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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações


Internacionais

Site: Instituto Legislativo Brasileiro - ILB Impresso por: Tarsila Oliveira


Curso: Relações Internacionais: Teoria e História - Turma 1 Data: sexta, 3 jan 2020, 20:38
Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações
Livro:
Internacionais

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Descrição

MÓDULO I - CONCEITOS ELEMENTARES E CORRENTES TEÓRICAS DAS


RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Sumário

Módulo I - Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Unidade 1 - As Relações Internacionais no Mundo Contemporâneo: Dilemas e Perspectivas


Pág. 2 - As Relações Internacionais no mundo contemporâneo
Pág. 3 - O Processo de Globalização
Pág. 4 - Dilemas da Globalização
Pág. 5 - Meio Ambiente, Direitos Humanos, Conflitos Internacionacionais
Pág. 6 - Importância do conhecimento de Relações Internacionais
Pág. 7 - As Relações Internacionais e a Constituição Brasileira
Pág. 8 - O Poder Legislativo e as Relações Internacionais
Pág. 9 - O Estudo das Relações Internacionais
Pág. 10 - Relações Internacionais como disciplina independente

Unidade 2 - Conceitos Fundamentais


Pág. 2 - Conceitos Fundamentais
Pág. 3 - Sociedade Internacional
Pág. 4 - Sociedade Internacional
Pág. 5 - Ator Internacional
Pág. 6 - Sistema Internacional
Pág. 7 - Forças Profundas
Pág. 8 - Potência
Pág. 9 - Potência
Pág. 10 - Potência
Pág. 11 - Hegemonia
Pág. 12 - Hegemonia
Pág. 13 - Hegemonia

Unidade 3 - Correntes teóricas das Relações Internacionais


Pág. 2 - Teorias de Relações Internacionais
Pág. 3 - A fase idealista
Pág. 4 - A fase idealista
Pág. 5 - A fase idealista
Pág. 6 - A fase realista
Pág. 7 - Behavioristas e pós-behavioristas
Pág. 8 - Realismo, Pluralismo e Globalismo
Pág. 9 - Pluralismo
Pág. 10 - Globalismo
Pág. 11 - Outras correntes teóricas
Pág. 12 - Idealismo x Realismo
Pág. 13 - Tradicionalistas x Científicos
Pág. 14 - A Teoria Sistêmica das Relações Internacionais
Pág. 15 - A Teoria Sistêmica das Relações Internacionais
Pág. 16 - Realistas x Pluralistas
Pág. 17 - Mudanças na Teoria das Relações Internacionais

Unidade 4 - O Realismo
Pág. 2 - O Realismo
Pág. 3 - O Realismo
Pág. 4 - O Realismo
Pág. 5 - O Realismo
Pág. 6 - O conflito e a questão da segurança
Pág. 7 - Críticas ao Realismo
Pág. 8 - O Neorrealismo
Pág. 9 - O Neorrealismo
Pág. 10 - Os Últimos Grandes Debates
Pág. 11 - Neorrealistas X Globalistas
Pág. 12 - Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência
Pág. 13 - Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência
Pág. 14 - Neorrealistas x Neoliberais e a Teoria da Interdependência
Pág. 15 - Conclusão

Unidade 5 - Sociedade Internacional: Aspectos Gerais


Pág. 2 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 3 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 4 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 5 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

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Pág. 6 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito


Pág. 7 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 8 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 9 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 10 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 11 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito
Pág. 12 - Conclusão do Módulo I

Exercícios de Fixação - Módulo I

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Módulo I - Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações


Internacionais

Unidade 1 - As Relações Internacionais no Mundo Contemporâneo: Dilemas e Perspectivas


Unidade 2 - Conceitos Fundamentais
Unidade 3 - Correntes Teóricas das Relações Internacionais
Unidade 4 - O Realismo

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Unidade 1 - As Relações Internacionais no Mundo Contemporâneo: Dilemas e


Perspectivas

Ao final desta Unidade inicial, o aluno deverá estar apto a:


identificar os principais pontos da agenda de relações
internacionais contemporâneas;
estabelecer o conceito e as características da Globalização;
estabelecer a importância das relações internacionais para o
Brasil;
assinalar a evolução histórica e a importância de Relações
Internacionais como disciplina acadêmica.

Em um curso de educação a distância por meio da Internet, o estudante


tem um papel central no estabelecimento de uma relação de qualidade
com o conteúdo proposto. Portanto, procure organizar-se para ter o
melhor aproveitamento possível do curso.

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Pág. 2 - As Relações Internacionais no mundo contemporâneo

Antes de iniciar os estudos desta unidade, assista ao primeiro vídeo educacional da


série: Conexão Mundo ("Aldeia Global - Mundo Digital"), disponível no youtube.

Aldeia Global Mundo Digital

Conexão Mundo é uma série de 20 programas sobre relações internacionais que oferece
informações necessárias à compreensão dos novos processos de intercâmbio entre as nações. Os
programas enfocam toda a história das relações entre os povos, os tratados e políticas para a nova
ordem internacional e procuram desvendar conceitos como o de “globalização”, “blocos econômicos”
etc.

As últimas décadas do século XX foram marcadas pela intensificação das relações entre os povos, de uma maneira como nunca experimentada
anteriormente. Cada vez mais, as distâncias estão menores, tempo e espaço perdem o significado que tinham para nossos pais e avós, e as pessoas de
diferentes locais do globo tomam consciência de que “a menor distância entre dois pontos é uma tecla”.

O século XXI chegou trazendo grandes conquistas: o mundo está menor, globalizado, interligado física e eletronicamente; pode-se tomar café em
Londres e almoçar em Washington; as fronteiras perdem sua importância; o sistema internacional vê-se cada vez mais integrado; a tecnologia alcança
milhões de pessoas, e não há limite ao conhecimento humano. O último século do segundo milênio presenciou uma evolução tecnológica inimaginável!

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Pág. 3 - O Processo de Globalização

O termo globalização pode ser entendido como fenômeno de aceleração e intensificação de mecanismos, processos e
atividades, com vista à promoção de uma interdependência global e, em última escala, à integração econômica e
política em âmbito mundial. Trata-se de conceito revolucionário, envolvendo aspectos sociais, econômicos, culturais e
políticos. Registre-se, ademais, que essa é apenas uma das várias conceituações do fenômeno, o qual não é recente,
mas se acelerou a partir da segunda metade do século XX.

Um dos aspectos mais importantes da globalização envolve a ideia crescente do “mundo sem fronteiras”. Isso é
perceptível em termos como “aldeia global” e “economia global”. Poucos lugares do mundo estão a mais de dez dias de
viagem, e a comunicação através das fronteiras é praticamente instantânea.

Em nossos dias, com as economias interligadas, blocos se formam, com consequências que ultrapassam os benefícios econômicos, pois as
conquistas sociais e políticas de um membro do bloco logo deverão chegar aos territórios de todos os outros. Princípios como a democracia e a
prevalência dos direitos humanos podem ser defendidos e arguídos em troca de benefícios econômicos. Cite-se, por exemplo, o caso de países
como Grécia, Portugal e Espanha, que, para serem aceitos na então Comunidade Europeia, tiveram que promover importantes mudanças
econômicas, sociais e políticas. O mesmo se aplica à Turquia, que aspira a tornar-se parte da moderna Europa.

No caso do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), há a chamada "cláusula democrática", a qual estabelece que apenas países sob regimes
democráticos podem participar do bloco. Essa cláusula evita as alternativas autoritárias em alguns países do Mercosul, em momentos de crise
institucional.

Assim, o atual processo de globalização envolve a integração econômica mundial em diversos níveis, com a redução das distâncias em virtude do
desenvolvimento de mecanismos de produção e distribuição de bens em escala global, e do fortalecimento dos meios de comunicação. Nesse
contexto, novos atores, como as organizações não governamentais, as empresas transnacionais, a opinião pública e a mídia, ganham destaque ao
influenciarem a conduta dos Estados.

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Pág. 4 - Dilemas da Globalização

Entretanto, a globalização também é marcada por problemas em escala mundial. Nesse sentido, há a criminalidade, que ultrapassa as fronteiras dos
Estados, com organizações criminosas exercendo suas atividades ilícitas no âmbito internacional. Crimes como o narcotráfico, o tráfico de armas, o
tráfico de pessoas e de animais e a pirataria, todos esses há muito não são problemas exclusivos de um ou outro país, mas questões globais que
devem ser encaradas sistemicamente. E a base do crime organizado é a lavagem de dinheiro, que movimenta cerca de um trilhão de dólares por ano
no mundo, ou 4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Assim, ao lado das grandes conquistas, há novos e grandes desafios: parte significativa da população mundial ainda permanece no século XIX. Nações
ricas e prósperas convivem com Estados que comportam milhões de miseráveis. Alguns locais do globo ainda não saíram da Idade Média! Novas e
antigas doenças afligem milhões. Cite-se, ainda, a parte significativa da raça humana que sofre com a fome, a pobreza, as guerras. A sociedade
internacional presencia crises econômicas, políticas, culturais e sociais. E o destino da humanidade permanece uma grande incógnita.

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Pág. 5 - Meio Ambiente, Direitos Humanos, Conflitos Internacionacionais

Outro importante tema de relações internacionais neste mundo globalizado envolve os problemas Convém registrar que, para
ambientais. Cada vez mais a humanidade toma consciência de que o meio ambiente não pode ser Relações Internacionais como
tratado como assunto interno dos Estados e que os danos ambientais ultrapassam as fronteiras. disciplina acadêmica ou área
A terra é um corpo único e seus recursos são patrimônio de todos os seres humanos e das futuras do conhecimento,
gerações. Daí que os males causados ao meio ambiente afetam toda a humanidade. empregaremos iniciais
maiúsculas, enquanto que,
quando nos referirmos ao
objeto de estudo, usaremos o
termo em minúsculas.

No último quartel do século XX, a proteção ao meio ambiente passou a ser uma das grandes preocupações da comunidade internacional, não só na
esfera de governo, mas também entre todos os habitantes do planeta. A Conferência do Rio de Janeiro de 1992 exerceu essa salutar influência, e
multiplicaram-se nas últimas décadas os tratados sobre todos os aspectos ambientais, tanto assim que se calcula em mais de mil os tratados
internacionais assinados sobre o tema.

Também a proteção aos direitos humanos é um assunto em voga, sobretudo quando notícias de violações a esses direitos nos chegam de todas as
partes do planeta. No moderno sistema internacional, agressões contra uma pessoa devem ser consideradas crimes contra toda a raça humana. O
intenso trabalho das cortes internacionais de direitos humanos na Europa e no continente americano refletem essa nova realidade.

Ademais, à medida que nos aproximamos uns dos outros, surgem também os conflitos, outro componente marcante da agenda internacional desde
sempre. E no extremo dos conflitos, temos a guerra, sob suas diferentes formas. Nesse sentido, o século XX foi marcado por uma grande quantidade
de guerras por todo o globo, inclusive com dois conflitos que envolveram praticamente toda a sociedade internacional.

De fato, uma das grandes certezas do século XXI é que nele ainda presenciaremos o fenômeno da guerra. Entretanto, alguns cogitam mesmo que a
guerra, neste século, não será mais entre países, mas entre civilizações (HUNTINGTON, 1998).

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Pág. 6 - Importância do conhecimento de Relações Internacionais

Eis, portanto, o grande paradoxo global: ao lado de grandes conquistas, grandes desafios! E é nesse contexto que se percebe a necessidade de
conhecimento das relações internacionais. Atualmente, quem não estiver informado sobre o que ocorre no mundo poderá ver-se bastante limitado,
pessoal e profissionalmente.

Hoje, a sociedade internacional está tão interligada, tão integrada em um processo de globalização, que situações ocorridas na China podem afetar a
nós, brasileiros, do outro lado do planeta. Daí que o problema do outro passa a ser também um problema nosso, e o bem-estar de cada homem passa
a significar o bem-estar de toda a humanidade. Nesse contexto, se você não é parte da solução, é parte do problema!

Assista à aula proferida pelo Professor Doutor Joanisval Brito Gonçalves, por ocasião de curso presencial ministrado no ILB.
Aumente o som de seu equipamento e bons estudos!

Introdução às Relações Internacionais

Duração: 5min29

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O Brasil e as Relações Internacionacionais

Como quinto maior país do globo em população e dimensão territorial, e estando entre as maiores economias do planeta, com
condições e pretensões de se tornar uma grande potência, o Brasil não pode se furtar a ter um papel de destaque nas relações imagem do
internacionais. As transformações e acontecimentos no mundo globalizado farão cada vez mais parte de nosso dia a dia, em uma olho
tendência praticamente irreversível. humano em
close pintado
Estamos estrategicamente localizados, temos fronteiras com praticamente todos os países sul-americanos, e com o Atlântico, com as cores
principal via para a Europa e a África. Ademais, somos uma nação tida como pacífica e respeitadora do direito internacional e com da bandeira
incontestáveis atributos de liderança regional. Finalmente, não devemos desconsiderar nossas maiores riquezas: os recursos naturais nacional
e um povo multiétnico, empreendedor e, nos dizeres de Gilberto Freyre, com suas peculiares “características antropofágicas”.

Pouco significativa diante de suas potencialidades é a atuação brasileira no cenário internacional. Apenas nas últimas décadas do século XX é que o
Brasil começou a se fazer mais presente. Isso coincide com o surgimento e o desenvolvimento dos primeiros cursos de Relações Internacionais no País
e com o aumento do interesse nas questões internacionais por parte de diversos setores da nossa sociedade.

É premente a necessidade de que os brasileiros tenham algum conhecimento de Relações Internacionais. Na Administração Pública, essa demanda é
mais evidente. No Poder Legislativo, é fundamental que aqueles que assessoram os legisladores conheçam as principais linhas da política internacional
tão bem quanto conhecem a política interna brasileira. Afinal, política interna e política externa estão estreitamente relacionadas: as ações daquela
afetarão e serão afetadas por esta e vice-versa.

Um sítio interessante para o estudante e o profissional de Relações Internacionais é o Inforel, que


traz cobertura atualizada das questões gerais da área e também de defesa nacional, além de
artigos com análises interessantes.

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Pág. 7 - As Relações Internacionais e a Constituição Brasileira

A importância das relações internacionais também pode ser percebida na maneira como o tema é tratado na Constituição Federal. A Carta Magna,
já em seu Título I, referente aos “Princípios Fundamentais”, estabelece, no art. 4º, os princípios que regem as relações internacionais do Brasil:

· independência nacional;
· prevalência dos direitos humanos;
· autodeterminação dos povos;
· não intervenção;
· igualdade entre os Estados;
· defesa da paz;
· solução pacífica dos conflitos;
· repúdio ao terrorismo e ao racismo;
· cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
· concessão de asilo político.

Ainda no que concerne à Lei Maior, também os direitos e garantias fundamentais estão intimamente relacionados às experiências vivenciadas pela
comunidade das nações ao longo de sua história. Foi graças às revoluções em países como a Inglaterra, a França, os EUA e a Rússia, e à difusão
desses princípios para além de suas fronteiras, que o mundo moldou uma cultura de direitos fundamentais que hoje são inquestionáveis em todo o
planeta. E a violação a esses direitos gera repulsa da comunidade internacional.
A Constituição de 1988 inovou ao elencar, de forma sistemática, os princípios que regem nossas relações internacionais. Para maior aprofundamento,
sugerimos a leitura do artigo 'Os princípios das relações internacionais e os 25 anos da Constituição Federal', do Professor Alexandre Pereira da
Silva, disponível na Biblioteca deste curso, em 'Textos complementares'.

Vereshchetin (1996), por exemplo, vê no que chama de “fator direitos humanos” um dos principais meios de retomada de uma cultura mínima de
proteção internacional no pós-Guerra. O relacionamento entre Estado e indivíduo, que tradicionalmente foi objeto de preocupação de leis internas, não
mais pode ser considerado uma questão puramente doméstica dos países.

A Constituição da Rússia de 1993, por exemplo, trouxe como princípio a incorporação das normas internacionais ao sistema jurídico interno e a
prevalência dos acordos internacionais dos quais a Federação Russa faça parte, caso estes estabeleçam regras que difiram daquelas estipuladas em lei
interna. Isso tem se mostrado uma tendência constitucional em vários países. Quando não há dispositivos legais expressos, as cortes constitucionais
têm dado o rumo da interpretação.
Na década de 1990, as cortes constitucionais da Hungria e da Polônia, por exemplo, decidiram que a Constituição e as normas internas deveriam ser
interpretadas de tal forma que as normas internacionais geralmente aceitas tivessem força efetiva.

Há, portanto, em todo o planeta, sinais de uma crescente interdependência até mesmo no campo jurídico, e o Tribunal Penal Internacional nada mais é
que uma expressão e consequência disso.

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Pág. 8 - O Poder Legislativo e as Relações Internacionais

As relações internacionais do Brasil passam efetivamente pelo Poder Legislativo. Em nosso sistema jurídico-político, quaisquer tratados que o Brasil
celebre com outras nações ou com organizações internacionais devem necessariamente passar pelo aval do Congresso Nacional antes de serem
ratificados.

O art. 49 da Constituição Federal de 1988 é claro ao estabelecer, logo nos dois primeiros incisos, as competências exclusivas do Congresso Nacional:

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:

I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos
ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional;

II - autorizar o Presidente da República a declarar guerra, a celebrar a paz, a permitir que forças
estrangeiras transitem pelo território nacional ou nele permaneçam temporariamente, ressalvados os
casos previstos em lei complementar;

(...)

E o Senado Federal, por sua vez, tem atribuições mais específicas, pois é a Casa Legislativa que avalia e aprova nossos embaixadores, autoridades
máximas das missões diplomáticas brasileiras, designados para representar o País no Exterior. Compete também ao Senado autorizar as operações
externas de natureza financeira dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

Cada Casa Legislativa possui comissões encarregadas dos temas de relações exteriores e defesa nacional. No Senado Federal, por exemplo, a
Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), composta por 19 membros titulares e 19 suplentes, é competente para tratar das questões
que envolvam as relações internacionais do País.

A legislação brasileira evidencia a importância do Poder Legislativo nos destinos das relações internacionais. E quanto mais o Brasil busque integrar-se
na comunidade das nações e ocupar o seu devido papel de destaque, mais importante se faz o conhecimento, na esfera do Legislativo, dos principais
temas da área.

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Pág. 9 - O Estudo das Relações Internacionais

Antes de concluirmos a primeira Unidade, convém apresentar algumas considerações gerais sobre o estudo das relações internacionais como disciplina,
as áreas de atuação do profissional da área e a realidade brasileira.

O estudo de Relações Internacionais envolve conhecimentos gerais de Direito, Economia, Administração, História, Filosofia, Sociologia, Antropologia,
Estatística e, sobretudo, de questões internacionais contemporâneas.

O interesse por temas de relações internacionais aumentou mais ainda após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Ao assistirmos
àqueles dramáticos acontecimentos em tempo real, alguns véus foram retirados, e aos poucos tomamos consciência de que as distâncias físicas se
estreitavam ao mesmo tempo em que as distâncias culturais e sociais aumentavam. O terrorismo passa também a ser uma questão global, que afeta
países nos hemisférios Norte e Sul, no Ocidente e no Oriente.

No campo profissional, as relações internacionais são aplicáveis em diversas áreas. No Brasil, há profissionais dessa área atuando em vários setores da
Administração Pública e da iniciativa privada.

Em termos de carreira, uma das mais conhecidas é a diplomacia. O diplomata é o legítimo representante
do Governo e da nação junto a outros povos e organizações internacionais. Para se tornar um diplomata
no Brasil, é necessário o ingresso na carreira por meio de concurso público, promovido pelo Instituto Rio
Branco (IRBr) do Ministério das Relações Exteriores. Aprovado no concurso, e, submetido a um período
de treinamento no IRBr, o diplomata inicia uma carreira como Terceiro Secretário, podendo chegar a
Embaixador.
Palácio do Itamaraty
Fonte:www.inforel.org

No serviço público, além da Chancelaria, o profissional de relações internacionais tem diante si alternativas de trabalho nos vários órgãos da
Administração Federal, Estadual e Municipal. Afinal, sempre há uma “assessoria internacional” em cada ministério, secretaria, autarquia e empresas
públicas. E o perfil do internacionalista se destaca. Constata-se a presença de profissionais de relações internacionais nas principais carreiras de
Estado.

Na iniciativa privada, outro leque de alternativas se abre aos que possuem formação na área. Além das grandes corporações multinacionais e
transnacionais, as empresas brasileiras de médio e grande porte já percebem a necessidade de atuarem em uma economia globalizada. Assim, em um
mundo cada vez mais integrado econômica e financeiramente, as empresas precisam de profissionais que as auxiliem a se integrarem e a
permanecerem no sistema internacional. Aquelas que desconsideram essa percepção frequentemente acabam por sucumbir.

