “Da República alemã”
(“Von Deutscher Republik”, ainda inédito em português), o qual foi
apresentado no dia 15 de outubro de 1922 na Sala Beethoven, em
Berlim. Este discurso marcou a ruptura com relação às idéias polí-
ticas conservadoras que professara até a Primeira Guerra Mundial.
Não se constitui um manifesto de engajamento político de um mili-
tante, mesmo porque foi apresentado num solene evento literário para
a comemoração do sexagésimo aniversário de Gerhart Hauptmann,
também escritor, e que serviria de modelo para o Mynheer Peeperkorn
de A montanha mágica.
“Da República alemã” é um longo e rico ensaio político redigido
por um escritor consciente e apaixonado pela liberdade. Quem lê este
discurso logo pensa na razão que teria levado o esteta da escola de
Schopenhauer e Nietzsche, o primeiro grande romancista da Alema-
nha, pátria tradicional da música, a subir numa tribuna em defesa da
frágil República de Weimar. Ainda mais com um discurso tão contun-
dente e distinto do que se ouviu dele durante a guerra, quando apoiou
a Alemanha e redigiu o Considerações de um apolítico (1918), um
tratado crítico-polêmico no qual esmiuçou as relações da alta cultura
de seu país com a política e desferiu fortes críticas à democracia oci-
dental.
A resposta é dada pelo próprio Thomas Mann que, apesar de
passar a apoiar a democracia, não volta atrás em suas críticas à
superficialidade da concepção francesa de república fincada na forma
representativa, em assembléias primárias e eleitorais, diretórios e
conselhos. Afirma, numa linguagem impregnada de simbologia
alquímico-romântica, que se considerava um conservador, não no
sentido reacionário, antes como aquele que, com seu livro, tomou
para si a dura tarefa de preservar o arcabouço humano essencial que
tende a perecer em meio às mudanças históricas tão profundas quan-
to impetuosas.
O autor observa que a realidade histórica do pós-guerra aumentou
a responsabilidade dos talentos intelectuais, quer eles o desejassem ou
não. Assim, impelido pela necessidade de lutar contra o obscurantismo
brutal e irracionalista que ameaçava a democracia e até mesmo a paci-
ficação européia, Mann resolveu declarar seu apoio à república que o

68 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998


povo alemão insistia em considerar como resultado do colapso bélico e
símbolo do domínio estrangeiro, da impotência e da vergonha.
“Da República alemã”– que havia sido esboçado como uma pales-
tra sobre Novalis, o poeta romântico da “flor azul”, e Walt Whitman, o
poeta americano pregador da democracia – revela-se um discurso radi-
calmente democrático, humano e socialmente revolucionário à sua
maneira. Mann reverencia nele a figura de Novalis como o romântico
que, a seus olhos, sintetiza o patrimônio cultural alemão com influên-
cias da Revolução Francesa.
A dedicatória a Gerhart Hauptmann2 por seu sexagésimo aniver-
sário, escritor realista-naturalista cuja obra é voltada para questões so-
ciais, anuncia o tom abertamente social deste ensaio que se dirigia na
verdade à juventude alemã, principalmente à acadêmica, que se reve-
lava segundo o próprio Mann “impetuosa partidária do passado” e com
seus atos, conscientemente ou não, “voltados para a mecânica restau-
ração do velho” (Mann, 1993, p.135). A preocupação conjuntural: reta-
liações por parte dos países vencedores, economia em crise, fragilida-
de institucional da recente República de Weimar, grupos monarquistas,
atos terroristas como o assassinato do ministro das Relações Exterio-
res Rathenau por jovens militantes de extrema direita, entre outros pro-
blemas, não o impediu de desenvolver uma reflexão sobretudo univer-
sal e extemporânea.
Mann subiu à tribuna para provar que a democracia, que ele con-
siderava sinônimo de humanidade, podia alcançar o nível do romantis-
mo alemão, daquela “esfera maravilhosa” (p.129) que equilibrou o uni-
versal e o nacional de forma exemplar. Afirmou, sob vaias, que o
nacionalismo devia deixar de ser associado à belicosidade e revertido a
um culto da paz, definiu a guerra como incompatível com a cultura e o
pensamento, como “orgia sangrenta de egoísmo, corrupção e malda-
de” (p.131). Ele evoca as reflexões político-sociais de Novalis como o
embrião de uma concepção política peculiar, o anúncio de uma possí-
vel outra forma de república, a república de tipo alemão a que alude o
então provocativo título do ensaio.
Que república alternativa seria essa? Mann a define paulatinamente
iniciando pela afirmação de que desejos universais, fatos interiores de-
vem impor-se à realidade e não se adaptarem a ela. Mann prega que os

2 Mann utilizou sua aparência exterior na criação do personagem Peeperkorn de A montanha


mágica, fato que terminaria por levar a cabo a amizade entre os dois escritores. Anos mais tarde,
outro fato os tornaria antagonistas: Hauptmann apoiaria o nazismo enquanto Mann se opôs ao
movimento desde o início e terminaria por auto-exilar-se na Suíça e nos Estados Unidos.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998 69


desejos humanos devem moldar o mundo, instituir a unidade da vida
estatal e nacional, do Estado e da cultura [Kultur], tendo como objetivo
a felicidade popular. O germanismo deveria ser compreendido não como
rude nacionalismo, mas sim como autêntica popularidade, uma popu-
laridade de caráter humano já em suas raízes históricas. A verdadeira
e autêntica popularidade alemã seria a que pudesse também ser reco-
nhecida por toda a Europa, ou seja, humanitas, a idéia, o sentimento e
regulativo ético-espiritual, o que Novalis pregou ao observar que o Es-
tado é apenas uma união especial de pessoas no grande Estado que a
própria humanidade por si só já constitui.
Por intermédio de Novalis, Mann afirma que há uma luta eterna
entre dois poderes vitais inextinguíveis no peito humano: de um lado,
a devoção à Antigüidade, à tradição e à alegria da obediência, de ou-
tro, o sentimento arrebatador da liberdade, o desejo do novo e do jo-
vem, do livre contato com os camaradas do Estado, do vigoroso senti-
mento citadino. Para se alcançar o equilíbrio entre esses meritórios e
inextinguíveis poderes é necessário um terceiro elemento, algo muito
especial que abranja o homem com suas aspirações espirituais e mate-
riais. Este terceiro elemento, que é ao mesmo tempo mundano e sobre-
natural nas palavras de Novalis, social e interior, humano e aristocrá-
tico, fica, segundo Mann, entre o romantismo e o iluminismo, entre o
místico e o racional e é o próprio elemento da humanidade.
O criador de A montanha mágica utiliza-se do termo Humanität,
o qual equivale ao nosso adjetivo humanidade, caridade, compaixão.
Esse elemento religioso está no coração da democracia e Mann
aproveita a oportunidade para refutar as críticas nietzschianas ao
cristianismo e sua idéia esteticista do “senhor” [Herrenmensch] que
se opõe aos “escravos” da moral cristã. Mann, por intermédio de
Novalis, posiciona-se de forma positiva com relação à religião cristã.
Elogia sua capacidade de atingir as massas e influenciar o homem
pela pura e simples boa vontade. Como observa: “Ela dá vida à grande
maioria dos pobres de espírito” (Mann, 1993, p.150). Nela reside o
germe de todo democratismo.
Aqui o autor alemão passa a expor sua visão da sociedade e suas
relações com o indivíduo. Observa a admiração de Novalis e Whitman
pelo termo “en masse”, o qual expressa a crença de que o homem mais
elevado é o homem composto. A pluralidade constitui o gênio. Desta
forma não houve gregos, por exemplo, mas apenas um gênio grego. A
república ideal seria uma em que todos fossem reis e, apesar das pro-
vas abundantes da impensabilidade de aplicação real disso, ela perma-
necerá como a mais pura idéia de sociedade. Whitman afirmou que

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defendia a necessidade de uma forte socialização para fortificar a inde-
pendência da pessoa individual. Seria uma apologia da coletividade
vinda de um esteta? Não, apenas uma limitação humana ao individua-
lismo inconsistente de nosso mundo. A afirmação estético-purista do
indivíduo é socialmente inviável, para além do domínio artístico tão
bárbara quanto a moderna sociedade de massas. Novalis disse que o
todo sempre vive no indivíduo e o indivíduo no todo, portanto é neces-
sário um equilíbrio entre a esfera social e a individual, equilíbrio este
possível somente por meio de um peculiar sentimento religioso. Talvez
fosse melhor qualificá-lo de místico-carnal para livrá-lo de indesejáveis
interpretações colaterais.
Mann observa que a leitura de Whitman revelou-lhe a curiosa
proximidade de suas idéias democráticas com as de Novalis. Whitman
afirma que o “encanto essencial” do republicanismo deve repousar
em algo mais profundo do que em legislação ou lei eleitoral super-
ficial e Mann encontrou esse “encanto” tanto no esteticismo demo-
crático de Whitman quanto no romantismo ético-cristão de Novalis.
As aparentemente irreconciliáveis esferas da estética e da ética unem-
se no velho e sempre novo sonho de uma humanidade pacífica e unida.
Esse sonho não deve nunca ser esquecido nem negado por
deterministas naturais como Oswald Spengler, o autor do célebre O
declínio do Ocidente, ao qual Mann desfere ácidas críticas e chega
a classificar sua obra de nociva e letal. O autor de A montanha mágica
não acredita em leis naturais inflexíveis e em como Novalis separa
Deus da Natureza. Acreditava que a natureza deve tornar-se moral,
não pode ser vista como algo estacionário. Em suma, cria na possível
e necessária espiritualização da Natureza.
Ao abordar a tradicional oposição entre Kultur e Zivilisation no li-
vro de Spengler, Mann revela seu desprezo pela concepção elitista e
naturalista de Kultur. Se ainda distingue ambas não é como meio de
afirmação da tradição germânica de separar a esfera cultural da polí-
tica, mas sim como defesa de uma possível civilização espiritualizada.
Seu cosmopolitismo e sua defesa da integração de todas as facções
políticas, religiosas e sexuais na república provam o caráter progres-
sista de suas concepções de Kultur e Bildung, as quais muitos classifi-
cariam como iluministas, mas preferimos denominar humanistas.
O sonho de uma humanidade universalmente irmanada seria para
Mann um terceiro império da humanidade religiosa presidido por Eros
como homenagem a Walt Whitman. O erotismo social impregna o
final deste discurso democrático-utópico no qual Mann fala por meio
de seus mestres espirituais. O autor alemão observa que a república

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998 71


não será instituída apenas pelo intelecto ou por instituições fundadas
no direito internacional, as quais têm seu valor, sobretudo por pre-
pararem o terreno para uma previsível união européia (em 1922 já a
considerava previsível). A república só seria algo palpável quando
instituída pela sensibilidade, seu ponto unificador só pode ser o amor,
a função voluptuosa, a simpatia mística “que urge na totalidade
(mescla) da união” (Mann, 1993, p.158). A simpatia seria a função
místico-química, a simpatia com o orgânico que em Whitman revela-
se como um democratismo erótico que tudo abraça. A união sensual-
erótica, que Mann esclarece não ser em nenhum sentido anímico ou
pudoroso, alcança os contornos de uma religião antropocêntrica que
teria como único templo o corpo humano. O culto anatômico-sensual
seria um ritual orgiástico-piedoso da humanidade e sua mais perfeita
expressão: a compaixão, a simpatia, o amor.
Ao referir-se ao poema “cheio de sagrada loucura de amor” (Mann,
1993, p.159) de Whitman “Eu canto o corpo elétrico” [“I sing the body
electric”] transcreve a seguinte reflexão: “Alguém duvida... que o cor-
po vale tanto quanto a alma? E se o corpo não for a alma, o que é a
alma?” (Whitman apud Mann, 1993, p.160). No clímax da apresentação
de sua idéia de república, adentra a esfera de sentimentos indissociável
da estética e na qual via um pathos erótico-político que considerava
essencial à democracia, o homoerotismo:

Eu ouso falar nesse contexto, o qual permanece um contexto político,


com todo cuidado e reverência necessários, dessa esfera sentimental espe-
cial, a qual tornou-se visível em minhas últimas palavras: eu me refiro àquela
zona do erotismo em que a lei da polaridade sexual tida por universalmente
válida prova-se como eliminada e sem efeito, e na qual nós vemos unido o
igual com o igual, virilidade mais madura com juventude admirada; virilidade
na qual ela possa endeusar um sonho de si mesma ou jovem virilidade unida
com sua imagem e semelhança para uma comunhão apaixonada. (Mann, 1993,
p.160-1)

O célebre autor considera o homoerotismo um poderoso com-


ponente estético-político. Nega-lhe o caráter de doença e chega a afir-
mar que a veneração dos rapazes de Whitman era muito mais saudável
do que o mórbido amor que Novalis nutria por Sophie von Kühn (1782-
1797). Ainda assim, oberva que a fórmula romântica “amor e morte”
nunca deverá ser banalizada, pois o amor, a beleza e a morte são
indissociáveis. Chega a referir-se ao Tristão de Platen, cujos versos o
haviam influenciado em sua criação anterior, a novela Morte em Veneza
(1912). O verso do poeta mais admirado por ele era: “Quem a beleza

72 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998


olhou nos olhos/ Já se encontrava entregue à morte”.3 Afirmação que
expressa sua admiração pelo homoerotismo como forma de aproxima-
ção da esfera metafísica.
Segundo Mann, a simpatia com a morte revela-se “um romantis-
mo perverso apenas quando a morte opõe-se à vida como poder espiri-
tual autônomo em lugar de ser nela recebida de modo santificador-san-
tificado” (Mann, 1993, p.164). Do romantismo e da fascinação pela morte
para um novo classicismo e culto da vida é exatamente o processo de
formação democrática que Mann preconiza, suas afirmações tendem
das idéias de Novalis para as de Whitman como as seguintes palavras
demonstram: “Nenhuma metamorfose do espírito nos é mais familiar
do que aquela em cujo início está a simpatia com a morte e no fim da
qual está a decisão ao serviço da vida” (Mann, 1993, p.165).
Neste momento, quase no final do ensaio, alude ao romance em
cuja criação trabalhava desde antes da guerra, havia cerca de dez
anos desde então: A montanha mágica [Der Zauberberg] publicado
em novembro de 1924). Este romance de formação (Bildungsroman)
moderno tornar-se-ia sua resposta às questões européias e ele, como
professor democrata, utilizou-se da “pedagogia mágica” da alquimia
para dar conta do homem como ser integral, o ser abençoado pelo
espírito (mente).
A influência de Novalis e sua crença no andrógino como o ho-
mem perfeito do futuro é clara. O protagonista do romance de Mann,
Hans Castorp, vivencia um rito de androginização de tipo xamânico
na montanha. Sua “formação” [Bildung] se dá por meio da doença
dos românticos, sensíveis e passionais: a tuberculose. Mann assim
exprime em “Da República alemã” a idéia do romance:

O interesse pela morte e pela doença, pelo patológico, a decadência, é


apenas um modo de expressão do interesse pela vida, pelo homem, como a
faculdade humanística da medicina prova; quem se interessa pelo orgânico,
pela vida, interessa-se sobretudo pela morte e poderia ser assunto de um
romance de formação mostrar que a vivência da morte é por fim uma vivência
da vida que leva ao homem. (Mann, 1993, p.164)

A fascinação pela doença e pela morte que caracteriza o român-


tico Castorp só é superada mediante a elevação alquímica que em-
preende na montanha, por meio dela torna-se o Homo Dei, a figura

3 “Wer die Schönheit angeschaut mit Augen/ Ist dem Tode schon anheimgegeben.”

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998 73


emblemática de uma possível humanidade sem antagonismos, o
andrógino cultuado pelos teósofos alemães do século XVIII, pelos
românticos e até mesmo por Goethe.
“Da República alemã” é claro com relação às intenções de Mann,
faz de Whitman um porta-voz, o anunciador de Eros como criador de
Estados, de um amor atlético-corporal que criaria terras divinamente
magnéticas, “cidades unidas com os braços uns em torno dos pescoços
dos outros, através do amor dos camaradas, através do amor viril dos
camaradas” (Whitman apud Mann, 1993, p.162).
No final do romance, o “filho enfermiço da vida”, Castorp, decide-
se pela vida e retorna à planície, mas entre as pessoas ditas normais e
sadias explodira a Primeira Guerra Mundial e a maioria seguia com
entusiasmo suicida para o campo de batalha. Em meio ao combate
encontramos pela última vez nosso herói, junto dos camaradas e com
poucas chances de sobreviver. O parágrafo final do romance ressoa na
mente de todo leitor dedicado porque sabemos que à dúvida apresen-
tada por Mann, à sua questão se da experiência do front surgiria um
dia o amor que instituiria sua idealizada república, podemos acrescen-
tar apenas uma triste negativa. Como observou Schopenhauer, apenas
a morte é a vencedora de todas as guerras.
A república, assim como a civilização, só pode ser produto da paz
e de Eros. A morte é sedução, instinto de nossos elementos à liberda-
de e ao caos. A vida é algo mais difícil, um dever, uma decisão pela
integridade da forma. Mann explica esse par curioso por intermédio
de Novalis: “O instinto de nossos elementos tende à desoxidação. A
vida é oxidação forçada” (Novalis apud Mann, 1993, p.164). A decisão
pela vida e pelo ideal de uma bela sociedade humana é algo tão difícil
quanto necessário.
Muitos dirão com pessimismo que estamos condenados à simples
união materialista dos mercados, à globalização que impõe um modelo
universal e ameaça a existência da necessária pluralidade democráti-
ca. Mann diria que Novalis já os refutou anacronicamente ao destacar
que o moderno espírito de negócio tem o mérito de pôr tudo em movi-
mento e interligar tudo. Ele desperta países, nações e obras de arte, é o
espírito da cultura, do necessário aperfeiçoamento do gênero humano.
Mann desfez preconceitos com seu discurso. Afirmou o caráter
libertário da república, a qual compreendia como criação da subleva-
ção e da honra daqueles que foram levados por um Império irresponsá-
vel e ultrapassado para o campo de batalha. Criticou a perigosa asso-
ciação entre romantismo e reação, tomou dos obscurantistas o
patrimônio cultural alemão e o universalizou. Acima de tudo, reafirmou

74 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998


o sonho de humanidade que a maioria começava a esquecer diante
dos reveses históricos e traumas bélicos que os incitavam ao naciona-
lismo. Foi vaiado e muito pouco compreendido.
Desde então, tornou-se crescentemente preocupado com as ques-
tões sociais e políticas. Posicionou-se contra o totalitarismo, que na
forma do regime nazista pôs fim às suas esperanças democrático-
classicistas; exilou-se na Suíça e depois nos Estados Unidos, onde tor-
nou-se o porta-voz da autêntica cultura germânica. Naquele refúgio da
civilização reduzido ad absurdum durante a Segunda Guerra Mundial
compartilhou o degredo com intelectuais como Adorno e escreveu uma
de suas maiores obras, o Deutsches Requiem que é seu Doutor Fausto
(1947). Após a guerra sofreu calúnias na Alemanha e foi apontado como
politicamente suspeito nos Estados Unidos, no ardor da onda
anticomunista que tomou o país e o levou a voltar à Suíça para lá viver
o resto de seus dias.
Em 1953 afirmou estar convencido da necessidade de conciliação
entre os valores da democracia de mercado e os ideais socialistas para
se alcançar os ideais distantes de um governo mundial, uma adminis-
tração comum da Terra e o estabelecimento da paz entre os povos.
Aquele que fora o mais germânico dos escritores morreu em agosto de
1955, orgulhoso de sua world citizenship, e foi sepultado na Suíça.
A república sonhada por Mann seria a semente de uma possível
humanidade pacífica e unida, inspirada numa compreensão profunda
da civilização clássica. Esta será sempre apenas um ideal? Se assim o
for, ao menos terá sido o “sonho de amor” de seus melhores filhos, os
quais nunca poderão deixar de sonhá-lo. A arte, a esperança e os ideais
humanos mais elevados devem permanecer como impulso à sua con-
cretização. Talvez o maior desafio de nossa era seja acordar as pessoas
para os ideais humanistas diante da intoxicação coletivista sempre à
espreita, e Mann ainda hoje nos aconselharia que o melhor modo de
começar é reaprendendo a sonhar.

MISKOLCI, R. Eros for president – The German Republic idealized by Thomas


Mann. Perspectivas (São Paulo), v. 20/21, p.65-76, 1997/1998.

■ ABSTRACT: “The German Republic” [“Von Deutscher Republik”, 1922],


unknown in Portuguese and very problematically translated to English, is a
speech that marks a rupture in Thomas Mann’s political ideas. The German
writer declares his support to the young and fragile Weimar Republic. Our
article explains Mann’s republic idea and his socio-psychological radicalism

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998 75


which affirms a kind of religious eroticism as the “essencial magic” of
democracy.

■ KEYWORDS: Democracy; republic; humanitas; religiosity; eroticism.

Referência bibliográfica

MANN, T. Von Deutscher Republik. In:—————. Essays. Frankfurt am Main:


Fischer Taschenbuch Verlag, 1993. v.2, p.126-66.

Bibliografia consultada

DAYAN-HERZBRUN, S. Thomas Mann: un écrivain contre le nazisme. Cahiers


Internationaux de Sociologie, v.94, p.189-204, 1993.
LUBICH, Frederick A. Thomas Mann’s sexual politics. Comparative Literary
Studies, v.31, n.2, p.107-27, 1994.
MANN, T. A montanha mágica. Trad. Herbert Caro. Porto Alegre: Globo, 1953.
741p.
—————. Doutor Fausto. Trad. Herbert Caro. Rio de Janeiro: Nova Frontei-
ra, 1994. 689p.
—————. Einführung in der Zauberberg. In: —————. Der Zauberberg.
Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1958. (Minha tradução desta conferên-
cia “Introdução à Montanha mágica” consta da Perspectivas (São Paulo),
v.19, p.131-42, 1996).
PRATER, D. Thomas Mann: a Life. Oxford: Oxford University Press, 1995. 554p.

76 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 67-76, 1997/1998


CENSURA E MODERNIZAÇÃO CULTURAL
À ÉPOCA DA DITADURA

Renato FRANCO1

■ RESUMO: Este ensaio analisa, por um lado, os significados do uso da cen-


sura durante a ditadura militar – particularmente entre a edição do AI-5, em
1968, e o início do processo de abertura política, a partir de 1975. De forma
(presumivelmente) pioneira, busca estabelecer relações entre o uso da cen-
sura, a modernização cultural e a tendência para a internacionalização (ou
“americanização”?) da vida cultural. Por outro lado, tenta esclarecer como o
romance reagiu à censura.

■ PALAVRAS-CHAVE: Brasil: período militar; Brasil: anos 70; história e lite-


ratura; literatura brasileira: anos 70; censura e cultura; romance e política.

Censura e modernização

A repressão e a censura à vida cultural do país foram intensas à


época da ditadura militar – particularmente entre dezembro de 1968,
quando foi promulgado o AI-5 – e no início do processo de abertura
política “lenta e gradual” adotado pelo general Ernesto Geisel, a partir
de 1975.
Logo após o golpe, os militares desencadearam forte repressão
apenas aos setores da produção cultural que mantinham algum tipo de
vínculo com os movimentos populares politicamente organizados – como

1 Departamento de Antropologia, Política e Filosofia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP –


14800-901 – Araraquara – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 77


era o caso dos Centros Populares de Cultura, criados pela União Nacio-
nal dos Estudantes. Após a edição do AI-5, porém, passaram a reprimir
e a censurar todo tipo de atividade cultural.
Aparentemente, a fúria repressiva da ditadura parecia querer es-
tancar e suprimir – imediata e definitivamente – qualquer manifesta-
ção cultural que apresentasse o mais leve indício de significado crítico
e político ou, ainda, uma natureza ideológica radicalizada. Censurou
indistintamente todo tipo de obra – provocando súbitas dilacerações
ou doloridos silêncios em seus frágeis corpos; criou dificuldades obje-
tivas para a circulação e a distribuição da maior parte delas, atacou a
vida universitária e afetou gravemente o destino imediato de vários
segmentos da produção cultural. Não bastasse isso, exerceu também
árdua censura diária à imprensa.
Desse modo, um observador histórico situado nesse período po-
deria perfeitamente concluir que o objetivo da ditadura era também o
de calar a voz da sociedade e o de comprometer a qualidade da for-
mação política, afetiva ou intelectual dos cidadãos. Em alguns casos,
poderia até ser tentado a concluir que ela desejava estabelecer um
verdadeiro “vazio cultural” que, na prática, ajudaria a criar um estado
de indiferença das massas em relação ao próprio destino imediato do
país.
O observador histórico atual, entretanto, favorecido pela óptica mais
precisa resultante do distanciamento temporal, pode identificar, nesse
modo truculento com que o estado militar tratou a vida cultural, al-
guns sinais de que a censura não foi apenas um instrumento conjuntural
utilizado para fins políticos imediatos, como costumeiramente a crítica
especializada imagina. Ao contrário, a censura pode ter sido utilizada
tão amplamente por razões propriamente econômicas.
Explicando melhor: ela seria, ao impedir a livre circulação de
qualquer tipo de obra, ferramenta privilegiada para erradicar a vigên-
cia das tradicionais condições materiais da produção cultural, que –
por exemplo – teriam possibilitado, nos anos 60, o aparecimento de
uma cultura como a criada nos CPC s – cuja característica básica é a de
não requerer, por parte de seus produtores, nenhuma especialização.
Estes, por não estarem voltados às exigências do mercado, podiam
dirigir-se diretamente ao público visado, estabelecendo com ele vín-
culos políticos.
Ao mesmo tempo, a censura criava oportunidades objetivas para
o Estado agir com rapidez e desencadear uma avassaladora onda de
modernização dessas mesmas condições materiais. De fato, com tal
objetivo, ele estimulou e criou todo tipo de facilidades para a consoli-

78 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998


dação definitiva – em termos verdadeiramente modernos – da indús-
tria cultural entre nós e, conseqüentemente, de um estável mercado
de bens simbólicos. Doravante, o criador de cultura seria, cada vez
mais, forçado a se dirigir ao gosto – e às exigências – do consumidor
anônimo.
Tal fato, porém, não está dissociado da própria situação que o país
ocupava então no cenário internacional. O uso da censura e a conse-
qüente modernização da vida cultural podem estar relacionados com
a tendência, já verificável nesses anos, para a internacionalização des-
sa última. Em outras palavras: por força e exigências do processo
modernizador, a atividade cultural se via obrigada a experimentar uma
abertura, em maior ou menor grau, para as tendências ou modas cul-
turais dominantes nos países hegemônicos.
A censura ajudaria, assim, a encerrar um vasto ciclo cultural do
país, cujas raízes remotas estariam assentadas no solo da década de
1930. Ao eliminar as antigas condições dessa produção, ela favorece-
ria o próprio desaparecimento da cultura local (ou nacional?); simulta-
neamente, auxiliaria a estabelecer aqui uma espécie de reserva de
mercado para a produção desses países. Nesse novo cenário, pode-
mos reconhecer algumas ásperas paisagens, como as das terras – antes
férteis – do cinema ou da música popular, que, em pouco tempo, tor-
naram-se quase completamente ressecadas e desertas. Ou se trata aqui,
porventura, de momento decisivo do impulso recente para a “america-
nização” da cultura, que Fredric Jameson (1995) identificou com pre-
cisão?
Quais seriam, então, as possibilidades da cultura local? Afinal, para
sobreviver, ela não deveria adequar-se aos padrões dominantes inter-
nacionalmente? Tal fenômeno não impediria – ou dificultaria conside-
ravelmente – a constituição (ou preservação) de obras críticas ou
contestadoras nos países do Terceiro Mundo? A recente disseminação
das técnicas ou procedimentos artísticos do modernismo, promovida
no mundo todo por essa cultura, tende a neutralizar o efeito original
delas e a resultar em obras incapazes de romper o poder dessa cultura
internacional? Convém lembrar que, nos anos 60, ainda era viável o
aparecimento de manifestações culturais independentes nos países não-
hegemônicos: é o caso, por exemplo, do cinema de Glauber Rocha
que, contra a perfeição formal do cinema americano, erigiu em virtude
formal as imperfeições técnicas, constituindo uma “estética da fome”
e do Terceiro Mundo.
No caso da literatura – particularmente do romance –, não houve,
ao menos até por volta de 1975, uma resistência mais significativa tanto

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 79


à censura quanto aos aspectos acima mencionados. Em alguns casos
– como em Os novos de Luís Vilela (1971) ou Combati o bom combate
de Ari Quintella (1971) –, os narradores ou principais personagens li-
mitaram-se, no máximo, a manifestar o desejo de continuar escreven-
do ou uma confiança positiva quanto ao futuro do romance. Incidente
em Antares de Érico Veríssimo, também de 1971, adota uma estraté-
gia literária que visava reconstituir a memória – ou seja, narrar a
contrapelo a história recente do país – que acabaria por erigir um dos
modos principais de o romance resistir às hostilidades da censura e às
truculências da conjuntura.
A censura, porém, logo mostraria ser instrumento repressivo de
caráter limitado. Sua ação, embora provoque consideráveis anomalias
na vida cultural, jamais é demasiadamente ampla, pois ela só consegue
atingir certos objetivos mais ou menos restritos. Ela, por exemplo, não
logra efetivamente suprimir toda produção cultural ou controlar a qua-
lidade e o universo das obras solitariamente elaboradas. Para quem a
usa, ela apresenta ainda a desvantagem de ajudar a cristalizar certas
ambigüidades ou contradições: com freqüência, suas proibições ou
impedimentos podem perfeitamente servir de estímulo para alguns
artistas ou intelectuais criativos. Em tais circunstâncias, a censura pode,
paradoxalmente, provocar o aparecimento de novos modos de usar os
repertórios expressivos que, em alguns casos, chegam a ser bastante
inusitados. Além disso, o público consumidor – sua grande vítima –
pode criar uma espécie manhosa e matreira de decodificação, o que
estabelece uma singular cumplicidade entre ele próprio e os produ-
tores de cultura – inaceitável, porém, para a ditadura.

Censura e abertura política

Com o início do governo Geisel, a partir de 1975, a tendência


“castelista” das Forças Armadas voltou ao poder e logo alterou, signi-
ficativamente, a estratégia política do Estado, adequando-a de modo a
obter maior sustentação política para o regime: para tanto, tratou de
suprimir o “Estado de exceção” anteriormente organizado pela dita-
dura militar. Adotou a chamada “política de abertura”, ainda que “len-
ta e gradual”, que reforçou seu poder e constituiu a face mais moder-
na de sua organização repressiva. Tal política causou grande impacto
na vida cultural. Nesse terreno, o principal efeito foi a necessidade,
mais ou menos imediata, da supressão da censura, que havia se tor-
nado um anacronismo: mais que isso, um trambolho a estorvar a con-

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quista das metas almejadas pelo sistema. De resto, ela podia ser elimi-
nada porque os objetivos essenciais já haviam sido atingidos.
A produção literária, na nova conjuntura, foi forçada a buscar
formas originais para responder aos desafios que dela emanavam: desse
modo, em um primeiro momento, tendeu a buscar no jornal tanto a
matéria histórica dos romances – particularmente nas páginas poli-
ciais – como o próprio procedimento narrativo, fato que implicou uma
valorização exagerada da reportagem. É o caso, por exemplo, dos ro-
mances de José Louzeiro que, posteriormente, ficaram conhecidos,
não sem alguma impropriedade, como “romances-reportagem”, os
quais são, dessa maneira, resultantes da atenuação da censura que,
entretanto, não atingiu do mesmo modo os vários segmentos da pro-
dução cultural. Eles manifestaram acentuado desejo de denunciar a
violência dos militares e foram movidos por grande ânsia documental.
Em todo caso, não constituíram uma prática literária fecunda, pois
eram demasiadamente apegados às imposições conjunturais e resul-
taram em uma influência negativa do jornal sobre a literatura.
Movidos pela mesma ânsia documental e pelo desejo de narrar
a história recente que ainda, por força da censura, não havia sido
relatada, surgiram, em seguida, dois tipos de romance, que hoje
podemos chamar de “geração da repressão”. Um desses tipos é cons-
tituído pelas memórias e depoimentos de antigos militantes políticos,
pertencentes às organizações revolucionárias do início da década, como
Em câmera lenta de Renato Tapajós (1977) e O que é isso, compa-
nheiro? de Fernando Gabeira (1982), além do tardio Os carbonários
(1981) de Alfredo Sirkys. Outro tipo, também marcado pelo fim da
censura, é o romance-documental empenhado em denunciar as
truculências e brutalidades da repressão política. O melhor exemplo
é Os que bebem como os cães de Assis Brasil (1975).
A supressão da censura gerou, logo no início do processo de
abertura, uma radicalização ideológica da prosa de ficção, que pas-
sou a cultivar alguns temas que revelavam a predominância, entre os
escritores, de um forte “sentimento de oposição”, para usarmos a
expressão de Antonio Candido. Estes trataram, até com certo deslei-
xo estilístico, de denunciar a tortura e a repressão política; de narrar
os acontecimentos mais desconhecidos acerca da história política re-
cente, tão cheia de conflitos e de episódios obscuros ou, até mesmo,
histórias pessoais de militantes ou membros das organizações revo-
lucionárias – seja para reverem posições anteriores, seja para luta-
rem, em outro campo, contra o esquecimento requerido pela história
oficial. A maior parte dessas obras, entretanto, não logrou fornecer

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 81


mais do que uma resposta circunstancial aos desafios enfrentados pela
literatura – embora, como no caso do mencionado memorialismo
político, algumas delas obtivessem reconhecimento crítico pela ousa-
dia estrutural ou pela qualidade da prosa.
O impacto do processo da abertura política na produção literária
não pode ser reduzido, todavia, ao conjunto desses romances que de-
nominamos de “geração da repressão”: afinal, na mesma época, pode-
mos notar a eclosão de uma safra verdadeiramente fértil no território
da prosa de ficção e, particularmente, do romance, que conheceu um
grande número de publicações e expandiu seu público leitor – ávido
por informações novas acerca da vida política brasileira. Além disso,
foi decisivo, para essa eclosão, a renovação e a modernização das
editoras, que formularam novas estratégias editoriais para poder so-
breviver no mercado cultural e enfrentar a concorrência de outros
meios – como aqueles vinculados, organicamente, aos setores mais
favorecidos da indústria cultural, como é o caso da televisão.
Dessa maneira, surgiu um tipo de romance que não apenas
tematizou os vários aspectos originários da vida política da década ou
da modernização econômica (conservadora e autoritária), mas que,
sobretudo, expressou-se por meio de procedimentos literários pouco
usuais em nossa tradição cultural – como a narração altamente frag-
mentária, múltiplos pontos de vista narrativos ou a técnica da mon-
tagem. Tal tipo de romance, que inclui obras como Zero de Ignácio
de Loyola Brandão (1975), Reflexos do baile (1976) de Antonio Callado
e Cabeça de papel de Paulo Francis (1976), começava então a ofe-
recer uma resposta literária verdadeiramente mais elaborada às novas
questões originárias daquela conjuntura histórica.

O romance da repressão

Os ventos impetuosos que agitaram a atmosfera literária, logo


após 1975, empurraram o romance na direção da denúncia (da dita-
dura) e da busca documental, mas isso nem sempre garantiu-lhe oxi-
gênio puro. Um bom exemplo dos efeitos negativos – literariamente
falando – desse ímpeto documental, por exemplo, foi o romance de
Assis Brasil, Os que bebem como os cães, publicado em 1975.
O livro começa com uma citação de Ernesto Sábato que estabe-
lece uma relação especial entre História e Ficção: ”A verdade histórica
está muito mais na novelística do que no próprio relato dos fatos que
constituem a história reconhecível como tal” (Brasil, 1975, p.5).

82 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998


A utilização desse texto parece induzir, previamente, o leitor a
acreditar na superioridade do romance perante a História, o que é,
porém, bastante discutível. A citação pretende deduzir, dessa even-
tual superioridade, uma fidelidade histórica confiável no relato roma-
nesco: ela serve para reforçar a pretensa verdade do romance – dar
garantia, ao leitor, de “que a história de fato foi assim”. Tal postura
não está distante da adotada pelos romances-reportagem ou por aquela
tradição que, originária de um certo naturalismo, quer sempre evitar a
desconfiança do leitor afirmando tratar-se “de um mínimo de literatu-
ra” e de um bom número de fatos reais – como Jorge Amado sugere
nas páginas iniciais de Cacau. Esse procedimento literário sonega ao
leitor a possibilidade da dúvida, da indagação marota acerca de sua
adequação à realidade: atitude, nessa medida, também autoritária.
O romance de Assis Brasil – dividido em 41 capítulos que, suces-
sivamente, intitulam-se “A cela”, “O pátio”, “O grito” – apresenta ain-
da, quase sempre, uma linguagem que tende para a abstração e o ensaio
– ou antes, para a afirmação de princípios ideológicos ou políticos que
não são questionados. Veja-se, por exemplo:

Um nome que lhe fora caro no passado, se é que tinha um passado, ou


era apenas a consciência sofredora de todos aqueles homens, de todos os ho-
mens que sofriam em qualquer parte. Homens sem liberdade. (Brasil, 1975, p.27)

Era isso: a revolta crescia porque o homem não queria admitir que fosse
torturado pelo próprio homem – a revolta maior estava neste fato. E os ho-
mens não seriam tão cruéis e dramáticos se seu inimigo fosse apenas um
animal qualquer... (p.57)

Além disso, as descrições são abundantes, embora talvez nem


sempre necessárias; isso confere à narração um ritmo freqüentemente
lento, repetitivo, de frágil tensão. Deixemos, no entanto, os pontos ne-
gativos para concentrarmos nossa atenção no único (eventual) aspec-
to positivo.
Do ponto de vista informativo acerca do período, o romance apre-
senta algum interesse. Ele narra, geralmente por meio de um narrador
neutro e não totalmente onisciente, o destino de Jeremias, um profes-
sor de literatura que, em um dia qualquer, é preso pelos órgãos repres-
sivos e trancafiado em uma pequena cela úmida e escura, onde é víti-
ma de constantes torturas e maltratos, além de confinado à mais extrema
solidão. Veja-se, por exemplo:

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 83


Foi empurrado, as mãos algemadas nas costas. Estava em frente à cela.
A porta foi aberta, o esparadrapo tirado de sua boca – a violência fez seus
lábios ficarem algum tempo de lado – e o empurraram para dentro, para a sua
escuridão... (p.20)

e também

O seu vizinho continuava a apanhar – debatia-se, era atirado de encon-


tro à parede de sua cela – foi se sentindo mal, um enjôo no estômago cheio –
a comida já não lhe era uma lembrança agradável. Poderia ser o próximo a
ser castigado. Era isso: uma falsa ilusão e depois o castigo. Eles agiam assim.
(p.144)

Preso e torturado sem saber por qual razão – desconhecimento


compartilhado pelo narrador –, ele sofre um duplo processo que pode-
ríamos chamar de “desrealização”: por um lado, é freqüentemente con-
duzido por corredores sinuosos que desembocam num falso pátio, onde
“até o céu é pintado”; por outro, é submetido à ação de drogas que o
mantêm submisso e semi-inconsciente. Elas o fazem esquecer e rom-
per, abruptamente, os vínculos com o passado – espécie de supressão
do tempo:

E pela primeira vez tentou captar algumas lembranças da vida passada


– mas o vácuo é enorme, o vazio, um túnel sem saída. (p.15)

ou ainda:

Se ao menos pudesse pensar no passado. Mas tudo parecia estar em


branco para trás...
Os guardas passaram uma esponja no meu passado, lavaram a minha
mente – só tenho que suportar as algemas, o escuro, o simples prato de sopa
incolor... (p.30)

E era fácil concluir: a comida estava drogada, assim como a sopa... E


esperaria pela sonolência e o esquecimento (p.143)

A matéria do romance é, então, a narração detalhada – e a conse-


qüente denúncia – do funcionamento das instituições repressivas cons-
tituídas pela ditadura militar. O leitor visado era, pois, aquele que
desejava obter informações acerca da repressão, quase sempre movi-
do por interesse extraliterário: um dos motivos da expansão do pú-
blico talvez tenha sido o fato de que a leitura, nesse momento, parecia
um gesto subversivo – um ato de oposição política ao regime.

84 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998


A ação passava, assim, a implicar dois níveis distintos: o dos fa-
tos vivenciados na prisão e a luta pessoal de Jeremias para reagir a tal
situação, o que acarretava um reaprendizado de seus hábitos e um
esforço enorme tanto para poder identificar o tempo e o espaço que
experimentava como para recuperar os vínculos com o passado e res-
tabelecer a memória; só assim poderia, também, conhecer as causas
(arbitrárias) de sua prisão. Veja-se, a respeito:

O pequeno rato poderia ser o seu relógio – poderia por ele marcar as
etapas daquele confinamento, e então a sua orientação seria melhor para or-
ganizar os pensamentos e saber. (p.65)

E também:

E teve medo agora, após a pacífica descoberta dos entes que tinha ama-
do, de um passado ainda de peças soltas – e teve medo que seu ódio estives-
se crescendo, tomando a forma de uma revolta mais violenta. Não, não por
este caminho.
Não por este caminho – a sua revolta era apenas resistir, sobreviver,
como sobreviveria o pequenino rato em sua vida adversa... (p.68-9)

Em resumo: o sólido sistema repressivo que o isolava e cortava


todas as suas formas de comunicação com os homens, também sone-
gava-lhe a memória e, portanto, a própria identidade, o que o reduzia
a uma condição existencial semelhante à de um cão ou de um rato.
Não almejava, nessa situação em que era obrigado a ser servil e “do-
mesticado como um animal”, outra coisa senão sobreviver para, quem
sabe, lograr um dia “organizar melhor os pensamentos e saber”, ou
seja, reconstituir os nexos perdidos de um passado então vislumbrado,
mas que permanecia, ainda, cheio “de peças soltas”.
O romance, portanto, pode ser incluído entre aqueles que lutaram
contra o esquecimento e procuraram recuperar o material histórico
reprimido, recalcado, pelo brutal sistema repressivo da ditadura. A luta
para recuperar a memória, núcleo menos escorregadio dessa obra e
uma das grandes questões experimentadas pelo romance dos anos 70,
é, aqui, claramente, uma luta contra a censura. É essa que corta, no
presente, os vínculos com o passado e suprime a historicidade dos
fatos que se tornam peças desconexas, fragmentos incompreensíveis
de uma realidade inacessível.
A censura, como dirão vários personagens de diferentes roman-
ces da década, faz que “ninguém saiba narrar a história inteira”. Para
reconstruí-la, o romance de Assis Brasil foi obrigado a recorrer a duas

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 85


vozes narrativas diferenciadas: enquanto Jeremias é vítima da repres-
são e não consegue reagir a ela, o narrador é – como já foi assinalado
anteriormente – neutro; ele apenas acompanha e registra a distância o
desenrolar dos acontecimentos; porém, ele também desconhece o
passado e as causas da prisão. Contudo, no momento em que o per-
sonagem começa a lutar pela recuperação da memória e, portanto, de
sua identidade, o narrador transfere sua atividade para Jeremias, que
se torna de fato o narrador.
Este procedimento – a recorrência a dois ou mais narradores – é
também utilizado, por exemplo, por Antonio Callado em Reflexos do
baile. Nessa obra, o narrador, embora ainda apresente traços tradicio-
nais originários do narrador do romance do século XIX – conforme já
assinalou Davi Arrigucci Jr. (1979) – é, de fato, o organizador de um
vasto e heterogêneo material, como cartas, bilhetes pessoais, anota-
ções de diários, fragmentos de comunicados diplomáticos ou oficiais,
que são dispostos na forma de mosaico de modo a revelar, de cada
ângulo ou visão particular dos fatos, a história que, porém, só será
mais clara ao leitor – ele próprio, espécie de co-autor ou outro narrador.
Também Ivan Angelo (1978), em A festa, recorreu a múltiplas e simul-
tâneas vozes narrativas para relatar os vários aspectos implicados nos
acontecimentos verificados no dia 30 de março de 1970, em Belo Ho-
rizonte. Dessa maneira, a fragmentação e a narração múltipla ou des-
centralizada são procedimentos literários requeridos pela elaboração
romanesca que, a contrapelo, tentou narrar aquele material que a his-
tória oficial recalcou, banindo-o para obscuras zonas de insignificân-
cia por meio da ação supressora da censura.
É preciso questionar melhor a necessidade, apresentada por tal tipo
de romance, de dedicar-se à reconstituição daquilo que um dia existiu,
ainda que apenas como tênue promessa a se delinear no (frágil) hori-
zonte da história para – fugaz centelha de felicidade – logo desapare-
cer na noite dos tempos. De fato, por que recuperar aquelas formas
embrionárias de existência ou aquilo que, como um cometa desconhe-
cido, desapareceu, talvez para sempre, do céu da história? Ora, Jeremias
não desejava recuperar tudo aquilo que um dia foi, mas aquilo que, em
outro tempo, compunha os elementos que teciam a trama de sua felici-
dade; ele almejava, enfim, rever os rostos das pessoas que amou e que,
de algum modo, preencheram sua vida. Ele quer entender quem foi e
quais as razões que o levaram à desgraça pessoal.
Recuperar a memória não é, portanto, apenas recompor o rosto do
passado perdido ou reconhecer, ainda uma vez, os traços daqueles que
foram motivo de alegria, mas é recuperar no presente – em um agora

86 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998


dominado pelo signo da adversidade – as características de uma outra
vida; de uma vida diversa da atual e na qual reluz a esperança da paci-
ficação da existência. Reconstruir a memória é, pois, relembrar que a
vida dos homens não precisa ser marcada pelo horror: ao reatar os vín-
culos com o passado, de fato espera-se recuperar a imagem de um tempo
em que os homens não tinham o que temer.
Parece haver, entretanto, na parte final do romance de Assis Bra-
sil, um absurdo paradoxo, um descompasso que empurra a narração
para o interior mesmo daquele universo que, aparentemente, o roman-
ce tentou denunciar; em outras palavras, ele parece ceder aos impe-
rativos da censura quando o narrador afirma: “Tudo é podridão” (p.172),
para, em seguida, desencantado e impotente, decidir que só haveria
um modo de reagir a seus agressores – não sem antes, porém, retomar
a frase de Sartre: “o homem é uma paixão inútil?” (p.192). E opta, como
forma de libertação, pelo suicídio.

De revolucionário a escritor: o memorialismo político

Em 1977, Renato Tapajós publicou Em câmera lenta, romance de


natureza autobiográfica ao qual se seguiram, pouco tempo depois, o
romance-depoimento de Fernando Gabeira, O que é isso, companhei-
ro? (1982) e, um pouco mais tarde, Os carbonários de Alfredo Sirkys.
O texto de Gabeira apresenta não só uma prosa depurada, como
também trata de reconstituir os vários aspectos implicados no itine-
rário dramático de todos aqueles que aderiram, pelas mais diversas
razões, à guerrilha e à luta armada. Nesse relato, mostra a brutali-
dade da repressão política, tanto no Brasil como no Chile, já que seu
depoimento começa com o narrador-personagem em desabalada
corrida por uma rua de Santiago, em setembro de 1973, rumo à em-
baixada sueca, em busca de abrigo. Trata-se, assim, da busca do
exílio dentro do exílio, o que revelava a ferocidade com que as diver-
sas ditaduras latino-americanas tratavam os militantes políticos e os
revolucionários. Também apresenta extraordinário interesse a narra-
ção da militância política, na qual aparece o freqüente despreparo
dos membros da organização revolucionária; as condições materiais
quase sempre precárias e o lento e terrível processo de fuga desses
militantes, insulados, incapazes de conseguir apoio popular à guer-
rilha. Relata, também, as atrocidades experimentadas na prisão; relato
que, como salientou Davi Arrigucci Jr., ultrapassa o mero depoimento
para estabelecer sólida narrativa que “caracteriza uma verdadeira

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 87


descida ao inferno” (Arrigucci Jr., 1987). Não bastasse isso, o texto
de Gabeira apresenta ainda a vantagem de constituir-se uma reflexão
acerca dessa opção política e de procurar romper com os erros do
passado para, afinal, buscar novos caminhos de resistência e de luta.
Em câmera lenta (Tapajós, 1977), apesar de evidentes desequilíbrios
formais, é romance bastante elaborado, cuja estrutura narrativa é ra-
zoavelmente intrincada e decididamente fragmentária – conseqüência
das objetivas dificuldades para narrar os acontecimentos censurados.
O texto desenvolve, de modo paralelo, duas histórias que, contudo,
estão de algum modo interligadas. Numa delas – talvez a secundária
– são os relatado o desenvolvimento e o fracasso da guerrilha no inte-
rior do país. Na outra, o narrador tenta, com base em pequenos frag-
mentos por meio dos quais vislumbra a tortura e a morte de sua com-
panheira de militância, reconstituir toda a cadeia de fatos que
culminaram com a morte dela, com sua própria prisão e a completa
destruição da organização política à qual pertenciam – ou seja, com a
derrota de seu projeto revolucionário.
A narração provém, portanto, de um sólido esforço para relatar a
história inteira e reconstituir completamente a memória sobre aquele
material histórico recalcado, fragmentado e desprovido de qualquer nexo
lógico. Dessa forma, o ato de narrar se assemelha a um intrigante jogo
de armar que, pouco a pouco, por meio do lento acréscimo de míni-
mos detalhes à cena principal – a da prisão e tortura da mulher, repe-
tida exaustivamente por meio de procedimentos técnicos originários
do cinema, como o flash-back e a câmera lenta – adquire uma confi-
guração mais nítida, de modo a propiciar a percepção dos laços ló-
gicos que teceram os episódios. Lembrar essa história – salvar do es-
quecimento o que ela comportou de esperança e de sofrimento – é,
em si mesmo, um formidável ataque ao inimigo – pois abrange tanto
a denúncia da barbárie nela contida quanto a reconstituição do rosto
desfigurado daquelas ruínas que atestaram, no passado, a possibili-
dade de outra história.
Recompor a memória implica, portanto, inscrever ainda uma vez
no céu do atual o brilho de relâmpago daquilo que, outrora, foi possí-
vel ser pensado ou sonhado. Nesse caso, ela libera, na ruína presente,
o antigo pulsar vital – a centelha de vida – que continha, ainda que de
forma embrionária, a esperança de que, um dia, os acontecimentos
históricos pudessem ser diferentes dos da atualidade. A ruína encerra
em seu coração gelado a semente de uma vida nova. Dessa maneira,
ao recuperar a esperança nela contida, a memória faz reviver aquilo
que outrora poderia ter sido; mas, ao fazê-lo, salva do esquecimento

88 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998


os mortos e pede para que o que eles ousaram um dia sonhar seja
ainda possível.
Alguns outros romances da década também tematizaram a censu-
ra e a repressão política ou narraram o terrorismo estatal – que difundia
medo tanto nos setores diretamente envolvidos com a oposição à di-
tadura como no cidadão comum, mero simpatizante da resistência –, a
tortura e as prisões. Entre essas obras, merecem destaque algumas
passagens de Zero de Ignácio de Loyola Brandão (1975), Confissões de
Ralfo de Sérgio Sant’Anna (1986), Reflexos do baile de Antonio Callado
(1976), bem como Quatro-olhos de Renato Pompeu (1976) e A festa de
Ivan Angelo (1978).
No livro de Renato Pompeu, o próprio narrador-personagem é ví-
tima da repressão, pois, além de perder a mulher – professora univer-
sitária e militante política que é forçada a fugir para não ser presa –
tem o livro que escrevia “todos os dias, dos 16 aos 29 anos, exceto
numa segunda-feira em que teve forte dor de cabeça”, apreendido.
Sem jamais conseguir recuperá-lo e após passar uma temporada em
um sanatório para doentes mentais – onde é internado por ver, nessa
situação, seu mundo desmoronar –, põe-se novamente a escrevê-lo,
mesmo sem se lembrar de nada dele. Repressão e censura provocam,
aqui, uma espécie de dilaceração no personagem-narrador e, conse-
qüentemente, na própria narração: afinal, por causa dela, ele tenta até
hoje narrar uma história que, outrora, ele próprio narrou.

Forma literária e resistência política

A festa, romance de Ivan Angelo publicado em 1976, apresenta


sólida estratégia literária capaz de resistir a essas dificuldades.
O núcleo sólido dessa estratégia é determinado, em seus mínimos
detalhes, pela necessidade, experimentada pela ficção dos anos 70, de
burlar e superar os impedimentos e proibições da censura. Para lograr
tal objetivo, o romance optou por constituir, como centro de sua tra-
ma, acontecimentos que culminaram com uma revolta popular em Belo
Horizonte, em 1970. Para tanto, apoiou o relato naquele material que
poderia sustentar e garantir a veracidade deles: a notícia jornalística.
Se isso determinou, em alguns romances do período, uma influência
negativa do jornal sobre a literatura, o mesmo não ocorre com o de
Ivan Angelo: o romance insiste em citá-las – ainda que sejam pura-
mente ficcionais – para apoiar seu corpo no elemento proscrito e ba-
nido pela repressão ditatorial.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 89


Esse mesmo procedimento é também radicalmente adotado na
parte final da obra. Ela é composta por pequenas notas que, é certo,
às vezes podem ser lidas como “contos relâmpagos”, autônomos –
embora, freqüentemente, relatem os desfechos dos episódios anterio-
res. Essas notas, porém, revelam um traço peculiar: são compostas
como se fossem relatórios policiais, fichas de informações privilegia-
das e confidenciais. Bom exemplo delas é aquela (situada na p.137)
intitulada “Nordestino moreno, Marcionílio de Mattos”, ou esta (p.139),
“Carlos Bicalho, o estudante”, mas talvez a mais contundente seja a
relativa a Jorge Paulo de Fernandes (p.153). E, de fato, elas têm essa
origem comum. Segundo o próprio depoimento de Ivan Angelo, elas
foram inspiradas por aquelas insidiosas fichas com que a polícia polí-
tica da ditadura aterrorizava os indefesos moradores dos edifícios das
grandes cidades: todos deveriam entregá-las à autoridade competen-
te. Dessa maneira, a repressão pretendia controlar todos os passos de
cada cidadão.
Essa elaboração literária deixa à mostra a natureza do expe-
rimentalismo estético típico dos anos 70 – particularmente aquele que
despontou na ficção mais radical do período. A energia que o domina
tem conseqüências políticas. De fato, o criador literário é, nesses ca-
sos, obrigado não a refuncionalizar as técnicas artísticas do passado
recente (ou nem tanto) ou buscá-las em obras contemporâneas, mas a
identificar, dentre os mais variados elementos que compõem a reali-
dade cotidiana de uma época, aqueles que possam ser transformados
esteticamente, para saturar a forma romanesca de significados críticos.
Assim, essas fichas policiais, instrumentos “terroristas” de uma dura
política estatal repressiva, são agora objeto desse tipo de transforma-
ção estética: integradas com nova aparência à obra, elas se tornam,
simultaneamente, testemunhas da barbárie daquela conjuntura e ela-
borações críticas e irônicas sobre essa mesma realidade – modo de o
romance reagir, com algum senso de galhofa, ao horror da época. A
adoção de tal procedimento permitiu que sua forma, efetivamente, apre-
sente um caráter algo inovador. A narração fragmentária, que progride
à base do acúmulo de informações sobre cada personagem, exempli-
fica esse aspecto.
A resistência literária às truculências da censura não se resume,
porém, ao uso de tais artimanhas. Às vezes, por exemplo, o romance
recorreu às práticas de resistência verificadas nas próprias redações
de jornais. Caso típico desta “guerrilha cultural” foi adotada pelos jor-
nais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, que se recusavam a pre-
encher, com outras notícias, os espaços em branco, resultantes dos

90 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998


cortes que a censura efetuava, diariamente, em cada edição. Nesses
espaços, publicavam ou versos de Os lusíadas, ou (indigestas) receitas
culinárias. Os jornais (fictícios) citados no romance, adotam postura
algo semelhante: alteram uma notícia, que teria sido imposta a todos
os órgãos de comunicação, pela polícia federal. Ao (fingir) publicar a
notícia em questão, o romance adere a essa prática e, ao mesmo tem-
po, a relata, desmascarando o aparente e imenso poder que a censura
gozava na década:

“LÍDER CAMPONÊS MORTO EM TENTATIVA DE FUGA


O líder camponês e ex-cangaceiro Marcionílio de Mattos foi morto on-
tem em tiroteio com agentes de segurança, após empreender espetacular fuga
do xadrez do DOPS.
Marcionílio, o frustrado líder camponês que há três meses tentou trazer
a subversão do campo para a cidade, chefiando um verdadeiro regimento de
famintos, em conexão com extremistas da Capital, arrebatou a arma de um
policial, imobilizou a guarda, ganhou o saguão do DOPS e correu pela aveni-
da Afonso Pena abaixo, atirando em seus perseguidores. Um tiro de um dos
agentes que corriam em sua perseguição atingiu o subversivo na cabeça, que
caiu já sem vida.”
Esta nota foi distribuída pela Polícia Federal a todos os jornais da cidade
e às sucursais dos jornais do Rio e de São Paulo, no dia 6 de junho de 1970,
com a recomendação de não dar destaque na publicação. “O Estado de Mi-
nas Gerais” fez uma pequena alteração no princípio da nota, acrescentando:
“Segundo informações dos órgãos de segurança”. E o “Correio de Minas Ge-
rais” substituiu, no final, a expressão “o subversivo” pelo nome Marcionílio.
(Angelo, 1978, p.193)

Tal prática não era revestida de inocência. Ao assumi-la, o ro-


mance radicalizou aquela estratégia que viabilizou a concretização de
sua resistência à ditadura, a qual tornou possível, entre outras coisas,
denunciar os assassinatos políticos cometidos pelo Estado militar, como
é o caso do anunciado assassinato do ex-cangaceiro.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998 91


FRANCO, R. Censure and the cultural modernization under the dictatorship.
Perspectivas (São Paulo), v.20/21, p.77-92, 1997/1998.

■ ABSTRACT: This essay analizes, at one hand, the meanings of the use of
the censorship during the military dictatorship – specially between 1968 and
1975. In a (presumably) pioneer approach, it intends to establish relationships
between the use of the censorship, the modernization of culture and the
inclination to the globalization (or “americanization”?) of the cultural life. At
the other hand, it intends to clear the issue of how the novel reacted to the
censorship.

■ KEYWORDS: Brazil: military era; Brazil: the seventies; history and literature;
brazilian literature: seventies; censorship and culture; novel and politics.

Referências bibliográficas

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VILELA, L. Os novos. Rio de Janeiro: Gernasa, 1971.

92 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 77-92, 1997/1998


QUESTÃO AGRÁRIA
O AGRARISMO BRASILEIRO NA INTERPELAÇÃO
DE CAIO PRADO JR.

Raimundo SANTOS1

À memória de René Zavaleta Mercado

■ RESUMO: O artigo retrata a controvérsia no interior do PCB e a disputa dos


comunistas brasileiros com Francisco Julião, no início dos anos 60, como um
dos mais expressivos (senão o “grande”) debates sobre a questão agrária bra-
sileira. O autor utiliza a interpelação caiopradiana antifeudalista de seu par-
tido como uma referência para caracterizar tanto as oscilações do agrarismo
pecebista – “sindical” e parcialmente camponês – quanto o agrarismo pura-
mente campesinista do líder das Ligas Camponesas. Um tema caiopradiano
percorre todo o texto: reforma agrária camponesa ou reforma agrária “mista”,
camponesa e fundamentalmente de “renovação da economia agrária” de gran-
de empresa?

■ PALAVRAS-CHAVE: Agrarismo; comunismo brasileiro; Ligas Camponesas;


Caio Prado Jr.; reforma agrária.

Em seu já famoso balanço do século, Eric Hobsbawm (1995) con-


firmou na “fatalidade histórica” dos camponeses a predição do Mani-
festo Comunista segundo a qual o antigo mundo agrário, como tudo
que parecia sólido no Ancien Régime, também haveria de desaparecer

1 Centro de Pós-Graduação em Desenvolvimento Agrário – Universidade Federal Rural do Rio de


Janeiro – 23851-970 – Itaguaí – RJ.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 95


com a generalização da modernidade burguesa.2 A bibliografia da his-
tória comparada já descreveu em três grandes modalidades a trajetó-
ria dos camponeses nos processos de “construção do mundo moder-
no”: ora eles seriam o grande entulho a ser removido ao longo do tempo
para a vinda do capitalismo liberal (classes empedernidas durante a
Revolução Francesa, domesticadas somente após dois impérios) ora
classes subjugadas pela violência e passivas como nas experiências
de modernização conservadora alemã e japonesa, ou ainda grupos
disponíveis à mobilização das revoluções comunistas como um outro
tipo de processo modernizador (Moore Jr., 1983).
O marxismo tomou o destino dessas classes agrárias tanto como
objeto sociológico quanto como tema relevante da sua ciência polí-
tica. A sociologia sempre as tratou como coadjuvantes de uma histó-
ria realizável por um sujeito universal de definição moderna e vocação
à urbe. São emblemáticos o paradigma da expropriação camponesa de
O capital e os escritos de Marx sobre a dominação britânica na Índia,
o texto engelsiano sobre a situação dos camponeses na França e na
Alemanha, especialmente o argumento de Lenin contra a tese do
comunitarismo russo como atalho à desintegração do mundo agrário
invadido pelo mercado. O líder bolchevique, numa perspectiva de
Ocidente, imaginou um trânsito do tradicional para o moderno menos
doloroso e de ganhos emancipatórios para camponeses in nuce alia-
dos de um movimento político de constituição de uma nova ordem
social. Lenin transitava da compreensão da questão agrária com base
na teoria social (a “penetração do capitalismo na Rússia” contra o por
ele chamado romanticismo econômico) a uma teoria política aplicada
– tema dos “governos provisórios” de universalização da democracia
política, noção de aliança operário-camponesa como hegemonia – que
apontasse solução para o paradoxo de uma modernização conduzida
por classe diversa ali onde é débil o impulso burguês, como sugerido
no Manifesto Comunista. Em Duas táticas da social-democracia russa,
como se sabe, ele recusara a utopia dos populistas russos, contrapon-
do-lhe uma mobilização agrária associada a uma coligação pluriclassista
de centralidade popular, portadora de impulso suficiente para levar os
camponeses a um nível de civilização diversa do seu, à vida urbana
plena generalizável no mundo agrário, como, depois, sinalizam os tex-

2 “A mudança social mais impressionante e de mais longo alcance da segunda metade deste
século e que nos isola para sempre do mundo do passado é a morte do campesinato” (Hobsbawm,
1995, p.284).

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tos sobre a eletrificação rural e a nova política econômica das conces-
sões à pequena produção, de 1918-1921.
O próprio marxismo chinês, por definição, não haveria de reivin-
dicar superioridade para o campesinato. O Partido Comunista chinês
teve de conciliar a tensão de sua práxis de Oriente com o marxismo-
leninismo oficial pós-1917 e acomodar, numa síntese proveitosa, o
conceito de classes sociais como componentes antagônicos da socie-
dade em mutação, que recolhe de Marx, e o partido leninista, elevado
a força por excelência de ruptura com o mundo estático dos campo-
neses e dos intelectuais-administradores-guardiães da ordem feudalista
e colonial (Pishel, 1986). Contido pela bolchevização imposta aos PCs
pela Internacional Comunista (IC), Mao Tsé-Tung terminaria radicando
o seu cálculo estratégico numa associação tripartite entre intelligentsia,
operários e campesinato no Exército-Partido Comunista, locus de for-
mulação e difusão de uma ideologia de modernização da China. Du-
rante a revolução cultural, bem depois, quando da crise de legitimida-
de do sistema político, é que o maoísmo como tal teria se notabilizado
como força mobilizatória de alto componente ético-educativo e exi-
bido traços utópicos, embora já não fossem tão visíveis as suas inspi-
rações agrárias.
De qualquer modo, nessa tradição marxista comunista, o problema
camponês se define a partir do deciframento da formação social se-
gundo a leitura da lógica da modernização agrária que lhe é específi-
ca; as classes do pretérito, dependendo os seus movimentos sociais
da interpelação da ponta moderna e urbana dos grupos subalternos.
Na bem longa tradição da IC, convertida em ideologia, ao leninismo se
lhe vai confiar a função de vencer os valores artesanais e a dispersão
próprios aos camponeses; estes, tendentes a perder importância na
saga histórica da classe operária, como observou Stalin, prescrevendo
alianças concêntricas segundo a confiabilidade – a princípio, unidade
até com os camponeses ricos; mais adiante, camponeses médios, po-
bres; e, afinal, com grupos semi-assalariados, assalariados, afastada
qualquer veleidade utópica. Depois, como ideologia da nova ordem, o
marxismo-leninismo se converteria em cultura política mobilizável para
sedimentar, com base na concentração produtiva forçada, um proces-
so de “intelectualização comunista” das antigas classes em laborató-
rio de homogeneização social presidido pela política (Stalin, 1941).
E na memória brasileira, há algo parecido e que pertença a esse
mundo intelectual? Haveria considerável consenso se relembrássemos
as Ligas Camponesas e os sindicatos comunistas como um marco dos
novos movimentos sociais agrários por onde, pela primeira vez, gran-

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des contingentes pediam passagem para o sistema político no início
dos anos 50. Até que não seria difícil considerar a controvérsia do PCB
com Julião como um bom registro da concorrência entre as duas prin-
cipais articulações da época. Reconhecê-la como tradução brasileira
daquelas teorizações, aí já seria bem difícil consensualizar. Caio Prado
Jr., outsider e comunista rebelde, aparece com freqüência discutindo
a tese da feudalidade na historiografia e muito pouco como interface
de uma querela com foros de nossa “clássica” discussão sobre as re-
lações do campesinato com a política.
Tematizando a marca do nosso mundo agrário em sua disserta-
ção sobre o “capitalismo colonial”, Caio Prado Jr. precocemente
adiantou o argumento com o qual irá negar caráter estrutural aos
nossos “restos feudais”, cuja superação os comunistas viam como uma
revolução agrária e antifeudal, segundo ele, a grande viseira teórica
do seu partido. Caio Prado Jr. se colocou contrário à sua tradição
mediante uma argumentação tão interessante que pode ser conside-
rada, sem nenhum favor, chave de leitura de um debate verdadeira-
mente expressivo. Se aqui – deslocando a conotação antiga – por
agrarismo entendermos a “significação” das lutas agro-reformistas,
segundo o protagonista social que se privilegie nas ideologizações
dos atores políticos, poderíamos revisitar aqueles dois agrarismos do
final dos anos 50 e começo da década de 1960, o camponês – de
Julião – e o “sindical” – do PCB (se compreendido como queria o mi-
litante ilustre) – como as interfaces de um emblema que ainda não
esmaeceu na memória brasileira, quem sabe, ainda hoje uma incomo-
didade em nossa cultura política.
Se considerarmos o anticampesinismo de Caio Prado Jr. como texto
de um publicista, isto é, interpelação do ator político para lhe potenciar
a ação, ele se torna bastante qualificador do modo como nos anos 50
e 60, tanto no discurso comunista como até mesmo em alguns autores
nacional-desenvolvimentistas, se problematizava a questão agrária. A
interpelação de Caio Prado Jr. ao PCB àquela época de irrupção dos
camponeses na cena política pode ser reconstituída tendo como base
duas dimensões interligadas – a da argumentação mais conhecida
contra a feudalidade; e a da ensaística crítica da práxis agrária con-
centrada na luta pela terra – priorização, segundo Caio Prado Jr., que
só fazia subestimar, se não muitas vezes até mesmo “oblitera[r] por
completo o que realmente se apresenta[va] na realidade do campo bra-
sileiro. A saber, a profundidade e extensão da luta reivindicatória da
massa trabalhadora rural por melhores condições de trabalho e em-
prego” (1978a, p.53).

