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A CRIMINALIZAÇÃO DA MISÉRIA

George Furtado Santos*

RESUMO

Este artigo visa problematizar o campo do Direito Penal e sua relação com os
“economicamente desfavorecidos” na sociedade, numa perspectiva sociológica,
evidenciando os discursos utilizados para provocar e legitimar uma relação de
dominação exercida pelos países centrais. Para tanto, do ponto de vista teórico,
foram escolhidas para compor a base principal deste trabalho as pesquisas
realizadas pelo jurista Eugenio Raúl Zaffaroni1 e pelo sociólogo Loïc Wacquant2,
pesquisas estas que figuram nas obras Em busca das penas perdidas e As prisões
da miséria, respectivamente.

PALAVRAS-CHAVE: Pobreza. Criminalidade. Sistema penal. Controle social.

INTRODUÇÃO

O tema objeto deste artigo é em certa medida polêmico, ou no mínimo instigante. Se


o sistema penal não estabelece distinção entre delinqüentes – considerando que
infrinjam os mesmos tipos penais -, por que somente os que pertencem às classes
“economicamente desfavorecidas” são punidos (com prisões e até mesmo

*
Aluno do segundo semestre do curso de Direito da Universidade do Estado da Bahia – UNEB.
1
Diretor do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e Tratamento
do Delinqüente.
2
Professor na Universidade de California-Berkeley e pesquisador no Centro de Sociologia Européia
do Collège de France, membro fundador do grupo de ativistas acadêmicos "Raisons d’Agir" e
colabora regularmente para o Monde Diplomatique.
2

execuções)? Tomando como exemplo o Brasil, basta que se visite qualquer


delegacia e se pergunte pelo perfil dos detidos – que é uma pesquisa relativamente
fácil de fazer -, e logo se constata que o criminoso é pobre3. Destarte, faz-se mister
tratarmos dos principais discursos (alguns utilizados há décadas) que procuram
ensejar e legitimar, das formas mais sutis possíveis, um “Direito Penal do Terror”
para os pobres, que os estigmatiza como se nascessem criminosos.

1. ALGUMAS PALAVRAS SOBRE O SISTEMA PENAL

Antes de adentrar no tema principal, convêm algumas considerações acerca do


sistema penal. Tal sistema é fruto de paradigmas elaborados historicamente pelos
países centrais que, através de discursos político-midiáticos, são reproduzidos e – o
que é mais grave – internalizados pelos países latino-americanos sem a adaptação
às diversas realidades nacionais que se faria necessária. Nesse sentido, Zaffaroni
(2001, p.48), afirma que

[...] o discurso jurídico penal sempre se baseou em ficções e


metáforas, ou seja, em elementos inventados ou trazidos de fora,
sem nunca operar com dados concretos da realidade social. (grifo do
autor)

Dentro de tal sistema encontram-se as instituições prisionais que formalmente


possuem três funções: a punição, a intimidação e a regeneração. Sem pretender
entrar no mérito da “falência” dessas instituições, o que se constata através de
relatos de quem lá esteve, de pesquisas e da própria mídia sensacionalista é que
graça a superlotação nos presídios, a corrupção e abusos físicos e morais
praticados pelos agentes penitenciários e a formação de grupos mafiosos exercendo
influência dentro e fora dos presídios. Imaginemos como seria esse quadro se todos
os furtos, abortos, defraudações, etc. fossem de fato criminalizados!

3
Frase muito proferida pelo juiz e professor de Direito Penal da UNEB Dr. Moacyr Pitta Lima Filho,
apenas traduzindo o que as estatísticas prisionais informam: a imensa maioria dos presos não tem
acesso algum à Justiça, são em sua maioria analfabetos e, portanto, excluídos de qualquer chance
no mercado de trabalho. Deve-se apenas ter cuidado para não inverter os termos daquela
proposição, o que resultaria dizer que o pobre é criminoso. Convém ressaltar que no dia 20/10/2007,
em palestra proferida na própria UNEB, o Dr. René Silva, delegado e ex-diretor do presídio Lemos de
Brito, apresentou estatísticas prisionais que, entre outras coisas, nos permitiram tomar conhecimento
dessa questão.
3

A despeito dessa situação, os mais diversos setores sociais – midiaticamente


influenciados, é bom que se diga – desejam que os delinqüentes (aqueles que de
fato são criminalizados) sejam inseridos nesse “universo normalizador” sem sequer
se preocuparem com o quadro de superlotação carcerária. Segundo Sérgio Adorno
(1998, p.3), uma das causas para essa legitimação social é que

Desde meados da década de 1970, exacerbou-se o sentimento de


medo e insegurança, diante da expectativa, cada vez mais provável,
de qualquer cidadão, independentemente de sua condição de raça,
classe, cultura, gênero, geração, credo ou origem étnica e regional,
ser vítima de uma ofensa criminal.