Além disso, há a possibilidade de trabalho nas centenas de Organizações Internacionais e Organizações Não Governamentais que atuam no globo:
ONU, OEA, OIT, OMC, OPEP, UNESCO, FAO, Greenpeace, WWF e outras. Brasília tem representação da maior parte dos organismos internacionais dos
quais o Brasil é membro e, com isso, o mercado do profissional de relações internacionais se amplia na capital federal.

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Pág. 10 - Relações Internacionais como disciplina independente

Até o início do século XX, as relações internacionais não eram estudadas como disciplina independente. O estudo do tema estava sempre sob o manto
de outras ciências, como o Direito, a Economia, a Sociologia e a Ciência Política.

À medida que a sociedade internacional tornava-se mais complexa e as relações entre os Estados mais diversificadas, relações estas que envolviam
conflito e cooperação, e que muitas vezes culminavam em situações que interferiam diretamente no cotidiano das pessoas e na política interna das
nações, percebeu-se a crescente necessidade de teorias que explicassem a conduta dos atores em um cenário internacional. Essas teorias e seu estudo
deveriam constituir uma nova área do conhecimento, independente e com autonomia para gerar suas próprias percepções da realidade. Daí o
aparecimento das primeiras cátedras de Relações Internacionais pelo mundo.

Os cursos de Relações Internacionais surgiram na primeira metade do século XX, nas principais universidades europeias e norte-americanas. Foram
constituídos com o objetivo de produzir conhecimento que explicasse como se desenvolviam as relações entre os Estados. Naquele contexto, as
perguntas que impulsionariam o estudo estavam intimamente relacionadas ao grande trauma da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), conflito sem
precedentes até então, que envolvera diversas nações do globo e causara pesadas perdas, sobretudo no território europeu. Assim, os temas centrais
eram:

O que havia conduzido o mundo a uma situação de conflito tão drástica?


O que leva os Estados à guerra?
É possível se evitar o conflito entre os povos?
Como agem os atores internacionais e quais forças que interferem na conduta desses entes?

Claro que, no decorrer do século XX, o estudo de Relações Internacionais diversificava-se à medida que os laços entre os povos tornavam-se mais
complexos e novos temas, como cooperação, desenvolvimento, integração, paz, direitos humanos e globalização, vinham à baila. Atualmente, a
disciplina é ampla e alcança as mais diferentes áreas de estudo, e evolui à medida que também evolui a complexidade da sociedade internacional. De
fato, hoje há cursos de Relações Internacionais nas principais universidades do mundo e profissionais da área atuando nos mais variados segmentos
dos setores público e privado.

O primeiro curso de Relações Internacionais no Brasil foi instituído na Universidade de Brasília, na década de 1970, fazendo da capital da República o
referencial brasileiro em estudos internacionais. Até meados da década de 1990, havia apenas dois cursos de Relações Internacionais no Brasil – na
Universidade de Brasília e na Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro). Hoje, são dezenas de instituições que oferecem a graduação em Relações
Internacionais por todo o País. Trata-se, portanto, de carreira de grata expansão. Mesmo assim, a contribuição brasileira para as relações
internacionais ainda é muito incipiente, sobretudo para um país que tem potencial para se tornar uma grande potência entre seus pares.

Feitas essas primeiras considerações acerca do tema de nosso curso, passemos às teorias e aos principais conceitos utilizados pelos profissionais e
estudiosos das Relações Internacionais.

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Unidade 2 - Conceitos Fundamentais

Ao final desta unidade, o aluno deverá ser capaz de identificar e


definir os seguintes conceitos fundamentais de relações
internacionais:
• Sociedade Internacional;
• Atores;
• Forças Profundas;
• Sistema Internacional;
• Potência;
• Hegemonia.

                                                            

Lembre-se sempre dos objetivos estabelecidos, que devem servir de guias para o
estudo do conteúdo e para a autoavaliação do cursista. Tenha um bom
aproveitamento!

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Pág. 2 - Conceitos Fundamentais

Essencial para o desenvolvimento de nosso curso é a compreensão de conceitos fundamentais de Relações Internacionais. Nesse sentido, seria
complicado tentar iniciar qualquer análise de Relações Internacionais sem as noções desses conceitos. Dentre eles ressaltamos:

Sociedade Internacional;

Atores;

Forças Profundas;

Sistema Internacional;

Potência;

Hegemonia.

Antes de iniciar o estudo desta unidade, sugerimos que assista atentamente aos dois vídeos
seguintes do Conexão Mundo,
“Conceitos Fundamentais de Relações Internacionais”, disponíveis no Youtube.

Conexão Mundo - Conceitos Fundamentais das Relações I…


I…

Conexão Mundo - Conceitos Fundamentais das Relações I…


I…

A seguir, vamos procurar identificar os elementos mais importantes desses conceitos.


 

Sociedade Internacional
 

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Um dos primeiros aspectos com o qual se depara aquele que inicia o estudo de Relações Internacionais refere-se à temática que envolve a Sociedade
Internacional.

Como definir Sociedade Internacional? Quais os elementos constitutivos desse conceito?

A ideia de Sociedade Internacional – termo cunhado por Hugo Grócio no século XVII – permite direcionar a atenção para
a atuação padronizada dos Estados. Apesar da ausência de uma autoridade central no cenário internacional, os Estados
exibem padrões de atuação que estão sujeitos a, e constituídos por, restrições de diversas naturezas – históricas,
sistêmicas, legais e morais, entre outras.

Num primeiro momento, podemos relacionar Sociedade Internacional à evolução histórica das relações entre os grupos,
povos e, mais tarde, Estados-nações organizados em âmbito espacial determinado. Podemos identificar a evolução da
Sociedade Internacional a partir das relações entre os grupos primitivos da Antiguidade, passando pelos reinos e
impérios e chegando à Idade Contemporânea, com a ascensão do Estado nacional e soberano nos séculos XVIII e XIX e
o seu declínio, no século XX, frente a um sistema cada vez mais globalizado e interdependente.

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Pág. 3 - Sociedade Internacional

Podemos falar em Sociedade Internacional antes mesmo da formação dos Estados nacionais, que só se deu, nos moldes como os concebemos hoje
(compostos de povo, território e soberania), há dois séculos. Mesmo que não houvesse consciência dos povos a esse respeito, não há como negar a
existência “de fato” de uma Sociedade Internacional na Antiguidade. Afinal, a partir do momento em que surgem os primeiros grupos independentes e
diferenciados, exercendo relações políticas, culturais ou comerciais entre si, tem-se uma Sociedade Internacional embrionária. Das tribos passaram-se
aos reinos, às cidades-estados e aos impérios, e estes, vistos em um contexto macro e nas relações entre si, formavam a Sociedade Internacional do
mundo antigo.
 
Claro que o primeiro modelo de Sociedade Internacional, inserido em um Sistema Internacional da Antiguidade, refletia mais um conjunto de
sociedades regionais localizadas, muitas vezes sem qualquer contato entre si e até sem consciência da existência umas das outras. Era uma época em
que as forças naturais limitavam a comunicação entre Oriente e Ocidente, e a “Sociedade Internacional do sistema grego” mantinha pouco contato com
a “Sociedade Internacional do extremo oriente” – na qual o império dinástico chinês era o principal ator.
 
Somente com as grandes navegações e o expansionismo europeu pelo planeta é que se estrutura uma Sociedade Internacional global. Assim, desde o
século XVI, o mundo vai-se tornando cada vez mais integrado, seja pela força da economia e do comércio, seja pela força dos canhões e das
conquistas coloniais europeias. Paul Kennedy, em sua obra já clássica Ascensão e Queda das Grandes Potências, analisa, com clareza, como o extremo
oeste do continente euro-asiático, conhecido como Europa, com uma diversidade de povos e reinos autônomos e marcado por conflitos regionais e
fratricidas, consegue expandir-se pelo mundo e, em pouco mais de dois séculos, tornar-se o centro de uma sociedade global, subjugando forças
tradicionais como a China e o Império Otomano.

O termo “internacional” foi utilizado pela primeira vez em 1780, pelo filósofo inglês Jeremias Bentham, em sua
obra Princípios de Moral e Legislação. Essa é a época do apogeu dos Estados nacionais, com o início do declínio do
absolutismo no continente europeu. Era um período em que a ideia de nação ainda estava muito ligada à figura do soberano.
A Sociedade Internacional representava, para os europeus, a “Cristandade”, com seus paradigmas e princípios seculares. O
Estado soberano era o principal ator internacional.
  
Foi com a Revolução Francesa que o conceito de nação deixou de ter caráter puramente simbólico e passou a relacionar-se
diretamente à questão da soberania. Esta passou a residir essencialmente na nação, onde o súdito tornou-se cidadão e as
relações entre os Estados, até então simbolizados e conduzidos pelos monarcas, estenderam-se às relações entre os povos. O século XX esclarece
essa nova perspectiva: as relações entre nações não são necessariamente relações entre os Estados, muito pelo contrário.
 

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Pág. 4 - Sociedade Internacional

Não há dúvida de que essa Sociedade Internacional é dinâmica e tem sua evolução diretamente relacionada à evolução dos grupos, povos, reinos,
Estados, Impérios e nações, enfim, de todos os atores que a compõem ou a compuseram e das forças que influenciam a sua atuação.

Qual é, então, o conceito de sociedade internacional?

A resposta para essa pergunta é percebida de maneira diferenciada pelos teóricos das Relações Internacionais, que podem ser reunidos em três
grandes grupos (CERVERA, 1991).

Para os teóricos do primeiro grupo, é simplesmente impossível definir Sociedade Internacional. Limitam-se, assim, ao estudo dos componentes da
Sociedade Internacional e à evolução das relações entre eles.

Os teóricos do segundo grupo dedicam-se a analisar a Sociedade Internacional em contraposição a outros grupos sociais. Por essa ótica, a pergunta
que se busca responder é “Como é a Sociedade Internacional?” É irrelevante, portanto, para esses autores, a formulação de um conceito teórico para
Sociedade Internacional. De qualquer maneira, eles não deixam de apresentar sua definição de Sociedade Internacional, mas apenas para
instrumentalizar suas explicações, como veremos adiante.

O terceiro grupo, majoritário, afirma não só ser possível, mas também necessário, proceder à definição do termo “Sociedade Internacional”, para que
se possa tratar com mais propriedade o estudo dos fenômenos internacionais e das relações que se desenvolvem em seu meio. Uma vez que
concordamos com essa percepção, apresentaremos nosso conceito de Sociedade Internacional. Antes, porém, vejamos alguns conceitos de autores
renomados.

Colliard (1978) afirma que Sociedade Internacional é o “conjunto de seres humanos que vivem sobre a terra”. Percebemos uma definição genérica e
abrangente, que põe completamente de lado as estruturas em que os seres humanos estão agrupados, como as nações ou os Estados nacionais. Para
o autor, o conceito de Sociedade Internacional confunde-se com o de “humanidade”. Chega-se a perceber mesmo uma concepção idealista, pois a
Sociedade Internacional teria em primeiro plano o indivíduo, independentemente de suas origens e do grupo ou povo a que pertence.

Hedley Bull (2002), com base em uma análise sistêmica, definiu Sociedade Internacional como um “grupo de comunidades políticas independentes
que não formam um sistema simples”.

Juan Carlos Pereira (2001) apresenta uma definição mais precisa e completa: “um âmbito espacial e global em que se desenvolve um amplo
conjunto de relações entre grupos humanos diferenciados, territorialmente ou geograficamente organizados e com poder de decisão.” O autor acredita
que a Sociedade Internacional estaria evoluindo para uma Comunidade Internacional.

Rafael Calduch Cervera (1991) define Sociedade Internacional como “aquela sociedade global (macrossociedade) que compreende os grupos com
um poder social autônomo, entre os quais se destacam os Estados, que mantêm entre si relações recíprocas, intensas, duradouras e desiguais sobre as
quais é assentada certa ordem comum”.

Por fim, cabe apresentar nossa própria conceituação de Sociedade Internacional, que é baseada na corrente historiográfica, pela qual buscamos reunir
elementos que consideramos essenciais para a compreensão do termo e de sua evolução desde a Antiguidade. A nosso ver, Sociedade Internacional
pode ser definida como o conjunto de entes que interagem de maneira sistêmica em uma esfera internacional sob a influência de forças
profundas.

Desmembremos esse conceito para melhor compreensão.

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Pág. 5 - Ator Internacional

A primeira parte de nosso conceito de Sociedade Internacional trata de um conjunto de entes. Esses entes nada mais são do que os Atores
internacionais. Ator internacional é toda autoridade, organização, grupo ou pessoa que representa ou pode vir a representar um papel de destaque na
Sociedade Internacional. A percepção desses atores varia conforme o tempo e a corrente teórica que os identifica, mas podemos destacar aqueles que,
na atualidade, podem ser considerados os mais importantes: os Estados nacionais, os atores governamentais interestatais (as organizações
internacionais), os atores não governamentais interestatais (i.e., organizações não governamentais e empresas multi- e transnacionais, entre outros) e
os indivíduos.

Não são todas as pessoas, grupos ou organizações que podem ser identificados como Ator Internacional. Para nossa classificação, é necessário que a
atuação desses entes tenha destaque em escala global. Por exemplo, uma associação estabelecida dentro de determinado país e voltada em suas
atividades e interesses prioritariamente ao âmbito interno daquele país não é um Ator internacional.

Não obstante, qualquer grupo, organização ou indivíduo pode vir a tornar-se Ator internacional. Grandes empresas transnacionais de hoje foram, no
passado, pequenas organizações comerciais, algumas de natureza familiar, que atuavam exclusivamente no interior de seu país de origem, não sendo
à época Atores internacionais. À medida que essas empresas cresceram, expandiram-se para além das fronteiras de seus Estados de origem e
começaram a atuar e influir na Sociedade Internacional, tornaram-se Atores internacionais.

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Pág. 6 - Sistema Internacional

O segundo aspecto de nosso conceito de Sociedade Internacional refere-se à atuação sistêmica na esfera internacional. Adotamos uma abordagem
sistêmica, em que o aspecto relacional é importante. Sistema pode ser conceituado como “conjunto de elementos e instituições entre os quais se possa
encontrar alguma relação” ou, ainda, “conjunto ordenado de meios de ação ou de ideias, tendente a um resultado”. A abordagem sistêmica em
relações internacionais vê o conjunto de inter-relações entre os Atores internacionais como sujeito a padrões e normas – enfim, a forças profundas –,
que remetem ao conjunto mais amplo, o sistema internacional como um todo.

As primeiras considerações a respeito do modelo sistêmico para explicar as Relações Internacionais tomaram por base referências da Biologia e da
Química. Nesse sentido, pode-se associar a noção de sistema ao corpo humano, no qual vários subsistemas – circulatório, nervoso etc. – são
compostos de órgãos que se relacionam e dependem uns dos outros. A ideia de sistema, portanto, está relacionada a um ordenamento nas relações
entre componentes e à interdependência entre esses componentes.

Raymond Aron, em sua obra clássica Paz e Guerra entre as Nações, recorreu ao conceito de sistema para evocar a dinâmica das
relações internacionais. Assim, a Sociedade Internacional tem características suficientemente estáveis para que possamos
percebê-la como um sistema onde os Atores conduzem suas relações dentro de certos padrões.

Cabe aqui, também, apresentar um conceito de Sistema Internacional, de acordo com Frederic S. Pearson e J. Martin Rochester
(2000, p. 641):

Sistema Internacional. Conjunto de relações em âmbito mundial nas áreas política, econômica, social e tecnológica, em torno
do qual ocorrem as relações internacionais em um dado momento.

Há ainda autores que separam as noções de Sociedade Internacional e de Sistema Internacional para identificar certos períodos
históricos. Por exemplo, Sociedade Internacional teria como substrato a ideia de concerto e harmonia internacional, que alguns defendem
corresponder, por exemplo, à Europa do pós-1815. Em contrapartida, Sistema Internacional traduziria a existência de vários polos de poder que
interagem entre si e não necessariamente se harmonizam no todo, o que alguns autores defendem corresponder ao mundo pós-1945.

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Pág. 7 - Forças Profundas

Finalmente, de acordo com a nossa concepção de Sociedade Internacional, o terceiro elemento fundamental são as “forças profundas”. A ideia de
“forças profundas” origina-se da corrente historiográfica das Relações Internacionais cujos principais expoentes foram Pierre Renouvin e Jean-Baptiste
Duroselle. De acordo com esses historiadores, as forças profundas nada mais seriam que determinados fatores que influenciariam as ações das
coletividades.

As condições geográficas, os movimentos demográficos, os interesses econômicos e financeiros, os traços da mentalidade coletiva, as grandes
correntes sentimentais – todas essas forças profundas formaram o quadro das relações entre os grupos humanos e, em grande parte, lhes
determinaram o caráter. O homem de Estado, nas suas decisões ou nos seus projetos, não pode negligenciá-las; sofre-lhes a influência e é obrigado a
constatar os limites que elas impõem à sua ação. Todavia, quando ele possui quer dons intelectuais, quer firmeza de caráter, quer temperamento que
o levam a transpor aqueles limites, pode tentar modificar o jogo de semelhantes forças e utilizá-las para seus próprios fins.

Juan Carlos Pereira denomina tais forças profundas de “fatores condicionantes” (PEREIRA, 2001, p. 44). Identifica alguns desses fatores: fator
geográfico, fator demográfico, fator econômico, fator tecnológico, fator ideológico/sistema de valores, fator político-jurídico e fator militar-estratégico.

Portanto, a Sociedade Internacional é composta de entes – Estados, organizações internacionais, organizações não governamentais, empresas
transnacionais, indivíduos, entre outros – que são influenciados pelas forças profundas – fatores geográficos, demográficos, migratórios, políticos,
econômicos e financeiros, ideológicos, religiosos, tecnológicos etc. – em suas ações sistêmicas na esfera internacional.

Uma leitura complementar recomendada é a do texto sobre Rio Branco e as Forças Profundas, de
Arno Wehling:

Visão de Rio Branco – o homem de estado e os fundamentos de sua política.

Além do clássico Histoire des Rélations Internationales, obra-mestra da


historiografia francesa das relações internacionais, caberia destacar dois livros de
Renouvin e Duroselle já traduzidos para o português: Introdução à História das
Relações Internacionais – publicada em 1967 pela Difusão Europeia do Livro, de
São Paulo – e Todo Império Perecerá – um dos últimos grandes trabalhos de
Duroselle, lançado no Brasil em 2000.

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Pág. 8 - Potência

Além dos conceitos já tratados, cabem, neste curso introdutório, algumas observações – ainda que sem aprofundamento – a respeito de outros
conceitos essenciais para viabilizar nosso entendimento dos temas tratados no decorrer das próximas unidades. Passemos a eles.

Potência

O Sistema Internacional é composto por uma diversidade de atores. Nesse contexto, o Estado ocupa papel de destaque, mas existem diferenças
marcantes entre os Estados na esfera internacional e o grau de influência (poder) que eles exercem. Assim, importante para a compreensão das
relações internacionais é a ideia de Potência e das diferentes gradações dessa classificação.

Há inúmeras definições para Potência.

Segundo Martin Wight (2002), Potência é “um Estado moderno e soberano em seu aspecto externo, e quase pode ser definido como a lealdade
máxima em defesa da qual os homens hoje irão lutar”.

Rafael Calduch Cervera (1991), por sua vez, cita o conceito de Potência Internacional segundo C. M. Smouts, ou seja, como aquele Estado “mais ou
menos poderoso segundo sua capacidade de controlar as regras do jogo em um ou mais âmbitos-chaves da disputa internacional e segundo sua
habilidade de relacionar tais âmbitos para alcançar uma vantagem”.

Ao tratar da capacidade dos Estados de influenciarem a Sociedade Internacional, Martin Wight relaciona Potências Dominantes, Grandes Potências,
Potências Mundiais e Potências Menores. Potências Dominantes e Potências Mundiais seriam subdivisões do gênero Grande Potência, uma vez que
ambas as categorias se referem a Estados com interesses globais e capacidade de influência significativa no Sistema Internacional. Em última análise,
a diferenciação poderia ser restringida a Grandes Potências e Potências Menores.

Wight define Potência Dominante como aquela capaz de medir forças contra todos os rivais juntos. E cita exemplos
ao longo dos séculos, como Atenas, à época das Guerras do Peloponeso, o Império Romano, a Espanha de Carlos V
e de Filipe II, a França de Luís XIV, a Grã-Bretanha no século XIX e os EUA no século XX.

Outro termo muito utilizado e cujas características vão além da Potência Dominante, conforme definida por Wight, é
o de Superpotência. Esse termo, cunhado com o advento da Guerra Fria, designava exclusivamente URSS e EUA.
Esses países, em virtude de suas capacidades nucleares – com poder de destruição global –, inúmeras vezes
associadas ao poderio militar convencional e à influência político-ideológica mundial, tinham status único na
comunidade das nações.

