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Liber Novus

O "Livro Verm elho"


de C G . Jun g1
SO N U SH AMD ASAN I
C G . J U N G é a m p l a m e n t e r e c o n h e c id o c o m o u m a figu r a p r o e m i n e n t e n o
p e n s a m e n t o o c i d e n t a l m o d e r n o , e se u t r a b a lh o c o n t i n u a a p r o d u z i r c o n t r o -
vé r sia s. E l e t e ve u m p a p e l i m p o r t a n t e n a fo r m a ç ã o d a p sico lo gia , d a p s ic o t e -
r a p i a e d a p s i q u i a t r i a m o d e r n a s , e u m a gr a n d e c o m u n i d a d e i n t e r n a c i o n a l d e
p s ic ó lo go s a n a lít ico s t r a b a lh a sob s e u n o m e . En t r e t a n t o , se u t r a b a lh o o b t e ve
o i m p a c t o m a is a m p l o fo r a d o s cír cu lo s p r o fissio n a is: q u a n d o a m a i o r i a d as
p esso as p e n s a e m p sico lo gia , Ju n g e F r e u d sã o os n o m e s q u e a p a r e c e m e m p r i -
m e i r o lu gar , e su as id e ia s fo r a m a m p l a m e n t e d is s e m in a d a s n as a r t e s, n a s h u -
m a n id a d e s , n o c i n e m a e n a c u l t u r a p o p u la r . Ju n g t a m b é m é m u i t o r e c o n h e c id o
c o m o u m d o s p r o vo ca d o r e s d e m o vi m e n t o s N e w Age . Co n t u d o , é e sp a n t o so
p e r c e b e r q u e o l i vr o q u e e st á n o c e n t r o d e s u a o b r a , n o q u a l t r a b a l h o u p o r m a is
d e d e z e sse is a n o s, só a go r a se ja p u b lica d o .

P r o va ve l m e n t e e xi s t e m p o u c o s t r a b a lh o s inéditos q u e e xe r c e r a m e fe it o s t ã o
va st o s so b r e a h i s t ó r i a s o c ia l e i n t e l e c t u a l d o s é c u lo X X q u a n t o o Livro Verm elho
d e Ju n g , o u Liher Novus [ Li v r o N o v o ] . A s s i m c h a m a d o p o r Ju n g p o r c o n t e r o
n ú c l e o d e seu s t r a b a lh o s t a r d io s , já fo i r e c o n h e c i d o c o m o a ch a ve p a r a a c o m -
p r e e n s ã o d a g é n e s e d esses t r a b a lh o s . A i n d a a s s i m , a p e sa r d e já t e r m o s t i d o
d e le a lgu n s p o u co s vi s l u m b r e s a t o r m e n t a d o r e s , p e r m a n e c e u a t é a go r a i n d i s -
p o n í ve l p a r a e st u d o .

I O presente ensaio segue, às vezes diretamente, minha reconstrução da formação da psicologia de Jung em
Jung and theMakíngof Modem Psychology. Th e Dream of a Science. Cambridge: Cambridge University Press,
2003. Jung refere-se ao trabalho tanto como Líber Novus quanto como O Livro Vermelho, como ficou mais
universalmente conhecido. Com o há indicações de que o primeiro é o título verdadeiro, refiro-me a ele
como tal ao longo da Introdução por uma questão de coerência. Esse assunto é tratado de maneira mais
completa em meu livro: C.G.Jung: uma biografia em livros (Petrópolis: Vozes, no prelo).
2 LÍ BE R N O V U S

O m om ento cultural
A s p r i m e i r a s d é c a d a s d o sé c u lo X X t e s t e m u n h a r a m u m a b o a d o se d e e xp e r i -
m e n t a ç ã o n a l i t e r a t u r a , n a p sic o lo gia e n a s a r t e s vis u a is . Es c r i t o r e s t e n t a r a m
a b o lir os l i m i t e s d as c o n ve n ç õ e s d a r e p r e s e n t a ç ã o a f i m d e e xp l o r a r e m o s t r a r
t o d o o e sp e ct r o d a e xp e r i ê n c i a i n t e r i o r - so n h o s, vis õ e s e fa n t a sia s. El e s e x-
p e r i m e n t a r a m c o m n o va s fo r m a s e u t i l i z a r a m fo r m a s ve lh a s d e je it o s n o vo s.
D a e s c r it a a u t o m á t i c a d o s su r r e a list a s às fa n t a sia s gó t ic a s d e Gu s t a v M e yr i n k ,
os e scr it o r e s a p r o xi m a r a m - s e e c o l i d i r a m c o m as p e sq u isa s d e p s ic ó lo g o s q u e
e s t a va m e n vo lvid o s e m e xp lo r a ç õ e s se m e lh a n t e s. Ar t i s t a s e e scr it o r e s c o la b o -
r a r a m e m t e n t a t iva s d e n o va s fo r m a s d e ilu st r a çã o e t ip o gr a fia , n o va s c o n fi g u -
r a ç õ e s d e t e xt o e im a g e m . P s ic ó lo go s b u s c a r a m ve n c e r os l i m i t e s d e u m a p s i c o -
lo gia filo só fica , e c o m e ç a r a m a e xp l o r a r o m e s m o t e r r e n o q u e a r t ist a s e e s c r i -
t o r e s. D e m a r c a ç õ e s cla r a s e n t r e l i t e r a t u r a , a r t e e p sico lo gia a i n d a n ã o h a vi a m
sid o e st a b e le cid a s; e scr it o r e s e a r t ist a s e m p r e s t a va m id e ia s d e p s ic ó lo g o s e vic e
ve r sa . I m p o r t a n t e s p s ic ó lo go s , t a is c o m o Al f r e d Bi n e t e Ch a r l e s Ri c h e t , e s-
c r e ve r a m t r a b a lh o s fic c io n a is e d r a m á t i c o s , fr e q u e n t e m e n t e sob p s e u d ó n i m o s ,
cu jo s t e m a s e s p e lh a va m a q u e le s d e seu s t r a b a lh o s "c ie n t ífic o s " 2 . Gu s t a v F e c h -
n er , u m d o s fu n d a d o r e s d a p sico física e d a p sico lo gia e xp e r i m e n t a l , e s c r e ve u
so b r e a v i d a d a a l m a d as p la n t a s e so b r e a T e r r a c o m o u m a n jo a z u l 3 . A o m e s m o
t e m p o , e scr it o r e s t a is c o m o An d r é Br e t o n e P h i l i p p e So u p a u lt c o n s t a n t e m e n t e
l i a m e u t i l i z a va m os t r a b a lh o s d e p e sq u isa d o r e s p s íq u ic o s e p s ic ó lo g o s d a a n o r -
m a lid a d e , t a is c o m o Fr e d e r i c k M ye r s , T h é o d o r e F l o u r n o y e P i e r r e Ja n e t . W B .
Ye a t s u t i l i z o u a e s c r it a a u t o m á t i c a e s p ir it u a lis t a p a r a c o m p o r u m a p s ic o c o s -
m o lo g ia p o é t ic a e m A Vision 4. E m t o d o s os ca n t o s, i n d i ví d u o s p r o c u r a va m n o va s
fo r m a s c o m as q u a is r e p r e s e n t a r as r e a lid a d e s d a e xp e r i ê n c i a i n t e r i o r , n u m a
b u s c a p o r r e n o va ç ã o c u lt u r a l e e s p ir it u a l. E m Be r l i m , H u g o Ba l l n o t o u :

O m u n d o e a socied ad e e m 1913 p a r e cia m assim : á vi d a est á co m p le t a m e n t e


co n fin a d a e algem ad a. U m t ip o de fat alism o e co n ó m ico p revalece; cad a i n -

2 Cf. CARRO Y, Jacqueline. Lespersonnalités multiples et doubles: entre science et fiction. Paris: P U F, 1993.
3 Cf. F E C H N E R , Gustav Theodor. The RelígionofaScíentíst. Nova York: Pantheon, 1946 [organizado e
traduzido por Walter Lowrie].
4 Cf. ST AR O BI N SKI , Jean. "Freud, Breton, Myers". In : Lbeuíl vívante lT. La relation critique. Paris:
Gallim ard, 1970. • YEAT S, W B. A Vision. Londres: Werner Laurie, 1925. Jung possuía uma cópia do
último.
I N T RO D U ÇÃO 3

d ivíd u o , q u er ele r e sist a o u n ão, é en car r egad o d e u m p ap el esp ecífico e c o m


ele seus in t er esses e seu carát er. A Igr e ja é en car ad a co m o u m a "fáb r ica d e
r e d e n çã o " de p o u ca im p o r t â n cia , a lit e r a t u r a co m o u m a válvu la de escape...
A p e r gu n t a m ais in can d escen t e n o it e e d ia é: h a ve r á e m a lgu m lu gar u m a
for ça p o t en t e o su ficien t e p a r a acab ar co m est e est ad o de coisas? E , se n ão,
co m o escap ar m os? 5

E m m e i o a essa cr ise c u lt u r a l, Ju n g c o n s i d e r o u le va r a d ia n t e u m e xt e n s o p r o -
cesso d e a u t o e xp e r i m e n t a ç ã o , q u e r e s u l t o u n o Líber Novus, u m t r a b a lh o d e p s i -
co lo gia e m fo r m a t o lit e r á r io .
Es t a m o s h o je d o o u t r o la d o d e u m a d ivis ã o e n t r e p sico lo gia e li t e r a t u r a .
Co n s i d e r a r o Líber Novus h o je é e n c a r a r u m t r a b a lh o q u e s o m e n t e p o d e t e r
e m e r gid o a n t e s q u e essa s e p a r a ç ã o h o u ve sse sid o fi r m e m e n t e e st a b e le cid a . Se u
e st u d o a ju d a - n o s a c o m p r e e n d e r c o m o o c o r r e u a d ivisã o . M a s , a n t e s, d e ve m o s
p e r gu n t a r ,

Q u em foi C G . Jung>
Ju n g n a s c e u e m Ke s s w i l , n o lago d e Co n s t a n ç a , e m 1875. Su a fa m ília m u d o u - s e
p a r a La u fe n , ju n t o aos R h i n e Fa lis, q u a n d o ele t i n h a seis m e se s d e vi d a . E l e e r a
o filh o m a is ve lh o e t i n h a u m a ir m ã . Se u p a i e r a u m p a st o r d a I g r e ja Su íç a R e -
fo r m a d a . P e r t o d o f i m d e su a vi d a , Ju n g e sc r e ve u u m a m em oír i n t i t u l a d a "So b r e
as e xp e r iê n c ia s m a is a n t iga s d e m i n h a vi d a ", q u e fo i s u b s e q u e n t e m e n t e in c lu í-
d a e m Mem órias, Sonhos, Reflexões e m fo r m a t o i n t e n s a m e n t e e d it a d o 6 . Ju n g n a r r a va
os e ve n t o s sign ifica t ivo s q u e o l e va r a m à su a vo c a ç ã o p sic o ló gic a . A m em oír, c o m
se u fo co e m so n h o s, vis õ e s e fa n t a sia s sign ifica t ivo s d a in fâ n cia , p o d e se r e n c a -
r a d a c o m o u m a i n t r o d u ç ã o ao Líber Novus.

N o p r i m e i r o so n h o , ele se e n c o n t r a va n u m a c a m p i n a c o m u m b u r a c o d e
p e d r a s a lin h a d a s, n o ch ã o . En c o n t r a n d o u m a escad a, ele d e s c e u p a r a d e n t r o

5 Hugo Ball, FlightoutofTime: A Dada Diary, ed. John Elderfield, Berkeley: University of Califórnia Press,
1996, p. 1 [tradução de A. Raim es].
6 Sobre como o livro erroneamente veio a ser visto como a autobiografia de Jung, cf. meu JungStripped Bare by
bis Biographers, Even. Londres: Karn ac, 2004, cap. I : "'H ow to catch the bird': Jung and his first biographers".
C f tb. ELM S, Alan . "Th e auntification of Jung". In : Uncoveríng Lives: Th e Uneasy Alliance of Biography and
Psychology. Nova York: O xford University Press, 1994.
4 LÍ BER N O V U S

d o b u r a c o e e n c o n t r o u - s e n u m a c â m a r a . A l i h a vi a u m t r o n o d o u r a d o , e o q u e

p a r e c ia u m t r o n c o d e á r vo r e c o m p e le e c a r n e , c o m u m o lh o n o t o p o . E l e e n t ã o

o u vi a a vo z d e su a m ã e d i z e r q u e est e e r a o "c o m e d o r d e h o m e n s ". E l e n ã o t i n h a

c e r t e z a se su a m ã e q u e r i a d i z e r q u e e st a figu r a d e fat o d e vo r a va cr ia n ça s, o u

e r a id ê n t ic a a Cr i s t o . Isso a fe t o u p r o fu n d a m e n t e su a i m a g e m d e Cr i s t o . An o s

m a is t a r d e , ele p e r c e b e u q u e essa figu r a e r a u m p ê n is e, a i n d a m a is t a r d e , q u e

e r a d e fat o u m falo r i t u a l , e q u e o c e n á r io e r a u m t e m p l o s u b t e r r â n e o . E l e ve i o

a e n t e n d e r esse s o n h o c o m o u m a in ic ia ç ã o "n o s m is t é r io s d a t e r r a " 7 .

E m su a in fâ n cia , Ju n g e xp e r i m e n t o u a lgu m a s a lu c in a ç õ e s vis u a is . P a r e ce

q u e t a m b é m t i n h a a ca p a cid a d e d e e vo ca r im a ge n s vo l u n t a r i a m e n t e . N u m se -

m in á r io , e m 1935, ele se l e m b r o u d e u m r e t r a t o d e su a a vó m a t e r n a q u e ele

c o s t u m a va o lh a r q u a n d o m e n i n o a t é q u e "v i u " se u a vô d e sce n d o as e sca d a s 8 .

N u m d i a d e so l, q u a n d o Ju n g t i n h a d o z e a n o s, ele a t r a ve ssa va o M ú n s t e r -

p la t z n a Ba s ile ia , a d m i r a n d o o so l b a t e n d o n o s a z u le jo s r e c é m - r e s t a u r a d o s d o

t e t o d a ca t e d r a l. En t ã o s e n t i u a a p r o xi m a ç ã o d e u m p e n s a m e n t o t e r r íve l e p e -

c a m in o s o , q u e t e n t o u m a n d a r e m b o r a . F i c o u a n gu st ia d o p o r vá r io s d ia s. F i n a l -

m e n t e , a p ó s c o n ve n c e r a s i m e s m o d e q u e e r a D e u s q u e q u e r i a q u e ele p e n sa sse

esse p e n s a m e n t o , a s s im c o m o fo i D e u s q u e q u is q u e Ad ã o e E v a p e ca sse m , p e r -

m i t i u - s e c o n t e m p l á - l o , e v i u D e u s e m se u t r o n o d e sp e ja r u m p o d e r o s o m o n t e

d e e xc r e m e n t o so b r e a ca t e d r a l, a r r a s a n d o s e u n o vo t e lh a d o e e s t r a ç a lh a n d o a

ca t e d r a l. C o m isso, Ju n g s e n t i u u m a fe licid a d e e u m a lívio c o m o n u n c a t i n h a

se n t id o . Se n t i u q u e essa e r a u m a e xp e r i ê n c i a d o "d ir e c t l i vi n g Go d . . . " 9 E l e s e n -

t iu - s e s o z i n h o p e r a n t e D e u s , e s e n t i u q u e s u a r e a l r e sp o n sa b ilid a d e c o m e ç a va

a li. P e r c e b e u q u e fo i p r e c is a m e n t e t a l e xp e r i ê n c i a d i r e t a e i m e d i a t a d o D e u s

vivo , q u e e st á fo r a d a I g r e ja e d a Bíb lia , q u e fa lt a va a se u p a i.

Es s e s e n t id o d e p r e d e s t i n a ç ã o le vo u - o a u m a d e s ilu s ã o fin a l c o m a Igr e ja n a

o c a s iã o d e su a P r i m e i r a C o m u n h ã o . E l e t i n h a sid o le va d o a a c r e d it a r q u e e st a

s e r ia u m a gr a n d e e xp e r iê n c ia . A o c o n t r á r io , n a d a d isso . C o n c l u i u : "P a r a m i m

fo i u m a a u s ê n c ia d e D e u s e d e r e ligiã o . A I g r e ja t o r n o u - s e u m lu ga r a o n d e e u

n ã o p o d e r i a m a is ir . A l i n ã o h a vi a vi d a , m a s m o r t e . " 10

7 Mem órias, p. 28.


8 Th e Tavistock Lectures". O C , 18, § 397.
9 Mem órias, p. 54.
10 Ibid., p. 61.
I N T RO D U ÇÃO 5

A vo r a c id a d e d e l e i t u r a d e Ju n g c o m e ç o u n esse p e r í o d o , e ele fi c o u p a r t i -
c u l a r m e n t e i m p r e s s i o n a d o c o m Fausto d e Go e t h e . I m p r e s s i o n o u - o o fat o d e
q u e , c o m M e fis t ó fe le s , Go e t h e l e vo u a figu r a d o d ia b o a sé r io . N a filo so fia ,
i m p r e s s i o n o u - o Sc h o p e n h a u e r , q u e r e c o n h e c i a a e xis t ê n c ia d o m a l e d e u vo z
aos s o fr im e n t o s e m is é r ia s d o m u n d o .

Ju n g t a m b é m t i n h a a i m p r e s s ã o d e vi ve r e m d o is sé cu lo s, e s e n t ia u m a fo r t e
n o st a lgia p e lo sé cu lo X V I I I . Su a s e n s a ç ã o d e d u a lid a d e t o m o u a fo r m a d e d u a s
p e r so n a lid a d e s a lt e r n a d a s, q u e c u n h o u d e n ú m e r o i e n ú m e r o 2. P e r so n a lid a d e
n ú m e r o I e r a o ga r o t o a lu n o d a Ba s i le i a , q u e l i a r o m a n c e s , e p e r s o n a lid a d e
n ú m e r o 2 e r a a q u e s o l i t a r i a m e n t e p e r se gu ia r e fle xõ e s r e ligio sa s, n u m e st a d o
d e c o m u n h ã o c o m a n a t u r e z a e c o m o co sm o . E l a h a b it a va o "m u n d o d e D e u s ".
Es s a p e r s o n a lid a d e lh e p a r e c ia m u i t o r e a l. A p e r s o n a lid a d e n ú m e r o I q u e r i a
se l i vr a r d a m e l a n c o l i a e d o i s o l a m e n t o d a p e r s o n a lid a d e n ú m e r o 2. Q u a n d o
e n t r a va a p e r s o n a lid a d e n ú m e r o 2, p a r e c ia q u e u m e s p ír it o h á m u i t o t e m p o
m o r t o e a i n d a p e r p e t u a m e n t e p r e se n t e e n t r a va n a sala. A n ú m e r o 2 n ã o t i n h a
u m c a r á t e r d e fin id o ; e r a c o n e c t a d a à h ist ó r ia , e s p e c ia lm e n t e c o m a Id a d e M é -
d ia . P a r a a n ú m e r o 2, a n ú m e r o I , c o m seu s fr acassos e i n a p t i d õ e s , e r a a lg u é m
p a r a se agu en t ar . Es s e jo go p e r m a n e c e u d u r a n t e t o d a a v i d a d e Ju n g. D o m o d o
c o m o ele as e n ca r a va , so m o s t o d o s a s s im - u m a p a r t e d e n ó s vi ve n o p r e se n t e
e o u t r a e s t á c o n e c t a d a c o m os sé cu lo s.

Q u a n d o se a p r o xi m o u o m o m e n t o p a r a ele d e e sco lh e r u m a c a r r e i r a , o c o n -
flito e n t r e as d u a s p e r so n a lid a d e s in t e n s ific o u - s e . A n ú m e r o I q u e r i a as c i ê n -
cias, a n ú m e r o 2, as h u m a n i d a d e s . Ju n g t eve e n t ã o d o is so n h o s i m p o r t a n t e s . N o
p r i m e i r o , ele e st a va a n d a n d o n u m b o sq u e e scu r o p e r t o d o Re n o . D e p a r o u - s e
c o m u m t ú m u l o e c o m e ç o u a c a vá - lo , a t é d e s c o b r ir r e st o s d e a n i m a i s p r é - h i s -
t ó r ico s. Es t e s o n h o d e s p e r t o u n e le a vo n t a d e d e sa b e r m a is so b r e a n a t u r e z a .
N o se gu n d o so n h o , ele e st a va n u m b o sq u e , e h a vi a r ia c h o s. E n c o n t r o u e n t ã o
u m lago ce r ca d o d e d e n s a ve g e t a ç ã o r a st e ir a . N o lago, v i u u m a b e la c r ia t u r a , u m
e n o m e r a d io lá r io . Ap ó s esses so n h o s, o p t o u p ela s ciê n cia s. P a r a r e s o lve r a q u e s-
t ã o d e c o m o ga n h a r a vi d a , d e c i d i u e st u d a r m e d i c i n a . En t ã o t e ve o u t r o so n h o .
Es t a va n u m lu ga r d e sco n h e cid o , c o b e r t o d e n e b l i n a , a va n ç a n d o va g a r o s a m e n -
t e c o n t r a o ve n t o . E l e e st a va p r o t e ge n d o u m a p e q u e n a l u z d e a p a ga r -se . V i u
e n t ã o u m a e n o r m e c r i a t u r a p r e t a a m e d r o n t a d o r a m e n t e p r ó xi m a . Ac o r d o u , e
p e r c e b e u q u e a figu r a e r a a s o m b r a q u e a l u z p r o je t a va . P e n s o u q u e , n o so n h o ,
a n ú m e r o I e st a va e la m e s m a le va n d o a lu z , e q u e a n ú m e r o 2 se gu ia c o m o u m a
6 LÍ BE R N O V U S

s o m b r a . En c a r o u isso c o m o u m s i n a l d e q u e ele d e vi a se gu ir c o m a n ú m e r o I , e
n ã o o l h a r p a r a t r á s p a r a o m u n d o d a n ú m e r o 2.

E m seu s d ia s d e u n ive r s id a d e , o jo go e n t r e essas d u a s p e r so n a lid a d e s c o n -


t i n u o u . E m a c r é s c i m o a seu s e st u d o s m é d i c o s , Ju n g se gu iu u m p r o g r a m a i n -
t e n s ivo d e le it u r a s e xt r a c u r r i c u la r e s , e m e sp e cia l d as o b r a s d e N i e t z s c h e ,
Sch o p e n h a u e r , Sw e d e n b o r g 11, e a u t o r e s e s p ir it u a lis t a s . Assim falava Zaratustra, d e
N i e t z s c h e , c a u s o u - lh e gr a n d e im p r e s s ã o . Se n t i a q u e s u a p r ó p r i a p e r s o n a lid a d e
n ú m e r o 2 c o r r e s p o n d i a a Za r a t u s t r a , e t e m i a q u e e la fosse s e m e l h a n t e m e n t e
m ó r b i d a 12 . El e p a r t i c i p o u d e u m a so cie d a d e e s t u d a n t i l d e d e b a t e s, a So cie d a d e
Zo fi n g i a , e lá a p r e s e n t o u p a le st r a s so b r e esses t e m a s. Es p e c i a l m e n t e o e s p i -
r i t u a l i s m o o in t e r e s s a va m u i t o , já q u e p a r e c ia q u e os e s p ir it u a lis t a s e s t a va m
t e n t a n d o u t i l i z a r m e io s c ie n t ífic o s p a r a e xp l o r a r o s o b r e n a t u r a l, e p a r a p r o va r
a i m o r t a l i d a d e d a a lm a .

A se gu n d a m e t a d e d o sé c u lo X I X t e s t e m u n h o u a e m e r g ê n c i a d o e s p i r i t u -
a lis m o m o d e r n o , q u e se e s p a lh o u p e la Eu r o p a e Am é r i c a . P o r m e i o d o e s p i r i -
t u a lism o , o c u lt ivo d e t r a n se s — c o m os c o n c o m i t a n t e s fe n ó m e n o s d a fa la d e
t r a n se , d a glo sso la lia , d a e s c r it a a u t o m á t i c a e d a vis ã o d e c r is t a l - t orn ou -se
d is s e m in a d o . O s fe n ó m e n o s e s p ir it u a lis t a s a t r a ír a m o in t e r e sse d e c ie n t is t a s
i m p o r t a n t e s t a is c o m o Cr o o k e s , Zo l l n e r e W a l l a c e . T a m b é m a t r a ír a m o i n t e -
r esse d e p s ic ó lo g o s , i n c l u i n d o Fr e u d , Fe r e n c z i , Ble u le r , Ja m e s, M ye r s , Ja n e t ,
Be r gs o n , St a n le y H a l l , Sc h r e n c k - N o t z i n g , M o l l , D e s s o ir , Ri c h e t e Flo u r n o y.
D u r a n t e seu s d ia s d e u n ive r s it á r io n a Ba s i le i a , Ju n g e seu s colegas p a r t i c i -
p a va m d e se ssõ e s. E m 18 9 6 , eles t i ve r a m u m a lo n ga sé r ie d e e n c o n t r o s c o m
su a p r i m a H é l è n e P r e i s w e r k , q u e p a r e c ia t e r h a b ilid a d e s m e d iú n ic a s . Ju n g
d e s c o b r i u q u e d u r a n t e os t r a n se s e la a s s u m i a p e r so n a lid a d e s d ife r e n t e s e q u e
ele p o d i a c h a m a r essas p e r so n a lid a d e s a t r a vé s d e su ge st ã o . P a r e n t e s m o r t o s

11 Emmanuel Swedenborg (1688-1772) foi um cientista sueco e um místico cristão. Em 1743, ele atravessou
uma crise religiosa, que está descrita em seu Diário de sonhos. Em 1745, ele teve uma visão do Cristo. Ele então
devotou sua vida a relacionar o que tinha visto e ouvido nos céus e na terra e aprendido com os anjos, e
a interpretar os significados internos e simbólicos da Bíblia. Swedenborg argumentava que a Bíblia tinha
dois níveis de sentido: um nível físico e literal, e um outro interno, espiritual. Esses níveis se interligavam
por correspondências. Ele proclamava o advento de uma "nova igreja" que representava uma nova era
espiritual. De acordo com Swedenborg, no nascimento adquirimos males de nossos pais que estão alojados
no homem natural, que está diametricamente em oposição ao homem espiritual. O homem está destinado
para o céu, e lá não pode chegar sem regeneração espiritual e um novo nascimento. Os meios para isso
repousam na caridade e na fé. Cf. T AYLO R , Eugen. "Jung on Swedenborg, redivivus". JM«£ History, 2, 2,
2007, p. 27-31.
12 Mem órias, p. 99.
I N T RO D U ÇÃO 7

a p a r e c ia m , e e la se t r a n s fo r m a va c o m p l e t a m e n t e n essas figuras. E l a r e ve la va
h ist ó r ia s d e su as e n c a r n a ç õ e s a n t e r io r e s e a r t i c u la va u m a c o s m o lo gia m íst ic a ,
r e p r e s e n t a d a n u m m a n d a l a 13 . Su a s r e ve la ç õ e s e s p ir it u a lis t a s c o n t i n u a r a m a t é
e la se r p e ga t e n t a n d o s i m u l a r a p a r iç õ e s físicas, e as se ssõ e s foram e n ce r r a d a s.

A o le r o Manual de Psiquiatria d e R i c h a r d v o n Kr a f f t - E b i n g e m 18 9 9 , ele p e r -


c e b e u q u e s u a vo c a ç ã o e st a va n a p s iq u ia t r ia , q u e r e p r e s e n t a va u m a fu sã o d o s
in t e r e sse s d e su as d u a s p e r so n a lid a d e s. Ju n g p a sso u , p o r a s s i m d iz e r , p o r u m a
c o n ve r s ã o a u m e n q u a d r e c ie n t ífic o n a t u r a l. D e p o i s d e c o m p le t a r seu s e st u d o s
m é d i c o s , a s s u m i u u m p o st o c o m o m é d i c o a ssist e n t e n o h o s p i t a l Bu r g h õ lz li n o
fin a l d e 19 0 0 . O Bu r g h õ lz li e r a u m a clín ica d e u n ive r s id a d e c o m u m c l i m a
p r o gr e ssivo , sob a d ir e ç ã o d e Eu g e n Ble u le r . N o fin a l d o sé cu lo X I X , m u i t a s
figu r as t e n t a r a m fu n d a r u m a n o va p sico lo gia cie n t ífica . M a n t i n h a - s e q u e , ao
t o r n a r a p sico lo gia u m a c iê n c ia a t r a vé s d a i n t r o d u ç ã o d e m é t o d o s cie n t ífico s,
t o d a s as fo r m a s a n t e r io r e s d e c o m p r e e n s ã o h u m a n a s e r i a m r e vo lu c io n a d a s . N a
n o va p s ic o lo gia co lo ca va - se a p r o m e s s a d e n a d a m e n o s q u e c o m p le t a r a r e vo -
lu ç ã o cie n t ífica . Gr a ç a s a Bl e u l e r e se u a n t e ce sso r , Au g u s t e Fo r e l , a p e sq u isa
p s ic o ló gic a e a h ip n o s e t i n h a m lu ga r d e d e st a q u e n o Bu r gh õ lz li.
A d is s e r t a ç ã o m é d i c a d e Ju n g fo c a liz a va a p s ic o g ê n e s e d o s fe n ó m e n o s e s-
p ir it u a líst ic o s, n a fo r m a d e u m a a n á lise d e su as se ssõ e s c o m su a p r i m a H é l è -
n e P r e i s w e r k 14 . En q u a n t o q u e se u in t e r e sse i n i c i a l e m s e u caso p a r e c ia se r a
p o s s íve l ve r a c id a d e d e su as m a n ife s t a ç õ e s e sp ir it u a líst ica s, n esse í n t e r i m ele
h a vi a e st u d a d o os t r a b a lh o s d e Fr e d e r i c M ye r s , W i l l i a m Ja m e s e, e m e sp e cia l,
T h é o d o r e Flo u r n o y. N o fin a l d e 18 9 9 , F l o u r n o y p u b l i c o u u m e st u d o so b r e
u m a m é d i u m , q u e ele c h a m o u d e H é l è n e Sm i t h , q u e se t o r n o u u m besPsellerl\
A n o vid a d e n o e st u d o d e F l o u r n o y é q u e ele a b o r d a va o caso i n t e i r a m e n t e a
p a r t i r d o â n gu lo p s ic o ló gic o , c o m o u m m e i o d e i l u m i n a r o e st u d o d a c o n s c i -
ê n c ia s u b lim in a r . U m a vi r a d a i m p o r t a n t e h a vi a sid o d a d a p e lo s t r a b a lh o s d e
Flo u r n o y, Fr e d e r i c k M ye r s e W i l l i a m Ja m e s. El e s a r g u m e n t a va m q u e i n d e -
p e n d e n t e m e n t e d as su p o st a s e xp e r iê n c ia s e sp ir it u a líst ica s s e r e m vá lid a s , t ais
e xp e r iê n c ia s p r o p o r c i o n a r a m insights m u i t o p r o fu n d o s so b r e a c o n s t it u iç ã o d o

13 Cf. O C, i , § 66, fig. 2.


14 Sobre a psicologia e a patologia dos fenómenos chamados ocultos". O C , I .
15 F LO U RN O Y. Théodore. From índia to the PlanetMars: A Case of Multiple Personality wit h Imaginary
Languages. Princeton: Princeton University Press, 1900/ 1994 [organizado por Sonu Shamdasani;
traduzido por D. Verm ilye].
8 LÍ BE R N O V U S

s u b l i m i n a r e, p o r t a n t o , d a p s ic o lo gia h u m a n a c o m o u m t o d o . P o r m e i o d e la s,
m é d i u n s t o r n a r a m - s e su je it o s i m p o r t a n t e s d a n o va p sico lo gia . C o m essa v i r a -
d a , o s m é t o d o s u t i li z a d o s p e lo s m é d i u n s , t a is c o m o e s c r it a a u t o m á t ic a , d is c u r s o
d e t r a n se , vis ã o d e c r is t a l, fo r a m a p r o p r ia d o s p e lo s p s ic ó lo g o s e t o r n a r a m - s e
fe r r a m e n t a s p r o e m i n e n t e s d a p e sq u isa e xp e r i m e n t a l . N a p s ic o t e r a p ia , P i e r r e
Ja n e t e M o r t o n P r i n c e u s a r a m a e s c r it a a u t o m á t i c a e a l e i t u r a d e c r is t a is c o m o
m é t o d o s p a r a a r e ve la ç ã o d e m e m ó r i a s o cu lt a s e id e ia s fixa s su b co n scie n t e s. A
e s c r it a a u t o m á t i c a t r o u xe à l u z su b p e r so n a lid a d e s, e p e r m i t i u o e s t a b e le c im e n -
t o d e d iá lo g o c o m e l a s 16 . P a r a Ja n e t e P r i n c e , o o b je t ivo d e se c o n s id e r a r t a is
p r á t ica s e r a a r e in t e g r a ç ã o d a p e r so n a lid a d e .

Ju n g fic a r a t ã o e st u sia sm a d o c o m o l i vr o d e F l o u r n o y q u e se o fe r e c e u p a r a
t r a d u z i - l o p a r a o a le m ã o , m a s F l o u r n o y já t i n h a u m t r a d u t o r . O i m p a c t o d e s-
ses e st u d o s fic a c la r o n a d is s e r t a ç ã o d e Ju n g, n a q u a l s u a a b o r d a ge m a o caso é
p u r a m e n t e p sic o ló gic a . O t r a b a lh o d e Ju n g t e ve c o m o m o d e lo m a is p r ó xi m o
From índia to the Planet Mars, d e Flo u r n o y, t a n t o e m t e r m o s d o a ssu n t o q u a n t o d e
su a i n t e r p r e t a ç ã o d a p s ic o g ê n e s e d o s r o m a n c e s e sp ir it u a líst ic o s d e H é l è n e . A
d is s e r t a ç ã o d e Ju n g t a m b é m i n d i c a a m a n e i r a n a q u a l e le u t i l i z a va a e s c r it a a u -
t o m á t i c a c o m o u m m é t o d o d e in ve s t iga ç ã o p s ic o ló gic a .

E m 19 0 2, e le n o i vo u E m m a Ra u s c h e n b a c h , c o m q u e m se ca so u e c o m q u e m
t eve c i n c o filh o s. A t é esse m o m e n t o , Ju n g m a n t i n h a u m d iá r io . N u m d o s ú l -
t i m o s r e gist r o s, d a t a d o d e m a i o d e 19 0 2, e scr e ve : " N ã o e s t o u m a is s o z i n h o
c o m igo m e s m o , e s ó a r t i fi c i a l m e n t e p o sso r e c o r d a r - m e o s e n t i m e n t o a ssu st a -
d o r e b e lo d a so lid ã o . Es t e é o la d o s o m b r i o d a so r t e d o a m o r " 17 . P a r a Ju n g, s e u
c a s a m e n t o m a r c o u u m m o vi m e n t o p a r a lo n ge d a s o lid ã o c o m a q u a l h a vi a se
a co st u m a d o .

E m s u a ju ve n t u d e , Ju n g fr e q u e n t e m e n t e vi s i t a va o m u s e u d e a r t e d a Ba s i l e i a
e se n t ia - se e s p e c ia lm e n t e a t r a íd o p elas o b r a s d e H o l b e i n e Bõ c k l i n , a s s im c o m o
p e lo s p in t o r e s h o la n d e s e s 18 . P e r t o d o fi n a l d e seu s e st u d o s, d u r a n t e u m a n o ,
e st e ve b a st a n t e o c u p a d o c o m a p i n t u r a . Su a s p i n t u r a s d esse p e r í o d o e r a m p a i -
sagen s n u m e st ilo r e p r e s e n t a c io n a l e m o s t r a m h a b ilid a d e s t é cn ica s a lt a m e n t e

16 JAN ET , Pierre. Névroses et ídéefixes. Paris: Alcan , 1898. • P R I C E , Morton. Clinicai and Experim ental Studíes
inPersonality. Cambridge, Mass.: Sci-Art , 1929. Cf. meu "Automatic writin g and the discovery of the
unconscious". Spring-.JournalofArchetypeandCulture, 54,1993, p. 100-131.
17 Livro Negro 2, p. 1 [todo o conteúdo dos Livros Negros está em AFj].
18 MP, p. 164.
I N T RO D U ÇÃO 9

d e se n vo lvid a s e gr a n d e d e s e n vo lt u r a t é c n i c a 19 . E m 19 0 2- 19 0 3, Ju n g d e i xo u se u
p o st o n o Bu r g h õ lz li e fo i a P a r is p a r a e st u d a r c o m o e m i n e n t e p s ic ó lo g o fr a n -
cê s P i e r r e Ja n e t , q u e e st a va d a n d o au las n o Co l l è g e d e Fr a n c e . D u r a n t e s u a e s-
t a d a , p a ssa va m u i t o t e m p o p i n t a n d o e vi s i t a n d o m u s e u s , i n d o c o n s t a n t e m e n t e
ao Lo u vr e . P r e s t a va m u i t a a t e n ç ã o e s p e c ia lm e n t e e m a r t e a n t iga , a n t igu id a d e s
e gíp cia s, n a s o b r a s d a Re n a s c e n ç a , F r a An g é l i c o , Le o n a r d o d a Vi n c i , Ru b e n s e
Fr a n s H a l s . C o m p r o u q u a d r o s e gr a vu r a s e e n c o m e n d o u c ó p ia s p a r a a d e c o r a -
ç ã o d e se u n o vo lar . P i n t a va t a n t o ó le o s q u a n t o a q u a r e la s. E m ja n e i r o d e 19 0 3,
fo i a Lo n d r e s e vi s i t o u seu s m u s e u s , p a r t i c u l a r m e n t e in t e r e ssa d o n a s c o le ç õ e s
e gíp cia , a st e ca e i n c a d o M u s e u Br i t â n i c o 2 0 .
N a s u a vo lt a , a s s u m i u u m ca r go q u e h a vi a va ga d o n o Bu r g h õ lz li, e d e d i c o u
su a p e s q u is a à a n á lise d as a sso cia çõ e s lin gu íst ica s e m c o la b o r a ç ã o c o m F r a n z
R i k l i n . C o m a a ju d a d e a ssist e n t e s, eles c o n d u z i r a m u m a sé r ie e xt e n s a d e e xp e -
r i m e n t o s , q u e s u b m e t e r a m a a n á lise s e st a t íst ica s. A b ase c o n c e it u a i d o t r a b a lh o
i n i c i a l d e Ju n g e st a va n a s o b r a s d e F l o u r n o y e Ja n e t , q u e ele t e n t a va ju n t a r
c o m a m e t o d o lo gia d e p e sq u isa d e W i l h e l m W u n d t e E m i l Kr a e p e l i n . Ju n g
e R i k l i n u t i l i z a r a m o e xp e r i m e n t o d e a sso cia çõ e s, c r ia d o p o r Fr a n c i s G a l t o n
e d e s e n vo lvid o n a p sic o lo gia e n a p s i q u i a t r i a p o r W u n d t , Kr a e p e l i n e Gu s t a v
As c h a ffe n b u r g . O o b je t ivo d o p r o je t o d e p e sq u isa , e s t im u la d o p o r Ble u le r , e r a
fo r n e c e r u m m o d o r á p i d o e c o n fiá ve l d e d ia g n ó s t ic o d ife r e n c ia l. A e q u ip e d o
Bu r g h õ lz li fa lh o u n isso , m a s fi c a r a m im p r e s s io n a d o s p e lo sign ifica d o d o s d i s -
t ú r b io s d e r e a ç ã o e t e m p o d e r e s p o s t a p r o lo n ga d o s. Ju n g e R i k l i n a r g u m e n -
t a va m q u e essas r e a ç õ e s p e r t u r b a d a s e r a m d e vid a s à p r e s e n ç a d e c o m p le xo s
e m o c i o n a l m e n t e e st r e ssa n t e s, e u s a r a m seu s e xp e r i m e n t o s p a r a d e s e n vo lve r
u m a p s ic o lo gia ge r a l d o s c o m p l e xo s 2 1.
Es s e t r a b a lh o e st a b e le ce u a r e p u t a ç ã o d e Ju n g c o m o u m a d as e st r e la s a s c e n -
d e n t e s d a p s iq u ia t r ia . E m 19 0 6 , ele a p li c o u s u a n o va t e o r ia d o s c o m p le xo s p a r a
e st u d a r a p s ic o g ê n e s e d a dem entía praecox ( p o s t e r i o r m e n t e c h a m a d a d e e s q u iz o -
fr e n ia ) e p a r a d e m o n s t r a r a in t e lig ib ilid a d e d as fo r m a ç õ e s d e l i r a n t e s 2 2 . P a r a

19 Cf. W E H R , Gerhard. AnlllustratedBiographyofjung. Boston: Shambala, 1989, p. 47 [Trad. de M. Koh n ].


JAF F E, An iela (org.). C.G.Jung: W ord and Image. Princeton: Princeton Un iversity Press/ Bollingen
Series, 1979, p. 42-43.
20 MP, p. 164. • Cartas inéditas, AFJ.
21 Estudos experim entais. O C , 2.
22 A psicologia da dementiapraecox: um ensaio". O C , 3.
IO LÍ BE R N O V U S

Ju n g , ju n t a m e n t e c o m n u m e r o s o s o u t r o s p siq u ia t r a s e p sicó lo go s d a é p o ca , t ais


c o m o Ja n e t e A d o l f Me ye r , a in sa n id a d e n ã o e r a e n ca r a d a c o m o algo c o m p le t a -
m e n t e se p a r a d o d a sa n id a d e, m a s, ao in vé s, c o m o algo p o sicio n a d o n o e xt r e m o
fin a l d e u m esp ect r o. D o i s an o s m a is t a r d e , ele a r g u m e n t o u q u e "se se n t im o s
n o sso c a m i n h o a d e n t r a n d o os segr ed os h u m a n o s d a p e sso a d o e n t e , a lo u c u r a
t a m b é m r e ve la se u sist e m a , e r e co n h e ce m o s n a d o e n ç a m e n t a l ap en as u m a r e a -
ç ã o e xc e p c io n a l a p r o b le m a s e m o cio n a is q u e n ã o sã o e st r a n h o s a n ó s " 2 3 .

Ju n g d e s e n c a n t o u - s e c a d a ve z m a is c o m as lim it a ç õ e s d o s m é t o d o s e xp e r i -
m e n t a i s e e st a t íst ico s n a p sic o lo gia e n a p s iq u ia t r ia . N o a m b u l a t ó r i o d o Bu r -
gh õ lz li, Ju n g fa z ia d e m o n s t r a ç õ e s d e h ip n o s e . Isso o l e vo u a se in t e r e s s a r p e la
t e r a p ê u t ic a e o u so d o e n c o n t r o c lín ic o c o m o m é t o d o d e p e sq u isa . P o r vo l t a
d e 19 0 4 , Bl e u l e r i n t r o d u z i r a a p s ic a n á lis e n o Bu r g h õ lz li, e c o m e ç o u u m a c o r -
r e s p o n d ê n c i a c o m Fr e u d , p e d i n d o s u a a ju d a p a r a a a n á lise d e seu s p r ó p r i o s
s o n h o s 2 4 . E m 19 0 6 , Ju n g c o m e ç o u a c o m u n i c a r - s e c o m Fr e u d . Es s e r e l a c i o -
n a m e n t o fo i m u i t o m it o lo giz a d o . U m a le giã o "fr e u d o c ê n t r i c a " s u r giu , q u e v i a
F r e u d e a p sica n á lise c o m o a fo n t e p r i n c i p a l d o t r a b a lh o d e Ju n g. Isso l e vo u a
u m a c o m p r e e n s ã o c o m p l e t a m e n t e e q u ivo c a d a d e se u t r a b a lh o n a h is t ó r ia i n t e -
le c t u a l d o sé c u lo X X . E m i n ú m e r a s o c a s iõ e s Ju n g p r o t e s t o u . N u m a r t igo i n é -
d i t o e s c r it o n o s a n o s 19 30 , p o r e xe m p lo , Ju n g e scr e ve u : " D e fo r m a a lgu m a e u
d e s c e n d o e xc lu s iva m e n t e d e Fr e u d . E u t i n h a m i n h a a t it u d e c ie n t ífic a e a t e o r i a
d os c o m p le xo s a n t e s d e e n c o n t r á - l o . O s m e st r e s q u e m a is m e i n fl u e n c i a r a m
a c i m a d e t o d o s sã o Ble u le r , P i e r r e Ja n e t e T h é o d o r e F l o u r n o y " 2 5 . F r e u d e Ju n g
c l a r a m e n t e v i e r a m d e t r a d iç õ e s in t e le c t u a is b e m d ife r e n t e s, e se a p r o xi m a r a m
p o r c o n t a d e in t e r e sse s e m c o m u m n a p s ic o g ê n e s e d as d e so r d e n s m e n t a i s e
n a p s ic o t e r a p ia . Su a i n t e n ç ã o e r a fo r m u l a r u m a p s ic o t e r a p ia cie n t ífica b a se a d a
n a n o va p sico lo gia e, p o r s u a ve z , s u s t e n t a r a p sico lo gia n a in ve s t iga ç ã o clín ica
p r o fu n d a d e vid a s i n d i vi d u a i s .

C o m a li d e r a n ç a d e Bl e u l e r e Ju n g, o Bu r g h õ lz li t o r n o u - s e o c e n t r o d o m o -
v i m e n t o p sica n a lít ico . E m 19 0 8 , o Jahrbuchfurpsychoanalyttsche undpsychopathologísche
Forschungen [ An u á r i o d e P e sq u isa P sica n a lít ica e P s ic o p a t o ló gic a ] fo i cr ia d o , c o m
Bl e u l e r e Ju n g c o m o e d it o r e s. C o m su a d efesa, a p s ic a n á lis e p ô d e se fa z e r n o t a r

23 O conteúdo da psicose". O C , 3, § 339.


24 Arquivos Freud, Biblioteca do Congresso. C f F ALZ E D E R , Ernst. "Th e story of an ambivalent
relationship: Sigmund Freud and Eugen Bleuler". JounalofAnalyticalPsychology, 52, 2007, p. 343TÓ8.
25 J Á
I N T RO D U ÇÃO II

n o m u n d o p s iq u iá t r ic o a le m ã o . E m 19 0 9 , Ju n g r e c e b e u u m gr a u h o n o r á r i o d a
U n i ve r s i d a d e C l a r k p o r su as p e sq u isa s c o m a sso cia çã o . N o a n o se gu in t e , u m a
a sso cia çã o p s ic a n a lít ic a i n t e r n a c i o n a l fo i fo r m a d a c o m Ju n g c o m o p r e sid e n t e .
D u r a n t e o p e r í o d o d e s u a c o la b o r a ç ã o c o m Fr e u d , ele e r a u m d o s p r i n c i p a i s
a r q u it e t o s d o m o vi m e n t o p sica n a lít ico . Es s e fo i p a r a ele u m p e r í o d o d e i n t e n s a
a t ivid a d e p o lít ic a e i n s t i t u c i o n a l . O m o vi m e n t o e st a va r a c h a d o p o r d i ve r g ê n -
cias e d e sa co r d o s a m a r go s.

A intoxicação da m itologia
E m 19 0 8 , Ju n g c o m p r o u u m p e d a ç o d e t e r r a à m a r g e m d o La go d e Zu r i q u e ,

e m Kú s n a c h t , e a l i c o n s t r u i u u m a ca sa o n d e vi ve r i a a t é o fin a l d e su a vid a .

E m 19 0 9 , ele se d e sligo u d o Bu r g h õ lz l i p a r a d e d ic a r - s e à su a cr e sce n t e p r á t ic a

clín ica e seu s in t e r e sse s d e p e sq u isa . Su a r e t i r a d a d o Bu r g h õ lz li c o i n c i d i u c o m

u m a vi r a d a e m seu s in t e r e sse s d e p e sq u isa e m d ir e ç ã o ao e st u d o d a m i t o l o -

gia, d o fo lclo r e e d a r e ligiã o , e ele m o n t o u u m a e n o r m e b i b li o t e c a p a r t i c u l a r

d e o b r a s a c a d é m ic a s . Essa s p e sq u isa s c u l m i n a r a m c o m Transform ações e sím bolos da

libido, p u b lic a d o e m d u a s p a r t e s e m 1911 e 1912. Es s e t r a b a lh o p o d e se r vis t o

c o m o a q u e le q u e m a r c a u m r e t o r n o d e Ju n g a su as r a íz e s in t e le c t u a is e a su as

p r e o c u p a ç õ e s c u lt u r a is e r e ligio sa s. E l e a c h a va o t r a b a lh o m i t o l ó g i c o e s t i m u -

la n t e e i n t o xi c a n t e . E m 192$, ele le m b r a : "p a r e c i a - m e q u e e st a va vi ve n d o n u m

m a n i c ô m i o q u e e u m e s m o t i n h a c o n s t r u íd o . E u a n d a va d e lá p a r a cá c o m t o -

d as essas figu r a s fa n t á st ica s: c e n t a u r o s , n in fa s, sá t ir o s, d e u se s e d eu sas c o m o se

fo sse m p a cie n t e s e e u os est ivesse a n a lisa n d o . E u l i a u m m i t o gr ego o u n e gr o

c o m o se u m lu n á t ic o est ivesse m e c o n t a n d o su a a n m n e s e " 2 6 . O f i m d o sé cu lo

X I X t e s t e m u n h o u u m a e xp l o s ã o d e e st u d o s a c a d é m i c o s n a s r e c é m - fu n d a d a s

d is c ip lin a s d e r e ligiã o c o m p a r a d a e d e e t n o p sico lo gia . T e xt o s b á sic o s fo r a m r e -

c o lh id o s e t r a d u z id o s p e la p r i m e i r a ve z e a p r e se n t a d o s aos e st u d o s h is t ó r ic o s

e m c o le ç õ e s d e e n sa io s t a is c o m o Sacred Books of the East, d e M a x M u l l e r 2 7 . P a r a

m u i t o s esses t r a b a lh o s r e p r e s e n t a va m u m a i m p o r t a n t e r e la t iviz a çã o d a vis ã o

d e m u n d o cr ist ã .

