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Guerra Sem Fim

A Gênese e Evolução do
Narcotráfico no México
Ten Cel Marcelo Neival Hillesheim de Assumpção,
Exército Brasileiro
A humanidade está situada na chamada Era do
Conhecimento, que apresenta as seguintes
características, entre outras: o dinamismo
e a grande velocidade com que informações e dados
são transmitidos; uma sobrecarga dessas mesmas
e recursos humanos, nos últimos anos, em busca de
solucionar o problema, sem lograr o sucesso esperado4.
Dentro desse contexto, este trabalho pretende ana-
lisar a gênese e o desenvolvimento do crime organiza-
do no México, em particular do narcotráfico, buscando
informações, o que dificulta a sua análise e o exercício compreender como esse fenômeno atingiu alto grau
do pensamento crítico; a volatilidade dos cenários de complexidade nesse país. Tal compreensão servirá
políticos nacionais e internacionais; uma progressiva de subsídio para a análise do tema em toda a América
incerteza em relação ao futuro1; a ameaça aos Estados Latina, por parte daqueles que queiram dedicar-se ao
constituída por atores que atuam à margem da lei, tais assunto, traçando os paralelos necessários e avaliando
como os grupos terroristas e o crime organizado. os ensinamentos colhidos com a experiência mexicana.
A globalização surgida na Era do Conhecimento Para tanto, este artigo, em seu desenvolvimento,
gerou ótimas condições para o avanço dos meios de está estruturado em três períodos: do século XIX até
comunicações e para a popularização do acesso à in- 1940; de 1940 até 1980; e de 1980 até os dias atuais.
ternet, ao mesmo tempo que se valeu desses processos. A lógica que orientou a divisão do tempo dessa forma
Tais fenômenos ensejaram novas formas de organi- se deve às condicionantes que conformaram o cenário
zação social em rede, cujos efeitos no sistema inter- dentro do qual o narcotráfico no México evoluiu e
nacional ficaram materializados pelo fortalecimento que apresentaram características peculiares em seus
das interações sociais não lineares, consideradas por respectivos momentos.
muitos as grandes responsáveis pela atual dinâmica
das relações estabelecidas no mundo contemporâneo2. As Origens do Narcotráfico no
Nesse escopo, observa-se a mudança de status de México (Século XIX até 1940)
novos atores na arena do sistema internacional, com Astorga menciona que os primeiros registros do
capacidade de alterar sua ordem vigente. Se, por um cultivo de drogas no México datam do século XIX,
lado, a Era do Conhecimento proporciona benefícios, quando a produção, o comércio e o consumo não eram
por outro, traz a reboque desafios que precisam ser ilegais. Nessa época, as drogas eram usadas para uso
superados. Nesse sentido, se destaca o crime organi- recreativo e medicinal e comercializadas em Estados
zado, em particular o tráfico internacional de drogas, como Sinaloa, Baixa Califórnia e Sonora, particular-
que se apoia sobremaneira na dinâmica das novas mente em farmácias, mercados e em determinados
formas de interações humanas para ampliar suas estabelecimentos conhecidos como fumaderos. Dentre
capacidades e maximizar os benefícios provenientes as drogas comercializadas, ganharam destaque o ópio
de suas atividades ilícitas3. (introduzidos por chineses no país) e a maconha5.
O combate ao crime organizado transnacional, em As primeiras conferências mundiais para tratar do
todos os seus ramos de atividades, tem se constituído tema das drogas foram realizadas no início do século
em um dos maiores desafios para parte significativa XX, primeiro em Xangai (1909) e depois em Haia
dos países do mundo, visto que tal fenômeno tem ex- (1912). Alguns anos depois, os Estados Unidos da
trapolado a dimensão da segurança pública em regiões América (EUA) aprovaram a primeira lei crimina-
como a América Latina, por exemplo, convertendo-se lizando os entorpecentes, fazendo com que a expor-
em ameaça à segurança regional e, em certa medida, tação de narcóticos do México — onde a proibição
à segurança global. Nessas nações, o poder público ainda não havia sido regulamentada — para os EUA
tem destinado progressivamente mais meios materiais se tornasse ilegal6.
Dessa forma, alguns comerciantes de drogas mexi-
canos que já contavam com uma cadeia produtiva e de
Página anterior: Integrantes das Forças Armadas do México parti- exportação estabelecida e bem articulada se conver-
cipam da destruição de drogas, em Acapulco, Guerrero, no México,
teram em traficantes. Ademais, quadrilhas de crimi-
20 Set 2018. Foram queimadas 4,7 toneladas de cocaína, 468 qui-
los de maconha e 54 pílulas psicoativas apreendidas nos Estados nosos já existentes se apropriaram de tal comércio,
de Guerrero e Morelos. (EFE News Agency/Alamy Live News) agora ilegal e cada vez mais lucrativo, pela crescente