Gounelle (1992) indica quatro características das Superpotências:

têm capacidade de intervir em qualquer parte do globo;

dispõem de amplo arsenal, capaz de causar danos diferenciados dos armamentos convencionais e composto
tanto de armas nucleares quanto de outros meios de destruição em massa;

assumem a liderança de uma aliança militar (os EUA da OTAN e a URSS do Pacto de Varsóvia);

pretendem oferecer um modelo universal de sociedade.

Convém lembrar que a ideia de Superpotência ultrapassa em muito o poderio exclusivamente militar. De fato, a capacidade de destruição massiva do
planeta é o elemento central do conceito de Superpotência, mas o aspecto de liderança de um bloco de nações e de pretensões de estabelecimento de
uma sociedade universal em seus moldes político-econômico-ideológico-sociais não pode ser desconsiderado.

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Pág. 9 - Potência

Atualmente, com o colapso da URSS, restou, no planeta, apenas uma Superpotência: os EUA. Alguns autores vislumbram a possibilidade de a China
vir a ocupar, na segunda metade do século XXI, o lugar da URSS. Entretanto, ainda não há que se falar na China como Superpotência, uma vez que
esta, além de não dispor de arsenais nucleares capazes de fazer frente ao poderio de Estados como EUA e Rússia, não tem pretensões – nem
condições – de projetar um modelo sócio-político-cultural-ideológico seu para o mundo. A Rússia, por sua vez, apesar de dispor de arsenais nucleares
com capacidade de destruição massiva do planeta, não pode ser chamada de Superpotência, exatamente porque também não tem condições de
aspirar a qualquer pretensão hegemônica no sistema internacional, como fazia a URSS. Assim, os EUA, considerados os vencedores da Guerra Fria,
são hoje o único Estado com as características básicas da superpotência, e, de fato, essa nação tem-se tornado tão poderosa que já se cunha o
conceito de Hiperpotência, algo sem precedentes na História.

A Hiperpotência dispõe de um aparato bélico superior ao das demais Potências juntas. Esse aparato não se resume ao acervo das armas de destruição
em massa, mas inclui armamento convencional significativo e capacidade de operação militar em mais de um teatro no globo. Ademais, trata-se de
uma Economia de peso diante do sistema, sua influência na política internacional é marcante e, ainda, consegue projetar seu modelo sócio-cultural e
político para outras regiões do planeta.

Assim, os EUA não encontram, no início do século XXI, adversários militares à altura, e são a Grande Potência econômica e a liderança mundial. Do
ponto de vista econômico, por exemplo, apenas a coalizão das grandes economias europeias pode fazer frente aos EUA, o mesmo se podendo dizer
das economias asiáticas. A projeção de poder dos norte-americanos no mundo não encontra precedentes, e alguns analistas já começam a analisar a
política externa estadunidense como uma política de império. De qualquer maneira, o conceito de Hiperpotência ainda encontra-se em
desenvolvimento.

O conceito de Wight para Potência Dominante tem grande proximidade com a ideia de hegemon, ou seja, uma potência tão poderosa que seria
necessária uma coalizão de todas as demais nações para contê-la. A concepção de hegemon ultrapassa a esfera exclusivamente político-militar, de
modo que o Estado que detém esse título influencia a Sociedade Internacional em esferas diversas, como a cultura, a estrutura social interna, a
Economia e até o Direito. Além disso, essa influência do hegemon não ocorre necessariamente de maneira impositiva. De fato, a hegemonia, como
veremos a seguir, envolve um misto de coerção e consenso. Finalmente, convém lembrar que o hegemon continua influenciando a Sociedade
Internacional mesmo após perder esse status.

Interessante observar que a hegemonia dos EUA hoje é mantida mais por outros meios – o que alguns autores chamam de soft power (poder suave)
–, como a presença marcante na compilação e divulgação de notícias e diversões, na produção de bens de consumo, nas inúmeras formas de cultura
popular e sua identificação com a liberdade política e de mercado, do que propriamente por meio do hard power (poder militar).

Além da potência hegemônica, há outros atores estatais com capacidade significativa de influência na Sociedade Internacional. Esses são as Grandes
Potências, as quais, inclusive, disputam a hegemonia entre si e aspiram tornar-se a potência dominante, chegando, muitas vezes, a alcançar esse
objetivo. De fato, as relações internacionais seriam um grande tabuleiro onde essas Potências disputariam poder em um jogo de influência. Como
exemplos atuais de Grandes Potências teríamos China, França, Rússia, Alemanha, Japão e Grã-Bretanha.

As potências menores constituem a maioria. Seu grau de influência no sistema varia significativamente. Nesse grupo, poderiam ser relacionadas
desde as Potências Mundiais menores – como Espanha e Índia – até as Potências Regionais – Argentina e Egito, por exemplo. Vale destacar que uma
Potência Menor hoje pode vir a tornar-se uma Grande Potência e até a Potência Dominante. Os EUA são um bom exemplo disso.

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Pág. 10 - Potência

Max Gounelle (1992) comenta que, à medida que dispõe de capacidade de influenciar de maneira significativa os outros entes da Sociedade
Internacional em prol de seus interesses particulares, um Estado pode ser classificado como Microestado, Potência Local, Potência Média, Grande
Potência ou Superpotência.

Os microestados são aquelas pequenas soberanias que persistem em nossos dias e que, em sua maioria, tiveram origem na formação histórica dos
Estados nacionais europeus ou no processo de descolonização. Encontram-se constantemente sob amplo grau de dependência frente a uma Potência
e integram-se a grupos de Estados organizados no seio de organizações internacionais. Conviria exemplificar nessa categoria países como o
Principado de Mônaco e a República de San Marino, diversos Estados-arquipélagos no Pacífico ou até algumas Repúblicas da América Central e Caribe.
Apesar de minimamente influentes na Sociedade Internacional, esses entes ganham força quando se associam e se fazem representar em organismos
internacionais onde tenham poder de voto igual ao de outros Estados.

As Potências Locais são as mais numerosas. Participantes das atividades comuns da vida internacional, esses entes têm como objetivos principais sua
própria sobrevivência e a defesa de sua soberania territorial. De maneira geral, não têm grandes pretensões internacionais de projeção de poder e
acabam também associados às Grandes Potências ou a Potências Regionais. Como exemplos para essa categoria, temos países como Bolívia,
Paraguai, Camboja, Albânia e Moçambique.

São classificados como Potência Regional ou Potência Média aqueles Estados aptos a representarem certo papel de destaque em grandes áreas
geopolíticas. Egito, Síria, Nigéria, Brasil, Argentina e Irã são exemplos de Potências Regionais ou Médias. Esses países exercem influência em virtude
de suas aptidões de liderança sob certos limites geográficos, fundadas em seus potenciais materiais ou demográficos, sua envergadura ideológicas ou
seu peso militar, econômico e até social.

Gounelle, no entanto, diferencia Potências Regionais de Potências Médias ao afirmar que estas últimas têm ambições mundiais restritas às suas
próprias capacidades. Tais pretensões poderiam ser limitadas a domínios específicos (nuclear, cultural, econômico, diplomático). A França, a
Alemanha, a China e o Japão estariam nessa categoria. De fato, o que Gounelle relaciona como Potências Médias seria o que se costuma chamar mais
apropriadamente de Grandes Potências, ou seja, Potências com interesses globais e capacidade de influenciar a Sociedade Internacional em diferentes
domínios. Ao chamar Potências como China e Grã-Bretanha de Potências Médias, Gounelle o faz comparando-as às Superpotências – à época, URSS e
EUA.

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Pág. 11 - Hegemonia

Tomamos como base para o conceito de Hegemonia a


obra International Relations: the Key Concepts, de Martin
Griffiths e Terry O’Callaghan (London: Routledge, 2002).

Hegemonia, em grego, significa “liderança”. Em sentido amplo, portanto, em Relações Internacionais, o hegemon é o líder – ou o Estado líder – de
um grupo de nações.

Para que os conceitos de hegemonia e de hegemon sejam aplicáveis, presume-se que haja uma certa ordem na Sociedade Internacional. Daí que,
apesar de ser o Estado mais poderoso no cenário internacional, o hegemon só pode exercer sua liderança (hegemonia) se houver relações de poder
entre entes em um meio internacional.

Hegemonia consiste, então, no exercício de uma liderança ou comando em uma sociedade, com base em recursos de poder. Esses recursos
fundamentam-se em dois aspectos: coerção e consenso. Assim, toda relação de poder tem por base os graus de coerção e consenso exercidos por um
ente ou mais de um sobre os demais. À medida que é alterada essa relação, muda também a liderança no grupo.

Para o exercício da hegemonia, o hegemon deve ter capacidade de atuar nas esferas de consenso e coerção. Uma relação que se baseie apenas na
coerção – por meio de recursos de força militar ou econômica – não pode ser verdadeiramente hegemônica, da mesma maneira que é impossível a
liderança da comunidade internacional com fulcro apenas no consenso dos demais atores.

As relações internacionais têm sido marcadas pela disputa, por parte das Potências, da hegemonia na Sociedade Internacional. Essa hegemonia, além
de política, pode ser militar, econômica, cultural ou ideológica. Pode ser regional ou global. Um Estado que seja a Potência hegemônica em uma
dessas áreas muito provavelmente o será na maioria das outras. É claro que tal liderança pode ter diferentes gradações e que uma grande Potência
econômica em nossos dias pode não ter o mesmo poder de influência cultural ou até militar no cenário internacional.

A Sociedade Internacional será sempre marcada por um hegemon, cujo interesse é manter o status quo do sistema, diante de outras Potências que
não pouparão esforços para se tornar o hegemon. De acordo com a teoria da estabilidade hegemônica, o hegemon tem que ter capacidade de
garantir a ordem do sistema, ordem que deve ser percebida pelos demais entes da comunidade como positiva a seus interesses. Para isso,
o hegemon deveria dispor de alguns atributos: liderança em um setor econômico ou tecnológico e poder político baseado no poder militar. Podemos
acrescentar a esses atributos a capacidade de obter consenso sobre sua liderança.

Não acumule dúvidas. Procure saná-las logo que apareçam.

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Pág. 12 - Hegemonia

Para Robert Gilpin, a estabilidade internacional depende da existência de uma hegemonia, que tenha tanto capacidade quanto vontade de fornecer
“bens públicos” internacionais, como lei, ordem e moeda estável. Conforme didática explicação de Griffiths (2004, p. 26-27):

(...) os mercados não podem crescer em produção e distribuição de bens e serviços se não houver um Estado que forneça
certos pré-requisitos. Por definição, os mercados dependem da transferência, por meio de um mecanismo de preço eficiente, de
bens e serviços que possam ser comprados e vendidos entre os principais agentes particulares que permutam direitos de posse.
Mas os mercados dependem do Estado para lhes dar, por coerção, regulamentos, taxas e certos “bens públicos” que eles
sozinhos não podem gerar. Isto inclui uma infraestrutura legal de direitos e leis de propriedade para fazer contratos, uma
infraestrutura coerciva que assegure a obediência à lei, além de um meio de permuta estável (dinheiro) que assegure um
padrão de avaliação dos bens e serviços. Dentro das fronteiras territoriais do Estado, os governos fornecem tais bens. É claro
que, internacionalmente, não existe Estado no mundo capaz de multiplicar sua provisão em escala global. Baseando-se na obra
de Charles Kindleberger e na análise de E. H. Carr sobre o papel da Grã-Bretanha na economia internacional no século XIX,
Gilpin argumenta que a estabilidade e a “liberalização” da permuta internacional dependem da existência de uma “hegemonia”,
que tenha tanto capacidade quanto vontade de fornecer “bens públicos” internacionais, como lei, ordem e uma moeda estável
para o comércio financeiro.

Em termos gerais, essa é a Teoria da Estabilidade Hegemônica.

É uma teoria importante e voltaremos a ela na Unidade 4, ao tratarmos do debate teórico travado
entre neorrealistas e neoliberais.

As Potências hegemônicas são as Grandes Potências na concepção de Wight, e o hegemon nada mais é que a Potência Dominante. A hegemonia
político-ideológica no planeta, por exemplo, era disputada pelas Superpotências no contexto da Guerra Fria, mas a URSS dificilmente poderia ser
caracterizada como ameaça à hegemonia econômica dos EUA.

Deve-se esclarecer, todavia, que, durante a maior parte da


Guerra Fria, imaginava-se que a União Soviética se tornaria uma
grande potência econômica.
Isso é especialmente válido para os anos 30: enquanto as
economias ocidentais agonizavam por causa da crise de 1929, a
economia soviética crescia a taxas espantosamente altas.

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Pág. 13 - Hegemonia

Complementando os estudos sobre o conceito de Hegemonia, atente para esta aula do Professor Joanisval.

Hegemonia

Duração: 2min55
Caso não consiga visualizar:

1) seu acesso ao Youtube pode estar bloqueado;

2) pode precisar atualizar o Flash Player (http://get.adobe.com/br/flashplayer/)

Essas observações introdutórias são suficientes e fundamentais para a compreensão das unidades seguintes e para a discussão dos temas
tratados neste curso.

Artigo interessante para concluir os estudos desta Unidade é o texto de João Marques de Almeida,
sobre Hegemonia Americana e Multilateralismo.

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Unidade 3 - Correntes teóricas das Relações Internacionais

Ao final da unidade, o aluno deverá ser capaz de:


indicar e caracterizar as principais correntes teóricas das Relações
Internacionais no Século XX;

identificar os principais debates teóricos da disciplina

                                                                                                          

Esperamos que você tenha excelente aproveitamento em seus estudos!

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Pág. 2 - Teorias de Relações Internacionais

O objeto material de qualquer ciência se define pela parcela de realidade que se pretende conhecer mediante a formação de teorias e a utilização de
um método científico (CERVERA, 1991). A teorização sobre as Relações Internacionais surgiu quando se buscou explicar a existência e as condutas dos
entes internacionais. É na Grécia Antiga, com a obra de Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, que se tem a primeira manifestação embrionária
de uma teoria de Relações Internacionais.

Há algo que as ciências naturais e as ciências sociais, conforme Karl Popper, certamente têm em comum: a necessidade da teoria para se
desenvolverem. Nas palavras de Tomassini (1989, p. 55):

"A ciência exige algo mais do que fatos e descrições de fatos. Exige uma explicação de por que ocorreram, que efeitos causaram e algumas predições

(ou, no caso das ciências sociais, conjecturas) sobre seu comportamento provável no futuro, uma mescla de causalidade, teleologia e prospecção. No

campo das ciências sociais, como em outras ciências, a teoria é chamada a ministrar essas explicações, pondo ordem ao mundo heterogêneo e muitas

vezes incompreensível dos fatos isolados, e a arriscar algumas predições."

A Teoria do Equilíbrio de Poder

Começamos por essa teoria por uma razão simples: para muitos estudiosos da política internacional, a Teoria
do Equilíbrio de Poder, também conhecida como Teoria do Balanço de Poder, é o que mais próximo existe de
uma teoria política das relações internacionais. Arnold Toynbee, conhecido historiador, chegou mesmo a dizer
que tal teoria constituía uma “lei” da História.

Na era moderna, com o surgimento e desenvolvimento do Estado-nação, multiplicaram-se também as


teorizações a respeito das relações internacionais. Em um contexto de anarquia internacional e de conflito
entre os Estados, as práticas dos agentes e dos atores na Sociedade Internacional levaram à formulação de
uma teoria que pode ser considerada a precursora da análise convencional realista das relações internacionais,
a Teoria do Equilíbrio de Poder.

A Teoria do Equilíbrio de Poder percebe o cenário internacional em uma situação de equilíbrio, no qual o poder
é distribuído entre os diversos Estados. Quando um Estado começa a se destacar e a buscar aumentar seu
poder frente aos demais, há uma perturbação no equilíbrio, e faz-se necessária uma coalizão das Potências
para conter o Estado “pretensioso” e restaurar a ordem. Assim, pressupondo o Estado como um ator racional,
a teoria defende que o balanço ou o equilíbrio de poder é a escolha preferível e, portanto, a tendência do
sistema internacional. A Teoria orientou as relações internacionais nos quatro séculos compreendidos entre a
Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Foi útil para justificar as
condutas dos Estados e ações de governantes em um contexto anárquico e conflituoso, como será visto nas Unidades 2 e 3 do módulo seguinte deste
nosso curso.

Alguns autores distinguem entre o equilíbrio de poder como uma política (esforço deliberado para prevenir predominância, hegemonia) e como um
padrão da política internacional (em que a interação entre os Estados tende a limitar ou frear a busca por hegemonia e, como resultado, resulta num
equilíbrio geral).

Com o fim da Primeira Guerra Mundial e as consequentes mudanças no cenário internacional e no equilíbrio de forças, em virtude dos traumas
causados pelo conflito e do desenvolvimento do discurso pacifista junto à opinião pública internacional, a Teoria do Equilíbrio de Poder foi questionada.
Sob o argumento de que essa doutrina não poderia perdurar em um sistema em que a guerra deveria ser evitada a qualquer custo, o imediato pós-
guerra foi marcado por novas concepções sobre as relações internacionais, baseadas em uma nova corrente teórica, a qual se fundamentava no Direito
Internacional, na solução pacífica das controvérsias e na busca de uma estrutura supranacional que garantisse a paz: o Idealismo das Relações
Internacionais.

Foi, portanto, na primeira metade do século XX que os primeiros teóricos de Relações Internacionais começaram a desenvolver suas explicações sobre
o tema em um contexto de disciplina autônoma. Claro que, em virtude de um objeto de estudo tão complexo, diversas foram as correntes teóricas
instituídas nas últimas décadas. Como não é este um curso de teoria, pretendemos apresentar apenas as linhas gerais das correntes mais
reconhecidas.

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Pág. 3 - A fase idealista

O Idealismo, como ficou conhecida a primeira grande corrente teórica de Relações Internacionais, surge em um contexto do final de um conflito muito
marcante, a Primeira Guerra Mundial, e reflete a crescente preocupação daqueles que então começavam a teorizar sobre as relações internacionais:

Como se poderia buscar a paz na Sociedade Internacional, ou melhor, como evitar o conflito, sobretudo bélico, entre os Estados?

No que se refere ao contexto internacional, lembra Arenal (1984), o clima nunca poderia ter sido mais favorável ao Idealismo. A Grande Guerra havia
demonstrado a fragilidade da tradicional diplomacia europeia como meio para assegurar a ordem e a paz internacional. As enormes perdas humanas e
materiais produzidas pelo conflito foram responsáveis, também, pelo advento de uma opinião comum universal segundo a qual a guerra deveria ser
erradicada como instrumento de política dos Estados. Pregava-se, ademais, o estabelecimento de um modelo de segurança coletiva capaz de evitar
novas contendas.

Assim, sob os auspícios do discurso idealista e moralizante do presidente estadunidense Woodrow Wilson, foi criada a Sociedade (ou Liga) das Nações
(SDN), com o objetivo de ser a organização central de um sistema de segurança coletiva e um fórum em que os Estados pudessem resolver suas
contendas de maneira pacífica. A SDN, portanto, contribuía para acentuar o otimismo frente ao futuro da Sociedade Internacional e estabelecia os
fundamentos de um sistema dirigido para preservar a paz. Nesse contexto, a teoria internacional dominante se orientava pelos caminhos do Idealismo,
dos projetos de organização internacional, do estabelecimento de mecanismos tendentes à solução pacífica e de propostas de desarmamento.
Importância significativa foi dada pelos idealistas ao Direito Internacional e às instituições jurídico-normativas que garantissem a ordem nas relações
entre os Estados: ganhava força o institucionalismo nas relações internacionais.

Anarquia internacional não significa “desordem”, mas, sim, ausência de um governo central
superior aos Estados (que são soberanos e só prestam contas a si mesmos e a outros Atores do
sistema). Anarquia é, portanto, ausência de governo.

O Idealismo partia do princípio de que as relações internacionais encontram-se em estado de natureza, ou seja, de anarquia internacional. As nações
devem buscar, destarte, superar essa anarquia e estabelecer um contrato social em âmbito internacional que ordene as relações entre os povos. Os
Estados, acreditavam os idealistas, deveriam portar-se de acordo com os mesmos princípios morais que guiam a conduta do indivíduo. Para estimular
ou obrigar esses Estados a seguir tais princípios, seria fundamental que se institucionalizasse, em escala mundial, o interesse comum de todos os
povos em alcançar a paz e a prosperidade. O estudo de Relações Internacionais, como disciplina autônoma, mostrou-se como uma ciência da paz.

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Pág. 4 - A fase idealista

O Realismo e o Idealismo encerram, na verdade, duas visões de mundo opostas, em que o ponto de partida é a dicotomia anarquia x ordem. Apesar de
Tucídides, com História da Guerra do Peloponeso, antes mesmo de surgirem os conceitos de soberania e a tese do estado de natureza, já ter iniciado a
moldar uma concepção anárquica do mundo, é com Thomas Hobbes, em Leviatã, e, em seguida, com John Locke, em O Estado de Guerra (Capítulo III
da obra Segundo Tratado do Governo Civil), em que se explora, pela primeira vez, o estado de natureza anárquico a respeito das relações
internacionais.

