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RITO DA  

CACHOEIRINHA 

Primeira versão, julho de 2019.


Escrito por Bruna Menezes, em processo colaborativo com
os aprendizes do Projeto Espetáculo da Fábrica de Cultura
Vila Nova Cachoeirinha, para a Direção de Márcio Castro,
Karine Carvalho e Allan Amaro.

2019
 
Personagens​: 
Narradora
Mulheres da cachoeira
Pai
Filho
João
Antonio
Ariel
Meninos noite
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. 
(Lavoisier) 
 
As nuvens que dão origem às precipitações são as do tipo estratos e cúmulos. As
precipitações acontecem no momento em que o vapor de água que se encontra nas nuvens
se congela em razão da altitude, a partir dessa condensação desloca-se em direção à
superfície terrestre em estado líquido ou sólido.

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I- Uma cachoeira se forma quando de repente o caminho do rio chega ao fim.  
 
Narrador:
Há muito, muito tempo atrás, um pai levou seu filho em uma cachoeira para efetuar um
rito de passagem, para transformar o menino em homem. O garoto deveria permanecer
uma noite sozinho em uma cachoeira para completar o rito como forma de demonstrar
sua coragem. Um homem com medo não sabe o que lhe espera, não sabe onde vai, não
se sabe o que quer, só sabe que vai...
Descendo a ladeira do medo, inseguro, incerto, inquieto.....

Pai:
Engole o choro! Homem não chora. Anda que nem homem. Para de frescura. Você tem
que ser firme. Você é quem manda. Não pode ter medo. Você tem que trabalhar. Arte é
coisa de mulherzinha. Tá na hora de arrumar uma namorada. Você precisa arrumar um
emprego para sustentar a família. Dome essas mulheres. Não pode fraquejar.

Filho:
Tem sido difícil existir
Tem sido difícil me manter em pé
Tem sido complexo; tem sido dolorido
Tem sido medonho andar nesse mesmo lugar
Tem sido estranho e incômodo
Tem sido dor, tem sido amor, tem sido chão
Terra e água
O homem ou o menino que vivem em mim quer ser visto
tem sido…
tem sido…
Sinto que estou apenas existindo.
Eu vou passar a noite sozinho na cocheira.
Que os meus ancestrais que ali habitam estejam comigo. Que o medo se transforme em
coragem na minha jornada.

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Narrador:
Seria esse um homem de verdade? Hoje vocês vão acompanhar de perto o rito da
cachoeirinha. O menino entrou na cachoeira para passar a noite toda ali. Ainda com
medo, no meio da noite o menino se depara com mulheres guerreiras da cachoeira que
lutam para manter sua ancestralidade, o menino se encanta ​e passa a noite em uma
grande festa cantando e dançando. Vamos, adentrem a cachoeira. Hoje você estão
convidados para o rito. Vamos! Vamos!

Mulheres da cachoeira:

Relampear

Eu vi chover
eu vi relampear
Na Lua cheia
No pé da cachoeira, eu vou me banhar.

Lavar a mágoa
Que esse coração aqui carrega, limpando as feridas
levando toda dor
Eu fiz chover em meu rosto
Eu fiz relampiar

Eu fiz chover em meu rosto


Eu fiz relampiar

Mulheres da cachoeira:
- Entrem. Bem vindos.
- Essa é a nossa cachoeira.
- Somos as mulheres da cachoeirinha.

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Narrador:
Vocês estão prontos para conhecer o rito? Bem vindos ao rito da cachoeirinha. A partir
de agora vocês vão ver onde tudo começou.

Mulher da cachoeira:
Aqui o que tem é mulher. Mulher de barro, mulher de terra, mulher de água. A água.
Vocês viram a cachoeira hoje? Todo mundo já olhou para a cachoeira hoje? Ela tem
fluidez. E é dela que vem a vida daqui. A gente planta. A gente rega. A gente re(nasce).
Mas não é porque é fluido que é delicado, viu? É fluido mas tem raiz, tem pé no chão.
Tem mulher que grita, mulher desbocada, mulher que luta. Mulher forte. Que põe a mão
na terra, que planta, cultiva. Mulher que sangra todo mês. Mulher que se descobre
mulher. Mulher que dão a vida. Mulheres da vida! Somos nós, aqui e agora. Mas, calma,
vocês viram a cachoeira hoje?

