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achiamé· SOCII l-lerberr Daniel

Leila Míccolis &HerbertDaniel


IACARÉS &
[OBISOMENS
dois ensaios sobre a homossexualidade ahomossexualidade

Se é possível o ato de alegrar-se para uma entidade, e


deve ser, pois a alegria das. pessoas que a sustentam é, no
fim e ao cabo, seu sentido, então o Socii está contente. O
Socii se alegra seriamente ao participar da presente edição
de JaclJrés & Lobisomens, de Herbert Daniel e Leila Mícco-
lis.
A alegria, aliás, é coisa muito da séria. Buscamos nos
definir como "companheiros de ciência e de afeto", porque
a ciência e o conhecimento não precisam estar contra o afe-
to. Ao contrário, o afeto e o carinho, sempre com as marcas
da diferença e da desobediência, necessitam do conhecimen-
to para conscientemente recusar a culpa, para decididamen-
te enfrentar o medo.
A luta homossexual pelo direito à sua diferença e à
sua desobediência, neste livro desenvolvida com humor, fa-
ros, estilo e coragem, necessita do conhecimento para fazer
a defesa do desejo, se colocando assim ao lado das demais
lutas pelo direito às demais diferenças e desobediências.
Um passo político muito grande é dado, nos parece,
quando da luta abstrata pela abstrata "igualdade" caminha-
mos à luta concreta pelas concretas diferenças, para que o
ser diferente não mais implique ser superior, ou, ser infe-
rior, mas implique, justamente, o ser - original, único, e
especial para si mesmo e para alguém, ou alguéns.

Gustavo Bernardo
JACARt:S & lOBISOMENS
"
Leila Míccolis
Como enfrentar a questão
do homossexualismo sem cair Herbert .Daniel
na apologia vulgar ou na con-
denação emocional? Trata-se
de um enfrentamento cultural,
com suas variantes sociais, po-
Iíticas, psicológicas etc. Os Au-
tores de Jacarés & Lobisomens
- Herbert Daniel e leila Míc-
colis - entendem que a luta
pelo prazer é uma luta pol íti-
ca. Nós também a entende-
mos: uma luta fundada no po-
lítico 24 horas por dia, sem
JACARÉS
que, com isso, estejamos fa-
zendo qualquer trocadilho de
ordem numérica.
E
E se o tivéssemos, tudo
bem! Afinal, este é um livro
sério que se permite ser alegre
LOBISOMENS
o tempo todo (queiram nos
perdoar, mas o novo trocadi- dois ensaios sobre a homossexualidade
lho, de ordem semântica, des-
pontou de forma irresistível).
A coragem intelectual e huma-
na dos Autores é modelar: as-
sim como para ser bicha no
Brasil (ou na América latina)
é preciso ser muito macho, pra
ser lésbica é preciso ser muito
mulher. t: preciso ter muito
culhão, é preciso ter muito
peito ...
Mas este é um livro sério -
entendam como quiserem en-
tender o que significa serieda-
achiamé
de para nós. Os entendidos no
assunto que se manifestem: es- Rio de Janeiro
te é um livro aberto à Diferen-
ça. A luta. Ao prazer. A neces- 1983
t
sidade da opção sexual. Ao so- ~.

nho e ao devaneio: com muito CQ\', ,~"t'<:t .. Venq~


Li, \'" RWJI{:lllSI1I" Gibis
tato, com muita dor. R,I.I<;\r-1r~§!Ijf3.nt(jfll'fl.", 175
Cenln) _ ôl1fitibtt - PR
"
JACARÉS E LOBISOMENS
dois ensaios sobre a homossexualidade

Copyright © 1983 by Herbert Daniel e Leila Míccolis

Esta obra foi editada em regime de co-edição com o socn


Pesquisadores Associados em Ciências Sociais - RJ
Direitos reservados desta edição a
Edições Achiamé Ltda.

É vedada a reprodução total ou parcial desta obra


sem a prévia autorização da Editora.

Capa
Cláudio Mesquita

Revisão
Maria Cristina Briuo

Composição
Linotipia Cordeiro

Edições Achiamé Ltda.


Rua da Lapa, 180 sobreloja
Tel.: 222-0222
20021 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

Editor
Robson Achiamé Fernandes

Coordenação Editorial
Marcos Medeiros
Moacy Cirne

Assistente Editorial
Maria Cristina Britto

"Mulher com mulher dá jacaré,


Gerente Comercial
homem com homem, lobisomem"
Jaques Jonis Netto
(dito popular)
\

SUMÁRIO

Intr6ito ou Pro-nomes Pessoais 9


Os anjos do Sexo 13
Grafias Bio-De/Gradáveís ou/ A ou/Sa 19

Crômica 29

Notas Marginais 45

Sexão da Revolução 56
Prazer Gênero de Primeira Necessidade 69
Eram as Lésbicas Marcianas? 73

Diário de Bardo 79
O Movimento Homossexual Brasileiro Organizado -
Esse Quase Desconhecido 96
Conclusão 110
Anexo 1.14
A Síndrome do Preconceito 12!

.....
Intróito ou Pro-Nomes Pessoais

Somos, Leila e Daniel, dois em intersecção nas paralelas


de nossas vidas e trabalho. Ambos somos baixinhos, teimosos,
falantes, equilibristas de palavras, vaidosos e mútuo-admira-
dores (pra quem não desconfia, é fabuloso amar o camarada
de ofício). Também somos. O que justifica nossos presentes
ensaios; como tem justificado, pela vida, pseudônimos, adjeti-
vos e epítetos que nunca chegaram a nos transmutar em ja-
caré ou lobisomem. Somos corpos e (como cada corpo) sexos
diferentes, que nos explicitamos a urgência de derrotar as ma--
neiras usuais das corporificações do conformismo.
Temos sabido, com o sentido conhecer da pele e da má-
goa, a opressão - que intuímos compartilhar com tantos que
ainda se calam. Temos buscado a disposição de abrir portais
onde ninguém sofra, nem venha a sofrer, as conseqüências da
tragédia ou holocausto de um sexo triste.
Não queremos definir, como programa, um sexo geral e
"alegre" - guei é s6 um frio despropósito. Não queremos pro-
jetos, não apresentamos propostas "partidárias". Apenas nos
dispomos, expondo-nos aqui nestes escritos, a experimentar
todas as partilhas viáveis e necessárias para as partidas para
a democracia (não há democracia cantada no coro dos cas-
trados). Afinal, basta-nos uma definição nada definitiva: de-
finitivo é só o transitório.
Indispostos com os comportamentos socialmente regi-
mentais, nunca tivemos a mínima intenção de sermos bem-

9
"
comportados: nem na cama, nem na mesa, nem no gesto, nem mento: é uma fala própria da sexualidade. E a FALA não é
na língua, nem no olho; enfim, em nenhum dos lugares ou o feminino do FALO, símbolo monotonamente de um s6 gê-
órgãos sexuais convencionais edificados e edificantes. Estes nero, portanto solitário e totalitário. A fala é democrática -
nossos textos são retratos daquela indisposição e de usos e múltipla e conflitiva - portanto solidária e libertária.
abusos, espécie de convite a vir-a-ser. Ambos os textos têm' mais do que uma divisão, mais ou
Falamos de um sexo novo - ou melhor, de 'novos sexos' menos folclórica, da "questão" homossexual. Não se trata
- sem estatutos. Novos porque é a sexualidade renovada co- apenas de deixar falar uma bicha e uma lésbica para compa-
tidianamente de cada um. O plural se explica pela diversi- rar as acrobacias das espécies e, ao fim do' número, atirar
dade não só de atitudes, gostos, escolhas, mas principalmente amendoins compensatórios. Interessamo-nos, esforçamo-nos,
de histórias. Cada um de nós é a sua história, nesta praça de divertimo-nos produzindo um discurso distante do academicis-
desejos cruzados que é o corpo que nós construímos e que mo. S6 caga regra quem se entulha com manuais indigestos,
temos que aprender com a intencionalidade do poeta que forja quem come com gula e sem prazer. Procuramos apenas VER.
um verso surpreendente. O plural é a pessoalidade que nos "Ver, meu bem, é coisa de se aproximar, seXionando" - é
iguala na diferenciação absoluta. Sendo todas· pessoas, nossa um verso que um de nós escreveu há anos. Ver - não só
gramática de libertação impõe que sempre falemos de nós a opressão, mas as invenções dos oprimidos. Ver - não só a
mesmas - machos e fêmeas - no feminino plural. Desres- defesa dos direitos, mas as razões do direito do oprimido ao
peitamos urna regra sintática que impõe o masculino no cole- ataque. A partir de ver, não concluímos nenhum prever ou
tivo misto, porque desrespeitamos a dominação de um sexo prover preceitos. Racionalizar o desejo, irracional por exce-
perdido, de uma humanidade ferozmente macha. lência, não é s6 incoerência: é fascismo. Fugimos aqui de toda
Falamos de nós mesmas nos nossos dois ensaios. De. .tentação de criar um novo catecismo sexual que venha a subs-
nossa vida, imaginação, práticas, sonhos, teorias e outras di- tituir o calendário da genitalidade canônica.
mensões. Falamos dos nossos próprios sexos. "Nossos"? Pro- Garimpamos, nos veios deste desterrado de "jacarés e lo-
nome possessivo que não indica nem posse, nem propriedade. bisomens", atrás da preciosidade da sinceridade. Oh, não se
Nosso pronome é próprio e substantivo - designação que re- exige coragem para expor a(s) própria(s) homossexualida-
pudia adjetivos que classificam práticas do corpo de cada de (s)! :e preciso s6 um pouco de paciência e ironia (espera-
qual: meu-teu-seu - o que pode ser lido assim: mete-o-seu, mos ter tido). Escrevemos sobre nossa vida e opções sexuais,
como palavra-des-ordem apelando ao exercício da atividade e escola e escolhas, com o mesmo orgulho que nos leva a contar
do ativismo erótico. A passividade, atribuída às vítimas, é o encantos que nos dão prazer (escrever ou trepar, por exem-
arquétipo que estigmatiza o oprimido. Não há passividade se- pios). Coragem é preciso ter para escapar da facilidade da jus-
xual; há os que exigem "passivas" para engrossarem a voz ne- tificação e do apelo humilhante à uma vaga "compreensão"
gativa da possessividade. ou· piedade. Ninguém precisa pedir desculpa pela própria se-
A multiplicidade de sexos, que escrevendo aqui procu- xualidade; precisa fundamentalmente livrar-se de uma culpa-
ramos desvendar, serve para derrubar fábulas de um bipartida- bilidade imobilizadora. Coragem mesmo é preciso para amar a
rismo sexual que confunde sexualidade e genitalidade. Os se- vida com todo o seu cortejo de disparidades ..
xos são os que ternos: pessoal e intransferivelmente. Nossa esperança é contribuir, com umas poucas idéias
Jacarés e Lobisomens é um trabalho a dois sobre o tema aqui jogadas, para que, quando o mundo disser "não pode", a
das homossexualidades. Não é um "estudo", nem um depoi- gente aprenda a responder "eu quero".

10 11
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para Liszt, que "não é",
mas que teve:
a dignidade de uispersar nas ruas do Rio
alguns anjos -
dos nexos.
,

Invocação ao leitor, ou
cantada inicial:

Você sabe o que é ter um amor/


meu senhor? .. /
E por ele quase morrer?
(Lupicínio Rodrigues)
..•.

-,

1. Onde o autor revela seu caminho e descamioho no terre-


no baldio em questão:

GRAFIAS BIO - DE/GRADÁVEIS


ou/A
ou/SA
Volto ao jardiml
na certeza que devo chorar/L, .. )
Devias vir/
para ver os meus olhos tristonhos/
e quem sabe sonhavas meus sonhos/
por fim ... 1

(Cartola)

Era carnaval e 1982, o que não é contraditório, O car-


naval já ocorrera em anos outros mais tenebrosos ou insegu-
ros, sem por isto deixar de ser festejo, exaltação, desafogo e
tantos mais lugares-comuns para este vale-tudo da carne.
Voltando de um exílio de sete anos (pelo menos) , vim
constatar a festa carioca: despenquei na Cinelândia. Ver e
~ crer, visitar. Visitar apenas: não tenho talento para folião
(condição que não me imuniza da curiosidade, nem de um
leve ressentimento de não poder farrear assim com hora mar-
cada). Sou dos que observam, torto e fora do calendário; não
sirvo para Natal, reino de Morno, sete de setembro, ou ban-
deiras e bandeirolas. Admiro e me afasto. Mas já passei da
fase das justificativas acusat6rias do fenômeno: comércio, hi-
pocrisia, etc. Reconheço hoje o que é minha pura incapacidade
sentimental de me perder na ingenuidade das datas. Cada um
tem o corpo que tem, com seu séquito de disparidades. Assim,
fantasiado de cotidiano, fui ver os que se vestiam com as ade-

19
quações do dia. Disfarces catárticos? Não: pulsões concretiza- Uma senhora, acompanhada do filhinho de dez anos,
das em pano, brilhos e confeitas, realidade momentânea duma curtindo a cena, provocou:
permissividade rara, só válida por poucos dias. - Você tá linda. Mas precisa se depilar.
Grande sucesso fazia na Avenida Rio Branco a corpu- Marilyn além de grande, o que um redator apressado
lenta Marilyn, formidável travesti, vestido elegantemente com chamaria de "pessoa de compleição robusta", tinha grossos
um resplandescente rabo-de-peixe verde carregado de vidrilhos pêlos nas costas, nos braços, nas axilas.
e pingentes. Ser de fábula, não era uma mera pretensão de - Depilar já era, queridoca. Libere-se dos preconceitos,
fantasiar-se de mulher e tentar reproduzir a imagem simboliza- aconselhou o travesti, caricatura não só delas, mas daquelas
da. Era uma caricatura dúbia da fêmea. liberadas.
Marilyn não era a única bicha na avenida: de jeito ne- - Debaixo do braço fica feio, argumentou a senhora.
nhum; seria uma das mais engraçadas e COm seu número atraía - Ah, é que eu sou européia! Já não usam mais tirar
um grupo importante que a seguia, provocando. E a cada os pêlos. Tá na época de transar os pêlos, minha filha. Curtir
deixa do público, el&1 retrucava sem levar troco. Um grande o próprio corpinho.
ator certamente, afiado na improvisação, Com alguns recursos - Fica feio, revidou a plácida dona-de-casa, ciente e in-
cênicos formidáveis. consciente dos hábitos das pequenas mutilações a serviço dos
- Ei, Maria, gritou um senhor munido de máquina fo- machos.
tográfica. - Feio nada! Fica é safado, analisou Marilyn. Essas eu-
-' Maria, não, cavalheiro: Ma-ri-Iyn! (silabava: rné-ri- ropéias, meu bem, são todas umas porcas espertalhonas. São
line.) cheias de mumunha. Na, hora da coisa levantam os braços.
- Vira..pra cá, preu tirar uma foto. Assim, ó! Endoidam a rapaziada.
- Pra capa de Manchete? Eu sabia que ainda seria reve- Gritou e levantou os braços, mostrando a pornocabeleira
lação de beleza-82. Peraí, deixa eu retocar a maquiagem ... do sovaco:
Estou bem? - B um tesão, né, garotão?
Para acertar a cai ação do rosto, Marilyn mirava-se no O rapaz interpelado riu e agarrou-se na cintura da bicha:
anel exagerado que trazia no anular, um enorme pedaço de - Vão dançar, vão ...
espelho. Fazia caras e bocas para a improvisada penteadeira - Viu? Já pintou tarado. Não disse? Faça como eu, su-
de mão. geriu à mãe depilada. Esses homens querem mesmo é sem-
vergonhice. Aproveite, filhotã.
- Tira uma foto dela com as crianças, aconselhou a
mulher do fotógrafo. O espetáculo continuava. Aquela não era a única bicha
na Avenida, mas das mais talentosas.
Marilyn posou com os dois menininhos fantasiados de
pirata. - Ator de um personagem só, comentou Cláudio, que
me acompanhava.
- Aii, deu um berro histérico, ai, ai, ui!
- O texto é bom, a mise-en-scêne perfeita. Mas o que
- ??
deu trabalho para preparar a peça, hein? Imagino o que ele
- B o flashe, minha filha. Sempre me assusta. Sou
muito sensível e tímida. não teve de fazer, como l-aboratório e como ensaio, a vida in-
teira, para chegar a isso, comentei.
el&: grafia variável de ele/ela ou ele-a, para uma biografia Muitas e outras bichices passeavam ali, inclusive Cláudio,
variante e/ou. Paulo e eu, bem serinhos, vestídinhos de despistados. Eu, o

20 21
se coragem de falar àquela senhora que raspava os pentelhos
mais enrustido de todos, de macacão - embora um macacão
meio avançadinho, de pano azul brilhante. Paulo (meu namo- axilares:
_ Minha senhora, se Marilyn fosse seu filho, como é que
rado), com seu corpo de ginasta macho, estava mais ou me-
nos lembrando um capoeirista, com peito nu e calça branca de a senhora reagiria?
Pergunto para os pais que me lêem, o que vale a mesma
cetim. Cláudio (meu companheiro-cônjuge), mais bandeira,
coisa. Para meus pais, não perguntei nada, mas respondi com
de calção branco, semi-transparente. Como eu, ele não via o
algumas dúvidas que os entristeceram, sem que as minhas res-
..•
carnaval há muitos anos, e emputeceu:
postas aliviassem ou tranqüilizassem. Não se amputa o sonho
_, Amanhã não venho assim. Tô vestido como uma bi-
de um de reproduzir no descendente a imagem linda que se
cha enrustida: o pior tipo. Amanhã desbundo, pô. Venho na
fez para si, e não foi, mas projetou como hipótese no herdeiro.
minha. Nada disso de querer disfarçar na fantasia.
Soube de pais que dizem:
Cláudio não gosta de travestir-se, mas usa suas roupas
_ Se meu filho fosse bicha, eu matava.
como estandartes. No seu corpo, tradicionalmente, pendurou Não precisa, meu senhor. Digo-vos, em verdade, que isso
decorações "quais bandeiras agitadas", como na canção, fa- que chamais ser bicha é uma morte provisória, um ensina-
zendo seu "estranho festival". Seu estilo é vestir-se de doura- mento do inútil, uma transição para o estéril. Complicado?
do no palco das perdidas ilusões. Para se mostrar belo, como
Não. Só quero dizer: ninguém é bicha, meu senhor, aprende a
de fato é. E ser desejado, o que para ele é fácil. E tão mais
ser. E pode aprender de muitas formas, tanto quanto o senhor
fácil quanto necessário. Quanto mais bonito é um, mais exibe aprendeu a ser provável carrasco-de-viado. Ninguém nasce as-
e impõe a suprema precisão de fazer que todos reconheçam o sim. Isso tudo, vítima ou carrasco, é papel aprendido, que não
seu próprio desejo. Cláudio, desde que o conheci há 11 anos, vem de geração: se assim NÃO se nasce, assim se pode morrer.
sempre foi uma das pessoas mais conscientes dos signos do Outro tema: que não haja mortos ou feridos, mas a vida
vestuário. Seu discurso de hábitos e costumes sempre foi um sem guilhotinas, sem amputações educacionais; nem mesmo
manifesto e mais do que uma proposta: uma prática do pró-
giletes depiladoras. Certamente não falarei dos pêlos, pouco
prio erótico. Às vezes, invejo. Mas para mim o caso é outro. me preocuparei com a raspagem. Quero insistir na navalha,
Feinho, tenho que elaborar outra linguagem, que já sei cisel de tantas estatuárias que nos pesam com formidáveis ale-
que enfeites não são modos de expressão uniformes. A cada gorias de carros carnavalescos que empurramos achando que
um segundo suas necessidades, para cada um segundo suas
estamos sambando.
capacitações físicas. Corpos e corpo. O meu é este. Como vai? Pois então, Marilyn decorou - deve ter sido barra - o
Mal, obrigado. Com isto me arranjo e desarranjo. Aprendo seu papel. Outros homossexuais também, que os há de múl-
e desaprendo. Evoluo nas avenidas possíveis, provocando meus tiplas variedades. Falar de bicha ~ como falar do bicho, mera
ritmos. generalização, que inclui o invisível protozoário, o veado, o
No carne-vale-hoje do tríduo de muitos dias do espetá- viado e mais humanos.
~
culo pagão, começo falando do corpo de carne, suas lingua- Mais perguntas faria na Avenida, aos mil variantes:
gens, e do aprendizado dessa pele, osso, fantasias e canais. Pri- _ Você, rapaz, que disse, como escutei bem, que aquele
meiro tema. eu da bicha semi-nua era um dos mais quentes da cidade, que
No passeio público, na descontração de aceitar tudo como homossexual você é? E por quê? E por que aquele nojo atra-
gozo, me deu uma -vontade de falar com aquela gente que vessado de ver naquele corpo, tão bonito, apenas um buraco
aplaudia rindo o espetáculo de Marilyn. Digamos que eu tives- escatológico, um eu com merda, e não um poço de pessoa

23
22
onde teu gozo podia ter oásis para os teus anais de medos homossexual. Aí teve gente que me disse: "você foi corajoso
oblíquos? de contar aquilo tudo". Coragem? Não vejo nenhuma. Talvez
O carnaval é uma anistia parcial e utilitária - como a lucidez e alívio. Mas nesta nossa terra pra se ser bicha é pre-
da ditadura, em 79: dá direito a liberações restritas, a diver- ciso tener cojones. ~ preciso ser macho pra caralho, para não
sões genéricas. Liberação com limites: libertar-se do quê? E ser machista!
o quê? Apenas o riso? Claro, uma forma do gozo. E a dor? Uma amiga me escreveu, de Minas. Contava. que amara
Outro gozo? Onde esta se libera senão na intimidade que não o meu livro, mas que, em geral, "os homens não gosta'ram da
tem limite de hora? parte em que se falava da homossexualidade". Reli a frase.
Bicha é coisa menos grave até a terça-feira gorda. Normalmente tenho dificuldades com o vocabulário que me
s, eu não fui anistiado, não. Meu exílio terminou por coloca fora da explicitação sexual. Mas é corrente dividir o
prescrição das minhas penas. Quer dizer, um dos exílios polí- mundo em homens, mulheres e homossexuais -. Ser não sendo?
ticos. Bicha, porém, ainda não teve anistia. Problemas políti- Eu? Mulher, nem mesmo imitação, sou ou posso parecer ser
cos. Pra quando a irrestrição? (me falta substância). Com-poiairto-me masculino, perfeita e
Duvido do samba de arquibancada, da coreografia de infelizmente.
luxo, dos direitos concedidos. Continuo minhas questões: Minha querida Sheila me avisa, reclamando: "não se
Direito à homossexualidade? E o que são tais direitos? O meta a compreender as mulheres. Você não é." Mas não quero
que afinal é isto: homossexualidade? ~ explicável? E como? "compreender", não. Quero compartilhar, por puro amor e por
Além dos dias de festa, no deslocamento da segregação, carência. Como homem, preciso delas, para aprender e desa-
encontramos os atores de um só papel, o seu: os tantos vários prender o sexo do opressor: mesmo o da fêmea opressora.
homens-sexuais e as tantas variantes sexuais hetero-gêneras. E (A Leila, neste mesmo livro que dividimos, rima meu nome
esse papel, como foi aprendido, decorado e condecorado? Será duma maneira com que eu gostaria de solucionar a vida. Leila,
intuído ou instilado? meu tesão, quem me dera um dia merecer seus versos lindos.)
E é o quê, a repressão? Ela se dirige contra quem? Con- O mais divertido é que muita gente disse que eu "con-
tra a imagem do des-viado? Mas quem é "homossexual"? fessava" minha homossexualidade (ou meu pecado?). Aconte-
Contra "minorias"? Que aritmética determina tais percenta- ce que consegui passar seis anos fugindo da polícia e nunca
gens de massacrados? Que absurda contabilidade inventou as fui preso, nem torturado, para ser obrigado a confessar. Nem
partições entre majoritários e outros diminuídos? T mesmo depor. Não seria agora que. .. Enfim, o que procuro?
Neste ensaio, tentativa e erros, tentarei algumas respos- Diálogo (palavra que na tradução, com graça grega, seria a
tas. Segundo minhas vivências.. naturalmente. Aqui trabalharei dialética). •
como numa espécie de não-depoimento. Anos a fio, carregando a pecha de terrível "terrorista",
Posso tentar clareza, quando a tiver, mas sem claridade, um pânico me assombrou: que "descobrissem" que eu ERA!
que por aqui, no tereno baldio da perversão, academia de pe- Vivi um quase pesadelo, pensando que os jornais, que certa
numbras, as luzes' são névoas. vez me classificaram de "braço direito de Lamarca", poderiam
estampar esta manchete assustadora: "Guerrilheiro Bicha".
* * * Ou: "O terrorista era um tremendo invertido"... Na época
Logo que retornei ao Brasil publiquei um livro onde falo a gente imaginava que essas coisas eram ofensivas e "taras
dos meus anos de clandestinidade até 1974 (meu exílio brasi- sexuais" eram reservas (i)morais da Pátria da direita. A -es-
leiro), da vivência no asilo europeu e do desterro geral do querda éramos abstratos, voláteis, imunes: o corpo-militante

24 25
I,
era o corpo de um anjo exterminador de sexo exterminado. rica seja ela. ~ preciso exercitar-se muito, para tornar a vivên-
Não é por outra razão que eu - e todos! - silenciava. Bicha cia uma escritura vital, aprender duramente a modelar as ob-
admissível, só a caladinha. servações numa visão pelo menos original. Todos vêem, mas
Hoje, pelo avesso, uns e outros equivocados usam o lin- rever revi vendo o objeto é função do ofício do escritor. ~
guajar da extorsão da intimidade: querem que o homossexual uma bobagem, que se tornou mania demagógica, pensar que
"confesse" ou "deponha". O que querem esses hetero-inves- todo "depoimento" é válido por transmitir veracidade (ou in-
tigadores (heinterogadores)? clusive verossimilhanças). Na maior parte das vezes o teste-
Procuro atualmente expor(me), em primeira pessoa, mas munho transfere tão-so-mente uma similitude verdadeira, sim-
excêntrica. Não esse sujeito indiviso e central do discurso, uma ples consciência atual do que ficou desse resto, rest-olho,
satisfeita consciência teórica, mas um dúbio autor que deixa visão de um particípio (onde pretensamente se participou).
escapar as manifestações do seu desejo, tentando ordenar suas Depor não exige apenas a boa-vontade desse vago eu-conscien-
duplicidades excêntricas. Falo de eu, como quem inventa com te, mito fundador da individualidade e duma insinuante filoso-
intencionalidade, para poder sustentar o diálogo com outras in- fia do totalitarismo (com seu culto e personalidade). Depor
tencionalidades (as de vocês). Se organizo minhas idéias, no exige o artesanato de organizar nas brechas do discurso cons-
decorrer do meu desejo, nem por isto quero lhes transmitir ciente as expressões incoerentes do inconsciente, instância mó-
uma espécie de auto-análise, pois não estou num dívã-livro, vel onde o passado não o é, mas uma ré-escritura sempre pre-
duma psicanálise mal entendida. Minha postura não é a do sente pontuando o passado, dando constante significação ao
dizer psicanalista, orelha do falar alheio, nem a das livres- que terá sido. Perfeito, o passado nunca o é, senão per-feito,
associações estruturantes do analisando, boca-do-céu nublado perfazendo-se a cada instante. Nada aconteceu; terá acontecido
do desejo que terá sido.? segundo os parâmetros dados pelo presentemente.
Se me permito coser idéias sobre a sexualidade, não é que Viver são revivências.
creia que uma experiência que tive - em política e em sexua- r Aqui não faço um estudo"especializado", nem de "espe-
lidade, como guerrilheiro e bicha - me dê títulos e direitos, cialista" (não sou nenhum técnico em viadologia, bichótica ou
mas porque esta experiência me impõe agora a busca do pra- pederastografia). A ciência "especialista" da sexualidade é ex-
zer de escrever esclarecendo, opção e vocação que me escolhi. ;. clusivamente uma estruturação do mito moderno do Corpo:
Não me meteria jamais a falar de uma igualdade generalizan- toda cátedra despeja do seu alto uma tecnologia de constitui-
te de seres qualificados com seus seccionados gostos, perversos ção corporal que só serve para nos vestir com preconceitos,
ou pervertidos. Muito menos impingiria (puro engano ideolõ- altos conceitos do que deveríamos ser. Muito menos do que
'gico do egocentrismo) minha confissão, como se fosse válida proibir excessos do Corpo, a Ciência força um molejo, um
por sê-Ia: confessional e sincera, "verdade" apenas por carre- jogo, uma linguagem padrão, com' afirmações e as necessárias
gar-se da ilusão da honestidade. Nem todos podem ou sabem e decorrentes negações. A Ciência não mente, nem distorce:
falar compreensivelmente da sua própria experiência, por mais simplesmente é o poder de construir ° objeto do seu estudo.
Todo saber é um dos modos do fazer.
2 Há um caminho de versos que começa em boca-do-céu, varia
em boca de setas (ferindo), bocado setas, boca-seta, bo-seta, buceta,
linda palavra que é a trilha da nossa inicial viagem, céu (da boca que •• •
seremos). A buceta é muito, mais elogio do que uma coisa do caralho.
É a parte mais feliz e delicada de um medo do abismo vertical donde Entre as muitas opções que fiz na vida, situo a minha
emergimos. qualificação de bicha, gosto que tenho e curto, jeito que, fui