98 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998


O que se segue não constitui uma mera reprise de um passado,
com clichês e imagens sobre o comunismo brasileiro, mas um exer-
cício de história intelectual a partir de um (grande) texto, considerado
referência à leitura de outros menores e do material não convencional
aqui habilitado como peças valiosas para retratar as intenções dos
protagonistas (Skinner, 1995). Não nos estenderemos, no entanto, em
considerações sobre o contexto histórico-intelectual da época, como
se pede a este tipo de exercício, supondo-o referido nos próprios te-
mas e questões que fluem na querela agrarista, para assim não au-
mentarmos o presente texto.
Inicialmente esperamos chegar a uma idéia aproximada das duas
principais movimentações que põem os termos do debate agrarista:
de um lado, a “pressão” de Caio Prado Jr. para que o seu partido
considerasse a verdadeira “dialética econômica” do campo brasileiro
– grande empresa, assalariamento – como o dado estratégico ao qual
todos os aspectos da questão agrária deviam se referenciar; de outro,
o movimento “reativo” do PCB, recusando-se a ouvir o seu militante,
preferindo viver as conseqüências da tese feudalista. Mas essa
disjuntiva não revela toda a história do caminho andado por esse
partido para se livrar de um antigo campesinismo instrumental e re-
conhecer, gradativa e parcialmente, as razões do seu historiador, num
processo de adaptações, marchas e contramarchas.
Caio Prado Jr. participa do debate agrarista – então mais dentro
do que fora do PCB – com uma teorização que vinha de longe. Já no
livro de 1933, está delineado o ponto do qual o historiador paulista
não se afastará – o “caráter geral da colonização” que particularizara
o caso brasileiro, ao ter havido aqui uma grande mobilização de
recursos e mão-de-obra vindos de fora para tocar a grande empresa
voltada para o mercado externo (Prado Jr., 1933). Esse capitalismo
agrário consagrar-se-ia mais ainda em Formação do Brasil contempo-
râneo (1942), com base em seu circulacionismo de referência – “A
análise da estrutura comercial de um país revela sempre, melhor que
a de qualquer um dos setores particulares da produção, o caráter de
uma economia, sua natureza e organização. Encontramos aí uma
síntese que a resume e explica” (Prado Jr., 1942, p.226). Equívoco,
diga-se à margem, cobrado depois por alguns marxistas-leninistas
brasileiros, mas há também quem o considere parecido ao de Gramsci,
que minimizara a economia para chegar à teoria política – aqui tam-
bém o deslize se constituíra um “erro fecundo” capaz de dar conta
da sociedade colonial “mais externamente determinada”; e, de fato,

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 99


lhe havia permitido elaborar naquela obra uma teoria do Brasil Colô-
nia hoje considerada definitiva.3
Em uma larga experimentação, Caio Prado Jr. segue diversas tri-
lhas para tornar cada vez mais incisivo o seu argumento contra a idéia
de revolução agrária antifeudal. Já na Tribuna de Debates do IV Con-
gresso de 1947 (adiado e só realizado em 1954), ele voltara ao tema da
origem da economia agrária estruturada para o sistema produtor da
grande empresa mercantil, a fazenda brasileira mais se parecendo com
a fazenda de escravos romana do que com qualquer formação social
representativa do feudalismo.4 Em um dos seus textos escritos para o
V Congresso, de 1960, encontramos uma problematização da questão
agrária a partir de um recorte “mais diretamente político”. Ou seja,
por conta da apreciação que Caio Prado Jr. fazia da correlação de for-
ças presentes naquela conjuntura e que não permitia avançar mais o
processo de transformação agrária, ele passa então a defender a tese
de que a libertação da terra (das travas à “livre mercantilização”) me-
diante tributação poderia vir a ser (mutatis mutandis, como a nacio-
nalização em Lenin) o “passo inicial e preliminar” de uma reforma
agrária (aqui o ponto a destacar) que tanto favoreceria as massas de
sem-terra como estimularia a economia agrária, melhorando a oferta
de empregos e as condições de trabalho para o grupo social estraté-
gico: os assalariados e semi-assalariados. Isto é, uma “reforma agrária
mista”, camponesa e fundamentalmente de revitalização da economia
agrária de grande empresa (Prado Jr., 1960a; Santos, 1996b). Por fim,
na última obra importante, a de 1966 [1978a], Caio Prado Jr. retoma o
ponto, desenvolvido igualmente na ensaística da Revista Brasiliense, e
completa o argumento, agora denunciando o “apriorismo conceitual”
(que levara o PCB a importar o modelo revolucionário da IC e com ele
construir a sua imagem de Brasil) e mobilizando a conceituação
leniniana de antifeudalismo, cujos pressupostos – economia campone-
sa, extração não econômica do excedente, ocupação efetiva da terra,
empresariamento da produção etc. – não encontravam correspondên-
cia no país. O que se pareceria mais à economia camponesa – a pe-
quena produção – restringia-se a áreas de pouco peso econômico e

3 Na interpretação de Carlos Nelson Coutinho, no primeiro texto Caio Prado Jr. teria coincidido
com Gramsci ao descrever traços de revolução “pelo alto” e de “revolução passiva” na moderni-
zação brasileira da segunda metade do século passado (Coutinho, 1990).
4 A revista Cadernos do Nosso Tempo do Ibesp (depois Iseb) publicou no seu n.2, de jan./jun. de
1954, uma resenha daquele debate “Três etapas do comunismo brasileiro”, sem autoria, in
Schwartzman, 1982.

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importância secundária (a região das Ligas Camponesas, entre a zona
da mata e o agreste, no Nordeste; o Oeste do Paraná e o Centro-Norte
de Goiás e o “alto interior do país”: os sertões do Nordeste, da Bahia
e de Minas Gerais). E isso não poderia sustentar uma reforma agrária
de tipo camponês. O ponto sempre reiterado: parcela esmagadora do
trabalhador rural vinculava-se aos principais setores produtivos como
vendedores de força de trabalho, único grupo social capaz de
protagonizar o processo de mudanças no campo (Prado Jr., 1978a).
Caio Prado Jr. fará da desatenção para com o assalariamento a
debilidade política do agrarismo do seu partido. Eis aqui a interpelação:

No que se refere à questão agrária, o Programa de 1961 [sic] inclui dois


itens, um relativo à “reforma agrária”, consistente na desapropriação das gran-
des propriedades incultas ou pouco cultivadas, abolição da meia e terça, en-
trega de títulos de propriedade aos posseiros, estímulo ao cooperativismo,
assistência etc.; e outro item, colocado em passagem largamente apartada
da primeira e com o mais variado sortimento de assuntos de permeio, refe-
rente à extensão da legislação trabalhista para o campo

observa ele comentando o texto comunista, para assim revelar a nature-


za do problema: “A proposição dessas medidas não se apresenta, contu-
do, de forma sistematizada, ligada e articulada em conjunto que inspire
uma interpretação adequada da realidade brasileira” (Prado Jr., 1978a).
Caio Prado Jr. apontava para a duplicidade de orientação ao citar este
outro trecho da referida resolução do V Congresso (na verdade, de 1960):
“A fim de impulsionar a organização das massas do campo é necessário
dar atenção principal aos assalariados e semi-assalariados agrícolas. Sua
organização em sindicatos deve constituir a base para a mobilização das
massas camponesas”. Para Caio Prado Jr. a primeira proposição não
passava de um “cochilo” em relação à ortodoxia antifeudalista e como
“réstia de bom senso” logo se desfazia no capítulo do mesmo texto “Nor-
mas de ação prática”, do qual ele volta a citar esta outra passagem (“in-
coerente”): “A organização dos camponeses deve partir das reivindica-
ções mais imediatas e viáveis como a baixa das taxas de arrendamento,
a prorrogação dos contratos, a garantia contra os despejos, a permanên-
cia dos posseiros na terra e a legitimação das posses etc.”. Caio Prado Jr.
queria mostrar como tal ambigüidade levava o PCB a priorizar a questão
da terra e como essa concentração “só freava” a mobilização do grupo
estratégico radicado na ponta moderna da agricultura.
Até hoje constitui ponto pouco conhecido o destino da teorização
de Caio Prado Jr. no PCB. Ela vai estar presente em vários fóruns e contro-
vérsias desse partido – antes de 1947, não podemos ainda localizá-la;

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 101


com certeza, no IV Congresso desse ano, nos V e VI congressos, de 1960
e 1967, especialmente neste último ao qual ele dedica A revolução bra-
sileira – sem falar na ensaística publicada, e muito mais lida, no decênio
de 1955 a 1964 na Revista Brasiliense. Se Caio Prado Jr. é a própria re-
tidão comunista, seu marxismo-leninismo e sua visão de socialismo real
são os mesmos do seu partido, onde a raiz das divergências? Na análise
de conjuntura, quando um – nas páginas da Revista Brasiliense – e o
outro – na sua imprensa – interpretavam os acontecimentos políticos da
época? O PCB, valorizando os “aspectos positivos” do governo (JK, Jango),
e Caio Prado Jr., sem tanto otimismo?
O historiador paulista – ao contrário do PCB, como veremos adian-
te – aponta para um Ocidente agrário, mas não consegue transcender
a própria dissertação até uma teoria do conjunto da formação social, e/
ou daí formular uma estratégia política de alcance nacional, como será
o caso do revisionismo político do seu partido após-1954. Sua maior
contribuição vai consistir na proposta de generalização da lei traba-
lhista para varrer do mundo rural os resíduos pretéritos, como observa-
va ele, mais de origem escravista. Contrapondo-se a uma teoria da re-
volução brasileira à Oriente que atribuía ao PCB, Caio Prado Jr. mostrava,
ademais, na obra de 1966, a ilusão no antiimperialismo burguês – a
outra peça da teorização pecebista –, inclusive causa do envolvimento
na “aventura janguista” e da derrota de 1964, como ele diz; e, mais,
denunciava a fragilidade do “industrialismo artificial” (Prado Jr., 1978a),
daí as razões da sua rejeição ao que ele já chamara no debate de 1960
“pecebismo político das improvisações da tática da frente única” (Pra-
do Jr., 1960b). Esta teria sido a grande barreira e a esquina do
desencontro do publicista com o seu partido. Já foi mais de uma vez
lembrado que depois ele continuaria se recusando a reconhecer impor-
tância ao desenvolvimentismo da “internalização do mercado interno”
pós-1964 (Prado Jr., 1978a, b), vendo sempre como traço da formação
brasileira contemporânea a contradição entre o que ele chama de for-
mas remanescentes do estatuto colonial e a construção (inconclusa) de
uma economia voltada para as necessidades da população, por meio
de um Estado verdadeiramente nacional (Sousa Freitas, 1993).5 Em sua

5 Para Luiz Carlos Bresser Pereira, a resistência provinha do uso da categoria de circulação como
critério definidor do capitalismo na fase “ainda juvenil”. Valendo-se disso o historiador pecebista
não conseguiria entender o processo de constituição da ordem burguesa-industrial e nunca
mais se afastaria da imagem sombria de Brasil (Bresser Pereira, 1993). A proposição precisaria
ser matizada porquanto, como se sabe, na produção contemporânea Caio Prado Jr. aceita sem
reservas a ontologia econômica marxista-leninista.

102 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998


valorização gramsciana das intuições de Evolução política do Brasil de
Caio Prado Jr., Carlos Nelson Coutinho lamenta essa acentuação
caiopradiana no tema do atraso, viés que não só o impedia de ver o
intenso desenvolvimento das forças produtivas nacionais após-1964,
como também a importância da questão democrática (Coutinho, 1990).6
Em lugar de incursões a um “marxismo nacional” – capitalismo
colonial, capitalismo agrário – mas sem questionar a sua própria tradi-
ção,7 o PCB terá que ultrapassar a sua “couraça ideológica” estalinista
(Vinhas, 1982) para abandonar a política “de revolução no curto prazo”
(um ônus da tradição, cujas versões recorrentes, “golpismo” e “pressa
pequeno-burguesa”, ele próprio promete superar em inúmeros docu-
mentos) e o agrarismo camponês instrumental do Manifesto de Agosto
de 1950 (Carone, 1982) que visualizava nos conflitos agrários pontos de
apoio da Frente Democrática de Libertação Nacional, uma coalizão
dirigida pela classe operária e o seu partido comunista, ao modo da
experiência chinesa.
A “Resolução Sindical” aprovada pelo Comitê Central do PCB de
1952 registra o início dessa virada, começando pela nova orientação
de “volta ao trabalho de massas” nas entidades legais (PCB, 1952). A
difícil evolução dos comunistas brasileiros em direção a um pensamento
de referência democrática avançaria após a morte de Getúlio e mais
ainda durante a crise ideológica da segunda metade dos anos 50. Essa
nova mentalidade emergira à proporção que o PCB fazia uma leitura
positiva das resistências constitucionalistas (morte de Getúlio, 11 de
novembro, posse de Juscelino) e, sobretudo, depois das discussões sobre
o estalinismo, quando refaz o caminho e se redefine para enfrentar os
tempos nacional-desenvolvimentistas.8 A política desenhada na De-

6 Uma hipótese suplementar sublinharia a natureza terceiro-mundista própria do marxismo da época.


É como se a originalidade dos primeiros textos (1933, 1942) se transfigurasse num simétrico
economicismo para caracterizar o Brasil urbano-industrial à hora que o econômico esquecido é reposto
no marxismo-leninismo pleno da obra madura. A conjetura seria a de que, sem diversificar o seu
marxismo, ele haveria de encontrar grande dificuldade para dar curso a intuições de uma fase inicial.
7 É no mínimo curiosa a ausência de Caio Prado Jr. nas tribunas de debates (Voz operária, Impren-
sa Popular) da controvérsia sobre o XX Congresso do PCUS nos anos 1956/1957, nas quais
participaram quase toda a intelectualidade comunista, dirigentes e muitos militantes. As pági-
nas da Revista Brasiliense tampouco discutem o estalinismo. Os livros sobre suas viagens à
URSS e a Cuba, de 1934 e de 1962, igualmente entusiastas do socialismo real, bem como os
volumes sobre filosofia marxista, de 1953 e 1957, sugerem que Caio Prado Jr. deve ter permane-
cido à margem dessa discussão crucial no PCB.
8 A respeito das mutações ideológico-políticas dos comunistas após 1954, sobretudo durante os
debates sobre o XX Congresso do PCUS, ver Santos (1982; 1988). O marco da nova política,
como se sabe, é a Declaração de Março de 1958, com a qual o PCB encerrou o trauma dessa

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 103


claração de Março importava exercitar a tática de frente única, rema-
nescente dos tempos do antifascismo, relançada naqueles anos
golpistas, de uma maneira permanente, ou seja, além de refletir a
emergência da articulação pluriclassista do nacionalismo, ela passou a
ser considerada a “nova política”. Aliás, é nesse momento que tam-
bém começa a aparecer uma, usando expressão atual, tática melhorista
da sociedade, que, mediante uma nova percepção segundo a qual
“transformações de qualidade, sem as de quantidade”, sem uma acu-
mulação de forças, tornavam irreal o projeto de mudança social e le-
vava inevitavelmente para o aventureirismo político. Era uma tentati-
va de repensar o socialismo após a crise do estalinismo, como se pode
visualizar no artigo de Marco Antonio Coelho chamado “A tática das
soluções positivas” (Coelho, 1960).9
Há indícios de que então os comunistas brasileiros já percebiam
que era preciso traduzir a sua ciência-marxista-leninista num
aprofundamento dos temas substantivos da Declaração de Março – in-
dustrialização, que exigia romper com o terceiro-mundismo do seu
marxismo; e o novo dinamismo da vida política nacional no sentido da
democratização, que, por sua vez, punha entre parênteses a auto-
definição revolucionária.10 Vindo muito mais do pragmatismo político,

discussão (PCB, 1958; Carone, 1982). Daí em diante, a imagem de Brasil do PCB iria mudar
progressivamente à medida que ele reconhecesse o industrialismo, a subordinação da lógica da
formação social à chamada contradição antiimperialista e conferisse importância às liberdades
públicas que vinham se afirmando desde o 24 de Agosto.
9 Esse texto chama a atenção para duas passagens. Primeiro, a posição a favor da tese das refor-
mas de estrutura com democracia como via alternativa a 1917, como vinha propondo o PCI
desde o XX Congresso. O autor concorda com essa nova política de renovação democrática (sic),
igualmente aprovada pela declaração conjunta dos comunistas franceses e italianos, de 27 de
dezembro de 1958, chegando a citar Enrico Berlinguer para explicá-la: “A palavra de ordem de
desenvolvimento econômico e político democrático e de reformas de estrutura nada têm em
comum, pois, com uma política reformista que se propõe apenas introduzir, pela cúpula no
sistema capitalista, determinadas correções de caráter paternalista. Para nós uma política de
desenvolvimento democrático e de reformas de estrutura significa que, sobre a base do avanço
do movimento de massas, podem ser levadas a efeito radicais transformações na esfera da pro-
dução, que constituam outros golpes contra as grandes concentrações da propriedade e do
Poder”. Em outra passagem, Marco Antonio Coelho observa que o novo caminho pressupunha
“um clima de democracia, quando haja respeito pelos direitos inscritos na Constituição. Sendo
assim a tática das soluções positivas determina que se trave a defesa das liberdades e o comba-
te pelo aperfeiçoamento do regime democrático” (Coelho, 1960).
10 Desde antes já se registram fatos sintomáticos dessa compulsão, como, por exemplo, a disputa
durante a discussão de 1956/1957, quando alguns comunistas renovadores procuraram levá-la para
temas substantivos em vez do debate doutrinário. Imediatamente depois, a criação das revistas
Novos Tempos (de curta duração) e sobremaneira Estudos Sociais, bem diferente da publicação
oficial dos PCs Problemas/Revista Internacional/Problemas da Paz e do Socialismo, que ocupava a
quase totalidade de suas páginas para reproduzir material de formação ideológica e traduções.

104 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998


a reorientação da práxis agrária comunista seguirá um caminho bem
mais sinuoso. Se, por um lado, o afastamento do antigo campesinismo
espelha a tradição de subsunção do tema agrário à tese operário-cam-
ponesa, por outro, reafirmada esta última enquanto ideologia, irre-
nunciável, aquele mesmo movimento que avançava evocando a supe-
rioridade da classe operária, simultaneamente, exigia a “verdadeira
política comunista” de privilegiamento do aliado camponês e abafava
os arroubos dos dissidentes de 1956/1957 que pediam revisão daquele
cânone para ampliar a política para muito além do pólo popular. Prag-
mático, trabalhando uma teoria “possível”, o núcleo dirigente comu-
nista sobrevivente à crise do estalinismo encontraria a “solução” que
poderíamos chamar de politização da questão agrária, ou seja, de cer-
to modo à Lenin, inscrevê-la na lógica de uma formação social sob
impacto de um capitalismo nacional em expansão. Diversamente do
marxismo estagnacionista, agora no novo enfoque, ao modo nacional-
desenvolvimentista, tinha centralidade a noção dos “obstáculos estru-
turais”, ressignificados, porém, à Mao Tsé-Tung, como “contradições
fundamentais” – o industrialismo opondo a nacionalidade ao imperia-
lismo, chocando-se com o atraso rural e o monópolio da terra – dina-
mizando a sociedade civil e a vida política nacional no sentido da de-
mocratização. Quem sabe é esse novíssimo processo de democratização
que põe novamente “em circulação” entre os comunistas dois opúscu-
los leninianos bem emblemáticos: Duas táticas da social-democracia
russa pelo seu famoso etapismo revolucionário e O programa agrário
da social-democracia russa (sem a mesma perspicácia de leitura) com
o tema da evolução agrária, então citados na publicística.11
Um artigo dessa época de Alberto Passos Guimarães pode dar
pistas de como teria surgido o “novo pensamento agrário” no PCB. Desde
logo não estranha a insistência numa questão camponesa ao modo
clássico e que nele circule a noção de “restos feudais e semifeudais”,
mas este parece não ser o ponto mais afim com os tempos de virada
política. É possível acompanhar uma certa argumentação com a qual
Passos Guimarães procura esvaziar de significado político o velho
agrarismo avesso ao Brasil mais moderno do segundo Vargas e JK. O
autor de Quatro séculos de latifúndio, digamos assim, introduz na dis-
cussão agrária a “grande política” e parece decidido a pôr em dúvida

11 Em vários textos do V Congresso aparecem menções a O programa agrário da social-democracia


russa, algumas delas até mesmo se referindo às duas vias de transformação agrária previstas por
Lenin – revolucionária e de adaptações reformistas – sem contudo projetar no modelo de revolu-
ção burguesa e no próprio tema da revolução maiores conseqüências analíticas.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 105


a subsunção do problema camponês a uma mera oposição a restos
feudais num país condenado à estagnação, como na tradição da IC. Ao
defender, em sua descrição das tarefas da revolução brasileira, “três
frentes da luta de classes” no campo, e não apenas duas (vale dizer, a
dos camponeses contra o latifúndio feudal e a dos assalariados e semi-
assalariados contra o patronato “capitalista”, assim com reticência...),
Alberto Passos Guimarães procura equacionar a mobilização agrária
com base na dimensão amplificante da estratégia de frente única (Pas-
sos Guimarães, 1960; Santos, 1996b). Isto é, estaria conferindo estatu-
to diverso à questão agrária de modo que ela já não podia mais ser
vista como uma questão per se diretamente interpelável por um ente
voluntarista externo (classe operária, partido comunista). Ao contrário,
ali já se percebia que a questão agrária requeria encaminhamento de-
pendente de uma articulação de alianças bem mais amplas, vale
dizer, do conjunto da vida política nacional. Essa seria a conexão que
aquele autor tenta fazer entre os conflitos agrários e a “primeira frente
de luta” de oposição aos monopólios internacionais; isto é, sua inscri-
ção como tema da mobilização pluriclassista em expansão, de nature-
za bem diversa da conotação do agrarismo instrumental do Manifesto
de Agosto de 1950.
Sem concessão ao agrarismo sindical de Caio Prado Jr. (conside-
rado na geografia pecebista avançado demais) à esquerda, e resistin-
do à revisão do princípio da hegemonia operária à direita, como que-
riam os revisionistas remanescentes de 1956/1957, Alberto Passos
Guimarães estaria propondo um outro processo universalizante – su-
plementar à dialética de socialização política da aliança operário-cam-
ponesa –, do mesmo modo que nesta última, também a se construir
tendo como base a política, como solução do problema “da fraqueza
e isolamento do movimento camponês” em relação à pujança da ar-
ticulação nacionalista.12 É como se, além da universalidade, inerente
à classe operária, e que pelas mãos do partido já devia orientar a
práxis agrária comunista, ainda se reforçava o processo de
conscientização dos camponeses mediante o aprendizado adicional
que eles poderiam obter no exercício da política geral de frente única,

12 Durante os debates de 1956/1957, Agildo Barata já mostrara esse descompasso como um dado
a sugerir que o “processo revolucionário” da época devia ser compreendido como uma fase
inicial de acumulação de forças, o que implicava, por sua vez, dar maior atenção ao problema da
formação de uma ampla frente única. Ainda segundo ele, só o surgimento de um governo nacio-
nalista e democrático, que introduzisse democratismo na vida política, poderia criar condições
para uma mobilização da população em grande escala (Barata, 1957).

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como no Que fazer? (Lenin, 1975). O seguinte tipo de formulação
política, que tanto desgostara Caio Prado Jr., pode ter sido resultado
dessa construção: “A frente da luta de classes dos assalariados e semi-
assalariados (que muito freqüentemente aliam à condição de assala-
riados a condição de camponeses) terá uma especial preponderância
sobre as demais. Por intermédio dessa frente será possível montar as
correias de transmissão que irão ligar o proletariado e o movimento
democrático das cidades aos camponeses e ao movimento democrá-
tico do campo” (Passos Guimarães, 1960; Santos, 1996b). Tal elabo-
ração se refletirá diretamente no Projeto das Teses para discussão do
V Congresso: “Em virtude de sua condição social de proletários ou
semiproletários, como também de seu grau de concentração, os as-
salariados rurais são mais suscetíveis de organizarem-se em sindica-
tos, que podem constituir as bases iniciais para a mobilização das
massas camponesas” (idem).
De qualquer modo, com esse tipo de argumento, na Declaração de
Março de 1958, nas Teses para a discussão do V Congresso do PCB
(1960) e em Alberto Passos Guimarães, começava-se a redimensionar o
problema agrário à revelia da própria tradição segundo a qual os cam-
poneses constituíam ex-ante a “questão central da revolução”, como
em algumas áreas do partido ainda se insistia (Santos, 1996b). Em lu-
gar de continuar preso à ortodoxia, o PCB abria uma trilha que aponta-
va para uma compreensão daqueles grupos agrários mais como uma
dentre as classes emergentes na cena política – burguesia nacional,
proletariado, classes médias urbanas (estas, aliás, muito realçadas por
Nelson Werneck Sodré, depois valorizadas pelo PCB como “aliado fun-
damental” tal como os camponeses), assalariados, semi-assalariados e
camponeses – atores sociopolíticos-chave da construção da frente úni-
ca.13 Daí a resistência da ortodoxia dentro do PCB (levando o V Con-

13 Aliás, sem participar diretamente da controvérsia (no seu livro de 1962 apenas registra numa
nota a discordância de Caio Prado Jr. com a tese da feudalidade), Nelson Werneck Sodré apre-
senta uma pequena dissertação sobre o que ele chama de fenômeno da “regressão feudal” de
vastas áreas escravistas para um regime de servidão e semi-servidão. Eis o argumento: dada a
inexistência de uma estrutura econômica adequada e a disponibilidade de terras, à hora da
constituição do mercado de trabalho livre, aquele fenômeno regressivo consistira numa “inva-
são formigueira” de milhares e milhares de pequenos produtores e pequenos criadores que
estabeleceram suas roças nos grandes vazios. Além disso, esses “camponeses” carregaram
todas as conseqüências culturais da longa vigência do escravismo, configurando um “quadro
inequivocadamente feudal”, como ele diz, quando se apóia em Mariátegui; ou um mundo cons-
tituído “ao modo prussiano” (sic), quando se refere a Lenin de O programa agrário da social-
democracia russa (Sodré, 1962; Santos, 1996b).

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gresso de 1960 à polarização, embora os partidários da Declaração de
Março tenham dele saído vitoriosos), recusando o deslocamento do eixo
das alianças do núcleo operário-camponês para participantes efetivos
na cena pública – na terminologia comunista, frente única da burgue-
sia nacional com o proletariado e outros setores nacionalistas. Os de-
fensores dos princípios comunistas no PCB temiam aquele movimento
de transferência do cumprimento programático das mãos de uma for-
mação de molde revolucionário (a FDLN) para o gradualismo dos gover-
nos pluriclassistas (Santos, 1991).
Nossa proposição é a de que, desde o “desenvolvimentismo” da
Declaração de Março, o PCB começava a se afastar da influência da
tradição “orientalista”14 e deixava de lado a sua derivação: a política
de curto prazo, inclusive alimentada pela sobrevalorização das lutas
camponesas (fragmentadas e “subversivistas”, como diria Gramsci),
ainda ressoando na memória comunista. Na nova percepção, teria ha-
vido uma espécie de ressignificação parcial do sentido da questão cam-
ponesa que, de problema nacional-camponês, como na “teoria” da ali-
ança operário-camponesa, passou a ser redefinida a partir do parâmetro
de uma questão nacional-antiimperialista em um país em franco pro-
cesso de modernização. A questão nacional aqui era vista como indus-
trialização e desenvolvimento (na Declaração de Março; nas Teses e
na Resolução do V Congresso de 1960; e depois em Nelson Werneck
Sodré). É com esse tipo de percepção que o PCB do pós-1954 vai reco-
nhecer, contra o próprio terceiro-mundismo, o alto poder mobilizatório
do nacionalismo em contraste com a debilidade e o isolamento das lu-
tas camponesas do início dos anos 50. Pela via da intuição, a nova práxis
agrária consistiria em estimular uma mobilização dos camponeses que
importava, desde logo, em acesso à cidadania e ganhos reais (através
das chamadas “medidas parciais de reforma agrária”), avanços só ga-
rantidos à medida que um (ou sucessivos) governo(s) “nacional(ais) e
democrático(s)” afirmasse(m) programas de reformas estruturais. Por
certo tal processo reformador ainda se encontrava indefinido, no dis-
curso comunista, em muitos pontos, mas se pode dizer que o PCB da
época já não tinha dúvida de que o mesmo significava, quanto menos,
uma etapa da revolução brasileira, etapa de desenvolvimento indus-

14 Referimo-nos aqui ao ensaio de Luiz Werneck Vianna (1988a) “Vantagens do moderno, vanta-
gens do atraso”. E ainda Questão nacional e democracia: o Ocidente incompleto do PCB (1988b)
em que este autor faz uma leitura da trajetória comunista contemporânea sob a chave Oriente/
Ocidente.

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trial com democracia política, processo a se constituir no plano da po-
lítica por meio de mediações, descontinuidades e gradualismo, sem a
subversão da ordem social.15
Vejamos agora, minimamente que seja, como esse mundo inte-
lectual intramuros “se socializa” nas discussões polarizadas entre Julião
e os “sindicatos comunistas”. Dois “eventos” – o Congresso de Belo
Horizonte de 1961, onde, contra a vontade do PCB, triunfara a tese da
“reforma agrária radical” (Santos & Carvalho Costa, 1997) e a polê-
mica de Giocondo Dias com o líder das Ligas Camponesas em 1962
– poderiam ser habilitados como lugares de exposição das duas prin-
cipais ideologizações dos camponeses de maior apelo em vastas áreas
da militância sociopolítica da mobilização agrária daqueles anos.
Enquanto os comunistas procuravam afirmar a política de frente
única, anteriormente definida a partir do tema da democracia política,
abandonando a velha política de “derrubada do governo”, à qual uma
ideologização do camponês como ator privilegiado inegavelmente ser-
via, noutra ponta, a saga cubana, aqui também lida como modelo,
começou a influenciar as Ligas Camponesas, empurrando-as no início
dos anos 60 para uma direção diversa da primeira época de movi-
mento social conduzido pelo advogado trabalhista Francisco Julião.16
Projetado à cena pública nacional, Julião passou a ser requerido
de um discurso também nacional. Luiz Flávio de Carvalho Costa reú-
ne, de diferentes fontes, algumas passagens bem sugestivas. Na ci-
tação que faz de Fernando Azevedo (1982), Julião aparece dizendo:
“Logo cedo eu me convenci de que o caminho de libertação do
campesinato deve ser aberto pelos arrendatários e colonos, os únicos
que têm condições de lutar pela fixação à terra. Por isso, ao invés de
cuidar da sindicalização rural que não existe, praticamente, ainda, no

15 Esse tema da impossibilidade de 1917 nunca aparece problematizado por completo, embora às
vezes fique bem sugerido nas “construções teóricas” que permeiam vários documentos pecebistas,
como desenvolvimento econômico, tendência permanente à democratização, gradualismo e
democracia política, sucessão de governos reformistas, via pacífica, soluções positivas etc., a
esboçar o que poderia ser uma espécie de “via política ao socialismo”, como no caso dos comu-
nistas italianos.
16 Fragmon Borges registra à época essa mudança: “A partir de 1960, principalmente em conse-
qüência de uma avaliação falsa do nível de consciência das massas camponesas e da sua orga-
nização e de apreciação incorreta da experiência da Revolução Cubana, o deputado Francisco
Julião passou a adotar posições que o levariam, num processo, a se isolar do movimento campo-
nês e a perder a sua liderança efetiva”. Fragmon Borges considerava decisiva a contribuição de
Julião mas lamentava que ele tivesse se desligado “materialmente das origens e bases de sua
liderança”. Sua avaliação das Ligas era a de que elas constituíam um movimento bastante
incipiente (Borges, 1962; Santos, 1996b).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 109


Brasil, entendo que se devem criar associações de foreiros e colonos,
com a configuração das Ligas Camponesas de Pernambuco” (Carva-
lho Costa, 1996). Ou então: “Quando a luta se inicia no campo ela
toma, imediatamente, caráter político, o que não ocorre com a classe
operária, cuja dinâmica é o aumento de salário. O campesinato de-
satará o processo revolucionário brasileiro e conseguirá influir para
que a classe operária se associe à luta ... Os sindicatos rurais e outras
associações não têm as mesmas condições, porque, enquanto nosso
objetivo é político, eles lutam por reivindicações nos setores onde a
classe operária é reduzida” (Julião, 1962b; Carvalho Costa, 1994). Logo
após o congresso de Belo Horizonte, Julião afirmara que “o capitalis-
mo não tem mais nada a oferecer ao povo. A luta pela reforma agrária
deve orientar-se no sentido da implantação de métodos coletivos de
trabalho” (Julião, 1962a; Carvalho Costa, 1994). Julião negava o
gradualismo político do PCB, acreditando que, num país subdesenvol-
vido como o Brasil, seria possível queimar etapas e caminhar de modo
mais rápido para o socialismo (Carvalho Costa, 1996). Distante da
“teorização” pecebista (afinal, afinada com a articulação de centro-
esquerda à volta de Jango), o discurso de Julião iria alimentar um
imaginário alternativo que trazia da experiência cubana a imagem de
um processo político “do campo para a cidade” liderado por um agru-
pamento suficientemente preparado para interpelar os camponeses a
partir da emergência de uma formação sociopolítica de outro tipo,
propensa a se marginalizar da institucionalidade.
Mas essa versão das intenções de Julião ainda precisaria ser qua-
lificada. Quem sabe, uma incursão na trajetória do líder das Ligas
Camponesas releve melhor o sentido das mudanças do começo dos
anos 60 e esclareça até que ponto os seus motivos teriam decorrido
diretamente das tensões daquele pré-1964, induzindo-o a superestimar
o campesinato mobilizado nas Ligas como um ator de elevado poten-
cial político. A idéia de “mudança de rumo” apontada por Fragmon
Borges faria sentido com a biografia de Julião do final da década de
1940 e início dos anos 50, quando o advogado camponês teria exer-
cido à época (ainda não podemos confirmar de todo esse registro feito
por veteranos militantes com fontes documentais) um papel mode-
rador diante do campesinismo radicalizado do próprio PCB.17 O pró-

17 Uma pista para averiguar o ponto seria consultar o jornal comunista pernambucano Folha do
Povo, depois substituído por A Hora. Ademais, seria interessantíssimo encontrar e confrontar a
conjectura com o folheto de Julião Cartilha do camponês (redigido um pouco antes desse mo-
mento e publicado em 1959) e também com o seu romance Irmão Joazeiro, escrito “de uma só

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prio Julião, trinta anos depois, vê em perspectiva a mobilização das
Ligas Camponesas como um processo cuja vocação era a de dar pas-
sagem aos camponeses, “sem ultrapassar as fronteiras da democra-
cia. Daí nossa insistência em consumar a reforma agrária radical sem
quebra da legalidade, consubstanciada na Carta Magna então vigen-
te” (Julião, 1994; Carvalho Costa, 1994, p.24).18
Nesse mesmo ano de 1962, o PCB responde a Julião. Bem ao estilo
da tradição, o artigo oficial de Giocondo Dias (1962) Francisco Julião,
os comunistas e a revolução brasileira, escrito para pôr os pingos nos
is, inclusive deter a influência de Julião no próprio partido (Dias, 1979;
apud Carvalho Costa, 1996) mobiliza um argumento generalista para
avaliar o agrarismo do líder camponês. A conseqüência política maior
de suas teses seria a substituição dos objetivos da fase revolucionária
– antiimperialismo, eliminação do latifúndio – pela idéia de confronto
com a burguesia como classe, que Giocondo Dias enxergava no dis-
curso de Julião, o que enfraqueceria a política de frente única, levan-
do o campo democrático ao isolamento. Nas suas palavras: “1) Estreita-
ríamos o campo revolucionário, submetendo-o a uma radicalização
artificial e simultaneamente alargaríamos o campo inimigo; 2) Impo-
ríamos à revolução brasileira tarefas que não se acham ainda sufi-
cientemente maduras e que, portanto, estão acima de suas forças no
momento, como a imediata socialização de todos os meios de produ-
ção fundamentais; 3) Teríamos de concentrar o fogo num alvo que
não é, atualmente, o principal, deixando, portanto, de convergir o ata-
que contra aqueles inimigos que são, de fato, os mais importantes”
(Dias, 1962; Santos, 1996b). Desse ponto de vista, Giocondo Dias
passava a ver os efeitos imediatos da “concepção” de Julião: a lógica
do seu agrarismo estimularia três subestimações “de caráter esquer-
dista”, segundo o dirigente comunista, conduzentes à radicalização e
ao esvaziamento político das Ligas Camponesas. Primeiro, porque ela
levava a minimizar a organização e o legalismo camponês que nos
primeiros tempos da mobilização agrária Julião sempre estimava decisi-

pancada”, como se soube na época, como narrativa dramática da luta de um grupo de eiteiros
contra o latifúndio (Julião, 1960).
18 Isto está escrito num texto de 1994, no qual Julião procura retirar do termo “radical” do lema da
reforma agrária o que ele reclama ser uma distorção atributiva de sectarismo, conferindo-lhe o
sentido histórico radicalmente antilatifundiário. Não deixa, porém, de registrar: “Houve, não
podemos negar, passos mais acelerados na marcha pela consumação de uma reforma agrária
radical, mas nunca deixamos de assumir essa responsabilidade convencidos de que a história
não é obra somente dos acertos, senão também dos erros cometidos por um povo no seu afã de
conquistar mais liberdade e independência” (Julião, 1994).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 111


vo. Depois, porque tal orientação subordinava a solução das peque-
nas demandas (melhores condições de arrendamento e melhores con-
tratos de parceria, aumento de salários etc.) à realização prévia da
reforma agrária radical. Aliás, com esse programa maximalista, Julião
tendia a abandonar a tática da articulação das reivindicações parciais
com a mobilização mais ampla pela reforma agrária a ser decidida no
plano nacional (dizia Dias, enfraquecendo ainda mais o legalismo das
Ligas Camponesas, em boa medida o responsável pela rapidez com
que elas alcançavam consideráveis grupos sociais).
Percebido o nosso mundo rural menos como um mundo de com-
pleta feudalidade, sob invasão de um capitalismo desintegrador das
suas virtualidades autárquicas, aqui se propunha a questão agrária como
tema da incorporação dos camponeses à modernização nacional, em
lugar de uma “regeneração” social, como na ponta populista do de-
bate russo do tempo de Lenin. Do nacional-desenvolvimentismo ao PCB,
aqui a nova identidade nacional chamava-se desenvolvimento. E essa
incorporação será vista ora como processo de integração ao mercado
monetário para reforçar o impulso industrialista (Cepal, Iseb etc.), ora
como incorporação ao mercado interno como processo de extensão da
cidadania, questão complexa e de resolução dependente de uma pro-
gressiva configuração de governo(s) que praticasse(m) uma política
melhorista, como verbalizava o PCB.
Contudo, a política pecebista de mobilização camponesa com base
numa operação junto a um ator moderno não se revestia da consistên-
cia moderno-sindical pressuposta na dissertação caiopradiana. Aquele
relançamento (ideológico e/ou político) do “fim último camponês” (re-
alçado nas diferentes passagens da Resolução do V Congresso) mos-
trava que, mal resolvido o agrarismo camponês, o realismo tático da-
quela política comunista não deixava claro se, naquele discurso, era o
grupo moderno quem abria passagem para os “camponeses”, ou se
seriam estes quem, em última instância, ainda haveriam de protagonizar
uma revolução/reforma agrária de tipo camponês. Ou seja, quando o
mundo real limitava a sua preferência “modernista” de sindicalismo, o
partido era compelido a disputar e ter de envolver-se com a camada
social em que se conformava o cenário camponês.19 Sem a dissertação

19 Luiz Flávio de Carvalho Costa (1996) mostra que há indícios sugerindo que os comunistas se
enraizaram, muito mais do que se pensa, entre os não-assalariados. A razão disso estaria no fato de
que a proletarização, já avançada no pré-1964, ainda não tinha repercutido fortemente no compor-
tamento político-organizacional de alguns atores sociais. A tensão era muito maior nos grupos
envolvidos na questão da terra (idem), sendo possível supor que os arrendatários e os posseiros

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de Caio Prado Jr., um partido já por excelência empirista e pragmático
“não tinha” como não terminar submetendo-se às pressões dos seus
setores “orientalistas”, às vezes lhes dando combate, noutras com eles
conciliando, especialmente quando estes últimos denunciavam o
revisionismo de direita (negação do princípio da aliança operário-cam-
ponesa como hegemonia), e lhe cobravam autodefinição revolucioná-
ria, debilitando a centralidade da frente única na conduta do partido
em relação ao processo político em curso.
Como está avaliado nos seus próprios documentos (Nogueira,
1980), às vésperas da derrota do governo Goulart, o PCB iria oscilar
entre cumprir um papel de “esquerda positiva” para garantir “frente
ampla” à continuidade do reformismo goulartiano, como pedia San-
tiago Dantas (Cf. Marçal Brandão, 1995); ou se deixar paralisar pelos
resíduos da sua antiga cultura política de revolução. Até mesmo a
Declaração do Comitê Central de dezembro de 1962 (PCB, 1962) tes-
temunha a dúvida então introduzida no gradualismo da política das
“soluções positivas” e de reformas parciais e abre a porta para o
chamado combate à “conciliação de direita” de Jango, acenando com
a idéia da formação de um outro governo mais disposto a acelerar o
tempo das reformas de base. O texto O povo exige reformas de base
(PCB, 1963) também mostra como a direção partidária ainda procurava
conciliar a orientação gradualística do pecebismo contemporâneo com
a priorização radicalizante dos temas substantivos e das soluções de
curto prazo, como revela José Antonio Segatto, ao fazer um balanço
dessa tendência em alguns dirigentes comunistas, inclusive de iden-
tificação com a tese da reforma agrária radical (Segatto, 1995). Esses
matizes na práxis política indicavam a sombra da antiga mentalidade
comunista sobre a clarividência de certas áreas desse partido que,
como Santiago Dantas, reclamavam realismo e prudência diante da
marcha da conspiração golpista. A rigor, o PCB se debatia entre o
experimento de renovação democrática da sociedade, ainda muito frágil
no conjunto partidário, e a cultura política da própria tradição tercei-
ro-internacionalista.
E Caio Prado Jr.? Às vésperas de 1964, em um artigo publicado
no último número da Revista Brasiliense, ele volta a se queixar das

configurassem um cenário camponês posto à frente dos atores públicos (Santos & Carvalho Costa,
1997). Como ponto alusivo a uma tendência, quem sabe, mais relevante, poder-se-ia lembrar que
alguns sindicatos criados em estados de capitalismo agrário sumamente débil às vezes recebiam
dos prórpios “camponeses” o nome de “Ligas Camponesas”, aqui registrado o caso do Piauí
entre 1962 e 1963 em Rascunho memorialista (Santos, 1967).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 113


correntes de esquerda (não só do PCB)20 por elas continuarem insis-
tindo quase unicamente no aspecto da reforma agrária da divisão de
terras (“reforma agrária radical”, “terra para quem nela trabalha”), com
grande prejuízo da tarefa principal – impulsionar a grande força
potencial de “renovação da economia agrária”. O historiador paulista
apóia a sua interpelação no exemplo dos trabalhadores canavieiros de
Pernambuco que haviam lutado durante o ano de 1963 pelo cumpri-
mento da legislação rural-trabalhista e desenvolvido uma mobilização
que rapidamente se espalhou, contou com apoio do governo Arraes
e obteve ganhos salariais expressivos, de resto, provocando efeitos
dinamizadores na economia da região de Palmares. Em vez de incli-
nar-se à radicalização das Ligas Camponesas, Caio Prado Jr. via a
luta pela terra restrita a regiões excepcionais, como era o caso de
posseiros das zonas pioneiras (Oeste do Paraná, Goiás...) e dos foreiros
de algumas zonas de importância secundária do Nordeste, enquanto
na principal frente de luta, a dos trabalhadores rurais da zona canavieira
do Nordeste, dos cafezais de São Paulo e Paraná, da zona cacaueira
da Bahia etc., isto é, como diz ele, “na generalidade do país”, a questão
agrária marchava muito lentamente (Prado Jr., 1964). O “apressamento
da transformação e da renovação da economia agrária” – nisto con-
sistia a reforma de estrutura pregada por Caio Prado Jr. – tinha sua
chave de compreensão e solução no exemplo de Pernambuco, mas
para isso ele considerava inadiável a mudança na mentalidade das
esquerdas de privilegiamento da luta pela terra, sob pena de perma-
necerem na “estéril agitação por objetivos, no mais das vezes, na
situação atual e no momento que atravessamos, muito além e mesmo
inteiramente fora do realizável”.
Após 1964, Caio Prado Jr. irá servir de argumento contra o
gradualismo pecebista e o dualismo do paradigma que lhe servira de
base, sendo usado por alguns grupos de dentro e de fora do PCB que
se radicalizaram.21 O PCB, após várias divisões, não só não radicalizaria
o seu agrarismo camponês, residual mas ainda latente, como no pós-
1964 os “cochilos” intermitentes de valorização do assalariamento e

20 Caio Prado Jr. dirige a sua crítica tanto ao documento “Sugestões iniciais para um programa de
governo que faça as reformas de base”, enviado a Santiago Dantas em 19.1.1964, pela Frente de
mobilização Popular, CGT, UNE, Ubes, Liga Feminina e AP, quanto ao texto do PCB “Posição
dos comunistas”, publicado em Novos Rumos de 20 a 30 de janeiro de 1964 (Prado Jr., 1964).
21 Carlos Nelson Coutinho observa que a argumentação do historiador paulista não só tem outras
raízes, como a aproximação com os setores radicalizados foi meramente ocasional (Coutinho,
1990)

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do sindicato serão mais freqüentes (ver textos do VI Congresso, de 1967
e outros, in Nogueira, 1980). À margem da antiga controvérsia, em
meados dos anos 70, uma reflexão de parte da intelectualidade
pecebista produziria uma releitura não-clássica da formação social, lan-
çando um outro olhar sobre o papel das classes agrárias na constitui-
ção do capitalismo brasileiro (Ribeiro, 1988; especialmente Vianna,
1976).
Chama a atenção nos textos dessa (e quiçá última importante)
vertente intelectual comunista a interlocução com a bibliografia
dedicada à modernização das sociedades agrárias, especialmente Lenin,
Gerschenkron, Lukács, Gramsci e Barrington Moore, cujas presenças
constituem uma constante em vários dos autores conhecidos na pas-
sagem dos anos 70 para a década de 1980 como “eurocomunistas”
brasileiros (Santos, 1996a). São fortes os indícios de que tal influência
os induziu a ver no tema do prussianismo – revoluções “pelo alto”,
especialmente a dissertação gramsciana sobre o Rissorgimento – um
novo paradigma explicativo da formação social brasileira, tornando-o
depois chave para revalorizar a mobilização pela democracia política
do pós-1964 como uma estratégia de reversão do elitismo da vida po-
lítica brasileira; possibilidade vista cada vez mais como uma “verda-
deira revolução” (Vianna, 1981).
Parte do resgate do gradualismo da política de frente democrática
como estratégia de “democratização progressiva” da sociedade, a
ensaística de Ivan Ribeiro constitui um marco importante. Esse autor
percebia que, com a evolução da agricultura no pós-1964 em direção
oposta à previsão (estagnacionista) nacional-desenvolvimentista, fazia-
se necessário um novo equacionamento da questão agrária. Era pre-
ciso reconhecer que, de um lado, o latifúndio não só não impedira o
fortalecimento do capitalismo, como tampouco aguçara as suas con-
tradições com as frações industrial e comercial da burguesia e que, de
outro, pela modernização acelerada, a agricultura já deixara de ser o
locus dos setores mais atrasados da economia (Ribeiro, 1988). Ribeiro
se voltava para o tema (caiopradiano) do capitalismo agrário sob a égide
da grande propriedade, olhando, porém, para um conjunto de transfor-
mações agrárias ao modo prussiano que progressivamente adaptavam
a agricultura, substituindo gradualmente os procedimentos “feudais”
por procedimentos burgueses. Nesse tipo de formação social, em que
“misérias modernas” coexistiam com “misérias antigas”, a reforma
agrária manteria o seu papel de liquidação dos anacronismos, sem isso
significar – aqui se distanciava da noção de “obstáculo estrutural” –
que a sua não-realização interditasse o industrialismo, como se acre-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 115


ditou até bem entrados os anos 60. Se não se devia subestimar a im-
portância econômica de uma nova área reformada a cumprir a dupla
função de ampliar o setor de pequenas e médias propriedades (pro-
duzir bens alimentícios, absorver mão-de-obra), tampouco se devia cair
no exagero do pré-1964 que colocara a reforma agrária como premissa
do desenvolvimento capitalista nacional (Ribeiro, 1988).
Daí a reforma agrária não poder se limitar a um processo de tipo
camponês (“a terra para quem nela trabalha”). Não se justificaria a cria-
ção de uma economia camponesa no setor moderno da agricultura,
onde se deveriam ampliar a luta por melhores condições de trabalho,
aplicar a legislação trabalhista e aumentar o associativismo, como in-
sistia Caio Prado Jr. O que não implicava, prossegue Ribeiro, menos-
prezo à economia familiar camponesa, uma vez que, por não ser ainda
capitalista, uma reforma agrária à americana poderia lhe trazer gran-
des benefícios e representar um progresso considerável (Ribeiro, 1983).
Ultrapassando a ambigüidade do conceito de democracia como incor-
poração econômico-social dos camponeses, o propósito de Ribeiro era
deslocar a problemática da reforma agrária do “estrutural” para o âm-
bito do “institucional”, como esclarece depois, para um novo modo de
pensar politicamente a questão agrária, “com o objetivo de tornar pos-
sível aos camponeses e trabalhadores rurais entrar no jogo político en-
quanto força de classe e com individualidade”, isto é, levá-los para
dentro do sistema político (Ribeiro, 1983).
Como Hobsbawm, Ivan Ribeiro se mantém atento ao processo de
“modernização excludente” que levava a uma diferenciação “para
baixo”, com a dissolução das pequenas propriedades e a transforma-
ção dos camponeses em trabalhadores volantes e assalariados nos
pequenos centros urbanos regionais, num contexto de fragmentação
social, processo já bem descrito. Percebia também que se os campo-
neses perdiam a sua definição econômico-revolucionária, “eles” ad-
quiriam nos (ou em interação com) grupos sucedâneos um prota-
gonismo de novo tipo, gerando processos políticos outros, convergentes
até com a penetração da mídia no campo, o que acelerava ainda mais
a erosão da ordem de mando oligárquica da nossa sociedade agrária
(Ribeiro, 1983). Interrompido com a morte do ensaísta em 1987, este
argumento já apontava para um trânsito da confirmação pessimista
do “destino histórico” dos camponeses, como vaticinara Marx, à re-
tomada de uma idéia inspirada na vocação emancipatória do melhor
da tradição marxista – a idéia de que o mundo rural não tem por que
não se conciliar, como as cidades, com a democracia e com a
modernidade.

116 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998


SANTOS, R. The Brazilian agrarian question according to Caio Prado Jr. Pers-
pectivas (São Paulo), v.20/21, p.95-119, 1997/1998.

■ ABSTRACT: The article describes both the debates within the Brazilian
Communist Party and between the Communist Party and Francisco Julião
in the 60’s seen as the most important political discussion on the Brazilian
agrarian problem. The author uses Caio Prado’s arguments against the feu-
dal theory of the Communist Party as a way to describe two kinds of agrarism:
the agrarian trade-unionism blended with peasant unionism of the
communists and Julião’s peasant agrarism. Through out the text explores
the question: what type of agrarian reform? Only farmer or farmer combined
with a renovation process of the capitalist agrarian economy?

■ KEYWORDS: Agrarism; Brazilian communism; “Ligas Camponesas”; Caio Pra-


do Jr.; agrarian reform.

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Perspectivas, São Paulo, 20/21: 95-119, 1997/1998 119


HOMENS E MULHERES NOS ASSENTAMENTOS:
VIOLÊNCIA, RECUSA E RESISTÊNCIA NA
CONSTRUÇÃO DE UM NOVO MODO DE VIDA

Vera Lúcia Silveira Botta FERRANTE1


Luís Antonio BARONE2

■ RESUMO: O artigo trata da construção da experiência de assentamentos ru-


rais no bojo dos conflitos entre as imposições do projeto estatal e a tenta-
tiva de construção de um novo modo de vida por parte dos trabalhadores
assentados. Essas tensões explicitam e dissimulam violências, presentes
também no cotidiano dos assentados, em suas relações de gênero, paren-
tesco e produção. Verificam-se, sempre tendo como base a perspectiva das
mulheres, episódios de recusa e resistência ao que lhes é imposto.

■ PALAVRAS-CHAVE: Assentamentos rurais; relações de gênero; sociabili-


dade rural; movimentos sociais no campo; modo de vida.

Introdução: contextualizar é preciso

O tema será discutido com base na análise de experiências con-


cretas de assentamentos rurais, confrontando a política estatal traça-
da para tais projetos e o que vem sendo efetivamente a participação/
exclusão das mulheres na constituição desse novo modo de vida que
tem, ainda, desafiado previsibilidades e estilhaçado categorias teóricas.
Parte-se do princípio de que os assentamentos, processos sociais com-
plexos (Ferrante, 1995a,b), apresentam à análise, em seus diferentes

1 Departamento de Sociologia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – 14800-901 – Araraquara


– SP.
2 Departamento de Ciência e Tecnologia – Faculdade de Ciências e Tecnologia – UNESP – 19060-900 –
Presidente Prudente – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 121


momentos constitutivos, elementos para a problematização dos espaços
femininos e masculinos no interior do modelo estatal de reforma agrá-
ria e nas experiências concretas dos assentamentos, nas quais detec-
ta-se a produção de inúmeras formas de violência, e uma delas, a vio-
lência de gênero, será preocupação central neste trabalho.
Contrapondo-se às idealizações estatais, nas quais configura-se
um determinado tipo ideal de assentado e de assentamento, a rede
das relações constitutivas desse novo modo de vida apresenta um grau
de complexidade que escapa ao “olhar” institucional dos agentes bu-
rocráticos. Observa-se a imposição, em face das mulheres, de uma or-
ganização social de gênero cotidianamente alimentada e geradora de
exclusões. Tal ordem, no entanto, comporta estratégias de recusa por
parte desse segmento social. A mulher, assim como o homem assen-
tado, busca se firmar num terreno movediço de regras desconhecidas
e violências dissimuladas. Pesa sobre ela, além disso, a violência às
vezes explícita do patriarcalismo.
Como material empírico, analisam-se os assentamentos formados
em sua maioria por ex-bóias-frias localizados no decantado paraíso da
modernização da agricultura paulista. Nos seis núcleos de assentamen-
tos analisados na região – cinco da Fazenda Monte Alegre e um da
Fazenda Bela Vista do Chibarro (nos municípios de Araraquara, Matão
e Motuca) –, cerca de 370 famílias encontram-se assentadas. Desse
total, 344 encontram-se em situação regularizada de acordo com as
normas fixadas, das quais 48 são titulares mulheres; 23 estão em con-
dição irregular, por terem entrado na terra sem seleção ou cometido
outra transgressão (má utilização do lote, arrendamento para agricul-
tores de fora do projeto, invasão de reserva natural).
Nos núcleos da Fazenda Monte Alegre, as mulheres assentadas
(titulares) representam 11% e, na Bela Vista, 15%. Esses números se
apresentam dentro da média, se compararmos o percentual da distri-
buição dos beneficiários segundo o sexo, no I Censo da Reforma Agrá-
ria do Brasil (1996). Nele, por exemplo, o percentual de presença femi-
nina na titularidade do lote chega a 13,26% nos assentamentos do
Estado de São Paulo, tendo uma pequena variação para baixo (12,62%)
no conjunto do país (Censo, 1996, cf. Tabela 1.7 dos anexos). Ressal-
vamos que o Censo realizado pelo Incra e pela Universidade de Brasília
só cobriu os assentamentos realizados pelo governo federal, embora
não pareça que haja grande variação se tomarmos a realidade das
experiências de assentamentos regionais – sobretudo em São Paulo.
Segundo dados do Censo de Assentamentos Rurais do Estado de
São Paulo (Ferrante & Bergamasco, 1995), 66,5% dos assentados nes-

122 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


ses núcleos vieram da condição de assalariados rurais (bóias-frias das
lavouras de cana e laranja). Entre os vários núcleos, a maior freqüên-
cia de ex-bóias-frias ocorre nos núcleos IV e III da Fazenda Monte
Alegre, onde 90% e 83% dos agricultores assentados, respectivamen-
te, foram assalariados rurais; a seguir, encontra-se o núcleo I do mes-
mo assentamento, com 71% de freqüência e o núcleo II, este com 65%
de ex-assalariados rurais. No projeto Bela Vista do Chibarro, 50% dos
assentados vieram do assalariamento rural (p.32). Nesse último pro-
jeto, a participação de trabalhadores com passado de agricultor é bem
maior, dado que se explica pelo fato de a Bela Vista ter recebido vá-
rios grupos de trabalhadores oriundos de outras regiões do Estado de
São Paulo – onde a proletarização não é tão intensa – e até de outros
estados, como Minas Gerais e Paraná.
A forma de organização e a maneira de encaminhar o processo
que os levou até a condição de assentados varia desde um processo de
seleção realizado pela Secretaria Especial de Assuntos Fundiários ( SEAF),
seu sucedâneo, o Departamento de Assentamento Fundiário (DAF ) e o
Incra, até a ocupação seguida de algum conflito. Destaca-se nesse pro-
cesso a atuação do sindicato de Araraquara, um STR (Sindicato de Tra-
balhadores Rurais) que em 1989 lidera o movimento de criação da
Feraesp (Federação dos Assalariados Rurais do Estado de São Paulo),
tornando-se Sindicato dos Assalariados Rurais. Respondendo a diferentes
demandas, essa entidade organiza os trabalhadores e intermedeia, quase
exclusivamente, os processos de negociação para regularização e en-
trada na terra, tanto do projeto Monte Alegre quanto do projeto Bela
Vista do Chibarro.
São poucas as mulheres que participam do processo de organiza-
ção para possíveis ocupações na terra, neste caso, o que não significa
desinteresse ou não-participação no movimento propriamente dito. O
processo de luta pela terra desenvolvido nessa mesma região, num
momento posterior à instalação dos projetos por nós analisados, com-
porta, inclusive, a liderança de uma mulher – Carlita, sindicalista liga-
da à Feraesp, que capitaneia a ocupação do Horto Guarani (Pradópolis)
em 1992.
Instalados a partir do ano de 1985, a trajetória desses assenta-
mentos compõe um panorama complexo, no qual entram dificuldades
econômicas e político-organizacionais. Expressões de violência pro-
gramada por parte do Estado se contrapõem a estratégias familiares,
que têm criado condições para viver melhor na terra.
A cultura da dádiva continua alimentando a atuação do poder
público local em face dos assentamentos. Os assentados com freqüên-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 123


cia se submetem à despolitização atribuída à condição de beneficiários,
ainda que existam exceções, observando-se situações de reinversão
dos atributos de passividade a eles impostos pelo modelo estatal, reves-
tidos, no caso das mulheres, de um caráter acentuadamente
patriarcalista, tema que será abordado mais adiante.
O empreendimento do Estado de buscar orquestrar a interação
entre os trabalhadores assentados e os demais agentes sociais envol-
vidos nas experiências de assentamentos não é levado adiante sem
tensões e/ou expressões de recusa ao modelo estatal. Há estratégias
familiares que contrariam os padrões de sociabilidade e de organiza-
ção política que deveriam idealmente reger os projetos de assenta-
mentos. Há expressões de violência de gênero que atingem diretamente
a estrutura familiar e demonstram que o assentamento não significa
necessariamente um espaço de iguais. O fato de as mulheres serem
excluídas da titulação, salvo raras exceções, de terem seu trabalho, no
lote produtivo ou como assalariadas, encarado como “ajuda”, sem ser-
lhes concedido direito de interferir nas decisões tomadas no assenta-
mento, acrescido de atos opressivos dos maridos, pode descaracterizar
tais estratégias.
Há, no entanto, ações de resistência à situação de deserdadas da
terra levadas adiante por mulheres. Verifica-se sua atuação decisiva
na construção de espaços de sociabilidade, mesmo por meio dos có-
digos sociais tradicionais. Há, também, iniciativas de agentes exter-
nos aos assentamentos, buscando a valorização da condição de mu-
lher e a capacitação profissional desse segmento social.
Temos, pois, inúmeros elementos para afirmar que a relação das
mulheres com os assentamentos não está definida aprioristicamente
ou pela naturalização de sua exclusão.

“Idealizações” 3 do modelo estatal de assentamento:


mulher só entra em situações de exceção

O programa de assentamentos idealizado pelo Estado não


corresponde com freqüência ao que é posto em prática, nem implica o
atendimento às necessidades de reprodução social dos assentados. Em
um jogo de expectativas e idealizações, no campo do Estado, à

3 Tomo de empréstimo de Delma Pessanha Neves (1995) o termo, recomendando sua análise das
relações entre Estado e reforma agrária.

124 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


reestruturação formal do aparato institucional – prática que vem reeditar
atos de uma cultura de desqualificação de organismos “viciados” como
tentativa de justificar a falta de vontade política e as irrealizações no
campo da reforma agrária (Neves,1995) – segue-se uma complexa
metodologia dirigida à construção dos assentados e à orientação dos
padrões de sociabilidade e de organização política que deveriam reger
os projetos de assentamentos.
Esse é o espaço da violência dissimulada por regras prees-
tabelecidas no tocante ao que é certo e errado, o que pode e o que
não pode. Por detrás das propostas “técnicas” de melhor alocação de
recursos materiais e humanos, nunca há espaço de intercâmbio, troca
de experiências ou expectativas.
Tais proposições, na verdade, dissimulam práticas autoritárias: “ao
Poder Público corresponde o direito de deslocar pessoas ou de fundar
uma nova vida social iniciada da estaca zero. Os beneficiários, apa-
gados como atores sociais, conformar-se-iam à objetivação plena da
vontade política dos idealizadores da boa sociedade” (Neves, 1995,
p.188). As mulheres, situadas mais ainda à margem das propostas ofi-
ciais, não entram nessa construção. Sua presença é uma situação de
exceção.
Prevalece, na idealização estatal do programa de assentamento, a
concepção do assentado como um “desenraizado” que deveria ser
modelado segundo uma determinada lógica atribuída ao futuro agri-
cultor. Na lógica da burocracia estatal, aparentemente apolítica, sus-
tentada por critérios técnicos, o assentamento aparece como uma
categoria datada, esvaziada de um processo de lutas, de violência, de
experiências vivenciadas. Sugerem-se, na ampliação do aparato
institucional, na proposta de novos organogramas, ações técnicas
pretensamente não políticas, por parte do Estado, responsável pela
alocação das populações e pelo rígido traçado das regras de vocação
agrícola e de produtividade (Andrade et al., 1989).
Intenções de estimular a viabilidade econômica dos assentamen-
tos – competência atribuída aos órgãos do Estado – são anunciadas,
como se fossem, de fato, gerar ações. Aparências de mediações, como
a experiência de um “orçamento participativo” levado a discussão em
1996, sugerindo alterações nas relações de poder, envolvendo desde o
governo federal até prefeituras. Procura-se, portanto, mediante esse
jogo de aparências, amparado no plano jurídico-formal, definir um pro-
grama no qual, em realidade, os beneficiários não teriam nenhum po-
der de decisão, destituindo-os de seu “caráter ativo” (Esterci et al.,
1992, p.5-6).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 125


Às mulheres não é feita nenhuma ressalva em particular, mesmo
porque o projeto do Estado é mediatizado, no mais das vezes, pelo
patriarcalismo. Tendo por base a família do agricultor, o crivo estatal
– pouco sensível para as mudanças que o passado de assalariamento
pode ter causado nas relações familiares – procura reproduzir o mode-
lo mais tradicional de organização familiar. Nova violência que, para-
doxalmente, se desdobra, mais adiante, justamente pela incompreensão,
por parte dos administradores dos projetos, dos padrões tradicionais
que seus critérios – inconscientemente – denunciam e reforçam.

O programa de assentamento se baseia numa concepção de mudança


do comportamento dos supostos beneficiários ou na construção orientada dos
assentados. Seja pela alteração nos padrões de sociabilidade e de formas de
organização política, em que o associativismo aparece como fim em si mes-
mo, seja pela substituição dos paradigmas do saber prático e pela incorpora-
ção de técnicas agrícolas, em que o crédito subsidiado aparece como forma
privilegiada, o assentado é pensado como agente em mutação que deve en-
contrar novos parâmetros de estruturação social. (Neves, 1995, p.187-8)

Esse encontro está vedado às mulheres. Sem ser titulares, não po-
dem sequer pleitear o crédito. Mesmo quando são titulares – em sua
maioria em virtude de uma impossibilidade legal do marido – acabam
não tomando nenhuma decisão no tocante à organização da produção
e reprodução social: as operações idealizadas e atribuídas ao futuro
agricultor excluem as mulheres. Somente passam pelo crivo legal do
cadastro em situações de exceção, ou seja, no caso das viúvas com fi-
lhos, ou quando for comprovada a impossibilidade do marido, que con-
tinua o “chefe da casa”, apesar de a mulher ser a titular do benefício.
Se o assentado, no plano formal e prático “está reduzido ao silên-
cio, porque excluído do debate que o torna personagem social e polí-
tico” (Neves, 1995, p.194), a mulher nem entra na concepção estatal
como sujeito virtual dos projetos de assentamento. Mais uma vez, pro-
cura-se excluir experiências anteriores, referentes à participação das
mulheres no movimento de luta pela terra.
O autoritarismo das regras se revela igualmente no processo de
seleção, problemático, decidido independentemente de uma discus-
são – com lideranças dos movimentos da luta pela terra – sobre o perfil
dos ocupantes ou candidatos a uma área de terra. A presença das
mulheres é pontuada na seleção, que privilegia o fato de o candidato
a beneficiário ser casado, o que implica reconhecimento ou relativização
do tratamento discriminado dispensado às mulheres. Tais práticas
autoritárias desdobram-se na imposição das formas de organização da

126 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


produção, nas propostas impostas de ordenação do espaço reprodutivo,
na suposição de que os assentados não teriam capacidade para se
contrapor à teia de dissimulações do modelo estatal de assentamento,
exclusão apresentada como natural no caso das mulheres.

