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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

JORNALISMO

JULIANA DE ARRUDA MENDES MONTEIRO


LUANA COPINI JAHN
THIAGO MARQUES MATTAR
BEATRICE MORBIN
JOSÉ GUILHERME SANT’ANNA
ESTAFANIO CARVALHO

INTERNET E ESFERA PÚBLICA


COMUNICAÇÃO COMPARARA II
MARCIA DETONI
JORNALISMO TURMA – 4J

São Paulo
2008

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Esfera pública pode ser entendida, inicialmente, segundo Habermas, como o
local onde pessoas privadas se reuniam num público, buscando, por meio da práxis
argumentativa, um consenso alcançado racionalmente, modificando a dominação
enquanto tal. Para Habermas, uma esfera pública funcionando politicamente
aparece pela primeira vez na Inglaterra, no início do século XVIII. A burguesia
estava em ascensão e queria passar a ter influência sobre as decisões do poder
estatal. Objetivando isso, ela discutia com o público as reivindicações políticas e
encabeçava soluções. A esfera pública, de acordo com Habermas, podia ser
entendida como a esfera das pessoas privadas, regulamentada pela autoridade
(nobreza), mas diretamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela leis
e princípios.
As origens estruturais; o nascimento da esfera pública está também, em um
sentido mais amplo, intrinsecamente ligado ao surgimento da democracia nas
cidades gregas, com suas gigantescas arenas onde eram realizados fóruns e
reuniões abertas à população - ainda assim eram fóruns não tão democráticos, pois
privavam as mulheres de sua participação, assim como aconteceu posteriormente
na esfera pública burguesa (as mulheres não freqüentavam os cafés onde havia
debate. As mulheres e os estudantes tinham acesso apenas à esfera pública
literária) - que discutiam leis e ações gerando mobilização social e mudança
estrutural na sociedade.
Hannah Arendt atenta que de todas as atividades necessárias e presentes
nas comunidades humanas, somente duas eram consideradas políticas e
constituintes do que Aristóteles chamava de bios politikos: a ação (práxis) e o
discurso (lexis), dos quais surge a esfera dos negócios humanos. No âmbito das
relações humanas, a esfera pública surge emergencialmente como um mecanismo
de discussão política. Era o surgimento do Ser político. A esfera pública burguesa
dos séculos XVIII e XIX era concebida enquanto um espaço livre de discussão e
argumentação. A imprensa nesta mesma época, de certa forma, além de
reestruturar setores econômicos, políticos, sociais e intelectuais, acarretou para
definições sólidas e contundentes a respeito do público e do privado. Ela se mantém
como a instituição por excelência da esfera pública. Nasce privada, evolui para uma

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imprensa de opinião, sendo porta voz da opinião pública com cunho pedagógico e
depois político, posteriormente abandona a posição polêmica e busca lucro.
Com o crescimento e expansão das cidades, acabam os salões, cedendo
lugar para o comércio, ocorrendo uma refuncionalização da esfera pública burguesa,
em que a esfera pública de debates se transforma em um meio de propaganda de
ideias e produtos, é a inserção de publicidade. A mídia cresce e transforma a
informação e a cultura em mercadoria, perde o conteúdo político em detrimento de
entretenimento e propagandas para vender mais. O público leitor vira público
consumidor e a mídia passa a ser manipuladora para a venda e atratividade de
produtos. Com isto, ainda no século XIX, coloca-se de lado o caráter polêmico da
esfera pública burguesa, dando lugar a um conformismo gerado pela publicidade, e
o Estado intervém mais na esfera privada, adotando medidas para satisfazer grupos
organizados. Faz isso reconhecendo as reivindicações ou cedendo a pressões, sem
que seja necessário um debate público.
A consequência desta expansão, tanto territorial quanto populacional, além da
ascensão das sociedades de massa, é uma difícil reestruturação desta ideia de
esfera pública de debates, cunhada por Habermas. Criam-se tentativas de
recuperação desta ideia, como a criação de instituições de debates por parte de
moradores de bairros e municípios, grupos de defesa de tribos urbanas, de
conceitos e de ideologias. Na mídia tem-se a implantação de rádios comunitárias,
canais de televisão e a internet. Em algumas rádios comunitárias há inserções de
debates, como eram feitos nos salões, porém não há uma implantação fiel do que
venha a ser esfera pública.
Habermas observa que interesses econômicos começaram justamente a
dominar a esfera pública: poder e dinheiro constituíam-se como forças maiores do
que os discursos racionais e argumentativos, havendo também uma privatização do
espaço público de discussão. Gradativamente apagou-se a nítida delimitação entre
esfera pública e privada.
Os reflexos dessa transformação são consequências da comercialização da
imprensa que começou a ocorrer na primeira fase do capitalismo. Habermas cita
uma frase de Bücher que descreve os grandes traços dessa evolução na imprensa:

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Os jornais passaram de meras instituições publicadoras de noticias
para, além disso, serem porta-vozes e condutores da opinião pública,
meios de luta da política partidária. Isso teve, para a organização
interna da empresa jornalística, a consequência de que, entre a coleta
de informações e a publicação de noticias, se inseriu um novo
membro: a redação. Mas, para o editor de jornal, teve o significado de
que ele passou de vendedor de novas noticias a comerciante com
opinião pública. (HABERMAS, 1984, p. 217).

A imprensa não visava o lucro em seu primeiro momento, não era sua finalidade
principal, a imprensa se desenvolvia a partir da politização do público, uma
instituição do público debatedor. No entanto, com a instituição do estado burguês de
direito, a legalização de uma esfera pública politicamente ativa, a imprensa
abandona sua posição polêmica e busca lucro, a notícia não se torna mais a parte
fundamental do jornal, e sim a propaganda, a beleza da apresentação de uma
notícia é mais importante do que a criação da própria notícia:

A história dos grandes jornais na segunda metade do século XIX


demonstra que a própria imprensa se torna manipulável à medida que
ela se comercializa. Desde que a venda da parte redacional está em
correlação com a venda da parte dos anúncios, a imprensa, que até
então fora instituição de pessoas privadas enquanto público, torna-se
instituição de determinados membros do público enquanto pessoas
privadas – ou seja, pórtico de entrada de privilegiados interesses
privados na esfera pública. (HABERMAS, 1984, p. 217-218).

Não somente a imprensa escrita se mostra um meio manipulável, mas


também ao longo do tempo, as novas mídias (televisão, rádio, cinema),
apresentam o mesmo aspecto, com a diferença de um marketing melhor
construído, mas com a esfera pública ainda contaminada por interesses privados e
tendenciosamente ideológicos.
No artigo Mídia, Opinião Pública ativa e Esfera Pública democrática, o autor
Jorge Almeida nos brinda com uma revelação chave em Habermas:

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Depois de chegar e se consolidar no poder a burguesia já não
precisa ser crítica e nem sustentar uma esfera pública crítica.
(ALMEIDA, 1996, p. 4).

É nesse ponto que o autor sintetiza o porquê da decadência da esfera pública


burguesa de que trata Habermas em seus trabalhos. Sobre o surgimento da
opinião não pública ainda nos diz:

Com os novos mídias do século XX (rádio, cinema falado e


televisão), a esfera pública se amplia, perde vitalidade e se modifica
com os interesses privados que se fazem presentes de modo
privilegiado através do “jornalismo-publicitário” dirigido a um
‘público’, que agora, ao invés de ver a imprensa intermediando a
opinião pública, passa a ver uma opinião (não) pública ser cunhada
primeiro através dos midia. (ALMEIDA, 1996, p. 5).

A mais nova mídia, a web 2.0, se apresenta como uma possível forma de se
manter uma ideal esfera pública democrática, objetivo que todas as mídias
anteriores até então, globalmente falando, falharam.
A internet oferece uma grande variedade de informações (não apenas matéria
de origem oficial), além de reduzir o custo de participação política e permite envolver
diferentes parceiros de interlocução desde a troca de e-mails, numa base cidadão-
cidadão, aos chats e os grupos eletrônicos de discussão até amplas conferências
(MAIA, 2001, p.1). Isso representa um potencial de interação inédito se comparado
com os veículos de comunicação tradicionais.
Além desses fatores, a internet cria também um anonimato, contribuindo para
estabelecer uma condição mais paritária de participação no debate, já que as
desigualdades do mundo real são amenizadas ou até desaparecem no cyberespaço.
Pierre Lévy, em sua palestra realizada no Festival Usina de Arte e Cultura
promovida pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre em Outubro de 1994, afirma
que a esfera da comunicação e da informação está se transformando numa esfera
informatizada, que o espaço cibernético se encontra na origem de uma nova política

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porque se trata de uma nova polis que está se construindo no sentido profético de
McLuhan (Aldeia Global). Lévy atenta para as mudanças na participação política que
a internet possibilita:

Com o uso de novos instrumentos técnicos dá para fazer uma


democracia direta distinta do sistema de representação (cuja
organização política remete a um centro de decisão e que está
completamente obsoleta na medida em que é tecnicamente obsoleto
que as decisões sejam centralizadas). (LÉVY, 1994).