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desenvolvendo. Opção? Não se creia que trato de uma escolha 2. Onde uma piada revela a multiplicidade do sexual:
entre gostos ou saídas. Opção envolve necessidade, vontade e
desejo.
Diz velho refrão: gosto não se discute. Claro que não! CRôMICA
Gosto se INCUTE, assim como o sabor da pimenta brava ou
As coisas estão no mundo/
da carne podre ("faisandée", para ficar na elegância do menu só que eu preciso aprender ... /
civilizado). Agora: gosto imposto não é deposto. Fica e forma.
Para que não permaneça como pura imposição é preciso tra- (Paulinho da Viola)
balhá-lo para fins adequados à coexistência, para que todo
gosto por qualquer gosto seja gostar do gosto alheio, amar o Ouern me dera poder aprender a desenhar tão significati-
amargo sem dissabores, liberar o paladar de todos para todas vamente, com cores tão primárias, quanto as criancinhas. Con-
as frutas do real. tinuo preto e branco, como minhas roupas sem elegância. Al-
E no entanto o primeiro passo da sensibilidade, que. guém diria que escolho cores mortas, que visto ilustrações en-
aprendemos nas escolas, é discutir o gesto alheio, limitá-lo. rustidas, porque ainda não assumi o que sou. Mas cromatis-
Somos forçados a admitir a igualdade de diferenciações, nunca mos e vestes são formas de muitas pulsões, e o sexo é uma pai-
a reconhecer a diferenciação em sua totalidade. Ensinadinhos, sagem de forças cegas e-videntes. Os hábitos que cobrem meu
viciadinhos, aprendemos a diferenciar, de tal forma que mui- jeito são jeitos dos hábitos que adquiri e não mais perderei.
••
tos "diferentes" fazem entre si uma uniformidade cercada, Ou perderei, se isto pintar. Não desbundo em panos e pendões
bem murada. O mundo se divide em diferentes que - pura de bandeirinhas. Lábaro que ostento, e as estrelas de uma
ironia - são iguais entre si. Divida para vencer, é a guerra noite, meu sexo sem sol (multicor), mas divertido.
que ensina. Raças, tipos, classes, espécies, ramos, cada qual Escrevo em bancos públicos, vendo passar o mundo e
faz parte de um buraco de diferentes-similares, vive nas nebli- seus modos. Escrevo crômicas, naturalmente. Crômica, a ser
nas da ignorância da sua total e absoluta desigualdade indivi- registrado em dicionário, tem .anedota e colorido: Piada.
dual. Assim se constituem "minorias", "guetos", "submun- Piada já fui - oe sou. De "bicha", essa afronta ao mito
dos", "subculturas". E cada um desses abismos é uma escola- fundamental que acalentamos, mito que reza que o humano
de-sombra, uma escolha da sombra, onde se apagam os con- se reparte em dois sexos biológicos, lógicos e inequívocos.
tornos, onde se - exclui a plena possibilidade de desempenhar 1, O humor, como a poesia, são poderosas formas de "apre-
suas capacidades próprias, de tomar consciência das pessoais ensão do real", e que, entretanto, ~ão pouco consideradas en-
necessidades. Sem potencialidades, sem vontade, os povoado- quanto valor de método, na nossa civilização adoradora do
res de cada sombra servem de produtores para a única neces- totem exclusivista - e totalitário - da (cons) ciência. Para
sidade que dá lucro, e uniformiza na claridão da cegueira: a evitar as armadilhas da análise que parte sempre da dualidade
fome e a liberdade de ter fome. Aquela fome que nenhum • do sexo, contarei uma piadinha manjada:
alimento sacia, pois é a antropofagia da violentação do poder. Debaixo da Ponte, uma Bicha se fazia enrabar por seu
Fome política e politizada. Uma fome-noite onde todos Macho. Passando naqueles ermos, um Respeitável Cidadão,
os gostos são pardos, desgostos. Fome vinda da indiferença: honesto e labutado r, escandaliza-se com a cena pública de bai-
a fome da Morte - pura indiferença. xos instintos. Invectiva, com fortes palavras, a Bicha e seu

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Comedor, em termos formais e censuradores. Como única rea- lências das exóticas terras brasílicas) diz-se bicha, louca ou
ção a Bicha, tranqüilamente, diz ao seu Metedor: viado .. para os machos; e sapatão, [anchona ou lésbica, para
- Tira, Jorge. (A pronúncia da Bicha, para ser real- as fêmeas. Ninguém tem dúvida, empregando esses ou outros
mente engraçada, deve ser afetada, palatizando muito, chian- sinônimos do farto vocabulário do sexual, da exatidão do que
do ferinamente. Ela diz: "thira, Chorxe".) nomeia. Ao nomeado, porém, as certezas não chegam tão ra-
Jorge tira e a Bicha ataca de maiêutica socrática: pidamente. Quem t3.? t3. é o quê? E como é ser? (Para o desig-
- Escuta, Cidadão: esta ponte é sua? nado a aprendizagem será longa.)
O Cidadão Respeitável, surpreso, reage prontamente. Diz Os termos registrados em dicionários, chulos, eufêmicos
"não" e acrescenta um moralista discurso sobre o decoro pú- ou científicos, qualificam, com extrema simpiicidade sempre,
blico, os bons costumes, a Ordem e a Lei. A Bicha retoma, às vezes com alto valor cromático, um aspecto da sexualida-
impávido colosso: de, isto é, das "relações sexuais". Mas a complicação começa
- Escuta, Cidadão: este pau é seu? quando se tenta explicar o que são as relações entre os sexos.
- Claro que não, esbraveja o Respeitável Cidadão, le- Pra começo de papo: quantos e quais são os sexos que entram
vando pudico e trêmulo as mãos sobre o púbis ligeiramente em "relação"?
posto em dúvida, acrescentando uma catilinária sobre a Pro- A linguagem corrente, ou seja, a ideologia corrente, parte
priedade, a Moral, A Família, a Pátria e outras potestades. do princípio de uma dualidade fundamental, dois "sexos" pri-
O que não altera a Bicha, que avança: mitivos que travam feroz combate na arena do social. "Macho
- Escuta, Cidadão: este eu é seu? e fêmea os criou", diz o antigo livro, firmando uma rigorosa
- Não, grita apoplético o Respeitável Cidadão, colocan- polarização que,· logo, logo, se complica. As fronteiras dessa
do as mãos nas costas, protegendo o seu, e grunhindo ape- duplicidade básica não são precisas e o que acontece nessa
nas, falto agora de outros argumentos. terra-de-ninguém intersexual é o tema geral da maioria das
- Então bota, Chorxe. conversações familiares. :a a evidência mais simples que Ho-
. E continuam a trepada. mem e Mulher são papéis sociais que se aprendem, às vezes
Nessa pequena cena mitológica já não encontramos com a com alguma dificuldade. Ser homem ou mulher não é apenas
sexualidade encarada sob sua forma dupla, senão como recur- ter um sexo, mas adquirir as confusas ornamentações distinti-
so último - que produz a -disparidade excessiva da cena, fa- vas de cada sexo. A questão ficaria reduzida a uma tarefa prá-
zendo daí nascer um ex-sexo, traduzido em forma de impulso tica: como se produz um homem ou uma mulher? O que de-
ao riso. Aqui temos quatro aspectos fundamentais do proble- termina essa produção? A resposta mais simples, e que funda
ma: 1) a Bicha; 2) Chorxe; 3) O Respeitável Cidadão; 4) A todas as confusões posteriores, diz que há uma diferenciação
Ponte. mínima da espécie, garantia mesma da procriação. Fundamos
Serão, como veremos, os aspectos da "relação sexual" - assim, como ponto de partida para toda nomenclatura, a exis-
não apenas dual, mas facetada em múltiplas questões. Consi- tência de um "corpo", conceito muito fundamental para ser
deremos cada uma dessas arestas da nossa pequena fábula. discutido em sua realidade. O axioma (corpo) facilita a estru-
turação de todas as explicações matemáticas do sexual, a pro-
+ A BICHA dução dos teoremas com que. organizamos nossa ciência da
sexualidade.
Para usar uma língua "fácil e chão" (como a queriam os Mas a explicação 'encontra uma barreira imediata. Ao
cronistas quinhentistas, descrevendo com agucidade as opu- reduzirmos a questão ao animal biológico que se procria, des-

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mentimos a informação mais imediata que nos fornece nosso
de um ente, mas de uma entidade nacional, autônoma, pública
cotidiano: o homem é um animal, sim, mas o conhecido "zoon
e notória.
politikoon" (animal social), como bem o definiu Aristóteles. O
A Bicha é, no fundo, uma Imitação. Uma Imitação da
corpo humano não é mero objeto de uma zoologia; o seu de-
Fêmea. A definição da "bicha" parte duma localização preci-
senvolvimento não se passa mais segundo as leis de uma "His-
sa do indivíduo no "ato sexual", considerado como "relação
tória Natural". A natureza do humano é já a sua História.
entre dois sexos". Ora, como se trata de um indivíduo mascu-
Social.
lino que executa um papel feminino, o deslocamento da fun-
Qualquer "teoria" da sexualidade que parta da existência ção é a origem do riso. 1:, muito gozado um homem que ocu-
de uma bipartição entre sexos, que estabelecem entre si "re- pa um lugar da mulher. O caso inverso é menos engraçado, o
lações", comete um engano primário: a admissão dessa polari- que faz do lesbianismo menos rico em piadas. Por quê? Por-
dade, exclusivamente biológica; uma "lógica biológica", ou que quando uma mulher imita um homem, ocupa o seu lugar,
seja, uma fantástica e suposta "natureza" determinando a rea- isto é, quando possa ser insinuada a ausência do macho, a
lidade do social. A hipótese de 'uma repartição mínima do hu- coisa torna-se muito mais grave e cheia de ameaças. Menos
mano entre dois eixos não nos leva senão a becos sem saída. engraçada, a rnulher-macha é um disparate coberto de peri-
Isso evidencia-se, por exemplo, quando as "perversões" de- gos. E não faz rir. Daí que o lesbianismo é muito mais utili-
vem ser analisadas. . zado como recurso erótico (para os machos), manipulando
"O termo genérico 'perversões' serve para designar o con- com certas fantasias primitivas.
junto de manifestações sexuais que não servem à função de .A Bicha, no seu estereótipo, como Imitação Acabada da
reprodução", ensina uma definição de J. M. Palmier, em Sur fêmea, vai deslizar para ocupar urna. ausência nítida na piada:
Marcuse. (Palmier fala de reprodução para designar o que a ausência (recusa) da Mulher. Evidentemente o Respeitável
prefiro denominar _"procriação"). A definição de "perversão" Cidadão não tem sexo. Tanto poderia ser Macho como Fêmea
é sempre apresentada assim, rápida e rasteira. O dicionário é (a estória poderia ser contada com uma beata, que acabasse
taxativo: "qualquer anomalia do comportamento sexual" (Au- de sair da missa). Como veremos, a característica do Respei-
rélio). Naturalmente, sendo qualquer "comportamento se- tável Cidadão é a sua "indiferenciação". Mas, beata ou buro-
xual" humano uma normal anomalia, enfiamos, dentro da ge- crata, tanto faz. A ausência continua.
neralidade "perversão", toda sexualidade que não seja estrita- Dessa forma nossa história nos fornece uma classificação
mente genital, heterossexual, monogâmica e procriativa. definitiva da Bicha, muito mais precisa do que toda termino-
Qualquer ser humano que pisou ou, se a sorte deixar, pi- logia aparentemente científica (como, por exemplo, "homosse-
sará este vale de lágrimas é exímio praticante de uma qual- xual"), que usa sempre os recursos dos limites entre dois se-
quer perversão. O sexo normativo é meramente o texto da lei.
Na prática, o papai-mamãe-no-escuro é mero disfarce neuróti-
co, exercício de angustiados. A humanidade vira, segundo os
parâmetros da sexualidade dual, um esmagado sanduíche de
carne entre a perversão e a angústia.
A Bicha, ou o Viado (a não se confundir jamais com
! xos. falando de sexos iguais e diferentes .. , A Bicha é, então,
Ausência da Fêmea, presença da ausência. Inversamente, tam-
bém (como presença de um macho imitando a Ausente), a
ausência da presença do Macho. Não se "localizando" no sexo
- tal como é convencionalmente definido - a bicha é um fe-
nômeno (risível): sua presença indica apenas o Prazer como
"veado", mera espécie em vias de extinção), torna-se, segundo função do ato sexual (reparem: digo função e não objetivo).
nossa piada, um substantivo. Não se trata da qualidade sexual Puro Gozo - a partir da ausência do sexual conformado e
ordenado -, a Bicha é portanto o rigor extremo da Perversão.
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+
A Bicha, sem nome na piada, chamar-se-ia, por exemplo, concebida como passividade pura, de tal forma que passa sem-
Marilyn Aparecida, nome de guerra. De guerra sim, com suas pre por "receptiva", raramente por "doadora", nunca como
batalhas perdidas. Mas o nome de origem, de antes, poderia OpçÃO voluntária. Assim o lesbianismo é uma espécie de
ser, por exemplo, João José Pedro de Oliveira e Silva e Cruz substituição, não de imitação: é uma perversão onde o objeto
e Souza e ... ausente - no caso, u macho - é substituído sem ser real-
Entre um nome e outro há toda uma História, ou um ro- mente imitado. Seu lugar vago não é vazio. De uma forma ge-
teiro, que parte de um· corpo (masculino, no caso) predeter- ral a sexualidade feminina, quando se torna _ativa, na busca
minado e chega a um sexo ensinado, que passa a ser admitido exata do gozo - qualquer que seja ele -, é entendida -
expressamente como opção no novo nome de Bicha. Se aqui pela ideologia dominante - como nova perversão. A mulher,
o nome é a associação de um dos mitos de Corpo favoritos do no estereótipo fundamental, não goza, nem deve gozar. Só
século (La Monroe) e uma designação da Santa Padroeira, goza quando se torna um tipo qualquer de perversão: a prosti-
tudo é só para mostrar certas regras do ensino e formação: a tuta, a piranha, a de "furor uterino", a lésbica, ou - mutatis
ação constituidora da moralidade da época enquanto poder de mutandis - a Bicha.
organização da sexualidade individual (ou Poder, apenas). b. A Bicha é um aprendizado de um novo Nome. Não
Até aqui, então, acentuamos algumas características da apenas um adjetivo ao nome original, mas um substantivo
Bicha. Recapitulemos, acrescentando: substituto constituidor. Esse aprendizado é também a adoção
a. Bicha é uma definição que parte do inexplicável in- de um discurso normalmente autojustificativo. Note-se que na
cômodo dum "deslocamento" no espaço da sexualidade ~ual. nossa Cena Mitológica apenas dois elementos falam e não são
O que significa uma dificuldade de ocupação regular do corpo os elementos que participam na relação dita sexual. O discurso
(o corpo mitológico que aprendemos). Resultado lógico: o da Bicha é definitivo e absolutamente primordia1 - é a linha
corpo (real) da Bicha é um organismo intermediário numa condutora de toda a trama. Discurso justificativo, sim, aparen-
localização (sexo) intermediária. A nova área precisa ser re-
temente contestador, mas na sua própria essência moralista e
gistrada, mapeada, ordenada, legislada. Tudo começa como
irrespondível. A dificuldade não é descobrir a ação de repres-
se se tratasse da descoberta de um novo mundo; logo, natu-
são do discurso do Respeitável Cidadão, mas a ação forma-
ralmente, da necessidade de encontrar novas toponímias.. Difí-
dora do discurso da própria Bicha. Não é proveitoso analisar
cil tarefa, o descobrimento da novidade permite enganos: pen-
apenas o discurso oficial sobre as Bichas, mas criticar o dis-
sa-se primeiro numa Ilha, a seguir numa Terra, depois num
curso oficiante das próprias bichas, isto é, o que nesse discur-
Continente. Os adjetivos patronímicos serão também engana-
dores: diz-se "índios", quando se planejam índias Orientais. so é transferência da ação do Poder.
Diz-se bicha, viado, homófilo, homossexual etc., quando se Falar -sobre a homossexualidade implica uma postura es-
planeja uma imitação da ausente. pecífica: ou se fala de um ponto de vista exterior ("científi-
No caso do "hornossexualismo feminino" a questão será co") , ou se fala de dentro, isto é, como a homossexualidade
diferente, já que ideologicamente o "macho" nunca pode estar fala. Neste segundo caso, pode-se gerar uma ideologia cheia
ausente. Não se esqueça que a ideologia que gera a mitologia de falseamentos, defensiva, explicativa etc. Tal ideologia é
é a dominante, isto é, machista, exclusivista, possessiva, falo- apenas a contrapartida da ideologia dominante. Por isso é im-
crática. O que vai complicar a relação da lésbica: um estereó- portante uma crítica - exatamente o contrário do depoimen-
tipo menos definido, de sexualidade mais difusa. Aliás, toda to, ou de um auto de defesa. Pelas características mesmas da
sexualidade feminina é estabelecida como uma nebulosa: G sexualidade, o único discurso capaz de escapar das tramóias

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do Poder é uma análise autocrítica: falar da própria sexuali- Jorge é um "homossexual'? já que mantém relações com uma
dade (homojhetero ... ?) sem alheamentos ou alienação. pessoa do "seu mesmo sexo" (sic)! Ora, mas já vimos que o
Um lugar comum do liberalismo (até mesmo avançado) sexo de Marilyn Aparecida é um outro, iml?reciso. A relação
recorre ao eufemismo de postular que sexo é um comporta- Chorxe x Bicha, tecnicamente, é completamente "heterosse-
mento entre duas pessoas. "O que duas -pessoas fazem na ca- xual": são sexos muito diversos que estão em liça. Neste caso,
ma é problema delas", afirma-se com a mesma leviandade com a heterossexualidade é uma pura perversão, a perversão de
que se supõe que a liberdade de um termina onde começa a Chorxe.Então, qual é o sexo de Chorxe, esse macho impuro?
liberdade do outro. O liberalismo, engano clássico da cons- Chorxe goza. Qualquer que seja a razão que o move,
ciência, supõe o social como contrato entre indivíduos. Mas o goza debaixo da Ponte, tanto quanto Marilyn Aparecida ou o
que existe (socialmente) são pessoas, conjunto de complexas Respeitável Cidadão. Como classificá-Io, homossexual que do
relações que forma o participante de uma época historicamen- heterossexual guarda apenas a assim denominada "atividade"?
te dada. O que se passa na cama do meu vizinho me interessa Ativo, no entanto, não toma iniciativa. S levado, seduzido,
tanto quanto o que se passa na minha. Devemos exigir saber bota e .tira como um piston mecânico, sem ruídos, sem atritos.
como se passam as trepadas do próximo, pois são trepadas Como é possível que Chorxe seja "ativo" diante da capacida-
onde estou, como contemporâneo. Exijo o meu direito de co- de de ataque e falação da Bicha-Comandante? Claro, a Bicha
nhecer o que se passa na cama ao lado, tanto quanto seu(s) é totalmente o Cu-mandante. Mas Jorge é o Falo-Rei, o Cara-
ocupante(s) interfere(m) por sincronia na minha cama. Vi- lho-Governador.
vemos uma orgia - pura - e trepamos em grupo. O acordo Naturalmente fala-se do gozo anal como forma variante
social não passa por indivíduos celulares, mas como jogo de do Prazer. Como se sabe, a Bicha especializa-se nesta peculia-
necessidades e capacidades coletivas. Não exijo (nem posso) ridade do rabo como órgão sexual, mas não deixa de ter seu
poder de interferência, mas simplesmente a posse no patrimô- pau. Garante-nos o folclore, em outras tantas historietas, que
nio comum dos corpos contemporâneos. ocorre freqüentemente a volta do cipó de aroeira doendo no
lombo de quem mandou dar. Um dos pavores (ou prazeres?)
+ CHORXE de Jorge, é, transfigurado em Chorxe, que depois de ir tenha
que vir: "obrigado, não; pode ir descendo as calcinhas" -
pode dizer a elefantina Marilyn ao formiguinho Chorxe. Bicha
Jorge, cavaleiro com sua lança de enfrentar dragões, é
sim, mas nunca se sabe. Quem tem, tem medo. Quer dizer: no
um silente centauro sem cavalo. Em silêncio permanece atrás
fundo quer. E se come é porque enfrenta claramente a hipóte-
do seu mastro, meramente figurativo. ..•
se de dar. O sonho básico de todo "ativo" é a passividade,
Aparentemente sem maiores dificuldades, sua existência
é a própria normalidade. Chamou-se Jorge, Jorge chamar-se-á, .
que pressupõe como sua.
Chorxe participa calado da cena porque não tem graça
exceto em pequenos instantes debaixo da Ponte, quando se
e não faria rir. Jorge é um caso sério, ou seja, aquilo que se
transfigura passageiramente em Chorxe. Jorge servira, quem
chama no jargão familiar de "uma pessoa com problemas ho-
sabe, o exército; talvez seja noivo; talvez coma a Bicha para
ganhar uns trocados ou, sabe-se lá, para "quebrar um galho", 3 A palavra "homossexual" deveria neste texto vir sempre entre
enquanto seu lobo (buceta) não vem. aspas. Para facilitar vamos escrevê-Ia, como fizemos até aqui, sem
Mas no silêncio de Jorge é que vamos encontrar as maio- aspas. Leia-se, entretanto, sempre, com as marcas que carrega origi-
res dificuldades. Naturalmente, segundo definição normativa, nalmente a palavra.

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Por que falar em bissexos, senao como forma de referen-
mossexuais". (Cláudio de vez em quando glosa: "eu sou um
dar um mito desgastado, isto é, como mera veiculação da ideo-
homossexual com problemas de pessoa" ... ) Jorge tem, no
logia dominante?' Por que insistir no esquema de dois sexos
fundo, horror às bichas (ou será: horror à sua própria sexua-
genéticos?
lidade hetero-gênea?). Come com nojo, para matar uma fome
escatológica e ingrata. Mas sua fome, "problema", não O deixa Chorxe, aquela pessoa com "problemas homossexuais",
escapar de enfiar-se, como tantos miseráveis, debaixo da Ponte. seria um. bissexual, porque teria atração por homens e mulhe-
. Para designar a questão de relações entre "mesmos se- res. A evolução do Mito qu~r que agora os corpos não sejam
xos", a linguagem esbarra em pantanais imperdoáveis. Daí co- separados mecanicamente em sexos distintos e oposáveis. Con-
meçam a pulular os adjetivos. Tantos quantos, e todos impró- tinuam oposáveis, distintos, mas internalizados.
prios. A maioria, para o caso masculino, ofensas graves: cha- Quer a lenda, contada por Ovídio, que o lindo filho de
ma-se o indigitado de mulher (depreciativamente no diminuti- Hermes e Afrodite ao mergulhar na fonte onde habitava uma
vo) ou lhe é atribuída alguma característica feminina especí- apaixonada ninfa, que o rapaz repudia, saia das águas marca-
fica. Por exemplo: mariquinhas, florzinha, invertido, travesti, do pela maldição da recusada. Ela pede aos deuses que ele
paneleiro etc... (Vivemos num mundo onde os homens passe a ter os dois sexos simultaneamente, para vingar-se do
amam tanto o Homem que ser mulher - ou imitá-Ia - passa desprezo do moço aos seus avanços. Aquele que fora possante
por ofensa). Há o termo "louca", que explicita bem o absur- corpo emerge da fonte fraco e ferido. Torna-se o temível Her-
do do deslocamento esquizofrênico do corpo (o louco é ofen- mafrodita, divindade apavorante, dotada de poderes mágicos.
sivo, no nosso mundo racional, sem lucidez). Há adjetivos Como na metamorfose do infeliz banhista, o novo corpo que
mais cultos, que permanecem na mesmíssima balbúrdia. O que nos inventamos atualmente, depois do mergulho no que deno-
caracteriza todos, com algumas variantes, é o fundar-se no pre- minamos Modernidade, possui em si os dois sexos, em luta e
conceito de uma bissexualidade primitiva. Há confusões e ge- contradição perenes. A tal ponto que fala-se mesmo (a mo-
neralizações: por exemplo, o termo "pederasta", que falaria de dernidade é científica) em proporções e percentagens. Fenô-
uma atração pelas crianças e aborda sem querer a questão meno considerado real, o "bissexualisrno" é comensurável: al-
complexa das relações entre diferenças sexuais e diferenças de guns são 50% hetero, outros são preferencialmente homo
geração (diferenças primárias em todo grupamento humano). (98%? 77 %? A linguagem popular taxaria em 24 %) etc,
Mas os cruzamentos entre "pederastia" (atração sexual pelas De qualquer forma, resta intocado o paupérrimo e inex-
crianças) e "homossexualidade" (relação entre indivíduos de tinguível sexo dual, vale dizer: biologicamente fundado. Só
semelhante constituição biológica) são bem mais ramificadas que agora como problema individual.
do que ousa sonhar a vã filosofia da bipartição sexual. Donde surge a teoria (e a prática) do dualismo? Exata-
Acaba-se, normalmente e normativamente, firmando uma mente da noção do Corpo enquanto coisa, órgão ou organis-
nomenclatura frágil, de uso abusivo, que inventa uma espécie mo. Duvidamos de tudo, menos da existência "concreta" e in-
de qualidade "substantiva" dessa "coisa" fantástica que nunca dividual desse objeto corporal, "natural", biológico. O corpo
se explicita ou resume: a homossexualidade, travestida numa é preconcebido como unidade física real do ser humano, to-
essência determinante do sujeito. Diz-se mesmo "homossexua- talidade compreendida em si, decorrente de uma evolução fi-
lismo", que aparenta o substantivado a uma espécie de reli- siológica (o corpo nasce, cresce, procria, envelhece e morre,
gião, filosofia, seita ou partido. No qual se encontram células num processo biológico, naturalista). Existe, a partir dessa fun-
bastardas com ismos mais absurdos ainda, como "bissexualis- dação unitária do corpo, uma duplicidade fundamental resol-
mo", pura mistificação desexplicativa, partição do partido.
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vida diferentemente segundo várias visões de mundo: o ser' Enfim, o corpo não é apenas um conjunto orgânico de
humano enquanto sujeito histórico é "habitado", ou seja, é diferenças dadas, mas um ESPAÇO onde ocorrem diferencia-
um objeto físico "ocupado" pelo que é propriamente históri- ções. O corpo humano é uma. das dimensões da História e
co e humano. Assim, o humano é dividido em objeto e sujeito: como tal deve ser entendido como: a) um espaço social (nun-
corpo e alma, soma e psique, carne e consciência, necessidade ca unitário, sempre conjunto de relações sociais); b) um pro-
e vontade etc. Não pára aí a dualidade, e as dificuldades que cesso de evolução histórica (nunca "natural", sempre social),
dela decorrem. um processo de diferenciação (e não "diferença" predetermi-
Segundo essa concepção da corporalidade naturalista, o nada).
físico é a localização estática de diferenças. Todos os corpos
O sexual não é uma coisa, nem órgão, nem diferença. f:
são diferentes - é uma evidência empírica. Mas as diferenças
um processo de criação-ação dos sexos (ou do sexo de cada
são vistas, coisificadas, como decorrência da natureza animal
um). A sexualidade não é uma qualidade, mas uma ação per-
e orgânica daquela constituição que se denomina "corpo". As
manente de qualificação, uma constante diferenciação. Entre
diferenças fundamentais - variáveis invariantes - são deter-
minadas culturalmente, o que é o modo próprio de cada socie- macho/fêmea não há, no humano, uma desigualdade ou dife-
dade ver os corpos que precisa. rença, mas o que nasce desse conflito é a sexualidade comple-
I xa que individualiza cada um.
Ora, esse seria um corpo mecânico, puramente procria-
I tivo. No momento da procriação o corpo (que nunca é unida- O erótico - o corpo socialmente existente - é uma cena
de, nem identidade) é macho OU fêmea. Mas o que caracte- também trágica, porque estabelece a finitude. O sexo - que
riza a humanidade é que ela produz e reproduz socialmente. Se em muitas lendas da tradição greco-romana surge como ferida
a procriação e suas conseqüências estabelecem uma divisão en- e limite - é uma partilha, uma forma que permite ligar (re-
tre macho X fêmea, e entre pais X filhos, isto não basta para lacionar) na medida em que divide (SEXIONA).
a perpetuação histórica do humano. Ao produzir, já. o corpo Antes dos ismos partidários que dividem singelamente
não apenas produz objetos para as suas necessidades, mas pro- nossas partilhas multiformes, situemos o ensaio com sua or-
duz também suas necessidades, isto é, produz o seu próprio questra enorme e nem sempre sinfônica (concordante), numa
corpo e sua própria sociedade. PRODUZ E REPRODUZ. No vereda sem nome que busca apenas a decisiva harmonia de
momento da produção, na criação dos objetos que inventa (e existir no Espaço que nos é dado. Isto é, o espaço (incorre-
não apenas procura) o corpo é: Nem macho Nem fêmea. Quem tamente entendido eomo interno e finito) do próprio corpo, e
planta, colhe, fabrica, modela, organiza, distribui não é um ma- o espaço (absurdamente suposto externo e infinito) do Uni-
cho ou uma fêmea: não é nem uma coisa nem outra, é um verso. O decisivo é a harmonia de conquistar esses espaços, não
humano total, indiferenciado. Na reprodução, ao garantir a espalhando uma cega dominação destrutiva - como nossa ci-
continuidade das relações sociais de produção, o corpo é ma- vilização vem fazendo - •• mas equilibrando as capacidades de
cho E fêmea, pois na criação de novos corpos existem divisões ocupação desses campos.
("sexuais") de função. Certamente, com o aparecimento da di- Jorge, em resumo, no seu suspeito calar, é a incapacidade
visão social do trabalho cria-se o papel social do Homem e o de verbalizar a desarmonia onde subsiste, mero caralho desin-
da Mulher. Papéis que são regulados de acordo com a época formado, corpo sem meios (ambientes) no ambiente da Ponte.
histórica, assim como os papéis sociais de adultos e criança, Entre Jorge e Chorxe há o mesmo roteiro que guiou ao batis-
velho e jovem. mo de Marilyn Aparecida no terreno baldio em questão.