Mulher da cachoeira:
Oi?
Tá ouvindo?
São suas gotas caindo
Gotas de alguém que
precisa fazer chover
Fazer chover
de lágrimas
ou suor.
Fazer chover
Transbordar
ser chuva.

Mulher da cachoeira:
Somos nascentes
De água doce
Rainha dos rios
Dona das cachoeiras

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Somos nascentes
Mesmo pequena
Uma hora, toda nascente
No meio do caminho
Há de se transformar

Mulher da cachoeira:
Ela é líquido denso
difícil de evaporar
Não aprendeu a precipitar
passa por um córrego
Sem nascente nem origem
Enferruja até mina
Ei, mina, mana, mina mana
Água doce que transborda água salgada
Nem a lama consegue dar aquela camuflada
Não é crente no h2O
Muito menos vidente pra não dar nó
Nó de senso escorrido
Nó de senso perdido

Mulher da cachoeira:
Dizem que quando pula da cachoeira, durante a queda livre, os ventos sussurram. De
encontro a água doce, transparente ao ponto de enxergar ouro, consegue vê o nítido
como o reflexo de um espelho. Não enxerga mais com os olhos e descobre que ainda tem
muito mais o que descobrir, não te dá um meio e nem um fim, não tem resposta mas
impulsiona a dúvida.

Mulheres da cachoeira:
- Ele chegou! Vamos dar início.
- Nós estávamos te esperando.

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Mulher da cachoeira:
Esse é um lugar sagrado, onde a chuva alimenta o rio e faz nascer uma cachoeira. Uma
vez ao ano esperamos por meninos da sua idade para o nosso rito. Aqui, você vai
aprender a ter contato com a sua energia ligada ao feminino. Lugar das emoções, aqui
você vai aprender a importância de chorar, se escutar, escutar o seu corpo, acessar as
suas emoções mais profundas. Isso é a água. Serão muitas descobertas, e você pode
sentir medo, e se deparar com um grande bola de neve de emoções, mas não adianta
querer abraçá-la com seu corpo quente. Isso porque derrete, vira líquido. Às vezes vai se
sentir ar, gasoso. Mas são apenas fases.

Mulher da cachoeira:
Aqui não tem moleza não, viu?

Mulher da cachoeira:
Um rito é muito importante. É a passagem. Soltar o velho para dar lugar ao novo. Que
comece a nossa celebração!

Mulher da cachoeira:
O menino dançou, nos contou histórias, seus sonhos, e de que como estava feliz entre
nós. Disse que passou a vida esperando para que em algum dia pudesse se encontrar.
Finalmente, sentia-se em casa.

Menino:
O encontro ancestral dos elementos da natureza. Meu corpo rio, meu corpo água. Que
vaza, que corre, que escorre. Transbordei em cachoeira. O encontro químico, sublime de
tudo que é natural, nos dando a possibilidade de usufruir de novas criações, novos
corpos que se constituem por partículas tão pequenas e poderosas. Estar aqui é fazer
parte de um novo corpo. Estar aqui é poder ser o novo. Estar aqui é oferecer o novo.

Mulher da cachoeira:
As águas dos corpos se encontram. O encontro das águas. O corpo do menino com a
cachoeira se mistura em um fluído só. Ele foi tão fundo, mais tão fundo, mais tão fundo,

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mais tão fundo que virou lenda. Depois que se juntaram passamos a chamar de Gabi, a
lenda da cachoeirinha.

Amanhece na cachoeira.

Pai:
Vamos! Onde está meu rapagão! Meu filho mais velho! Meu filho macho! Meu filho
homem.