26 Introductíon to Jungían Psychology, p. 24.


27 Desses, Jung possuía um conjunto completo.
12 LÍ BE R N O V U S

E m Transform ações e sím bolos da libido, Ju n g d i fe r e n c i a d o is t ip o s d e p e n s a m e n t o .


P e ga n d o a p i s t a d e W i l l i a m Ja m e s , e n t r e o u t r o s , Ju n g c o n s t r a s t a va o p e n s a -
m e n t o d i r e c i o n a d o e o p e n s a m e n t o d e fa n t a sia . O p r i m e i r o e r a ve r b a l e l ó g i -
co, e n q u a n t o q u e o se gu n d o e r a p a ssivo , a sso c ia t ivo e im a gé t ic o . O p r i m e i r o
e r a e xe m p l i fi c a d o p e la c iê n c ia , e o se gu n d o , p e la m i t o l o g i a . Ju n g s u s t e n t a va
q u e os a n t igo s n ã o p o s s u í a m a ca p a cid a d e p a r a o p e n s a m e n t o d ir e c io n a d o ,
u m a a q u is iç ã o m o d e r n a . O p e n s a m e n t o d e fa n t a s ia o c u p a va o lu ga r q u a n d o
ce ssa va o p e n s a m e n t o d ir e c io n a d o . Transform ações e sím bolos da libido e r a u m e x-
t e n so e s t u d o d o p e n s a m e n t o d e fa n t a s ia e d a p r e s e n ç a c o n t i n u a d a d e t e m a s
m i t o l ó g i c o s n o s s o n h o s e fa n t a sia s d e i n d i ví d u o s c o n t e m p o r â n e o s . Ju n g r e i t e -
r a va a e q u a ç ã o a n t r o p o l ó g i c a d o p r é - h i s t ó r i c o , d o p r i m i t i v o e d a c r ia n ç a . E l e
m a n t i n h a q u e a e lu c id a ç ã o d o p e n s a m e n t o d e fa n t a s ia d i u r n o c o r r e n t e e m
a d u lt o s ao m e s m o t e m p o jo g a r i a l u z n o p e n s a m e n t o d e c r ia n ç a s , d e se lva ge n s
e d e p o vo s p r é - h i s t ó r i c o s 2 8 .

N e s s e t r a b a lh o , Ju n g s i n t e t i z o u as t e o r ia s d a m e m ó r i a d o sé c u lo X I X , a h e -
r e d it a r ie d a d e e o i n c o n s c i e n t e e p o s t u l o u u m a c a m a d a filo ge n é t ic a n o i n c o n s -
c ie n t e a i n d a p r e se n t e e m c a d a u m d e n ó s , q u e co n sist e d e im a ge n s m it o ló gic a s .
P a r a Ju n g , os m i t o s e r a m s í m b o l o s d a l i b i d o e a p r e s e n t a va m seu s m o vi m e n t o s
t íp ico s. E l e u s o u o m é t o d o c o m p a r a t i vo d a a n t r o p o lo gia p a r a ju n t a r u m a va s t a
p a n ó p l i a d e m i t o s , e e n t ã o os s u je i t o u à i n t e r p r e t a ç ã o a n a lít ica . M a i s t a r d e , ele
c h a m o u se u u so d o m é t o d o c o m p a r a t i vo d e "a m p lific a ç ã o ". E l e d e fe n d ia q u e
h a ve r i a m i t o s t íp ic o s , q u e c o r r e s p o n d e r i a m ao d e s e n vo lvi m e n t o e t n o p s i c o l ó -
gico d o s c o m p le xo s . D e a co r d o c o m Ja co b Bu r c k h a r d t , Ju n g c h a m o u t a is m i t o s
t íp ic o s d e "im a ge n s p r i m o r d i a i s " (Urbilder). A u m m i t o e m p a r t i c u l a r fo i d a d o
u m p a p e l c e n t r a l: o d o h e r ó i. P a r a Ju n g ele r e p r e s e n t a va a v i d a d e u m in d ivíd u o ,
t en t an d o t o r n a r -se in d ep en d en t e e de lib e r t a r -se d a m ãe. El e in t e r p r e t o u o
m o t i vo d o in c e s t o c o m o u m a t e n t a t i va d e r e t o r n o à m ã e p a r a r e n a sce r . M a i s
t a r d e , ele a n u n c i a r i a fo r m a l m e n t e essa o b r a c o m o a d a d e s c o b e r t a d o i n c o n s -
c ie n t e co le t ivo , e m b o r a o t e r m o p r o p r i a m e n t e d it o t e n h a su r gid o d e p o i s 2 9 .

N u m a sé r ie d e a r t igo s d e 1912, Al p h o n s e Ma e d e r , co le ga e a m igo d e Ju n g,


a r g u m e n t a va q u e os so n h o s t i n h a m u m a fu n ç ã o d ife r e n t e d a q u e la d e sa t isfa çã o

28 W anãungenundSymbole der Libido [Transformações e símbolos da libido]. O C , B, § 36, p. 37. Em sua revisão do
texto em 1952, Jung ampliou isto (Símbolos da transformação. O C , 5, § 29).
29 Address on the occasion of the founding of the C G . Jung Institute, Zurich , 24 Ap ril 1948". O C , 18, §
1.129.
I N T RO D U ÇÃO U

d o d e se jo - u m a fu n ç ã o d e b a la n ç o , o u c o m p e n s a t ó r i a . O s so n h o s e r a m t e n t a -
t iva s d e s o lu c io n a r os c o n flit o s m o r a i s d e u m in d ivíd u o . C o m o t a is, n ã o a p o n -
t a va m m e r a m e n t e p a r a o p assad o, m a s t a m b é m p r e p a r a va m o c a m i n h o p a r a o
fu t u r o . M a e d e r e st a va d e s e n vo lve n d o as p e r sp e ct iva s d e F l o u r n o y a r e s p e it o
d e u m a i m a g i n a ç ã o c r i a t i va s u b c o n s c ie n t e . Ju n g t r a b a lh a va e m lin h a s s e m e -
lh a n t e s , e a d o t o u as p o s iç õ e s d e Ma e d e r . P a r a eles, essa a lt e r a ç ã o n a c o n c e p ç ã o
d o s so n h o s t r o u xe co n sigo u m a a lt e r a ç ã o n a c o n s i d e r a ç ã o d e t o d o s os o u t r o s
fe n ó m e n o s a sso cia d o s ao in c o n s c ie n t e .

E m s e u p r e fá c io à e d i ç ã o r e vi s t a d e Transform ações e sím bolos da libido, d e 19$2,

Ju n g d i z i a q u e o t r a b a lh o h a vi a sid o e sc r it o e m 1911, q u a n d o ele t i n h a 36 a n o s

d e id a d e : "E s t a é u m a é p o c a cr ít ica , p o is r e p r e s e n t a o in íc io d a se gu n d a m e t a d e

d a v i d a d e u m h o m e m , q u a n d o n ã o r a r o o c o r r e u m a m etanoia, u m a t r a n s fo r m a -

ç ã o m e n t a l " 3 0 . Ac r e s c e n t a va q u e e st a va c o n s c ie n t e d a p e r d a d e su a c o la b o r a ç ã o

c o m Fr e u d , e q u e se s e n t i a e m d í vi d a c o m r e la ç ã o ao a p o io r e c e b id o d e s u a

esp osa. D e p o i s d e t e r m i n a d o o t r a b a lh o , ele p e r c e b e u o sign ifica d o d o q u e e r a

vi ve r s e m u m m it o . Aq u e l e s e m u m m i t o "é , n a ve r d a d e , u m e r r a d ic a d o , q u e

n ã o t e m c o n t a t o ve r d a d e i r o n e m c o m o p assad o, a v i d a d o s a n ce st r a is ( q u e

s e m p r e vi ve e m s e u s e i o ) , n e m c o m a so cie d a d e h u m a n a d o p r e s e n t e " 31. C o m o

r e su lt a d o d isso , ele n o t a q u e:

E u m e se n t i co m p e lid o a p e r gu n t a r -m e c o m t o d a a seried ad e: " O qu e é o


m it o q u e vo cê vive ?" N ã o a ch e i a resp ost a e t ive qu e m e con fessar qu e n a
ver d ad e e u n ão vivia n e m co m u m m it o n e m d e n t r o de u m m it o , e s im n u m a
n u ve m in segu ra de p ossib ilid ad es de con ceit os, qu e e u olh ava, aliás, co m d es-
con fian ça crescen t e... Ve io - m e en t ão, n at u r alm en t e, a d ecisão de con h ecer
"m e u m it o ". E co n sid er ei ist o co m o t ar efa p o r excelên cia, p ois — assim e u m e
d iz ia - co m o p o d e r ia p r est ar con t as co r r e t a m e n t e de m e u fat or p essoal, d e
m i n h a e q u a çã o p essoal, d ia n t e de m eu s p acien t es, se n a d a sab ia a r esp eit o, e
sen d o ist o, n o en t an t o , t ão fu n d a m e n t a l p a r a o r e co n h e cim e n t o d o o u t r o ? 32

30 O C , 5 , p - XXVI .
31 I b id .,p .XI X.
32 Ibid.
LÍ BE R N O V U S

O e st u d o d o m i t o r e ve lo u a Ju n g a a u s ê n c ia d e m i t o e m su a vid a . E l e e n t ã o
p r e o c u p o u - s e e m d e s c o b r ir se u m i t o , s u a "e q u a ç ã o p e s s o a l" 33 . A s s i m p e r c e b e -
m o s q u e a a u t o e xp e r i m e n t a ç ã o c o m a q u a l Ju n g se e n vo l ve u fo i e m p a r t e u m a
r e sp o st a d i r e t a a q u e s t õ e s t e ó r ic a s le va n t a d a s p o r s u a p e sq u isa , q u e c u l m i n a -
r a m e m Transform ações e sím bolos da libido.

"Meu experim en to mais difícil"


E m 1912, Ju n g t e ve a lgu n s so n h o s sign ifica t ivo s q u e n ã o e n t e n d e u . D e u e sp e -
c ia l i m p o r t â n c i a a d o is d eles, q u e ele s e n t ia q u e m o s t r a va m as lim it a ç õ e s d as
c o n c e p ç õ e s d e F r e u d so b r e os so n h o s. O p r i m e i r o é o se gu in t e :

Est a va n u m a cid ad e su lin a , n u m a r u a ascen d en t e ch e ia de est r eit as p la t a -


for m as de d esem b ar q u e. Er a m d oze h o r as - sol a p in o . U m ve lh o gu ar d a
d e alfân d ega o u algu ém p ar ecid o co m ist o p assa p o r m i m , p e r d id o e m seus
p en sam en t o s. Al g u é m d iz , "esse é u m qu e n ã o p od e m o r r e r . El e já m o r r e u
h á u n s 30 - 4 0 an os, m as a in d a n ã o t r a t o u de d eco m p o r -se". Fiq u e i m u it o
su r p r eso. En t ã o su r giu u m a figu r a im p r e ssio n a n t e , u m cavaleir o d e gr an d e
p o r t e, vest id o co m u m a a r m a d u r a m e io am ar ela. El e p arece co r p u le n t o e
in e xcr u t á ve l e n a d a o im p r e ssio n a . E m su as cost as, ele car r ega u m a cr u z
ve r m e lh a m alt esa. El e vi n h a e xist in d o d esd e o sécu lo X I I e d ia r ia m e n t e ,
e n t r e 12 e 13 h or as, t o m a va a m e sm a r o t a. N i n g u é m se a d m ir a c o m essas
d u as a p a r içõ es, m as e u fiq u e i m u it o su r p r eso.
Co n t i ve m in h a s h ab ilid ad es in t e r p r e t a t iva s. C o m r elação ao ve lh o au s-
t r íaco, o co r r e u - m e Fr e u d ; c o m r elação ao cavaleir o, e u m esm o.
D e n t r o d e m i m , u m a vo z d iz : "Es t á t u d o va z i o e a ve r s ivo ". D e vo
s u p o r t á - l o 34 .

Ju n g a c h o u esse s o n h o o p r e ssivo e d e s c o n c e r t a n t e , e F r e u d fo i in c a p a z d e i n -
t e r p r e t á - l o 3 5 . M a i s o u m e n o s seis m e se s d e p o is t eve o u t r o so n h o :

33 Cf. Introductíon toJungian Psychology, p. 2$.


34 Livro Negro 2, p. 25-26.
35 Em 1925, ele deu a seguinte interpretação desse sonho: "O significado do sonho está no princípio da
figura ancestral: não o oficial austríaco - obviamente ele representa a teoria freudiana —, mas o outro, o
Cruzado, é uma figura arquetípica, um símbolo cristão vivo desde o século X I I , um símbolo que realmente
não vive hoje em dia, mas que não está de todo morto. Ele vem dos tempos de Meister Eckhart, o tempo
da cultura dos Cavaleiros, quando muitas ideias floresceram, para serem apagadas novamente, mas
que estão voltando à vida agora. Entretanto, quando tive este sonho, não conhecia esta interpretação"
(introduction to Jungian Psychology, p. 42).
I N T RO D U ÇÃO U

So n h e i n aq u ela é p o ca (logo d ep ois d o N a t a l d e 19 12), qu e est ava co m m eu s


filh os e m u m m a r a vilh o so a p a r t a m e n t o d e u m cast elo, r ica m e n t e m o b ilia -
d o - n u m hall ab er t o ch eio d e colu n as - , e st á va m o s sen t ad os n u m a m e sa
r ed o n d a , cu jo t a m p o e r a u m a p e d r a ve r d e -e scu r a m a r a vilh o sa . D e r ep en t e,
u m a gaivot a o u u m a p o m b a a d e n t r o u vo a n d o e esp alh ou -se su avem en t e n a
m esa. Al e r t e i as cr ian ças p a r a fica r e m q u iet as, d e fo r m a a n ã o assu st ar em o
b elo p á ssa r o b r an co. Re p e n t in a m e n t e esse p á ssa r o t r a n sfo r m o u -se n u m a
cr ian ça d e o it o an os d e id ad e, u m a ga r o t in h a lo ir a , q u e co r r e u b r in ca n d o
c o m m eu s filh os p e la co lu n ad a. En t ã o , d e r ep en t e, a cr ian ça t r a n sfo r m o u -se
n a gaivot a o u p o m b a. E l a m e d isse assim : "Apenas na prim eira hora da noite eu posso
tornar-m e hum ana, enquanto a pom ba m acho está ocupada com os doze m ortos'. C o m est as
p alavras o p ássar o vo o u e e u a c o r d e i 36 .

N o Livro Negro 2, Ju n g a n o t o u q u e fo i esse s o n h o q u e o fe z d e c i d i r a e n t r a r


n u m r e l a c i o n a m e n t o c o m u m a m u l h e r q u e e le h a vi a c o n h e c i d o t r ê s a n o s a n -
t es ( T o n i W o l f f ) 3 7 . E m 19 25, e le o b s e r vo u q u e esse s o n h o "fo i o c o m e ç o d e
u m a c o n vi c ç ã o d e q u e o i n c o n s c i e n t e n ã o c o n s i s t i a d e m a t e r i a l i n e r t e a p e n a s,
m a s q u e h a vi a algo v i v o l á e m b a i x o " 3 8 . E l e a c r e s c e n t o u q u e p e n s a r a n a h i s t ó -
r i a d a Tabulasm aragdina ( t á b u a d e e s m e r a l d a ) , o s d o z e a p ó s t o l o s , o s sign o s d o
Zo d í a c o , e p o r a í a d i a n t e , m a s q u e e le "n ã o p o d i a e n t e n d e r n a d a d o so n h o ,
e xc e t o q u e h a vi a u m a t r e m e n d a a n i m a ç ã o d o i n c o n s c i e n t e . N ã o c o n h e c i a n e -
n h u m a t é c n i c a p a r a ch e ga r ao fíin d o d e ssa a t ivid a d e ; t u d o o q u e p o d i a fa z e r
e r a e sp e r a r , c o n t i n u a r v i v e n d o e o b s e r va n d o as fa n t a s i a s " 3 9 . Es s e s s o n h o s o
l e va r a m a a n a li s a r su a s m e m ó r i a s d e in fâ n c ia , m a s is t o n ã o r e s o l ve u n a d a . E l e
p e r c e b e u q u e p r e c i s a va r e c u p e r a r o t o m e m o c i o n a l d a in fâ n c ia . Le m b r o u - s e

36 Livro Negro 2, p. 17-18.


37 Ibid., p. 17.
38 Introduction to Jungian Psychology, p. 42.
39 Ibid., p. 40-41. E.A. Bennet observou os comentários de Jung sobre este sonho: "Prim eiram ente ele
pensou que os 'doze homens mortos' referiam-se aos doze dias antes do Natal, pois este é o tempo
obscuro do ano, quando tradicionalmente as bruxas estão soltas. Dizer 'antes do Nat al' é dizer 'antes que
o sol viva novamente', pois o dia de Natal é o ponto de virada do ano, quando o nascimento do sol era
celebrado na religião mitraica... Somente muito tempo depois que ele relacionou o sonho a Hermes e aos
doze pombos" (Meetings withJung: Conversations recorded by E.A. Bennet during the Years 1946-1961.
Londres: An ch or Press, 1982. Zurique: Daim on Verlag, 1985, p. 93). Em "Aspectos psicológicos da Core",
1951, Jung apresentou algum material do Liber Novus (descrevendo-o como parte de uma série de sonhos)
de forma anónima ("caso Z") , traçando as transformações da anima. Ele observa que este sonho "mostra
a anima com forma de elfo, ou seja, apenas parcialmente humana. Ela igualmente pode ser um pássaro,
o que significa que ela pode pertencer inteiramente à natureza e pode evanescer-se (isto é, tornar-se
inconsciente) da esfera humana (isto é, a consciência). ( O C, 9, I , § 371.) Cf. tb. Memórias, p. 165-166.
i6 LÍ BE R N O V U S

q u e , q u a n d o c r ia n ç a , go st a va d e c o n s t r u i r casas e o u t r a s e s t r u t u r a s , e r e t o m o u
e ssa a t ivid a d e .
En q u a n t o e st e ve e n vo lvi d o c o m s u a a t ivid a d e d e a u t o a n á lis e , c o n t i n u o u a
d e s e n vo lve r se u t r a b a lh o t e ó r ico . E m s e t e m b r o d e 1913, n o Co n g r e s s o d e P s i -
ca n á lise d e M u n i q u e , fa lo u so b r e os t ip o s p s ic o ló gic o s . Ar g u m e n t o u q u e h a vi a
d o is m o vi m e n t o s b á sico s d a li b i d o : a e xt r o ve r s ã o , n a q u a l o in t e r e sse d o su je it o
e st á o r ie n t a d o e m d ir e ç ã o ao m u n d o e xt e r n o , e a in t r o ve r s ã o , n a q u a l o i n t e -
r esse d o s u je it o e s t á d ir e c io n a d o p a r a d e n t r o . Se gu in d o essas id e ia s, p o s t u lo u
d o is t ip o s d e ge n t e , ca d a u m c a r a c t e r iz a d o p e la p r e d o m i n â n c i a d e u m a d essas
t e n d ê n c ia s . A s p sico lo gia s d e F r e u d e d e Ad l e r e r a m e xe m p lo s d o fat o d e q u e
as p sico lo gia s c o m fr e q u ê n c ia a s s u m e m o q u e é a ve r d a d e d e se u t ip o c o m o ge-
r a l m e n t e vá lid o . A s s i m o q u e se fa z ia n e c e s s á r io e r a u m a p sico lo gia q u e fizesse
ju s t iç a a a m b o s esses t i p o s 4 0 .

N o m ê s se gin t e , n u m a vi a g e m d e t r e m p a r a Sch a ffh a u se n , Ju n g t e ve u m a


vis ã o d a Eu r o p a s e n d o d e va st a d a p o r u m a i n u n d a ç ã o ca t a st r ó fica , vis ã o q u e se
r e p e t i r i a d u a s se m a n a s m a is t a r d e , n a m e s m a vi a g e m 4 1. E m 1925, com en t an d o
so b r e essa e xp e r iê n c ia , ele o b e r vo u : " E u p o d e r i a m e t o m a r c o m o a Su íç a c e r -
ca d a p o r m o n t a n h a s e a s u b m e r s ã o d o m u n d o p o d e r i a se r as r u ín a s d e m e u s
r e la c io n a m e n t o s a n t e r io r e s ". Isso o l e vo u ao se gu in t e d ia g n ó s t ic o d e s u a c o n -
d iç ã o : "P e n s e i c o m igo m e s m o , 'se ist o s ign ific a a lgu m a co isa , sign ific a q u e e s t o u
c o m p l e t a m e n t e p e r d i d o ' " 4 2 . D e p o i s d e ssa e xp e r iê n c ia , Ju n g t e m i a e n lo u q u e -
c e r 4 3 . E l e l e m b r a q u e p r i m e i r o p e n s o u q u e as im a ge n s d a vis ã o i n d i c a va m u m a
r e vo lu ç ã o , m a s c o m o n ã o p o d i a i m a g i n a r isso, c o n c l u i u q u e e st a va "a m e a ç a d o
p o r u m a p s ic o s e " 4 4 . D e p o i s d isso , t eve u m a vis ã o se m e lh a n t e :

N o in ve r n o segu in t e, est ava n a ja n e la n u m a n o it e o lh a n d o p a r a o N o r t e .


V i u m b r ilh o ve r m e lh o san gu e, co m o o b r i lh o d o m a r vis t o de lon ge, e s t i-
r a d o d e Le st e a O e s t e n o h o r iz o n t e se t e n t r io n a l. N e st e m o m e n t o , a lgu é m

40 Tipos psicológicos. OC, 6.


41 Cf. adiante, p. 113.
42 Introduction to Jungian Psychology, p. 47-48.
43 Barbara Han n ah lembra que "Jung costumava dizer nos últimos anos que suas tormentosas dúvidas
a respeito de sua própria sanidade deveriam ser aliviadas pelo tanto de sucesso que ele vinha obtendo
ao mesmo tempo no mundo externo, particularmente na Am érica" ( C G . Jung. His Life and W ork - A
Biographical Memoir. Nova York: Perigree, 1976, p. 109).
44 Mem órias, p. 156.
I N T RO D U ÇÃO D

m e p e r gu n t o u o q u e e u ach ava d os p r ó xim o s fu t u r o s a co n t e cim e n t o s d o


m u n d o . D is s e q u e n ã o t i n h a n e n h u m a o p in iã o , m as qu e vi a san gu e, r io s
d e sa n gu e 4 5 .

N o s a n o s i m e d i a t a m e n t e p r e ce d e n t e s ao in íc io d a gu e r r a , u m i m a g i n á r i o

a p o c a líp t ic o e st a va d is s e m in a d o n a s a r t e s e n a l i t e r a t u r a e u r o p e ia s. P o r e x e m -

p lo , e m 1912, W a s s i l y Ka n d i n s k y e sc r e ve u so b r e u m a ca t á st r o fe u n i ve r s a l i m i -

n e n t e . D e 1912 a 1914, Lu d w i g M e i d n e r p i n t o u u m sé r ie c o n h e c i d a c o m o p a i -

sagen s a p o c a líp t ic a s, c o m ce n a s d e cid a d e s d e s t r u íd a s , c a d á ve r e s e t u m u l t o 4 6 .

A p r o fe c ia e st a va n o ar. E m 18 9 9 , Le o n o r a P ip e r , a fa m o sa m é d i u m a m e r i c a n a ,

p r e vi u q u e n o sé cu lo q u e ch e ga va h a ve r i a u m a t e r r íve l g u e r r a e m p a r t e s d ife -

r e n t e s d o m u n d o q u e o l i m p a r i a r e ve la n d o as ve r d a d e s d o e s p ir it u a lis m o . E m

1918, A r t h u r C o n a n D o yl e , o e s p ir it u a lis t a e a u t o r d e "Sh e r l o c k H o l m e s ", e n -

c a r a va isso c o m o p r o fé t i c o 4 7 .

N a n a r r a ç ã o d e Ju n g so b r e a fa n t a sia d o t r e m n o Líber Novus, a vo z i n t e r -

n a d isse q u e o q u e a fa n t a sia m o s t r a va t o r n a r - s e - i a c o m p le t a m e n t e r e a l. I n i -

c i a lm e n t e ele i n t e r p r e t o u isso s u b je t iva e p r o s p e c t iva m e n t e , o u seja , c o m o a

m o s t r a r a i m i n e n t e d e s t r u iç ã o d e se u m u n d o . Su a r e a ç ã o a essa e xp e r i ê n c i a fo i

i n i c i a r u m a in ve s t iga ç ã o p s ic o ló gic a d e si m e s m o . N e s s a é p o c a , a a u t o e xp e r i -

m e n t a ç ã o e r a h a b i t u a l n a m e d i c i n a e n a p sico lo gia . A i n t r o s p e c ç ã o fo i u m a d as

p r i n c i p a i s fe r r a m e n t a s d a p e sq u isa p sico ló gica .

Ju n g ve i o a p e r c e b e r q u e Transform ações e sím bolos da libido "p o d e r i a se r t o m a d o

c o m o e u m e s m o e q u e s u a a n á lis e l e va i n e vi t a ve l m e n t e a u m a a n á lis e d e m e u s

p r ó p r i o s p r o c e sso s i n c o n s c i e n t e s " 4 8 . E l e h a vi a p r o je t a d o s e u m a t e r i a l n a q u e le

d a Sr t a . F r a n k M i l l e r , q u e ele n u n c a c o n h e c e u . At é e st e p o n t o , Ju n g h a vi a sid o

u m p e n s a d o r a t ivo , a ve sso à fa n t a sia : "c o m o u m a fo r m a d e p e n s a m e n t o , t e -

n h o p a r a m i m q u e se ja u m a fo r m a t o t a l m e n t e i m p u r a , u m t i p o d e i n t e r c u r s o

in c e s t u o s o , c o m p l e t a m e n t e i m o r a l d e u m p o n t o d e vi s t a i n t e l e c t u a l " 4 9 . E l e

45 Esboço, p. 8.
46 BR E U E R , Gerda & W AG EM AN , Ines. Ludwig Meidner. Zeichner, Maier, Literat 1884-1966. Vol. 2.
Stuttgart: Verlag Gerd Hatye, 1991, p. 124-149. Cf. W I N T E R , Jay. Sites of Memory, Sites ofMourning: Th e
Great War in European Cultural History. Cambridge: Cambridge University Press, 1995, p. 147-177.
47 D O YLE , Art h u r Conan. The NewRevelation and the Vital Message. Londres: Psychic Press, 1918, p. 9.
48 Introduction to Jungian Psychology, p. 28.
49 Ibid.
i8 LÍ BE R N O V U S

a go r a vo lt a va - s e p a r a a a n á lis e d e su as fa n t a sia s, a n o t a n d o c u i d a d o s a m e n t e

t u d o , e t i n h a q u e s u p e r a r u m a r e s i s t ê n c i a e n o r m e p a r a fa z ê - lo : "P e r m i t i r a

fa n t a s ia e m m i m m e s m o t e ve o m e s m o e fe it o q u e o p r o d u z i d o e m u m h o m e m

q u e ch e ga sse à s u a o fi c i n a e e n c o n t r a s s e t o d a s as su as fe r r a m e n t a s vo a n d o

p o r t o d a a p a r t e , fa z e n d o co isa s i n d e p e n d e n t e m e n t e d e s u a v o n t a d e " 5 0 . A o

e s t u d a r su as fa n t a sia s, Ju n g p e r c e b e u q u e e s t u d a va a fu n ç ã o c r i a d o r a d e m i t o s

da m en te.

Le m b r o u - s e q u e m a n t i n h a u m d iá r io a t é p o r vo l t a d e 19 0 2, e r e t o m o u

essa a t ivid a d e c o m o u m a fo r m a d e a u t o - o b s e r va ç ã o . E l e p e r c e b ia seu s e st a d o s

i n t e r i o r e s p o r m e i o d e m e t á fo r a s , t a is c o m o e st a r n u m d e se r t o c o m u m s o l

i n s u p o r t a ve l m e n t e q u e n t e ( i s t o é, a c o n s c i ê n c i a ) 5 1. Ju n g r e c u p e r o u o c a d e r n o

m a r r o m q u e h a vi a d e ixa d o d e la d o e m 19 0 2 e c o m e ç o u n o va m e n t e a e scr e ve r

n e l e 5 2 . N o s e m i n á r i o d e 192$, ele se l e m b r o u q u e h a vi a lh e o c o r r i d o q u e p o d e r i a

e scr e ve r su as r e fle xõ e s n u m a s e q u ê n c ia . E l e e st a va "e scr e ve n d o m a t e r i a l a u t o -

b io gr á fic o , m a s n ã o c o m o u m a a u t o b io gr a fia " 5 3 . D e s d e os t e m p o s d o s d iá lo go s

p la t ó n ic o s , a fo r m a d o d iá lo g o t e m sid o u m g é n e r o p r o e m i n e n t e n a filo so fia

o c id e n t a l. E m 387, Sa n t o Ag o s t i n h o e s c r e ve u seu s Solilóquios, q u e a p r e s e n t a va m

u m d iá lo g o e xt e n s o e n t r e ele m e s m o e a "Ra z ã o ", q u e o in st r u ía . C o m e ç a v a

c o m as se gu in t e s fr ases:

En q u a n t o est ive com igo m e sm o a p o n d e r a r m u it a s d ifer en t es coisas p o r


u m lon go t em p o, e p o r m u it o s d ias est ive b u scan d o a m i m m e sm o e a m e u
p r ó p r io b e m , e qu e m a l d e ve r ia ser evit ad o, su b it a m e n t e falou co m igo - o
qu e era? E u m esm o , o u a lgu é m d ifer en t e, d e n t r o o u fo r a de m im ? (isso é
p r e cisa m e n t e aq u ilo qu e a m a r ia saber, m as qu e n ã o s e i ) 5 4 .

En q u a n t o q u e Ju n g e s c r e via n o Livro Negro 2,

50 Ibid.
51 MP, p. 23.
$2 No que se segue, referido como Livro Negro 2. O s cadernos subsequentes são pretos, daí Jung referir-se a
eles como Livros Negros.
53 Introduction to Jungian Psychology., p. 448
54 SAN T O A G O S T I N H O . Solilóquios e a imortalidade da alma. Warminster: Aris e Phillips, 1990, p. 23
[organizado e traduzido por Gerard Watson]. Watson observa que Agostinho "havia passado por um
período de grande exaustão, perto de uma crise nervosa, e os Solilóquios são uma forma de terapia, um
esforço para curar-se falando, ou melhor, escrevendo" (p. v.).
I N T RO D U ÇÃO 19

D isse a m i m m esm o, " O qu e é ist o qu e est ou fazen d o, ce r t a m e n t e n ão é ciê n -


cia, o qu e é?" En t ã o u m a vo z m e d isse, "Isso é ar t e". Isso m e cau sou a im p r e s-
são m ais est r an h a p ossível, p or q u e n ã o er a de fo r m a algu m a m i n h a im p r e s-
são de qu e o qu e e u est ava escr even d o fosse art e. En t ão , p en sei o segu in t e:
"Ta lve z m e u in co n scien t e est eja fo r m a n d o u m a p er son alid ad e qu e n ã o so u
Eu , m as qu e in sist e e m se exp r essar ". N ã o sei exat am en t e p o r qu e, m as t in h a
cer t eza de qu e a vo z qu e d isse qu e m eu s escrit os e r a m ar t e t in h a vin d o de
u m a m u lh er ... Be m , d isse e n t ã o en fat icam en t e a essa vo z qu e o qu e e u est ava
fazen d o n ã o er a ar t e, e sen t i u m a gran d e r esist ên cia crescer e m m i m . N e -
n h u m a vo z se fazia perceber, con t u d o, e co n t in u e i a escrever. D e n ovo e u a
ap an h ei e disse: "N ã o , n ã o é," e se n t i co m o se u m a d iscu ssão fosse se in ic ia r 5 5 .

E l e p e n s o u q u e e ssa vo z e r a "a a l m a n o s e n t i d o p r i m i t i vo , " q u e e le c h a m o u


d e anim a ( a p a la vr a e m La t i m p a r a a l m a ) 5 6 . E l e a fi r m o u q u e "ao r e c o lh e r t o d o
est e m a t e r i a l p a r a a n á lis e , e u e st a va d e fat o e s c r e ve n d o ca r t a s à m i n h a anim a,
q u e é p a r t e d e m i m c o m u m p o n t o d e vi s t a d ife r e n t e d o m e u . E u t i n h a o b -
s e r va ç õ e s d e u m n o vo c a r á t e r - e st a va e m a n á lis e c o m u m fa n t a s m a e u m a
m u l h e r " 5 7 . E m r e t r o s p e c t o , e le l e m b r o u q u e e ssa e r a a vo z d e u m a p a c ie n t e
h o l a n d e s a q u e ele c o n h e c e u d e 1912 a t é 1918, q u e h a vi a p e r s u a d i d o u m co le ga
p s i q u i a t r a q u e ele e r a u m a r t i s t a fr u st r a d o . A m u l h e r p e n s a va q u e o i n c o n s -
c ie n t e fosse a r t e , m a s Ju n g m a n t i n h a q u e e r a n a t u r e z a 5 8 . Já a r g u m e n t e i p r e -
vi a m e n t e q u e a m u l h e r e m q u e s t ã o — a ú n i c a m u l h e r h o l a n d e s a n o c ír c u lo d e
Ju n g à é p o c a - e r a M a r i a M o l t z e r , e q u e o p s i q u i a t r a e m q u e s t ã o e r a o a m igo
e co le ga d e Ju n g , F r a n z R i k l i n , q u e aos p o u co s fo i a b a n d o n a n d o a a n á lis e p e la
p i n t u r a . E m 1913, e le se t o r n o u u m e s t u d a n t e d e Au g u s t o G i a c o m e t t i , e t a m -
b é m u m im p o r t a n t e p in t o r a b s t r a io 59 .

55 Ibid., p. 42. Aqu i no relato de Jung, parece que o diálogo ocorreu no outono de 1913, embora isto não
seja certo, pois o diálogo propriamente não aparece nos Livros Negros, e nenhum outro manuscrito veio a
público. Se seguirmos essa datação, e na ausência de outro material, parece que o material ao qual a voz
está se referindo são os registros de novembro no Livro Negro 2, e não o texto subsequente do Liber Novus ou
as pinturas.
56 Ibid., p. 44.
57 Ibid., p. 46.
58 MP, p. 171.
59 As pinturas de Riklin seguiam em geral o estilo de Augusto Giacometti: obras semiftgurativas e
totalmente abstratas, com cores suaves e instáveis (coleção particular, Peter Riklin ). H á um quadro de
Riklin de 1915/1916, "Verkúndigung" no Kunsthaus de Zurique, uma doação de Maria Moltzer em 1945.
Giacometti lembra: "O conhecimento psicológico de Riklin era extraordinariamente interessante e novo
para m im . Ele era um mágico moderno. Eu tinha a sensação de que ele podia fazer mágica" (Von Stampa bis
Florenz: Blatter der Erinnerung. Zurique: Rascher, 1943, p. 86-87).
20 LÍ BE R N O V U S

A s a n o t a ç õ e s d e n o ve m b r o n o Livro Negro 2 r e g is t r a m a s e n s a ç ã o d e Ju n g e m

s e u r e t o r n o à s u a a lm a . E l e r e c o n t o u os so n h o s q u e o l e va r a m a o p t a r p o r u m a

c a r r e i r a cie n t ífica , e os so n h o s r e ce n t e s q u e o h a vi a m r e t o r n a d o à s u a a lm a .

C o m o l e m b r o u e m 1925, o p r i m e i r o p e r í o d o e scr it o t e r m i n o u e m n o ve m b r o :

"Se m sa b e r o q u e v i r i a d e p o is, p e n s e i q u e t a lve z m a is i n t r o s p e c ç ã o fosse n e ce s-

sá r ia [...] b o le i u m m é t o d o m u i t o ch a t o fa n t a sia n d o q u e e u e st a va ca va n d o u m

b u r a co , e a c e it a n d o essa fa n t a sia c o m o p e r fe it a m e n t e r e a l " 6 0 . O p r i m e i r o d e

t a is e xp e r i m e n t o s a c o n t e c e u e m 12 d e d e z e m b r o d e 19 136 1.

C o m o in d ic a d o , Ju n g h a vi a t id o u m a e xt e n s a e xp e r i ê n c i a n o e st u d o d e

m é d i u n s e m e st a d o s d e t r a n se , d u r a n t e os q u a is e r a m e n co r a ja d o s a p r o d u z i r

fa n t a sia s d e sp e r t a s e a lu c in a ç õ e s vis u a is , e t i n h a c o n d u z i d o e xp e r i m e n t o s c o m

e s c r it a a u t o m á t ic a . P r á t ica s d e vis u a liz a ç ã o t a m b é m t ê m sid o u sad as e m vá r ia s

t r a d iç õ e s r e ligio sa s. P o r e xe m p lo , n o q u i n t o d o s e xe r c íc io s e s p ir it u a is d e Sa n t o

I n á c i o d e Lo yo l a , os i n d i ví d u o s sã o in s t r u íd o s a c o m o "e n xe r ga r c o m os o lh o s

d a i m a g i n a ç ã o o c o m p r i m e n t o , a la r gu r a , a p r o fu n d id a d e d o i n fe r n o ", e a e xp e -

r i m e n t a r isso c o m t o t a l s e n s o r ia lid a d e 6 2 . Sw e d e n b o r g t a m b é m se e n vo l ve u c o m

"e s c r it a e s p i r i t u a l". E m se u d iá r io e s p ir it u a l, le m o s :

26 Ja n , 1748 - O s esp ír it o s, se assim o p e r m it im o s, p o d e m p o ssu ir aqu eles


qu e co m eles fa la m d e fo r m a t ão t o t a l, qu e é co m o se eles est ivessem in t e i-
r a m e n t e n o m u n d o ; e, de fat o, d e u m je it o t ão m an ifest o, qu e p o d e m c o m u -
n ica r suas id eias at r avés de seu m é d iu m , e at é m e sm o p o r cart as; p ois eles,
p o r vezes, de fat o fr eq u en t em en t e, d ir igir a m m i n h a m ã o ao escrever, co m o
se fosse d eles; de fo r m a qu e p en savam qu e n ã o e r a e u , m as eles e scr e ve n d o 6 3 .

E m Vi e n a , a p a r t i r d e 19 0 9 , o p s ic a n a lis t a H e r b e r t Silb e r e r c o n d u z i u e x-
p e r i m e n t o s e m si m e s m o e m e st a d o s h ip n a g ó g ic o s . Si lb e r e r t e n t a va fa z e r i m a -
gen s a p a r e c e r e m . Essa s im a ge n s, m a n t i n h a ele, a p r e s e n t a va m r e p r e s e n t a ç õ e s

60 Introduction to Jungian Psychology, p. 51.


61 A visão que se seguiu é encontrada adiante em Liber Primus, cap. 5: "Descida ao inferno no futuro", p. 241.
62 SAN T O I N ÁCI O D E LO YO LA. "O s exercícios espirituais". In : Personal W ritings. Londres: Penguin,
1996, p. 298 [Trad. de J. Munitiz e P. En dean ]. Em 1939-1940, Jung apresentou um comentário
psicológico aos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola no E T H (PhilemonSeries, no prelo).
63 Esta passagem foi reproduzida por W illiam W h it e em seu Swedenborg: H is Life and Writings. Vol. 1.
Londres: Bath, 1867 p. 293-294. Na cópia de Jung desse trabalho, ele marcou a segunda metade desta
passagem com uma linha na margem.
I N T RO D U ÇÃO 21

s im b ó lic a s d e seu s p e n s a m e n t o s . Si lb e r e r se c o r r e s p o n d e u c o m Ju n g e m a n d a va
a ele c ó p ia s d e seu s a r t i g o s 6 4 .
E m 1912, Lu d w i g St a u d e n m a i e r ( 18 6 5- 19 33) , u m p r o fe sso r d e q u í m i c a e x-
p e r i m e n t a l , p u b l i c o u u m l i vr o i n t i t u l a d o A m agia com o ciência experim ental. St a u d e n -
m a i e r c o m e ç o u a u t o e xp e r i m e n t a ç õ e s e m 19 0 1, i n i c i a n d o c o m e s c r it a a u t o m á -
t ica . U m a sé r ie d e p e r so n a ge n s a p a r e ce u , e ele p e r c e b e u q u e n ã o m a is p r e c is a va
d a e s c r it a p a r a se c o m u n i c a r c o m e le s 6 5 . E l e t a m b é m i n d u z i a a lu c in a ç õ e s a c ú s -
t ica s e vis u a is . O o b je t ivo d essas p r á t ica s e r a u sa r su as a u t o e xp e r i m e n t a ç õ e s
p a r a fo r n e c e r u m a e xp lic a ç ã o c ie n t ífic a p a r a a m a gia . E l e a r g u m e n t a va q u e a
ch a ve p a r a se e n t e n d e r a m a gia e st a va n o s c o n c e it o s d e a lu c in a ç õ e s e d o Um
terbewusstsein, e d e u e sp e cia l i m p o r t â n c i a ao p a p e l d as p e r s o n i fi c a ç õ e s 6 6 . A s s i m
p e r c e b e m o s q u e os p r o c e d i m e n t o s d e Ju n g m u i t o se p a r e c e m c o m u m n ú m e r o
d e p r á t ica s h is t ó r ic a s c o n t e m p o r â n e a s c o m as q u a is ele e st a va fa m ilia r iz a d o .

A p a r t i r d e d e z e m b r o d e 1913, se gu iu c o m o m e s m o p r o c e d i m e n t o : e vo ca r
d e lib e r a d a m e n t e u m a fa n t a sia n o e st a d o a le r t a , e e n t ã o e n t r a r n e l a c o m o e m
u m d r a m a . Essa s fa n t a sia s p o d e m se r e n t e n d id a s c o m o u m t ip o d e p e n s a m e n t o
d r a m a t i z a d o e m fo r m a p ic t ó r ic a . A o l e r m o s su as fa n t a sia s, fica c la r o o i m p a c t o
d e seu s e st u d o s m it o ló g ic o s . Al g u m a s d as figu r a s e d o s c o n c e it o s d e r i va m - s e
d i r e t a m e n t e d e su as le it u r a s , e a fo r m a e o e st ilo t e s t e m u n h a m s e u fa scín io p e lo
m u n d o d o m i t o e d o é p ico . N o s Livros Negros, Ju n g e s c r e ve u su as fa n t a sia s e m
r e gist r o s d a t a d o s, ju n t o a r e fle xõ e s so b r e se u e st a d o m e n t a l e su as d ificu ld a d e s
e m c o m p r e e n d e r as fa n t a sia s. O s Livros Negros n ã o sã o u m d iá r io d e e ve n t o s, e
m u i t o p o u co s so n h o s e s t ã o a li a n o t a d o s. A o in vé s, sã o o r e gist r o d e u m e xp e r i -
m e n t o . E m d e z e m b r o d e 1913, r e fe r iu - s e ao p r i m e i r o d o s l i vr o s n e gr o s c o m o o
"l i vr o d e m e u e xp e r i m e n t o m a is d i fí c i l " 6 7 .
E m r e t r o sp e ct o , l e m b r a q u e s u a q u e s t ã o cie n t ífica e r a ve r o q u e a c o n t e c e r ia
q u a n d o ele d esligasse a c o n s c iê n c ia . O e xe m p l o d o s so n h o s i n d i c a va a e xi s t ê n -
c i a d e u m a a t ivid a d e d e fu n d o , e ele q u e r i a d a r a essa a t ivid a d e u m a p o s s i b i l i d a -
d e d e e m e r gir , a s s im c o m o se faz ao t o m a r m e s c a l i n a 6 8 .

64 Cf. SI LBE R E R . "Berich t iiber eine Methode, gewissesymbolische Halluzinations-Erscheinungen


hervorzurufen und zu beobachten". Jahrbuchfurpsychoanalytísche undpsychopathologische Forschungen, 2,1909, p.
513-525.
65 ST AU D E N M AI E R . Die Magíe ah experim entelle Naturwíssenschaji. Leipzig: Akademische Verlagsgesellschaft,
1912, p. 19.
66 Jung tinha uma cópia do livro de Staudenmaier, e marcou algumas passagens.
67 Livro Negro 2, p. 58.
68 MP, p. 381.
22 LÍ BE R N O V U S

E m u m r e gist r o e m s e u l i vr o d e so n h o s d e 17 d e a b r i l d e 1917 Ju n g n o t a :
69
"d esd e e n t ã o , e xe r c íc io s fr e q u e n t e s d e e sva z ia r a c o n s c i ê n c i a " . Se u p r o c e d i -

m e n t o e r a c l a r a m e n t e i n t e n c i o n a l - ao p a sso q u e se u o b je t ivo e r a p e r m i t i r q u e

c o n t e ú d o s p s íq u ic o s a p a r e ce sse m e s p o n t a n e a m e n t e . E l e l e m b r a q u e p o r b a ixo

d o l i m i a r d a c o n s c iê n c ia , t u d o é a n im a d o . A s ve z e s, e r a c o m o se ele o u visse

co isas. E m o u t r o s m o m e n t o s , p e r c e b ia q u e e st a va s u s s u r r a n d o p a r a si m e s m o 7 0 .

D e n o ve m b r o d e 1913 a t é ju l h o se gu in t e , ele p e r m a n e c e u i n c e r t o so b r e o

s e n t id o e o sign ifica d o d e seu s p r o c e d i m e n t o s , e d o s e n t id o d e su as fa n t a sia s,

q u e c o n t i n u a r a m a se d e se n vo lve r . D u r a n t e esse p e r í o d o , Fi l ê m o n , q u e se t o r -

n a r i a u m a figu r a i m p o r t a n t e e m fa n t a sia s su b se q u e n t e s, a p a r e ce u e m u m s o -

n h o . Ju n g r e le m b r a :

H a vi a u m céu a z u l, qu e t a m b é m p a r e cia ser o m ar, co b er t o n ã o p o r n u ven s,


m as p o r t o r r õ e s m a r r o n s d e t e r r a . Pa r e cia qu e os t o r r õ e s est avam se d esa-
gregan d o e qu e a águ a a z u l d o m a r est ava se t o r n a n d o visível p o r e n t r e eles.
Ma s a águ a e r a o céu azu l. Su b it a m e n t e , ap ar eceu u m ser alad o n avegan d o os
céu s, p a ir a n d o à d ir e it a . V i qu e e r a u m h o m e m ve lh o c o m os ch ifr es de u m
t ou r o. El e segu rava u m m o lh o de q u at r o ch aves, u m a das qu ais ele agar r ava
co m o se est ivesse p a r a a b r ir u m a p o r t a . El e t in h a as asas de u m m a r t im - p e s -
cad or co m suas cores car act er íst icas. C o m o n ão com p r een d esse a im a ge m
d o son h o, p in t e i- a p a r a figu r á -la co m m a io r e xa t id ã o 7 1.

En q u a n t o e st a va p i n t a n d o essa i m a g e m , ele e n c o n t r o u u m m a r t i m - p e s c a -

d o r m o r t o ( q u e m u i t o r a r a m e n t e é e n c o n t r a d o n a s viz in h a n ç a s d e Zu r i q u e )

e m se u j a r d i m n a b o r d a d o la g o 7 2 .