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MÉXICO

demanda do mercado norte-americano. Diante da os serviços básicos demandados pela população; o nar-
pressão dos EUA, poucos anos mais tarde, na década de cotráfico, por seu turno, requereu a garantia de impuni-
1920, o México também criminalizaria essa atividade7. dade e complacência das autoridades para levar a cabo
Com a proibição, o comércio ilegal se valeu, em suas atividades ilícitas10.
parte, da estrutura do mercado que antes era legal e Destarte, as instituições policiais eram mal remu-
das redes (locais e familiares) que já existiam de venda neradas e trabalhavam com pouquíssimos recursos hu-
para os EUA e que conectavam imigrantes e nacionais, manos e materiais. Seus chefes, por vezes, nas ocasiões
de ambos os lados da fronteira. A estrutura (farmácias, em que os policiais faziam apreensões de entorpecentes,
mercados e fumaderos) facilitou seguir vendendo as dro- destinavam-lhes parte do produto da apreensão como
gas e também possibilitou a lavagem de dinheiro com forma de pagamento, devido à escassez de dinheiro
base em comércios legalmente estabelecidos, o que difi- para os salários. Os agentes, então, necessitavam vender
cultou ainda mais o seu combate pelo poder público8. os narcóticos para convertê-los em recursos necessários
Agravando esse quadro, nas primeiras décadas do aos seus sustentos. Por consequência, alguns deles pas-
século XX, o narcotráfico no México conviveu com saram, também, a integrar as complexas engrenagens
um Estado que buscava estruturar-se e consolidar-se do narcotráfico11.
como nação democrática, atravessando um ambiente Nesse cenário, governos locais e organizações cri-
político extremamente conturbado e que mergulhou minosas conviveram em certa harmonia em algumas
o país em um processo unidades federativas, provendo-se mutuamente de
O Ten Cel Marcelo Neival revolucionário, com saldo suas necessidades mais imediatas. Muitos campesinos
Hillesheim de Assumpção, de mais de um milhão de passaram a viver do cultivo de ópio e maconha e foram
do Exército Brasileiro, serve, mortos9, e que consumiu constituindo comunidades totalmente integradas às
atualmente, no Gabinete do muito tempo e energia do dinâmicas do mercado de narcóticos.
Comandante do Exército, governo central, o qual Assim, a equação estava pronta: Estado fraco e frag-
em Brasília, Distrito Federal. mudou de mãos de forma mentado; poder público, militar e político necessitando
Trabalhou em diversas violenta algumas vezes de recursos; população carente; e uma grande e crescen-
funções de corpo de tropa no nesse período. Com isso, te oportunidade de negócios lucrativos do outro lado da
Exército Brasileiro, na Missão registra-se que os assuntos fronteira do país. Nesse panorama, o envolvimento de
de Paz da ONU no Haiti e relacionados ao narcotrá- policiais, políticos, empresários e comerciantes mexica-
na Operação de Pacificação fico, por parte do governo nos com o crime se tornou muito comum. Ocorreram
Arcanjo, no Rio de Janeiro. federal, acabaram ficando casos de autoridades públicas que se tornaram chefes
Comandou a 4ª Companhia para o segundo plano. de grupos criminosos e também de criminosos que se
de Polícia do Exército, em No âmbito dos go- converteram em autoridades; o narcotráfico tornou-se,
Belo Horizonte, Minas Gerais. vernos locais, a situação então, a base da economia de Estados como os de
Possui, entre outros cursos e do poder público era Sinaloa, Guerrero e Michoacán12.
estágios da carreira: Básico de extrema debilidade,
Paraquedista, Mestre de em um país de enorme A Expansão do Narcotráfico e o
Salto, Operações na Selva território, com federalis- Pacto com o Estado (1940 até 1980)
e Avançado de Inteligência. mo incipiente e carências O mercado das drogas no México, desde os primór-
Obteve o grau de mestrado de toda natureza. Dessa dios, esteve estreitamente vinculado aos EUA, tanto
em Direção Estratégica na forma, em um processo pela demanda dos consumidores deste país, quanto pe-
Escuela Superior de Guerra, simbiótico, os governos las medidas de combate antidrogas empreendidas pelos
México, onde também foi municipais e estaduais, governos norte-americanos13.
instrutor. É especialista em em particular no norte Como exemplo, a Segunda Guerra Mundial, inicial-
Política e Estratégia pela do país, se valeram dos mente, e a Guerra da Coreia, anos mais tarde, ensejaram
Associação dos Diplomados recursos provenientes uma forte demanda de ópio pelos norte-americanos
da Escola Superior de Guerra, do narcotráfico para se com o propósito de produzir morfina para os milita-
no Rio de Janeiro. consolidarem e proverem res feridos em combate. Os produtores asiáticos não