Segundo Lijphart (1982), as noções de soberania e de anarquia internacional inspiraram três teorias interligadas: a do governo mundial, a do equilíbrio
de poder (ou balanço do poder) e a da segurança coletiva.

Segundo a teoria do governo mundial, dado que a anarquia é responsável pela tensão internacional, é necessário celebrar um contrato social
internacional para instituir um governo mundial soberano e único, para pôr fim à anarquia.

A teoria do equilíbrio de poder, ao contrário, defende que a luta pelo poder entre os Estados soberanos tende a gerar um equilíbrio, o qual não
alimenta uma tensão perpétua, mas cria uma ordem internacional.

Para a teoria da segurança coletiva, o melhor seria que os Estados se empenhassem em tomar medidas coletivas contra todo agressor, o que acabaria
atenuando a anarquia internacional.

Todas essas teorias aceitam a tese de que a anarquia reina entre os Estados soberanos. Segundo Inis L. Claude, citado por Lijphart, essas três teorias
correspondem a estágios sucessivos de uma progressão em direção a uma centralização cada vez mais repleta de autoridade e poder (no sentido
balanço de poder > segurança coletiva > governo mundial). O mundo nunca passou do segundo estágio, o qual foi, na verdade, o foco da maior parte
dos autores idealistas.
                                                                                                                                    

Historicamente, no desenvolvimento do sistema de Estados da Europa,


soberania é normalmente associada aos trabalhos de Jean Bodin e Thomas
Hobbes, nos quais significava o direito de exercer poder irrestrito. Todavia, a
história do sistema de Estados modernos, do século XVII em diante, é uma
tentativa de se distanciar da rigidez dessa concepção original em busca da ideia
de igualdade formal.

Para as Relações Internacionais, é particularmente importante a visão construída por Hugo Grócio sobre a sociedade internacional a partir da teoria do
contrato. Grócio, considerado o pai do Direito Internacional, defendeu ser o direito um conjunto de normas ditadas pela razão e sugeridas
pelo appetitus societatis. A base da doutrina de Grócio é a solidariedade, ou potencial solidariedade, entre os Estados em relação à aplicação da lei
internacional, e procura estabelecer uma ordem mundial restringindo os direitos dos Estados de irem para a guerra por motivações políticas e
promover a ideia de que a força só pode ser legitimamente usada em nome dos objetivos e anseios da comunidade internacional como um todo.

Grócio, como se observa, apresenta uma hipótese inversa à do equilíbrio de poder. Para ele, existe um fundamento comum de normas morais e
jurídicas, e o mundo é uma sociedade composta de Estados onde reina um consenso normativo suficientemente amplo e intimidador para que a noção
de estado de natureza e de anarquia internacional não seja aplicável. A tese de Grócio parte da noção de anarquia, mas a minimiza para efeitos de
teorização, desconsiderando a relação necessária entre anarquia e guerra, relação esta reduzida a mera “hipótese” (e não a um “dado” ou “premissa”,
como fazem os realistas).

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Pág. 5 - A fase idealista

A teoria e a prática das relações internacionais desde a Primeira Guerra Mundial, principalmente com o Pacto da Liga das Nações (o Pacto de Paris), a
Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Carta do Tribunal Internacional de Nuremberg, derivam da fórmula grociana, que concebe a
sociedade internacional de forma ordenada, fruto da analogia com a alegoria da sociedade doméstica usada pelos teóricos do contrato social dos
séculos XVII e XVIII.

Edward Hallett Carr, autor do clássico Vinte Anos de Crise: 1919-1939, cuja primeira edição foi lançada logo após o desencadeamento da Segunda
Guerra Mundial, em 1939, analisa a dicotomia entre uma perspectiva utópica e a prática realista dos Estados e ilustra bem a maneira como os
idealistas viam as relações internacionais e os argumentos que utilizavam ao tratarem das interações entre os povos:

O aspecto teleológico da ciência da política internacional tem estado evidente desde o princípio. Surgiu de uma grande e desastrosa guerra; e o
objetivo-mestre que inspirou os pioneiros da nova ciência foi o de evitar a recidiva dessa doença do corpo internacional. O desejo passional de evitar a
guerra determinou todo o curso e direção iniciais do estudo. Como outras ciências na infância, a ciência política internacional tem sido marcada e
francamente utópica. Ela se encontra no estágio inicial, no qual o desejo prevalece sobre o pensamento, a generalização sobre a observação, e poucas
tentativas são efetuadas de uma análise crítica dos fatos existentes e dos meios disponíveis. Neste estágio, a atenção está concentrada quase
exclusivamente no fim a ser alcançado.

Carr cita, ainda, o discurso do Presidente Wilson – que refletia o pensamento idealista geral e que continha a resposta de Wilson: “se não funcionar,
teremos que fazê-lo funcionar!”, quando indagado se aquele modelo moralizante e pacifista funcionaria – e esclarece:

"O advogado de um plano para uma força de polícia internacional, ou para a ‘segurança coletiva’, ou de algum outro projeto para uma ordem
internacional, geralmente responde à crítica, não com um argumento destinado a mostrar como e por que ele pensa que seu plano
funcionaria, mas sim, ou com uma declaração de que ele tem que ser posto a funcionar porque as consequências de sua ausência de
funcionamento seriam desastrosas, ou com a demanda por alguma panaceia alternativa."

Após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações foi um esforço específico da política internacional de substituir o princípio do equilíbrio de poder pelo
princípio da segurança coletiva. Tal princípio, que sustentou a criação daquela Organização, foi elaborado para remover a necessidade de equilíbrio ou
balanço. Para os realistas, essa sua remoção no período entreguerras teria sido justamente a causa da Segunda Guerra Mundial. Como resultado, o
sistema internacional pós-1945 deixou de ser explicado em termos do princípio idealista da segurança coletiva, e noções de bipolaridade e
multipolaridade, típicas das análises de balanço de poder, o substituíram. Chegou-se mesmo, nos períodos mais quentes da Guerra Fria, em se falar de
“balanço de terror”.

Para reforçar e ilustrar os conceitos acima, assista ao vídeo.

Idealismo

Duração: 10min

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Pág. 6 - A fase realista

A década de 1930, entretanto, caracterizada por uma crescente instabilidade internacional, consequência de comoções políticas, econômicas e
ideológicas, internas e internacionais, e pelo fracasso do sistema da Sociedade das Nações e da política de apaziguamento das democracias europeias,
marca a decadência da perspectiva idealista para a teoria das Relações Internacionais. Nesse período, tem-se o debate entre o Idealismo e uma nova
corrente que ganhava força, o Realismo Político.

Os acontecimentos internacionais novamente foram essenciais para a mudança no aporte teórico. O Realismo representou, em um primeiro momento,
a reação dos especialistas às insuficiências teóricas e práticas dos idealistas, no contexto de convulsões internacionais dos anos trinta e da própria
Segunda Guerra Mundial. Para os realistas, o apelo à opinião pública e à razão humanista, preconizada pelos idealistas, mostrou-se incapaz de prevenir
a guerra, fazendo-se necessário retomar as ideias de segurança nacional e de força militar como suportes da diplomacia. Apenas por meio de um poder
efetivo, acreditavam, os Estados poderiam assegurar a paz internacional e a solução pacífica das controvérsias. Carr assinalava que o significado último
da crise internacional era "o colapso da total estrutura do utopismo baseado no conceito de harmonia de interesses".

A pragmática nova geração de estudiosos do pós-Segunda Guerra Mundial baseava-se no pensamento clássico maquiavélico e hobbesiano e via na
defesa dos interesses nacionais, em relação a poder, o grande eixo da conduta dos Estados soberanos no meio internacional. O Realismo encontrou
maior respaldo nos EUA. Desse país, a doutrina realista difundiu-se pelo globo, tornando-se a corrente teórica mais relevante para explicar as Relações
Internacionais.

Abordaremos essa corrente com mais detalhes a seguir e também em unidade própria.

Atualmente, cerca de 90% da produção acadêmica dos EUA em Relações


Internacionais têm por fundamento a corrente realista.

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Pág. 7 - Behavioristas e pós-behavioristas

A terceira fase da Teoria das Relações Internacionais desenvolveu-se também nos EUA como “resposta aos excessos do Realismo”. Trata-se de uma
aproximação com a vertente behaviorista da Sociologia. Essa corrente ficou conhecida como behaviorista ou científica. Para Arenal (1984, p.82):

No início dos anos cinquenta, alguns especialistas norte-americanos em política de segurança nacional repensam os
postulados do realismo político, com base no caráter impreciso e intuitivo dos mesmos para a análise da realidade
internacional, e buscam um enfoque de caráter científico capaz de dar resposta à complexidade das Relações Internacionais.
O impacto dos métodos de pesquisa e os modelos das ciências físico-naturais são notados com força nas pesquisas que
começam a pôr em marcha. A partir desse momento, uma onda de cientificismo, que trata de desenvolver uma ciência das
Relações Internacionais, com base na aplicação de métodos quantitativo-matemáticos, invade as Relações Internacionais,
impondo-se o que se denominou perspectiva behaviorista ou conducista.

Para os behavioristas, o objetivo das Relações Internacionais é o comportamento dos atores. O estudo desse objeto deve atentar para parâmetros que
envolvam fases como a coleta e a elaboração de dados, o tratamento quantitativo desses dados e, finalmente, a produção de modelos dentro do rigor
científico das ciências exatas. Para os behavioristas, os estudos devem estar sempre voltados para os casos concretos, a partir dos quais uma
linguagem científica das ciências sociais deve ser elaborada com base em dados empíricos, rejeitando-se análises provenientes do Direito, da História
ou da Filosofia. Entre os vários enfoques da corrente behaviorista, convém destacar a Teoria da Tomada de Decisões, a Teoria Sistêmica das Relações
Internacionais e a Teoria dos Jogos. Os autores científicos mais renomados são Morton Kaplan, David Singer e G. T. Allison.

O desenvolvimento da corrente “científica” gerou um grande debate nos anos sessenta entre os tradicionalistas filosófico-intuitivos (idealistas e
realistas) e os científicos (behavioristas).

Finalmente, Arenal identifica uma quarta fase, motivada pelo que David Easton (1969) chamou de “nova revolução da ciência política”, e que se
convencionou chamar de pós-behaviorismo. Essa nova revolução ter-se-ia produzido devido a uma profunda insatisfação com a pesquisa política e os
ensinamentos behavioristas, sobretudo por quererem converter o estudo da política em uma ciência segundo o modelo físico-natural. As bandeiras
levantadas pelos pós-behavioristas são ação e relevância. O novo movimento, sem abandonar o enfoque científico do behaviorismo, dirige sua atenção
à conduta humana enquanto tal e aos problemas reais do mundo, às motivações e aos valores subjacentes a toda conduta. Busca-se uma pesquisa
com ênfase ao caso concreto, dando atenção a um objeto de análise que difere dos objetos das ciências exatas. O pós-behaviorismo constituiu,
portanto, a síntese do debate entre as concepções tradicionalistas e as científicas.

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Pág. 8 - Realismo, Pluralismo e Globalismo

Atualmente, a doutrina reconhece três grandes correntes teóricas das Relações Internacionais: o Realismo, o Pluralismo e o Globalismo. São também
chamados de paradigmas teóricos, dado que as variadas teorias que existem na disciplina podem ser encaixadas em uma dessas três correntes. O
Realismo trabalha mais com os conceitos de poder e equilíbrio de poder, o Globalismo com dependência, e o Pluralismo, por sua vez, com os conceitos
de processo de tomada de decisão e transnacionalismo.

Vamos abordá-las brevemente a seguir.

Assistindo ao vídeo abaixo, ainda com o Professor Joanisval, um dos conteudistas deste curso, você terá uma visão introdutória do surgimento do
Realismo.

Realismo I

Duração: 5min25
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Realismo

O Realismo tem algumas proposições básicas.

Primeiro, o Estado é o ator principal no meio internacional, e o estudo das relações internacionais foca essa unidade política. Atores não estatais, como
as empresas multinacionais, são menos relevantes para a análise, e as organizações internacionais, como a ONU ou a OTAN, não possuem existência
autônoma ou independente, porque são compostas de Estados, as verdadeiras unidades soberanas, independentes e autônomas, que determinam o
comportamento dessas organizações internacionais.

O Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, que era uma forma de “gerência” do poder na visão realista, foi paralisado, durante a Guerra Fria,
pelo veto – os interesses de poder da URSS e dos EUA iam em sentidos opostos e, por consequência, impediam a organização de funcionar. No pós-
Guerra Fria, apesar da superação das rivalidades dentro do Conselho, a Organização ainda não funcionava automaticamente, dependendo, em cada
circunstância, do “interesse” dos Estados para atuar. Realistas citam, por exemplo, o contraste entre a ação rápida na Guerra do Golfo e a inércia
diante da crise iugoslava.

Segundo, os Estados são atores unitários. São unitários porque quaisquer diferenças de visão entre os líderes políticos ou burocracias dentro do Estado
são, no final das contas, resolvidas, para que o Estado fale uma só voz.

Terceiro, os Estados são atores racionais. Isso porque, dados certos objetivos, trabalham com alternativas viáveis para alcançá-los, à luz de suas
capacidades, por meio de uma análise de custo-benefício. Os realistas reconhecem a existência de problemas como falta ou ruído de informação,
incerteza, pré-julgamento e erros de percepção, mas, contudo, pressupõem que os tomadores de decisão não medem esforços para alcançar a melhor
decisão possível.

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Finalmente, para os realistas, a segurança nacional é a questão de maior importância para a agenda de política exterior de qualquer Estado. Questões
políticas e militares dominam a agenda e são chamadas de “alta política” (high politics). Os Estados atuam para maximizar o interesse nacional. Em
outras palavras, os Estados tentam maximizar a probabilidade de atingirem qualquer objetivo que tenham estabelecido, o que inclui preocupações de
alta política relativas à sobrevivência do Estado (segurança) assim como os objetivos de baixa política ligados a esse campo, como comércio, finanças,
câmbio e bem-estar.

A guerra responsiva dos EUA contra o Afeganistão, após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, e sua guerra preventiva contra o Iraque,
em 2003, evidenciam o conflito alta política x baixa política, pois, durante os quatro anos do Governo Bush, os democratas o criticaram
constantemente por ter abandonado as questões de economia doméstica em nome da segurança nacional. Até mesmo o direito interno foi suspenso
nos EUA: vêm sendo negados a vários suspeitos, estrangeiros e nacionais, direitos garantidos constitucionalmente, em ampla afronta ao princípio do
devido processo legal (due process of law), conquista de mais de dois séculos da sociedade norte-americana.

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Pág. 9 - Pluralismo

Assista à aula introdutória, gravada no curso presencial no ILB, sobre Pluralismo. Vamos lá!

Pluralismo

Duração:6min24

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Os anos de 1980 e 1990 deram força à corrente teórica conhecida como Pluralismo, que veio para desafiar as proposições do Realismo. Nessa corrente
normalmente se enquadram os neoliberais.

O Pluralismo é baseado em quatro proposições básicas.

Primeiro, atores não estatais são importantes na política internacional. Organizações internacionais, por exemplo, podem tornar-se, em algumas
questões, atores independentes, ao contrário do que defendem os realistas. Elas são mais do que simples fóruns em que Estados competem e
cooperam uns com os outros. O corpo de funcionários de uma organização internacional pode reter um grau expressivo de poder ao determinar os
termos de uma agenda, assim como ao fornecer informações sobre em quais representantes de Estado baseiam suas demandas (como acontece com o
FMI em relação aos países que pedem empréstimos além de suas cotas, e, por consequência, precisam seguir o receituário do “consenso de
Washington”).

Similarmente, organizações não governamentais, como a WWF, e corporações multinacionais, como a Petrobras, a IBM, a Sony, a General Motors, a
Exxon, o Citicorp, entre várias outras, também desempenham papéis importantes na política mundial. Atualmente, lembram os pluralistas, até mesmo
na área comercial as ONGs têm sido chamadas a atuar.

Para os pluralistas, também não se poderia negar o impacto de atores não estatais, como grupos terroristas (como a Al Qaeda), comerciantes de
armas da máfia russa, movimentos guerrilheiros, como as FARC colombianas etc.

Segundo, para os pluralistas, o Estado não é um ator unitário. O Estado é composto de indivíduos, grupos de interesse e burocracias que competem
entre si. Apesar de as decisões serem noticiadas como decisões de “tal país”, é geralmente mais correto se falar em decisão feita por uma coalizão
governamental particular, uma agência burocrática do Executivo ou mesmo um único indivíduo. A decisão não é tomada por uma entidade abstrata
chamada “Brasil”, “China” ou “EUA”, mas por uma combinação de atores por trás da definição da política externa.

Diferentes organizações podem apresentar perspectivas distintas em determinada questão de política externa. Competição, formação de coalizões e
compromissos eventualmente resultarão numa decisão que será anunciada como uma decisão do país. Essa decisão “estatal” pode ser o resultado
de lobbies levado a efeito por atores não governamentais (como o lobby dos fazendeiros norte-americanos contra o fim dos subsídios agrícolas, das
empresas multinacionais, de grupos de interesse, ou mesmo de um ente amorfo, a opinião pública). Assim, para os pluralistas, o Estado não pode ser
visto como um ator unitário, uma vez que tal rótulo perderia de vista a multiplicidade de atores que formam e compõem a entidade chamada de
“Estado-nação”.

Terceiro, os pluralistas desafiam a suposição realista de que o Estado é um ator racional. Dada a visão pluralista e fragmentada do Estado, pressupõe-
se, ao contrário, o choque de interesses, a barganha e a necessidade de compromisso que nem sempre levam a um processo de tomada de decisão
racional.

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Por fim, para os pluralistas, a agenda da política internacional é extensa. Embora a segurança nacional seja importante, os pluralistas também se
preocupam com um número variado de questões econômicas, sociais, energéticas e ecológicas que têm surgido com o aumento da interdependência
entre os países e as sociedades nos séculos XX e XXI. Alguns pluralistas, por exemplo, enfatizam o comércio e as questões monetárias e energéticas,
as quais estariam no topo da agenda internacional. Outros dedicam-se à solução do problema demográfico e da fome no Terceiro Mundo. Outros,
ainda, focam a poluição e a degradação do meio ambiente. Nesse sentido, os pluralistas rejeitam a dicotomia entre alta política (high politics) e baixa
política (low politics) dos realistas.

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Pág. 10 - Globalismo

Para introduzir o conceito de Globalismo, assista ao vídeo e, em seguida, leia atentamente o texto que se segue!

Globalismo

 
Duração: 3min25
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Historicamente, o Globalismo se relaciona com o surgimento do Terceiro Mundo na política mundial. Nesse sentido, representa uma visão ignorada e
desprestigiada da realidade internacional. Para eles, a hierarquia, como uma característica chave, é mais importante do que a anarquia, dada a
desigualdade na distribuição do poder dentro do sistema.

Vimos que os realistas organizam seus estudos em torno da questão básica de como a estabilidade pode ser mantida num macroambiente anárquico.
Os pluralistas se perguntam como mudanças pacíficas podem ser promovidas num mundo que é crescentemente interdependente política, militar,
social e economicamente. Os globalistas, por sua vez, se concentram na questão de por que tantos países do Terceiro Mundo na América Latina, na
África e na Ásia não têm conseguido se desenvolver. Para muitos globalistas, mais ligados à linha marxista, essa questão faz parte de um campo maior
de análise: o desenvolvimento do capitalismo no mundo.

Os globalistas são guiados por quatro proposições.

Primeiro, é necessário entender o contexto global em que Estados e outros atores interagem. Os globalistas argumentam que para explicar o
comportamento em qualquer nível de análise – o individual, o burocrático, o societário e o estatal –, é necessário, antes, entender a estrutura geral do
sistema global no qual esses comportamentos se manifestam. Assim como os realistas, globalistas acreditam que o ponto de partida da análise é o
sistema internacional. Numa extensão mais larga, o comportamento de atores individuais é explicado por um sistema que fornece limitações e
oportunidades.

Segundo, os globalistas realçam a importância da análise histórica na compreensão do sistema internacional. Apenas rastreando a evolução histórica
do sistema é possível entender sua estrutura atual. O fator histórico chave e a característica definidora do sistema como um todo é o capitalismo. Até
mesmo os Estados socialistas precisam operar dentro desse sistema econômico, que constantemente restringe suas opções.

Terceiro, os globalistas assumem que existem mecanismos de dominação que impedem que o Terceiro Mundo se desenvolva e que contribuem para o
desenvolvimento desigual ao redor do planeta. A compreensão desses mecanismos requer o exame das relações de dependência entre os países
industrializados do Norte (América do Norte e Europa) e os vizinhos pobres do Hemisfério Sul (América Latina, África e Ásia).