A d a t a d esse s o n h o n ã o é c e r t a . A figu r a d e Fi l ê m o n a p a r e ce p r i m e i r o n o s

Livros Negros e m 27 d e ja n e i r o d e 1914, m a s s e m asas d e m a r t i m - p e s c a d o r . P a r a

69 Sonhos". AFJ, p. 9.
70 MP, p. 145. Jung disse a Margaret Ostrowski-Sachs: "A técnica da imaginação ativa pode mostrar-se
muito importante em situações difíceis - quando há uma visitação, digamos. Só faz sentido quando
temos a sensação de nos encontrarmos num beco sem saída. Vivi isto quando me separei de Freud. Não
sabia o que pensar. Apenas sentia. 'Não é isto 5. Então concebi o 'pensamento simbólico' e depois de dois
anos de imaginação ativa tantas ideias me sobressaltaram que quase não pude me defender. O s mesmos
pensamentos voltaram. Apelei para minhas mãos e comecei a entalhar madeira - e então meu caminhou
se aclarou" (From ConversationswithC.G.Jung. Zurique: Júris Druck Verlag, 1971, p. 18).
71 Mem órias, p. 162.
72 Ibid.
I N T RO D U ÇÃO ^3

Ju n g, F i l ê m o n r e p r e s e n t a v a u m ínsíght s u p e r i o r , e e r a c o m o u m g u r u p a r a

e le . Ju n g c o n v e r s a v a c o m e le n o j a r d i m . L e m b r a q u e F i l ê m o n e m e r g i u d a

figu r a d e El i a s , q u e h a vi a p r e vi a m e n t e a p a r e cid o e m su as fa n t a sia s:

Filê m o n e r a u m p a gã o qu e t r o u xe à su p er fície u m a at m o sfer a m e io - e gíp cia ,


m e io -h e le n íst ica , d a t on alid ad e algo gn óst ica... El e e r a sim p le sm e n t e u m
t ip o de in t e ligê n cia su p er ior , e m e e n sin o u o b jet ivid ad e p sico ló gica e a r e a -
lid ad e d a alm a. El e h a via d escr it o essa d issociação, o u seja, e n t r e e u e o o b je -
t o de m e u p en sam en t o... El e fo r m u lo u essa coisa, qu e n ã o e r a eu , e e xp r i m i u
t u d o o qu e e u n u n c a h a via p e n sa d o 73 .

E m 2 0 d e a b r il, Ju n g r e n u n c i o u à p r e s i d ê n c i a d a As s o c i a ç ã o I n t e r n a c i o n a l
d e P sica n á lise . E m 30 d e a b r il, d e m i t i u - s e d a Fa c u ld a d e d e M e d i c i n a d a U n i -
ve r s id a d e d e Zu r i q u e . Le m b r a q u e s e n t ia e st a r n u m a p o s iç ã o m u i t o e xp o s t a n a
u n ive r s id a d e e q u e s e n t ia a n e ce ssid a d e d e e n c o n t r a r u m a n o va o r ie n t a ç ã o , e
q u e s e r ia p o r t a n t o i n ju s t o d a r a u la s 7 4 . E m j u n h o e ju lh o , t e ve u m s o n h o q u e se
r e p e t i u p o r t r ê s ve z e s, e m q u e e st a va n u m a t e r r a e s t r a n ge ir a t e n d o q u e r e t o r n a r
r a p i d a m e n t e p a r a ca sa d e n a vio , se gu id o d a ch e ga d a d e u m fr io ge la d o 7 5 .
E m 10 d e ju lh o , a As s o c i a ç ã o P sic a n a lít ic a d e Zu r i q u e vo t o u p o r 15 a I su a
sa íd a d a As s o c i a ç ã o I n t e r n a c i o n a l d e P sica n á lise . N a s at as, a r a z ã o d a d a p a r a a
s e p a r a ç ã o e r a q u e F r e u d t i n h a e st a b e le cid o u m a o r t o d o xi a q u e i m p e d i a a p e s-
q u is a l i vr e e i n d e p e n d e n t e 7 6 . O gr u p o fo i r e n o m e a d o d e As s o c i a ç ã o d e P s i c o l o -
gia An a l í t i c a . Ju n g e st a va a t iva m e n t e e n vo lvi d o n e ssa a sso cia çã o , q u e se e n c o n -
t r a va q u i n z e n a l m e n t e . E l e t a m b é m m a n t i n h a u m a i n t e n s a p r á t ic a t e r a p ê u t ic a .
En t r e 1913 e 1914, ele t i n h a e n t r e u m a e n o ve co n su lt a s p o r d ia , c in c o d ia s p o r
s e m a n a , n u m a m é d i a d e c in c o a s e t e 7 7 .
A s at as d a As s o c i a ç ã o d e P s ic o lo gia An a l í t i c a n ã o d e m o n s t r a m o p r o ce sso
p e lo q u a l e st a va p a ssa n d o Ju n g. E l e n ã o se r e fe r e a su as fa n t a sia s, e c o n t i n u a
d i s c u t i n d o q u e s t õ e s t e ó r ica s d e p sico lo gia . O m e s m o é ve r d a d e p a r a s u a c o r -

73 Ibid., p. 162-163.
74 Ibid., p. 171.
75 Cf. adiante, p. 113.
76 MSZ.
77 Cadernos de anotações de Jung, AFJ.
24 LÍ BER N O V U S

r e s p o n d ê n c i a d u r a n t e esse p e r í o d o 7 8 . A ca d a an o , m a n t i n h a su as o b r iga ç õ e s d e

s e r viç o m i l i t a r 7 9 . As s i m , m a n t i n h a su as a t ivid a d e s p r o fissio n a is e r e s p o n s a b ili-

d a d e s fa m ilia r e s d u r a n t e o d ia , e d e d ic a va su as n o it e s a su as a u t o e xp e r i m e n t a -

ç õ e s 8 0 . H á in d ic a ç õ e s d e q u e essa d ivis ã o d e a t ivid a d e s c o n t i n u o u d u r a n t e os

a n o s se gu in t e s. Ju n g l e m b r a q u e d u r a n t e est e p e r í o d o su a fa m ília e p r o fissã o

"p e r m a n e c e r a m s e m p r e u m a r e a lid a d e d is p e n s a d o r a d e fe licid a d e e a ga r a n t ia

d e q u e e u e xi s t i a d e u m a fo r m a n o r m a l e ve r d a d e i r a " 8 1.

A q u e s t ã o d as d ife r e n t e s fo r m a s d e i n t e r p r e t a r t a is fa n t a sia s fo i o t e m a d e

u m a p a le s t r a q u e ele a p r e s e n t o u e m 24 d e ju l h o p a r a a So cie d a d e P s i c o m é d i c a

e m Lo n d r e s , "So b r e a c o m p r e e n s ã o p sic o ló gic a ". A l i , ele c o n t r a s t a va o m é t o d o

a n a lí t i c o - r e d u t i vo d e Fr e u d , b a se a d o n a ca u sa lid a d e , c o m o m é t o d o c o n s t r u -

t ivo d a e sco la d e Zu r i q u e . A d e fic iê n c ia d o p r i m e i r o e r a q u e ao c o n e c t a r t u d o

d e vo l t a a e le m e n t o s a n t e ce d e n t e s, o m é t o d o li d a va a p e n a s c o m m e t a d e d o

q u a d r o , e n ã o a lc a n ç a va o s e n t id o vi vo d o s fe n ó m e n o s . Al g u é m q u e q u isesse

c o m p r e e n d e r o Fausto d e Go e t h e d e t a l m a n e i r a s e r ia c o m o a lg u é m q u e t e n -

t asse c o m p r e e n d e r u m a c a t e d r a l gó t ic a p o r m e i o d e se u asp ect o m i n e r a l ó g i -

c o 8 2 . O sign ifica d o vi vo "vive a p e n a s q u a n d o o e xp e r i m e n t a m o s c o m e e m n ó s

m e s m o s " 8 3 . N a m e d i d a e m q u e a vi d a é e s s e n c ia lm e n t e n o va , e la n ã o p o d e ser

c o m p r e e n d i d a a p e n a s r e t r o s p e c t iva m e n t e . As s i m , o p o n t o d e vi s t a c o n s t r u t i -

vo p e r gu n t a va , "co m o , a p a r t i r d e st a p siq u e p r e se n t e , p o d e m o s c o n s t r u i r u m a

p o n t e p a r a se u p r ó p r i o fu t u r o ? " 8 4 Es t e a r t igo a p r e se n t a i m p l i c i t a m e n t e a ju s t i -

fica t iva ló gica d e Ju n g p a r a n ã o e m b a r c a r n u m a a n á lise ca u sa l e r e t r o sp e ct iva d e

su as fan t asias, e ser ve c o m o aviso p a r a aq u eles q u e se s e n t i r e m t e n t a d o s a fazê-lo .

Ap r e s e n t a d o c o m o u m a cr ít ica e u m a r e fo r m u la çã o d a p sica n á lise , o n o vo m o d o

d e i n t e r p r e t a ç ã o d e Ju n g liga -se ao m é t o d o s i m b ó l i c o d a h e r m e n ê u t i c a e s p i r i -

t u a l d e Swe d e n b o r g.

78 Isto se baseia num estudo extenso sobre a correspondência de Jung no E T H até 1930 e em outros
arquivos e coleções.
79 Estes eram, 1913: 16 dias, 1914:14 dias, 1915: 67 dias, 1916: 34 dias, 1917: 117 dias (registro do serviço
m ilitar de Jung, AFJ).
80 Cf. adiante, p. 136.
81 Mem órias, p. 168.
82 JU N G . "A interpretação psicológica dos processos patológicos". O C , 3, § 396.
83 Ibid., §398.
84 Ibid., §39 9 .
I N T RO D U ÇÃO 25

E m 28 d e ju lh o , Ju n g d e u u m a p a le s t r a so b r e "A i m p o r t â n c i a d o i n c o n s c i e n -
t e n a p s ic o p a t o lo gia " n u m e n c o n t r o d a As s o c i a ç ã o M é d i c a Br i t â n i c a e m Ab e r -
d e e n 8 5 . E l e a r g u m e n t a va q u e , e m casos d e n e u r o se e p sico se , o i n c o n s c i e n t e
t e n t a va c o m p e n s a r a a t it u d e u n i l a t e r a l d a c o n s c iê n c ia . O i n d i ví d u o d e s b a la n -
ç a d o d e fe n d e - se d isso , e os o p o st o s t o r n a m - s e m a is p o la r iz a d o s . O s im p u ls o s
c o r r e t ivo s q u e se a p r e s e n t a m n a lin gu a ge m d o i n c o n s c i e n t e d e ve m se r o in íc io
d e u m p r o ce sso d e c u r a , m a s a fo r m a n a q u a l i r r o m p e m os t o r n a in a c e it á ve is
p a r a a c o n s c iê n c ia .
U m m ê s a n t e s, e m 28 d e ju n h o , o Ar q u i d u q u e F r a n z Fe r d i n a n d , o h e r d e i r o
d o I m p é r i o Au s t r o - h ú n g a r o , fo i a ssa ssin a d o p o r G a v r i l o P r i n c i p , u m e st u d a n t e
o
s é r vio d e d e z e n o ve a n o s d e id a d e . E m I d e ago st o a g u e r r a e s t o u r o u . E m 1925,
Ju n g l e m b r a , "t ive a s e n s a ç ã o d e q u e e u e r a u m a p sico se s u p e r c o m p e n s a d a , e
o
n ã o m e l i b e r t e i d esse s e n t i m e n t o a t é I d e ago st o d e 19 14 "8 6 . An o s m a is t a r d e ,
ele d isse a M i r c e a El i a d e :

C o m o u m p siq u ia t r a fiq u e i p r eocu p ad o, p en san d o se e u n ã o est ava a ca -


m i n h o de "fazer u m a e sq u iz o fr e n ia ", co m o falávam os n aq u eles dias... Es t a -
va p r e p a r a n d o u m a p alest r a sob re e sq u iz o fr e n ia a ser d ad a n u m con gr es-
so e m Ab e r d e e n , e d iz ia a m i m m esm o : "Es t a r e i falan d o d e m i m m e sm o !
M u i t o p r o vá ve l qu e e u e n lo u q u e ça d ep ois de le r est e ar t igo ". O con gresso
a co n t e ce r ia e m ju lh o de 1914 - e xa t a m e n t e o m e sm o p e r ío d o q u an d o v i
a m i m m esm o n os t r ês son h os via ja n d o n os m ar es d o Su l. E m 31 de ju lh o ,
im e d ia t a m e n t e ap ó s m i n h a p alest r a, sou be p elos jo r n a is qu e a gu e r r a h a via
est ou rad o. Fin a lm e n t e e n t e n d i. E q u an d o d esem b a r q u ei n a H o l a n d a n o d ia
segu in t e, n in gu é m est ava m a is feliz qu e eu . Ago r a e u est ava cer t o de qu e
n e n h u m a e sq u iz o fr e n ia m e am eaçava. En t e n d i qu e m eu s son h os e m in h a s
visõ e s vie r a m at é m i m d o su b solo d o in co n scie n t e colet ivo. O qu e fico u
p a r a e u fazer agora e r a ap r o fu n d ar e va lid a r est a d escob er t a. E é ist o o qu e
t e n h o t en t ad o fazer h á q u a r e n t a a n o s" 8 7 .

N e s s e m o m e n t o , Ju n g c o n s i d e r o u q u e s u a fa n t a sia t i n h a m o s t r a d o n ã o o q u e

a c o n t e c e r ia a ele, m a s à Eu r o p a . E m o u t r a s p a la vr a s, d e q u e e r a u m a p r e c o g n i ç ã o

85 0 C 3 .
86 Introductíon to Jungian Psychology, p. 48.
87 M c GU I RE, W illiam & H U L L , R.F.C. (orgs.). Entrevista Combat, 1952. C.G.JungSpeaking: Interviews and
Encounters. Princeton: Princeton Un iversity Press/ Bollingen Series, 1977, p. 233-234. Cf. adiante, p. 125.
26 LÍ BE R N O V U S

d e u m e ve n t o co le t ivo , a q u ilo q u e ele d e p o is i r i a c h a m a r d e s o n h o "g r a n d e " 8 8 .

D e p o i s d essa p e r c e p ç ã o , ele t e n t o u ve r se e a t é q u a n t o isso e r a ve r d a d e t a m -

b é m e m r e la çã o às o u t r a s fa n t a sia s q u e ele t i n h a e xp e r im e n t a d o , e c o m p r e n d e r

o s e n t id o d e ssa c o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e fa n t a sia s p r iva d a s e e ve n t o s p ú b lic o s .

Es s e e s fo r ç o é m u i t o d o t e m a d o Líber Novus. E m Com entários, e s c r e ve u q u e o

i r r o m p e r d a g u e r r a c a p a c it o u - o a e n t e n d e r m u i t o d o q u e h a vi a p r e vi a m e n t e

e xp e r im e n t a d o , e d e u - lh e a c o r a ge m d e e scr e ve r a p r i m e i r a p a r t e d o Líber No-

vus 89. As s i m , ele e n t e n d e u o in íc io d a g u e r r a m o s t r a n d o a ele q u e se u m edo d e

e n lo u q u e c e r e r a u m en gan o . N ã o é u m e xa ge r o d i z e r q u e se a g u e r r a n ã o t ivesse

sid o d e cla r a d a , m u i t o p r o va ve lm e n t e Líber Novus n ã o t e r i a sid o e la b o r a d o . E m

l 9 $S/ i 9 $6 , ao d i s c u t i r i m a g i n a ç ã o a t iva , Ju n g c o m e n t o u q u e "a r a z ã o p e la q u a l o

e n vo l vi m e n t o p a r e ce m u i t o c o m u m a p sico se é q u e o p a c ie n t e e st á in t e gr a n d o

o m e s m o m a t e r i a l d e fa n t a sia n o q u a l c a i ví t i m a a p e sso a i n s a n a p o r q u e n ã o

co n se gu e i n t e g r á - lo e é e n go lid a p o r e l e " 9 °.

E i m p o r t a n t e n o t a r q u e h á p o r vo l t a d e o n z e fa n t a sia s d is t in t a s q u e Ju n g

p o d e t e r e n c a r a d o c o m o p r e co gn it iva s:

I . I e 2 de O U T U B R O D E 1913: Visã o r e p e t id a de in u n d a çã o e m o r t e de m i -
lh ar es, e a vo z qu e d iz ia qu e ist o ir ia se t o r n a r r eal.
3. O U T O N O D E 1913: Visã o d o m a r de san gu e co b r in d o as t er r as d o N o r t e .
4.12 D E D E Z E M B R O D E 1913: Im a ge m d e u m h e r ó i m o r t o e o assassin at o de
Siegfr ied n u m son h o.
5. 25 D E D E Z E M B R O D E 1913: Im a ge m d o p é de u m gigan t e p isan d o n u m a
cid ad e, e im agen s d e assassin at o e de cr u eld ad e san gr en t a.
6. 2 D E J A N E I R O D E 1914: Im a ge m de u m m a r de san gu e e u m a p r o cissã o de
m u lt id ã o de m o r t o s.
7. 22 D E J A N E I R O D E 1914: Su a a lm a em er ge das p r ofu n d ezas e p e r gu n t a -lh e
se ele ir á aceit ar a gu e r r a e a d est r u ição. E l a lh e m o st r a im agen s de d e s t r u i-
ção, ar m as m ilit a r e s, rest os h u m a n o s, n avios afu n d ad os, est ad os d e st r u íd o s,
etc.
8. 21 D E M A I O D E 1914: U m a vo z d iz qu e os sacrificad os ca e m à d ir e it a e à
esq u erd a.

88 C f adiante, p. 113.
89 Cf. adiante, p. 129.
90 Mysteríum Coníunctíonís. O C , 14, § 410. Sobre o mito da loucura de Jung, promovida pela prim eira vez pelos
freudianos, como meio de desqualificar sua obra, cf. meu JungStríppedBare by Hís Biographers, Even.
I N T RO D U ÇÃO 27

9.11 D E J U N H O - J U L H O 1914: So n h o r ep et id o t rês vezes d e est ar n u m a t e r r a


est r an geir a e t e r qu e r e t o r n a r r á p id o p a r a casa d e n avio, e a d escid a d o fr io
ge la d o 9 1.

Líber Novus
Ju n g c o m e ç o u e n t ã o a e scr e ve r o e s b o ç o d o Líber Novus. E l e t r a n s c r e ve u fi e l -
m e n t e m u i t a s d as fa n t a sia s d o s Livros Negros, e p a r a c a d a u m a d elas a c r e s c e n -
t o u u m a s e ç ã o e xp l i c a n d o o sign ifica d o d e c a d a e p is ó d io , c o m b i n a d o c o m u m a
e la b o r a ç ã o lír ica . U m a c o m p a r a ç ã o p a la vr a a p a la vr a i n d i c a q u e as fa n t a sia s
fo r a m r e p r o d u z id a s fie lm e n t e , a p e n a s c o m u m p o u co d e e d i ç ã o e u m a d ivis ã o
e m c a p ít u lo s . As s i m , a s e q u ê n c ia d as fa n t a sia s e m Líber Novus q u ase s e m p r e c o r -
r e sp o n d e e xa t a m e n t e ao s Livros Negros. Q u a n d o e s t á in d ic a d o q u e u m a fa n t a sia
e m p a r t i c u l a r a c o n t e c e u "n a n o it e se gu in t e ", e t c , é s e m p r e a cu r a d o , e n ã o u m
r e c u r s o e st ilíst ico . A lin gu a ge m e o c o n t e ú d o d o m a t e r i a l n ã o fo r a m a lt e r a d o s.
Ju n g m a n t e ve u m a "fid e lid a d e a o e ve n t o ", e o q u e e st a va e scr e ve n d o n ã o e r a
p a r a se r c o n fu n d i d o c o m ficção . O esboço c o m e ç a c o m u m a c o m u n i c a ç ã o ao s
"M e u s Am i g o s ", e e st a fr ase o c o r r e fr e q u e n t e m e n t e . A p r i n c i p a l d ife r e n ç a e n -
t r e o s Livros Negros e o Líber Novus é q u e o s p r i m e i r o s fo r a m e scr it o s p a r a o u s o
p e sso a l d e Ju n g, e p o d e m se r c o n sid e r a d o s o r e gist r o d e u m e xp e r i m e n t o , e n -
q u a n t o q u e o se gu n d o é e n d e r e ç a d o a o p ú b lic o e a p r e se n t a d o n u m a fo r m a p a r a
ser l i d o p o r o u t r a s p esso as.
E m n o ve m b r o d e 19 14, Ju n g e s t u d o u d e t a lh a d a m e n t e Assim falava Zaratustra,
d e N i e t z s c h e , q u e e le h a vi a l i d o p r i m e i r o e m s u a ju ve n t u d e . Re c o r d o u m a is
t a r d e q u e "e n t ã o , d e r e p e n t e , o e s p ír it o se a p o d e r o u d e m i m e m e c a r r e go u
p a r a u m p a ís d e se r t o n o q u a l l i Za r a t u s t r a " 9 2 . E l e fo r t e m e n t e d e u fo r m a à e s -

91 Cf. p. 16-17,113,132,144,175, 233, 328,413..


92 JARRET , James (org.). Nietzsche's Zaratustra: Notes on the Seminar Given in 1934-1939. Princeton:
Princeton Un iversity Press/ Bollingen Series, 1988, p. 381. Sobre a leitura que faz Jung de Nietzsche,
cf BI SH O P , Paul. The Dionysían Self. C G . Jun gs reception of Nietzsche. Berlim : Walter de Gruyter.
• L I E BS C H E R , Martin . "Die unheimliche Àhnlichkeit 5 Nietzsches Herm eneutik der Macht und
analytische Interpretation bei Car l Gustav Jung". In : G O R N E R , Rúdiger & D U N C A N (orgs.). EcceOpus,
Nietzsche-Revisíonenímio.Jahrhundert. Large/ Londres: Gottingen, 2003, p. 37-50. • "Jungs Abkehr von Freud im
Lichte seiner Nietzsche-Rezeption". In : R E S C H KE , Renate (org.). Zeitenwende-W ertewende. Berlim , 20 0 1,
p. 255-260. • P ARKES, Graham. Nietzsche and Jung: Am bivalent Appreciations. In : G O LO M B, Jacob;
SAN T AN I E LO , Weaver & L E H R , Ronald (orgs.). Nietzsche andDepth Psychology. Albânia: §uny Press, 1999,
p. 205-227.
28 LÍ BE R N O V U S

t r u t u r a e ao e st ilo d o Líber Novus. C o m o o Zaratustra d e N i e t z s c h e , Ju n g d i vi d i u o

m a t e r i a l e m u m a sé r ie d e li vr o s c o m p o s t o s d e c a p ít u lo s cu r t o s. M a s , e n q u a n t o

Za r a t u s t r a p r o c l a m a va a m o r t e d e D e u s , Líber Novus d e s e n h a o r e n a s c i m e n t o d e

D e u s n a a lm a . H á t a m b é m in d íc io s d e q u e ele t e n h a l i d o a Cotnm edía d e D a n t e

n e s t a é p o c a , q u e t a m b é m i n fo r m a a e s t r u t u r a d o t r a b a l h o 9 3 . Líber Novus d e s e n h a

a d e s c id a d e Ju n g ao I n fe r n o . M a s e n q u a n t o D a n t e p ô d e se u t i l i z a r d e u m a

c o s m o lo gia e st a b e le cid a , Líber Novus é u m a t e n t a t i va d e fo r m a r u m a c o s m o lo gia

i n d i vi d u a l . O p a p e l d e Fi l ê m o n n o t r a b a lh o d e Ju n g t e m a n a lo gia s c o m a q u e le

d e Za r a t u s t r a n o d e N i e t z s c h e e d e Vi r g i l i o n o d e D a n t e .

N o Esboço, c e r c a d e c i n q u e n t a p o r c e n t o d o m a t e r i a l é r e t ir a d o d i r e t a m e n t e

d o s Livros Negros. H á c e r c a d e t r i n t a e c i n c o n o va s se çõ e s d e c o m e n t á r i o . N e ssa s

se çõ e s, ele t e n t o u e xt r a i r d as fa n t a sia s p r i n c í p i o s p s ic o ló gic o s ge r a is, e c o m -

p r e e n d e r a t é q u e p o n t o os e ve n t o s d e scr it o s n as fa n t a sia s a p r e s e n t a va m , d e

fo r m a s im b ó lic a , d e s e n vo lvim e n t o s q u e i r i a m a c o n t e c e r n o m u n d o . E m 1914,

Ju n g h a vi a i n t r o d u z i d o u m a d is t in ç ã o e n t r e i n t e r p r e t a ç ã o n o n íve l o b je t ivo ,

n o q u a l o b je t o s d o s o n h o e r a m t r a t a d o s c o m o r e p r e s e n t a ç õ e s d e o b je t o s r e -

ais, e i n t e r p r e t a ç ã o n o n íve l su b je t ivo , n o q u a l c a d a e le m e n t o t e m a ve r c o m o

p r ó p r i o s o n h a d o r 9 4 . A s s i m c o m o i n t e r p r e t a r su as fa n t a sia s n o n íve l su b je t ivo ,

p o d e - se c a r a c t e r iz a r se u p r o c e d i m e n t o a q u i c o m o u m a t e n t a t i va d e i n t e r p r e t a r

su as fa n t a sia s n o n íve l "c o le t ivo ". E l e n ã o t e n t a i n t e r p r e t a r su as fa n t a sia s r e d u -

t i va m e n t e , m a s as vê d e s c r e ve n d o o fu n c i o n a m e n t o d e p r in c íp io s p s ic o ló gic o s

ger a is n e le ( t a is c o m o a r e la ç ã o e n t r e i n t r o ve r s ã o e e xt r o ve r s ã o , p e n s a m e n -

t o e p r a z e r , e t c ) , e d e s c r e ve n d o e ve n t o s lit e r a is o u s im b ó lic o s q u e e s t ã o p a r a

a co n t e ce r . As s i m , a se gu n d a c a m a d a d o Esboço r e p r e s e n t a a p r i m e i r a e xt e n s a

t e n t a t i va d e d e s e n vo lvi m e n t o e a p lic a ç ã o d e s e u n o vo m é t o d o c o n s t r u t ivo . A

"se gu n d a c a m a d a " é e m si m e s m a u m e xp e r i m e n t o h e r m e n ê u t i c o . N u m s e n t i -

d o cr ít ico , Líber Novus n ã o r e q u e r i n t e r p r e t a ç ã o s u p le m e n t a r , p o is c o n t é m s u a

p r ó p r i a in t e r p r e t a ç ã o .

A o e scr e ve r o Esboço, Ju n g n ã o a c r e s c e n t o u r e fe r ê n cia s a c a d é m ic a s , e m b o r a

c it a ç õ e s s e m r e fe r ê n c ia e a lu sõ e s a o b r a s d e filo so fia , r e ligiã o e l i t e r a t u r a se -

93 Em Livro Negro 2, Jung citou certos cantos do "Purgatório" em 26 de dezembro de 1913, p. 104. Cf. adiante,
nota 213, p. 177.
94 Em 1913, Maeder referira-se à "excelente expressão" de Jung, "nível objetivo" e "nível subjetivo" (Úber
das Traumproblem". Jahrhuchfurpsychoanalytischeunâpsychopatologische Forschungen, 5,1913, p. 657-658). Jung
discutiu isso na Sociedade Psicanalítica de Zurique em 30 de janeiro de 1914, MSZ.
I N T RO D U ÇÃO 29

j a m n u m e r o s a s . E l e e s c o lh e u c o n s c i e n t e m e n t e d e i xa r d e la d o a c a d e m ic is m o s .
A i n d a a s s im , as fa n t a sia s e as r e fle xõ e s n o Líber Novus sã o as d e u m scholar e, d e
fat o, m u i t o d e s u a a u t o e xp e r i m e n t a ç ã o e d a c o m p o s i ç ã o d e Líber Novus o c o r r e u
e m s u a b ib lio t e c a . É b e m p o s s íve l q u e ele t ive sse a cr e sce n t a d o r e fe r ê n c ia s se
t ive sse d e c id id o p u b l i c a r o t r a b a lh o .

D e p o i s d e c o m p l e t a r o Esboço m a n u s c r i t o , Ju n g m a n d o u d a t ilo gr a fá - lo , e o
e d it o u . N u m m a n u s c r i t o , fez a lt e r a ç õ e s a m ã o ( r e fi r o - m e a est e m a n u s c r i t o
c o m o Esboço Corrigido). A ju lga r p ela s a n o t a ç õ e s , p a r e ce q u e ele o d e u a a lg u é m
p a r a le r ( a l e t r a n ã o é d e E m m a Ju n g , T o n i W o l f f o u M a r i a M o l t z e r ) , q u e e n t ã o
c o m e n t o u a e d iç ã o d e Ju n g, i n d i c a n d o q u e a lgu m a s se çõ e s q u e ele i n t e n c i o n a va
c o r t a r d e ve r i a m p e r m a n e c e r 9 5 . A p r i m e i r a se ç ã o d o t r a b a lh o - s e m t ít u lo , m a s
e fe t iva m e n t e Líber Prím us — fo i c o m p o s t a e m p e r ga m in h o . Ju n g e n t ã o e n c o m e n -
d o u u m gr a n d e fó lio d e m a is d e 6 0 0 p á gin a s , e n c a d e r n a d o e m c o u r o ve r m e l h o ,
aos e n c a d e r n a d o r e s E m i l St ie r li. A l o m b a d a t r a z o t ít u lo , Líber Novus. E l e e n t ã o
i n s e r i u as p á gin a s e m p e r g a m i n h o n o vo l u m e , q u e c o n t i n u a c o m Líber Secundus.
A o b r a e s t á o r ga n iz a d a c o m o u m a i l u m i n u r a m a n u s c r i t a m e d i e va l, ca ligr a fa d a ,
e n c a b e ç a d a p o r u m a t á b u a d e a b r e via ç õ e s . Ju n g d e u ao p r i m e i r o l i vr o o t ít u lo
d e " O C a m i n h o Q u e A i n d a Vi r á ", e c o lo c o u lo go a b a ixo d isso a lgu m a s c it a ç õ e s
d o l i vr o d e Isa ía s e d o Eva n g e lh o Se gu n d o Jo ã o . As s i m , fo i a p r e se n t a d o c o m o
u m t r a b a lh o p r o fé t ic o .
N o vo l u m e caligr afad o , Ju n g p i n t o u e m tem pura ( c a l e c o l a ) , e e scr e ve u c o m
t in t a . O su ave s o m b r e a m e n t o d a e s c r it a n o vo l u m e caligr afad o d e n o t a q u a n d o a
t i n t a e st a va acab an d o . D e m a n e i r a clássica, ele fez fu r o s d e a lfin e t e e t e r i a u sa d o
b a r b a n t e s p a r a d e se n h a r as lin h a s a lá p is p a r a t o r n a r as p á gin a s u n ifo r m e s .
N o Esboço, Ju n g d i vi d i u o m a t e r i a l e m ca p ít u lo s. N o c u r s o d a t r a n s c r iç ã o
p a r a o vo l u m e d e c o u r o ve r m e l h o , ele a lt e r o u a lgu n s t ít u lo s d e c a p ít u lo s , a cr e s-
c e n t o u o u t r o s, e e d i t o u o m a t e r i a l m a is u m a ve z . O s co r t e s e a lt e r a ç õ e s fo r a m
p r e d o m i n a n t e m e n t e à se gu n d a c a m a d a d e i n t e r p r e t a ç ã o e e la b o r a ç ã o , e n ã o
ao p r ó p r i o m a t e r i a l d e fa n t a sia , e c o n s i s t i r a m p r i n c i p a l m e n t e n u m e n c u r t a -
m e n t o d o t e xt o . E e st a se gu n d a c a m a d a q u e Ju n g c o n t i n u a m e n t e r e e la b o r o u .
N a t r a n s c r iç ã o d o t e xt o p a r a e st a e d içã o , essa se gu n d a c a m a d a fo i i n d i c a d a , d e
fo r m a q u e a c r o n o lo gia e a c o m p o s i ç ã o e s t ã o visíve is. C o m o os c o m e n t á r i o s d e

95 Por exemplo, na p. 39 do Esboço corrigido, "Espantoso! Por que cortar?" está escrito à margem. Jung
evidentemente considerou este conselho e reteve as passagens originais. Cf. adiante p. 136.
3o LÍ BER N O V U S

Ju n g n a se gu n d a c a m a d a às ve z e s r e fe r e m - s e i m p l i c i t a m e n t e a fa n t a sia s q u e s ã o
e n c o n t r a d a s m a is a d ia n t e n o t e xt o , é t a m b é m ú t il l e r as fa n t a sia s d i r e t a m e n -
t e e m s u a s e q u ê n c ia c r o n o ló gic a , se gu id o d e u m a c o n t í n u a l e i t u r a d a se gu n d a
cam ad a.

Ju n g e n t ã o i l u s t r o u o t e xt o c o m a lgu m a s p in t u r a s , in ic ia is h is t o r ia d a s , b o r -

d a d u r a s o r n a m e n t a i s , e m a r ge n s. I n i c i a l m e n t e as p i n t u r a s se r e fe r e m d i r e t a -

m e n t e ao t e xt o . D e p o i s , elas se t o r n a m m a is s im b ó lic a s . Sã o im a g in a ç õ e s a t iva s

e m se u p r ó p r i o se n t id o . A c o m b i n a ç ã o d e t e xt o e i m a g e m l e m b r a as i l u m i n u r a s

d e W i l l i a m Bl a k e , c o m c u ja o b r a Ju n g t i n h a c e r t a fa m i l i a r i d a d e 9 6 .

U m r a s c u n h o p r e p a r a t ó r i o d e u m a d a s im a ge n s d o Líber Novus s o b r e vive u , o

q u e i n d i c a q u e elas fo r a m c u id a d o s a m e n t e co m p o st a s, c o m e ç a n d o c o m r a s c u -

n h o s a lá p is q u e fo r a m d e p o is e la b o r a d o s 9 7 . A c o m p o s i ç ã o d a s o u t r a s im a ge n s

p r o va ve lm e n t e s e gu ir a m p r o c e d i m e n t o s e m e lh a n t e . D a s p i n t u r a s d e Ju n g q u e

s o b r e vive r a m , é s u r p r e e n d e n t e q u e elas d ê e m u m sa lt o t ã o a b r u p t o d a s p a is a -

gen s d e 19 0 2- 19 0 3 ao a b s t r a io e s e m ifigu r a t ivo d e 191$ e m d ia n t e .

Ar t e e a Escola de Zurique
H o j e a b i b l i o t e c a d e Ju n g c o n t é m u n s p o u c o s l i vr o s d e a r t e m o d e r n a , e m b o r a

a lgu n s l i vr o s p o s s a m t e r p r o va ve l m e n t e se d is p e r s a d o ao lo n go d o s a n o s. E l e

t i n h a u m c a t á l o g o d o s t r a b a lh o s gr á fic o s d e O d i l o n Re d o n , a s s i m c o m o u m

e s t u d o s e u 9 8 . E l e p r o va ve l m e n t e c o n h e c e u o t r a b a lh o d e R e d o n q u a n d o e s -

t a va e m P a r is . Fo r t e s e co s d o m o v i m e n t o s i m b o l i s t a a p a r e c e m n a s p i n t u r a s

d o Líber Novus.

E m o u t u b r o d e 19 10 , Ju n g fez u m tour d e b i c i c le t a p e lo n o r t e d a It á lia c o m

se u co le ga H a n s Sc h m i d . Vi s i t a r a m Ra ve n a , e lá os afr escos e m o sa ico s ca u sa -

96 Em 1921, ele citou BLAKE . The Marriage of Heaven and Hell. O C , 6 §, 42211., § 460. • Em Psicologia e alquim ia ele
se refere a duas pinturas de Blake. O C , 12, fig. 14 e 19. • Em 11 de novembro de 1948, ele escreveu a Piloo
Nanavutty: "Acho Blake um estudo estonteante, já que ele conseguiu ajuntar tanto de um conhecimento
não digerido em suas fantasias. Assim como as vejo, elas são uma produção artística em vez de uma
representação autêntica de processos inconscientes" (Cartas, 2, p. 513-514).
97 Cf. adiante, Apêndice A.
98 R E D O N . Oeuvregraphiquecomplet. Paris: Secrétariat, 1913. • M ALLE RI O , André. Odilon Redon: Peintre,
Dessinateur et Graveur. Paris: H en ri Floury, 1923. H á também um livro sobre arte moderna, com uma
posição algo crítica: RAP H AEL, Max. Von Monetzu Picasso: Grundzúge einer Àsthetik und Entwicklung der
Modernen Malerei. Munique: Delphin Verlag, 1913.
I N T RO D U ÇÃO 3i

ram -lh e profun da im pressão. Parece que esses trabalh os t iveram u m im pact o
em suas pin t u ras: o uso de cores fortes, form as de m osaico, e figuras b id im en -
sion ais sem o uso d a p er sp ect iva".
Q u a n d o est ava em N o va Yo r k , e m 19 13, ele p r ovavelm en t e fo i ao A r -
m o r y Sh ow, que foi a p r im e ir a gran d e exib ição in t e r n a cio n a l de art e m o -
d er n a n a Am é r ic a ( a m o st r a foi at é 1$ de m ar ço, e Ju n g p a r t iu p ar a N o va
Yo r k em 4 de m a r ço ) . Ele se r e fe r iu ao qu ad ro Nu descendo um a escadaria, de
Mar eei Du ch a m p s, em seu sem in ár io de 19 2 5, que n a m o st r a cau sou fu -
r o r 10 0 . Nesse sem in ár io, t am b ém r efer iu -se a t er est u d ad o o d esen volvi-
m en t o d a p in t u r a de Picasso. D a d a a falt a de evid ên cia de est u d os ext en sos,
o con h ecim en t o de Ju n g sobre art e m o d er n a p rovavelm en t e d erivava-se
m ais im ed iat am en t e de exp er iên cia d ir et a.
Du r an t e a Pr im eir a Gu e r r a Mu n d ial, houve con tatos en t re os m em bros da
Escola de Zu r iq u e e os art ist as. Am b o s eram part e de m ovim en t os de avant-gar-
de, partes de círculos sociais en t r elaçad os 10 1. Em 19 13, Er ik a Schlegel p rocu rou
Ju n g para an álise. El a e seu m arido, Eu gen Schlegel, eram am igos de To n i W o l -
ff. Er ik a Schlegel era irm ã de Soph ie Taeuber, e t orn ou -se a bibliot ecária do
Clu b e Psicológico. Mem bros do Clu b e Psicológico eram con vidados a alguns
dos even tos do m ovim en t o Dad á. N a celebração da abert u ra da Galer ia Dad á
em 2 9 de m arço de 1917, H u go Ba ll repara em m em bros do Clu b e n a au d iên -
c i a 10 2 . O program a daquela n oit e in cluía dan ças abst raías de Soph ie Taeu ber e
poem as de H u go Ball, H an s Ar p e Tr ist an Tzara. Soph ie Taeuber, que h avia es-
tudado com Lab an , organ izou u m aula de dan ça para m em bros do Clu b e ju n t o
com Ar p . U m baile de m áscaras t am bém acon teceu e ela desen h ou as fan t a-
sia s 10 3 . Em 19 18 , ela apresen t ou u m espet áculo de m arion et es, "Ki n g Deer ",
em Zu riq u e. Passava-se n o bosque ju n t o ao Bu rgh õlzli. Fr eu d An alyt iku s, em
lu t a com Dr . O ed ip u s Com p lex, é t ran sform ado n u m papagaio pela Ur - Lib id o ,
parodicam en t e puxan do temas de Tranformações e símbolos da libido, de Jun g, e seu

9 9 Ju n g vis it o u Ra ve n a n o va m e n t e e m a b r il d e 1914.
10 0 Introductíon to Jungian Psychology, p. 59.
101 Cf. Z U C H , Ra in e r . DíeSurrealisten und C.G.Jung: St u d ie n z u r Re z e p t io n d er a n a lyt isch e n Psych ologie i m
Su r r e a lism u s a m Be isp ie l vo n M a x Er n s t , Vi c t o r Br a u n e r u n d H a n s Ar p . W e im a r : V D G , 2 0 0 4 .
102 Flight out of Tim e, p. 102.
103 S T R O E H , Gr e t a . "Bio gr a p h ie ". I n : Sophie Taeuber: 15 D é c e m b r e 19 8 9 - M a r s 19 9 0 , Mu sé e d a r t m o d e r n e
de la ville d e Par is. Par is: Pa r is-m u sé e s, 19 89 , p. 124. • En t r e vis t a c o m Al i n e Va la n gin , ar q u ivo b io gr á fico de
Ju n g, Co u n t w a y Li b r a r y o f Me d icin e , p. 29 .
32 LI BE R N O VU S

c o n flit o c o m F r e u d 10 4 . En t r e t a n t o , as r e la ç õ e s e n t r e o c ír c u lo de Ju n g e a lgu n s
dos dadaíst as ficaram m ais tensas. E m m aio de 1917, Em m y H en n in gs escreveu
a H u go Ball que o "psicoclu be" t in h a ido e m b o r a 10 5 . E m 19 18 , Ju n g cr it icou o
m ovim en t o Dad á n u m a pu blicação suíça, o que n ão escapou da at en ção dos d a-
d a íst a s 10 6 . O elem en t o crít ico que separou o trabalh o pict órico de Ju n g daquele
dos dadaíst as foi sua ênfase ext rem ad a n o significado, n o sen tido.
As au t oexperim en t ações e os experim en t os criat ivos de Ju n g n ão ocorreram
n u m vácuo. Du r an t e esse períod o, h avia gran de in teresse em art e e n a p in t u r a
em seu círculo. Alp h on se Maeder escreveu u m a m on ografia sobre Fer d in an d
H o d le r 10 7 , e m an t eve u m a correspon d ên cia am igável com e le 10 8 . Por volt a de
19 16 , Maeder teve u m a série de visões ou fantasias acordado, que ele p u blicou
sob pseu d ón im o. Q u an d o com en t ou com Ju n g sobre tais even tos, Ju n g disse:
"O que, você t a m b é m ?" 10 9 H a n s Sch m id t am bém escrevia e p in t ava suas fan -
tasias em algo sem elh an te ao Líber Novus. Molt zer era in t eressada em au m en t ar
as atividades art íst icas da escola de Zu riq u e. Ela sen t ia que n o círculo deles
faltavam art ist as e con siderava Rik lin u m m o d e lo 110 . J.B. Lan g, que t in h a sido
an alisado por Rik lin , com eçou a p in t ar quadros sim bólicos. Molt zer t in h a u m
livro que ela ch am ava de sua Bíblia, n o qual ela desen hava e escrevia. El a reco-
m en dava a sua pacien t e Fan n y Bo wd it ch Ka t z que fizesse o m esm o 111.
Em 19 19 , Rik lin expôs alguns de seus quadros com o parte da "N e w Life"
n o Ku n st h au s em Zu r iq u e, descritos com o u m grupo de expression ist as suíços,

104 O s b on ecos est ão n o M u s e u Be lle r ive , e m Zu r iq u e . Cf. M I K O L , Br u n o . "Su r le t h eat r e de m a r io n n e t t e s


d e So p h ie Ta e u b e r - Ar p ". Sophie Taeuber. 15 D é c e m b r e 19 8 9 - M a r s 19 9 0 , Mu sé e d a r t m o d e r n e d e la ville de
Par is, p. 59 - 6 8 .
105 B A L L , H u g o & H E N N I N G S , Em m y. Dam als in Zurich: Br ie fe aus d e n Ja h r e n 1915-1917. Zu r iq u e : D i e
Ar c h e , 1978, p. 132.
106 J U N G . "So b r e o In co n scie n t e ". O C , 10, § 4 4 . • P H A R M O U S E . DadaReview, 39 1,19 19 . TZARA,
Tr is t a n . Dada, 4-5, 1919. Zu r iq u e .
107 FerdinandHolder. Ei n e Sk iz z e sein er seelisch en En t w i c k l u n g u n d Be d e u t u n g fu r d ie sch we iz e r isch -
n a t io n a le Ku lt u r . Zu r iq u e : Rasch er , 1916.
108 Escr it o s de Maed er.
10 9 En t r e vis t a co m Maed er , a r q u ivo b io gr á fico Ju n g, Co u n t w a y Li b r a r y o f Me d icin e , p. 9.
n o Fr a n z Ri k l i n a So p h ie Ri k l i n , 20 de m a io de 1915, escr it os de Ri k l i n .
in E m 17 de agost o de 1916, Fa n n y Bo w d i t c h Ka t z , qu e est ava e m an álise c o m ela n a ép o ca, a n o t o u e m seu
d iár io : "So b r e seu [o u seja, d e M o lt z e r ] livr o - su a Bíb lia - d esen h os cad a u m co m a n o t a çõ e s - o qu e
t a m b é m d evo fazer". D e acord o co m Ka t z , Mo lt z e r via suas p in t u r as co m o "p u r am en t e su b jet ivas, n ã o com o
t rab alh os de ar t e" (31 de ju lh o , Co u n t wa y Lib r a r y o f Me d icin e ) . E m o u t r a ocasião, Ka t z ob ser va qu e Mo lt z e r
"falava de Ar t e , art e de verd ad e, com o exp r essão d a r eligião" ( 24 de agosto, 1916. Ib id .) . E m 1916, Mo lt z e r
ap r esen t ou in t er p r et ações p sicológicas de algu n s qu ad ros de Ri k l i n n u m a p alest r a n o Clu b e Psicológico ( c f
m e u Cult Fictions: Ju n g a n d t h e Fo u n d in g o f An a lyt ica l Psych ology. Lo n d r es: Rou t led ge, 1998, p. 102. Sob re
La n g, cf. F E I T K N E C H T , T h o m a s (o r g.). "Die dunkle und wildeSeite der Seele": Herm ann Hesse- Br iefwech sel m i t
se in e m Psych o a n a lyt ik e r Jo se f La n g, 19 16-19 44. Fr a n k fu r t : Su h r k a m p f 2 0 0 6 .
I N T RO D U ÇÃO 33

ju n t o com H an s Ar p , Soph ie Taeuber, Fran cis Picabia e Au gu st o Gia co m e t t i 112 .


Co m suas con exões pessoais, Ju n g pod eria facilm en t e t er exposto alguns de
seus trabalh os em lugares com o estes, se assim tivesse querido. Port an t o, sua
recusa em con siderar seus trabalh os com o art e ocorre n u m con t ext o em que
h avia possibilidades reais para ele t er tom ado esse cam in h o.
Em algumas ocasiões, Ju n g d iscu t ia arte com Er ik a Sch legel. Ela regist rou a
seguinte con versa:

Eu usei meu medalhão de pérola (o ornamento de pérolas que Sophie fez


para m im ), na casa de Jung ontem. Ele gostou muito, o que o levou de pronto
a falar animadamente sobre arte, por quase uma hora. Ele falou sobre Riklin ,
um dos alunos de Augusto Giacom etti, e observou que, embora seus trabalhos
menores tinham um certo valor estético, os maiores simplesmente desapare-
ciam. Na verdade, ele mesmo desaparecia totalmente em sua arte, tornando-o
extremamente inatingível. Seu trabalho era como um a parede na qual a água
escorria ondulada. Ele portanto não podia analisá-la, um a vez que isso reque-
riria de nós que estivéssemos focados e bem orientados, como uma faca. De
um certo modo, ele havia tropeçado na arte. Mas a arte e a ciência não eram
mais que os servos do espírito criativo, que é o que deve ser servido.
Com relação a m eu próprio trabalho, a questão também era chegar a
uma conclusão se era realmente arte. O s contos de fadas e as pinturas t i -
nham u m sentido religioso no fundo. Eu também sabia que de alguma for-
ma e em algum momento a arte deve alcançar as pessoas 113.

Para Ju n g, Fr an z Rik lin parecia ser algo com o u m doppelganger, cujo dest in o
ele se preocupava em evitar. Essa afirm ação t am bém in d ica a relat ivização que
fazia Ju n g do status da arte e da ciên cia à qual ele chegou por m eio de sua au t o-
experim en t ação.
Assim , o Líber Novus n ão era de form a algum a u m a atividade pecu liar ou
idiossin crát ica, t am pouco o prod u t o de u m a psicose. E m vez disso, ele in d ica as
in t ersecções tão p róxim as en t re a exp erim en t ação art íst ica e a psicológica com
a qual t an t os in d ivíd u os est iveram engajados n aquela época.

112 DasNeueLeben", Erst Ausstellung. Zu r iq u e : Ku n s t h a u s . J. B. La n g r e co r d a u m a o casiã o e m qu e ele est ava n a


casa d e Ri k l i n q u an d o est avam t a m b é m p r esen t es Ju n g e Au gu st o Gia c o m e t t i (píary, 3 d e d e z e m b r o de
1916, p. 9, La n g p ap ers, Swiss Lit e r a r y Ar c h ive s , Be r n a ) .
113 11 d e m a r ço d e 1921, Ca d e r n o s, escr it os de Sch legel.
34 LI BE R N O VU S

O e xp e r im e n t o co le t ivo
Em 19 15, Ju n g m an t eve u m a lon ga corresp on d ên cia com seu colega H a n s
Sch m id sobre a qu est ão do en t en d im en t o de tipos psicológicos. Essa corre-
spon d ên cia n ão d á sin ais diret os da au t oexperim en t ação de Ju n g, e in d ica que
as teorias que ele desen volveu duran t e esse p eríod o n ão em ergiram som en te
de sua at ividade de im agin ação at iva, mas que t am bém , em part e, con sist iram
do t eorizar psicológico con ven cion al 114 . E m m arço de 19 1$, Ju n g escreveu para
Sm it h Elyje liffe :

Ain d a estou com o exército n um a cidadezinha onde tenho m uito trabalho


prático e cavalgo bastante... At é que tive que me jun t ar ao exército, vivia
quieto e devotava m eu tempo a meus pacientes e a m eu trabalho. Estava
trabalhando particularm ente nos dois tipos de psicologia e sobre a síntese
das tendências in con scien t es 115.