40 41
+ RESPEITÁ VEL CIDADÃO
um modelo ao corpo. No campo da sexualidade a ação do
Personagem patética, contribuinte do imposto de renda, poder caracteriza-se por impor permanentes opções - e esta-
esteio da Moral, cavaleiro da repressão sexual, a triste figura belecer respostas - impostas - conformadas. Isto é, modelos
sem nome vira uma generalidade assexuada: Respeitável. aceitos ou tolerados.
O Cidadão, como ficou dito, não se caracteriza pelo sexo, A adequação aos modelos preestabelecidos sofrida pelo
mas pela idade veneranda do ancião. Por responsável, é velho, Respeitável Cidadão não é absolutamente uma diferenciação,
e como tal, dentro dos parârnetros do Mito, fora dos merca- é um conformismo na indiferença sexual. Entre a indiferença
dos do sexo. Nele só penetra como empecilho, como pura inér- sexual e a indiferença política existem sutis relações. De um
cia conservadora. modo geral, toda opção sexual é uma opção diante do poder
O Respeitável Cidadão caracteriza-se principalmente pela político. O que torna complexa a ação de repressão do Res-
indiierenciação sexual. 1:: o símbolo exato desta classificação peitável Cidadão. Aqui, na piada, a repressão é apresentada
jurídica do indivíduo que o toma como capaz de responder _ como um incompreensível monólogo ao qual se antepõe 'o dis-
sem Prazer - ao formulário, marcando com um desalfabetiza- curso da Bicha. Mas ambos os monólogos se nutrem e se sus-
do X o quadrinho correspondente a masculino ou feminino. Ou tentam. O que os unifica? O quarto elemento da fábula: a
seja, o responsável opressor vive a indiferença sexual como Ponte.
I garantia da sua função de policial da ética.
Sua postura hão corresponde exatamente a uma atividade,
Curiosamente tanto o corpo da Bicha, quanto o do Res-
peitável Cidadão são moldes esquemáticos e ao mesmo tempo
mas a uma imobilidade de represa, paredão que resiste grave- formas de deslocamento, corpos alheios, alienados.
II mente, por reação, à força da água ágil. Antes de tudo não se pode abandonar o significado do
Corpo enquanto espaço real da vida. Tratar o corpo como
Nossa cena mostra por um lado sua iniciativa, sua dispo-
I sição reacionária, sua tarefa de ordenador e pedagogo, mas mera acontecência historicista, seria o mesmo historicismo que
abandonaria o espaço geográfico e que faz, às vezes, voltar a
não mostra diretamente o outro lado da coisa. Um dique fun-
ciona, mas é construído. Vitima, mas é também vítima. O re- uma ecologia abstrata que lida com uma contradição falsa:
pressor é basicamente reprimido. O Cidadão Respeitável, até humanidade x natureza, esquecendo-se, de um lado, a própria
ser batizado como tal, seguiu sua trilha, a tercelra rota ao ter- natureza da humanidade (sua história "natural") e, por outro
reno baldio sob a Ponte. Como os outros, foi modelado, mo- lado, a história da natureza enquanto objeto humanizável.
delou-se, para se meter debaixo da Ponte. Mais uma vez retomamos à conquista do espaço. Um dos
Sua aprendizagem, e dura, é a formação dolorosa da vi- sonhos mais freqüentes da nossa civilização é a colonização do
venciação da indiferença. 1:: Macho ou Fêmea. Para ele não mundo das estrelas, um espraiamento pelas galáxias. Como
existem alternativas para "macho e fêmea", "nem macho nem todos os sonhos, esse aí indica uma realidade indecifrável, mas
fêmea". Não faz história. Virou objeto. inegável. De fato, é preciso sair à conquista desses sóis, mas
Sabe-se muito bem que em política "a questão central é sem esquecer que muitos mais são os que habitam os próprios
a questão do poder". Mas fala-se pouco do poder da questão: sonhos, esse componente do espaço dito interno, inconvenien-
macho ou fêmea? E aqui as coisas se desarranjam. Política- temente. Há um espaço a colonizar, barmonicamente, e se cha-
mente. O poder político não é apenas pura negação - repres- ma Corpo, tanto quanto a Terra que nos cabe.
são. Na sua multiplicidade de formas, o poder age como poder O Respeitável Cidadão perdeu seu corpo, tornado estáti-
afirmativo, cbnformativo. Antes de reprimir, o poder imprime ca indiferença política, conservadorismo fatal. Em outras pa-
lavras, conhece a morte - indiferença - como reconheci-
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mento do outro. Perdeu também a Terra, que não mais povoa,
onde simplesmente transita, deixando seu lixo, como a podri- Nada a assumir, tudo a construir. E construir o sexo de
dão do seu cadáver ambulante. cada um significa inventar a criança de cada um, ou seja, a
criança-sexo de cada um. Mas não a criança "real" que fomos,
+ A PONTE nem a criança-ilusão que memorizamos. É preciso gerar, hoje,
em cada um, a criança que poderíamos ter sido. Processo de
Elemento que finge ser cenário, mas que é principalmente gestação: devemos nos engravidar, todos, produzir um filho.
o local que dá sentido à cena. Esconderijo ou gueto, a Ponte Que filho? O nosso próprio sexo polimórfico, doce e perverso.
é a geografia do sexual, ali onde ocorre o Prazer. Portanto, a Não há esquema ou um modelo. Poxa, sexo não é vestimenta
Ponte é exatamente o ponto no infinito onde todas as parale- pret-à-porterl Há um piano, um projeto. Sejamos um útero
las sendas se encontram, lugar onde está em jogo a sexuali- PROJENITOR de nós mesmos, eduquemos nossa harmonia in-
dade de todos os personagens que vieram buscando o autor. E dividual.
o autor é o cenário, a Ponte. Lugar onde se concentram os Tudo isso, enquanto opção, ação e programa é uma ativi-
famintos e desabrigados, gueto de carências. dade política. Estritamente política, sem partido, sem biparti-
Afinal, a Ponte, em sua impessoal globalidade, é a ques- darismo sexual.
tão sexual propriamente dita. Ao discutir o sexo como "rela- O que resta a aprender é que O SEXO f: A CONTINUA-
ção" interpessoal, esquecido o local histórico onde se desen- çÃO DA POLíTICA POR OUTROS MEIOS.
volvem as relações, reais, não se faz mais do .que discutir o
sexo dos anjos - abstratos animais de asas, sem vôo. f: pre-
ciso - e daí nos meter embaixo da Ponte - expor os anjos
do sexo. 3. Onde aparecem anotações centralmente sobre o que é a
São anjos que nos seguem, guardas protetores, desde a in- normatividade do sexual:
fância. Naquele momento em que a sexualidade tem como ca-
racterística o que se classifica, desde Freud, com a terminolo-
gia técnica de "perversão polimórfica", sexo múltiplo e infi- NOTAS MARGINAIS
nito. A grande complicação, na discussão sobre a sexualidade,
é que nos restringimos exclusivamente a diagnosticar diferen- Não reclama/
ças sexuais, como se fosse possível esquecer ou isolar qualquer contra o temporal ... /
Não reclama/
uma de todas as diferenciações humanas.
pois a chuva s6 levou (I sua cama/
Isso explica que as "soluções" para a "liberação" sexual
proponham "assumir" certas qualidades sexuais que seriam (Adoniran Barbosa)
"inerentes": assumam-se as perversões, como forma de contes-
tação; assuma-se a "parte feminina"; assuma-se um sexo pa- Poder-se-ia escrever, como já é um hábito comum, uma
drão saudável que atingirá o Celestial Orgasmo: E etc. e história da homossexualidade' que começasse numa infância
etc. e etc. feliz, ingênua e pagã da humanidade, de "sexo natural", onde
Nisso tudo o sexo é um bicho escondido no fundo de os homossexuais tinham relativa liberdade. Esta pacífica ma-
cada um, animal filogenético que deve ser solto. .. Puro engo- nhã resvalaria IlD crepúsculo medieval, sob o manto judaico-
do, decorrente do monótono dualismo sexual.
4 Não se esqueça de aspar os termos transitórios.
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cristão C'corn varão não te deitarás, abominável' é", escrevia
Moisés, que só escrevia para os homens.) causa das formas da respressão, não encontraríamos um "fio
Sob a espada dos severos anjos de Sodorna, conheceram explicativo" na nossa história acima. Hipótese facilmente des-
a fogueira inquisitorial sodomitas e bruxas zoófilas, cabras e cartável.
bodes.
Primeiro, porque considerar que a homossexualidade (ou
a capitalismo não viria melhorar a vida de bichos e bi- a sexualidade em geral) tenha uma "verdade" especial que a
chas. Pelo contrário. De sujeito do direito canônico à questão consciência só revela no avanço da ciência é inventar urna
médico-legal, o crime, que encontrara a Sua asserção na fé, "verdade física" (corporal), acima da história, escondida nas
passa a ter sua verificação na ciência. A fé não depõe as suas trevas da ignorância, esperando as luzes do saber.
armas e a ciência vem ombreá-Ia no mesmo combate .. A psi- Segundo, porque não é a maior ou menor repressão que
quiatria revalida a moral, a razão ilumina a revelação bíblica. define o aparecimento e desenvolvimento da "minoria homos-
Do segredo do consultório partia a fundamentação da Lei e a sexual". Sociedades onde não há repressão ao hornossexualis-
justificação da ação policial.
mo, como é o caso da Grécia clássica ou de certas sociedades
Juntos, médicos, padre, juiz e policial concertavam uma "primitivas", deveriam ver o aparecimento de uma ou várias
repressão sem tréguas, que impunha a ordem sexual burguesa, organizações sociais homossexuais. E isto não acontece. Em-
a
racional, autoritária. homossexual é dissecado, pesado e me- bora não haja interdições neste sentido, não se diferencia um
dido, sistematizado num conjunto de perversões. A sexualida- comportamento específico ej ou exclusivamente homossexual,
de era modelada, estátua familiar sagrada, com o cisel da tera- mas o desejo e o ato homossexual aparecem "dissolvidos" e
pêutica e o martelo da justiça. integrados no conjunto da sexualidade. Há diferenças sexuais
A repressão aumenta, aperfeiçoa-se, numa história que nítidas e estruturas sociais próprias, separando homens e mu-
vai da medicina à política. Como o resto da sexualidade, a lheres, mas nenhuma evidência de regulamentação de "mino-
homossexualidade, a partir de uma época relativamente recen- rias". Para outras qualidades, como as diferenças de idade,
te, torna-se cuidado da revolução. E a. repressão toma novas existem sempre organizações ou estruturas sociais que as regu-
formas, nas promessas de paraísos sociais do gozo perfeito, lamentam e integram. Por que não os homossexuais, se fossem
onde o homossexualismo se extirpa (se se considera que é um uma diferença sexual? A tolerância às minorias faria dissolver
vício da decadência) ou terá direitos à cidadania, como mino- a diferença? Neste caso, evidencia-se que a homossexualidade
ria social, "integrada)', "aceita". não é uma qualificação de' certos indivíduos (como o é a di-
Nossa história esbarra numa enorme dificuldade: saber ferença de idade). Não sendo um comportamento sexual que
do que estamos falando, além da descrição da repressão. O caracterize alguns indivíduos, é, em certas sociedades, uma va-
que é o objeto dessa repressão? Que "homossexualidade" é riante socialmente definida dos seres humanos ..
essa? Uma entidade própria da sexualidade, que atravessaria Esta é uma primeira hipótese a ser guardada: a homosse-
as épocas, como qualidade inata de certos indivíduos? que a xualidade não pode ser considerada como uma "diferença se-
mudaria seriam apenas as formas da repressão e daí as "ma- xual" (uma qualidade sexual), mas é fundamentalmente uma
nifestações" dessa entidade material?
diferença social, uma variante do comportamento sexual, esta-
Ressalta imediatamente nesta perseguição histórica que a
belecida como critério para definir uma categoria social (o
repressão se dirige diferentemente a objetos diferentes.
homossexual) .
A não ser que se Suponha uma homossexualidade Supra-
histórica, que não se "revelaria" em sua "verdade própria" por
46
* * *
47
Mas, ainda assim, outras dificuldades permanecem na
homossexual". Entretanto, quando se diz "homossexualidade"
nossa história da repressão. Como explicar que é sob o capi-
- seja: certa "composição" da sexualidade - definimos o de-
talismo, exatamente, que a "diferença sexual" se cristaliza, fa-
sejo a partir do ato ou relação sexual. As imprecisões são fla-
zendo emergir uma "minoria" onde a homossexualidade vai
erigir-se num estatuto? grantes:
Seria a repressão mais eficaz, mais violenta, noutras so- a) O objeto do desejo não é sempre o objeto da reali-
ciedades? Os fatos dizem que não. Sob o capitalismo a repres- zação do ato. Por exemplo, tanto masturbação, como zoofilia,
são não só é mais estendida, como mais específica e instru- ou homossexualidade podem ser variantes ou substitutos de um
mentalizada. E isto nos mostra uma curiosa contradição. A nto genital e "heterossexual". No caso da masturbação obriga-
violenta e implacável perseguição não apenas se mostra abso- tória do adolescente, da zoofilia do tropeiro com a sua mula,
lutamente inútil, como resulta em objetivos opostos. Especia- do homossexualismo nas prisões existe uma substituição do
lista em genocídios, em violentações ecológicas monstruosas, objeto erótico ausente. Mas nem sempre é a substituição que
o capitalismo não consegue esmagar o desejo homossexual. E leva ao ato.
ainda: não consegue impedir a constituição de uma categoria b) Ao definir a homossexualidade como relação sexual
social organizada. Pior, "0" homossexual deixa de ser uma das ntre indivíduos do "mesmo sexo", estabelece-se, de fato, uma
formas do desejo, para ser um grupamento a ser preservado. definição extremamente precária do sexo (considerado igual à
Essa "contradição" nos obriga. a levantar outra hipótese. lona erógena, genitalidade). É evidente que na relação genital
A repressão não aparece e se desenvolve pará oprimir uma heterossexual pode-se encontrar a impulsão que leva o indiví-
casta. A ação do poder consiste exatamente em definir uma duo a buscar seu HOMOSSEXO no parceiro (por exemplo, o
raça. Isto é, postula os direitos a' serem reinvindicados pela mi- homem que busca na mulher um outro "homem" enquanto pa-
noria, na medida em que inventa, determina, institucionaliza pel a ser desempenhado na relação).
um setor homo-gêneo. A criação do grupo ou gueto não de- c) Pode ser perigosamente mecânico definir o desejo a
corre de diferenças preexistentes nos indivíduos, que o poder partir do objeto, ou da forma de realização do ato. Isto pode
regula e controla. No caso dos homossexuais é a própria cria- levar a fazer do desejo uma espécie de interpretação psíquica
ção da diferença que é a esfera de ação própria do poder. da necessidade. E confundir a satisfação, da necessidade com a
satisfação do desejo. Assim como a água satisfaz a sede, o ato
•• • bomossexual satisfaria a homossexualidade. Como se pode en-
contrar as explicações fisiológicas da sede, encontra-se a razão
A terminologia técnica - homossexual, homossexualis- fisiológica (médica) da homossexualidade.
mo, homossexualidade - constitui-se de ambigüidades. As pa-
lavras foram postas em curso pela psiquiatria nos meados do • • *
século XIX, junto a outras (homofilia, inversão, hermafrodi-
tismo psíquico, etc.). Nunca se encontrou, porém, um termo
Aceitando a homossexualidade como qualidade das "rei a-
que não levantasse objeções. Muitas designações, para indicar
çoes sexuais entre dois indivíduos do mesmo sexo", podemos
alguma coisa que permanecia obscura. Sempre sobram pala-
~cncralizar de forma ampla, concluindo naturalmente que todas
vras, quando estão ausentes as idéias, Marx já acentuou.
as relações "entre indivíduos do mesmo sexo são homosse-
A terminologia caracteriza, principalmente, um ato sexual. xuais", em maior ou rndor grau. Como explicação, isto não
O ato não nos informa diretamente a estrutura de um "desejo
nos leva muito longe. A não ser concluir que todas as reia-
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ções entre os indivíduos têm um nítido conteúdo sexual. O que
é apenas uma passável banalidade. Cada um soluciona de forma própria as questões da sua
sexualidade. O desejo homossexual não se apresenta como
O desejo homossexual, o desejo que tem por objeto Um
indivíduo de mesma conformação corporal, é uma presença
coisa, objeto exterior ao indivíduoeà sua história pessoal: ele
é criado e desenvolvido num jogo de conflitos que inventam,
constante na sexualidade. Se caracterizarmos a sexualidade co-
que postulam e estimulam esse desejo. Esta é a esfera de ação
mo um processo, a homossexualidade corresponde a momen-
do poder.
tos desse processo, mas não é nem o específico, nem um modo
dele. Não é uma ação linear. Como movimento contraditório,
O desejo homossexual (tanto quanto o desejo heterosse- apresenta rupturas, brechas, instantes. Pode ser contraposta
xual) não caracteriza nem o conjunto do desejo, nem uma pela ação duma consciência (política). O indivíduo não é me-
"entidade" do desejo. Nem caracteriza uma estrutura do indi- ramente um joguete nas mãos do poder: o que lhe permite es-
víduo, nenhuma qualidade imanente dessa pessoa. capar de um jogo cego (um destino) onde a história· se escre-
ve fora e acima do indivíduo.
Se falarmos agora da forma como é vivido sob a civili-
II zação capitalista! vemos um desejo homossexual ser transfor- O desejo homossexual apresenta, para cada um, um
mado num modo da sexualidade. enigma: na sua história pessoal ele será resolvido segundo op-
ções mais ou menos conscientes. Estas opções envolvem uma
• •• definição diante dos mecanismos do poder: são, de fato, opções
pollticas.
Pode-se dizer que "ser homossexual" é uma opção. Tanto
quanto ser "heterossexual" ou "bissexual", Durante a vida inteira a sexualidade imporá opções polí-
ticas ao indivíduo. Opções que podem levá-lo a viver de forma
Como compreender essa opção homossexual?
mais ou menos conflituosa os vários instantes da sexualidade.
Uma opção é um ato de vontade: "ser homossexual" é
um ato de vontade. O que não significa que um homossexual Entre o desejo (campo das ações - repressivas, mas não
tenha "escolhas" entre desejar ou não. Neste ato de vontade só - do poder) e a vontade (campo de opções - conscientes,
homossexual não há nada de "livre arbítrio", de vontade nas- mas não só) há todo um mecanismo político que caracteriza o
cida duma consciência. que se chamará homossexualidade. UM PROBLEMA POLí-
Primeiro, essa "vontade" é determinada por uma história TICO, portanto.
I pessoal, um desenvolvimento particular do indivíduo. A ho- Nesta política (da perversão em geral) vive-se um labi-
rinto. Escapar da dialética própria do poder é uma questão
I mossexualidade resulta do jogo de forças que o próprio indi-
não só política, mas de política revolucionária. Porque entre
I víduo não controla, que não dependem da sua consciência, nem
da sua vontade consciente - que entra nesta história como as inúmeras opções possíveis não se exclui, de forma nenhu-
uma das forças em jogo, mas não a força determinante. Da ma, opções reacionárias, sob formas de rebeldias marginali-
mesma forma como, noutros, se apresenta a heterossexualidade. zantes.
Será sempre um ato de vontade que fará o indivíduo viver Ser homossexual não se limita aos campos do poder. Ins-
de diversas maneiras o seu desejo. Sua consciência se desen- creve-se também no querer. Isto nos leva a uma abordagem
volve segundo opções sucessivas que lhe serão apresentadas. simples, porém globalizante: a homossexualidade é uma forma
de viver o desejo em geral.
S Esta expressão inclui os países capitalistas e os "socialismos
realmente existentes".
•••
50
51

I~!(~
A homossexualidade não se fecha numa definição, nem
apresenta-se como uma veiculação do totalitarismo, usando a
mesmo pode ser reconhecida como objeto definível. É simples-
terminologia da revolução para esvaziar todas as revoluções.
mente uma forma de viver a sexualidade.
Portanto, só há uma "definição" possível: homossexual é
quem se define como tal. Inevitavelmente só esta autodefinição * * *
poderá englobar todas as questões que levanta a homossexuali-
O mais importante é que a questão seja apresentada- de tal
dade: o fato de estar inscrita numa história pessoal, que impli-
forma que todos, todos nós, nos víssemos diante da nossa pró-
ca a própria idealização do indivíduo de si mesmo, por um
pria (homo) sexualidade, dos nossos preconceitos. Em primeiro
lado, e as tensões sociais que estão presentes, por outro lado.
lugar, sexo não é discussão abstrata, mas uma discussão políti-
Só este critério permite situar as complexas relações políticas
ca, pois implica uma certa visão de nós mesmos e do mundo.
envolvidas entre o desejo e a vontade homossexual. Só assim
Em segundo lugar, o contra-preconceito, como forma de viver
se especifica e se determina a opção.
Il própria homossexualidade, torna-se mais agressivo quanto
'I Por ser um critério autocentrado, nem por isto é um cri-
maior é o medo do próprio sexo. Em terceiro lugar, além do
tério subjetivo. Porque a homossexualidade, enquanto desejo
preconceito e do contra-preconceito, há o preconceito de ter
e vontade, é objetiva, isto é, real. É exatamente a autodefini-
preconceito: o que faz com que a maioria das pessoas, que ima-
ção que expressa esta realidade, permitindo determinar os con-
ginam terem superado os preconceitos, acredite que saiba tudo

~!
flitos da sexualidade, as adequações da opção no quadro des-
obre a homossexualidade e lenda a "aceitar" o homossexual
ses conflitos, etc., sem querer descrever um "modelo", uma
"coisa-homossexualidade", contra a qual se chocaria a vontade (alheio) .
111 Para mim, justificar, aceitar, explicar, recusar ou abomi-
(moral) individual.
nar a homossexualidade é o problema de quem justifica. acei-
Daí que não interessa nenhuma "explicação" e nem nunca
IR, recusa, abomina, etc. São atitudes, no fundo, idênticas, pois
poderá haver uma "explicação" para a homossexualidade. Sim-
toma uma posição em relação a alguma coisa - a homosse-
plesmente não é possível "explicá-Ia". É preciso vivê-Ia.
xualidade - exterior a si mesmo. Qualquer dessas posturas
diante da homossexualidade faz do homossexual um ente dife-
* *' * rente, uma pessoa à parte no grupo humano, faz dos homosse-
Constatando que a homossexualidade "não é explicável", xuais uma "minoria".
estamos afirmando que qualquer "teorização" sobre a sexuali-
dade é uma forma de vivê-Ia. Sempre será muito mais do que
• * •
1I111
uma 'análise': será uma postura.
Ora, a questão é certamente esta: a repressão ao homos-
O que é então o preconceito? Será fundamentalmente
exualismo, sob o capitalismo, consiste em fazer dos homos-
uma forma conflituosa de viver a própria homossexualidade.
xuais uma minoria dentro da sociedade, um grupo fechado
Esta forma conflituosa não apresenta apenas problemas
individuais. Ela corresponde, em sua essência, a uma posição dentro de um gueto. Explico melhor isto:
política profundamente reacionária: uma aceitação da sexuali-
+ a homossexualidade, enquanto "pulsão homossexual",
certa pulsão que dirige o desejo sexual para alguém suposta-
dade burguesa que implica uma aceitação (ou supervaloriza-
ção) do caráter repressivo e autoritário característico. Quando mente do mesmo sexo, existe em todos os seres humanos in-
distintamente, em todas as épocas históricas, em todos os mo-
este preconceito toma a forma de um discurso "de esquerda",
mentos da vida sexual de uma pessoa;
52
53

Illlit~.
+ cada sociedade trata diferentemente as várias pulsões delação sexual, o "homossexual" enquanto uma diferença so-
sexuais, levando de uma forma ou de outra à constituição de cial, uma verdadeira subcultura;
uma sexualidade considerada "normal" (padrão), reprimindo + a "maioria normal" é aquela que consegue abafar Ç)
ou "adaptando" as outras pulsões sexuais da forma mais con- eu desejo homossexual, que consegue, de um modo qualquer,
veniente àquele meio social; realizar suas pulsões homossexuais sublimando-as, recalcan-
do-as, ou fazendo delas o que chamamos "preconceito": o ódio
+ a homossexualidade numa dada sociedade pode ou
contra o homossexual - que acredita que é alguma coisa fora
não ser reprimida, isto é, combatida, proibida, punida. Ou
de si mesmo, diferente de si mesmo. O ódio contra o homos-
adaptada, "aceita", integrada, etc. Várias sociedades não-capi-
sexual "que existe externamente" origina-se do ódio contra
talistas estigmatizaram violentamente a homossexualidade.
certos aspectos da própria sexualidade;
(Jean de Léry, escritor francês que visitou os tupinambás no
\1 I
século XVI, diz que quando os índios brigavam "insultavam-
+ o capitalismo não inventa a pulsão homossexual, mas
torna o que é característica de todos em característica de um
se de 'tivira', que quer dizer sodomita".) O que caracteriza a
rupo, através duma repressão que violenta todos nós, indis-
moderna repressão não é a perseguição ou punição do ato ho-
tintamente. Assim, a violência contra todos se localiza sob a
mossexual; o que a caracteriza é a tendência de fazer do
forma da repressão contra um grupo - minoritário - de
homossexual uma pessoa completa, um "outro sexo", interme-
diário entre o masculino e o feminino; "anormais".
+ a minoria homossexual ~ uma invenção capitalista. In-
• ••
venção porque nunca houvera, em qualquer sociedade repres-
1 sora, um grupo social que se distinguisse por esta peculiarida- A repressão sexual que todossofremos obriga aqueles que
\\11 de do comportamento. O homossexual - uma pessoa que se
II pretendem, por várias razões, realizar atos homossexuais, a se
define enquanto certo padrão social específico - nunca exis-
tornarem "especiais", a 'se tornarem "completamente" homos-
tiu. Noutras sociedades, existia sodomia, atos "contra-natura",
exuais, uma minoria .de diferentes.
atos sexuais variantes, atitudes diversas de pessoas que não
A diferença homossexual não preexiste à opressão, mas
tinham nenhuma "especialização sexual", que poderiam (ou
I o que esta faz é exatamente criar, cristalizar essa diferença. A
não) ser punidas, segundo as normas morais vigentes. A re-
repressão que atinge tutti quanti é incorporada em alguns que
pressão não se dirigia a um grupo, nem a alguns seres espe-
I ciais, mas duma forma generalizada condenava um ato pos-
.0 isolados, como "exemplo" para os outros.
A existência da "minoria homossexual" não é apenas a
sível de ser realizado por todos, indistintamente; forma da repressão, mas o próprio conteúdo da repressão. Não
+ a minoria é invenção própria do capitalismo, na re- por serem oprimidos que os homossexuais se tornam uma

w pressão que ele exerce sobre a sexualidade de todos. O capi-


talismo é mais sofisticado, é claro. Não reprime um ato. Força
minoria. Eles se tornam homossexuais por serem inventados,
moldados. enquanto minoria.
o responsável pelo ato a se tornar um ator completo. Já não
é mais um mero criminoso, mas uma entidade completa, um •••
ser humano diferente de todos os outros, que tem uma fisio-
logia, uma psicologia e uma realidade humana diferente do f: preciso entender que a ação do poder político é mais
normal. Assim, ao querer que o homossexual seja esse "dife- profunda e mais unificada do que a simples repressão pela
rente", forja, através do complexo mecanismo social de mo- recusa e negação duma "sexualidade padrão". Antes da re-