A contramão das idealizações do Estado:


mulheres bóias-frias presentes na luta pela terra

A transformação possível dos bóias-frias, homens e mulheres, sua


constituição social em proprietários ou candidatos a uma área de terra
na condição de assentados, não estaria nas previsões traçadas pelo
Estado para o que deveriam ser os assentados, em termos de padrões
esperados para maximizar a eficiência material nos programas de as-
sentamentos.
Os bóias-frias, homens e mulheres, não teriam o perfil desejado
para se habilitar econômica e politicamente para o acesso a um lote
ou parcela de terra, nem reuniriam, em princípio, condições para
viabilizar sua constituição como produtores agrícolas. Assentamentos
formados por bóias-frias estariam, por tais atributos, destinados ao fra-
casso, predeterminação que tem sido contrariada pelo acompanhamento
de experiências concretas de inserção de bóias-frias no movimento de
demanda por terra e na construção de alternativas de um novo modo
de vida no assentamento.
É certo que esse contingente emerge no cenário das políticas
fundiárias num momento particularmente “quente”, de explosão so-
cial, caracterizado pelas mobilizações de 1984/1985 na região. Ao Es-
tado, coube a iniciativa de “amortecer” o movimento, também por meio
de uma política de assentamentos rurais. O propalado “desinteresse
pela terra” como reivindicação, atributo imposto como parte da cul-
tura do “ser bóia-fria” em virtude de sua inserção no mercado (mais
ou menos formal) de trabalho, tem sido contrariado pela sua crescente
inserção em cadastros ou movimentos dirigidos à ocupação de novas
terras (Ferrante, 1992).
Impõem-se sobre os assentados ex-bóias-frias, homens e mulhe-
res, elementos de violência dissimulada: além de ameaçarem a comu-
nidade, passam a ser “olhados” como únicos responsáveis pelo suces-
so ou fracasso dos assentamentos. Estigmas utilizados para criar
ideologicamente a imagem de sua incompatibilidade com o cultivo da
terra, como se a condição de bóia-fria, especialmente no caso da mulher,

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 127


fosse absolutamente incompatível com o saber/querer a terra. Estig-
mas produzidos para reforçar a tese, a nosso ver equivocada, de que a
violência no campo teria sujeitos predeterminados.
Contrariando tais estigmas e a modelagem idealizada para os
beneficiários, os bóias-frias entram como sujeitos desse processo, pre-
midos por necessidades. Da formação dos primeiros núcleos, em 1985,
participaram ex-bóias-frias, homens e mulheres, cuja decisão de ade-
são a um movimento de invasão da terra foi motivada pela fuga de
estratégias patronais punitivas, como a inclusão de seus nomes nas
“listas negras” de bóias-frias grevistas. Vontade de defesa, necessi-
dade de sobrevivência.
Os bóias-frias assumem novamente esse papel, também, quando
a terra aparece como alternativa ao desemprego estrutural crescente
na região. A intensificação da mecanização do corte da cana, fato
cabalmente constatado nos últimos anos, é um fator de instabilidade
social na região. O aumento das mobilizações por assentamentos ru-
rais, desde a eclosão da greve de Guariba (maio de 1984), só compro-
va essa (contra)tendência.
A luta pela terra, nesse aspecto, se coloca como conseqüência do
processo selvagem de descarte de mão-de-obra. Em 1992, setecentas
famílias voltam a ocupar o Horto Guarani, propriedade da Fepasa, em
Pradópolis (a primeira ocupação ocorreu em 1985) e lá permanecem
acampadas durante anos, como um sinal vivo de que os conflitos pela
terra não arrefeceram. Em 1996, há novas ocupações na região, certa-
mente no bojo do movimento nacional pela reforma agrária. Há, no
presente, cerca de três mil cadastrados no Sindicato de Assalariados
Rurais, índice expressivo do crescimento do movimento de luta pela
terra. Em sua maioria, caracterizam-se como assalariados rurais de-
sempregados da cidade e do campo que encontram, nessa forma de
luta, estratégias de sobrevivência familiar. Centenas dessas famílias
participam de acampamentos que pontilham a região. Existem, argu-
menta a Feraesp, terras ociosas na região que poderiam estar sendo
ocupadas por cerca de oitocentas a mil famílias, processo que não se
apresenta como isento de tensões e contradições, do qual participam
homens e mulheres.
Em alguns casos, as mulheres assentadas ex-bóias-frias tinham
sofrido violências no curso dos movimentos grevistas e punições por
parte dos empresários. Mesmo sem estar junto aos maridos no mo-
mento de entrada na terra, haviam compartilhado dessa decisão e
participado, com o sindicato, de reuniões preparatórias dirigidas à
possibilidade de ocupação de terras públicas ociosas. Marca suas re-

128 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


presentações a expectativa de viver, no assentamento, relações não
construídas pela violência. Aparecem, igualmente, representações da
terra como canal de acesso a um “tempo melhor”, identificado no pla-
no da possibilidade de defender a comida, de poder ter criação e de
poder cuidar dos filhos com maior tranqüilidade.
Em outras situações – como no caso das famílias de Promissão,
que depois vieram para o assentamento Bela Vista do Chibarro – as
mulheres participaram do momento de ocupação e/ou invasão da ter-
ra, tendo sido extremamente forte sua presença no processo de cons-
tituição e sustentação dos acampamentos.
Nos momentos seguintes, o espaço de iguais desestruturou-se, ao
se introduzir a vontade do Estado no comando das escolhas e exclu-
sões dos beneficiários. A mulher sofre, nesse caso, duplamente uma
exclusão que parece prefixar sua subalternidade nos assentamentos.

A modelagem imposta aos assentados


ex-bóias-frias, homens e mulheres

Tratando-se de bóias-frias, cuja socialização originária já se deu


dentro do intenso processo de migração campo-cidade, o fato de não
se apresentarem com uma história de agricultores vivida em comum,
mas terem vindo de um mercado de trabalho competitivo, modelador
de individualidades fragmentadas, os desqualificaria dos atributos idea-
lizados pelo Estado para os assentados. No tocante aos processos de
constituição de papéis no interior desse movimento, o caráter de “aju-
da” que sempre impregnou o trabalho da mulher pesa para constatar
que esta nem chega a ser pensada como protagonista do processo de
construção dos assentamentos.
Cabe ressaltar que os assentamentos nem eliminam a violência
em suas formas diferenciadas de expressão, assim como a própria trans-
formação de invasor ou demandante de terra em assentado(a) não se
faz acompanhar de um atendimento das novas necessidades de repro-
dução que se apresentam. Há nessa transformação, cujos desdobra-
mentos apresentam-se como um campo aberto de possibilidades, no-
vas formas de expressão de violência a sinalizar que a construção, pelo
Estado, do projeto de assentamento e da figura do assentado não dis-
solve ou domestica as contradições.
Nos primeiros tempos, a voz de comando do Estado parecia soar
soberana. O processo de seleção instituído foi e é problemático, por

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 129


privilegiar, por exemplo, a ocupação do trabalhador no momento do
preenchimento do cadastro, sem resgatar, na pontuação, situações
vivenciadas em sua trajetória.
Na fase de assentamento ocorre, às vezes, uma relação de “estra-
nheza” com a terra que lhes é atribuída. Ao ser cadastrada, a família
de trabalhadores rurais passa a sujeitar-se a uma série de regras fi-
xadas para ela e não por ela. A escolha das culturas, a construção da
moradia e da agrovila, a forma de explorar a terra são colocadas pelos
“outros”. O imperativo “técnico” ignora qualquer regra de sociabili-
dade real, baseada na experiência, na história pessoal e coletiva do
grupo de assentados.
Observam-se, no entanto, iniciativas de resistência, no mais das
vezes em nome mesmo de um saber tradicional e das relações familia-
res e de solidariedade – que não necessariamente se estendem a todo
o conjunto de assentados. Foi assim com os trabalhadores do núcleo
IV da Fazenda Monte Alegre, que se recusaram a deixar a área provi-
sória de moradia, instados que eram pelos agrônomos do DAF , cujo
projeto previa uma agrovila em outra gleba. Ter abundância de água
(já que o acampamento se situava às margens do córrego), morar pró-
ximo do parente e/ou amigo – reproduzindo a paisagem dos antigos
bairros rurais – foram fatores determinantes nessa recusa. Até hoje os
técnicos vêem com desconfiança o grupo – “com pouca produtividade”,
argumentam os agrônomos –, mas também com o menor índice de
evasão do projeto Monte Alegre.
O fato de se terem postos como iguais no momento da luta, sinal
distintivo dos processos de conquista de uma área para assentamento,
não significa necessariamente sua disposição de estruturarem-se co-
letivamente para a organização social da produção, mesmo porque a
perspectiva de construção de uma coletividade rural de produtores em
cooperação não é necessariamente produto da vontade dos trabalha-
dores, mas submissão ao modelo cooperativo forjado nas instâncias do
poder. A experiência de organização da produção levada a cabo pelos
agentes oficiais nos assentamentos em questão foi marcada por fra-
cassos que só ressaltam essa afirmação.
Ser cadastrado e adentrar a terra confere ao trabalhador um novo
estatuto. Mais uma vez, a recriação de uma cidadania regulada de cima,
na qual as mulheres, especialmente, sentem barreiras concretas. Ao
mesmo tempo, eles adquiriram o direito, ainda que provisório, de ter a
posse, de permanecer na terra, o que não os isenta de enfrentar pro-
blemas não só econômicos, mas também políticos. Obtida a terra, a
partir de certo momento, coloca-se a provisoriedade. Ao mesmo tempo

130 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


em que os trabalhadores estão estruturados como cidadãos legitima-
mente ocupantes da terra, adentram uma rede de dificuldades, anseios,
expectativas que podem ser frustrados no seu dia-a-dia e atingem di-
retamente a estrutura familiar.
Categorias de incerteza impregnam seu viver. Apesar de “terem a
terra”, não se sentem de posse dela totalmente, como “donos da ter-
ra”. Esses trabalhadores revelam, em suas práticas, a impotência
advinda de não poder interferir no ciclo de produção/reprodução, cujas
determinações transcendem sua vontade e experiências individuais.
No caso das mulheres, chegam a interiorizar o atributo de deserdadas
da terra, por não saberem contra quem lutar. Impotência que não sig-
nifica silêncio ou obediência a regras modeladas. Destacam-se, nesse
cenário, figuras extremamente fortes, mulheres que conseguem – às
vezes até de maneira peculiar – se firmar como titulares, garantindo
produtividade em seus lotes. Vencido o círculo de ferro da discrimi-
nação, sucumbem, porém, diante do “dragão burocrático”, que impõe,
domestica, oprime a todos os agricultores assentados.
Retrato de um mundo de relações novas, cujas fronteiras lhes são,
às vezes, totalmente desconhecidas, as mulheres não participam da
tomada de decisões na administração e no planejamento dos lotes.
Não têm, em seu passado recente, experiências de um trabalho coo-
perativo, mas conviviam com a combinação das forças reguladas pelo
tempo disciplinado; em muitas situações, as assentadas ex-bóias-frias
nunca haviam tido oportunidade de tomar decisões sobre seu tempo
de vida e de trabalho. Desconheciam regras de financiamento, crédito
e a própria engrenagem mercantil. Têm, ainda mais, que ajudar a gerir
seu próprio espaço, vindas de um tempo regido pelo olhar do outro,
sem poder imprimir iniciativas próprias a essa gestão. Resultados aquém
das expectativas das primeiras safras, mesmo que sejam constatados
equívocos de encaminhamento por parte dos técnicos, são atribuídos
à falta de competência dos assentados, dedução associada ao fato de
terem sido bóias-frias.
As mulheres, sem terem sido, em sua maioria, diretamente mode-
ladas pelas regras abstratas (e, muitas vezes, absurdas), arcam com o
ônus das incertezas e da provisoriedade do viver no assentamento.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 131


A mulher e o viver nos assentamentos

No trabalho, o caráter de “ajuda”

As decisões iniciais sobre produção coletiva, sobre o que plantar


não passaram, como já afirmamos, pelos assentados, muito menos pelas
mulheres. Nas decisões de reinversão do processo de organização do
grupo, na divisão das terras e na rejeição ao primado do coletivo, en-
tretanto, há expressões da rejeição dos atributos propostos para os
assentados e da afirmação de sua não-passividade. Na divisão por
grupos, a tentativa de preservar laços de amizade, vivência anterior e
proximidade da região de origem – critérios significativamente influen-
ciados pelas opiniões da mulher – pode ser encarada como uma forma
de resistência, aliada à rejeição do modelo associativista proposto ou
imposto pelo Estado. Excluídas, em sua grande maioria, da elaboração
do projeto produtivo, as mulheres encontram espaço na manutenção
das redes de sociabilidade.
Grupos divididos, produção individualizada: a mulher não parti-
cipa, em maioria, do trabalho no lote produtivo. Muitas o fazem nos
finais de semana. No caso das titulares, há poucas que efetivamente
comandam o trabalho no lote. Há freqüentes reclamações das mulhe-
res de que seu trabalho não é reconhecido. “É sempre uma tarefa vista
como ajuda, por mais pesado que a gente trabalha”, desabafa uma
assentada. “Não posso pedir crédito, nem mudar qualquer decisão dos
homens.” “Cumpro o que já está determinado, o que não é muito di-
ferente do trabalho vigiado que tinha como bóia-fria”, é o depoimento
de outra mulher que vem atestar que o trabalho no assentamento não
elimina, necessariamente, relações de constrangimento, podendo con-
tinuar a ser “vigiado”.
O retrato dessa situação explica, talvez, o número significativo e
crescente de mulheres que trabalham como assalariadas fora do as-
sentamento. O fato de desenvolverem atividades destinadas a com-
plementar a renda agrícola parece compatível com a concepção de
que sua função produtiva é subsidiar, ajudar. Em algumas situações,
se assalariam como forma de aumentar a renda e o investimento no
lote; em outras, aparece claramente a vontade de se livrar das formas
mais ou menos dissimuladas da violência de gênero.
A “ajuda”, no entanto, embora seja qualificada como subsidiária,
do ponto de vista quantitativo, pode, às vezes, ter inversamente o peso
maior. Como estratégia familiar, presente desde o tempo de acampa-

132 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


mento, a busca de recursos fora é indispensável para viabilizar a ma-
nutenção da luta. Já na condição de assentadas, as famílias não podem
prescindir de outro recurso monetário livre, a não ser o crédito de fo-
mento, que significa um dinheiro muito caro na hora de quitar a dívida
no banco. Aí, a renda das mulheres ou filhos (dependentes) que vão
cortar cana, colher laranjas ou fazer faxina na cidade acaba por fazer
uma grande diferença, sobretudo em situação de colheita frustrada.
Um registro com ricas implicações, que pode bem ilustrar tais
considerações, data da experiência de trabalho coletivo na primeira
safra do núcleo II da Fazenda Monte Alegre. A proposta original dos
técnicos, “consensual” na assembléia de trabalhadores, foi a de com-
putar o dia trabalhado de cada pessoa. Famílias com um grande nú-
mero de braços, no entanto, revezaram-se no trabalho “coletivo” e no
assalariamento fora.
De acordo com cada arranjo familiar, marido, mulher ou filhos
buscaram um recurso extra que, mais tarde, é pomo de discórdia en-
tre os assentados. É o surgimento dos chamados “marajás” no assen-
tamento: famílias com recursos para viabilizar a produção mais indivi-
dualizada que acabam por gerar polêmica. Pesa sobre isso, ainda, a
má distribuição dos recursos provenientes da safra colhida, que não
respeitou a proposta inicial, mas se baseou – em virtude das pressões
das famílias mais fortes – numa simples divisão equânime por família.
Quem apostou no trabalho coletivo realizado no assentamento e in-
vestiu ali mais braços da família, acabou se sentindo, com razão, pre-
judicado.
Além do trabalho para fora representar sempre mais do que a
“ajuda” alegada, a atividade criatória e mesmo algum cultivo realizado
no quintal, espaço doméstico primordialmente feminino, garantem um
ganho em termos de ração alimentar que, não raras vezes, tira a famí-
lia assentada de uma situação crítica nesse aspecto.
Repetidos anos de mau desempenho nas culturas comerciais, dí-
vidas bancárias que consomem todo o ganho na comercialização do
milho, da soja e outros grãos, de fato ameaçaram os assentados. Um
quintal “bem cuidado”, às vezes labor de um homem, é verdade, sal-
tava aos olhos tanto de pesquisadores quanto dos técnicos mais sen-
síveis. No caso do núcleo IV da Fazenda Monte Alegre, a recusa em se
transferirem para uma área “seca” garantiu aos assentados uma dieta
mais rica em verduras e legumes – além de peixes do córrego. A ex-
periência de diversificação das culturas nos projetos de assentamento,
vivenciada nos anos mais recentes, tem feito aumentar a participação
da mulher no trabalho agrícola, conforme apresentaremos adiante.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 133


É nesse terreiro rico em plantas que se re-constroem o compadrio e
a vicinalidade, próprios da sociabilidade rural, tão importantes para re-
verter o “estranhamento” dos primeiros tempos. Levantar um barracão,
instalar uma farinheira rústica, fazer uma festa... as mulheres e as crian-
ças – quase sempre excluídas dos processos decisórios que envolvem a
produção comercial, o trato com os bancos e com os órgãos públicos
gestores dos projetos de assentamento – são, aí, as tecelãs de uma rede
de relações que, em muito, dá sentido à vida nesse novo espaço.

Nos confrontos, nas decisões políticas

Nos assentamentos da Fazenda Monte Alegre, mulheres e políti-


ca parecem viver em rota de colisão. No entanto, conflitos familiares,
problemas com filhos que não querem trabalhar na terra e discussões
sobre o encaminhamento dos grupos de produção são marcados forte-
mente pela presença das mulheres, traduzindo-se em suas represen-
tações acerca de sua experiência.
No caso do consórcio da cana-de-açúcar, projeto que se tentou
levar adiante na Monte Alegre com o patrocínio do próprio prefeito de
Motuca, interessado em se apresentar como bom-patrão, ocorreu di-
versidade de posições entre as mulheres. Algumas viam na condição
de consorciado e na proteção sinalizada pelo prefeito bom-patrão maior
segurança para permanecer na terra. Outras resistiram, alegando, en-
tre outros fatores, a perda total de autonomia para diversificar a pro-
dução. A cultura da dádiva que se faz presente na relação dos assen-
tados com o poder local tem, nas mulheres, expressões de recusa e de
aceitação.
Não poucas vezes, o andamento dos grupos de produção (organi-
zação que sucedeu o trabalho totalmente coletivo na Monte Alegre)
sofreu influência de problemas entre famílias, tendo mulheres como
co-participantes. No núcleo I, a inimizade entre antigos compadres levou
a um entrevero que deixou uma mulher ferida.
O zelo para com a família, que tem na mãe seu símbolo maior,
encontrou em uma assentada desse mesmo núcleo um exemplo
paroxístico. Dona Sebastiana Pereira cuidava de filhos, sobrinhos e
netos, “gerenciando” a maior família do projeto Monte Alegre. Dois de
seus filhos tiveram papéis fundamentais no processo de assentamen-
to. Um deles, Luís, foi representante, um dos poucos filiados ao PT num
espaço onde outros grupamentos políticos dirigiam politicamente a luta.
Entrou em conflito com a direção do STR de Araraquara, o que deu

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início a uma cisão que marca até hoje o perfil político-organizacional
do núcleo I.
Um segundo filho de dona Sebastiana, Donizeti, foi o primeiro
assentado a se eleger vereador na região, no primeiro pleito municipal
da recém-emancipada Motuca. A estratégia clientelista do primeiro
prefeito eleito na cidade, um usineiro então no PFL, levou a que o jo-
vem vereador petista se aliasse ao Executivo municipal. A proposta de
plantio de cana marcou o mandato de Donizeti e teve, em sua mãe,
uma ferrenha defensora.
Havendo a possibilidade de a usina de Motuca se associar (num
arrendamento disfarçado) aos assentados, a Feraesp reage, intensifi-
cando o conflito entre partidários do sindicato e aliados do prefeito.
Brigas, muita discussão e todo um jogo de pressões feitas à Secretaria
da Justiça e Cidadania – que subordina o DAF – se seguiram. Três anos
depois, o projeto de plantio de cana não vingou, Donizeti Pereira saiu
do assentamento e não disputou a reeleição. Em seu lugar, talvez como
única figura ainda portadora de alguma legitimidade, candidatou-se
dona Sebastiana, sua mãe. Ela perdeu a eleição e, poucos meses de-
pois, faleceu.
No assentamento Bela Vista do Chibarro, em um confronto moti-
vado pela interferência de órgãos do Estado ao transferir famílias de
outros locais em vez da convocação das famílias classificadas, as mu-
lheres dos assentados se posicionaram frontalmente contra o Incra. Bus-
caram nas assembléias e nas falas reinverter os atributos de que a
política era um espaço masculino. Nesse momento, destaca-se a lide-
rança de uma mulher, cuja imagem empunhando uma espingarda em
sinal de prontidão para o enfrentamento marca o registro da equipe de
pesquisadores que, durante anos a fio, acompanha o processo de as-
sentamento.
Essa mesma liderança, dona Maria, chegou a formar um grupo de
mulheres de expressão, buscando interferir na construção desse novo
modo de vida. O esvaziamento desse grupo se deu talvez pela falta de
um projeto de longo prazo para o mesmo, sempre disponível numa
situação conjuntural de disputa interna e pressão perante os órgãos
mediadores. Não se pode negar, no entanto, que um outro fator
determinante foi a pressão dos maridos, incomodados com as mani-
festações de independência das esposas. Há ainda a acrescentar que,
no caso de uma liderança feminina significativa como dona Maria, sua
adesão a um movimento religioso de natureza pentecostal a afastou
das questões internas do assentamento, levando-a a uma atitude de
resignação.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 135


São expressivas, na história desse assentamento, manifestações
de recusa por parte das mulheres. No assentamento Bela Vista, as
mulheres chegaram, certo tempo atrás, a impedir a continuidade da
eleição do seu representante, por estarem excluídas da possibilidade
de votar. Participaram igualmente da organização da invasão dos es-
critórios do DAF em um episódio relativo ao plantio de cana na Bela
Vista e em outras situações, nas quais o crédito e outras promessas
não se concretizaram. Se o Incra e os órgãos estaduais que coordenam
tais projetos reproduzem, em suas decisões, o viés patriarcal subja-
cente ao modelo estatal de assentamento, a realidade desse novo modo
de vida desmente a lógica burocrática. A mulher é distribuidora do
principal bem de que as populações assentadas dispõem: o alimento.
Sua capacidade administradora e de ação é inquestionável. A mulher,
desde que esteja numa posição de necessidade, assume todas as ta-
refas de um chefe de família. No entanto, não encontram espaço para
terem, no assentamento, reconhecidos seus direitos.
A definição de uma fórmula política interna na Bela Vista, com um
representante eleito diretamente e uma comissão representativa dos
grupos organizados (cooperativa, associações), se deu num momento
de intensa participação das mulheres, dessa feita lideradas por um grupo
oriundo do assentamento da Fazendas Reunidas, na região de Promis-
são. O “grupo de Promissão”, como foi chamado, esteve do outro lado
do conflito que revelou a importância das mulheres na linha de frente,
contra o Incra. Tratadas como indesejadas, essas 29 famílias se uniram
e lograram derrubar a hegemonia da Feraesp no assentamento.
Enquanto os homens se organizavam numa associação de produ-
tores, as mulheres se associaram e criaram a Associação Feminina
“Mulheres Trabalhando”. Contando com o apoio da Comissão Pastoral
da Terra, esse grupo feminino garantiu algumas conquistas que melho-
raram a vida no assentamento (nas áreas de saúde e transporte) e in-
terferiram diretamente na reorganização do poder interno, quando um
assentado do grupo de Promissão, pela primeira vez, foi eleito repre-
sentante do assentamento.
Atualmente, nas reuniões e nas assembléias, as mulheres colo-
cam-se perto das portas, como se de fato estivessem prestes a sair de
um espaço que não é o seu. Na última escolha dos representantes, na
qual, paradoxalmente, ganhou o assentado que há tempos tentou le-
var adiante o plantio de cana no assentamento, as mulheres tiveram
pouca expressão. Esse refluxo se deve em boa medida à manipulação
sofrida pela principal liderança do grupo de mulheres, que foi tornada,

136 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


pela prefeitura de Araraquara, uma espécie de representante oficiosa,
em troca de um apoio incondicional ao partido do prefeito.
A posição assumida por essa mulher, reproduzindo ações típicas
de uma cultura clientelista, e, sobretudo, seu comportamento político-
partidário explícito de propaganda para o PMDB acabaram por gerar
impasses e uma reação contrária das próprias mulheres – em dimen-
são significativa – à submissão e ao atrelamento do assentamento às
rédeas do poder local. A derrota desse partido no pleito municipal de
1996 determinou o ocaso dessa líder que, enfraquecida politicamente,
chegou a adoecer.

O recuo diante da violência doméstica

As mulheres, em várias situações, como reafirmamos, lutaram


contra o patriarcalismo presente nos critérios de seleção propostos pelo
Estado que veda à mulher a condição de ser ela própria cadastrada e
assentada, a não ser em situações em que prove ser chefe da família.
Lutaram, com sucesso, para participar da escolha das lideranças in-
ternas, reinvertendo o atributo de que a gestão dos núcleos era um
espaço exclusivamente masculino. No entanto, observa-se que sua pre-
sença é marcada pela intermitência.
Tomaram a liderança na reivindicação aos segmentos do poder
público municipal. Discutiram, em associação, estratégias produtivas
e reprodutivas de permanência na terra. Em muitas situações, os ma-
ridos cercearam a participação das esposas em reuniões, assembléias
e organizações, tornando-se esse um dos principais motivos de brigas
conjugais.
A predisposição para o conflito, o debate próprio da ação política,
ameaça a “moral” da mulher: muitas delas, quando assumiam a posi-
ção de líder ou representante, tinham que falar com muita gente, ir
sempre à cidade, sozinhas ou com um grupo do qual o marido muitas
vezes não participava. Qualquer descontentamento com as opiniões
das mulheres já abria margem para uma série de difamações, no bar,
nas ruas da agrovila, no campo de futebol. Logo os maridos pressiona-
vam suas mulheres para que não participassem mais das reuniões e –
se fossem líderes – abdicassem dos cargos assumidos. Muitas vezes
esse conflito conjugal degenera em ameaças.
Ameaças agravadas, como em casos de alcoolismo por parte dos
maridos, levaram as mulheres, em proporção significativa, a recuar
em sua luta pela ocupação de um espaço nos assentamentos. Muitas

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 137


desistiram da caminhada. Outras voltam, com freqüência, à situação
de assalariamento anteriormente vivida, às vezes como forma de
ampliar a renda e permanecer na terra, mesmo sabendo que estão
excluídas de sua titularidade ou da possibilidade de se libertar de um
jogo autoritário.

A resistência no campo jurídico

A titulação regularizada para cerca de 150 famílias da Fazenda


Monte Alegre em outubro de 1995 – exatamente dez anos após a cons-
tituição do primeiro núcleo – em nada mudou a situação de subalter-
nidade das mulheres. Poucas mulheres receberam o título. O problema
agrava-se nos casos de separação dos casais: na questão da partilha
dos bens, legalmente, a mulher fica sem nenhum direito. Mesmo so-
frendo formas diferenciadas de violência, se ela quiser se separar, tem
que abrir mão da experiência acumulada no movimento de lutar para
viver na terra, materializada na conquista da casa, do lote produtivo,
dos direitos de ter, na terra, uma nova forma de vida.
Deserdadas da terra, resta-lhes, em casos de separação, o recurso
judicial, decisão a que recorrem sob ameaças, pressões e mecanismos
diretos e simbólicos de violência. Conhece-se apenas um caso de uma
mulher assentada que, enfrentando barreiras e estigmas, entrou na
justiça, após a separação, para fazer valer seus direitos. Apesar de o
processo estar em tramitação, este representa, sem dúvida, um signi-
ficativo indicador de que a exclusão não é uma condição naturalizada,
mas pode levar a outras expressões de recusa ao modelo estatal
alicerçado por atributos patriarcais de passividade.

Expressões de recusa ao modelo estatal:


retratos da presença da mulher

Estratégias familiares e a construção de espaços


de sociabilidade

Estudos têm demonstrado que a solidariedade no trabalho na terra


e a interação de grupos de parentesco conseguem, por meio da exten-
são da rede familiar, consolidar uma estrutura interna a partir de “có-

138 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


digos de re-conhecimento social” (Barone, 1996). Em todos os núcleos,
vários beneficiários, titulares de lotes, mantêm laços de parentesco, crian-
do-se um circuito de relações familiares para além do cadastro oficial.
Se essa instância escapa ou não se enquadra na constituição idealizada
para os assentamentos, ela efetivamente é significativa para as ações
dos assentados. Aos olhos da burocracia estatal, inexistem tais rela-
ções. Sua presença marca, no entanto, diferenças na concepção da or-
ganização e construção do novo modo de vida presente nos assenta-
mentos. A mulher, por sua vez, tem o comando no processo de
transformar tais laços em espaços de permanência na terra.
Nos projetos da Fazenda Monte Alegre, o núcleo IV é o que se com-
porta de forma mais estável no decorrer dos anos, no tocante ao movi-
mento de entrada e saída de famílias. Embora isso seja constatado, na
opinião atual dos técnicos, esse núcleo não apresenta um bom desem-
penho econômico. A atribuição de maior estabilidade não significa, no
entanto, que os assentados do núcleo IV tenham constituído um agru-
pamento social e político passivo. Ao contrário, mostram, por meio de
estratégias familiares, a possibilidade de o assentamento, em outros lu-
gares, espaços e práticas sociais, ser uma unidade de resistência.
Formado em sua maioria por ex-bóias-frias, militantes das greves
de Guariba, alguns com experiência anterior de arrendamento, o nú-
cleo IV conseguiu retirar, de todos os vários interesses existentes, uma
forma de auto-organização, dando ao grupo condições necessárias para
uma experiência até agora bem-sucedida. Para isso, contou signifi-
cativamente o fato de terem recuperado dimensões de uma sociabili-
dade própria das comunidades rurais tradicionais – tais como relações
de compadrio –, que tem alimentado as possibilidades de convívio em
um espaço de iguais, prática comandada pelas mulheres. O fato de
gerirem os problemas internos sem a necessidade de interferência do
sindicato ou dos técnicos coloca os assentados em uma posição de
força diante desses mediadores.
A resistência do núcleo IV à mudança para a área da agrovila –
espaço geográfico mais facilmente controlável, elemento de fragmen-
tação entre o espaço produtivo e o reprodutivo – marca a rede de es-
tratégias utilizadas para não aceitar imposições. Imposta por um plano
técnico proposto pelo Estado, as agrovilas, expressão de autoritarismo
do modelo estatal, apresentam aspectos da “desruralização” relevadora
de controles. Nas representações das mulheres, a agrovila não apa-
rece associada à casa; ao contrário, é associada à imposição e à de-
cisão de outros. O núcleo IV, negando-se a esse enquadramento – na
verdade, a uma transposição ineficaz para os assentados de um mo-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 139


delo urbano –, recriou, dos pontos de vista espacial, cultural, econô-
mico e político, caminhos para empreender uma mudança significa-
tiva em seu modo de vida, pondo em prática processos cooperativos
com base em seu próprio projeto, não no de outros.
É interessante salientar que os índices de evasão são muito me-
nores, quase nulos, nos núcleos onde se mantém parcialmente um pro-
jeto de cooperação nutrido por experiências comuns vivenciadas ou
recuperadas num tempo anterior. Práticas a se contrapor a manifes-
tações de violência, à modelagem associativista imposta pelo Estado
aos programas de assentamentos, nas quais as mulheres têm papel
importantíssimo.
O circuito de recusa aos modelos de associativismo acaba por ter
conseqüências na reordenação da produção. A busca de priorizar a pro-
dução de grãos, presente nos primeiros anos de trabalho na terra, foi
cedendo terreno para outras alternativas. Hoje, a produção que parece
mais lucrativa nos assentamentos é a pecuária (a de leite superando a
de corte), presente em todos os núcleos, até mesmo no de número V, o
mais recente. Nessa atividade, cabe à mulher, com mais freqüência,
tocar o gado, ficando o marido com a tarefa de tirar o leite. Pouquíssimas
famílias se dedicam à horticultura, já que esse trabalho depende da
abundância de água e da capacidade de se instalar algum sistema de
irrigação. A sericicultura (produção de casulos de bicho-da-seda) tam-
bém está presente, se bem que mais localizada no núcleo IV, com par-
ticipação crescente das mulheres.
A fruticultura vem ganhando crescente espaço. Estão sendo cul-
tivadas, em larga escala e por quase todos os assentados, mudas de
frutas, especialmente a manga, o limão e a poncã. Uma produção de
subsistência tem lugar nos quintais dos lotes de moradia. Observa-se
também em alguns quintais a substituição de hortas e pequenos po-
mares por pastos e estábulos. A produção de grãos é realizada apenas
para o autoconsumo, se bem que, em sua maioria, seu cultivo seja
realizado por sitiantes da região que arrendam os lotes das famílias
assentadas (prática irregular, mas persistente em todos os núcleos).
Além dessas culturas, apenas a mandioca aparece como relevante,
sendo uma parte destinada para o consumo e outra, para a venda. Nessa
mudança de atividades produtivas, as mulheres acabaram tendo maior
espaço no trabalho.
No assentamento Bela Vista, as dimensões são distintas. Há me-
nor diversificação da produção e pequena participação das mulheres
no trabalho no lote podutivo e na gestação de estratégias familiares.
Nessa experiência, as mulheres se destacam na organização das fes-

140 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


tas juninas, das quermesses, dos núcleos de sociabilidade. O trabalho
conjunto no tempo de festa não tem necessariamente continuidade no
cotidiano. Entretanto, pode-se admitir que as estratégias familiares
expressam uma recusa aos padrões de sociabilidade idealizados pelo
modelo estatal de assentamento.
É crescente – e digno de um aprofundamento que a pesquisa em
andamento busca realizar – a presença de religiões evangélicas nos
assentamentos. No caso da Bela Vista, essa presença já se insti-
tucionalizou até mesmo em associação. As relações de gênero, dentro
desse novo espaço social, são questões inquietantes que motivam os
investigadores nesse renovado esforço de interpretações da realidade.
É interessante salientar, também, que as estratégias familiares têm
uma marcante consistência nos assentamentos formados, em sua
maioria, por ex-bóias-frias: os da Fazenda Monte Alegre, cujo índice
de presença de ex-assalariados rurais varia de 65% (núcleo II) a 90%
(núcleo IV), o que nos leva a reforçar a hipótese de que os bóias-frias
não são sujeitos desenraizados. Na reconstituição de sua trajetória, os
bóias-frias relatam fatos e relações de uma memória coletiva progres-
sivamente esfacelada nas fronteiras vigiadas de seu tempo de vida e
de trabalho; mostram, nas experiências de assentamento, que não há
incompatibilidade entre ser bóia-fria e reconstruir práticas de solidarie-
dade e sociabilidade próprias de comunidades camponesas.
Nessa reconstrução, as mulheres têm o comando, assim como
quando parecem estimular o casamento entre filhos de assentados (seus
filhos), o que pode ser um mecanismo acionado para garantir a perpe-
tuação na terra – ou, até mesmo, um artifício para aumentar a área da
família. Todo tipo de “parentesco simbólico”, como o compadrio, é
largamente observado nesses assentamentos, o que julgamos ter os
mesmos objetivos. Trabalhamos com a construção de estratégias fa-
miliares mediadas por relações culturais, práticas de sociabilidades,
aceitando que, nos assentamentos investigados da região, não se pode
falar propriamente em agricultura familiar.

Uma experiência coletiva com mulheres:


a costura industrial

Estratégias são criadas e recriadas em um circuito ampliado de


formas organizativas de resistência. A mais recente talvez seja uma
experiência de capacitação profissional em costura industrial para um
grupo de mulheres na Fazenda Monte Alegre I. No início de 1995, essas

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 141


mulheres, em reunião com a direção do Sindicato dos Empregados
Rurais de Araraquara, apresentaram a proposta de constituição de
espaços alternativos e diferenciados de trabalho para elas e para os
adolescentes. Necessidade de usar o tempo ocioso, dado que a ativi-
dade agrícola desenvolvida nos assentamentos não ocupa, na maioria
das vezes, o conjunto da família no trabalho. Foi organizado um curso
profissionalizante de costura industrial com o objetivo de implantação
de uma fábrica de confecção de roupas no referido assentamento. A
busca de uma ocupação permeia o cotidiano dessas mulheres. Na
prefeitura de Motuca, o estigma imposto aos assentados e assentadas
de serem incompetentes e desordeiros pesou fortemente. Foram mal-
tratadas, o que lhes causou sentimento de indignação e de revolta (Silva,
1996).
O curso de costura se apresenta como uma estratégia possível de
responder aos desafios da reestruturação produtiva em desenvolvimento,
criando instrumentos geradores de trabalho e renda. Essa experiência
demonstra a não-existência de fronteiras entre atividades tidas como
rurais e/ou urbanas no espaço dos assentamentos.
Tornava-se necessário, então, encontrar parceiros. O Senai de
Araraquara aprovou dois projetos, colocando à disposição do grupo a
experiência e o conhecimento técnico acumulado, o que significou con-
cretamente o pagamento das despesas com a monitora e a socialização
dos conteúdos programáticos para os referidos cursos. Ao sindicato,
coube a coordenação política e pedagógica do processo. Setenta e cin-
co pessoas se inscreveram para a realização do curso, vindas das cinco
áreas do assentamento da Fazenda Monte Alegre.
A experiência fortaleceu a rede de sociabilidade, contribuindo para
uma aproximação entre os espaços masculinos e femininos no interior
dos assentamentos. A tentativa de organizar o trabalho de forma mais
flexível, buscando-se romper com paradigmas de padrões de produção,
é, sem dúvida, expressão das estratégias de recusa ao modelo estatal
de assentamento. A criação de uma rede de pessoas envolvidas no
processo de produção e comercialização está em gestação. Discutem-
se mecanismos que poderiam levar a formas coletivas de controle e de
gestão desse processo de produção.
Há, nesse aspecto, em pequena escala, uma re-elaboração do
coletivo imposto nos tempos iniciais pelo Estado. Entretanto, não há
como apagar as diferenciadas individualidades que se fazem presentes
nessa experiência, atravessada por uma multiplicidade de conflitos de
ordem pessoal e política. Desafios a nos mostrar a necessidade de
acompanhar, passo a passo, alternativas que homens e mulheres bus-

142 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


caram para construir espaços sociais e encontrar formas de gerar tra-
balho e renda nos assentamentos.

Concluindo...

Passamos em revista experiências diferenciadas. As respostas do


Estado oscilam em um terreno de omissões, irrealizações e expressões
de violência programada. A ausência de uma inserção mais efetiva dos
órgãos públicos, a falta de equipamentos coletivos necessários à re-
produção das condições de vida social perpassam o dia-a-dia de difi-
culdades de homens e mulheres. Na relação com o poder local, preva-
lece uma política clientelística episódica que acaba por reforçar a
“exclusão” imposta aos assentados. Na construção de relações de re-
ciprocidade mediadas pelo clientelismo (Palmeira, 1989), no caso do
assentamento Bela Vista, as mulheres têm sido elementos-chave, es-
pecialmente nos períodos eleitorais. Reproduzem-se de forma direta
relações de clientela, na base da reciprocidade. “As trocas envolvem o
voto e demandas dos assentados que vão desde interesses particula-
res, como acesso a médicos e hospitais, até benesses mais coletivas”
(Cabanilha de Souza, 1996, p.10).
Mais recentemente, a titulação para assentados da Fazenda Mon-
te Alegre ocorreu em um momento crítico da relação entre o governo
estadual e o movimento dos sem-terra, acirrado por prisões e ações
políticas que tiveram profunda repercussão na sociedade civil. A
titulação aparece, nesse contexto, como expressão da boa vontade do
Estado em solucionar conflitos envolvendo a posse da terra, mediante
uma lógica de reciprocidade empenhada em dissimular a violência pre-
sente nas ações dos fazendeiros respaldadas por atos do Judiciário. A
titulação aparece mais como retrato da cultura da dádiva, que tem
sido, em distintos tempos, alimentada pelo Estado como forma de dis-
simular focos de resistência. A titulação da terra não mudou efetiva-
mente a situação de abandono e as dificuldades enfrentadas pelos
assentados, nem alterou a exclusão imposta às mulheres. Aqueles que
têm conseguido viver na terra o fazem, em dimensão significativa, por
força de estratégias familiares.
Procurando estabelecer um equilíbrio entre duas lógicas que se
fazem presentes na organização dos projetos de assentamentos – uma
presidida pelo imperativo da integração na racionalidade capitalista,
outra constituída pelos assentados, homens e mulheres, na orientação
de suas ações –, a resposta paternalista do Estado tem que ser com-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998 143


preendida em um complexo quadro de conquistas, revoltas e tentati-
vas de dissimulação da violência.
Na re-invenção dos assentados de formas para viver na terra, é
importante salientar que a composição da renda por meio de outras
atividades produtivas rurais ou urbanas parece depender essencialmente
da mulher. Ao homem, cabe assumir a responsabilidade pelas decisões
de comercialização, de organizar, de gerenciar o lote, contabilizando
as diferentes e possíveis fontes de renda (Castro & Cappelin, 1996).
As atribuições masculinas e femininas não têm, em todos os mo-
mentos da vida dos assentamentos, fronteiras rígidas. Há relativa co-
laboração entre homens e mulheres na definição do futuro do lote.
O fato de as agências técnicas exigirem, no presente, a assinatura
do casal para completar operações de crédito e de financiamento con-
tribuiu para esse planejamento conjunto. Mais uma vez, uma exigên-
cia externa a se impor, o que não significa que as mulheres passaram
a ter efetivamente poder de decisão. “A última palavra é do homem”,
repete-se em vários depoimentos colhidos. Muitas vezes, após a assi-
natura conjunta de um compromisso diante das instituições que
interagem nos assentamentos, a volta ao espaço doméstico se dá em
um clima conflituoso de tensões, ameaças e formas dissimuladas ou
explícitas de violência.
Assinar em conjunto representa a aceitação de regras impostas.
O pacto quebra-se no âmbito doméstico/familiar. Embora as situações
sejam diferenciadas, a participação das mulheres nas diferentes estra-
tégias de formação de renda convive com a a reprodução de desigual-
dades e exclusões no âmbito das decisões.
Assentados, relações de poder, formas de violência de gênero e
perspectivas de reversão da presente exclusão social não são, pois,
situações predefinidas, ou capazes de serem resolvidas por receituári-
os. Delineiam-se perspectivas de construção de trajetórias sociais pos-
síveis para os assentados, homens e mulheres, ex-bóias-frias, para os
“mediadores” e para o Estado, que se fazem presentes no campo de
lutas investigado, enquanto virtualidades, não definidas por critérios
estruturais ou identidades internalizadas.

144 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 121-147, 1997/1998


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■ ABSTRACT: This paper deals with the building of experience in the rural
settlements in relation to the conflict between the demands of the state project
and the attempt of creating a new way of life by the settled workers. The
tensions created in such a conflict are due to develop acts of violence in the
routine of every day and also in the relations of family and gender and of
production (or in the family, gender and production relations). There is also
on the part of women some episodes of refusal and resistence to what is
imposed on them.

■ KEYWORDS: Rural settlements; relations of gender; rural social; social rural


relations; social movements in the country; way of life.

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TEORIA SOCIAL
NOTAS A RESPEITO DA CONCEPÇÃO MARXIANA
DE MÉTODO PRESENTE NOS GRUNDRISSE

Jesus J. RANIERI1

■ RESUMO: Este artigo tem por objetivo considerar as relações existentes em


algumas das reflexões metodológicas de Hegel e de como elas foram incor-
poradas por Marx na abordagem a respeito do método presente nos
Grundrisse.

■ PALAVRAS-CHAVE: Hegel; Marx; metodologia; objetividade; trabalho.

Na relação entre sujeito e objeto do conhecimento, é sempre pos-


sível argumentar que a fundamentação necessária da investigação le-
vada a efeito por uma determinada teoria passa, sem que o pesquisa-
dor tenha suficiente controle ou mesmo consciência disso, por uma
boa ou má escolha dos elementos componentes de seu arcabouço
axiomático. Por mais abrangente e, ao mesmo tempo, objetivo que
queiramos que seja o resultado de uma pesquisa iniciada, é pratica-
mente impossível considerá-lo no plano desta objetividade sem levar
em conta os motivos ocasionantes da escolha do objeto. Uma alterna-
tiva possível para realizar um recuo metodológico que se aproxime da
chamada objetividade pode se encontrar não necessariamente na pers-
pectiva instaurada a priori pelo observador no trato direto com o seu
objeto, mas, ao contrário, na perspectiva segundo a qual este último

1 Doutorando em Ciências Sociais – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Unicamp – 13081-970


– Campinas – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 151


pode ser, em si mesmo, auto-referente. Precisamente, mais que decor-
rência de um construto proveniente da organização da verdade valen-
do-se dos atributos do sujeito, é preciso que o objeto se ponha e se
mostre enquanto desenvolvimento, autoconstituição e, somente a par-
tir daí, elemento passível de desvendamento.
É objetivo deste artigo acompanhar como uma determinada “re-
solução” metodológica alimenta-se da perspectiva do conhecer como
lugar cuja probabilidade racional depende antes daquele tipo especí-
fico de compreensão imanente do que está sendo estudado do que da
interpretação exterior ao ente – a chamada subsunção ao “arbítrio” do
sujeito. Para ser preciso, como, com base em uma certa arquitetura, o
vislumbre do objeto é resultado unificado de uma idéia determinada
de sistema: a unidade entre lógica, ontologia e teoria do conhecimen-
to, ou, como dirá Marx, unidade que constitui o “método cientifica-
mente correto” (Marx, 1976, p.36).2 Especificamente, objetiva mostrar
a relação existente entre a resolução metodológica marxiana presente
em especial na “Introdução” aos Grundrisse e aqueles elementos que,
sugeridos e realinhados, a influenciaram diretamente, em larga me-
dida, tendo como base as reflexões desenvolvidas na Enciclopédia das
ciências filosóficas (A ciência da lógica) e, menos, nas Linhas funda-
mentais da filosofia do direito, de Hegel.

Se na produção do jovem Marx podemos fazer uma segura refe-


rência à influência sofrida por ele de um autor como Feuerbach, por
exemplo, é também possível afirmar que esta não foi tão significativa e
duradoura como a exercida pelo sistema hegeliano, este sim acompa-
nhando a reflexão e a produção marxianas por um período muito mais
longo, mesmo no de mais intensa atividade intelectual, a chamada fase
de “maturidade”. Na juventude, se a presença de Hegel podia ser sen-
tida na absorção marxiana de algumas categorias fundamentais, como
as de mediação, alienação e estranhamento – e essas duas últimas apre-
sentadas numa reposição bastante original, sob considerações materia-

2 Seguimos aqui a expressão usada pelo próprio Marx na “Introdução” aos Grundrisse: “die
wissenschaftlich richtige Methode”.

152 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


listas em vez de idealistas –, é verdade que, do ponto de vista do de-
senvolvimento do “método”, permanece em Marx uma forte articula-
ção sintética dos desenvolvimentos levados a efeito por Hegel naquilo
que diz respeito à exposição do objeto na sua imanência. Quer dizer, o
próprio percurso do objeto é que coloca a questão do conhecimento
parelha com o desenvolvimento do ser, posto que somente na dissolu-
ção das determinações desse objeto se observa e se compreende a for-
mação resultante – o método sendo o próprio fluir do conteúdo.
O fundamental a reter, no entanto, é que a forma com que Marx
incorpora esses fecundos desenvolvimentos de Hegel – que aparecem
especialmente no conteúdo da Ciência da lógica – é legitimamente reas-
sumida em moldes não idealistas, ainda que sejam verdadeiramente
hábeis e corretas as conexões demonstradas por Hegel das articulações
efetivamente presentes nos planos do ser, da essência e do conceito. De
maneira geral, a condução expositiva feita por Marx da lógica do capital
leva em conta esta demonstração que considera tanto a realização
determinativa final do objeto já posto, configurado na sua especificidade
de elemento sintético, quanto a particularidade das categorias que, no
plano da história real, levam a esta configuração.
Nesse sentido, o conteúdo do proceder metodológico marxiano se
põe como o conceito de exposição (Darstellung) – explicitação racio-
nal-imanente do objeto, no interior da qual só pode subsistir aquilo
que foi adequadamente compreendido (Müller, 1982, p.17).3 Do ponto
de vista da extensão cognitiva do método, esse princípio da exposição
(a inteligibilidade do ser no seu movimento imanente), apesar de pres-
suposta, ignora, significativamente, todo e qualquer amparo epistemo-
lógico que porventura venha cingir a racionalidade intrínseca daquilo
que está sendo cunhado pela investigação, pesquisa que depende fun-
damentalmente do caráter já desenvolvido da concretude do objeto.
Em resumo, podemos afirmar que, para Marx, expor corretamente sig-
nifica fundar, para a qualificação correta dos elementos componentes
do objeto, uma teoria das abstrações racionais (verständige Abstraktion)
(Marx, 1976, p.23) – ou seja, aquela forma, sempre adequada, de cap-
tação e apropriação do ser objetivo com base em suas determinações
particulares.

3 O texto do professor Müller foi de extrema utilidade na elaboração deste trabalho, pois contri-
buiu para dirimir dúvidas, assim como na direção escolhida para o desenvolvimento de nosso
argumento, o que inclui alguns pontos de contato no que respeita à formulação dos conceitos de
exposição e crítica, além da concordância com algumas de suas conclusões.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 153


Nesta consideração é possível localizar, de forma clara, um dos
aspectos importantes da herança hegeliana incorporados por Marx,
tendo como base o texto do próprio Hegel:

Quanto mais um objeto é concreto, tanto mais lados tem, que lhe per-
tencem e podem servir de medius terminus. Qual dentre esses lados seja mais
essencial que o outro, isso depende, por sua vez, de um tal silogizar que se
atém a uma determinidade singular e pode para ela encontrar também facil-
mente um lado e um ponto de vista, segundo o qual ela se faz valer como
importante e necessária. (Hegel, 1995, p.319)

Para Marx, o método é a explicitação do desdobramento do ob-


jeto em dois níveis: em primeiro lugar, no que diz respeito às suas
articulações interiores e próprias; em segundo, a partir da forma se-
gundo a qual o pensamento capta e desenvolve esse mesmo movi-
mento no âmbito interno das determinações do objeto, até traduzi-las
em conceitos no interior de um discurso metódico (Müller, 1982, p.20).
Nesse sentido, nos Grundrisse, a dialética aparece como o desenvolvi-
mento do conceito de capital; a exposição como a crítica da contradi-
ção interior desse mesmo conceito com base em sua contradição fun-
damental – o trabalho enquanto potência subjetiva efetivadora do
capital.
Na Ciência da lógica, por sua vez, a dialética aparece como o
princípio motor do próprio conceito de conceito, uma vez que, ao apa-
recer como categorias do pensamento puro, a exposição procura al-
çar-se à realidade na tentativa de fundação do conceito enquanto
conceito de ciência. Cabe à lógica apoderar-se da realidade no intuito
de fazê-la tornar-se conteúdo do conceito. Sinteticamente, a dialética
significa a exposição do movimento lógico do conteúdo que se auto-
reconhece. A exposição é a instituição do próprio método. No abso-
luto, o mundo objetivo é sinônimo de atividade e efetividade. Nesse
aspecto, a vida torna-se idêntica ao seu conceito, a idéia torna-se
conceito de idéia, para o qual a idéia é propriamente objeto:
O método é ... não uma forma exterior, mas a alma e o conceito do con-
teúdo, do qual só difere enquanto os momentos do conceito vêm também
neles mesmos, em sua determinidade, a aparecer como a totalidade do con-
ceito. Enquanto essa determinidade, ou o conteúdo, se reconduz com a for-
ma à idéia, esta se expõe como totalidade sistemática, que é uma idéia, cujos
momentos particulares tanto são em si a mesma idéia, como produzem pela
dialética do conceito o ser-para-si simples da idéia. A ciência conclui desse
modo, apreendendo o conceito dela mesma como conceito da idéia pura, para
a qual é a idéia. (Hegel, 1995, p.370)

154 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


II
Sabendo da necessidade de traduzir as articulações do real segun-
do suas próprias conexões, tanto Marx quanto Hegel preconizam a
unidade entre método e pensamento. Isto é possível porque, para am-
bos, cabe ao pensamento a captação da evolução objetiva da matéria e
somente a sua forma de proceder tem condições de abarcar e repor
categorialmente essas conexões, dissolvendo-as. Fundamental para a
constituição do verdadeiro é sua apropriação racional, ao mesmo tempo
que sua fundamentação racional. A mesma consciência (Hegel) que busca
ser si-mesmo tem responsabilidade nesta constituição, na medida em
que é sujeito daquilo que é posto no plano abstratamente categorial e
tende a tornar-se realidade. Da mesma forma, a auto-objetivação do
sujeito (Marx) requer interação entre o que se conhece e a progressão
da sociabilidade que molda o objeto do conhecimento.
O percurso que vai do mais simples ao mais complexo (do abstra-
to ao concreto) é o percurso que institui a verdade para o modo de
proceder do pensamento, ainda que não seja esta a forma última de
movimento do próprio concreto:

O concreto é concreto porque é síntese (Zusammenfassung) de muitas


determinações, portanto, unidade do múltiplo. No pensamento [o concreto]
aparece, assim, como processo de síntese, como resultado, e não como ponto
de partida, embora seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de
partida da intuição e da ideação, na medida em que o método do elevar-se
do abstrato ao concreto é somente o modo pelo qual o pensamento se apro-
pria do concreto para reproduzi-lo enquanto concreto mentalizado, mas de
modo nenhum o processo de gênese do próprio concreto. (Marx, 1976, p.36)

Em outras palavras, o interesse metodológico é apontar para o fato


de que a verdade não está inscrita no concreto imediato, mas na for-
ma segundo a qual ela se constituiu em concreto mediatizado: a ver-
dade mostrando-se como aquilo que corresponde à definitiva efetividade
do concreto.4 E a compreensão dos nódulos componentes tanto da

4 Também para Hegel o concreto só se apresenta como unidade sintética. O concreto é a própria
resolução da suprassunção (Aufhebung): “Esse racional ... embora seja algo pensado – também
abstrato –, é ao mesmo tempo algo concreto, porque não é unidade simples, formal, mas unidade
de determinações diferentes. Por isso a filosofia em geral nada tem a ver, absolutamente, com
simples abstrações ou pensamentos formais, mas somente com pensamentos concretos” (Hegel,
1995, p.167). E também: “Na singularidade concreta, de tal maneira que a determinidade sim-
ples na definição é apreendida como uma relação, o objeto é uma relação sintética de determi-
nações” (Hegel, 1995, p.361).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 155


mediação como da síntese efetiva só se expõem pela força do pensar.
Pelo modo de proceder do pensamento. A compreensão do objeto só
tem lugar se o concreto sintético for resultante metódico dos elemen-
tos abstratos que conformam a sua gênese. Em outras palavras, se o
método for tomado como o próprio fluxo das abstrações que vão tor-
nando objetiva a síntese final. A complexidade do objeto não está na
sua imediatez, mas na necessária decomposição dos elementos que,
no seu percurso, perfizeram seu ser singular e que precisam, agora,
ser reconhecidos segundo sua participação determinativa naquela sin-
gularidade – ou seja, a apreensão do papel particular que cada um
desses elementos desempenha, mediadores que são. Mas essa partici-
pação não é reconhecível, compreensível ou mesmo cognoscível no
âmbito fenomênico do objeto, na esfera do objeto tomado imediata-
mente. Apenas na sua decomposição naqueles elementos que são, ao
mesmo tempo, abstratos e objetivantes é que se recompõe no pensa-
mento o concreto mediado, o resultado do processo. Por isso é que
somente o ir-sendo do processo é que se apresenta como abstrato – o
concreto é processo já sintético.
Essa forma de proceder do pensamento que engendra a apresen-
tação do objeto como o próprio método fica clara em algumas passa-
gens da “Introdução” aos Grundrisse. Já ali, Marx polemizava com a
economia política ao apontar como o “método cientificamente corre-
to” aquele que respeita o percurso ontológico do ser, ou seja, aquele
em que o recurso às abstrações é o responsável pela integridade da
reprodução conceitual tanto da forma quanto do conteúdo do objeto.
Ao referir-se à produção como um elemento caracterizado pelo
desenvolvimento histórico-social (ou seja, tomando-a como um elemento
social que sempre apresentará determinações comuns) e não simples-
mente como a produção em geral, uma vez que esse conceito, apesar
de apresentar-se como geral, sofre determinações específicas à sua
época, Marx argumenta que:

todas as épocas da produção têm certas características comuns, determina-


ções comuns. A produção em geral é uma abstração, mas uma abstração
racional, na medida em que ela efetiva[mente] acentua, fixa, o [que é] co-
mum, poupando-nos, assim, da repetição. (1976, p.23)

A significação desse cuidado tem a ver com a preocupação em


destacar e isolar aspectos reais concernentes às formas de manifesta-
ção fenomênica dos objetos em questão. A intenção de Marx repousa
na tentativa de explicitar, por meio daquela racionalidade abstrativa –

156 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


ou abstração racional –, quais traços são comuns a todas ou a várias
formas de organização da produção. Provar que a produção em geral
não é a produção tomada em todos os seus momentos históricos in-
distinta e evolutivamente, mas aquela que retém traços desses dife-
rentes momentos no âmbito da particularidade investigada.
Reconsideração do pressuposto hegeliano da identidade entre iden-
tidade e não-identidade, a abstração remete ao entendimento sinté-
tico de uma certa forma de aparecer do objeto. Precisamente, conhe-
cer a diferença a partir do caráter da igualdade: ao considerar e reter
traços gerais, determinações comuns sem as quais não seria possível
conceber nenhuma forma de produção (Marx, 1976, p.23), o exercício
do método permite a apresentação desses mesmos traços como ele-
mentos reveladores do caráter já formado do diverso. Ao abstrair racio-
nalmente, proporciona-se à forma específica de produção sua singula-
ridade, pois a identidade é dada ou atingida pela sua diferença quando
comparada aos aspectos comuns ou gerais do conjunto das formas de
produção. Como diz Marx,

se as linguagens mais desenvolvidas têm leis e determinações comuns às


menos desenvolvidas, é justamente isto o que constitui o seu desenvolvimento:
a diferença [com relação] ao geral e ao comum. (1976, p.23)

Portanto, é fundamento da apresentação (outra variante de


Darstellung) do singular, a permanência da diferença com relação àquilo
que forma os traços comuns e as determinações que lhe são circuns-
tantes. É somente na esfera dos elementos específicos da nova for-
mação que se desvenda a particularidade de seu movimento interno,
sua racionalidade.
A separação entre o que é geral e o que é específico é condição
para a correta reprodução conceitual dessa mesma racionalidade, pois

as determinações que valem para a produção em geral, e que circunscrevem a


unidade – [unidade] que surge do fato do sujeito (a humanidade) e o objeto (a
natureza) serem o mesmo –, necessitam precisamente ser separadas, a fim de
que a diversidade essencial não seja esquecida. (p.23)

III
Do ponto de vista da apreensão científica da especificidade do
diverso, isto quer dizer que a simples exposição da particularidade

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 157


capital já o revela na sua contradição, uma vez que o seu universo é
o da não-exposição, posto que sua apresentação só se sustenta na esfera
fenomênica, mas nunca na da essência: se o capital se expuser essen-
cialmente ele se mostrará como uma totalidade que se contradiz a si
mesma, pois dela faz parte e nela repousa o elemento capaz de supri-
mi-lo e superá-lo enquanto relação social de produção – o trabalho.
Do ponto de vista da produção em geral não mediada (ponto de vista
da economia política), o capital é relação “natural, universal e eterna”
justamente por abandonar o que nesta relação é específico, ou seja, o
instrumento de produção acumulado (o trabalho morto) transforman-
do-se em capital, ou, para além disso, o trabalho vivo como a força
humana de trabalho que, enquanto valor de uso para o capital, garan-
te a sua sobrevivência e articulação estrutural.
A manutenção do caráter específico da diferença é, portanto, o
único meio de a reprodução conceitual ser fidedigna, uma vez que a
eliminação deste caráter impede que o objeto seja reposto no pensa-
mento de acordo com sua imanência histórica.
Esses aspectos são apontados porque a tematização da produção
e reprodução são centrais no projeto marxiano de autodeterminação
do indivíduo. Mas, para além disso, o que se pretende mostrar é que,
apesar de haver determinações que valem para a produção em geral,
não se deve deixar enganar pelo caráter de unidade: somente na se-
paração dos elementos que valem para o conjunto da produção é
que se reconhece a diferença essencial, apesar da permanência do uno.
A respeito, a reflexão hegeliana sobre aquilo que é determinação
histórica na sua diferença com a configuração particular, mas também
histórica, nos fornece elementos para partilharmos desta lógica
concernente ao método:

As determinações no desenvolvimento do conceito são, por um lado, o


conceito mesmo; por outro, porque o conceito é essencialmente enquanto
idéia, estão elas na forma do ser-aí, e a série dos conceitos [que se revelam
como] resultantes é, por isto e simultaneamente, uma série de configurações;
assim elas são consideradas na ciência ... No sentido mais especulativo o
modo do ser-aí de um conceito e sua determinidade são uma só e a mesma
coisa. Mas é de notar-se que os momentos, cujo resultado é uma forma ulte-
riormente determinada, precedem-no enquanto determinações do conceito
no desenvolvimento científico da idéia; mas não no desenvolvimento tem-
poral enquanto configurações. (Hegel, 1964, p.82)

Para Marx, o método permite a articulação sintética como aquele


momento do aparecer do concreto. É a forma pela qual o pensamento

158 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


se eleva do abstrato ao concreto, expondo este último como resultado
– o “concreto de pensamento”. A exposição dialética sintetiza o apa-
recimento desse resultado, o surgimento em processo que se põe como
o ato de produção real. Ao contrário da exposição hegeliana, na qual
a dialética é sinônimo do automovimento do conceito (o sujeito como
o determinante da forma por meio da qual se constitui o movimento),
a dialética é, do ponto de vista de Marx, a manifestação da razão que
se realiza sob a força da efetividade material:

O que para a dialética especulativa é a auto-exposição do movimento


imanente do conteúdo, a forma desse desenvolvimento enquanto ela tem
consciência de si na idéia, método no sentido subjetivo e objetivo (“alma e
substância”), torna-se para Marx, de um lado “método de reprodução do con-
creto”, “movimento das categorias”, e de outro, gênese real, “ato de produ-
ção efetivo”. (Müller, 1982, p.29)

Dessa forma, o concreto empírico-sintético constitui o ponto de


partida e, ao mesmo tempo, o pressuposto da exposição. O resultado
desta última é o concreto verdadeiro, o que, para Marx, é o produto da
capacidade de representar, preconceber, transformar em conceitos o
que antes não passava de intuição e ideação. Portanto, a dialética é,
ao mesmo tempo, tanto o método de exposição quanto o movimento
efetivo do conteúdo.
A dialética resume-se então na “demonstração” metódica do
movimento da matéria, cujo conteúdo somente pode estar em con-
dições de ser compreendido se sua maturidade o permitir: para ser
adequadamente exposto, não só o pensamento, mas também o objeto
precisam estar em conformidade com a cientificidade do método (que
é o seu próprio ir-sendo), ou seja, o objeto só pode ser exposto se, por
um lado, sua apropriação analítica for possível e, por outro, se suas
articulações interiores estiverem em condições de ser desvendadas pela
análise crítica daquele mesmo conteúdo. Em resumo, se as categorias
avançadas subsistirem como elementos particulares pertencentes à
nova formação social e forem capazes de revelar as conexões imperantes
no interior desta última.

A sociedade burguesa é a mais desenvolvida e múltipla (mannigfaligste)


organização histórica da produção. As categorias que expressam suas rela-
ções, [e] o entendimento de sua articulação, proporcionam, por isso, simulta-
neamente o conhecimento da articulação e [o conhecimento] das relações de
produção de todas as formas de sociedade anteriores (untergegangnen), so-
bre cujas ruínas e elementos ela se constitui, e das quais momentos ainda

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 159


não superados dos resíduos se arrastam nela, não mais que indícios formados
e desenvolvendo-se na [e segundo a] sua importância etc. A anatomia do
homem é a chave para a anatomia do macaco. (Marx, 1976, p.40)

Cabe, portanto, ao método apropriar-se analítica e criticamente


do conteúdo do objeto, que tem de ser penetrado e decomposto racio-
nalmente, e o papel de suas determinações fundamentais resgatado
com base na hierarquização categorial que plasma aquele conteúdo.
Do ponto de vista do desenvolvimento do conceito de capital, esta
categoria central do sistema marxiano, tem-se que a magnitude de
seu entendimento depende de uma reconstrução categorial das des-
cobertas da economia política para que a exposição do desenvolvi-
mento conceitual seja fiel à racionalidade intrínseca à própria coisa. O
método marxiano leva em conta que a determinação última da reali-
dade é propriamente uma contradição real e não simplesmente um
movimento lógico de autoconstituição do conceito ou automanifesta-
ção da razão, tal como é concebida a dialética para Hegel.
A apreciação ontológica do capital, sua exposição, somente tem
lugar se considerado o seu movimento imanente. O conceito de capital
é esta unidade. A imanência é a contradição da valorização do capital na
sua relação com o trabalho vivo tornado trabalho abstrato objetivado –
trabalho subsumido à universalidade do trabalho morto (Marx, 1981,
p.360). O método expositivo é justamente o desvendamento dessa rela-
ção e dessa subsunção imanentes, pois é na valorização do capital que
se encontra a finalidade última da reprodução social sob o capitalismo.
É portanto no âmbito da tematização do trabalho abstrato – sua
constituição lógica na relação que mantém com o capital – que se
desdobram a análise e a avaliação crítica do capitalismo com base no
método. O trabalho abstrato enquanto trabalho abstrato objetivado é o
elemento que reúne em si, ao mesmo tempo, tanto o conteúdo
ontológico da exposição dialética quanto as conexões entre as cate-
gorias que tornam possível esta mesma exposição. Para além do ele-
mento empírico puro e simples, o concreto configura-se como o seu
próprio resultado, e seu reconhecimento enquanto realidade contradi-
tória só é factível por intermédio do movimento do pensamento, ou
melhor, do acompanhamento correto do percurso dessa contradição
por meio da teoria. Precisamente, o verdadeiramente concreto só o é
porque é passível de reconstrução sintética no pensamento por meio
da conceituação abstrata.
Se na Ciência da lógica o ato dialético da especulação tem a ver
com a forma segundo a qual o espírito se desenvolve historicamente e

160 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


por meio desse desenvolvimento das figuras ele chega à esfera de es-
pírito puro (o puro pensar, o saber absoluto, lugar onde ser e pensar se
unificam), é verdade que para Marx a plena exposição do conteúdo
dialético do capital só se põe como efetiva e historicamente possível
quando este deixa de ser potência, possibilidade embrionária, e passa
a ser realmente poder, ato de dominação total, assim como objeto cuja
imanência de suas leis pode ser completamente desvendada e repre-
sentada idealmente – até atingir a forma do concreto, complexo e ver-
dadeiro. Formalmente, a formação social capitalista é o momento em
que o conceito de capital e sua realidade efetiva estão identificados.
A concepção de domínio do todo (o entendimento do real enquanto
totalidade) reúne Marx e Hegel quando se pensa na unicidade do
método. Da mesma forma que na Ciência da lógica o conceito aparece
como aquilo que tudo abarca, o elemento que se sabe enquanto o todo
no qual a atividade é o seu próprio conteúdo (Hegel, 1995, p.366) e a
coisa pensada é o que subsume ao método, nos Grundrisse tem-se
que o capital na sua valorização, concentração e contínua acumula-
ção aparece como elemento que terá seu conceito correspondendo à
efetividade da realidade capitalista – a transformação do trabalho con-
creto em trabalho abstrato objetivado; a absorção universal do traba-
lho como valor de uso para o capital.