Du r an t e sua au t oexploração, ele exp erim en t ou estados de t u m u lt o. Ele le m -


bra que exp erim en t ou grande m edo, e que algumas vezes agarrava-se à m esa
para m an t er-se sã o 116 . Du r an t e este períod o, ele n ot ou que "sen t ia-m e m u it as
vezes de t al form a agitado que r ecor r i a exercícios de yoga para desligar-m e das
em oções. Mas com o m eu in t u it o era fazer a experiên cia do que se passava em
m im , só m e en tregava a tais exercícios para recobrar a calm a, a fim de ret om ar
o t rabalh o com o in con scien t e 117 ."
Lem b r a que To n i W o lff foi at raída para o processo n o qual ele estava en -
volvid o, e experim en t ava u m sem elh an te fluir de im agens. Ju n g percebeu que
pod ia d iscu t ir suas experiên cias com ela, mas ela estava desorien t ada e n a m es-
m a con fu são 118 . D a m esm a form a, sua esposa era in capaz de ajudá-lo. Con se-
quen t em en t e, ele n ot ou que "ser capaz de perseverar foi em fun ção de força
b r u t a " 119 .

114 B E E B E , Jo h n & F A L Z E D E R , Er n s t ( o r gs.) . Phílem onSeries [n o p r e lo ].


115 B U R N H A M , Jo h n . Jelíffe: Am e r i c a n Psych oan alyst a n d P h ys ic ia n & H i s Co r r e sp o n d e n ce w i t h Sigm u n d
Fr e u d a n d C G . Ju n g. Ch ica go : U n ive r s it y o f Ch ica go Press, 1983, p. 19 6 -19 7 [or gan izad o p o r W i l l i a m
M c Gu i r e ] .
116 M P , p. 174.
117 Mem órias, p. 157-158.
118 MP, p. 174.
119 Ib id .
I N T RO D U ÇÃO 35

O Clu b e Psicológico h avia sido fundado n o com eço de 19 16 , por m eio de


u m a d oação de 36 0 . O O O fran cos suíços de Ed it h Rockefeller McCo r m ick , que
t in h a vin d o a Zu r iq u e para ser an alisada por Ju n g em 19 13. E m seu com eço
con t ava com aproxim adam en t e sessenta m em bros. Para Ju n g, o objet ivo do
Clu b e era estudar as relações dos in d ivíd u os com o grupo, e forn ecer u m a m -
bien t e n at u ralist a para que a observação psicológica ultrapassasse as lim it ações
da an álise feit a de in d ivíd u o para in d ivíd u o, assim com o forn ecer t am bém u m
espaço on de pacien tes pudessem apren der a se adaptar a situações sociais. Ao
m esm o tem po, u m corpo de an alistas profission ais con t in u ou a se en con t rar
com o Associação de Psicologia An a lít ica 120 . Ju n g p art icip ou in t egralm en t e em
ambas essas organ izações.
A au t oexp erim en t ação de Ju n g t am bém in t r od u ziu u m a m u -d an ça em seu
trabalh o an alítico. Ele en corajava seus pacien tes a em barcar em processos se-
m elh an t es de au t oexperim en t ação. O s pacien tes eram in st ru íd os sobre com o
con d u zir a im agin ação at iva, a m an t er diálogos in t ern os, e a p in t ar suas fan t a-
sias. Ele en carou suas próprias experiên cias com o paradigm át icas. N o sem in á-
rio de 19 25, observou: "Re t ir o todo m eu m at erial em pírico de m eus pacien tes,
mas a solução do problem a eu ret iro de den t ro, de m in h as observações dos
processos in con scien t es"121.
T i n a Keller, que estava em an álise com Ju n g desde 19 12, lem b ra que Ju n g
"com frequên cia falava de si m esm o e de suas próprias experiên cias":

Naqueles dias do começo, quando se chegava para a h ora de análise, o as-


sim chamado "livro verm elh o" ficava aberto n u m cavalete. Nele, Dr . Jun g
h avia pintado algo ou t in h a acabado um desenho. Às vezes ele me m ost ra-
va o que t in h a feito e comentava algo a respeito. O trabalho cuidadoso e
preciso que ele colocava nessas pinturas e nos textos tipo ilum in uras que
as acompanhavam, testemunhavam a im portân cia da tarefa. O mestre en -
tão dem onstrava ao estudante que o desenvolvimento psíquico demandava
tempo e esfor ço 122 .

120 So b r e a fo r m a çã o d o Clu b e , cf. m e u Cult Fictions: C G . Ju n g a n d t h e Fo u n d in g o f An a lyt ic a l Psych ology.


121 Introâuctíon to Jungian Psychology, p . 35.
122 C G . Ju n g: So m e m e m o r ie s a n d r eflect io n s". InwardLight, 35,19 72, p . I I . Sob r e T i n a Ke lle r , cf. S W A N ,
W en d y. C. G.Jung and Active Im agination. Sa a r b r ú ck e n : V D M , 20 0 7.
36 LI BE R N O VU S

Em suas an álises com Ju n g e com To n i W o lff Keller fez im agin ação at i-


va e t am bém p in t ou . Lon ge de ser u m a em preit ad a solit ária, o con fron t o de
Ju n g com o in con scien t e era algo coletivo, para o qu al ele con vocava t am bém
seus pacien tes. Aqu elas pessoas ao redor de Ju n g form avam u m grupo avant-garde
engajadas n u m exp erim en t o social que esperavam pudesse t ran sform ar suas
vidas, e as vidas em t orn o delas.

O r et or n o dos m or t os
Em m eio ao m assacre sem preceden tes que a gu erra t rou xe, o t em a do ret or-
n o dos m ort os estava dissem in ado, com o n o film e de Ab e l Gan ce, faccuse123.
A badalada d a m ort e t am bém levou a u m in teresse ren om ado n o espirit ism o.
Ap ó s aproxim ad am en t e u m ano, Ju n g com eçou a escrever n ovam en t e nos Liv-
ros Negros, em 19 1$, com u m a n ova série de fantasias. Ele já h avia com pletado o
esboço m an u scrit o do Líber Prímus e do Líber Secundus124. N o in ício de 19 16 , Ju n g
exp erim en t ou u m a série im pression an t e de eventos parapsicológicos em su a
casa. E m 19 23, ele n ar r ou esses even tos a Ca r y de An gu lo (depois Bayn es). El a
o regist rou da seguinte form a:

Nu m a noite, seu filho com eçou a agitar-se em seu sono e a debater-se d i-


zendo que não conseguia acordar. Fin alm en te, sua m ulher teve que chamar
você para acalm á-lo e isto você só pode fazer colocando panos frios sobre
ele. Fin alm en te ele se acalmou e con tin uou a dorm ir. Na manhã seguinte ele
acordou sem se lem brar de nada, mas parecia extremamente exausto, então
você disse a ele para não ir à escola, ele não perguntou por que, mas pareceu
concordar. Mas m uito inesperadamente ele pediu papel e lápis coloridos e
com eçou a trabalhar no seguinte desenho: u m homem estava pescando com
lin h a e anzol no meio do desenho. A esquerda estava o diabo dizendo algo
ao hom em , e seu filho escreveu o que ele disse. E que ele tin h a vin do até o
pescador porque ele estava pegando seus peixes, mas à direit a estava um
anjo que disse: "Não, não podes levar este hom em , ele só está levando os

123 Cf. W I N T E R . Sites of Mem ory, Sites ofMourning, p. 18, 6 9 ,133-144.


124 H á u m a n o t a a d icio n a d a n o Livro Negro $ n est e p on t o: "N e st e m o m e n t o as p ar t es I e 11 [d o Livro Verm elho]
fo r a m escr it as. Im e d ia t a m e n t e ap ós o in ício d a gu e r r a " (p . 8 6 ) . To d a a a n o t a çã o est á e scr it a c o m a
caligr afia d e Ju n g, e "d o Livro Verm elho" fo i acr escen t ad o p o r o u t r a pessoa.
I N T RO D U ÇÃO 37

peixes ruin s e n en hum dos bons". Então, depois que seu filho fez este dese-
nho, ele ficou bem contente. Na mesma noite, duas de suas filhas pensaram
ter visto assombrações em seus quartos. No dia seguinte, você escreveu os
"Sete sermões aos m ortos", e você sabia que depois disso nada mais pert ur-
baria sua família, e nada mais de fato aconteceu. É claro que eu sabia que
você era o pescador no desenho de seu filho, e você me disse isso, mas o
m enino não sabia I2S.

Em Memórias, Ju n g con t a o seguinte:

Por volt a das cinco da tarde no domingo, a campainha da porta de entrada


com eçou a soar insistentemente... Todos imediatamente olharam para ver
quem estava lá, mas não dava para ver ninguém. Eu estava sentado próxim o
à campainha da porta e não a ouvi, mas a vi mover-se. Nós nos en treolha-
mos, estupefatos! A atmosfera era terrivelm ente opressiva, acredite! Percebi
que algo ia acontecer. A casa parecia repleta de um a multidão, abarrotada
de espíritos. Estavam por toda a parte, até mesmo debaixo da porta, m al se
podia respirar. Q u an t o a m im , eu me debatia com a questão: "Pelo amor de
Deus, o que é isto>" Houve então um a resposta uníssona e vibrante: "Nós
voltamos de Jerusalém , onde não encontramos o que buscávamos". Essas
palavras correspondem às prim eiras linhas dos Septem Serm ones ad Mortuos.
As palavras puseram-se então a fluir espontaneamente, e em três noites a
coisa estava escrita. Mal eu começava a escrever, toda a coorte de espíritos
desvaneceu-se. A fantasmagoria term in ara. A sala tornou-se tranquila, a at-
mosfera pura até a noite do dia segu in t e 126 .

O s m ort os t in h am aparecido n u m a fan t asia em 17 de jan eiro de 19 14 , e t in h am


d it o que estavam prestes a ir a Jeru salém para orar nos t ú m u los m ais sagrad os 127.
Sua viagem eviden t em en t e n ão t in h a sido bem -su cedida. O s Septem Serm ones ad
Mortuos é o pon t o cu lm in an t e das fantasias desse períod o. E u m a cosm ologia
psicológica dispost a n a form a de u m m it o de criação gn óst ico. Nas fantasias de
Jun g, u m n ovo Deu s t in h a n ascido em sua alm a, o Deu s que é o filh o dos sapos,
Abraxas. Ju n g com preen d eu ist o sim bolicam en t e. Ele via est a figu ra rep re-

125 CFB.
126 Mem órias, p. 169.
127 C f ad ian t e, p. 297.
38 LI BE R N O VU S

s e n t a n d o a u n ific a ç ã o d o D e u s c r ist ã o c o m sa t ã , p or t an t o apresen t an d o u m a

t ran sform ação n a im agem d ivin a ocid en t al. Só em 19 52, em Resposta a Jó, Ju n g
elaboraria esse t em a em público.
Ju n g h avia estudado a lit er at u r a do gn ost icism o n o p eríod o de leit u ras p re-
lim in ares para seu Transformações e símbolos da libido. Em jan eiro e ou t u bro de 19 15,
du ran t e o serviço m ilit ar, est udou as obras dos gn óst icos. Dep ois de t er escri-
t o os Septem Serm ones n os Livros Negros, Jung recop iou -os n u m esb oço caligráfi-

co, n u m volu m e separado, rearran jan d o u m pouco a sequên cia. Ad icio n o u a


seguinte in scrição com o subt ít ulo: "O s sete serm ões aos m ort os, escritos p or
Basilid es em Alexan d r ia, a cidade on de o O r ie n t e en con t ra o O cid e n t e "128 .
Ju n g en t ão au t orizou a publicação em carát er part icu lar, sob a form a de folh e-
to, acrescen tan do: "Tr ad u zid o do origin al grego para o alem ão". Essa legen da
in d ica os efeitos est ilíst icos sobre Ju n g dos estudos clássicos do século X I X .
Ele lem b ra que os escreveu por ocasião da fun dação do Clu b e Psicológico, e os
en carava com o u m presen te a Ed it h Rockefeller McCo r m ick por t er fundado
o clu b e 129 . O fereceu cópias a am igos e con fiden t es. Ao en tregar u m a cópia a
Alp h on se Maeder, escreveu:

Não podia atrever-m e a colocar nele o m eu nome, mas escolhi o nome de


uma grande figura espiritual dos prim eiros tempos do cristianism o, figura
essa que o cristian ism o relegou. Caiu -m e do céu, repentinamente, como u m
fruto maduro n a aflição de um tempo difícil; ele acendeu-me um a luz de
esperança e consolo nas horas de d or I3°.

Em 16 de jan eiro de 19 16 , Ju n g desen h ou u m m an d ala nos Livros Negros (ver


Ap ên d ice A ) . Er a o p rim eiro esboço do "Syst em a Mu n d it ot iu s". Passou en t ão
a pin t á-lo. Em seu verso, escreveu em in glês: "Est e é o p r im eir o m an d ala que
con st ru í n o ano de 19 16 , in t eiram en t e in con scien t e do que sign ificava". As fan -
tasias dos Livros Negros con t in u aram . O "Syst em a Mu n d it ot iu s" é u m a cosm olo-
gia pict órica dos Sermones.

128 O Ba silid e s h ist ó r ico fo i u m gn ó st ico q u e e n sin o u e m Al e xa n d r i a n o sécu lo I I . Cf. n o t a 8 1, p. 4 4 8 .


129 MP, p. 26 .
130 19 d e Ja n e ir o d e 1917. Cartas. Vo l. I , p. 4 9 . Ao e n via r u m a có p ia d os Serm ones a Jo la n d e Jaco b i, Ju n g os
d escr eveu co m o "u m a cu r io sid ad e d a o ficin a d o in co n scie n t e " ( 7 d e o u t u b r o d e 1928, J A ) .
I N T RO D U ÇÃO 39

En t r e n de ju n h o e 2 de out ubro de 1917, Ju n g prest ava o serviço m ilit ar


em Ch at eau d 'O ex, com o com an dan t e dos prision eiros de gu erra ingleses. Por
volt a de agosto, escreveu a Sm it h Ely Jeliffe que seu serviço m ilit ar o t in h a r o u -
bado com plet am en t e de seu t rabalh o e que, n a sua volt a, esperava con clu ir u m
longo en saio sobre os t ipos. Con clu ía a cart a dizen do: "Con osco tudo p er m a-
nece in alt erad o e quieto. Tu d o o m ais está en golido pela guerra. A psicose est á
ain d a crescen do, co n t in u an d o "131.
Nesse m om en t o, sen t ia que estava ain d a n u m estado de caos que só com e-
çou a clarear pert o do fin al da gu er r a 132 . D o com eço de agosto até o fin al de se-
tem bro, ele desen h ou u m a série de vin t e e sete m an dalas a lápis em seu cadern o
m ilit ar, que con ser vou 133. A prin cípio n ão en t en d ia esses m an dalas, mas sen t ia
que eram m u it o sign ificat ivos. A p ar t ir de 2 0 de agosto, desen h ava u m m an d ala
quase todos os dias. Ist o lh e dava a sen sação de t er feito u m a fotografia de cada
d ia e observava com o esses m an dalas m u davam . Ele lem b ra t er recebido u m a
cart a dessa m u lh er h olan desa que lh e en ervou t er r ivelm en t e 134 . Nessa cart a,
essa m u lh er, ou seja, Molt zer, defen dia "a op in ião de que as fantasias que n as-
cem do in con scien t e possuem u m valor art íst ico, pert en cen do, port an t o, ao
d om ín io d a a r t e "135 . Ju n g ficou pert u rbado porque a opin ião n ão era est ú pid a
e, além do m ais, os pin t ores m odern os estavam t en t an do fazer arte a p ar t ir do
in con scien t e. Ist o despert ou n ele u m a d ú vid a se suas fantasias eram de fato
espon t ân eas e n at u rais. N o d ia seguin te, desen h ou u m m an d ala, e u m a de suas
partes estava quebrada, fora de sim et ria:

Só pouco a pouco com preendi o que significa propriam ente o mandala:


"Form ação - Transformação, etern a recriação da Et ern a Mente". O m an -
dala exprim e o si-mesmo, a totalidade da personalidade que, se tudo está
bem , é harm oniosa, mas que não perm ite o autoengano.
Meus desenhos de mandalas eram criptogramas que me eram diariam ente
comunicados acerca do estado de m eu "si-m esm o"136 .

131 B U R N H A M , Jo h n C . Jeliffe: Am e r i c a n Psych oan alyst a n d P h ysicia n & H i s Co r r e sp o n d e n ce w i t h


Sigm u n d Fr e u d a n d C G . Ju n g, p. 199 [o r gan izad o p o r W i l l i a m M c Gu i r e , p. 19 9 ].
132 MP, p. 172.
133 Cf. Ap ê n d i c e A .
134 Mem órias, p. 173.
135 Ib id .
136 Ib id .
4o LI BE R N O VU S

O m an d ala em qu est ão parece ser o de 6 de agosto de 19 17 137 . A segunda


lin h a é do Fausto, de Goet h e. Mefist ófeles est á falando a Fausto, d an d o-lh e d i -
reções n o rein o das Mães:

M EF I ST Ó F ELES:
U m trípode brilh an te m ost rar-t e-á
que estás no terreno mais profundo, o mais profundo de todos
Por sua luz verás as Mães:
umas estão sentadas, outras estão de pé e andam,
como pode acontecer. Formação, transformação
a recreação etern a da mente eterna.
En voltos em imagens de todas as criaturas,
eles não te veem , pois veem apenas vultos.
Então, cobra ânimo, pois o perigo é grande,
e vai direto até esse trípode,
toca-o com a ch ave!138

A cart a em qu est ão n ão veio à lu z. Con t u d o, n u m a cart a subsequente in é-


d it a de 2 1 de n ovem bro de 19 18 , ain d a en quan t o estava em Ch at eau d 'O ex,
Ju n g escreveu que " M . Molt zer de n ovo p ert u rb ou -m e com suas car t as"139 . Ele
rep rod u ziu os m an dalas n o Líber Novus. Ele observou que foi d u ran t e este pe-
ríod o que u m a id eia viva do si-m esm o apresen tou-se a ele pela p r im eir a vez:
"Ele m e aparecia com o a m ôn ad a que sou e que é m eu m un do. O m an d ala
represen t a esta m ôn ad a e correspon de à n at u reza m icrocósm ica d a a lm a " 14 0 .
Nesse m om en t o ele n ão sabia on de este processo o estava levan do, m as com e-
çou a perceber que o m an d ala represen t ava a m et a do processo: "Só quan do
com ecei a p in t ar os m an dalas vi que o cam in h o que seria n ecessário p ercorrer
e cada passo que d evia dar, t udo con vergia para u m dado pon to, o do cen t ro.
Com p r een d i sem pre m ais claram en t e que o m an d ala exp rim e o cen t ro e que é

137 Cf. Ap ê n d i c e A .
138 Fausto, 2, At o I , 6287S.
139 C a r t a in éd it a , AFJ. Exis t e t a m b é m u m q u ad r o se m d a t a d e M o lt z e r q u e p ar ece ser u m m a n d a la
q u ad r ad a, q u e ela d escr eve e m b r eve n o t a co m o " U m a a p r e se n t a çã o p ict ó r ica d a In d ivid u a çã o o u d o
p r ocesso d e In d ivid u a çã o " ( Bib lio t e ca , Cl u b e Psico ló gico , Zu r i q u e ) .
140 Mem órias, p. 174. As fon t es m a is im ed ia t a s p a r a a in sp ir a çã o d e Ju n g sob r e o co n ce it o d o si- m e sm o
p a r e ce m ser as co n ce p çõ e s d e At m a n / Br a h m a n n o h in d u ísm o , q u e ele d iscu t iu e m seu Tipos psicológicos d e
1921, e e m cer t as p ar t es d e seu Zaratustra d e N ie t z sch t e . Cf. ad ian t e, n o t a 29, p. 421.
I N T RO D U ÇÃO 4i

a expresão de todos os ca m in h o s"14 1. Du r an t e os anos 19 2 0 , a com preen são de


Ju n g em t orn o do m an d ala aprofun dou-se.
O Esboço con t in h a fantasias de out ubro de 19 13 at é fevereiro de 19 14 . N o
in vern o de 1917, Ju n g escreveu u m m an u scrit o n ovo ch am ado Aprofundamentos,
que in icia on de ele h avia parado. Nele, t ran screveu fantasias de abril de 19 13 até
ju n h o de 19 16 . Co m o nos dois p rim eiros livros de Líber Novus, Ju n g en t rem eou
as fan t asias com com en t ários in t er p r et at ivos 14 2 . Ele in clu iu os Sermones nesse
m at erial, e en t ão ad icion ou os com en t ários de Filêm on a cada serm ão. Nest es,
Filêm on salien t ava a n at u reza com p en sat ória de seus en sin am en t os: ele d eli-
beradam en t e salien t ava m ais precisam en t e aquelas con cepções que falt avam
aos m ort os. Aprofundam entos for m a efet ivam en t e o Líber Tertíus do Líber Novus. A

sequên cia com plet a do t ext o seria en t ão a seguinte:

Líber Prímus: "O cam inho daquele que virá"


Líber Secundus: "As imagens do erran te"
Líber Tertíus: "Aprofun dam en tos"

Du r an t e esse períod o, Ju n g con t in u ou t ran screven do o Esboço n o volum e


caligráfico e acrescen tan do pin t u ras. As fantasias dos Livros Negros t orn aram -se
in t erm it en t es. Ele represen t ou sua percepção do significado do si-m esm o, que
ocorrera n o out un o de 1917, n o Aprofundamentos143. Est e con t ém a visão de Ju n g do
Deu s ren ascido, cu lm in an d o n o ret rat o de Abraxas. Ele percebeu que m u it o do
que lh e foi dado n a part e in icial do livro (ou seja, Líber Prímus e Líber Secundus) na
realidade lh e foi entregue por Filê m o n 14 4 . Ele percebeu que h avia n ele u m p ro-
fético velh o sábio, a qu em ele n ão era idên tico. Isso represen t ou u m a d esid en t i-
ficação crítica. Em 17 de jan eiro de 19 18 , Ju n g escreveu a J.B. Lan g:

O trabalho com o inconsciente tem que acontecer prim eiro e mais in t en -


samente para nós, conosco. Nossos pacientes irão se beneficiar dele in d i-
retamente. O perigo consiste n a ilusão do profeta, que é com frequência o

141 Ib id .
142 N a p. 23 d o m a n u scr it o d e Aprofundam entos, é in d ica d a u m a d at a: "27/ u/ 17", q u e su gere q u e fo r a m escr it os
n o segu n d o sem est r e d e 1917 e, p o r t an t o , ap ó s as e xp e r iê n cia s d o s m an d alas e m Ch a t e a u d ' O e x.
143 Cf. ad ian t e, p. 407S.
144 Cf. ad ian t e, p. 4 26 .
42 LI BE R N O VU S

resu lt ad o d e se lid a r com o inconsciente. É o diabo que diz: desdenhe toda a


razão e a ciência, os altos poderes da humanidade. Isto nunca é apropriado,
ainda que estejamos forçados a reconhecer (a existência do) irracion al 14 5 .

A tarefa crít ica de Ju n g de "exam in ar em det alh es" suas fantasias era a de
d iferen ciar as vozes e as personagens. Por exem plo, nos Livros Negros é Ju n g que
d it a os Sermones aos m ort os. E m Aprofundamentos n ão é Ju n g, mas Filêm on que
os d iz. Nos Livros Negros a p rin cip al figura com qu em Ju n g t em diálogos é sua
alm a. E m algumas seções do Líber Novus é, por sua vez, a serpen te e o pássaro.
N u m a con versa de jan eiro de 19 16 , sua alm a lh e exp lica que, quan do o Alt o e o
Baixo n ão est ão u n idos ela, se d esped aça em três partes — u m a serpen te, a alm a
h u m an a, e o pássaro ou alm a celest ial, que visit a os deuses. Assim , a revisão de
Ju n g aqui pode ser en carada com o u m reflexo de sua com preen são da n at u reza
t rip art it e de sua a lm a 14 6 .
Du r an t e esse períod o, Ju n g con t in u ou a t rabalh ar em seu m at erial, e h á a l-
guns in dícios de que o d iscu t ia com seus colegas. E m m arço de 19 18 , escreveu a
J.B. Lan g, que lh e h avia en viado algumas de suas próprias fantasias:

Não gostaria de dizer nada mais a não ser en corajá-lo a con t in uar com
essa abordagem pois, como você mesmo tão corretam en te observou, é
m uit o im port an t e que experim en tem os os con teúdos do in con scien te an -
tes de form arm os qualquer opin ião a respeito. Con cord o bastante com
você que temos que abraçar o con h ecim en to da gnose e do neoplatonism o,
já que estes são os sistemas que con têm o m at erial adequado para form ar a
base de um a t eoria do espírito in con scien te. Ven h o trabalhando com isto
há bastante tempo, e tive grandes oportunidades de comparar, ao menos
parcialm en te, m in has experiên cias com as de outros. Est a é a razão de ter
ficado tão satisfeito em escutar praticam en te as mesmas coisas de você.
Est ou contente que você t en h a descoberto por si mesmo essa área de t ra-
balho que está pron t a a ser atacada. At é agora, eu não t in h a trabalhadores.
Est ou feliz que queira ju n t ar forças comigo. Con sid ero m uit o im port an t e
que você ext raia seu próprio m at erial do in con scien te sem influências, tão
cuidadosamente quanto possível. Meu m at erial é bastante volumoso, m u i-

145 Co l e ç ã o p ar t icu lar , St e p h e n M a r t i n . A r e fe r ê n cia é p a r a a d e cla r a çã o de Me fist ó fe le s n o Fausto ( i , I.8 $IS. ) .


146 Cf. a d ia n t e, p. 511.
I N T RO D U ÇÃO 43

to com plicado, e em parte bem gráfico, já quase todo clarificado. Mas o


que me falta com pletam ente é m at erial m oderno com parativo. Zarat u st ra
está, de form a m uit o forte, conscientem ente formado. Meyrin k m odifica
esteticam ente; além do m ais, sin t o que lhe falta sinceridade religiosa 147 .

O con t eú d o
O Líber Novus apresen ta assim u m a série de im agin ações ativas ju n t o com a t en -
t at iva de Ju n g de com preen der seu significado. Est e trabalh o de com preen são
abrange m u it os fios en t relaçados: u m a t en t at iva de com preen der-se a si m es-
m o e de in t egrar e desen volver os vários com pon en t es de sua person alidade;
u m a t en t at iva de com preen der a est ru t u ra da person alidade h u m an a em geral;
u m a t en t at iva de com preen der a relação do in d ivíd u o com a sociedade de h oje
e com a com un idade dos m ort os; u m a t en t at iva de com preen der os efeitos p si-
cológicos e h ist óricos do crist ian ism o; e u m a t en t at iva de com preen der a fu t u ra
evolução religiosa do O cid en t e. Ju n g discute m u it os outros tem as n a obra, en -
t re os quais: a n at u reza do aut ocon h ecim en t o, a n at u reza d a alm a, as relações
en t re pen sar e sen t ir e os tipos psicológicos, a relação en t re a m asculin idade e
a fem in ilid ad e in t eriores e ext eriores, a un ião dos opostos, a solidão, o valor do
con h ecim en t o e da in st rução, o status da ciên cia, o sign ificado dos sím bolos e
com o eles devem ser en t en didos, o sen t ido da guerra, a lou cu ra, a lou cu ra d ivi-
n a e a psiqu iat ria, com o a Im it ação de Cr ist o deve ser en t en d id a h oje, a m ort e
de Deu s, a im port ân cia h ist órica de Niet zsch e, e a relação en te m agia e razão.
O t em a geral do livro é com o Ju n g recupera sua alm a e supera o m al-est ar
con t em p orân eo d a alien ação espirit u al. Ist o é fin alm en t e alcan çado p ossib ili-
tan do o ren ascim en t o de u m a n ova im agem de Deu s em sua alm a e d esen vol-
ven do u m a n ova cosm ovisão n a form a de u m a cosm ologia psicológica e t eoló-
gica. O Líber Novus apresen ta o p rot ót ip o da con cepção ju n gu ian a do processo
de in dividuação, que ele con siderava a form a u n iversal do desen volvim en t o
psicológico in d ivid u al. O p róp rio Líber Novus pode ser com preen dido, por u m
lado, com o descreven do o processo de in dividu ação de Ju n g e, por out ro, com o
a elaboração que ele fez deste con ceit o com o u m esquem a psicológico geral.

147 Co le ç ã o p ar t icu lar , St e p h e n M a r t i n .


44 LI BE R N O VU S

N o in ício d o livr o , Ju n g reen con t ra sua alm a e depois em barca n u m a sequên cia
de aven turas fan tásticas, que form am u m a n arrat iva con sequen te. Ele percebeu
que, até en t ão, h avia servido ao espírit o da época, caract erizado pelo uso e pelo
valor. Alé m disso, h avia u m espírit o das profun dezas, que levava às coisas da
alm a. D e acordo com a autobiografia post erior de Ju n g, o espírit o da época
correspon de à person alidade n ú m ero i e o espírit o das profun dezas correspon -
de à person alidade n ú m ero 2. Por isso, esse p eríod o pod eria ser con siderado
u m ret orn o aos valores da person alidade n ú m ero 2. O s capít ulos seguem u m
form at o part icu lar: com eçam com a exposição de fantasias visu ais dram át icas.
Nelas, Ju n g en con t ra u m a série de personagens em vários con t ext os e dialoga
com elas. Con fron t a-se com acon t ecim en t os in esperados e afirm ações ch o-
can tes. Dep ois t en t a com preen der o que acon teceu e form u lar o sign ificado
desses eventos e afirm ações em con cepções e m áxim as psicológicas gerais. Ju n g
acredit ava que o sign ificado dessas fantasias devia-se ao fato de p rovirem da
im agin ação m it op oét ica que faltava n a presen te época racion al. A tarefa da i n -
dividu ação está em estabelecer u m diálogo com as personagens da fan t asia — ou
con t eú d os do in con scien t e colet ivo - e in t egrá-las n a con sciên cia, recu p eran -
do assim o valor da im agin ação m it op oét ica que h avia sido p erd id a n a época
m od ern a, recon cilian d o desse m odo o espírit o da época com o espírit o das p r o-
fundezas. Essa tarefa ir ia con st it u ir u m leítmotíf de sua obra eru d it a posterior.

" U m a n o va fo n t e d e vi d a "
Em 19 16 , Ju n g escreveu diversos ensaios e u m pequen o livro nos quais com eçou
a t en t ar t rad u zir alguns dos tem as do Líber Novus em lin guagem psicológica con -
t em p orân ea e a reflet ir sobre o sign ificado e os aspectos gerais de sua at ivi-
dade. Sign ificat ivam en t e, nessas obras ele apresen t ou os p rim eiros esboços das
grandes com pon en t es de sua psicologia m adu ra. U m a descrição cabal desses
ensaios est á fora do h orizon t e desta in t rodu ção. A visão geral que dam os a se-
guir destaca elem en tos que se ligam m ais d iret am en t e ao Líber Novus.
Nas obras escritas en t re 19 11 e 19 14 , Ju n g ocupou-se p rin cip alm en t e em
form u lar u m a explicação est ru t u ral do fu n cion am en t o h u m an o geral e da p si-
copatologia. Além de sua prim eira teoria dos complexos, vemos que ele já havia
formulado concepções de u m inconsciente filogeneticamente ad qu irid o povoa-
I N T RO D U ÇÃO 45

do de im agens m ít icas, de u m a en ergia psíqu ica n ão sexual, de tipos gerais de


in t roversão e ext roversão, d a fun ção com pen sat ória e prospect iva dos sonhos
e das abordagens sin t ét ica e con st ru t iva das fantasias. En q u an t o Ju n g co n t i-
n u ou a am p liar e desen volver det alh adam en t e essas con cepções, em erge aqu i
u m n ovo projet o: a t en t at iva de forn ecer u m a explicação t em poral do d esen -
volvim en t o superior, a que d eu o n om e de processo de in dividuação. Est e foi
u m result ado t eórico essen cial de sua au t oexperim en t ação. A elaboração t ot al
do processo de in dividu ação e sua com paração h ist órica e in t ercu lt u ral vir ia m
a ocu p á-lo pelo resto d a vid a.
Em 19 16, Ju n g fez u m a preleção n a Associação de Psicologia An alít ica, i n -
t it u lad a "A est ru t u ra do in con scien t e", pu blicad a p r im eir o em t radu ção fr an -
cesa nos Archíves de Psychologíe de Flo u r n o y 14 8 . Aq u i, ele d ist in gu ia duas cam adas
do in con scien t e. A p r im eir a, o in con scien t e pessoal, con sist ia em elem en t os
ad qu irid os d u ran t e a vid a, ju n t o com elem en t os que p od iam igu alm en t e ser
con scien t es 14 9 . A segunda era o in con scien t e im pessoal ou psique co le t iva 150 .
En q u an t o a con sciên cia e o in con scien t e pessoal eram desen volvidos e ad -
qu irid os d u ran t e a vid a do in d ivíd u o, a psique colet iva era h er d ad a 151. Nesse
en saio, Ju n g an alisava os curiosos fen óm en os que resu lt avam da assim ilação
do in con scien t e. Not ava ele que, quan do an exavam os con t eú d os d a psique
colet iva e os con sid eravam com o at ribu t os pessoais, os in d ivíd u os exp er im en -
t avam estados ext rem os de su periorid ad e e in feriorid ad e. Ele t om ou o t erm o
"sem elh an ça com Deu s" de Goet h e e Alfr e d Ad le r para caract erizar este est a-
do, que su rgia da fusão en t re a psique pessoal e a psique colet iva e era u m dos
perigos d a an álise.
Ju n g escreveu que era tarefa difícil d ist in gu ir en t re psique pessoal e psique
colet iva. U m dos fatores com que o in d ivíd u o se defron t ava era a persona - n os-
sa "m áscara" ou "papel". Est a represen t ava o segm ento d a psique colet iva que
era erron eam en t e con siderada in d ivid u al. Q u an d o se an alisava isto, a perso-
n alidade dissolvia-se n a psique colet iva, o que resu lt ava n a liberação de u m a
t orren t e de fantasias: "Abre-se a t ot al profusão de pen sam en tos e sen t im en t os

148 D e p o is d e sep ar ar -se de Fr e u d , Ju n g d e sco b r iu qu e Flo u r n o y lh e er a u m ap oio p e r m a n e n t e . Cf. Ju n g e m


Flo u r n o y. From índia to the PlanetMars, p. ix.
149 O C , 7, § 4 4 4 - 4 4 6 .
150 Ib id ., § 4 4 9 .
151 Ib id ., § 4 59 -
46 LI BE R N O VU S

m it ológicos"152 . A d iferen ça en t re esse estado e a in san idade estava n o fato de


que ele era in t en cion al.
Su rgiam duas possibilidades: podia-se t en t ar rest aurar regressivam en te a
persona e ret orn ar ao estado an t erior, mas era im possível livrar-se do in con scien -
te. Alt er n at ivam en t e, podia-se aceit ar a con d ição de sem elh an ça com Deu s.
Mas h avia u m t erceiro cam in h o: o t rat am en t o h erm en êu t ico das fantasias cr ia-
tivas. Est e vin h a a ser u m a sín t ese da psique in d ivid u al com a psique colet iva,
que revelava a lin h a in d ivid u al d a vid a. Er a o processo de in dividuação. N u m a
post erior revisão n ão datada desse ensaio, Ju n g in t r od u ziu a n oção de anim a,
com o con t rapart e da n oção de persona. Ele con sid erou ambas com o "im agos do
su jeit o". Aq u i, ele d efin iu a anim a com o "o m odo pelo qual o sujeit o é vist o pelo
in con scien t e colet ivo"153.
A descrição vivaz das vicissit u des do estado de sem elh an ça com Deu s r e-
flete alguns dos estados afetivos de Ju n g du ran t e seu con fron t o com o in con s-
cien t e. A n oção da diferen ciação da persona e sua an álise correspon de à seção de
abert u ra do Líber Novus, on de Ju n g se d iferen cia de seu papel e realizações e t en -
t a religar-se com sua alm a. A liberação de fantasias m it ológicas é precisam en t e
o que se seguiu n o seu caso, e o t rat am en t o h erm en êu t ico das fantasias criat ivas
foi o que ele apresen t ou n a cam ada 2 do Líber Novus. A diferen ciação en t re o
in con scien t e pessoal e o in con scien t e im pessoal forn eceu u m a com preen são
t eórica das fantasias m it ológicas de Jun g: sugere que ele n ão as con sid erou p r o-
ven ien t es de seu in con scien t e pessoal, mas da psique colet iva h erdada. Nest e
caso, suas fantasias provêm de u m a cam ada da psique que era u m a h eran ça
h u m an a colet iva e n ão eram sim plesm en t e idiossin crát icas ou arbit rárias.
Em out ubro do m esm o ano, Ju n g fez duas palestras n o Clu b e Psicológi-
co. A p r im eir a in t it u lava-se "Ad apt ação". Est a t om ou duas form as: adapt ação
a con d ições ext ern as e in t ern as. O "in t er n o " foi en t en d id o com o design an do
o in con scien t e. A adapt ação ao "in t er n o " levou à exigên cia por in dividuação, o
que era con t rário à adapt ação aos outros. A resposta a essa exigên cia e o corres-
pon den t e rom p im en t o com a con form idade levavam a u m a trágica cu lpa, que
precisava de expiação e pedia u m a n ova "fun ção colet iva", porque o in d ivíd u o
d evia p rod u zir valores que pudessem servir com o u m su bst it u t o para a ausên cia

152 Ib id ., § 4 6 8 .
153 Ib id ., § 5 2 1.
I N T RO D U ÇÃO 47

dele da sociedade. Esses novos valores possibilit avam com pen sar o coletivo. A
in d ivid u ação era para poucos. O s in su ficien t em en t e criat ivos d everiam antes
restabelecer a con form idade colet iva com a sociedade. O in d ivíd u o precisava
n ão só criar novos valores, mas t am bém valores socialm en t e recon h ecíveis, já
que a sociedade t in h a "d ireit o a valores utilizáveis'154.
Lid o em t erm os d a situação de Ju n g, isto d á a en t en der que esse r o m p im en -
to com a con form idade social de procu rar sua "in d ivid u ação" levara-o à id eia
de que precisava p rod u zir valores socialm en t e realizáveis com o u m a expiação.
Ist o levou a u m d ilem a: será que a m an eira com o Ju n g en carn ou esses n ovos va -
lores n o Líber Novus seria socialm en t e aceitável e recon h ecível? Esse com p rom is-
so com as exigên cias da sociedade separava Ju n g do an arqu ism o dos dadaíst as.
A segunda palest ra foi sobre "In d ivid u ação e colet ividade". Ju n g afirm a-
va que in d ivid u ação e colet ividade eram u m par de opostos relacion ados pela
culpa. A sociedade exigia im it ação. At ravés do processo de im it ação, o in d i-
víd u o pod ia obter o acesso a valores que são p róp rios dele. N a an álise, "pela
im it ação o pacien te apren de a in dividuação, porque ela reat iva os valores que
são p róp rios d ele"155 . E possível ler ist o com o u m com en t ário sobre o papel da
im it ação nos t rat am en t os an alít icos daqueles pacien tes seus a qu em Ju n g h avia
agora est im ulado a em preen der processos sem elh an tes de desen volvim en t o. A
afirm ação de que esse processo evocava os valores preexist en t es do pacien t e era
u m con tragolpe à acusação de sugestão.
Em n ovem bro, en quan t o prest ava serviço m ilit ar em H er isau , Ju n g escre-
veu u m en saio sobre "A fun ção t ran scen den t e", publicado só em 19 57. Al i Ju n g
descrevia o m ét od o de t razer à t on a e desen volver fantasias que ele m ais tarde
ch am ou de im agin ação at iva, e expu n h a sua fu n d am en t ação t erapêut ica. Esse
en saio pode ser con siderado u m relat o p rovisório dos progressos a respeit o
d a au t oexp erim en t ação de Ju n g e pode ser proveit osam en t e con siderado u m
prefácio ao Líber Novus.

Ju n g observou que a n ova at it ude ad qu irid a com a an álise t orn ava-se ob-
soleta. O s m at eriais in con scien t es eram n ecessários para com plet ar a at it ude
con scien t e e corrigir-lh e a parcialidade. Mas, com o a t en são de en ergia era b ai-
xa n o sonho, os sonhos eram expressões in feriores de con t eú d os in con scien t es.

154 O C , 18, § 1.09 8.


155 Ib id ., § 1.100.
48 LI BE R N O VU S

P o r isso e r a p r e ciso r e c o r r e r a outras fontes, a saber, as fantasias espon t ân eas.


U m livro de sonhos descoberto recen t em en t e con t ém u m a série de sonhos de
19 17 a 19 25 15 6 . U m a cuidadosa com paração desse livro com os Livros Negros m os-
t ra que as im agin ações ativas de Ju n g n ão p rovin h am d iret am en t e de seus so-
n h os, e que essas duas corren t es eram geralm en te in depen den t es.
Ju n g descreveu sua t écn ica para in d u zir tais fantasias espon t ân eas: "Est e
t rein am en t o con siste p rim eiram en t e nos exercícios sist em át icos de elim in a-
ção da at en ção crít ica, crian do, assim , u m vazio n a con sciên cia"157 . A pessoa
com eçava con cen t ran do-se n u m d et erm in ad o estado de espírit o, procu ran do
t orn ar-se o m ais con scien t e possível de todas as fantasias e associações que
surgiam em con exão com esse estado. O objet ivo era p er m it ir à fan tasia agir
livrem en t e, sem afastar-se do afeto in icial, n u m livre processo associativo. Ist o
levava a u m a expressão con cret a ou sim bólica do estado de espírit o, o que t in h a
com o con sequ ên cia t razer o afeto para m ais pert o da con sciên cia, t orn an d o-o
assim m ais com preen sível. Fazer isso pod ia t er u m efeito vivifican t e. O s in d i-
víd u os pod iam desenhar, p in t ar ou esculpir, depen den do de suas propen sões:

O s tipos visualm ente dotados devem concentrar-se n a expectativa de que


se produza um a imagem in terior. De modo geral, aparece um a imagem da
fantasia - talvez de natureza hipnagógica - que deve ser cuidadosamente
observada e fixada por escrito. O s tipos audioverbais em geral ouvem pa-
lavras interiores. De início, talvez sejam apenas fragmentos de sentenças,
aparentemente sem sentido... O u t ros, porém , nestes momentos escutam
sua "out ra" voz... U m pouco menos frequente, mas não menos valiosa, é a
escrita automática, feita diretamente ou em pran ch et a 158 .

U m a vez produzidas e in corporadas essas fantasias, t orn avam -se possíveis


duas abordagens: form u lação criat iva e com preen são. U m a precisava da ou t ra
e ambas eram n ecessárias para p rod u zir a fun ção t ran scen den t e, que surgia da
u n ião en t re con t eú d os con scien tes e con t eú d os in con scien t es.

156 AFJ.
157 O C , 8/ 2, § 155.
158 Ib id ., § 170-171. A p r a n ch e t a é u m a p eq u en a t áb u a d e m a d e ir a n os n avios de cab ot agem u sad a p a r a
facilit ar a e scr it a au t o m át ica .
I N T RO D U ÇÃO 49

Para algumas pessoas, observava Ju n g, era sim ples n ot ar a "ou t ra" voz n a
escrit a e respon der a ela do pon t o de vist a do eu: " E exat am en t e com o se se
travasse u m diálogo en t re duas pessoas com d ireit os igu ais..."159 Esse d iálogo
levou à criação da fun ção t ran scen den t e, o que resu lt ava n u m a am pliação da
con sciên cia. Essa descrição dos diálogos in t eriores e dos m eios usados para
evocar fantasias n u m estado de vigília represen t a a tarefa do p róp rio Ju n g nos
Livros Negros. A in t eração en t re form u lação criat iva e com preen são correspon de
ao trabalh o de Ju n g n o Liber Novus. Ju n g n ão p u blicou esse ensaio. Ele obser-
vou m ais t arde que n u n ca t er m in ou seu trabalh o sobre a fun ção t ran scen den t e,
porque o fizera sem grande e m p e n h o 16 0 .
Em 1917, Ju n g p u blicou u m pequen o livro com u m longo t ít ulo: Psicologia
dos processos inconscientes: um a visão geral da m oderna teoria e m étodo da psicologia analítica. N o
prefácio, datado de dezem bro de 19 16 , Ju n g proclam ava que os processos p si-
cológicos que acom pan h avam a gu erra h aviam t razid o o problem a do in con s-
cien t e caót ico para o p rim eiro plan o da aten ção. N o en t an t o, a psicologia do
in d ivíd u o correspon d ia à psicologia da n ação e apenas a t ran sform ação da a t i-
tude do in d ivíd u o pod ia p rod u zir u m a ren ovação cu lt u r a l 16 1. Ist o art icu lava a
ín t im a in t ercon exão en t re even tos in d ivid u ais e eventos coletivos que ocupava
o cen t ro do Liber Novus. Para Ju n g, a con ju n ção en t re suas visões precogn it ivas e
a eclosão da guerra t orn ara eviden tes as profun das con exões su blim in ais en t re
fantasias in d ivid u ais e acon t ecim en t os m u n d iais — e, port an t o, en t re a psicolo-
gia do in d ivíd u o e a d a nação. O que se fazia n ecessário agora era elaborar essa
con exão m ais detalh adam en te.
Ju n g observou que, depois de t er an alisado e in tegrado os con t eú d os do
in con scien t e pessoal, a pessoa opun h a-se às fantasias m it ológicas que b rot a-
vam da cam ada filogen ét ica do in co n scien t e 16 2 . Psicologia dos processos inconscientes
forn eceu u m a exposição do in con scien t e colet ivo, suprapessoal, absoluto -
sendo estes t erm os usados in t ercam biavelm en t e. Ju n g afirm ava que a pessoa

159 Ib id ., § 18 6 .
160 M P , p. 38 0 .
161 O C, 7, p . XI I I - XI V
162 Ao fazer u m a r evisão d essa o b r a e m 1943, Ju n g acr escen t o u qu e o in co n scie n t e p essoal "cor r esp on d e
à figu r a da som bra, qu e fr eq u en t em en t e ap arece n os so n h o s" ( O C , 7, § 103). E acr escen t ou a segu in t e
d efin ição d est a figu ra: "som bra é p a r a m i m a p ar t e 'n egat iva d a p er son alid ad e, ist o é, a so m a das
p r op r ied ad es ocu lt as e d esfavo r áveis, das fu n çõ es m a l d esen volvid as e d os co n t e ú d o s d o in co n scie n t e
p essoal" ( O C , 7, § I03n .). Po st e r io r m e n t e , essa fase d o p rocesso d e in d ivid u a çã o fo i d escr it a co m o o
e n co n t r o c o m a so m b r a (cf. O C , 9/ 2, § 13-19).
50 LI BE R N O VU S

precisava separar-se do in con scien t e apresen t an do-o visivelm en t e com o algo


separado dela. Er a essen cial d ist in gu ir o eu do n ão eu, ou seja, a psique colet i-
va ou in con scien t e absoluto. Para fazer isso, "o ser h u m an o deve perm an ecer
firm em en t e de pé em sua fun ção de eu; ou seja, deve cu m p r ir plen am en t e seu
dever para com a vid a, para poder ser em todos os aspectos u m m em bro vit al
d a sociedade h u m a n a "16 3 . Ju n g est ivera se esforçan do por cu m p r ir estas tarefas
nesse períod o.
O s con t eú d os desse in con scien t e eram aquilo que Ju n g, em Transformações e
símbolos da libido, ch am ara de m it os t ípicos ou im agens p rim ord iais. Ele descreveu
essas "d om in an t es" com o "as pot ên cias rein an t es, os deuses, ou seja, im agens de
leis e prin cípios d om in an t es, regularidades m édias n o decurso das im agens que
o cérebro recebeu da sequên cia de processos secu lares"16 4 . Er a preciso prest ar
p art icu lar at en ção a essas dom in an t es. Part icu larm en t e im p ort an t e era o "des-
ligar os con t eú d os m it ológicos ou psicológicos coletivos dos objetos da con sci-
ên cia e con solid á-los com o realidade psicológica fora da psique in d ivid u a l"16 5 .
Ist o p er m it ia a u m a pessoa recon ciliar-se com resíduos ativados de nossa h is-
t ória an cest ral. A diferen ciação en t re pessoal e n ão pessoal result ava n u m a l i -
beração de en ergia.
Esses com en t ários reflet em t am bém a at ividade de Jun g: sua t en t at iva de
d ist in gu ir as várias personagens que apareciam e "con solidá-las com o realid a-
des psicológicas". A n oção de que essas personagens t in h am u m a realidade p si-
cológica p róp ria e n ão eram ficções m eram en t e subjetivas foi a p rin cip al lição
que ele at rib u iu à figura fan tástica de Elias: objet ividade p síq u ica 16 6 .
Ju n g afirm ou que a era da razão e do cet icism o in augurada pela Revolu ção
Fran cesa h avia rep rim id o a religião e o irracion alism o. Ist o, por sua vez, teve
sérias con sequên cias, levan do à eclosão de irracion alism o represen t ada pela
guerra m u n d ial. Er a , port an t o, u m a necessidade h ist órica recon h ecer o ir r a -
cion al com o u m fator psicológico. A aceit ação do irracion al é u m dos temas
cen t rais do Liber Novus.