O pai ao chegar na cachoeira não encontra seu filho.

Mulher da cachoeira:
Ele se foi. Foi para o fundo da cachoeira. Não teve desejo de voltar para a superfície. Foi
fundo demais. Ele foi tão fundo, mais tão fundo, mais tão fundo, mais tão fundo que
virou lenda. Nós o chamamos de Gabi, a lenda da cachoeirinha.

Pai:
Fiquem aí, que o levem pra longe. Que fiquem esquecidos no passado. Daqui em diante
essa cachoeira não existirá mais. Eu quero esquecer esse desgosto. No fundo da terra
nada transborda. FECHEM! SOTERREM!

A Cachoeira se fecha.
(Música)
Oh, cachoeira
Nascida da lágrima de uma mulher
Enfeitiçada, cantava, chamava seus homens para as águas
Nasceu menino, cresceu mulher
E de esperança transbordou fé.
Lá vem ela das águas doces,
que te ouvia desabafar
Oh, cachoeira, cachoeira
Como deixaram te soterrar.

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II- O que soterraram? 

Narradora:
Essa peça está dividida em duas partes. Uma fábula de um passado recente e o agora.
Personagem: eu. Lugar: Fábrica de Cultura. Tempo: o agora. Situação:o personagem, eu,
diante de vocês. Silêncio. O Agora vai começar. Agora. A proposta neste trecho é
desenvolver um programa de ação com os aprendizes a partir ações coreográficas, em
sobreposição de imagens projetadas de entrevistas realizadas com eles durante o
processo. O programa de ação será dividido em três partes e objetivo é transbordar esse
balde até o final desta peça. Em cena temos um microfone, durante o processo criamos
perguntas sobre temas que precisamos transbordar para responder aqui. O que querem
soterrar? Precisamos fazer nascer uma cachoeira.

Perguntas provisórias:

O que é ser mulher?


O que você gostaria de esquecer e não consegue?
De onde você vem?
O que é a solidão da mulher negra?

Uma mulher negra está diante do equilíbrio e a força, portanto, está sobre uma lira. Ela está
envolvida por um véu, presa.

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III - Lenda da quebrada 

1. Não recomendado

Narradora:
Amanhece na cachoeira e o pai volta para encontrar o seu filho, mas o garoto alterou o
rito. Fechada a cachoeira tudo virou lenda. O Pai nunca se conformou e pediu que seus
aliados o ajudassem a soterrar a cachoeira. Agora só passa carro, ônibus, van, caminhão,
comércio, é tudo cimento. A água que cai não permeia o chão, é ácida. Fica parada. Não
passa. Não corre. Tudo foi soterrado. Alguns meninos andam escondidos pela rua de
cima, não podem ser vistos. As meninas não conhecem as mulheres de sua família. Tudo
que tem cor foi escondido. Ninguém se lembra mais do Pai, do Filho, das mulheres da
cachoeira, não se fala mais da Gabi. Até que um dia...

Anos depois. Vila Nova Cachoeirinha.

João:
Bixinha. Bixona. Gayzinha. Se passar nessa rua de novo já sabe, vai levar um coça. Não
quero saber de gente que nem você por aqui. A partir de hoje vai pela rua de cima.

Ariel:
Passo por onde eu quiser. Essa rua é caminho para a minha casa e jamais vou deixar de
passar por aqui.

João:
Ah, mas não passa mesmo.

Ariel:
A rua é pública.

João:
O rito da cachoeirinha acabou com tudo. Queria ver se tudo fosse como antes.

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Ariel:
Rito da cachoeirinha?

João:
Homem era homem. Tinha firmeza. Não tinha frescura, já resolvia tudo na mão sem
chorar e ir correndo pedindo ajuda. Era assim que funcionava. Queria ver como ia ser
pra você.