O trabalho não é apenas o valor de uso que se defronta com o capital,


mas o valor de uso do próprio capital. Como o não-ser do valor enquanto
[algo] objetivo o trabalho é seu ser não-objetivo, seu ser ideal; [o trabalho é] a
possibilidade do valor enquanto atividade de posição do valor (Werthsetzung).
(Marx, 1976, p.218)

Precisamente, o capital como totalidade formadora do mundo ca-


pitalista por intermédio da forma mediante a qual ele se apropria do
trabalho.
O que sublinha a potencialidade do método expositivo é a consi-
deração do processo histórico que engendrou, de um lado, a separa-
ção do trabalhador das condições objetivas do trabalho, incorporadas
agora ao capital, e, de outro, a plena despossessão do trabalhador que
aparece diante do capitalista – reiterando aquilo que já havíamos dito
antes a respeito – como uma personificação do trabalho abstrato. Em
outras palavras, trata-se da não-propriedade do trabalho por parte do
trabalhador e, ao mesmo tempo, da propriedade do trabalho objetivado
sobre o trabalho vivo ou da apropriação do trabalho estranho, alheio
(fremder Arbeit) pelo capital (Marx, 1981, p.698-9). Trata-se de uma

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 161


massa de trabalho vivo que pode ser negociada como mercadoria – ou
seja, mercadoria que sob a valorização do capital aparece na forma
simples da circulação, na medida em que não se valoriza (Marx, 1976,
p.198) – e com a qual confrontam-se as condições objetivas de traba-
lho (o trabalho objetivado) na forma de capital. Portanto, a maquinaria
e o trabalho assalariado são formas hostis que se confrontam direta-
mente com o trabalho vivo como elementos alheios a ele, que o sub-
jugam (Marx, 1981, p.698-9).
O conceito de capital atinge a concretude (sua definitiva afinidade
para com a realidade) porque a ele corresponde a universalização do
domínio do trabalho assalariado e a transformação concomitante do tra-
balho concreto em trabalho abstrato, traduzido este último na manu-
tenção geral do valor de troca como a efetiva medida do valor. A reali-
zação da forma mercadoria se dá somente na medida em que aquele
que a possua possa tomá-la, sempre, do ponto de vista do valor de
troca, ou seja, uma grandeza somente definível pela quantidade de tra-
balho abstrato despendido, entendido o trabalho abstrato como aquele
ingrediente capaz de nivelar qualidades concretas e, portanto, singu-
lares – trabalho reduzido a uma quantificação comum que leva às abs-
trações dos diversos valores de uso:

o trabalho, ao defrontar-se com o capital, é trabalho enquanto valor de uso


que se defronta com o dinheiro posto enquanto capital; não este ou aquele
trabalho, mas o trabalho pura e simplesmente [o trabalho em geral], trabalho
abstrato, [que possui] a absoluta indiferença contra a determinidade particu-
lar do trabalho, [na medida em que] está apto a incorporar toda determinidade.
(Marx, 1976, p. 216-7)

Portanto, não só não aparece o valor de troca como determinado


pelo valor de uso, como a mercadoria somente é mercadoria mediante
o capital na medida em que se realiza enquanto valor de troca: o valor
de uso é um portador (Träger) do valor de troca. É somente no ato da
objetivação, na exteriorização (Entäusserung) da mercadoria e na sua
troca com outras mercadorias que o possuidor pode almejar valores de
uso (Marx, 1981, p.740).

A apropriação mediante a exteriorização (Entäusserung) [da mercado-


ria] é a forma fundante do sistema social de produção, cuja expressão mais
simples e mais abstrata aparece como o valor de troca. (Marx, 1981, p.740-3)

No plano da relação estabelecida entre capital e trabalho o con-


fronto se dá entre eles como confronto entre dois elementos estranhos

162 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


um ao outro na própria configuração final desta relação, na medida em
que o antagonismo que os une é o da apropriação – por parte do tra-
balho objetivado e acumulado enquanto capital – do trabalho vivo:

O trabalho que se defronta com o capital, é trabalho estranho (fremde


Arbeit) e o capital, que se defronta com o trabalho, é capital estranho (fremdes
Capital). Os extremos, que se confrontam, são [as] diferenças específicas [en-
tre o capital e o trabalho]. (Marx, 1976, p.189)

Distintamente de formações sociais anteriores à capitalista, trata-


se agora da oposição generalizada entre valor de troca (enquanto for-
ma de reprodução do capital) e valor de uso (enquanto expressão do
trabalho concreto, útil). Trata-se de uma forma de aparecer do capital
em que este se encontra no interior do valor de uso como valor de
troca, sendo que a subordinação do valor de uso ao valor de troca está
em que sua fruição é impossível se este último não se puser como
manifestação e forma de ser da mercadoria. Fora da vendabilidade o
valor de uso não resiste, na medida em que, substancialmente, o con-
teúdo do valor de troca é propriamente o caráter específico do traba-
lho sob o modo de produção capitalista, ou seja, sua característica de
trabalho objetivado em contraposição à capacidade subjetiva (o traba-
lhador mesmo) de produzir trabalho, posto que esta subjetividade é a
mola propulsora da reposição permanente da força de trabalho na sua
especificidade de produtora de valor. Sob o capital, estas qualidades
(objetividade e subjetividade) estão estruturalmente separadas, já que
é no trabalho morto (trabalho e capital acumulados) que reside a pos-
sibilidade imanente de desenvolvimento e de concentração progressi-
vos do capital.
Aqui, a mercadoria força de trabalho está destinada a concorrer
no mercado – com o seu valor (de uso) produtor de valor (de troca) –
como acontece com qualquer outra mercadoria. Em outras palavras,
as determinações sociais engendradas pelo capital põem o trabalho
abstrato como o limite real das relações de trabalho, anulando qual-
quer forma de vínculo que, antes, colocava o trabalhador ao lado dos
meios de produção como um elemento que estava além da mera ca-
pacidade de trabalho, capacidade esta que se destina, agora, a ser
valor de uso para o capital.
Nesse sentido, não é o modo de utilização (ou não) da mercadoria
pelo comprador que interferirá na determinação do valor de troca, mas
a quantidade de trabalho objetivado nela contido (Marx, 1976, p.205),
justamente este trabalho que, diante do capital, toma a forma de não-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 163


capital, de valor de uso gerador de valor. No caso do trabalhador, so-
mente o ato de dispor de seu trabalho mediante a troca possui objeti-
vamente valor, na medida em que isto se põe como uma medida con-
creta de sua capacidade subjetiva de trabalho. Mas enquanto trabalhador
mesmo seu desvalor (Werthlosigkeit) e sua desvalorização (Entwerthung)
aparecem, genericamente, como pressupostos para o capital e condi-
ção para o trabalho livre (Marx, 1976, p.211). Historicamente trata-se
do trabalhador, enquanto persona, posto para si como elemento fora de
seu trabalho; sua manifestação de vida (Lebensäusserung) externalizada
somente como aqueles meios de manutenção de sua própria vida, uma
relação caracterizada pela vendabilidade como anuência jurídica
(Veräusserung), ou seja, como o elemento último que determina e legi-
tima o caráter daquela manifestação (Marx, 1976, p.211).
A forma pela qual se expressa o valor revela, então, para Marx,
uma concepção da atividade do trabalhador como exteriorização e re-
torno a si da sua capacidade viva de trabalho: o capital enquanto potên-
cia que se autovaloriza; a força de trabalho como produtora de um
valor que ultrapassa o seu próprio. E, para além disso, expressa tam-
bém a mais complexa e completa separação entre o trabalho e as con-
dições objetivas de sua realização. Expressa a preponderância universal
do trabalho abstrato como definidor da especificidade das categorias
econômicas e essa determinação como a responsável pelo caráter ilu-
sório de atribuição de qualidades às mercadorias, sendo essas quali-
dades mesmas elementos intrínsecos ao processo social de produção.
Nesse sentido, o desvendamento do caráter fetichista da mercadoria é
a revelação da face real dessa forma de aparecer do valor.
No interior do capitalismo a produção é exteriorização (Entäusse-
rung), cujo conteúdo social aparece como atribuição imanente da
valorização, e os produtos do trabalho como exteriorizações,
objetivações resultantes de uma progressiva subsunção da base eco-
nômica à universalidade do trabalho abstrato. Dessa forma, produção
e produto somente podem existir enquanto tais na medida em que
são o resultado dos diferentes trabalhos privados postos enquanto a
forma social de dimensionamento do trabalho abstrato. Trata-se da
progressiva capitalização do trabalho aparecendo como a valorização
do capital, relação que se coloca tanto do ponto de vista da produção
quanto do conjunto da reprodução social.
Na medida em que a valorização se põe como a finalidade última
do sistema, não há ponto de chegada aceitável para o capital, a não ser
aquele do progresso incondicionado de sua capacidade de expansão,
ou seja, o ponto de chegada é sempre, também, o de partida em dire-

164 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


ção ao desenvolvimento extremo de sua lógica, pois “uma produção
autofinalizada pela expansão do valor converte-se, por sua vez, na fi-
nalidade e no conteúdo únicos do trabalho” (Müller, 1982, p.36), o que
significa que, do ponto de vista do método – ou da exposição da ima-
nência do percurso do capital –, têm-se como forma de compreensão
do conteúdo do desenvolvimento social sob o capitalismo, em primeiro
lugar, a produtividade do trabalho como produto da lei cega da incon-
dicional valorização do capital, elemento que é condizente com a ex-
pressão de uma produção cuja finalidade em si é sua própria autopro-
dução constante; e, em segundo, a subordinação dos indivíduos e de
suas vidas à forma estrutural de sociabilidade do capital.
Por isso, em Marx, a correspondência entre realidade e conceito
tem o significado de suceder-se à exposição das categorias da econo-
mia política, pois ela já aparece como possibilidade teórica de recons-
trução categorial do movimento próprio do capital no interior do capi-
talismo. Quer dizer, a exposição da trajetória do capital no interior de
sua racionalidade expressa a composição da estrutura econômica da
sociedade capitalista na sua forma de reprodução a partir do percurso
do próprio capital; a exposição das categorias componentes do capital
enquanto aquilo que elas são na sua determinidade.
A diferença fundamental entre o conceito hegeliano de conceito
(a idéia) e o conceito marxiano de capital está presente no fato de que,
no primeiro, “cada coisa, como conceito, reconhece a sua atividade
mais própria e profunda, o seu si-mesmo” (Müller, 1982, p.38), a sua
imanência interior ao conjunto do discurso metódico como a própria ex-
posição do pensamento puro,5 ao passo que, no caso do capital, a
expressão de sua plenitude só encontra guarida nas formas assumidas
pela extensão da acumulação e valorização do próprio capital. O sujei-
to revela-se aqui como o elemento estruturador da “substância econô-
mica” por meio da valorização do capital, processo ancorado naquela
já descrita relação entre trabalho concreto e trabalho abstrato – a ação
do sujeito (o capital) está, tal qual o sujeito hegeliano, circunscrita às
mediações que revelam o seu próprio resultado, ou seja, trata-se de

5 “Porque a idéia absoluta não tem nela nenhum passar, nenhum pressupor e, de modo geral,
nenhuma determinidade que não seja fluida e translúcida, a idéia absoluta é para si a forma pura
do conceito, que intui seu conteúdo como a si mesma. É, para si, conteúdo, enquanto é o seu
diferenciar ideal entre si e si mesma, e um dos termos diferenciados é a identidade consigo, mas
na qual a totalidade da forma está contida como o sistema das determinações-do-conteúdo. O
conteúdo é o sistema do lógico. Como forma, nada resta aqui à idéia senão o método desse
conteúdo: o saber determinado do valor de seus momentos” (Hegel, 1995, p.367).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 165


uma finalidade voltada a si mesma. A consciência do sujeito não se
revela, porém, como a pressuposição idealista do conceito que se sabe
a si mesmo, mas como um nebuloso artifício de poder que cega, para
as persona do capital, a contradição imanente à circunstância de sua
dominação. O capital é, em si mesmo, um sujeito cego. No sentido da
expectativa ética que rege a perspectiva hegeliana,6 o capital enquan-
to conceito não é capaz de corresponder à sua realidade. Do ponto de
vista de Marx, ponto de vista da concretização material, ainda que a
pretensão do capital enquanto sujeito seja a plenitude de sua domina-
ção, ela está impossibilitada porque, no limite, sua dependência do
trabalho humano não pode ser suprimida, uma vez que somente a
relação com o trabalho vivo é geradora da lógica interna de desenvol-
vimento, acumulação e valorização do capital – a substância social
deste último é o próprio trabalho, o que o impede de agir como o
demiurgo hegeliano da realidade, sujeito criador que se harmoniza no
final do processo como idéia absoluta.
Portanto, a relação existente entre realidade e conceito não tem o
mesmo sentido quando analisados, interior e separadamente, os siste-
mas de Hegel e de Marx. Isto porque, enquanto na idéia hegeliana o
conceito deve abarcar a realidade e torná-la conforme a si, no capita-
lismo, a correspondência da realidade ao conceito de capital é
inalcançável, uma vez que o capital não pode, por mais que isso lhe
convenha (e, logicamente, é isto o que mais lhe convém), prescindir da
força de trabalho viva para sua reprodução. Sob o capital, forma e con-
teúdo não se harmonizam. A subversão de sua base de valorização, o
tempo de trabalho, é o resultado contraditório da produção daquela forma
mais próxima ao seu conceito, ou seja, o capital enquanto capital fixo.
Ao assim aparecer, e por estar além da pura exposição das cate-
gorias da economia política, é que a correspondência entre conceito e
realidade mostra-se como a relação incompleta da permanência do
capital. Mostra-se, na realidade, como a efetividade da não-correspon-
dência entre o que é conceito e o que é real.
O método em Marx possui, então, dois elementos centrais que o
conformam. Em primeiro lugar, tem o teor da exposição propriamente
dita, pois revela o capital como pretensão histórica de domínio sobre o

6 Ética cuja ação está configurada na atividade prática da idéia, ou seja, no bem: “A verdade do
bem é posta ... como a unidade da idéia teórica e da idéia prática, [de modo] que o bem é
alcançado em si e para si – o mundo objetivo é, assim, em si e para si, a idéia, tal como ao
mesmo tempo ela eternamente se põe como fim, e mediante atividade produz sua efetividade”
(Hegel, 1995, p.366, colchetes da tradução utilizada).

166 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


conjunto do elemento social, principalmente o trabalho. Em segundo,
a dialética tem o teor da crítica, uma vez que demonstra que aquela
correspondência entre conceito e realidade não se põe, em virtude do
caráter de contradição que move a lógica da reprodução e valorização
do capital. Em outras palavras, a exposição crítica designa que, se, por
um lado, é a especificidade da forma de ser de uma classe que garante
a possibilidade de a capacidade de trabalho ser reduzida a uma mer-
cadoria – e, com isso, constituir-se o capital quase como um sujeito
absoluto do processo social, ou seja, sendo virtualmente capaz de tra-
duzir e transformar o conjunto das relações sociais segundo a sua pró-
pria sociabilidade de valorização e acumulação –, é igualmente ver-
dadeiro, por outro lado, que, do ponto de vista da extensão “conceitual”
do capital, esta pretensão se põe como algo impossível, uma vez que ao
capital não é dada a possibilidade de eliminação plena do elemento
que o contradiz (e o anima) ontologicamente, o trabalho vivo.

IV
Como conclusão, devemos sumariar: o recurso à abstração é a
forma que Marx encontra para consolidar o método, do ponto de vista
daquilo que ele chama de “cientificamente correto”. É esse recurso –
pois o ser racional da abstração o é por encontrar na aparente igualda-
de a imanência e o valor da diferença – que garante a percepção e a
compreensão da relativa autonomia histórica do objeto. O sentido da
abstração está no seu papel de emprestar à especificidade do ser a
cadência própria do método, o permitir revelar como verdadeiro so-
mente o que em si já pode ser tomado como resultado; precisamente,
revelar o movimento particular das determinações no processo de com-
posição da singularidade.
A relação existente entre as chamadas abstrações racionais e a
expressão resultante do método expositivo-crítico de Marx, na sua di-
ferenciação para com o de Hegel, está localizada no arcabouço que as
referidas abstrações concedem à averiguação ontológica propriamen-
te dita. Os elementos componentes da forma já completada da relação
social capital só tiveram sua roupagem definida e desvelada no mo-
mento em que o próprio capital se pôs como base histórica da socia-
bilidade contemporânea, na sua diferenciação com as sociabilidades
anteriores. Nesse sentido, o caráter em si racional da abstração está
no trato dispensado à individualidade como forma de apropriação ideal
(lógico-causal) dos objetos.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 167


A conclusão marxiana de que realidade e conceito não se configu-
ram enquanto correspondência lógica quando se trata do capital tem a
ver com a integração existente entre pensamento e realidade do ponto
de vista material. Em vez de tomar o real como uma exteriorização
(Entäusserung) perene do espírito (Geist), no interior da qual o conjun-
to das manifestações históricas se põe (ou se pôs) como inevitabilidade
incontrolável pelo sujeito, Marx reúne os nódulos detentores da socia-
bilidade a partir da herança, também histórica, das formas de apropria-
ção de excedente de trabalho, sendo, esta última, a definidora das re-
lações sociais complexas, tanto no que tange às determinações mais
diretas relacionadas ao processo imediato de trabalho propriamente dito,
quanto naquilo que se refere – graças às mediações – às formas mais
complexas e superiores da produção humana.
Por isso o ambiente das abstrações é o verdadeiro terreno das
mediações. Por exemplo, a relação existente entre produção e con-
sumo é a primeira sobre a qual Marx se debruça para desenvolver,
com base na inter-relação das categorias que envolvem também a
distribuição e a troca, uma teoria das necessidades, na medida em
que o consumo reproduz a necessidade e sem esta não pode haver
produção.7 Não se trata, porém, de uma necessidade qualquer: a pro-
dução fornece uma necessidade ao objeto material. Ela gera no con-
sumidor a necessidade de seus produtos e não põe o seu produto
próprio simplesmente como um objeto seu. Ela cria um sujeito para
o objeto, pois a sociabilidade faz que o objeto seja o mediador do
próprio ato de consumo (Marx, 1976, p.29). Tanto o consumo do pro-
duto que vem direto do processo de trabalho quanto o consumo de
uma obra de arte obedecem a esse pressuposto porque o consumo
tem como seu caráter social geral a complexificação das relações
humanas.

7 Neste momento da “Introdução” aos Grundrisse, aparece um outro aspecto da absorção marxiana
de Hegel, notadamente a compreensão de Marx do conceito de efetividade: este autor defende
que o efetivo enquanto produto efetivo só o é quando consumido, e exemplifica argumentando
que uma casa desabitada não é uma casa efetiva (o conceito efetivo de casa). Portanto, o produ-
to só se torna efetivamente produto (o conceito de produto) no consumo. Em Hegel, por seu
turno, o efetivo está para além do que é real porque entre aquilo que é suprassumido (aufgehoben)
e o ser-aí (Dasein) do objeto, sua existência, coloca-se a condição para a efetividade, que é
resultado. O real, em si, não é racional do ponto de vista hegeliano. Somente a realidade tornada
sintética, suprassumida, é que se põe como o efetivo verdadeiro. O efetivo é reconhecido como
tal pelo fato de colocar-se acima do que é contigente, daquilo que, apesar de expressar possibi-
lidade de existência, pode não ser. Nossa impressão é que Marx procurou reter este rigor con-
ceitual preconizado por Hegel, ainda que não o fizesse segundo a perspectiva mistificadora do
idealismo.

168 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998


A complexificação e a posterior decifração das necessidades são,
portanto, a matéria para a teoria. Somente onde o desenvolvimento é
mais completo (onde a concretude congrega o processo mais comple-
xo) é que são passíveis de compreensão as abstrações mais gerais,
onde um elemento determinado aparece como comum a muitos, ou
mesmo a todos elementos componentes do processo de trabalho. Por
exemplo, a quantificação, em detrimento da qualificação, do conjunto
dos trabalhos sob o capital (Marx, 1976, p.39).
As abstrações têm a função última, portanto, de delimitar, articu-
lar, hierarquizar e revelar a amplitude das determinações no que elas
produziram de efetivo na constituição do objeto. A forma de proceder
do pensamento retém esta imanência, ordenando os atributos de cada
categoria concreta responsável pelos nexos componentes da totalidade,
sempre no sentido da síntese concreta. Parte-se do concreto na sua
imediatez e retorna-se, por meio das abstrações, ao concreto mesmo,
enriquecendo-o com os elementos que compuseram a sua trajetória
sintética.

RANIERI, J. J. Some remarks on the marxist conception of method in Grundrisse.


Perspectivas (São Paulo), v.20/21, p.151-169, 1997/1998.

■ ABSTRACT: This article aims to clarify which the existents relations between
some Hegel’s metodological reflexions and its Marx’s incorporation in the
Grundrisse.

■ KEYWORDS: Hegel; Marx; methodology; objectivity; labor.

Referências bibliográficas

HEGEL, G. W. F. Grundlinien der Philosophie des Rechts. In: __________.


Sämtliche Werke. Stuttgart: Friedrich Frommann Verlag, 1964, v.7.
__________. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio. Trad. Paulo
Meneses. São Paulo: Loyola, 1995. v.1.
MARX, K. Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie. In: __________.
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__________. Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie. In: __________.
MEGA. Berlin: Dietz Verlag, 1981. pte.2. v.1, t.2.
MÜLLER, M. L. Exposição e método dialético em “O capital”. Boletim SEAF
(Belo Horizonte), n.2, 1982.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 151-169, 1997/1998 169


DAS RELAÇÕES ENTRE ÉTICA E SOCIEDADE
NA TEORIA SOCIOLÓGICA DE DURKHEIM

Jorge Luis Cammarano GONZÁLEZ 1

■ RESUMO: Este artigo discute a temática das relações entre ética e socieda-
de na teoria sociológica de Durkheim, enquanto expressão de uma nova forma
de produção da vida material dos homens em sociedade: o capitalismo.

■ PALAVRAS-CHAVE: Ética; sociedade; trabalho.

“Para que impere a ordem social é necessário


que a massa dos homens esteja conformada com
a sua sorte, mas o que necessita para estar con-
tente não é que tenha mais ou menos, senão que
se ache convencida de que não tem direito a ter
mais. E para isto é absolutamente essencial que
exista uma autoridade cuja superioridade reco-
nheça e que lhe diga o que é correto.”
(E. Durkheim, O socialismo)

1 Introdução

Afirmo, preliminarmente, a impossibilidade de desvincular a


temática Ética-Sociedade das dimensões históricas, filosóficas e polí-

1 Departamento de Sociologia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP - 14800-901 – Araraquara –


SP.

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ticas que a perpassam. E isso porque o problema ético envolve uma
tensão sócio-histórica constante entre legalidade (o ordenamento jurí-
dico que submete ou coage o indivíduo ao dever-ser) e a moralidade.
Esta última, enquanto expressão da consciência do ser social, debate-
se ora com a aceitação ora com a contestação dos valores instituídos.
A opção valorativa dos homens em sociedade busca a identidade de
seus interesses e necessidades, com as possibilidades do agir, do pen-
sar e do viver social legalmente institucionalizados.
Esta argumentação introdutória nos conduz a refletir sobre a di-
mensão histórica dessas relações. Assim, a expressão “homens em
sociedade” traduz as formas de produção, criação, reprodução, con-
servação ou superação da vida material socialmente organizada.
A filosofia emerge desse processo enquanto concepção de mundo
e da vida, voltada para responder à razão de ser da vida, da natureza,
da história, do universo... E surge para se debater com o problema
gnoseológico e ontológico ou, ainda, com o problema da possível iden-
tidade entre pensamento e ser.
Por sua vez, a dimensão política caracteriza os processos insti-
tucionalizados, fundamentalmente gerados para historicamente deter-
minar os limites da apropriação e da distribuição da riqueza socialmente
produzida.
Torna-se necessário acrescentar que, ao mencionar a atitude filo-
sófica subjacente à filosofia e, portanto, imanente ao seu processo de
apropriação, refiro-me à tensão entre o ser e o dever-ser, característica
do universo temático das várias concepções filosóficas criadas como
expressões do processo de produção da existência humana. Tensão entre
o ser (o que é) e o dever-ser; ou ainda, entre o ser e as tendências e
possibilidades históricas do dever-ser. Tensão a partir da qual flui nos-
sa capacidade (mas também nossa incapacidade) de responder histori-
camente-socialmente: como penso e como devo pensar? E que possi-
bilidade de pensar de modo alternativo, diverso e/ou adverso ao modo
de pensar instituído, dominante, posso (podemos) criar? Como ajo e
como devemos agir? Como vivo e como devemos viver? E mais: quais
as possibilidades de superarmos nossas atuais formas e meios de agir e
viver? E, ainda, que instrumentos, que mediações poderíamos criar para
pensar, agir e viver de maneira radicalmente inovadora?
Considero esse elenco de indagações, aparentemente óbvias. E
isso porque reconhecemos que pensamos, agimos e vivemos. Mas se
nossas formas e meios de pensar, viver e agir constituem problema, se
expressam inquietação, incerteza, desconforto, intranqüilidade, angús-
tia, insegurança, mais uma vez estamos reafirmando e legitimando a

172 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


presença da Filosofia (das Filosofias) e da atitude filosófica de sociólo-
gos envolvidos com os problemas e desafios da nossa realidade social.
Fiz menção, anteriormente, ao processo de apropriação da Filoso-
fia. Cabe, então, antes de prosseguir, esclarecer o significado da ex-
pressão, pois esta traduz, na minha compreensão, duas dimensões
intrínsecas. De um lado, entendo apropriação como o movimento do
pensamento consciente, racional, do homem, visando captar, incorpo-
rar, apreender a dinâmica, o fluxo ou, ainda, o devir da realidade so-
cial; e isto enquanto sujeito histórico desse processo. Porém considero
igualmente importante entender o processo de apropriação nos con-
tornos (também históricos) do embate resultante de uma formação
social: o capitalismo; a realidade social perpassada por interesses so-
ciais excludentes, conflitivos e motivadores da retração da atitude filo-
sófica (ou da necessidade da filosofia) submersa na trama do processo
de fragmentação da consciência social, da alienação decorrente do e
pelo processo de trabalho.
Referenciado em Coutinho (1972), inclino-me a pensar que o cri-
tério para avaliar a cientificidade de uma filosofia do social envolve a
apreensão do processo de criação e/ou elaboração do conhecimento,
no sentido de analisar como essa concepção ignora, mistifica ou se
apropria das categorias econômicas constitutivas da modalidade fun-
damental da objetividade humana: o trabalho.
Além disso, neste cenário, buscamos compreender a teoria de
Durkheim nucleada nas suas concepções de Ética e Sociedade enquanto
concepção (filosófica) de mundo que investiga, analisa e intervém na
produção histórica da existência humana.
Aqui reconhecemos que os valores morais (como agir?) são
imanentes à vida dos homens em sociedade (como viver?). A possibili-
dade de transformação desses valores responde à expressão histórica
assumida pela criação, reformulação, avanços e/ou retrocessos das for-
mas de produzir e organizar a vida material da humanidade. Nesta pers-
pectiva, reafirmo: a Filosofia permite-nos a possibilidade de analisar os
conceitos morais, a ética, a sociedade; na perspectiva de sua histo-
ricidade, no fluxo das ações dos homens em sociedade, criadas para
produzir, reproduzir e superar (ou não) as suas necessidades fundamen-
tais. E por quê? Ao responder, torno-me redundante: porque um dos
aspectos fundamentais da Filosofia é configurar-se enquanto concep-
ção de mundo, expressando a consciência histórica de homens, seres
sociais, permeados de interesses, necessidades e formas de existência,
cindidas a partir da atividade social fundante: o trabalho, sua divisão
social e das formas de apropriação da riqueza socialmente produzida.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 173


Acrescento que a ética constitui uma relação social e, como tal,
tem duas facetas. A primeira é representada pelos imperativos exte-
riores – sistema de normas externas: legalidade. O sistema de normas
externas pode estar em harmonia com as exigências individuais; isto
ocorre sempre que a comunidade seja sólida e o indivíduo a considere
e a identifique como (sua) própria. Mas podem estar em contradição
com as exigências individuais ou serem tão frágeis (período de disso-
lução) que não ofereçam ao indivíduo uma base suficiente para supe-
rar sua própria particularidade e agir em conformidade com a legalida-
de externa, representativa da motivação de qualquer ação. A segunda,
referencia-se na relação do indivíduo com o sistema de imperativos
gerais. Nesta relação o indivíduo remete sua consciência aos conteú-
dos desse sistema, aderindo a eles ou rejeitando-os. Sua aceitação ou
negação dos conteúdos implica um processo optativo, e este repre-
senta o problema da moralidade.
Observamos que, em Durkheim, as relações entre Ética e Socie-
dade evidenciam-se mediante a análise da divisão social do trabalho
na sociedade industrial – processo marcado pela solidariedade orgâni-
ca, a moral profissional e a moral cívica, componentes vitais na efetiva
consolidação das relações entre Indivíduo, Sociedade e Estado.
Menciono, como ponto conclusivo desta introdução, que o proce-
dimento teórico-metodológico aqui adotado limita-se à investigação
da lógica imanente ao pensamento teórico de Émile Durkheim. Esta
análise privilegia a produção teórica do referido autor, buscando com-
preender suas concepções de Ética e Sociedade, na explicitação do
surgimento de uma nova forma de produção da vida material dos ho-
mens em sociedade: o capitalismo. O tratamento teórico assumido
subordinará a dimensão histórica do objeto ao seu exame lógico.
A seguir, esta exposição resgatará alguns precedentes históricos
e teóricos que incidem na produção teórica de Durkheim.

2 Do Iluminismo ao socialismo utópico

2.1 Retomando as raízes

O conhecimento científico deveria dar aos homens o controle de


sua sociedade e de sua história, assim como a física e a química lhes
possibilitaram o controle das forças naturais. Essa observação repre-
senta o problema central ao redor do qual gravitam os pensadores da

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época das Luzes. E é dos desafios e das respostas oferecidos a essa
problemática que será extraída importante parcela da matéria nutrien-
te dos ideais revolucionários que permeiam o século XVIII.
Quais os fundamentos teóricos, filosóficos de uma ciência da Socie-
dade? Qual o método capaz de possibilitar a indagação e a apreensão
da realidade social? Qual a origem, a base ou, ainda, o fundamento do
conhecimento científico? Qual o critério que nos diz, concretamente,
se um conhecimento é ou não é verdadeiro? Qual a possibilidade de
elaborarmos um conhecimento objetivo, científico, da realidade social?
Essas indagações inquietam o espírito agudo dos pensadores
iluministas.
Para o Iluminismo, a mente pode apreender o universo e subordiná-
lo às necessidades humanas. A razão e a ciência permitiram ao ho-
mem alcançar graus cada vez maiores de liberdade, um gradativo e
crescente nível de perfeição.
Daqui derivam, em suma, os valores essenciais do pensamento
burguês clássico. Um deles é acenado pela burguesia européia, a par-
tir do século XX, constituindo o conceito burguês fundamental; trata-
se da liberdade.
No contexto histórico demarcado pelos séculos XVII e XVIII, a bur-
guesia, revolucionária, reivindica a existência de direitos naturais,
inalienáveis e iguais para todos. Busca-se o resgate do estado de na-
tureza, num esforço teórico respaldado no procedimento metodológico
hipotético-dedutivo e que tem pilares fundamentais em Rousseau e
em Hobbes. Tal busca proclama o anseio pelo reimplante da igual-
dade perfeita, da liberdade entre os indivíduos etc.
No lastro da polêmica em torno dos direitos naturais, a burguesia
européia, revolucionária, reivindica o seu direito à terra. Essa reivindi-
cação colide e conflitua com os interesses feudais e, fundamentalmen-
te, com os interesses eclesiásticos-feudais. Busca-se, afinal, incorpo-
rar ao universo dos direitos o direito à propriedade.
Procura-se também conquistar a igualdade jurídico-formal, vislum-
brando-se nesta a legitimação das diferenças econômicas entre os
indivíduos em relação à propriedade, diferenças que poderão então
recair nos atributos pessoais, isto é, aptidões e/ou talentos naturais. A
burguesia revolucionária postula a igualdade natural entre os homens.
Investiga-se uma lei natural que governe o processo histórico,
considerando-se de fundamental importância a compreensão desse
processo enquanto totalidade, enquanto unidade legal.
Os estudos desenvolvidos no âmbito da Economia Política tradu-
zem a exata possibilidade de que a sociedade se transforme em objeto

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 175


de reflexão. E abrem o horizonte para a necessidade da transforma-
ção, da mudança social. O agente essencial desse processo é o indi-
víduo, o homem enquanto sujeito da história; homem livre, desvenci-
lhado dos laços estamentais do feudalismo; homem contendo uma
liberdade irrestrita e, conseqüentemente, a condição de realizar ple-
namente a felicidade humana.
No cume desse cenário, vertendo sua força em todas as fendas da
velha sociedade, deparamos com o Racionalismo. Esta é a tendência
fundamental que a Filosofia assume.
Este período de surgimento e desdobramentos da filosofia burguesa
alastra-se, basicamente, do Renascimento até Hegel (1770-1831).
O período de 1830 a 1848 marca o avanço da luta social, do em-
bate da burguesia com as classes trabalhadoras, e assinala o aban-
dono do universo filosófico caracterizado conforme observei anterior-
mente pelo humanismo, o historicismo e a razão dialética.
As novas vestes que ornamentam o corpo burguês são retalhos,
fragmentos de seu período revolucionário. Ao humanismo contrapor-
se-á um individualismo exarcebado; ao historicismo, a história frag-
mentada, desconexa, incapaz de ostentar qualquer traço de
cientificidade; à razão, o irracionalismo; ao movimento contraditório
da História, a eliminação da causalidade, seu fim.
Subjacente a esse processo cabe salientar que as formas
introduzidas pelo capitalismo na objetividade social apresentavam
características revolucionárias:
• A destruição da divisão feudal do trabalho, transmutando a pessoa
do servo em trabalhador “livre”, amplia o âmbito da liberdade hu-
mana.
• A cooperação interna, a fábrica-concentração de trabalhadores, a
integração dos vários ramos da produção, o mercado internacionali-
zado etc. intensificam a generalização da socialização do trabalho.
• Ampliam a dimensão da ação individual possibilitando a apreensão
do processo de trabalho enquanto dotada de sentido (teleologia);
fator que estimula a busca dos nexos causais e da possível legali-
dade constitutiva da matéria social.

A Economia Política indicará, parcialmente, o caráter contraditó-


rio da nova objetividade, isto é, reconhece-se na divisão capitalista do
trabalho (divisão social do trabalho para Durkheim) seu caráter estrita-
mente contraditório. Tal contraditoriedade manifesta-se quando o tra-
balhador (servo), embora livre, transforma-se em mercadoria. E tam-
bém constatam-se sinais de contradição entre a socialização do trabalho

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e a apropriação individual (e privada) de seus produtos. Porém, no
horizonte pós-revolucionário assume dimensões crescentes e contor-
nos marcantes o pensamento conservador, mas também o movimento
socialista.

2.2 Conservadorismo e socialismo utópico

Prosseguindo esta exposição, passo a enumerar os traços básicos


do pensamento conservador.
Para a filosofia conservadora a sociedade é, sobretudo, uma verda-
deira máquina organizada, cujas partes contribuem todas, de diferen-
tes modos, ao movimento da totalidade. A união dos homens constitui
um verdadeiro ser, cuja existência é mais ou menos segura ou precária
segundo seus órgãos desempenhem com maior ou menor regularidade
as funções que lhes foram confiadas.
As leis sociais dominam os homens com absoluta necessidade e
tudo o que estes podem fazer é submeter-se. A maior aspiração que
eles podem alimentar é descobrir o curso ou a direção de tais leis –
tarefa da ciência positiva – para se ajustar a elas com o mínimo de
sofrimento.
A indústria é avaliada como a força unificadora e pacificadora do
corpo social. Neste, a divisão do trabalho implica maior interde-
pendência e mútua responsabilidade entre seus componentes. O sis-
tema industrial configura-se enquanto sistema de funções naturalmente
preenchidas.
No âmbito moral prevalece a máxima cristã do “amai-vos uns aos
outros”, princípio que busca assumir homogeneidade e poder temporal
do interior do corpo social para alastrar-se entre todos os seus membros.
O homem tem necessidades constantes e inalteráveis que cada
sociedade e cada uma das instituições estão destinadas a satisfazer.
As instituições são, pois, meios positivos por intermédio dos quais as
necessidades humanas básicas são satisfeitas. Se se alteram ou se
danificam esses meios o resultado será o sofrimento e a desordem.
A sociedade precede ao indivíduo e é eticamente superior a ele. O
homem não tem existência alguma fora de um grupo ou contexto so-
cial e somente chega a ser humano por meio de sua participação em
sociedade. Longe de serem os indivíduos os que constroem a socie-
dade, é esta que cria o indivíduo por meio da educação moral.
A existência e manutenção de pequenos grupos é essencial para
a sociedade. A família, a vizinhança, os grupos religiosos, os grupos

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 177


funcionais etc. são unidades básicas de uma sociedade, os suportes
básicos da vida dos homens.
O status e a hierarquia são considerados fundamentais para a
sociedade. A igualdade pode destruir os órgãos “naturais” e consagra-
dos pelo tempo que servem para transmitir os valores de uma geração
a outra. A hierarquia é vital na Família, na Igreja, no Estado; sem ela
a estabilidade social torna-se impossível.
Essas considerações redundam no universo requerido pelo pensa-
mento conservador para a sociedade européia pós-revolucionária e
influenciarão aspectos importantes da obra de Durkheim. Porém, an-
tes de voltar nosso interesse para o posicionamento teórico de
Durkheim, observemos outra corrente de pensamento social, também
emergente do processo revolucionário da sociedade européia: o socia-
lismo utópico.
As teorias políticas dos grandes socialistas utópicos – Saint-Simon,
Fourier e Owen – foram precisamente expressão da indignação espon-
tânea das massas operárias e do semiproletariado contra o novo regi-
me capitalista, contra a opressão e a miséria; manifestam, enfim, a busca
de um novo regime social.
A pujança dessa vertente, que desaguará em águas mais profun-
das e turbulentas, incide na crítica às novas condições de vida das clas-
ses trabalhadoras, à exploração desmedida dos homens livres, à se-
qüela de males sociais que a coisificação das relações traz: miséria,
desemprego, prostituição etc.
A fragilidade do novo modo de produzir a vida encontra-se, con-
forme os socialistas utópicos, na falta de racionalidade, na ausência de
justiça, de administração, mas também de moralidade.
Detenhamos, então, nossa atenção num dos representantes dessa
corrente, cuja influência marcará presença nas formulações teóricas
de Durkheim (e também de Comte e de Marx): Saint-Simon.

2.3 Br e v e comentár io acer ca de Saint-Simon

Saint-Simon (1760-1825) é crítico tenaz e permanente das injusti-


ças que envolvem a vida dos setores majoritariamente produtivos da
sociedade industrial; situação esta promovida e alimentada pelos seto-
res sociais minoritários e, no entendimento de Saint-Simon, parasitas.
Em seu escrito Cartas de Genebra, Saint-Simon divide a sociedade
em três classes:

178 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


1 a dos cientistas, artistas e todos aqueles que abraçam o ideário
liberal;
2 a dos proprietários (com exceção das pessoas que compõem a
classe social anteriormente citada);
3 a dos indigentes, na qual, ao redor das idéias de igualdade, en-
contra-se o resto da humanidade.

Posteriormente, Saint-Simon modificará sua compreensão da com-


posição social, sublinhando que essa pode ser apreendida por meio
de um divisor delimitando, de um lado, os parasitas, de outro, a classe
dos “industriais”. A primeira classe é constituída pelos nobres e mi-
litares, os possuidores de rendas, os funcionários públicos e os
“legistas” (os juristas a serviço da classe parasitária). Perante essa
minoria parasitária encontra-se a classe dos “industriais”, que cons-
tituía enorme maioria da nação. Saint-Simon congrega na classe dos
“industriais” não apenas os trabalhadores, os proletários e os traba-
lhadores intelectuais, mas também os fabricantes, os negociantes e
os banqueiros.
Para Saint-Simon, o regime, em vigor, é imoral e injusto. Mas,
paralelamente, manifesta-se contrário a que os trabalhadores e as
massas desprotegidas tomem diretamente nas suas mãos a iniciativa
de reconstrução da sociedade em uma base nova e mais justa. Supõe
que a experiência da revolução põe em relevo a incapacidade das
massas incultas para dirigir a sociedade. Daí que depositasse as suas
esperanças na realização correta das necessárias transformações so-
ciais apenas na parte mais ativa – e, em sua opinião, mais culta – da
classe dos industriais, isto é, a representada pelos fabricantes, comer-
ciantes e banqueiros. Ele supunha que, no interesse das massas indi-
gentes – merecedoras de melhor sorte mas incapazes de resolver com
independência o seu próprio destino –, a direção da sociedade deveria
passar, por meios pacíficos, das mãos das castas “ociosas” para as
dos “industriais” cultos.
Para Saint-Simon, a base econômica do futuro regime social deve
organizar-se sobre os princípios de uma planificação científica, com
uma grande indústria capaz de assegurar a satisfação de todo tipo de
necessidades da sociedade, cujos membros devem, na medida de suas
aptidões, trabalhar para o bem desta; paralelamente, sustenta Saint-
Simon a idéia de conservação, dentro deste regime futuro, da proprie-
dade privada e, por conseguinte, da desigualdade econômica dos
homens.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 179


Saint-Simon demonstra que a tarefa fundamental se baseia em
passar da sociedade de regime feudal – tendente a estabelecer entre
os homens a maior desigualdade possível ao dividi-los em duas classes
– para um regime industrial baseado no princípio da igualdade com-
pleta, que negue todos os direitos fundamentados em quaisquer privi-
légios. A transição de um regime para o outro envolve, na opinião de
Saint-Simon, a supressão da contradição fundamental existente no es-
tado político da sociedade francesa, e que consiste em que “uma na-
ção, no fundo industrial, tem um governo feudal pela sua essência”.
Essa transição requer a organização de um novo poder espiritual e
secular. O espiritual deve passar das mãos do clero para as dos cien-
tistas que representam as forças intelectuais da sociedade; o secular,
das mãos da nobreza para as dos “industriais” representantes das for-
ças materiais da sociedade.
Saint-Simon considerava que a instauração do domínio político
completo e universal da classe dos “industriais” constituía a condição
decisiva para o triunfo definitivo do novo sistema “industrial” sobre o
velho e feudal. Entendia que o meio principal para transformar a socie-
dade se baseava na pregação de uma nova moral, de um “novo cristia-
nismo”, orientada para a emancipação dos trabalhadores explorados e
para a elevação do seu bem-estar material e cultural. Em sua opinião,
esta pregação tinha que ser dirigida, antes de mais nada, à parte mais
culta da sociedade, isto é, as classes poderosas, já que a “classe
desprotegida”, inculta e atrasada no aspecto intelectual, seria incapaz
de conseguir sua própria libertação.
Os tons conservadores da proposta de Saint-Simon: a incapaci-
dade das massas trabalhadoras em apropriarem-se da história cons-
truindo uma sociedade nova, incapacidade esta que tem como
contrapartida a subordinação daqueles aos mais capacitados; a ne-
cessidade do planejamento em todos os segmentos do corpo social;
a premência de uma nova moral integradora da diversidade societária;
a promoção de uma ciência que oriente, articule e realize o universo
das necessidades sociais; a transição pacífica de uma situação social
a outra – são esses tons que matizam o quadro teórico elaborado por
Émile Durkheim.

3 Durkheim:
Durkheim: uma apr o ximação prel
prel iminar

A configuração do universo teórico elaborado por Émile Durkheim


(1858-1917) sustenta-se, basicamente, em:

180 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


• compreender a crescente complexidade da realidade social por meio
da observação e da comparação;
• extrair o referencial metodológico adotado, do âmbito das Ciências
Naturais;
• investigar o campo epistemológico da objetividade enquanto meio
sustentador e articulador da recomposição conflitiva da sociedade,
na perspectiva de seu reordenamento harmônico e orgânico;
• buscar, intensamente, a possível imutabilidade da matéria social
através da descoberta de leis que a subordinam;
• subsidiar a interferência do cientista social na recomposição e na
solidificação de um corpo alimentado pelo consenso e pela solida-
riedade de seus órgãos.

Os aspectos supracitados fundamentam sua concepção de ciência


da sociedade. A eles é possível adicionar: o lastro positivista, instigador
da metodologia durkheimiana; sua apreciação do Estado e da Educação
enquanto instrumentos que asseguram a coesão moral da sociedade; a
busca empreendida por Durkheim das raízes da autoridade moral que
funda a possibilidade de ordenamento social; sua análise do processo
de divisão social do trabalho, considerada enquanto núcleo do pensar
a dinâmica conflitiva da sociedade capitalista; e, finalmente, as críticas
do sociólogo francês ao ideário socialista.

3.1 Na tr i lha positiv ista

O plano cognitivo positivista sustenta-se na tradição teórica do


Iluminismo, retomando o pressuposto de que a compreensão da reali-
dade é possível, pois o Universo possui como traço intrínseco à sua
constituição o traço da ordenação, que, submetido à observação e à
acumulação de dados, abrirá a perspectiva de sua reprodução elabo-
rada pela razão humana. Assim, será possível não apenas a compre-
ensão desse processo, mas também a interferência nos limites por ele
delineados. Ou seja, razão e observação aliam-se, vinculam-se, tor-
nam-se críticos implacáveis do cenário político-institucional em vigor:
o feudal. A afirmação de que “o mundo é produto dos homens” (Vico)
prenuncia o questionamento das autoridades divinas cujo poder, her-
dado das linhagens do sobrenatural, será irremediavelmente convulsio-
nado pela imersão de um novo sujeito da história: a burguesia.
A revolução burguesa (França) repõe o questionamento quanto ao
conteúdo irretocável da Razão como termômetro eficaz do grau das

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 181


ações políticas. No plano epistemológico, problematizam-se a substância
subjacente à ordenação do Universo e a possibilidade de seu resgate
mediado pela Razão. Atribui-se a esse processo uma forma de pensar
questionável, duvidosa, mecanicista, forma esta capaz de sufocar os
níveis da fé, da intuição, da imaginação criadora; enfim, duvida-se da
possibilidade de se elaborar um conhecimento objetivo da realidade.
No âmbito político, reconhece-se a existência da sociedade enquanto
organismo; entretanto, enfatizam-se sua imperfeição, seus desarranjos,
suas desarticulações, indicativas de uma dissonância evolutiva em que
determinadas partes se movem num ritmo desproporcional às outras.
Aqui conclama-se a reforma, a intervenção não no sentido radical da
transformação, mas no da reordenação dos ritmos visando à cadência
harmônica de todos os órgãos do corpo social. O Estado surge enquanto
unidade orgânica superior capaz de revitalizar, restaurar, recompor ou,
ainda, reordenar as partes em desacordo.
As concepções supracitadas traduzem a consciência histórica do
pensamento conservador que se apropria da razão-de-ser da socie-
dade francesa após o movimento revolucionário de 1789, mas tam-
bém de 1848. É a fase de estabilização e consolidação do projeto
político burguês que traz no bojo de sua dialeticidade seu agente
social antagônico: o proletariado, o setor majoritariamente produtivo
da sociedade.
Retomando o papel da religião, cuja função essencial anterior re-
caíra no oferecimento de uma visão unitária e harmônica da existência
humana, o pensamento positivista (conservador) assinala, com Saint-
Simon, a necessidade da instituição de um elemento capaz de ajustar
os órgãos da nova sociedade, e de elaborar representações capazes de
justificar coerentemente o movimento do corpo social. Esse desempe-
nho será atribuído à ciência, mas a uma ciência configurada como fun-
damental: a ciência do homem. Esse é o instrumento capaz de recon-
ciliar os conflitos, de diluir as diferenças e de apontar as possibilidades
reais de retomada da ordem e do progresso. Aqui reafirma-se e/ou res-
tabelece-se a necessidade do descobrimento das leis que regem e su-
bordinam o movimento do corpo social.
A ordem e o progresso constituem os aspectos estático e dinâmico
da sociedade. A ordem refere-se à harmonia que prevalece entre as
diversas condições de existência, enquanto o progresso aponta para o
desenvolvimento ordenado da sociedade de acordo com as leis natu-
rais de seu movimento. Aqui reconciliam-se os dois princípios que a
ascensão da burguesia rumo à apropriação do poder político tornara
antagônicos: mudar a ordem e alterar o progresso.

182 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


Agora se trata – reafirmo – de manter a ordem e impulsionar o
progresso; busca-se, em suma, anular quaisquer dos sinais voltados
para a negação da ordem institucionalizada.
Durkheim move-se nesse contexto, isto é, nos desdobramentos
da trilha do pensamento positivista, elaborado com a finalidade de
preservar, aprofundar e eternizar a consolidação do projeto político
burguês.

3.2 A ciência da sociedade

Para Durkheim, a sociedade é parte da natureza e uma ciência da


sociedade, embora autônoma, deve buscar seus fundamentos nos mes-
mos princípios lógicos em vigor nas ciências da natureza. Nessa me-
dida, a elaboração de sua concepção de sociedade lança mão do re-
curso do método fundamentado na observação e na experimentação
direta (comparativa) e situa como objeto de sua investigação os fatos
sociais. Cabe à ciência da sociedade observar, descrever e classificar
seu objeto e, com base nesse processo, procurar as leis explicativas da
organicidade social.
Os fatos sociais são externos aos indivíduos e exercem coerção
sobre eles. Essa exterioridade traz, implícita e explicitamente, o reconhe-
cimento da sociedade enquanto existência objetiva, enquanto objeto
de conhecimento cuja razão-de-ser podemos cientificamente investi-
gar. Essa característica apreendida no contexto teórico de Durkheim
marca um outro aspecto com o qual o positivismo depara: a certeza da
objetividade que, contida nos fatos sociais em que os elementos subje-
tivos são excluídos, assenta o desgarramento de possíveis componen-
tes ideológicos contidos na relação cognitiva do sujeito com seu objeto
de pesquisa. Nessa medida, a procura de reproduzir a realidade, no
nível do entendimento, enquanto imagem objetiva, precisa, válida,
inquestionável implica, em contrapartida, o deslocamento (exclusão)
no âmbito do conhecimento científico, da ideologia.
Os fatos sociais têm de ser explicados em relação a outros fatos
sociais – caráter comparativo do método. Durkheim distinguia dois ti-
pos de explicação, relacionadas ao conhecimento sociológico: a causal
e a funcional. A explicação causal envolve a identificação de leis que
explicam a sucessão dos fenômenos sociais. A concepção de Durkheim,
relativa à análise funcional, está estreitamente ligada à sua tentativa de
proporcionar critérios para diferenciar a normalidade (função) da pato-
logia (disfunção), considerando que a função de um componente social

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 183


refere-se à sua correspondência com as necessidades gerais do orga-
nismo social. (Exemplo: religião: função – ressaltar a unidade social).
A investigação dos fatos sociais empreendida por Durkheim con-
centra seus esforços na compreensão dos fatos morais. Estes, igua-
lados em sua condição de observáveis, descritíveis e classificáveis,
apontam para a procura da causalidade reveladora das experiências,
das regras de ação que configuram o corpo social.
A tentativa de compreensão dos fenômenos da moralidade social
representa, em Durkheim, a possibilidade de elaboração de uma ciên-
cia da moral. Alguns dos aspectos que consubstanciam essa finali-
dade são:
• os fenômenos morais reproduzem a exterioridade subjacente aos fatos
sociais, considerando revelarem, na sua investigação, a substância
de sua natureza social. A procura da explicação causal de suas ma-
nifestações possibilita estabelecer, comparativamente, as mediações
e as diferenças entre os diversos graus das regras morais atuantes
nos corpos sociais;
• a mediação entre a personalidade individual e a solidariedade social
exige o resgate dos fundamentos das fontes e da natureza da auto-
ridade moral para sedimentar os mecanismos capazes de responder
à complexidade social. A substância moral revelar-se-á o elemento
inerente, estabilizador, fundante de todo o processo contratual: in-
divíduo – sociedade – Estado;
• a busca de relacionar o consenso moral da sociedade em direta re-
ciprocidade com a crescente e complexa divisão social do trabalho,
num percurso que se desloca, progressivamente, da solidariedade
mecânica à solidariedade orgânica;
• o consenso moral repõe limites às paixões do indivíduo e transfor-
ma-se em poder regulador, desempenhando em relação às necessi-
dades morais o mesmo papel contido pelo organismo em relação às
necessidades físicas.

A recuperação da moralidade, do consenso moral traduzido enquan-


to regulador das necessidades morais dos indivíduos, repõe a temática
da postura ideológica positivista, conservadora, evidenciando os valo-
res da sociedade como supra-individuais e propõe uma nova ordena-
ção. Nela, o ritmo de crescimento das atividades produtivas reencon-
tra sua harmonia com as regras do comportamento. A divisão social do
trabalho possui um valor moral intrínseco: é por meio dela que o indiví-
duo se torna consciente do seu estado de dependência em relação à
sociedade, é dela que fluem as forças que o retêm e o contêm.

184 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


3.3 Trabalho: sinônimo de solidariedade

A divisão social do trabalho configura traços específicos do desen-


volvimento societário. Sua observação – instrumentalizada pela histó-
ria comparativa – permite vislumbrar desde sua forma rudimentar até a
presente e complexa constelação de relações, constitutivas da moder-
na sociedade industrial. Na investigação histórico-comparativa desse
processo, Durkheim observa que a solidariedade, ou, ainda, a inter-
dependência dos indivíduos, manifesta-se mecanicamente quando a
prática social do trabalho permanece difusa, homogênea, constituída
por segmentos semelhantes entre si. Observe-se que o sinal externo,
capaz de orientar o estudo comparativo elaborado por Durkheim, con-
solida-se no corpo de leis, no Direito. Assim, no contexto marcado pela
solidariedade mecânica, a lei torna-se repressiva, moldando o perfil da
consciência coletiva, a qual sustenta-se num patamar baixíssimo de
individualismo e num grau de sobrevivência caracterizado pela proprie-
dade comunal dos meios de vida.
O estudo comparativo dos sistemas de leis, revelador, para
Durkheim, da relação entre as sanções e o caráter obrigatório dos có-
digos morais, delineia a substituição progressiva da lei repressiva pela
lei restitutiva. O objeto dessa última é o regulamento, a instauração do
estado de coisas que precede ao fato de o indivíduo transgredir a lei.
Esse deslocamento na aplicação da lei salienta o movimento traçado
pela transformação da solidariedade mecânica em solidariedade orgâ-
nica; processo em cuja matriz situam-se a divisão social do trabalho e,
para nós, o advento do capitalismo e, ainda, o crescimento da socieda-
de burguesa.
No âmbito da solidariedade orgânica, os indivíduos são agrupados
não mais segundo suas relações de descendência, mas segundo a na-
tureza particular da atividade social a que se dedicam; seu meio na-
tural e necessário deixa de ser o meio de origem; agora, é determinante
o meio profissional.
A solidariedade orgânica, isto é, a interdependência de indivíduos
ou grupos que estabelecem relações de troca, uns com os outros, só
começa a emergir, num sentido importante, com o desenvolvimento da
especialização de produção, pois a solidariedade orgânica não pressu-
põe a similaridade dos indivíduos, mas o crescimento das diferenças
entre eles. Ou seja, a especialização profissional sustenta-se nas e pe-
las diferenças de aptidões e talentos.
Na divisão social do trabalho as naturezas individuais, especializan-
do-se, tornam-se mais complexas e, por isso mesmo, são subtraídas à

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 185


ação coletiva e às influências hereditárias, que podem apenas se exer-
cer sobre as coisas simples e gerais. Assim, para Durkheim: “Não
podemos e não devemos nos dedicar todos a um mesmo gênero de
vida, temos funções diferentes a preencher, segundo nossas aptidões,
e é necessário que nos coloquemos em harmonia com o que nos cabe.
Nem todos somos feitos para refletir, são necessários homens da sen-
sação e da ação. Inversamente, torna-se necessário que existam os
que têm como tarefa pensar” (Rodrigues, 1986).
Instituída pela divisão do trabalho, a solidariedade orgânica –
fortalecida na prevalência do grupo sobre o indivíduo e no consenso
moral – requer, para garantir sua efetiva sobrevivência, um outro ele-
mento cujo papel hegemônico fortaleça os laços individuais, fixe ante-
cipadamente as exigências essenciais à vida coletiva e, em contra-
partida, assegure a persistência da diversificação e da especialização
profissional, necessárias ao desdobramento da sociedade industrial; esse
elemento é a educação.

3.4 A educação: meio de adaptação ao meio

Conforme Durkheim, a educação é um meio pelo qual a sociedade


prepara, no íntimo das crianças, as condições de sua própria existên-
cia. Possui uma função coletiva e tem por objetivo adaptar a criança ao
meio social em harmonia com o meio no qual deve viver. Seu papel
homogeneizador deverá assegurar, entre os cidadãos, uma comunhão
de idéias e sentimentos, sem a qual toda sociedade é inviável. Em ou-
tras palavras, de acordo com Durkheim, a educação é a influência
exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda não estão prontas
para a vida social.
A educação recebida pelas crianças já não deve ser determinada
pela posição de classe, na medida em que a especialização ocupacional
é característica intrínseca da sociedade industrial, mas também consi-
derando que ocupações diferentes requerem o desenvolvimento de
conhecimentos especializados: o moderno sistema educacional deve
ser vocacional. Essa heterogeneidade já não se fundará em desigual-
dades injustas, mas refletirá na diversificação do sistema educacional.
Entretanto, por mais especializadas que possam tornar-se as formas
particulares da educação, subsistirá um núcleo partilhado de experiência
educacional. A administração das políticas educacionais concentrar-
se-á no Estado.

186 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


3.5 Da esf er a política

Durkheim considera o Estado enquanto organização de funcioná-


rios incumbidos da administração da autoridade governamental na so-
ciedade política. Esta evidencia-se por intermédio da observação de
uma divisão da autoridade, separando os que mandam dos que obede-
cem. A emergência progressiva do Estado na perspectiva de institui-
ção diferenciada das instituições da sociedade civil é o resultado nor-
mal do crescimento da divisão social do trabalho, tendência essa que
se mostra irreversível.
O Estado tende a conservar e estender importantes funções mo-
rais. O desenvolvimento da divisão do trabalho é a condição da ex-
pansão das liberdades humanas; ele converte em realidade o ideário
da moralidade coletiva, do consenso.
Assim, para Durkheim, numa sociedade avançada, complexa, o
governo está necessariamente nas mãos de uma minoria. Nessas cir-
cunstâncias, as condições da ordem democrática dirão respeito à na-
tureza das conexões entre o Estado e a sociedade. O Estado poderá
tornar-se tirânico se não for contrabalanceado pela existência de agru-
pamentos sociais que intervenham entre ele, Estado, e o indivíduo. Esses
grupos secundários, como Durkheim os encarava, representam um du-
plo papel: fornecem o amortecimento das relações entre Estado e indi-
víduos, resguardando esses últimos dos possíveis excessos cometidos
pelo primeiro. E contribuem na manutenção da distância entre a socie-
dade civil e o Estado, necessária a impedir que a ordem social descambe
para o conservadorismo da rotina não reflexiva (enfraquecedora de con-
senso moral). No âmbito desses grupos trata-se, em suma, da família,
mas principalmente das corporações.
Destacaria, com base nessas considerações, três aspectos da rela-
ção entre Estado, sociedade e indivíduo, no universo teórico-sociológi-
co de Durkheim:
1 Sua proximidade com Hegel, no sentido de que sua concepção ele-
va, destaca o Estado e aloca-o num plano situado acima da socie-
dade. Além disso, transforma o membro individual da sociedade em
instrumento de realização dos objetivos do Estado.
2 O Estado diferencia-se da sociedade como resultado normal, positi-
vo, do crescimento da divisão social do trabalho. Aqui o Estado trans-
cende seu papel de preservador das relações contratuais, que deixa
livres as forças de mercado (liberalismo). Trata-se de assegurar a
realização dos ideais do individualismo moral; e de canalizar no Es-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 187


tado os meios de efetivação da reforma social mediante o
favorecimento da igualdade de oportunidades.
3 Situadas na interposição indivíduo-Estado, emergem as corporações,
articulando – tendo como base o campo específico da tarefa
ocupacional – o sistema consensual geral.
A solidariedade orgânica, o sistema consensual geral e a adminis-
tração da igualdade de oportunidades traçam o perfil político da refor-
ma social cujos redobrados esforços nutrem-se no sentido de diluir e
soterrar seu antagônico: o projeto político socialista.

3.6 Do socialismo

Durkheim centrava suas críticas ao socialismo em três aspectos


básicos:
a) o reducionismo da complexidade social às relações econômicas
implicaria a desconsideração da necessidade de uma articulação entre
esse aspecto e o acionamento de uma regulamentação moral.
b) as teorias socialistas antecipam a transcendência do Estado e
do poder político como centro de coordenação para a administração da
sociedade; o Estado perderá sua identidade separada e tornar-se-á uma
instituição, entre outras, da sociedade civil.
c) a negação de que a realização do socialismo envolve a luta de
classes.
O socialismo, para Durkheim, diz respeito à necessidade de regu-
lamentação econômica e corporifica-se enquanto expressão das mu-
danças sociais entrelaçadas a uma complexa divisão de trabalho. A
melhora da situação dos trabalhadores é apenas e tão-somente um as-
pecto, uma das conseqüências, que deve produzir a vinculação das ati-
vidades econômicas aos agentes administradores da sociedade. A se-
dimentação da solidariedade orgânica e do consenso moral diluíram
esse traço do conflito social – unilateral e superável.
O percurso até aqui assinalado tem como finalidade básica evi-
denciar aspectos considerados importantes para a compreensão do uni-
verso teórico durkheimiano. Agora trata-se de prosseguir reafirmando
– mas também, se possível, aprofundando – alguns desses aspectos.
No momento busca-se problematizá-lo no âmbito do objeto deste es-
crito: o das relações entre ética e sociedade na teoria sociológica de
Durkheim. Esse esforço incidirá, em alguns momentos, sobre a neces-
sidade de resgatar, parcial ou integralmente, aspectos constitutivos
desta exposição.

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4 Da ética e da sociedade

4.1 Da ética

A teorização da moral, nas obras de Durkheim analisadas neste


escrito, apresenta um aspecto fundamental que manifesta – na ten-
são entre o ser e o dever-ser ou, ainda, na questão nuclear da moral:
como agir? – a sobreposição da sociedade ao indivíduo. A sociedade
torna-se a única fonte capaz de conter substância moral. Essa pre-
ponderância do social emerge na construção teórica das regras para
o método. Aqui Durkheim elege o fato social enquanto forma ou modo
de agir, sentir, pensar, que tem existência própria, autônoma e ex-
terna ao indivíduo, adicionando o poder de coerção do todo social
sobre as vontades ou consciências individuais. Isso significa também
a impossibilidade de os sujeitos sociais alterarem as imposições de
corpo societário, ou, ainda, a submissão, o conformismo dos indiví-
duos diante das demandas da sociedade. O agir é ditado pelo agir da
maioria. A possibilidade do dever-ser limita-se à imitação de poder
hegemônico em conformidade com o status quo vigente. A ação
contrária é a ação patológica, anômala, minoritária, fadada ao fracas-
so por ser individual e subjetiva.
O caráter externo, autônomo e coisificado dos fatos sociais, e sua
possibilidade de apreensão metodológica, traduz para Durkheim a ra-
cionalidade do social. O próprio ser da sociedade é ser racional. Essa
racionalidade objetiva-se no conceito (representação essencialmente
impessoal), nos fatos sociais e nas representações coletivas.
No interior dessa objetividade podemos discernir, segundo
Durkheim, o julgamento de valor e o julgamento de realidade. Ambos
reafirmarão a preponderância do elemento objetivo sobre o subjetivo,
ou ainda do julgamento impessoal (científico) sobre o pessoal
(preconceituoso). A substância produtora desses julgamentos é a co-
letividade.
Para Durkheim – privilegiando o idealismo (objetivo) de Hegel e
antepondo-se radicalmente a Marx –, as formas coletivas de existência
– crenças, práticas religiosas – representam a essência da vida em so-
ciedade e não o trabalho ou a produção material da vida. Crenças, prá-
ticas, representações, mas também leis, normas e regras sociais cons-
tituem os elementos dinamizadores do funcionamento do corpo social.
Elemento vital no funcionamento da sociedade é a divisão do trabalho
social: fato social cuja função é gerar solidariedade.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 189


Por meio de estudos comparativos Durkheim assinala a transição
da divisão natural do trabalho para a divisão social do trabalho,
correspondendo a cada um desses fatos sociais um tipo de solidarieda-
de: mecânica (natural); orgânica (social). As referidas formas de divi-
são de trabalho cristalizam-se ou ainda objetivam-se no corpo de leis
correspondentes, em suma, no Direito. Durkheim identifica dois tipos
de Direito: o penal (repressivo) e o civil (restitutivo). O Direito penal
traduz a solidariedade mecânica, o Direito civil corporifica a solidarie-
dade orgânica.
Ao abordar a divisão do trabalho social, Durkheim desenvolve uma
sociologia do Direito que, em seu entendimento, confunde-se com a
teoria moral. E isso porque a autoridade da sociedade, o dever e a obri-
gação irradiam da sociedade para o indivíduo, pois exige-se deste con-
formismo, subordinação, manutenção incondicional do corpo social,
intocável e inabalável em sua estrutura ou em seu funcionamento.
O elemento de transição entre a solidariedade mecânica e a soli-
dariedade orgânica consubstancia-se na corporação. Durkheim inves-
tiga, comparativa e historicamente, a presença das corporações desde
a Antigüidade grega até a Idade Média, buscando apreender a função
dessa instituição. Mas também, no lastro do seu desaparecimento com
o surgimento da sociedade industrial, tenta resgatar a importância, no
interior do corpo social, da referida entidade enquanto subsídio vital
na divisão social do trabalho. A corporação representa a possibilidade
da existência dos indivíduos em grupo, ou, ainda, o suporte de cren-
ças, valores e práticas comuns, coletivas. Aqui o trabalho social – e
sua conseqüente divisão – torna-se pressuposto da formação de gru-
pos sociais, investidos, no seu interior, da função de gerar solidarieda-
de e coesão social. O trabalho revela-se, assim, fonte de solidariedade
que se sobrepõe à desigualdade, à exploração, à alienação ou, ainda,
à transformação da força de trabalho em mercadoria. Mais uma vez
Durkheim abandona o âmbito da produção direta, imediata, material
da existência humana para apontar como elementos determinantes da
divisão de trabalho social a solidariedade e a coesão advinda desta
última. Pode-se, então, preservar a sociedade com suas desigualda-
des, com suas injustiças, crimes, suicídios, enfim com suas disfunções,
patologias ou anomias.
A moralidade circunscreve-se ao grupo; neste, o indivíduo é absor-
vido conforme seus preceitos, normas, valores, crenças e representa-
ções. Como agir? Agir respeitando as regras e as normas do grupo. Em
suma, sujeitando-se, aceitando de maneira inquestionável os ditames
do grupo.