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supriam totalmente as exigências; então, houve a é sempre mais fácil de conduzir do que aqueles que
necessidade de buscar o produto no mercado mexica- envolvem vários atores. Os grupos criminosos opera-
no, por meio da realização de acordos sigilosos, que, de vam como gestores de franquias reguladas pelo poder
certa forma, contrariavam as políticas de erradicação público, em troca do pagamento de “impostos”19.
de cultivos acordadas entre ambas as nações14. Esse modelo funcionou da década de 1940 à de
No âmbito da política exterior, os EUA têm exerci- 1980 e, em linhas gerais, se estabeleceu da seguinte
do, há décadas, forte pressão contra os países produto- forma: o governo faria o papel de conselho de adminis-
res e de trânsito de drogas como Colômbia e México, tração e estabeleceria as condições de funcionamento
por exemplo, atuando na oferta de narcóticos e não na do crime organizado; os cartéis, por sua vez, recebe-
sua própria demanda interna, a qual conforma o maior riam um “salvo-conduto” para conduzir suas ativida-
mercado consumidor de entorpecentes do mundo. Tal des, em troca do pagamento de uma parte dos lucros
pressão tem se configurado por meio da adoção — ou do negócio. Além disso, os criminosos deveriam seguir
da ameaça — de sanções econômicas contra essas na- certas regras como não agir contra as instituições e a
ções; pela exigência de resultados mais expressivos no população civil em geral20.
combate ao crime organizado, etc.15 As tratativas informais com o crime organizado
Nesse sentido, o governo mexicano sempre buscou demandavam uma agência governamental que deve-
atender às exigências do país vizinho com relação à ria ser encarregada de fazer o trabalho inconfessável,
política antidrogas, tendo em vista a importância da sigiloso e arriscado de manter os grupos criminosos
parceria estratégica existente com os EUA e a natural sob controle, impondo as condições do poder público e
dependência de seu comércio exterior, que possui forte auferindo os “benefícios” esperados. Para isso, foi cria-
vinculação com os norte-americanos16. da, em 1947, a Dirección Federal de Seguridad (DFS),
Dentro desse contexto, ao final da década de 1940, um órgão de inteligência ligado diretamente à presi-
o governo mexicano, diante das pressões dos EUA e dência da república e que deveria cuidar dos “inimigos
percebendo o crescimento e fortalecimento do crime internos” do Estado, tanto criminosos comuns como
organizado, passou a adotar uma política de enfren- subversivos e terroristas21.
tamento mais direto do problema, realizando ataques O resultado desse período foi que o crime orga-
contra os grupos criminosos, empregando meios poli- nizado no México teve um crescimento exponencial
ciais e, episodicamente, também as Forças Armadas. devido à já comentada demanda de ópio e, posterior-
Esse esforço permitiu perceber e avaliar o alto grau de mente, de maconha, por causa da explosão de consumo
envolvimento de autoridades e agentes públicos com o durante as décadas de 1960 e 1970, quando essa droga
narcotráfico, sobretudo nos âmbitos regionais17. passou a caracterizar, em parte, a geração promoto-
Com o propósito de buscar a estabilidade do país ra de uma revolução cultural, que protestava contra
no âmbito da segurança pública e manter o narcotrá- a Guerra do Vietnã, a Guerra Fria e as convenções
fico sob controle, o governo mexicano passou a pac- sociais estabelecidas22.
tuar com alguns chefes de organizações criminosas. O narcotráfico logrou penetrar e corromper al-
Os vínculos entre tais organizações e o poder público gumas agências estatais, até mesmo a própria DFS. A
migraram, em grande medida, do nível regional para o contaminação das instituições públicas pelo crime fez
nível federal, o que foi permitido graças à concentração com que elas deixassem, em parte, de servir à socieda-
do poder político neste último nível, viabilizado por de e passassem a servir ao crime organizado, compro-
um grande centralismo, tendo como vértice o Partido metendo o próprio Estado Democrático de Direito,
Revolucionário Institucional (PRI), cujo poder se enfo- visto que certos grupos passaram a operar à margem
cava na figura do presidente, e que dominou o cenário da lei com a aquiescência das próprias autoridades
político do país por cerca de 70 anos18. responsáveis pela sua aplicação.
O monopólio do poder político no nível federal, Nesse contexto, o Estado diminuiu sua esfera
sem os contrapesos necessários em uma moderna de atuação e se debilitou. O crime organizado, em
democracia, permitiu manter o narcotráfico sob certo sentido contrário, se fortaleceu e expandiu suas ações.
controle e regulação, visto que o acordo entre poucos Nessas condições, o narcotráfico passou a influenciar