Além do aumento da massa carcerária, vale ressaltar outro fenômeno: o da


“inflação” penal. A sociedade, desejosa de livrar-se rapidamente dos “indesejáveis”,
aposta em penas mais severas – e nesse âmbito está a recentemente discutida
redução da maioridade penal – como a melhor ou a única solução para o problema
da criminalidade. Sintetizando com mestria, Wacquant (1999, p.6) afirma que

[...] desenvolver o Estado penal para responder às desordens


suscitadas pela desregulamentação da economia, pela
dessocialização do trabalho assalariado e pela pauperização relativa
e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano,
aumentando os meios, a amplitude e a intensidade da intervenção do
aparelho policial e judiciário, equivale a (r)estabelecer uma
verdadeira ditadura sobre os pobres. (grifo do autor)

A grande questão é que os crimes são cometidos pelos mais variados sujeitos das
mais variadas classes sociais, mas somente os pobres são realmente punidos,
muitas vezes nem contando sequer com o direito de defesa. Atendendo ao discurso
de que a criminalidade é inerente à pobreza, “compramos a suposta segurança que
o sistema penal nos vende” (ZAFFARONI, 2001, p.27), não nos dando conta de que
o preço pago é alto demais...

2. OS DISCURSOS GERAIS: A INFERIORIDADE

Os discursos que visam legitimar pura e simplesmente a criminalização da pobreza


operam em dois níveis. No primeiro, as nações desenvolvidas atribuem às
4

subdesenvolvidas uma espécie de “inferioridade natural”, decorrente, sobretudo, de


um processo de subjugação histórica destas por parte daquelas. No segundo, os
próprios sujeitos das nações subdesenvolvidas – sujeitos, portanto, discriminados –
anuem a todos os discursos produzidos pelos países centrais, passando a praticá-
los internamente, chegando-se a ponto (em nosso caso) de considerar América
apenas a porção norte do continente. As políticas centrais recebem dessa forma a
“colaboração” das regiões periféricas (notadamente dos países latino-americanos)
para exercer seu controle social. Nesse sentido é que Eduardo Galeano (1983,
p.268) afirma que “dentro de cada país se reproduz o sistema internacional de
domínio que cada país padece”. Também enfrentando essa questão, Zaffaroni
(2001) acusa os países centrais de estarem praticando um “genocídio sem
precedentes” que se dá mediante repressões político-jurídicas e policiais que
operam dentro dos países latino-americanos, recaindo invariavelmente sobre as
massas depauperadas dessas nações.

O discurso da inferioridade latino-americana acaba nos remetendo ao discurso de


caráter racista-biologista do antropólogo criminal italiano Cesare Lombroso4, o qual
pregava que indivíduos que possuíssem certas características físicas como
determinado tamanho da mandíbula, certas dimensões do crânio ou assimetrias da
face, seriam naturalmente criminosos. Cabe dizer que as semelhanças entre as
compleições descritas na teoria lombrosiana e as dos negros e mestiços latino-
americanos não é mera coincidência. Para Lombroso as colônias serviam como uma
espécie de Grande Prisão destinada a conter a “selvageria”. Com sua teoria, pode-
se dizer que ele instituiu na Europa e suas colônias aquilo que poderíamos chamar
de apartheid criminológico natural.

Pode-se verificar que houve, em larga medida, a incorporação desse discurso por
parte dos setores sociais mais diversos dos países periféricos. Acha-se comum a
prisão de um negro, de um pobre, ou ainda de pessoas “mal afeiçoadas”. Em
contrapartida, há surpresa quando pessoas de um nível econômico mais elevado –
que às vezes cometeram crimes mais graves – são, mesmo que temporariamente,
presas.
4
Foi um professor universitário e criminologista italiano, nascido em 6 de novembro de 1835, em
Verona. Tornou-se mundialmente famoso por seus estudos e teorias no campo da caracterologia, ou
relação entre características físicas e mentais.
5

Em decorrência do discurso da inferioridade latino-americana, Zaffaroni (2001, p.27)


afirma que

[...] o sistema penal está estruturalmente montado para que a


legalidade processual não opere e, sim, para que exerça seu poder
com altíssimo grau de arbitrariedade seletiva dirigida, naturalmente,
aos setores vulneráveis. [...] Os órgãos executivos têm “espaço legal”
para exercer poder repressivo sobre qualquer habitante, mas operam
quando e contra quem decidem (grifo do autor).