I
54
55

IIIII~I
pressão (negação), é preciso falar da ação de modelação do A repetição é a verdade do Camarada Stalin, que se re-
poder, da forma como socialmente somos obrigados a cumprir petia para ver se aprendia que era Camarada, já que Stalin
certos papéis, servindo nós mesmos de instrumentos do poder. ele era e contra isso já não podia fazer mais nada.
Não se pode dizer que isso seja uma questão politicamente Enfim, sempre admirei a sublime elevação literária de
secundária. A liberdade - inclusive a liberdade sexual - não I'rotski, que nem por isso lhe evitou o machado, parte da di-
é nunca uma questão "menor". E nunca poderemos falar ver- dática stalinista que se repetiu tanto, e na cabeça de tantas
dadeiramente em liberdade enquanto não soubermos de todas verdades, que até hoje nos confunde a escritura e o que dela
as pedras dos muros onde estamos aprisionados. se seguiria.
Enquanto o marxismo arranja novos mestres, digo ames-
tradores, sossega-leões e desliga-senão-explode, estão caindo de
moda as velhas igrejas e irmandades. Marx - a não se con-
4. Onde uma apreciação literária faz aparecer casualmente
fundir com a família de Groucho, Chico e Harpo - sofreu
uma didática dos amestradores:
ibulos na sua integridade. Mas sei que ainda terão os que hão
de rir com ele. Não dele,. como faz o "socialismo real", que o
tornou uma piada: o obscuro irmão Marx, o outro: o Grande
SEXÃO DA REVOLUÇÃO Irmão (e isso muito antes do 1984 previsto por Orwell). Eu,
1
11 1111 hein? Não estou reivindicando nenhum marxismo. Não tenho
o sol há de brilhar mais uma vez/ uutoridade, nem padrinho. Nem os quero.
O amor há de voltar aos corações. Se falo do meu apreço por Marx, o Karl, e do Itumor, o
(Nelson Cavaquinho)
li 1111,
Continuo achando Trotski g~nial. (O que não tem muito
eu, é que ele foi parte grande da piada da minha vida e no
eu circo espero ainda encontrar um picadeiro. Sem bicho
I mestrado.
a ver com o assunto. Ou tem, e não deixo transparecer.) Sem- Sem bicha amestrada também, como as que conheci durante
pre achei o Leon um tipo magistral. Um escritor antes de tudo. os anos em que trabalhei numa sauna noturna especializada
Foi um estilo (tanto quanto o de Marx e o da Rosa) que m pegação para entendidos, que não compreendiam muito.
me fez preferi-lo a outros teóricos marxistas. Quem é que Deixei o trabalho quando a barra pesou demais. Estava inca-
agüenta ler o Camarada Stalin? O Camarada Stalin repete,. paz de observar e aprender, como fizera inicialmente .
. porque é didático. Depois, a angústia notívaga, o tempo que não passava,
Para o Camarada Stalin a repetição é didática. aquela gente procurando o que nunca vai encontrar. Nada é
11,,1 A didática é repetitiva porque repetindo muito uma ver- mais aflitivo e contagiante do que a constante procura homos-
dade, se ela não é, vira. sexual - ou sexual, simplesmente -, já que a caça e o caça-
A repetição didática é importante porque cria verdades dor são meros resultados do espelho e este é invisível.
proletárias. Havia uma coisa a mais no meu trabalho. No início foi
bem compensador. Aprendi coisas que precisava sacar. Corpo
A verdade proletária é repetitiva para ser didática.
corpos. Trabalho manual, pra começo de conversa, remune-
A verdade proletária é didática por ser repetitiva.
rado com os massacres dos empregos da mão que obra. Dis-
A verdade proletária é didática por ser verdade.
tunciamento do trabalho intelectual, que fora o único que fi-
A verdade proletária é didática por ser proletária. "era até então na minha vida. Em resumo: a experiência do

56 57
que poderíamos chamar mediocridade, uma forma -de cons- Alguns foram se afastando, lentamente. Outros, aprovei-
ciência do mundo que pode apavorar, mas que permite que a tando as ocorrências do existir e seus desencontros, não se
consciência não se perca no seu encantamento de força autô- proximaram mais. "A gente se vê um dia desses", fórmula
noma. prática.
Procurei e resisti, num emprego assim, por várias razões, Oh, não, ninguém me expulsou, ninguém nem mesmo dei-
mas teve uma muito evidente: o medo que tinha de "ser ho- xou de me tratar com cerimônia e até respeito. (Afinal, como
mossexual" no meio da gente- que conheci, como você conhe- você me conhece, passo melhor por um enrustido, com "pro-
ce. Uma vez alguém me disse que Cláudio e eu éramos "bem blemas homossexuais", e não pareço ameaçar as instituições
aceitos" porque não éramos exatamente um casal de homos- com os desrespeitos formais de uma perversão que instituiu,
sexuais. r sua parte, óbvias éticas do escândalo). Muitos me "aceita-
- Vocês são um casal, tout.court, foi o que disse. m", quiseram mesmo deixar claro que me aceitavam e me
Verdade. Só que meu medo, ou minha angústia, era que petiam o tempo todo: "vocês, os homossexuais ... "~ como se
as pessoas que me sabiam homossexual (revelação como um u fosse um substantivo coletivo, uma cáfila. Ou um cardu-
texto sagrado, coisa a ser descoberta ou denunciada), passa- me, já que falava em sardinhas. Prefiro, porém, os camelos, já
vam a me pensar um "homossexual tout court", Pois. então, ue o deserto é mais de acordo com o nome próprio da im-
eu não sabia o que era homossexual, tanto quanto as pessoas opriedade de ser medido no grupo de outros, os alternantes.
que aceitam ou recusam os assim (bem-mal) ditos. 'Pensei que Que não, nenhuma excomunhão, não apagaram a minha
procurando no gueto, entre eles, elas, as bichas, eu pudesse vIla no subterrâneo do vaticano da esquerda. O processo de
adquirir discernimento. Porque em primeiro lugar sempre soube clusão foi lento, imperceptível, gentil formação de um casu-
que minha diferença (pessoalidade), o meu modo de ser em onde me imobilizaram na doçura de fios de - seda que cha-
toda a. minha peculiaridade, não decorria disso, duma distin- lavam "aceitação".
ção que parecia uma cicatriz ou um carimbo. Parecia-me - e De todos os meus velhos de guerra foram poucos os que
hoje sei melhor - que os homossexuais eram um grupo assim obedeceram tais regras. Claro, com as mulheres quase
como um estoque de latas de sardinhas. Parecem todas iguais, mpre o caso foi diferente. Com novos amigos, a coisa se
afinal são embalagens e com os mesmos rótulos, formatos e a diversamente. Estava falando dos daquela época, daque-
I1111111
preços. Mas no ver de mais perto o que se aprende é que latas uerras, daquelas memórias.
1I
1
iguais a latas, sardinhas iguais a sardinhas, em cada conserva Pois fui procurar o trabalho que procurei em Paris, para
os peixinhos são outros. Não há a mesma sardinha em todas ma espécie de pesquisa de campo no descampado da putaria.
\ ;11 as latas: nem a lata faz a sardinha, nem a sardinha faz a lata. m Portugal, tinha começado uma carreira de questiona-
Há produtores atrás disso tudo. E na produção é que a dife- nto, mas sem exposição pública. Bicha, sim, assumida do-
I,
1,1'
rença se torna diferenciável. ticamente, numa espécie de semiclandestinidade. Por ali eu
I Puxa, e eu perdi amigos. Que eu amava, -sabe, que eu jornalista, escrevia a sério, vivia entre intelectuais, discutia
respeitava, que eu queria, mas que começaram, obliquamente, Iftica e todos nós comparávamos revoluções. Nesse meio,
sem resumir, sem mesmo estampar, a distanciar-se e que, cla- \to, o homossexualismo é outra coisa. Fica pra lá das fron-
ramente ou não, quando eu aparecia, abriam uma questão que da política, e a gente é toda evoluída, ninguém vai fazer
me esmagava, uma interrogação não-formulada, mas que dei- stade em copo d'água por causa da viadagem (domésti-
xavam transparecer no não-dito: ) de um ou outro enrustido, o assunto está classificado na
- Aceito ou não aceito a homossexualidade dele? ta de "evoluções necessárias dos costumes". "Eles, os ho-

58 59
/Escrever é uma vontade de se fazer amar - anoto na
mossexuais ... " - e estamos com a consciência limpa de
murgem do caderno da memória, para eventuais desenvolvi-
mais uma mazela universal. Além do quê, eu nem bem era um
exilado: encontrara asilo na comovente agitação de bailarico de mentos posteriores.!
família que seguiria Abril. Estava ainda numa fase de explo- Quer dizer, praticar amores.
Que amores? Como a literatura é. uma forma de nomear
ração de Portugal e sua pequena grande gente, navegava no
11 inominável, acaba vindo a ser o amor que ousa dizer os no-
exotismo dos destroços duma eternidade de 48 anos, estava
IIIC'!!. Porque estou, desta cidade de Sodoma, experimentando
apenas me instalando, me ajeitando, buscando um espaço para
crever um romance de amor, como todos. Sabe aquela su-
plantar raiz, porque então, naquela travessia, o Brasil e suas
hlime asneira do Wilde? Daquele amor que não ousa dizer seu
clandestinidades era do lado de lá, de antes, e eu queria, de
nome? Pois parece que o nome sodomia, em desuso, serve para
toda severidade, abrir uma brecha e virar português. E tanto
\I limar do qual pretendo ainda retraçar meu roteiro. Não ousa
,que - com Cláudio - buscámos acções, deitâmos ilusões nas nomear? Mas, com que então! COI1heço seiscentos e trinta e
chávenas do café morno, que começámos a esquecer, e vínha- 1I1t0nomes para ele, entre os quais, alguns, tantos, entuíham
mos, com deleite, nos orgasmos (gozar diz-se "vir-se", indi- n. recantos judiciários, médicos, políticos e mais cantos e en-
cação de que era preciso chegar a qualquer sítio). ntos, a torto e a direito.
Em Portugal, o que havia de diferente dos meus tempos Do Direito, contra o qual o meu escudo fez o que pôde,
brasílicos é que, quando queria, eu ia paquerar no parque que preciso: já que afinal a perversão só o é, se bem legislada. E
começa no final da Avenida da Liberdade. (Não. Em Portu- uns decorrências, se são anais, são também anais jurídicos.
gal "engata-se", como na França a gente "draga", de draguer, preciso explorar até os limites da vulgaridade, tanto no
'\ que os brasileiros homossexuais adotaram. Dragar é uma boa. 1(0,quanto na língua escrita. Trocadilho serve de estilingue.)
E fala, com saber, de fundo e lodo.) o poeta Aragon foi quem disse:
\1 "Je traine aprês moi trop d'echecs et de mécomptes
Na França, o pulo do gato. Radical. Desta vez quis saber
da homossexualidade não apenas como visitante. Muito menos J'ai Ia méchanceté d'un homme qui se noie
como assumido, que não via nada a assumir e a dúvida era Toute l'amertume de Ia mer me remonte
exatamente desvendar que quê havia a assumir. Assunção, co- 11 me faut me prouver toujours je ne sais quoi
mo a da Virgem? Ótimo: a Virgem, segundo os analistas, é a Et tant pis que j'écrase et tant pis que je broie
\
representação do Fálus, a imagem do pipiu que deixa de ser Il me faut prendre ma revanche sur Ia honte.:"
pintinho repousando sua moleza no ninho das entrecoxas, para Minha vergonha tem um nome e - como a cáfila e seu
1"\
levantar a crista vermelha. O falo é o Grande Ereto, e o que serro - a vergonha é também um substantivo coletivo. Si-
,li o xixi promete, o pênis fá-Ia. Mais OdO falo, que todos os tro- onimamente o termo ditadura diz um pouco: mas é um si-
lenciar que retoma a significação integral. Silenciar - ato de
cadilhos são armadilhas. Em Paris, meu projeto foi simples-
III mente retraçar essa ascensão.
6 "Comigo carrego muitas decepções e derrotas
Foi, hoje vejo, um processo de isolamento. Sem querer, Possuo a malvadez de um homem que se afoga
\ 1\ 1I vou te dizer. Não queria me afastar' muito, mas meu jeito, meu Toda a amargura do mar sobe por mim
modo canhoto de temer o viver, me fez acabar assim, escre- Preciso sempre me provar não sei o quê
I 1\111
vendo por correio, já que não tinha muito mais com quem E tanto faz que esmague e tanto faz que triture
Devo tirar minha desforra sobre a vergonha"
dialogar.
61
60
'I! quem fez calar. Silenciar - desespero ou cumplicidade de
, dividual. A epidemia da miséria é a fome associada de desnu-
quem murchou. Todos os silêncios: ninguém escapa desta, que
I a vergonha, a gigantesca e nacional, foi grão a grão secando tridos, conclui tal análise.
a terra. Cada um de nós, os de então, diferentemente mas - A caridade defende os direitos do esfaimado: defende
cumplicemente, depositamos um calar, nem que seja porque só o seu direito de possuir um aparelho digestivo e enchê-Ia pe-
gritávamos a palavra liberdade com restrições, ou que faláva- riodicamente, Nesta proteção aos famélicos, os "caridosos" de-
rendem apenas o direito do corpo a continuar faminto.
mos da fome como quem analisa estômagos. Tudo que não foi
dito e que permitiu o silêncio. - Que fome é a fome? Serão as panelas vazias de mui-
loS que tornam as misérias o problema central duma maioria
••• massacrada?
- Não há feijão que encha a panela do corpo. Só há
Ao nos aproximarmos de Sodoma, repara-se que tem a uma saciedade possível à fome: e este pão se chama liberdade.
mesma forma cercada de outras isolações e que por todo canto A caridade propõe: dai de comer a quem padece de fome. A
reina a fome. A praga dos famintos, dos sem pão, a mesma volução dispõe: ao faminto, a liberdade. Porque a fome é
dos que têm uma víscera. Sodoma fala também da fome, da ntes de tudo a opressão do esfaimado.
FOME. Pois não é num estômago um num sexo que qualquer - A caridade é a fome da fome: alimenta-se da apres-
1
fome assedia um humano. Há corpos, mas também há sonhos. o do esfomeado. Vive da fome, que é preciso ser fome, para
E a miséria não são 010 miseráveis. A miséria é aceitar, que ela seja caridade. Por isto, a ajuda caritativa, a proteção
,I
com comiseração, o miserável. A miséria é UM miserável. llwi infelizes, a orientação dos desgraçados, é sutil, manhosa,
Qualquer um. loqüente. Usa argumentos complexos. Diz-se paternal, mestre
II1 I Permita-me expor, linearmente, a questão da fome: uia da satisfação da necessidade. 'torna-se, aos poucos e
mperceptivelmente, didática: ensina e conforma. Amestra o
- A fome é o resultado de um sistema econômico-social
historicamente determinado. A resposta à ela é uma revolu- ssitado que se domestica dentro da necessidade de ser ne-
ção: a transformação das relações sociais, a transformação da idade pura. A didática dos amestradores usa os métodos
forma como os seres humanos se organizam para satisfazerem i. cruéis: o outro lado da fome.
suas necessidades. - Lições do corpo da didática dos amestradores: se há
- A nutrição é uma necessidade humana: enquanto m órgão da fome, que funda uma maioria inconsciente, há
houver humanidade haverá necessidade de comer. Mas o fa- urros órgãos no corpo que inventam minorias oprimidas. Seja
minto é decorrência de certas relações sociais. A fome é mais te órgão a pele e sua cor, seja o sexo e seu negrores. .
que necessidade: é um fenômeno histórico e político. - g fácil confundir a necessidade da alimentação com
- Supõe-se, abstratamente, que a origem da fome é o .omplexa dialética da fome.
estômago. Portanto, a solução da relação entre necessidade e - Já acusaram muitos que falam dos problemas das
seu objeto é dar alimento ao corpo esfomeado. A solução da 1m chamadas "minorias" de escamotearem a questão cen-
fome é a caridade? I que seria a dos explorados e oprimidos. O argumento é
1.0 e simplesmente: fascista. Não por proibir o que se diz,
- A caridade faz do indivíduo um corpo abstrato, obje-
to orgânico chafurdando na necessidade de objetos "exte- por impor uma forma de dizer, baseado em postulados
IIIC não aceitam críticas. .
riores". O estômago é um órgão mdivídual, analisa a ca-
ridade, portanto a fome é um problema fundamentalmente in- - A didática dos amestradores é exatamente este fascis-.
mo primário que nos ensina a ser famintos ou minorias. g pre-
62
63
I, "11 ciso começar por derrubar tais princípios, ancorados no corpo
I mágico cheio de órgãos, progressos e ordens. .e preciso impor desejo fazem do amor uma transgressão. Não se ame crianças,
o corpo enquanto espaço de muitas histórias que se encontram velhos, bichos, coisa, rosto ou resto. O amor organizou-se,
nessa praça do Prazer. Só é possível falar da necessidade, organicísta e genital. Só a exclusiva adoração à parcela fisio-
qualquer uma, como sintaxe do discurso erótico que é o corpo. logica da genitália merece a confirmação tranqüila e tranqüi-
- O caminho da didática dos amestradores vai da fome ltzurue,
ao corpo, inventando este como conseqüência daquela. Ou, Mas a regra do jogo não é tão simples, embora sirva como
também, do corpo à fome, segundo variante. Só há uma alter- ,'Idu taxonômico dividindo o reino humano em minerais, ve-
nativa que evita este ensinamento dos totalitarismos: a que ~l'luis e animais: minerais, as montanhas do -natural, parindo
denuncia o corpo faminto como um aprendizado do corpo da lutos esgotados; vegetais, a natureza verde e imatura de crian-
fome, inventando fomes no corpo. Desaprender tal corpo e ~'I\S, mulheres e velhos (salvem-se primeiro estes, os incompe-
tais fomes é uma escolha, exercício de vontade política, que' h'lItcs); animais, todos os que, contra-natura, pervertem a mi-
nega uma escola, imposição de opções limitadas. A vontade ncrulidade espontânea da natureza (inventada) do ser procria-
não decorre do jogo das necessidades, muito menos de impo- uvo e genitaI. Às regras do jogo são mais trabalhosas e fazem
sições do desejo. A vontade, que lida Com opções determina- da perversão, enquanto Lei e Ordem, o discurso negativo da
das, deve - no caminho da liberdade _ saber distinguir as uormalidade; forma de ser, não sendo; garantia, por contra-
determinações das opções, antes de ser escolha inconsciente. I'osição, do bom senso comum ("o bom senso é a coisa mais
hom repartida do mundo", insinuava Descartes).
* • • Por que diabos, pode-se perguntar pertinentemente, come-
1(" ti falar dos corredores mais transversos dos subúrbios da
E aí já atingíramos a oitava década do vigésimo, desde xuulidade? Minha experiência "pessoal e política" (descul-
que a Virgem praticara pelos ermos da Galiléia e concebera I'rlll o pleonasmo) é um indício, mas ainda não rima, nem
do Espírito Santo, posteriormente ingenuamente representado oluciona, Minha preocupação virava-se para a luta pela de-
por branca pombinha, numa época em que o amor aos ani- IIIm',ucia. Era preciso entendê-Ia como crítica e llutocrítica,
mais ainda não se chamava zoorüía.? Naqueles tempos, a psi- rul c irrestrito refazer de visões políticas.
quiatria não ameaçava ninguém. A tarefa ficava para os dou- s temas abandonados ou tratados "secundariamente",
tores da Lei e os vendilhões do Templo, que transavam numa i~ como a sexualidade, o feminismo, as "relações pessoais",
boa com centuriões, dando para César o que era obrigatório drogas, os marginais, o racismo, a ecologia e tudo isso,
dar.
'1110 foram preocupações mundiais desde que os movimentos
Nossos tempos são menos ricos em poesia nas' fábulas e Il'\'olucionários começaram a tomar amplitude, e chegaram às
milagres. Racionais, matamos divindades interventoras. A in- ~Jllosões de 68, estão, no meu entender, no centro da crise
tervenção virou vigilância e classificações. Perversões, aqui es- que batizamos de "perplexidade". Aqueles sujeitos de discus-
I
I11I tamos nós: zoófiJos, masturbadores, voyeurs, fetichistas, sado- '10 ultrapassam de longe vagas preocupações teóricas, morais,
I masoquistas, narcisistas, uranistas, copófilos, coprofágicos, ge- peculativas, pois estão no coração mesmo da Política, isto é,
rontófilos. .. Todos os objetos supostos e intermediários do ,111pruxis revolucionária, pois são expressões concretas das for-
IIII1Sdo exercício do poder.
II 7 Não há nenhuma intenção blasfema na frase acima. Pelo' con- Fui chamado a dar minha opinião no debate sobre a ho-
trário. 1'; preciso ler com inocência, caros censores,
III1I\scxualidade por ser membro da estirpe, E meti minha colher
64 1II,Ia na sopa, por recusar ser espécie de uma raça, ruim ou

65
ele é antes de tudo, e malgrado sua ignorância, um objeto
boa. Por princípio recusava-me a falar corno "homossexual",
da ciência",
pois seria fazer uma exposição de um aprendizado que fazia
questão de desaprender. Ouero falar como político, ensina- Objeto e objetivo, as perversões também serão. Mas na
mento que procuro, para conservar a lucidez. Em resumo, ~Iltlignorância (aprendida) tecerão uma teoria, uma resposta.
falar de sexo e de mais a mais" temas vários, para mim é dis- H por aí só encontrarão a justificativa do injustificável. O ca-
cutir a prática da Democracia. uiinho passa por uma desativação de toda opressão, uma prá-
tica que condena o papel de objeto, para se tornar ação de um
Naturalmente intitulei o capítulo anterior de "N otas mar-
ginais" porque trata fundamentalmente de assuntos margina-
vujcito histórico inovador.
Iizados, que eu não mais quero marginalizáveis. Era uma for-
ma de meter todos debaixo da Ponte. Uma ponte liga margens, •• •
enquanto corre um rio. Os marginais só podem se meter numa
delas quando estão embaixo. Minha opção me mete na mar- Vocês já conhecem aquela cantilena: "aqui não temos
gem esquerda, mas aprendi que a margem direita é muito mais cspuço para desenvolver melhor ... " etc. f; isto aí para o nú-
freqüentada, por mais ampla e confortável. mero de páginas que tenho, Só esper.o ter sido o suficiente-
"Falar como um homossexual" ou "deixar a hornossexua- mente inexplicado, para que nenhuma fórmula venha substi-
II1
lidade falar de si mesma" é, a priori, justo, mas esconde ara- tuir as bulas que medicalizam nossa sexualidade.
pucas perigosas. f; evidente que, num longo processo de insti- Só para terminar, nesta sexão, uma palavra sobre a Es-
tucionalização da perversão, o poder impôs um discurso per- querda, esta gente à qual pertenço, Para a esquerda, a questão
11
111 // feitamente estruturado, homossexual, que possui algumas di- llu homossexualidade não deve ser a de um grupo que possa
retrizes inabaláveis. A "defesa" da homossexualidade, com sua cr contado corno força política organizada (e isolável) na
pungente desesperação, é inaugurada na mesma época em que luta pelo socialismo (libertário, democrático e ecológico -
a ciência esquematiza as perversões. Inicialmente culto, os ele- corno define bem o Liszt Vieira). O problema, no seu fundo
mentos do discurso tornar-se-ão aos poucos vulgarizados e po- mesmo, é compreender a ação do poder, para melhor comba-
pulares. Durante anos ouvi, no gueto, as mesmas exposições, t~-I.o. A homossexualidade - enquanto objeto da repressão
\ apresentadas sem elegância, nem sofisticação: religião popula- é uma questão inerente à discussão do sujeito revolucioná-
resca de dogmas fúteis. As relações entre "compreensão cien- 110, que não é (já se provou) aquela classe operária abstrata,
tífica", "aceitação" e "defesa" são muito semelhantes às teo- "scxuada, bem-comportada, higiênica e sanitária.
rias racistas, cem suas inversões compreensivas, para- só lem- Ao falar da sexualidade, enquanto homossexual, não se
brar o caso do negro, sem falar ainda nas mulheres. Estudar, IUI uma tentativa de introduzir um discurso homossexual na
compreender, educar, ajudar e proteger e curar e salvar: eis querda, mas UMA CRíTICA AO DISCURSO HOMOSSE-
o caminho de toda teoria racista ou de tod.o discurso da XUAL QUE A ESQUERDA TEM .
opressão. A "minoria" ou o "desviante" são, antes de tudo, E ela tem um. Muito afiado. Seja o silêncio, seja a com-
menos do que seres humanos. Sílvio Romero expressa com 1'1 ecnsão do tipo "tirar o corpo fora".
rara felicidade: "o negro não é só uma máquina econômica; Numa revolução nã.o se tira o corpo íora, A revolução é
Pura Tesão. O resto é silêncio e uma vida que se leva morren-
8 De mais a mais; de mais, amais; demais há mais; demais
do até uma morte-susto que não se vive.
amais: de-mais a-mais.

66 67
A chamada democracia liberal tem a perniciosa mania de
parar na porta da fábrica. Nenhuma democracia pode parar
aí, e nem na beirada da cama proibida.
Leila Míccolis
Deixemos que os anjos do sexo ganhem as ruas da Terra,
que queremos como toda, como nua.

"-
PRAZER, GENERO DE
PRIMEIRA NECESSIDADE

68
AOS QUE LUTAM -

"quem sabe faz a hora


não espera acontecer"

Geraldo Vandré

II
ERAM AS LÉSBICAS MARCIANAS?
"Não se persegue um grupo,
modela-se uma raça"

(Herbert Daniel)

Uma vez me perguntaram, numa entrevista: "o que é


ser lésbica?", e eu respondi, sem pestanejar: "deve ser um ser
estranho, tipo marciano. Eu nunca vi uma". Com isso, que-
ria questionar a divisão da mulher em lésbica e não-lésbica.
Queria dizer que não existe uma raça à parte, que as pessoas
siio pessoas, e homossexuais ou heterossexuais são os atos que
praticam, não elas em si. Um "ser lésbico" ou um "ser hete-
rossexual" deve ser coisa de um outro mundo, e por mais que
se pareça conosco e fale a mesma língua, será um alienígena.
Para a concepção clássica, greco-romana, o que valia era
o eros (em priscas eras, era o eros ... ), ou seja, o impulso
sexual do sujeito, sem se importar com o objeto para o qual
ste impulso se dirigia (homens, mulheres, crianças, animais).
Reduzir Safo a uma "lesbiana" é, além de má-fé, um anacro-
nismo, porque não havia esta divisão na época. Safo nasceu
no começo do século 6 a.c., teve uma educação intelectual
primorosa, aos dezesseis anos já participava de uma conspira-
ção contra o tirano Pitacos, o que lhe valeu o exílio, cas.ou-se,
teve uma filha, enviuvou, com vinte e seis anos fundou uma
scola para jovens mulheres, foi considerada a "Décima Musa"
por Platão, morreu aos cinqüenta e cinco anos, e atualmente
: conhecida não por sua intensa atuação sócio-política, mas
upenas como "lésbica" ...
Maria Carneiro da Cunha escreveu sobre ela: "sua casa
de educação era baseada nos mesmos princípios de todas as
associações culturais da Antiguidade grega, como, por exem-

73
plo, a academia de Platão. Algumas pequenas se dedicaram ao escrevia um livro em prol do "uranismo" como o terceiro sexo.
longo do tempo a questionar sobre a natureza do amor, mas é Finalmente, em 1897, outro alemão, M. Hirschfeld criou a pri-
indiscutível que ele estava ligado a um culto de beleza física
meira organização científica a apoiar os direitos dos homos-
que sempre teve, para os gregos, um valor quase religioso.
sexuais. Note-se que, na Alemanha, a pederastia enquanto
( . , .) Esta total liberdade de Safo, que nunca limitou o objeto
crime era punida com grande severidade; se passasse à cate-
de seus amores, paradoxalmente a tornaria hoje difícil de ser
~oria de doença, possibilitaria a compreensão. Naquela época,
enquadrada em alguns movimentos lésbicos radicais atuais (os
portanto, tinha um significado histórico importante a inclusão
de escolha mão única). Na verdade, ninguém encamou ou can-
do homossexualismo na categoria de distúrbios, era um modo
tou melhor as potencialidades multiformes do Eros, irredutí-
de defender a vida de seus adeptos. Esta noção porém, que no
veis a qualquer classificação ou enquadramento". véculo XJX se constituiu num avanço para as práticas homos-
Este exemplo é bem característico da filosofia da época. sexuais, hoje em dia não tem outra função senão a repressora.
Só no Cristianismo é que o conceito se inverteu, passando a O Código Civil Napoleônico (1804) foi o primeiro, no
ter o objeto do desejo mais importância do que a pessoa que Ocidente, a descriminalizar os homossexuais. Por influência da
o ama. Onde o grego via só erotismo (o impulso), o cristão França, o primeiro Código Civil Brasileiro, após a Indepen-
avaliava o valor moral do ser amado. Para a Igreja, esta santa dência, também segue esta orientação, ficando, portanto, um
falocrata, o esperma é o bem supremo, e criminoso é quem o éculo na frente de muitos países, inclusive de alguns estados
desperdiça (por isso até a masturbação é condenável). Nos
norte-americanos, onde a sodomia é um ilícito, condenável à
Contos de Canterbury, filme de Pasolini, na 'cena em que o
morte ainda hoje em dia no Irã.
homem pratica sodomia com um rapaz, nota-se que ele, o
A esta altura vocês pensarão: mas se ela não acredita em
"ativo", é o queimado, enquanto seu parceiro nada sofre. E ele
homossexualismo, como vai explicar a necessidade de um mo-
o único culpado por ter, inutilmente, esbanjado um líquido tão
vimento homossexual? Se este não existe, como haver então
precioso quanto o petróleo para o mundo moderno ...
11111 movimento organizado para a liberação dele? Simples:
Enquanto a prática dos atos homossexuais masculinos foi
mbora negando esta divisão culturalmente inventada - bo-
condenada em quase todo o Ociderrte cristão, o lesbianismo
mossexuais/heterossexuais - justifica-se o movimento porque,
quase não era mencionado na lei, simplesmente por ser caso
11 sociedade crê nesta divisão e discrimina os primeiros, eles
de menor gravidade, não estando em jogo a seiva da vida ...
1~1Il direito a se organizarem e lutarem contra os preconceitos
Sumariamente ignoraram-no .. , Assim, no século passado, na
IIlé mesmo provindos desta divisão.
época da reforma do Código Civil na Inglaterra, ao permane-
Mais um detalhe: na época em que o movimento apare-
cer a pederastia como crime, perguntaram à puritaníssima rai-
11. não havia outro campo para questionamentos sexuais. Se
nha Vitória sobre o 'bomossexualismo feminino, e ela se limi-
, lema está na "moda" atualmente, não estava naquela épo-
tou a responder: "isso não existe". Para o vitorianismo, a mu-
I . Desde 1964, quando no Brasil se instalou o golpe militar
lher era tão assexuada, qus-seria impossível pensar que ela pu-
1111I o seu enorme aparelho repressivo, as pessoas, impedidas
desse querer praticar um ato sexual com outra mulher, pois
I~ falarem diretamente sobre política, contornavam esta difi-
íazê-lo apenas com um homem já era obrigação por demais
uldade, discutindo-a através de outras formas, e nada mais
penosa. II~I() que elas dissessem respeito ao corpo, a vítima de tortu-
A palavra homossexualidade foi usada pela primeira vez
UM. espancamentos, maus-tratos e violências.
em 1869, por Benkert, médico húngaro, numa obra em defe-
Na década de 70, os movimentos feministas tendiam a ver
sa dos direitos homossexuais; em 1862, o alemão K. Ulrichs
\) sexo mais como uma característica biológica, em cima da