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MÉXICO

Caribe Oriental 7%
México Caribe Ocidental 9% República
Dominicana
Belize
Honduras Haiti

Guatemala Nicarágua
El Salvador
Suriname
Pacífico Oriental 84% Costa Rica Venezuela
Panamá Guiana
Guiana Francesa
Colômbia
Ilhas Galápagos 17%

Equador
Ano Pacífico Caribe Caribe
Oriental Ocidental Oriental

2017 84% 9% 7% Brasil


Peru
2016 83% 11% 6%
2015 76% 14% 10% Bolívia
(Fonte: U.S. Government Database of Drugs Seizures and Movement; US Department of Justice/Drug Enforcement Administration [DEA],
National Drug Threat Assessment October 2018. Imagem adaptada e traduzida por Military Review)

Figura 1. Fluxos de Cocaína da América do Sul para o Norte, 2017

a gestão pública e o emprego dos recursos estatais Nesse caso, o cidadão mais uma vez fica à margem
em consonância com seus interesses. Não somente da proteção do Estado Democrático de Direito, visto
passou a manipular autoridades democraticamente que a instituição que é responsável pela aplicação legal
eleitas, como passou, também, a propor e a encampar do poder coercitivo, no âmbito da segurança pública,
seus próprios candidatos políticos, em algumas uni- atua de forma ilegal e seletiva. Em outras palavras, o
dades da federação23. cidadão não tem a quem recorrer nos casos de violên-
Uma das instituições primeiramente comprometi- cia contra a sua família e nos crimes contra seu patri-
das nesse cenário foram as polícias. Nesse ínterim, cabe mônio quando o perpetrador é o grupo delitivo que
destacar a menção de Castellanos, o qual diferencia controla a instituição policial.
“polícia corrupta” de “polícia capturada”. A primeira, Diante desse cenário, é comum que setores da socie-
ainda que receba propina dos grupos criminosos aos dade passem a se organizar e formem estruturas priva-
quais favorece, impõe as suas condições e, no caso das com o intuito de proporcionarem a segurança que o
em que elas sejam esporadicamente desacatadas, lhes Estado não pode oferecer, o que complica ainda mais o
sentencia com prisões de criminosos, apreensões de quadro da segurança pública. São os chamados grupos
drogas, execuções ou privilegiando grupos rivais24. de autodefesa, que já existem no México há décadas.
No segundo caso (constatado em alguns Estados Esse grau de degeneração das instituições é típico
mexicanos), as corporações policiais que são captura- de Estados Falidos, com graves crises institucionais, ou
das pelo crime organizado perdem sua capacidade de onde o poder público opta pela via da leniência com
atuação e de dissuasão, passando a operar de acordo relação ao crime organizado, seja pela realização de
com os desígnios do chefe criminoso que as contro- acordos tácitos com os criminosos, seja pela inação de
la, prestando serviços os mais diversos como ações seu aparato repressivo26.
contra grupos rivais, proteção e escolta de criminosos, Logo, as empresas criminais tendem a ser grandes
prisões seletivas, etc.25 e poderosas onde o Estado falha em seu combate ou