Em Psicologia dos processos inconscientes, Ju n g desen volveu sua con cepção dos tipos
psicológicos. O b ser vou que era u m fen óm en o com u m as caract eríst icas psico-

163 Die Psychologíe der Unbewusstèn Prozesse. 2. ed . Zu r iq u e : Ra sch er , 1918, p. 104.


164 Ib id ., p. 130.
165 Ibid .,' p. 134.
166 Introduction to Jungian Psychology, p. 103.
I N T RO D U ÇÃO Si

lógicas dos t ipos serem levadas a ext rem os. Por aquilo que ele ch am ou de lei
da en an t iod rom ia, ou in versão para o oposto, en t rou a ou t ra função, a saber,
sen t im en t o para o in t rovert id o e pen sam en t o para o ext rovert id o. Essas fu n -
ções secun dárias en con t ravam -se n o in con scien t e. O desen volvim en t o da fu n -
ção con t rária levava à in dividuação. À m ed id a que a fun ção con t rária n ão era
aceit ável ao con scien t e, era n ecessária u m a t écn ica especial para chegar a u m
acordo com ela, a saber, a prod u ção d a fun ção t ran scen den t e. O in con scien t e
era u m perigo quan do n ão se estava em h ar m on ia com ele. Mas, com o est a-
belecim en t o d a fun ção t ran scen den t e, cessava a desarm on ia. Esse reequ ilíbrio
p er m it ia o acesso aos aspectos produ t ivos e ben éficos do in con scien t e. O i n -
con scien t e con t in h a a sabedoria e a experiên cia de in con t áveis eras e, por isso,
con st it u ía u m guia in com parável. O desen volvim en t o da fun ção con t rária apa-
rece n a seção "Myst er iu m " do Líber Novus167. A t en t at iva de alcan çar a sabedoria
arm azen ad a n o in con scien t e é d escrit a ao lon go de todo o livro, n o qual Ju n g
pede à sua alm a que lh e diga o que ela vê e o sen t ido de suas fantasias. O i n -
con scien t e é con siderado aqui u m a fonte de sabedoria superior. Ju n g con clu iu
o en saio in d ican d o a n at u reza pessoal e exp erien cial dessas novas con cepções:
"Nossa época está buscan do u m a n ova fon te de vid a. E u en con t rei u m a e bebi
dela e a água t in h a gosto b o m " 16 8 .

O c a m i n h o p a r a o s i- m e s m o
Em 19 18 , Ju n g escreveu u m en saio in t it u lad o "Sobre o in con scien t e", n o qual
observava que todos n ós estam os en t re dois m un dos: o m u n d o da percepção
ext ern a e o m u n d o da percepção do in con scien t e. Essa dist in ção descreve sua
exp eriên cia nessa época. Ele escreveu que Fr ied r ich Sch iller afirm ara que a
aproxim ação destes dois m un dos se fazia por m eio da arte. E m con t raposição,
argum en t ava Ju n g, "a m eu ver, a u n ião da verdade racion al com a verdade ir r a -
cion al deve ser en con t rad a n ão t an t o n a art e, mas m u it o m ais n o sím bolo, pois
é da essên cia do sím bolo con t er am bos os lados, o racion al e o ir r a cio n a l"16 9 . O s

167 Cf. ad ian t e, p. 157-185.


168 CollectedPapersonAnalytical Psychology, p. 4 4 4 . Es t a se n t e n ça ap ar eceu ap en as n a p r im e ir a e d içã o d o livr o de
Ju n g.
169 O C , 10, § 24.
52 LI BE R N O VU S

sím bolos, afirm ava ele, p rovin h am do in con scien t e, e a criação de sím bolos era
a fun ção m ais im p ort an t e do in con scien t e. En qu an t o a fun ção com pen sat ória
do in con scien t e sem pre esteve presen te, a fun ção de criação de sím bolos só
esteve presen te quan do estivem os dispostos a recon h ecê-la. Aq u i, vem os que
Ju n g con t in u a evit an d o con sid erar suas prod u ções com o arte. N ã o foi a art e,
m as os sím bolos que t iveram aqui im port ân cia p r im or d ial. O recon h ecim en t o
e a recuperação desta força de criação de sím bolos são descritos n o Líber No-
vus. O livro ret rat a a t en t at iva de Ju n g de en t en der a n at u reza psicológica do
sim bolism o e de con siderar suas fantasias de u m pon t o de vist a sim bólico. Ele
con clu iu que o que foi in con scien t e em qualquer época d et erm in ad a foi apenas
relat ivo e m u t an t e. O que se fazia n ecessário agora era a "reform u lação de nossa
visão do m un do, em con son ân cia com os con t eú d os ativos do in co n scien t e"170 .
Assim , a tarefa que o con fron t ava era a de t rad u zir as con cepções adquiridas
através de seu con fron t o com o in con scien t e, e expressas de form a lit erária e
sim bólica n o Líber Novus, n u m a lin guagem que fosse com pat ível com a perspec-
t iva con t em porân ea.
N o ano seguinte, Ju n g apresen t ou u m en saio n a In glat erra peran t e a Socie-
dade de Pesquisa Psíquica, d a qual era m em bro h on orário, sobre "O s fu n d a-
m en t os psicológicos da cren ça nos esp ír it o s"171. Dist in gu iu duas situações em
que o in con scien te coletivo se t orn ava atuante. N a prim eira, era ativado por u m a
crise n a vid a do in divíduo e pelo colapso das esperanças e expectativas. N a segun-
da, era ativado em tempos de grande con vulsão social, política e religiosa. Nesses
m om en tos, os fatores reprim idos pelas atitudes predom in an tes acum ulam -se n o
in con scien te coletivo. In divíduos fortem en te in t u it ivos t orn am -se conscientes
deles e procu ram t rad u zi-los em ideias com u n icáveis. Se eram bem -sucedidos
em t rad u zir o in con scien t e n u m a lin guagem com u n icável, ist o t in h a u m efei-
to reden tor. O s con t eú d os do in con scien t e t in h am u m efeito pert urbador. N a
p r im eir a situação, o in con scien t e colet ivo pod eria su bst it u ir a realidade, o que
é pat ológico. N a segunda situação, o in d ivíd u o pode se sen t ir desorien tado, mas
o estado n ão é pat ológico. Essa diferen ciação d á a en t en der que, n a opin ião de
Ju n g, sua própria experiên cia en quadrava-se n a segunda categoria - ou seja, a
ativação do in con scien t e colet ivo devido à con vulsão cu lt u ral geral. Port an t o,

170 Ib id ., § 4 8 .
171 O C , 8/ 2, § 570 - 6 0 0 .
I N T RO D U ÇÃO 53

se u t e m o r i n i c i a l d e i m i n e n t e in s a n id a d e e m 1913 e st a va e m s u a in c a p a c id a d e
d e p e r c e b e r essa d ist in çã o .
E m 1918, Ju n g a p r e s e n t o u ao C l u b e P s i c o ló g i c o u m a sé r ie d e s e m i n á r i o s
so b r e s e u t r a b a lh o a r e s p e it o d e t ip o lo g ia e, n e ssa é p o c a , e m p e n h o u - s e n u m a
va s t a p e s q u is a e r u d i t a so b r e esse t e m a . D e s e n vo l ve u e a m p l i o u os t e m a s a r -
t ic u la d o s n e st e s e n sa io s e m 19 21, e m Tipos psicológicos. N o t o c a n t e aos t e m a s
t r a b a lh a d o s n o Liber Novus, a s e ç ã o m a is i m p o r t a n t e d o l i vr o e r a o c a p í t u lo 5:
" O p r o b l e m a d o t ip o n a p o e sia ". A q u e s t ã o fu n d a m e n t a l d i s c u t i d a a q u i fo i
c o m o o p r o b l e m a d o s o p o st o s p o d e r i a se r r e s o lvid o a t r a vé s d a p r o d u ç ã o d o
s í m b o l o d e u n i ã o o u r e c o n c ilia ç ã o . I s t o c o n s t i t u i u m d o s t e m a s c e n t r a is d o
Liber Novus. Ju n g a p r e s e n t o u u m a a n á lis e d e t a lh a d a d a q u e s t ã o d a s o lu ç ã o d o
p r o b l e m a d o s o p o st o s n o h i n d u í s m o , n o t a o is m o , e m M e s t r e E c k h a r t e, n o s
d ia s d e h o je , n a o b r a d e C a r l Sp it t e le r . Es t e c a p ít u lo p o d e se r l i d o t a m b é m
c o m o u m a m e d i t a ç ã o so b r e a lgu m a s d as fo n t e s h is t ó r ic a s q u e i n f o r m a r a m d i -
r e t a m e n t e su as c o n c e p ç õ e s n o Liber Novus. A n u n c i o u t a m b é m a i n t r o d u ç ã o d e
u m m é t o d o i m p o r t a n t e . E m ve z d e d i s c u t i r d i r e t a m e n t e a q u e s t ã o d a r e c o n -
c ilia ç ã o d o s o p o st o s n o Liber Novus, Ju n g p r o c u r o u a n a lo gia s h is t ó r ic a s e t e c e u
c o m e n t á r i o s so b r e elas.

E m 19 21, a p a r e c e u o "s i - m e s m o " c o m o c o n c e it o p s ic o ló gic o . Ju n g d e fi n i u - o


d a se gu in t e m a n e i r a :

En q u a n t o o e u for ap en as o ce n t r o d o m e u ca m p o co n scien t e, n ã o é id ê n -
t ico ao t o d o de m i n h a p siq u e, m as apen as u m co m p le xo e n t r e ou t r os c o m -
p lexos. P o r isso d ist in go en t r e e u e si-m e sm o . O e u é o su jeit o apen as d e
m i n h a co n sciên cia, m as o si- m e sm o é o su jeit o d o m e u t od o, t a m b é m d a
p siq u e in co n scie n t e . Ne st e sen t id o o si- m e sm o se r ia u m a gr an d eza ( id e a l)
qu e e n ce r r a r ia d e n t r o d ele o eu . O si- m e sm o gost a de ap ar ecer n a fan t asia
in co n scie n t e co m o p er so n alid ad e su p e r io r o u id e a l com o, p o r exem p lo , o
Fausto, de Go e t h e , e o Zaratustra, de N i e t z s c h e 17 2 .

Ju n g e q u i p a r o u a n o ç ã o h i n d u d e Br a h m a n / At m a n ao s i- m e s m o . A o m e s -
m o t e m p o , p r o vi d e n c i o u u m a d e fin iç ã o d a a lm a . A f i r m o u q u e a a l m a p o s s u ía
q u a lid a d e s q u e e r a m c o m p l e m e n t a r e s à p e r s o n a , c o n t e n d o aq u elas q u a lid a d e s

172 Tipos psicológicos. O C , 6, § 79 6 ( 8 10 ) .


54 LI BE R N O VU S

d e q u e a a t it u d e c o n s c ie n t e ca r e cia . Es t e c a r á t e r c o m p l e m e n t a r d a a l m a a fe t a va
t a m b é m se u c a r á t e r se xu a l, d e m o d o q u e o h o m e m t i n h a u m a a l m a fe m i n i n a ,
o u anim a, e a m u l h e r t i n h a u m a a l m a m a s c u l i n a , o u anim us m . I s t o c o r r e s p o n d i a ao
fat o d e q u e h o m e n s e m u l h e r e s t i n h a m t r a ç o s t a n t o m a s c u lin o s q u a n t o fe m i -
n in o s . O b s e r v o u t a m b é m q u e a a l m a d a va o r i g e m a im a ge n s q u e s u p o s t a m e n t e
n ã o t i n h a m va lo r d o p o n t o d e vi s t a r a c io n a l. H a v i a q u a t r o m a n e i r a s d e u sá - la s:

A p r im e ir a p o ssib ilid ad e de u t ilização é a ar t íst ica, q u an d o a lgu ém d o m in a


est a fo r m a de exp r essã o ; u m a segu n d a p o ssib ilid ad e é a esp ecu lação filo só fi-
ca; u m a t e r ce ir a é a esp ecu lação qu ase r eligio sa qu e le va à h e r e sia e à c o n s t i-
t u ição d e seit as; u m a q u a r t a p ossib ilid ad e é o em p r ego das for ças im a n e n t e s
n as im agen s p a r a co m e t e r excessos de t o d a fo r m a 17 4 .

D e s t e p o n t o d e vis t a , a u t iliz a çã o p sico ló gica d essas im a ge n s r e p r e s e n t a r ia


u m "q u in t o c a m i n h o ". P a r a ser b e m - s u c e d id a , a p sico lo gia p r e cisa va d is t in gu ir - s e
c la r a m e n t e d a a r t e , d a filo so fia e d a r e ligiã o . Es s a n e ce ssid a d e e xp l i c a a r e je iç ã o
d as a lt e r n a t iva s p o r p a r t e d e Ju n g.

N o s Livros Negros se gu in t e s, ele c o n t i n u o u a e la b o r a r s u a "m it o lo g ia ". A s p e r -


so n a ge n s d e s e n vo lvia m - s e e t r a n s fo r m a va m - s e u m a s n a s o u t r a s. A d i fe r e n c i a -
ç ã o d as p e r so n a ge n s e r a a c o m p a n h a d a p o r s u a a glu t in a çã o , ch e ga n d o Ju n g a
c o n s id e r á - la s c o m o a sp ect o s d e c o m p o n e n t e s su b ja ce n t e s d a p e r so n a lid a d e .
E m 5 d e ja n e i r o d e 19 22, ele t e ve u m d iá lo g o c o m s u a a l m a a r e sp e it o t a n t o d e
su a vo c a ç ã o q u a n t o d o Liber Novus:

[ Eu ] : Sin t o qu e d evo falar c o m vo cê . P o r qu e vo cê n ã o m e d e ixa d o r m i r


q u an d o est ou can sad o? E u sei qu e a p e r t u r b a çã o ve m de vo cê .
O qu e le va vo cê a m a n t e r - m e acord ad o?
[ Al m a ] : Ago r a n ã o é t e m p o de d o r m ir , m as de ficar acor d ad o e p r e p a r a r
coisas im p o r t a n t e s n o t r ab alh o n o t u r n o . Co m e ç a a gr an d e ob r a.
[ Eu ] : Q u e gr an d e obra?
[ Al m a ] : A o b r a qu e p r e cisa ser feit a agora. E u m a o b r a im e n sa e d ifícil. N ã o
h á t em p o p a r a d o r m ir , se vo c ê n ã o e n co n t r a t e m p o d u r a n t e o d ia p a r a p e r -
m a n e ce r n a ob r a.

173 ib id ., § 7 5 9 ( 8 8 4 ) .
174 O C , 6, § 4 6 8 .
I N T RO D U ÇÃO 55

[ Eu ] : Ma s e u n ão sab ia qu e algo d est e t ip o est ava acon t ecen d o.


[ Al m a ] : Ma s vo cê d e via t er p er ceb id o qu e e u est ava p e r t u r b a n d o seu son o
h á m u it o t em p o. Vo cê est eve in co n scie n t e p o r u m t e m p o d em asiad o lon go.
Ago r a vo cê d eve p assar a u m n ível su p e r io r d e co n sciên cia.
[ Eu ] : Es t o u p r o n t o . O qu e é? D iga !
[ Al m a ] : Vo c ê p r e cisa o u vir : d e ixa r de ser cr ist ão é fácil. Ma s, e d ep ois? Pois
m u it a co isa a in d a est á p o r vir . Tu d o est á esp er an d o p o r vo cê . E vo cê? Vo cê
p er m a n ece e m silên cio e n ad a t e m a d izer . Ma s vo cê d eve falar. Po r qu e vo cê
r eceb eu a r evelação? Vo cê n ã o d eve e sco n d ê -la . Vo cê se p r eo cu p a c o m a
for m a? E im p o r t a n t e a fo r m a q u an d o se t r a t a de r evelação?
[ Eu ] : Ma s vo cê n ã o est á p en san d o qu e d evo p u b lica r o qu e escrevi? Isso
ser ia u m a d esgr aça. E q u e m i r i a co m p r e e n d ê - lo ?
[ Al m a ] : N ã o , escu t e! Vo cê n ã o p r e cisa r o m p e r u m casam en t o, a saber o ca -
sam en t o com igo, n e n h u m a p essoa d eve ser co lo cad a e m m e u lugar... Q u e r o
r e in a r so z in h a .
[ Eu ] : En t ã o vo cê q u er r e in a r ? D o n d e vo cê t ir a o d ir e it o a essa p r esu n çã o ?
[ Al m a ] : Esse d ir e it o m e ve m p or q u e e u sir vo a vo cê e à su a vo cação . E u p o -
d e r ia igu alm en t e d iz e r qu e vo cê ve m e m p r im e ir o lu gar, m as a cim a de t u d o
su a vo ca çã o ve m e m p r im e ir o lu gar.
[ Eu ] : Ma s q u al é m i n h a vo cação ?
[ Al m a ] : A n o va r eligião e su a p r o cla m a çã o .
[ Eu ] : M e u D e u s! C o m o d evo fazer isso?

[ Al m a ] : N ã o seja t ão p u silâ n im e . N i n g u é m o sabe t ão b e m co m o vo cê . N ã o


h á n in gu é m qu e saib a p r o cla m á - la t ão b e m co m o vo cê .
[ Eu ] : Ma s q u e m sabe se vo cê n ã o est á m e n t in d o ?
[ Al m a ] : Per gu n t e a vo cê m e sm o se e u est o u m e n t in d o . E u falo a ve r d a d e 17 5 .

A q u i s u a a l m a p e d i u - l h e i n s i s t e n t e m e n t e q u e p u b lica sse o se u m a t e r i a l , o

q u e ele r e c u s o u . Tr ê s d ia s d e p o is, s u a a l m a i n fo r m o u - l h e q u e a n o va r e ligiã o "s ó

se e xp r e ssa vi s i ve l m e n t e n a t r a n s fo r m a ç ã o d as r e la ç õ e s h u m a n a s . A s r e la çõ e s

n ã o se d e i xa m s u b s t i t u i r p e lo m a is p r o fu n d o c o n h e c im e n t o . Al é m d isso , u m a

r e ligiã o n ã o co n sist e a p e n a s e m c o n h e c i m e n t o , m a s, s i m , e m se u n íve l visíve l,

n u m a r e o r g a n iz a ç ã o d as c o n d i ç õ e s d e v i d a h u m a n a s . P o r isso n ã o e sp e r e m a is

c o n h e c i m e n t o s d e m i m . Vo c ê sab e t u d o o q u e é p r e c iso sab er a go r a a r e s p e i -

175 Livro Negro 7, p. 9 2c.


56 LI BE R N O VU S

t o d a r e ve la ç ã o q u e vo c ê r e ce b e u , m a s vo c ê a i n d a n ã o vi ve t u d o o q u e d e ve
se r vi vi d o ago r a". O "e u " d e Ju n g r e s p o n d e u : "P o sso e n t e n d e r p e r fe it a m e n t e
e a c e it a r ist o . M a s é o b sc u r o p a r a m i m c o m o o c o n h e c i m e n t o p o ssa se r t r a n s -
fo r m a d o e m vi d a . Vo c ê p r e c is a e n s i n a r - m e is t o ". Su a a l m a lh e d isse: " N ã o h á
m u i t o a d i z e r so b r e ist o . N ã o é t ã o r a c i o n a l c o m o vo c ê e s t á i n c l i n a d o a p en sar .
O c a m i n h o é s i m b ó l i c o " 17 6 .

As s i m , a t a r e fa c o m q u e Ju n g se d e p a r a va e r a c o m o r e a liz a r e e n c a r n a r a q u i -
lo q u e ele a p r e n d e r a a t r a vé s d a in ve s t iga ç ã o d e su a p r ó p r i a vid a . D u r a n t e esse
p e r í o d o , os t e m a s d a p sico lo gia d a r e ligiã o e d a r e la ç ã o e n t r e r e ligiã o e p s ic o lo -
gia fo r a m a d q u i r i n d o d e st a q u e ca d a ve z m a i o r e m s u a o b r a , a c o m e ç a r p o r se u
s e m i n á r i o e m P o lz e a t h , n a C o r n u a l h a , e m 1923. Ju n g t e n t o u d e s e n vo lve r u m a
p s ic o lo gia d o p r o ce sso d e fa z e r r e ligiã o . E m ve z d e p r o c l a m a r u m a n o va r e ve -
la çã o p r o fé t ic a , s e u in t e r e sse e st a va n a p sico lo gia d as e xp e r iê n c ia s r e ligio sa s. A
t a r e fa c o n s is t ia e m d e scr e ve r a t r a d u ç ã o e t r a n s p o s iç ã o d a e xp e r i ê n c i a n u m i n o -
sa d o s i n d i ví d u o s e m s í m b o lo s e fi n a l m e n t e n o s d o gm a s e cr e d o s d as r e ligiõ e s
o r ga n iz a d a s e, p o r fi m , e st u d a r a fu n ç ã o p s ic o ló gic a d esses s ím b o lo s . P a r a essa
p sic o lo gia d o p r o ce sso d e fa z e r r e ligiã o se r b e m - s u c e d i d a , e r a e sse n cia l q u e a
p sic o lo gia a n a lít ica , e n q u a n t o p r o p o r c i o n a va u m a a fir m a ç ã o d a a t it u d e r e lig io -
sa, n ã o s u c u m b is s e à t e n t a ç ã o d e t r a n s fo r m a r - s e n u m c r e d o 17 7 .
E m 19 22, Ju n g e sc r e ve u u m e n sa io so b r e "A r e la çã o d a p sico lo gia a n a lít ica
c o m a o b r a d e a r t e p o é t ic a ". E l e d i s t i n g u i u d o is t ip o s d e o b r as: o p r i m e i r o ,
q u e b r o t a va i n t e i r a m e n t e d a i n t e n ç ã o d o a u t o r , e o segu n d o , q u e se a p o d e r a va
d o a u t o r . Exe m p l o s d essas o b r a s s im b ó lic a s e r a m a se gu n d a p a r t e d o Fausto d e
Go e t h e e o Zaratustra d e N i e t z s c h e . E m s u a o p in iã o , essas o b r a s b r o t a va m d o
i n c o n s c i e n t e co le t ivo . E m casos c o m o esses, o p r o ce sso c r i a t i vo c o n s is t ia n a
a t iva ç ã o i n c o n s c i e n t e d e u m a i m a g e m a r q u e t íp ic a . O s a r q u é t ip o s l i b e r a va m e m
n ó s u m a vo z m a is fo r t e d o q u e a n o ssa p r ó p r ia :

176 Ib id ., p. 95. N u m se m in á r io d o an o segu in t e, Ju n g ocu p ou -se co m o t e m a d a r elação e n t r e as r elações


in d ivid u a is e a r eligião: "N e n h u m in d ivíd u o p od e e xist ir se m r elações in d ivid u a is, e é a ssim qu e é la n ça d o
o fu n d a m e n t o d a vossa Igr eja. As r elações in d ivid u a is est ab elecem a fo r m a d a Igr e ja in visível" (Notes
on the Sem ínar ín Analytícal Psychology conductedby Dr. C.G.Jung. Po lz e a t h , In gla t e r r a , 14-27 de ju lh o d e 1923.
O r ga n iz a d o p elos m e m b r o s d a classe, p. 8 2) .
177 Sob r e a p sicologia d a r eligião d e Ju n g, cf. H E I S I G , Jam es. Im ago Dei: A St u d y o f Ju n g s Psych ology
o f Re ligio n . Le wisb u r g: Bu c k n e ll U n ive r s it y Press, 1979. • L A M M E R S , A n n . In God'sShadow. T h e
Co lla b o r a t io n b e t we e n Vi c t o r W h i t e a n d C G . Ju n g. N o va Yo r k : Pa u list Pr ess, 1994. Cf. t h m e u " I n St a t u
N a sce n d i". Journalof Analytícal Psychology, 4 4 , 19 9 9 , p. 539-545-
I N T RO D U ÇÃO 57

Q u em fala por meio de imagens prim ordiais, fala como se tivesse m il vo-
zes; comove e subjuga..., eleva o destino pessoal ao destino da humanidade
e com isto também solta em nós todas aquelas forças benéficas que desde
sempre possibilitaram à humanidade salvar-se de todos os perigos e t am -
bém sobreviver à mais longa n oit e 178 .

O art ist a que p r od u ziu essas obras educou o espírit o d a época e com p en -
sou a parcialidade do presen te. Ao descrever a gén ese dessas obras sim bólicas,
Ju n g t in h a, ao que parece, suas próprias atividades em m en t e. Assim , en quan t o
Ju n g recusava-se a con sid erar o Líber Novus com o "art e", suas reflexões sobre
sua com posição eram n o en t an t o u m a fon te crít ica de suas subsequentes con -
cepções e teorias da art e. A qu est ão im plícit a que esse en saio levan t ava era se
a psicologia pod ia cu m p r ir agora esta fun ção de educar o espírit o d a época e
com pen sar a parcialidade do presen te. A p ar t ir desse períod o, Ju n g chegou a
con ceber a tarefa de sua psicologia precisam en t e desta m a n e ir a 179 .

D e lib e r a ç õ e s d e p u b lica çã o
A p art ir de 19 22, além dos debates com Em m a Ju n g e To n i W olff, Ju n g teve
longos debates com Ca r y Bayn es e W olfgan g St ockm ayer sobre o que fazer
com o Líber Novus e a respeit o de sua possível publicação. Já que ocorreram en -
quan to ele ain d a estava t rabalh an do neste livro, esses debates t êm im port ân cia
decisiva. Ca r y Fin k n asceu em 18 8 3. Est u d ou n o Vassar College, onde frequ en -
t ou as aulas de Kr ist in e Man n , que se t or n ou u m a das p rim eiras seguidoras
de Ju n g nos Est ados Un id os. E m 19 1 o, ela se casou com Jaim e de An gu lo e
com plet ou sua form ação m éd ica n a Joh n s H o p kin s Un iver sit y em 19 11. E m
19 21, aban don ou-o e foi para Zu r iq u e com Kr ist in e Man n . In icio u a an álise
com Ju n g. Ela n u n ca p rat icou an álise e Ju n g respeit ava-lh e m u it o a in t eligên cia
crítica. E m 19 27, casou-se com Peter Bayn es. Divor ciar am -se m ais t arde, em
19 31. Ju n g ped iu -lh e que fizesse u m a n ova t ran scrição do Líber Novus, porque ele
acrescen t ara m u it o m at erial desde a t ran scrição an t erior. El a em preen d eu essa

178 O C,i5,§ i29 .


179 E m 1930, Ju n g est en d eu -se sob re est e t e m a e d escr eveu o p r im e ir o t ip o de ob ras co m o "p sico ló gica s" e o
segu n d o co m o "visio n ár ias". "Psico lo gia e p oesia". O C , 15.
58 LI BE R N O VU S

tarefa em 19 2 4 e 19 25, quan do Ju n g estava n a África. Sua m áqu in a de escrever


era pesada e por isso ela p r im eir o copiou -o a m ão e depois datilografou-o.
Est as notas relat am seus debates com Ju n g e est ão escritas em form a de
cartas a ele que n ão foram en viadas.

2 DE O U T U BRO DE 19 22

Nu m outro livro do "Dom in ican o bran co" de Meyrin k, você disse que ele
usou exatamente o mesmo simbolismo que ocorrera a você n a prim eira vi-
são que apareceu ao seu inconsciente. Além disso você disse que ele falara de
um "Livr o Verm elh o" que con tin h a certos mistérios e o livro que você está
escrevendo sobre o inconsciente você o chamou de "Livr o Ver m elh o"18 0 .
Depois você falou que estava em dúvida sobre o que fazer com esse livro.
Você disse que Meyrin k podia dar um a nova form a ao seu e estava tudo
bem, mas você só podia contar com o m étodo científico e filosófico, e esse
m aterial você não podia lançar nesse molde. Eu disse que você podia usar
a form a do Zarat ust ra e você disse que era verdade, mas você estava farto
disso. Também eu estou. Depois você disse que pensou em fazer dele um a
autobiografia. Isto me parece de longe o melhor, porque então você tende-
ria a escrever como você falava, que era de form a bem pitoresca. Mas, in de-
pendentemente de qualquer dificuldade com a forma, você disse que tem ia
torn á-lo público, porque era como vender sua própria casa. Mas eu crit iquei
você violentam ente e disse que não era nem u m pouco parecido com aquilo,
porque você e o livro representavam um a constelação do universo e que
considerar o livro como puramente pessoal era você identificar-se com ele,
algo que você não pensaria em perm it ir a seus pacientes... Depois nós rim os
por eu ter, por assim dizer, apanhado você em flagrante. Goethe viu-se apa-
nhado n a mesma dificuldade n a parte 11 do Fausto, na qual ele en trara no i n -
consciente e achara tão difícil conseguir a form a correta que afinal m orreu

180. C f M E Y R I N K . TheW híteDom ínkan, 1921/ 1994, p. 9 1, cap. 7 [t r a d u çã o d e M . M i t c h e ll] : O "p a i


fu n d a d o r " in fo r m a o h e r ó i d o r o m a n ce , Ch r is t o p h e r , d e q u e "q u e m p o ssu ir o livr o ve r m e lh o de
cin á b r io , a p la n t a d a im o r t a lid a d e , o d e sp e r t a r d o sop r o e sp ir it u a l e o segred o d e t r a z e r à vid a a m ã o
d ir e it a d isso lve r - se - á c o m o cad áver... Ch a m a - s e livr o d e cin á b r io p o r q u e, d e aco r d o c o m u m a a n t iga
cr e n ça d a Ch i n a , o ve r m e lh o é a cor das vest es d os qu e a lca n ça r a m o m a is alt o e st á gio d a p e r fe içã o e
h a via m p e r m a n e cid o p a r a t r ás n a t e r r a p a r a salvar a h u m a n id a d e " (p . 9 1) . Ju n g est ava p a r t ic u la r m e n t e
in t er essad o n os r o m a n ce s d e M e yr in k . E m 1921, ao r e fe r ir -se à fu n ção t r a n sce n d e n t e e às fan t asias
in co n scie n t e s, o b se r vo u qu e e r a p o ssível e n co n t r a r n a lit e r a t u r a e xe m p lo s n os q u ais esse m a t e r ia l
fo r a su je it a d o à e la b o r a çã o est ét ica, e qu e "e n t r e est es e xe m p lo s, go st ar ia d e m e n c io n a r as d u as ob r as
de M e yr in k : O Golem e Aface verde". Tipos psicológicos. O C , 6, § 189. Ju n g co n sid e r a va M e yr i n k u m a r t ist a
"visio n á r io " ( "Psico lo gia e p oesia". O C , 1$, § 142) e est ava in t er essad o t a m b é m n o s e xp e r im e n t o s
a lq u im ico s d e M e yr i n k (Psicologia c alquim ia. O C , 12, § 34 i n . ) .
I N T RO D U ÇÃO 59

deixando os manuscritos assim mesmo em sua gaveta. Você disse que gran-
de parte do que você experienciou seria considerada como pura e simples
maluquice que, se fosse publicada, você fracassaria totalmente não só como
cientista, mas também como ser humano; mas eu disse que não, que se você
o abordasse a partir do ângulo de DíchtungundW ahrheít [Poesia e Verdade], as
pessoas poderiam fazer sua própria seleção quanto a distinguir um a coisa da
ou t r a 18 1. Você fez objeções a apresentar qualquer coisa dele como Díchtung
quando era tudo W ahrhett, mas não me parece falsidade fazer uso desse t an -
to de máscara para você mesmo proteger-se do provincianismo - e afinal,
como eu disse, o provincianismo tem seus direitos, em face da escolha de você
como maluco, e eles próprios, enquanto tolos sem experiência, precisam esco-
lher a prim eira alternativa, mas, se puderem colocar você como poeta, salvam
as aparências. Boa parte do seu material, como você disse, chegou-lhe como
runas e a explicação dessas runas soa como o mais arrematado absurdo, mas
isso não im port a se o produto fin al é o sentido. Em seu caso, eu disse, apa-
rentemente você teve consciência de um núm ero m aior de passos da criação
do que qualquer outro antes. Na m aioria dos casos a mente, é claro, aban-
dona automaticamente o m aterial irrelevante e entrega o produto final, ao
passo que você leva consigo todo o negócio, processo m atricial e produto.
Naturalm ente é m uito mais difícil de lidar. Meu tempo term in ou.

JAN E I R O D E I923
O que você me disse algum tempo atrás deixou-m e pensativa e de re-
pente outro dia, enquanto eu lia "Vorspiel auf dem Th eat er" [Prelúdio
no t eat r o ] 18 2 , dei-m e conta de que você também precisava fazer uso desse
princípio que Goethe manejara tão belamente em todo o Fausto, a saber,
contrapor o criativo e eterno ao negativo e transitório. Você pode não ver
imediatamente o que isto tem a ver com o Fívro Vermelho, mas eu vou explicar.
No m eu entender, neste livro você vai desafiar os homens a um a nova form a
de olhar para suas almas, em todo caso vai haver nele m uit a coisa que esta-
rá fora do alcance do homem com um , exatamente como em certo período
de sua vida você dificilm ente deve tê-lo entendido. De certa forma é um a
"joia" que você está dando ao mundo, não é> Min h a opinião é que ele preci-

181 Re fe r ê n cia à au t ob iogr afia de G O E T H E . From m yFife: Po e t r y a n d T r u t h . P r in ce t o n : P r in c e t o n U n ive r s it y


Pr ess, 19 9 4 [Tr a d . de R. H e i t n e r ] .
182 Re fe r ê n cia ao in ício d o Fausto: u m d iá lo go e n t r e o d ir et or , p oet a, e u m a p essoa feliz.
6o LI BE R N O VU S

sa de um a espécie de proteção, para que não seja jogado n a sarjeta e algum


judeu estranhamente vestido acabe roubando-o ou fazendo-o desaparecer.
A melhor proteção que você poderia inventar, parece-me, seria in t ro-
duzir no próprio livro um a exposição das forças que tentarão destruí-lo. U m
dos grandes dons que você tem é a capacidade de ver tanto o lado ru im quan-
to o lado bom de qualquer situação determinada, de modo que você saberá
melhor do que a m aioria das pessoas que atacam o livro o que é que elas que-
rem destruir. Você não poderia frustrar-lhes a expectativa escrevendo suas
críticas para eles? Talvez seja justamente isso que você fez n a introdução.
Talvez você devesse, de preferência, assumir para com o público a atitude de
"Pegue ou largue, e seja feliz ou dane-se, o que você preferir". Isso seria bom,
de qualquer m aneira o que houver de verdade nele irá sobreviver. Mas eu
gostaria de ver você fazer a outra coisa se não exigir m uito esforço de você.

2 6 D E J A N E I R O D E 19 24

Na noite an terior você tivera um sonho no qual eu aparecia disfarçada e


devia trabalhar sobre o Livro Verm elho e você esteve pensando sobre isso o dia
in t eiro e especialmente durante a h ora da Dr a. W h ar t on antes da m in h a
(bom para ela, devo dizer)... Com o você disse, você decidira entregar-me
todo o seu m aterial inconsciente representado pelo Livro Verm elho etc. para
ver o que eu, como observadora estranha e im parcial, d iria a respeito dele.
Você pensava que eu t in h a um a boa crítica e um a crítica im parcial. Com o
você disse, Ton i estava profundamente envolvida nele e, além disso, não t i -
nha nenhum interesse n a coisa em si, nem em pô-la n um a forma utilizável.
Você disse que ela está perdida "esvoaçando como um pássaro". Q u an t o a
você, você disse que sempre soube o que fazer com suas ideias, mas aqui
você ficou desorientado. Q uan do você as abordou, você ficou, por assim
dizer, emaranhado e já não podia ter certeza de nada. Você tin h a certeza de
que algumas delas tin h am grande im portância, mas não pôde encontrar a
form a apropriada - como elas eram agora, você disse, elas poderiam provir
de um manicômio. Você disse então que eu devia copiar os conteúdos do Li-
vro Verm elho - um a vez antes você m andara copiá-lo, mas depois acrescentou
um a porção de m ateriais, de modo que você quis que ele fosse copiado nova-
mente, e você me explicaria as coisas à medida que eu prosseguisse, porque
você entendia quase tudo nele, você disse. Dessa forma, poderíam os chegar
a discutir muitas coisas que nunca afloraram em m in h a análise e eu poderia
entender as ideias de você a part ir do fundamento. Você me disse então algo
I N T RO D U ÇÃO 61

mais sobre sua atitude para com o "Livr o Verm elh o". Você disse que algo
dele feriu terrivelm ente seu senso da conveniência das coisas e que você
evitou registrá-lo por escrito t al qual ele veio a você, mas você dera início
ao prin cípio da "espontaneidade", ou seja, de não fazer nenhum a correção, e
manteve-se fiel a ele. Algun s dos quadros eram absolutamente infantis, mas
tin h am a intenção de o ser. H avia vários personagens falando: Elias, Padre
Filêm on et c, mas todos pareciam ser fases daquilo que você pensava devia
ser ch am ad o "o m est r e". Você t in h a certeza de que este últim o era o mesmo
que in spirou Buda, Man i, Crist o, Maom é - todos aqueles que, podemos d i-
zer, tiveram trato íntim o com Deu s 18 3 . Mas os outros haviam-se identificado
com ele. Você recusou-se term inantem ente. Isso não poderia ser para você,
como você disse, você precisava continuar sendo o psicólogo — a pessoa que
compreendia o processo. Eu disse então que o que se devia fazer era possibi-
lit ar que o mundo também compreendesse o processo, sem que eles tenham
a noção de ter, por assim dizer, seu Mestre preso n um a gaiola à sua in t eira
disposição. Eles deviam im aginá-lo como um a coluna de fogo avançando
continuamente e sempre fora do alcance dos humanos. Sim , você falou que
era algo parecido com isso. Talvez ainda não possa ser feito. À medida que
você falava eu adquiria um a consciência sempre mais nítida da in com en -
surabilidade dos ideais que enchem você. Você dizia que eles tin h am sobre
eles a sombra da eternidade e eu pude sentir a verdade d ist o 18 4 .

Em 3 0 de jan eiro, ela observou que Ju n g falou de u m sonho que ela lh e


con t ara:

Q u e era um a preparação para o Livro Vermelho, porque o Livro Verm elho falava
da batalha entre o mundo da realidade e o mundo do espírito. Você disse
que nessa batalha você estivera bem perto de ser desmantelado, mas con -
seguiu manter os pés no chão e ter influência sobre a realidade. Você disse
que para você isso foi o teste de alguma ideia e que você não tin h a respeito
n en h um por quaisquer ideias, por mais aladas que fossem, que precisavam
exist ir lá fora no espaço e eram incapazes de causar impressão sobre a rea-
lid ad e 18 5.

183 C o m r esp eit o a ist o, cf. a in scr ição d a ilu st r . 154 ad ian t e, n o t a 28 2, p. 364.
184 CFB.
185 Ib id .
62 LI BE R N O VU S

Exist e u m fragm en to n ão datado de u m esboço de cart a a u m a pessoa n ão


id en t ificad a, n a qu al Ca r y Bayn es expressa sua opin ião sobre a im port ân cia do
Líber Novus e a necessidade de sua publicação:

Est ou absolutamente atónita, por exemplo, quando leio o Livro Verm elho e
vejo tudo quanto ali se diz para o Reto Cam inho para nós hoje, de ver como
Ton i deixou isso fora do seu sistema. Ela não t eria um a m ancha in con s-
ciente em sua psique se tivesse digerido tanto do Livro Verm elho quanto eu
li e penso que não foi u m terço nem um quarto. E outra coisa difícil de
entender é por que ela não tem n en h um interesse em fazer com que ele o
publique. H á pessoas em m eu país que o leriam do prin cípio ao fim quase
sem pausa para respirar, pois ele reexam in a e esclarece as coisas de hoje,
fazendo cambalear todos os que estão tentando en con trar a chave para a
vida... Ele pôs nele todo o vigor e o colorido de sua fala, toda a franqueza
e sim plicidade que vêm quando, como n a Corn u alh a, o fogo arde n ele 18 6 .
Eviden tem en te pode ser que, como ele diz, se o publicasse como está,
ele estaria para sempre horsdu com bat no mundo da ciência racional, mas então
deve haver um a m an eira neste caso, um a m an eira de ele proteger-se con tra a
estupidez, a fim de que as pessoas que queiram o livro não fiquem privadas
durante todo o tempo que levar para que a m aioria esteja preparada para
ele. Eu sempre soube que ele devia ser capaz de escrever com a paixão com
que ele é capaz de falar — e aqui está. Seus livros publicados estão adultera-
dos para o mundo em geral, ou antes aqueles saíram da sua cabeça e este do
seu coração 18 7 .

Est as discussões descrevem vivam en t e a profun didade das deliberações de


Ju n g relat ivas à publicação do Líber Novus, sua percepção da sua cen t ralidade
para com preen der a gén ese de sua obra, e seu t em or de que a obra fosse m al
com preen dida. A im pressão que o est ilo da obra causaria n u m pú blico despre-
ven id o preocupava vivam en t e Jun g. Mais t arde, ele relem b rou a An ie la Jaffé
que a obra ain d a precisava de u m a form a con ven ien t e para poder ser dada à luz,
porque soava à profecia, o que n ão era do seu gost o 18 8 .

186 Re fe r ê n cia ao se m in á r io de Po lz ea t h .
187 Su sp eit o qu e ist o fo i escr it o a seu e x- m a r id o , Ja im e d e An gu lo . E m 10 d e ju lh o d e 1924, ele escr eveu
a ela: "Su p o n h o qu e vo cê est eve t ão o cu p ad a q u an t o e u , c o m est e m a t e r ia l de Ju n g... L i su a ca r t a , aq u ela
em qu e vo cê a n u n cio u ist o, e vo cê e xo r t o u - m e a n ã o d iz e r a n in gu é m , e acr escen t o u qu e vo cê n ã o d e ve r ia
co n t a r - m e , m as vo cê sab ia qu e e u se n t ir ia t a n t o o r gu lh o de vo c ê " (CFB).
188 M P , p. 169.
I N T RO D U ÇÃO 63

Parece que h ouve algum debate sobre estas quest ões n o círculo de Ju n g. Em
2 9 de m aio de 19 24 , Ca r y Bayn es an ot ou u m a discussão com Peter Bayn es, n a
qual este argum en t ava que o Líber Novus só pod eria ser en t en d id o por alguém
que tivesse con h ecido Ju n g. E m con t rapart id a, ela pen sava que este livr o

era o registro da passagem do universo pela alm a de u m hom em e, assim


como um a pessoa fica parada jun to ao mar e ouve essa m uito estranha e
terrível música e não é capaz de explicar por que seu coração dói ou por que
um grito de prazer quer pular de sua garganta, assim eu pensava que seria
com o Livro Verm elho e que u m hom em seria forçosamente arrancado para
fora de si pela majestade dele e elevado a alturas a que ele nunca t in h a sido
elevado an t es 18 9 .

H á m ais out ros sin ais de que Ju n g fez circu lar cópias do Líber Novus en t re
am igos m ais ín t im os, e que o m at erial foi d iscu t id o ju n t o com as possibilidades
de sua publicação. U m desses colegas foi W olfgan g Stockm ayer. Ju n g en con -
t rou -se com St ockm ayer em 19 0 7. N o n ecrológio in éd it o dele, Ju n g escreveu
que ele foi o p r im eir o alem ão a in t eressar-se por sua obra. Lem b r o u que St o-
ckm ayer foi u m verd ad eiro amigo. Eles viajaram ju n t os à It ália e à Suíça, e raras
vezes h ouve u m an o em que n ão se en con t raram . Ju n g com en t ou :

Ele distinguiu-se por seu grande interesse e igualmente grande com preen-
são dos processos psíquicos patológicos. En con t rei também nele um a sim -
pática recepção de m eu ponto de vist a mais amplo, que foi im portante para
minhas posteriores obras de psicologia com parad a 19 0 .

St ockm ayer acom pan h ou Ju n g n a "valiosa pen et ração de n ossa psicologia"


n a filosofia ch in esa clássica, nas especulações m íst icas da ín d ia e n o yoga t ân -
t r ico 19 1.
Em 2 2 de dezem bro de 19 24 , St ockm ayer escreveu a Jun g:

Muitas vezes tenho saudades do Livro Verm elho e gostaria de ter um a cópia
daquilo que estiver disponível; deixei de fazê-lo quando eu o tin ha, como

189 CFB.
190 St o ck m a ye r o b it u a r y",JA .
191 I b i d .
64 LI BE R N O VU S

ger alm en t e acon t ece. Re ce n t e m e n t e fan t asiei a r esp eit o de u m a esp écie de
revista de "Docum en t os" sem formato rígido destinada a materiais prove-
nientes da "forja do inconsciente", com palavras e cores 19 2 .

Parece que Ju n g lh e en viou algum m at erial. Em 3 0 de abril de 19 25, St ock-


m ayer escreveu a Jun g:

En trem en tes examinamos cuidadosamente os "Aprofundamentos" e a im -


pressão é a mesma que n a grande od isseia 193. U m ambiente coletivo seleto
para isso do Livro Verm elho certamente vale a pena ser tentado, embora um
com entário por parte de você seria m uito desejável. Já que um certo centro
adjacente de você está aqui, é de grande im portância um amplo acesso às
fontes, consciente ou inconscientemente. E obviamente eu fantasio a res-
peito de fac-símiles, o que você vai entender: você não precisa temer magia
de extroversão de m in h a parte. A pin t ura também exerce grande at rat ivo 19 4 .

O m an u scrit o de Ju n g "Com en t ár ios" (cf. apên dice B) esteve possivelm en -


te ligado a essas discussões.
Assim , as pessoas do círculo de Ju n g t in h am opin iões divergen tes sobre o
sign ificado do Líber Novus e se ele d everia ser publicado, o que pode t er in fluído
nas decisões fin ais de Jun g. Ca r y Bayn es n ão com plet ou a t ran scrição, ch egan -
do até às p rim eiras 2 7 págin as dos Aprofundamentos. Nos poucos anos seguintes,
ela ocu pou seu tem po n a t radução dos ensaios de Ju n g para o in glês, seguida
pela t radução do I Ching.
Em algum períod o, que calculo ser nos m eados da década de 19 2 0 , Ju n g
volt ou ao Esboço e ed it ou -o n ovam en t e, su p rim in d o e acrescentado m at erial em
aproxim adam en t e 2 5 0 págin as. Suas revisões serviram para m od ern izar a lin -
guagem e a t er m in ologia 19 5 . Revisou t am bém u m a part e do m at erial que ele já
h avia t ran scrit o para o volu m e caligráfico do Líber Novus, bem com o algum m a-
t erial que h avia sido deixado de lado. E difícil ver por que ele em preen d eu esta
tarefa, se n ão estivesse pen san do seriam en t e em pu blicá-lo.

192 JA. As car t as de Ju n g a St o ck m a ye r n ã o fo r a m t or n ad as p ú b licas.


193 Re fe r ê n cia ao Líber Secundus d o Líber Novus, cf. ad ian t e n o t a 4, p. 19 0.
194 JA.
195 Po r ex., su b st it u in d o "Ge i s t d er Ze i t " p o r "Ze it ge ist " [esp ír it o d a é p o ca ], "Vo r d e n k e n " [p r evisã o ] p o r
"Id e e " [id e ia ].
I N T RO D U ÇÃO

Em 19 2$, Ju n g apresen t ou seu sem in ário sobre psicologia an alít ica ao Clu b e
Psicológico. Aq u i, ele d iscu t iu algumas das fantasias im port an t es do Líber Novus.
Descreveu com o elas se m an ifest aram e m ost rou com o con st it u íram a base das
ideias con t idas em Tipos Psicológicos e a chave para en t en der a gén ese desta obra.
O sem in ário foi t ran scrit o e editado por Ca r y Bayn es. Nesse m esm o ano, Peter
Bayn es preparou u m a t radução in glesa dos Septem Serm ones ad Mortuos, que foi p u -
blicad a p r ivad am en t e 19 6 . Ju n g d eu exem plares a alguns de seus alunos de lín gua
inglesa. N u m a cart a que se presum e ser u m a resposta a u m a cart a de H e n r y
Mu r r ay que lh e agradecia u m exem plar, Ju n g escreveu:

Est ou profundamente convencido de que aquelas ideias que me vieram são


realmente coisas m uito maravilhosas. Posso dizer isso tranquilam ente (sem
corar), porque sei o quanto fui resistente e tolamente obstinado quando
elas me visit aram pela prim eira vez e que trabalheira me deu até eu poder
in terpretar esta linguagem simbólica, tão superior à m in h a obtusa mente
con scien t e 197.

É possível que Ju n g t en h a considerado a publicação dos Serm ones u m teste para


a publicação do Líber Novus. Barb ara H an n ah afirm a que ele lam en t ou t ê-los p u -
blicado e que "ele t in h a a firm e con vicção de que só d eviam t er sido escritos n o
Livro Verm elho'198.

A cert a alt ura, Ju n g escreveu u m m an u scrit o in t it u lad o "Com en t ár ios", que


forn ecia u m com en t ário sobre os capít ulos 9 , 10 e 11 do Líber Prímus (cf. ap ên -
dice A ) . Ele an alisou algumas dessas fantasias em seu sem in ário de 19 2$ e aqui
en t ra em m ais detalhes. Pelo est ilo e con cepções eu calcu laria que esse t ext o foi
escrit o em m eados d a década de 19 2 0 . Talvez ele t en h a escrit o - ou t en cion ado
escrever - m ais "com en t ários" para out ros capít ulos, mas estes n ão ch egaram
à luz. Esse m an u scrit o m ost ra quan t o t rabalh o ele en vid ou para com preen der
todo e cada detalh e de suas fantasias.

