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QUITANDAS DO AMOR

Pedro Lemos Gabriel da Silva


Junho de 2012
“Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação”
Carlos Drummond de Andrade
Meu avô costuma me contar das muitas profissões que hoje existem
e há 50 anos não existiam. É tanto ofício que surgiu há pouco tempo.
Mal consigo assimilar a ideia de que, há algo como meio século atrás,
não se falava em cirurgiões de aumento de memória, ou na
nanomedicina ou nos combatentes da entropia virtual. Diga-se de
passagem, também o departamento climatológico da polícia militar
não era sonhado. Invejo! Esse pessoal da lei anda enchendo muito o
saco ultimamente. Entretanto, a ausência de nenhuma dessas
profissões me surpreende mais do que saber que não havia as
quitandas do amor.

Esqueço-me facilmente de que esse negócio de comprar o amor é


coisa que teve início há pouco tempo. Meu avô disse que em seu
tempo, o papo que sempre estava nas bocas era o aquecimento
global. Houve quem previsse o fim do mundo por causa dele. Pois
bem... eu até que tenho achado este verão atual bem quentinho, mas
o mundo não acabou. Acabou, sim, o petróleo! Pelo jeito, acertaram
em cheio nesse aí. Lembro-me da esbórnia que foi. Mas, enfim, o
povo ficou é satisfeito com o caso. Viram-se forçados a abraçar
integralmente as energias até então alternativas. Pouco depois do
petróleo, foi a vez do amor exaurir. Ele simplesmente acabou.

Foi só um parar de amar o outro, quando o outro parou de amar o


um. De um, o amor foi-se de todos e de todos, foi-se de todos os
demais. A consequência natural foi o abandono pleno das igrejas.
Ninguém mais acredita em Deus (talvez nem precisasse de dizer a
anterior obviedade), afinal, a fé e a esperança já tinham se danado
muito antes do amor. O amor durou, que todos, mais. Não obstante
sua perseverança, terminou. Sem fé, sem esperança, sem amor, os
templos tornaram-se locais reclamados por mendigos. Pelo menos,
por fim serviram a um propósito.
Vimos-nos precipitados em coleção de objetos do não-amor. Isso,
claro, até o Sir Marwick Galloway (um inglês nomeado Sir) descobrir
as jazidas de amor mineral. Em seus estudos, evidenciou que o amor
é encontrado, em sua forma mineral, associado à formação do
manganês. Em todo lugar onde se tem manganês, hoje procura-se
amor. Ele queima-se facilmente. Libera muito calor em reação
exotérmica. Claro, é um hidrocarboneto. Veja que não são à toa seus
altos valor e estima no mercado. A commodity de maior cotação.

A Petrobrás se apossou da ideia de passar a minerar amor. Da ideia,


da patente e do know-how. Nosso governo concedeu-lhe o monopólio
do amor nacional. “A história se repete, a primeira vez como tragédia
e a segunda como farsa”, mencionavam os intelectuais em tom de
crítica. Não entendo seu porquê tampouco a frase... Enfim, houve um
processo de reengenharia pesado na companhia petrolífera. Nota-se
que hoje, de petróleo, só no nome. A empresa deu a sorte de poder
aproveitar o uso de seus pesados equipamentos para a mineração do
amor. O senso geral era pensar que a Vale e suas subsidiárias
dominariam esse mercado por causa da associação íntima que o tal
mineral tem com o manganês. Bem, azar deles. Foi a Petrobras que,
de fato, se mostrou a mais apta para o serviço. Sei o que digo!
Assisto ao noticiário todas as noites. E todas as manhãs de quinta-
feira passo em alguma quitanda do amor.

Gosto das quitandas. Não se vende amor em supermercados. Tentou-


se até o conceito de um hipermercado do amor, porém a ideia não foi
para a frente. Que tipo de pessoa compraria amor em um
hipermercado? Foi, realmente, uma ideia absurda. Em demasia
capitalista. É por isso que hoje se prefere (é consensual) comprar
amor em quitandas. Os quitandeiros são, em geral, pessoas muito
amorosas. (Amor é hidrocarboneto bem volátil). Compro amor para
durar por toda uma semana. Acho ruim viver sem amor... assim
deixo de apreciar o que já tenho e até diria que passo a amar o que
não ganhei, isso é, se fosse possível amar sem o amor.

Nem todo mundo pode permitir-se a regularidade nas compras de


amor. Gente rica o compra muito e então muito enriquece, e gente
pobre, a quem vontade falta, dele muito carece. Não é lá a coisa mais
barata, muitas vezes é um sacrifício adquiri-lo... dizem até que vai
exaurir dentro de 40 anos, assim como aconteceu ao petróleo. Mas
tenho calma. Com sorte o aquecimento global se revelará problema
menos ameaçador e mais relevante antes disso.

Não se sabe como seria possível viver sem amor. O trânsito vira uma
loucura! Inclusive, para poder dirigir é preciso ser aprovado nos
frequentes e obrigatórios exames da polícia de tráfego. Com os níveis
de amor mensurados abaixo de determinado padrão, o condutor tem
seu carro apreendido. Não é óbvio? Sem amor, não se vê gentilezas.
Só se vê tragédias. O número de atropelamentos não socorridos
disparou aos ares.

Acontece-me ultimamente é que não venho tendo tempo ou dinheiro


e, consequente e crescentemente, disposição para comprar amor.
Hoje faz já 5 semanas que não o compro. Nesse meio-tempo virei um
troglodita. Benemeritamente detestável. Sério mesmo. Tão sério e a
tal ponto, que talvez seja sensato indagar-se por que me vejo
dispensando tempo para este relato.

Voilà! Eis meu segredo. Recente segredo. Espero que por mais algum
tempo, ainda secreto segredo. Descobri um modo de se fazer o amor!
Não sei se amor se faz. Tanto faz o termo. Que fique o que melhor
aprouver. Fazer amor, criar amor, gerar amor, enxergar amor... sei
lá. O que sei é que descobri como arranjar amor a partir de nós
próprios! Na verdade, foi bastante por um mero acaso. Estava
andando na rua (com muito cuidado por causa do trânsito ilegal dos
odiosos) quando um senhor de meia idade se esborrachou inteiro no
chão. Difícil foi tentar recordar-me de um tombo mais feio que o do
pobre coitado. Deu-se é que eu lhe estendi minhã mão. Simples
assim. Articulei desde minha escápula, ao úmero, pelo rádio à ulna e
ofereci-lha. O homem pegou-me no pulso e o levantei. Foi assim
quando senti o mesmo efeito que me produzia o amor que há muito
não comprava.

Genial, não? Basta estender a mão a quem precisa (e quem é que


não precisa?), e assim faz-se o amor. Mal posso esperar para revelar
isso aos outros. Vou mudar o mundo. Talvez a Petrobras desta vez
até venha a falir. Vou logo tratar de escancarar os portões de minha
descoberta, mas claro, não sem antes patenteá-la. Isso deve dar uma
grana...
O enfermo, não curado, pouco viverá.
A não ser que seja atropelado, assim viverá ainda menos...