74 75

I tl~
qual se davam as reproduções da mão-de-obra e do poder com o tempo adotar muito do comportamento socialmente
masculino. A grande inovação do movimento. homossexual foi limitado àquele sexo".
questionar esse biologismo reprodutor, mostrando aspectos da Nas sociedades destituídas de uma rígida dicotomia se-
sexualidade diretamente ligados ao prazer. Até 79 só se podia xual, as crianças são poupadas deste tipo de confusão muito
debater sexualidade com este enfoque, repito, através do MH habitual na sociedade ocidental. Naquelas, ao apresentar tra-
I III (movimento homossexual). Este era o único espaço aberto, a ~os de comportamentos indesejados, diz-se: "não aja desta
única brecha transformada em tribuna livre para se denunciar forma, as pessoas não fazem isso"; nós já dizemos: "não se
a manipulação político-econômica do corpo. E como a luta comporte como uma menina", ou "isso é coisa de menino".
partidária, naquele tempo, parecia esvaziada por anos de re- Assim, incute-se uma eterna dúvida sobre o real sexo da crian-
pressão política, por palavras de ordens abstratas e porque as- ça, e isto fica muito patente nos comportamentos dos chama-
sistimos ao desmoronamento de nossos projetos democráticos, dos machões, onde é constante a necessidade de afirmação,
o MH surgiu como uma nova opção política, na época real- pura si próprios e para os outros, de que são realmente ho-
mente inovadora. mens, frisando: "com H maiúsculo".,.
Uma pessoa condicionada a ser reprimida em seu prazer,
Wilhelrn Reich também comentava que a energia sexual
desde a infância, será muito mais facilmente reprimida duran-
primida poderia ser canalizada para fins que o poder consti-
te toda a sua vida. Isso com as mulheres ainda é mais visível,
tuído considerasse úteis: a reprodução da mão-de-obra do tra-
porque elas foram educadas para renunciar ao seu prazer, em
hulho, e, às vezes, em determinadas épocas, até de serventia
prol dos filhos, do marido, dos outros. E educação, do latim
ra a guerra. Já se sabia, portanto, há longos anos, que con-
"e-ducare", significa "dirigir para". De "duca" vem duque: o
itos como traição, monogamia, virgindade, taras, homosse-
que comanda. Mussolini era chamado de "il ducce", Ou seja,
uulismo são culturais, e portanto apreendidos, manipulados,
a raiz da palavra educação tem sempre uma conotação autori-
Irigidos (através da educação, inclusive); mas foi no movi-
tária. Inevitável. Mas, dependendo da estrutura da sociedade,
mento homossexual que se vivenciou a discussão desses concei-
esta autoridade será exercida de modo mais ou menos castrador.
los através de uma prática de vida. '"
Para uma educação machista e patriarcal é necessário incutir
Também basicamente cultural, a luta do MH não era
nas crianças papéis diferenciados, segundo os sexos delas.
(nem é) para só abolir leis repressivas, nem para integrar
Margaret Mead, em seu livro Sexo e Temperamento (Ed.
,)11 "coitados" na sociedade ou criar leis antidiscriminatórias;
Perspectiva, São Paulo, 1979), ilustra muito bem o assunto,
u objetivo principal é a transformação da mentalidade da
ao notar que como certos traços humanos foram socialmente
ociedade como um todo, para que haja mais prazer em tudo
designados para um único sexo, quando eles se encontram no
() que se faz, para que se respeite as diferenças de comporta-
sexo oposto, são tidos como "antinaturais" e significam de-
sajustamento. "Às vezes, uma simples identificação com base mento, sem que por isso a pessoa seja discriminada como
no interesse ou na habilidade se traduzirá em termos de sexo oente, anormal, tarada, pecadora. A luta não é - como er-
e a mãe lamentará: 'Maria está sempre trabalhando com os oneamente se supõe - em prol dos "direitos homossexuais"
instrumentos de desenho de Jorge. Ela não tem interesses nor- s da liberdade humana, porque não adianta apenas a rnu-
mais de menina .. Jorge diz que é uma pena que ela não tenha nça de um regime político - como em Cuba - onde os
nascido menino'. A partir deste comentário, será muito fácil homossexuais continuam perseguidos e oprimidos, e as mulhe-
Maria chegar à mesma conclusão. A criança censurada em sua s tratadas como "companheiras do homem" (palavras de um
escolha e acusada de ter as emoções do sexo oposto poderá iscurso de Fidel). Este aparente reconhecimento do seu va-

76 77
lor só serve para secundarizá-Ia e oprimi-Ia, transformando-a agressiva do que como uma expressão da realidade. "Assumir"
em satélite do astro de primeira grandeza. (esta expressão tomou quase uma conotação heróica) rótulos,
Esta demagogia ideológica aparece em todos os sistemas só para provar coragem, me faz lembrar os métodos primiti-
políticos, seja qual for a época histórica. Se vocês querem uma vos de iniciação sexual indígena, onde meninos e meninas
prova, tentem adivinhar de quem é este trecho "primoroso": passavam por verdadeiras torturas para mostrarem o seu
"A mulher é por natureza e destino companheira do homem. valor ...
Mas ambos são, por isso, não apenas companheiros da vida, Para mim, todas essas palavras - puta, lésbica, bicha,
mas também camaradas de trabalho. ( ... ) O trabalho honra sapatão, fancha, pitomba, viado, corno, racha, bofe, foda, ca-
a mulher tanto quanto o homem. Mas a criança enobrece a baço, caralho, saco, porra - só podem ser minadas por um
mãe". Acertou quem disse Adolf Hitler, no manifesto para a comportamento libertário esvaziando seu sentido pejorativo e
eleição presidencial de 1932. Este era o seu "Programa" e con- até ofensivo. Enquanto elas forem apenas usadas maquinal-
tinua sendo o da maioria dos dirigentes políticos. mente, sem uma ação coerente que as desmitifique, cada vez
Tradicionalmente sempre foram as forças da direita (re- mais estarão reproduzindo estereótipos, e, daqui a pouco, as-
presentadas pela Igreja, aristocracia, burguesia, poder consti- sim como se fala numa "linguagem feminina", vai começar a
tuído, etc.) que mais se posicionaram contra a liberdade sexual; se induzir a uma linguagem "homossexual" - embora o gueto
mas, a partir da Revolução Francesa, e mais recentemente em já fabrique vocábulos em profusão - e aí o separatismo esta-
meados do século XIX, com as revoltas proletárias européias rá consolidado. Resgatar palavras apenas pela repetição delas
e a constituição da esquerda, esta, mesmo criticando a direita me parece ingenuidade ou utopia. Num país capitalista e con-
em vários aspectos, herdou dela seu rígido moralismo sexual. sumista como o nosso, as únicas coisas que se resgatam são
Engels condenava as "repugnantes práticas da pederastia" en- as notas promissórias. .. assim mesmo quando se tem dinheiro.
tre os gregos e os "feios vícios antinaturais dos germanos"
(veja-se A Origem da Família, da Propriedade Privada e do
Estado, Ed. Vitória). Esta esquerda ortodoxa considerava
como prioritária a luta político-social, e as reivindicações es- DIÁRIO DE BARDO
pecíficas como "menores" e até desmobilízantes em relação à
(Poemas, Notas, Recados, Trechos, Monólogos e Diálogos)
luta principal. No Brasil, só no final dos anos 70 é que seg-
mentos significativos da esquerda passaram a compreender que "Se faJo em primeira pessoa é
sexo não era apenas algo privado - feito entre duas pes- para escapar da política da abstrata
soas e quatro paredes - mas também um instrumento de ma- pessoa ausente do discurso"
nipulação do sistema.
(Herbert Daniel)
Aposto como muitos (como muitos? além do cacófano,
um duplo sentido?) vão dizer: "esse palavrório todo é só- para
defender o bissexualismo. No fundo, ela o justifica porque não Todos temos más-turbações e maus antecedentes. Tam-
assume o que é, e não o faz por medo". Se não creio em bém eu. Dos últimos, fiz um livro com este título. Das
homo ou hetero, não acredito em bi, mais uma classificação más-turbações, tornei-as boas, aos onze anos, mais ou menos,
inútil. Quanto ao argumento de um pseudo não-posicionamen- quando eu queria ser freira e me autoflagelava (pelo menos eu
to por "medo" - tantas vezes sugerido pelos mais ingênuos achava que era um flagelo) docemente, apertando meu sexo.
me parece que é sempre usado mais corno provocação Num livro de Guy de Larigaudie soube o nome deste ato, pe-

78 79

lilllllill~1
cado, coisa feia que podia me levar à loucura. E eu, que só e a sua extinção (em 66, pela Lei Suplicy, embora resistisse
fazia isso para melhor servir a Deus, fiquei muito confusa. exatamente até 69, quando saí; em 78 voltou a funcionar, com
Ainda bem que Kinsey, com seu relatório, logo me resolveu eleições livres). No terceiro ano de curso minhas ilusões des-
o conflito. 'Foi a primeira vez em que optei pelo prazer, em moronaram, esperanças também, passei a não ver mais s-enti-
detrimento da culpa. do naquela teoria, o que eu estudava ali não servia para o mo-
mento político que víamos, vivíamos e convivíamos.
•• • Já sabíamos, de antemão, que a Constituição (de 46) e o
Código de Processo Civil (de 39) - os estudados - seriam
Nasci no Rio, de sete meses, um quilo e pouco, cabia alterados; o Código Civil servia apenas para proteger a família
numa caixa pequenina de sapato, e o médico disse pra minha
e a propriedade; o Administrativo soava burocrático, organi-
mãe: "isso não se cria". Contra todos os prognósticos e vati-
ativo dos órgãos do poder; o Comercial, de 1850, .era do
cínios, virei gente. Mãe queria um menino - sofre menos, ela
tempo em que a mulher precisaria do consentimento do mari-
justificava, pai também (embora ele negue), pois explicava
do até para assinar cheques, se estes existissem na época ... ;
aos amigos: "é menina, mas muito inteligente". Meu nome,
o Código Penal se tornava uma piada de mau-gosto, frente aos
raro em 1947, veio de uma ópera chamada O Pescador de Pé-
bárbaros e impunes crimes praticados contra o indivíduo (isso
rolas, e uma vez me disseram que, em árabe, significava "rai-
sem falar nas figuras jurídicas do habeas corpus e do manda-
nha da noite".
do de segurança, letras mortas naquele momento), e o Inter-
Tenho 1,30m de altura. Se esse tamanho causa vários
nacional, totalmente impotente e incapaz de solucionar os
problemas, também tem uma semivantagem (nem sempre é
conflitos explodidos entre os países. Não poderia exercer a
boa como se verá): quem me olha uma única vez não· me es-
Medicina Legal, que eu gostava, ela era apenas um comple-
quece jamais. Sou, portanto, o tipo típico da mulher inesque-
mento do Direito Criminal, ramo que não me atraía. Sobrava
cível. Filha única, nada de mimos. Minha família, por parte
o Direito do Trabalho, o único que ainda tinha um mínimo
de mãe, é Barata Ribeiro, daí muitas vezes eu me assinar Leila
de dignidade e eficácia. Como resolvi acabar o curso de qual-
Barata. Era uma família de políticos revolucionários, grandes
quer maneira, me agarrei nele, como tábua de salvação. Mas
nomes, convivi com minha mãe falando da galeria de heróis
sõ tomei consciência da escolha malfeita por uma frase de
baianos. Suas mulheres não entraram na História, foram todas
Heleno Fragoso, advogado que até hoje admiro pela coragem,
anônimas, mas agüentaram sempre barras violentíssimas, en-
mas que na época me parecia insuportável como professor. Elê
I quanto os homens tentavam transformar o mundo lá de fora.
dizia que quando alguém gostava muito de sua profissão, lia
I Sei que delas herdei a resistência. Eram mulheres fortes, sem
ssuntos relacionados a ela, nas horas vagas. Eu lia muito ...
nem saberem.
vivia com livros de psicologia e de literatura na mão. . . Minha
• • * rea era outra,
Nunca acreditei em amor eterno - sumiu logo, na ter-
Entrei para a Faculdade de Direito (ex-Nacional, atual ceira vez, o primeiro homem por quem me apaixonei. Ro-
UFRJ) no começo de 64, portanto num período em que a lei mantizar também é uma forma de mistificar. E não confundir
era a do mais forte - a Ditadura - e a Justiça andava mes- fetividade com romantismo, aquela posição alienante, mano-
mo de olhos fechados - não por ser imparcial, mas cega. Em brismo que leva à idealização de um amor abstrato, fantasioso,
abril houve o golpe, peguei a intensa mobilização do CACO "perfeito", irreal, inatingível. Talvez por isso, quando no final
(quando havia dois partidos: o da ALA e o da REFORMA) de 76 larguei a advocacia para sobreviver das minhas escritas

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(eu era advogada trabalhista de um sindicato de trabalhado- pessoas neguem seus desejos ou renunciem a eles, em nome
res ... ), não me adaptei às novas atividades: escrever fotono- de comportamentos comportados.
velas românticas. 1:. que, nelas, a fórmula moralista do bem Falei em ato solitário e me veio uma frase de efeito, da-
contra o mal sempre me soou tão antipática quanto perniciosa quelas que a gente diz só pra causar impacto, mas que logo
(a pobre mocinha no fim levava sempre a melhor, mesmo se questiona, rapidinho: mulher só faz. suruba em siririca ...
quando derrotada, pois se agarrava em consolos - no caso, Não é bem isso: que Ias hay Ias hay, mas não são comuns,
entender só como conselhos - que a sustentavam e a faziam devido ao condicionamento que tiveram para PERTENCER
superar os tolos momentos de crise). li uma única pessoa (de preferência um homem, lógico). Uma
Affonso Romano de Sant'Anna escreveu uma vez um ex- vez escrevi um poeminha assim: "Eu só posso ser de um ho-
celente artigo, cujo título ainda me lembro: "A História de mem / ou então de uma mulher. / Mais que isso a vó se
III um povo também é a história de seus bandidos", mostrando
que nem sempre bandido é bandido e mocinho é mocinho, essa
queixa, / a mãe não deixa, / o pai não quer ... ". A mudança
de parceira (o) é vista mais como imaturidade, "medo de se
divisão dependia muito das testemunhas oculares e de quem comprometer", do que como opção.
fosse o escrivão de plantão na delegacia da História. Até Cris- O grupo feminista Costela de Adão, de Porto Alegre,
to fora julgado como marginal. .. Como os editores não iriam lançou, em 1980, livrinhos mimeografados chamados "Escri-
'li aplaudir, sequer admitir esta linha dialética nas histórias de tos sobre feminismo". Este trecho está no segundo número, e
I amor, verdadeiras tramas sado-masoquistas (incrível como in- fala de relação monogâmica: "Somos, pois, educados para
cutem o sado-rnasoquismo na cabeça da gente da forma mais ceítar (e procurar) um relacionamento afetivo exclusivista,
imperceptível possível), preferi me mudar, só de bagagens, como se o casal fosse uma entidade afetivamente completa,
sem armas, para as chamadas "revistas de sacanagem", aque- por isso podendo separar-se do resto do mundo. Acredita-se
las que, vira e mexe, são apreendidas pelo Curador e contra tão seriamente numa complementaridade total entre duas pes-
as quais as Senhoras de Santana veemente protestam indig- soas, que o mito da 'alma gêmea' passa a ser uma coisa na
nadas. qual todo mundo (consciente ou inconscientemente) acredita
Nelas há moralismo, óbvio, mas sempre de forma mais c sai a procurar a sua. Assim, a solução para as crises dos ea-
flagrante: um super-homem capaz de gozar mil vezes por ais modernos, casados ou não, vai ser sempre a separação
noite, e uma mulher-maravilha, também perfeita. Esta fórmu- a busca da formação de um novo par monogâmico. Ou seja,
la me parece ridícula até para a criança mais retardada. Nes- já que nos dias que correm o par monogâmico eterno será
tas "imoralidades" não há maniqueísmos nem mensagens su- difícil de ser suportado, a forma encontrada pelo sistema foi
bliminares de que "querer é poder"... Ah, se fosse. Estas onduzir os indivíduos mais rebeldes, não a procurar formas
mentiras piedosas fazem mais mal do que toda a pornografia rlternativas de relacionamento, mas a passar a vida a casar-se
(?) do mundo. descasar-se (vide o divórcio, para os que gostam das for-
Bob Fosse, naquele belíssimo filme Lenny, já punh_a na malidades jurídicas, desde que, no espaço de tempo em que
stiverem juntos, seja mantida a exclusividade). ( ... ) O ca-
boca (será que essa expressão é pornográfica?) do seu per-
umento monogâmico, onde se configura a divisão entre a vida
sonagem principal o fato dele preferir que sua filha lesse uma
do casal e a vida 'lá fora', é o reflexo da fragmentação do
revistinha de sacanagem do que a Bíblia, um livro cheio de
homem: trabalho/Iazer: amor/sexo; prazer/sofrimento; racio-
matança. O máximo que estas publicações fazem é propiciar
uulismu/afetividade; sanidade/loucura, e assim por diante. Da
um gozo solitário (ou solidário?). Nunca tentam dizer que as
Iorrna compartimentada como é ensinado a ver o mundo" só
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1
1 111
pode resultar um homem que não detém o controle sobre sua
própria existência: uma vez perdendo a visão de unidade, o MH não quer conquistá-lo, mas justamente questíonã-lo, Eu
perde também a consciência de seu papel transformador nesta me sinto mais como uma participante entusiasta, sem outras
realidade". definições mais pretensiosas. O importante pra mim - e sei
Textos como estes, assim como algumas letras de músi- que pra você também - é intervir, é atuar.
ca, me deram força em determinados momentos críticos de Quando te disse, Herbert, que em 68 eu queria ser guer-
minha vida; mostraram que eu não estava sozinha, remando rilheira, mas não fui (lembra que meu tamanho me torna ines-
contra a maré, e que havia todo um pensamento articulado quecível? ... ), falaste que eu teria chances de viver por qua-
com o que eu estava passando e vivendo. renta e oito horas na clandestinidade .. , Mas já vivi mais do
que isso, muito mais, nossa geração é de clã-destinos (até na
•• • poesia sou marginal ... ), de exilados (do sexo e do país).
Isso nos moldou tão parecidos: clandestinos de nós mesmos.
Exatamente por isso - digo sinceramente - aceitei a A meu modo também guerrilhei. Qual será teu nome verda-
tarefa de fazer este livro, só porque era contigo, Herbert. So- deiro, Daniel? E o meu nome de guerra, qual será?
zinha ou com outro, não me animaria. Por quê? Simplesmen- Naquela vez em que notaste que muitos homens gozam
te me apaixonei pela Passagem para o Próximo Sonho, por como mulher, me lembrei de um filme, muito bem roteirizado
toda aquela emoção descontrolada em meio aos cadáveres dos por João Silvério Trevisan, A mulher que inventou o amor,
amigos e dos sonhos. Você coloca tudo exatamente como me em que ela também questiona as formas de prazer feminino
pareceu ter sido, como eu vivi. Tem uma passagem (sem tro- e masculino (gemidos, excitações, etc.) e aí saquei algo que
cadilho) em que você diz: "Não há pior desterro do que aque- me impressionou: mudada a acentuação tônica para oxítona,

\. ..
le que se vive no meio duma gente que fala uma língua que Herbert rima com mulher. .. não é bonito?
parece ser a nossa". Tem também aquela: "o pavor nem sem-
pre é dramático ou teatral". E mais: "A participação demo-
crática não é enganosa 'liberdade de opinião' sobre a ação dos
outros. Reclamação opiniática não é protesto". "O gueto é um O preconceito é uma arma de poder e do poder. "Mas
serviço de utilidade pública". "Nunca é difícil brandir um au- nem sempre o autoritarismo veste uniformes militares e encar-
tor contra ele mesmo, basta selecionar frases mais ou 'menos cera os indivíduos em plena luz do dia. Ele pode ser sutil,
isoladas do contexto" (ui ... ). "Muitos nunca conseguiram invisível; estar incorporado em cada indivíduo, mesmo nas
compreender que a convivência nos aparelhos, sem espaço in- sociedades de aparência a mais democrática" (Guído Mante-
dividual possível, sem concessão à intimidade era um verdadei- a, Sexo & Poder, Ed. Brasiliense).· Por pensar assim, presto
ro problema político". "O mais importante eram as idéias que tenção ao que chamam de "cultura popular" e que nada mais
tirávamos daquelas idéias". do que uma cultura incutida no oprimido. Provérbios, frases
Pois é, Herbert, depois do teu livro, fervilhei, e cá estou, e ditos, em sua aparência inofensiva, cristalizam e servem de
aqui me tens, expondo algumas das idéias que tu me de-fla- steio aos alicerces mor(t) ais de uma sociedade. Só um exem-
graste. Fiquei pensando nos nossos ativismos urbanos, tão di- plo: "Mulher de amigo meu pra mim é homem": 1) só se
ferentes, tão próximos. .. Militante não me considero, porque respeita a mulher, porque é do amigo; 2) o amigo fique segu-
militante é quem milita e eu não vejo o MH como milícias, ro, porque um homem só gosta de mulher a menos que seja
com hostes, falanges, guerras e estratégias, muito menos poder: feminado; 3) a fidelidade é grande virtude a se preservar, e
depende do homem, porque, afinal, todas estão loucas pra
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lf't1fffl ••••

dar; 4) a amizade está acima do sexo, amigos são amigos, Se eu fosse contar todas as histórias preconceituosas que
coisa muito mais séria e duradoura do que amores passageiros. o livro gerou, escreveria um romance. Incomodou porque foi
Agora pergunto: não deveríamos erotizar nossas amiza- mostrada uma poesia político-sexual, num tom diferente da
des? Ao longo de minha VIda percebi que dificilmente olhamos época em que a mulher só tinha como "direito" o de parir.
para os amigos ou amigas com olhar mais sexualizado, conti- Foi uma façanha uma coletânea com este objetivo. Num dos
nuamos a criar compartimentos estanques, amigo é uma coisa, poemas, eu dizia: "Não sou comportada / puta e lésbica / e o
amor outro departamento. Por quê? Porque assim resguarda- que mais me der na telha / sou a seqüência / do que o primei-
mos estas pessoas queridas do perigo de possíveis decepções e ro gesto desencadeia". Choveu protestos, eu estava usando a
desgastes. Se o sexo, este tempestuoso elemento, pode amea- linguagem repressora (e volta o problema da linguagem) .
çar um sentimento "seguro", eliminemos o primeiro. E em Presos a .palavras isoladas, não captavam a idéia: o peso dos
nome de um comodismo individual, criamos lemas pseudo- rótulos, que precisam ser sacudidos para que sejam transcen-
liberais que tornam nossa covardia um sentimento "nobre", didos, desencadeando uma reação (s) em cadeia, como a pró-
"digno", "respeitoso", "honroso" ... pria poesia propunha ...
Numa sociedade competitiva, acostumamos a separar as Réca Poletti (SP), humorada e irônica, criticava toda
coisas e os sentimentos, uns em detrimento dos outros. Sem- uma hipocrisia social em "Confissão": "A mulher / do próxi-
pre tentei não cair nesta ideologia dicotômica. Quando eu falo mo / esteve aqui / Desejei / enfiar meus dentes / em sua
sobre o corpo, não pretendo supervalorizá-Io em detrimento pele / morder sua carne / chupar seus ossos / Depois ela foi
das potencialidades ditas "psicológicas". Ao contrário, o pro- embora / eu me arrependi / por sentir / essas coisas / esca-
pósito é dar à sexualidade uma conotação mais ampla, aca- brosas / e juro / que lavo a boca / e não sinto mais / se ela
bando com essa história de dividir o ser humano em espírito parar de vir / dormir aqui em casa". E Ana Maria Pedreira
e matéria, numa famigerada tradição que vem de Platão e se Franco de Castro, da BA, escrevia: "eles tentaram transfor-
perpetua no Cristianismo via Santo Agostinho, aquele mesmo mar-me num ser menos seguro / eles tentaram eu te assegu-
que dizia que "nascemos entre as fezes e a urina" e conside- ro / eles tentaram / minha mãe meu tio minha professora meu
rava o corpo a "prisão da alma"... Quanto mais se acabar cachorro / eles tentaram eu te asseguro / eles tentaram / e
com desigualdades, mais acabaremos com marginalizações, e, até o grande ditador e o diretor da faculdade / eles tentaram
portantovcorn discriminações. eu te asseguro / eles tentaram / e o meu primeiro namorado
e a mãe do cara que amei / eles tentaram eu te asseguro /
• * * eles tentaram / e os meus amigos mais diletos e o meu filó-
Em 1978, eu organizei, pela Ed. Vertente, uma antologia sofo mais lido / eles tentaram eu te asseguro / eles tentaram' /
de poesia com dez mulheres. Quis suscitar muita polêmica, e e às vezes minha própria imagem e o padre que ouvi na
consegui, a partir do título: Mulheres da Vida. Alguns, numa infância / eles tentaram eu te asseguro / eles tentaram / dia
leitura simplista e pobre, apenas o viam' como sinônimo de veio que me inteirei de suas intenções / assim como eles se
prostitutas. No entanto, eu estava tentando reapropriar vários inteiraram das minhas".
significados de uma expressão manipulada contra as mulheres Acho que todas - ou quase todas - falávamos na pri-
que apenas estavam na vida, que viviam. Todo o clima do meira pessoa do singular, mas que na verdade era do plural
livro era o de desmitificar aquela "lírica feminina" estagnada (o plural emotivo). Arte pra mim é isso mesmo: aproveita-
no tempo e no espaço, alienada da realidade social e violenta mento de situações concretas, mas de um jeito que as extra-
do país. pole.· O individual coletivo. A meu ver, este também foi o

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~
grande avanço dos movimentos homossexuais: falar em pri- impossível é se fazer isso com relação à mulheres com vivên-
meira pessoa, jogar nas reuniões a vivência particular como das homossexuais. J:, como se inexistissem. Naturalmente não
um dado político, quando então boiavam claramente as for- estou levando em consideração os jornais da grande imprensa,
mas de repressão, a partir da família. Substituindo as palavras repletos de manchetes diárias explorando o assunto através de
de ordem e os velhos chavões, surgia o eu, que está em todos crimes, violências e versões sensacionalistas, pois estas fontes
nós, o eu plural, nosso emocional exposto não como uma ses- não são nada confiáveis. Embora todos saibam que são inú-
são terapêutica (quem falou em doentes ou cura?), mas po- meros os casos de mulheres com vivência homossexual agre-
lítica, e patética. E poética. Não se falava de repressão como didas e violentadas de todas as formas, poucos são os que vêm
uma palavra vaga que passava ao longe, mas da nossa pró- 11luz do conhecimento público, inclusive por medo das pró-
pria, a que dormia e acordava conosco, na nossa cama.Fo- prias vítimas. Por isso, só pude me ater a três casos, compro-
ram dias importantíssimos de descoberta, estávamos diante de vadamente verídicos, dos quais, indiretamente, participei de
uma revolução sem armas, e que no entanto era tão perigosa dois: o de Marisa Nunes, participante do GALF, de SP, e o
quanto as explosões nucleares, ou os arsenais de munições. de Ninuccia Bianchi, que. me concedeu uma entrevista para o
jornal Lampião (trabalhei nele enquanto foi possível, durante
* * '" três anos, do nQ O ao 31).
Marisa Nunes, com 19 anos, num sábado, 25/11/79, às
Esta parte está parecendo mais uma avalanche do que dez e meia da noite, eSIava andando pela rua quando um ho-
um . capítulo. Mas é difícil prender palavras nesta primeira mem a abordou, pediu seus documentos e não os devolveu
oportunidade que tenho para soltá-Ias, para falar de saldos, com a alegação de que uma moça com o seu tipo físico assal-
saltos, vivências, datas, danos. Quem já escreveu um diário tara dois rapazes, e que a polícia (mostrou-lhe uma carteira
sabe que não se pode exigir dele um tom bem-comportado de longe) estava detendo todas as que correspondiam à des-
como o de um dicionário, que mesmo focalizando assuntos crição. Bateu no bolso dizendo que estava armado, e que a
tabus, como o do Palavrão e Termos Afins, de Mário Souto levaria para o 49 Distrito, próximo dali. Foram a pé. No
Maior (Ed. Guararapes, de Recife, 1980), torna-se "científi- meio do caminho, ele a agarrou, enfiou-a por uma entrada de
co" e respeitoso, um verdadeiro compêndio, visando mais o casa valendo-se de força, e a estuprou. Depois lhe devolveu
folclore regionalista do que o palavrão (irn ) propriamente dito. identidade, perguntando: "Quantas vezes você gozou?". Com
Não aparece nenhuma terminologia do gueto homossexual do aiva e nojo ela respondeu: "Umas dez". Como prova de ter
Rio e de SP. Cheguei até a pensar em mandar uma relação, stado lá, deixou um modess atrás do divã.
com o intuito de preencher a lacuna. Mas desisti, destoaria Conseguiu que a polícia fosse ao local, arrombasse a por-
muito, pareceria "sacanagem"... O problema dos teóricos é ta, constatasse o absorvente, levasse à delegacia o estupra-
que eles. se baseiam quase que exclusivamente nos grandes dor, Clodomir da Silva Pereira, 37 anos, casado, auxiliar de
mestres da língua (pátria, naturalmente) para as suas pesqui- química num bairro da alta classe média paulista (Moem a ) .
sas. .. e aí saem palavrões. .. eruditos. á ele reclamou: estava dormindo muito bem (a luz foi apa-
Outra constatação: enquanto é possível (embora difícil) ada quando a polícia chegou) e apareceram aqueles guardas
se fazer um dossiê, mesmo que pobre, de violências cometidas que arrombaram sua casa e o acusaram de estupro só porque
contra homens com práticas homossexuais (veja-se o levanta- uma prostituta resolveu se vingar por ter recebido metade dos
mento realizado por Luís Carlos Machado, no seu livro: Des- mil cruzeiros que pedira. O delegado procurou os quinhentos
cansa em Paz, Oscar Wilde, Ed. Codecri, 1982), praticamente cruzeiros e não encontrou.