196 Lo n d r e s: St u a r t a n d W a t k in s , 1925.
197 2 de m a io d e 1925, Murraypapers, H o u g h t o n Lib r a r y, H a r va r d Un ive r sit y, o r igin a l e m in glês.
M ic h a e l Fo r d h a m le m b r o u t e r r eceb id o u m e xe m p la r d e Pet er Bayn es q u an d o alcan çar a u m est ágio
co n ve n ie n t e m e n t e "a va n ça d o " e m su a an álise e t er p r est ad o ju r a m e n t o de gu ar d ar segred o a r esp eit o
( co m u n ica çã o p essoal, 19 9 1).
198 C.G.Jung: Hís Life and W ork - A Bio gr a p h ica l Me m o ir , p. 121.
66 LI BE R N O VU S

Ju n g d eu exem plares do Líber Novus a diversas pessoas: Ca r y Bayn es, Pet er


Bayn es, An ie la Jaffé, W olfgan g St ockm ayer e To n i W o lff Talvez t en h am sido
dados exem plares t am b ém a out ros. E m 19 37, u m in cên d io d est ru iu a casa de
Pet er Bayn es e d an ificou seu exem p lar do Líber Novus. Algu n s anos depois, es-
creveu a Ju n g ped in d o se por acaso ele t in h a ou t ro exem p lar e ofereceu-se para
t r a d u z i- lo 1". Ju n g respon deu: "Pr ocu r ar ei ver se posso arran jar ou t ro exem -
plar do Livro Vermelho. Por favor, n ão se preocupe com t rad u ções. Ten h o cert eza
de que já exist em 2 ou 3 t rad u ções. Mas n ão sei do que n em por q u e m " 2 0 0 . Est a
su posição baseava-se p resu m ivelm en t e n o n ú m ero de exem plares d a obra em
circulação.
Ju n g d eixou os seguintes in d ivíd u os ler e/ ou exam in ar o Líber Novus: Rich ar d
H u ll, T i n a Keller, Jam es Kir sch , Xim e n a Ro elli de An gu lo (quan do crian ça) e
Ku r t W o lff An ie la Jaffé leu os Livros Negros e T i n a Keller teve t am bém p er m is-
são de ler seções dos Livros Negros. Ju n g m u it o provavelm en t e m ost rou o livro
a out ros com pan h eiros p róxim os, com o Em il Medt n er, Fr an z Rik lin Sr., Er i -
ka Sch legel, H an s Trú b e Mar ie-Lou ise vo n Fran z. Parece que p er m it iu que
lessem o Líber Novus aquelas pessoas em qu em con fiava plen am en t e e que ele
recon h ecia t erem u m a plen a com preen são de suas ideias. U m bom n ú m ero de
seus alun os n ão se en caixava nessa categoria.

A t r a n s fo r m a ç ã o d a p sico t e r a p ia
O Léer Novus é de im port ân cia capit al para se com preen der o surgim en t o do
n ovo m odelo de psicot erapia de Jun g. Em 19 12, em Transformação e símbolos da libido,
ele con sid erou que a presen ça de fantasias m it ológicas - com o as presen tes
no Líber Novus — era sin al de u m afrouxam en t o das camadas filogen ét icas do
in con scien t e e in d ício de esquizofren ia. At ravés de sua au t oexperim en t ação,
ele r eviu rad icalm en t e esta posição: o que agora con sid erou essen cial n ão foi
a presen ça de algum con t eú d o det erm in ado, mas a at it ude do in d ivíd u o para
com ele e, em part icu lar, se o in d ivíd u o pod ia acom odar esse m at erial em sua
cosm ovisão. Ist o exp lica por que, em seu posfácio ao Líber Novus, ele com en t ou
que, para o observador su perficial, a obra ir ia parecer lou cu ra e pod eria t er-se

199 23 de n o ve m b r o de 1941, JA.


2 0 0 22 d e ja n e ir o de 1942. C.G.Jung Letters, 1, p. 312.
I N T RO D U ÇÃO 67

t orn ado lou cu ra se ele n ão tivesse conseguido con t er e com preen der as ex-
p er iên cia s 20 1. N o Líber Secundus, capít u lo 15, ele apresen t a u m a crít ica da p siqu ia-
t r ia con t em p orân ea, destacando a in capacidade desta de d ist in gu ir en t re ex-
periên cia religiosa ou lou cu ra d ivin a e psicopatologia. Se o con t eú d o de u m a
visão ou fan t asia n ão t in h a n en h u m valor diagn ósico, ele achava que, m esm o
assim , era essen cial con sid erá-lo com cu id a d o 20 2 .
A p ar t ir de suas experiên cias, Ju n g desen volveu novas con cepções dos ob-
jet ivos e m ét od os d a psicot erapia. Desd e seu in ício n o fin al do século X I X ,
a m od ern a psicot erapia preocupara-se p rim ariam en t e com o t rat am en t o de
d ist ú rbios n ervosos fun cion ais, ou n euroses, com o vier am a ser con h ecidos.
A p ar t ir da época d a Pr im eir a Gu e r r a Mu n d ial, Ju n g reform u lou a prát ica da
psicot erapia. N ã o m ais preocupada u n icam en t e com o t rat am en t o da psicopa-
tologia, ela t orn ou -se u m a prát ica para possibilit ar o desen volvim en t o u lt erior
do in d ivíd u o pelo fom en t o do processo de in dividuação. Isso ir ia t er con sequ -
ên cias de grande alcance n ão só para o desen volvim en t o da psicologia an alít ica,
mas t am bém para a psicot erapia com o u m todo.
Para d em on st rar a validade das con cepções que t ir ou n o Líber Novus, Jung
t en t ou m ost rar que os processos descritos n o livro n ão eram ú n icos, e que as
con cepções ali desen volvidas eram aplicáveis a outros. Para estudar as p r od u -
ções de seus pacien tes, ele organ izou u m a ext en sa coleção de seus quadros. Para
que seus pacien tes n ão ficassem separados de suas im agens, Ju n g geralm en te
lh es pedia que fizessem cópias para e le 2 0 3 .
Du r an t e esse períod o, ele con t in u ou a in st r u ir seus pacien tes sobre com o
in d u zir visões em estado de vigília. E m 19 2 6 , Ch r ist ian a Morgan p rocu rou
Ju n g para subm et er-se a an álise. El a h avia sido at raída para as ideias de Ju n g
ao ler Tipos psicológicos e recorreu a ele em busca de assist ên cia para seus proble-
mas de relacion am en t os e depressões. N u m a sessão em 19 26 , Morgan an ot ou o
con selh o que Ju n g lh e d eu sobre com o p rod u zir visões:

Bem , como você vê, estas são vagas demais para eu poder dizer m uit a coisa
sobre elas. Elas são apenas o começo. Basta você usar a ret in a do olho p r i-

20 1 Cf. ad ian t e, p. 4 8 9 .
2 0 2 Cf. os co m e n t á r io s d e Ju n g ap ó s u m a p alest r a sob re Swe d e n b o r g n o Cl u b e Psico ló gico , d o cu m e n t o s d e
Jaffé, E T H .
20 3 Est e s q u ad r os est ão d isp o n íve is p a r a est u d o n o a r q u ivo de q u ad r os n o In s t it u t o C G . Ju n g, Kú sn a ch t .
68 LI BE R N O VU S

meiramente para objetivar. Depois, em vez de con t in u ar t en t an d o obter a

imagem à força, você só precisa olhar para dentro. Agora, quando você vê estas
imagens, você precisa mantê-las e ver para onde elas levam você - como elas
mudam. E você precisa tentar entrar você mesma no quadro - tornar-se um
dos atores. Q uan do comecei pela prim eira vez a fazer isto, eu via paisagens.
Depois aprendi a in serir-m e dentro da paisagem e os personagens falavam
comigo e eu respondia a eles... As pessoas diziam : ele tem um tem peram en-
to artístico. Mas era apenas que m eu inconsciente estava me dominando.
Agora eu aprendo a representar seu dram a como também o dram a da vida
exterior e assim nada pode ferir-m e agora. Escrevi IO O O páginas de m aterial
tirado do inconsciente (Con t ou a visão de um gigante que se transform ou
n um o vo ) 2 0 4 .

Ju n g d escrevia det alh adam en t e seus p róp rios exp erim en t os a seus pacie
tes e os in st ru ía a fazer o m esm o. O papel dele era o de su p ervision á-los
fazer exp erim en t os com sua p róp ria t orren t e de im agen s. Morgan an ot ou que
Ju n g disse:

Agora sinto como se eu devesse dizer alguma coisa a você sobre estas fan-
tasias... As fantasias parecem agora u m tanto diluídas e cheias de repetições
dos mesmos motivos. Não existe nelas suficiente fogo e calor. Elas precisam
ser mais excitantes... Você deve estar mais nelas, ou seja, você deve ser seu
próprio si-mesmo crítico consciente nelas — impondo seus julgamentos e
críticas... Posso explicar o que quero dizer contando-lhe m in ha própria ex-
periência. Eu estava escrevendo em m eu livro e de repente vi um homem
de pé observando por sobre meu ombro. U m dos pontos dourados de m eu
livro saltou fora e atingiu-o no olho. Ele me perguntou se eu iria tirá-lo. Eu
disse que não - não, a menos que ele me dissesse quem ele era. Ele disse que
não diria. Você vê, eu sabia disso. Se eu tivesse feito o que ele pediu, ele teria
mergulhado no inconsciente e eu não teria captado o significado disso, ou
seja: por que ele simplesmente havia aparecido do inconsciente. Finalm ente,
ele me disse que iria dizer-m e o sentido de alguns hieróglifos que eu tivera
alguns dias antes. Ele o fez e eu t irei a coisa do seu olho e ele desapareceu 205.

20 4 8 d e ju lh o de 1926, agen d as de an álise, Bib lio t e ca d e m e d ic in a de Co u n t wa y. A visão a qu e se faz


r efer ên cia n o fim e n co n t r a -se n o Líber Secundus, cap. 11, p. 283.
20 5 Ib id ., 12 d e o u t u b r o de 1926. O e p isó d io a q u i r efer id o é o a p a r e cim e n t o d o m ago "H a ". Cf. ad ian t e, p.
28 9 , n o t a 155.
I N T RO D U ÇÃO 69

Ju n g chegou a sugerir que seus pacien tes elaborassem seus p róp rios Livros
Vermelhos. Morgan lem b r ou t ê-lo ouvido dizer:

Eu deveria aconselhá-la a registrar tudo isso da m an eira mais bela que você
puder - em algum livro belamente encadernado. Vai parecer como se você
estivesse banalizando as visões — mas você precisa fazer isso - então você
fica livre do poder delas. Se você fizer isso com este olhar, por exemplo, elas
deixarão de atrair você. Você n un ca deve tentar fazer estas visões volt a-
rem novamente. Pense nisto em sua imaginação e procure pintá-lo. Depois,
quando estas coisas estiverem em algum livro precioso, você poderá ir ao
livro e virar as páginas e para você será sua igreja - sua catedral - os lugares
silenciosos de seu espírito onde você encontrará renovação. Se alguém lhe
disser que isso é m órbido ou neurótico e você lhe der ouvidos, você perderá
sua alm a - porque nesse livro está sua a lm a 20 6 .

Nu m a cart a a J.A. Gilb er t em 19 29 , Ju n g com en t ou sobre seu procedim en t o:

Descobri às vezes que é m uito útil, ao tratar um caso desses, estimulá-los a


expressar seus conteúdos peculiares seja n a form a de escrita ou n a de de-
senho e pin tura. Exist em tantas intuições incom preensíveis nesses casos,
fragmentos de fantasias que brotam do inconsciente, para os quais quase
não existe linguagem apropriada. Deixo meus pacientes encontrarem suas
próprias expressões simbólicas, sua "m it ologia"20 7 .

O sa n t u á r io d e Fi l ê m o n
Na década de 19 20 , o interesse de Ju n g deslocou-se cada vez m ais da tran scrição
do Líber Novus e da elaboração de sua m it ologia nos Livros Negros para o trabalh o
em sua t orre em Bollin gen . E m 19 2 0 , com p rou u m ped aço de t erra n a m argem
n ort e do Lago de Zu riq u e, em Bollin gen . An t es disso, ele e sua fam ília às vezes
passavam férias acam pados em t orn o do Lago de Zu riqu e. Ju n g sen t ia n eces-
sidade de represen t ar seus pen sam en tos m ais ín t im os em pedra e de con st ru ir

2 0 6 Ib id ., 12 de ju n h o de 1926.
20 7 20 de d e z e m b r o d e 1929, JA ( o r igin a l e m in glê s) .
7o LI BE R N O VU S

um a m orad ia in t eiram en t e p r im it iva: "As palavras e os escritos n ão eram bas-


tan te reais para m im ; era preciso ou t ra co isa "20 8 . Ele precisava fazer u m a "p r o-
fissão de fé em pedra". A t orre era u m a "represen t ação d a in d ivid u ação". Ao
lon go dos anos, Ju n g p in t ou m u rais e fez gravações nas paredes. A t orre pode
ser con sid erad a u m a con t in u ação t r id im en sio n al do Líber Novus: seu "Líber Quar-

tus. No fin al do Líber Secundus, Jung escreveu: "Ten h o de recuperar u m ped aço d a
Idade Méd ia em m im . Ma l t erm in am os a Idade Méd ia - dos outros. Ten h o de
com eçar cedo, naquele tem po em que os erem it as d esap areceram "20 9 . D e form a
sign ificat iva, a t orre foi con st ru íd a proposit alm en t e com o u m a est ru t u ra d a
Idade Méd ia, sem com odidades m odern as. A t orre era u m a obra perm an en t e,
em evolução. Ju n g gravou a seguinte in scrição n a parede da t orre: "Ph ilem on is
sacru m - Fau st i p oen it en t ia" [San t u ário de Filêm on - Ar r ep en d im en t o de
Faust o] ( u m dos m u rais d a t orre é u m ret rat o de Filêm on ). Em 6 de abril de
19 29 , Ju n g escreveu a Rich ar d W ilh e lm : "Por que n ão exist em claustros m u n -
danos para h om en s que d everiam viver fora do t e m p o !"210
Em 9 de jan eiro de 19 23, m or r eu a m ãe de Jun g. E m 2 3/ 2 4 de dezem bro de
19 23, ele teve o seguinte sonho:

Est ou no serviço m ilitar. Marchando com u m batalhão. Nu m a floresta per-


to de O ssin gen encontro escavações n um a en cruzilhada: um a figura em
pedra, de 1 m etro de altura, de um a rã ou u m sapo sem cabeça. Atrás dele
está sentado um m en in o com cabeça de sapo. Depois o busto de u m h o-
mem com um a âncora fincada n a região do coração, estilo romano. U m
segundo busto de 16 4 0 aproxim adam ente, mesmo motivo. Depois cadáve-
res mumificados. Fin alm en t e vem um a caleche em estilo do século X V I I .
Nela está sentada um a m ulh er m ort a, mas que ainda vive. Ela vira a cabeça
quando me d irijo a ela cham ando-a de "Sen h orit a"; sei que "Sen h orit a" é
um título de n ob reza 211.

Algu n s anos m ais t arde, ele en t en d eu o sign ificado deste sonho. An o t o u em


4 de dezem bro de 19 2 6 :

20 8 Mem órias, p. 196.


2 0 9 Cf. ad ian t e, p. 4 0 4 .
210 JA.
211 Livro Negro 7, p. 120.
I N T RO D U ÇÃO 7i

Só agora vejo que o sonho de 23/ 24 X I I 19 2 3 significa a m orte da. anim a ( "Ela
não sabe que está m ort a"). Isto coincide com a morte de m in h a mãe... Desde
a m orte de m in h a mãe a A. [anima] silenciou. Sign ificat ivo!212

Algu n s anos depois, Ju n g teve m ais alguns diálogos com sua alm a, mas a
esta alt u ra seu con fron t o com a anim a chegara efet ivam en t e a u m fim . E m 2 de
jan eiro de 19 27, ele teve u m son h o localizado em Liver p ool:

Est ou com vários jovens suíços em Liverpool jun to ao porto. E um a n oi-


te escura e chuvosa com fumaça e nevoeiro. Subimos para a parte alta da
cidade, que está n u m planalto. Chegamos a u m jard im cen tral jun to a u m
pequeno lago redondo. No meio deste há um a ilha. O s homens falam de u m
suíço que m ora aqui nesta cidade escura, suja e cheia de fuligem. Mas eu vejo
que n a ilh a ergue-se um a magnólia coberta de flores vermelhas, ilum in ada
por u m eterno sol, e penso: "Agora sei por que este suíço m ora aqui. Ele
tam bém sabe evidentemente". Vejo o plano da cidade: [Ilu st ração] 213.

Ju n g p in t ou en t ão u m m an d ala baseado neste m a p a 214 . At r ib u iu u m a gran de


im p ort ân cia a este sonho, com en t an d o post eriorm en t e:

O sonho ilustrava m in h a situação naquele momento. Vejo ain da as capas


de chuva, de cor cin za - amareladas, brilh an tes de umidade. Tudo era ex-
trem am ente desagradável, negro, im com preensível... como eu me sen tia
naquela época. Mas eu t in h a a visão da beleza terrestre e era ela que me
dava a coragem de viver. Vi que a meta nele se expressara. Essa m eta é o
centro, e não é possível ultrapassá-lo. Através deste sonho com preendi que
o si-mesmo é u m princípio, u m arquétipo da orientação e do sen t id o 215.

Ju n g acrescen t ou que o suíço era ele m esm o. O "eu " n ão era o si-m esm o,
mas d ali se pod ia ver o m ilagre d ivin o. A pequen a lu z assem elhava-se à gran de
luz. Daí em dian t e ele parou de p in t ar m an dalas. O son h o expressara o p r o-
cesso in con scien t e de desen volvim en t o, que n ão era lin ear, e ele o con sid erou

212 Ib id ., p. 121.
213 Ib id ., p. 124. Pa r a a ilu st r ., cf. o a p ê n d ice A , p. 4 9 5.
214 Ilu st r . 159 d a e d içã o ilu st r a d a d est a ob r a.
215 Mem órias, p. 176.
72 LI BE R N O VU S

in t eiram en t e satisfatório. Sen t ia-se com plet am en t e só nesse tem po, preocu pa-
do com algo grande que outros n ão en t en d iam . N o sonho, só ele viu a árvore.
En qu an t o eles estavam de pé, n a escuridão, a árvore apareceu radian t e. Se ele
n ão tivesse t ido essa visão, sua vid a t eria perdido o se n t id o 216 .
A percepção foi que o si-m esm o é a m et a da in dividuação e que o processo de
in dividuação n ão era linear, mas con sist ia n u m a circum am bulação do si-m esm o.
Est a percepção d eu -lh e força, pois de ou t ra form a a experiên cia t er ia en lou -
quecido a ele ou aos que o cer cavam 217 . Ele sen t iu que os desenhos de m an dalas
m ost ravam -lh e o si-m esm o "em sua fun ção salvadora" e que ist o era sua salva-
ção. A tarefa agora era u m a tarefa de con solidar essas in t uições em sua vid a e
ciên cia.
E m su a revisão de Psicologia dos processos inconscientes, feita em 19 2 6 , Ju n g r eal-
çou a im port ân cia da t ran sição da m eia-idade. Afir m o u que a p r im eir a m etade
da vid a pod ia ser caract erizada com o a fase n at u ral, n a qual o objet ivo p r in ci-
pal er a estabelecer-se n o m un do, gan han do seu salário ou ten do u m a ren d a e
crian d o u m a fam ília. A segunda m etade da vid a pod ia ser caract erizad a com o a
fase cu lt u ral, que en volvia u m a reavaliação de valores an t eriores. Nest e p eríod o
a m et a era a de con servar valores preceden tes ju n t o com o recon h ecim en t o
de seus opostos. Ist o sign ificava que os in d ivíd u os precisavam desen volver os
aspectos n ão desen volvidos e negligenciados de su a p erson alid ad e 218 . O p r o-
cesso de in dividu ação era agora con cebido com o o pad rão geral do d esen volvi-
m en t o h um an o. Ele afirm ou que n a sociedade con t em p orân ea h avia u m a falta
de orien t ação para essa t ran sição e achava que su a psicologia preen ch ia esta
lacun a. For a d a psicologia an alít ica, as form u lações de Ju n g causaram im pact o
n o cam po d a psicologia do d esen volvim en t o dos adultos. Evid en t em en t e, su a
exp eriên cia d a crise con st it u iu o gabarito para essa con cepção dos requisit os
das duas m etades da vid a. O Liber Novus descreve a reavaliação feit a por Ju n g de
seus valores an t eriores e sua t en t at iva de desen volver os aspectos n egligen cia-
dos de sua person alidade. Assim , o livr o con st it u iu a base de sua com preen são
de com o a t ran sição da m eia-id ad e pod ia ser feit a com êxit o.
Em 19 2 8 , Ju n g p u blicou u m pequen o livro, As relações entre o eueo inconsciente,
que era u m a am pliação de seu en saio de 19 16 in t it u lad o "A est ru t u ra do in con s-

216 MP, p. 159-160.


217 Ib id ., p. 173.
218 O C , 7> § I I 4 - I I 7
I N T RO D U ÇÃO 73

cien t e". Aq u i, ele se est en deu sobre o "dram a in t er io r " do processo de t ran sfor-
m ação, acrescen tan do u m a seção que t rat ava det alh adam en t e do processo de
in dividuação. Ele observava que, depois de alguém t er lid ad o com as fantasias
proven ien t es da esfera pessoal, deparava-se com as fantasias proven ien t es da
esfera im pessoal. Est as n ão eram sim plesm en t e arbit rárias, mas con vergiam
para u m a m et a. Por isso, essas fantasias post eriores pod iam ser descritas com o
processos de in iciação, que forn eciam sua an alogia m ais próxim a. Para ocor-
rer este processo, era n ecessária a part icipação ativa: "Q u an d o a con sciên cia
desem pen h a u m a part e at iva e exp erim en t a cada fase do processo... a im agem
seguinte sem pre ascen d erá a u m est ádio superior, con st it u in d o-se assim fin a-
lidade da m e t a " 2 19 .
Ap ó s a assim ilação do in con scien t e pessoal, a diferen ciação da person a e a
superação do estado de sem elh an ça com Deu s, a fase seguinte era a in t egração
da anim a para os h om en s e do anim us para as m u lh eres. Ju n g afirm ou que, assim
com o era essen cial para u m h om em d ist in gu ir en t re o que ele era e com o apa-
recia aos out ros, era igualm en t e essen cial ad qu irir con sciên cia de "seu in visí-
vel sist em a de relações com o in con scien t e" e por isso d ist in gu ir-se da anim a.
Ele observou que, quan do a anim a era in con scien t e, ela era projet ada. Para u m a
crian ça, a p r im eir a port ad ora da im agem da alm a era a m ãe e, depois, as m u lh e-
res que est im u lavam os sen t im en t os do h om em . Er a preciso objet ivar a anim a
e colocar-lh e qu est ões, através do m ét od o do d iálogo in t er ior ou im agin ação
ativa. Tod os, afirm ava Ju n g, t in h am essa capacidade de dialogar consigo m es-
m os. A im agin ação at iva seria assim u m a das form as de d iálogo in t erior, u m a
espécie de pen sar dram at izado. Er a cru cial desiden t ificar-se dos pen sam en tos
que su rgiam e superar a presu n ção de que a p róp ria pessoa os h avia p r od u zi-
d o 2 2 0 . O m ais essen cial n ão era in t erp ret ar ou com preen der as fan tasias, mas
viven ciá-las. Ist o represen t ou u m a m u d an ça n a ênfase que Ju n g d era à for m u -
lação criat iva e à com p reen são em seu en saio sobre a fun ção t ran scen den t e.
Ju n g afirm ou que o in d ivíd u o d evia t rat ar as fantasias in t eiram en t e de form a
lit eral en quan t o estava em pen h ado n elas, mas de form a sim bólica quan do as
in t er p r et ava 221. Ist o era u m a descrição d iret a do proced im en t o de Ju n g nos Li-

219 Ib id ., § 38 6 .
220 Ib id ., § 323.
221 Ib id ., § 353
74 LI BE R N O VU S

vros Negros. A tarefa de tais discussões era objet ivar os efeitos da anim a e t orn ar-se
con scien t e dos con t eú d os em que est ão baseados, assim in t egran do-os à con s-
ciên cia. Dep ois que alguém se h avia fam iliarizad o com os processos in con s-
cien t es refletidos n a anim a, ela se t orn ava en t ão u m a fun ção de relação en t re a
con sciên cia e o in con scien t e, n ão m ais u m com plexo au t ón om o. Novam en t e,
esse processo de in t egração d a anim a foi o t em a do Liber Novus e dos Livros Negros.
(Ist o realça t am bém o fato de que as fantasias con t idas n o Liber Novus d everiam
ser lidas sim bolicam en t e e n ão lit eralm en t e. Tir a r afirm ações delas do con t ex-
to e cit á-las lit eralm en t e represen t aria u m grave m al-en t en d id o). Ju n g n ot ou
que esse processo t in h a três efeitos:

Em prim eiro lugar, há um a ampliação da consciência, pois inúm eros con -


teúdos inconscientes são trazidos à consciência. Em segundo lugar, h á um a
dim inuição gradual da influência dominante do inconsciente; em terceiro
lugar, verifica-se um a transformação da person alidade 222.

Ap ó s alcan çar a in tegração d a anim a, o in divídu o con fron tava-se com o u -


t ra figura, a saber, a "person alidade-m an a". Ju n g afirm ava que, quando a anim a
perd ia seu "m an a" ou poder, o h om em que a assim ilou d evia t ê-lo adquirido
e assim se torn ado u m a "person alidade-m an a", u m ser de vontade e sabedoria
superiores. Con t u d o, essa figura era "u m a dom in an t e do in con scien te coletivo:
o con h ecido arquét ipo do h om em poderoso, sob a form a do h erói, do cacique,
do mago, do curan deiro e do santo, sen hor dos h om en s e dos espíritos, amigo de
D e u s"223 . Assim , ao in tegrar a anim a e alcançar seu poder, a pessoa iden tificava-se
in evit avelm en t e com a figura do m ágico e en fren tava a tarefa de diferen ciar-se
deste. Ju n g acrescen tou que, para as m ulh eres, a figura correspon den te era a
da Gran d e Mãe. Se alguém abandonava a pret en são de vit ória sobre a anim a,
acabava a possessão pela figura do m ágico e ele percebia que o m an a pert en cia
realm en t e ao "pon t o cen t ral da person alidade", a saber, o si-m esm o. A assim ila-
ção dos con t eú dos d a person alidade-m an a levava ao si-m esm o. A descrição de
Ju n g do en con t ro com a person alidade-m an a, t an t o a iden t ificação com o a su b-
sequente desiden t ificação com ela, correspon de a seu en con t ro com Filêm on

222 I b i d , § 358.
223 I b i d , § 377.
I N T RO D U ÇÃO 75

n o Líber Novus. Sobre o si-m esm o, Ju n g escreveu: "O si-m esm o t am bém pode
ser cham ado c o Deu s em n ós'. O s prim órd ios de toda nossa vid a psíquica pa-
recem surgir in ext ricavelm en t e desse ponto, e as metas m ais altas e derradeiras
parecem d irigir-se para e le "224 . A descrição que Ju n g faz do si-m esm o exp rim e a
im port ân cia de sua percepção após seu sonho de Liverp ool:

O si-mesmo pode ser caracterizado como um a espécie de compensação do


conflito entre o in t erior e o exterior... Assim , pois, representa a meta da
vida, sendo a expressão plena dessa combinação do destino a que damos o
nome de indivíduo... Sentindo o si-mesmo como algo de irracion al e in de-
finível, em relação ao qual o eu não se opõe nem se submete, mas sim ples-
mente se liga, girando por assim dizer em torno dele como a t erra em torno
do sol - chegamos à meta da in d ivid u ação 225.

O co n fr o n t o c o m o m u n d o
Por que Ju n g parou de t rabalh ar n o Líber Novus? E m seu posfácio, escrit o em
19 59 , escreveu:

O conhecimento da alquim ia, em 19 30 , afastou-me dele. O começo do fim


veio em 19 28 , quando [Rich ard ] W ilh elm me enviou o texto da "flor de
ouro", u m tratado alquímico. Então, o conteúdo deste livro encontrou o ca-
m in h o da realidade e eu não consegui mais con tin uar o t rabalh o 226 .

Exist e m ais u m quadro t erm in ad o n o Líber Novus. Lm 19 28 , Ju n g p in t ou u m


m an d ala de u m castelo dourado (pág. 16 3 d a ed ição ilu st rad a). Dep ois de p in -
t á-lo, im pression ou-o o fato de o m an dala t er em si algo de chinês. Pouco depois,
Rich ar d W ilh e lm en viou-lh e o texto de O segredo da Llor de Ouro, pedin do-lh e que
escrevesse u m com en t ário sobre ele. Ju n g ficou im pression ado com o t ext o e
com a coin cid ên cia cron ológica:

224 Ib id ., § 3 9 9 .
225 Ib id ., § 4 0 4 - 4 0 5.
226 Cf. ad ian t e, p. 4 8 9 .
76 LI BE R N O VU S

O t e xt o m e fo r n e cia u m a co n fir m a çã o in esp er ad a n o t ocan t e às m in h a s


reflexões sobre o mandala e à deambulação em torno do centro. Este foi
o prim eiro acontecimento que rom peu a m in h a solidão. Al i percebi um a
afinidade e pude estabelecer laços com alguém e com algo 227.

O sign ificado dessa con firm ação é m ost rado nas lin h as que ele escreveu
em baixo da p in t u r a do Cast elo Am a r e lo 2 2 8 . Ju n g ficou im pression ado com as
correspon d ên cias en t re as im agens e con cepções desse t ext o e seus p róp rios
quadros e fantasias. E m 2$ de m aio de 19 29 , ele escreveu a W ilh e lm : "O dest in o
parece t er-n os at ribu íd o o papel de duas pilast ras que su st en t am a pon t e en t re
O r ien t e e O cid e n t e " 2 2 9 . Só m ais tarde deu-se con t a de que a n at u reza alqu ím i-
ca do t ext o era im p o r t a n t e 230 . Ju n g t rabalh ou em seu com en t ário du ran t e o ano
de 19 2 9 . E m 10 de setem bro de 19 2 9 , escreveu a W ilh e lm : "Vib r e i com este
texto, que está tão p róxim o de nosso in con scien t e"231.
O com en t ário de Ju n g sobre O segredo da Flor de Ouro represen t ou u m a m u -
d an ça decisiva. Fo i sua p r im eir a discussão pú blica sobre o sign ificado do m a n -
dala. Pela p r im eir a vez, Ju n g apresen t ou an on im am en t e t rês de suas p in t u ras
t iradas do Líber Novus com o exem plos de m an dalas europeus e t eceu com en t á-
rios sobre ela s 232 . A W ilh e lm , escreveu em 2 8 de ou t u bro de 19 2 9 a respeit o
dos m an dalas do volu m e: "As im agen s com plet am -se um as às out ras e, ju st a-
m en t e por causa de sua d iversid ad e, d ão u m a excelen t e im agem dos esforços
do esp írit o in con scien t e eu ropeu para com preen d er a escatologia o r ie n t a l"233 .
Essa ligação en t re o "espírit o in con scien t e eu rop eu " e a escatologia or ien t al
t orn ou -se u m dos gran des tem as n a obra de Ju n g n a d écad a de 19 30 , que ele
in vest igou por m eio de outras colaborações com os in d ólogos W ilh e lm H a u e r
e H e in r ich Zim m e r 2 34 . Ao m esm o tem po, a form a d a obra era cru cial: em vez

227 Mem órias, p. 175.


228 Cf. ad ian t e, p. 4 22, n o t a 373.
229 JA.
230 Pr efácio à segu n d a e d içã o alem ã. "Co m e n t á r i o a O segredo da Fiorde Ouro". O C , 13, p. 16.
231 W i l h e l m gost ou d o co m e n t á r io de Ju n g. E m 24 de o u t u b r o d e 1929, escr eveu -lh e: "fiq u e i d e n o vo
p r o fu n d a m e n t e im p r e ssio n a d o co m seu s co m e n t á r io s" QÀ).
232 Cf. ilu st r . 10 5,159 e 163 (est es q u ad r os, ju n t o co m m ais d ois, fo r a m d e n o vo r e p r o d u z id o s
a n o n im a m e n t e e m 1950 e m Ed . Ju n g. Gestaltungen des Unbewussten: Psych o lo gisch en Ab h a n d lu n ge n . Vo l . 7.
Zu r iq u e : Rasch er , 1950.
233 JP.
234 So b r e est a q u est ão, cf. S H A M D A S A N I , So n u ( o r g.) . The Psychology ofKundalíní Toga: No t e s o f t h e Se m in a r
G i v e n i n 1932 b y C G . Ju n g. P r in ce t o n : P r in c e t o n U n ive r s it y P r e ss/ Bo llin ge n Ser ies, 1996.
I N T RO D U ÇÃO 77

de revelar os detalh es com plet os de seu exp erim en t o, ou do de seus p acien -


tes, Ju n g u sou os paralelos com o t ext o ch in ês com o m an eir a in d ir et a de falar
sobre ele, de m an eir a b em sem elh an t e com o com eçara a fazer n o capít u lo 5
de Tipos psicológicos. Est e m ét od o alegórico t orn ou -se agora sua form a preferid a.
Em vez de escrever d iret am en t e sobre suas exp eriên cias, ele t ecia com en t ários
sobre m an ifest ações an álogas em prát icas esot éricas e sobretudo n a alq u im ia
m ed ieval.
Pouco depois, Ju n g d eixou rep en t in am en t e de t rabalh ar n o Líber Novus. A
ú lt im a im agem de págin a in t eir a foi d eixad a in acabada e ele p arou de t r an s-
crever o t ext o. Mais t arde, Ju n g lem b r ou que, quan do chegou a este pon t o
cen t ral ou Tao, com eçou seu con fron t o com o m u n d o e ele com eçou a dar
m u it as con fer ên cias 235 . Dessa form a, chegou ao fim o "con fron t o com o i n -
con scien t e" e com eçou o "con fron t o com o m u n d o". Ju n g acrescen t ou que viu
essas at ividades com o u m a form a de com p en sação pelos anos de preocu pação
in t e r io r 2 36 .

O e st u d o c o m p a r a t ivo d o p r o ce sso d e
in d ivid u a ç ã o
Ju n g fam iliarizara-se com t ext os alqu ím icos desde 19 10 aproxim adam en t e.
Em 19 12, Th éo d o r e Flou r n oy apresen t ara u m a in t erpret ação psicológica da
alqu im ia em suas preleções n a Un iversid ad e de Gen eb r a e, em 19 14 , H er b er t
Silberer p u blicou u m a ext en sa obra sobre o t e m a 237 . A abordagem de Ju n g
à alqu im ia seguia a obra de Flo u r n o y e Silberer, ao con siderar a alqu im ia a
p art ir de u m a perspect iva psicológica. Su a com p reen são baseava-se em duas
grandes teses: p rim eiram en t e que, ao m ed it ar sobre os t ext os e m at eriais em
seus laborat órios, os alquim ist as estavam realm en t e prat ican d o u m a form a de
im agin ação at iva; e, em segundo lugar, que o sim bolism o nos textos alqu ím icos

235 M P , p. 15.
236 E m 8 d e fever eir o d e 1923, C a r y Bayn es a n o t o u u m a d iscu ssão c o m Ju n g o co r r id a n a p r im a ve r a an t er io r ,
qu e t eve in flu ên cia sob re ist o: "Vo cê [Ju n g] d isse qu e, p o r m ais qu e u m in d ivíd u o p ossa d ist in gu ir -se d a
m u lt id ã o p o r d on s esp eciais, ele n ã o t e r á c u m p r id o co m seu s d ever es, p sico lo gicam en t e falan d o, a n ã o ser
qu e p ossa fu n cio n a r c o m ê xit o n a co let ivid ad e. Po r fu n cio n a r n a co let ivid ad e n ó s am b os e n t e n d ía m o s
aq u ilo qu e co m u m e n t e se ch a m a "m is t u r a r - s e " c o m as pessoas d e fo r m a so cial, n ã o r elações p r o fissio n ais
o u de n e gó cio s. Vo cê in sist ia e m qu e, se u m in d ivíd u o se m a n t i n h a afast ad o d est as r elações colet ivas, ele
p e r d ia algo qu e n ã o p o d ia d a r -se ao lu xo d e p e r d e r " (CFB).
237 Problem ederMystíkunâíhreSym boltk. Vie n a : H e lle r , 1914.
78 LI BE R N O VU S

correspon d ia ao do processo de in d ivid u ação n o qual Ju n g e seus pacien tes se


h aviam em penhado.
N a década de 19 30 , a at ividade de Ju n g deslocou-se do t rabalh o sobre suas
fantasias nos Livros Negros para seus cadern os de alqu im ia. Nest es, ele apresen t a-
va u m a coleção en ciclopéd ica de excert os de lit erat u ra alqu ím ica e obras rela-
cion adas, que classificou de acordo com palavras e tem as-ch ave. Esses cadern os
con st it u íram a base de seus escritos sobre a psicologia da alqu im ia.
Dep ois de 19 30 , Ju n g pôs de lado o Líber Novus. Em b o r a tivesse parado de
t rabalh ar d iret am en t e n ele, o livr o ain d a con t in u ava n o cen t ro de sua at ivid a-
de. E m seu t rabalh o t erapêu t ico, Ju n g con t in u ou t en t an d o fom en t ar m an ifes-
t ações sem elh an t es em seus pacien t es e d et erm in ar quais aspectos de sua p r ó -
p r ia exp eriên cia eram sin gulares e quais t in h am algum a gen eralidade e ap lica-
bilid ad e para os out ros. E m suas pesquisas sim bólicas, Ju n g estava in t eressado
em paralelos com as im agen s e con cepções do Líber Novus. A qu est ão com que
ele se ocupava era a seguinte: será que era possível en con t rar algo parecido
com o processo de in d ivid u ação em todas as cult uras? E m caso posit ivo, quais
eram os elem en t os com u n s e os elem en t os d iferen ciais? Nest a perspect iva, o
t rabalh o de Ju n g após 19 3 0 p od eria ser con siderado u m a ext en sa am pliação
dos con t eú d os do Líber Novus e u m a t en t at iva de t r ad u zir seus con t eú d os n u m a
form a aceit ável às con cepções con t em p orân eas. Algu m as das afirm ações fei-
tas n o Líber Novus correspon d em de pert o a posições que Ju n g ir ia art icu lar
p ost eriorm en t e em suas obras publicadas e represen t am suas p rim eiras for-
m u la çõ e s 238 . Por ou t ro lado, m u it a coisa n ão chegou a en t rar d iret am en t e nas
O b r as Com p let as, ou foi apresen t ada de form a esqu em át ica, ou p or m eio de
alegorias e alusões in d iret as. As s im o Líber Novus p ossib ilit a u m esclarecim en -
to at é aqu i in su speit ad o dos aspectos m ais difíceis das O b r as Com p let as de
Ju n g. Sim p lesm en t e n ão estam os em con d ição de com preen d er a gén ese da
obra post erior de Ju n g, n em de com preen d er plen am en t e o que ele estava
procu ran d o realizar, sem est udar o Líber Novus. Ao m esm o tem po, as O b r as
Com p let as pod em ser em part e con sideradas u m com en t ário in d ir et o sobre o
Líber Novus. Am b o s exp licam -se m u t u am en t e.

238 Est a s são in d icad as n as n ot as de r o d a p é ao t ext o.


I N T RO D U ÇÃO 79

Ju n g con sid erou seu "con fron t o com o in con scien t e" a fon te de sua obra
posterior. Ele lem b rou que t oda a sua obra e tudo quan t o realizou post erior-
m en t e proveio dessas im agin ações. Ele h avia expressado as coisas da m elh or
form a que podia, em lin guagem tosca, deficien t e. Mu it as vezes sen t ia com o se
"gigantescos blocos estivessem cain do sobre m im . U m a tem pestade desen ca-
deava ou t ra". Ele estava adm irado de que isso n ão o d est ru iu com o d est ru íra a
out ros, com o por exem plo Sch r eb er 239 .
Q u an d o indagado por Ku r t W o lff em 19 57 sobre a relação en t re suas obras
erudit as e suas notas aut obiográficas de sonhos e fantasias, Ju n g respon deu:

Mas en con trei esta corrente de lava e a paixão nascida de seu fogo t ran s-
form ou e coordenou m in h a vida. Tal corrente de lava foi a m atéria-prim a
que se impôs e m in h a obra é u m esforço, mais ou menos bem-sucedido,
de in clu ir essa m atéria ardente n a concepção do mundo de m eu tempo. As
prim eira fantasias e os prim eiros sonhos foram como que u m fluxo de lava
líquida e incandescente; sua cristalização engendrou a pedra em que pude
t rab alh ar 240 .

Ju n g acrescen t ou que "foram n ecessários qu aren t a e cin co anos para elaborar


e in screver n o quadro de m in h a obra cien t ífica os elem en tos que vivi e an ot ei
nessa época de m in h a vid a " 2 4 1.
Segun do as p róp rias palavras de Ju n g, p od er-se-ia con sid erar que o Líber
Novus con t ém , en t re out ras coisas, u m relat o das fases de seu processo de in d i-
vidu ação. E m obras subsequen tes, ele p rocu rou m ost rar os elem en t os com u n s
esqu em át icos gerais p ara os quais p od ia en con t rar paralelos em seus pacien t es
e em pesquisas com parat ivas. As obras post eriores apresen t am , port an t o, u m
esboço esqu elét ico, u m esboço básico, m as d eixar am fora o p r in cip al corpo
de det alh es. Ret rosp ect ivam en t e, Ju n g descreveu o Livro Verm elho com o u m a
t en t at iva de form u lar as coisas em t erm os de revelação. Tin h a esperan ça de
que ist o ir ia lib ert á-lo, m as d escobriu que n ão o lib er t ou . Percebeu en t ão que
precisava ret orn ar ao lado h u m an o e à ciên cia. Precisava t ir ar con clu sões das

239 Mem órias, p. 176. • MP, p. 144.


24 0 Mem órias, p. 176.
241 I b i d .
8o LI BE R N O VU S

in t u iç õ e s . A e l a b o r a ç ã o do m a t e r i a l do Livro Verm elho era vital, m a s ele p r e c is a va

t am b ém com preen d er as obrigações ét icas. Ao fazê-lo, t in h a pago com sua


vid a e sua ciê n cia 24 2 .
Em 19 30 , Ju n g com eçou u m a série de sem in ários sobre as visões fan tásticas
de Ch r ist ia n a Morgan n o Clu b e Psicológico de Zu r iq u e, que podem , em part e,
ser con sideradas u m com en t ário in d iret o sobre o Líber Novus. Para d em on st rar a
validade em pírica das con cepções que obteve neste últ im o, ele precisava m os-
t rar que os processos nele descrit os n ão eram ún icos.
Co m seus sem in ários sobre a Yoga Ku n d a lin i em 19 32, Ju n g com eçou u m
estudo com parat ivo de prát icas esot éricas, pon do o foco nos exercícios esp ir i-
tuais de In ácio de Loyola, n o Yoga-su t ra de Pat an jali, nas prát icas m edit at ivas
budistas e n a alqu im ia m ed ieval, que ele apresen t ou n u m a lon ga série de p re-
leções n o In st it u t o Fed eral Su íço de Tecn ologia ( E T H ) 2 4 3 . O crit ério essen cial
que p ossibilit ou essas ligações e com parações foi a percepção de Ju n g de que
essas prát icas baseavam -se todas em diferen t es form as de im agin ação at iva - e
que todas elas t in h am com o m et a a t ran sform ação da person alidade - que Ju n g
en t en d eu com o o processo de in dividuação. Assim , as preleções de Ju n g n o
E T H p rop orcion am u m a h ist ória com parat iva da im agin ação at iva, a prát ica
que con st it u iu a base do Líber Novus.
Em 19 34 , Ju n g p u blicou sua p r im eir a descrição am p la de caso do processo
de in dividuação, que foi o de Kr ist in e Man n , que p in t ar a u m a ext en sa série de
m an dalas. Ele se referiu a seu p róp rio em preen d im en t o:

Ut ilizei evidentemente t al m étodo comigo mesmo e posso constatar que de


fato podemos pin t ar quadros complexos, cujo verdadeiro conteúdo nos é
totalmente desconhecido. En quan to pintam os, o quadro se desenvolve por
si mesmo e muitas vezes até contrariando a intenção con scien t e 244 .

Ju n g observou que o presen te trabalh o preen ch ia u m a lacu n a em seus m ét od os


t erapêu t icos, pois escrevera pouco sobre a im agin ação at iva. Ele u sara esse m é-

242 MP, p. 148.


243 Est a s p r e leçõ e s est ã o sen d o p r ep ar ad as a t u a lm e n t e p a r a p u b licação. Pa r a m ais d et alh es, cf.
www.p h ile m o n fo u n d a t io n .o r g
24 4 Est u d o e m p ír ico d o p rocesso de in d ivid u a çã o ". O C , 9/ 1, § 6 22.
I N T RO D U ÇÃO 81

t od o desde 19 16 , m as só o d elin eou em As relações entre oeueo inconsciente, em 19 2 8 ,

e m en cion ou o m an d ala pela p r im eir a vez em 19 2 9 , em seu com en t ário sobre


O segredo da Flor de Ouro:

Silen ciei os resultados desse m étodo por treze anos, a fim de não provocar
qualquer sugestão, pois queria certificar-m e de que essas coisas - sobretudo
os mandalas - surgem espontaneamente e não sugeridas por m in h a própria
fan t asia 245.

Em todos seus estudos h ist óricos, con ven ceu-se de que os m an dalas foram
produzidos em todos os tem pos e lugares. O b ser vou t am bém que eles eram
produ zidos p or pacien tes de psicoterapeutas que n ão eram seus alun os. Ist o
m ost ra t am bém u m a das razões que podem t ê-lo levado a n ão pu blicar o Líber
Novus: con ven cer-se a si m esm o, e a seus crít icos, de que as m an ifest ações de
seus pacien tes e, especialm en te, suas im agens de m an dalas n ão se d eviam sim -
plesm en t e à sugestão. Ele julgava que o m an d ala represen t ava u m dos m elh ores
exem plos d a u n iversalidade de u m arquét ipo. E m 19 36 , Ju n g an ot ou t am bém
que ele p róp rio h avia usado o m ét od o da im agin ação at iva por u m longo p er ío-
do de t em po e observado m u it os sím bolos que con seguiu verificar só anos m ais
tarde em t ext os que lh e eram d escon h ecid os 246 . Con t u d o, de u m pon t o de vist a
com probat ivo, dada a am plit u d e de sua eru dição, o m at erial do p róp rio Ju n g
n ão t eria sido u m exem plo p art icu larm en t e con vin cen t e de sua tese de que as
im agens provin das do in con scien t e colet ivo em ergiam espon tan eam en te sem
con h ecim en t o prévio.
N o Líber Novus, Ju n g art icu lou sua com preen são das t ran sform ações h ist ó-
ricas do crist ian ism o e da h ist oricid ad e das form ações sim bólicas. O cu p ou -se
com esse t em a em seus escritos sobre a psicologia d a alqu im ia e sobre a p si-
cologia dos dogmas crist ãos e, sobretudo, em Resposta a Jó. Co m o vim os, Ju n g
estava con ven cido de que suas visões an t eriores à gu erra eram visões profét icas
que levaram à com posição do Líber Novus. E m 19 52, através de sua colaboração
com o físico W olfgan g Pau li, gan h ador do p rém io Nob el, Ju n g su st en t ou que

24$ Ib id ., § 6 23.
24 6 Asp e ct o s p sico ló gico s d a Co r e ". O C , 9/ 1, § 334.
82 LI BE R N O VU S

exist ia u m prin cípio de ord en am en t o acausal subjacen te a tais "coin cidên cias
sign ificat ivas", p rin cíp io que ele ch am ou de sin cr on icid ad e 24 7 . Afir m o u que, em
certas circun st ân cias, a con st elação de u m arqu ét ipo levava a u m a relat ivização
do t em po e do espaço, o que explicava com o esses even tos pod iam acontecer.
Er a u m a t en t at iva de am pliar a com preen são cien t ífica para acom odar even tos
com o suas visões de 19 13 e 19 14 .
E im p ort an t e observar que a relação do Líber Novus com os escritos er u d i-
tos de Ju n g n ão seguiu u m a t radução e elaboração d iret a pon t o por ponto. Já
em 19 16 , Ju n g p rocu rou t r an sm it ir alguns dos resultados de seus experim en t os
n u m a lin guagem eru d it a, en quan t o con t in u ava com a elaboração de suas fan t a-
sias. Seria m elh or con siderar o Líber Novus e os Livros Negros com o represen t an do
u m opus privado que corria paralelo e ao lado de seu opus eru d it o pú blico; em bo-
r a o ú lt im o se alim en tasse e derivasse do p rim eiro, eles p erm an eciam d ist in t os.
Dep ois de d eixar de t rabalh ar n o Líber Novus, Ju n g con t in u ou a elaborar seu opus
privado — sua p róp ria m it ologia — em seu trabalh o n a t orre, em seus en talh es
em pedra e nos quadros que pin tava. Aq u i, o Líber Novus fun cion ava com o u m
cen t ro gerador e u m bom n ú m ero de seus quadros e gravuras relacion am -se com
ele. N a psicot erapia, Ju n g procu rava t orn ar seus pacien tes capazes de recu perar
u m a con sciên cia do sen t ido n a vid a facilit an d o-lh es e su pervision an d o-lh es a
au t oexperim en t ação e a criação de sím bolos. Ao m esm o tem po, p rocu rou ela-
borar u m a psicologia cien t ífica geral.