Finalmente, os globalistas defendem que os fatores econômicos são absolutamente críticos para se explicar a evolução e o funcionamento do sistema
capitalista mundial e a relegação do Terceiro Mundo para uma posição subordinada. A economia funciona como uma espécie de “alta política” para os
globalistas.

Para fins didáticos, podemos traçar o seguinte quadro, que relaciona os três paradigmas das Relacões Internacionais:

Realismo Pluralismo Globalismo

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03/01/2020 Conceitos Elementares e Correntes Teóricas das Relações Internacionais

Unidades Estado como principal unidade Estado e atores não estatais, como Estado, classes, elites, sociedades e
analíticas de análise. organizações burocráticas, elites, atores não estatais como operadores
sociedades, indivíduo, grupos de do sistema capitalista.
indivíduos, organizações
internacionais, corporações
multinacionais, organizações não
governamentais.

Concepção de
Estado unitário e racional. Estado não unitário e não racional: Estado não unitário e racional, visto
ator
desagregado em componentes, alguns sob a perspectiva histórica do
dos quais com atuação transnacional. desenvolvimento do capitalismo.

Dinâmica Estado como maximizador de Conflito, barganha, formação de Política externa como padrões
comportamental seus próprios interesses na coalizões e compromissos nos racionais de dominação dentro e
política externa. processos transnacionais e de tomada entre Estados e sociedades.
de decisão em política externa, não
necessariamente levando a resultados
ótimos.

Agenda Segurança nacional como Agenda múltipla, com questões sócio- Questões econômicas como mais
questão mais importante. econômicas tão ou mais importantes importantes.
do que questões de segurança
nacional.

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Pág. 11 - Outras correntes teóricas

Registre-se, outrossim, que as correntes citadas nesta unidade são as mais difundidas e tradicionais. Não obstante, neste contexto de pós-
modernidade, ganham força perspectivas de vanguarda, com destaque para o Construtivismo. Porém, foge ao escopo deste curso a análise dessas
outras correntes.

Passemos, portanto, aos principais debates que marcaram a Teoria das Relações Internacionais no século XX.

OS GRANDES DEBATES TEÓRICOS

Idealismo X Realismo

O debate entre realistas e idealistas iniciou-se na década de 1930. Não obstante, conforme acentua Arenal (1984), trata-se “de um debate que está
presente, com maior ou menor força, em toda a história da teoria internacional, inclusive tendo recobrado força com novas perspectivas em nossos
dias”. De acordo com John Herz (1951, p.8), o Idealismo é um tipo de pensamento político que “não conhece os problemas que surgem do dilema da
segurança e poder”, ou que o faz “somente de uma forma superficial”. O Realismo, por sua vez, ao contrário, considera fatores de segurança e poder
inerentes à sociedade humana.

Arenal relaciona as características essenciais do Idealismo e do Realismo na Tabela 1:

TABELA 1: IDEALISMO X REALISMO

IDEALISMO REALISMO

1) Crença no progresso: diante da suposição de que a 1) Pessimismo antropológico: nega a possibilidade de evolução
natureza humana pode ser compreendida não como imutável, para uma sociedade mais humanista. A política de poder
mas como potencialidade que se atualiza progressivamente ao sempre foi e será o cerne das Relações Internacionais.
longo da História.

2) Visão não determinista do mundo: a fé no progresso 2) Visão determinista do processo histórico: a ordem
careceria de sentido se não fosse acompanhada de uma internacional dificilmente pode ser modificada pela ação
similar crença na eficácia da mudança por meio da ação humana. É possível compreender o processo histórico, mas não
humana. alterá-lo.

3) Racionalismo: considera que uma ordem política é racional 3) Distinção entre os códigos de conduta moral do indivíduo e
e possível na Sociedade Internacional e que, como os do Estado: a ética pública é diferente da ética na vida privada.
indivíduos são morais e racionais, da mesma maneira os O homem de Estado, enquanto defensor da comunidade
Estados são capazes de comportarem-se de forma racional e nacional, não está limitado em sua atuação pelas normas éticas
moral em suas relações. É a racionalidade que conduz ao e morais que regem os particulares. Daí o conceito de “razão de
progresso. Estado”, em virtude do qual condutas inaceitáveis em âmbito
interno do Estado seriam plenamente aceitáveis na política
internacional.

4) Harmonia natural de interesses: os Estados teriam 4) Ausência de harmonia natural de interesses: os Estados
interesses mais complementares que antagônicos. Daí a ideia encontram-se em uma competição constante, uma vez que é
de que é possível a cooperação entre os povos por um fim difícil se obter a confiança entre os entes estatais que lhes
último de paz e integração. permita escapar dessa situação.

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Pág. 12 - Idealismo x Realismo

Assim, para os idealistas, a política é a arte do bom governo, e o poder político não constitui fenômeno natural, lei imutável da natureza. A Sociedade
Internacional, em um primeiro momento, poderia até se encontrar em um estado de natureza, mas a anarquia internacional seria naturalmente
substituída não por um sistema baseado no equilíbrio de poder, mas por uma ordem fundamentada na lei internacional, em instituições e na
cooperação entre os povos. Assim, a conduta racional dos Estados os levaria à constituição de um poder supranacional, uma confederação de nações,
que garantiria a segurança e a paz no Sistema (a “paz perpétua” de Kant).

Os realistas, por sua vez, consideram a política internacional uma constante e interminável luta pelo poder, definido em capacidade de influência.
Negam o otimismo idealista. Atuar racionalmente significa agir em favor dos próprios interesses; ou seja, de aumentar o poder, a capacidade ou
habilidade de controlar os outros entes internacionais. Partindo do princípio de que o homem não é naturalmente bom e que se reúne em sociedade
apenas porque é a melhor maneira que encontrou para garantir a segurança essencial à sua sobrevivência diante da guerra de todos contra todos, o
Realismo percebe o Estado como um gladiador envolvido em um combate perpétuo pela sobrevivência na Sociedade Internacional anárquica em que as
relações de força predominam.

O Realismo não considera a moral ou a ética como limites à ação do Estado, mas a prudência, o senso de oportunidade e o cálculo racional. Essa
consideração explica o pragmatismo e a falta de credulidade em organizações internacionais como instituições que não sejam apenas meros
instrumentos de alguns Estados no jogo de poder internacional. Um governo mundial baseado apenas no Direito e no desejo global de paz é
inconcebível para o Realismo.

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Pág. 13 - Tradicionalistas x Científicos

O debate entre os enfoques clássico e científico ou entre tradicionalistas e behavioristas ultrapassa, na ótica de Arenal, o debate entre realistas e
idealistas. Afinal, ensina o mestre, tanto os partidários da análise clássica quanto os da perspectiva científica podem inscrever-se nas visões realista ou
idealista. O debate entre tradicionalistas e behavioristas tem caráter metodológico. Faremos apenas algumas breves considerações introdutórias a esse
respeito.

Luciano Tomassini (1989), ao relacionar as principais diferenças entre os dois debates, lembra que, enquanto o primeiro debate
(idealistas x realistas) tem sua origem específica no âmbito das relações internacionais, o segundo (tradicionalistas x científicos)
está centrado na totalidade das ciências sociais, tendo ocorrido em virtude da “revolução behaviorista”. Os científicos buscavam
alcançar, nas ciências sociais, o nível de exatidão similar ao das ciências exatas. Daí a tentativa de adoção de técnicas
semelhantes às utilizadas nas ciências naturais – como as da química, da física e até da biologia – e a busca de “leis naturais”
para explicar as relações sociais.

Uma segunda distinção, segundo Tomassini, repousa no fato de que, enquanto o primeiro debate referia-se a questões
substanciais – aspectos da natureza humana, dos fundamentos da Sociedade Internacional, da essência do poder –, o segundo
debate teve cunho metodológico. Nesse sentido, tanto pensadores realistas quanto teóricos idealistas poderiam assumir uma
perspectiva científica em suas análises.

Finalmente, Tomassini assinala que, se o debate entre idealistas e realistas, por tratar de questões substanciais, faz com que as duas correntes sejam
eternamente irreconciliáveis, o segundo debate estabelece uma paulatina aproximação das colocações e um entendimento final, dando origem aos pós-
behavioristas. Os neorrealistas são o melhor exemplo desse resultado.

Os behavioristas criticavam os tradicionalistas pelo fato de estes dissociarem o sistema internacional do sistema nacional, e também porque os
tradicionalistas ignoravam as variáveis internas – como, por exemplo, o processo de tomada de decisão no âmbito interno –, as quais seriam, na
concepção científica, fundamentais para a compreensão da política exterior. Ademais, os behavioristas não davam atenção a questões filosóficas e
morais, como a busca da paz, a moralidade da Sociedade Internacional, ou quais seriam os melhores mecanismos para a estabilidade internacional
baseada no crescimento e na cooperação entre nações.

A resposta tradicionalista às críticas behavioristas fundamentava-se no fato de que a Sociedade Internacional é complexa demais para que se chegue a
“leis” que expliquem o sistema e a conduta dos atores com base na análise de variáveis isoladas. Lembravam, ainda, que o método quantitativo não
permitia a compreensão de situações chaves – fundamentadas em aspectos intuitivos ou racionais. Finalmente, assinalavam que, devido ao sigilo, em
Relações Internacionais é longo o tempo até que se tenha acesso a determinadas informações que seriam essenciais para “quantificar a análise
científica”. Na resolução de questões urgentes na Sociedade Internacional, não é possível, outrossim, esperar até que se consigam os dados
estatísticos ou a conclusão das várias análises de casos em que os científicos querem basear-se.

Certamente foi de grande relevância a contribuição behaviorista para a análise das relações internacionais. Afinal, foi possível aperfeiçoar os métodos
da teoria e sistematizar as análises sob uma perspectiva mais empírica. Não obstante, o aspecto intuitivo ou racionalista das ciências sociais jamais
poderá ser desprezado. Nesse sentido, não se pode querer atribuir às ciências humanas equivalência em relação às ciências naturais, exatas. Em
Relações Internacionais, assim como em qualquer ciência social, o homem – seja sob seu aspecto individual, seja por meio de suas manifestações
coletivas – é o objeto central de estudo. Tentar explicar as relações humanas com base apenas nos critérios exclusivamente quantitativos pode
conduzir o analista a erro em sua avaliação.

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Pág. 14 - A Teoria Sistêmica das Relações Internacionais

Segundo Tomassini, o enfoque sistêmico para explicar as relações internacionais encontra-se “entre os aspectos substantivos que dividiram os realistas
e idealistas durante o primeiro pós-guerra e as questões metodológicas que foram objeto das disputas entre tradicionalistas e científicos” após a
Segunda Guerra Mundial. Há, entretanto, aqueles que situam a corrente sistêmica na escola científica.

A escola sistêmica encontra suas origens na década de 1950, quando se começou a aplicar conceitos de análise de sistemas ao estudo das Relações
Internacionais. Sua principal diferença frente ao enfoque convencional consistia no fato de que, enquanto os tradicionalistas concebiam as relações
internacionais como um conjunto de interações entre unidades independentes e soberanas – os Estados –, não sujeitas a pautas nem a qualquer
previsibilidade, a análise sistêmica percebia as relações internacionais influenciadas ou determinadas pela estrutura ou pelas tendências de uma
unidade mais ampla, que seria o Sistema Internacional em seu conjunto.

Um sistema geral pode ser definido como algo substantivado em um conjunto de elementos ou partes interconectados. Essa conexão entre os diversos
elementos ocorre por meio de um princípio claramente identificável ou, mais simplesmente, por um rol de interação hipotético entre seus distintos
componentes. Pode-se dizer, portanto, que um sistema é um conjunto de unidades que interagem entre si de acordo com padrões relativamente
regulares e perceptíveis, alguns dos quais podem configurar subsistemas que se relacionam com o conjunto, seguindo o mesmo tipo de padronizações,
e cujos limites ou parâmetros também são reconhecíveis, mas que, em geral, permanecem abertos a influências de um meio ambiente externo.

A maior preocupação da perspectiva sistêmica está na interação entre os componentes de um Sistema Internacional e nos efeitos que o sistema tem
sobre a conduta dos atores. Daí a atenção maior aos mecanismos e à estrutura do conjunto que às partes específicas.

Tomassini conclui que os enfoques sistêmicos têm permitido conhecer e melhor compreender as relações existentes entre as distintas unidades
nacionais, o Sistema Internacional em seu conjunto e os diversos subsistemas que operam em seu interior. O enfoque também é importante para:

· a percepção das funções que desempenham as estruturas e sua influência sobre o comportamento das distintas unidades;
· a necessidade de trabalhar com diferentes níveis de análise, com os limites entre um Sistema Internacional e seus elementos contextuais;
· a natureza fechada ou aberta do sistema diante desse contexto; e
· a interação observável entre o sistema e os diferentes segmentos que o integram.

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Pág. 15 - A Teoria Sistêmica das Relações Internacionais

Um termo muito usado na análise sistêmica é o de “subsistema”, que também será explorado no decorrer deste curso. Aplicado às Relações
Internacionais, normalmente vem associado à ideia de região – “subsistemas regionais” – ou às relações dentro de um setor (subsistema econômico,
militar etc.).

A região, concebida como um subsistema, implica categorizar o todo (ou sistema) em partes distintas. O subsistema apresentaria as mesmas
características do sistema, sendo que em um nível diferente. A busca por padrões e processos característicos se daria da mesma forma que na análise
de sistemas, embora não necessariamente apresentando os mesmos resultados.

Por exemplo, poder-se-ia considerar a integração uma tendência periférica em um sistema mundial e, ao mesmo tempo, uma tendência dominante em
um subsistema. Essa é, particularmente, uma das conclusões de alguns pesquisadores a respeito da formação de blocos econômicos. Dentro do
sistema mundial, esta seria uma tendência dominante apenas entre países periféricos, e não entre as principais potências. Paulo Nogueira Batista Jr.,
por exemplo, argumenta que os EUA e a União Europeia (UE) não têm e nem pretendem ter acordo de livre comércio entre si. Tampouco está em
cogitação uma área de livre comércio entre os EUA e o Japão, ou entre o Japão e a UE. Isso não impede que os EUA, a UE e o Japão mantenham inter-
relacionamento comercial substancial e crescente ao longo do tempo. O que os norte-americanos, europeus e japoneses têm feito nas últimas décadas
é negociar, no âmbito multilateral, em rodadas sucessivas de liberalização, a gradual e seletiva diminuição de barreiras ao comércio internacional.

Usamos o texto intitulado Estratégias Comerciais do Brasil: Alca, União Europeia, OMC e
Negociações Sul-Sul, preparado para o seminário “O Brasil e Oportunidades de Integração”,
patrocinado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e pela Fundação Getúlio Vargas de
São Paulo, realizado em 04 de novembro de 2003.

Concepções relativas a hierarquia, que normalmente eram empregadas no estudo do sistema macropolítico da política internacional, podem ser
aplicadas, com a mesma validade, na análise de subsistemas regionais. Assim, um ator estatal pode apresentar papel significante em um nível e
apenas modesto em outro. Índia e Brasil são bons exemplos. Além disso, dois processos sistêmicos relevantes, como o conflito e a cooperação, podem
igualmente se manifestar no nível subsistêmico e, ainda, provocar um efeito spillover sobre o macrossistema. O conflito palestino-israelense é
ilustrativo disso.

Trataremos mais adiante, na Unidade 5, das ideias de subsistema econômico, militar e ideológico, entre outras.

Entre os principais expoentes da escola sistêmica nas Relações Internacionais estão Morton Kaplan, Karl Deutsch e Richard Rosecrance. No caso do
Neorrealismo, cuja perspectiva é eminentemente sistêmica, tem-se em Kenneth Waltzseu grande expoente.

Sugerimos as obras de Waltz, particularmente Teoria das Relações Internacionais


(Theory of International Politics) para o estudo mais aprofundado da perspectiva
neorrealista de relações internacionais, e, ainda, O homem, o estado e a guerra.

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Pág. 16 - Realistas x Pluralistas

Outro debate relevante é o que se dá entre realistas e pluralistas. Os pluralistas colocam o caráter anárquico da Sociedade Internacional e a
importância da segurança em segundo plano, o que é fortemente criticado pelos realistas, para os quais nenhuma análise das relações internacionais
será completa sem se considerar a estrutura anárquica do Sistema e o dilema da segurança. Para os pluralistas, dada a complexa interdependência da
Sociedade Internacional, o uso militar da força tende a ter menos utilidade na resolução de conflitos.

Os pluralistas nem sempre usam os conceitos de sistema e de equilíbrio nas relações internacionais, dado que não concebem atores autônomos e
predeterminados no cenário internacional. Eles criticam as previsões baseadas em análises de balança de poder dos realistas por serem demasiado
genéricas.

Ao contrário do mundo idealizado pelos realistas, os pluralistas veem indeterminação e imprevisibilidade, dado que não há separação entre política
externa e política interna, sendo aquela mera extensão desta, pois não deixa de ser influenciada por fatores como a opinião pública, a indústria
do lobby e processos de barganha entre os atores internos (políticos, agências burocráticas etc.). A noção de Estado-nação dos pluralistas, ao contrário
do que concebem os realistas, é difusa, irracional e altamente permeável.

A Teoria da Estabilidade Hegemônica, que vimos na Unidade 2 ao tratarmos de hegemonia, é exemplo de uma tentativa de conjugação da perspectiva
realista com a pluralista. Alguns consideram essa teoria um “compromisso parcial” entre ambas as correntes.

Outros debates

Há discussões mais recentes e igualmente relevantes, como os debates entre neorrealistas e globalistas e entre neorrealistas e neoliberais. Vamos

abordá-los na próxima Unidade.

Também sobre o debate teórico de relações internacionais, veja o texto de  William
Gonçalves, Relações Internacionais. 

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Pág. 17 - Mudanças na Teoria das Relações Internacionais

A partir de 1990, a Teoria das Relações Internacionais passou a enfrentar um problema epistemológico, uma vez que estava acostumada a trabalhar
com os conceitos de Estado nacional, soberania, território nacional, interesse nacional, entre outros. Alguns autores identificam, na década de 1990,
a ramificação das escolas da Teoria das Relações Internacionais em três direções: o Realismo, nos EUA; o Pluralismo, na Europa e na literatura mais
recente da América Latina; e o Globalismo, nas interpretações da esquerda ainda presente na América Latina e em outros países do Hemisfério Sul.

O Realismo passou a sofrer várias críticas devido à dificuldade do Estado em administrar forças transnacionais. O Globalismo se enfraqueceu com a
crise do socialismo real. O Pluralismo se revelou inadequado, uma vez que as suas preocupações com as questões sociais teriam sido desprezadas pela
nova política internacional (SARAIVA, 1997, p. 361-362).

Os seguintes movimentos passaram a ter relevância para a análise das relações internacionais contemporâneas:
soma de fluxos transnacionais como fator que afeta o cotidiano das pessoas e leva à crise do Estado-nação, cujo universalismo e soberania são
questionados;

relativização do conceito de soberania, surgindo expressões, nos meios diplomáticos, como “soberania operacional”;

atores não estatais não necessariamente agem contra o Estado, mas exigem mudanças de sua conduta – na política interna e externa;

atores não estatais forçam o Estado a levar em conta a Comunidade Internacional, uma vez que a interdependência torna-se fato, e os problemas
globais (ecologia, migrações, epidemias, narcotráfico, direitos humanos, terrorismo) passam a ser de responsabilidade de todos;

o Sistema Internacional passa a ser composto de sistemas confederados, o que solapa a identidade tradicional;

a Economia desliga-se do espaço nacional e das regulamentações do Estado, funcionando para o exterior.

A transição da bipolaridade para a globalização ocorreu, no entanto, sem que a nova ordem internacional demonstrasse capacidade para superar
problemas globais, como o endividamento internacional, a hegemonia do mercado financeiro, o arrocho econômico mundial requerido para o ajuste de
economias centrais e o desemprego estrutural. Esses também são temas importantes para os teóricos de Relações Internacionais no século XXI.

Um filme interessante para se entender, na prática, teoria das relações internacionais é “Sob a
Névoa da Guerra” (Errol Morris, EUA, 2003), documentário em que o ex-Secretário de Defesa
dos EUA, Robert McNamara, faz uma análise da política externa dos EUA na II Guerra Mundial.

Como sugestão de leitura, reforçamos a indicação da última grande obra de Jean-Baptiste


Duroselle, Todo império perecerá: teoria das relações internacionais. Interessante,
ainda, um livro básico para a compreensão do Realismo, A Política entre as Nações,
de Hans Morgenthau. Finalmente, convém conhecer a Escola Inglesa de Relações
Internacionais por meio de duas obras fundamentais: A Política do Poder, de Martin
Wight, e A Sociedade Anárquica, de Hedley Bull. Veja a referência completa sobre
essas obras na Bibliografia Complementar, no menu de apoio.