88 89

t
Ela oficializou a queixa, assinou-a em numerosas vias, cada por quem nele se senta". O público... esta hidra de
foi fazer a perícia médico-legal, e quando voltou encontrou milhares de cabeças (e nem sempre "em cada cabeça uma sen-
sua bolsa revirada e a acusação do delegado: os papéis acha- tença", há pré-julgarnentos consensuais ... ), este "ser" que
dos eram pornográficos (ela pertencia ao grupo Lésbico-Fe- aplaude, vaia, e pode condenar uma pessoa ao exílio em sua
minista e as meninas, naquela época, andavam cheias de pan- terra, até quando não é criminosa.
fletos sobre o movimento) e ela portanto devia ser mesmo Do terceiro caso só tive conhecimento através do livro
prostituta. Assim se descaracterizava a violência sexual... O autobiográfico intitulado A Queda para o Alto, publicado
acusado saiu rápido da delegacia, ela ficou até cinco da ma- postumamente pela Ed. Vozes (3~ ed., 1982). Sua autora, San-
nhã jurando inocência. .. De vítima passara a ré. dra Mara Herzer, conhecida como Anderson Bigode (Big),
Um mês depois do ocorrido, uma de suas advogadas, Dr" nascida em 10 de junho de 1962, em Rolândia, Paraná, ati-
Solange Gibran, descobriu não ter havido representação pela rou-se do Viaduto 23 de Maio, em SP, a 9 de agosto de 1980,
delegacia; conseqüentemente, o inquérito não fora instaurado, vindo a falecer na manhã do dia seguinte. O tema principal
apesar da vítima e do acusado terem comparecido na mesma do livro é sua vivência nas diversas unidades da FEBEM.
noite do estupro. Os papéis de sua bolsa continuavam con- (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) de SP, contan-
fiscados e serviam, segundo o delegado, para lançarem a sus- do as atrocidades, barbaridades, violências e sadismos contra as
peita da prostituição. O crime (apenas punido com pena de menores; sua situação era das piores, principalmente por sua
três a oito anos) tinha virado somente escândalo de uma postura masculinizada, parte da crise de identidade sexual ori-
"profissional" tipicamente fodida e mal paga.:. Dois anos e ginada por uma série de pressões emocionais acumuladas ao
meio se passaram e o processo ainda não tem sentença. longo de sua curta vida.
O outro caso foi o de Ninuccia Bianchi - preconceituo-
Não quero dizer com isso que a (des)orientação sexual
samente conhecido como o de "Nino, o italianinho". Ninuccia
se deve exclusivamente à sua passagem pela FEBEM (inclu-
foi acusada da morte de Vânia, sua ex-cornpanheira com quem
sive porque acho a pesquisa da origem da "homossexualidade"
não mais vivia, e julgada pelo 49 Tribunal do Júri, no Rio.
Igual à pesquisa da "heterossexual idade" ... ), mas é inegável
Nenhuma prova havia nos autos que justificasse sua indicia-
que a agonia que finalizou com seu suicídio tem muito a ver
ção, a não ser o fato de sua opção sexual diversa da maioria,
com as repressões (inclusive sexuais) que ela sofreu na iníân-
constatada pela descoberta de cartas amorosas entre as duas.
da e adolescência, tornando-a uma mulher em perpétuo con-
Baseando-se apenas em suspeitas, a acusação tentou incrirniná-
flito consigo mesma, com seu próprio corpo e com o mundo,
Ia por homicídio.
chegando ao máximo da inadaptação com sua saída da
Durou três anos o processo. Em 26 de junho de 80, por
FEBEM.
5 x 2 votos, ela foi inocentada, depois de ter sido humilhada
pela imprensa machista e sensacionalista, responsável por uma O texto que se segue é do livro de Sandra Mara, e em-
verdadeira devassa em sua vida, inclusive publicando as cartas bora se refira a prostitutas e homossexuais serve bem para
que não tinham nenhuma vinculação com a morte de Vânia. mostrar seu senso de compromisso social: "O caso é que a
Apesar do final jurídico feliz, muito tempo mais tarde ela ain- sociedade incrimina tanto homens como mulheres, e, como é
da se queixava de desemprego: mesmo absolvida, sua fama de cega, ainda não conseguiu perceber que a culpa não cabe a
"homossexual" continuava a persegui-Ia. Palavras dela: "O mais ninguém a não ser a -ela própria. Se eu tivesse meio de
banco dos réus é uma experiência amarga, pois ali começa a comunicar-me com todas essas pessoas, teria muito a dizer.
expiação ante o público de um fato muitas vezes não prati- Pena que a sociedade jamais admitiria culpa ou incompreen-

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são, mas infelizmente, minha cara sociedade, aí estão os frutos No final do livro, Batinga tem um capítulo intitulado
que por terrível fraqueza um dia foram semeados". "Shere Hite e o Lesbianismo Político": "Elas propõem a sua
Esse meu verso é pra Sandra Mara, embora ela não possa transformação (do mundo) material e cultural? Pelo contrá-
mais ouvi-lo: rio: acertando parcialmente na identificação do componente
machista, resvalam, no entanto, pelo escapismo oportunista
Te chamar de menor e sectário, que tanto combatem nos machos, apontando a re-
é piada. lação homossexual como a alternativa única. O 'inimigo' para
De todas, foste a maior Kelly /Hite não é o tipo de sociedade vigente em seu país,
abandonada. mas sim o macho, ou seja, o outro pólo da relação humana
fundamental. Para elas, as mulheres provavelmente estão livres
••• das forças destrutivas da sociedade; ( ... ) não vêem que
'opressão machista' pode ser também assimilada pelas mulhe-
Em 1980, conheci Fernando Batinga, quando reunia ma-
res e que transformar os machos em diabos e as fêmeas em
terial para um livro. Ele fora mais outro exilado, como tantos
santas é um maniqueísmo cômodo".
- o golpe militar transformou "exilado", de particípio passa-
do, num substantivo comum.. - saído do Brasil em 70, per- 1:. A relação entre mulheres/mulheres ou homens/ho-
maneceu no Chile até a queda de Allende, depois foi preso mens não é fácil, como também não são fáceis as de homens/
num campo de concentração, escapou de lá graças ao Gover- mulheres. Nenhuma relação é fácil, em suma, justamente por
no da Alemanha Federal, e finalmente viajou para a Europa ser uma relação entre duas pessoas distintas, com seus mun-
(Alemanha, França, Portugal, Itália e Espanha). dos, fantasias, esperanças, projetos, alegrias, sofrimentos. No
Pareceu-me incrível que um homem com esta vivência entanto, '0 que mais aparece são mitos generalizadores: o do
político-partidária tivesse interesse em parar para pensar e es- homem gozar mais rápido do que a mulher e ter prazer mais
crever sobre sexualidade feminina. Mas teve. Segundo Fer- centralizado; o das "lésbicas" serem mais possessivas do que
nando, a idéia nasceu em Paris (1978) quando ele, conver- as "bichas"; o de que o caso entre elas é mais harmonioso e
sando com várias amigas suas, se espantou com os papéis e duradouro do que o entre eles; o do orgasmo simultâneo como
significados que uma mulher pode exercer na vida da outra. sendo o mais maduro e "perfeito"; as fábulas do maravilhoso
De minha parte, fiquei curiosa por ler a visão de um homem amor entre duas mulheres, a maior facilidade de "ser lésbica"
sobre o assunto e paguei pra ver: comprei o livro ---" A Outra
do que "bicha", porque mulheres podem se dar as mãos na
Banda da Mulher - quando ele saiu em 1981 pela Codecri,
rua e até andarem de braço dado, ou porque as famílias per-
e confirmei minhas suspeitas sobre o autor: uma pessoa capaz
mitem que as meninas durmam com as amiguinhas, sendo isso
de fazer um livro emocionante. Sem cair na armadilha de um
proibido aos meninos, etc. A esse respeito, convém lembrar que
teoricismo dissertativo, preferiu deixar que as oito. entrevista-
estas pseudo-Iacilidades ilusórias só são permitidas a quem as
das falassem em primeira pessoa, mostrando suas incoerências,
usa "sem maldade", "inocentemente", sem dupla intenção ...
dúvidas, rancores, incertezas, medos. Acho que quanto mais
se luta mais se aguçam as contradições, e o livro de Batinga As "lésbicas" não se dão a mão com tanta simplicidade, pois
é justamente valioso por mostrar que, em matéria de sexo, "nós já têm na- cabeça o sentimento de culpa a cerceá-Ias e coibi-
ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais", já Ias; qualquer gesto só propicia uma determinada prática sexual
diria BeIchior ... ' quando é feito intencional e conscientemente. Eu acho.

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••• querer a uma umca pessoa de cada vez (ai meu sangue gre-
go ... ). Lógico que na prática isto é complicadíssimo de ser
. A partir de quando me conscientizei dos prazeres (tam-
articulado. Mas dá pra tentar. Sei porque vivo assim.
bém sexuais) da vida, nunca quis ser homem. Não que ser mu-
lher implique num mar de rosas, em absoluto, mas, pelo menos,
está em nós a capacidade de questionar todo este estado de
'" '" '"
coisas; para os homens, embora ruim, o mundo é deles, e a E não me perguntem os motivos, as causas que levaram
opressão passa menos despercebida. Não há muito mais a alguma mulher a "escolher" outra, porque são tão variadas e
conquistar, eles são o referencial de tudo, o centro do universo. diversas como as que podem impulsionar alguém a preferir o
Lá vou eu com mais um de meus poemas, o "Referencial", sexo oposto. Falei em escolha, mas não sei se ela efetivamente
que está num livro ainda inédito chamado Mercado de Escra- existe. As pressões são tantas e tais que somos levados a ter
vas: "Solteira de aceso facho / precisa logo de macho; / se uma escolha, não a escolher (somos levados a não sermosÚ-
é nervosinha a casada / só pode ser mal trepada; / viúva cheia vados ... ). Outro dia, ouvi uma artista opinar que achava er-
de enfado / tem saudades do finado; / puta metida a valente / rada a atitude de determinadas cantoras ao fazerem proselitis-
quer cafetão que a esquente. / Mulher não vive sem homem. / mo, apologia do homossexualismo. Isto era indução. Concor-
A prova mais certa disto / é que até as castas freiras / são as do. Só que sequer mencionou as milhares de induções diárias
esposas de Cristo. / Tal regra é tão extremista / que não con- a uma prática heterossexual, presentes desde o primeiro vagido.
tém exceção: / quem sai dela é feminista, / fria, velha ou sa- Na "heterossexualidade" qualquer um está seguro, defi-
patão ... ". nido, defendido, resguardado, protegido, certo de estar no ca-
Seja qual for a preferência sexual, homens e mulheres minho certo, o da maioria. Sair dele é procurar atalhos, tal-
custam a perceber que a repressão sexual é parte da social. vez perigosos, tendo certeza de contar sempre com o repúdio,
Quando se cultua, por exemplo, sentimentos de posse, tratan- o estigma e intolerância sociais. Diante desta desproporção de
do-se pessoas como se fossem propriedades privadas, na ver- forças pode-se realmetne falar em opção sexual?
dade está se incentivando essas últimas; ao se alimentar senti- A prática homossexual deveria ser um abrir de fronteiras,
mentos exclusivistas, como o ciúme, inconscientemente se inclusive para um maior autoconhecimento. Mas nem sempre é.
apóia uma economia de monopólios. .. Ao se mitificar o ser Há fortes misoginias e misantropias, sexismos de todas as es-
amado como único e diferente de todos os demais, está se re- pécies, porque qualquer relação de poder (ativo/passivo, do-
produzindo a competição, privilegiando uns em detrimento de minante/dominado, forte/fraco) gera mais ódio e rancor do
outros. A sexualidade, que passa por ser um assunto estrita- que amor e afeto. Quando em vários Congressos eu falava da
mente individual, é, no fundo; um microcosmos da ideologia posição das mães e das desquitadas no MH, a reação era sem-
dominante. Resta-nos detectar o grau de manipulação e tentar pre a de espanto: na verdade, nem as mais "liberadas" pensa-
não repetir os mesmos vícios sócio-econômicos na nossa vida vam na prática homossexual como uma escolha, em vez de fa-
amorosa, no corpo-a-corpo ... talidade ou estigma. "Lésbicas só são lésbicas", uma vez lésbi-
_ Pessoalmente, concluí que o amor não é um bolo do qual ca, lésbica até morrer. Esta estereotipia serve menos para di-
se tire. um pedaço, desfalcando o restante. Sensações - ferençar quem é quem, do que para tranqüilizar quem não é,
amor, prazer, sexo - não são coisas que se quebram sem quem. Só que às vezes as coisas são mais complexas, e aí sur-
conserto, de forma irremediável. Quanto mais se ama, lucida- preendem, assustam, ameaçam. Uma "lésbica", com filho, po-
mente, mais se acrescenta, e não há obrigatoriedade de se de ser "confundida" com uma mulher "normal". Por isso uma

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grávida chegou a me dizer possessa: "não tenho nada a ver o encaminhamento correto de seus projetos, que fatalmente se-
com a luta homossexual, acho mesmo a das, prostitutas 'mais riam "desvirtuados", se saíssem destes severos padrões ...
justa' ... ". Como se as fontes repressoras de ambas não vies-
Já em 1976, João Silvério Trevisan tentava, em São
sem da mesma origem machista, preconceituosa, moralista.
Paulo, formar um núcleo com pessoas de prática homossexual:
Enquanto a indústria do orgasmo fabrica gozos a ataca-
sem conseguir. No Rio, desde meados de 77 também se tenta-
does), de todos os tamanhos - inclusive descartáveis - a
va, inutilmente. O que deu muita força e praticamente apoio
gente se propõe a achar o prazer individualizado, porque ge-
para se começar o movimento, foi o jornal Lampião, cujo pri-
neralizá-lo é igualá-lo, uniíormizá-lo, massiíícá-lo, massacrá-lo
meiro número saiu em abril de 78, e que, no início, serviu
e faz parte da política de padronização do que é "certo" e "er-
realmente como porta-voz de vários grupos estigmatizados. O
rado", perseguindo-se o que sair fora dos esquemas e cânones Lampião foi o primeiro a tratar questões sexuais com enfoque
convencionais. Nenhuma mulher deveria ser criada para cria-
político. Daí a sua importância.
da, nem apenas para reproduzir. Sacanagem não é o que faze-
Antes dele houve vários "jornais gays", a partir de 1961
mos na cama. f: o que fazem conosco. Por tudo isso, fico com
(Snob foi o primeiro). Uma vez entrevistei estes pioneiros,
o meu "Ponto de Vista": "Eu não tenho vergonha / de dizer
Anuar Farah e Agildo Guimarães, conseguindo um levanta-
palavrões / de sentir secreções / (vaginais ou anais). / As
mento das. vinte e sete publicações em circulação na época.
mentiras usuais / que nos fodem sutilmente / são muito mais
Foi fundada inclusive a ABIG - ASSOCIAÇÃO BRASILEI-
imorais, / são muitotmaís indecentes,"
RA DE IMPRENSA GA Y, aglutinando todos esses "nanicos"
brasileiros. Seu primeiro presidente foi Anuar, que nos conta:
"A ABIG foi feita para lutar, porque nós todos tínhamos um
ideal, queríamos mostrar que éramos pessoas normais, que fa-
o MOVIMENTO HOMOSSEXUAL BRASILEIRO "íamos o que todas as outras faziam, sem diferenças".
ORGANIZADO - ESSE Todas aquelas publicações lidavam com o material dispo-
QUASE DESCONHECIDO nível na época: fatos, fofocas, piadas, notícias de festas, reu-
niões em que se juntavam pessoas que se sentiam marginalizadas
"'Quem cala consente'.,. Como
pela sua opção sexual. Como em geral tratavam de amenida-
se o silêncio não fosse a imposição de
des, eram encaradas como "coisa de bichinhas", e em meio a
um discurso"
(Herbert Daniel) muitas dificuldades, inclusive financeiras, acabaram. Só dezes-
te anos depois é que renasceu a "imprensa gay", desta vez
Foi mencionada, na primeira parte, a dificuldade de se maior, profissional, falando de prazer enquanto meta a ser al-
começar a criar um espaço para se falar de sexo, como fonte cunçada. A importância dó Lampião para o movimento ho-
de prazer e ao mesmo tempo reivindicação de luta. Relem- mossexual daquele tempo fica constatada quando se observa
brando, a luta político-partidária não encampava as específicas. que logo no mês seguinte ao de seu lançamento, portanto em
A esquerda tradicional, inclusive, via os exilados que voltavam llluio/78, surgiu o primeiro grupo homossexual organizado no
com outros tipos de propostas políticas (através da sexualida- Brusil: o SOMOS/SP, homônimo ao da revista do primeiro
de), como desbundados (isso em pleno 78/79), o que equiva- rupo homossexual da América Latina, a FILHA - FRENTE
lia a demonstrar todo o descrédito sentido por quaisquer ou- DE LIBERTAÇÃO HOMOSSEXUAL DA ARGENTINA, já
tros meios de luta. Para eles, na austeridade e sisudez estaria naquele ano massacrada pela repressão estatal.

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Entre seus fundadores, se destacavam dois escritores: o o LIBERTOS (de Guarulhos, em abril) e o EROS (de SP, em
mesmo Trevisan e Glauco Mattoso, que desde 77 fazia o Jor- maio).
nal Dobrabil, com a sua deliciosa gaxeria axegria - notem No Rio, a primeira experiência a ser concretizada foi o
que o "1" é escrito como o lambda grego, em muitos países o GAAG - GRUPO DE ATUAÇÁO E AFIRMAÇÃO GA Y,
símbolo do MH, além de uma série de brincadeiras com a pa- criado em 1/7/79. Pontos interessantes a salientar: sua com-
lavra gay, alegria em inglês. Segundo depoimento da época, posição era mista, mas a maioria era de mulheres, inclusive na
não houve a priori nenhum plano organizado sobre o funcio- coordenação; seu âmbito de atuação foi basicamente a Baixa-
namento do grupo, a única coisa que tinham em mente era se da Flurninense (região famosa por seu alto índice de crimina-
encontrar fora dos locais do chamado gueto. A partir destas lidade, pobreza e descaso governamental), com seus compo-
conversas iniciais, começou um processo de conscientização de nentes morando em Duque de Caxias, Nova Iguaçu e São João
como era inédita e necessária a experiência deles.
de Meriti; e sua cyrta vida, pois não chegou aos primeiros me-
Durante muitos meses o SOMOS não teve preocupação
ses de 1980, nada mais se ouvindo a seu respeito.
de divulgação externa. Suas atividades consistiam, basicamen-
Motivados pelos freqüentes artigos publicados no jornal
te, em papos e reflexões. Neste período buscavam alcançar
uma identidade enquanto grupo, a partir da vivência homos- Lampião sobre os primeiros grupos paulistas, alguns cariocas
sexual, elemento comum a todos. "A coisa não foi fácil. Ti- passaram a fazer contato com os mesmos, ou através de car-
vemos uma existência quase clandestina e muito conturbada. tas, ou mesmo indo a SP participar de reuniões, até que em
Imaginem um bando de pessoas freqüentemente com proble- setembro de 1979, com cerca de cinqüenta pessoas, e entre
mas básicos de aceitação pessoal, tentando encontrar o ponto elas lá estava eu, é formado um agrupamento no Rio, poste-
comum para iniciar um diálogo sobre si mesmas. Tudo bastan- riormente chamado de SOMOS/RJ - em sinal de união com
te dilacerado, de um lado. Muita dúvida porque tudo era no- o seu homônimo, seguindo uma estrutura semelhante: reuniões
vo. E uma extrema oscilação de gente entrando e saindo. Mui- de recepção para os novos membros; de reflexão, em que se
tos vinham para espiar. Se decepcionavam. De fato, não tínha- desenvolvia a consciência individual face à repressão social; e
mos nenhuma fórmula para mudar o mundo. Eles iam embora. subgrupos de atividades.
Pelos motivos mais diversos. S6 não diziam que era por medo, O primeiro racha do MH brasileiro se deu no Rio, em
insegurança - coisa que todo mundo lá dentro sentia". dezembro, nas vésperas da prévia do IQ Encontro de Grupos
Quase no final de 78, foi atingida uma nova fase, mais Homossexuais Organizados (EGHO). Possível motivo: o
pública e formalizada: houve uma reunião ampla no Teatro SOMOS/RJ, desde o seu início, devido ao grande número de
da Praça, para a qual anteriormente foram distribuídos panfle- participantes, teve necessidade de se dividir em dois subgru-
tos mimeografados, e após o debate da USP (fev./79) o pos: um na Zona Norte, o outro na Zona Sul, o que acarre-
grupo se tornou amplamente conhecido, ganhando seus con- tou experiências diferentes e práticas até certo ponto confli-
tornos definitivos. Um dos problemas mais sérios era a ausên-
tantes, visto que, enquanto na Zona Norte se privilegiava a re-
cia de mulheres. As poucas que no decorrer de 79 se orga-
flexão pessoal - o que significava a fala (difícil e até dolo-
nizaram no SOMOS passaram então, dentro dele, a formar o
LF - Lt::SBICO-FEMINISTA -, por acharem que seus rosa) em primeira pessoa, ao expor as experiências vivencia-
problemas eram específicos, isto é, a maioria masculina ten- das -, na Zona Sul a ênfase era dada a discussões metodo-
dia a discutir assuntos masculinos, em detrimento dos femi- lógicas sobre as melhores formas de organização, não impli-
ninos. A esta altura, já havia em São Paulo mais dois grupos: cando, portanto, um envolvimento individual tão forte quanto

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o necessário numa prática reflexiva. Talvez por isso permitiu-
sem que com isso fosse posta em dúvida sua identidade sexual
se, na Zona Sul, a presença de uma antropóloga sem vivência
masculina para os homens ou feminina para as mulheres. Pas-
homossexual, a qual declarada mente estava ali apenas para co-
sou-se então a usar a palavra homossexual apenas como adje-
lher material para a sua tese de mestrado.
tivo de comportamento e jamais como classificação de pessoas.
Enquanto a referida pesquisadora freqüentou apenas as
Em 15 de dezembro é realizada, no Rio, a primeira reu-
reuniões do subgrupo que a aceitava não houve problema, já
nião preparatória para o EGHO, contando (além do SOMOS;
que eles tinham independência na sua organização interna;
SP, EROS, LIBERTOS, GAAG, SOMOS;RJ e AU~) com a
mas quando ela compareceu à reunião geral (em 9 de dezem-
participação de dois outros grupos, formados ao longo do ano
bro de 1979), com direito a voto e a deliberações, houve tan-
de 79 - de setembro á dezembro: o BEIJO LIVRE, de Bra-
tos protestos que, três dias após, as pessoas dissidentes, incon-
sília e o SOMOSjSOROCABA. Ficou marcado para abril (Se-
formadas, resolveram formar o AU~ - GRUPO PELA LI-
mana Santa), em São Paulo, o grande encontro.
VRE OpçÃO SEXUAL, nome dado quase de brincadeira
(auê) pela confusão, movimentação e agito criados em torno
Em 79 três fatos importantes a ressaltar, sendo o primei-
do fato. ro, internacional: o 129 Congresso da Anistia Internacional
(reunido em Louvain, Bélgica) configurou como "prisioneiras
Não ia nisso nenhuma intransigência nem atitude discri-
de consciência" as vítimas de opressão sexual (ou seja, quem
minatória ou contrária às pessoas de vivência heterossexual;
fosse aprisionado, detido ou restringido fisicamente, de qual-
tratava-se apenas de que não se via sentido em questionar a
quer modo, pelo sexo); assim, como preso político, se adqui-
repressão às práticas homossexuais com pessoas que não so-
ria o direito a asilo. Com relação a isso, convém se lembrar
friam na pele este tipo de problema. Nesta briga, fiquei com o
que a Suécia já era um dos poucos países cuja legislação pre-
AU~, que fechava mais com minha ideologia. Trecho do pri-
via a concessão de asilo por razões de discriminação à opção
meiro manifesto: "acreditamos que a liberdade sexual seja es-
sexual. Essa lei, porém, jamais fora aplicada a estrangeiros.
sencial para uma sociedade mais justa e democrática, sendo
Coube a uma mulher brasileira, Maria Josenilda Felix Duarte,
portanto parte integrante de uma liberdade mais ampla, social.
inaugurá-Ia, quando, num processo que durou dois anos, in-
Tudo o que prejudicar a liberdade sexual afeta necessariamen-
clusive com documentos comprobatórios de que a prática ho-
te a liberdade em geral, e vice-versa, sendo a existência de am-
mossexual no Brasil pode ser considerada atentatória à moral
bas inter-relacionadas e interdependentes. Não nos propomos
e aos bons costumes, ela obteve o asilo, em 28-7-81.
à mera integração na sociedade atual, pois a vemos profunda-
Josenilda conta que até na luta armada, numa organiza-
mente injusta e marginalizadora. Desejamos mudanças em vá-
ção maoísta, ela foi discriminada por suas práticas homosse-
rios níveis, desde a social até a das nossas individualidades.
xuais. "Aí minha cabeça pirou, o pânico político misturou-se
Acreditamos assim poder contribuir para uma luta coerente
ao sexual". Em 74 foi para Portugal, onde constatou que a
pelo prazer, direito (e por que também não dever) de toda
Revolução dos Cravos não abalara ce!tos preconceitos. Sem-
pessoa".
pre considerada presona non grata por onde passasse, em
Uma das características que diferia o AU~ dos outros 79 ela entrou com o processo na Suécia. "Meu pedido de asilo
grupos brasileiros estava em que ele foi o primeiro a não acei- não foi só para defender meu direito homossexual, mas para
tar uma "identidade" homossexual, aprofundando a discussão defender todo um grupo social". Realmente, criado o prece-
e a crítica à falsa dicotomia que divide os seres em dois. Gen- dente, outros casos poderão nele se basear, para atingirem
te deveria poder apresentar quaisquer tipos de comportamento, igual objetivo.