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quando ele decide retirar-se de certas regiões onde em particular entre a população branca e de classe
elas atuam ou de determinados mercados por elas média. A droga ganhou uma projeção enorme no país
operados. Por outro lado, tais empresas tendem a e passou a ser um produto muito comum em festas e
ser pequenas onde o Estado consegue combatê-las, discotecas, além de ser muito consumida por artistas,
evitando sua expansão e consequente infiltração nas músicos e integrantes da indústria cinematográfica,
instituições do poder público27. entre outros. A revista Time chegou a chamar a cocaí-
Dessa forma, ao final da década de 1980, o nar- na de “a droga tipicamente norte-americana”30.
cotráfico mexicano já apresentava uma força muito Esse fenômeno gerou o aumento da demanda
grande e se beneficiava em grande medida de seto- desse entorpecente e, por consequência, do lucro das
res do poder público, em seus diferentes níveis, que empresas criminais. Até a década de 1980, as rotas
haviam sido corrompidos. Alguns chefes de cartéis de cocaína provenientes da América do Sul com
possuíam grande projeção e canais de comunicação destino aos EUA eram controladas pelos traficantes
abertos com altas autoridades do governo. Foi o caso colombianos e passavam principalmente pelo Caribe,
de Miguel Ángel Félix Gallardo e Ernesto Fonseca, os chegando ao território norte-americano pela Flórida,
quais dirigiam o Cartel de Guadalajara (que passaria a em particular, por Miami31.
chamar-se, posteriormente, de Cartel de Sinaloa)28. Nessa cidade, à medida que o mercado da droga se
Esse grupo delitivo exercia um monopólio do tornava mais lucrativo, quadrilhas, em particular de
narcotráfico no país e era integrado por um clã de fa- colombianos e cubanos, disputavam o seu controle,
mílias de narcotraficantes que compartilhavam entre a venda para os consumidores finais e a distribuição
si territórios e locais de travessia na fronteira para os para o restante do país, aumentando substancialmen-
EUA. Seus domínios compreendiam as regiões mais te os indicadores de violência na região32.
importantes de plantio de drogas no México, entre Dessa forma, o governo dos EUA, presidido
elas o chamado Triângulo Dourado, área conformada por Ronald Reagan, o qual declarou que a questão
pelos Estados de Durango, Chihuahua e Sinaloa. das drogas era um problema de segurança nacional
Assim sendo, o crime organizado mexicano, até a (Nacional Security Decision Directive 221, de 1986),
década de 1980, manteve um perfil baixo de atuação, deu início a uma forte repressão ao narcotráfico que
não afrontando direta e abertamente o Estado, o que atuava a partir da Flórida, e a quantidade de apreen-
era possível graças ao monopólio do Cartel de Sinaloa sões e de prisões aumentou significativamente. Os
e ao respeito às regras acordadas com o poder público, colombianos, então, viram-se obrigados a buscar
as quais traziam certa estabilidade ao país no âmbito rotas mais seguras para o envio de cocaína para o
da segurança pública. Entretanto, esse panorama esta- território norte-americano33.
va prestes a mudar29. Nesse momento, os cartéis colombianos passaram
a articular-se com os narcotraficantes mexicanos, os
A Fragmentação dos Cartéis e a quais já possuíam grande expertise em transportar
Violência Generalizada (1980 até a entorpecentes — até então, basicamente maconha
atualidade) e ópio — para os EUA. Os locais e formas de cruza-
Esse período é caracterizado por uma mudança mento da fronteira, a estrutura, depósitos, contatos
drástica na dinâmica do narcotráfico no México, con- e redes de distribuição já estavam mobiliados havia
sequência de fatores como a entrada da cocaína no rol décadas e poderiam, facilmente, agregar mais um
de entorpecentes traficados para os EUA pelos cartéis produto ao seu “portfólio”34.
mexicanos, a fragmentação e atomização dos grupos Assim, colombianos contrataram os serviços dos
delitivos no país, a quebra dos acordos velados entre mexicanos, compartilhando com eles parcela do lucro
o governo e os traficantes e o aumento da violência, dos negócios, segundo suas condições. Com o passar
conforme será explorado a seguir. dos anos, foram os narcotraficantes do México, donos
No final da década de 1970, o consumo de ma- das novas rotas, que estabeleceram suas próprias
conha nos EUA começou a sofrer um acentuado condições e passaram a auferir a maior parte do lucro
declínio e o de cocaína passou a uma rápida expansão, do tráfico de cocaína para os EUA, atividade que mais