Ariel:
Não é sobre andar de mãos dada na rua
Também é, mas não é só isso

O buraco é mais embaixo


Mas pode ser lá em cima
Na periferia
Onde não pode ser bixa
Que pode ser chamado na chincha

Pegado de jeito
O medo
De não saber qual é o tipo de desejo
Dos fora do meio

É sobre não entender


Do por quê
Desde criança ri de você

De ter que escutar


A turma inteira te chamar de menininha
A melhor amiguinha falar
Tu é bixinha
O valentão ameaçando a te bater

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Enquanto um coro grita: VIRA HOMEM

Todos os aprendizes LGBT vão entrando em cena aos poucos. Nesse momento todos são Ariel.

Recorrer a professora
Chorando
Estão me xingando
De novo
E nada acontecer
De novo

Ter vergonha de falar pra mãe


Chorar de novo
E não falar
Aprender desde criança
A segurar o choro

Ter que se esconder


Dos familiares
Amigos
Ter medo
Suar frio
Engolir seco
Quando vão te falar
Posso te fazer uma pergunta?

Não saber a reação


Torcendo pelo privilégio
De não rolar a expulsão
E se acontecer, pra onde vou correr?
“Respeito
Mas não aceito”

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Receio do desprezo

Se preocupar
Rezar
Pra não passar de risadas
Quando anda
Na própria quebrada
Na frente de varios homens
Com os olhares penetrantes
Será que vão me espancar?
E esses mesmos
No meio
Tem aquele que tem desejo
Que por tanta repressão
Acabou entrando contramão
Odiando a si mesmo

Um corpo fadado a ter


Hematomas de paixão
Ou roxos de agressão
Apenas pela sua orientação

E eu nasci
Nasci da nascente
Que cai constantemente
Perfurando com unhas e dentes
O cimento que nunca vai asfaltar a corrente

E agora sei
Que não sou um erro
Da sua igreja
Ciência

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Mas talvez sim desse sistema

Um menino afeminado
Que já julgava ser viado
E depois de anos
Ser sem noção de perguntar
Se o motivo de ser gay
Foi por causa daquela vez lá

Sou forte pelo feminino


Que habita em mim
E nem preciso ter esse estereótipo
De ter um companheiro viril e cis

Pode chamar no feminino


Falar gayzinho
Tudo isso não passa de elogio
E toma muito cuidado
Com aquela que passa
Reboco na cara
Peruca e Garras
Que anda pronta pra assustar

E nem adianta
Falar da voz fina
Que ruge mais alto

E não precisamos pegar


Ônibus e metrô
Pra ir pra paulista
Pra dar close de patrícia
E encontrar gente da nossa sigla

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Tem aqui na periferia

Proteger e não deixar nos tratar


Como água de chuca
Descendo pela descarga
Os mal elementos que atacam
As sapas, as monas, bi, pan e as travas
Mandar o procede
Até mesmo se for pras gays
Que é burguês
Que desrespeita as bixa bolada da nossa quebrada

Tenho convicção
Que travesti não é bagunça
E que não foi aqui que começou
E nem é aqui que vai terminar
A nossa luta
Dos guetos com vogue
Das favelas com o funk

Eu nasci
Nasci da nascente
Que cai constantemente
Perfurando com unhas e dente
O cimento que nunca vai asfaltar a corrente

Pare de nos ignorar


Olhe ao seu redor
Várias histórias
Outras vivências

Não é só preconceito

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e LGBTQfobia

(Música)

Pervertido
mal amado
menino malvado
muito cuidado
má influência
péssima aparência
Menino indecênte
viado

Pervertido
mal amado
menino malvado
cuidado
má influência
péssima aparência
Menino indecênte
viado

Narradora:
O fato desperta a curiosidade em Ariel para descobrir do que se trata esse rito. Ele passa
a perguntar para os moradores mais antigos, para sua família e amigos se sabem do que
se trata essa história. Ele consegue reunir um grupo de amigos que reside na região para
investigar a lenda.

Antonio:
- Rito da cachoeirinha?