100 101
Os outros dois fatos de destaque ocorreram no campo ju- o tratamento dado aos homossexuais; denunciar junto ao Con-
rídico: a absolvição do jornalista Celso Curi (em 12 de mar- selho de Psicologia a discriminação feita durante o recruta-
ço), pela 14~ V. Criminal de São Paulo, com processo desde mento e seleção de candidatos a emprego; preservar a autono-
1977 por ter sido enquadrado no artigo 17 da Lei da Impren- mia do MH, enquanto movimento, sem se afastar a possibili-
sa, por "ofensa à moral e aos bons costumes", através de sua dade de uma participação individual de homossexuais em ou-
"Coluna do Meio", no jornal Ültima Hora, de SP; e, em ou- tras lutas".
tubro/79, o arquivamento pela 4~ V. Federal do inquérito ins- Este último item já previa a terrível tormenta que se aba-
taurado, desde agosto de 78, para a apuração da participação teria em São Paulo, proporcionando o racha do SOMOS, no
ilícita de cada um do Conselho Editorial do Lampião, invo- famoso 17 de maio. Desde junho de 79 que alguns militantes
cando-se novamente o mesmo artigo, e a mesma Lei 5260/67. da Convergência Socialista (organização política de linha trots-
1980 foi um ano de grande movimentação: em 29 de feve- kista, posteriormente vindo a se integrar ao PT) participavam
reiro, surge em Salvador o GGB - GRUPO GA Y DA BA- do SOMOS/SP, motivando-se depois para organizarem a
RIA, que se apresenta como uma "associação de homossexuais FHCS - FRAÇÃO HOMOSSEXUAL DA CONVERG~N-
que tem como objetivo refletir e trabalhar em prol da liberda- CIA SOCIALISTA. Este núcleo, com suas propostas de ativi-
de sexual em geral, e, mais especificamente, lutar pela causa dade política claramente definidas junto ao operariado do
homossexual". O GGB sempre foi dos mais ativos no Brasil, ABC (Grande São Paulo), veio a se chocar com a maioria
em grande parte incentivado por um dos seus fundadores, o dos fundadores do SOMOS, de orientação anarquista, preocu-
antropólogo Luís Mott. Foi um dos poucos que conseguiu agir pados em discutir mais expressamente a sexualidade.
junto às populações carentes, inclusive prestando serviços médi- Estas duas tendências contraditórias entraram em choque
cos gratuitos e fazendo levantamento de doenças venéreas com violento a partir do 19 EGHO, culminando na comemoração
os travestis do Pelourinho. do 19 de maio de 1980, quando uma parte foi participar das
Em junho, realizou-se o Encontro, dividido em duas par- festividades dos operários em São Bernardo do Campo, inclu-
tes: a fechada (EGHO, com participantes apenas do MH e sive com faixas denunciando a discriminação ao trabalhador
onde discutiu-se temas que interessavam a estes movimentos) e homossexual, e a outra parte resolveu fazer um piquenique
a aberta (o EBHO - Encontro Brasileiro de Homossexuais), no Ibirapuera.
no teatro Ruth Escobar, um coroamento de todos os nossos A 17 de maio (80) consolidou-se o racha. O grupo dos
trabalhos e esforços. Entre os consensos do EGHO estavam: "antigos" considerou-se desligado do SOMOS e formaram um
"entrar em contato com médicos, psicólogos, psiquiatras e in- novo agrupamento que, a 25 de maio, se denominou OU-
teressados, dentro dos grupos e fora deles, para elaborar tra- TRA COISA - GRUPO DE AÇÃO ROMOSSEXUALIS-
balhos sobre homossexualismo, criando discussão dentro do TA, e em cujo primeiro manifesto afirmava: "De repente, de-
Congresso Anual da SBPC; criar, em cada grupo, comissão en- cretou-se que as bichas e lésbicas do SOMOS tinham que ser
carregada de estudar medidas para viabilizar: 1) a alteração solidários às lutas dos setores oprimidos da população. Isto
da Constituição Brasileira no que diz respeito à opção sexual, porque, sendo oprimidos, deveríamos apoiar todos os outros
incluindo este termo nos direitos individuais do cidadão; 2) a setores que o eram. Assim, esta posição passou a ser um' dog-
alteração no Código Internacional de Doenças - OMS -, ma dentro do grupo. Os que dela discordavam eram tidos
seguido pelo INAMPS, do artigo 302.0 que inclui o homosse- como 'fascistas', 'inconseqüentes'. CONSIDERANDO que a
xualismo como desvio mental; elaborar carta, destinada à Asso- imagem externa do Grupo SOMOS está irreversivelmenteasso-
ciação de Psiquiatria e de Psicologia do Brasil, denunciando ciada ao grupo Convergência Socialista; que a autonomia do

102 103
Grupo SOMOS está comprometida pelo caráter da atuação de sexuais ocorridos naquele mês em Pernambuco, todos eles tra-
elementos filiados a organizações políticas partidárias; que o tados pela grande imprensa em tom sensacionalista e precon-
Grupo SOMOS foi desviado de sua definição como grupo de ceituoso, sempre acabando por inverter situações, colocando o
homossexuais interessados em discutir basicamente nossa se- assassinado como responsável pelo crime, e o assassino como
xualidade e lutar contra a discriminação sexual, passamos a uma vítima das circunstâncias.
constituir um novo grupo que se propõe a reafirmar a defini- Nos Estados Unidos, a partir de 2.8 de junho de 1969, e
ção do grupo homossexual autônomo e interessado prioritaria- durante, uma semana inteira, em Greenwich Village, Manhatt-
mente na questão homossexual". an, cérca de quatrocentos homossexuais saíram às ruas para
Também como conseqüência deste racha, na mesma reu- protestar contra a onda de repressão policial e prisões que vi-
nião de 17 de maio, houve a separação das mulheres do Grupo nham ocorrendo em lugares gays, cujo clímax tinha se dado
Lésbico-Feminista do SOMOS/SP passando a formar o GALF na véspera, numa batida policial ocorrida em Stonewall'Inn,
- GRUPO DE ATUAÇÃO Lf:SBICA-FEMINISTA (tudo no bar homossexual localizado na Christoper Street, onde foram
feminino). Diziam elas: "Dada a especificidade da discrimina- feitos muitos feridos e efetuadas treze prisões. Por isso, 28 de
ção que sofremos, enquanto mulheres e homossexuais, consi- junho ficou como marco da organização de homossexuais, e
deramos o processo de afirmação somente possível em reuniões desde aquele ano foi comemorado como o "Dia do Orgulho
separadas das dos homens. As mulheres não podem descobrir Gay" , "Gay Pride". No Brasil, o IQ EBHO resolveu também
o que têm em comum a não ser em grupos só de mulheres. E adotar essa comemoração, mas se achou que "orgulho gay"
falsa a idéia de que um grupo homossexual precise de lésbi- não tinha muito a ver com o Brasil, e preferiu-se um título
cas para levar a questão feminista". Isto era a reafirmação do que ressaltasse a necessidade de atuação sócio-política para o
que elas já tinham dito, um mês atrás, no IQ EGHO: "O les- MH: "DIA DA LUTA HOMOSSEXUAL"; a primeira vez
bianismo não se descarta do movimento homossexual, mas tem em que foi festejado foi em 1980, tendo os grupos cariocas
especificidades que justificam os grupos exclusivos de mulhe- apresentado inclusive um dossiê de crimes praticados contra
res, levando-se em conta a importância da discussão das se- homossexuais no Brasil. Em sinal de solidariedade com as lu-
xualidades especificas. Então, num primeiro momento, a união tas de outros grupos estigmatizados, convidou-se para dirigir
é necessária como fator de agrupação, afirmação e organização, os debates a militante negra e feminista Lélia Gonzales.
mas depois, também, é preciso que haja grupos separados, sem Em julho houve a formação de mais dois grupos: o
que isso signifique a perda do caráter coletivo da luta, já que GOLS/ABC-SP, dia 12, e o BANDO DE CA, no dia 20. O
o elo comum é o combate contra a opressão discriminatória". GOLS _ GRUPO OpçÃO À LIBERDADE SEXUAL tinha
Em maio ainda, além do OUTRA COISA e do GALF, como meta "trabalhar e divulgar no ABC a causa homosse-
surgiram o TERCEIRO ATO, de Belo Horizonte, 0- AUE/ xual, procurando não apenas criar novos espaços, como tam-
RECIFE e o GATHO, de Olinda. Sobre o primeiro: "Nosso bém despertar o diálogo, o papo franco e verdadeiro sobre o
grupo é o TERCEIRO ATO, está relacionado ao ato de ques- assunto, em virtude de ser a' região' carente de esclarecimen-
tionamento, enquanto o primeiro está relacionado ao ato ins- tos", Quanto ao BANDO DE CA, surgiu após uma agitação
tintivo e o segundo ao ato condicionado". Quanto ao AUE/ em Icaraí, realizada por alguns moradores de Niterói e mem-
RECIFE, fundado por uma mulher, teve vida efêmera. Dos bros do AUE/RIO, interessados na formação deste novo grupo.
três, o GA THO - GRUPO DE ATUAÇÃO HOMOSSE- Diziam no primeiro manifesto: "Um BANDO significa
XUAL foi o único que vingou, sendo até hoje um dos mais multidão, reunião de bandidos, pessoas que habitam determina-
atuantes. Surgiu como reação à série de assassinatos de homos- da região e possuem características comuns, Tudo isso vem de

105
104
encontro ao que somos, mulheres e homens aos bandos, margi- "Escolha seu Grupo". Estes reagiram, comentando com per-
nalizados e oprimidos em nossa sexualidade, e ao que querem plexidade o gradual afastamento do jornal, numa carta aberta
ser: pessoas, vivendo e convivendo sem diferenciações sexuais, ao Lampião e assinada pelos AU~/RIO, SOMOS/RJ, BAN-
raciais, sociais, e, portanto, numa sociedade libertária. Ao as- DO DE CÁ/NITERÓI, GALF, GGB e GOLS/ ABC.
sumirmos o lado de cá, não pretendemos reafirmar a segrega- O periódico passa então a acusar nominalmente seus
ção de que somos vítimas, mas denunciá-Ia, ao definirmos a "detratores" e adquire uma linha claramente revanchista e an-
face da opressão em cada fatia de nossas vidas". Infelizmente, ti-ativista. Esta situação vai perdurar até o último número, o
este grupo teve curta duração. 37, em junhc/Bl . Foi lamentável esta disputa por todos os
A 10 de julho, durante a realização da 32zt Reunião motivos: os grupos perderam um espaço importante para a
Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência veiculação de suas idéias; os leitores do jornal se desmotiva-
(SBPC), os grupos AU~ e SOMOS/RJ organizaram um gran- ram em relação aos grupos; e o jornal desgastou-se junto de
de debate, que contou com a presença de mais de seiscentas uma de suas bases de sustentação, vindo a implodir por ques-
pessoas e a participação de outros grupos: GALF, OUTRA tiúnculas internas.
COISA, SOMOS/SP, grupos feministas e negros do Rio e ma- A partir do racha do SOMOS/SP, o OUTRA COISA
nifestos de BEIJO LIVRE, GGB e GA THO. A idéia de se iniciou um movimento de trabalho junto com os grupos
intervir na SBPC surgiu no 19 EGHO, quando, após uma série EROS e LIDERTOS, formando o MHA - MOVIMENTO
de discussões, ficou patente que a ciência, em quase todas as HOMOSSEXUAL AUTÔNOMO, em oposição ao "excessivo
suas expressões, pelo academicismo e cientificismo com que engajamento político-partidário" de que acusavam o SOMOS.
trata o assunto, "é uma das maiores responsáveis pela atual Segundo o MHA: "Autonomia significa termos a nossa pró-
marginalização e opressão sofrida pelos homossexuais" (Lam- pria análise e as rédeas dos nossos destinos como organização
pião, n9 27). O debate teve de ser realizado no hall do nono e a prioridade na discussão e defesa da questão homossexual.
andar do campus da UERJ, já que não foi concedida autori- Autonomia significa entender, na prática, que somos um mo-
zação para ser feito nas reuniões oficiais da SBPC. vimento político, mas não partidário. Isso não quer dizer au-
No entanto, apesar do estrondoso êxito conseguido com a sência de discussões sobre temas relevantes da nossa situação
polêmica gerada em torno do tema "Homossexualismo, Re- política-social, mas que não sejamos utilizados em nome de
pressão e Ciência", houve quem o criticasse. Francisco Bitten- discursos 'mais amplos' ou 'mais importantes'. Ou em nome
court, um dos redatores do Lampião, no mesmo número, afir- de interesses que não são os nossos".
ma que: "Os homossexuais foram dar vexame num saguão, ce- Em setembro de 80 aparece o grupo NÓS TAMBf.M
dido com o maior desdém pelos promotores do Encontro (e as GRUPO DE ATUAÇÃO HOMOSSEXUAL, em João Pessoa
bichas dizem que 'invadiram o Congresso da SBPC'!) para (PB). Entendendo que as manifestações artísticas eram uma
que os representantes de alguns grupos homossexuais usassem das melhores formas de superação da dicotomia teoria/ práti-
mais uma vez de seus jargões mais batidos do que os do Par- ca, esse grupo a elas deu ênfase, através de filmes super-8, es-
tido Comunista. O que o pessoal quer é entrar mesmo para o petáculos teatrais, produções de artes plásticas, realizando até
PT e colher as migalhas de poder que lhes forem lançadas". uma série de pichações favoráveis ao Movimento Homossexual,
Com isso começava-se a delinear a campanha contra os aproveitando a onda de graffiti que há alguns anos predomina
grupos ativistas, realizada pelo jornal Lampião, que em seu nas grandes cidades.
número 29 já não fazia mais menção alguma a respeito do Na mesma época surgiram também dois grupos homosse-
MH, sequer publicando a anteriormente costumeira seção: xuais exclusivamente de negros: o GRUPO DE NEGROS

106 107
-.

HOMOSSEXUAIS (de SP), por um ex-integrante do SOMOS diversos partidos de oposição. Como tentativa de sobrevivên-
e o AD"b-DUDU (de Salvador), por um ex-integrante do cia, o AU"b aliou-se ao SOMOS/RJ passando a funcionarem,
GGB. AD:b-DUDU significaria "homossexual negro", na lin- na prática, como um só grupo. Em São Paulo, amainou-se o
guagem do candomblé. Ambos os grupos se queixavam do clima de hostilidade entre os ativistas, a ponto de comemora-
pouco espaço que havia dentro do MH para a discussão do rem juntos, em maio de 82, os quatro anos do MH brasileiro.
problema específico do negro, ao mesmo tempo em que não Houve momentos memoráveis naquele ano de 80: as dis-
encontravam dentro do movimento negro um clima para a dis- cussões em' faculdades e as moções lidas em vários eventos
cussão de práticas homossexuais. significativos da política brasileira. Em 13 de junho, SP, qua-
Resta lembrar ainda a existência de mais três grupos: se mil pessoas em passeata na rua: "homossexuais" e prostitu-
COLETIVO ALEGRIA ALEGRIA, TERRA MARIA - tas protestando contra a violenta repressão (principalmente
OpçÃO LÉSBICA (ambos em SP) e DIALOGAY (de Ara- aos travestis), exercida pelas forças policiais do delegado Ri-
caju, SE), os três surgidos mais ou menos na mesma época, chetti. Panfletos foram distribuídos, denunciando arbitrarieda-
final de 80. O primeiro foi organizado em outubro/Bü por des, espancamentos, prisões ilegais, humilhações, curras.
ex-integrantes do SOMOS e do GALF, e funcionou como nú- Ainda em ~unho, dias 14 e 15, o I<?Congresso da Mulher
cleo de estudos e debates. O segundo, definiu-se a partir do Fluminense, no Rio, onde se conseguiu, pela primeira vez num
nome: "Terra porque é energia; algo que está nascendo da encontro heterogêneo deste tipo, moção de solidariedade às
natureza. Muita força. Maria, um nome comum que engloba mulheres "homossexuais", empenhadas na luta contra a vio-
tudo, muita coisa. Um nome que está em toda parte. Opção lência e a discriminação (anexo n9 1); fechando o mês, dias
lésbica porque é a nossa opção, uma identificação". Pergun- 21/22, em SP, o Encontro de Grupos Feministas em Vali-
tadas se a criação de mais um grupo não enfraquecia o movi- nhos, da maior importância para clarear rumos e expectativas
mento, responderam: "é com a pluralidade que teremos um comuns dos movimentos feminista e homossexual.
confronto de idéias. Não estamos disputando o poder com os Em 28-8-80, o repúdio aos atentados terroristas, através
outros, rivalidade, nada disso. Se há divergência é quanto à de nota entregue ao CBA, e outra aos Sindicatos dos jorna-
metodologia". DIALOGA Y, embora com .muitas dificuldades, leiros e aos jornais incluídos no Listão (anexo n9 2). Em 16
sobrevive e ainda continua de pé, inclusive com a publicação de outubro de 80, outro momento a ser lembrado com emo-
do seu boletim, vendido em bancas de jornais de Aracaju. ção foi o do ato público em que grupos feministas e homosse-
O MH, que nos seus áureos tempos (segunda metade de xuais se juntaram para protestar contra a onda de assassi-
80) chegou a contar com dezessete grupos pelo país, alguns natos, gigantesca na época (anexo n9 3). Em 20-11-80, a
comemoração do "Dia da Consciência Negra" e aniversário da
deles com centenas de ativistas, a partir de 81 sofre notável
morte de Zumbi, na Cinelândia (anexo n9 4). O MH esteve
descenso (não só ele como também os grupos de mulheres e
presente em momentos importantes da vida brasileira, e se
negros), com a extinção dos menores e esvaziamento geral
no fim transcrevo cinco textos, é para demonstrar 11 vincula-
das atividades. Possíveis causas: briga entre o Lampião e os
ção de sua luta com outra mais ampla, que também passa pela
grupos, com uma divulgação negativa que desentusiasmava os
sexual para atingir seus objetivos democráticos.
possíveis interessados; um certo cansaço dos atívistas,' desgas~ No ano de ,82, já houve alguns marcos significativos, a sa-
tados ao longo do processo e dos conflitos de 80; as condi- ber, maio: em SP, a comemoração dos quatro anos do MH,
ções gerais da conjuntura sócio-política do país, nos percalços com uma semana de debates, filmes e festas no Te atro Ruth
da "abertura" do governo Figueiredo, junto aos impasses dos Escobar, em promoção conjunta de todos os grupos paulistas;

108 109
fundamente humana e fraternal, igualitária, entre as pessoas,
iunho: no Rio, a comemoração do "Dia da Luta Homosse-
xual", numa promoção do AU:f:/Rio e SOMOS/RJ, através de sem nenhum tipo de discriminação".
Neste tópico existe uma sucinta análise dos dramas cru-
debates no Teatro Ipanema, local lotado (gente em pé por
ciantes dos diversos grupos estigmatizados, inclusive afirman-
todos os lados), contando com a participação de Herbert Da-
do: "Os homossexuais são humilhados e discriminados, trata-
niel, Eduardo Mascarenhas, Lélia Gonzales, Glauco Mattoso
dos como doentes ou caso de polícia. ( ... ) preciso acabar
É

e show de Lecy Brandão, Bráulio Tavares, GANG, entre ou-


com todas as formas de discriminação. As minorias, índios e
tros; julho: liderados pelo GGB e NÓS TAMBtM, o MH par-
homossexuais, têm que ser integralmente respeitadas". Eviden-
ticipa intensamente da 3411- Reunião Anual da SBPC, provo-
temente, uma tão grande transformação não acontece pOI
cando debates. intervindo e denunciando os preconceitos pseu-
mero acaso, e sem dúvida alguma foi obra também do "duplo
damente científicos contra a livre orientação sexual. Vale sa-
ativismo" de algumas pessoas no PT e no MH. E é importante
lientar também a campanha do abaixo-assinado, com mais de
que se leve a discussão de sexualidade inclusive para a área
vime mil adesões, contra o item 302.0 do CID, adotado pelo
parlamentar, para que se abra cada vez mais tribunas e espa-
INAMPS. Ainda em julho, em Recife e Olinda, o GAmO
ços de intervenção, ensejando também mudanças de leis ana-
promove um curso sobre homossexualismo, dentro do Encon-
crônicas que não atendem mais à realidade social.
tro Nacional de Estudantes de Medicina, atingindo plenamente
Por enquanto, estamos en.gatinhando em lutas político-
suas intenções de desmascarar a ideologia repressora exercida
apartidárias. Nosso estágio ainda é o da mobilizàção da opinião
por grande parte da classe média.
pública através do grito: berra-se o mais possível até que
nosso clamor desperte a atenção do maior número de pessoas.
Mas não se trata de uma gritaria histérica. f:. histórica. Estes
Conclusão grupos ainda estão na batalha, procure por eles:

o MH, em seus quatro anos de bata/Fia, se teve erros e AVE/RIO _ Caixa Postal n? 25029 - CEP: 20552 - RJ
[alhos (esta rima é inevitável ... ), também alcançou alguns DIALOGA Y - Caixa Postal n9 298 - CEP: 49000 -
(
objetivos importantes: amadureceu seus membros, que já con-
Aracaju - SE
seguem uma participação política sem medo de perder a auto- GALF _ Caixa Postal n9 62618 - CEP: 01000 - SP
nomia do movimento; esclareceu melhor a opinião pública, GA1'HO _ Centro Luiz Freire, R. 27 de Janeiro, 181
através dos órgãos de divulgação e de debates, sobre a prática Carrno - CEP: 53000 - Olinda - PE
homossexual como uma das possíveis orientações sexuais do ser GGB _ Caixa Postal n.? 2552 - CEP: 40000 - Salvador
humano; e influenciou alguns partidos, através de sua atua- -. BA
ção, principalmente o PT: enquanto em 79 Lula dava entre- NOS 1'AMBf.M - R. Orris Soares, 51 - Castelo Branco -
vista dizendo que desconhecia a existência do homossexualis- CEP 58000 - João Pessoa - PB
mo entre a classe operária (Lampião, n? 14), já em 82 a OVTRA COISA _ Caixa Postal n9 62699 - CEP: 01000
plataforma eleitoral nacional do PT afirma, em seu item 7: - SP
"SOMOS TODOS IGUAIS: CHEGA DE DISCRIMINA- SOMOS/RIO - Caixa Postal n9 3356 - CEP: 20100 - RJ
çÃO: o. Brasil que queremos não é apenas o povo comendo, SOMOS/SP - Caixa Postal n9 22196 - CEP: 01000 - SP
morando, tendo saúde, se vestindo e se educando. A vida que
almejamos tem que ser baseada sobretudo numa relação pro- •••
111
110
Comecei com uma frase, vou terminar com outra, ouvida Darling
de uma líder de um grupo lésbico-feminista de SP. Falava-se Gay Press Magazin
de aborto e a moça foi categórica: enquanto feminista era a 28 de Abril
favor; mas enquanto lésbica o problema não lhe dizia respeito. O Centro
Para ela, algumas questões não atingiam as "homossexuais", Os Felinos
como se elas fossem categoria à parte, e não, simplesmente, Opinião
MULHERES. O Mito
E é isso o que a repressão faz conosco, até mesmo com Le Sophistique
quem tenta questionar este estado de coisas: confunde-nos a O Galo
tal ponto que passamos a ter uma vida dupla, bipartida, es- Na Bahia:
facelada, dicotomizada, esquizofrênica. E quanto mais se di- O Gay
vide, mais se conflitua, mais se quebra uma pessoa em várias Gay Society
partes para melhor subjugá-Ia. Escapar desta armadilha deve O Tiraninho
ser meta prioritária, chega de fazer das manifestações do pra- Fatos e Fofocas
zer (desde o desejo até a vontade de viver) uma mercadoria Baby
de luxo, inacessível ou supérflua. Não há classe no mundo Zé/iro
que precise só de pão para ser feliz. Não queremos uma vida Little Darling
penosa, apenas com deveres e obrigações, difícil de se supor- EUo
tar, onde sobreviver seja o brinde máximo e todo o restante
pequenos prêmios de consolação... A alegria, a satisfação e DtCADA DE 70
o prazer também são gêneros de primeira necessidade.
Colunas de Celso Curi, de Glorinha Pereira, de Fernando
FIM Moreno, respectivamente nos jornais: Última Hora (SP),
Jornal de Copacabana (RJ), Diário de Notícias (RJ)
PUBLICAÇõES DA "IMPRENSA GA Y"

Entender
Df:CADA DE 60
Iournal Gay Internacional
Lampião
o Snob Peteca e Rose****·
Le Femme
Boca CÚl Noite
Subúrbio à Noite
Rádice* * * * *
Gente Gay
Jornal Dobrabil*****
Aliança de Ativistas Homossexuais
Eros
Df:CADA DE 80
La Saison
O Centauro
O Vic
Macho-Sex* * * **
AVE/Jornal de Sexualidade" ••••
O Grupo
lamuricumá

112 113
-r,

Coverboy
Play Gay ANEXO NQ 2
Exclusive Gay
Luta e Prazer= * * * *
CARTA ABERTA AOS SINDICATOS DOS JORNALEIROS
Revista Dedo Mingo*****
E AOS JORNAIS INCLUíDOS NO LISTÁO CONTRA
OS ATENTADOS TERRORISTAS
PUBLICAÇÃO DOS GRUPOS DO MH BRASILEIRO Através da imprensa, o Grupo Auê/Rio - pela livre
1979 - Suruba - grupo Somos/SP (antes do racha) opção sexual e de liberação homossexual - tomou conheci-
1980 - Boletim do Gatho (PE) mento de bombas colocadas em bancas onde são vendidos jor-
- Corpo - grupo SomosiSP (após o racha) nais alternativos, os mais ativos em denúncias às arbitrariedades
1981 - Chanacomchana - grupo Galf/SP diárias.
- Manga Preta - grupo Beijo Livre/Brasília Estranhamos que a polícia, sempre tão ciosa de sua efi-
- Caderno de Textos, do MHA - SP ciência quando se trata de ameaças esquerdistas, se mantenha
- O Bandeirante Destemido (Guia Gay de SP) - gru- omissa frente aos fatos que evidenciam um terrorismo de
po Outra Coisa-SP direita.
- Boletim, do Dialogay (SE) N6s que lutamos pela liberdade sexual só a podemos con-
- Guia Gay da Bahia - Grupo Ggb _ BA ceber dentro de lima sociedade democrática. Assim, nos solida-
- BOletim, do Ggb - BA rizamos com os jornaleiros e os jornalistas ameaçados no cum-
1982 - Boletim, do Auê e Somos/R] primento do seu dever, e condenamos todo e qualquer aten-
tado contra as liberdades humanas.
Obs.: Essas publicações seguidas de asteriscos (* * ** *) Rio, julhoj80
não são exclusivamente "homossexuais", embora abram gran-
de espaço para o assunto.
ANEXO N9 3
ANEXO N9 1
MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE LIDA NO ATO
MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE AO 19 CONGRESSO PÚBLICO DE 15-10-80
DA MULHER FLUMINENSE
Nós, do Grupo Auê - pela livre opção sexual e contra
"Representado no 19 Congresso da Mulher Fluminense o a repressão homossexual, queremos nos solidarizar com todas
AU~, grupo pela livre opção sexual, se une às suas irmãs de as mulheres oprimidas e com todas as pessoas- que sofrem
opressão em todas as reivindicações específicas de nossos di- coação por seus atos homossexuais, a elas nos juntando nesta
reitos humanos, na luta ampla, geral e irrestrita contra todo manifestação, contra o machismo, contra a violência.
tipo de massacramento responsável pelo esvaziamento de seu Não queremos a repetição de relações autoritárias entre
discurso ideológico, ao considerá-Ias minoria, quando, na ver- dominador e dominado; não queremos 1! lei inocentando cul-
dade, elas são maioria numérica da população e força trans- pados e condenando as vítimas das suas agressões, em nome
formadora desta sociedade discriminatória e antidemorcática". de uma hipócrita legítima-defesa da honra; não queremos a
Rio, junho/80 deturpação e o sensacionalismo por parte dos meios de comu-
114
115
nicação, responsáveis por uma série de estereótipos sobre as
Grupo Auê pela livre opção sexual, vem prestar sua solidarie-
mulheres e as pessoas consideradas sexualmente desviantes.
dade a todos aqueles que são alvos de qualquer forma de
Basta de manipular lemas como "liberdade", "ciúme", "pai-
discriminação por pertencerem à raça negra.
xão", "honra", "dignidade", "respeito", conceitos que sempre
estiveram a serviço do poder e de suas arbitrariedades. O negro tem sido sistematicamente oprimido ao longo da
História do Brasil e o é ainda hoje quando, sob uma falsa
A par de uma transformação político-econômica, quere.
noção de "democracia racial", se pretende escamotear todo um
mos uma profunda mudança cultural, permitindo a cada ho-
aparato repressivo destinado a negar-lhe sua identidade en-
mem e a cada mulher o direito à sua própria vida, à opção
quanto pessoa e a sua importância na construção da socieda-
de seus caminhos, ao prazer, ao exercício pleno de sua sexua-
de brasileira.
lidade, ao acesso a meios contraceptivos, se assim o deseja-
Em nome da necessidade de exploração colonial, toda.
rem, mesmo que essa atitude seja contrária aos propósitos lu-
uma série de estereótipos e preconceitos foram erigidos e re-
crativos de uma sociedade preocupada tão-somente com seus
definidos até os nossos dias para perpetuar o sistema de do-
próprios interesses e com a manutenção de falsas separações
minação capitalista, mantendo-se a condição do negro como
entre homens e mulheres, entre homossexualidade e heterosse-
xualidade. mão-de-obra servil: o escravo de ontem é o operário de hoje
enquanto os senhores da Casa Grande se sucedem de pai para
O machismo que conduz à violência sobre as mulheres é
filho reconstruindo sempre o patriarcalismo e seus mecanis-
o mesmo que permite a repressão diária, desde a prisão até
mos de opressão.
os assassinatos de todas as pessoas que vivenciarn sua. homos-
A mulher e o homem negros que vivenciam sua homosse-
sexualidade, por acharem estas à margem dos padrões consi-
xualidade tem sua opressão ainda mais justificada em função
derados legítimos pela sociedade patriarcal. Portanto, a mu-
de sua preferência sexual. À violência determinada pela sua
lher que pratica atos homossexuais tem seu assassinato dupla-
cor numa sociedade racista é acrescida a violência determina-
mente justificado, na medida em que não exerce o papel de da por sua opção sexual numa sociedade machista. O negro
reprodução que lhe é historicamente destinado.
que exerce sua homossexualidade não é somente abordado
Todos esses crimes atentam contra os direitos humanos por policiais, preso, torturado, preterido no trabalho, discri-
e denunciam uma sociedade calcada não só nas disparidades minado na escola, no sindicato, no partido por sua negritude,
sociais, mas também nas sexuais e raciais. Cabe a todos nós mas também por ser considerado sexualmente desviante. Este
a luta pela liberdade em todos os níveis, e por uma sociedade negro é, portanto, duplamente reprimido ou ainda mais, caso
mais justa e democrática. se trate de uma mulher e seja pobre.
Acreditamos assim que a construção de uma sociedade
realmente capaz de garantir a todos uma verdadeira democra-
ANEXO N9 4 cia, numa luta de todos os oprimidos, só pode ser a\cançada
através de uma transformação capaz de abolir também o ra-
MOÇÃO DE APOIO LIDA NO DIA DA CONSCmNCIA cismo e o machismo, conceitos e atitudes que algumas vezes
NEGRA, 20-11-80, NA PRAÇA CINELÂNDIA se aproximam e até se confundem. Por isso, nós, que lutamos
pela livre opção sexual e contra a discriminação à homosse-
Quando da comemoração do 20 DE NOVEMBRO, Dia xualidade, repudiamos toda e qualquer forma de racismo.
da Consciência Negra e aniversário da morte de Zumbi, o CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL, SEXUAL E
À HOMOSSEXUALIDADE!
116
117
CONTRA A VIOL1!NCIA SOBRE HOMENS E MU-. por isso ser considerado criminoso, nem doente, nem imaturo,
LHERES NEGROS QUE VIVENCIAM SUA HOMOSSE- nem desviante, nem incluído em qualquer outra categoria dis-
XUALIDADE! criminatória.
PELA LIVRE OpçÃO SEXUAL! 4 - Colaborar para o fim da repressão, prisão e violên-
Rio, 20-11-80 cia que muitas vezes, ao arrepio da lei, são cometidas até mes-
mo pelas forças policiais contra pessoas de comportamento
ANEXO N9 5 qualificado de homossexual. Por exemplo, categorias criminais
ambíguas como atentado ao pudor público ou ato obsceno são
CARTA ABERTA AOS CANDIDATOS ÀS usadas regularmente para reprimir manifestações de afeto en-
ELEIÇÕES DE 82 tre pessoas do mesmo sexo.
S - Denunciar a veiculação, nos diversos órgãos de im-
Os grupos Auê e Sornos/Rl de Liberação Homossexual prensa e de comunicação, de mensagens que fortaleçam pre-
vêm trazer a discussão pública uma questão que usualmente conceitos e discriminações contra indivíduos a partir de sua
tem sido esquecida pelas forças políticas em nossa sociedade: orientação sexual.
a questão homossexual. 6 - Lutar para que da Lei de Imptensa seja eliminado
Estamos apresentando os seguintes pontos mínimos que o item de "preservação da moral e bons costumes", usado
achamos indispensáveis para que possamos viver no Brasil para incriminar pessoas e jornais que discutam homossexua-
como pessoas íntegras e- no pleno exercício de nossos direitos lismo.
humanos. 7 - Lutar para que o conceito de legítima defesa se res-
Esperamos com interesse a sua opinião sobre os pontos trinja à defesa da vida, e não à defesa da "honra", pois ba-
seguintes, pois é nossa intenção divulgar as respostas reco- seados em tal ambíguo conceito muitos homicídios têm sido
lhidas como parte de uma campanha de esclarecimento da cometidos e permaneceram impunes.
opinião pública nesta atual fase pré-eleitoral. 8 - Promover a inclusão nos Programas de Educação
1 - Apoiar reforma constitucional que, no capítulo dos Sexual do direito à livre orientação sexual, incluindo discus-
direitos individuais, acrescente a proibição de discriminação sões sobre homossexualismo como uma das formas de prefe-
pela orientação sexual, além das já existentes por raça, credo rência sexual.
e sexo. Ficaria assim assegurado o direito à livre escolha do 9 - Reconhecer e apoiar a existência pública dos grupos
parceiro sexual entre pessoas maiores, sejam ou não do mes- organizados de liberação homossexual, entidades que lutam
mo sexo, sem que por isso possam ser discriminadas de algu- pelo direito à livre orientação sexual dos indivíduos, sem que
ma forma. por isso sejam vítimas de preconceitos e violências.
2 - Encaminhar e apoiar projetos de lei que proíbam 10 - Lutar por uma sociedade mais justa, onde sejam
a discriminação pela orientação sexual em todos os âmbitos eliminadas todas as formas de opressão e exploração, incluin-
específicos onde seja necessário, . por exemplo, no trabalho, do aquelas que atualmente são usadas contra os diversos se-
moradia, etc. tores oprimidos, tais como as mulheres, negros, índios, pes-
3 - Agir junto aos Ministros da Previdência Social e soas de orientação homossexual e todos aqueles que vivem
da Saúde para que haja supressão do item 302.0 "hornosse- em condições sub-humanas.
xualismo" do Código Internacional de Doenças, já que a livre
orientação sexual é um direito do indivíduo, que não pode