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Unidade 4 - O Realismo

Ao final da unidade, o aluno deverá ser capaz de:


• identificar as características da principal corrente teórica das
Relações Internacionais e as críticas a essa corrente;
• descrever a evolução do pensamento realista nas Relações
Internacionais ao longo do século XX;
• discorrer sobre a validade do Realismo no século XXI.
                                                       

                                       

Outro fator importante, que pode contribuir para o aproveitamento do curso, é


sua organização pessoal e a disponibilidade de um tempo diário e preciso para os
estudos.

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Pág. 2 - O Realismo

A tentativa mais notória do século XX para explicar as relações internacionais foi conduzida por um grupo de pensadores que contemplavam a
realidade internacional com base nas relações de força, poder e dominação. Esses autores foram os representantes da corrente teórica conhecida
como Realismo Político ou, simplesmente, Realismo. Trata-se da doutrina mais clássica e aceita das Relações Internacionais, chegando-se a ponto de
muitos a considerarem o tronco central do estudo teórico do tema. Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ela teve notório
fortalecimento. Devido a essas peculiaridades, optamos por dedicar uma unidade específica a essa corrente.

Entre os fundamentos do Realismo, buscaremos analisar as ideias que mais se destacam, a saber:

a percepção de um sistema internacional anárquico, sem uma autoridade central superior aos Estados e titular legítima do uso da força;

o caráter praticamente exclusivo do Estado como o único ou, ao menos, o principal ator internacional;

o desprezo pelo institucionalismo e pelo papel efetivo das organizações internacionais no sistema;

a percepção de que os Estados são entes unitários e racionais ao conduzirem sua política externa;

a heterogeneidade desses atores, quanto a aspectos econômicos, políticos, culturais etc.;

o predomínio da competição e da dimensão conflitiva sobre todas as formas de relações entre os aaAtores internacionais;

a busca da racionalidade na conduta dos Estados, que atuam na esfera internacional perseguindo sempre seu interesse nacional;

o interesse nacional definido com base no poder, que conduz a uma paradoxal ordem internacional no sistema anárquico, ordem esta imposta pelas
Potências hegemônicas aos demais Estados e em benefício das primeiras;

a preocupação com a segurança como umas das grandes orientadoras da conduta dos atores, no que os realistas consideram ”alta política” (high
politics) em contraposição à chamada baixa política (low politics);

a ideia de equilíbrio de poder na ordem internacional, estabelecido pelas Potências.

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Pág. 3 - O Realismo

Os realistas tiveram por objetivo inicial definir as características que fariam do campo de estudo das Relações Internacionais uma ciência própria. Daí
buscarem distinguir, preliminarmente, a política internacional da política interna dos Estados. Desenvolveram, então, a percepção anárquica do sistema
internacional.

Assim, os realistas percebem o sistema internacional como anárquico, no qual não existe poder central ou superior dos Estados soberanos. Para os
realistas, os Estados não reconhecem e não se submetem a qualquer autoridade que não a sua própria, também não estando, em última análise,
internacionalmente sujeitos nem mesmo às regras do Direito. Nesse sentido, os Estados “são livres para fazer sua própria justiça e podem recorrer à
força para defender seus interesses nacionais” (SENARCLENS, 2000, p. 16).

O pensamento realista inspira-se nas concepções de Thomas Hobbes sobre o “estado de


natureza” e, reproduzindo a visão hobbesiana sobre o homem, percebe os Estados numa situação
de guerra permanente – não necessariamente de conflito armado –, na qual perseguem seus
interesses nacionais.

Nesse contexto anárquico, o Estado é visto internacionalmente como um ente unitário e que atua
em política externa de maneira racional, sendo o cálculo estratégico essencial para garantir sua
sobrevivência. Nesse sentido, o interesse nacional definido em termos de poder guiará a conduta
dos Estados, e, em meio à guerra de todos contra todos, são essenciais para a sobrevivência de
qualquer ente a garantia de sua segurança e o aumento de sua capacidade de influência no
sistema.

Em âmbito interno, segundo Hobbes, os homens associam-se e abrem mão de parte de sua
independência para garantir sua segurança, transferindo uma parcela de seu poder para um
soberano – o Estado – que, tornando-se o único e legítimo titular do uso da força (coerção),
protege-os e garante a ordem. Na esfera internacional, entretanto, declaram os realistas, não há
uma autoridade superior à qual os Estados estejam dispostos a transferir parcela de seu poder ou
soberania em troca de segurança.

Para garantir sua segurança, os Estados irão buscar aumentar seu poder – definido pela capacidade de influenciar os demais Estados e de ser
influenciado o mínimo por eles –, projetando-o no sistema internacional. Esse poder relaciona-se intimamente com o uso da força – sobretudo de
poderio político-militar e os aspectos econômicos relacionados a ele. Em outras palavras, quanto mais forte for um Estado frente a seus pares, menos
sujeito a ser subjugado por estes ele se encontra.

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Pág. 4 - O Realismo

Paradoxalmente, uma vez que é impossível a coexistência em um sistema internacional caótico, os realistas acreditam que há uma ordem internacional
estabelecida pelas Potências – Estados mais poderosos –, que a impõem aos demais Atores. A ordem se fundamenta, portanto, em um equilíbrio de
poder instituído pelas relações entre as Potências. Quando uma Potência aumenta sua esfera de poder, entrará em atrito com as demais – que não
aceitarão ver sua capacidade de influência diminuída. Dessa maneira, o sistema poderá ser levado ao desequilíbrio, chegando-se ao conflito entre os
Estados poderosos, que culminará, por sua vez, em uma nova ordem imposta pelos vencedores.

Os realistas não acreditam em uma ordem internacional instituída por princípios morais e fraternos. Qualquer forma de cooperação internacional será
conduzida pelos Estados enquanto esses perceberem que a cooperação garantirá mais segurança que a não cooperação. As instituições internacionais
são frágeis e somente prevalecem enquanto for mais conveniente para as Potências. No meio internacional, o Direito acaba quando a força começa.

Destarte, para os realistas, os Estados só seguirão e defenderão o Direito Internacional enquanto isso lhes for interessante. Caso as instituições
jurídicas internacionais contrariem interesses de um Estado, este não se furtará a violá-las, desde que tenha capacidade –potencialidade de uso da
força – para fazê-lo e para suportar as reações dos outros Estados que defendam aqueles institutos. Periodicamente, os governos recorrem à força e
violam os princípios de Direito Internacional, produzindo, inclusive, argumentos jurídicos para justificar sua política de agressão.

Outro aspecto importante do pensamento realista é a percepção do Estado como o único, ou, no mínimo, o principal Ator nas Relações Internacionais.
Nessa perspectiva, os demais Atores – reconhecidamente as organizações internacionais – não seriam mais que instrumento de manobra das Potências
para garantir sua hegemonia na Sociedade Internacional. Segundo Senarclens (2000, p. 18):

De fato, as grandes potências definem as condições da segurança internacional e se arrogam em uma boa margem de manobra na interpretação dos
princípios da Carta das Nações Unidas. Elas dominam as organizações internacionais; as utilizam continuamente para servir aos seus próprios fins [das
grandes Potências], notadamente para efetivar suas ambições políticas e seu desejo de hegemonia. (...) Para os realistas, (...) o direito e a moral nas
Relações Internacionais não fazem mais que exprimir a racionalização dos interesses dos principais Estados que dominam a política mundial.

(...) Definitivamente, as normas jurídicas e as instituições são frágeis; sua implementação é frágil, uma vez que os Estados interpretam a seu bel-
prazer as obrigações que elas impõem; [os Estados] as transgridem invocando a defesa de seus interesses nacionais. Contrariamente ao que ocorre na
esfera estatal interna, não há [no meio internacional] um poder legítimo capaz de instaurar e assegurar uma ordem política impondo sua arbitragem
frente aos conflitos entre os Estados; nenhuma autoridade é capaz de produzir um conjunto de normas jurídicas universalmente reconhecidas como
legais. Não existe uma corte internacional capaz de julgar de maneira sistemática e coerente as diferenças entre os Estados, nem forças policiais
[internacionais] que possam coibir agressões a fim de estabelecer a paz. O indivíduo que viole a lei dentro de um Estado é passível de sanção. O
Estado que transgrida o direito internacional em geral não é punido.

O institucionalismo, portanto, não encontra abrigo na perspectiva realista.

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Pág. 5 - O Realismo

Ademais, a liberdade de ação dos Estados na esfera internacional estará relacionada à força que cada um deles tenha frente aos demais. Em Paz e
Guerra entre as Nações, Raymond Aron, partindo do pressuposto de que os Estados são soberanos – e, portanto, livres para perseguir sua própria
justiça –, admitiu que o direito desses entes de recorrer à força constitui uma das especificidades das relações internacionais.

No que concerne ao meio internacional heterogêneo, os realistas afirmam que, apesar de os Estados serem juridicamente idênticos e terem direitos
iguais de pronunciar-se perante o concerto das nações, na prática, a capacidade de exercerem sua soberania varia consideravelmente.

O que os realistas buscam deixar claro é que não se pode querer igualar a China a Liechtenstein, ou o Brasil à Somália, ou ainda, ou ainda, os EUA ao
Afeganistão. Não adianta, portanto, querer arguir o artigo 2º da Carta das Nações Unidas para que se imponha o princípio da igualdade entre os
Estados nas relações internacionais. Os Estados são distintos uns dos outros quanto à grandeza territorial, populações, localização geográfica,
capacidade militar, níveis de desenvolvimento em que se encontram, recursos econômicos, capacidade de exploração desses recursos. É exatamente
em virtude dessas diferenças que os Estados terão maior ou menor influência no sistema internacional e buscarão formas de defender seus interesses.

O artigo 2º da Carta da Nações Unidas dispõe que a ONU é


"fundada sobre o princípio da igualdade soberana de todos
os seus Membros.
 

Destarte, para os realistas, a política internacional de cada Estado é conduzida considerando-se as próprias potencialidades e as daqueles com os quais
o Estado vá relacionar-se. A heterogeneidade – econômica, política, militar, cultural, ideológica, social – é a regra no sistema internacional, e não levar
isso em consideração pode ser tremendamente desastroso para qualquer Ator.

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Pág. 6 - O conflito e a questão da segurança

A política internacional, como toda política, tem por base os conflitos relacionados à distribuição do poder e dos recursos
econômicos. Os Estados atuam na arena internacional considerando essa disputa por poder e por recursos econômicos. E os
governos não devem ter objetivos maiores que os da defesa de seus “interesses nacionais”, entre os quais o mais importante é
assegurar sua sobrevivência. É exatamente a conduta dos Atores internacionais em uma persecução - muitas vezes desordenada
- por seus interesses nacionais que leva à situação de conflito e caos. Daí a assertiva de Morgenthauem A Política entre as
Nações:

A política internacional, como toda política, é uma luta pelo poder. Quaisquer que sejam os fins últimos da política
internacional, o poder é sempre o fim imediato.

Os realistas percebem diferentes maneiras pelas quais os Estados buscam sua segurança. Para assegurar a independência,
dependendo da posição e do status internacional, optam pela proteção de uma grande Potência, a participação em sistemas de
segurança coletiva ou em alianças políticas ou militares. De qualquer maneira, a maioria dos Estados dispõe de forças armadas
para garantir sua segurança. Aqueles que renunciaram a elas (a Costa Rica é o caso mais notório), necessariamente confiam sua defesa à proteção de
uma Potência hegemônica.

Philippe Braillard, em Teoria das Relações Internacionais (1990, p. 115), resume bem os principais conceitos do pensamento de Morgenthau:

Para Morgenthau é o poder (power) e, mais precisamente, a procura pelo poder, que é o fundamento de toda a relação política
e que constitui, assim, o conceito chave de toda a teoria política. Esta procura do poder está inscrita profundamente na
natureza humana, onde tem a sua origem, natureza que não é essencialmente boa, já que ela confere a todos os homens um
ardente desejo de poder ou animus dominandi, e os faz, com frequência, agir como uma ave de rapina, pelo menos ao nível das
relações dos grupos sociais entre si. Temos, por isso, no fundamento da teoria política de Morgenthau, uma visão filosófica do
homem, uma antropologia, marcada pelo pessimismo, que é fortemente inspirada pela obra do teólogo Reinhold Niebuhr, um
dos mestres do pensamento da escola realista americana.

No que respeita particularmente à política internacional, a aspiração ao poder por parte das diversas nações, cada
uma procurando manter ou modificar o status quo, conduz, necessariamente, a uma configuração que constitui o que
chamamos de equilíbrio [de poder] (balance of power) e as políticas que visam conservar esse equilíbrio. Ao estabelecer uma
ligação necessária entre a aspiração das nações ao poder e as políticas de equilíbrio, Morgenthau pretende evitar o erro
cometido pelos que acreditam que podemos escolher entre a política fundada no equilíbrio e uma política, de um gênero
melhor, esquecendo que todos os Estados procuram os seus interesses, exprimidos em termos de poder.

Também sobre o Realismo, veja o texto que trata da moral nas Relações Internacionais numa
perspectiva realista, de Marcelo Beckert Zapelini.

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Pág. 7 - Críticas ao Realismo

Claro que o Realismo tem sofrido pesadas críticas ao longo de décadas. Por exemplo, afirma-se que a teoria negligencia aspectos sociais, culturais ou
mesmo econômicos, dando valor exacerbado a fatores político-militares. Outra crítica é de que o conceito de poder na perspectiva realista estaria mal
definido e seu emprego demasiado vago, uma vez que o poder seria, ao mesmo tempo, “um fim, um meio, um motivo e uma relação”.

Há, ainda, aqueles que lembram que o interesse nacional definido em termos de poder é discutível, uma vez que é complicado determinar e quantificar
esse interesse. Ademais, o Estado jamais poderia ser considerado um Ator unitário e racional, e as decisões e ações de política externa são fruto de um
complexo conjunto de interesses de forças em diferentes níveis da sociedade interna. Daí que interesse nacional seria um conceito bastante subjetivo,
tanto em virtude da diversidade das forças do interior do Estado que estabelecem quais são as prioridades e os interesses da nação, quanto devido à
heterogeneidade do sistema internacional.

Finalmente, há a ponderação de que a teoria realista assenta-se numa visão das relações internacionais limitada à configuração dessas relações nos
séculos XVIII e XIX, ou mesmo na primeira metade do século XX, sendo inadequada ao sistema internacional contemporâneo, marcado pela
diversidade de Atores e de grupos, como organizações internacionais, organizações não governamentais e empresas transnacionais.

O conhecimento da perspectiva realista é fundamental para a


compreensão das relações internacionais. Além da já citada obra de
Morgenthau, sugere-se a leitura dos trabalhos de Raymond Aron, com
destaque para Paz e Guerra entre as Nações e dos livros de Henry
Kissinger.

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Pág. 8 - O Neorrealismo

Neorrealismo

Duração: 7min08

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O Neorrealismo é uma versão mais atual do Realismo. Pegou emprestado alguns elementos do cientificismo behaviorista e, assim, deu um renovo para
a corrente realista. O Neorrealismo deriva de um movimento epistemológico que ficou conhecido como Estruturalismo. Segundo os estruturalistas, a
sociedade se define pelas condições de possibilidade de toda organização social. A análise dos diferentes sistemas constitutivos da Sociedade
Internacional e de sua articulação mostra serem eles a aplicação de certo número de leis lógicas encontráveis em toda sociedade. Tal ponto de vista se
casou com algumas perspectivas “clássicas”, como as que veem as “leis” da anarquia e do poder como explicativas da realidade (como a “lei” do
balanço de poder já estudada), dando luz ao Neorrealismo. Para os estruturalistas, são essas as invariantes ou constantes que dão unidade necessária
à fundamentação científica. Enfim, para os estruturalistas, o importante é identificar os padrões, os arranjos, as organizações sistemáticas em
determinado estado.

Em suma, o Estruturalismo foi fundamental para o desenvolvimento dos métodos “científicos” ao ensinar que o processo científico básico é o analítico,
da decomposição das coisas, e que se deve privilegiar o aspectorelacional da realidade, uma vez que as relações são constantes, enquanto que os
elementos podem variar.

Kenneth Waltz (2002) se utiliza do Estruturalismo para criar o seu Neorrealismo, também chamado de Realismo Estrutural, ao final da
década de 1970, que ele modestamente chama de “revolução de Copérnico” no âmbito das Relações Internacionais.

Waltz identifica três níveis de análise nas Relações Internacionais: o Indivíduo, o Estado e a Sociedade (economia doméstica/sistemas
políticos), e o Sistema Internacional (ambiente anárquico). Dos três níveis de análise identificados por ele, concentra-se no terceiro nível,
para dizer que a anarquia é uma constante, um “dado” na estrutura do Sistema Internacional. Enquanto esse primeiro critério da estrutura, a anarquia,
é uma constante, o segundo, a distribuição de capacidades, é uma variável, pois varia entre os Estados. O referencial empírico para essa variável é a
quantidade de Superpotências que domina o sistema. Dado o pequeno número de tais Estados – importante perceber que ele escrevia na época da
Guerra Fria –, e, além disso, para Waltz, não mais que oito já foram importantes, a política internacional, segundo ele, poderia ser estudada em termos
da lógica de poucos sistemas.

O Neorrealismo foca mais as características estruturais do sistema internacional estatocêntrico do que as unidades que o compõem (os Estados). Em
outras palavras, é a estrutura que molda e conforma as relações políticas entre as unidades. Para Waltz, o Realismo tradicional, por se concentrar nas
unidades e nos seus atributos funcionais, é incapaz de trabalhar com mudanças de comportamento ou na distribuição de poder que
ocorre independentemente das flutuações entre as próprias unidades. Assim, apesar de o sistema ainda ser anárquico e as unidades ainda serem
autônomas no Neorrealismo, a atenção voltada para o nível estrutural fornecia-lhe uma imagem mais dinâmica e menos restrita do comportamento
político internacional emergente. O Neorrealismo busca explicar como as estruturas afetam o comportamento e os resultados, independentemente das
características atribuídas ao poder e ao status.

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Pág. 9 - O Neorrealismo

Para Waltz, o sistema internacional funciona como o mercado, o qual está interposto entre os atores econômicos e os resultados que eles produzem. É
o mercado que condiciona seus cálculos, seus comportamentos e suas interações. Assim, para ele, é a estrutura do sistema internacional que limita o
potencial de cooperação entre os Estados e que, por consequência, gera o dilema da segurança, a corrida armamentista e a guerra.

Waltz lembra que as empresas devem desenvolver sua própria estratégia para sobreviver em um meio competitivo, sendo difíceis ações coletivas que
otimizem o lucro a longo prazo.

Waltz usa a noção de poder estrutural – espécie de poder que pode estar operando quando os Estados não estiverem agindo da forma que se
esperava, dada a desigualdade de distribuição de poder no sistema internacional. Percebe-se que Waltz se inspirou em Durkheim, para quem a
sociedade não é a simples soma de indivíduos e que todo fato social tem por causa outro fato social, e jamais um fato da psicologia individual. Em seu
trabalho sobre o suicídio, Durkheim procurou demonstrar que, mesmo no ato privado de tirar a própria vida, conta mais a sociedade presente na
consciência do indivíduo do que sua própria história individual. Ou seja, o ambiente é mais importante do que o agente, e essa é a tese por trás do
Neorrealismo de Waltz.

Isolando a estrutura, Waltz argumenta que uma estrutura bipolar dominada por duas Superpotências é mais estável que uma estrutura multipolar
dominada por três ou mais Superpotências, pois é mais provável que se sustente sem guerras espalhadas no sistema. Para ele, há diferenças
expressivas entre multipolaridade e bipolaridade. Na multipolaridade, os Estados confiam em alianças para manter a segurança, o que é inerentemente
instável, uma vez que existem potências demais para se permitir que qualquer uma delas trace linhas claras e fixas entre aliados e adversários. Em
contraste, na bipolaridade, a desigualdade entre as Superpotências e cada um dos outros Estados assegura que a ameaça posta a cada um deles seja
mais fácil de ser identificada, e, no sistema bipolar da Guerra Fria, a URSS e os EUA mantinham o equilíbrio central, confiando mais nos próprios
armamentos do que nos aliados. Ficam, assim, minimizados os perigos decorrentes de previsões erradas. A intimidação nuclear e a inabilidade das
Superpotências em superarem mutuamente as forças retaliadoras aumentam a estabilidade do sistema. Ou seja, para Waltz, a estrutura do sistema
em si gerava a estabilidade.