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A tensão entre o ser e o dever-ser assinala aqui a impossibilidade
da mudança, pois o dever-ser deve se transformar em sinônimo do ser.
A tensão revolve-se quando o corpo social acata as crenças, valores e
representações coletivas que coagem o indivíduo à aceitação, à subor-
dinação, à conformidade. A tensão supera-se na preservação do corpo
social. Nesse movimento para o equilíbrio o elemento absoluto é a so-
ciedade; para Durkheim, o social é, por definição, o moral. E, em
contrapartida, o social enquanto vida em grupo é o supremo bem, rea-
firmando a absolutização de societário anteriormente assinalada. So-
ciedade e Ética confundem-se.
Se a sociedade é a realização do bem, o mal, a anomia, a disfunção,
o patológico possuem uma única fonte: o indivíduo. A mediação capaz
de combater, diluir e anular esse mal configura-se na educação moral.
Os dois elementos importantes que constituem a moralidade e devem
ser veiculados pela educação são o espírito de disciplina e a adesão ao
grupo.
A disciplina é traduzida por autocontrole, delitação do esponta-
neísmo, o reconhecimento da regra, da normatividade ou, ainda, da au-
toridade moral dos grupos (família-professores-corporação-sociedade).
A adesão ao grupo representa uma precondição, ou, ainda, um pré-
requisito indispensável à vida moral. Aqui, mais uma vez, destacará
Durkheim a sobreposição dos interesses, desejos, vontades coletivas
aos interesses, desejos, vontades individuais; ou, ainda, das necessi-
dades objetivas, sociais, sobre as necessidades subjetivas, individuais.
A educação moral proposta contém no ápice de suas representa-
ções coletivas a nação e a humanidade; e desdobra todos os seus es-
forços na consolidação do conformismo, e da subordinação e da
integração do indivíduo à sociedade.
Se o Iluminismo transformara o indivíduo em sujeito da história
reivindicando a igualdade natural entre todos. Se sua ação busca su-
perar o ser da sociedade na perspectiva de um dever-ser alternativo,
inovador, crítico, transformador. Se a razão é acolhida como o instru-
mento capaz de gerar instituições e modos de vida justos e igualitá-
rios. Se as qualidades individuais passam a independer da linhagem
sangüínea ou do poder material. Em suma, se o humanismo, a razão
dialética e o historicismo esboçavam o percurso dos processos revolu-
cionários no século XVIII (Coutinho, 1972), os ventos que sopram na
pós-revolução e transformam-se em tempestade com as jornadas de
1848 revelam o surgimento de uma outra opção ética social e filosó-
fica: a do conservadorismo. E no desdobramento deste último Durkheim
irá alinhavar as relações entre Ética e Sociedade. Aqui o indivíduo é

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 191


remetido ao grau inferior, seu crescimento deve ocorrer à imagem e
semelhança da Sociedade; torna-se suporte da existência social e esta
deve ser preservada tal como é. Trata-se, em suma, de perpetuar,
eternizar, a sociedade burguesa.

4.2 Da sociedade

Uma primeira observação, relativa à concepção de sociedade ela-


borada por Durkheim, nos coloca em seu embate com o pensamento e
os movimentos socialistas de seu tempo. Se, no lastro, por exemplo, da
tradição marxista, a constituição da sociedade burguesa fundamenta-
se na propriedade privada (sobre as condições de trabalho e sobre a
riqueza socialmente produzida) que engendra a divisão, o conflito e a
luta de classes, Durkheim constrói uma visão da sociedade de caráter
homogêneo, fundada na solidariedade social. Essa solidariedade, orgâ-
nica, contrapõe-se, dilui e anula qualquer conflito ou tensão cuja fonte
anômala é, segundo Durkheim, o indivíduo.
Afirmamos anteriormente que Durkheim empreendeu uma leitura
de Saint-Simon privilegiadora dos aspectos conservadores das teorias
desse pensador. Vimos que Saint-Simon reconhecia a existência de
classes sociais (fator de sua obra também apontado por Marx), po-
rém, diante do desenvolvimento científico e industrial de sua época,
acreditava na possibilidade da constituição de um regime social, dife-
renciado, capaz no entanto de atender ao conjunto das necessidades
de seus componentes. Mas a concretização dessa possibilidade de-
pendia, segundo Saint-Simon, de um elemento aglutinador, integrador
e fomentador da paz social, da harmonia, da estabilidade. O recurso
postulado por Saint-Simon será de ordem moral. Durkheim compar-
tilhará desta perspectiva. Tratava-se então de oferecer ao corpo so-
cial um sistema moral capaz de cumprir a função de harmonizar e
dispor os seus diferentes, desiguais e hierarquizados órgãos.
Tanto para Saint-Simon quanto para Durkheim, os homens são
dominados pelas leis sociais e o máximo que podem fazer é subme-
ter-se. A ciência positiva (aqui nos movemos no legado de Comte)
operacionaliza o descobrimento dessas leis, cuja compreensão signi-
fica um ajustamento ou ainda uma submissão clara, consciente. Agora
já não se aloca mais nos deuses, mas na descoberta científica pro-
movida pela sociologia, a compreensão do destino prefixado da vida
humana.

192 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


Assim como Saint-Simon, Durkheim abraça o argumento de que a
produção industrial representa força unificadora e pacífica. Não se tra-
ta de antever conflitos, crises, contradições, lutas entre os proprietá-
rios dos meios de produção e os trabalhadores (não-proprietários dos
meios de produção). A produção gera solidariedade; unifica; atende às
necessidades do corpo social; intensifica a especialização e a conse-
qüente interdependência; articula as diversas e hierarquizadas funções;
revela os mais capazes; distribui as funções de modo natural; demons-
tra que a ciência é autoridade suprema; e, finalmente, que as idéias
morais correspondem às novas condições industriais. Alimenta-se, em
suma, o cristianismo moderno, profano, na perspectiva do “amai-vos
uns (tecnicamente e moralmente) aos outros”. Transforma-se esse prin-
cípio em poder temporal, funda-se uma nova moral capaz de semear
entre o corpo social dever, adesão, disciplina, solidariedade, civismo,
altruísmo, obediência, submissão e, fundamentalmente, a perpetuação
da sociedade burguesa, capitalista.

GONZÁLEZ, J. L. C. On the relation between ethics and society in the


sociological theory of Durkheim. Perspectivas (São Paulo), v.20/21, p.171-194,
1997/1998.

■ ABSTRACT: This article discusses the thematic of the relationship between


Ethics and Society in the Durkheim’s sociological theoric, while expression
of the new way social production: the capitalism.

■ KEYWORDS: Ethics; society; labor.

Referências bibliográficas

COUTINHO, N. C. O estruturalismo e a miséria da razão. Rio de Janeiro: Paz e


Terra, 1972.
RODRIGUES, J. A. (Org.) Émile Durkheim: sociologia. 3.ed. São Paulo: Ática,
1986.

Bibliografia consultada

DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. 3.ed. São Paulo: Ed. Nacio-


nal, 1976.
—————. El socialismo. Madrid: Ed. Nacional, 1982.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998 193


DURKHEIM, E. A divisão do trabalho social. Lisboa: Presença, 1984. 2v.
FREITAG, B. Itinerários de Antígona. Campinas: Papirus, 1992.
JOACHIM, I. Teoria de la alienação. Barcelona: Península, 1977.
SILVA, A. S. Entre a razão e o sentido. Porto: Afrontamento, 1988.
ZEITLING, I. Ideologia y teoria sociológica. Buenos Aires: Amorrortur, 1978

194 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 171-194, 1997/1998


AMÉRICA LATINA
A POLÍTICA EXTERNA DOS ESTADOS UNIDOS E A
TRAJETÓRIA DO DESENVOLVIMENTO CUBANO

Luis Fernando AYERBE1

■ RESUMO: O artigo analisa as características do desenvolvimento da econo-


mia cubana após a revolução de 1959, destacando os seguintes aspectos:
a) o nível de interferência representado pela política externa dos Estados Uni-
dos; b) de que maneira a opção pelo modelo econômico e político adotado
por Cuba possibilitou o desencadeamento da crise atual e afetou a capaci-
dade de enfrentá-la; c) que perspectivas se abrem para as relações com os
Estados Unidos após o fim da Guerra Fria.
■ PALAVRAS-CHAVE: Imperialismo e dependência; relações Cuba–Estados
Unidos; relações Cuba–União Soviética.

A lógica do intervencionismo

Os vários governos norte-americanos e os analistas favoráveis às


posições internacionais do país coincidem em retratar a política em
relação a Cuba como de resposta pontual às medidas do governo de
Fidel Castro que contrariam os interesses dos Estados Unidos e da “co-
munidade interamericana”.
Um memorando interno da CIA, de 21 de fevereiro de 1961, apre-
senta argumentos no mínimo curiosos para explicar a aliança de Cuba
com a URSS:

1 Departamento de Economia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – 14800-901 – Araraquara –


SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 197


Isto não é uma função da política e ação dos EUA, mas da personali-
dade psicótica de Castro. É evidente, segundo o testemunho de seus segui-
dores na época, que Castro chegou em Havana num alto estado de exaltação
equivalente a doença mental. Ele recebeu a adulação das massas, não só em
Havana mas também em Caracas (em pessoa) e por toda a América Latina
(através de relatórios). Mas dos EUA ele ouviu apenas a condenação univer-
sal do sumário conselho de guerra e execução dos partidários de Batista na
atmosfera de um circo romano. Ele se convenceu de que os EUA nunca en-
tenderiam e aceitariam sua revolução e que ele poderia esperar apenas hosti-
lidade implacável de Washington. Esta foi a conclusão de sua própria mente
desordenada, não relacionada a qualquer fato da política ou ação dos EUA.2

Analisar as relações Cuba–Estados Unidos, priorizando a recons-


trução cronológica das atitudes hostis de ambos os lados para determi-
nar quem deu a partida inicial, parece-nos uma estratégia pouco
elucidativa, mesmo porque o conceito de “hostilidade” foi utilizado de
tal maneira que, na prática, pode-se ser hostil ao governo norte-ameri-
cano exercendo a soberania nacional, tomando medidas internas que
afetem setores nacionais ou estrangeiros instalados no país, para os
quais existam ouvidos sensíveis e solidários nas altas esferas da polí-
tica dos Estados Unidos. A simples existência de um governo com ori-
entações divergentes, pouco confiáveis, representa um ato hostil. Isto
sem mencionar as hostilidades artificialmente provocadas e geralmen-
te difíceis de serem comprovadas, que criam situações visivelmente
agressivas.
O importante é que existe uma história anterior de como se com-
portaram os Estados Unidos em outras circunstâncias parecidas.
Guatemala era o exemplo mais fresco na memória dos cubanos, inclu-
sive porque alguns dos protagonistas principais da revolução, como
Ernesto Guevara, ali se encontravam no momento da derrocada de
Arbenz em 1954.3 Os revolucionários cubanos sabiam o que se podia
esperar dos Estados Unidos, especialmente quando as transformações
estruturais na economia tomassem corpo.
A dimensão da presença norte-americana em Cuba excedia em
muito os interesses que a United Fruit Co. tinha na Guatemala. No
momento da independência cubana da Espanha, em 1898, os inves-
timentos dos Estados Unidos ascendiam a cinqüenta milhões de dó-

2 CIA – Relatório de Pesquisa: “Por que a Revolução Cubana de 1958 levou à aliança de Cuba com
a URSS”.
3 Para uma análise da intervenção dos Estados Unidos na Guatemala, ver Ayerbe, 1992.

198 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


lares, e se elevaram para oitenta milhões em 1902, quando impõem a
Cuba a emenda Platt, que estabelece as bases permanentes das rela-
ções entre os dois países:

Que o governo de Cuba permita que os Estados Unidos exerçam o direi-


to de intervir no sentido de preservar a independência cubana, manter a for-
mação de um governo adequado para a proteção da vida, propriedade, a li-
berdade individual.
... Que, a fim de auxiliar os Estados Unidos a sustentar a independência
cubana, e para proteger a população dali, tão bem como para a sua própria
defesa, o governo de Cuba deverá vender ou alugar terras aos Estados Uni-
dos necessárias para extração de carvão para linhas férreas ou bases navais
em certos locais especificados de acordo com o Presidente dos Estados Uni-
dos. (Morris, 1964, p.182-3)

Até 1930, Cuba abastecia 59% do mercado de açúcar dos Estados


Unidos, que contribuíam por sua vez com 54% das importações cu-
banas. Em 1959, quando triunfa a revolução, a participação de Cuba no
mercado de açúcar norte-americano tinha caído para 33% e as impor-
tações originárias dos Estados Unidos compunham 75% do total (Morales
Dominguez & Pons Duarte, 1987, p.155).
O capital norte-americano estava presente nas plantações de cana-
de-açúcar, nas usinas, nas refinarias de petróleo, no sistema telefônico
e de eletricidade. A dependência da exportação de um produto, o açú-
car, para um mercado, o dos Estados Unidos, limita enormemente as
opções do novo governo quanto a conciliar as necessárias mudanças
estruturais que apresentem uma saída positiva contra a difundida sen-
tença de que “sem cota não há país”, que ao mesmo tempo conservem
o estado de “simpatia benevolente” característico das reações iniciais
dentro dos Estados Unidos diante da revolução.
Na verdade, o que se esperava (ou desejava) nos EUA era um
pequeno intervalo de moralização da imagem de Cuba como paraíso
da corrupção, do jogo, da prostituição e outros “excessos” que en-
contram melhor caldo de cultura em regimes ditatoriais. Feito isto, e
sem demora, deveriam convocar-se eleições. Como as medidas ini-
ciais de moralização e de melhoria conjuntural da situação econômi-
ca dos setores populares se esgotam em pouco tempo, dando lugar
a ações de alcance estrutural, a “boa vontade” norte-americana de-
saparece rapidamente.
A disponibilidade inicial de recursos para financiar um processo
de desenvolvimento com autonomia de decisões, tendo em vista a ex-
periência conhecida, não deve esperar pelo respaldo desinteressado do

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 199


sistema financeiro internacional ou dos países capitalistas desenvolvi-
dos, especialmente dos Estados Unidos.
Certas medidas elementares e instrumentais foram tomadas entre 1959-
1960 ou até 1962-1963. A “expropriação dos expropriadores” teria de come-
çar, logicamente, pelos aproveitadores do regime ou pelos agentes externos
e internos do capitalismo neocolonial: a recuperação dos bens malversados;
a primeira e segunda reformas agrárias; a nacionalização do capital estran-
geiro; a nacionalização geral da indústria. Por aí se fez o confisco, sob várias
formas, e se pôs nas mãos do governo revolucionário uma considerável mas-
sa de riqueza ... Também se apelou, complementarmente, para outras me-
didas diretas ou indiretas de fortalecimento econômico do governo revolucio-
nário, como, por exemplo: a contribuição voluntária de 4% do salário, com
que os trabalhadores colaboravam na constituição de fundos para a industria-
lização, o fomento da produção açucareira, etc.; o congelamento dos salá-
rios, decidido pelas organizações sindicais; o controle das importações, a
monopolização estatal do comércio exterior, a centralização da política cam-
bial, etc.; o racionamento, a instituição do acopio, etc. No conjunto, o go-
verno revolucionário preparava ou estimulava a criação de uma base econô-
mica para certas medidas de grande impacto ou para o alargamento de sua
intervenção na economia, ameaçada pela resistência empresarial ou pela re-
presália dos Estados Unidos. (Fernandes, 1979, p.108-9)

Grande parte das expropriações citadas aparece como resposta à


radicalização dos Estados Unidos perante o novo governo. No progra-
ma inicial da revolução, baseado no documento “A História me absol-
verá”, redigido por Fidel Castro na prisão após o fracassado assalto ao
quartel de Moncada em 26 de julho de 1953, a medida mais radical em
termos de mudança estrutural era a reforma agrária. No restante, pre-
viam-se ações direcionadas a melhorar as condições de vida do povo
(aumentos salariais, direitos trabalhistas, diminuição de aluguéis
residenciais etc.), ou diversificar a estrutura econômica do país forta-
lecendo a industrialização.
Entre 8 de janeiro de 1959, quando os revolucionários assumem o
poder, e 17 de maio, data de assinatura da Lei de Reforma Agrária, as
reações negativas nos Estados Unidos perante o novo governo têm mais
um caráter de advertência, cujo veículo principal é a imprensa, sem
que as opiniões vertidas assumam um caráter oficial. Manifestam preo-
cupações com a magnitude da repressão aos antigos aliados do regime
de Batista (fuzilamentos e juízos sumários) e a demora para convocar
eleições. No entanto, a decretação da reforma agrária desencadeia o
início do confronto entre os objetivos da revolução e a política dos Es-
tados Unidos.

200 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


A nova lei cria o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA), que
passa a atuar diretamente na economia rural, definindo as áreas de pro-
priedade pública e privada. Essa lei

pretendia três correções essenciais: 1º) eliminar o latifúndio (a lei prescrevia,


de imediato, os latifúndios improdutivos; o artigo 2º excetuava da medida: as
áreas semeadas de cana, cujos rendimentos estivessem 50% acima da média
nacional; as áreas de criação de gado que correspondessem aos critérios de
produtividade do INRA; as áreas de cultivo de arroz que rendessem não me-
nos que 50% da média da produção nacional; as áreas dedicadas a um ou
vários cultivos ou à agropecuária, com ou sem atividade industrial, “para cuja
exploração eficiente seja necessário manter uma extensão de terra superior à
estabelecida como limite máximo no artigo 1o desta Lei”); 2o) corrigir os
minifúndios; 3º) extinguir legalmente, em futuro próximo, a alienação de ter-
ras cubanas e estrangeiras. (Fernandes, 1979, p.118)

A resposta oficial do governo norte-americano vem no dia


12.6.1959, em nota que demonstra preocupação em relação às inde-
nizações previstas nos casos de expropriações de terras pela reforma
agrária. O que estava previsto era o pagamento, em bônus da RA,
com prazo de carência de vinte anos e juros de 4,5% anuais, no valor
de renda declarado nos cartórios até 10 de outubro de 1958. Levando
em consideração que na reforma agrária implementada pelos Estados
Unidos no Japão, durante a ocupação de 1945-1952, determinou-se
uma indenização aos antigos proprietários em bônus de 24 anos de
carência e juros de 3,5% ao ano, a crescente exaltação do governo
norte-americano parecia fora de propósito (Morales Dominguez & Pons
Duarte, 1987).
No entanto, a política de retaliação contra Cuba começa a de-
linear-se claramente a partir de 1960, no fim da administração
Eisenhower, aprofundando-se ao longo das administrações de Kennedy
e Johnson. Em função desse contexto, as respostas do governo cu-
bano serão na linha do ataque aos interesses econômicos estrangei-
ros e nacionais que exercem o boicote à revolução, amadurecendo,
no decorrer do processo, uma visão mais radical sobre as alternativas
adequadas em direção a um desenvolvimento independente, nas cir-
cunstâncias que a história coloca.
Faremos uma breve reconstrução deste percurso, intercalando
cronologicamente os fatos principais que marcaram a trajetória das
relações entre Cuba e Estados Unidos entre 1960 e 1962:
• Pressões do governo norte-americano para restringir a venda de com-
bustíveis a Cuba obrigam o país a recorrer ao fornecimento sovié-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 201


tico de petróleo. Em junho de 1960 a Texaco nega-se a refinar o
petróleo soviético. Posteriormente, a Esso e a Shell fazem o mesmo.
• Em julho, o governo norte-americano reduz a cota de importação de
açúcar cubano em 95%.
• Em agosto, o governo cubano nacionaliza as empresas estrangeiras
e suas propriedades rurais. Em outubro, nacionaliza as empresas pri-
vadas nacionais.
• Em 3 de janeiro de 1961 o governo norte-americano rompe relações
diplomáticas com Cuba. No mesmo mês, Cuba assina acordos com
a União Soviética de compra da cota açucareira a preço fixo, inde-
pendentemente das flutuações do mercado internacional, e de im-
portação de petróleo soviético.
• Em dezembro, os Estados Unidos suspendem a cota açucareira de
Cuba para o primeiro semestre de 1961.

Paralelamente à radicalização da postura oficial em relação a Cuba,


a administração Eisenhower deixa de herança para o governo Kennedy
um plano de invasão idealizado pela CIA e pronto para ser posto em
marcha. Em relatório da CIA de 11 de março de 1961, recomenda-se ao
novo governo a implementação do plano no menor prazo possível:

Status de Ação Preparatória: Há aproximadamente um ano, a Agência


foi orientada para colocar em ação: a organização de uma ampla oposição ao
regime de Castro; uma grande campanha de propaganda; apoio para ativida-
des de resistência pacíficas e violentas; e o desenvolvimento de forças aéreas
e terrestres paramilitares treinadas de voluntários cubanos.
Uma decisão deveria ser tomada dentro em breve quanto ao futuro des-
tas atividades e o emprego ou disposição de bens disponíveis que foram cria-
dos. O status das mais importantes atividades é o que se segue:
a. Políticas: Por um período de quase um ano, a FRD (Frente Revolucio-
nária Democrática), que foi criada na esperança de que se tornasse a
concretização organizacional de uma oposição unificada a Castro, provou ser
altamente útil, mas importantes elementos políticos se recusaram a juntar-se
a ela.
Desta maneira, um grande esforço foi empreendido há três semanas para
formar um conselho revolucionário de bases mais amplas, o qual incluiria a
FRD e que poderia levar ao erguimento de um governo provisório. Um pro-
gresso considerável tem sido alcançado em negociações com os principais
líderes cubanos nas quais grandes esforços têm sido feitos no sentido de per-
mitir que os cubanos delineiem seu próprio caminho. Espera-se que o resul-
tado desejado seja alcançado em pouco tempo. O que está emergindo destas
negociações é um governo provisório com uma orientação política tendendo
para a esquerda e uma plataforma política que está incorporando a maioria

202 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


dos objetivos originalmente declarados do movimento de 26 de julho. Acre-
dita-se que isto comandará o apoio de uma grande maioria de cubanos anti-
Castro embora não seja totalmente aceitável aos grupos mais conservadores...
b. Militares: Forças paramilitares foram recrutadas e treinadas e estarão
num estado avançado de prontidão dentro de pouco tempo...
... Uma equipe JCS recentemente inspecionou o batalhão e a força aérea
em suas bases na Guatemala. Suas descobertas os levaram a concluir que
estas forças poderiam estar prontas para combate em 1o de abril. Certas defi-
ciências foram indicadas e estão em processo de correção parcialmente atra-
vés de mais treinamento e parcialmente através do recrutamento de adicio-
nal companhia de infantaria.
... c. Tempo: Será impraticável manter todas estas forças juntas além do
começo de abril. Elas se constituem em grande parte de voluntários, alguns
dos quais têm estado em treinamento árduo, alojados em instalações auste-
ras já há seis meses. Sua motivação para ação é alta mas seu estado de espí-
rito não poderá ser mantido se seu comprometimento com a ação for adiado
por muito tempo. O início da época de chuvas na Guatemala em abril acen-
tuaria grandemente este problema. O período das chuvas em Cuba também
tornaria sua aterrissagem na ilha mais difícil.
CONCLUSÕES
a. O regime de Castro não cairá por si só. Na ausência de ação externa
contra ele, o enfraquecimento gradual da oposição cubana interna deve ser
esperado.
b. Dentro de uma questão de meses as capacidades das forças militares
de Castro provavelmente aumentarão a tal ponto que a deposição de seu re-
gime, a partir de dentro ou fora do país, pela oposição cubana, será bastante
improvável.
c. Se for usada com eficiência, a força paramilitar cubana tem grandes
chances de depor Castro, ou de causar uma prejudicial guerra civil, sem a
necessidade de os Estados Unidos se comprometerem com a ação manifesta
contra Cuba.
d. Entre o curso alternativo de ação aqui revisado, um ataque à força
precedido por uma aterrissagem diversiva oferece a melhor chance de se al-
cançar o resultado desejado.4

• No dia 15 de abril de 1961, aviões norte-americanos bombardeiam


quartéis e aeroportos com a finalidade de destruir aviões cubanos.
• No dia 16 de abril, em concentração popular para velar as vítimas
do bombardeio, Fidel Castro proclama pela primeira vez, publica-
mente, o caráter socialista da revolução cubana.

4 Documentos do Conselho de Segurança Nacional relativos à América Latina. Governos Kennedy


e Johnson, “Operação proposta contra Cuba”.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 203


• No dia 17 de abril, desembarca na Bahia dos Porcos uma expedição
contra-revolucionária de 1.500 homens vindos da Guatemala.
• No dia 19 de abril, a invasão já está derrotada e o presidente Kennedy
assume oficialmente a participação norte-americana.
• Em janeiro de 1962, Cuba é expulsa da OEA.
• Em fevereiro, os Estados Unidos decretam o bloqueio econômico ao
país, o que inclui a proibição de todas as importações para os Esta-
dos Unidos de produtos de origem cubana ou importados através de
Cuba.
• Em março, proíbem a importação de produtos fabricados em qual-
quer país que contenham total ou parcialmente produtos de origem
cubana.
• Em outubro, Kennedy impõe o bloqueio naval a Cuba, o que inclui
barcos comerciais, a raiz da instalação de mísseis soviéticos no ter-
ritório cubano. A OEA aprova as medidas e as negociações entre os
EUA e a URSS culminam em acordo que inclui a retirada dos foguetes
em troca do compromisso dos EUA não invadirem Cuba. É o reco-
nhecimento oficial do regime cubano.

Como podemos observar, várias formas de pressão econômica,


política e militar são tentadas neste breve período de tempo. No plano
econômico, o bloqueio traz graves problemas para o país.

Cuba viu-se obrigada a reorientar seu comércio para regiões distantes,


encarecendo-se, como conseqüência, suas exportações e importações: as
primeiras se fazem menos competitivas e as segundas provocam fortes egressos
no balanço de pagamentos em conceito de fretes. (Morales Dominguez & Pons
Duarte, 1987, p.162)

Calcula-se que, até 1985, as perdas econômicas sofridas por causa


do bloqueio nos planos comercial e marítimo internacional ascendem a
nove bilhões de dólares (ibidem).
As opções que se colocam para o país, a partir da decisão de se
manter fiel aos objetivos que levaram ao desencadeamento do proces-
so revolucionário, não são muitas. No âmbito interamericano, as portas
se fecham, e não por iniciativa de Cuba. A dependência da exportação
de açúcar, ponto fraco explorado ao máximo pelos Estados Unidos, tor-
na urgente uma definição de novos parceiros comerciais, e os países
socialistas oferecem uma garantia de compra da cota de açúcar e de
abastecimento dos produtos de que o país necessita. A desestabilização
política interna e externa, que encontra aliados nos grupos empresa-

204 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


riais privados, leva o governo a acelerar a política de nacionalizações,
o que imprime uma dinâmica de transformação centrada no Estado,
que dispõe cada vez mais dos recursos econômicos e políticos neces-
sários para implementar as reformas num país em que a iniciativa pri-
vada está em retração.
Em outubro de 1963, a segunda reforma agrária adjudica ao Es-
tado todas as terras superiores a 67 hectares, passando a controlar 60%
da propriedade agrícola. As cooperativas criadas na primeira reforma
são transformadas em granjas do Estado, que são grandes unidades
produtivas.
Em 1964, os acordos açucareiros com a URSS são renovados por
mais cinco anos, garantindo a colocação de até cinco milhões de tone-
ladas anuais a preço fixo.
Em 1965 é criado o Partido Comunista Cubano, através da fusão
do Movimento 26 de Julho (que agrupava os revolucionários ligados a
Fidel Castro), o Partido Socialista Popular (nome do antigo Partido Co-
munista) e o Diretório Revolucionário.
Em 1968 são nacionalizados os setores comerciais urbanos que ain-
da permaneciam em mãos privadas.
A Tabela 1 mostra a evolução do processo de nacionalização na
economia cubana. A discussão das condições de implantação do socia-
lismo em Cuba a partir dos anos 60 será desenvolvida na próxima seção,
onde avaliaremos seu desempenho em uma perspectiva comparada.

Tabela 1 – Nacionalização progressiva dos setores econômicos em


Cuba (%)
Setores 1961 1963 1968

Agricultura 37 70 70
Indústria 85 95 100
Construção 80 98 100
Transporte 92 95 100
Comércio 52 75 100
Comércio no atacado 100 100 100
Comércio exterior 100 100 100
Sistema bancário 100 100 100
Educação 100 100 100

Fonte: Rodriguez, 1980, p.168.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 205


O desenvolvimento de Cuba sob o socialismo

Com a realização do I Congresso do Partido Comunista em 1975 e


a aprovação por referendo nacional, em 1976, de uma nova Constitui-
ção, a revolução cubana se institucionaliza.
De acordo com a nova Constituição, a estrutura política e econô-
mica do país segue, nos seus aspectos principais, os parâmetros que
vigoravam na época nos países do Leste Europeu:

Artigo 1. A República de Cuba é um Estado socialista de operários e


camponeses e demais trabalhadores manuais e intelectuais...
Artigo 5. O Partido Comunista de Cuba, vanguarda organizada marxis-
ta-leninista da classe operária, é a força dirigente superior da sociedade e do
Estado, que organiza os esforços comuns para os elevados fins da construção
do socialismo e o avanço em direção à sociedade comunista...
Artigo 11. A República de Cuba forma parte da comunidade socialista
mundial, o que constitui uma das premissas fundamentais da sua indepen-
dência e desenvolvimento em todas as ordens...
Artigo 15. A propriedade estatal socialista, que é a propriedade de todo
o povo, se estabelece irreversivelmente sobre as terras que não pertencem
aos pequenos agricultores ou a cooperativas integradas pelos mesmos; sobre
o subsolo, as minas, os recursos marítimos naturais e vivos dentro da zona da
sua soberania, os bosques, as águas, as vias de comunicação; sobre as cen-
trais açucareiras, as fábricas, os meios fundamentais de transporte, e quantas
empresas, bancos, instalações e bens têm sido nacionalizados e expropria-
dos aos imperialistas, latifundiários e burgueses, assim como sobre as gran-
jas do povo, fábricas, empresas e instalações econômicas, sociais, culturais e
esportivas construídas, fomentadas ou adquiridas pelo Estado e as que cons-
trua no futuro, fomente ou adquira...
Artigo 16. O Estado organiza, dirige e controla a atividade econômica na-
cional de acordo com o Plano Único de Desenvolvimento Econômico-Social...
(Constitución, 1981)

Entre os aspectos acima mencionados, dois merecem destaque na


avaliação das características que o desenvolvimento econômico cuba-
no assume a partir de 1976: a institucionalização do sistema de plane-
jamento central com base em planos qüinqüenais, e a participação no
Conselho Econômico de Ajuda Mútua (Came), que reunia o bloco de
países liderado pela ex-União Soviética.

A progressiva incorporação de Cuba às atividades conjuntas do Came


se realiza dentro dos marcos do Programa Complexo de Aprofundamento e
Aperfeiçoamento da Colaboração e Integração Econômica Socialistas. O Pro-

206 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


grama Complexo constitui o plano diretor do desenvolvimento a longo prazo
da atividade econômica e científica-técnica dos países membros do Came.
(Fernandez Arner & Plá Garcia, 1986, p.46)

A integração das economias de acordo com os parâmetros de di-


visão internacional do trabalho, delineada a partir do Programa Com-
plexo, requer uma ação coordenada das políticas econômicas do con-
junto dos países membros, o que se efetiva no momento da formulação
das metas e objetivos dos planos qüinqüenais. Cuba iniciou sua parti-
cipação formal no Came em 1972, porém precisou realizar um conjunto
de mudanças institucionais que lhe permitissem a integração plena den-
tro do sistema, o que acontece efetivamente a partir da Constituição
de 1976, que também é o ano de início do primeiro plano qüinqüenal.
No novo contexto, a indústria passa a ser considerada eixo central
da estratégia de desenvolvimento. O perfil que se pretende para a in-
dustrialização leva em conta dois aspectos principais: as caracterís-
ticas estruturais da economia cubana, considerando os efeitos gerados
pelas políticas implementadas entre 1959-1975, e a integração nos
marcos do sistema econômico do Came.
Em relação ao primeiro aspecto, os indicadores globais da econo-
mia no período 1959-1975 mostram a seguinte evolução (Rodriguez,
1980): o Produto Social Global (PSG)5 cresce a uma média anual de 4,1%
entre 1962-1970 e de 12% entre 1970-1974. Na estrutura do PSG, a in-
dústria passa a representar, em 1974, 41%, contra 25% antes da revolu-
ção; a agricultura se reduz de 30% para 10,1% no mesmo período. No
interior da indústria, o setor de bens de produção representa 36,6% e o
de bens de consumo, 63,4%. Apesar desses avanços, bastante signifi-
cativos, devemos levar em consideração o estágio anterior do setor in-
dustrial cubano, extremamente precário, conforme mostra a Tabela 2.
Na agricultura, além das mudanças na estrutura da propriedade
em função das duas reformas agrárias, a produção aumenta em torno
de 40% entre 1962 e 1974, com um grande avanço na mecanização da
colheita de cana-de-açúcar, que atinge 19% do total, sendo que 77% é
semimecanizado e 4%, manual, contra 100% manual em 1958. Nos se-
tores de energia, transporte e comunicações, a taxa média de cresci-
mento entre 1962 e 1974 é de 8,4%, melhorando notavelmente a infra-
estrutura da produção.

5 Conceito que mede o produto bruto de acordo com os parâmetros de uma economia centralmen-
te planejada.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 207


Tabela 2 – Cuba: produção de bens de consumo duráveis

Produtos Unidades 1958 1974

Geladeiras Mil unid. Não produzia 042


Rádios “ “ 0024*
Televisores “ “ 0020
Fogões domésticos “ “ 0145
Panelas de pressão “ “ 0414*
Ônibus Um “ 1249

* 1973
Fonte: Rodriguez,1980, Tabela 6.

Os indicadores sociais mostram a maior evolução do período:


erradica-se o desemprego; na educação, a escolaridade infantil atinge
100% nas idades de 6 a 12 anos, o ensino primário cresce 2,7 vezes, o
secundário 6,1 e o universitário 5,5 vezes; na área da saúde, a mortali-
dade infantil passa de 60 por mil até 1959, para 28,9 em 1974 e a ex-
pectativa de vida eleva-se de menos de 55 anos para 70.
Em relação ao comércio exterior, o açúcar continua representan-
do o principal produto de exportação, mantendo-se num nível similar
ao do período anterior à revolução, de 75%. A principal mudança nes-
ta área é na orientação geográfica do intercâmbio. Em 1958, os Es-
tados Unidos representavam 69% e os países do Came, 1%; em 1974,
o comércio com os EUA já não existe e os países do Came representam
66%.
A partir da integração ao Came, a definição do perfil do desenvol-
vimento industrial passa a se orientar pelos princípios que regem esse
sistema, no sentido de possibilitar a organização do

sistema de relações socialistas de produção; que garanta a independência


técnico-econômica do país em relação aos países capitalistas; que dote o país
da possibilidade de obter maquinaria, equipamentos, tecnologias, matérias-
primas etc., que lhe permitam desenvolver, de maneira acelerada, em coope-
ração com os demais países membros da comunidade econômica socialista,
os demais ramos produtivos e todas as atividades da sociedade.
Para isto deve-se desenvolver, preferentemente, a indústria de constru-
ção de maquinaria e o potencial científico-técnico que assegure seu desen-
volvimento permanente e acelerado.

208 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


Não se trata de qualquer desenvolvimento da indústria mecânica. Em
primeiro lugar, tem que se desenvolver a produção de maquinaria e equipa-
mentos para os ramos ou produtos em cuja produção está especializado o
país nos marcos do Came.
Deve também produzir o equipamento para aqueles ramos em que, por
não haver nenhum outro país socialista especializado na sua produção, se
apresente a alternativa de produzi-lo ou importá-lo dos países capitalistas.
Esta última via deve ser tomada somente em casos excepcionais. (Garcia,
1987, p.119)

A adoção desses mecanismos de integração teve influência signi-


ficativa na definição do perfil do desenvolvimento cubano, tanto nos
seus aspectos positivos como nos negativos.
Entre 1975 e 1985, o PSG cresce a um ritmo anual de 6,7%, o que
representa um aumento total de 191,3%. O produto social bruto por
habitante teve um aumento de 76,2% no mesmo período. Nesta evo-
lução positiva dos indicadores, o desenvolvimento do setor industrial
teve grande influência. Isto se deve à nova política de inversões inaugu-
rada com o primeiro plano qüinqüenal, que dá prioridade à indústria,
com destaque para o setor de bens de produção, que passa a receber
60% do total, contra 20% do setor de bens de consumo e 20% da in-
dústria açucareira. A ênfase nos bens de produção tem como objetivo
a substituição de importações originárias das economias capitalistas, a
melhoria da capacidade de produção interna dos produtos de exporta-
ção, com destaque para o açúcar e o níquel, garantir o abastecimento
nacional no setor de alimentos, melhorar a infra-estrutura de transpor-
tes (marítimo e terrestre) e de energia elétrica. A Tabela 3 descreve as
mudanças na estrutura de produção industrial entre 1975 e 1984.
Quanto ao desenvolvimento tecnológico, os investimentos em edu-
cação e em pesquisa e desenvolvimento, aliados ao acesso a programas
de capacitação na União Soviética, permitiram ao país consolidar o
potencial científico nacional para operar em áreas consideradas de pon-
ta, como medicina e tecnologia médica, nas quais Cuba desenvolveu
capacidade autônoma de produção de medicamentos, o que representa
uma perspectiva de diversificação das exportações para países do Ter-
ceiro Mundo. Na área de tecnologia para a indústria açucareira, o país
atingiu um lugar de destaque no cenário internacional.
Quanto ao comércio exterior, as exportações crescem a uma mé-
dia anual de 7,3% entre 1975 e 1985, e o açúcar participa com 75% do
total. A reexportação de petróleo soviético, derivados de petróleo, fumo,
níquel, frutas cítricas e peixe fresco completa o leque de itens princi-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 209


pais das exportações cubanas. O processo de industrialização leva a
um aumento crescente das importações de equipamentos e insumos,
acima da capacidade de financiamento obtida com as exportações. O
valor das importações, para o mesmo período, cresce a uma média
anual de 9,9%, comprometendo o saldo da balança comercial, que entre
1975 e 1985 se mantém deficitário.

Tabela 3 – Cuba: estrutura da produção industrial (a preços de 1981)

Participação em % Lugar ocupado


Ramos 1975 1984 1975 1984
Alimentos 25,5 24,2 1o 1o
Açúcar 19,6 17,9 2o 2o
Indústria de combustíveis 9,1 5,8 3o 7o
Química 7,7 6,8 4o 4o
Mecânica e eletrônica 7,3 12,9 5o 3o
Têxtil e couro 6,9 6,0 6o 5o
Materiais de construção 6,6 5,8 7o 6o
Energia elétrica 4,0 5,7 8o 8o
Mineração e metalurgia 3,0 2,9 9o 9o
Outros 5,0 7,1 – –
Totais 100,0 100,0

Fonte: Castro Tato, 1987, Tabela 3.

Como podemos observar nos dados anteriores, a agroindústria


compõe a parte principal do setor industrial; quanto ao financiamento
das importações, o complexo açucareiro representa a base de apoio.
A dependência do financiamento externo da economia cubana
em relação ao açúcar, um produto com vários concorrentes no mer-
cado internacional – a cana-de-açúcar cresce praticamente em todas
as áreas tropicais e subtropicais – e cujos preços são instáveis, limita
bastante a capacidade de planejamento econômico interno de médio
prazo. Cuba vende no mercado mundial de açúcar, dependendo da
conjuntura, entre 10% e 40% da sua produção. A instabilidade dos
preços ao longo das décadas de 1970 e 1980 levou o país, em razão
da manutenção do programa de inversões na indústria, a contrair
empréstimos nos bancos internacionais e a ampliar o intercâmbio
comercial com o Came, na perspectiva de diminuir a dependência do
mercado capitalista, beneficiando-se de um sistema que funcionava

210 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


com preços controlados. No final dos anos 80, o comércio com esses
países chega a 80%. As Tabelas 4 e 5 mostram as oscilações dos
preços do açúcar e as compensações oferecidas pela venda desse
produto para a URSS.

Tabela 4 – Preços do açúcar no mercado internacional e o acordo Cuba–


URSS (em centavos de dólar por libra)

Preço
internacional Preço pago a
Anos de mercado(a) Cuba pela URSS Diferença

1970 3,75 6,11 2,36


1971 4,53 6,11 1,58
1972 7,43 6,11 -1,32
1973 9,63 12,02 2,39
1974 29,96 16,64 -10,32
1975 20,50 30,40 9,90
1976 11,57 30,95 19,38
1977 8,10 35,73 27,63
1978 7,81 40,78 32,97
1979 9,65 44,00 34,35
1980(b) 28,66 – –
1981 18,43 – –

(a) Preço livre de mercado (FOB) em portos do Caribe.


(b) Janeiro a setembro.
Fontes: Preço internacional de mercado, do FMI: International Finance Statistics (1970-
1981) e New York Times, jan.-dez. 1981. Preço soviético, Boletín Estadístico de Cuba
1970-1971, Anuário Estadístico de Cuba 1972-1978, e CEPAL: “Cuba: Notas para el estudio
económico de América Latina. 1980”, MEX/1044/9 de abril, p.23-4. In: Mesa-Lago, 1982,
Tabela 3.

Tabela 5 – Variação percentual dos preços do açúcar cru no mercado


internacional (Em dólares a preços correntes)

1987 1988 1989 1990(a) 1990/1980

11,5 50,0 25,5 4,7 -53,3

(a) Dados preliminares.


Fonte: Cepal, 1990, Tabela 12.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 211


As vantagens oferecidas pelos termos de troca com o Came não
devem ser consideradas um subsídio a “fundo perdido” da economia
cubana, como sempre salientou a propaganda do Estado norte-ameri-
cano. As compensações eram mútuas. A parte principal dos pagamentos
do açúcar exportado era feita por créditos em rublos apenas utilizáveis
para a compra de produtos soviéticos. Isso significava garantia, para
ambas as partes, de colocação das suas exportações em mercados não
concorrenciais (Zimbalist, 1989).
Mesmo com os problemas já apontados, Cuba consegue manter
um crescimento sustentado da economia entre 1975 e 1985. A partir
de 1986, inicia-se uma fase de crescentes dificuldades, em várias fren-
tes, que incidem diretamente no desempenho econômico do país: o
aumento dos juros da dívida externa paralelamente à queda dos pre-
ços do açúcar leva Cuba a decretar uma moratória de sua dívida, o
que vai limitar o acesso a novos créditos; no governo Reagan o blo-
queio norte-americano se acentua; as mudanças no Leste Europeu no
fim da década de 1980 geram fatores adicionais de incerteza associa-
dos à abrupta e imprevista extinção do Came.
Cuba passa a compartilhar de vários problemas que afetam os paí-
ses latino-americanos. O principal deles é a vulnerabilidade externa,
que a inserção no sistema do Came tinha amenizado. Antes de entrar
nesse ponto, deteremo-nos brevemente na análise comparada – em
relação à América Latina e alguns países do Sudeste Asiático – do
desempenho do sistema cubano com base em alguns indicadores eco-
nômicos e sociais.
Entre 1960 e 1985, o crescimento médio do PIB per capita foi de
3,5%, contra 1,8% no resto da América Latina (Zimbalist & Brundenius,
1989). Na chamada “década perdida” de 1980, Cuba é o país que mais
cresceu, conforme mostram os dados da Cepal na Tabela 6.
Quanto à distribuição de renda, os 40% mais pobres da população
cubana detêm 26% do total, contra 7,7% no conjunto da América La-
tina; os 10% mais ricos detêm 20,1%, contra 47,3% na América Latina
(Zimbalist & Brundenius, 1989, Tabela 4).6
Em relação a outros países da América Central e Caribe, que an-
tes da revolução de 1959 apresentavam estágio de desenvolvimento
semelhante, especializados na exportação de produtos primários, o saldo
é também favorável a Cuba no item de diversificação de exportações,
como mostra a Tabela 7.

6 Estimativas da Cepal com base em pesquisas na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México,
Peru e Venezuela. No caso de Cuba, os dados são elaboração dos próprios autores.

212 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


Tabela 6 – América Latina e Caribe: crescimento do PIB total e do PIB
per capita (Variação acumulada 1981-1990)(a)

Região PIB PIB por habitante

América Latina e Caribe(b) 12,4 -9,6


Países exportadores de Petróleo 14,6 -9,4
Bolívia -1,4 -23,3
Colômbia 42,4 16,2
Equador 24,3 -4,6
México 15,2 -8,4
Peru -9,9 -30,2
Trinidad y Tobago 2,2 -13,8
Venezuela 5,2 -19,9
Países não exportadores de Petróleo(b) 10,8 -9,8
América do Sul 10,8 -9,1
Argentina -13,3 -24,3
Brasil 17,2 -5,5
Chile 29 9,2
Guiana -24,6 -27,9
Paraguai 36,4 0,4
Uruguai -0,9 -6,7
América Central e Caribe(b) 10,8 -13
Barbados 10,6 8
Cuba(c) 44,2 31,6
Haiti -5,8 -22,3
Jamaica 17,2 1,9
Panamá 1 -18,3
República Dominicana 23,1 -2,2
Mercado Comum Centro-Americano 8,8 -17,2
Costa Rica 25,4 -5
El Salvador -1,7 -15,3
Guatemala 9 -18
Honduras 20,4 -14,2
Nicarágua -17,3 -40,8

(a) Estimativas preliminares sujeitas a revisão.


(b) Exceto Cuba.
(c) Refere-se ao conceito de produto social global.
Fonte: Cepal, com base em cifras oficiais.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 213


Tabela 7 – Taxa de crescimento anual das exportações não tradicio-
nais em países selecionados da América Central e Caribe
(1980-1985) (em percentagens)

Cuba 18,8
Costa Rica -4,7
Guatemala -5,1
Honduras -2,7
Panamá 2,3
República Dominicana 10,6
Jamaica 7,4

Fonte: Zimbalist, 1989.


Os dados referentes a Cuba não registram os ingressos, cada vez mais importantes, com
exportação de serviços de pessoal de construção, educação e serviços médicos para
países do Terceiro Mundo, limitando-se às mercadorias.

Em relação aos países do Sudeste Asiático, uma comparação com


Taiwan pode ilustrar bem os aspectos favoráveis e críticos presentes
no modelo de desenvolvimento cubano, tendo em vista principalmen-
te a capacidade de adaptação a mudanças nas relações internacionais
e na economia mundial que se configuram nas duas últimas décadas
do século XX.
Ambos os países são insulares e têm permanecido isolados do ponto de
vista econômico durante longos períodos de tempo, apoiados por uma super-
potência distante e historicamente dependentes do açúcar de cana como prin-
cipal item de exportação. (Zimbalist & Brundenius, 1989)

As estratégias econômicas dos dois países seguem parâmetros


similares: ênfase na industrialização, com destaque para o setor de
bens de produção em detrimento do setor agrícola, anteriormente pre-
dominante. De acordo com a Tabela 8, os indicadores de crescimento
e mudança estrutural são parecidos.
A grande diferença na estratégia de industrialização dos dois paí-
ses está no papel atribuído à exportação de produtos industrializados.
Em Taiwan, o setor de bens de produção foi estruturado em virtude da
exportação, da mesma forma que na Coréia do Sul, diferentemente de
Cuba, onde a função principal foi a substituição de importações de
máquinas e equipamentos, tendo em vista diminuir a dependência do
exterior da produção nacional destinada à exportação, especialmente
açúcar. Taiwan substituiu a exportação de açúcar, como produto prin-
cipal, pela exportação de bens manufaturados.

214 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


o açúcar ... representava 84 por cento do total das exportações em 1952. Des-
de então a participação tem decrescido drasticamente, e em 1986 represen-
tava apenas 5 por cento. Por outro lado, as exportações da indústria leve au-
mentaram rapidamente nos anos 1960 e 70, alcançando 38 por cento do total
das exportações em 1975, para logo decair para 26 por cento em 1986. A
participação dos bens de capital nas exportações passaram de 0 em 1952
para 5 por cento em 1965; logo se ampliaram para 23 por cento em 1985 e
alcançaram 36 por cento em 1986. (Zimbalist & Brundenius, 1989, p.16)

Tabela 8 – Crescimento e mudança estrutural em Cuba e Taiwan

Cuba Taiwan

PIB per capita 1980 (tipo of. de câmbio) $2325 $2668


Crescimento per capita do PIB
1955-1965 1,7 4,8
1965-1985 4,2 6,7
1980-1985 6,2 2,0
Participação do PIB
Agricultura
1965 24% 24%
1985 10% 6%
Manufaturas
1965 23% 26%
1985 36% 41%

Fonte: Zimbalist & Brunderius, 1989, Tabela 7.

Em termos de distribuição de renda, em Taiwan os 40% mais pobres


detêm, em 1986, 21,8% da riqueza; os 20% mais ricos detêm 38,2%,
contra 26% e 33,8% respectivamente em Cuba (Zimbalist & Brundenius,
1989, p.16, Tabelas 8, 9 e 10). Na área de educação, em 1985 Cuba
tem 334 estudantes matriculados para cada mil habitantes, Taiwan
239,8. Na saúde, em Cuba existem 19,7 médicos para cada dez mil
habitantes, contra 11,4 em Taiwan.
O contraste das duas experiências resulta de grande utilidade para
a compreensão dos problemas enfrentados por Cuba com a crise do
Leste Europeu.
Por causa do bloqueio norte-americano, o país se viu obrigado a
reformular radicalmente suas relações econômicas e políticas interna-
cionais. O ingresso no Came permitiu a Cuba iniciar um processo de

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 215


desenvolvimento integrado à divisão internacional do trabalho do blo-
co liderado pela ex-URSS. Isto trouxe vantagens e problemas. Entre as
vantagens, a garantia de mercados para os seus produtos, com certa
estabilidade nos preços, o abastecimento de bens manufaturados,
matérias-primas e o acesso à tecnologia em razão do programa de
industrialização. Entre os problemas, a aceitação de parâmetros de
integração baseados na especialização, que no caso de Cuba signifi-
cou a prioridade na agroindústria direcionada em grande parte para o
complexo açucareiro, um horizonte estreito quanto aos critérios de
produtividade e competitividade, limitado a países com um parque in-
dustrial e tecnológico considerado obsoleto em comparação ao capita-
lismo avançado, e que funcionou como principal referência em relação
ao desenvolvimento. Quando se desencadeia a crise no setor externo
em meados dos anos 80, Cuba acentua sua associação com esses
mercados, chegando a compor 85% do seu comércio exterior, justa-
mente no momento em que o Came desaparece.
Em relação à América Latina, os indicadores econômicos e so-
ciais de Cuba apresentam resultados positivos, embora esse parâmetro
de comparação não seja suficiente para fazer um balanço global do
modelo adotado pelo país. Comparativamente aos países do Sudeste
Asiático, embora os indicadores sociais de Cuba sejam ligeiramente
superiores, existe uma clara diferença na capacidade estrutural inter-
na para dar continuidade às políticas de desenvolvimento no novo
quadro internacional. Cuba passa a enfrentar uma situação crítica
comparável a um período de guerra.
Após o fim da Guerra Fria, o bloqueio norte-americano se amplia, as
dificuldades econômicas, que já eram graves antes da crise no Leste
Europeu, se acentuam, e Cuba já não dispõe das vantagens oferecidas
anteriormente por aquele mercado e do respaldo político da ex-União
Soviética.
A radicalização de posições dos Estados Unidos em relação à ilha
tem como marco de referência a Emenda Torricelli, proposta pelo depu-
tado democrata do mesmo nome. A emenda foi aprovada pelo Congres-
so e sancionada sem muito entusiasmo por Bush, pressionado pelo en-
tão candidato presidencial Bill Clinton, que soube capitalizá-la
eleitoralmente, angariando apoio em parte importante do lobby cubano
no exílio.7 Como desdobramento dessa manobra, a questão cubana se

7 A Emenda Torricelli amplia a proibição de as companhias dos Estados Unidos e suas subsidiá-
rias no exterior realizarem negócios com Cuba; proíbe aos barcos que passam pelos portos

216 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


transforma cada vez mais num tema de política interna, especialmente
a partir da vitória republicana nas eleições de 1994, que fortalece no
Congresso as posições dos setores favoráveis ao aprofundamento do boi-
cote econômico. Na percepção desses setores, sem o apoio da ex-União
Soviética, a queda do regime cubano é apenas uma questão de tempo,
o que justifica o endurecimento.
A sanção por parte de Clinton da Cuban Liberty Act, apresentada
pelos congressistas Jesse Helms, do Partido Republicano, e Dan Burton,
do Partido Democrata, ampliando os alcances do bloqueio a Cuba,
explicita essas duas dimensões: a radicalização de posições em virtu-
de do clima ideológico predominante no Congresso e o momento elei-
toral da sucessão presidencial, com a proximidade das primárias no
estratégico estado da Flórida.8

Capitalismo versus socialismo:


fim da Guerra Fria, fim da história?

A maioria dos críticos dos componentes autoritários presentes nos


sistemas políticos do chamado “socialismo real” costuma deixar de lado
um aspecto importante que contribuiu para o fortalecimento das ten-
dências centralizadoras e repressivas dentro da esquerda que tomou o
poder nesses países: o cerco imposto pelos países capitalistas, especial-
mente a partir de 1945, quando os Estados Unidos assumem a lideran-
ça mundial.
Evidentemente, em amplos setores da esquerda, independente-
mente da ameaça externa, estes sistemas foram apresentados como
exemplo de uma forma superior de organização em relação ao capita-
lismo. No entanto, a realidade mostra que o socialismo conhecido é
aquele que, desde 1917, dividiu seus esforços entre a sobrevivência
em relação aos inimigos externos e a construção de uma sociedade
que se pretendia mais justa e avançada.
A pressão do exterior nunca cessou; ao contrário, nos anos 80 o
governo Reagan redobrou esforços para sufocar economicamente a

cubanos de realizarem transações comerciais nos Estados Unidos e autoriza o presidente norte-
americano a aplicar sanções a governos que promovam assistência a Cuba. Para uma análise da
política de Clinton em relação a Cuba, ver Erisman (1995).
8 A lei Helms-Burton autoriza cidadãos dos Estados Unidos proprietários de bens expropriados pela
revolução cubana a processarem empresas estrangeiras que usufruam as propriedades e permite
que o governo norte-americano barre a entrada no país de empresários e executivos dessas empresas.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 217


União Soviética por meio do estímulo à corrida armamentista. Nenhum
sistema pode desenvolver suas potencialidades vivendo em clima de
permanente conflito, que é justamente o mais favorável ao fortaleci-
mento das tendências autoritárias existentes.
O isolamento político, cultural, econômico, científico não foi uma
opção considerada vantajosa pelos países socialistas; ao contrário, foi
uma imposição da longa “conjuntura” que se inicia em 1917. Se para
uma potência militar como a URSS isso foi grave, no caso de Cuba,
dada sua posição geográfica, seu tamanho e sua estrutura econômica,
as complicações se acentuaram.
Exige-se que Cuba promova mudanças no seu sistema político
seguindo o exemplo das democracias liberais, “esquecendo-se” de que
os Estados Unidos, a maior potência econômica e militar do mundo,
apresentam a inviabilização deste país de dez milhões de habitantes
como uma questão de honra da sua política externa.
Exigir de Cuba mudanças na estrutura política em direção à eli-
minação do controle estatal sobre as atividades de oposição, e não
exigir o fim do bloqueio econômico norte-americano e a normalização
das relações diplomáticas entre os dois países, significa reconhecer o
direito de intervenção.
O “capitalismo liberal” não é alheio nem inocente em relação ao
florescimento do stalinismo na URSS, nem à sua hegemonia durante
várias décadas como expoente do “verdadeiro” socialismo. A política
intervencionista dos Estados Unidos é parte componente do “modo de
vida americano”, porque inclui como uma das fontes da sua suprema-
cia no mundo o patrocínio das formas mais violentas e autoritárias de
ação política.
No combate aos seus inimigos, os Estados Unidos legitimam, iro-
nicamente, a lógica da luta de classes, quando defendem o princípio
de que a realização plena dos objetivos de uma parte (o Estado norte-
americano) pressupõe, em termos estratégicos, a destruição da outra
parte (os governos dos países que optam por uma política não-alinha-
da ou contrária aos Estados Unidos). Enquanto isto não se efetiva, a
luta é permanente.
A defesa da livre iniciativa, aplicada aos planos econômico, so-
cial, político, cultural, sancionada por leis que definam condições de
convivência nacionais, baseadas no pluralismo e na alternância no po-
der, e internacionais, com o respeito aos princípios de autodetermina-
ção e não-intervenção, não é contraditória com o espírito libertário que
sempre orientou parte importante do movimento socialista. Acontece

218 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998


que os limites à livre iniciativa, no sentido aqui apontado, geralmente
surgem quando interesses dominantes são contrariados.
Da história contemporânea podemos extrair inúmeras ilustrações
do que foi e é a atitude das classes dominantes perante as reivindica-
ções políticas dos setores populares. Mesmo o sufrágio universal, grande
bandeira das democracias liberais, foi uma conquista das classes tra-
balhadoras após décadas de violência, dada a intransigência das clas-
ses proprietárias que temiam pelas conseqüências da participação das
maiorias na política.
Dois obstáculos continuam se antepondo ao ufanismo apressado
dos que associam a crise no “socialismo real” com o “fim da história”
e o reino definitivo do capitalismo liberal:
1) Se o controle privado ou estatal da propriedade, em todos os
planos, da padaria ao hipermercado e à fábrica de automóveis, é uma
forma autoritária de relação social porque exige, como pressuposto do
seu funcionamento, a submissão técnica e econômica de uma parcela
da sociedade – reduzida a executante de tarefas sobre as quais não
tem poder de decisão – a uma remuneração (o salário) cujo teto é o
lucro do proprietário, como é possível pensar em democracia plena
enquanto existir este regime de propriedade?
2) Se a democracia é um valor universal que se enriquece perma-
nentemente de novas conquistas sociais e políticas, poderá incorporar
pacificamente o valor da propriedade coletiva como patrimônio do
conjunto da sociedade?
A possibilidade de eliminação da propriedade privada – pelo con-
senso majoritário da cidadania e a partir de instituições e métodos
aceitos por todos – pode significar na prática a exclusão de classes e
grupos cujas identidades se definem fundamentalmente pelo controle
dessa propriedade. O moderno capitalismo liberal toleraria esse exer-
cício radical da livre iniciativa?
A existência de uma democracia pluralista, em que a disputa pela
hegemonia e a possibilidade de alternância no poder permitam definir
e redefinir constantemente questões como a do caráter da proprieda-
de conforme o determinem as tendências majoritárias na sociedade,
poderá configurar realmente o início do fim da história.
Por enquanto, “velhas” questões permanecem:
a) as ameaças externas à soberania nacional dos países periféri-
cos, originárias de políticas hegemônicas com suporte na superiorida-
de militar e econômica (questão nacional);

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 219


b) as ameaças golpistas internas diante de mudanças estruturais
que favoreçam os interesses de setores subalternos nas relações so-
ciais (luta de classes).
A história continua...

AYERBE, L. F. The external politics of the United States and the Cuban
development. Perspectivas (São Paulo), v.20/21, p.197-221, 1997/1998.

■ ABSTRACT: The article analises the development of Cuban economy after


the 1959 revolution, emphasizing the following aspects: a) the relevance of
the United States foreign policy; b) how the Cuban economic and political
model provoked the current crisis and affected the capability to face it; c) the
post cold war context of Cuban–United States relationships.

■ KEYWORDS: Imperialism and dependency; Cuban–United States relation-


ships; Cuban–Soviet Union relationships.

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Perspectivas, São Paulo, 20/21: 197-221, 1997/1998 221


MULTICULTURALISMO E IDENTIDADE:
DILEMAS E PERSPECTIVAS NO CASO PERUANO 1

Urpi MONTOYA URIARTE2

■ RESUMO: Este artigo apresenta um quadro dos diversos tipos de identida-


de que se constroem atualmente no Peru. O objetivo é avaliar a presença ou
a ausência do multiculturalismo – evidenciado nas práticas de interação co-
tidiana – nessas representações. Em se tratando das identidades unívocas,
o artigo buscará entender as raízes da dificuldade que muitos peruanos têm
para assumir sua heterogeneidade cultural. De modo inverso, tentaremos
explicar as novas premissas que sustentam as atuais identidades que se
negam a sê-lo. Desta maneira, a reflexão sobre os dilemas e perspectivas
das identidades no Peru ajuda-nos a levantar certas questões fundamentais
em relação a como conformar o caminho que leve à construção de uma mais
feliz convivência multicultural nesse país.

■ PALAVRAS-CHAVE: Multiculturalismo; identidade; dualismo; racismo;


heterogeneidade cultural.

“Sólo existen los peruanos, abanico de razas,


culturas, lenguas, niveles de vida, usos y
costumbres, más distintos que parecidos entre

1 Este artigo inscreve-se na reflexão final da tese de doutoramento intitulada A convivência


multicultural. Conciliar, separar, opor. Lima–Século XX.
2 Doutoranda do Departamento de História – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
– USP – 05508-900 – São Paulo – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 223


sí, cuyo denominador común se reduce, en la
mayoría de los casos, a vivir en un mismo
territorio y sometidos a una misma autoridad...
Hay peruanos que no han salido de la Edad de
Piedra y otros que están ya en el siglo XXI.”
(Vargas Llosa, 1996, p.210)

“Yo personalmente, soy quechua; vivo como


quechua, pero no es grande mi corazón para este
territorio que se llama Perú. Porque este Perú es
propiedad de los grandes mandatarios, es el
feudo de los que manejan el poder económico.
Nosotros los indios no formamos parte, no parti-
cipamos de este Perú, por esto nos encontramos
olvidados y postergados como si no formáramos
parte de este territorio... Por esto yo no sacaré la
cara por este territorio llamado Perú, mi identidad
no es ser peruano, sino mi identidad es quechua.”
(Chuquimamani, 1988, p.39)

A análise dual é uma das características predominantes do pen-


samento social peruano deste século em relação ao universo cultural
do Peru: dividindo os sujeitos em vencedores e vencidos, procurando
supostas essências, entranhas e purezas, as múltiplas e heterogêneas
atuações que os indivíduos colocam em cena para conviver não pude-
ram ser vistas. Obcecado por um tipo de unidade e coerência – mais
metafísica do que real –, o Peru resulta para este olhar uma totalidade
frustrada, um conjunto de fragmentos isolados que se opõem e se
desreconhecem mutuamente. Partindo do esquema binário, a convi-
vência e os encontros, as negociações e as convergências, os reco-
nhecimentos e as conciliações não puderam ser percebidos.
Minha pesquisa de doutorado buscou escavar as práticas de
interação que nos permitiram conviver conciliatoriamente ao longo deste
século no espaço de Lima; quis demonstrar que o antagonismo, a
confrontação e o conflito não foram as únicas vias de interação e co-
municação intercultural, e que fomos capazes de inventar, no meio
das diferenças e desigualdades, caminhos menos trágicos e épicos de
compartir-nos e reconhecer-nos. Entretanto, devemos admitir que es-
ses encontros e reconhecimentos não eliminaram as representações
excludentes da diversidade nem descartaram as construções unívocas
de identidade.

224 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


Deparamos, portanto, com o fato de a força e a vigência do es-
quema dual não serem apenas monopólio dos intelectuais. Trata-se de
uma perspectiva e um sentimento compartilhado por muitos peruanos.
Nas epígrafes que este artigo exibe, defrontamo-nos com indivíduos
tão diferentes como Vargas Llosa e Nonato Chuquimamani que, não
obstante, sentem e representam da mesma forma o Peru: um espaço
incapaz de propiciar comunidades, um país cujos habitantes
desreconhecem-se mutuamente.
De modo que, longe de serem realidades e categorias excludentes,
a conciliação e a oposição coexistem, estão imbricadas. A convivên-
cia multicultural no Peru é sumamente complexa e contraditória pre-
cisamente por isso: porque inventamos espaços, códigos e sensações
de comunidade nos quais nos reconhecemos e conciliamos e, ao mes-
mo tempo, continuamos representando-nos e sentindo-nos como es-
tranhos que não têm nada em comum. Com efeito, as práticas cultu-
rais e as representações culturais (as identidades) nem sempre
coincidem. Nossa totalidade feita de fragmentos articulados é ainda
representada e sentida por muitos como frações desmembradas e em
oposição, e por outros tantos, como pluralidade incognoscível, porém
conciliável. Nas identidades, o meio termo não aparece como gostarí-
amos: encontramos ou a afirmação de identidades unívocas ou a ne-
gativa de assumir qualquer bandeira.
Este artigo começa apresentando dois tipos de discursos de identi-
dade em Lima (neoindigenismo e hispanismo-criollo) que compartilham
a mesma construção unívoca, a mesma negação do outro. Em seguida,
indagamos sobre a dificuldade que nós, os peruanos e limenhos, te-
mos para processar nossa heterogeneidade e multiculturalidade, su-
gerindo que essa dificuldade provém em grande parte dos olhares hie-
rárquicos que impõem diferenças inclusive ali onde elas nem existem
mais. O terceiro ponto deste artigo expõe as caraterísticas de uma nova
maneira de construir a identidade que muitos peruanos, especialmente
os jovens em Lima, estão empreendendo. Sem formulá-la verbalmen-
te, a identidade que esses jovens constroem se nega à definição, à
adesão a uma linha, à colocação em favor de um mundo e à fidelidade
a uma essência. Parece-me que essas negativas expressam, finalmen-
te, uma maneira de reconhecer a diversidade e uma disposição para
sentir complementariamente seus diversos fragmentos. A sensibilidade
que sustenta essa nova maneira de construir a identidade provém, em
grande parte, do recente contexto de esmaecimento das fronteiras e
da fragmentação das bagagens culturais que fazem que o próprio seja
um universo cada vez menos discernível do compartilhado e do alheio.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 225


Finalmente, o artigo desemboca numa necessária discussão sobre o
que resta a ser feito para construirmos um multiculturalismo mais feliz
no Peru.