No espaço virtual surgem novos instrumentos técnicos de comunicação e


informação constantemente, gerando um fluxo de revoluções contínuas em sua
estrutura. Uma das maiores ferramentas de comunicação do momento e a mais
revolucionária é o Twitter (o nome é uma referência à onomatopéia em inglês "tweet"
– som feito por passarinhos pequenos), desenvolvido pelo programador americano
Jack Dorsey. O Twitter pode ser classificado como uma fusão entre blog, Messenger
e fórum virtual. Através das mensagens em 140 caracteres, o usuário pode
experimentar a sensação de estar em uma verdadeira ‘arena conversacional’, para
usar uma definição de Rousiley C. M. Maia.
Esse comunicador possibilita ações de mobilização social (artística e política).
Através do Twitter são organizados os chamados Flash Mobs (aglomerações
instantâneas de pessoas em um local público para realizar determinada ação
inusitada previamente combinada), essas ações tem sempre cunho político, leva um
grande grupo de pessoas às ruas e às praças (espaços públicos) para realizarem
manifestações pacíficas que reflitam acerca de uma causa, idéia, conceito ou
problema social. Todas essas mobilizações artísticas possuem um fundo de grande
reflexão política.
A questão central é que, mesmo esse pequeno passarinho estar
revolucionando o mundo com seu canto, essas transformações ainda não são
sentidas tão fortemente no Brasil frente à problemática da exclusão digital e
tecnológica que atinge a maioria dos países subdesenvolvidos.

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No Brasil, o elevado índice de analfabetismo é somado ao alto custo da
tecnologia, o que cria novas e severas assimetrias entre os “plugados” e os “não
plugados”, os que estão conectados e os que não estão. Entendendo esse conceito,
podemos concluir precocemente que a internet ainda não pode se tornar uma esfera
pública por não ter a capacidade de envolver todos os cidadãos de uma sociedade.
Mas nenhuma esfera pública consegue ser totalizante, sua eficácia depende da
forma como o suporte que a possibilita é utilizado.
No caso da internet, seu grande atrativo inicial para a maioria das pessoas é
o entretenimento. Os comunicadores diretos e as redes de relacionamento são
ferramentas vistas como promovedoras de diversão e lazer. Há, no entanto, uma
parcela conectada à rede que utiliza essas ferramentas como mecanismos de
mobilização e discussão política. Há inúmeros casos de passeatas, manifestações,
performances, ocupações do espaço público e outras ações organizadas totalmente
pela internet e fomentadas pelo boca-a-boca.
Novamente, Rousiley C. M. Maia, em seu importante artigo nos ajuda a
compreender os vários níveis de acesso e utilização da internet, citando Anthony
Wilhem sobre a “barreia digital”, ou divisão digital (digital divide) que consiste em
separar os usuários dessa nova mídia em quatro categorias:

No centro da sociedade de informação há aqueles que têm pleno


acesso aos seus recursos como instrumentos de informação e
comunicação. Na camada seguinte, há os “usuários periféricos”, que,
embora tenham acesso às tecnologias, utilizam-nas de maneira
episódica, sobretudo para propósitos comerciais e de entretenimento.
Na camada seguinte, estão aqueles que têm “acesso periférico”, que
podem ter o próprio computador, mas não estão conectados à rede e
dependem de acesso público. Por fim, estão os chamados “imunes ao
progresso”, aqueles nunca usaram o computador, não dispõem da
educação necessária para fazê-lo e encontram-se irremediavelmente
excluídos. (MAIA, 2001, p.6)

Ora, é claro que estamos distantes de uma esfera pública democrática


totalmente eficiente e totalizante. O acesso à rede de computadores ainda é artigo

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de luxo em muitos países e há muito que se investir em educação e informatização.
É preciso que haja mais engajamento por parte dos governos e da iniciativa privada
na criação e desenvolvimento de projetos de inclusão digital em todo o mundo. Em
contraponto, vemos nascerem novas possibilidades de inclusão democrática a cada
dia. As redes de internet sem fio (wireless) vislumbram um novo horizonte na era
pós-moderna, será possível acessar a internet das localidades mais longínquas e há
discussões acerca da gratuidade do acesso à rede em algumas localidades e até a
proposta de adotá-la mundialmente. Quanto ao aspecto da portatibilidade dos
computadores, é cada vez mais impressionante a capacidade de sintetização do
hardware, a tecnologia de armazenamento de dados se expande infinitamente, as
videotecas e bibliotecas virtuais crescem sem parar. A cada novo instante alguém
expressa sua opinião ou se informa em sites especializados, em blogs de cultura e
política. Cidadãos de todas as localidades se vêem deparados com a realidade
virtual e infindas possibilidades de acesso à informação.
Um aspecto que vem de encontro com toda a perspectiva positivista com
relação à internet é o caso citado por Maia do crescimento de conglomerados que
controlariam a rede em monopólios espalhados pelo mundo:

Em primeiro lugar, se as novas tecnologias podem proporcionar um


ideal para a comunicação descentralizada, elas podem, também
sustentar formas extremas de centralização de poder. No mercado,
empresas de larga escala e provedores disputam o controle desses
meios, e vendem serviços e produtos num mundo virtual rápido, quase
sem fronteiras (Malina, 1999, p. 24; Moore, 1999, pp. 42-4). Isso
fortalece o grupo de elites transnacionais e pode beneficiar a
expansão de grupos de orientação anti-democrática. (MAIA, 2001).

Somado a isso existem ainda teóricos que temem uma privatização do


cyberespaço. Isso nos soa demasiadamente apocalíptico, mesmo levando em conta
que a censura é empregada em alguns países (Cuba e China). Mas essa censura,
em certos aspectos, é comedida e ainda pode ser burlada. Talvez a internet esteja
exatamente aí, nesse ponto de tensão entre uma nova política de abertura para
esses países ditos “fechados”, no sentido de que já existe e, provavelmente, haverá

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mais pressão internacional com o objetivo de se abrirem as fronteiras cibernéticas. A
internet poderá ser a grande ferramenta usada pelo mundo para pressionar,
inclusive internamente, uma abertura política que levaria a democratização de
alguns países. Uma conseqüência desse processo seria a promoção maior da
política republicana pelo mundo. Esse papel polêmico em que a internet se presta
pode caracterizar fielmente seu poder de mudança estrutural da esfera pública. A
internet funcionaria como um grande fórum de debate que dividir-se-ia em pequenos
núcleos nacionais para a discussão de questões políticas, assim, descentralizando o
poder. Habermas empresta de Hannah Arendt a visão do que seria uma
revitalização de uma esfera pública participativa:

Em oposição ao privatismo de uma população despolitizada e em


oposição à aquisição de legitimidade por meio de partidos
entrincheirados, a esfera pública deveria ser revitalizada até o ponto
em que o conjunto regenerado dos cidadãos pudesse, sob a forma de
um autogoverno descentralizado, (uma vez mais) apropriar-se do
poder das agências estatais pseudo-independentes. A partir dessa
perspectiva, a sociedade finalmente se desenvolveria para uma
totalidade política. (HABERMAS, 1995)

Possivelmente, a internet será o grande agente descentralizador do poder


emergindo num futuro próximo como uma nova estrutura de exercício do poder
público, do embate político e da formação sólida de uma opinião pública
participativa.
É bem verdade também que a publicidade descobriu esse novo meio como
um promissor veículo de propaganda ideológica, mas esse cunho ideológico não é
poderoso o bastante para roubar da mesma sua principal função: de democratizar a
informação e servir de base para o surgimento de uma nova esfera pública de
debate.

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REFERÊNCIAS:

ALMEIDA, J. (1996). Mídia, opinião pública ativa e esfera pública democrática.

ARENDT, H. --------------------------------------------------------------------------------

CASTELLS, M. (2003). A galáxia da internet.

EROTILDE, H. S. e COSTA OLIVEIRA, J. C. (2007). Esfera Pública e Internet:


limites e possibilidades para as deliberações políticas na rede.

HABERMAS, J. (1984). Mudança estrutural da esfera pública.

HABERMAS, J. (1995). Três modelos de democracia.

LÉVY, P. (1994). A emergência do cyberspace e as mutações culturais.

MAIA, R. C. M. (2001). Democracia e a Internet como esfera pública virtual:


aproximando as condições do discurso e da deliberação.

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Resumo:

O presente artigo tem como foco analisar o papel da internet na pós-modernidade


como uma possível saída para o desenvolvimento de uma nova esfera pública
democrática.

Metodologia:

Os autores escolhidos para o desenvolvimento desse artigo são pensadores que


refletem sobre as problemáticas que envolvem a esfera pública e os novos meios de
comunicação, seus reflexos na política e no comportamento humano.

Conclusão:

Concluímos que a internet pode emergir num futuro próximo como uma estrutura
nova de esfera pública de debate, se dividindo em núcleos de discussão virtual
gerando um processo gradativo de descentralização do poder.

Palavras-chave:

Internet, Esfera Pública, Opinião Pública, Mídias, Comunicação.

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