Os conceitos de multipolaridade e de bipolaridade serão abordados com mais detalhes


no próximo módulo.
Waltz foi criticado por Raymond Aron, para quem a estabilidade da Guerra Fria
tinha mais a ver com as armas nucleares em si do que com a bipolaridade. Muitos
críticos argumentaram que o modelo de Waltz era muito estático e determinístico,
além de desprovido de qualquer dimensão de mudança estrutural (revolução). Mas
essas, na verdade, são as características do Estruturalismo. Em Waltz, os Estados
estão condenados a reproduzir a lógica da anarquia, e qualquer cooperação que
ocorra entre eles ficará subordinada à distribuição de poder. Os neoliberais criticam
Waltz por exagerar o grau de “obsessão” dos Estados pela distribuição de poder e
por ignorar os benefícios coletivos que podem ser alcançados pela cooperação.
Abordaremos esse debate entre neorrealistas e neoliberais mais à frente.
Outros acusaram Waltz de tentar legitimar a Guerra Fria sob o manto da ciência.
Com o fim da Guerra Fria, um dos polos da estrutura ruiu, a URSS, o que não se
harmonizava com as expectativas da teoria de Waltz, segundo as quais as
Superpotências amadureceriam para se tornar “duopolistas sensíveis” no comando
de uma estrutura crescentemente estável.

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Pág. 10 - Os Últimos Grandes Debates

Visto o Neorrealismo, agora podemos abordar os últimos grandes debates teóricos de interesse para o presente curso introdutório. Tais debates, que
surgiram nas últimas décadas do século XX, refletem as teorizações que se fizeram necessárias para explicar as significativas mudanças nas relações
internacionais produzidas pelo processo de globalização e pelo aumento da interdependência entre os Atores.

Neorrealistas X Globalistas

Um dos últimos debates que merece referência neste curso é o que se dá entre neorrealistas e globalistas.

Como visto, a corrente neorrealista surge com o objetivo de desenvolver uma análise mais precisa das Relações Internacionais, baseada nos
pressupostos realistas clássicos, mas com adaptações que tinham que considerar a nova realidade internacional mais complexa.

Como já referido, Waltz (2002) reafirma a perspectiva tradicional realista: o princípio da soberania estatal confere à Sociedade Internacional
características próprias e limita os domínios da cooperação internacional, prejudicando qualquer integração durável. O autor retoma a ênfase na teoria
do equilíbrio de poder diante do Sistema Internacional anárquico, no qual os Estados competem e atuam em defesa de seus interesses, que podem ser
percebidos como, no mínimo, a sua própria preservação, e, no máximo, a dominação universal.

O Globalismo, por sua vez, usa algumas das categorias que o Neorrealismo usa (como o poder estrutural), pois também deriva do Estruturalismo, mas
surge como uma corrente alternativa. Os globalistas reconhecem, como os neorrealistas, que há limitações estruturais para a cooperação entre os
Estados, mas defendem que isso se dá mais em razão da hierarquia do que da anarquia no Sistema. Para eles, a hierarquia, como uma característica
chave, é mais importante do que a anarquia, dada a desigualdade na distribuição do poder dentro do sistema. Os globalistas enfatizam o poder
estrutural e centram as capacidades chaves no sistema econômico. Para eles, uma divisão peculiar do trabalho ocorreu historicamente no sistema
mundial como resultado do desenvolvimento do capitalismo como a forma dominante de produção.

Como já referido na Unidade 3, o Globalismo busca explicar as relações internacionais não em virtude de cooperação ou conflito, mas sob a ótica do
subdesenvolvimento de vários países. Os globalistas buscam analisar as Relações Internacionais dentro de um contexto global e geral, assim como
fazem os neorrealistas, mas acreditam que o que deve ser explicado são as relações de dominação, ou seja, como a minoria consegue dominar a
maioria, doméstica ou internacionalmente, e essa dominação encontra na Economia seu aspecto central.

“Existe uma influência marxista no globalismo, principalmente nas análises sobre o padrão de evolução histórica das relações de dominação (o conflito
seria o motor da dinâmica entre as classes sociais). Existe também um enfoque na totalidade, ou seja, não é possível entender o capitalismo sem
entender as relações de exploração. Afirmam também, nessa perspectiva global, que qualquer solução localizada deve ser vista apenas como uma
etapa da solução global.” Miguel Burnier, Debate Interparadigmático das Relações Internacionais, no Caderno Pet Jur n. IV.

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Pág. 11 - Neorrealistas X Globalistas

O Globalismo vê um sistema-mundo capitalista composto por um núcleo (o centro) e a periferia. As áreas centrais se engajaram, historicamente, nas
atividades econômicas mais avançadas: bancária, industrial, agricultura de alta tecnologia etc. A periferia tem fornecido matéria-prima, como minérios
e madeira, para a expansão econômica do centro. O trabalho não qualificado é sufocado, e aos países periféricos é negado o acesso a tecnologias
avançadas nas áreas/setores em que podem vir a competir com os países centrais. O relacionamento polarizado entre as duas categorias é um dos
motores do sistema.

Assim, não basta um consenso ideológico a favor do capitalismo (como pensam os neoliberais) ou uma concentração do poder militar entre as
hegemonias do centro (como pensam os neorrealistas) para que um conflito sério no sistema possa ser evitado. Para os globalistas, não bastaria
nenhum dos dois se não fosse a divisão da maioria numa camada inferior maior.

Autores globalistas, como Immanuel Wallerstein, acreditam que o sistema-mundo continuará a funcionar como tem feito nos últimos quinhentos anos,
em busca do acúmulo sem fim de bens e capital, e que a periferia será cada vez mais marginalizada na medida em que a sofisticação tecnológica do
centro se acelerar.

Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência

Este último debate é o mais relevante para o mundo que se descortina diante de nossos olhos neste início do século XXI. Também pode ser referido
como um debate entre neorrealistas e pluralistas, já que os liberais e neoliberais se reúnem no paradigma pluralista.

Como pano de fundo desse debate temos a Teoria da Interdependência. Esse debate teórico ganhou força nas décadas de 1980 e 1990 e perdura
até os dias de hoje. O debate se dá em torno de questões como: se o sistema internacional mudou ou não sob o impacto da interdependência, e quais
as implicações de tal mudança para a teoria e prática das relações internacionais. No fundo, quando surgiu o debate, a questão era se o modelo
clássico da “anarquia” estava perdendo seu poder explicativo frente à “interdependência” entre os Estados,
se a agenda tradicional das relações internacionais passou ou não a reduzir a importância da “alta política”
(high politics – segurança militar, dissuasão nuclear) e a elevar a “baixa política” (low politics – comércio,
finanças internacionais etc.).

Na época em que surgiu, a discussão era travada entre os que acreditavam que o sistema internacional não
estava sofrendo nenhuma mudança sistêmica (a escola neorrealista) e os que argumentavam que o
Realismo passou a ser um guia inadequado para a compreensão das mudanças dramáticas ocorridas nas
relações internacionais como resultado das forças econômicas transnacionais (a escola neoliberal).

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Pág. 12 - Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência

A razão desse debate era a crise do sistema Bretton Woods, a crise de conversibilidade do dólar e os choques de petróleo, eventos que abalaram todo
o mundo. E, claro, não se pode deixar de citar, o fracasso dos EUA na Guerra do Vietnã.

Segundo Waltz (2002), a direção da interdependência econômica dependia da distribuição de poder no Sistema Internacional. O significado político das
forças transnacionais não decorre de sua escala; o que importa é a vulnerabilidade dos Estados às forças fora de controle e os custos da redução de
exposição a essas forças. Para Waltz, no sistema bipolar então vigente, o grau de interdependência era relativamente baixo entre as Superpotências, e
a persistência da anarquia, como princípio central organizador das relações internacionais, garantia que os Estados continuassem a privilegiar a
segurança acima da busca por riquezas (GRIFFITHS, 2004).

Do outro lado do debate estavam os neoliberais, que afirmavam que o crescimento das forças econômicas transnacionais, como os fluxos financeiros, a
crescente irrelevância do controle territorial frente ao crescimento econômico e a divisão internacional do trabalho tornavam o Realismo obsoleto. Os
benefícios coletivos do comércio e a influência dos fluxos financeiros para as políticas domésticas dos Estados assegurariam uma cooperação maior
entre os Estados e contribuiriam para o declínio do uso da força entre eles.

Um dos fortes defensores das teses neorrealistas foi Stephen Krasner. Para Krasner (1983), os Estados soberanos continuam sendo, nos tempos de
hoje, agentes racionais e interesseiros, firmemente preocupados com seus ganhos relativos. Argumentou que os períodos de abertura na economia
mundial correspondem aos períodos nos quais um Estado é nitidamente dominante. No século XIX, foi a Grã-Bretanha; no período 1945-1960, os EUA.
Por consequência, concorda com Waltz: o grau de abertura depende, em si, da distribuição de poder entre os Estados. A “interdependência” econômica
é subordinada ao equilíbrio de poder econômico e político entre os Estados, e não o contrário. A teoria da Estabilidade Hegemônica, vista na Unidade 2,
trata desse ponto.

Krasner também ataca os globalistas. Para ele, os Estados nem sempre colocam a riqueza acima dos outros objetivos. O poder político e a estabilidade
social também são cruciais, e isso significa que, embora o comércio aberto possa fornecer ganhos absolutos para todos os Estados que se
comprometerem com ele, alguns Estados ganharão mais do que outros, e essas diferenças de poder são o principal fator determinante e explicativo do
comportamento dos Estados. Krasner ataca os globalistas pelo fracasso em explicarem o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã, que provocou tão
intensas discordâncias domésticas para tão pouco ganho econômico. Se os EUA frequentemente desejavam proteger os interesses das corporações
norte-americanas, reservaram o uso da força em larga escala, todavia, para as causas ideológicas. Isso explicaria a guerra contra o Vietnã, uma área
de importância econômica insignificante para os EUA, e a relutância no uso da força durante as crises do petróleo nos anos de 1970, que ameaçaram o
fornecimento do produto em todo o mundo capitalista.

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Pág. 13 - Neorrealistas X Neoliberais e a Teoria da Interdependência

Krasner atacou de frente a “interdependência” neoliberal, e todo o institucionalismo supostamente por trás dela. Segundo ele, Estados pequenos e
pobres do Sul tendem a apoiar os regimes internacionais que distribuem recursos autoritariamente, ao passo que os Estados mais ricos do Norte
favorecem regimes cujos princípios e regras dão prioridade aos mecanismos de mercado. Regimes internacionais “autoritários” são aqueles conjuntos
de regras, normas, princípios e procedimentos que aumentam os poderes soberanos dos Estados individualmente, dando aos Estados o direito de
regulamentar fluxos internacionais (migração, sinais de rádio, ativos financeiros, aviação civil etc.) ou de distribuir acesso a recursos internacionais
(fundo do mar, atmosfera, etc.). Os Estados do Terceiro Mundo procuram, na verdade, proteção. Tentam se proteger contra a operação de mercados
em que eles se encontram em desvantagem. Não seria por outro motivo o apoio de países do Terceiro Mundo ao Fórum Social Mundial, cujas
preocupações têm sido a regulamentação dos fluxos financeiros internacionais e a imposição de uma tributação sobre eles (a chamada “taxa Tobin”).

Regimes internacionais são normalmente definidos como princípios, normas, regras e processos
de tomada de decisão em torno dos quais as expectativas do Ator convergem para uma dada
questão setorizada (issue area). Os regimes implicam não apenas normas e expectativas que
facilitam a cooperação entre os Estados, mas formas de cooperação.

Krasner, assim, identifica uma dicotomia regulamentação/Terceiro Mundo versus desregulamentação/Primeiro Mundo, que, no fundo, evidencia
relações de poder. Krasner, desse modo, rejeita, mais uma vez, a hipótese de que os Estados perseguem simplesmente riqueza, e argumenta que os
Estados do Terceiro Mundo também se envolvem em lutas pelo poder, querendo diminuir sua vulnerabilidade ao mercado e exercer um controle estatal
maior sobre ele (é o que estaria por trás, por exemplo, das discussões na China sobre o controle ou não dos fluxos de capital – deixar ou não fechada a
conta de capital do balanço de pagamentos). Assim, a soberania dá aos Estados do Terceiro Mundo uma forma de “metapoder” ou poder de uma
ideologia coerente para atacar a legitimidade dos regimes do mercado internacional e as injustiças do capitalismo global (GRIFFITHS, 2004).

Portanto, para os neorrealistas, a tentativa de estabelecer regimes internacionais como meio de superar ou atenuar os efeitos da anarquia não
funciona. Tais regimes não disfarçam as diferenças de poder existentes nas relações internacionais e tampouco conseguem alterar a importância da
soberania dos Estados.

Neoliberais como Robert Keohane (2001) tentariam derrubar essas teses, buscando uma resposta positiva para a questão de se as instituições
explicam ou não o comportamento dos Estados. O argumento básico de Keohane é que, num mundo interdependente, o paradigma realista é de uso
limitado para ajudar a compreender a dinâmica dos regimes internacionais, ou seja, as normas, regras e princípios que governam as tomadas de
decisão e as operações em relações internacionais sobre determinadas questões, como o dinheiro.

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Pág. 14 - Neorrealistas x Neoliberais e a Teoria da Interdependência

Os neoliberais usam o modelo da “interdependência complexa”. Trata-se de um modelo explanatório das relações internacionais que pressupõe
múltiplos canais de contato entre as sociedades, uma ausência de hierarquia entre questões de agenda e uma diminuição da utilidade do poder militar,
ou um papel minimizado para o uso da força. A “interdependência complexa” é o resultado da multiplicação das interconexões globais e da aceleração
de fluxos financeiros, demográficos, de bens, serviços e de informações, com operadores extremamente variados: organizações intergovernamentais,
multinacionais, organizações não governamentais, sociedade civil, dentre outros, os quais passam a ganhar espaço nas decisões e discussões
internacionais, e o Estado deixa de ter o único papel relevante nas relações internacionais, embora ainda proeminente.

Sob condições de interdependência complexa, os neoliberais afirmam que é difícil para Estados democráticos delinearem e perseguirem políticas
exteriores racionais, como defendem os realistas.

Os neorrealistas, tornando o debate mais acalorado, responderam dizendo que não é verdade que a distribuição de poder político e militar não se
relacione com a condição de interdependência complexa. A Teoria da Estabilidade Hegemônica é normalmente citada como a conjugação das ideias do
realismo com as ideias pluralistas de interdependência (vide Unidade 2). Ela explica, por exemplo, a ligação entre o poder hegemônico e o grau de
interdependência complexa no comércio internacional. Waltz, ao falar sobre a importância do equilíbrio de poder, mostrou que a interdependência,
longe de tornar obsoleto o poder, dependia da habilidade e da disposição dos EUA em fornecer as condições sob as quais os outros Estados estariam
participando da concorrência por ganhos relativos e cooperando para maximizar seus ganhos absolutos com base em uma cooperação no comércio e
em outros setores de controvérsia.

A Teoria da Estabilidade Hegemônica procurou responder ao argumento neoliberal de que o crescimento da interdependência econômica entre os
Estados os estaria enfraquecendo e atenuando o relacionamento histórico entre a força militar e a capacidade de sustentar interesses nacionais. Afinal,
está a interdependência econômica que testemunhamos no mundo atual reduzindo a importância do poder militar? A resposta dessa teoria é negativa,
como visto.

Portanto, para autores como Gilpin, a liderança hegemônica dos EUA e o antissovietismo foram as bases do compromisso com o “internacionalismo
liberal” e com o estabelecimento de instituições internacionais para facilitar a grande expansão comercial ocorrida entre os Estados capitalistas nos
anos de 1950 e 1960 (chamados de “anos dourados” por Eric Hobsbawm). Giovanni Arrighi, em sua obra O longo século XX, apresentou tese no
mesmo sentido. Sem a presença de um hegemon, não teria havido os anos dourados do pós-Guerra.

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Pág. 15 - Conclusão

O Realismo continua sendo a principal corrente teórica de Relações


Internacionais. No século XXI, análises sob uma ótica realista passam a
considerar diferentes fatores e novos Atores. Não obstante, esses novos
elementos não conduzem à decadência ou obsolescência do paradigma,
mas, sim, a novas adaptações. As teses neorrealistas são bons exemplos.
De fato, com as mudanças na política internacional que vêm ocorrendo
neste início de milênio, motivadas pelas pretensões hegemônicas de
projeção de poder da Hiperpotência norte-americana, nunca o mundo
pareceu tão realista.
Nesta Unidade então, estudamos a principal corrente teórica das Relações Internacionais: O Realismo. Volte ao início da Unidade e verifique se os
objetivos propostos foram alcançados.
 

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Unidade 5 - Sociedade Internacional: Aspectos Gerais

• apresentar os aspectos gerais que caracterizam a Sociedade Internacional;


• assinalar as subestruturas que compõem a Sociedade Internacional e sua
importância na compreensão da mesma.

Outro fator importante, que pode contribuir para o aproveitamento do curso,


é sua organização pessoal e a disponibilidade de um tempo diário e preciso
para os estudos.

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Pág. 2 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

Em um primeiro momento, podemos relacionar a Sociedade Internacional à evolução histórica das relações entre os grupos, povos e Estados-nações
organizados em âmbito espacial determinado. Assim, é possível identificar a evolução da Sociedade Internacional a partir das relações entre os grupos
primitivos da Antiguidade, passando pelos reinos e impérios e chegando à Idade Contemporânea, com a ascensão e o declínio do Estado-nação frente a
um sistema cada vez mais globalizado e interdependente.

Em nossas observações acerca da Sociedade Internacional, a análise histórica pode ser de grande auxílio. Essa análise é definida como o estudo do
grande número de eventos ou fatos que transcenderam as fronteiras entre os Estados e que relacionaram entre si as nações e os povos, de forma
pacífica ou conflituosa.

Conceito de Sociedade Internacional

Convém apenas lembrar que definimos Sociedade Internacional como o conjunto de entes que interagem de maneira sistêmica em uma esfera
internacional sob a influência de forças profundas. Passemos aos elementos fundamentais da Sociedade Internacional.

Elementos Fundamentais e Sistema da Sociedade Internacional

Para Rafael Calduch Cervera (1991, p. 64-55), “a Sociedade Internacional é uma sociedade global de
referência”, ou seja, constitui “um marco social de referência, um todo social em que estão inseridos todos
demais grupos sociais, quaisquer que sejam seus graus de evolução e poder”. É uma “sociedade de sociedades,
ou macrossociedade, em cujo seio surgem e se desenvolvem os grupos humanos, desde a família às
organizações intergovernamentais, passando pelos Estados.”

A Sociedade Internacional pode ser percebida como um conjunto de sociedades, sendo, portanto, heterogênea.
Registre-se que há cerca de apenas três séculos é que a Sociedade Internacional começou a adquirir
características “globais”: até recentemente, pouco contato havia entre as diversas “sociedades” dentro da
Sociedade Internacional.

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Pág. 3 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

Elementos Fundamentais e Sistema da Sociedade Internacional (cont.)


Outro ponto a que Calduch chama a atenção é que “a Sociedade Internacional é distinta da sociedade interestatal”. Mesmo sendo o
Estado o principal Ator internacional, compreender a Sociedade Internacional apenas com base nas relações interestatais conduziria a
uma percepção obscura e, portanto, deficiente da realidade. Não há como desconsiderar, sobretudo nos dias atuais, a presença e
influência cada vez maior de grupos diferentes dos Estados-nação no sistema internacional. Ademais, convém lembrar que a doutrina
aceita a existência de uma Sociedade Internacional antes do surgimento dos Estados nacionais.

Calduch afirma, ainda, que não é possível considerar a existência de uma Sociedade Internacional em seu sentido estrito, sem que
seus membros mantenham relações mútuas intensas e duráveis no tempo. Com isso, assinala que a mera ocorrência de ações
esporádicas e ocasionais não basta para se considerar a existência de uma Sociedade Internacional.

Discordamos dessa percepção de Calduch. Afinal, o que não se pode conceber, nos termos apresentados, é uma sociedade global, interdependente,
como a dos dias atuais. Entretanto, Sociedade Internacional sempre houve, mesmo que sua principal característica fosse a falta de interação entre as
sociedades/civilizações que a compunham.

A Sociedade Internacional pode ser percebida na dicotomia “anarquia x ordem comum”. Evidente que é anárquica por não possuir uma autoridade
superior que, legítima titular do uso da força, controle ou imponha a conduta a seus membros. Não existe um governo mundial ou uma autoridade
supraestatal. Assim, os Atores conduzem suas relações internacionais de acordo com seus próprios interesses e, ao menos no que concerne aos
Estados, não aceitam, de maneira geral, autoridade superior no sistema.

Todavia, relembre-se que anarquia internacional não é sinônimo de desordem. Há uma ordem comum no meio internacional, estabelecida pelos
próprios Atores para viabilizar suas relações. Nesse sentido, o papel das grandes Potências é essencial, pois são elas que definem os rumos do sistema.
Não poderiam existir “relações internacionais” sem um ordenamento mínimo na Sociedade Internacional.