Dessa forma, a miséria criminalizada segue “vendo” prisões provisórias


transformarem-se em prisões penais (agravando o quadro de superlotação) e as
elites “vêem” liberdades provisórias converterem-se em verdadeiras absolvições, o
que colabora para sua impunidade. Assim, “a criminalização da marginalidade e a
‘contenção punitiva’ das categorias deserdadas faz as vezes de política social”
(WACQUANT, 2003, p.19-20).

3. OS DISCURSOS NORTE-AMERICANOS: CRIMINALIZANDO A MISÉRIA

Indiscutível a influência político-econômica que os Estados Unidos exercem sobre


todo o globo. Essa influência, fazendo com que essa nação seja a “vitrine do
mundo”, torna seus discursos muito mais profícuos que os discursos precedentes.
Na verdade, eles são uma espécie de “aperfeiçoamento” dos discursos antigos.

De acordo com Wacquant (1999), o marco inicial se dá quando Charles Murray 5


acusa o Estado norte-americano de estar promovendo a escalada da pobreza por
causa de programas sociais relacionados ao Welfare State6 – o Estado-providência.
No seu entendimento, esses programas não teriam outra função senão a de
estimular a inatividade dos pobres. Ao fazer tal interpretação, Murray recebe o apoio

5
Politólogo e especialista em matéria de Welfare State durante o governo de Ronald Reagan (1981-
1989).
6
“Mais do que de Estado-providência, seria justo falar de Estado caritativo, na medida em que os
programas voltados para as populações vulneráveis foram desde sempre limitados, fragmentários e
isolados do resto das atividades estatais [...]. O princípio [...] não é a solidariedade, mas a compaixão
[...] (WACQUANT, 2003, p. 20)
6

de importantes setores da sociedade, desejosos de se livrar dos impostos cobrados


para a manutenção desses programas. Ele propõe então a transição do Welfare
para o Workfare State. Significa dizer que todos os beneficiados pelos programas
sociais deveriam trabalhar em empregos – na verdade eram trabalhos humílimos
com salários irrisórios – fornecidos pelo próprio governo para que o Estado não mais
arcasse com o ônus daquela assistência. A partir daí seria cada um por si. Murray,
juntamente com um psicólogo de Harvard chamado Richard Herrnstein, lança um
livro7 no qual ele afirma que a desigualdade entre os sujeitos provém da diferença
entre os quocientes intelectuais dos mesmos e que esse mesmo quociente, e não
as necessidades materiais, governa a propensão ao crime. Por meio desse
discurso, fica entendido que o Estado deveria se abster de intervir na vida social
para tentar reduzir desigualdades “fundadas na natureza”, sob pena de agravar o
tenta atenuar.

O governo norte-americano, ao abraçar os discursos de Murray, viu crescer


assustadoramente o número de crimes, como furtos e assaltos, reflexo direto da
falta de perspectiva e discriminação de que foram vítimas os antigos beneficiados
pelos programas sociais – indivíduos que não se marginalizaram, e sim foram
marginalizados, haja vista que “[...] a ‘guerra contra a pobreza’ foi substituída por
uma guerra contra os pobres, bode expiatório de todos os maiores males do país”
(WACQUANT, 2003, p.24). Coisas que não se vê na mídia.

Para dar uma resposta a esse aumento, a cidade de Nova Iorque, apoiando-se nas
idéias do criminologista James Wilson8, implanta o programa Tolerância Zero.

O discurso formal desse programa é combater a criminalidade a qualquer custo,


elevando o nível de segurança e com isso a qualidade de vida da população. Isso é
o que se divulga. A mídia latino-americana, com seus discursos ideológicos
sensacionalistas, tenta passar uma idéia de “colapso iminente” da sociedade devido
ao número crescente de todo tipo de delito para logo em seguida elogiar os Estados
7
The Bell Curve: Intelligence and Class Structure in American Life.
8
É um dos grandes nomes da criminologia conservadora norte-americana, James Wilson é o autor da
Teoria da Vidraça Quebrada (Broken Window Theory) – década de 80 –, a qual sustenta que é
somente combatendo duramente a pequena delinqüência que se faz recuar as grandes patologias
criminais.
7

Unidos por terem conseguido “reduzir” a criminalidade “eficientemente”,


apresentando construções do tipo: “Se fosse nos Estados Unidos isso não teria
acontecido”.