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Ariel:
Cara, tô falando. Tinha uma cachoeira na Avenida Inajar de souza. Vamos lá descobrir o
que é?

Antonio:
Eu dúvido que tenha existido mesmo. A gente vai lá fazer o que?

Ariel:
Como dúvida? A narradora alí, acabou de contar. A questão é: como nasce uma
cachoeira?

Antonio:
Oi?

Ariel:
Como nasce uma cachoeira?

Antonio:
Cara, não faço ideia. Por que isso agora?

Ariel:
Porque deve ter um jeito de trazer de volta a cachoeira.

Antonio:
Isso seria incrível. Mas é uma loucura o que você tá falando.

Ariel:
Vamos na Inajar pelo menos, vai que descobrimos alguma coisa?

Antonio:
Beleza. Vamos lá, na Inajar de Souza. Assim, você para com essa história de vez. Mas não
vamos sozinhos.

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2. Origem do mundo

Mulheres da cachoeira:
Meu sonho mesmo era morar perto de uma cachoeira. Sabe, poder ter esse contato
direto com a água. Poder subir em cima da pedra mais alta e soltar um grito bem alto
para que a cachoeirinha inteira pudesse escutar a minha voz. Quem sabe assim, alguém
poderia me contar a história das mulheres da minha família. Por que eu não sei a
história das mulheres da minha família? Isso é culpa minha? Foi falta de interesse meu?
Eu não fiz as perguntas certas? Porque eu não sei nada sobre a minha avó?

Direcionadas ao público, todas as mulheres em cena questionam sobre suas origens.

Mulheres da cachoeira:
Não sei nada sobre a minha bisavó? Qual era o nome dela? Onde ela nasceu? O que ela
fazia quando tinha a minha idade? Ela gostava de dançar? Ela tinha um sonho? Porque
eu tenho muitos. Eu vasculho tudo, tento lembrar das conversas com a minha mãe e não
me vem nada. Qualquer memória. É um vácuo. Um buraco imenso no passado. Por que
em determinado momento da nossa vida isso é tão importante? É como se essa lenda
gritasse de forma impaciente sobre meu corpo. Eu carrego todas essas mulheres em
mim.

Mulheres da cachoeira:
Eu não tenho nada dessas mulheres? No que elas se transformaram? Elas teriam
orgulho de mim? Eu me pareço com alguma delas? Você sabe o nome da minha avó? Me
fala, por favor. Eu preciso saber! Como ela era? Ela ela sorridente? Ela foi feliz? Quantas
vezes ela chorou? Você sabe se ela me desejava? Você acha que ela ia gostar de mim?
Por que não consigo me aproximar de nenhuma dessas histórias? Por que elas
sumiram? Me fala. Você tem notícias?

Mulheres da cachoeira:
Como foi a infância da minha bisavó? Ela foi para a escola? Qual era o livro favorito dela?
Minha avó tinha um diário? Quais as principais lembranças que minha avó tinha dos

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seus pais? O que minha bisavó imaginava para a sua vida adulta? Qual foi o primeiro
emprego da minha mãe? Quem foi seu primeiro amor? Como minha bisavó gostaria de
ser lembrada no futuro? O que minha vó faria de diferente? Como foi o último
aniversário da minha avó? O que eu gostaria de perguntar a ela? Quais os desejos das
mulheres da minha família?

Mulheres da cachoeira:
Ela sofreu muito? As pessoas gostavam dela? Ela trabalha com que? Ela foi uma boa
mãe? O que ela queria fazer e não conseguiu? Eu posso realizar isso? De que forma? Os
olhos da minha avó brilhavam? Quais eram as cores? A minha mãe nunca me disse. A
minha mãe se lembra? Você sabe se a minha bisavó me desejava? Ela ia gostar de mim?
Porque eu não sei nada sobre ela? Ela gostava de dançar? Porque eu adoro dançar.
Como era o cabelo dela? Minha bisavó era índia? Você sabe? Quem são meus
antepassados? Como eu vim parar aqui? Você entende como isso é importante? Como
essas mulheres se chamavam? Seria...