Essa ordem internacional emana da correlação de forças e poderes entre os Atores internacionais. Pode-se dizer que esse ordenamento é estruturado
com base em elementos como extensão espacial, diversificação estrutural, estratificação e hierarquia, polarização, grau de homogeneidade ou
heterogeneidade e de institucionalização. São os chamados “elementos da estrutura internacional” (Esses elementos foram apresentados por Calduch, e as
observações que faremos a respeito são provenientes do estudo de sua obra.). Variam conforme o tempo e as diferentes sociedades, podendo ser identificados em todas
elas.

Sobre as transformações na Sociedade Internacional, interessante a trilogia de


Manuel Castells: A Sociedade em Rede (Paz e Terra, 2007), O Poder da
Identidade (Paz e Terra, 2000), Fim de Milênio (Paz e Terra, 2002).

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Pág. 4 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

A extensão espacial

Para Calduch, “a Sociedade Internacional é uma sociedade territorial”. Daí considerar-se essencial para a análise de qualquer Sociedade Internacional o
conhecimento do “marco espacial” em que a referida sociedade se encontra assentada.

A Sociedade Internacional sofrerá transformações em sua estrutura e dinamismo sempre que sua dimensão espacial for alterada, ou, ainda, quando
algum de seus membros principais experimentar mudanças em seus limites fronteiriços ou em sua zona de influência territorial direta – como ocorreu
no Leste Europeu para a URSS. Vale lembrar que, sendo o Estado o principal Ator internacional, suas mudanças territoriais e reações a mudanças têm
marcado as diferentes sociedades internacionais.

Portanto, da mais remota Antiguidade aos dias atuais, a constante expansão geográfica da Sociedade Internacional gerou conflitos e mudanças nos
Atores e nas relações de poder entre eles. O que deve ficar claro é que, até o século XX, a característica da Sociedade Internacional era exatamente a
composição espacial de diferentes sociedades internacionais, ainda que com espaços definidos e com crescentes intercâmbios culturais, comerciais,
sociais e políticos, mas com características distintas e espaço geográfico delimitado.

O século XX marca o limite espacial da Sociedade Internacional. Esse foi um problema que surgiu quando a Sociedade
Internacional alcançou dimensões planetárias. Com o desenvolvimento tecnológico, a ideia de “globalização” apresenta uma
Sociedade Internacional não mais espacialmente limitada ao continente europeu, ao Ocidente ou ao “mundo civilizado”, mas às
dimensões do planeta Terra.

Não se pode mais buscar soluções para problemas locais sem um pensamento global. Os problemas da Sociedade Internacional globalizada têm efeitos
em todo o território do planeta. Entre esses “desafios” estão o fenômeno do esgotamento dos recursos naturais, o crescimento exponencial da
população mundial, a deterioração ambiental ocasionada pela contaminação da terra, do ar e das águas, o uso crescente da energia nuclear para fins
civis ou militares, a utilização do espaço estratosférico e das profundezas oceânicas. Acrescente-se a significativa disparidade de renda na esfera
internacional, marcada por uma minoria da população do globo com alto padrão de vida e a maioria vivendo em condições subumanas, na miséria
absoluta, sob regimes autoritários e sem quaisquer perspectivas de futuro digno. Essas condições implicam necessariamente uma reestruturação da
Sociedade Internacional, em que a questão geográfica, isoladamente, cai para segundo plano.

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Pág. 5 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

A diversidade sistêmica

A Sociedade Internacional é composta de distintos subsistemas, cuja correlação configura a ordem internacional imperante. Cada um desses
subsistemas corresponde a uma das áreas imprescindíveis para a existência da Sociedade Internacional em seu conjunto. Calduch prefere chamá-los
de “subestruturas”.

Cite-se, então, o subsistema econômico, no qual está a base material e produtiva indispensável para a existência dos grupos humanos. Incluem-se
aí tanto o conjunto dos fatores e forças de produção quanto as inter-relações associadas ao processo econômico (produção, comércio e consumo). O
subsistema econômico não pode ser descartado para a compreensão da Sociedade Internacional, uma vez que a Economia é uma das “forças
profundas” mais influentes na conduta internacional dos Atores.

O segundo subsistema a ser considerado é o político-militar. Compõe-se das comunidades políticas e


organizações internacionais, bem como das relações de autoridade e dominação que elas mantêm entre si em
virtude de normas jurídicas ou mediante o exercício do poder militar.

O terceiro subsistema é o cultural-ideológico. Forma-se, segundo Calduch, por “atores e relações


internacionais desenvolvidas a partir da existência de conhecimentos, valores ou ideologias comuns a distintas
sociedades humanas e dos processos de comunicação que deles derivam”. O subsistema cultural-ideológico, tão
importante quanto os anteriores, desempenha um papel de mediador entre a dimensão político-militar e a
econômica, como foi testemunhado, por exemplo, nos anos da Guerra Fria.

Naturalmente, cada um dos subsistemas está conformado de maneira particular, em virtude das características exclusivas de cada um de seus
componentes. Suas respectivas evoluções seguem ciclos e ritmos de diferentes intensidade e duração, provocando tensões, desajustes e crises, tanto
entre os grupos que as capitalizam quanto ao conjunto da Sociedade Internacional.

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Pág. 6 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

A estratificação hierárquica

A Sociedade Internacional constitui uma realidade complexa, cujos membros ocupam níveis ou estratos segundo a desigualdade de poder – político,
econômico, militar, social, cultural/ideológico. Uma vez que há diferentes graus de influência nos assuntos internacionais, existe uma hierarquia “de
fato” entre os Atores na Sociedade Internacional. Daí o conceito de Calduch para essa estratificação: “conjunto das diferentes e desiguais posições
ocupadas pelos atores internacionais em cada uma das estruturas parciais que formam parte da Sociedade Internacional.”

Uma primeira observação a ser feita a respeito da estratificação é que a hierarquia internacional não é única e imutável em cada Sociedade
Internacional e muito menos homogênea para cada subsistema. Assim, a posição ocupada por um Estado no Subsistema econômico internacional
poderá não ser a mesma no subsistema político-militar, ou vice-versa. Para exemplificar, a influência atual do Brasil na economia internacional é
bastante diferente de sua influência na política ou de seu poder militar, e, mais ainda, de seu papel cultural-ideológico internacional.

Calduch lembra, também, que, junto aos Estados soberanos, “deve-se considerar aqueles grupos internacionais cujo protagonismo fica limitado a
certas áreas da vida internacional, por exemplo, o Fundo Monetário Internacional, para o subsistema econômico; o [extinto] Pacto de Varsóvia, para a
política; a Agência de notícias Reuters, no plano cultural”. Claro que esses outros membros da Sociedade Internacional não podem ser
desconsiderados, pois é inquestionável sua influência nos diferentes subsistemas, em alguns casos muito superior à da maior parte dos Estados-
nacionais.
 

Acrescentemos a relevância no papel de alguns indivíduos na Sociedade Internacional contemporânea, os


quais exercem, efetivamente, influência como Atores internacionais. Inegável que Bill Gates, George Soros,
o Papa João Paulo II, ou mesmo Osama bin Laden, só para citar alguns nomes mais conhecidos,
mostraram-se mais influentes nas relações internacionais, sejam políticas, econômicas ou até culturais, que
muitos países. Portanto, na Sociedade Internacional contemporânea, o indivíduo, entendido como Ator
internacional, também ocupa um estrato dessa hierarquia.
Assim, a estratificação hierárquica em cada um dos subsistemas internacionais pode realizar-se atendendo
às diferentes características de Atores (Estados, organizações internacionais, organizações não
governamentais, empresas multinacionais/transnacionais, indivíduos, entre outros) ou, ainda, considerando
cada um dos grupos com capacidade de participação nos diferentes subsistemas.

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Pág. 7 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

A polarização

Alguns Atores atraem para si outros em virtude da capacidade de influência no sistema e da desigualdade entre os diferentes protagonistas do cenário
internacional. Introduzimos, aqui, um dos elementos essenciais para a compreensão da estrutura do sistema internacional: a ideia de polarização.

Polarização pode ser definida como a capacidade efetiva de um ou vários Atores internacionais para adotar decisões, comportamentos ou normas que
sejam aceitos pelos demais Atores e, por meio dos quais alcançam ou garantem uma posição hegemônica na hierarquia internacional. Para os Atores
que ocupam essa posição de destaque, a manutenção da estrutura imperante mostra-se questão de sobrevivência, pois qualquer sinal de mudança
pode significar que outro polo está a se estruturar, com a consequente – e, às vezes, fatal – alteração no equilíbrio de poder no sistema. Enquanto a
estratificação considera o conjunto dos Atores, a polarização – ou polaridade – contempla somente aqueles que dominam as relações básicas
de cada subsistema internacional.

Portanto, ao tratarmos de polarização, consideramos os membros da Sociedade Internacional nas posições superiores da estratificação hierárquica.

Segundo Calduch, os Atores à frente de cada subsistema internacional se veem obrigados a intervir de modo crescente e constante nas relações
internacionais, com o objetivo de perpetuar sua hegemonia. A longo prazo, haverá uma drenagem tão grande de seus recursos e capacidades para
projetos e atuações exteriores que esses Atores terão seu poder debilitado, tanto interna quanto externamente. Um bom exemplo disso é o que
ocorreu com a URSS na década de 1980, que culminou no desaparecimento daquele Estado em 1991.

O caso da URSS é, como dito, apenas um exemplo. A “ascensão e queda das grandes potências”, para usar os termos de Paul Kennedy, é um fato que
pode ser constatado em diversos momentos da evolução histórica da Sociedade Internacional, sempre relacionado à incapacidade de manutenção da
hegemonia internacional nos diferentes subsistemas ao longo do tempo. A evolução é fatal: um Ator hegemônico surge ainda quando o Sistema está
polarizando por outro ou outros atores; aos poucos, vai ocupando o vazio de poder fruto do enfraquecimento desse ou desses, até adquirir capacidade
suficiente para afetar o Sistema. Entretanto, depois de determinado tempo – anos, décadas ou séculos –, a única certeza é que surgirá um novo Ator
para ocupar seu espaço no Sistema Internacional. Assim como ocorre na natureza, numa lógica darwiniana, ocorre também na Sociedade
Internacional.

Entenda-se lógica darwiniana como a capacidade de um ente se adaptar a determinado ambiente. É importante observar que um ente muito adaptado
a determinado ambiente e, portanto, bem-sucedido, pode desaparecer se as condições se modificam.

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Pág. 8 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

Polarização (cont.)

Há três formas de polarização internacional:

unipolaridade;

bipolaridade; e

multipolaridade.

Entende-se por unipolaridade a situação em que um só Ator é capaz de dirigir, de modo decisivo, a dinâmica de determinado subsistema internacional.
No seu auge, o poder de influência desse Ator é incontestável, devido à incapacidade de outro Ator fazer-lhe frente.

O exemplo clássico de unipolaridade político-militar está no Império Romano, entre a derrota de Cartago (136 a.C.) e seu desmembramento (476
d.C.), no contexto da Sociedade Internacional mediterrânea. Um exemplo atual poderia ser a condição dos EUA, ao menos sob a perspectiva de poder
militar, com o fim da Guerra Fria e o colapso da URSS. Alguns autores, entretanto, discordam e vislumbram um sistema multipolar no contexto geral.

A bipolaridade ocorre quando dois Atores dividem a hegemonia de um subsistema. Os demais componentes do Sistema acabam migrando para a
esfera de influência de um dos dois Atores principais. É possível, ainda, que os demais Atores optem por uma política pendular, tendendo a uma ou
outra esfera de influência conforme interesses específicos e, ao mesmo tempo, “jogando” com a disputa entre os polos. Como exemplos de sistemas
bipolares no plano político citamos: Esparta e Atenas, na Grécia clássica; Cartago e Roma, no mundo antigo; EUA e URSS, nas quatro décadas
seguintes ao término da II Guerra Mundial (1939-1945).

Finalmente, quando o domínio de um subsistema internacional é disputado por mais de dois Atores, tem-se a multipolaridade. Como na bipolaridade, a
hegemonia na multipolaridade não tem uma direção única, o que obriga os distintos polos a considerarem em suas condutas internacionais os
interesses e condutas de seus pares. Quanto maior o número de Atores polarizando o Sistema, mais complexas e aleatórias são as relações
internacionais.

Como exemplo de multipolaridade no subsistema político-militar tem-se o Concerto Europeu, estabelecido em 1815, com a derrota de Napoleão, e que
perdurou por cerca de 100 anos na ordem europeia. Já para exemplificar a multipolaridade econômica, apresentamos a Sociedade Internacional de
nossos dias, uma vez que, junto às Grandes Potências econômicas (EUA, Japão, Alemanha, China), surgem também organizações intergovernamentais
e blocos econômicos (União Europeia, NAFTA, APEC, Mercosul etc.) e ainda empresas multinacionais ou transnacionais (Exxon, General Motors, IBM,
Citicorp), algumas das quais com capacidade para influenciar o sistema de forma muito superior à da maior parte dos Estados soberanos do globo.

Registre-se, ademais, que, para perdurar, a relação hegemônica deve basear-se em dois alicerces: coerção e consenso. Não se pode exercer a
liderança em um sistema por muito tempo apenas com base no uso da força, ao mesmo tempo em que hegemonia fundamentada simplesmente no
consentimento dos pares pode ser ameaçada por uma crise de legitimidade.

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Pág. 9 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

O grau de homogeneidade e heterogeneidade

A Sociedade Internacional encontra-se condicionada também pela presença ou ausência de homogeneidade entre seus membros. Uma vez que existem
Atores com diferentes naturezas, composições, poder e objetivos, só é possível estudar o grau de homogeneidade/heterogeneidade se forem
comparados Atores pertencentes a uma mesma categoria. Não se pode, portanto, comparar Estados soberanos com organizações internacionais para
se medir o grau de homogeneidade de determinado subsistema.

Existe homogeneidade internacional quando são observadas identidades ou similitudes internas fundamentais entre os Atores que pertençam a uma
mesma categoria e participem de um mesmo subsistema internacional, principalmente entre os Atores estatais. Já a heterogeneidade é constatada
com a existência de divergências internas básicas entre os referidos Atores.

Uma análise das relações internacionais sob o enfoque do grau de homogeneidade/heterogeneidade da Sociedade Internacional deve considerar:

1) a comparação entre Atores da mesma categoria; e


2) a não existência de categoria com grau de homogeneidade absoluto.

Sempre haverá diferenças entre os Atores, uma vez que a diversidade é uma característica inata das sociedades que compõem a Sociedade
Internacional.

Um terceiro aspecto que deve ser considerado é que um elevado índice de homogeneidade em um subsistema internacional não se transfere
automaticamente aos outros subsistemas. Assim, há casos em que são vislumbradas relações políticas homogêneas em contraposição à
heterogeneidade econômica e sociocultural em um mesmo grupo de Atores.

Finalmente, vale observar que, para alguns autores, os sistemas homogêneos tendem a ser mais estáveis (ARON, 1986). Afinal, a homogeneidade
permite maior grau de previsibilidade na conduta internacional dos Atores. Trata-se, entretanto, de uma tendência que não pode ser considerada de
maneira categórica, visto que ao próprio conceito de estabilidade são atribuídas diferentes interpretações.

Muitas vezes, os Atores fazem uso dessa dicotomia homogeneidade/heterogeneidade para conduzir seus interesses
internacionais e influenciar a conduta de outros Atores. Exemplos são os grupos que se formam sob a égide de bandeiras como
“nações civilizadas”, “países desenvolvidos”, “em desenvolvimento” e “subdesenvolvidos”, “capitalistas, socialistas e não
alinhados”. Enquanto o caráter homogeneidade/heterogeneidade, em alguns casos, realmente se faz presente, em outros nada
mais se tem que uma forma de apresentação internacional pouco condizente com a realidade.

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Pág. 10 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

O grau de institucionalização

O último elemento fundamental para o estudo das relações internacionais identificado por Calduch é o grau de institucionalização, que, por sua vez,
resumiria todos os anteriores. Para o mestre espanhol, “o grau de institucionalização de uma Sociedade Internacional é formado pelo conjunto de
órgãos, normas e valores que, independentemente de seu caráter expresso ou tácito, são aceitos e respeitados pela generalidade dos Atores
internacionais de um mesmo subsistema, permitindo, dessa maneira, a configuração e a manutenção de determinada ordem internacional.” (CALDUCH,
1991, p. 74).

Esse conceito traduz o entendimento e o consenso social que deve imperar entre componentes de uma Sociedade Internacional ao estabelecerem ou
modificarem suas relações mútuas. Calduch defende que não se pode analisar o grau de institucionalização apenas com base nas normas jurídicas: há
normas que não estariam envolvidas pelo Direito Internacional, ainda que este sintetize a maior parte das instituições fundamentais da Sociedade
Internacional.

Ao estudar as instituições internacionais e suas transformações, o analista depara-se com a estrutura da ordem internacional, os interesses dos Atores
e as forças que influenciam as condutas dos membros da Sociedade Internacional ao longo do tempo. As instituições estão relacionadas aos valores, às
normas e aos objetivos dos membros de uma sociedade e, mesmo, à essência de seus subsistemas.

As mudanças nas instituições refletem, portanto, as transformações da própria sociedade em que se encontram, suas formas de cooperação e seus
antagonismos.

Finalmente, Calduch afirma que a diplomacia, o comércio e a guerra são formas de relações internacionais presentes em
diversos tipos de instituições internacionais. Daí não ser cabível, para a análise do grau de institucionalização de uma
sociedade, a exclusão de valores ou normas que emanem diretamente da existência de conflitos bélicos.

Portanto, compreendendo as instituições de uma sociedade, pode-se compreender seus membros, as forças que nela
interferem e os reflexos das relações entre os Atores.

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Pág. 11 - Sociedade Internacional: Evolução Histórica e Conceito

O grau de institucionalização
Um exemplo recente de dificuldades geradas em modelos institucionais críticos é a guerra em regiões menos desenvolvidas do globo. Enquanto o
conflito entre as Potências busca seguir determinadas “leis” de conduta, um confronto em áreas menos desenvolvidas foge a qualquer padrão. Muitos
oficiais ocidentais ficaram perplexos ao combater em 2001 no Afeganistão, porque as milícias afegãs “desconheciam os usos e costumes do direito de
guerra das nações civilizadas”. Não havia nada parecido com as instituições da guerra clássica no cenário da Ásia Central, o que levou à violência
exacerbada de ambos os lados no combate.

Cite-se entre as principais as Convenções de Genebra de 1949 e seus protocolos Adicionais, que regulamentam as condutas dos combatentes.

Assim, as instituições refletirão os subsistemas e a maneira como estão ordenados. Pode-se, portanto, analisar as relações internacionais sob a ótica
das instituições que se manifestam no Sistema Internacional. É essencial, portanto, ao internacionalista, conhecer as instituições que regem as
estruturas da sociedade objeto de seu estudo.

Assista à aula do Professor Joanisval Gonçalves, em duas partes, sobre Sociedade Internacional, que engloba conceitos tratados neste primeiro
módulo. Vamos lá!

Parte 1-duração: 7min29

Sociedade Internacional - parte I

Parte 2 - duração: 7min08

Sociedade Internacional - parte II

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Concluimos os aspectos teóricos de nosso curso introdutório. Nos módulos seguintes será apresentada uma breve análise da evolução histórica da
Sociedade Internacional a partir da era moderna, com esses aspectos teóricos operando como pano de fundo.

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Pág. 12 - Conclusão do Módulo I

Concluimos os aspectos teóricos de nosso curso introdutório. Nos módulos seguintes será apresentada uma breve análise da evolução histórica da
Sociedade Internacional a partir da era moderna, com esses aspectos teóricos operando como pano de fundo.
                                                 

Dois livros importantes para se compreender a ideia de sociedade


internacional são A Evolução da Sociedade Internacional, de
Adam Watson (Brasília: Ed. UnB, 2004) e A Sociedade Anárquica,
de Hedley Bull (Brasília: Ed. UnB, 2002). Bull e Watson são dois
ícones da chamada Escola Inglesa de Relações Internacionais, a qual
tem uma perspectiva das relações internacionais muito fundamentada
nas ideias de sociedade internacional.

Você pode encontrar a resenhas do livro sugerido na Internet:

# A Evolução da Sociedade Internacional

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Exercícios de Fixação - Módulo I

Parabéns! Você chegou ao final do Módulo I de estudo do curso Relações Internacionais - Teoria e História.

Como parte do processo de aprendizagem, sugerimos que você faça uma releitura do mesmo e resolva os Exercícios de
Fixação. O resultado não influenciará na sua nota final, mas servirá como oportunidade de avaliar o seu domínio do
conteúdo. Lembramos ainda que a plataforma de ensino faz a correção imediata das suas respostas!

Para ter acesso aos Exercícios de Fixação, clique aqui.

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