A p u b lica çã o d o Líber Novus


Em b ora Ju n g tivesse parado de trabalh ar diretam en t e n o Líber Novus, perm an ecia
a questão do que fazer com ele e con tin uava aberta a questão de sua eventual pub-
licação. Em 10 de abril de 19 4 2, Jun g respondeu a Mary Mellon sobre u m a edição
dos Serm ones: "Q u an t o à edição dos 'Sete Sermones', desejaria que você esperasse
u m pouco. Eu t in h a em m en te acrescentar certo m at erial, mas ten ho hesitado

247 Cf. M E I E R , C A . ( o r g.) . AtotnandArchetype: T h e Pa u li/ Ju n g Le t t e r s. P r in ce t o n : P r in c e t o n U n i ve r s i t y


Pr ess, 2 0 0 1 [co m p r efácio d e Be ve r le y Za b r is k ie - Tr a d . de D . Ro sco e ].
I N T RO D U ÇÃO 83

fazê-lo duran te anos. Mas n u m a ocasião com o essa poder-se-ia ar r iscar "24 8 . E m
19 4 4 , Ju n g teve u m grave ataque cardíaco e n ão levou a cabo esse plano.
Em 19 52, Lu cy H eyer apresen tou u m projet o para u m a biografia de Jun g. Por
sugestão de O lga Froebe e in sist ên cia de Jun g, Ca r y Bayn es com eçou colaboran -
do com Lu cy H eyer nesse projeto. Ca r y Bayn es pensava escrever u m a biografia
de Ju n g baseando-se n o Líber Novus249. Para decepção de Jun g, ela d esist iu do
p r o je t o . Ap ó s d ive r so s a n o s d e e n t r e vist a s c o m Lu c y H e ye r , Ju n g pôs u m t e r m o

ao projeto biográfico dela em 19 55, porque estava in sat isfeit o com seu progresso.
Em 19 56 , Ku r t W o lff propôs u m out ro projet o biográfico, que se t ran sform ou
em Memórias, Sonhos, Reflexões. E m algum m om en t o, Ju n g d eu a An ie la Jaffé u m a
cópia do esboço do Líber Novus, feita por To n i W olff. Ju n g au t orizou Jaffé a fazer
cit ações do Líber Novus e dos Livros Negros em Mem órias, Sonhos, Reflexões 250. E m suas

en trevistas com An ie la Jaffé, Ju n g d iscu t iu o Líber Novus e sua au t oexperim en t a-


ção. In felizm en t e, ela n ão rep rod u ziu todos os com en t ários dele.
E m 31de ou t u bro de 19 57, ela escreveu a Jack Ba r r e t t d a Fu n d ação Bo llin -
gen a respeit o do Líber Novus e in for m ou -o de que Ju n g h avia sugerido que este
e os Livros Negros fossem doados à b ib liot eca d a Un iver sid ad e de Basileia com
u m a rest rição de 5 0 an os, 8 0 an os o u m ais, já que "ele od eia a id eia de que
algu ém leia este m at er ial sem con h ecer as relações co m a vid a dele et c." El a
acrescen t ou que d ecid ir a n ão u sar m u it a coisa deste m at er ial em Memórias251.
N u m dos p r im eir os m an u scrit os de Memórias, Jaffé in clu íra u m a t ran scrição
do esb oço dat ilografado d a m aior part e do Líber Prímus252. Mas foi o m it id a do
m an u scr it o final e ela n ão fez cit ações do Líber Novus n e m dos Livros Negros. N a

ed ição alem ã das Memórias, Jaffé in clu iu o ep ílogo de Ju n g ao Líber Novus com o

248 JA. É p r o vá ve l qu e Ju n g t ivesse e m m e n t e os co m e n t á r io s d e Filê m o n . Cf. ad ian t e, p. 453-475


24 9 O l g a Fr o e b e - Ka p t e yn a Ja ck Ba r r e t t , 6 d e ja n e ir o d e 1953, a r q u ivo de Bo llin ge n , Bib lio t e ca d o
Co n gr esso .
250 Ju n g a Jaffé, 27 d e o u t u b r o d e 1957, a r q u ivo d e Bo llin ge n , Bib lio t e ca d o Co n gr esso .
251 Ar q u ivo s d e Bo llin ge n , Bib lio t e ca d o Co n gr esso . Jaffé d e u u m a e xp lica çã o sem elh an t e a Ku r t W o l f f
m e n cio n a n d o 30 , 50 o u 8 0 an os co m o p o ssível r est r ição ( s e m d at a, r eceb id a a 30 d e o u t u b r o d e 19 57),
Ku r t W o l f f p ap ers, Bib lio t e c a Be in e ck e , U n ive r sid a d e d e Ya le . Ao le r os p r im e ir o s p ar ágr afo s d os
p r o t o co lo s d as en t r evist as d e An i e l a Jaffé c o m Ju n g, C a r y Ba yn e s escr eveu a Ju n g e m 8 d e ja n e ir o d e 1958
qu e "é a co r r e t a in t r o d u çã o ao Livro Verm elho, e q u an t o a isso p osso m o r r e r e m p az!" (CFB).
252 Ku r t W o l f f p ap ers, Bib lio t e c a Be in e ck e , U n ive r sid a d e d e Yale. O p r ó lo go fo i o m it id o e r eceb eu o t ít u lo
d o p r im e ir o cap ít u lo, "D e r W i d e r fi n d u n g d e r Seele" [a r ed esco b er t a d a a lm a ]. Exis t e t a m b é m o u t r a có p ia
d est a seção fo r t e m e n t e e d it a d a p o r u m a m ã o n ã o id e n t ifica d a , q u e p od e t e r feit o p ar t e d o t r ab alh o d e
p r e p a r á - lo p a r a p u b lica çã o p o r esse t e m p o (JFÁ).
84 LI BE R N O VU S

ap ên d ice. As est ipu lações flexíveis de datas propost as p or Ju n g a respeit o do


acesso ao Líber Novus foram sem elh an t es às que ele d eu p or essa m esm a ép oca
a respeit o da p u blicação de sua cor r esp on d ên cia com Fr e u d 2 5 3 .
Em 12 de ou t u bro de 1957, Ju n g disse a Jaffé que ele n u n ca t er m in ar a o Livro
Vermelho254. D e acordo com Jaffé, n a p rim avera de 19 59 , Ju n g, após u m lon go
tem po de saúde d ebilit ad a, ret om ou o Líber Novus para com plet ar a ú lt im a im a -
gem que perm an ecera in acabada. Mais u m a vez ele se ocupou em t ran screver
o m an u scrit o para o volu m e caligráfico. Jaffé an ota: "Mas t am bém agora ele
n ão p ôd e ou n ão quis con clu í-lo. Isso t in h a a ver, disse ele, com a m o r t e "255 . A
t ran scrição caligráfica t er m in a abrupt am en t e n o m eio d a frase, e Ju n g acres-
cen t ou u m posfácio, que t am bém t er m in ou abrupt am en t e n o m eio da frase.
O p ós-escrit o e as discussões de Ju n g sobre sua doação a u m arquivo sugerem
que Ju n g t in h a con sciên cia de que a obra acabaria sen do estudada em algum
m om en t o. Ap ó s a m ort e de Ju n g, o Líber Novus, de acordo com a von t ade dele,
perm an eceu com sua fam ília.
Em sua con ferên cia de Er an os em 19 71, in t it u lad a "As fases criat ivas n a
vid a de Ju n g", Jaffé cit ou duas passagens do esboço do Líber Novus, observan do
que "Ju n g pôs u m a cóp ia do m an u scrit o à m in h a d isposição com p erm issão de
cit á-lo caso surgisse algum a op or t u n id ad e"256 . Est a foi a ú n ica vez que ela o fez.
Q u ad r os do Líber Novus foram m ost rados t am b ém n u m d ocu m en t ário da B B C
sobre Ju n g, n arrad o por Lau ren s va n d er Post , em 19 72. Esses quadros des-
p ert aram u m am plo in t eresse pelo livro. E m 19 75, após a m u it o b em recebid a
pu blicação das Cartas Lreud/ jung, W illia m McGu ir e , represen t an d o a Pr in ce-
t on Un ive r sit y Press, escreveu ao advogado do esp ólio de Ju n g, H a n s Kar r er ,
apresen t an do u m a propost a de pu blicação do Líber Novus e de u m a coleção de
fotografias das gravuras em ped ra e dos quadros de Ju n g e da Tor r e. Prop ôs
u m a ed ição fac-sim ilar, possivelm en t e sem o t ext o. Escr eveu que "falt am -n os

253 Po d e-se ob ser var qu e a p u b lica çã o das car t as Fr e u d - Ju n g, d e cisiva e m si m e sm a , e n q u a n t o o Líber Novus
e o grosso das ou t r as co r r e sp o n d ê n cia s de Ju n g p e r m a n e ce r a m in é d it o s, la m e n t a ve lm e n t e agr avou a
eq u ivo cad a visã o fr e u d o cê n t r ica de Ju n g: co m o vem o s, n o Líber Novus, Ju n g est á se m o ve n d o n u m u n ive r so
t ão afast ad o d a p sican álise q u an t o se p ossa im agin ar .
254 MP, p. 169.
255 J U N G & J A F F É . Lrinnerungen, Trãum e, GedankenvonC.G.Jung. O l t e n : W a lt e r Ve r la g, 1988, p. 387. O s ou t r os
co m e n t á r io s d e Jaffé n est e p o n t o são in exat o s.
256 J A F F É . " T h e cr eat ive p h ases i n Ju n g s life". Spring: A n An n u a l o f Ar c h e t yp a l Psych ology a n d Ju n gia n
Th o u g h t , 1972, p. 174.
I N T RO D U ÇÃO 85

in form ações sobre o seu n ú m ero de págin as, a quan t idade relat iva de t ext o e
quadros e o con t eú d o e in t eresse do t e xt o "257 . Nin gu ém d a ed it ora t in h a r eal-
m en t e vist o ou lid o a obra n em sabia m u it o sobre ela. Est e pedido foi negado.
Em 19 75, algumas reprod u ções do volu m e caligráfico do Líber Novus foram
m ostradas n u m a exposição para com em orar o cen t en ário de Ju n g em Zu riq u e.
Em 19 77, n ove quadros do Líber Novus foram publicados por Jaffé em C.G.Jung:
W ord and Im age e, em 19 8 9 , alguns out ros quadros afins foram publicados por
Ge r h a r d W e h r em sua biografia ilu st rad a de Ju n g 258 .
Em 19 8 4 , o Líber Novus foi fotografado profission alm en t e e foram prepara-
das cin co edições fac-sim ilares. Est as foram dadas às cin co fam ílias diret am en t e
descendentes de Jun g. E m 19 9 2 , a fam ília de Ju n g, que h avia apoiado a p u b li-
cação das O b ras Com plet as de Ju n g em alem ão (con cluída em 19 9 5) , in iciou
u m exam e dos m at eriais in édit os de Jun g. Co m o resultado de m in h as pesqui-
sas, descobri u m a tran scrição in t egral e u m a tran scrição parcial do Líber Novus e
apresen tei-as aos h erdeiros de Ju n g em 19 9 7. N a m esm a época, ou t ra t ran scri-
ção foi apresen tada aos h erdeiros por Mar ie-Lou ise von Fran z. Fu i con vidado
a apresen tar in form es sobre o assunto e a con ven iên cia de sua publicação, e fiz
u m a apresen t ação sobre o assunto. Co m base nestes in form es e discussões, os
h erdeiros d ecid iram em m aio de 2 0 0 0 liberar a obra para publicação.

257 M c Gu i r e p ap er s, Bib lio t e ca d o Con gr esso. E m 1961, An i e l a Jaffé m o st r a r a o Líber Novus a Ri c h a r d H u l l ,


t r a d u t o r de Ju n g, e ele escr ever a suas im p r e ssõ e s a M c Gu i r e : " E l a [ AJ] n os m o s t r o u o fam oso ' Li vr o
Ve r m e lh o ' , ch e io de ve r d a d e ir o s d esen h os lou cos co m co m e n t á r io s e m e scr it a m o n a ca l; n ã o m e cau sa
su r p r esa qu e Ju n g o m a n t e n h a gu ar d ad o a set e ch aves! Q u a n d o ele e n t r o u e o v i u - fe liz m e n t e fech ad o -
sob re a m esa, d isse r isp id a m e n t e a ela: ' D a s so ll n ich t h ie r sein . N e h m e n Sie's we g!' [Ist o n ã o d e ve r ia est ar
aq u i. Le ve - o e m b o r a !], e m b o r a e la m e t ivesse escr it o a n t e r io r m e n t e qu e ele t in h a d ad o p e r m issã o p a r a e u
vê -lo . Re c o n h e c i d iver sos d os m an d alas q u e est ã o in clu íd o s e m " O sim b o lism o d o m a n d a la ". D a r i a u m a
m a r a vilh o sa e d içã o fa c-sim ila r , m as e u n ã o co n sid e r e i p r u d e n t e le va n t a r a q u e st ã o o u su ger ir a in clu são
de d esen h os n a au t ob iogr afia ( o qu e a Sr a. Jaffé in sist iu qu e e u fizesse). D e ve r i a r e a lm e n t e fazer p ar t e,
e m a lgu m m o m e n t o , d o seu opus: assim co m o a au t ob iogr afia é u m su p le m e n t o essen cial p a r a seu s o u t r o s
escr it os, a ssim o Livro Verm elho o é p a r a a au t ob iogr afia. O Livro Verm elho ca u so u -m e p r o fu n d a im p r e ssã o ;
n ã o h á d ú vid a qu e Ju n g p assou p o r t u d o q u an t o u m a p essoa in sa n a e xp e r im e n t a , e at é m ais. N a s p alavras
d a au t o an álise d e Fr e u d : Ju n g é e m si m e sm o u m h o sp ício a m b u la n t e ! A ú n ica d ife r e n ça e n t r e ele e u m
in t e r n a d o r egu lar é su a esp an t osa cap acid ad e d e m a n t e r - se d ist a n cia d o d a t er r ível r ealid ad e d e suas
visõ es, d e ob ser var e co m p r e e n d e r o qu e est ava acon t ecen d o e fo r ja r de su a e xp e r iê n cia u m sist e m a d e
t e r a p ia qu e fu n cio n a . N ã o fosse essa p r o e z a sin gu lar , ele se r ia u m d o id o va r r id o lou co. O m a t e r ia l b r u t o
de su a e xp e r iê n cia é m a is u m a ve z o m u n d o d e Sch r eb er ; só p o r cau sa de su a cap acid ad e d e o b se r va çã o
e d ist a n cia m e n t o e esfo r ço de co m p r een d er , p od e-se d iz e r d ele o q u e Co le r id ge , e m seus Ca d e r n o s ,
d isse de u m gr an d e m et a físico (e qu e m otto n ã o d a r ia p a r a a au t o b io gr afia!): ' El e o lh a va p a r a su a p r ó p r ia
Al m a at r avés d e u m Te le scó p io / O qu e p a r e cia t o t a lm e n t e ir r egu lar , ele vi a e m o st r a va qu e e r a m belas
Co n st e la çõ e s e acr escen t ava à Co n sciê n cia m u n d o s ocu lt os d e n t r o d e o u t r o s m u n d o s'" (17 d e m a r ço de
1961, a r q u ivo d e Bo llin ge n , Bib lio t e ca d o Co n gr e sso ) . A cit ação d e Co le r id ge fo i d e fat o u sad a co m o m otto
p a r a Mem órias, Sonhos, Reflexões.
258 J A F F É , An i e l a ( o r g.) . C.G.Jung: W o r d a n d Im age. Ilu st r . 52-57, 77- 79 , ju n t o c o m u m a im a ge m
r elacio n ad a, a ilu st r. 59. • W E H R , Ge r h a r d . AnlllustratedBiographyofjung, p. 4 0 , p. 140-141.
86 LI BE R N O VU S

O trabalho n o Líber Novus esteve n o cen t ro da au t oexperim en t ação de Jun g.


Ele é n ada m en os que o liyro cen t ral de sua obra. Co m sua publicação, estam os
agora em con dição de estudar o que acon teceu ali com base em d ocu m en t ação
prim ária em con traste com as fantasias, fofocas e especulações que con st it u em
boa parte do que se escreveu sobre Jun g, e de com preen der a gén ese e con st it u i-
ção de sua obra posterior. Por quase u m século, essa leit u ra sim plesm en t e n ão foi
possível e a vast a lit erat u ra que su rgiu sobre á vid a e obra de Ju n g n ão teve acesso
à m ais im port an t e fonte d ocu m en t ária in d ivid u al. A presen te publicação m arca
u m a cesura e abre a possibilidade de u m a n ova era n a com preen são da obra de
Jun g. Forn ece u m a abert ura ún ica para ver com o ele recuperou sua alm a e, ao
fazê-lo, elaborou u m a psicologia. Por isso, esta in t rodu ção n ão t er m in a com u m a
con clusão, mas com a prom essa de u m n ovo com eço.
N o t a d os t r a d u t o r e s d a e d içã o in glesa*
M A R K K YB U R Z , J O H N P E C K E S O N U SH AM D ASAN I

No início do Lêer Novus, Jun g experim en ta u m a crise de linguagem. O espírito das


profundezas, que im ediatam ente desafia o uso da linguagem feito por Jun g jun t o
com o espírito da época, in form a a Jun g que no terren o de sua alm a a linguagem
por ele conseguida não servirá mais. Sua própria capacidade de saber e falar já não
pode mais explicar por que ele profere o que diz ou m ovido por qual com pulsão ele
fala. Todas essas tentativas tornam -se arbitrárias n o dom ín io das profundezas, e até
mesmo m ortíferas. Jun g é levado a entender que aquilo que ele poderia dizer nessas
ocasiões é ao mesmo tempo "loucura" e, de m odo instrutivo, aquilo que é\ De fato,
n u m a perspectiva mais am pla, a linguagem que ele irá encontrar para sua experiên -
cia in t erior form aria u m a vasta Commedía: "Acreditas t u , h om em dessa época, que
a zom baria é menos que a adoração? O n d e estão tuas medidas, falso medidor? A
soma da vid a n a zom baria e n a adoração é que decide, não t eu julgam en to"2.
Ao t rad u zir este regist ro acum ulado de en con t ros im agin ais de Ju n g com
seus personagens in t eriores, proven ien t e de u m p eríod o de dezesseis anos a
com eçar pouco antes d a Pr im eir a Gu e r r a Mu n d ial, deixam os Ju n g perm an ecer
u m h om em que se despren deu das suas am arras, mas t am bém ficou preso n o
t u rbilh ão que ficou con h ecido pelo n om e de m od ern ism o lit erário. Procu ra-
m os n ão m od ern izar m ais n em t orn ar m ais arcaica a lin guagem e as form as em
que ele expressou seu t est em un h o pessoal.
A lin guagem do Líber Novus segue três grandes registros est ilíst icos e cada
u m deles apresen t a ao t rad u t or diferen t es dificuldades. U m p r im eir o registro
relat a fielm en t e as fantasias e diálogos in t eriores dos en con t ros im agin ais de
Ju n g, en quan t o u m segundo perm an ece firm e e crit eriosam en t e con ceit u ai.
U m t erceiro registro escreve n u m est ilo m ân t ico e profét ico, ou rom ân t ico e
dit irâm bico. A relação en t re esses aspectos - in form at ivo, reflexivo e rom ân -
t ico - da lin guagem de Ju n g perm an ece com ed ial de u m a form a que Dan t e ou
Goet h e t er iam recon h ecido. O u seja, em cada capít ulo os registros descrit ivo,
con ceit u ai e m ân t ico roçam con t in u am en t e u m com o out ro, en quan t o ao m es-

* Em b o r a est as r efer ên cias t r a t e m d a t r ad u ção in glesa, h á o b se r va çõ e s in t er essan t es e ú t eis sob re o est ilo d e
Ju n g n est a o b r a , r azão p o r q u e a m a n t ive m o s ( N o t a d a e d içã o b r a sile ir a )
1 Cf. ad ian t e, p. I I I .
2 Cf. ad ian t e, p. 112.

87
88 LI BE R N O VU S

m o t em po n en h u m regist ro sozin h o é afetado por seus parceiros. Todos os três


registros est ilíst icos servem a est ím u los psíqu icos e cada capít ulo com p art ilh a
u m m odo polifôn ico com os outros. N a seção dos Aprofundam entos desde 19 17
esta p olifon ia am adurece, suas vozes m ist u ran d o-se em várias proporções.
O leit or d ed u zirá rapid am en t e que este plan o n ão foi prem edit ado, m as
an tes n asceu do exp erim en t o ao qu al Ju n g se su bm et eu ard u am en t e. A "N o t a
Ed it o r ia l" esqu em at iza a evolu ção t ext u al dest a com posição. Aq u i bast a ape-
nas observar que Ju n g, cada vez, regist ra u m a cam ada prot ocolar in icial de
en con t ro n arrat ivo, geralm en t e com u m diálogo, e depois, n a "segun da cam a-
d a", u m a elaboração lírica e com en t ário desse en con t ro. A p r im eir a cam ada
evit a u m t om elevado, ao passo que a segunda acolhe a elevação e m od u la-se
em reflexões serm on át icas e m ân t ico-p rofét icas sobre o sen t ido do episód io,
que, por sua vez, esm iú çam os acon t ecim en t os d iscu rsivam en t e. Esse m odo
de com p osição — que é ú n ico nas obras de Ju n g — n ão foi u m arran jo t em pe-
ram en t al. Ao in vés, à m ed id a que os ep isód ios se acu m u lavam e seu in t eresse
au m en t ava, t ran sform ou -se n u m exp erim en t o que era t an t o lit erário quan t o
p sicológico e esp irit u al. N o vast o corpus publicado e in éd it o de Ju n g, n ão exist e
ou t ro t ext o que t en h a sido su bm et id o a t ão cuidadosa e con t ín u a revisão l i n -
gu íst ica com o o Líber Novus.

Esses três registros lin gu íst icos já se apresen t am com o pot en ciais m od e-
los para u m a possível tradução. Nossa prát ica con sist iu em d eixá-los coabit ar
d en t ro das est rut uras explorat órias vigen tes n o tem po do p róp rio Ju n g. A t a -
refa com que ele se deparou foi descobrir u m a lin guagem em vez de usar u m a
lin guagem já d ispon ível. O s p róp rios registros m ân t ico e con ceit u ai podem ser
con siderados t raduções do regist ro descrit ivo. O u seja, estes registros passam
de u m n ível lit eral a n íveis sim bólicos que o am plificam , n u m a an alogia m od er-
n a com os "m od i d iversi" de Dan t e em sua cart a a Ca n Gr an d e d elia Scala 3. E m
sen t ido bem real, o Líber Novus foi com posto através de t radução in t ert ext u al. A
ret órica do livro, sua m an eira de abordar, surge dessa est ru t u ra in t eragen t e de
t radução in t er n a ou tran svaloração. U m a tarefa crít ica para qualquer t radução
da obra, port an t o, é t r an sm it ir in t act a essa t ext u ra com posicion al.

3 Cf. a t r a d u çã o e d iscu ssão d est a ca r t a e m B O L D R I N I , Lú cia. Joyce, Dante, andthePoetícsofLíteraryRelatíons.


N o va Yo r k : Ca m b r id ge U n ive r s it y Pr ess, 2 0 0 1, p. 30-35.
N O T A D O S T R A D U T O R E S D A E D I Ç ÃO I N G L E S A 89

O fato de que quadros pin t ados de t ipo acabado e h íbrid o ilu m in am o for-
m ato m ed ieval de u m fólio em escrit a caligráfica d ificu lt am ain d a m ais qu ais-
quer reflexões sobre a tarefa lin guíst ica. A n ova lin guagem exigia u m a escrit a
an t iga ren ovada. U m est ilo polifôn ico expressa-se à m an eira de m u lt im íd ia
d en t ro de u m m ovin jen t o sim bólico de recu o-avan ço, m ed ieval e an t ecipa-
t ório, para recuperar a realidade psíquica. Im agen s verbais e visu ais in vest em
sobre Ju n g a p art ir do passado e do presen te, en quan t o visam o além : surge
u m in st ru m en t o com post o de cam adas, cujo est ilo polifôn ico reflete em sua
lin guagem aquela m esm a disposição em camadas com postas.
Dia n t e d a t arefa de t rad u zir u m t ext o com post o h á quase cem an os, os
t radut ores t êm geralm en t e a van t agem de d ispor de m odelos an t eriores para
con su lt ar, com o t am b ém de décadas de com en t ários e crít icas de carát er e r u -
dit o. Sem esses m odelos à d isposição, rest ou -n os im agin ar com o a obra pode-
r ia t er sido t rad u zid a em décadas passadas. Nossa t radução, por con seguin t e,
evit a diversos m odelos in éd it os ou h ip ot ét icos para t r ad u zir o Líber Novus para
o in glês. Exist e m os su rpreen d en t em en t e arcaizan t es Septem Serm ones de Pet er
Bayn es de 19 2$, que se in sp ir am fort em en t e n u m a lin guagem vit or ian a. O u a
con ceit u alm en t e racion alizan t e versão que R. F. C. H u l l p od eria t er t en t ado,
se lh e tivesse sido dado t r ad u zi-lo ao lado de seus ou t ros volu m es d a Série
Bollin gen das O b r as Com p let as de Ju n g 4 ; ou a elegante t radu ção lit erária da
m ão de u m R J . H ollin gd ale. Nossa versão ocupa, port an t o, u m a posição real
n u m a sequ ên cia de m u it as possibilidades. A con sid eração sobre esses m odelos
possíveis realçou qu est ões de com o vazar a lin guagem d en t ro de m u d an ças
h ist óricas n a prosa in glesa, com o veicu lar as in u m eráveis con vergên cias e d i -
vergên cias en t re a lin guagem do Líber Novus e as O b r as Com p let as de Ju n g,
e com o t rad u zir p ara o in glês u m a obra que ao m esm o t em po repercu t e o
alem ão de Lu t er o e a p aród ia que Niet zsch e faz do m esm o em Assim falava Zara-
tustra. Já que n ossa versão t om a est a posição, ao cit arm os as O b r as Com p let as
de Ju n g n ós con sequen t em en t e t rad u zim os de m an eir a n ova ou m od ificam os
d iscret am en t e as t rad u ções publicadas.

4 Sob r e a q u e st ã o das t r a d u çõ e s d e Ju n g feit as p o r H u l l , cf. S H A M D A S A N I . JungStripped Bare by His


Biographers, Even, p. 47-51.
9o LI BE R N O VU S

O Líber Novus foi con t em p orân eo do ferm en t o lit erário que Mikh ail Bakh t in
ch am ou de im agin ação em prosa d ialógica 5. O escrit or e art ist a an glo-galês D a -
vid Jon es, autor de In Parenthesís e The Anathemata, referiu -se à r u p t u r a da Pr im eir a
Gu e r r a Mu n d ial e seus efeitos sobre o senso h ist órico dos escrit ores, art ist as e
pensadores, ch am an d o-a sim plesm en t e "T h e Break" ( A fr at u r a) 6 . Ju n t o com
outros escritos experim en t ais destas décadas, o Líber Novus escava camadas ar-
queológicas da aven t u ra lit erária, servin do-se d a con sciên cia con quist ada a d u -
ras penas com o pá e, ao m esm o tem po, precioso caco. Em b o r a d u ran t e m u it os
anos t en h a pensado efetivam en te em pu blicar o Líber Novus, Ju n g p referiu n ão
t orn ar-se famoso através dessa form a lit erária - t an t o pelo est ilo quan t o pelo
con t eú d o — p erm it in d o sua publicação. Por volt a de 19 21, com Tipos psicológicos,
Jung já. descobrira que seu san t u ário pod ia forn ecer-lh e seus grandes tem as,
através da t radução para u m a lin guagem eru d it a.
Ju n g en u n cia a t en são en t re seus três registros lin gu íst icos, d irigin d o-se já
a u m fut uro pú blico leit or - que, en t re diferen t es camadas do texto, vai de u m
círculo rest rit o de amigos até u m pú blico m ais am plo. Ist o aparece n it id am en t e
nas frequentes m u dan ças p ron om in ais en t re as versões, que m ost ram a m an ei-
ra com o ele estava con st an t em en t e reim agin an do os possíveis leit ores do texto.
Ju n g adot ou coeren t em en t e essa post u ra dialógica — polifôn ica segundo a t er-
m in ologia post erior de Bakh t in - m ais u m a vez aten to a u m h ip ot ét ico fut uro
pú blico e, n o en t an t o, t am bém t ot alm en t e alh eio à quest ão do público, n ão por
orgulh o mas sim plesm en t e em vist a dos objet ivos em jogo. Q u ad ros e fantasias
deste tesouro privado en t raram an on im am en t e com o in t ert ext os cript ografa-
dos n a obra post erior de Jun g, an in h an d o-se com o chaves h erm en êu t icas para
o con ju n t o escon dido de sua obra.
Co m efeito, podem os im agin ar Ju n g r in d o quan do escreveu sobre o "3. Caso
Z" n a ú lt im a seção de seu ensaio sobre "Aspectos psicológicos da Co r e " ( 19 4 1) 7 .
Al i ele resum e com o an ón im os doze episód ios t irados de seus en con t ros com
a p róp ria alm a n o Líber Novus, ch am an do-os "u m a série de son h os". O s com en -
tários que ele lhes acrescen ta im p elem o aven t u reiro que ele fora, e o sujeit o

5 Cf. H O L Q U I S T , M ic h a e l ( o r g.) . The Dialogic Im agination: Fo u r Essays. Au s t i n : U n ive r s it y o f Te xa s Pr ess,


1981 [t r ad u ção d e C a r yl Em e r s o n e M ic h a e l H o l q u i s t ] .
6 J O N E S , D a vid . Dai Greatcoat: A Se lf- P o r t r a it o f D a vi d Jo n es i n h is Le t t e r s. Lo n d r e s: Fáb er a n d Fáb er , 19 8 0 ,
p. 4 is s . [or gan izad o p o r Re n e H a gu e ] .
7 O C , 9/ 1.
N O T A D O S T R A D U T O R E S D A E D I Ç ÃO I N G L E S A 9i

que ele se t or n ou nessa aven t ura, para o discurso de u m a pret en sa ciên cia. A
com éd ia é ao m esm o t em po am pla e requin t ada: esse respeitoso h ospedeiro da
an im a m an eja t am bém o in d icad or d iagn óst ico com toda a seriedade. Su a li n -
guagem m ovia-se flexivelmente em am bos os con t ext os, mas ao fazê-lo m a n -
t in h a t am bém certos véus. Essa est rat égia lin gu íst ica reflet ia os objetivos m ais
am plos de Ju n g de perm an ecer fecun dam en t e d u al e con t ext u al. Declaran d o
que seus m ist érios eram part icu lares, a n ão serem macaqueados de m an eira
algum a, Ju n g ofereceu-lh es, n ão obstan te, t am bém u m m odelo de p r o cesso
espirit u al form at ivo e, ao fazê-lo, p rocu rou desen volver u m a lin guagem que
pudesse ser ret om ada por outros para art icu lar suas respectivas experiên cias.
Est a é u m a m an eira de parafrasear a con siderável an om alia da lin guagem
que Ju n g teve que en con t rar através de n oites sem d or m ir a p ar t ir de 1913. Essa
lin guagem m udava seus con t orn os, alt erava sua escala e levava em con sideração
caprich os e m odism os. Por isso n ão causa surpresa que, em suas passagens m ais
elevadas, Ju n g se t en h a apoiado n a resson ân cia da Bíblia de Lu t ero, ela m esm a
u m a t radução que alcan çara, n a cu lt u ra alem ã, a estabilidade de u m a roch a. Eín
festerBurg, "u m a cidadela sólida": d aí nos apoiarm os aqui n a Kin g Jam es Ver sion
( KJV ) da Bíblia para ton alidades com paráveis em in glês. No en t an t o, surge
im ed iat am en t e u m paradoxo: aquilo com que Ju n g con t ou nessa resson ân -
cia h avia t ran splan t ado para o Hetmat ou lar germ ân ico u m espírit o diferen t e,
com o se pode igualm en t e d izer d a profun da pen et ração do m esm o im p lan -
te n a cu lt u ra an glo-saxón ica. Fr an z Rosen zweig, ao t rad u zir partes do An t igo
Test am en t o com Ma r t in Bu ber em m eados da década de 19 2 0 , id en t ificou a
Bíblia de Lu t er o com o o grande criad or de espaço n o espírit o germ ân ico, p re-
cisam en t e através dos m ovim en t os de aproxim ação de Lu t er o à sua fonte: "Par a
con solo de nossas alm as, devem os m an t er tais palavras, devem os t olerá-las, e
assim dar ao h ebraico algum espaço n o qual ele se sai m elh or do que o alem ão"8 .
Daí nosso m ét od o de n ão am aciar os diversos estilos de Ju n g ou t orn á-los m ais
fluen tes do que é n ecessário ou m esm o regu larizar sua pon t uação. Pensem os n o
est ilo "desgrenhado" de Dan t e ou em ou t ra m áxim a de Lu t er o cit ad a nas notas
de Rosen zweig: "A lam a gru d ará n a r od a"9 .

8 B U B E R , M a r t i n & R O S E N Z W E I G , Fr a n z . ScríptureandTranslatíon. Blo o m in gt o n / In d ia n a p o lis: I n d ia n a


U n ive r s it y Pr ess, 1994, p. 4 9 [cit a n d o o Pr efácio de Lu t e r o a seu Saltério alem ão - t r ad u ção d e La wr e n c e
Ro s e n wa ld e Eve r e t t F o x ] .
9 Ib id ., p. 6 9 .
92 LI BE R N O VU S

No en t an t o, m esm o essas profun das con cessões ao lin gu ajar arcaico e or igi-
n al por sobre abism os de sen t ido n ão consegue ap roxim ar a experiên cia deses-
t abilizad ora, feit a n a e através d a lin guagem , de que Ju n g é t est em un h a. Seus
com en t ários post eriores n a autobiografia publicada, sobre suas reservas quan t o
ao est ilo em p olad o 10 , n a verdade en cobrem suas pegadas n o Líber Novus. A expe-
riên cia origin al lan çou a fala n u m t u rbilh ão que an im a a d im en são in iciát ica do
livro. Tam bém a lin guagem em preen de u m a descida ao in fern o e ao d om ín io
dos m ort os, que p riva o in d ivíd u o da fala precisam en t e com o ren ova a capaci-
dade de expressão.
'O s exem plos seguintes d ão algum a id eia do alcance desse fator, m apean do
as dificuldades de qualquer ven t riloqu ism o sin cero com o aquele a que Ju n g,
com a pen a n a m ão, se aven t u rou ao em preen der u m a sessão con t rolad a con si-
go m esm o e seu chão. As ín fim as dist orções espaciais de H õld er lin e o carvão
arden t e nos lábios de Isaías en t r am am bos n est a liga, ju n t o com Plat ão sobre
a "fúria corre t a ' ou lou cu ra d ivin a: ( i ) "Min h a alm a su ssu rrou -m e in sist en t e e
m edrosam en te: 'Palavras, palavras, n ão faças palavras dem ais. Cala-t e e escuta:
Tu recon heceste t u a lou cu ra e a adm ites? Vist e que todas as tuas profun dezas
est ão cheias de lou cu r a?"11 ( 2 ) Al m a de Jun g: "Exist e m t ram as in fern ais de p a-
lavras, som en te palavras... Sê cauteloso com palavras, escolhe-as bem ... pois t u
és o p rim eiro que n ela se en reda. Pois palavras t êm sign ificados. Nas palavras
puxas para cim a o subm un do. A palavra é o m ais n u lo e m ais forte. N a palavra
correm ju n t os o vazio e o cheio. Por isso, a palavra é u m a im agem de D e u s"12 . (3)
"Mas se a palavra for u m sím bolo, sign ifica tudo. Q u an d o o cam in h o en t ra n a
m ort e, e n ós estam os en voltos em put refação e n ojo, sobe en t ão n a escuridão
o cam in h o e sai da boca, com o o sím bolo salvador, a p alavra"13. ( 4 ) A m u lh er
m ort a: "Con ced e-m e a palavra - pen a que n ão possas ou vir! Co m o é difícil -
d á-m e a p alavr a!"14 El a en t ão se m at erializa n a m ão de Ju n g com o H AP , o falo.
(5) Al m a de Jun g: "Ten s a palavra que n ão pode ficar ocu lt a"15 . ( 6 ) Jun g: "O
que sign ifica m in h a palavra? É o balbucio d a crian ça..." Alm a : "Elas n ão veem

10 Cf. ad ian t e, p. 6 4.
11 Cf. ad ian t e, p. 30 8 .
12 Cf. ad ian t e, p. 312
13 Cf. ad ian t e, p. 344
14 Cf. ad ian t e, p. 4 26 .
15 Cf. ad ian t e, p. 4 4 6 .
N O T A D O S T R A D U T O R E S D A E D I Ç ÃO I N G L E S A 93

o fogo, n ão acred it am em tuas palavras, mas veem t u a m arca e pressen t em em


t i, sem saber, o m en sageiro do t orm en t o que arde... T u gaguejas, b alb u cias"16 .
Nos protocolos para sua autobiografia, Ju n g lem b ra t er t razid o às exp eriên -
cias origin ais con t idas n o Líber Novus apenas u m a "fala alt am en t e can h est ra"17 .
No en t an t o, u m exem plo ( 7) desm en te en ergicam en t e esta ênfase post erior:
"Sei que Filêm on m e em briagou e m e in sp irou u m a lin guagem est ran h a a m im
m esm o e u m out ro sen t ir. Tu d o ist o desapareceu quan do o Deu s se elevou e só
Filêm on possu ía aquela lin gu agem "18 .
O ú lt im o exem plo m ost ra que m ais t arde Ju n g at rib u iu a Filêm on a fala
m ân t ica e d it irâm bica da cam ada 2 em tudo aquilo que vem antes d a seção
dos Aprofundamentos. A in t oxicação lit eral d escrit a aqui é lin guíst ica, u m a versão
d ram at izad a e ven t ríloqu a da lou cu ra d ivin a de Platão. En fat iza por isso n ossa
t en t at iva de t rad u zir fielm en t e os registros est ilíst icos do Líber Novus, de m odo
a apresen t ar u m aspecto vit al do experim en t o lit erário de Jun g, quan do e m -
preen de a t en t at iva de en con t rar o lin gu ajar m ais apropriado para expressar
as t ran sform ações da experiên cia in t erior. A busca da alm a, em preen d id a por
Jun g, est á port an t o em h ar m on ia com a busca de u m a lin guagem adequada-
m en t e dialógica e diferen ciada.
Est es exem plos, com todas as sua oscilações, afetam u m a leit u ra das O b ras
Com p let as de Ju n g e acon selh am cautela ao aplicar seus in st ru m en t os con -
ceit uais à tarefa de ler e en t en der o Líber Novus. Para dar apenas u m exem plo,
com eça-se por ver que é u m a sim plificação excessiva equiparar as profun dezas
opostas e, n o en t an t o, relacion adas de Logos e Er os com os registros con cei-
tuais e lírico-m ân t icos en con t rados no Líber Novus. O "Co m en t ár io " de Ju n g
aqui in clu íd o sobre a relação Elias-Salom é m ost ra que essa relação faz parte
do desen volvim en t o, é u m a en cen ação do m ist ério do "processo form at ivo"
que acende o am or pelo que h á de m ais baixo em n ó s 19 . O espaço m od al de
lin guagem do Líber Novus an im a assim esse m ist ério, mas n ão correspon de d ir e-
t am en t e a fun ções psicológicas opostas.
Est e com plexo respeito pela lin guagem in st r u i os t radut ores do Líber No-
vus ao navegar as t en sões subm un do/ reden t oras abarcadas por sua ret órica. A

16 Cf. ad ian t e, p. 447.


17 Cf. M P , p. 148.
18 Cf. ad ian t e, p. 4 0 2.
19 Cf. Ap ê n d i c e B.
94 LI BE R N O VU S

gran de força que est á por trás d a t en são m ân t ica ocupou Ju n g n o breve Epilogo
que ele in seriu n o volu m e caligráfico em 19 59 , dois anos antes de sua m ort e.
Percorren d o m ais u m a vez os m ares dessas págin as ilu m in ad as, parece que ele
ju lgou desn ecessário qualquer recapit ulação u lt erior. In t errom p en d o n o m eio
da frase, Ju n g d eixou o livro su bsist ir por con t a própria, com o u m dos filões
de discurso d en t ro de t oda sua obra. Est e con t rapon t o n ão exigiu n en h u m co-
m en t ário, com o tam pouco o exigiram os três registros de lin guagem n o p róp rio
livro. O O r d álio era afin al Comtnedía, que n ão precisa de n en h u m a just ificação
t eórica ret rospect iva. O Líber Novus sobreviveria aos tateam en tos e bom bardeios
da recepção. E m 1957, Ju n g observara a An ie la Jaffé que tan tas asn eiras h aviam
sido dit as a respeit o dele, que algumas a m ais n ão o p e r t u r b a r ia m 20 . Aqu ele ato
de levan t ar a pen a, port an t o, en t regou con fian t em en t e o livro à sua t rajet ória
para as profun dezas, pen et ran do profun dam en t e n a p ed reira em que se h avia
t ran sform ado, t en do suas O b ras Com p let as e a t orre ju n t o ao lago em Bo llin -
gen com o suas lin h agen s fin ais.
Nest a n ot a procuram os t r an sm it ir apenas os prin cípios gerais que or ien t a-
ram n ossa tradução. U m a discussão com plet a das escolhas com que nos con -
fron t am os e u m a just ificação das decisões tom adas en ch eriam u m volu m e tão
ext en so com o este.

20 MP, p. 183.
N o t a e d it o r ia l
S O N U SH AM D ASAN I

O Líber Novus é u m corpus m an u scrit o in acabado e n ão est á in t eiram en t e claro


com o Ju n g p ret en d ia com p let á-lo, o u com o o t eria publicado, caso tivesse d e-
cid id o fazê-lo. Tem os u m a série de m an u scrit os, dos quais n en h u m a versão
sozin h a pode ser con sid erad a d efin it iva. Con sequ en t em en t e exist em várias
m an eiras com o o t ext o p od eria ser apresentado. Est a n ot a apresen t a as razões
ed it oriais que est ão p or trás d a presen t e edição.
A sequ ên cia dos m an u scrit os exist en t es para o Líber Prím us e o Líber Secundus
é a seguinte:

Livros Negros 2- 5 (n ovem bro de 1913-ab r il de 19 14 ) .


Esboço m anuscrito (verão de 19 14 - 19 1$) .
Esboço datílografado (por volt a de 19 1$) .
Esboço corrigido (com um a camada de mudanças por volt a de 191$; um a camada
de mudanças apr. meados da década de 19 2 0 ) .
Volum ecalígráfíco ( 19 15- 19 30 , retom ado em 19 59 , deixado in com plet o).
Transcrição de Cary Baynes ( 19 2 4 - 19 2 $) .
Manuscrito de Yale. Líber Prím us, menos o prólogo (idên t ico ao Esboço datílografado).
Esboço editorado do Líber Prím us, menos o prólogo, com correções feitas por m ão
desconhecida (aprox. fin al da década de 19 50 ; versão editada do Esboço datí-
lografado) .

Para os Aprofundam entos, tem os:

Livros Negros $- 6 (ab ril de 19 14-ju n h o de 19 16 ) .


Septem Serm ones calígráficos ( 19 16 ) .
Septem Serm ones im pressos ( 19 16 ) .
Esboço m anuscrito (por volt a de 19 17) .
Esboço datílografado (por volt a de 19 18 ) .
Transcrição de Cary Baynes ( 19 2 $) ( 2 7 págin as, in com plet a).

O arran jo aqui apresen tado com eça com u m a revisão d a t ran scrição de
Ca r y Bayn es e u m a n ova t ran scrição do m at erial rest an t e con t id o n o volu m e
caligráfico ju n t o com o Esboço datílografado dos Aprofundam entos, com com parações

95
96 LI BE R N O VU S

l i n h a p o r l i n h a c o m t o d a s as ve r s õ e s e xist e n t e s. A s ú lt im a s t r i n t a p á gin a s sã o
com pletadas do Esboço. As variações p rin cip ais en t re os diferen t es m an u scrit os
d izem respeit o à "segunda cam ada' do texto. Est as m udan ças represen t am o
t rabalh o con t ín u o de Ju n g de com preen der o sign ificado psicológico das fan t a-
sias. Co m o Ju n g con siderava o Líber Novus u m a "t en t at iva de u m a elaboração em
t erm os da revelação", estas m udan ças en t re as diferen t es versões apresen t am
esta "t en t at iva de u m a elaboração" e, por isso, são u m a part e im p ort an t e da
p róp ria obra. Por isso as n otas m ost ram m udan ças sign ificativas en t re as d ife-
ren t es versões e apresen t am m at erial que esclarece o sen t ido ou o con t ext o de
u m a seção d et erm in ad a. Ca d a cam ada m an u scrit a é im p ort an t e e in t eressan t e
e u m a publicação de todas elas — que ch egaria a vários m ilh ares de págin as —
seria u m a tarefa para o fu t u ro 1.
O crit ério para in clu ir passagens dos m an u scrit os an t eriores foi sim ples-
m en t e a pergun ta: será que esta in clusão aju da o leit or a com preen der o que
está acontecendo? Além da im p ort ân cia in t rín seca dessas m udan ças, a an o-
tação delas nas n otas de rod apé serve a u m segundo p rop ósit o - m ost ra com
quan t o cuidado Ju n g t rabalh ou em revisar con t in u am en t e o texto.
O Esboço corrigido t em duas camadas de correções feitas por Jun g. O p rim eiro
con ju n t o de correções parece t er sido feito depois que o Esboço foi datilografado
e antes da tran scrição n o volu m e caligráfico, pois parece que foi esse m an u scrit o
que Ju n g t ran screveu 2. O u t r o con ju n t o de correções sobre aproxim adam en t e
2 0 0 págin as do t ext o datilografado parece t er sido feito depois do volu m e cali-
gráfico, e eu calcularia que estas foram feitas em algum m om en t o dos meados da
década de 19 2 0 . Essas correções m od ern izam a lin guagem e relacion am a t er m i-
n ologia com a t erm in ologia de Ju n g do p eríod o dos Tipos Psicológicos. São t am bém
acrescentados esclarecim en tos suplem en tares. Ju n g chegou a corrigir m at erial
do Esboço que foi cancelado n o volu m e caligráfico. Ap resen t ei algumas das m u -
danças im port an t es nas notas de rodapé. A p art ir delas o leit or pode ver com o
Ju n g t eria revisado todo o t ext o se tivesse com pletado essa cam ada de correções.
For am acrescentadas subdivisões n o Líber Secundus, capít u lo 21, "O m ago", e
nos Aprofundam entos para fácil referên cia. Est as são in dicadas por n ú m eros en t re

1 Le it o r e s in t er essad os p o d e m co m p a r a r est a e d içã o c o m as seções d o Esboço dos Ku r t W o l ff p ap er s n a


U n ive r sid a d e de Ya le e co m a t r an scr ição d e C a r y Bayn es n os Co n t e m p o r a r y Me d ica i Ar c h ive s n a
W e llc o m e Co lle c t io n , e m Lo n d r e s. E b e m p ossível qu e p ossam a in d a vi r à lu z algu n s o u t r o s m a n u scr it o s.
2 Exi s t e m t a m b é m algu m as m ar cas p in t ad as n esse m a n u scr it o .
NO TA ED I TO RI AL 97

chaves: { }. O n d e foi possível, a dat a de cada fan t asia foi dada de acordo com
os Livros Negros. A "segun da cam ada" acrescen tada n o esboço é in d icad a por [ 2 ]
e o m an u scrit o ret orn a à sequên cia das fantasias nos Livros Negros n o in ício do
capít ulo seguinte. Nas passagens em que foram acrescentadas su bdivisões, o
ret orn o à sequên cia dos Livros Negros é in dicado por [ 1] .
O s vários m an u scrit os t êm diferen t es sistem as de d ivid ir em parágrafos. No
Lsboço, os parágrafos con sist em m u it as vezes de u m a ou duas frases e o t ext o é
apresen tado com o u m poem a em prosa. N o ou t ro ext rem o, n o volu m e caligrá-
fico, exist em longas passagens de t ext o sem n en h u m a divisão em parágrafos. A
m an eira m ais lógica de divisão em parágrafos é a da t ran scrição de Ca r y Bayn es.
Ela aproveit ou frequen t em en t e a presen ça de in iciais coloridas para d ivid ir em
parágrafos. Co m o é pouco provável que ela t en h a reparagrafado o t ext o sem a
aprovação de Ju n g, seu esquem a foi tom ado com o pon t o de p art id a para esta
edição. E m alguns casos, a divisão em parágrafos foi t orn ad a m ais con form e
ao Lsboço e ao volu m e caligráfico. N a segunda m etade de sua t ran scrição, Ca r y
Bayn es t ran screveu o Esboço, já que o volu m e caligráfico n ão fora com pletado.
Aq u i paragrafei o t ext o d a m esm a form a com o foi estabelecido antes. Acr ed it o
que ist o apresen t a o t ext o n a form a m ais clara e fácil de seguir.
N o volu m e caligráfico, Ju n g ilu st rou certas in iciais e escreveu algumas em
verm elh o e azul, e às vezes au m en t ou o t am an h o do texto. O plan o aqui procu ra
seguir essas con ven ções. Já que as in iciais em quest ão n em sem pre são as m es-
mas em port uguês e em alem ão, a escolha de qual in icial colocar em verm elh o
n a edição portuguesa orien t ou-se por sua correspon den te localização n o texto.
O restan te do texto, além do que Ju n g t ran screveu n o volu m e caligráfico, foi es-
tabelecido seguindo as mesmas con ven ções, para m an t er coerên cia. N o caso dos
Septem Serm ones, a coloração da fonte seguiu a versão im pressa de Ju n g de 19 16 .
A decisão de in clu ir os Aprofundam entos n o fin al e com o parte do Líber Novus
baseia-se nas seguintes razões edit oriais: o m at erial dos Livros Negros com eça em
n ovem bro de 19 13. O Líber Secundus en cerra-se com m at erial de 19 de ab ril de
19 14 e os Aprofundam entos com eçam com m at erial do m esm o dia. O s Livros Ne-
gros prosseguem con secut ivam en t e até 2 1 de ju lh o de 19 14 e recom eçam a 3 de
ju n h o de 191$. Nesse in t ervalo, Ju n g escreveu o Esboço manuscrito. Q u an d o Ca r y
Baynes transcreveu o Líber Novus entre 19 24 e 19 2$, a prim eira metade de sua t ran s-
crição seguiu o próprio Líber Novus até ao ponto a que Jun g chegou em sua p róp ria
98 LI BE R N O VU S

t ran scrição para o volu m e caligráfico. Ele con t in u a seguindo o esboço e depois
avan ça 2 7 págin as nos Aprofundamentos, t erm in an d o n o m eio da frase.
N o fin al do Líber Secundus, a alm a de Ju n g ascen dera ao céu seguindo o Deu s
ren ascido. Ju n g pen sa agora que Filêm on é u m ch arlat ão e aproxim a-se do seu
"eu", com o qu al deve con viver e que ele deve educar. O s Aprofundamentos con -
t in u am d iret am en t e a p ar t ir desse pon t o com u m con fron t o com seu "eu ". A
ascen são do Deu s ren ascido é m en cion ada, e su a alm a ret orn a e exp lica p or
que ela desaparecera. Filêm on reaparece e in st r u i Ju n g sobre com o estabelecer
a relação corret a com sua alm a, com os m ort os, com Deu s e com os d aím on es.
Nos Aprofundamentos, Filêm on aparece in t eiram en t e e assume o sign ificado que
Ju n g lh e at ribu i t an t o n o sem in ário de 19 2$ quan t o nas Memórias. Só nos Apro-
fundam entos cert os ep isód ios do Líber Prím us e do Líber Secundus t or n am -se claros.
D a m esm a form a, a n arrat iva dos Aprofundam entos n ão faz sen t ido se n ão se leu o
Líber Prím us e o Líber Secundus.
Lm dois lugares dos Aprofundam entos, o Líber Prím us e o Líber Secundus são m e n -
cionados de u m a form a que sugere n it id am en t e fazerem parte da m esm a obra:

E então estourou a guerra. Abriram -se então meus olhos sobre m u it a coisa
que eu havia vivido antes, e isso me deu também a coragem de dizer tudo o
que escrevi nas partes anteriores deste livro 3.