118 119
ANEXO

A SíNDROME DO PRECONCEITO
HERBERT DANIEL

Sob o reino de Alexandre VI era tal a licenciosidade na


Terra que chegou aos ouvidos do Senhor o tremendo clamor ..
No próprio Céu, reúne-se um urgente Concílio de maiorias
para pôr fim à dissolução dos costumes que começava na pró-
pria família papal, os Bórgias. Entra em cena Deus em pessoa.
E já não é mais aquele: é um velho senil, com graves proble-
mas de saúde, locomovendo-se com dificuldade apoiado em
seus anjos. O celestial Concílio, analisadas as circunstâncias,
pesadas as impotências do Todo Poderoso, não encontra senão
uma alternativa: convoca o Demônio que, instado pelo Senhor,
inventa a punição máxima para o deboche. Assim nasce na
Terra a sífilis.
Pelo menos essa é a versão dada por Oskar Panizza, um
autor suíço, no "Concílio do Amor", peça escrita no final do
Século XIX que provocou escândalo e contrariedades ao au-
tor. Naturalmente, ele conheceu a usual panóplia de persegui-
ções e sanções da censura obscurantista. Mesmo depois do
advento dos antibióticos e da conseqüente banalização da ter-
rível doença - tornada apenas mais uma infecção bacteriana
facilmente curável '-- o tema guarda atualidade e provoca po-
lêmicas.
Sem o talento de Panizza, muitos - jornalistas, médicos
e outros - tentam reescrever a versão contemporânea do
"Concílio do Amor", acentuando apenas um moralismo vesgo
que justifica punições aos que pecam na carne e na fraqueza
dela. Eis que, senhores e senhoras, entra em cena o AIDS-
SIDA (Síndrome de Imune-Deficiência Adquirida), a sííilis da
era atômica. Castigo feroz: como nova cena bíblica, o raio
destruidor arruina Sodoma. Pobre Sodoma.

121
Assim, pouco antes do começo desta vacilante década medra devagarzinho. Os elementos da tragédia já estão a pos-
dos 80, um estranho mal chamou a atenção dos médicos. De tos. Primeiro, o pânico: em São Paulo a reação é mais preo-
todas as curiosidades, tipo "acredite se quiser", da novidade cupada; no Rio ainda não se acredita na gravidade da situa-
mórbida, uma serviu de brilhante chamariz: quase todos os ção. Segundo, a incompetência ou insuficiência das instalações
atingidos pela entidade patológica recém-descoberta eram ho- da Saúde Pública. Terceiro, a vigência de um preconceito que
mossexuais. A doença (ou doenças) nasceu nos Estados Uni- impede que a palavra "homossexual" seja escrita ou pronun-
dos, sociedade particularmente fértil na gestação de bizarros ciada fora de certos antros específicos - entre os quais as pá-
fatos sociológicos. Em poucos meses espraiou-se a calamidade, ginas policiais, os relatórios médicos ou panfletos e livros serni-
com características sensacionalistas de nova peste, Como aque- clandestinos. As forças do destino, direis?
las que varreram a Idade Média. As informações começam a
circular, de uma forma evidentemente pouco "científica": o
tom dos relatórios que chegavam aos jornais faziam voltar a
Pânico e Informação
"objetividade médica" aos tempos ancestrais das atrações de
feira. Como naquela época onde os saltimbancos usavam cer- A primeira vítima registrada da AIDS, no Brasil, foi um
tos dados "científicos" (o éter, a teratologia, etc) para atrair famoso costureiro. Certamente adquiriu o vírus em terras ame-
um público ingênuo que buscava sensações fortes, a imprensa ricanas. Os outros casos descritos estavam no mesmo caso:
veiculou (veicula) os fatos e dados da "epidemia" com evi- trouxeram dos Estados Unidos a misteriosa doença. Imediata-
dente oportunismo caça-níquel. Afinal, as bichas sempre fize- mente a imprensa se mobilizou e a homossexualidade - é
ram rir. Nada mais natural do que contar a "última da bicha", claro! - chegou às primeiras páginas, arrastada pela medi-
a piada macabra do câncer, o único câncer alegre, ridente, cina. f: difícil pensar que tal questão pudesse romper o silên-
sorridente: o horror desmunhecante torna-se o oh-rir, Pura cio pudibundo e preconceituoso dos jornais a não ser por ra-
viadagem.
zões médicas e policiais.
Se por um lado os fatos assustadores serviam como apó- Antes mesmo que o mal tivesse alguma importância epi-
logo sem piedade para demonstrar a vingança terrível do Bem dêmica, o estardalhaço foi tal que a AIDS passou a ser mais
- através do Mal - contra os caídos, por outro lado uma popular que a fome ou as tradicionais doenças íntecto-conta-
certa autoproteção mecânica dos ofendidos levava a outra ati- giosas, que no entanto matam milhares de brasileiros todos os
tude, mais ou menos incoerente: a recusa dos fatos. Muitos, anos.
procurando defender a "comunidade homossexual", simples- A primeira questão é: há razão para tamanha cobertura
mente negavam a existência do perigo ou fantasiavam sobre de uma questão ainda tão obscura? Por que a imprensa se
causas conspirativas do "câncer" (teria sido a CIA? .. ) preocupou tão intensamente com isso? Por seriedade? E no
Entre o sensacionalismo que insuflava o pânico (forma entanto essa mesma imprensa deixa de lado questões urgentes
obscurantista do exercício da liberdade de imprensa nas nossas que ameaçam a própria sobrevivência das populações (pode-.
sanitárias sociedades democráticas) e o equívoco de supor mos nos esquecer das catástrofes ecológicas? Da situação eco-
ações criminais dos homófobos, a perda de tempo só servia para nômica? Da situação da saúde pública no país?). Por que será
desinformar todos e adoecer muitos. Foi assim que o mal se que esta síndrome ganhou os privilégios da maior ameaça à
espraiou nos países desenvolvidos. Foi assim que o mal che- vida saudável dos brasileiros?
gou às terras brasileiras, em meados de 1983. Agora, enquanto Sejamos suficientemente ingênuos para supor que o esfor-
escrevo, com uns poucos mortos e alguns feridos, a guerra ço jornalístico seja voltado ao serviço da informação pública.
122
123
Considerando a gravidade real do AIDS, é natural a preocu-
"Dois casos suspeitos de "câncer-gay" são examinados na
pação e a evidenciação do problema. O que não se justifica é
Unicamp". (J ornal do Brasil, 15-6-83).
a geração do pânico - a anti-informação por excelência - e
a leviandade da veiculação de informações contraditórias. Al-
"AIDS provoca pânico entre os americanos" (O Globo,
guma coisa vai mal. com a invenção de Gutemberg e não é só
16-6-83).
o preço do papel e os cochilos dos revisores.
A atitude da imprensa - escrita, falada, televisada - "Médico francês consegue isolar vírus do AIDS" (O
que saudou o "câncer gay" e pediu passagem para o precon-
Globo, 21-6-83).
ceito teve algumas características marcantes. Os títulos das
matérias usam adjetivos dramáticos e a síndrome ganha epíte- "Médico anuncia vacina contra o câncer-gay" (O Globo,
tos tão coloridos quanto são sugestivas as metáforas para a
22-6-83) .
descrição dos fatos. O tom passa sutilmente do relatório mé-
dico ao pregão profético, embarcando pelas viagens de ficção "Nem câncer, nem gay - A terrível doença dos anos 80"
científica. E não se pode esquecer da galhofa. Alguns exem- (O Dia, 26-6-83) - (A ilustração dessa matéria, que
plos do noticiário: explicava que a AIDS não é apenas um câncer, nem de
exclusividade dos homossexuais, mostrava um romântico
"Perigo Cubano" (Zero Hora, Porto Alegre, 28-2-83). casal de rapazes caminhando numa idílica paisagem for-
mada pela figura corrosiva de um caranguejo. Se as pala-
"Mal particular - Hormônios causariam doença entre vras dizem "nem um, nem outro", fica por conta da ima-
homossexuais" (Veja, 14-7-82). gem a informação definitiva: câncer E dos homossexuais.
Sutil!) .
"Síndrome Gay e Evita (Perón)" (Tribuna da Imprensa,
Rio, 9-6-83). "O enigma que mata" (Veja, 15-6-83).

"Bancos de sangue' ainda desprevenidos contra Aids" "Peste-gay ataca mais dois em SP" (Luta Democrática,
(Folha de S. Paulo, 9-6-83).
14-6-83 ).
"Pesquisa determinará entre homossexuais quem tem "Peste-gaybota toda a bicharada apertadinha" (Folha de
'cãncer-gay'". (Jornal do Brasil, 9-6-83).
O Povo, 14-6-83).

"Já foram detectados sete casos da doença, no Brasil". "Médico não quer sangue de gays" (idem).
(Folha de S. Paulo, 12-6-83).
São perceptíveis pelo menos dois aspectos:
"América aponta 3 vírus como suspeitos de causar cân- 1) Toda e qualquer informação passa para a letra de forma
cer-gay". (Jornal do Brasil, 11-6-83). sem maior verificação. Hipóteses são apresentadas como fatos.
Suposições passam a ser notícias.
"Medo de AIDS em Campinas aumenta procura de mé- 2) A grande questão é a tônica dada à MEDICALIZA-
dico" (O Globo, 15-6-83). çÃO do fenômeno e, por extensão, das homossexualidades.

124 125
Não penso que tudo seja uma trama sórdida dos jornais. Parece-me que este é o pressuposto mesmo para uma
Pelo contrário. Eles apenas se deixam levar - alguns jorna- abordagem coerente da questão levantada pela AIDS. f: isto
listas inclusive com toda seriedade profissional e bastante ho- que a imprensa tem abandonado, prestando um enorme desser-
nestidade - por pressupostos ideológicos que não sonham - viço à sociedade. Popularmente - o que evidencia a falência
ou ousam - criticar. da informação - o que sobra é: há um câncer, perigoso e
h claro que todos insistem num apelo, patético e bem in- transmissível, que é espalhado pelos homossexuais. Novos le-
tencionado: é preciso advertir "a comunidade gay" (sic) do prosos que aguardam a instalação de segregados lazaretos. O
perigo que corre. f: preciso "mobilizá-Ia" para "informá-Ia", horror nunca nos poupará, irmãos. -
reivindicam os médicos.
Muito bem, muito bonito. Mas que informações devem Saúde e Pública
ser transmitidas? As médicas! E no entanto os próprios médi-
cos revelam-se bastante perplexos com o grau de conhecimento Numa das cenas mais perfeitas do cinema brasileiro, na
que possuem sobre a AIDS. obra-prima de Walter Lima Jr., Inocência, um leproso (ai, as
Pouco adianta uma "informação médica" neste caso. Os palavras! Que carga de violência carregam!) aproxima-se a ca-
médicos não têm feito senão transmitir dados estritamente téc- valo do médico que, horrorizado, comunica que "não recebe
nicos ou revelar suas próprias perplexidades. dinhei-ro" para tratar aquela moléstia. O homem queria se in-
Naturalmente é preciso fazer circular amplamente a infor- formar, apenas. Faz duas perguntas, num diálogo magistral:_
mação. Mas, neste caso, é preciso considerar que: a) além das "Cura?" Não, responde o médico. "Pega?" Pega, afirma o
informações médicas existem outras, sociais e políticas, abso- doutor. O homem se afasta, perdidas todas as esperanças e pe-
lutamente imprescindíveis para. a compreensão da AIDS e de netra no inferno da sua solidão de banido.
seus mecanismos epidêmicos; e, b) os "homossexuais" além de Aí está, em resumo, a atitude do preconceito da medícaíí-
"receberem" informação devem também informar a comunida- zação. A grave ameaça que paira sobre nossos corpos - e
de médica - que parece entender tão pouco da questão - e em conseqüência sobre nossas consciências - não é uma
também a própria comunidade que produz informação, que doença qualquer, mas a forma social de abordagem desse mal
parece tudo desconhecer sobre as condições e circunstâncias qualquer. A medicalização é uma forma de indispor o corpo
das homossexualidades. ao convívio social, eliminando qualquer recurso à solidariedade.
f: exatamente na garantia desse diálogo, dessa troca de A atitude inversa da medicalização do corpo, ou seja, a
informações, que se poderá efetivamente criar alguma condi- ação coerente de um profissional médico capaz de intervir po-
ção de um combate eficaz para evitar o espraiamento da AIDS. sitivamente na criação coletiva da Saúde, responderia essas
Naturalmente isto implica uma postura do corpo médico mais questões com uma relativização que considera, por um lado, a
democrática do que a que assume em relação a outros corpos própria história social e, por outro, os dados políticos da cha-
sobre os quais se considera com direito de manipulação, como mada "saúde pública."
"competente", sem aceitar a reciprocidade de intervenção. "Cura?" Ainda não, responderia o médico. Mas a cura
IY. grande questão para a Saúde - e não só para o caso não depende do médico e do seu exclusivo saber. Depende
da AIDS - é evitar a medicalização do fenômeno humano: o também do considerado doente e do seu meio social. A doen-
corpo é um espaço político; sua medicalização é uma forma de ça não é meramente um fenômeno individual que dependeria
seqüestro de direitos democráticos. de relações mecânicas entre um agente etiológico e um corpo

127
126
afetado ou predisposto, inclusive considerando-se aqui a situa- é suficiente para estabelecer nem uma relação entre a homos-
ção social do desenvolvimento da moléstia. A doença, em si sexualidade - como forma que assume certa orientação se-
mesma, é um fenômeno social, determinado e desenvolvido a xual - e a síndrome; e muito menos entre a homossexuali-
partir de certas relações sociais historicamente dadas. A "cura" dade e a formação de uma "comunidade homossexual".
nunca é intervenção no individual, mas complexo conjunto de
Embora se possa classificar um "grupo de risco", como
práticas sociais transformadoras. Que são de responsabilidade
de toda a comunidade sujeita à doença. diz o jargão técnico, este não se identifica com "os homosse-
xuais", enquanto comunidade. As lésbicas estão excluídas des-
"Pega?" Em certas condições a doença se transmite. Com
se grupo, assim também como homossexuais com práticas se-
a ajuda dos sujeitos à transmissão é possível entender essas
condições. xuais diferentes das que são características do "grupo de alto
risco". Naturalmente, 'os homossexuais afetados tinham um es-
No caso da AIOS as duas perguntas têm sido respondidas
tilo de vida determinado que - ao que dizem - facilita o
da forma mais simplista - ou seja, "medicalizada". Trata-se,
advento da síndrome. (Até onde o puritanismo não terá- aqui
segundo todas as evidências, de um mal para o qual não se
dirigido a investigação?)
conhece remédio, provocando uma altíssima taxa de mortali-
dade. O mecanismo fundamental da síndrome é a perda de de- Ora, a forma como a homossexualidade é vivida por este
fesas imunológicas do corpo, sujeitando-o a infecções que se grupo de homossexuais não é absolutamente uma contingência
instalam e se desenvolvem de forma brutal. de todas as homossexualidades .. A decantada promiscuidade
Duas grandes hipóteses existem sobre a origem da síndro- não é inerente à orientação homossexual. Também não é a uti-
me. Ou se trata de um vírus já conhecido que estimulado por lização de drogas, ou outras condições pretensamente facilita-
certas condições de vida tornar-se-ia patogênico, ou trata-se de doras da AIOS.· Essas condições são opções individuais (de
um vírus completamente desconhecido até o dia de hoje. De homossexuais ou não!), que, como tal, aliás, devem ser res-
qualquer forma, o vírus destruiria o sistema de defesas do or- peitadas. Além do mais, não é a própria promiscuidade ou a
ganismo e em conseqüência favoreceria o desenvolvimento de utilização de drogas que impulsiona ao mal: esta é uma visão
"vírus oportunistas". O corpo debilitado fica à mercê de todas moralista e reacionária que procura associar a doença com
as infecções. Dessas, duas têm sido as mais virulentas: uma uma punição qualquer de forças divinas.
'I
pneumonia e um câncer de pele (o Sarcorna de Kaposi).
Quanto às formas de transmissão parece que seguramente
O esquematismo faz uma salada onde se lê: homossexua-
lidade = promiscuidade e "vida libertina" = uniformização
.
pode-se dar através de transfusão de sangue, de agulhas infec- de um grupo socialmente homogêneo = doença.
cionadas e do contato sexual. Ainda não está muito claro todo A confusão que faz da homossexualidade uma "doença"
o mecanismo, embora muitos afirmem que o simples contato é uma forma do preconceito tradicional. Mas não é o essencial
não é suficiente para o contágio.
do preconceito. O fundamento dele encontra-se na diferencia-
Os conhecimentos sobre a síndrome ainda são bastante ção do homossexual como indivíduo classificado e à parte,
inseguros e rudimentares. O que me interessa aqui, particular- não apenas com uma determinada orientação sexual que o
mente, é a correspondência criada entre a AIOS e a homosse- leva a certo tipo de prática sexual. O homossexual torna-se,
xualidade. Tal relação foi estabelecida de uma maneira muitas segundo o preconceito, um "diferente integral", uma variante
vezes fictícia. Homossexuais masculinos formaram o grande humana completa, com psicologia própria, ou (quem sabe?)
contingente de atingidos inicialmente pela AIDS. O que não uma fisiologia e uma anatomia específicas. A partir dessa visão
128
129
do homossexual como ente diferenciado é possível igualá-lo a
outros "diferentes" formando uma uniforme comunidade "ra-
Preconceito
cial' , uma "sociedade" dentro da sociedade, uma "subcultura",
ou um gueto,
A teorização para o gueto passa por diferentes e comple-
O que importa, fundamentalmente, dentro da dinâmica xas fases. A medicina, evoluindo nas suas descobertas e teorias,
do preconceito, não é que o homossexual seja um doente ou tomou inicialmente a homossexualidade como condição pato-
apenas uma "variente normal" dentro das diversidades huma- lógica. Aos poucos essa visão foi sendo contestada e vai en-
nas. Ele pode ser até um ser de excepcionais qualidades, pode trando para o museu da opressão humana. Mas, se já não são
ser visto até como ser superior (não mais viado, enviado). O mais exatamente uma condição patológica, as homossexualida-
que importa é que ele seja segregado numa "comunidade" à des passam a ser consideradas situações patogênicas: passam
parte, e dentro dela formado e conformado. a facilitar o advento de doenças, psiquiátricas ou não. Como
Por que isto? por exemplo, a AIDS.
Porque isto torna a sexualidade uma questão individual e 1:: mais do que evidente que HOMOSSEXUALIDADE
exclusivamente uma espécie de tecnologia: envolve apenas as NÃO DÁ CÁNCER. O que precisa, agora, ser repetido íre-
técnicas de relações sexuais individuais. Assim, esvazia-se a qüentemente para destruir todo o absurdo desenvolvido por
questão política essencial que caracteriza a sexualidade como idéias preconceituosas que já confundem a condição de qual-
processo de opções determinãdas em relação às ações do po- quer homossexual como um perigo sanitário.
der político na esfera do corpo. O grande câncer, destruidor e mortal, segue sendo o pre--
conceito, este sim uma síndrome de perigo infinito, que con-
A formação do gueto diferencia alguns indivíduos "se-
tinua praticando genocídios estarrecedores. E quando digo o
xualmente", para hornogeneizá-Ios dentro de uma verdadeira
preconceito quero me referir à complexidade das suas ações e
indiferença política. Passam a viver no e pelo próprio gueto.
não apenas aos sentimentos mais ou menos confusos de alguns
1::claro que a questão das homossexualidades, do ponto
"preconceituosos". Se acentuei o lado formativo do preconcei-
de vista político, não interessa apenas à forma como é vivida a to contra os homossexuais não quero deixar de chamar atenção
orientação sexual de um dado grupo de pessoas, mas interes- para a própria presença do preconceito na forma mesma como
sa ao conjunto social, pois problematiza a forma como toda a muitas vezes a homossexualidade é vivida pelos próprios ho-
sociedade resolve a sua própria homossexualidade (ou simples-
mossexuais.
mente: sua própria sexualidade). 1:: previsível o grande estrago que pode advir da atitude
A medicalização da homossexualidade revela-se como preconceituosa de recusar a existência da AIDS ou minimizar
instrumento coercitivo para formação do corpo, de tal forma seu alcance. Infelizmente, não é, no meio homossexual, infre-
que o condiciona a ser instrumento dócil da opressão política. qüente encontrar os que simplesmente se desinteressam do pro-
Sua eficácia é conceituar e forjar uma verdadeira "comunidade blema, achando que tudo é mera "manipulação mentirosa" de
homossexual" - um gueto. "inimigos" dos homossexuais. Antes fosse. .. A questão é mui-
A resposta a isto passa por uma política de combate ao to mais complexa e exige uma lucidez maior dos homossexuais
preconceito medicalizante que proponha claramente que as para que não venham a ser vitimados; menos pela doença, ape-
questões de saúde são de responsabilidade da própria comu- nas; mais pelo enraizamento de um preconceito que os tor-
nidade organizada e autônoma. nará inimigos públicos de uma saúde tão pouco pública.

131
130
as próprias circunstâncias da vivência da homossexualidade. Só
Outra questão, e não de pouca monta, é a discussão en- mesmo uma participação coletiva na politização da questão das
viesada sobre a questão da promiscuidade. Reagindo, com homossexualidades pode permitir uma reflexão mais coerente
toda razão, ao puritanismo castrador que "condena" a "pro- e uma ação realmente transformadora, capaz de arrebentar os
miscuidade" e a confunde com a própria vivência de qualquer portões doentes da opressão.
homossexualidade, alguns caem candidamente na defesa vaga
da mesma promiscuidade, como se esta fosse uma conquista
ou uma forma de liberdade. Isto demonstra apenas que se caiu
numa armadilha: contra o puritanismo opõe-se um moralismo
ingênuo que é incapaz de ver nas formas da promiscuidade
um modelo imposto pela opressão.
Certamente, a promiscuidade não é só uma questão quan-
titativa em oposição simples e regular à monogamia. Muitas
vezes, a vivência promíscua é uma atitude decorrente da falta
de visão crítica dos modelos comportamentais impostos pela
repressão sexual. E aqui o problema pertence muito mais à
sexualidade masculina como um todo do que a questão pro-
priamente homossexual. A eficácia sexual, apreciada como
qualidade de macheza, é medida quantitativamente, impulsio-
nando o homem a ter uma obsessão pela freqüência de troca
dos (das) parceiros(as) sexuais. Parece-me que a "promiscui-
dade" (compulsiva ou compulsória) não deve ser discutida
apenas em relação aos homossexuais, mas em relação aos, ho-
mens e às suas expressões de repressão sexual.
O homossexual masculino não se livra facilmente do ma-
chismo. Pelo contrário, este encontra condições ideais de plena
evolução dentro das instituições do gueto homossexual. A vi-
são crítica disso não tem sido uma preocupação muito grande,
como se fosse uma questão secundária dentro do quadro da
"opressão homossexual". No entanto, quero crer que essa
opressão tem como fundamento a adoção de modelos Ialocrá-
ticos de relações humanas que tornam o homossexual mascu-
lino (mas não só ... ) um oprimido que ainda não ousou dar
o nome à sua opressão.
A chegada da AIDS nas praças de, Sodoma obriga-nos,
homossexuais ou não, a uma reflexão em profundidade sobre
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132
I
I
í

Este livro foi impresso nas oficinas da


Editora Gráfica Serrana Ltda.
Rua Washington Luiz, 281 - Petrópolis, RJ,
com filmes e papel fornecidos pelo editor.
"Temos sabido, com o sen-
tido conhecer da pele e da má-
goa, a opressão - que intu í-
mos compartilhar com tantos
que ainda se calam. Temos
buscado a disposição de abrir
portais onde ninguém sofra,
nem venha a sofrer, as conse-
qüências da tragédia ou holo-
causto de um sexo triste" -
dizem os Autores. O que mais
dizer? .
Este é um livro onde. o dito
supera o não-dito, onde a linha
avança sobre a entrelinha, on-
de o substantivo é mais impor-
tante do que o adjetivo. Onde
o prazer do texto se confunde
com o texto do prazer: assumi-
damente. Como só os verda-
deiros poetas e pensadores sa-
bem fazê-I o - com garra e dis-
posição. Nesta hora de luta du-
ra e puta, entre mil dificulda-
des pol íticas, econômicas e so-
ciais, o que dizer a mais?
Recorramos aos próprios
Autores: "Não queremos pro-
jetos, não apresentamos pro-
postas 'partidárias'. Apenas
nos dispomos, expondo-nos
aqui nestes escritos, a experi-
mentar todas as partilhas viá-
veis e necessárias para as parti-
das para a democracia (não
há democracia cantada no co-
ro dos castrados). Afinal, bas-
ta-nos uma definição nada de-
finitiva: definitivo é só o tran-
sitório" .
Sem a menor dúvida, este é
um livro sério. Que todos nós
tenhamos uma leitura alegre -
e feliz.

04 Os Editores