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MÉXICO

tarde se tornaria sua maior fonte de renda (para obter A assunção do tráfico de cocaína por grupos mexi-
informações mais recentes sobre as rotas do tráfico, canos, a fragmentação do Cartel de Sinaloa e o fim do
veja as figuras 1 e 2)35. pacto entre o governo e o crime organizado tornaram
Em 1985, outro evento que gerou graves reper- o problema de segurança pública no país mais comple-
cussões na dinâmica do narcotráfico no México xo e instável. O quadro se agravou ainda mais quando
foi o assassinato do agente da Drug Enforcement os traficantes mexicanos passaram a receber parte da
Administration (DEA) Enrique Camarena, que droga que era transportada para os EUA como parcela
havia sido sequestrado na porta do consulado do pagamento pelos serviços prestados40.
norte-americano em Guadalajara, por determinação Assim, os cartéis precisaram fomentar o consu-
do traficante Rafael Caro Quintero. mo interno de drogas no México, a fim de vende-
O crime enfureceu o governo dos EUA, que rem os narcóticos recebidos, obtendo, dessa forma,
exigiu que as autoridades mexicanas encontrassem os recursos destinados a sustentar suas atividades e
e punissem os responsáveis pelo atentado. Diante de necessários, dentre outras coisas, para corromper as
uma busca implacável, foram presos o mandante do autoridades e funcionários públicos que garantiriam a
assassinato, Caro Quintero, e, alguns anos mais tarde, continuidade de seus negócios41.
Miguel Ángel Félix Gallardo e Ernesto Fonseca. Esses Dentro desse contexto, a disputa por mercados
criminosos eram os líderes do Cartel de Guadalajara e territórios entre os cartéis intensificou a violência
(posteriormente Sinaloa) e que mantinham sob con- no país, exigindo do poder público ações mais incisi-
trole outros traficantes, líderes das regiões que con- vas no âmbito da segurança pública. Foi então que o
formavam a área desse grupo criminoso, entre eles o presidente Ernesto Zedillo (1994-2000) programou
famoso Joaquín Guzmán Loera (el Chapo)36. uma estratégia de ações seletivas, tendo como centro
O “descabeçamento” provocado pelas mencionadas de gravidade os líderes de cartéis da época, esperan-
prisões gerou uma violenta disputa entre os líderes do que suas capturas causassem a desarticulação das
criminosos de segundo escalão, que terminou por estruturas delitivas42.
fragmentar a organização inicial em outras menores, Essa estratégia logrou capturar líderes crimino-
as quais passaram a disputar violentamente o controle sos importantes, ademais de funcionários públicos
do mercado das drogas, aumentando a sensação de de várias instituições, os quais contribuíam com o
insegurança no país37. crime organizado. Entre eles, ganharam destaque o
O caso Camarena e as ações governamentais de- ex-governador do Estado de Quintana Roo, Mario
correntes expuseram e evidenciaram uma consequên- Villanueva, e o chefe do Instituto Nacional para o
cia trágica dos acordos informais entre o governo e o Combate às Drogas (INCD), o General de Exército
narcotráfico, firmados nas últimas décadas: a expan- mexicano José de Jesús Gutiérrez Rebollo43.
são do poder de influência dos grupos criminosos e a O governo seguinte, presidido por Vicente Fox
corrupção e enfraquecimento do Estado. O propósito (2000-2006), adotou a mesma estratégia de seu pre-
de manter a indústria criminal “controlada e civiliza- decessor, logrando deter líderes de cartéis e identificar
da” revelou-se uma ilusão e deixou claro o ensinamen- mais servidores públicos que favoreciam as organiza-
to de que o resguardo estatal com relação a alguma ções criminosas. Entretanto, a violência no país e os
atividade delitiva torna o crime organizado mais forte índices de criminalidade continuaram a subir, pressio-
e o Estado, por sua vez, mais fraco e incapaz38. nando ainda mais o poder público a buscar ações mais
A DFS, instituição incumbida de fazer a inter- eficientes na garantia da segurança da população44.
mediação entre o crime organizado e o Estado nas A explicação para o fracasso dos dois governos em
décadas anteriores foi, em grande medida, penetrada diminuir a violência decorrente do crime organizado
e controlada pelo narcotráfico. Diante desse cenário, residiu, entre outros fatores, na estratégia adotada. A
a administração do presidente Miguel de la Madrid prisão de líderes de cartéis, mais uma vez, longe de ge-
(1982-1988) decidiu extinguir a DFS, o que, de certa rar a desarticulação de suas organizações, gerou dispu-
forma, simbolizou o esgotamento de um modelo de tas internas pelo poder e também divisões dos grupos,
administração do crime organizado pelo Estado39. os quais se atomizaram formando outros cartéis45.

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LESTE
EUROPEU

EUROPA
OCIDENTAL E
AMÉRICA CENTRAL
SUDESTE
DO NORTE
EUROPEU

ÁFRICA ORIENTE
SETENTRIONAL PRÓXIMO E MÉDIO
E SUDOESTE
LESTE E ASIÁTICO
SUDESTE MÉXICO E CARIBE
ASIÁTICO AMÉRICA ÁFRICA
CENTRAL OCIDENTAL
E CENTRAL

PAÍSES
ANDINOS
OCEANIA

Principais países mencionados como fonte


Principais países mencionados como trânsito*
Principais países mencionados como destino* AMÉRICA
DO SUL
Principais países mencionados como trânsito e destino* ÁFRICA
Não são os principais países de fonte/trânsito ou destino MERIDIONAL
Rotas globais de tráfico de cocaína por quantidade apreendida
estimada com base nas apreensões registradas, 2013-2017

Fluxo de baixo volume

Fluxo de alto volume Figura 2. Principais Rotas de Tráfico


*A tonalidade mais escura indica uma maior quantidade de de Cocaína, 2013 a 2017
cocaína apreendida, com o país como trânsito/destino.
Sources:

Essa atomização provocou o acirramento dos No final do governo de Vicente Fox, a persistên-
conflitos por territórios e mercados, gerando ainda cia de altos níveis de criminalidade, não obstante as
mais violência. Além disso, alguns grupos mais pre- ações estatais, fez com que o presidente, a partir do
judicados com a diminuição dos lucros com a venda penúltimo ano de seu mandato, aumentasse o empre-
de drogas passaram a diversificar suas atividades go das Forças Armadas no combate aos cartéis. Para
delitivas, cometendo sequestros, extorsões, roubos isso, baseou-se, também, no argumento de que não
e tráfico de pessoas, entre outras, o que tornou a seria possível obter bons resultados nessa empreitada
situação da segurança pública no México ainda mais utilizando instituições policiais ineficazes e com alto
delicada e complexa46. grau de penetração pelo crime organizado48.
O pacto entre governo e o narcotráfico, vigente As Forças Armadas mexicanas, que já possuíam
até a década de 1980, que exigia o mínimo de ações largo histórico de emprego episódico em operações
criminosas contra a população, foi quebrado, e alguns de defesa interna e de segurança pública, passaram,
cartéis como “Los Zetas” e a “Família Michoacana” então, a envolver-se cada dia mais no confronto dire-
ganharam notoriedade pela violência de todo o tipo to com os poderosos cartéis de drogas. Tal emprego
realizada contra a sociedade, o que aumentou consi- foi definitivamente sistematizado a partir do manda-
deravelmente a sensação de insegurança no país47. to do presidente Felipe Calderón (2006-2012)49.

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MÉXICO

(Fonte: United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC), World Drug Report 2019.
Imagem adaptada e traduzida por Military Review. Para visualizar o mapa original, aces-
se https://wdr.unodc.org/wdr2019/prelaunch/WDR19_Booklet_4_STIMULANTS.pdf )

o narcotráfico (plantação, produção e comércio de


drogas), percebe-se o desenvolvimento de uma cul-
tura de aceitação e promoção do crime, a chamada
“cultura das drogas” ou “narcocultura”, semelhante ao
que também ocorre nas regiões e bairros mais pobres
de países como Brasil e Colômbia, por exemplo.
A narcocultura é comum em vários países da
ÁSIA
MERIDIONAL LESTE E América Latina e talvez constitua o lado mais trágico
SUDESTE
ASIÁTICO da degeneração do tecido social nas nações onde o
crime organizado consegue estabelecer um amplo
domínio, além de ser um fator que torna muito mais
PAÍSES
complexa a ação do poder público contra as organi-
ANDINOS zações criminosas.
O domínio territorial em áreas urbanas e rurais
pelo crime organizado caracteriza a substituição —
ou relativização — do papel que deveria ser exclu-
AMÉRICA
DO SUL
sivo do poder público nessas áreas. Dessa forma, os
criminosos passam a determinar as dinâmicas sociais
e as formas de as pessoas interagirem entre si. Novos
OCEANIA valores e referências passam a ser cultivados, subver-
tendo as crenças e valores tradicionais.
Aqueles que exercem a autoridade dos grupos
delitivos passam a demandar autoridade crescente
junto à população local, a qual, por pragmatismo, por
instinto de sobrevivência ou até mesmo pela falta de
outras referências, passa a legitimar o poder paralelo
do crime, criando as condições para a sua ampliação
e geralmente acobertando as suas ilicitudes.
Desde 2006, já se podem somar 13 anos de em- O que começou como uma convivência forçada se
prego sistemático das Forças Armadas mexicanas no torna dependência, visto que as relações sociais vicia-
combate aos cartéis de drogas no país. Entretanto, os das dão lugar às relações econômicas, onde floresce
efeitos desejados não foram alcançados, e os indi- toda uma economia vinculada direta ou indireta-
cadores de violência atingiram níveis recorde nos mente com o crime. Nesse ponto, toda ação estatal se
últimos anos, demonstrando que as políticas públicas torna ainda mais difícil, pois ameaça não somente os
enfocadas prioritariamente na repressão ao crime grupos delitivos e suas operações, mas também toda a
organizado, via de regra, não são bem-sucedidas50. economia privada que gira em torno da manutenção
do bom andamento das atividades criminosas.
Reflexões sobre o Problema da Quando determinada sociedade chega a esse pon-
“Cultura das Drogas” to, fica muito claro que as ações estatais repressivas
Dentro do cenário já descrito, um aspecto que contra o crime organizado serão frustradas ou terão
é importante destacar é que, depois de mais de um um efeito efêmero, pois a própria sociedade local se
século de convívio de parcela da população mexica- encarregará de regenerar a estrutura delitiva atingida
na, em particular de alguns Estados da federação já pelas ações do poder público, o que permitirá que o
nomeados, com todas as atividades que caracterizam crime se perpetue.