1 A totalidade ausente: novos hispanistas


e indigenistas

“La tradición es, contra lo que desean los tradi-


cionalistas, viva y móvil. La crean los que la
niegan para renovarla y enriquecerla. La matan
los que la quieren muerta y fija, prolongación de
un pasado en un presente sin fuerza, para incor-
porar en ella su espíritu y para meter en ella su
sangre.”
(Mariátegui, 1986, p.161)

Apesar de serem sujeitos heterogêneos, muitos limenhos ainda se


negam a se reconhecer enquanto tais. Aferram-se a nostalgias, essên-
cias e anacrônicos passados para delimitar suas identidades que, des-
ta forma, desreconhecem suas práticas diversificadas baseadas em
elementos de múltiplas procedências e características hibridizadas.
Refiro-me à identidade hispánica-criolla que despreza o andino e ao
novo indigenismo que rejeita o limenho. Ambas as identidades cons-
troem arquétipos daquilo que não existe mais, daquilo que deixou de
ser e, também, daquilo que nunca foi.
O arquétipo do limenho em que se baseia a identidade hispánica-
criolla apareceu com as transformações urbanas do século XX. O cres-
cimento da cidade, que alterou a antiga proximidade residencial das
diversas classes sociais, que criou novos bairros e os integrou num
extenso espaço urbano por meio de artérias viárias, o extraordinário
crescimento demográfico (entre 1940 e 1981 a população limenha au-
mentou 7,5 vezes) e o predomínio do migrante andino na capital, con-
figuraram o discurso negativo e nostálgico da limeñidad hispánica-
criolla.
Esta limeñidad acrescentou à lenda da Lima colonial alguns ele-
mentos da cultura criolla. Ao que se imaginava que fosse a Lima dos
vice-reis, adicionaram-se tradições que no presente estavam sendo su-
plantadas por outras. Às idéias de capital colonial, de depósito de tra-
dição ocidental e cristã, de passado senhorial e glorioso (Lima foi con-
siderada durante muito tempo a “Perla del Pacífico”), de linhagens,

226 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


agregaram-se a jarana (festa criolla), a negritude, o Señor de los Milagros
(padroeiro negro de Lima), os valses (valsas vienenses com caraterísticas
musicais próprias do litoral peruano), a loquacidade, viveza e graça
criollas. Diante das complexas transformações urbanas e sociais da
década de 1950, seguiu-se a limeñidad como reação, como negação a
acompanhar a realidade.
Em suma, essa limeñidad construiu a imagem harmônica e coe-
rente de um passado ao qual se prendeu obstinadamente. Associando
Lima ao hispânico e ao negro (quando precisamente os negros consti-
tuíam já um setor minoritário e as tradições hispânicas viam-se efeti-
vamente reduzidas), exaltando os bairros populares antigos (que se
tornaram insignificantes em relação ao número das novas urbaniza-
ções), alardeando a comida criolla (que perdia espaço na alimentação
cotidiana) e vangloriando a música criolla e as jaranas (que foram ce-
dendo em importância a outros ritmos e outras maneiras de divertir-
se), o discurso do limeñismo hispánico-criollo expressou uma negação
da mudança, uma rejeição em aceitar a nova configuração urbana.
Citarei alguns exemplos. Em 1960, Rivera afirmava que o hispâni-
co constituía a essência imortal de Lima:

Españolísima por su idioma, por su sangre, por sus hogares, por su arte
y su literatura, y cristianísima, a la vez, por su fe tradicional, por el tesoro de
su Religión, Lima, la Lima de ayer y de hoy, la Lima de siempre, la Lima
inmortal, ostenta su donosura y su encanto, sostenidos por esa virtud acriso-
lada y esclarecida que transparenta la doctrina de Jesucristo. (Rivera, 1960,
p.19)

Em 1976, Leonidas Castro salientava que o limeñismo era “sinónimo


de hispanidad” e impugnava à população migrante (entenda-se, andina)
o fato de ser a culpada da desfiguração de uma cidade outrora perfeita:

la miseria que envuelve a Lima es por las inmigraciones ... vienen de afuera
con sus complejos, traumas y qué sé yo. La mediocridad, la delincuencia, la
hauchafería, como existe en cualquier conurbanización mundial, provienen
de fuera... (Castro Bastos, 1976, p.75)

Para denegrir o novo habitante andino, este autor – assim como


muitos outros – empreendeu a exaltação do habitante negro:

La gente morena con idiosincracia especial, alegre espíritu, bullanguero


hablar, corazón acrisolado, manos prodigiosas en el arte culinario, inigualable
en el cantar y golpeteo y rasgar de instrumentos musicales. Asimismo en los

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 227


deportes... La gente morena es noble, sincera, humilde, querendosa y fiel.
(ibidem, p.63)

Essa identidade apela às essências de um passado considerado


imortal. Os defensores do hispanismo-criollo como única e legítima iden-
tidade limenha, como A Limeñidad, são na verdade tradicionalistas que,
como Rosa Mercedes Ayarza (criolla da “Vieja Guardia”), afirmam uma
Tradição (em maiúscula) que sabem passada e, contudo, continuam
exaltando:

Para mí, Tradición es todo aquello que se fue con la Lima de Manuel
Atanasio Fuentes, “El Murciélago”, y Abelardo Gamarra “El Tunante”; con
esa Lima de don Ricardo Palma y aquella que despidió José Gálvez, tan peruana
y tan criolla como el buen pisco y la exquisita carapulca; en la que llamabamos
a nuestros padres “papá” y “mamá” y no como el ahora tan espantosamente
extranjerizante y huachafo “papi” y “mamy”. (Ayarza de M. Solar, 1958, p.16)

Essa forma de expressar e construir a identidade não é outra coisa


senão uma profunda e ciente vontade de negar o presente remontan-
do-se à Tradição, ao que era e não é mais. O resultado foi o que Salazar
Bondy (1964) denominou de “Arcadia Colonial” que, por vocação de
nostalgia e comodidade, tornou o passado num instrumento para eva-
dir o presente. Salazar Bondy estava certo. Esta limeñidad foi a
contramarcha, não se quis processar, se renovar, se refazer. Desta for-
ma, os costumes da velha Lima passaram a conformar a limeñidad da
nova Lima, desconhecendo e excluindo os novos sujeitos urbanos que
se tornavam a maioria da população: os cholos. Este foi o nome depre-
ciativo que deram aos migrantes que invadiam a Lima que Chabuca
Granda, desde seu limeñismo, cantou.
Em contraste com os tempos de Chabuca Granda, os defensores
do limeñismo hispánico-criollo sabem-se hoje plenamente minoritários.
Os cholos são a imensa maioria e isso faz o discurso de exaltação virar
prática de exílio. Num romance recente, Jaime Bayle expôs correta-
mente esse sentimento de expulsão e não-inclusão num território que
os cholos tornaram alheio para os brancos e velhos limenhos:

Lo que yo creo es que deberías irte del Perú cuanto antes, Joaquín. Aquí
te estás desperdiciando, hombre. Tienes que acceptar un hecho irreversible:
los blancos, los que éramos dueños de este país, estamos de salida, vivimos
encerrados y cada vez somos menos. Los cholos nos están botando poco a
poco. Es normal, pues, así tenía que ser. Los cholos son la mayoría. (Bayle,
1994, p.260)

228 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


Na mesma linha, Bryce Echenique confessava em 1993 que, no
presente limenho, não havia mais espaço para os que eram como ele.
Para as pessoas que não aceitam uma situação mudada, é mais fácil
“estar de salida” ou sentir que “se acabó”, isto é, exilar-se, do que em-
preender novos reconhecimentos e admitir que a unicidade não oferece
mais nenhum senso de contemporaneidade. Ao admitir que o criollismo
estava já “enguetado”, representando somente 5% da população de Lima,
Bryce consola-se na lamentação e no exílio da recordação:

Al Inca se le acabaron el imperio incaico y la estirpe de los conquistado-


res como su padre. Y a mí se me acabó la Lima de Chabuca Granda y La Flor
de la Canela, llamada también Lima la Horrible, por otro ilustre limeño,
Sebastián Salazar Bondy, y esto no es poca cosa. Salí de una Lima en que
nunca pude aprender el quechua en ninguna parte y hoy vuelvo a una Lima
que es la primera ciudad quechuahablante del país. Mis valcesitos, mis
bolerachos, mis tangos y rancheras, dónde están? Oligárquica y
minoritariamente enguetados ya. Se canta, se baila, se toca la chicha y hay
“chichódromos” por todas partes. Quedaron un 5% de aquellos de pura cepa,
ya ... Yo represento esa Lima que olía a Yardley mejor que la Comunidad
europea y por donde hoy circulan suicidamente unos informales microbuses
que vienen de barrios que no conozco y van hacia barrios que ya no conoceré.
(Bryce Echenique, 1993, p.21-2)

Se os velhos criollos criaram a “Arcadia Colonial”, a geração de


meados do século – do período de transição – criou o desencontro e o
exílio que Daniel del Castillo observa muito bem:

Las furias y las melancolías de Vargas Llosa ante un país “bárbaro e irra-
cional”, los afanes de Bryce para librarse de Echenique, el rechazo de Martín
Adán a “ser feliz con permiso de la policía”, y hasta la provocación de Pablo
Macera diciendo que solamente los estúpidos pueden ser felices en este país;
todas esas voces tienen algo en común, revelan por debajo de disímiles sensi-
bilidades una forma de interioridad que es compartida. Revelan un mismo
desencuentro. (Del Castillo, 1994, p.54)

Conforme será verificado em breve, a atual geração mantém outra


relação, mais fluida e contemporânea, com o presente e com a cidade.
Entretanto, o limeñismo não deixa de perdurar nem de provocar um
discurso de oposição que evidencia o mesmo desencontro com o real
e o presente: é o neoindigenismo.
Para negar o limeñismo que não os reconhece (ou no qual eles
mesmos não se reconhecem), muitos migrantes e descendentes de
migrantes – apesar de terem nascido em Lima – afirmam o andino, ape-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 229


sar de longínquo e até mesmo muitas vezes desconhecido. O andino
resulta para estas pessoas um espaço no qual imaginariamente encon-
tram um lugar. Visto que os cholos não criaram uma identidade chola
nem se vêem retratados na limeñidad hispánica-criolla, empreendem
uma viagem ao passado, um voto contra, uma representação exilada
nos Andes. Trata-se do “neoindigenismo” como se referem Degregori,
Blondet & Lynch (1986).
Este novo indigenismo que ilegitima e nega Lima provém em gran-
de parte da legitimação do discurso indigenista da década de 1920
que o “gobierno revolucionario” de Velasco Alvarado (1968-1975) em-
preendeu. Formados em universidades populares que combatiam o
imperialismo reivindicando o nacional (entenda-se, o autóctone) e apoia-
dos por uma reforma educativa que tornou a crítica à oligarquia (e seu
hispanismo-criollo) doutrina oficial, os professores das diferentes esco-
las de classe média e de setores populares vêm difundindo em Lima a
idéia de um Peru cuja essência é andina (Portocarrero & Oliart, 1989).
Dessa maneira, o esquema dual amplia-se e legitima-se desde a esco-
la e dá margem à vigência de identidades que se constroem partindo
de essências. Posto que a essência peruana é tida como andina, afir-
mar-se como limenho vira pouco menos que uma heresia, um aten-
tado à peruanidade.

Ao optar por representar-se e aderir-se a universos excludentes,


passados ou desconhecidos, esses sujeitos vêem-se impossibilitados
de apreender-se contemporaneamente. A opção pela representação
unívoca torna-os incapazes de conciliar a heterogeneidade e o
multiculturalismo que – de uma ou outra maneira e grau – os com-
põem. Limeñistas criollos e neoindigenistas exilam-se assim daquilo
que eles são para afirmar, ao invés, o que nunca foram ou já deixaram
de ser:

Los nacidos limeños evocan en su música calles que han cambiado,


caminos que no existen, un pasado de relaciones coloquiales y ceremonias
precisas ... [y los migrantes evocan la ausencia], no sólo de cielos y paisajes
perdidos y amigos lejanos, sino de lo que aquí esperaban y no fue ... Para la
inmensa mayoría de limeños, de provincianos ahora limeños también, de una
manera y otra, la nostalgia y el desajuste con lo real refiere a una comunidad
perdida. (Grompone et al., 1983, p.129-30)

O desajuste com o real provém da rejeição a incluir na construção


da identidade o fato de que as tradições mantêm-se fragmentadas e

230 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


que, ao lado de outras novas, conformam um novo conjunto – nunca
coerente ou uniforme – que define o que acabamos sendo. Lima não se
compõe mais somente de tradições criollas ou andinas. Sobretudo, com-
põe-se – para bem ou mal – de achorados (pessoas que empreendem
interações ao mesmo tempo lúdicas e agressivas), de combis (peruas)
barulhentas, de combinaos (um único prato no qual servem-se três co-
midas diferentes), de chichódromos (locais onde se dança a música
chicha, hibridação de ritmos andinos, caribenhos e guitarra elétrica),
comedores populares e mil outras misturas heterodoxas. De modo que
esta cidade não tem nem pode ter um único rosto. O que devemos in-
dagar é precisamente esta ausência de representação ou discurso de
identidade que reflita esta multiplicidade. O esquema dual que coman-
da a construção unívoca da identidade e a obsessão na diferença, o olhar
estereotipado e a dificuldade de evocar positivamente a cidade ofere-
cem-nos portas de entrada para entender por que não produzimos uma
nova limeñidad que permita o reconhecimento de seus diversos rostos.
No fundo desta dificuldade de construirmos um discurso que evo-
que uma imagem na qual todos se reconheçam encontra-se nosso
insistente olhar estereotipado. Por ele, criollos e andinos representam-
se mutuamente degradados. O limenho, para o andino, é preguiçoso,
metido, charlatão, abusador, ostentoso, facilitador e conformista. Por
sua vez, o andino aparece aos olhos do limenho como hipócrita, men-
tiroso, lento, complexado e crédulo. Chega-se mesmo à diferenciação
de ofícios entre uns e outros:

hay también oficios exclusivamente “serranos”, como ambulantes o trabajadores


domésticos. Entre los “empleados”, por el contrario, abundan los limeños y
costeños. (Degregori, Blondet & Lynch, 1986, p.54)

Os bairros também diferenciam-se seguindo estas coordenadas:


os habitantes dos antigos bairros centrais (de tugúrios e cortiços) difi-
cilmente se transladam aos novos bairros da periferia, associados à
população migrante.
Outro dos elementos que nos ajudam a entender a ausência da
representação daquilo que se compartilha e que une é a própria difi-
culdade de evocar positivamente a cidade. Lima é percebida por to-
dos como uma cidade suja, barulhenta, poluída e congestionada (Golte
& Adams, 1987). Os migrantes vêem-na caótica, trágica, superpovoa-
da, com péssimos serviços e más condições de vida. Por sua vez, os
velhos limenhos, ao contrastá-la com um passado idealizado, também
a sentem negativamente. Diz um velho habitante de Lima:

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 231


antes había cortesía y no había ningún escándalo que se motivó en el tranvía,
tampoco en el Malambito-Cocharcas he visto escándalos, había mucho respeto,
ahora el ayudante del micro te insulta, te estropea, habla sus jergas, sus lisu-
ras, todo eso habla encima de los pasajeros, ni subían a vender nada porque
ahora hasta criaturas, a las 12 de la noche, suben al micro y cantan... (Taller
de Testimonio, 1986, p.48)

A persistência do esquema dual que legitima a unicidade é outro


dos elementos que dificultam o surgimento de uma maneira diferente
de representar a cidade e a diversidade que nela convive. É em vir-
tude desse esquema que temos um obsessivo apego às diferenças e
uma correlata escassa vocação para considerar o compartilhado. Eis
aí uma explicação para a ausência de representações totalitárias ou
integrais que verificamos na inexistência de uma nova limeñidad, uma
quechuidad ou aymaridad (que aglutine o terço da população indíge-
na do país – Montoya, 1995), uma negritude ou mesmo uma
peruanidade. Preferimos identidades nostálgicas feitas do passado,
vocações unívocas, pequenas identidades territoriais ou grupais (Malca,
1994). Preferimos essas identidades porque elas nos apresentam uni-
versos coerentes e, portanto, são coerentemente sentidas, e porque
nos permitem fugir da difícil tarefa de apreender a totalidade em suas
incongruências, complexidades e articulações. Com efeito, em Lima,

Hoy, más que forjarse una noción nueva de limeñidad, viene definiéndose
identidades distritales, centralmente en aquellos barrios, que producto de la
invasión, de la lucha épica librada en los arenales han definido personalida-
des colectivas aguerridas y modernas. Tal vez el habitante de Villa El Salva-
dor se sienta peruano y salvadoreño, más no limeño. Lima es sólo un pretex-
to, una contingencia, una causalidad que no lo marca. (Arroyo, 1994, p.85)

2 A diferença imposta: a dificuldade de


representar-nos de outra maneira

Não existem em Lima identidades nas quais a autodefinição e a


definição da cidade evoquem a heterogeneidade, os reconhecimentos
e as comunidades, nas quais a representação dos outros seja positiva e
próxima. Talvez a causa mais profunda dessa ausência de representa-
ções que aproximem e dêem conta dos encontros e reconhecimentos –
embora sempre descontínuos e parciais – esteja no racismo, no olhar

232 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


hierárquico que ele estabelece, nas diferenças que ele impõe até mes-
mo ali onde elas nem existem. É pelo racismo que as diferenças não
são simples diferenças e, em vez disso, tornam-se oposições. É pelas
múltiplas discriminações promovidas pelo racismo que nasce a oposi-
ção como principal maneira de sentir-nos, pensar-nos e definir-nos. O
racismo vem impedindo o surgimento de uma visão integral e uma von-
tade por ela.3
O racismo demarca as diferenças existentes e inventa outras tan-
tas. O sentimento de discriminação que ele cria impõe diferenças que
passam, dolorosamente, a serem aceitas e assumidas. Nos depoimen-
tos que compilei entre as populações negras dos diversos povoados de
El Carmen (Peru) e do Vale do Chota (Equador),4 estes fatores emer-
giram como os principais eixos sobre os quais a diferença – e não o
compartilhado – passa a comandar a auto-representação:

la sangre no la tenemos negra. No somos como creen algunos. Tenemos lo


que todos tienen. Qué nos falta? Lo único que el moreno no tiene es el cabello
que tienes. Pero tienen los ojos, tiene la nariz, el corazón, la mano, tienen los
pies. Entonces, qué es lo que les falta? La color... (Perú, Guayabo, Orestes
Palma)
uno, pónte, se siente inestable cuando la gente blanca comienza a tratarle
mal a uno, a burlarse. Entonces, uno trata de defenderse, a cualquier costa
defenderse, aunque no defenderse así agresivamente, pero moralmente...
(Ecuador, Chota, José Carabalí)

A defesa moral que empreendem os discriminados consiste em


assumir a diferença imposta. No caso dos negros, torna-se uma reivin-
dicação da negritude:

Negro soy y no me arrepiento de lo que soy... Estimo mi raza, soy negro,


y el que me dice negro, bacán, porque negro soy... El que ha sido racista
conmigo se ha chocado... (Perú, Guayabo, Orestes Palma)

3 É interessante destacar o caso aparentemente contrário da construção da “brasilidade” que


conseguiu criar, precisamente por não opor, uma síntese entre os elementos históricos, popula-
res, modernos e nacionais. Veja-se o caso da popularidade da síntese musical de Villa-Lobos
(Sevcenko, 1992).
4 El Carmen é um conjunto de pequenos povoados, localizados a três horas de Lima, e habitados
quase em sua totalidade por uma população negra que até antes do ano de 1969 (ano da reforma
agrária de Velasco Alvarado) trabalhava nas fazendas algodoeiras da região. As terras foram
distribuídas entre esta população que hoje continua produzindo algodão. O Vale do Chota situa-
se na serra norte do Equador, a quatro horas de Quito. Existem neste vale pequenos povoados
de população negra que convivem com vizinhas comunidades indígenas (Montoya et al., 1993).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 233


Existe em El Carmen, especialmente entre os jovens, um discurso
de identidade negra (não organizada, padronizada ou formalizada)5 que
reivindica a diferença imposta e entra em contradição com a escassa
criação cultural efetivamente diferente.6 O desprezo, o racismo e a dis-
criminação cumprem um papel fundamental na recriação deste senti-
mento de diferença e na produção de um discurso de identidade ba-
seado na cor da pele.
Poder-se-ia explicar o discurso neoindigenista dos descendentes
de migrantes em Lima também por esta mesma lógica de responder à
discriminação. Grande parte da bagagem cultural andina se perde na
cidade e nos próprios Andes (Montoya, 1987), ao passo que a identi-
dade e o discurso andinista persistem.
Nos depoimentos de sujeitos aymaras compilados por Montoya
e López, a discriminação aparece igualmente como motivo de dife-
renciação:

Puedo manifestar que es muy duro enfrentar sobre todo la humillación y


la discriminación. Desde que ingresé a la escuela no veo más que discriminación
por todos los rincones... Yo estoy pensando que el Perú no es nuestro. La
cabeza del Perú está en Lima, su boca olvidó y ya no habla su lengua, pues
aprendió otra “más perfecta”. Sus ojos ya no saben mirar las otras partes de
su cuerpo; ahora mira lo que está más lejos. Sus oídos ya no escuchan el
correr de sus venas ni el palpitar de su corazón. Será que ya está seccionado
en partes el Perú? (Ramos Rojas, 1988, p.80)

5 Existe o “Movimiento Negro Francisco Congo” (surgido nos anos 80 e atualmente dividido em
três grupos pequenos e enfraquecidos), animado por uns poucos intelectuais negros e apoiado
fundamentalmente pela classe média branca. Seu acolhimento entre brancos é maior porque a
própria população negra não se reconhece e desconfia das poses e discursos intelectuais de
seus líderes, alheios à imagem do negro que eles têm. Deve-se também a distância dos povoa-
dos negros de Lima que é o espaço onde se desenvolvem a organização e as atividades deste
movimento. Por estas razões, o “Primer Encuentro de Comunidades Negras del Perú”, organiza-
do por este movimento em 1991, conseguiu reunir apenas um pequeno grupo de limenhos e
alguns representantes dos povos negros do litoral peruano.
6 Em 1991, realizei um trabalho de campo nesta população. Pretendia descrever sua cultura que a
priori imaginava diferente. Grande foi minha surpresa quando não encontrei, após quase um ano
entre eles, nada diferente que pudesse justificar falar de uma “cultura negra”. Conservam algu-
mas músicas e danças, cultivadas principalmente nos dias festivos que se tornaram dias turísti-
cos. Desde 1956, ano em que se apresentou o primeiro espetáculo de folclore negro num teatro
de Lima (“Estampas de Pancho Fierro”), vem-se impondo uma nova dinâmica de relação entre
os espaços próprios e os compartidos que fez que a cultura que antes era “para dentro” passasse
a ser pública e seus elementos, gradualmente, deixassem de propiciar a idéia de ser cultural e
efetivamente diferentes. Desde então, crenças, festividades e muitas expressões musicais pró-
prias desapareceram (Vásquez, 1982; 1991). Nos dias de hoje, é a cultura urbana limenha a que
comanda a vida cotidiana, a fala achorada, a sociabilidade lúdica, a música salsa etc.

234 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


É por assumirem as diferenças impostas que muitos dos atuais
discursos de identidade cultural são, como diz Vargas Llosa (1994),
“na melhor das hipóteses, uma ficção, e na pior, uma prisão da qual
convém escapar quanto antes”. Parecem-me uma prisão na medida
em que reproduzem a representação que deles fizeram e fazem os
Outros. Ao olharem-se neste espelho e ao colocarem-se as máscaras
impostas, muitos peruanos acabam dificultando a oportunidade de uma
distinção mais sã entre o que deixaram de ser, o que querem ser, o
que nunca foram e o que acabaram sendo. Quando sem sê-lo cultural-
mente, os índios reivindicam ser Índios, os negros ser Negros e os
aymaras ser Aymaras, o que temos é um quadro no qual, como afirma
Richards, encontramos “people whose identities the masks of difference
‘masked’” (1994, p.8).

3 Heterogeneidade e complementaridade:
a nova identidade

“quiero, al menos por el momento, zafarme del


cepo que impone el falso imperativo de definir
en bloque, de una vez y para siempre, lo que
somos: una identidad coherente y uniforme,
complaciente y desproblematizada (la ideología
del mestizaje sería un buen ejemplo), que tiene
que ver más con la metafísica que con la
sociedad y la historia. En otra palabras: quiero
escapar del legado romántico – o más ge-
néricamente, moderno – que nos exige ser lo que
no somos: sujetos fuertes, sólidos y estables,
capaces de configurar un yo que siempre es el
mismo, para explorar – no sin temor – un hori-
zonte en el que el sujeto renuncia al inmantado
poder que recoge en su seno – para desactivarlas
– todas las disidencias y anomalías, y que – en
cambio – se reconoce no en uno sino en varios
rostros, inclusive en sus transformismos más
agudos.” (Cornejo Polar, 1994, p.20)

Esta epígrafe mostra-nos uma vontade individual, intelectual, um


esforço para superar o esquema dual e o olhar hierárquico que coman-
dam a construção das identidades unívocas. Como Antonio Cornejo
Polar, muitos limenhos, especialmente os jovens, porém não só eles,

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 235


estão abdicando da busca utópica de uma totalidade homogênea e fe-
liz, estão admitindo que o presente é descontínuo e feito de fragmen-
tos que não são necessariamente incompatíveis ou irreconciliáveis, es-
tão aprendendo a não descartar nenhum dos rostos que nos compõem.
Contudo, diferentemente deste intelectual, os limenhos que empreen-
dem este esforço não o estão fazendo premeditadamente ou verbal-
mente por meio de um discurso. Longe disso, fazem-no recorrendo à
ausência da formulação de um discurso de identidade. Entretanto, ne-
gando-se a definir-se, estão rejeitando o esquema dual e sua saída
unívoca. Com essa rejeição, a complementaridade e a heterogeneidade
estão começando a ser aceitas.
A nova identidade que se nega a sê-lo supõe, em primeiro lugar, a
assunção de que não pertencemos nem somos feitos em universos cul-
turais unívocos e excludentes, coerentemente construídos e suposta-
mente uniformes. Assumindo isto, a multiplicidade cultural não nos torna
sujeitos em crise, desintegrados, fraturados ou fragmentados, e sim su-
jeitos heterogêneos que assumem seus múltiplos “eus”.7
Em segundo lugar, supõe descartar a nostalgia. Isto é mais fácil,
evidentemente, quando não temos efetivamente do que ter nostalgia,
ou seja, quando podemos afirmar coisas como:

No he podido decir, como tantos, como muchos, como los viejos, “mi
Lima”. Yo vivo en una ciudad en la cual la mayoría de sus nombres me dicen
poco: Ancieta, Santa Cruz, Bayóvar, Pampas de San Juan, Balconcillo,
Tawantinsuyo. (Sánchez Leon, 1993, p.13)

A ausência de nostalgias acarreta uma facilidade maior para acei-


tar o presente, para não pretender fugir (exilar-se) dele. Permite não partir
do passadismo para construir a própria representação e a representação
dos Outros. A crise contínua que o país vivencia, há mais de três déca-
das, e que afeta especialmente os jovens, vem promovendo nestes um
pessimismo, um apoliticismo, um ceticismo e um individualismo8 que,

7 Canevacci salienta, neste sentido, que “O plural de eu já não é nós. Ou melhor, não pode ser
mais somente nós ... Isso significa que cachos de ‘eu’, entre si harmônicos ou em contraste,
podem conviver dentro do mesmo sujeito. Sem mais explosões patogênicas. Mas multiplicando,
justamente, o eu. Transformando-o em ‘eus’. Isso permite viver partes, pedaços de subjetivida-
de com uma relativa autonomia. E diversidade” (1996, p.99).
8 Grompone (1991) informa-nos que em Lima a maioria dos jovens de hoje trabalha em pequenas
empresas ou atividades de comércio do setor informal. Ao ser um trabalho temporário e
descontínuo, ele promove uma atitude flexível que leva estes jovens, incessantemente, a terem
e não terem dinheiro, e a saberem-se dependentes do “aparecimento” dos cachuelos (bicos).
Promove igualmente um distanciamento da política e das organizações tradicionais (tais como

236 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


longe de qualquer tendência ao passadismo ou à nostalgia, impõem o
pragmatismo.
Em terceiro lugar, este tipo de identidade aparece quando se des-
carta a oposição. A noção de identidade implica a de alteridade, mas
a alteridade não é obrigatoriamente sinônimo de oposição. Estamos
começando a admiti-lo.
Em quarto lugar, aparece quando a hierarquia e a inexorável dis-
tância entre o próprio e o compartido não comandam mais sua cons-
trução. Isto tornou-se possível pelo questionamento que as condutas
achoradas vêm fazendo. Ao impor a igualdade, o achoramiento cor-
rompeu o olhar hierárquico que estava por trás dos encontros levados
a efeito “como se” seus participantes fossem iguais. O interessante é
que não surge uma identidade achorada, e sim esta outra identidade
que se nega a sê-lo, isto é, que não pretende definições nem escolhas.
Por outro lado, a fragmentação das bagagens culturais fez que, na
atualidade, seja muito difícil definir o que é o próprio e, com isto, o
que nos define. Sentir-se “al filo de ambas [ou muitas] culturas” ex-
pressa essa dificuldade de continuar optando pelo unívoco:

“soy un hombre sin identidad”... Debo convencerme, que de todas maneras


se realizará ese encuentro entre El Zorro de Arriba y el Zorro de Abajo.
Lamentablemente, yo estaré al margen de todo eso, me siento un zorro
marginado. José María Arguedas tuvo la dicha de proclamar no ser un
aculturado, porque él tenía lo suyo. Yo en cambio me siento al filo de ambas
culturas... (Florez Aybar, 1988, p.49)

Ao questionar a oposição, a separação e a conciliação hierárqui-


ca, conseguimos representar-nos de outra maneira. Não por meio de
um discurso estruturado e formulado verbalmente, e sim pela ausên-
cia dele. A mesma roupa, a mesma fala crua e aguda, as mesmas
músicas compartilhadas e degustadas, os mesmos códigos para deci-
frar uma gíria não criaram uma nova limeñidad, e sim a necessidade
de não procurá-la mais.

os partidos e os sindicatos), um correlativo ceticismo e uma angustiante falta de referências em


termos de expectativas para o futuro. Sobre o setor informal em Lima, Franco (1989) informa-nos
que, em 1989, mais da metade da PEA de Lima era informal. Mais da metade deste setor de-
dicava-se ao comércio (ambulante e fixo); 20%, à indústria (em pequenas e improvisadas “fá-
bricas”); 7%, à construção e uma porcentagem similar aos transportes. Isto é, mais de 72% do
setor informal dedicavam-se ao ramo dos serviços. Mais da metade destes pequenos negócios
era unipessoal. Só 21% recebiam salário e o restante trabalhava a destajo, ou seja, por horas, dias
ou por comissão. Menos de 1,5% era sindicalizado e unicamente 18% estavam inscritos no
Seguro Social (órgão equivalente ao INSS no Brasil).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 237


No fundo dessa negativa de buscar uma identidade encontra-se
outra busca ainda mais importante: a de não querer mais demarcar
diferenças, e sim procurar a igualdade. A juventude limenha não se
aferra, como fez a juventude inglesa, por exemplo, às adesões unívocas,
aos estilos diferenciados que acarretam práticas e identidades dife-
rentes (Hebdige, 1988), isto é, estilos que renovem as diferenças no
interior de uma sociedade. Em Lima, os códigos (criollo, achorado,
cholo e andino) não conduzem a identidades necessariamente corres-
pondentes com esses códigos, precisamente porque se entra e se sai
deles incessantemente. Não temos atuações às que correspondam iden-
tidades precisas com o peso que as encontramos em São Paulo, por
exemplo. Aqui, muitos grupos de jovens (punks, blacks, rappers,
heavys, skinheads, reaggers etc.) delimitam seus territórios,
homogeneízam suas roupas, cortes de cabelo, gestos, e têm em seus
gêneros musicais excludentes os geradores de suas bem delimitadas
identidades e sociabilidades e seus precisos valores simbólicos (Frúgoli
Jr., 1995). Nesta cidade, a música e a vestimenta são os elementos
centralizadores das identidades e atividades das diversas “tribos”
urbanas que querem se mostrar, geralmente de forma agressiva, um
tanto diferentes (Abramo, 1994). Longe disso, em Lima, os jovens não
querem diferenciar-se: querem igualar, deixar de demarcar diferen-
ças. Séculos de separações, distâncias e diferenças encontram neste
fim de século uma resposta compreensível.
Sem identidade e sem querer tê-la, estamos perante um novo
tipo de construção de identidade que simplesmente não se coloca
como exigência porque, assim, ela facilita a navegação e a igualdade.
O resultado de não se aderir a uma identidade marcante e excludente
(seja ela visual, musical, expressiva ou territorial) promove uma enor-
me capacidade de penetrar em espaços diferentes com regras va-
riadas, de falar diversas linguagens, de conviver com as diferenças,
de entrar e sair.
Embora o dualismo continue comandando em muitos o modelo de
construção de identidade, acredito que é cada vez menor o sentimen-
to de ter perdido alguma coisa (sejam os balcones da velha Lima, se-
jam as montanhas sagradas dos vilarejos andinos), e são menores tam-
bém o assombro e as angústias para relacionar-se com o que a cidade
de hoje acabou sendo. De modo que estamos finalmente deixando de
ser o que nunca fomos e o que já não somos. O que acabamos sendo
é precisamente isto: sujeitos que impõem a igualdade, que não se
negam a apelar às distinções e, portanto, que não precisam se definir,
se aderir, se nomear com uma etiqueta que separe e diferencie. Com

238 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


efeito, eis aqui uma via, agrade-nos ou não, de descartar as oposições,
a unicidade e os desreconhecimentos.

4 Refúgios e abraços hierárquicos: a necessidade


de radicalizar as transformações

“Quizá el tema central de las políticas culturales


sea hoy cómo construir sociedades con proyectos
democráticos compartidos por todos sin que
igualen a todos, donde la disgregación se eleve
a diversidad y las desigualdades (entre clases,
etnías o grupos) se reduzcan a diferencias.”
(García Canclini, 1990, p.148)

O modelo de convivência limenha tem se baseado na obsessão pela


diferença e pelas hierarquias. A estratégia para mantê-las consistiu em
estabelecer uma nítida diferenciação e separação entre o próprio, o
compartido e o alheio, entre os Outros, o Nós-extensivo e o Nós-redu-
zido, e em criar um espaço temporal, intermediário e mediador, para
encontrar-se. Neles, inventou-se um repertório comum que permitiu e
promoveu a conciliação. Sendo encontros momentâneos, a conciliação
que os caraterizava não eliminou nem as diferenças nem as hierarquias.
Nos espaços próprios, as diferenças ocultas recriavam-se e as hierar-
quias adiadas mantiveram-se.
Parece-me que é por essas conciliações que nem em Lima nem
no resto do país encontramos mobilizações ou discursos formalizados
de reivindicação da diferença.9 Contudo, isto não nos deve levar a
pensar que não resta nada a ser feito ou mudado. Pelo contrário, pre-
cisamos ser críticos e reconhecer que a nossa convivência tem tido
três graves contradições que deveremos resolver:

9 No Equador e no México, encontramos um quadro muito diferente. Segundo Moguel (1994), no


México, o Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN), composto por mais de dez mil
indígenas, luta pelo direito à terra, reclama a legalidade oficial das autoridades tradicionais das
comunidades, exige que a cultura indígena seja respeitada e propõe que as regiões onde exista
hegemonia de uma etnia possam ser governadas por ela. No Equador, informa-nos León Trujillo
(1994), encontramos a CONAIE (Confederación de Nacionalidades Indígenas del Ecuador), fun-
dada em 1986, que agrupa as principais organizações indígenas desse país. Esta organização
teve um fundamental papel mediador no levantamento indígena de maio e junho de 1990.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 239


1 Temos nos abraçado sem eliminar as hierarquias. Ao postergá-las,
atuamos “como se” fôssemos iguais, mas na ordem social, econô-
mica e política, as desigualdades são imensas.
2 Ao ocultar a singularidade nos espaços próprios, construídos à ma-
neira de refúgios que nos salvaguardavam do Outro, temos repro-
duzido tradições muitas vezes substancializadas que já poucos sen-
tidos transmitem aos seus atores (é o caso de parte do folclore que
as populações negras de El Carmen reproduzem até hoje).
3 Ao separar nitidamente os espaços próprios dos compartidos, te-
mos mantido firmes as fronteiras culturais que não nos permitiram
conhecer o Outro,10 experimentá-lo e, muito menos, fusionar as ba-
gagens culturais.11

Esse modelo de convivência está sendo removido, há mais de uma


década, mediante práticas que questionam a discriminação, a ocultação
das singularidades e o apego a núcleos culturais considerados essên-
cias intocáveis e inalienáveis. Passamos a exibir diferenças extraindo-
as de seus refúgios e promovendo misturas e ensaios heterodoxos. O
problema reside em que estas condenações e ensaios de mesclas dão-
se individualmente e não institucionalmente, o que acaba colocando
em sério risco de extinção os elementos que compunham os até agora
sobreviventes refúgios, sem lhes dar a oportunidade de se repensar:
em nome da igualdade, agora, descartamos as diferenças. E, no outro
extremo, acabam-se criando mobilizações étnicas que pretendem
reerguer as fronteiras como único caminho para salvaguardar as sin-
gularidades (é o caso de muitas das reivindicações étnicas da Amazô-
nia peruana, por exemplo – Montoya, 1996a). Para que uma relação
aberta entre as culturas não acabe em nenhum desses extremos, é
necessário alterar as atuais regras do jogo cultural, isto é, acabar com
a desigualdade de oportunidades e com a desigualdade de condições
e armas com que cada uma das culturas conta atualmente.
Os indivíduos, isoladamente, vêm conseguindo transpor as fron-
teiras, transgredir as distinções. Trata-se de que todos sejam capazes
disso e de que seja o próprio Estado quem o fomente abertamente. Em

10 Seguindo Bachtin, Canevacci salienta a importância de conhecer e dialogar com o Outro para
descobrir o Eu: “eu sujeito posso me tornar tal somente mediante uma troca dialógica radical
com uma diferença ... É ao me descobrir para o outro que me descubro” (1996, p.40-1).
11 Janice Theodoro salienta o contrário. Esta autora afirma que na América Latina a tática tem sido
“antropofágica”, isto é, “engoliram o Outro (conquistador) e a Outra cultura numa tentativa de
reprocessar o universo cultural dominante de forma que o resultado fosse fusão” (1996, p.11).

240 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


outras palavras, como salienta García Canclini na epígrafe deste item,
trata-se de criar um novo modelo de sociedade baseado em projetos
compartidos que não igualem, de criar um modelo no qual a diversi-
dade esteja articulada e as singularidades não sejam hierarquizadas.
Não podemos nos conformar com o atual modelo que permite que em
Lima os sujeitos encontrem saídas oblíquas e conciliações temporais,
ao passo que sujeitos como os ashaninkas (e muitos outros da Amazô-
nia peruana) não tenham sequer esta possibilidade, que dependam do
Estado ou das ONG’s para qualquer projeto alternativo e que se encon-
trem desprovidos do direito de serem como querem ser. Mudar as re-
gras do jogo, institucionalmente, é um primeiro passo indispensável
para que surja o multiculturalismo do qual nos fala Hughes:

O multiculturalismo afirma que pessoas com diferentes raízes podem


coexistir, podem aprender a ler os bancos de imagens de outras, podem e
devem olhar além das fronteiras de raça, língua, gênero e idade sem precon-
ceito ou ilusão, e aprender a pensar no cenário de uma sociedade hibridizada.
(1993, p.75)

Trata-se de criar as condições que tornem possível que todos os


peruanos possam navegar através das diferenças, sem culpas, ultra-
passando as fronteiras sem necessariamente derrubá-las, reconhecen-
do o Outro sem fundamentalizar suas singularidades ou diferenças:

pensar e agir com graça e informação acima das linhas étnicas, cultu-
rais, lingüísticas. E o primeiro passo para tornar-se uma pessoa assim está
em reconhecer que não somos uma grande família mundial, nem temos pro-
babilidades de ser: que as diferenças entre raças, países, culturas e suas vá-
rias histórias são pelo menos tão profundas e duráveis quanto suas seme-
lhanças; que essas diferenças não são divagações da norma européia, mas
estruturas eminentemente dignas de ser reconhecidas por si mesmas. No
mundo futuro, quem não puder navegar através da diferença estará liquida-
do. (ibidem, p.84)

Trata-se de tornar possível que ninguém seja “liquidado”.


O segundo passo para radicalizar as transformações da convivên-
cia está em conceber a diferença como uma opção e não como uma
obrigação, em concebê-la como um direito e não como um privilégio.
Dahrendorf tem razão quando escreve que:

A redescoberta da etnia foi um passo adiante no processo de civiliza-


ção. Ela significou uma compreensão incipiente de que os direitos comuns
da cidadania não estão em conflito com as distinções culturais, mas, ao con-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 241


trário, dão a elas um novo alcance. Mas a feliz harmonia não durou muito.
Em muitos lugares, as diferenças passaram a ser usadas como armas contra a
cidadania. Essa arma foi freqüentemente reforçada pelo que começou a ser
chamado de fundamentalismo, o qual significa que pertencer a um grupo
confere uma aura de significado extraordinário, quase religioso. (1992, p.165)

Foi este o caso do indigenismo e do hispanismo, o caso da


negritude antilhana (Depestre, 1986; Fanon, 1974), o caso dos atuais
fundamentalismos no Oriente e no Ocidente, o caso dos indianistas
contemporâneos (Bonfil Batalla, 1981) e muitos dos tradicionalistas que
não entendem que as diferenças não negam os encontros, que as tra-
dições não são essências inamovíveis, e que não se manterão, nestes
tempos, se não se repensam e navegam em outros mundos em condi-
ções de igualdade.12 Em outras palavras, deve-se entender que a dife-
rença não pode ser pensada nos dias de hoje sem considerar, estreita
e paralelamente a ela, a igualdade. Neste sentido, García Canclini
salienta que:

A afirmação da diferença deve estar unida a uma luta pela reforma do


Estado, não apenas para que aceite o desenvolvimento autônomo de “comu-
nidades” diversas mas também para assegurar iguais possibilidades de aces-
so aos bens da globalização. (1995, p.22)

O terceiro passo consiste em que o Estado peruano (Cornejo Polar,


1993) assuma a obrigação moral de deixar de ser ou ausente ou simples
aliado das empresas extrativas e das grandes empresas de comunica-
ção de massa que pouco se interessam pela diversidade real e pelo re-
lacionamento entre as diversas bagagens culturais. Mais do que defen-
der patrimônios ou culturas tornando-as museus viventes, o Estado tem
a obrigação de inventar espaços de reconhecimento, isto é, intervir cri-

12 Na Amazônia peruana, desde o Congresso Amuesha reunido em 1969, encontramos quase uma
centena de organizações indígenas agrupadas na Aidesep (Asociación Inter-Etnica para el
Desarrollo de la Amazonía Peruana) e na Conap (Confederación de Nacionalidades de la Amazonía
Peruana). Esses movimentos criaram um discurso centrado na necessidade de defender um
vasto território multiétnico no qual poder-se-iam ver livres das transformações, explorações e
expropriações das quais são vítimas (especialmente por parte dos madeireiros, narcotraficantes,
fazendeiros, petroleiros, senderistas, emerretistas, colonos e soldados). Poder assim reger-se
segundo suas próprias normas, culturas, línguas e autoridades, sem por isso deixar de ser pe-
ruanos ou querer conformar outra nação. O problema é que a conexão, a conciliação e o con-
senso com o restante dos peruanos não aparecem nestes discursos. A pobreza de recursos
materiais, o narcotráfico e a violência política vêm limitando em muito o que poderia ter sido um
crescimento e enriquecimento do discurso e da prática desses diferentes movimentos
reivindicativos na Amazônia peruana (Montoya, 1996b).

242 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


ando e estimulando os cenários onde a diversidade encontra-se e dialo-
ga. Incentivar o intercâmbio e a navegação em condições igualitárias
para que delas nasçam as singularidades escolhidas, as oportunidades
de ser o que cada um de nós quer ser, deixar de ser ou tornar-se.
No Peru, o Estado deverá admitir, na prática e não apenas na
Constituição, que o nosso é um país múltiplo, no qual todos os seus
fragmentos são válidos, que não existem essências a-históricas, nem
culturas superiores e inferiores, que as bagagens culturais não se re-
duzem às tradições milenares e imortais, que a diversidade é criativa
e feliz sempre que não seja regida pela desigualdade e pela discrimi-
nação, que os consensos são possíveis e desejáveis, que seu papel
consiste em entender as passadas, atuais e prováveis dinâmicas de
convívio multicultural para assim poder atuar nos eixos, premissas e
cenários que as modelam, e entender que essa intervenção somente
será legítima quando seja o fruto de um diálogo entre todos os setores
e culturas que busquem construir uma sempre mais feliz comunicação
e convivência multicultural.
Finalmente, radicalizar as transformações implicará chegar a um
consenso em relação a um projeto compartido de país, a um modelo
de sociedade futura a construir (Bonfil Batalla, 1992; García Canclini,
1987). Esse modelo terá que ser anelado por todos e construído a par-
tir de decisões coletivas que respeitem o que nos une e o que nos
separa, sem opor nem um nem outro. Conforme salientava Bonfil Batalla,
terá que ser uma política de todos para todos:
Es necesario, pues, abrir espacios para el intercambio de experiencias y
el diálogo intercultural entre dirigentes, maestros, promotores indios,
funcionarios gubernamentales y técnicos indigenistas, investigadores y todas
las personas interesadas en la construcción de una sociedad plural y demo-
crática, a fin de que sea posible avanzar en el análisis de los aspectos teóri-
cos, metodológicos y prácticos de la recuperación cultural en contextos
multiétnicos. (1987, p.97)

No Peru, pelo lado da sociedade civil, talvez seja este o momento


propício para sentarmo-nos e discutirmos essas questões. Estamos num
especial momento no qual a vida, a paz e a democracia são os valores
mais esperados por uma porção importante da população peruana, após
quinze cruéis anos de violência.13

13 O saldo desta violência é terrível: trinta mil mortos, três mil desaparecidos, meio milhão de
desplazados e centenas de recuperados (Montoya, 1997).

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998 243


MONTOYA URIARTE, U. Multiculturalism and identity: dilemma and pers-
pective in the Peruviam case. Perspectivas (São Paulo), v.20/21, p.223-246,
1997/1998.
■ ABSTRACT: This article shows and discusses a number of different identities
constructed in contemporary Peru. Its main purpose is discover how
multiculturalism – evidenciated in the cultural practices of interaction in the
everyday life – is present or absent in these representations. According to
univoques identities, I will propose some of the reasons that are in the base
of the large peruvian’s difficulty to assumpt their cultural heterogeneity. In
the other hand, I will try to understand why some young identities, especially
in Lima, are accepting the cultural differences as complementaries. In this
sense, I would like to put certain questions about the road to be constructed
in order to find a one best multicultural life in Peru.
■ KEYWORDS: Multiculturalism; identity; dualism; racism; cultural heterogenity.

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246 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 223-246, 1997/1998


TRADUÇÕES/ TRANSLATIONS
A REESTRUTURAÇÃO CAPITALISTA
E O SISTEMA MUNDIAL 1

Immanuel WALLERSTEIN
Tradução: José Flávio BERTERO2
Ana Maria de Oliveira ROSA E SILVA3

Celebramos o XX Congresso da ALAS (Associação Latino-America-


na de Sociologia) e discutimos as perspectivas da reconstrução da
América Latina e do Caribe. Não é um tema novo. Discute-se a Améri-
ca Latina desde 1945, se não desde o século XVIII. O que podemos di-
zer agora, que seja diferente do que já foi dito? Creio que nos encon-
tramos num momento de bifurcação fundamental no desenvolvimento
do sistema mundial. Penso que, não obstante, o discutimos como se se
tratasse de uma transição ordinária no leito de uma evolução quase
predestinada. O que devemos fazer é “não pensar” não só o desenvol-
vimento neoclássico tradicional, senão também o desenvolvimento dos
seus críticos de esquerda, cujas teses ressurgem regularmente apesar
de todos os seus rechaços, mas que na realidade comportam a mesma
epistemologia.
Vou elaborar duas teses principais nesta exposição. Tese número
1: É absolutamente impossível que a América Latina se desenvolva,
não importa quais sejam as políticas governamentais, porque o que se
desenvolve não são os países. O que se desenvolve é unicamente a
economia mundial capitalista e esta economia é de natureza pola-
rizadora. Tese número 2: A economia mundial capitalista se desen-

1 Traduzido de WALLERSTEIN, I. La restructuración capitalista y el sistema-mundo. In: ELÍZAGA,


R. S. (Coord.) América Latina y el Caribe: perspectivas de su reconstrucción. México: Associación
Latino Americana de Sociologia, 1996. p.69-85.
2 Departamento de Sociologia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – 14800-901 – Araraquara
– SP.
3 Mestre em Sociologia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – 14800-901 – Araraquara – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998 249


volve com tanto êxito que está se destruindo, pondo-nos diante de
uma bifurcação histórica que assinala a desintegração desse sistema
mundial, sem que nos ofereça nenhuma garantia de melhoramento de
nossa existência social. Apesar de tudo, penso que lhes trago uma
mensagem de esperança. Vejamos.
Comecemos pela tese número 1. As forças dominantes do sistema
mundial têm sustentado, desde pelo menos o início do século XIX, que
o desenvolvimento econômico foi um processo muito natural, que tudo
o que se requer para realizá-lo é liberar as forças de produção e per-
mitir aos elementos capitalistas crescer rapidamente, sem impedi-
mentos. Evidentemente, também foi fundamental a vontade. Quando
o Estado francês começava a reconstruir a vida econômica de suas
colônias em princípios do século XX, chamava-se essa política de “la
mise en valeur des territoires” [“a valorização dos territórios”]. Isso diz
tudo. Antes os territórios não valiam nada, e logo (com o desenvolvi-
mento imposto pelos franceses) valem algo.
Desde 1945, a situação geopolítica mudaria fundamentalmente com
o alcance político do mundo não-“europeu” ou não-ocidental. Politica-
mente, o mundo não-ocidental se dividiria em dois setores, o bloco
comunista (dito socialista) e o outro denominado Terceiro Mundo. Do
ponto de vista do Ocidente, e, evidentemente, sobretudo dos Estados
Unidos, o bloco comunista foi deixado à sua própria sorte, para que
sobrevivesse economicamente como pudesse. E esse bloco elegeu um
programa estatal de industrialização rápida com o objetivo de “superar”
o Ocidente. Kruchov prometia “enterrar” os Estados Unidos no ano 2000.
A situação no Terceiro Mundo foi muito diferente. Nos primeiros
anos depois de 1945, os Estados Unidos concentraram todos os seus
esforços em ajudar a Europa Ocidental e o Japão a “reconstruirem-
se”. No princípio, ignoraram largamente o Terceiro Mundo, com a
exceção parcial da América Latina, campo de preferência para os Es-
tados Unidos desde muito tempo. O que pregavam os Estados Unidos
na América Latina era a tradicional canção neoclássica: abrir as fron-
teiras econômicas, permitir a inversão estrangeira, criar a infra-estru-
tura necessária para fomentar o desenvolvimento, centrar-se nas ativi-
dades para as quais esses países têm uma “vantagem corporativa”.
Uma nova bibliografia científica começava a aparecer nos Estados
Unidos a respeito do “problema” do desenvolvimento dos países sub-
desenvolvidos.
Os intelectuais da América Latina foram bastante recalcitrantes a
esta prédica. Reagiram muito ferozmente. A primeira reação impor-
tante foi da nova instituição internacional, a Cepal (Comissão Econômica

250 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998


para a América Latina), presidida por Raul Prebisch, cuja criação mes-
ma foi contestada energicamente pelo governo norte-americano. A
Cepal negava os benefícios de uma política econômica de fronteiras
abertas e afirmava contra isso um papel regulador dos governos, a fim
de reestruturar as economias nacionais. A recomendação principal foi
a de promover a substituição de importações pela proteção de indús-
trias nascentes, uma política amplamente adotada. Quando resumimos
as ações sugeridas pela Cepal, vemos que o essencial foi que, se o
Estado seguisse uma política sábia, poderia assegurar o desenvolvi-
mento nacional e, em conseqüência, um aumento sério no produto
nacional bruto per capita.
Até certo ponto, as recomendações da Cepal foram seguidas pe-
los governos latino-americanos e, efetivamente, houve uma melhoria
econômica, embora limitada, nos anos 50 e 60. Sabemos agora que
esta melhoria não perdurou e foi, em primeiro lugar, conseqüência da
tendência geral das atividades econômicas no âmbito mundial num
período Kondratieff-A. Em todo caso, a melhoria da situação média da
América Latina parecia insignificante para a maioria dos intelectuais
latino-americanos que decidiram radicalizar a linguagem da Cepal.
Chegamos à época dos dependentistas, primeira versão (entre outros
Dos Santos, Marini, Caputo, Cardoso dos anos 60, e Frank, o mesmo
que Amim fora da América Latina).
Os dependentistas pensavam que tanto as análises como os remé-
dios preconizados pela Cepal eram muito tímidos. Por um lado, pensa-
vam que, para se desenvolver, os governos dos países periféricos de-
veriam ir muito além de uma simples substituição de importações;
deveriam, nas palavras de Amim, desconectar-se definitivamente da
economia mundial capitalista (segundo, implicitamente, o modelo dos
países comunistas).
Por outro lado, as análises dos dependentistas foram muito mais
políticas. Incorporaram em seus pensamentos as situações políticas
presentes em cada país e no sistema mundial. Consideravam, em con-
seqüência, as alianças existentes e potenciais e, enfim, os obstáculos
efetivos a uma reestruturação econômica. Por suposto, aceitavam que
o papel das sociedades transnacionais, dos governos ocidentais, do FMI,
do Banco Mundial e todos os outros esforços imperialistas eram nega-
tivos e nefastos. Porém, ao mesmo tempo, e com uma paixão igual, se
não mais vigorosa, atacavam os partidos comunistas latino-americanos
e por trás deles a União Soviética. Diziam que a política advogada por
esses partidos – uma aliança entre os partidos socialistas e os elemen-
tos progressistas da burguesia – equivalia, no final das contas, às reco-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998 251


mendações dos imperialistas, de um reforço do papel político e social
das classes médias, e uma política tal que não podia lograr uma revo-
lução popular. Em suma, isso não era nem revolucionário nem eficaz,
se o objetivo era uma transformação social profunda.
Os dependentistas escreviam num momento de euforia da esquer-
da mundial: a época de Che e do foquismo, da revolução mundial de
1968, da vitória dos vietnamitas, de um maoísmo furioso que se expan-
dia rapidamente ao largo do mundo. Mas o Oriente já não era tão ver-
melho como se proclamava. Tudo isso não levava em consideração os
começos de uma fase Kondratieff-B. Ou melhor dito, a esquerda latino-
americana e mundial pensava que o efeito de um estancamento da eco-
nomia mundial afetaria em primeiro lugar as instituições políticas e
econômicas que sustentavam o sistema capitalista. Na realidade, o efeito
mais imediato foi sobre os governos chamados revolucionáros no Ter-
ceiro Mundo e no bloco comunista. Desde os anos 70, todos esses go-
vernos encontravam-se em dificuldades econômicas e orçamentárias
enormes que não podiam resolver, nem mesmo parcialmente, sem com-
prometer suas políticas estatais tão divulgadas e suas retóricas tão aca-
riciadas. Começava a retirada generalizada.
Na esfera intelectual foi introduzido o tema do desenvolvimento
dependente (Cardoso dos anos 70 e outros). Quer dizer, com um pouco
de paciência, companheiros; um pouco de sabedoria na manipulação
do sistema existente, e poderemos achar algumas possibilidades inter-
mediárias, que são pelo menos um passo na direção certa. O mundo
científico e periodístico iniciava o conceito dos NIC (New Industrial
Countries). E os NIC eram propostos como modelos a imitar.
Com o estancamento mundial, a derrota dos guevaristas e a reti-
rada dos intelectuais latino-americanos, os poderosos não necessitavam
mais das ditaduras militares, não muito mais, em todo caso, para con-
ter os entusiasmos esquerdistas. Viva! Vem a democratização! Sem
dúvida, viver num país de pós-ditadura militar era imensamente mais
agradável do que viver nos cárceres ou no exílio. Todavia, visto com
mais cuidado, os “vivas” para a democratização parcial (incluídas as
anistias para os condenados) vinham com os ajustes ao FMI e a neces-
sidade para os pobres de apertar os cintos ainda mais.
E devemos notar que, se nos anos 70, a lista dos NIC principais
incluía normalmente o México e o Brasil, ao lado da Coréia e de Taiwan,
nos anos 80 México e Brasil desapareciam dessas listas, deixando só
os quatro dragões da Ásia Oriental.
Depois vem o choque da queda dos comunismos. A retirada dos
anos 70 e 80 passou a ser fuga desordenada dos anos 90. Grande parte

252 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998


dos esquerdistas de ontem convertia-se em arautos do mercado, e os
que não seguiram este caminho buscavam ansiosamente outros ca-
minhos. Refutavam, sem dúvida, os senderos luminosos, porém não que-
riam renunciar à possibilidade de alguma, qualquer luminosidade.
Para não desmoronar diante do júbilo de uma direita mundial ne-
cessitada, que se felicita da confusão das forças populares em todas as
partes, devemos analisar com olhos novos, ou pelo menos novamente
abertos, a história do sistema mundial capitalista dos recém-passados
séculos. Qual é o problema principal dos capitalistas num sistema capi-
talista? A resposta é clara: individualmente, otimizar seus lucros e,
coletivamente, assegurar a acumulação contínua e incessante. Há cer-
tas contradições entre esses dois objetivos, o individual e o coletivo,
mas não vou discutir isso aqui. Vou limitar-me ao objetivo coletivo. Como
fazê-lo? É menos óbvio do que se pensa a miúdo. Os lucros são a dife-
rença entre receitas para produtores e os custos de produção. Eviden-
temente, se se amplia o fosso entre os dois, aumentam os lucros. Logo,
se se reduzem os custos, aumentam os lucros? É o que parece, com a
condição de que não afete a quantidade de vendas. Mas, sem dúvida, se
se reduzem os custos, é possível que se reduzam as receitas dos com-
pradores potenciais. De outra forma, se se aumentam os preços de ven-
da, aumentam os lucros? É o que parece, com a condição de que não
afete a quantidade de vendas. Porém, se se aumentam os preços, os
compradores potenciais podem buscar outros vendedores menos careiros,
se é que existem. Claro que as decisões são delicadas!
Não são, ademais, os únicos dilemas. Há duas variedades prin-
cipais de custos para os capitalistas: os custos da força de trabalho
(incluindo-se a força de trabalho para todos os insumos) e os custos de
transações. Mas o que reduz os custos da força de trabalho poderia
acrescentar os custos das transações e vice-versa. Fundamentalmen-
te, é uma questão de colocação. Para minimizar os custos das transa-
ções, é mister concentrar as atividades geograficamente, isto é, em
zonas de altos custos da força de trabalho. Para reduzir os custos da
força de trabalho, é útil dispersar as atividades produtivas, só que isso,
inevitavelmente, afeta de modo negativo os custos das transações.
Portanto, há pelo menos quinhentos anos, os capitalistas deslocam seus
centros de decisão de cá para lá, a cada 25 anos mais ou menos, em
correlação essencial com os ciclos Kondratieff. Nas fases A, primam os
custos das transações e há centralização, e na fase B primam os cus-
tos da força de trabalho e há fuga de fábricas.
O problema complica-se ainda mais. Não é suficiente obter lucros.
Deve-se fazer o possível para guardá-los. Proteção contra quem e con-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998 253


tra o quê? Contra os bandidos, por suposto. Porém, também, e sem
dúvida mais importante, contra os governos. Não é tão óbvio como pro-
teger-se contra os governos, se se é capitalista de um nível um pouco
interessante, porque necessariamente um tal capitalista trata com vá-
rios governos. Poderia defender-se contra um governo débil (onde en-
contra-se força de trabalho barata), pela renda (coletiva, quer dizer, os
impostos; e individual, quer dizer, o suborno), ou por forte influência
dos governos centrais sobre os governos débeis, desde que os capita-
listas paguem outra renda por ela. Isso significa que, a fim de reduzir a
renda periférica, devem pagar uma renda central. Para proteger-se contra
o roubo dos governos, estes devem sustentar-se financeiramente.
Finalmente, para haver maiores lucros e não menores, os capita-
listas necessitam de monopólios, pelo menos de monopólios relativos,
de monopólios em certos rincões da vida econômica, por algumas
décadas. E como obter monopólios? É claro que toda monopolização
exige um papel fundamental dos governos, seja legislando ou decre-
tando, seja impedindo a outros governos de legislar ou decretar. Por
outro lado, os capitalistas devem criar canais que favoreçam tais mo-
nopólios, e para isso necessitam do apoio dos criadores e mantenedores
de padrões culturais. Tudo isto resulta em certos adicionais para os
capitalistas.
Apesar de tudo (ou talvez por causa de tudo isso), é possível ga-
nhar magnificamente, como se pode ver estudando a história do sis-
tema mundial capitalista desde seus princípios. Não obstante, no sé-
culo XIX aparecia uma ameaça a essa estruturação, que podia fazer cair
o sistema. Com uma centralização de produção aumentada emergia a
ameaça das “classes perigosas”, sobretudo na Europa Ocidental e na
primeira metade do século XIX. Na linguagem da antigüidade, que foi
introduzida em nossa armadura intelectual pela Revolução Francesa,
falamos do problema do proletariado.
Os proletários da Europa Ocidental começaram a ser militantes
na primeira metade do século XIX e a reação inicial dos governos foi
reprimi-los. Nessa época, o mundo político dividia-se entre conserva-
dores e liberais, entre os que renegavam por completo os valores da
Revolução Francesa e os que tratavam, no seio de um ambiente hostil,
de recuperar sua força para continuar a construção de um Estado cons-
titucional, laico e reformista. Os intelectuais de esquerda, denominados
democratas ou republicanos, ou radicais, ou jacobinos, ou algumas
vezes socialistas, não eram mais que um pequeno bando.
Foi a revolução “mundial” de 1848 que serviu como choque para
as estruturas do sistema mundial. Mostrou duas coisas. A classe ope-

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rária era verdadeiramente perigosa e podia desbaratar o funcionamen-
to do sistema. Em conseqüência, não era sábio ignorar todas as suas
reivindicações. Por outro lado, a classe operária não era suficientemente
forte para derrubar o sistema com sublevação quase espontânea. Ou
seja, o programa dos reacionários foi autodestrutor, mas também o era
o programa dos partidários de conspirações esquerdistas. A conclusão
à direita e à esquerda foi fundamentalmente centrista. Dizia-se que a
direita sem dúvida deveria fazer algumas concessões diante das recla-
mações populares. Bem como dizia-se que a esquerda nascente deve-
ria organizar-se para uma luta política longa e difícil, a fim de chegar
ao poder. Entravam em cena o conservadorismo moderno e o socialis-
mo científico. Sejamos claros: o conservadorismo moderno e o socia-
lismo científico são ou chegaram a ser duas alas, dois avatares do li-
beralismo reformista, intelectualmente já triunfante.
A construção do Estado liberal “europeu” (europeu no sentido
amplo) foi o fato político principal do século XIX e a contrapartida fun-
damental da já consumada conquista européia do mundo inteiro, ba-
seada no racismo teorizado. Chamo a isto de institucionalização da
ideologia liberal, como geocultura da economia mundial capitalista. O
programa liberal para os Estados do centro, Estados nos quais a ameaça
das classes perigosas aparecia como iminente, mormente no período
1848-1914, foi triplo. Primeiro, dar progressivamente a todo o mundo o
sufrágio. A lógica era que o voto satisfaria o desejo de participação,
criando para os pobres um sentido de pertencimento à “sociedade” e,
dessa maneira, não exigiriam muito mais. Segundo, aumentar progres-
sivamente as rendas reais das classes inferiores mediante o bem-estar
social. A lógica era a de que os pobres estariam tão contentes de viver
na indigência que aceitariam permanecer mais pobres que as classes
superiores. Os custos dessas transferências de mais-valia seriam me-
nores que os custos de insurreições, e em todo caso seriam pagos pelo
Terceiro Mundo. E terceiro, criar a identidade nacional e também
transnacional branco-européia. A lógica era a de que as lutas de clas-
se seriam substituídas pelas lutas nacionais e globais raciais, e dessa
forma as classes perigosas dos países do centro colocar-se-iam do
mesmo lado que suas elites.
Devemos reconhecer que esse programa liberal teve um êxito
enorme. O Estado liberal logrou domar as classes perigosas no centro,
isto é, dos proletários urbanos (inclusive no caso em que estes estavam
bem organizados, sindicalizados e politizados). O célebre consentimento
destes às políticas nacionais de guerra em 1914 é a mais evidente prova
do fim da ameaça interna para as classes dominantes.