Mas a realidade subjacente a esses discursos é outra. A delinqüência –


violentamente perseguida – é procurada basicamente nos bairros pobres – os
guetos e antigos bairros operários – e a “clientela” é exclusivamente composta por
negros, pobres e latinos (imigrantes ilegais). Os delitos reprimidos possuem
pequeno potencial ofensivo, a exemplo de pichações e “vidraças quebradas”. Onde
se poderia tranqüilamente aplicar penas alternativas, impõe-se penas restritivas de
liberdade, o que acabou por aumentar significativamente o número de detentos 9. Há
um caso que ilustra bem a ferocidade do poder punitivo do Tolerância Zero: em
janeiro de 1999, um imigrante da Guiné de 22 anos chamado Amadou Oiallo foi
abatido na porta de sua casa, sem chance de defesa, por 41 tiros disparados por 4
policias que o confundiram com um suposto estuprador.

Como era de se esperar, os presídios estaduais não tinham estrutura para atender
tantos “clientes”, e, por mais sórdido que possa parecer, a iniciativa privada
enxergou um “grande negócio”. Isso porque, com essa nova política, o governo
preferiu amputar as somas destinadas às ajudas sociais (v. supra), à saúde e à
educação para aumentar os orçamentos destinados ao sistema carcerário,
sobretudo o privado porque o governo, assim, não teria de “tutelar” diretamente os
delinqüentes. Aprisionar a miséria em “depósitos de indesejáveis” virou um negócio
altamente rentável.

Com o tempo, percebeu-se uma elevação dos custos prisionais em razão do


aumento contínuo da população carcerária e do seu acelerado envelhecimento.
Como os lucros dessas “empresas” começaram a ser afetados (isso é inadmissível
para uma empresa) optou-se por suspender então certos “privilégios”, tais como
ensino, esporte, entretenimento e atividades de reinserção dos presos à sociedade,
conseguindo dessa forma algo que parecia impossível: inserir os presos em um
universo mais alienante que outrora, levando-nos a inferir que a pobreza é

9
Vale ressaltar que a extrema rigidez penal é amplamente apoiada pela população norte-americana.
8

duplamente punida: a primeira punição faz com que ela atravesse os portões do
cárcere e a segunda faz com que ela não possua a mínima condição de sair.

Eis a política de “inclusão social” norte-americana, que contagia toda a América -


Latina e até mesmo a Europa.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entendemos que no intuito de problematizar a questão da criminalização da


pobreza, os estudos sociológicos, como os que aqui foram apresentados,
desmitificam os discursos e as políticas de segurança que só atingem os pobres e
beneficiam as classes dirigentes.

Os países periféricos, em sua maioria, aderem à ideologia que vem dos países
centrais em prejuízo próprio, pois sofrem com essa postura uma segunda
colonização.

Após séculos de espoliação e discriminação, os países centrais têm dado


seguimento a formas de controle social dos países marginais, que vai desde
programas de esterilização até genocídio “disfarçado” sob a forma de políticas
criminais.

Suspeitamos que o intuito dessas políticas não é a diminuição da criminalidade, mas


sim a eliminação da miséria no pior sentido possível: afetar economicamente os
negros, latinos e pobres, criminalizá-los e, quando for possível, exterminá-los.

Diferentemente dos países centrais, os países marginais não têm sequer a estrutura
necessária para manter uma política criminal nos moldes daqueles discursos, mas
ainda assim o fazem.

Se a intenção das nações periféricas for, algum dia, possibilitar a seus “filhos” a
cidadania plena, rompendo com as amarras do passado, tornar-se-á imprescindível
aumentar os investimentos em educação e em políticas públicas efetivas para que a
criminalidade, antes de ser punida, seja prevenida.
9

REFERÊNCIAS

ADORNO, Sérgio. Prisões, violência e direitos humanos no Brasil. In: SEMINÁRIO


DIREITOS HUMANOS NO SÉCULO XXI, 1998, Rio de Janeiro. Artigo 40. Rio de
Janeiro: IPRI, 2007. p. 3. Disponível em: <
http://www2.mre.gov.br/ipri/sdireitoshumanos.html>. Acesso em: 20 out. 2007.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. 15. ed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1983.

WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. [S.l.:s.n.], 1999. Disponível em:


<http://www.4shared.com/file/27783539/bd82469d/Wacquant_Loc_-
_Prises_da_Misria.html?s=1>. Acesso em: 20 abr. 2007.

______. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. 2. ed. Rio
de Janeiro: Revan, 2003.

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em busca das penas perdidas: a perda de


legitimidade do sistema penal. 5.ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001.