Mulheres da cachoeira:
Laura, Beatriz, Maria, Ana, Alice, Larissa, Mariana, Maria Eduarda, Maria do Socorro,
Raimunda, Karine, Katia, Tânia, Fabiana, Renata, Josene, Ana Cláudia, Viviana, Luciane,
Zulmira, Vanda, Roberta, Janaína, Elisangela, Cláudia, Adriana, Valentina, Josefa, Bruna,
Rosana, Leticia, Eloiza, Rosimeire, Lucienne, Rose, Adriana, Eliana, Júlia, Suzana, Lorena,
Vitória, Ester, Eladia, Cinthia, Izabel, Simone, Zilda, Francisca, Janile, Márcia, Joseane,
Alessandra, Silvia, Deuseni, Marcele, Adelita, Elisangela, Simone, Clementina, Hilda,
Clara, Elizângela, Maria do Rosário, Rita, Elizete, Elisa, Vera Lúcia, Amanda, Iracema,
Lívia, Laís, Thaís, Suzy, Fernanda, Fátima, Maria das Dores, Joaquina, Andreia, Cristiane,
Danila, Ariane, Mayara, Dalila, Carmelita, Marta.

Mulheres da cachoeira:
Quando o Ariel me chamou para tentar descobrir o que era o rito da cachoeirinha, no
começo eu não estava muito interessada. Então, fui perguntar para a minha mãe se ela
sabia de alguma coisa. ​Mãe, já ouviu falar do rito da cachoeirinha? Ela ficou em silêncio.
Daí, já percebi que algo não estava certo. Ela estava escondendo alguma coisa.

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Mulheres da cachoeira:
A minha professora falou sobre um artista plástico que é um dos moradores mais
antigos da região. E que ele mora perto. Disse também que ele é muito legal e tem o
hábito de receber pessoas que tem interesse em saber mais sobre o bairro. Inclusive,
tem um grupo de artistas na cachoeirinha que estão fazendo uma biblioteca com o nome
dele.

Mulheres da cachoeira:
Sério? Quem é?

Mulheres da cachoeira:
João Cândido da Silva.

Mulheres da cachoeira:
Vamos procurar ele, então?

3. Sobre corpos noite

Meninos noite:
Venha ver. Veja como somos. Falamos bonito demais. Nossos corpos são bonito demais.
Somos assim, carne, osso, pele, preta, humana gente. Meninos e meninas noite. Que
ainda alguém nos invente. Falem agora do esplêndido massacre. Dos nossos mortos
pretos. Dos mortos vivos que vivem no limbo encurralados. Conte outra vez comigo.
Quantos passos nos faltam dar? Quantos passos já demos juntos? Quantas vezes já
caímos no chão? Mas o mar nunca deixou de cantar. ​Canto negro hoje não é lamento. É
livre ​como um pássaro que voou. Não existem mais princesas a venda. Já fomos
apontados. Nos tornaram invisíveis.

Meninos noite:
Nós, que não temos necessidade de desculpas. Nós, que estamos certos de que tudo
ficaria bem. Nós, que não estávamos cientes da gravidade da situação. Nós, que já
ouvimos tudo isso antes. Nós, que não sabemos mais em quem acreditar. Nós, que não

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tivemos motivos para acreditar. Nós, que não tivemos razão para acreditar no que
estava acontecendo. Nós, que não conseguimos lembrar de ter estado cientes o
suficiente. Nós que estávamos convencidos de que eles estavam por cima.

Meninos noite:
Eu achava que não tinha nada a ver com isso. Mas, logo entendi que não se tratava só de
mim. Tratava​-se de um história que não foi contada por mim, por meus pais ou pelos
meus. Não foi contada pelos o que me trouxeram até aqui. A cachoeira também era
parte de mim.