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Não obstante, no momento mesmo em que resolviam esse pro-
blema, para os poderosos surgia outra ameaça de outras classes peri-
gosas: as classes populares do Terceiro Mundo. A revolução mexica-
na de 1910 foi um sinal importante, porém seguramente não a única.
Pensemos nas revoluções no Afeganistão, na Pérsia e na China. E pen-
semos na revolução de liberação nacional russa, que foi fundamental-
mente uma revolução por pão, terra, mas antes de tudo pela paz, ou
seja, com o fito de não seguir uma política nacional que servia sobre-
tudo aos interesses das grandes potências do Ocidente.
Poder-se-ia dizer que todas essas revoluções, incluindo-se a mexi-
cana, foram ambíguas? Certo, todavia não existem revoluções não
ambíguas. Dir-se-ia que todas elas, incluindo-se a mexicana, foram fi-
nalmente recuperadas? Certo, entretanto não existem revoluções na-
cionais que não foram recuperadas no seio desse sistema mundial ca-
pitalista. Não é esta a questão interessante.
Do ponto de vista dos poderosos do mundo, a possível sublevação
global dos países periféricos e descuidados constituía uma grave ameaça
para a estabilidade do sistema, pelo menos tão grave quanto a possível
sublevação européia do proletariado. Tinham que tomar ciência disso
e decidir como fazer-lhe frente. Em especial, porque os bolcheviques
na Rússia se apresentavam, para a esquerda mundial, como um movi-
mento de volta para uma posição verdadeiramente anti-sistêmica. Os
bolcheviques afirmavam que a política de “centralização” dos social-
democratas deveria ser descartada. Queriam encabeçar uma sublevação
global renovada.
O debate direita-centro a respeito do método de combater as clas-
ses perigosas repetia-se. Como o fez no caso dos proletários europeus
na primeira metade do século XIX, a direita de novo favorecia a repres-
são, mas desta feita de modo racista-popular (ou seja, por meio do fas-
cismo). O centro favorecia a reforma recuperadora. O centro foi encar-
nado por dois líderes sucessivos nos Estados Unidos, Woodrow Wilson
e Franklin Delano Roosevelt, que adaptaram as táticas do liberalismo
do século XIX ao novo cenário mundial. Woodrow Wilson proclamou o
princípio da autodeterminação dos povos. Este princípio foi o equiva-
lente global do sufrágio nacional. Uma pessoa, um voto; um povo, um
país soberano. Como no caso do sufrágio, não se pensava em dar tudo
a todos imediatamente. Para Wilson, essa foi, mais ou menos, a saída
para a desintegração dos impérios derrotados – austro-húngaro, oto-
mano e russo. Não procurou aplicá-lo ao Terceiro Mundo, como é ób-
vio, pois o mesmo Wilson foi quem interveio no México para vencer
Pancho Villa. Contudo, em 1933, com a política do Bom Vizinho,

256 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998


Roosevelt incluiu, pelo menos na teoria, a América Latina. E na Segun-
da Guerra Mundial estendeu a doutrina aos impérios oeste-europeus
em desintegração, aplicando-a primeiramente à Ásia e mais tarde à
África e ao Caribe.
Ademais, quando Roosevelt incluía em suas quatro liberdades a
“liberdade da necessidade” (“freedom of want”), falava da redistribuição
da mais-valia. Mas não foi muito específico. Anos depois, seu sucessor
Truman proclamou em seu Discurso Inaugural quatro prioridades na-
cionais. A única que recordamos foi a que se refere ao célebre ponto
quatro, que diz que os Estados Unidos devem “se lançar num pro-
grama novo e audaz” de ajuda aos países “subdesenvolvidos”. Começou
o que era o equivalente do Estado benfeitor em nível nacional, quer
dizer, o desenvolvimento do Terceiro Mundo por meio de um keyne-
sianismo mundial.
Este programa liberal mundial patrocinado pelos Estados Unidos,
poder hegemônico, foi também um grande êxito. Suas razões remon-
tam a 1920, ao Congresso de Bakú convocado pelos bolcheviques. No
momento em que Lenin e outros viram que era impossível impulsionar
o proletariado europeu para uma verdadeira guinada à esquerda, deci-
diram não esperar Godot. Voltaram-se para o Oriente, para os movi-
mentos de libertação nacional do Terceiro Mundo como aliados para a
sobrevivência do regime soviético. As revoluções políticas foram subs-
tituídas pelas revoluções antiimperialistas. Porém, com isso aceitaram
o essencial da estratégia liberal-wilsoniana. O antiimperialismo foi um
vocabulário mais fanfarronado e mais impaciente que a autodetermi-
nação dos povos. Desde esse momento os bolcheviques se transfor-
maram na ala esquerda do liberalismo global. Com a Segunda Guerra
Mundial, Stalin não só deu continuidade a esta orientação, como a
levou mais adiante. Em Yalta aceitou um papel limitado e consagrado
no seio do sistema que os Estados Unidos pensavam criar no período
do pós-guerra. E quando nos anos 50 e depois os soviéticos pregavam
a “construção socialista” desses países, no fundo utilizavam um voca-
bulário mais fanfarronado e mais impaciente para o mesmo conceito
de desenvolvimento nos países subdesenvolvidos, defendido pelos
Estados Unidos. E quando, na Ásia e na África, uma colônia depois de
outra podia obter sua independência, com lutas de uma facilidade
variável, foi com o consentimento talvez oculto e prudente, todavia
importante, dos Estados Unidos.
Quando digo que a estratégia liberal mundial teve um grande êxito,
penso em duas coisas. Primeiro, entre 1945 e 1970, na grande maioria
dos países, os movimentos herdeiros dos temas da Velha Esquerda do

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século XIX chegaram ao poder utilizando várias etiquetas: comunistas,
ao redor da União Soviética; movimentos de libertação nacional, na
África e Ásia; social-democratas na Europa Ocidental; populistas na
América Latina. Segundo, o resultado do fato de que tantos movimen-
tos da velha esquerda tenham chegado ao poder estatal foi uma eufo-
ria debilitadora e, ao mesmo tempo, também a entrada de todos esses
movimentos na maquinaria do sistema histórico capitalista. Cessaram
de ser anti-sistêmicos e passaram a ser pilares do sistema, sem deixar
de garantir uma linguagem esquerdista, desta vez com língua de ma-
deira (langue de bois).
Esse êxito, portanto, foi mais frágil do que pensavam os podero-
sos, e em todo caso não foi tão destacado como a recuperação da clas-
se operária branca-ocidental. Houve duas diferenças fundamentais en-
tre as situações nacionais dos países do Centro e do sistema mundial
global. O custo de uma distribuição nacional ampliada da mais-valia
aos operários ocidentais não foi expressivo como porcentagem do total
mundial, e pode ter sido pago em grande parte pelas classes populares
do Terceiro Mundo. Uma redistribuição significativa às populações do
Terceiro Mundo, pelo contrário, haveria de ser paga necessariamente
pelos poderosos, o que limitaria gravemente as possibilidades de acu-
mulação de capital no futuro. Por outra parte, foi impossível utilizar a
carta do racismo para integrar os povos de cor no sistema mundial. Se
todo mundo era considerado como “nós”, quem iria ser o outro a quem
recusar e depreciar? O desprezo racial havia sido um elemento deci-
sivo na construção da lealdade dos operários de sangue privilegiada
em suas nações. Porém, desta feita, não existia um Terceiro Mundo.
O ano de 1968 marcou o começo de um desmoronamento rápido
de tudo o que os poderosos tinham erigido no sistema mundial com a
geocultura liberal depois de 1945. Dois elementos concorriam para isso.
A alta fenomenal da economia mundial alcançou seus limites, e íamos
entrar na fase B de nosso ciclo Kondratieff atual. Politicamente, ha-
víamos chegado acima dos esforços anti-sistêmicos mundiais – Vietnã,
Cuba, o comunismo com face humana da Tchecoslováquia, o movi-
mento do poder negro nos Estados Unidos, os inícios da revolução
cultural na China, e tantos outros movimentos não previstos nos anos
50. Isso culminava com as revoluções de 1968, revoluções sobretudo
estudantis, mas não exclusivamente, em muitos países.
Não obstante, 1968 deixou duas vítimas feridas e agonizantes: a
ideologia liberal e os movimentos da velha esquerda. Para a ideologia
liberal, o golpe mais sério foi a perda de seu papel como a única ideo-
logia imaginável da modernidade racional. Entre 1789 e 1848, o libera-

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lismo já existia, contudo somente como uma ideologia possível, con-
frontando um conservadorismo duro e um radicalismo nascente. Entre
1848 e 1968, a meu ver, como acabo de afirmar, o liberalismo chegou
a ser geocultura do sistema mundial capitalista. Os conservadores e
os socialistas (ou radicais) converteram-se em avatares do liberalismo.
Depois de 1968, os conservadores e os radicais retrocederam às suas
atitudes anteriores a 1848, negando a validade moral do liberalismo. A
velha esquerda, comprometida com o liberalismo, fez esforços valen-
tes para mudar de pele, adotando um verniz da nova esquerda, porém,
na verdade, não o logrou. Melhor dizendo, corrompeu os pequenos
movimentos da nova esquerda, muito mais do que ela mesma pudesse
realmente converter a velha esquerda. Seguia inevitavelmente o declínio
global da velha esquerda.
Ao mesmo tempo, sofríamos os azares de uma fase B de um ciclo
Kondratieff. Não é preciso rememorar agora os itinerários com detalhe.
Recordemos unicamente dois momentos. Em 1973, a Opep lançou a
alta dos preços do petróleo. Observemos as várias conseqüências. Foi
uma bonança em renda para os países produtores, incluindo-se, na Amé-
rica Latina, o México, a Venezuela e o Equador. Foi uma bonança para
os bancos transnacionais nos quais foi depositada a renda não gasta
em seguida. Ajudava, por um certo tempo, os Estados Unidos na sua
concorrência com a Europa Ocidental e com o Japão, porque os Esta-
dos Unidos eram menos dependentes da importação de petróleo. Foi
um desastre para todos os países do Terceiro Mundo e do bloco comu-
nista que não eram produtores de petróleo. Os pressupostos nacionais
caíram em déficits dramáticos. Agravaram-se as dificuldades dos paí-
ses centrais, reduzindo ainda mais a demanda global de seus produtos.
Qual foi o resultado? Houve duas etapas. Primeiro, os bancos
transnacionais, com o apoio dos governos centrais, ofereciam energi-
camente empréstimos aos governos pobres em situações desespera-
das, e inclusive aos próprios governos produtores de petróleo. É claro
que os governos pobres aceitaram esse salva-vidas para manterem-se
contra a ameaça dos tumultos populares, e os governos produtores de
petróleo se aproveitaram da oportunidade para “se desenvolverem” ra-
pidamente. Ao mesmo tempo, esses empréstimos reduziram os pro-
blemas econômicos dos países centrais, aumentando a possibilidade
de vender seus produtos no mercado mundial.
A única pequena dificuldade com essa bela solução era que devia
reembolsar os empréstimos. Em uns anos, o juro composto das dívidas
alcançou uma porcentagem enorme dos orçamentos anuais dos países
devedores. Foi impossível controlar essa evasão galopante dos recursos

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998 259


nacionais. A Polônia deve sua crise de 1980 a este problema. E em
1982 o México anunciou que não podia continuar pagando suas contas
como antes. Tal crise da dívida perdurou na imprensa alguns anos, mas
logo ela a esqueceu. Para os países endividados, no entanto, a crise
persiste, não somente como uma carga orçamentária, senão também
como um castigo decorrente das exigências draconianas impostas a
esses países pelo FMI. Houve uma queda no nível de vida em tais paí-
ses, principalmente nos estratos mais pobres, que compreendem de
85% a 95% das suas populações.
Vinham à baila os dilemas de uma economia mundial em
estancamento. Se não era possível atenuar mais esse estancamento
mundial com os empréstimos dos países pobres, era necessário encon-
trar, nos anos 80, outros expedientes. O mundo financeiro-político in-
ventou dois. Um novo emprestador se apresentou: os Estados Unidos
que, com Reagan, praticavam uma política keynesiana oculta. Como o
sabemos, a política Reagan sustentou certas grandes empresas norte-
americanas e limitou o desemprego, mas acentuou a polarização inter-
na. Assim, ajudou a manter a renda na Europa Ocidental e no Japão.
Todavia, evidentemente, o mesmo problema iria aparecer. O juro sobre
a dívida começou a se tornar demasiado pesado. Novamente sobreveio
uma crise de dívida nacional. Os Estados Unidos passaram a viver uma
situação tão desconcertante que, afora desempenhar o papel de líder
militar do mundo na Guerra do Golfo em 1991, foi preciso que o Japão,
a Alemanha, a Arábia Saudita e o Kuwait pagassem o essencial dos
gastos. Sic transit gloria!
A fim de impedir um pouco um ocaso precipitado que estava em
marcha, os Estados Unidos recorreram às soluções do FMI, inflingindo-
se seu próprio castigo. Denomina-se “O Contrato para a América”. Exa-
tamente como insiste o FMI para os países pobres, os Estados Unidos
estão reduzindo o nível de vida dos pobres, sem prejuízo de manter,
inclusive aumentar, as possibilidades de acumulação para a minoria da
população.
O segundo expediente resultou do fato de que um aspecto funda-
mental de toda a fase B dos ciclos Kondratieff é a dificuldade acentua-
da de obter grandes lucros no setor produtivo. Ou, para ser mais pre-
ciso, a fase B se caracteriza, se explica, pela restrição do lucro, isso
não chega a ser um obstáculo para um grande capitalista. Se não há
uma margem suficiente de lucro na produção, volta-se para o setor fi-
nanceiro a fim de extrair juros da especulação. Nas decisões econô-
micas dos anos 80, vemos que isto se traduzia no fenômeno do súbito
controle (take over) de grandes corporações por meio dos chamados

260 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998


junk bonds ou bônus ilícitos. Visto de fora, o que sucede é que as gran-
des corporações estão se endividando, com a mesma conseqüência,
no curto prazo, para a economia mundial, uma injeção de atividade
econômica que constitui uma luta contra o estancamento. Porém, lu-
tam com as mesmas limitações. Devem pagar as dívidas. Quando isso
se mostra impossível, a empresa entra em bancarrota ou num “ FMI pri-
vado”, que lhe impõe reestruturação, ou seja, a dispensa de emprega-
dos. O que ocorre muitíssimo em nossos dias.
Desses acontecimentos tristes, quase indecentes, dos anos 1970-
1995, que conclusões políticas têm tirado as massas populares? Pa-
rece-me óbvio. A primeira conclusão que têm tirado é que a perspecti-
va de reformas graduais que permitiriam a eliminação do fosso rico-
pobre, desenvolvido-subdesenvolvido, não é possível na situação atual
e que todos que a tinham afirmado foram mentirosos e manipuladores.
Mas quem foram eles? Antes de tudo, foram os movimentos da velha
esquerda.
A revolução de 1968 sacudiu a fé no reformismo, incluindo-se o
reformismo a que se chamava de revolucionário. Os 25 anos posterio-
res de eliminação dos ganhos econômicos dos anos 1945-1970 destruí-
ram as ilusões que ainda persistiam. Num país após outro, o povo deu
um voto de não-confiança aos movimentos herdeiros da velha esquer-
da, seja populista, seja de libertação nacional, seja social-democrata,
seja leninista. A derrocada dos comunismos em 1989 foi o término da
revolução de 1968, a queda dos movimentos que pretendiam ser os mais
fortes e os mais militantes. Sua perda de apoio popular foi ultradramática
e, para muitas pessoas, até evidentemente para muitos intelectuais das
Américas, foi um desarranjo de toda uma vida mental e espiritual.
Os coiotes do capitalismo têm gritado vitória. Mas os defensores
mais sofisticados do sistema atual sabiam melhor. A derrota do
leninismo, e é uma derrota definitiva, é uma catástrofe para os pode-
rosos. Eliminou o último e melhor escudo político, sua única garantia,
como foi o fato de as massas acreditarem na certeza do êxito do
reformismo. E, em conseqüência, essas massas não estão mais dis-
postas agora a ser tão pacientes como no passado. A queda dos co-
munismos é um fenômeno muito radicalizante para o sistema. O que
ruiu em 1989 foi precisamente a ideologia liberal.
O que proporcionava o liberalismo às classes perigosas foi sobre-
tudo a esperança, ou melhor, a certeza do progresso. Foi uma espe-
rança muito materialista, todos terão finalmente uma qualidade de vida
confortável e saudável, uma educação, uma posição honrosa para si
mesmos e seus descendentes. Foi prometido, se não para hoje, para

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998 261


um futuro próximo. A esperança justificava a demora, com a condição
de que haveria certas reformas governamentais visíveis, bem como
alguma atividade militante visível por parte dos que esperavam. En-
quanto isso, os pobres trabalharam, votaram e serviram nos exércitos.
Quer dizer, fizeram funcionar o sistema capitalista.
Todavia, se deviam perder esta esperança, que fariam as classes
perigosas? Sabemo-lo, porque o vivemos atualmente. Renunciam à sua
fé nos Estados, não unicamente no Estado nas mãos dos “outros”, se-
não em todo Estado. Chegam a ser muito cínicos no que concerne aos
políticos, aos burocratas e também a respeito dos chamados líderes
revolucionários. Começam a abraçar um antiestatismo radical. É pou-
co menos que querer fazer desaparecer os Estados que não dão nenhu-
ma confiança. Podemos ver esta atitude ao largo do mundo – no Ter-
ceiro Mundo, no mundo ex-socialista –, assim como também nos países
centrais. Nos Estados Unidos o mesmo que no México!
Estão contentes as pessoas ordinárias com esta nova postura? Tam-
pouco. Pelo contrário, têm muito medo. Os Estados Unidos foram sem
dúvida opressivos, desconfiados, mas foram também, ao mesmo tempo,
fontes de segurança cotidiana. Na ausência de fé nos Estados, quem
garantirá a vida e a propriedade pessoal? Chega a ser necessário
retornar ao sistema pré-moderno: devemos prover nossa própria segu-
rança. Funcionamos como a polícia, o arrecadador de impostos e o
mestre escolar. Além do mais, porque é difícil assumir todas essas
tarefas, nos submetemos a “grupos” construídos de múltiplas manei-
ras e com várias etiquetas. O novo não é que esses grupos se orga-
nizem, senão que comecem a assumir as funções que outrora perten-
ciam à esfera estatal. E, ao fazer isso, as populações estão menos e
menos prontas a aceitar o que os governos lhes impõem para essas
atividades. Depois de cinco séculos de fortalecimento das estruturas
estatais, no seio de um sistema interestatal também em fortalecimen-
to contínuo, vivemos presentemente a grande retração do papel dos
Estados e necessariamente, portanto, também do papel do sistema
interestatal. Não é algo menor. É um terremoto no sistema histórico
do qual somos participantes. Esses grupos aos quais nos submetemos
representam uma coisa muito distinta das nações que construímos nos
séculos passados. Os membros não são “cidadãos”, porque as frontei-
ras dos grupos não são definidas juridicamente senão miticamente, não
para incluir, mas para rechaçar. Isso é bom ou mau? E para quem? Do
ponto de vista dos poderosos, é um fenômeno muito volátil. Do ponto
de vista de uma direita ressuscitada, é a possibilidade de erradicar o
Estado benfeitor e permitir o florescimento dos egoísmos de curta

262 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998


duração (après moi le déluge!). Do ponto de vista das classes oprimidas,
é uma espada de duplo corte e tampouco estão seguras se deveriam
lutar contra a direita porque suas proposições lhes ocasionavam danos
imediatos graves, ou apoiar a destruição de um Estado que os tem
dispensado.
Penso que o colapso da fé popular na inevitabilidade de uma trans-
formação igualizante é o mais sério golpe para os defensores do siste-
ma atual, porém, seguramente não é o único. O sistema mundial ca-
pitalista está desagregando-se por causa de um conjunto de vetores.
Poderíamos dizer que essa desagregação é muito sobredeterminada.
Discutirei brevemente alguns desses vetores inquietantes para o fun-
cionamento do sistema mundial. Antes de fazê-lo, devo dizer que não
se apresenta como um problema de tecnologia. Alguns sustentam que
o processo contínuo de mecanização da produção resultará na elimi-
nação de empregos possíveis. Não creio. Podemos contudo inventar
outras tarefas para a força de trabalho. Outros declaram que a revo-
lução informática acarretará um processo de globalização que torna
caduco o papel dos Estados. Não creio, tampouco, porque a globalidade
tem sido elemento fundamental da economia mundial capitalista des-
de o século XVI. Não é nada novo. Se esses têm sido os únicos pro-
blemas dos capitalistas no século XX, estou seguro de que se poderia
fazer necessário a fim de manter o impulso da acumulação incessante
de capital. Há coisas piores.
Primeiro, para os empresários há dois dilemas que são quase im-
possíveis de resolver: a desruralização do mundo e a crise ecológica.
Os dois são bons exemplos de processos que vão de zero a 100% e
quando chegam perto da assíntota perdem valor como mecanismo de
ajuste. Isso constitui a fase última de uma contradição interna. Como
o mundo moderno se desruralizou progressivamente? Uma explicação
tradicional é que a industrialização exige a urbanização. Mas não é
verdade. Entretanto, há indústrias localizadas em regiões rurais, e te-
mos notado a oscilação cíclica entre a concentração e a dispersão
geográfica da indústria mundial. A explicação é diferente. Cada vez
que há estancamento cíclico na economia mundial, um dos seus re-
sultados é uma menor mobilização do proletariado urbano contra o
declínio de seu poder de compra. Cria-se, assim, uma tensão a que os
capitalistas resistem por suposto. Não obstante, a organização operá-
ria cresce e começa a ser perigosa. Ao mesmo tempo, as reorganiza-
ções empresariais alcançam um momento em que poderiam relançar a
economia mundial sobre a base de novos produtos monopolizados.
Porém, falta um elemento: a demanda global suficiente.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998 263


Diante disso, a solução é clássica: aumentar a renda do proleta-
riado, sobretudo dos operários qualificados, e inclusive facilitar para
alguns o ingresso nessas categorias. Com um mesmo golpe, resolvem-
se os problemas da tensão política e da falta de demanda suficiente.
Há, contudo, uma contrapartida. A porcentagem de mais-valia que
corresponde aos proprietários tem diminuído. Para compensar essa
queda de mais-valia relativa, de novo existe uma solução clássica:
transferir alguns setores de atividade econômica que não são muito
rentáveis para zonas onde há uma população rural importante, uma
parte poderia ser atraída para novas localidades urbanas de produção,
por salários que representassem para eles um incremento de suas ren-
das familiares, mas que no cenário mundial representam custos de
trabalho industrial mínimos. Com efeito, a fim de resolver as dificul-
dades recorrentes dos estancamentos cíclicos, os capitalistas fomen-
tam uma desruralização parcial do mundo. Mas, e se não há mais po-
pulação para desruralizar? Hoje nos aproximamos desta situação. As
populações rurais, já não muito fortes na própria Europa, estão desa-
parecendo inteiramente de muitas regiões do mundo e decrescem em
toda parte. Provavelmente são menos de 50% mundialmente hoje, e
dentro de 25 anos essa cifra deverá cair para menos de 25%. A conse-
qüência é clara. Não haverá novas populações de baixa renda para
compensar os salários mais elevados dos setores proletarizados ante-
riormente. Portanto, o custo do trabalho aumentará mundialmente, sem
que os capitalistas possam evitá-lo.
O mesmo sucede com a ecologia. Por que existe hoje uma crise
ecológica? Não é complicado explicá-la. A fim de maximizar os lu-
cros, há dois recursos principais para um capitalista: não pagar dema-
siado aos operários e não pagar demasiado pelo processo de produção.
Como fazer isso? De novo é óbvio: fazê-lo pagar em grande parte por
“outros”. Chama-se a isto de “externalização de custos”. Há dois
métodos principais de externalizar custos. Um é esperar que o Estado
pague pela infra-estrutura necessária à produção e à venda dos pro-
dutos. A desagregação dos Estados representa uma ameaça aguda para
isso. Contudo, o segundo e mais importante método é não pagar os
ditos custos ecológicos: por exemplo, não replantar os bosques cor-
tados ou não pagar pela limpeza de resíduos tóxicos.
Enquanto existiam outros bosques, ou zonas ainda não utilizadas,
logo não intoxicadas, o mundo e os capitalistas podiam ignorar as
conseqüências. No entanto, hoje tocam os limites da externalização
de custos. Não há muito mais bosques. Os efeitos negativos de uma
intoxicação excessivamente aumentada da terra implicam repercussões

264 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998


sérias e múltiplas que nos anunciam os cientistas habituais. Por isso
têm surgido movimentos verdes. Do ponto de vista global há unica-
mente duas soluções: fazer os capitalistas pagarem os custos ou au-
mentar os impostos. Esta última, entretanto, é pouco provável, dadas
as tendências a reduzir o desempenho dos Estados. E a primeira im-
plica uma redução séria nos lucros dos capitalistas.
Há outros vetores que representam dilemas não para os empresá-
rios, mas para os Estados. Primeiro, a polarização socioeconômica cada
dia mais aguda do mundo corre paralela com a polarização demográfica
do mundo. Verifica-se, de fato, uma transformação demográfica em
curso há duzentos anos pelo menos, e agora mesmo toca pela primei-
ra vez a África, que no período posterior a 1945 tinha a taxa de cres-
cimento mais alta do mundo. Ainda que as taxas em geral baixem, o
fosso entre o Norte – onde as taxas são menos preocupantes – e o
Terceiro Mundo, onde ainda são altas, continua dilatando-se. Se hou-
ver recuperação da economia mundial no primeiro quarto do século
XXI, o fosso econômico agravar-se-á, porque a recuperação será forte-
mente desigual.
A conseqüência é fácil de prever. Acontecerá um forte incremen-
to da migração Sul-Norte, legal ou ilegalmente, não importa. Não há
mecanismos possíveis para impedi-lo ou mesmo limitá-lo seriamente.
As pessoas que querem vir ao Norte são recrutadas entre os mais ca-
pazes do Terceiro Mundo e estão determinadas a fazê-lo. Haverá muitos
empregos insuficientemente pagos para elas. Em conseqüência, ha-
verá uma oposição política xenófoba contra elas, mas que não bastará
para fechar as portas.
Se ao mesmo tempo o desempenho dos Estados diminui (e isto
servirá também para permitir o aumento do número de migrantes) a
integração econômica desses imigrantes será limitada. Se a oposição
política não logra conter a entrada, provavelmente logrará limitar os
direitos políticos e sociais dos imigrantes. Nesse caso, prevejo o se-
guinte: o número verdadeiro de imigrantes “sulinos” e seus descen-
dentes imediatos nos países do Norte será entre 10% e 35% da popu-
lação, se não mais. E isso não só na América do Norte e na Europa
Ocidental, mas também no Japão. Ao mesmo tempo, esses 10% a 35%
da população – mais jovem, muito mais pobre, e localizada em bairros
urbanos segregados de fato – serão uma população trabalhadora sem
direitos políticos e sociais. Retornaremos às situações da Grã-Bretanha
e da França da primeira metade do século XIX, aquela de proletários
que são classes perigosas. Assim se desfazem duzentos anos de recu-
peração liberal e desta vez sem possibilidade de repetir o guia. Pre-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998 265


vejo que as zonas de conflito social, as mais intensas no século XXI,
não serão as Somálias e as Bósnias, mas as Franças e os Estados Unidos.
As estruturas estatais já debilitadas sobreviverão a esse tipo de guerra
civil?
Se não bastasse isso, existe o problema da democratização. Proble-
ma, digo eu? Sim, problema! A democratização não é uma mera ques-
tão de partidos múltiplos, sufrágio universal e eleições livres. A demo-
cratização é uma questão de acesso igual às verdadeiras decisões
políticas e a uma qualidade de vida e a uma seguridade social razoáveis.
A democracia não pode coexistir com uma grande polarização
socioeconômica, nem na esfera nacional nem na mundial. Não obstante,
existe uma onda de sentimento democratizador que se fortalece enor-
memente nos dias que correm. Como ela se traduz? A imprensa e os
últimos arautos do liberalismo anunciam que a democratização se mos-
tra na queda de várias ditaduras por todo o mundo. Sem dúvida, esse
processo representa um esforço para democratizar esses países. Porém,
estou um pouco descrente do êxito efetivo dessas mudanças. O mais
interessante é a pressão contínua, não unicamente no Sul, mas até de
modo mais forte nos países do Norte, para aumentar os gastos com saúde,
educação e a vida dos atrasados. Mas essa pressão agudiza, e muito, os
dilemas fiscais dos Estados. A onda de democratização será o último
cravo no caixão (nail in the coffin) do Estado liberal. Vejamos o que se
passa nestes dias nos Estados Unidos.
Por todos esses motivos, o período atual, os próximos trinta a
quarenta anos, será o momento da desintegração do sistema histórico
capitalista. Não será um momento agradável de viver. Será um pe-
ríodo negro, cheio de inseguranças pessoais, incertezas quanto ao fu-
turo e ódios vigorosos. Ao mesmo tempo, será um período de tran-
sição massiva para algum outro sistema (ou sistemas) novo(s). Ao dizer
isso, sem dúvida perguntarão vocês: por que lhes é dito que lhes trago
uma mensagem de esperança?
Falamos de uma situação de bifurcação muito clássica. As pertur-
bações crescem em todas as direções. Estão fora de controle. Tudo
parece caótico. Não podemos, nada pode, prever o que resultará. Mas
não quer dizer que não possamos ter um efeito no tipo da nova ordem
que será construída. Ao contrário. Numa situação de bifurcação
sistêmica toda ação pequena tem conseqüências enormes. O todo se
constrói de coisas infinitesimais. Os poderosos do mundo bem sabem
disso. Preparam de várias maneiras a construção de um mundo pós-
capitalista, uma nova forma de sistema histórico desigual a fim de
manter seus privilégios. O desafio para nós, sociólogos e outros inte-

266 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 249-267, 1997/1998


lectuais e para todas as pessoas após um sistema democrático e igua-
litário (os dois adjetivos têm idêntico significado), é nos mostrarmos
tão imaginativos como os poderosos e tão audazes, porém com a dife-
rença de que devemos viver novas crenças na democracia igualitária,
o que não faziam nunca (ou raramente) os movimentos da velha es-
querda. Como fazê-lo? É isso que devemos discutir hoje, amanhã e
depois de amanhã. É possível fazê-lo, mas não existe uma certeza a
esse respeito. A história não garante nada. O único progresso que existe
é aquele pelo qual lutamos com, recordemo-lo, grandes probabilidades
de perder. Hic Rodhus, hic salta. A esperança reside, agora como sem-
pre, em nossa inteligência e em uma vontade coletiva.

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DECISÕES PÚBLIC AS E DELIBER AÇÃO 1

Giandomenico MAJONE
Tradução: Marcia Teixeira de SOUZA2

Muitos autores sustentam que as idéias podem representar um


papel importante na elaboração das decisões públicas e na mudança
institucional. As provas empíricas que eles apresentam são, freqüen-
temente, muito convincentes, mas tendem a se limitar aos exemplos
estudados.
Falta, ainda, uma interpretação teórica sobre as condições gerais
que favorecem a utilização de argumentos racionais e dos fatores que
condicionam a sua recepção.
Nossa tese principal é a de que, nas questões de decisões pú-
blicas, as idéias e a deliberação têm importância decisiva quando as
decisões se baseiam antes na idéia de eficácia (como aumentar o bem-
estar geral) do que na de redistribuição de recursos de um grupo da
sociedade para outro.
As idéias são nulas se a política é um jogo de soma zero: quando
os ganhos de um grupo correspondem às perdas de outro, apenas o
poder e os interesses contam.
Mas a vida política pode também ser um jogo cooperativo de soma
positiva no qual os membros de uma comunidade participam tendo
em vista seus interesses recíprocos.
Nesse contexto, a análise e a deliberação influem sobre a desco-
berta de soluções vantajosas do ponto de vista coletivo. Isto posto, es-

1 Tradução do artigo “Décisions publiques et delibération”. Revue Française de Science Politique,


v.44, n.4, 1994. (Texto original em inglês).
2 Departamento de Antropologia, Política e Filosofia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP –
14800-901 – Araraqura – SP.

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ses argumentos vêm sendo utilizados, também, para justificar ou para
combater as políticas de redistribuição. Todavia, examinando-se aten-
tamente tais argumentos, nota-se que eles se baseiam, principalmen-
te, na idéia de eficácia. Desse modo, a eles recorre-se para provar que
um dado método de distribuição de renda – por exemplo, o das trans-
ferências de renda de tipo soma zero – é mais eficaz do que um método
que modifica os preços relativos. Ou, ainda, para sugerir meios de ate-
nuar os efeitos de medidas de aumento da eficácia sobre uma política
de distribuição.
No passado, a política de idéias foi, muitas vezes, negligenciada,
particularmente pelas escolas neopluralista e neocorporativista. Essa ati-
tude decorre, na verdade, da preocupação, quase exclusiva, com as
políticas de redistribuição. Por outro lado, a atenção atual pela deliberação
em decisões públicas reflete uma tomada de consciência crescente so-
bre a importância da eficácia em política. As transformações políticas,
nesses dez anos, caracterizam-se, de fato, por um relativo abandono da
problemática da redistribuição de renda em nome da eficácia.
Mostraremos, inicialmente, que a deliberação tem uma importân-
cia decisiva quando as decisões públicas se baseiam nas questões de
eficácia. Analisaremos, em seguida, dois modos de deliberação funda-
mentais: os argumentos de exeqüibilidade e os argumentos pós-
decisionais ou “justificações racionais ex-post”. Dado que a eficácia
se define em relação a um conjunto de escolhas realizáveis, os argu-
mentos que se referem à exeqüibilidade de diversas políticas propos-
tas ocupam um lugar privilegiado nas deliberações. Os argumentos pós-
decisionais, por outro lado, facilitam a cooperação entre os atores
transformando um jogo de uma partida em um jogo interativo. A obri-
gação de apresentar as razões de uma decisão, mesmo que sejam in-
teiramente a posteriori, é uma condição preliminar do debate público.

A redescoberta da eficácia

Reprovava-se, numa certa época, aos teóricos das decisões pú-


blicas pelo fato de serem muito abstratos, demasiadamente favoráveis
a um racionalismo sinótico e pouco sensíveis às realidades políticas e
institucionais. Em suma, eles foram descartados em razão de sua inu-
tilidade política. De fato, no decorrer dos anos 60 até certa parte da
década de 1970, a eficácia prática da análise das decisões públicas
verificou-se muito limitada. Assim, inúmeras monografias demonstra-
ram que as análises de custo e benefício foram sistematicamente ig-

270 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


noradas pelos governos quando estes resistiam em fixar prioridades
ou escolher entre diferentes alternativas. Ou nelas se basearam para
justificar, a posteriori, as decisões tomadas por outras razões. Isto posto,
a avaliação profissional das escolhas públicas parece não ter tido muito
impacto na busca ou interrupção dos programas públicos. Depois essa
tendência se modificou.
Assinalamos que, no fim dos anos 70, as análises produzidas por
um número crescente de teóricos tiveram efeitos bastante visíveis. Na
Europa e nos Estados Unidos, intensos debates intelectuais precederam
o movimento de desregulação e de privatização, bem como o de refor-
ma e de regulamentação da ajuda social. Os meios de ação, tais como
o imposto sobre a poluição ou o mercado do direito de poluir, rejei-
tados, durante muito tempo, tanto pelos políticos como pelos buro-
cratas e aclamados pelos defensores do meio ambiente, foram levados
seriamente para além dos circuitos universitários e implementados.
Os tribunais americanos e, em menor medida, os europeus bus-
cam examinar as decisões das autoridades administrativas a partir dos
fundamentos dessas medidas e não apenas pelas questões de procedi-
mento. Generaliza-se a opinião de que as políticas públicas devem ser
corretas e não serem, apenas, o resultado de lutas entre grupos. Exi-
gia-se dos administradores que associassem discurso ético e compe-
tência técnica para alcançar decisões sinóticas: isto é, corretas no funda-
mento e legítimas porque democráticas (Shapiro, 1988). Propunha-se
que os tribunais exigissem das autoridades executivas uma prova de
que as políticas tinham, de fato, maximizado os benefícios sociais lí-
quidos respeitando os constrangimentos estatutários, orçamentários e
informacionais (Rose-Ackerman, 1992; Sunstein, 1990).
Paralelamente ao desenvolvimento temático sobre as decisões pú-
blicas e do direito público, as noções, tais como rede de reflexão (issue
networks), cultura de governo, política de idéias, profissionalismo em
matérias de decisões políticas, comunidade epistêmica, saber consensual
e, sobretudo, deliberação em matéria de programas políticos, amplia-
ram-se nos trabalhos de ciência política e de relações internacionais.
Recusa-se, então, considerar as idéias e os argumentos como o simples
reflexo dos interesses de grupos ou das condições materiais. E, pelo
contrário, reconhece-se, cada vez mais, que as idéias têm o poder de
modificar a percepção que um grupo tem de seus próprios interesses e
de tornar possíveis novas linhas de ação que afetam o mundo material
(Hall, 1989).
Desse modo, no curso desse período, a noção de interesse público
conheceu uma renovação notável. Na década de 1970, pensava-se que

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 271


a teoria econômica da regulação e, de modo mais geral, a escola das
decisões públicas (public choice school) tivessem reduzido ao silêncio
as teorias fundadas sobre a noção de interesse público. Teorias simi-
lares pretendiam representar os desejos normativos e não explicavam
os fenômenos reais. Por exemplo, ainda que a teoria normativa da
regulação, fundada sobre a noção de interesse público, apontasse que
as deficiências do mercado são as que justificam a introdução de uma
regulação pública, George Stigler, em seu artigo pioneiro, sustentava
que a “regulação é obtida pelo mundo da indústria e funciona, primor-
dialmente, para lhe trazer vantagens” (Stigler, 1971, p.3).
A doutrina de Stigler postula que o que importa a cada um dos
atores do jogo da regulação é sua riqueza ou sua utilidade, e não a
riqueza social agregada. Isto porque o objetivo verdadeiro da regulação
pública é a redistribuição e não o aumento da eficácia de uma inter-
venção que resultaria na correção das deficiências do mercado.
A capacidade de previsão dessa teoria, apesar de sua populari-
dade nos meios universitários, foi bastante limitada. Dificilmente po-
deríamos afirmar que os domínios importantes da regulação, como a
legislação antitruste, a proteção ao meio ambiente e ao consumidor,
bem como os problemas de saúde e de segurança no trabalho foram
concebidos e aplicados, de modo vantajoso, aos produtores (Wilson,
1980; Kalt & Zupan, 1984; Majone, 1989). Uma dificuldade, ainda mais
grave, na teoria de Stigler é ela não ter obtido sucesso em fornecer
uma explicação satisfatória sobre o fato de que a maior parte das in-
dústrias do setor concorrencial não é submetida a uma regulação em
matéria de preço ou de entrada no mercado, mesmo que os produto-
res assinalassem que tal regulação fosse de seu interesse. Depois de
ter anotado essas insuficiências na doutrina em foco, Sam Peltzman
(1989, p.17) observou que “se a atração permanente exercida pela teo-
ria normativa, junto aos economistas, tem qualquer fundamento empí-
rico, talvez possa ser o do seu êxito aparente como teoria da origem
da regulação. A correspondência entre a teoria normativa e a reali-
dade do exercício de uma atividade reguladora parece evidente”.
Esses desenvolvimentos estão relacionados: estando claro que uma
política eficaz é uma política que favorece a riqueza social agregada,
em detrimento dos grupos particulares, é impossível identificar solu-
ções eficazes sem apelar ao interesse público definido, caso a caso,
pela deliberação em questões de decisões públicas. Assim, a concep-
ção de política como um jogo de soma positiva que beneficia a todos
é prova de uma coerência considerável. Não é fácil situar sobre o mesmo
contraponto tradicional de direita-esquerda a concepção de política

272 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


assinalada acima, cujas origens na filosofia de Locke e na escola
contratualista conduzem a uma recusa da essencialidade das ques-
tões de redistribuição e postula à política a tarefa principal de com-
pensar as deficiências do mercado e de criar bens comuns puros.
Nos Estados Unidos, por exemplo, os progressistas e os conserva-
dores reaganics concordam que a intervenção do governo na econo-
mia deveria ser justificada pela referência às deficiências do mercado
e que, tanto quanto possível, uma política de regulação deve se apoiar
na estimativa de custo e benefício. Esses dois grupos políticos são
favoráveis à regulação pelo mercado e à utilização de parâmetros eco-
nômicos na implementação de políticas públicas. Atualmente, essas
posições são largamente aceitas pela esquerda européia.
De um ponto de vista histórico, não é difícil explicar essa conver-
gência ideológica. Na Europa como nos Estados Unidos, a esquerda e
a direita consideravam, via de regra, que o aumento sem precedente
dos custos dos programas de redistribição dos anos 60 e começo dos
70, assim como os poderosos grupos de pressão defendendo seus in-
teresses particulares (tema central da controversa publicação de Mancur
Olson, The rise and decline of nations, 1982) constituíram uma grave
ameaça não somente à eficácia do Estado democrático, mas também
à sua legitimidade. Essas diferentes correntes de pensamento conver-
giam a uma crítica ao plurarismo.

Do equilíbrio dinâmico dos pluraristas


à paralisação dos grupos de interesses

Segundo os fundadores da doutrina pluralista moderna, uma deci-


são pública é um equilíbrio alcançado, em um dado momento, na luta
entre grupos de interesses em concorrência, e o voto legislativo sobre
uma dada questão é o reflexo direto do equilíbrio do poder entre esses
grupos. Quando os grupos são definidos adequadamente, tudo está
definido, afirmava Arthur Bentley em 1908. Em 1956, Robert Dahl con-
tinuava afirmando que não se pode descrever o funcionamento efetivo
das sociedades democráticas como uma oposição entre maiorias e
minorias: “Só podemos distinguir grupos de categorias e de dimen-
sões diversas que buscam, de modos distintos, alcançar seus objetivos,
habitualmente às expensas de outros grupos, pelo menos em parte”
(Dahl, 1956, p.131).
Um corolário imediato desse reducionismo pluralista é que nem
as idéias nem as instituições têm influência e, por conseqüência, não

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 273


é necessário incluí-las em um modelo teórico sobre o mecanismo de
decisão pública. Podemos citar novamente A. Bentley: “As idéias não
são outra coisa senão o reflexo dos grupos (1967, p.169).
Um grupo pode invocar o interesse público em apoio a suas rei-
vindicações — mas isso, segundo Bentley, não é outra coisa senão um
subterfúgio publicitário para exprimir suas exigências mais sedutoras.
Sobre o tema das instituições, Bentley, Truman e, sobretudo Lathan
reconheceram que as autoridades públicas e os agrupamentos dos
responsáveis públicos representam um papel independente, mas ape-
nas enquanto grupos de interesses entre outros grupos de interesses.
Na maioria desses casos, entretanto, os atores principais da tomada
de decisões governamentais na tradição pluralista são os grupos pri-
vados (Lindblon, 1965, p.13). Uma tomada de decisão governamental
despojada de uma consolidação institucional e de embasamento ideo-
lógico é uma série de jogos de soma zero entre jogadores de força
inegável.
Os pluralistas reconhecem que os gupos dispõem de um poder
inegável e que o acesso ao processo de decisão é mal repartido. Não
obstante, suas conclusões gerais indicavam que todos os grupos ati-
vos e legítimos da população se farão ouvir em algum estágio desse
processo. É possível que o poder sobre os resultados de uma política
seja desigualmente repartido; todavia, um determinado acesso à de-
cisão é possível. A conclusão de Dahl era a de “que isto não é uma
vantagem banal em um sistema político” (1956, p.150). Assim, no iní-
cio dos anos 60, o pluralismo não se tornou apenas uma forma de
explicação do que é, mas do que deveria ser.
Para demonstrar que uma comunidade de interesse não é uma con-
dição suficiente de formação de grupos ativos e legítimos, Mancur Olson
dissolveu essa concepção benevolente da concorrência entre os gru-
pos de interesses. De fato, em razão da expansão do fenômeno do iso-
lamento dos indivíduos, os interesses particulares tendem a ser mais
facilmente organizados em grupos do que o interesse geral de um grande
número (Olson, 1965).
Em virtude dessa mesma lógica, se se escolher entre uma política
de crescimento da eficácia e uma política de distribuição (isto é, entre
aumentar o tamanho do bolo e se perguntar como cortá-lo), os grupos
de interesses particulares irão preferir a redistribuição, pois ela possi-
bilita maiores chances de obter uma parte maior da produção social.
Com o tempo, a influência crescente dos grupos de pressão organi-
zados em torno dos interesses particulares deformam o preço, reduzem
a concorrência e o crescimento econômico – produzindo o que

274 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


McFarland designa como “a estagnação dos grupos de interesses”, isto
é, uma economia em estagnação, senão em declínio (McFarland, 1992,
p.60-5). Além disso, a redução do alcance dos interesses comuns lar-
gamente compartilhados, a insistência intensificada sobre as questões
de redistribuição em razão do aumento do número dos grupos de inte-
resses particulares fazem da vida política um fator cada vez maior de
divisão. Nos conflitos de redistribuição, nenhum grupo pode obter ga-
nhos sem que outros experimentem perdas, ao menos equivalentes, en-
gendrando assim ressentimentos (Olson, 1982, p.41-7). Se é possível
que um grupo perca benefícios para que um outro ganhe, isso decorre,
evidentemente, do fato de que a redistribuição não é uma operação
gratuita, mas, ao contrário, ela conduz, via de regra, a “perdas totais”.
Ou seja, o custo social que representa o empenho em construir e fazer
funcionar o sistema de redistribuição ou a tentativa de escapar dele.
A primeira reação a essas críticas endereçadas à política de gru-
pos consistiu, segundo as palavras de Martin Shapiro, “numa busca
quase frenética de um pluralismo cada vez mais aperfeiçoado” (Shapiro,
1988, p.49).
Nos anos 60 e 70, a doutrina pluralista exerceu uma influência
considerável sobre o direito administrativo americano. Os grupos, cada
vez mais, obtinham o direito de tomar parte nos processos de tomada
de decisão das autoridades que definiam a regulação, e também en-
travam com ações na justiça contra as decisões tomadas por essas
autoridades, quando estas não lhes convinham. As autoridades eram
premidas a aceitar as interpretações emitidas pelo público sujeito das
regulamentações em questão, e mesmo a elas responder. Ou solicita-
vam à administração que reservasse os financiamentos públicos aos
grupos menos favorecidos, a fim de assegurar a igualdade de acesso
ao processo de regulamentação. As regras de procedimento foram
ampliadas a fim de incluir pessoas que, na realidade, não tivessem,
sobre as decisões administrativas, interesses diferentes daqueles dos
cidadãos comuns. “Os tribunais pretendiam examinar, sobretudo, o
processo de elaboração da regulação – e o invalidavam quando perce-
biam que a autoridade reguladora tinha omitido a menor reivindicação
do menor grupo de interesse” (ibidem, p.49-50).
À época em que ocorreram essas tentativas de aperfeiçoamento
da política de grupo, iniciava-se, também, a renúncia à doutrina
pluralista. Tornara-se evidente a dificuldade de garantir igualdade de
acesso aos diferentes grupos de interesses, ao processo de tomada de
decisão. Além disso, a experiência tinha mostrado que a exigência de
“diálogo” poderia ser utilizada pelos interesses econômicos poderosos

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 275


para retardar as decisões de regulamentação em questões tais como
proteção do meio ambiente, da saúde ou segurança do trabalho.
Quando se percebeu que ocorria “perda total”, ocasionada pela
política de grupo, detectou-se que existia um interesse público ou ainda
uma política pública adequada, irredutível à soma dos interesses par-
ticulares. A execução da política de grupos acaba por desembocar em
políticas públicas ineficazes, do ponto de vista econômico, como as
transferências de subvenções às explorações agrícolas ou aos produ-
tores de carvão. E, mesmo assim, os grupos de interesse em questão
lutarão, vigorosamente, por tais políticas.

A política da eficácia

Aqueles a quem a concorrência dos grupos não satisfazia podiam


se voltar para o critério da racionalidade ou da eficácia para julgar as
políticas públicas e afirmar que os mecanismos de tomada de decisão
racional ou “sinótica” são os melhores possíveis. Uma “boa” política
não é mais o produto da concorrência dos grupos mas o resultado de
uma análise racional (Shapiro, 1988, p.15-6). Todavia, está claro que
não se pode regrar todas as questões submetidas à decisão política
em função desse critério. As considerações ligadas à eficácia dificil-
mente jogam um papel na política, se é verdade que uma situação
política é “justamente uma situação que se apresenta quando os par-
tidos disputam não sobre atividades mutuamente úteis, mas sobre a
legitimidade de suas posições respectivas iniciais” (Barry, 1965, p.313).
Nessa perspectiva, as considerações de eficácia se originam na eco-
nomia, ao passo que a política se ocupa da redistribuição, isto é, a
atribuição autoritária de direitos de propriedade. Certos autores prefe-
rem dizer que a atividade econômica é, no essencial, um jogo de soma
positiva, ao passo que a política é um jogo de soma zero (Riker, 1962).
Mas, como está indicado acima, trata-se de uma concepção de
política ultrapassada, sem a devida consideração da dimensão política
do número crescente de políticas públicas cujo objetivo foi compensar
as diferentes deficiências do mercado. As políticas de meio ambiente,
por exemplo, tentaram reduzir as externalidades negativas, obrigando
tanto os produtores como os consumidores a incluírem em seu cálculo
o custo social da poluição. Se essas políticas tiveram êxito em reduzir
a diferença entre custo privado e custo social, isto constitui um au-
mento da eficácia da intervenção, isto é, quando se passa de um pon-
to situado dentro da fronteira de eficácia (ou fronteira de Pareto) para

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um ponto situado sobre esta fronteira. O mesmo raciocínio se aplica à
maioria das outras políticas de regulamentação social, como a prote-
ção ao consumidor, a gestão dos riscos e da saúde no trabalho. Não é
por acaso que todos os exemplos citados por Shapiro são no sentido
de abandonar a concorrência entre grupos em benefício da tomada de
decisão “racional” (medida de seu impacto) – no meio em que se incide,
exigências para que as decisões das autoridades sejam justificadas por
uma análise de custo e benefício, regulamentos fixos para que as au-
toridades apóiem suas decisões de regulamentação sobre “as melho-
res provas disponíveis” ou sobre “as provas conclusivas sobre o pro-
cesso de elaboração da regulamentação em seu conjunto” derivados
do domínio da regulamentação social (Shapiro, 1988, p.15).
As políticas de regulamentação social são, por sua vez, convin-
centes do ponto de vista político e, contrariamente às numerosas polí-
ticas de redistribuição passadas, (potencialmente) geradoras de eficá-
cia (Majone, 1993). Assim, é cada vez mais importante compreender
como a política de eficácia se distingue da política de redistribuição,
objeto tradicional da atenção de especialistas da ciência política. Para
analisar a política de eficácia, pode-se ter como base um estudo com-
parativo, realizado por Dennis Mueller, que opera com os postulados
sobre a tomada de decisão majoritária e a decisão por unanimidade,
bem como a distinção estabelecida por George Tsebelis entre institui-
ções eficazes e instituições de redistribuição (Mueller, 1989, p.96-111;
Tsebelis, 1990, p.104-18).
Afirma-se que uma instituição é eficaz quando ela melhora, numa
comparação com o status quo, a situação de todos (ou quase todos) os
indivíduos ou grupos de uma dada sociedade. O exemplo dado por
Tsebelis é o de uma instituição que resolve os problemas de coorde-
nação ou os dilemas de prisioneiro, mas o exemplo que tem mais im-
portância para nossa análise é aquele da regra da unanimidade. Essa
regra é eficaz porque ela garante que o resultado das decisões coleti-
vas seja uma posição eficaz no sentido paretiano: segundo a regra da
unanimidade, toda pessoa que venha a sofrer uma determinada deci-
são coletiva pode a ela se opor.
As instituições de redistribuição melhoram a situação de um gru-
po da sociedade às expensas de outro. O exemplo mais evidente é o
da regra da maioria. Seus partidários consideram as escolhas necessa-
riamente conflitivas, inviabilizando assim escolhas mutuamente van-
tajosas. Um caso típico dessa situação são as questões relacionadas à
distribuição ou aos direitos da propriedade. Os partidários da regra
majoritária postulam que as escolhas que se apresentam a uma comu-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 277


nidade são unidimensionais e mutuamente exclusivas, de modo que
nenhuma solução de compromisso é passível de consideração
(Buchanan & Tullock, 1962, p.235).
Inversamente, “o mecanismo político implícito na regra de unanimi-
dade é um processo de discussão, de compromisso e de revisão, até que
se chegue a uma formulação em que todos lucram. Mas também que se
chegue ao fim desse processo em um tempo razoável, de modo que os
custos de transação da tomada de decisão não se tornem proibitivos”
(Mueller, 1989, p.102).
A comparação entre instituição eficaz e instituição de redistribuição
mostra, claramente, a importância crucial da deliberação pública para
a política de eficácia. A discussão e a persuasão são necessárias para
descobrir as possibilidades de ganho coletivo e para obter apoio em
favor dos meios mais eficazes de explorar essas possibilidades. A re-
gra da unanimidade representa, evidentemente, nada mais que um
modelo idealizado. Com exceção, talvez, das comunidades pequenas,
esse modelo decisório conduz a custos de transação proibitivos. Mes-
mo Buchanan e Tullock, partidários mais entusiastas dessa regra, reco-
nhecem que o custo de tempo de decisão pode ser bastante elevado,
descartando assim a regra absoluta da unanimidade como possibili-
dade prática. Antes deles, Knut Wicksell (1896) dispunha-se a aceitar
uma quase unanimidade ou uma fração elevada (de ordem de 75%)
como solução de substituição. Como Wicksell, Buchanan e Tullock –
de modo mais abstrato (1962) – tentaram preservar certas vantagens
da unanimidade na escolha de uma regra de “não-unanimidade” óti-
ma. Entretanto, essa não é a única escolha possível. Em relação à
deliberação sobre questões de decisão pública, certas instituições não
majoritárias, como os tribunais e as autoridades administrativas inde-
pendentes, preenchem as funções comparáveis àquelas da regra da
unanimidade.

Deliberação e instituições não-majoritárias

Por definição, as instituições não-majoritárias não são diretamen-


te responsáveis perante o povo por intermédio de eleições ou outros
mecanismos políticos. A democracia populista (Dahl, 1956) sempre
desconfia de semelhantes instituições, em razão, justamente, de sua
independência em relação às eleições ou à supervisão direta dos res-
ponsáveis eleitos. Mesmo a legitimidade da Corte Suprema dos Es-
tados Unidos pode ser contestada por essa razão (Freedman, 1978), e

278 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


preocupações idênticas refrearam o desenvolvimento da revisão judi-
cial (judicial review) na Europa (Volcansek, 1992). Ao mesmo tempo,
entretanto, os tribunais, os tribunais administrativos, as autoridades
administrativas independentes, as comissões de pesquisa, os bancos
centrais independentes e outras instituições não-majoritárias represen-
tam um papel essencial nas sociedades democráticas. Na prática, sem-
pre se admitiu que para realizar diferentes objetivos é preciso se apoiar
mais em qualidades tais como a competência, o profissionalismo, a
independência, a continuidade, e menos sobre a responsabilidade po-
lítica direta.
Essa concepção de bom senso encontra apoio em diferentes cor-
rentes de pensamento político, em particular nos Estados Unidos. Uma
das contribuições mais importantes de Madison no Federalista é o ar-
gumento segundo o qual os meios majoritários não podem ser suficien-
tes para criar instituições governamentais capazes de conduzir polí-
ticas coerentes no interesse de todos. Segundo Madison, um certo
isolamento do governo em relação às mudanças episódicas da opinião
pública é um abrigo importante para evitar o domínio das facções (isto
é, a usurpação do governo pelos grupos poderosos privados) e as ame-
aças, que representam as facções na crença republicana da democra-
cia deliberativa. Na mesma tradição progressista, as figuras de Theodore
Roosevelt e Woodrow Wilson atribuem uma grande importância ao iso-
lamento do governo, em relação à política partidária de curto prazo, e
aos interesses eleitorais, como um meio de garantir a eficácia e a ho-
nestidade na gestão dos recursos públicos (Hofstadter, 1955).
Enfim, os ideólogos do New Deal defenderam a independência das
comissões de regulamentação, necessária, segundo eles, à aquisição e
ao exercício da competência que constitui a razão de ser dessas ins-
tituições. As comissões de regulamentação tornaram-se instrumentos
importantes de administração na área industrial, porque o Congresso
e os tribunais foram reconhecidos como incapazes de satisfazer “o
grande imperativo funcional” da especialização. Segundo os termos de
Merle Fainsod, as autoridades de regulamentação “se impunham por-
que ofereciam a possibilidade de atender um certo nível de competên-
cia no tratamento de problemas particulares, gozavam de uma inde-
pendência relativa em relação às exigências da política partidária, no
decorrer de sua deliberação, além da rapidez de suas decisões” (Fainsod,
1940, p.313).
A regulamentação realizada por autoridades independentes, en-
carregadas de compensar as deficiências do mercado, não é mais um
fenômeno puramente americano. Depois dos anos 70, também na Eu-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 279


ropa, as autoridades independentes se tornaram um componente impor-
tante da administração pública (Majone, 1991, 1993). As explicações
funcionais do desenvolvimento das autoridades independentes, dadas
pelos pesquisadores europeus, recorrem aos argumentos dos autores
americanos mais antigos. Assim, alguns afirmam que as autoridades
são justificadas pela necessidade de uma certa competência no do-
mínio de uma grande complexidade ou de alta tecnicidade. Outros
sustentam que uma estrutura de autoridade pode encorajar a parti-
cipação do público, uma vez que as consultas por meio das audiên-
cias públicas são geralmente recusadas nos gabinetes ministeriais.
Outros, ainda, consideram útil a separação das autoridades e do go-
verno, porque ela libera a administração governamental da política
partidária e da influência dos partidos políticos. Alega-se, também,
que as autoridades, em razão de sua independência, asseguram uma
grande continuidade e estabilidade em detrimento dos gabinetes,
porque estão ao abrigo das derrotas eleitorais. As autoridades po-
deriam, desse modo, proteger os cidadãos da arrogância e da inércia
burocráticas, além de cristalizar a atenção do público sobre questões
controversas, contribuindo para enriquecer o debate público (Baldwin
& McCrudden, 1987, p.4-9; Teitgen-Colly, 1988, p.37-47; Guédon, 1991,
p.16-27).
Esses argumentos refletem os temas característicos da política de
eficácia. Retoma-se, assim, uma avaliação da inadequação entre os
meios institucionais existentes e a complexidade crescente dos pro-
blemas. Do mesmo modo, os administradores aparecem como os defen-
sores do interesse público, e não como pessoas encarregadas de fazer
a soma das preferências dos grupos, ou como prisioneiros dos grupos
dominantes. Nesse aspecto, encontramos uma concepção de delibe-
ração como método que permite determinar os verdadeiros valores
coletivos, e de escolher os melhores meios de aplicar esses valores. A
referência à participação do público e à proteção dos cidadãos contra
a arrogância burocrática e a ocultação dos problemas demonstra que
a democracia não está em questão. De fato, entre os partidários do
modelo de uma autoridade deliberativa – que combina discurso ético
e competência técnica para alcançar decisões políticas justas em seu
conteúdo e legítimas do ponto de vista político –, muitos reconhecem
que as instituições não-majoritárias devem ser submetidas a averigua-
ções democráticas rigorosas. Desse modo, observa M. Shapiro:

Todos os grupos de interesses devem ter um acesso o mais igual possí-


vel junto aos deliberantes. A eles devem ser dadas as atas públicas das deli-

280 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


berações. Os deliberantes devem fornecer ao público uma explicação razoá-
vel da sua decisão. Na sua indagação sobre os valores, os administradores
devem considerar como essenciais os valores inclusos nos estatutos pela
legislatura eleita democraticamente. Os tribunais procederão à revisão judi-
cial das decisões administrativas, a fim de garantir que elas estejam de acor-
do com os valores e os objetivos da legislatura. (1988, p.34)

Recapitulando: a deliberação em matéria de decisões públicas tem


importância, sobretudo, quando as questões submetidas a discussão
referem-se mais à eficácia do que à redistribuição pura e simples. As
decisões públicas tomadas de modo unânime representam o contexto
institucional ideal da deliberação pública. Em geral, esse modelo é
irrealizável em virtude dos custos elevados que ele acarreta, mas em
certas áreas importantes da tomada de decisão política, a autoridade
independente, submissa às exigências de procedimento e de conteú-
do rigorosas, pode ser considerada uma solução alternativa aceitável.
Analisaremos, em seguida, dois modos característicos em que as idéias
e os argumentos influenciam as decisões políticas.

Os argumentos da exeqüibilidade

De acordo com Michael Polanyi, a existência de tarefas sociais


que parecem desejáveis e exeqüíveis, mas que na realidade são im-
possíveis de ser realizadas, está na origem do grande número de con-
flitos na história moderna. Todas as batalhas pela reforma social de-
ram-se nesse terreno, isto é, com os conservadores superestimando e
os progressistas subestimando os limites do possível em matéria de
políticas públicas (Polanyi, 1951, p.169). Isso explica por que os de-
bates sobre a exeqüibilidade de diversas políticas propostas ocupa um
lugar essencial no processo de deliberação (Majone, 1989).
O conhecimento teórico encontra a sua melhor expressão sob a
forma de constrangimentos ou de condições limitativas, sendo verda-
deiro que toda teoria exprime um tipo qualquer de regularidade de
invariância e, assim, impõe limites à descoberta de fenômenos
observáveis. A realidade, assinalava Einstein, reduz a riqueza das pos-
sibilidades lógicas: a ciência tenta descobrir essas restrições. As leis
científicas “não afirmam que qualquer coisa existe ou realiza-se: elas
a negam. Elas insistem na inexistência de certas coisas ou de certos
estados de coisa, expulsando ou proibindo essas coisas ou estados de
coisas: elas eliminam a possibilidade dessa ocorrência” (Popper, 1968,

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 281


p.69). Essa concepção da teoria como restrição é importante, se se
quer compreender como o conhecimento teórico pode ser aplicado aos
problemas práticos. Tomemos o caso da aplicação do conhecimento
científico pela tecnologia. As teorias científicas não dizem aos enge-
nheiros como conseguir os objetivos exatos. Pelo contrário, elas mos-
tram por que os objetivos aparentemente convenientes são, na reali-
dade, impossíveis de ser realizados. Como exemplo, pode-se tomar a
impossibilidade de construir motores 100% eficazes, ou de eliminar
completamente seu desgaste. Em princípio, nas ciências sociais, as
teorias podem e devem ser utilizadas da mesma maneira. Mesmo não
sendo o resultado de experiências dirigidas com atenção, o conhe-
cimento social codifica, freqüentemente, uma grande parte da expe-
riência prática na qual se tentou realizar alguma coisa, de diversas
maneiras, mas que redundou em fracasso. Nosso conhecimento das
burocracias e de outras organizações sociais remete, fundamentalmente,
para essa ordem de problema (Downs, 1967; Wilson, 1989).
Entretanto, uma diferença importante entre restrições sociais e
restrições físicas são, em geral, as conseqüências da violação das pri-
meiras, de não se tornarem imediatamente aparentes, como no caso
das impossibilidades físicas. Por essa razão, do ponto de vista político,
é difícil resistir à tentação de ignorar as restrições econômicas ou
institucionais. A limitação do aluguel é um exemplo clássico. Ainda
que o objetivo dessa limitação seja o de proteger o consumidor dos
aumentos astronômicos que acompanham uma crise de locação, seu
efeito, a longo prazo, é o desencorajamento de realização de novas
construções para a locação e iniciativas destinadas à conservação do
patrimônio existente, estimulando, assim, o abandono de antigas uni-
dades de habitação ou a sua conversão para uso comercial, o que
permite contornar a lei.
Essas conseqüências passam a ser reconhecidas depois de certo
tempo. Um certo número de cidades que haviam renunciado à limi-
tação do aluguel na década de 1950 começou a introduzir essa medi-
da como reação à inflação dos anos 70. Os argumentos fundados so-
bre as conseqüências negativas da limitação do aluguel alcançaram
um sucesso crescente no decorrer dos anos 80, com a generalização
da preferência por políticas mais eficazes.
Para comprender o papel dos argumentos de exeqüibilidade na
deliberação, é importante caracterizar as restrições objetivas e as res-
trições auto-impostas (Majone, 1989, p.82-4). As restrições objetivas,
tais como os limites físicos ou tecnológicos, independem de nossos
objetivos ou de nossos valores. Nós não as escolhemos, elas nos são

282 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


impostas. Mas, entre os limites mais importantes encontrados pela
tomada de decisão política, muitos não são impostos pelo mundo ex-
terior: são impostos por nós mesmos, em virtude de uma escolha de-
liberada ou de um dado engajamento. Entretanto, uma vez aceitos,
esses engajamentos reduzem o leque de escolhas disponíveis, preci-
samente da mesma maneira que as restrições objetivas de natureza
física, técnica etc. O poder de se limitar a si mesmo, por exemplo, é
uma das táticas mais importantes da negociação. O negociador que se
engaja, irrevogavelmente, em perseguir uma certa linha de ação e que
comunica, com sucesso, sua decisão à outra parte, modificou, de
maneira irreversível, a situação objetiva em que a negociação se de-
senrola (Schelling, 1963).
Como indica a classificação parcial seguinte, a variedade de res-
trições auto-impostas é muito grande:
• Restrições adotadas intencionalmente, com uma duração limitada,
ou aceitas “até nova ordem” (por exemplo, os compromissos
contratuais, as regras do jogo, as promessas, as definições ou as
interpretações convencionais de certos termos de um documento,
os procedimentos e protocolos administrativos, os compromissos es-
tratégicos que se adotam ao longo de negociações contínuas).
• Restrições consideradas indispensáveis para o êxito de certos obje-
tivos de política (por exemplo, as restrições em matéria de distri-
buição, as regras de reciprocidade, os “procedimentos normais”, a
coerência, os precedentes, o respeito de outros decision-makers po-
líticos).
• Restrições aceitas implicitamente, mas cuja existência não é reco-
nhecida, quando contestadas ou violadas (por exemplo, as normas
culturais, as regras de etiqueta, as normas profissionais, os acordos
tácitos).