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Toda e qualquer política voltada para o combate desejados. É evidente que o grande impulsor do narco-
ao crime organizado, em geral, e ao narcotráfico, em tráfico é a demanda por entorpecentes, a qual deve ser
particular, deverá empreender uma abordagem multidi- o objeto principal da ação do poder público contra essa
mensional e de longo prazo, visto que os elementos so- grande mazela da humanidade.
cioculturais constitutivos da cultura das drogas não são O aparato de segurança disponibilizado pelo país
atingidos por medidas de curto prazo e nem de caráter mais rico e militarmente poderoso do mundo, que é
unicamente repressivo, as quais, ao contrário, podem ter desdobrado nos pouco mais de 3 mil quilômetros de
o efeito inverso e agravá-los. fronteira terrestre existente entre os EUA e o México,
não tem sido capaz, ao longo de várias décadas, de dimi-
Conclusões nuir o consumo de narcóticos pelos norte-americanos, o
O cultivo e a utilização de ópio e maconha no que revela que o simples “fechamento” da fronteira entre
México remontam ao século XIX, décadas antes que nações não resolve os problemas sociais e de segurança
tais entorpecentes se tornassem ilegais e após o uso já pública relacionados às drogas.
haver se incorporado à cultura de parcela da população Durante o período de 1940 a 1980, aproximadamen-
de algumas unidades da federação. No caso dos imigran- te, o governo mexicano pactuou com o narcotráfico,
tes chineses, o consumo de ópio já era tradicional em sua conforme já mencionado. Ao mesmo tempo, por vezes,
nação de origem. Dessa forma, a proibição dessas drogas atuou fortemente contra ele, empregando até mesmo as
na década de 1920 aconteceu quando o cultivo e o co- Forças Armadas, o que parece contraditório.
mércio delas já estavam bem estruturados e ocorrendo, Contudo, o que deve ficar claro é que os governos
inclusive, através da fronteira entre o México e os EUA, não são “blocos monolíticos” e, por vezes, algumas de
o que facilitou a continuidade dessas atividades depois suas agências atuam em direções contrárias e antagô-
de decretada a sua ilegalidade. nicas. As pressões internacionais, por exemplo, podem
Os primeiros anos do narcotráfico no México desencadear ações repressivas que busquem apresentar
coincidiram com um aparato estatal em construção, resultados, trazendo prejuízos para determinados grupos
em que a prioridade era promover o funcionamento criminosos sem, entretanto, romper acordos estabeleci-
de instituições basilares para a república, que atendes- dos nem tampouco desestruturá-los completamente.
sem às demandas por saúde, educação e infraestrutura, O fracasso do modelo de administração do narco-
entre outras áreas. Dessa forma, a gênese simultânea tráfico por meio de acordos demonstra que o crime
do Estado moderno mexicano e do crime organizado organizado sempre buscará ocupar espaços e corromper
desencadeou um processo de simbiose em que o primei- pessoas nas esferas cada vez mais altas da administração
ro demandava recursos financeiros e estabilidade e o pública, visto que ele é um agente subversivo por excelên-
segundo requeria proteção e impunidade para conduzir cia. Esse tipo de administração do problema debilita pro-
livremente suas atividades. gressivamente o Estado e fortalece os grupos criminosos.
A vizinhança com o país que é o maior consumidor Finalmente, conclui-se que as atividades ilegais rela-
de drogas do mundo é possivelmente o fator que mais cionadas ao cultivo, produção, comércio e consumo de
influencia a dinâmica do narcotráfico no México. A drogas, ao longo do tempo, fazem brotar em uma parcela
demanda por ópio (durante a Segunda Guerra Mundial da sociedade a “cultura das drogas”, a qual é promovida
e a Guerra da Coréia), por maconha (a partir da revo- não somente por usuários e pessoas diretamente envol-
lução cultural dos anos 60), por cocaína (a partir da vidas com tais atividades ilegais, que passam a expressar
década de 1980) e por anfetaminas (nos últimos anos), “valores” e comportamentos que estimulam ainda mais a
certamente, têm sido as condicionantes que, ao longo empresa criminal, garantindo, assim, a sua continuidade.
da história, têm determinado o arranjo e o impulso do Dessa forma, fica muito claro que qualquer política
mercado de drogas no país. de combate às drogas deve constituir-se em uma ação
Os EUA têm focado sua política de combate às integral do Estado e ter seu foco prioritário na origem dos
drogas, em grande medida, por meio de ações unilaterais problemas e mazelas sociais que ensejam o florescimento
e pressões contra os países produtores e de trânsito das do tráfico de entorpecentes, que geram a demanda por
drogas, atuando na oferta, sem obterem os resultados esses produtos e que dão origem à “cultura narco”. 

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MÉXICO

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