Narradora:
Eu ainda não me apresentei, né?
Meu nome? Para que saber o meu nome?
Afinal, eu nem existo!
Sou aquela que você zoava na escola por ter um jeito diferente...
Por não caminhar com toda aquela gente...
Tu nunca perguntou o meu nome!
“Puxa o cabelo duro”...
“Nossa senhora, que coxão daora”
“Ai sim, hein, morena...”
“Mulher, essas horas na rua, só pode ser puta”
“É menino ou menina???”
E quem disse que isso te interessa???
“E os namorados???”
Não quero ter!
Sou Lésbica!
“Creeedoo, esse viado tem que tudo morrer mesmo....”
Escutei isso ontem no busão..
Eu podia vir aqui e contar uma Puta história triste, mas quer saber, não vou não!!
Escuta só..
Meu nome?
É Joana

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Sou mulher, negra, do cabelo duro, lésbica, pobre da periferia...
Sou também Musicista, artista, ativista, e otimista!

Narradora:
Mas foi através de João Cândido da Silva, artista plástico e um dos moradores mais
antigos da Cachoeirinha, que nossos memoráveis souberam um pouco mais sobre o
nosso Rito. João Cândido contou que há muito, há muito tempo atrás os pais deixavam
seus filhos homens passarem uma noite sozinhos na cachoeira para demonstrar sua
coragem, mas que um dia, um menino foi deixado lá e estava com muito medo, as
mulheres guerreiras que moravam na cachoeira foram ajudar o menino e passaram a
fazer uma grande festa a noite inteira. O menino foi fundo na cachoeira e não voltou, o
que fez com que o pai mandasse soterrar a cachoeira. Foi assim, que eles descobriram
que na cachoeira morava um grupo de mulheres guerreiras.

IV - O que querem soterrar? 

Narradora:
Essa é a segunda parte do nosso programa de ação. Portanto a nossa segunda chance de
transbordar esse balde. Ou melhor, fazer nascer nossa cachoeira. O que querem
soterrar? Muitas coisas ficaram escondidas até aqui. Corpos, desejos, nomes, pessoas, e
muitas coisas que habitam em nós. Esse momento do programa de ação é a nossa
segunda chance de fazer nascer uma cachoeira.

Coreografia e imagens do processo.

 
V- A chuva alimenta o rio e faz nascer uma cachoeira 

Mulheres da cachoeira:
Essa cachoeira deve existir ainda.
Ela deve estar aqui em baixo.
É impossível secar uma nascente.

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A união das mulheres fazem chover.

Queriam tirar o brilho.


Isso vem da necessidade de ficar por cima.
Secando cada líquido de vida dos nossos corpos.
Uma necessidade de findar o divino que habita em mim.
Em você.
Em minha mãe.
Avó.
Meus antepassados foram soterrados, silenciados.
Mas, eu não.
Eu tenho a palavra.
Eu tenho a cena, essa cena é minha.
E partir dela eu tenho todo o controle de trazer a tona tudo que foi seco.
A rainha das águas.
As mulheres da cachoeira.
As mulheres das águas doces vivem em mim.
Vivem em nós.

VI -O que não vamos permitir ser soterrado? 

Narradora:
Chegamos na terceira parte do nosso programa de ação. Na nossa história a cachoeira
voltou. As mulheres guerreiras da cachoeira voltaram. Fizeram chover. Agora nos basta
saber se nós, aprendizes da Vila Nova cachoeirinha, seremos capazes de transbordar.
Neste momento evocamos o que não vamos permitir ser soterrado. Precisamos
completar o nosso rito.

Coreografia e imagens do processo.


Neste trecho o balde deve transbordar.

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As mulheres descem pela cachoeira.

Relampear

Eu vi chover
eu vi relampear
Na Lua cheia
No pé da cachoeira, eu vou me banhar.

Lavar a mágoa
Que esse coração aqui carrega, limpando as feridas
levando toda dor
Eu fiz chover em meu rosto
Eu fiz relampiar

Eu fiz chover em meu rosto


Eu fiz relampiar

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