Uma terceira distinção importante opõe restrições de curto e de


longo prazos. De curto prazo citamos a tecnologia, as instituições, os
meios administrativos, os recursos financeiros e de muito curto prazo,
mesmo as despesas internas e a mão-de-obra devem ser consideradas
como dados.
Todavia, com o tempo, os limites tecnológicos e os obstáculos
institucionais podem ser eliminados, as leis alteradas, outros meios
passam a estar disponíveis e novos saberes conquistados. Em geral, isso
tem um preço. A dimensão temporal é importante porque os fatores que
se poderiam negligenciar, a curto prazo, podem se tornar restritivos a
longo prazo. Assim, a necessidade de manter relações de cooperação

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 283


continuadas entre os atores de uma política reduz o leque de compor-
tamentos aceitáveis, o que não é o caso quando um acordo só é neces-
sário uma única vez, ou quando é a propósito de uma única questão.
Em razão da variedade das restrições potenciais, a busca de ga-
nhos coletivos exige que se tenham em comum certas crenças sobre
os limites do possível em matéria de políticas públicas. A argumenta-
ção e a persuasão jogam um papel essencial na identificação das res-
trições, na avaliação de conteúdo das diferentes estratégias de execu-
ção de uma política e na estimativa de custo e benefício que resulta
da flexibilidade das restrições não rigorosamente fixas. O conjunto de
restrições, assim como os objetivos auto-impostos sobre os quais um
acordo é realizado fornecem as regras do jogo decisional. Entretanto,
essas regras não são, jamais, inteiramente conhecidas quando o jogo
começa. Explico: é impossível, no momento em que uma política é
definida, conhecer todos os seus fatores limitativos pertinentes, bem
como é difícil adivinhar quais restrições, entre as que se postulam,
serão efetivamente operantes.
No momento em que essa política passa do estágio da decisão
àquele da implementação, as restrições escondidas aparecem e pas-
sam a comandar as mudanças mais profundas. Esse mecanismo iterativo
de descoberta das restrições e a definição dos objetivos ou das estraté-
gias constituem a essência da implementação de uma decisão política.
A incerteza, que cerca o processo de execução, conduz a um
conceito de decisão pública como um contrato indefinido entre atores
(incomplete contract) (Milgrom & Roberts, 1992). Como afirmaram Garret
& Weingast (1991), assim como Goldstein & Keohane (1993), as idéias
podem fornecer as soluções de problemas ligados à indefinição do
contrato: quando um acordo é suscetível à indefinição, é indispensável
a existência de crenças comuns referentes ao espírito desse acordo
para se alcançar a cooperação. Tomemos, por exemplo, um problema
que consiste em distinguir as restrições reais e os obstáculos fictícios
ou pseudo-restrições, erigidos pela inércia mental ou institucional, pela
aversão ao risco, pela falta de imaginação ou pelo pano de fundo ideo-
lógico destinado a proteger os direitos adquiridos. Esse problema se
apresenta, até mesmo, diante da suposição de que todos os atores são
de boa-fé. De fato, só é possível saber se uma restrição é realmente
operante no âmbito de um determinado problema quando este é so-
lucionado. Mesmo quando, a priori, existem razões para pensar que
uma restrição será inoperante, é imprudência negligenciá-la, uma vez
que ela pode se tornar operante caso se alterem certos dados e parâ-
metros do problema.

284 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


Todos os problemas suscitados pelos contratos indefinidos podem
ser resolvidos somente com a condição de se ter uma comunidade de
crenças que possibilite encontrar uma solução vantajosa para todos.
A importância das idéias não reside apenas na identificação e na
classificação das restrições que pesam sobre uma decisão pública, mas,
igualmente, em fazer recuar os limites do possível em matéria de de-
cisão pública.
As políticas aplicáveis, no limite de determinadas restrições, e
mesmo as próprias restrições dependem dos limites do conhecimento
que possui o povo e da relação que une os valores aceitos por ele à
prática consentida. As restrições políticas que pesam sobre uma deci-
são somente podem ser abrandadas se a opinião pública estiver pre-
parada para aceitar um novo pensamento, novos símbolos e uma con-
cepção nova e abrangente de interesse público (Heller, 1967, p.27).
A contribuição de Keynes, no debate público sobre o problema da
economia de guerra nos anos 30, é um exemplo excelente. Um bió-
grafo de Keynes afirmou que este atacou os problemas da economia de
guerra em duas frentes: a maximização do possível no limite dos cons-
trangimentos existentes e no abrandamento daquele próprio limite
(Moggridge, 1976, p.116). Os argumentos de Keynes criaram um clima
de opinião que convenceu as autoridades da compatibilidade entre
guerra e capital barato. Com o intuito de tornar compreensível o racio-
cínio subjacente em seu plano, e de encontrar uma maneira de torná-lo
aceitável para o grande número, Keynes se lança numa campanha
maciça de educação e de persuasão. Depois de algumas modificações,
as proposições de Keynes encontram adesão geral e fornecem o funda-
mento da política pública financeira britânica em tempo de guerra.

As justificações racionais ex-post

Os argumentos servem, também, para justificar as decisões polí-


ticas já tomadas. Quando os argumentos se reportam às considera-
ções diferentes daquelas que produziram a decisão, eles são geralmente
rejeitados, uma vez que se vêem neles apenas tentativas de “justifica-
ção racional ex-post”.
Pretendemos demonstrar que essa crítica, mesmo se justa em
determinados casos, passa longe de aspectos importantes do meca-
nismo pelo qual as idéias influenciam uma política.
Em contextos diferentes, a utilização freqüente de argumentos
posteriores à tomada de decisão indica que tais argumentos podem

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 285


cumprir funções sociais importantes, que vão além da simples “justifi-
cação racional ex-post” a posições determinadas pelas razões políticas
ou burocráticas. Tomamos o caso do juiz que não saberia justificar uma
decisão embaraçosa, se se decidisse sobre uma matéria, fundamentan-
do-se em sua noção subjetiva de eqüidade e em sua intuição de que
uma determinada decisão será justa se for submetida a considerações
dessa ordem. Assim, o juiz formula seu veredito segundo as categorias
objetivas da argumentação jurídica, e todos os desenvolvimentos poste-
riores da matéria (por exemplo, um recurso de apelação) apoiar-se-ão
no veredito público e não no processo efetivo que levou o juiz a tomar
sua decisão. Na realidade, a maioria dos sistemas jurídicos permite que
o veredito que menciona os motivos que levaram a tal decisão a suce-
da em vez de precedê-la. Por outro lado, diferentes juízes podem estar
de acordo sobre uma decisão mas não sobre a melhor forma de justificá-
la: no sistema americano eles terão a possibilidade de apresentar suas
posições em argumentações separadas.
Tais regras de procedimento devem parecer absurdas a qualquer
um que supõe ser um veredito uma descrição fiel do processo de de-
cisão seguido pelo juiz, para chegar a uma conclusão. Entretanto, se
se considerar o veredito como a relação de procedimentos justificativos
empregados pelo juiz, torna-se, de fato, compreensível que o recurso
das considerações jurídicas e lógicas não pode representar nenhum
papel no processo de decisão real (Wasserstrom, 1961). De fato, a opi-
nião de um juiz não é premissa de um silogismo que teria um veredito
por conclusão. Pelo contrário, ela é um meio de exercer um controle
racional sobre as conclusões, que podem estar inspiradas por conside-
rações extrajurídicas, e facilitar a comunicação entre os participantes
no mecanismo de justiça.
As relações científicas representam um papel comparável àquele
da opinião do juiz, facilitando a comunicação no seio da comunidade
científica. Segundo um eminente físico e filósofo das ciências, as rela-
ções científicas “não são diários íntimos que nos diriam o que se passou
num determindado dia, num determinado laboratório. Pelo contrário,
elas nos dão uma versão cuidadosamente criada desses acontecimen-
tos e nos informam o que deverá ocorrer, caso procuremos repetir, nas
condições prescritas, a mesma experiência” (Ziman, 1968, p.35). O pes-
quisador, na comunicação que ele dirige a seus colegas, não expõe,
simplesmente, o que se passou quando certas operações foram con-
cluídas: pelo contrário, ele deseja convencê-los de que os resultados
são verossímeis e interessantes e que merecem ser examinados mais a
fundo.

286 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


Nosso terceiro exemplo é sobre um episódio bem conhecido da
história da difusão das idéias econômicas. Denominamos keynesianismo
a política conduzida pelo presidente Franklin D. Roosevelt, que consis-
tia no crescimento das despesas do Estado para reduzir o desemprego
e sair da crise. Contudo, Roosevelt não precisou aprender com Keynes
a noção de despesas públicas. A idéia de que a influência do econo-
mista britânico está na origem da política do New Deal começou a se
espalhar muito cedo, mas não passou de uma lenda (Winch, 1969).
As teorias de Keynes forneceram uma justificativa racional ao que
Roosevelt fazia muito bem sem elas. As respostas que essas teorias
produziram sobre as causas do desemprego de longa duração e as
razões de eficácia das despesas públicas não foram as condições pré-
vias necessárias à política financeira expansionista conduzida por
Roosevelt. Reconhecendo que essas respostas tornaram-se, durante
várias décadas, dominantes no pensamento de economistas e polí-
ticos, elas contribuíram também para tornar a política financeira
expansionista o núcleo da política econômica liberal. Segundo a pa-
lavra de um antigo conselheiro econômico de Nixon, “sem Keynes e,
sobretudo, sem a interpretação de Keynes feita por seus sucessores,
a política financeira expansionista poderia ter permanecido uma medida
de urgência pontual em vez de tornar-se um modo de vida” (Stein,
1984, p.39).
Esses exemplos revelam três funções principais de argumentos
posteriores às decisões. Primeiramente, eles servem para justificar ra-
cionalmente ex-post uma política no sentido de fornecer um funda-
mento conceitual a um conjunto de decisões que, na sua ausência,
seria diversificado e desarticulado. Aqueles que elaboram uma política
o fazem, freqüentemente, cedendo a pressões de acontecimentos ex-
teriores ou à força de suas convicções pessoais. Em casos semelhan-
tes, temos a necessidade de argumentos depois que a decisão é to-
mada, com a finalidade de explicar, de demonstrar que ela se inscreve
no quadro da política em vigor, bem como de ampliar os consensos,
de descobrir novas conseqüências e de antecipar as críticas ou a elas
responder. Ou, ainda, por mais que uma política tenha uma curta du-
ração, é preciso renovar, permanentemente, seu apoio político, isto é,
a necessidade constante de novos argumentos para conferir aos ele-
mentos dessa política a maior coerência interna possível, e para adaptá-
la, o mais estritamente possível, a um meio verdadeiramente variável.
Em segundo lugar, os argumentos posteriores às decisões servem
para institucionalizar as idéias. A observação de Herbert Stein sobre a
importância das idéias de Keynes para fazer da política financeira “um

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 287


modo de vida” resume a essência desse mecanismo. De modo similar,
Garret & Weingast (1991) mostraram a importância da idéia do “reco-
nhecimento mútuo”, já presente no Tratado de Roma quando da cria-
ção da Comunidade Econômica Européia, institucionalizada graças à
jurisprudência da Corte Européia de Justiça e de vários documentos
da Comissão Européia. Dessa forma, a idéia teve uma forte influência
sobre a elaboração e a aplicação do programa visando o mercado in-
terno. É importante assinalar a natureza dialética que se estabelece
entre uma decisão pública e as idéias institucionalizadas (ou meta-
decisão). Em vez de revelar novas possibilidades, as idéias semelhan-
tes codificam uma prática inicial; ao mesmo tempo, todavia, elas ser-
vem para justificar racionalmente, para avaliar e transformar essa mesma
prática. E, conseqüentemente, nossa compreensão do modo pelo qual
uma política é elaborada não pode ser separada das idéias e teorias
institucionalizadas pelas quais esta política, por sua vez, é conduzida
e avaliada (Majone, 1989, p.146-9).
A terceira função dos argumentos posteriores às decisões, talvez a
mais importante, é a de transformar uma parte isolada em jogo de partes
múltiplas, facilitando a comunicação e o controle. É apenas o veredito
do juiz, e não sua decisão enquanto tal, que permite às partes interes-
sadas fazer novos lances, como, por exemplo, apelar dessa decisão. É
importante recordar que, nesse caso, como em outros procedimentos
jurídicos, tais como a revisão judicial, trata-se de saber quais as razões
que se podem salientar, mesmo sendo estas inteiramente post hoc. Isso
demonstra que a exigência de justificação racional não tem por objetivo
melhorar a qualidade da decisão dada, mas de facilitar o desenrolar do
processo em seu conjunto.
Nossa análise precedente da revisão judicial das decisões das au-
toridades reguladoras se aplica ainda aqui. A exigência que os admi-
nistradores dão às razões em suas decisões (como determina o Ato de
Procedimento Administrativo nos Estados Unidos ou na Europa, o ar-
tigo 190 do Tratado de Roma) remete a um parecer o qual deve conter
não apenas razões, mas também os estatutos ou artigos de tratados
sobre os quais essas razões se apóiam. Assim, a exigência de justifi-
cação racional abre o caminho a um diálogo entre as interpretações
rivais da lei, produzidas pelos tribunais e pelas autoridades adminis-
trativas. Além disso, a participação do público e a deliberação em
matéria de decisões públicas somente é possível porque os adminis-
tradores devem dar as razões de suas decisões.
A teoria dos jogos demonstrou a importância da transformação
de uma parte única em jogo iterativo. Numa situação do tipo “dilema

288 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


do prisioneiro”, a repetição autoriza estratégias mais complicadas em
detrimento da simples alternativa “cooperar” ou “renunciar”. Quando
o jogo se repete, aparecem modelos de cooperação que serão muito
pouco prováveis nos quadros de uma parte isolada. A exigência de
justificação racional transforma uma situação do tipo “parte única”
em jogo iterativo ou seqüencial. Esta é a razão pela qual uma ins-
tituição eficaz é destinada a facilitar a cooperação entre os atores de
uma política.

A renovação do governo pela discussão?

A deliberação é tão essencial aos meios políticos democráticos que


se pode definir democracia como um sistema de governo pela discus-
são. Os partidos políticos, o eleitorado, a legislatura, o executivo, os
tribunais, a mídia, os grupos de interesse e os especialistas indepen-
dentes estão todos engajados num processo de debate e de persuasão
recíprocos. Esse processo, tal como o descreveram os teóricos liberais
John Stuart Mill e Walter Bagehot para sir Lindsay e Ernest Baker, co-
meça pela definição de preocupações gerais e culmina em decisões
concretas. Cada etapa da deliberação tem a sua própria função e seu
próprio órgão. Os partidos identificam as questões e elaboram seu pro-
grama; o eleitorado examina as questões e os candidatos e exprime
uma maioria em favor de um dos programas; a maioria legislativa tra-
duz o programa em leis, num debate permanente com a oposição. En-
fim, a discussão atinge o nível executivo e os ministros para tomar a
forma de políticas específicas. Cada uma das etapas e cada um dos
órgãos de deliberação pública são independentes, mas dentro de cer-
tos limites, uma vez que são parte de um processo complexo.
Os teóricos liberais compreenderam que se a discussão não for
regulamentada cederá facilmente às querelas incessantes e mesmo à
violência. Um corpo deliberativo desprovido de organização pode ser
vítima de diferentes formas de desordem, como o obstrucionismo. Para
evitar ou mesmo reduzir esse perigo, a deliberação pública foi cuida-
dosamente institucionalizada por todas as democracias modernas. Os
códigos de procedimento parlamentar, eleitoral, administrativo e jurí-
dico atuais são fruto de séculos de experiência durante os quais os
homens puderam se defrontar com o problema concreto da delibera-
ção pública. O objetivo geral desses procedimentos é garantir que as
numerosas opiniões serão entendidas sem comprometer a necessidade
de chegar a uma conclusão. Sua importância é tal que a história do

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998 289


governo democrático pode ser assimilada àquela dos diversos pro-
cedimentos elaborados para institucionalizar e regulamentar a delibe-
ração pública.
Entretanto, ainda faltam procedimentos e normas de argumenta-
ção apropriados, quando, nos lugares tradicionais de deliberação pú-
blica, as regras do debate são transformadas em instituições duradoras,
em novos espaços de debate, como os regulamentos sobre o meio
ambiente e a saúde ou a gestão de riscos. Isso é devido à complexida-
de inerente dessas questões, mas também ao fato de que o debate
trazido por esses temas é cada vez mais transnacional e, portanto, sua
institucionalização requer a criação de regulamentos e meios adminis-
trativos supranacionais. A dificuldade dessa tarefa é ilustrada pela
oposição dos Estados membros da Comunidade Européia à idéia de
autoridades reguladoras européias. Nesse caso preciso, a resistência
tradicional à quebra do poder dos Estados pela intermediação das atri-
buições de poder regulamentar dessas instituições não majoritárias é
reforçada pela crença de perda da soberania nacional.
Mesmo em nível nacional, temos negligenciado demais a necessi-
dade de remodelar as instituições de deliberação pública, de modo a
adaptá-las à complexidade crescente dos problemas apresentados nas
decisões públicas. De fato, até a presente data, a idéia mesma de
governo pela discussão parece desesperadamente ultrapassada.
Nossa intenção era demonstrar que a atração atual pela delibera-
ção em questões de decisão pública está estreitamente ligada à
redescoberta da eficácia e dos limites do possível no âmbito das políti-
cas públicas, como temas principais do discurso político. Compreen-
demos, agora, que a insistência dos teóricos liberais na importância da
deliberação repousa sobre a distinção entre políticas eficazes e políti-
cas de redistribuição, distinção que, em geral, permanece implícita.
Como assinalou Dennis Mueller, uma das intuições importantes de Knut
Wicksell foi a de reconhecer, explicitamente, a distinção entre deci-
sões de atribuição e de redistribuição, bem como a necessidade de tratá-
las por meio de diferentes mecanismos de decisão coletiva. A indife-
rença pelas questões de distribuição nos regulamentos econômicos e
sociais não implica que essas questões sejam irrelevantes, mas somen-
te que as políticas destinadas a compensar as deficiências do mercado
são instrumentos mesquinhos de redistribuição. Paradoxalmente, a in-
sistência passada sobre a eqüidade em detrimento da eficácia acabou
agravando a situação das pessoas mais desfavorecidas. Para evitar, no
futuro, conseqüências ainda mais indesejáveis, é importante sublinhar
que a política tem como preocupação a eficácia tanto quanto a

290 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


redistribuição, e que os dois grupos de questões deverão ser tratados
por intermédio de mecanismos de elaboração política distintos.

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292 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 269-292, 1997/1998


RESENHAS/REVIEWS
Maria Teresa Miceli KERBAUY1

PUTNAM, Robert D. Comunidade e democracia: a experiência da Itália


Moderna. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996. 260p.

A publicação do livro de Putnam no Brasil possibilitou, aos estu-


diosos do desempenho dos governos democráticos e da natureza do
governo representativo, tomar contato com uma obra que foi conside-
rada por alguns como a Da democracia na América dos tempos atuais.
O tema primordial deste livro é o exame de como as instituições
influenciam o comportamento político. A partir da análise de duas
décadas dos novos governos regionais, criados na Itália, em 1970, o
autor busca comprovar empiricamente a importância da “comunidade
cívica” para o desenvolvimento de instituições eficientes.
Por desempenho institucional o autor entende não apenas “as
regras do jogo”, uma vez que as instituições são mecanismos para
alcançar propósitos e não apenas para alcançar acordos. Neste senti-
do, o conceito de desempenho institucional tem como base um “mo-
delo bem simples de governança: demandas sociais → interação po-
lítica → governo → opção de política → implementação. As instituições
governamentais recebem subsídios do meio social e geram reações a
esse meio” (p.24).

1 Departamento de Antropologia, Política e Filosofia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP–


14800-901 – Araraquara – SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 295


Segundo o autor, a literatura existente identifica três formas de
explicar o desempenho institucional: 1. projeto institucional cuja refe-
rência é o livro de John Stuart Mill, Considerações sobre o governo
representativo, no qual a investigação das formas institucionais mais
adequadas a um governo representativo eficaz se constitui na sua
análise principal. Hoje tanto os adeptos do “novo institucionalismo como
os reformadores pragmáticos” passaram a dar atenção novamente aos
determinantes organizacionais do desempenho institucional; 2. fatores
socioeconômicos, cuja perspectiva é a de que a verdadeira democra-
cia depende do desenvolvimento social e do bem-estar econômico.
Outros aspectos da modernização (saúde, educação etc.) são destaca-
dos por Dahl e Lipset; 3. fatores socioculturais, cuja explicação para a
diversidade de sistemas políticos nacionais está relacionada à cultura
política. A referência fundamental neste caso é o estudo de Almond &
Verba sobre a cultura cívica e o exemplo mais ilustre continua sendo
Da democracia na América, de Alexis de Tocqueville, em que a cone-
xão entre os costumes de uma sociedade e suas práticas políticas é
ressaltada. As associações cívicas “reforçam os ‘hábitos do coração’
que são essenciais às instituições democráticas estáveis e eficazes”
(p.27).
A natureza da vida cívica tem papel central na análise do autor,
cujo objetivo é investigar as origens do governo. A comunidade cívica
se caracterizaria por “cidadãos atuantes e imbuídos de espírito pú-
blico, por relações políticas igualitárias, por uma estrutura social fir-
mada na confiança e na colaboração” (p.31).
O êxito das instituições está fortemente relacionado com as dife-
renças na vida cívica. Essa relação explica por que certas regiões são
mais cívicas do que outras. Para o caso estudado – a Itália –, foram
encontradas diferenças regionais sistemáticas nos modelos de
engajamento cívico e solidariedade social e, segundo o autor, “tais tra-
dições tiveram conseqüências decisivas para a qualidade de vida, tan-
to pública quanto privada, hoje existente nas regiões italianas” (p.31).
No entanto, deve-se levar em conta que as tradições cívicas se
mantêm estáveis por muito tempo e mudam mais lentamente do que
as regras formais. Esta questão remete para a discussão: o que causa
o quê: cultura ou estrutura? A relação entre cultura e estrutura impli-
ca o entendimento causal entre normas e atitudes culturais, as estru-
turas sociais e os padrões de comportamento que configuram a
“comunidade cívica”. Parte-se do princípio de que as atitudes e as
práticas constituem um equilíbrio mútuo pois “as instituições de cu-
nho cooperativo requerem aptidões e confiança interpessoais, mas essas

296 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998


aptidões e essa confiança são igualmente inculcadas e reforçadas pela
colaboração organizada. As normas e os sistemas de participação cí-
vica contribuem para a prosperidade econômica e são, por sua vez,
reforçados por esta prosperidade” (p.190).
Putnam procura mostrar em suas conclusões o poder da mudança
institucional para remodelar a vida política e as fortes restrições que a
história e o contexto social impõem ao êxito institucional. Apesar de
não afirmar com certeza, para o autor a história evolui mais lentamen-
te quando se trata de instituir regras de reciprocidade e sistemas de
participação cívica.
Nesse sentido, duas lições podem ser retiradas da pesquisa reali-
zada. O contexto social e a história condicionam profundamente o de-
sempenho das instituições. A existência de instituições eficazes e
responsáveis depende das virtudes e práticas republicanas. Segundo o
autor, Tocqueville tinha razão: “diante de uma sociedade civil vigo-
rosa, o governo democrático se fortalece em vez de enfraquecer ... Já
cidadãos das regiões menos cívicas costumam assumir o papel de
suplicantes cínicos e alienados” (p.191-2); mudando-se as instituições
formais pode-se mudar a prática política. “Como previam os
institucionalistas, a mudança institucional refletiu-se (gradualmente)
na mudança de identidades, valores, poderes e estratégias. A mudan-
ça formal induziu a mudança informal e tornou-se auto-sustentada”
(p.193).
O autor conclui, então, que o êxito das mudanças institucionais
está relacionado às restrições que a história e o contexto social im-
põem, influenciando as perspectivas de um governo eficaz e responsá-
vel, o que explicaria não apenas o caso italiano, mas procuraria res-
ponder aos desafios da democracia moderna.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 297


Fausto SARETTA1

ORMEROD, Paul. A morte da economia. Trad. Dinah de Abreu Azeve-


do. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

À primeira vista, o título deste livro poderia sugerir aos interessa-


dos em economia, economistas ou não, um sentimento de repulsa ou
desânimo. Afinal, como se interessar por um assunto que, a par das
suas dificuldades naturais, como é o entendimento das cada vez mais
complexas questões econômicas, apresenta-se, como sugere o título
do livro, morto? Entretanto, quem se dispuser a enfrentar suas quase
260 páginas ficará satisfeito com o resultado final, já que, a despeito
do enunciado, a economia como ciência encontra-se viva, estando
morta, porém, a sua forma tradicional, isto é, a teoria econômica que
busca entender o mundo por meio do equilíbrio e do comportamento
racional dos agentes econômicos.
Não é um livro escrito para ser um sucesso editorial. Na verdade,
para que se possa desfrutar a sofisticação que emana das críticas nele
contidas, é preciso ter um bom conhecimento de teoria econômica e
de matemática. Isto é condizente ao curriculum do autor, que estudou
economia nas prestigiosas universidades inglesas de Oxford e
Cambridge e, não menos importante, foi responsável pelo setor de

1 Departamento de Economia – Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – 14800-901 – Araraquara


– SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 299


análise econômica da revista The Economist, além de ter ocupado im-
portantes cargos na administração pública da Inglaterra. Por certo, a
trajetória profissional do autor é um qualificativo a mais para se con-
siderar a qualidade do livro, uma vez que a familiaridade com o tema
evita uma visão das questões econômicas que se poderia considerar
impressionista. Ademais, como estas questões vêm ganhando cada vez
mais espaço na mídia, há uma relativa perda de substância no debate
econômico contemporâneo, o que absolutamente não é o caso da obra
aqui considerada.
Composto de duas partes, o livro em sete capítulos desvela ini-
cialmente a situação da teoria econômica atual e o faz dentro de uma
perspectiva que aponta a fragilidade das bases em que se assenta
presentemente. O rigor desta crítica não é nenhuma novidade, pois
não é de hoje que se discute a irrealidade dos pressupostos em que se
fundam as principais hipóteses para as formulações econômicas. O que
desperta maior interesse nas críticas feitas por Ormerod é que ele as
faz utilizando-se de exemplos concretos que reforçam sua tese (e que
não é apenas dele), qual seja, o caráter irrealista da teoria econômica.
Assim, pergunta como é possível explicar a existência de altas taxas
de desemprego na Europa a partir das formulações mecanicistas e
idealizadas da atual teoria econômica.
Ao se referir ao atual estado de desenvolvimento da economia,
como não poderia deixar de ser, observa a crescente sofisticação que
vão ganhando os modelos, que crescentemente se valem da matemá-
tica para sua confecção, mas que nem por isto diminuem sua pouca
aplicabilidade ou, para ser mais claro, sua irrelevância para a explica-
ção da realidade. Não faltam exemplos que demonstram este que se-
ria para o autor um dos maiores pecados da teoria econômica, a natu-
reza tautológica das principais leis que, segundo a teoria ortodoxa,
regulariam o funcionamento da economia. Da simples lei da oferta e
da procura até os modelos que se utilizam de conceitos e instrumen-
tos matemáticos mais elaborados, haveria uma forte dose de irrealidade
– o que significaria, na prática, a própria inutilidade da teoria econô-
mica para a resolução dos problemas práticos.
Várias seriam as razões responsáveis pela crescente insuficiência
da teoria econômica na explicação da realidade. Esta questão não é
nova para quem acompanha a evolução da história do pensamento
econômico recente, ou seja, de como o pensamento ortodoxo trouxe
para si, no mais das vezes reformulando e alterando, as idéias que
desafiavam o mundo bem-comportado da economia neoclássica, na
qual há tendência para o equilíbrio, para o pleno emprego com agen-

300 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998


tes, empresas e famílias, atuando sempre racionalmente na busca da
maximização de lucro e de utilidade.
Para não citar aqui os vários autores e suas respectivas tradições
teóricas, bastaria lembrar do mais importante deles, lord Keynes, que,
pode-se dizer, teve sua obra desfigurada pelo pensamento ortodoxo. O
autor aponta para a premente necessidade da economia de voltar-se
para os clássicos, para os primeiros que forjaram as formulações que
deram origem ao que hoje se conhece como a moderna teoria. Esse
resgate deve ser feito pela razão, que aparentemente seria paradoxal,
de modernizar a teoria para que ela possa se adequar aos crescentes
desafios que se colocam diante de si. Assim, é preciso considerar a
herança de Adam Smith e de David Ricardo para se fazer frente a esses
desafios que o acentuado processo de crescimento econômico impõe
ao próprio desenvolvimento da teoria econômica.
As razões que imporiam essa retomada da tradição clássica esta-
riam na necessidade de reincorporar na teoria, bem como no debate
econômico, os aspectos caros a essa tradição, e que são aqueles rela-
tivos às instituições e à sociedade, portanto para além das questões
do cálculo de natureza econômica. A consideração desse aspecto é
fundamental para o entendimento do alcance que tem a obra, e serve
para que se introduzam ao longo do trabalho, entre outras, as ques-
tões relativas à ecologia. Levando em conta os aspectos do meio am-
biente no cálculo econômico, mais precisamente nas medidas de pro-
duto, renda e custos, a economia e os economistas deparar-se-ão com
questões não cotejadas pelas formas tradicionais de mensuração da
atividade econômica.
Ora, a devida incorporação desses “outros custos” por certo im-
plicaria pensar não no homem econômico racional, mas na sociedade.
Em outras palavras, há que se levar em conta não o comportamento
individualista, mas a totalidade social, e esta não pode ser conside-
rada como meramente o somatório dos agentes econômicos e do seu
comportamento racional maximizador. Indivíduos sistematicamente
apurando seus custos e suas vantagens não era exatamente o que
propunha Adam Smith, hoje tomado como o pai do livre mercado. Se
atualmente é impossível a desconsideração do que sem muita precisão
chamar-se-iam custos ambientais, há que se pensar adiante, e mais
complexamente, no que hoje os economistas insistem em considerar
como expressão da realidade econômica.
A proposta que permeia todo o livro é uma crítica radical ao atual
estado da teoria econômica. As análises feitas, valendo-se dessa pers-
pectiva, retomam questões atinentes à própria história do pensamento

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 301


econômico, o que mais uma vez leva aos clássicos e, mais importante,
à demonstração de como, ao se afastar de suas raízes, a economia
perdeu poder explicativo da realidade. Há quem diga que o cresci-
mento da Economia Política como disciplina no corpo das Ciências
Sociais deu-se, justamente, pela possibilidade de quantificação dos
eventos e acontecimentos sociais. Dessa forma, a incorporação da
matemática e da estatística, aquilo que hoje em dia se chama mé-
todos quantitativos, possibilitou um avanço considerável no poder
explicativo da economia. Porém, a intensificação do uso da matemá-
tica levou, e isto não é novidade para os economistas, a que o instru-
mento analítico se tornasse mais importante que o próprio objeto de
estudo.
A pretensão científica que o uso da matemática legou para o es-
tudo dos problemas econômicos transformou-a em senhora quando
deveria ser serva, observa o autor. Convém lembrar aqui a recente
declaração de Delfim Netto de que a economia hoje seria uma filha
bastarda da matemática. O uso abusivo dos métodos quantitativos em
artigos de renomadas revistas e publicações especializadas permite a
Paul Ormerod, além das críticas às irrelevâncias presentes em artigos
como “Implementação em economias com um continuum de agentes”,
ironizar o suposto caráter científico que teriam tais trabalhos. Ora,
continuum, bem observa, “significa que o número de pessoas, quer
enquanto indivíduos, quer enquanto empresas, negociando nessa eco-
nomia teórica, não é apenas grande, mas quase infinito”. Dessa forma,
a expressão “poderia levar as pessoas a questionarem o realismo de
qualquer ensaio acadêmico baseado nestes pressupostos, ou até a
começarem a se perguntar se teria valido, em primeiro lugar, a pena
escrevê-lo”.
Não há, por parte do autor, nenhuma restrição à matemática. Seria
de fato uma tolice desconsiderar o avanço que o uso dos instrumentos
matemáticos trouxe para o conhecimento científico. Em Economia, as
obras de Walras e Jevons são por demais expressivas. Porém, parece ter
havido um desvio na utilização desse legado tão produtivo, ainda mais
quando a esses autores foi adicionado Adam Smith, dando curso e sen-
tido àquilo que ficou conhecido como a Revolução Marginalista, de ine-
gável sucesso pelo menos como visão dominante no campo da teoria
econômica. Sem dúvida, este sucesso está relacionado a três pontos
que estão fortemente relacionados, quais sejam, a crença na superiori-
dade do livre mercado, a idéia permanente do equilíbrio e da harmonia
e, finalmente, em decorrência do uso da matemática, a superioridade de
uma construção intelectual muito mais lógica e precisa.

302 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998


Seria ocioso nestas poucas linhas traçar e relembrar a pequena
herança desta apregoada revolução com Adam Smith e sua preocupa-
ção permanente com o quadro institucional. Como muito bem lembra
Ormerod, o quadro institucional não é passível de matematização. De
outra parte, como aceitar válidas as prescrições marginalistas, entre
tantas, a do retorno decrescente, do tamanho ótimo das empresas, do
lucro normal, quando uma rapidíssima passada de olhos na história
das empresas no presente século desautoriza completa e definitiva-
mente tal forma de encarar a economia? Ademais, como aceitar válida
a teoria do equilíbrio competitivo para países e economias tão distin-
tos como o Japão, a Alemanha e mesmo o Brasil?
Por certo seria enfadonho listar aqui os aspectos da realidade que
desafiam a construção neoclássica. Porém, deve-se forçosamente con-
siderar, além das questões do domínio especificamente acadêmico –
embora nesta instância vozes das mais autorizadas como Partha
Dasgupta e nada menos que Johanes von Neumann tenham desafiado
a validade dos pressupostos do equilíbrio geral –, a influência da cons-
trução neoclásssica para a formulação de política econômica. Não
obstante as críticas de autores dos mais proeminentes quanto à
irrealidade do modelo de equilíbrio competitivo, este ainda tem um
papel decisivo para a política econômica.
A concepção neoclássica ou marginalista, ao entender o mundo
funcionando como uma máquina, leva a que se formulem modelos
macroeconômicos que consideram a realidade também mecanicamente
e têm importância na feitura da política econômica. O autor também
não poupa ou considera menos mecanicistas os economistas da tra-
dição keynesiana que, por razões diferentes, teriam o mesmo vezo me-
canicista quando constroem os famigerados modelos macroeconômicos.
Para Ormerod, entretanto, as diferenças entre as concepções são im-
portantes, pois repercutem decisivamente na formulação e mesmo no
alcance da política econômica, já que os nexos que estabelecem entre
as variáveis importantes na economia é que determinam os resultados
da ação da política econômica.
Para explicar seu entendimento desta questão, o autor exemplifi-
ca a partir da sinalização ferroviária, na qual a escolha das conexões
levaria o trem para um destino ou para outro. Os nexos, a relação entre
as variáveis seriam essas conexões que levariam – no caso, a econo-
mia – para diferentes resultados. Vale destacar que sobre este ponto,
ou seja, sobre os modelos macroeconômicos, Paul Ormerod fala de
cátedra, dada sua experiência profissional como pesquisador do National
Institute of Economic and Social Research, importante órgão de pre-

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 303


visão econômica britânico. As críticas que faz aos modelos são, no
mínimo, pertinentes, pois demonstram como as previsões econômicas
mais acertadas foram feitas, simplesmente, com a utilização da arit-
mética, sem que a sofisticação matemática da maior parte dos mode-
los de então tivesse qualquer valia. Talvez por isto mesmo, o autor
sinta-se à vontade para desancar a capacidade dos modelos macro-
econômicos de preverem adequadamente o quadro da economia mun-
dial. Cita apenas dois exemplos: a recessão japonesa do começo da
década de 1990 e a recuperação e o crescimento da economia norte-
americana no mesmo período. Fiel a seu estilo de arguto crítico do
estado atual da teoria econômica, Ormerod conclui, com certo sarcas-
mo, que tais fracassos seriam de fato esperados, posto que tais mode-
los, apesar de seus formuladores gabarem-se de incorporar os últimos
desenvolvimentos teóricos para sua confecção, na verdade incorpora-
vam desenvolvimentos teóricos de poder explicativo duvidoso, tais
como, por exemplo, as “expectativas racionais”.
Na segunda parte de seu trabalho, intitulada “Rumo ao futuro da
teoria econômica”, há uma proposta de repensar importantes aspectos
da teoria para melhorar o seu papel como explicadora da realidade
concreta da vida econômica. As críticas devastadoras feitas implaca-
velmente ao longo da primeira parte do trabalho poderiam suscitar um
certo desânimo, por parte dos economistas e demais interessados, com
a precariedade da Economia. Mas esta segunda parte propõe, a partir
do que foi escrito ao longo da primeira, repensar a teoria econômica
ou mesmo – como estabelece o autor – colocá-la numa perspectiva de
futuro em que seja possível utilizá-la na explicação e solução de um
dos mais graves problemas econômicos contemporâneos, qual seja, o
desemprego.
A discussão encetada pelo livro torna-se, nesta parte, bem mais
específica e especializada, uma vez que discute questões atinentes à
política econômica e seus percalços. Como já se observou, para o autor,
boa parte das dificuldades da política econômica está em não reco-
nhecer que a base de sua formulação está escudada na ortodoxia, que
por sua vez se apóia na teoria marginalista e seu falso senso de uni-
versalidade. Começa apontando a curva de Phillips, que originalmente
tratava da relação entre taxa de salário nominal e desemprego, da
relação inversa que existiria entre essas duas taxas, ou, nas palavras
do autor, “quando o desemprego aumentava o ritmo de crescimento
dos salários nominais diminuía e vice-versa”. Como se sabe, a litera-
tura econômica mais recente incorporou a curva com o intuito de ser-
vir de base para formulações de política econômica, embora para isto

304 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998


se alterassem importantes fundamentos que estavam na base de sua
construção.
Ora, a relação de desemprego e inflação, ou, melhor dizendo, a
especificação de um vínculo entre nível de preços e nível de emprego,
sem dúvida, é da maior relevância para a condução e implementação
de políticas econômicas. Desta forma, se fosse possível diminuir o ní-
vel do primeiros por um aumento dos níveis do segundo, este seria
sem dúvida um poderoso instrumento de ação para a política econô-
mica. Houve um desdobramento importante com a utilização da curva
para, com a devida modificação de seu escopo, concluir-se – como
fizeram por diferentes caminhos economistas laureados como Friedman
e Lucas – que existiria dentro do sistema uma taxa natural de desem-
prego que não provocaria inflação; vale dizer, não havendo políticas
governamentais de gastos, é possível ter um desemprego relativamen-
te baixo. A conclusão obrigatória que se deriva é que seria tão menor
o desemprego quanto menores fossem as regulamentações estatais no
mercado de trabalho.
A forte preocupação do autor com relação à questão do desempre-
go é o motivo pelo qual tece longas, e no geral pertinentes, observações
e críticas à curva de Phillips e à sua modificação, quando se introduzi-
ram na sua hipótese os conceitos neoclássicos. Mais relevante ainda é
considerar a realidade que mostrava nove milhões de desempregados
na Europa em meados de 1993, ano em que foi escrito o livro, e tentar
explicar tão alto índice de desocupação com conceitos claramente in-
válidos como o de desemprego friccional. Pouco útil seria tecer conside-
rações tais como a de que a desregulamentação dos mercados de traba-
lho seria o suficiente para amenizar cifras tão dramáticas. Ora, analisa
Paul Ormerod, como tratar questão tão problemática e socialmente
desafiadora com os instrumentos da teoria convencional? Ademais,
observa, não há por que crer que a própria curva de Phillips tenha sem-
pre um mesmo padrão, ou mesmo que demonstre em todas as circuns-
tâncias e situações a relação inversa entre desemprego e inflação.
Neste ponto do trabalho a discussão torna-se mais específica e
localizada em torno de uma busca para que a Economia se desenvolva
convenientemente e possa responder aos desafios que se apresentam.
A imagem proposta para que a teoria econômica possa responder a tal
necessidade é romper com a perversa tradição de linearidade cons-
tante dos modelos econômicos, e considerar a Economia como um
organismo vivo, portanto mais propenso às incertezas e à considera-
ção de aspectos dinâmicos. É preciso então relegar a segundo plano a
previsibilidade e o entendimento dos fenômenos econômicos como

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 305


providos de regularidade, características que implicam considerar a
Economia como uma verdadeira máquina de funcionamento previsível
e regular.
Como já anotado antes, a discussão nesta segunda parte do tra-
balho se torna mais especializada e obriga o leitor a um certo conhe-
cimento de matemática, para que possa acompanhar o percurso da crí-
tica que faz tanto da teoria como da política econômica. Para analisar
adequadamente a relação emprego e inflação o autor constrói um dia-
grama de dispersão colocando no eixo horizontal a taxa de desempre-
go do ano anterior e, na ordenada, a inflação no ano corrente para os
Estados Unidos no período 1953-1992. A idéia que move o autor, já
declarada ao longo do livro, é demonstrar que não existem correlações
automáticas e principalmente permanentes entre as variáveis ao longo
do tempo. O que resulta, portanto, desta constatação empiricamente
demonstrada é que não se pode pensar em políticas econômicas que
partam da crença de que qualquer relação estabelecida entre duas
variáveis permaneça ao longo do tempo.
A demonstração feita contra as certezas que o vezo mecanicista
da teoria econômica legou para o entendimento dos problemas econô-
micos permite a incorporação de dados das principais economias eu-
ropéias e, mais do que isto, a demonstração da insuficiência que os
modelos lineares, tão ao gosto da teoria ortodoxa, têm para explicar as
complexas relações e situações específicas das diversas economias dos
diferentes países. O que se revela interessante é que as contidas mas
devastadoras críticas do autor não ficam apenas na constatação da
fragilidade intrínseca do instrumental da teoria econômica convencio-
nal na explicação da realidade, pois se propõe à construção de modelo
ou modelos que busquem, antes de tudo, ser relevantes na explicação
dos fenômenos econômicos. Há que se romper com as certezas – frá-
geis – dos modelos atuais e fazer um esforço não desprezível de incor-
porar fatores institucionais na explicação da realidade econômica.
Em um feliz exemplo do que constitui um bom modelo, o autor
usa o mapa-múndi, que seria a forma ideal de representar a realidade,
uma vez que, omitindo os detalhes secundários, se aproximaria do es-
sencial para descrever o que de fato importa. A partir disto Ormerod
busca construir um modelo “que seja capaz de explicar as caracterís-
ticas essenciais observadas nas flutuações de desemprego [e] fornece[r]
uma base com a qual podemos tratar dos preceitos correntes da eco-
nomia ortodoxa relativos ao desemprego [e] como desenvolver idéias
sobre as políticas mais adequadas para reduzi-lo”. Desde logo, portan-
to, conclui pela inexistência de qualquer padrão definido permanente

306 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998


e que não há o que garanta que as mesmas relações existentes no
curto prazo se mantenham igualmente no longo. Assim, não se garan-
te uma relação positiva entre crescimento econômico e redução do
desemprego.
Sem dúvida, este é um dos pontos altos do livro. Ao observar as
séries de dados sobre emprego da Grã-Bretanha em um período de
mais de um século – 1855-1993 –, observa cinco padrões de comporta-
mento da série que apresentam alguma homogeneidade. Mais interes-
sante, entretanto, é observar como uma longa série temporal como esta
permite entender questões contemporâneas a exemplo daquela que
mostra altas taxas de desemprego em tempos de desregulamentação
do mercado de trabalho, como na Grã-Bretanha antes da Primeira Guer-
ra. Ao propor a construção que consiga apreender a realidade contida
nos dados e seja capaz, portanto, de explicar de maneira convincente
a relação de crescimento e desemprego, é preciso esquecer a linea-
ridade bem-comportada da modelagem neoclássica, e a irrealidade de
se pensar em agentes atuando de forma racional, e partir para siste-
mas não-lineares que não assumam inicialmente hipóteses de como o
mundo deveria funcionar.
A proposta é pensar em modelos que explicam a realidade econô-
mica. Para tanto, há que se considerar a impossibilidade de gerar pre-
visões de longo prazo, e aqui a chamada teoria do caos desempenha
papel importante. É claro que isto merece uma explicação mais deta-
lhada: a teoria do caos é descrita de maneira simplificada como “o
bater de asas da borboleta nas florestas tropicais de Bornéu ou da
América do Sul ou em Londres mesmo pode, em princípio, criar mu-
danças importantes nos padrões climáticos do mundo inteiro”. Outro
exemplo dado é o de aviões rigorosamente iguais partindo de um
mesmo aeroporto com pequena diferença de horário, podendo, cada
um deles, ter um destino completamente diferente, a partir de uma
discreta alteração climática, como, por exemplo, uma leve brisa entre
as duas decolagens. A pergunta que naturalmente emerge disso tudo
é o que teria a ver a teoria do caos com um modelo que procure ex-
plicar o desemprego.
Há que se valer das palavras do autor para esclarecer corretamen-
te a questão: “o comportamento do desemprego no que diz respeito à
regularidade e à magnitude de suas flutuações, quando se fixa num
padrão estável, parece depender de condições que existem no mo-
mento em que esses padrões são estabelecidos”. A discussão neste
ponto é bastante específica, já que discute a superioridade dos dados
gerados por sistemas caóticos diante daqueles gerados por sistemas

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 307


aleatórios, uma vez que os primeiros seriam mais adequados à formu-
lação de modelos matemáticos. Há também a demonstração da supe-
rioridade dos sistemas caóticos quando aplicados a outros campos da
ciência, como na Biologia. Da mesma forma, são citados vários casos
e situações em que se depara claramente com a necessidade de abor-
dagens não-convencionais, ou, mais precisamente, não-lineares, para
sua adequada explicação.
O esforço do autor, claro ao longo do livro, é de trazer para o es-
tudo da Economia e para as formulações de modelos os aspectos
institucionais, o lado da sociedade, “tarefa que Adam Smith teria apro-
vado entusiasticamente”. Desta forma, a incorporação do contexto social
e cultural obrigatoriamente significaria a expansão do escopo da eco-
nomia para a história e para os estudos do meio ambiente com
marcantes ganhos para a evolução da própria Ciência Econômica. Para
tanto, seria necessário utilizar-se, cada vez mais, da teoria do caos
para, rompendo o convencionalismo, permitir o necessário progresso
da economia, e o que é mais importante, para a formulação de polí-
ticas econômicas que ofereçam resultados mais consistentes.
Para o autor, resultados mais consistentes emergeriam do uso de
modelos não-lineares e dos dados empíricos que demonstram a inexis-
tência de uma relação fixa entre crescimento e emprego. Modelos que
realmente dessem conta da complexa realidade econômica seriam mais
simplificados, com um número menor de equações e que relacionas-
sem lucros ao emprego, dentro da tradição da Economia Política. Aqui
volta-se à utilização de instrumentos matemáticos desenvolvidos fora
de âmbito do estudo da economia – o chamado sistema Lotka-Volterra,
que junta contribuições da Química e da Biologia para explicitar a
relação que julga conveniente na explicação do desemprego. Assim,
para Ormerod, “[o sistema LV] é capaz de gerar os principais traços
típicos observados nas variações do desemprego ao longo do tempo,
isto é, ele apresenta uma tendência de estabelecer-se em flutuações
estáveis; a magnitude e a forma dessas flutuações são sensíveis às
condições das quais o sistema parte; e, depois de ser deslocado por
um choque de trajetória de flutuações estáveis, o sistema LV gera um
comportamento irregular, antes de estabelecer-se numa nova trajetória
de ciclos regular e distinta de seu padrão anterior de regularidade”.
Cabe perguntar como deve se servir a Economia de tal sistema
para determinar adequadamente as variações do desemprego. A idéia
é da junção do sistema LV com Keynes, ou seja, à medida que se as-
cende no ciclo, aumentariam as demandas salariais, os lucros come-
çam a cair e haveria, via expectativas keynesianas, uma queda nos in-

308 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998


vestimentos. Segundo se observa no livro, seriam estas as explicações
mais acertadas para o desemprego na Europa no começo da década de
1990. A tentativa é propor um modelo que considere corretamente,
dentro do ciclo, a relação de crescimento e emprego – sendo o cresci-
mento determinado pelos lucros que não necessariamente seriam sem-
pre aplicados numa proporção constante. Por outro lado, se é possível
propor uma relação determinada entre crescimento e emprego no cur-
to prazo, não há nada que autorize esta relação a longo prazo.
Assim, a taxa de lucro é essencial. Há que se considerar como
esta taxa se relaciona com o crescimento para então proceder à cons-
trução dos nexos com o emprego. Desde logo, portanto, há que se
abandonar as certezas quanto ao comportamento dos agentes como
propõe a teoria neoclássica e render-se às evidências empíricas que
os dados revelam. A despeito da familiaridade do autor com o tema
dos modelos econômicos, tanto quanto em apontar falhas e defeitos
como os que existem na construção de novos modelos que incorpo-
ram outros ramos do conhecimento, é notável, ao longo do livro, sua
preocupação em resgatar a tradição da Economia Política, sobretudo
naquilo que seus mais ilustres e influentes fundadores reputavam como
a atmosfera moral, ou, em outras palavras, a sociedade. Assim, há que
se reforçar a coesão social, que, embora seja de difícil definição, é real,
como bem mostra a experiência histórica recente de alguns países que
mantiveram o emprego em condições econômicas adversas.
A consideração de fatores institucionais, o conhecimento da his-
tória e das especificidades de cada momento histórico de cada país
deverão, segundo o autor, contribuir para uma teoria econômica de
melhor qualidade, sem a arrogância de propor a existência de leis gerais,
como o faz o modelo de equilíbrio geral. A suposição do homem eco-
nômico racional e seu comportamento maximizador são incompatíveis
com o funcionamento das economias modernas. Para que políticas de
aumento do nível de emprego sejam possíveis, há que se formular mo-
delos que rejeitem a economia ortodoxa, que avancem para além da
linearidade neoclássica e, principalmente, como sempre nos lembrará
Adam Smith, levem em conta que, antes de tudo, existe a sociedade.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 309


Pedro Paulo Abreu FUNARI1

CRÒS, C. R. La civilisation afro-brésilienne. Paris: Presses Universitaires


de France, 1997. 128p.

O etno-sociólogo Claudi R. Cròs, da Universidade Blaise-Pascal,


produziu um livro polêmico e inovador, crítico das visões tradicionais,
sobre aquilo que chama de “civilização afro-brasileira”. Por “civiliza-
ção”, entende não somente a cultura stricto sensu, como os aspectos
políticos, econômicos e sociais que a Sociologia e a Antropologia pre-
tendem estudar (p.8). Diversas “civilizações” coexistem em uma mes-
ma sociedade, com seus valores próprios e, no caso brasileiro, o autor
sugere que, aqui, estejam presentes as civilizações ameríndia, ociden-
tal (ou luso-brasileira) e afro-brasileira, esta última objeto do volume
publicado pela editora Presses Universitaires de France. Este divide-
se em três “livros”: sobre as origens africanas dos escravos no Brasil
(p.14-46), sobre a gênese da comunidade afro-brasileira (p.47-92) e sobre
a sociedade afro-brasileira, o negro livre (p.93-124). Estes dois últimos
livros compreendem o escravo na fazenda, o escravo do sertão, a re-
sistência dos escravos, a evolução da escravidão – todos no livro
dois – e o Brasil mulato do século XIX, o povo afro-brasileiro (demografia),
as comunidades do interior, as religiões e os valores afro-brasileiros,
no livro três. Um breve conclusão fecha a obra.
O primeiro livro destaca-se pelo tratamento detalhado das origens
dos africanos que para cá foram trazidos pelo tráfico negreiro, com a

1 Departamento de História – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Unicamp – 13081-970 –


Campinas -SP.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 311


apresentação de muitas tabelas demográficas e mapas descritivos das
destinações de africanos bantos e sudaneses no Brasil e dos grupos
étnicos na própria África. Esse primeiro livro condensa, de forma am-
pla mas precisa, o contexto histórico da vinda dos africanos para o
Brasil. O segundo livro procura explicar a gênese da comunidade afro-
brasileira, a partir das fazendas nordestinas escravistas, “verdadeiros
feudos” (p.48), cuja essência estava na casa-grande patriarcal, com seu
chefe de família todo-poderoso, dono da vida e da morte, com prerro-
gativas de justiça e de polícia (p.52) e cujos servidores eram alojados
na senzala, palavra banto. A escravidão sertaneja ligava-se aos va-
queiros, “esses grandes feudais” (p.63) e aos bandeirantes e seus
“feudos” (p.64), seguindo a interpretação de Luiz Mott, assim como de
outros autores (por exemplo, Galliza), sobre a importância da escravi-
dão para a criação de gado no sertão (p.65-6).
A resistência dos escravos, com destaque para o quilombo dos
Palmares, é tratada como prova seja da inconformidade dos negros (p.80)
seja de sua aliança com grupos brancos menos comprometidos com o
grande latifúndio (p.81). O terceiro livro trata do negro no Brasil recen-
te. Começa destacando a importância da miscigenação étnica no Bra-
sil, a diferença dos Estados Unidos, com o predomínio de mulatos, cons-
tituindo um Brasil mestiço (p.104). Neste quadro geral, Cròs ressalta
as disparidades regionais, pois apenas no Nordeste predominavam, em
1980, os mulatos (65,8%) e os negros atingiam o maior percentual (6,7%),
em contraste com a região Sul (12,1% mulatos e 2,7% negros), de modo
que a média geral do país (54,2% brancos, 5,8% negros, 38,9% mesti-
ços) encobre diferenças notáveis. Em seguida, o autor destaca, justa-
mente, a singularidade das comunidades rurais afro-brasileiras do in-
terior, originadas de antigos quilombos e de outros assentamentos,
demonstração das particularidades locais e da manutenção de auto-
nomias e isolamentos.
Em sentido oposto, Cròs enfatiza a generalização das religiões e
dos valores afro-brasileiros, no contexto da sociedade brasileira como
um todo. Rejeitando a terminologia de Roger Bastide, que se referia a
“religiões africanas no Brasil”, o autor prefere destacar a originalidade
da criação em solo americano, denominando-as de “religiões afro-bra-
sileiras” (p.110-1). Destaca algumas características que se expandem
para a sociedade em geral, como as noções de possessão pela divin-
dade, o caráter pessoal da divindade, a popularização de personagens
como Ifá, Exu, Iemanjá, de forma que o sincretismo religioso africano
no Brasil ultrapassa, em muito, o quadro das comunidades negras stricto
sensu. Os valores afro-brasileiros, ainda segundo o autor, também se

312 Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998


expandem e se espraiam por toda a sociedade brasileira. Assim, des-
taca o animismo e os valores comunitários, em especial aqueles que
constituem uma verdadeira “sociedade paralela que funciona à mar-
gem da sociedade dominante luso-brasileira” (p.123). O espiritismo da
umbanda, em especial no Sudeste industrializado, constitui um pro-
cesso de valorização do homem de cor, em reação a uma sociedade
feita pelos e para os brancos, como já propunha Roger Bastide. Por
fim, constitui-se uma “civilização do ritmo”, dominada pelo ritmo
sincopado na música e nas outras manifestações estéticas, com sua
recusa de imitar o real e com a dança dos volumes na escultura.
Na conclusão, Cròs propõe que “graças a seus valores religiosos
fundados no animismo e no espírito comunitário, graças a seu domínio
dos ritmos, não somente a comunidade afro-brasileira muito contri-
buiu para a sociedade nacional, como soube criar uma civilização afro-
brasileira, próxima da civilização negro-africana, mas original. Atual-
mente, tem um peso político e reivindica uma igualdade real. Tomou
consciência de sua identidade, mais, sem dúvida, do que a comunida-
de afro-americana, nos Estados Unidos, dividida por sua maior
heterogeneidade social” (p.125). Conclusão talvez surpreendente, se
considerarmos que, no Brasil, muitas vezes, tomamos a comunidade
afro-americana como padrão daquilo que deveria ser feito por aqui. No
entanto, o volume de Cròs atenta para a originalidade da experiência
brasileira, caracterizada não pela separação, mas pelo contato, marcada
não tanto pela frieza das relações capitalistas, mas pelas seculares tra-
dições européias (aquilo que o autor chama de “feudalismo luso-brasi-
leiro”), ameríndias e africanas, sempre misturadas. Não é à toa que
Cròs seja autor de outro volume sobre “A civilização ameríndia: os
povos autóctones no Brasil”, pois, como destaca, o país se compõe de
três grandes vertentes. Pode-se não concordar com todo o quadro
interpretativo proposto pelo autor, mas talvez sua maior contribuição,
para o leitor brasileiro, esteja justamente na visão distante que se nos
oferece da nossa sociedade. Em nosso meio, poucos se aventurariam
a estudar e publicar sobre negros e indígenas, na medida em que a
Antropologia acaba por isolar os especialistas de uns ou de outros. Da
mesma forma, embora etno-sociólogo, Cròs não se exime de tratar da
história dos afro-brasileiros unindo, desta forma, Sociologia, Antropo-
logia e História (para não mencionarmos a Lingüística), em salutar
atitude interdisciplinar também pouco usual. Trata-se, pois, de uma
excelente introdução a um incomum olhar crítico sobre a “civilização
afro-brasileira”.

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 295-313, 1997/1998 313


ÍNDICE DE ASSUNTOS

Agrarismo, p.95 Literatura brasileira


Assentamentos rurais, p.121 romance e política, p.77
Brasil Marx, p.151
anos 70, p.77 Marxismo, p.39
censura e cultura, p.77 Metodologia, p.151
história e literatura, p.77 Movimento social, p.11
período militar, p.77 Movimentos sociais no campo, p.121
Caio Prado Jr., p.95 Multiculturalismo, p.223
Comunismo brasileiro, p.95 Objetividade, p.151
Política, p.11
Demanda popular, p.11
Racismo, p.223
Democracia, p.67
Reforma agrária, p.95
Dependência estrutural, p.39
Relações
Dualismo, p.223 Cuba–Estados Unidos, p.197
Erotismo, p.67 Cuba–União Soviética, p.197
Estado de gênero, p.121
burocrático-autoritário, p.39 Religiosidade, p.67
Ética, p.171 República, p.67
Hegel, p.151 Sociabilidade rural, p.121
Heterogeneidade cultural, p.223 Sociedade, p.171
Humanitas, p.67 civil e democracia, p.39
Identidade, p.223 Trabalho, p.151, 171
Imperialismo e dependência, p.197 Vida
Ligas Camponesas, p.95 modo de, p.121

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 1-329, 1997/1998 315


SUBJECT INDEX

Agrarian reform, p.95 Identity, p.223


Agrarism, p.95 Imperialism and dependency, p.197
Authoritarian and burocratic Labor, p.151, 171
state, p.39 Life
Brazil way of, p.121
censure and culture, p.77 Marx, p.151
history and literature, p.77 Marxism, p.39
military period, p.77 Methodology, p.151
the 70’s, p.77 Multiculturalism, p.223
Brazilian Objectivity, p.151
communism, p.95 Politics, p.11
literature Popular demand, p.11
novel and politics, p.77 Racism, p.223
Caio Prado Jr., p.95 Relations of gender, p.121
Civil society and democracy, p.39 Religiosity, p.67
Cuba Republic, p.67
Soviet Union relationship, p.197 Rural
United States relationship, p.197 settlements, p.121
Cultural heterogenity, p.223 social, p.121
Democracy, p.67 Social
Dualism, p.223 movement, p.11
Eroticism, p.67 movement in the country, p.121
Ethics, p.171 rural relations, p.121
Hegel, p.151 Society, p.171
Humanitas, p.67 Structural dependence, p.39

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 1-329, 1997/1998 317


ÍNDICE DE AUTORES/
AUTHORS INDEX

AYERBE, L. F., p.197 MONTOYA URIARTE, U., p.223


BARONE, L. A., p.121 RANIERI, J. J., p.151
FERRANTE, V. L. S. B., p.121 RUSCHEINSKY, A., p.11
FRANCO, R., p.77 SANTOS, R., p.95
GONZÁLEZ, J. L. C., p.171 SILVA, L. F. da, p.39
MISKOLCI, R., p.67

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 1-329, 1997/1998 319


ÍNDICE DE TRADUÇÕES/
TRANSLATIONS INDEX

WALLERSTEIN, I., autor, p.249 La restructuración capitalista y el


BERTERO, J. F., sistema-mundo
ROSA E SILVA, A. M. de O., A reestruturação capitalista e o
tradutores, p.249 sistema mundial, p.249

MAJONE, G., autor, p.269 Décisions publiques et delibération


SOUZA, M. T. de, tradutora, p.269 Decisões públicas e deliberação, p.269

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 1-329, 1997/1998 321


ÍNDICE DE RESENHAS/
REVIEWS INDEX

Autores e Resenhadores Livros Resenhados


Authors and Reviewers Reviewed Books

PUTNAM, R. D., p.295 Comunidade e democracia, p.295


KERBAUY, M. T. M. (res.), p.295

ORMEROD, P., p.299 A morte da economia, p.299


SARETTA, F. (res.), p.299

CRÒS, C. R., p.311 La civilisation afro-brésilienne, p.311


FUNARI, P. P. A. (res.), p.311

Perspectivas, São Paulo, 20/21: 1-329, 1997/1998 323


ERRATA

Perspectivas (São Paulo), v.19, 1996.

Solicitamos sua compreensão para com nossos erros involuntários.


No artigo: “A inserção social da UNESP de Araraquara: sua importância na
economia do município e na prestação de serviços à comunidade”: Tabela 2,
p.71.

Outras Transferências
Intergovernamentais 1993 1994 1995 Total

Onde se lê: 20.110.980,95 25.288.487,74 33.422.197,84 78.821.666,54

Leia-se: 5.574.078,60 5.879.744,38 6.991.126,33 18.444.949,31


NORMAS PARA APRESENTAÇÃO
DOS ORIGINAIS

Informações gerais Estrutura do trabalho. Os trabalhos


devem obedecer à seguinte seqüência: Tí-
A REVISTA PERSPECTIVAS publica tulo; Autor(es) (por extenso e apenas o so-
trabalhos originais de autores da UNESP e brenome em maiúsculas); Filiação cientí-
de outras instituições nacionais ou interna- fica do(s) autor(es) (indicar em nota de
cionais, na forma de artigos, revisões, co- rodapé: Departamento, Instituto ou Facul-
municações, notas prévias, resenhas e tra- dade, Universidade-sigla, CEP, Cidade,
duções. Só serão aceitas resenhas de li- Estado, País); Resumo (com máximo de
vros que tenham sido publicados no Bra- 200 palavras); Palavras-chave (com até 7
sil, nos dois últimos anos, e, no exterior, palavras retiradas de Thesaurus da área,
nos quatro últimos anos. quando houver); Texto; Agradecimentos;
Os trabalhos poderão ser redigidos Abstract e Keywords (versão para o inglês
em português ou em outro idioma. O Re- do Resumo e Palavras-chave precedida pela
sumo e as Palavras-chave, que precedem Referência bibliográfica do próprio artigo);
o texto, escritos no idioma do artigo, os Referências bibliográficas (trabalhos cita-
que sucedem o texto, em inglês (Abstract/ dos no texto); Bibliografia (indicar obras
Keywords). consultadas ou recomendadas, não refe-
É vedada a reprodução dos trabalhos renciadas no texto).
em outras publicações ou sua tradução
para outro idioma sem a autorização do Referências bibliográficas. Devem ser
Conselho de Periódicos. Os originais sub- dispostas em ordem alfabética pelo sobre-
metidos à apreciação das Comissões Edito- nome do primeiro autor e seguir a NBR
riais deverão ser acompanhados de docu- 6023 da ABNT.
mento de transferência de direitos auto-
Abreviaturas. Os títulos de periódi-
rais, contendo a assinatura do(s) autor(es). cos deverão ser abreviados conforme o
Current Contents. Exemplos:
Preparação dos originais
■ Livros e outras monografias

Apresentação. Os trabalhos devem LAKATOS, E. M., MARCONI, M. A. Me-


ser apresentados em duas vias, com cópia todologia do trabalho científico. 2.ed.
das ilustrações. Textos em disquetes se- São Paulo: Atlas, 1986. 198p.
rão acompanhados do print (cópia impres-
■ Capítulos de livros
sa, fiel, do disquete), no programa Word
for Windows; textos datilografados, apre- JOHNSON, W. Palavras e não palavras. In:
sentados em lauda padrão (30 linhas de STEINBERG, C. S. Meios de comunica-
70 toques e espaços duplos); os textos de- ção de massa. São Paulo: Cultrix, 1972.
vem ter de 15 a 30 páginas, no máximo. p.47-66.
■ Dissertações e teses (Oliveira & Leonardo, 1943), e quando ti-
BITTENCOURT, C. M. F. Pátria, civiliza- ver três ou mais, indica-se o primeiro se-
ção e trabalho. O ensino nas escolas guido de et al. (Gille et al., 1960).
paulistas (1917-1939). São Paulo, 1988.
Dissertação (Mestrado em História) – Notas. Devem ser reduzidas ao mí-
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciên- nimo e colocadas no pé de página. As re-
cias Humanas, Universidade de São missões para o rodapé devem ser por nú-
Paulo. meros, na entrelinha superior.

■Artigos de periódicos Anexos e/ou Apêndices. Serão incluí-


ARAÚJO, V. G. de. A crítica musical dos somente quando imprescindíveis à
paulista no século XIX: Ulrico Zwingli. compreensão do texto.
ARTEunesp (São Paulo), v.7, p.59-63,
1991. Tabelas. Devem ser numeradas con-
secutivamente com algarismos arábicos e
■Trabalho de congresso ou similar (pu- encabeçadas pelo título.
blicado)
MARIN, A. J. Educação continuada: sair Figuras. Desenhos, gráficos, mapas,
do formalismo? In: CONGRESSO ESTA- esquemas, fórmulas, modelos (em papel
vegetal e tinta nanquim, ou computador);
DUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO
DE EDUCADORES, 1, 1990. Anais... São fotografias (em papel brilhante); radiogra-
Paulo: UNESP, 1990. p.114-8. fias e cromos (em forma de fotografia). As
figuras e suas legendas devem ser clara-
Citação no texto. O autor deve ser mente legíveis após sua redução no texto
citado entre parênteses pelo sobrenome, impresso de 10 x 17 cm. Devem-se indi-
separado por vírgula da data de publica- car, a lápis, no verso: autor, título abrevia-
ção (Barbosa, 1980). Se o nome do autor do e sentido da figura. Legenda das ilus-
estiver citado no texto, indica-se apenas trações nos locais em que aparecerão as
a data entre parênteses: “Morais (1955) as- figuras, numeradas consecutivamente em
sinala...”. Quando for necessário especifi- algarismos arábicos e iniciadas pelo ter-
car página(s), esta(s) deverá(ão) seguir a mo FIGURA.
data, separada(s) por vírgula e precedida(s) Os dados e conceitos emitidos nos
de p. (Mumford, 1949, p.513). As citações trabalhos, bem como a exatidão das refe-
de diversas obras de um mesmo autor, rências bibliográficas são de inteira res-
publicadas no mesmo ano, devem ser dis- ponsabilidade dos autores. Os trabalhos
criminadas por letras minúsculas após a que não se enquadrarem nessas normas*
data, sem espacejamento (Peside, 1927a) (Pe- serão devolvidos aos autores, ou serão so-
side, 1927b). Quando a obra tiver dois au- licitadas adaptações, indicadas em carta
tores, ambos são indicados, ligados por & pessoal.

* Se o autor necessitar de esclarecimentos sobre as normas para apresentação dos originais, po-
derá solicitar um exemplar do manual Normas para publicações da UNESP à Comissão Editorial
da Revista.
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