Desde que o Deus se elevou para os espaços superiores, também O I -


AH MÍ2N ficou diferente. In icialm en t e foi para m im u m mago que vivia
num país distante, mas depois sen ti sua proxim idade e, desde que o Deus
se elevou, sei que O I AH M Q N me embriagou e me in spirou um a linguagem
estranha a m im mesmo e um outro sentir. Tudo isso desapareceu quando o
Deus se elevou e só O IAH MÍ2N possuía aquela linguagem. Mas eu sen ti que
ele trilhava outros caminhos e não o meu. A grande m aioria do que escrevi
nas prim eiras partes deste livro foi O IAH MÍ2N que me in spirou 4 .

Est as referên cias às "partes an t eriores deste livr o " sugerem que tudo ist o
con st it u i n a verdade u m só livro e que os Aprofundamentos foram con siderados
por Ju n g com o part e do Líber Novus.

3 Cf. ad ian t e, p. 418.


4 Cf. ad ian t e, p. 4 26 .
NO TA ED I TO RI AL 99

Est a opin ião é apoiada pelo n ú m ero de con exões in t ern as en t re os textos.
U m exem plo é o fato de que os m an dalas do Líber Novus est ão est reit am en t e
ligados à experiên cia do si-m esm o, e a percepção de sua cen t ralidade é d escrit a
só nos Aprofundamentos. O u t r o exem plo ocorre n o Líber Secundus, capít ulo i$: q u an -
do Ezeq u iel e seus com pan h eiros anabatistas chegam , eles d izem a Ju n g que
estão in d o aos lugares santos de Jeru salém , porque n ão est ão em paz já que n ão
com plet aram plen am en t e a vid a. Nos Aprofundamentos, os m ort os reaparecem ,
dizen do a Ju n g que est iveram em Jeru salém , mas n ão en con t raram o que ali
procu ravam . Nesse m om en t o aparece Filêm on e com eçam os Septem Sermones.
Talvez Ju n g t en h a pret en dido t ran screver os Aprofundamentos n o volu m e caligrá-
fico e ilu st rá-los, já que exist em m u it as págin as em bran co.
A 8 de jan eiro de I9$8, Ca r y Bayn es pergu n t ou a Jun g: "Você se lem b ra que
m e m an d ou copiar u m bom ped aço do p róp rio Livro Vermelho en quan to você
esteve n a Africa? Ch egu ei até ao in ício dos Aprofundamentos. Ist o vai além do
que Fr au Jaffé colocou à disposição de K . W [Ku r t W olff) e ele gost aria de
lê-lo. Est á O K? " 5 Ju n g respon deu a 2 4 de jan eiro: "N ã o t en h o objeções a que
você em preste suas notas do 'Livr o Ver m elh o' a Mr. W o lff"6 . Aq u i parece que
t am bém Ca r y Bayn es con siderava os Aprofundamentos com o part e do Líber Novus.
Nas cit ações feitas nas n otas, as elipses foram in dicadas por três pon tos.
N ã o foram acrescentadas novas ênfases.

5 JA.
6 JA.
N o t a à e d içã o s e m ilu st r a çõ e s

Desd e a publicação da edição origin al desta obra, que in clu iu u m a reprodução


fac-sim ilar das páginas caligráficas n u m a escala de u m por u m , houve u m clam or
por u m a ed ição m ais port át il sem as ilust rações, com o u m com plem en t o para
facilit ar u m estudo aprofun dado da obra. A julgar pela edição im pressa p r iv-
adam en te por Ju n g dos Septem Serm ones ad mortuos, u m a ed ição só com o t ext o
talvez t en h a sido u m a das form as de publicação que ele con sid erou em algum
m om en t o. Est a ed ição reprodu z a t radução com plet a, a in t rod u ção e as notas
da edição origin al da obra, agora dispost a n u m a só colu n a, sem elh an t e ao for-
m ato do m an u scrit o e do t ext o datilografado de Jun g. As rem issões recíprocas
n o t ext o para as ilust rações fac-sim ilares foram m an t id as, a fim de possibilit ar
aos leit ores en con t rar rapidam en te a localização e as imagens correspondentes,
quando lidas ao lado da edição origin al. A parte umas poucas correções, o texto
não t em alterações. As referências ao sem in ário de Jun g de 19 2$ foram at ualiza-
das de acordo com a ed ição revist a de 2 0 12 .

101
Ab r e vi a ç õ e s e n o t a so b r e a p a gin a çã o
[ I H ] - In icial h ist oriad a - u m a let ra in icial preen ch id a com u m a
represen t ação em m in iat u r a de u m a figura in d ivid u al ou de u m a cen a
com plet a.
I L U S T R A Ç Ã O o o o - In d ica o n ú m ero da págin a em que a ilust ração
aparece nos fac-símíles.

Q u an d o passagens são citadas nas notas a p art ir do esboço corrigido, palavras


deletadas aparecem tachadas e palavras adicion adas estão en t re colchetes.
[ 2 ] - "Cam ad a dois", acrescen tada n o esboço.
{ 0 0 } - Su bd ivisões adicion adas em cit ações longas para facilidade de
referên cia.
BO - Bo r d a orn am en t al.
BP - Bas de page.
A F J - Ar q u ivos da Fam ília de Ju n g.
Introductíon to Jungian Psychology: C G . Ju n g, Introductíon to Jungian Psychology: Notes

on the Sem ínar Gíven ByJung on Analytícal Psychology tn 1925, ed it ad o p or W i l l i a m

McGu ir e , revisado por Son u Sh am dasan i (Pr in cet on : Bollin gen / Ph ilem on
Series, Pr in cet on Un iver sit y Press) 2 0 12 .
CFB - Ca r y Bayn es Papers, Con t em p or ar y Med icai Ar ch ives, W ellcom e
Library, Lon d res.
Cartas - Cartas de C.G.Jung, sei. e ed. por An ie la Jaffé em colaboração com
Ge r h a r d Ad ler, t rad . Edgar O r t h (Pet rópolis: Vozes. 19 9 9 , 2 0 0 2 , 2 0 0 3 ) ,
3 vols.
JA - Coleção de Jun g. Coleções de H ist ória das Ciên cias, Ar q u ivos do
In st it u t o Fed eral de Tecn ologia da Suiça, Zu riq u e.
Memórias, Sonhos e Reflexões, C G . Ju n g/ An iela Jaffé, t rad . D o r a Fer r eir a d a Silva.
Ap resen t ação de Sérgio Br it o. Rio de Jan eiro: Nova Fr on t eir a, 6. ed. 2 0 0 6 .
M P - Prot ocolos das en t revist as de An ie la Jaffé a C G . Ju n g sobre Memórias,
Sonhos, Reflexões, Bib liot eca do Con gresso, W ash in gt on D .C. (origin al em
alem ão).
MPA - Min u t as d a Associação de Psicologia An alít ica, Clu b e Psicológico,
Zu r iq u e (origin al em alem ão).
MSZ - Min u t as d a Sociedade Psican alít ica de Zu riq u e, Clu b e Psicológico,
Zu r iq u e (origin al em alem ão).

103
IO 4 LI BERN O VU S

O C - O b ras Com p let as de C G . Jun g. Pet rópolis: Vozes. 19 7 8 - 2 0 0 3 . 18 vols.


Para facilit ar m over-se en t re o fac-sím ile e a tradução, foram usados os se-
guin tes expedien tes:

N a t radução do Líber Prímus, os n ú m eros n o fin al da cabeça esquerda referem -


se aos fólios do fac-sím ile. Por exem plo, foi. ii( v) / foi. iii( r ) in d ica que o
m at erial da t radução é do fólio i i verso e fólio i i i reto do fac-sím ile. A quebra
de u m a págin a a ou t ra n o fac-sím ile é in d icad a por u m a b arra verm elh a / n o
t ext o da t radução e os n ú m eros do fólio são d ivid id os por u m a b arra verm elh a
nas m argen s da págin a.

No Líber Secundus, são usados n ú m eros de págin a: 3 / 5 n a cabeça refere-se às


págin as 3 até $ do fac-sím ile. U m a b arra verm elh a n o t ext o e 3 / 4 n a m argem
in d icam u m a quebra en t re as págin as 3 e 4 do fac-sím ile.
I
i

Liber Primus
[ fo l.i( r ) ]

O c a m i n h o d aq u ele q u e vir á
Isaías díxít: quis credídít audítuí nostro et brachíum Dotníní cuí revelatutn est? Et ascendei sícut vír-
gultum coram eo et sícut radíx de terra sítíentí non est specíes eí neque decor et vídím us eum et non erat
aspectus et desíderavím us eum : despectum et novíssím um vírorum vírum dolorum e scíentem ínfírm í-
tatem et quasi abscondítus vultus eíus et despectus unde nec reputavím us eum . vere languores nostros
ípse tulít et dolores nostros ípseportavít et nosputavím us eum quasi leprosum etpercussum a Deo et
hum ílíatum . cap.lííí/ í-ív.

parvulus ením natus est nobísfílíus datus est nobís etfactus est príncípatus super um erum eíus et vo-
cabítur nom en eíus Adm írabílís consílíaríus Deusfortís Paterfuturísaeculípríncepspacís. caput íx/ ví.

[Isaías disse: Q u e m creu n aqu ilo que ouvim os, e a qu em se revelou o braço de
Javé? Ele cresceu d ian t e dele com o u m reben to, com o raiz que b rot a de u m a
t erra seca; n ão t in h a beleza n em esplen dor que pudesse at rair o nosso olhar,
n em form osu ra capaz de nos deleitar. Er a desprezado e abandonado pelos h o-
m en s, u m h om em su jeit o à dor, fam iliarizad o com a en ferm idade, com o u m a
pessoa de qu em todos escon dem o rost o; desprezado, n ão fazíam os caso n e-
n h u m dele. E, n o en t an t o, eram as nossas en ferm idades que ele levava sobre si,
as nossas dores que ele carregava. Mas n ós o t ín h am os com o vít im a do castigo,
ferido por Deu s e h u m ilh ad o ] 2 .

1 O s m a n u scr it o s m ed ievais e r a m n u m e r a d o s p o r fólios e m ve z de p o r p ágin as. O lad o d a fr en t e d o fó lio é o


rectum ( a p á gin a d a d ir e it a d e u m livr o a b e r t o ) , e o lad o d e t rás é o versum ( a p á gin a à esq u er d a d e u m livr o
a b e r t o ) . N o Liber Pritnus, Ju n g segu iu est a p r át ica. Vo lt o u à p a gin a çã o c o n t e m p o r â n e a n o Li b e r Secu n d u s.
2 Essas passagen s são t ir ad as d a Bíb lia d e Lu t e r o . E m 1921, Ju n g c it o u os t rês p r im e ir o s ver sos d essa
p assagem ( d a Bíb lia de Lu t e r o ) , ob ser van d o: " O n a scim e n t o d o Salvad or, ist o é, o a p a r e cim e n t o d o
sím b o lo , acon t ece ju st a m e n t e on d e n ã o é esp er ad o e e xa t a m e n t e on d e a so lu ção é a m ais im p r o vá ve l"
(Tipospsicológicos. O C , 6, § 484S.).

IO 7
io8 LI BERP RI M U S foi.i(r)/ i(v)

["Porque u m m en in o nos n asceu, u m filh o nos foi dado, ele recebeu o poder
sobre seus om bros, e lh e foi dado este n om e: Con selh eiro-m aravilh oso, Deu s-
fort e, Pai-et ern o, Prín cip e-d a-p az" ( Is 9 ,6 ) 3 .]

Ioannes díxít: et Verbum carofactum est et habítavít in nohís et vídím us gloriam eíus quasi unígenítí a
Patreplenum gratíae etveritatís. Ioann.cap.í/ xíííí

[João disse: E o Verb o se fez carn e e h abit ou en t re n ós, e n ós vim os sua glória,
glória que Ele t em ju n t o ao Pai com o filh o ún ico, ch eio de graça e de verdade
O U4).]

Isaías díxít: laetabítur deserta et ínvia et exultabít solítudo etflorebít quasi lílíum . germ ínans germ ína-
bit et exultabít laetabunda et laudans. tunc aperíentur oculí caecorum et aures sordorum patehunt. tunc
salíet sícut cervus claudus aperta erít língua m utorum : quía scíssae sunt ín deserto aquae et torrentes ín
solítudíne et quae erat árida ín stagnum et sítíens ín fontes aquarum . ín cuhílíbus ín quíbusprius dra-
cones habítabant oríetur víror calam í et íuncí. et erít tíbí sem ita et via sancta vocabítur. non transíbít
per eam pollutus et haec erít vohís directa via íta utstultí non errentper eam . cap. xxxv.

[Isaías disse: Alegrem -se o deserto e a t erra seca, reju bile-se a estepe e floresça;
com o o n arciso, cubra-se de flores, sim , reju bile-se com grande jú bilo e exulte...
En t ão se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos se desobst ruirão.
En t ão o coxo saltará com o o cervo, e a lín gu a do m udo can t ará can ções alegres,
porque a água jorrará do deserto, e rios, da estepe. A t erra seca se t ran sfor-
m ará em brejo, e a t erra árida em m an an ciais de água. O n d e repousavam os
chacais surgirá u m cam po de ju n cos e de papiros. Al i h averá u m a estrada - u m
cam in h o que será ch am ado cam in h o sagrado. O im p u ro n ão passará por ele, ele
m esm o an dará por esse cam in h o, de m odo que até os estultos n ão se desgar-
rarão ( Is 3$,i-8) 4 .]

3 E m 1921, Ju n g cit a essa p assagem , ob ser van d o: "A n a t u r e z a d o sím b o lo r e d e n t o r é a d e u m a cr ian ça, ist o é, a
at it u d e d e cr ian ça o u at it u d e n ã o p r eco n ceb id a faz p ar t e d o sím b o lo e d e su a fu n ção. A at it u d e 'de cr ian ça'
faz c o m qu e a u t o m a t ica m e n t e su r ja n o lu gar d o vo lu n t a r ism o p r ó p r io e d a in t e n cio n a lid a d e r a cio n a l
u m o u t r o p r in cíp io o r ie n t a d o r t ão o n ip o t e n t e q u an t o d ivin o . O p r in cíp io o r ie n t a d o r é d e n a t u r e z a
ir r a cio n a l, r azão p or qu e se m a n ife st a sob a cap a d o m ar avilh o so . Ist o fo i m u it o b e m exp r esso p o r Is 9,5.
Esses a t r ib u t o s in d ic a m as q u alid ad es essen ciais d o sím b o lo red en t or... O cr it é r io d a ação 'd ivin a ' é a for ça
ir r esist ível d o im p u lso in co n scie n t e " ( O C , 6, § 4 9 1- 4 9 2) .
4 E m 1955/ 1956, Ju n g o b se r vo u qu e a u n iã o d os op ost os d os p od er es d est r u t ivo s e co n st r u t ivo s d o
in co n scie n t e fo r m a m u m p ar alelo co m a r ealização d o est ad o m e ssiâ n ico d escr it o p o r Isaías n e st a
p assagem ( O C , 14, § 258 ) .
O C A M I N H O D A Q U E L E Q U E VI RÁ 109

m anu prop[ria] scrípt[utn] a CG.Jung an[n]o Do[tníní] m cm xv ín dom [u] s[ua] Kúsnacht

Turíc[ense>].

[Escrit o de p róp rio pu n h o por C G . Ju n g n o ano do Sen h or de 19 1$ em sua casa


de Kú sn ach t / Zu riqu e.]

/ [ I H i ( v) ] [ 2 ] Q u an d o falo em espírit o dessa ép oca 5, preciso dizer: n in gu ém foi.i ( r )


V
e n ada pode ju st ificar o que vos devo an un ciar. Ju st ificação para m im é algo ^
supérfluo, pois n ão t en h o escolha, mas eu devo. Eu apren d i que, além do es-
pírit o dessa época, ain d a está em ação out ro espírit o, ist o é, aquele que govern a
a profun deza de todo o presen t e 6 . O espírit o dessa época gost aria de ou vir
sobre lu cros e valor. Tam bém eu pen sava assim e m eu h u m an o ain d a pen sa
assim . Mas aquele ou t ro espírit o m e força a falar apesar disso para além da ju s-
tificação, de lucros e de sen tido. Ch e io de vaidade h u m an a e cego pelo ousado
espírit o dessa época, p rocu rei por m u it o t em po m an t er afastado de m im aquele
out ro espírit o. Mas n ão m e d ei con t a de que o espírit o d a profun deza possui,
desde sem pre e pelo fut uro afora, m aior poder do que o espírit o dessa época
que m u d a com as gerações. O espírit o da profun deza subm et eu t oda vaidade e
todo orgulh o à força do juízo. Ele t ir ou de m im a fé n a ciên cia, ele m e rou bou a
alegria da explicação e do orden am en t o, e fez com que se ext in guisse em m im
a dedicação aos ideais dessa época. Forçou -m e a descer às coisas m ais sim ples e
que est ão em ú lt im o lugar.
O espírit o da profun deza t om ou m in h a razão e todos os m eus con h eci-
m en t os e os colocou a serviço do in explicável e do absurdo. Ele m e rou bou fala
e escrit a sobre tudo que n ão estivesse a serviço disto, ist o é, d a in t erfusão de
sen t ido e absurdo, que produz o sen t ido suprem o.
Mas o sentido suprem o é o trilho, o cam inho e a ponte para o porvir. É o Deus que vem - não é o
próprio Deus, m as sua im agem que se m anifesta no sentido suprem o7. Deus é um a im agem , e aqueles
que o adoram devem adorá-lo na im agem do sentido suprem o.

5 N o Fausto de Go e t h e , Fau st o d iz: " O qu e sign ifica p a r a vó s o e sp ír it o dos t em p o s, / ist o é n o fondo o e sp ír it o


d o p r ó p r io Sen h or , / n o q u a l os t em p os se e sp e lh a m " (Faust 1, lin h a s 577-579 ) .
6 O esboço co n t in u a : "ist o m e d isse algu ém qu e n ã o m e co n h e cia , m as a q u e m ca b ia e vid e n t e m e n t e sa b ê -lo :
' Q u e t ar efa n o t ável t u t en s! Pr ecisas r evelar às pessoas t od o t e u m a is ín t im o e m a is in fe r io r '. Ma s a ist o m e
r ecu sei, p o is n ã o d et est ava o u t r a co isa m a is d o q u e isso q u e m e p ar eceu lascívia e falt a de r e sp e it o " (p . 1).
7 E m Transform ações e sím bolos da libido ( 19 12) , Ju n g in t e r p r e t o u D e u s co m o u m sím b o lo d a lib id o ( O C , B, §
111). N a ve r sã o r e fo r m u la d a , Ju n g d e u gr an d e ên fase à d ist in çã o en t r e a im a ge m d e D e u s e a e xist ê n cia
m et afísica de D e u s (cf. passagen s acrescen t ad as à e d içã o r e vist a e c o m n o vo t ít u lo ( 19 52) d e Sím bolos da
transform ação ( O C , 5, § 9 5) .
no L I B E R P R I M U S foi. i( r ) / i( v)

O sentido suprem o não é um sentido e não é um absurdo, é im agem eforça ao m esm o tem po, glória
eforçajuntas.
O sentido suprem o é com eço e m eta. É ponte de passagem para o outro lado e realização8.
Os outros deuses m orreram em sua tem poralidade, m as o sentido suprem o não m orre, ele se trans-
form a em sentido e então em absurdo, e do fogo e do sangue da colisão de am bos reergue-se o sentido
suprem o rejuvenescido.
A im agem de Deus tem um a som bra. O sentido suprem o existe realm ente e lança um a som bra. Pois
o que poderia existir real e corporalm ente e não ter nenhum a som bra?
A som bra é a tolice. É desprovida de força e não tem existência em si. Mas a tolice é a irm ã insepa-
rável e im ortal do sentido suprem o.
Com o as plantas, assim tam bém crescem as pessoas, algum as na luz, outras na som bra. São m uitas
as que precisam da som bra e não da luz.
A im agem de Deus lança um a som bra que é tão grande quanto ele próprio.
O sentido suprem o égrande e pequeno, é am plo com o o espaço do céu estrelado e estreito com o a
célula do corpo vivo.

O esp írit o dessa ép oca em m im q u eria m u it o con h ecer a gran d eza e a m -


p lid ão do sen t id o su prem o, m as n ão sua pequen ez. Mas o esp írit o d a p r ofu n -
deza ven ceu este orgulh o, e eu t ive de en golir o pequ en o com o u m r em éd io
da im ort alid ad e. Ele q u eim ou n at u ralm en t e m in h as en t ran h as, pois era i n -
glório, n ão h eróico, e era at é m esm o rid ícu lo e repu gn an t e. Mas a t en az do
esp írit o d a p rofu n d eza m e segurou, e eu t ive de t om ar a m ais am arga de todas
as bebid as 9 .
O espírit o dessa época t en t ou -m e com as ideias de que tudo isso p ert en cia
ao lado som brio da im agem de Deu s. Ist o seria engano pern icioso, pois a som -
bra é a t olice. Mas o pequeno, o est reit o e o cot id ian o n ão é n en h u m a t olice, e
sim u m a das duas essên cias da divin dade. Eu m e recusava a recon h ecer que o
cot id ian o perten cesse à im agem da divin dade. E u afugentava esses pen sam en -

8 O s t e r m o s hínúbergehen ( i r p a r a o a lé m ) , Obergang ( t r a n siçã o ) , Untergang ( d e clín io ) e Brúcke ( p o n t e ) sob ressaem


n o Zaratustra, de N ie t z sch e , e m r elação à p assagem d o h o m e m p a r a o Uberm ensch ( a lé m - h o m e m ) . Exe m p lo :
"A gr a n d ez a d o h o m e m con sist e e m ser u m a p o n t e e n ã o u m a m et a: o qu e se p od e a m a r n o h o m e m é
ser ele ascen são e u m d eclín io . Am o aos qu e n ã o sab em vive r se n ã o c o m a co n d içã o d e p erecer, p o r q u e,
p er ecen d o, eles p assam a lé m " ( Pe t r ó p o lis: Vo z e s, 20 0 7, "P r ó lo go ", 4, p. 22 [ Tr a d . d e M á r io Fe r r e ir a dos
San t o s - Palavras su b lin h ad as co m o n o e xe m p la r de Ju n g].
9 Ju n g p ar ece est ar se r e fe r in d o a e p isó d io s qu e o co r r e m m a is t ar d e n o t ext o : a cu r a d e Iz d u b a r (Líber
Secundus, cap. 9 ) , e o b eb er d a b eb id a am ar ga, p r ep ar ad a p elo so lit ár io (Líber Secundus, cap. 2 0 ) .
O C A M I N H O D A Q U E L E Q U E VI RÁ in

tos, eu m e escon dia deles atrás das estrelas m ais altas e m ais geladas. Mas o es-
pírit o da profun deza m e apan h ou e forçou a bebid a am arga en t re m eus láb io s 10 .
O espírit o dessa época disse-m e em voz baixa: "Est e sen t ido suprem o, esta
im agem de Deu s, esta in t erfusão do quen te e do frio, ist o és t u e som en te t u ".
Mas o espírit o da profun deza falou -m e 11: "T u és u m a im agem do m u n d o in fi-
n it o, todos os últ im os m ist érios do vir a ser e do cessar de ser m oram em t i. Se
n ão possuísses tudo isso, com o poderias con h ecer?"
Em con sideração à m in h a fraqueza h um an a, o espírito da profun deza deu-m e
esta palavra. Tam bém esta palavra é supérflua, pois n ão falo por causa dela, mas
porque eu preciso. Pelo fato de o espírit o m e rou bar a alegria e a vid a se eu n ão
falar, por isso eu falo 12 . Sou o servo que o t raz, e que n ão sabe o que sua m ão
carrega. Q u e im a r ia sua m ão se n ão o colocasse lá on de o sen h or m an d a que o
coloque.
O espírit o de n ossa época falou-m e e disse: "Q u e necessidade pod eria ser
essa que te obriga a falar tudo isso?" Est a t en t ação foi difícil. Q u e r ia reflet ir
qual necessidade in t er n a ou ext ern a pod eria forçar-m e a isso, e porque n ão
en con t rei n en h u m a necessidade com preen sível, estive prestes a im agin ar u m a.
Co m isso, o espírit o dessa época quase con sen t iu que, em vez de falar, eu con -
tin uasse a pen sar em fun dam en t os e explicações. Mas o espírit o da profun deza
m e falou e disse: "En t en d er u m a coisa é pon t e e possibilidade de volt ar ao t r i-
lho. Mas explicar u m a coisa é arbit raried ad e e às vezes até assassinato. Con t ast e
os assassinos en t re os eru d it os?"
Mas o espírit o dessa época aproxim ou -se de m im e colocou à m in h a fren t e
grossos livros que con t in h am todo o m eu saber; suas págin as eram de m et al, e
u m est ilet e de ferro gravara nelas palavras im placáveis; ele apon t ou para aque-
las palavras im placáveis, falou para m im e disse: "Aqu ilo que t u falas, ist o é a
lou cu ra".
E verdade, é verdade, é a d im en são, a em briaguez e a feiu ra da lou cu ra o
que eu falo.

10 O esboço co n t in u a : "Q u e m b eb e est a b e b id a ja m a is t er á sed e n e m n o a q u é m e n e m n o além , p ois b eb eu a


p assagem p a r a o além e a r ealização. El e b eb eu o m e t a l d e r r e t id o qu e se so lid ifica e m d u r o m e t a l e m su a
a lm a e esp er a p o r n o va fu são e m is t u r a " (p . 4 ) .
11 O vo lu m e caligr áfico t e m : "est e sen t id o su p r e m o ".
12 O esboço co n t in u a : "Q u e m sabe, est e m e co m p r e e n d e e vê qu e n ã o m in t o . Ca d a q u a l p er gu n t e à su a
p r o fu n d e z a se ele p r ecisa d aq u ilo qu e e u falo" (p . 4 ) .
112 LI BERP RI M U S foi.i(r)/ i(v)

Mas o espírito da profundeza apro xim o u-se de m im e falou: "O que tu falas
é. O tamanho é, a embriaguez é, a trivialidade desprezível, doente, ignorante
é, perco rre todos os cam inho s, m o ra e m todas as casas e rege o dia de toda a
humanidade. Também os astros eternos são banais. El a é a grande senho ra e a
única essência da divindade. Zo m ba-se dela, também a zo m baria é. Acre ditas
tu, ho m e m dessa época, que a zo m baria é menos que a adoração? O n d e estão
tuas medidas, falso m e dido r?13 A soma da vida n a zo m baria e n a adoração é que
decide, não te u julgam ento".
Preciso falar também do ridículo. Vó s , pessoas vindouras! Co n he ce re is o
sentido supremo no fato de ele ser a zo m baria e a adoração, um a zo m baria san -
grenta e um a adoração sangrenta: o sangue sacrificial une os poios. Q u e m sabe
disso zo m ba e adora no mesmo respirar.
Mas depois disso apresentou-se diante de m im m in h a condição de ser h u -
mano e falou: "Q u e solidão, que frieza do abandono colocas sobre m im quando
falas assim! Le m bra-te da destruição do sendo e dos rio s de sangue do sacrifício
m onstruoso que a profundeza e xige "14 .
Mas o espírito da profundeza disse: "Ningué m pode n e m deve im pe dir o
sacrifício. Sacrifício não é destruição. Sacrifício é pedra angular do que virá.
Não tivestes mosteiros? Não foram para o deserto inúmeros m ilhares? De ve is
trazer mosteiros dentro de vós mesmos. O deserto está e m vós. O deserto vos
cham a e vos puxa de volta, e se estivésseis chumbados co m ferro ao m undo de s-
sa época, o chamado do deserto quebra todas as correntes. Verdadeiram ente,
e u vos preparo para a solidão".
De po is disso, calo u-se m e u ser humano. Mas ao m e u ser espiritual aco nte -
ce u algo que preciso cham ar de graça.
Min ha linguagem é im perfeita. Não que e u queira brilhar co m palavras, mas
po r incapacidade de enco ntrar aquelas palavras é que falo e m imagem. Pois não
posso pro nunciar de outro m odo as palavras da profundeza.
A graça que me aconteceu de u-m e fé, esperança, ousadia suficiente para
não co ntinuar resistindo ao espírito da profundeza, mas falar suas palavras.
Mas antes que pudesse cobrar ânimo para assim proceder, precisei de u m sinal

13 Li t . Verm essener. Is s o traz tam bé m a co n o tação d o adje tivo verm essen, ò u se ja, u m a falta o u p e rd a d e m e d id a, e
po r isso i m p l i ca co n fian ça e xce ssiva, pre sunção .
14 U m a re fe rê ncia à visão que se segue.
O C A M I N H O D A Q U E L E Q U E VI RÁ 113

visível que me mostrasse que o espírito da profundeza e m m im é também ao


mesmo tempo o senhor da profundeza do que acontece no mundo.
I5
Aco n te ce u e m outubro de 1913, quando estava so zinho num a viagem, que
fui de repente surpreendido e m pleno dia po r um a visão: vi um dilúvio gigan-
tesco que e nco briu todos os países nórdicos e baixos entre o Mar do No rte e os
Alpe s. Este ndia-se da Inglaterra até a Rússia, das costas do Mar do No rte até
quase os Alpe s. Eu via as ondas amarelas, os destroços flutuando e a m o rte de
incontáveis m ilhares.
Es ta visão duro u duas horas, ela me desco ncerto u e me fez m al. Não fui
capaz de interpretá-la. Passaram-se duas semanas e então a visão vo lto u mais
im petuosa do que antes, e um a vo z inte rio r falou: "Obse rva be m , é totalmente
real e assim será. Não podes desesperar por isso ". Eu lute i novamente po r duas
horas co m esta visão, mas ela me manteve preso. Isto me deixo u esgotado e
perturbado. E pensei que m e u espírito havia ficado do e n te 16 .
Daí e m diante vo lto u o medo do pavoroso acontecim ento que deveria ficar
diretam ente diante de nós. U m a vez também vi um m ar de sangue sobre os
países nórdicos.
Em 1914, no começo e no final de junho e no início de julho tive por três ve -
zes o mesmo sonho: e u estava n um país estranho e, de repente, durante a noite, e
be m no m eio do verão sobreveio do universo um frio inexplicável e terrível; to -
dos os mares e rios ficaram congelados, todo o verde m o rre u queimado pelo frio.
O segundo sonho foi be m semelhante a este. O terceiro, no início do mês
de julho, foi assim:
Eu estava n um distante país de língua in gle sa 17. Era preciso que e u voltasse
ao m e u país o mais rápido possível n um navio be m ve lo z 18 . Ch e gue i rapida-
m ente a cas a 19 . Em casa de pare i-m e co m o fato de que e m pleno verão havia

15 O esboço co rrigid o te m : "N o co m e ço " (p. 7)


16 Ju n g d i s cu t i u e s ta visão e m várias o po rtu n idade s , ace n tu an do dife re n te s de talh e s: n o se m in ário d e 1925
Int roduct íon t oJungian Psychology (p. 44s .) , para Mi rc e a El i ad e (ve r acim a, p. 28) e e m Mem órias (p. 210 ) . Ju n g
e stava a cam i n h o de Sch affh ause n , o n d e vi vi a s u a so gra e cu jo quin quagé sim o sé tim o anive rsário e ra n o
d i a 17 de o utubro . A viage m de t re m le va apro xim adam e n te tu n a h o ra.
17 O esboço co n tin u a: "co m u m am igo (cu ja falta de pe rspicácia e im prudê n cia já m e h aviam ch am ado a
ate n ção m ais ve z e s " (p. 8 ) .
18 O esboço co n tin u a: "m e u am igo qu e ria vo ltar n u m ve le iro pe qu e n o e vagaro so , o qu e e u ach e i bo bage m e
im pru dê n cia" (p. 8 ) .
19 O esboço co n t in u a: "e e n co n t re i lá cu rio s am e n te tam bé m m e u am igo que o bviam e n te h avia apro ve itado o
m e s m o n avio rápido , s e m qu e e u o pe rce be sse " (p. 8 - 9 ) .
H4 L I B E R P R I M U S foi. i( v) / ii( r )

ir r om p id o u m frio t rem en d o a p ar t ir do m u n d o am bien t e, que con gelou t odo


ser vivo. H a via ali u m a árvore carregada de folh as, m as sem frut os; as folhas
se h aviam t ran sform ado, pela ação do gelo, em doces bagos de u va, ch eios de
suco m e d icin a l 20 . Co lh i as uvas e as d ei de presen t e a u m a gran de m u lt id ão
que agu ard ava 21.
N a realidade acon teceu o seguinte: N a época em que est ourou a grande
gu erra en t re as n ações da Eu r op a eu m e en con t rava n a Escócia 22 ; obrigado pela
guerra, d ecid i volt ar para casa n o n avio m ais rápid o pelo cam in h o m ais curt o.
En con t r ei o frio m on st ruoso que tudo con gelou, en con t rei o dilúvio, o m ar de
sangue, e en con t rei m in h a árvore sem frut os, cujas folhas o gelo h avia t ran sfor-
m ado em rem éd io. E eu colh i as frutas m aduras e as d ei a vós e n ão sei o que d ei
de presen te a vós, que doce-am arga bebida da em briaguez que d eixou u m gosto
de sangue em vossa lín gua.
Acr e d it a i-m e 23 : não é nenhum a doutrina nem algum a instrução que vos dou. Donde haveria de
buscar para querer instruir-vos? Eu vos inform o o cam inho dessa pessoa, seu cam inho, m as não o vosso
foi. i( v) cam inho. Meu cam inho não é o vosso cam inho, portanto / não vo-lo posso ensinar14. O cam inho está
^® em nós, m as não em deuses, nem em doutrinas, nem em leis. Em nós está o cam inho, a verdade e a vida.
Ai daqueles que vivem segundo exem plos! A vida não está com eles. Se viveis segundo um exem plo,
viveis então a vida do exem plo, m as quem deve viver vossa vida a não ser vós m esm os? Portanto, vivei a
vós m esm os 25.
Os indicadores do cam inho caíram , trilhas indeterm inadas estão diante de nós 26. Não sejais gulosos
em engolir os frutos de cam pos estranhos. Não sabeis que vós m esm os sois o cam po fértil que produz tudo
o que vos aproveita?

Mas quem sabe disso hoje em dia? Quem conhece o cam inho para o eterno e fértil cam po da alm a?
Procurais o cam inho através de coisas exteriores, ledes livros e ouvis opiniões: de que serve?

20 Vi n h o con gelad o é feit o d e ixa n d o -se as u vas n a vi n h a at é qu e fiq u e m con gelad as. D e p o is são esp r em id as,
e o gelo r et ir ad o, r esu lt a n d o e m u m vin h o d oce, m u it o sab oroso e a lt a m en t e co n cen t r ad o .
21 O esboço co n t in u a : "Es t e fo i m e u son h o. To d o esfo r ço de in t e r p r e t á - lo fo i e m vão. Esfo r ce i- m e d u r a n t e
vá r io s d ias. Mas a im p r e ssã o qu e d e ixo u fo i p o d er o sa" (p . 9 ) . Ju n g t a m b é m co n t a esse so n h o e m Mem órias
(p . 211).
22 Ve r in t r o d u çã o , p. 25.
23 N o e sb o ço ist o é d ir igid o a "m eu s am igo s" (p . 9 ) .
24 Cf. o con t r ast e c o m Jo 14,6: "Jesu s lh e r esp on d eu : E u so u o ca m in h o , a ver d ad e e a vid a . N i n g u é m ve m ao
Pai se n ã o p o r m i m ".
25 O Esboço co n t in u a : "I s t o n ã o é u m a le i, m as u m a n ú n cio d o fat o de qu e h a via p assad o o t e m p o d o e xe m p lo
e d a le i e d a lin h a r e t a p r e via m e n t e t r a ça d a " (p . 10 ) .
26 O esboço co n t in u a : "M i n h a lín gu a sequ e se e u vos ap r esen t ar leis, se vos en gam b elar c o m d o u t r in a s. Q u e m
p r o cu r a isso sairá c o m fom e de m i n h a m e sa " (p io).
O R E E N C O N T R O D A ALM A "5

Só existe um cam inho, e este é o vosso cam inho27.


Procurais o cam inho? Eu vos previno contra o m eu cam inho. Pode ser um descam inho para vós.
Cada qual anda o seu cam inho.
Não quero ser para vós nenhum salvador, nenhum legislador, nenhum educador. Já não sois
crianças 28.
O legislar, o querer m elhorar, o tornar m ais fácil transform ou-se em um erro e um m al. Cada qual
procure seu cam inho. O cam inho conduz ao am or m útuo em com unidade. As pessoas vão ver e sentir a
sem elhança e com unhão de seus cam inhos.
Leis e doutrinas com uns precisa a pessoa para o estar só, afim de escapar da pressão da com unidade
não desejada, m as o estar só torna a pessoa hostil e venenosa.
Dai, portanto, a dignidade à pessoa e perm iti quefique só, afim de que encontre sua com unidade
e a am e.
A violência está contra a violência, desprezo contra desprezo, am or contra am or. Dai à hum anidade
a dignidade e confiai que a vida encontrará o m elhor cam inho.
O único olho da divindade é cego, o único ouvido da divindade é surdo, sua ordem é cruzada pelo
caos. Portanto, sede pacientes com o aleijado do m undo e não superestim ai sua beleza perfeita29.

O r e e n c o n t r o d a a lm a
[ I H ii( r ) ] 3 °
Cap. i }1

[ 2 ] Q u an d o t ive, em ou t u bro de 19 13, a visão do dilú vio, ist o acon t eceu


n u m a época que foi m u it o im p ort an t e para m im com o pessoa. Naquele tem po,

27 O Esboço co n t in u a : "exist e u m a só le i, e essa é a vo ssa le i. Exis t e u m a só ver d ad e, e essa é a vossa ve r d a d e "


(p . I O ) .
28 O esboço co n t in u a : "N ã o se d eve fazer d a p essoa u m a o velh a , m a s d a o ve lh a u m a pessoa. Ist o exige o
esp ír it o d a p r o fu n d e z a q u e est á a lém d o t e m p o p r esen t e e passado. Fa la i e escr evei p a r a aqu eles q u e
q u e r e m o u vir e ler. Ma s n ã o co r r a is at r ás d as pessoas, p a r a n ã o m a n ch a r a d ign id ad e d a h u m a n id a d e - ela
é u m b e m t ã o raro. E p r e fe r íve l u m d e clín io t r ist e co m d ign id ad e d o q u e u m ser sad io se m d ign id ad e.
Q u e m q u e r ser u m m é d ico d e alm as t r a t a a p essoa co m o d oen t e. El e ofen d e a d ign id ad e h u m a n a . E u m a
im p e r t in ê n cia d iz e r q u e a p essoa est á d oen t e. Q u e m q u e r ser u m p ast or d e alm as t r a t a as pessoas co m o
ovelh as. Fe r e a d ign id ad e h u m a n a . E u m d esr esp eit o d iz e r q u e a p essoa é co m o u m a ovelh a. Q u e m vo s d á
o d ir e it o d e d iz e r q u e a p essoa est á d o e n t e o u é u m a ovelh a? D a i - l h e a d ign id ad e p a r a qu e p ossa e n co n t r a r
su a a sce n sã o o u d e ca d ê n cia , se u c a m in h o " (p . l i ) .
29 O esboço co n t in u a : "Is t o é t u d o, m eu s p r ezad os am igos, q u e p osso d iz e r - vo s sob r e os fu n d a m e n t o s e
in t e n çõ e s d e m i n h a m e n sa ge m q u e m e é im p o st a , co m o ao b u r r o p acien t e, o p eso op ressor. El e se alegra
ao d e sca r r e gá - lo " (p . 12).
30 N o t ext o, Ju n g id e n t ifica o p á ssa r o b r a n co co m o sen d o su a alm a. Pa r a a e xp la n a çã o d e Ju n g d a p o m b a n a
a lq u im ia , ve r Mysteríum coníunctíonís (1955/ 1956. O C , 14, § 8 1) .
31 O esboço corrigido t em : "P r i m e i r a n o it e " ( p . 13).
n6 LI BERP RI M U S foi.i(v)/ ii(r)

por vo lta dos meus quarenta anos de vida, havia alcançado tudo o que eu dese-
jara. Havia conseguido fama, poder, riqueza, saber e toda a felicidade humana.
Ce sso u m inha ambição de aumentar esses bens, a ambição retrocedeu e m m im ,
e o pavor se apoderou de m i m 32 . A visão do dilúvio to m o u co nta de m im , e e u
senti o espírito da profundeza, mas eu não o e n te n dia 33. Mas ele me forçou com
um desejo inte rio r insuportável e e u disse 34 :

[i] "Min h a alma, onde estás? Tu me escutas? Eu falo e clamo a ti - estás


aqui? Eu vo ltei, estou novamente aqui — e u sacudi de meus pés o pó de todos os
países e vim a ti, estou contigo; após muitos anos de longa peregrinação vo ltei
novamente a ti. De vo co ntar-te tudo o que vi, vive ncie i, absorvi e m m im ? O u
não queres ouvir nada de todo aquele turbilhão da vida e do mundo? Mas um a
coisa precisas saber: um a coisa eu aprendi: que a gente deve viver esta vida.
Esta vida é o caminho, o cam inho de há m uito procurado para o inconcebí-
vel, que nós chamamos divin o 35. Não existe outro caminho, todos os outros ca-
m inho s são trilhas enganosas. Eu enco ntrei o cam inho certo, ele me co nduziu
a ti, à m in ha alma. Eu volto retemperado e purificado. Tu ainda me conheces?
Quan to tempo duro u a separação! Tudo ficou tão diferente! E como te e n co n -
trei? Maravilho sa foi m inha viagem. Co m que palavras devo descrever-te? Por
que trilhas emaranhadas um a boa estrela me co nduziu a ti? Dá-m e tua mão,
m inha quase esquecida alma. Q u e calor de alegria rever-te, m inha alma m uito
tempo renegada! A vida re co nduziu-m e a ti. Vamos agradecer à vida o fato de
eu ter vivido, todas as horas felizes e tristes, toda alegria e todo sofrimento.

32 O esboço do m anuscrit o te m : "Pre z ad o s am igo s !" (p. 1). O esboço te m : "Pre z ad o s am igo s !" (p. 1). Em su a pre le ção
n a E T H a 14 de ju n h o de 1935, Jun g o bse rvo u: "Po r vo lta do trigé sim o qu in to ano , e xiste u m po n to e m
que as co isas co m e çam a m udar, é o p ri m e i ro m o m e n t o do lado s o m brio d a vid a, do de sce r para a m o rte .
E e vide n te que D an t e e n co n t ro u e ste po n to e o s que le ram Zarat ust ra sabe rão que Ni e t z s ch e tam bé m o
de s co briu . Q u a n d o ch e ga e ste m o m e n t o crítico , as pe sso as o e n fre n tam de dive rsas m an e iras: algum as
n ão o ace itam ; o utras m e rgu lh am n e le ; e para o utras ain d a algo im po rtan te aco n te ce a p art ir de fo ra. Se
n ão ve m o s algo, o D e s t i n o n o -l o faz ve r" ( H A N N A H , B. (o rg.). Modem Psychology - Vo l . 1 an d 2: No t e s o n
Le ctu re s give n at th e Eidge n õ ssisch e Te ch n is ch e Ho ch s ch u le , Zi i ri c h , by Pro f. D r. C G . Jun g, O c t o b e r
1933-July 1935, 2. e d. Zu ri qu e : Ed . Privada, 1959, p. 223).
33 A 27 de o u tu bro de 1913, Ju n g e scre ve u a Fre u d ro m pe n d o re laçõ e s co m e le e d e m i t i n d o -s e do cargo de
e d ito r d o JahrbuchjúrPsychoanalyt ischeundPsychopat hologíscheForschungen ( M c G U I R E , W & S A U E R L A N D E R ,
W. (o rgs.). Sigm und Freud C G . JungBriefwechsel. Fran kfu rt am Mai n : Fi s ch e r Ve rlag, 1974, p. 612).
34 Em n o ve m bro de 1913 (n as n o tas a seguir, as datas das fantasias e spe cíficas fo ram tiradas do s Livros Negros).
Ap ó s "de se jo ", o esboço te m : "n o co m e ço do m ê s se guin te to m ar m i n h a can e ta e e scre ve r i s t o " (p. 13).
35 Es t a afirm ação o co rre dive rsas ve ze s n o s e scrito s tardio s de Ju n g - c f, po r e xe m plo , P R A T T , J. "No t e s o n
a talk give n by C G . Jun g: 'Is an alytical psycho lo gy a religion?"'SpringJournal oj Archet ypal Psychology andJungian
Thought , 1972, p. 148.
O RE E N C O N T RO D A ALM A 117

Min h a alma, contigo deve co ntinuar m inha viagem. Co n tigo quero cam inhar e
subir para m inha so lidão "36 .

[ 2 ] Fo i isto que o espírito da profundeza me obrigou a falar e ao mesmo


tempo viver co ntra m im mesmo, pois não o esperava. Naquele tempo estava
ainda totalmente preso ao espírito dessa época e pensava de outro modo sobre
a alm a hum ana. Eu pensava e falava m uita co isa da alma, sabia muitas palavras
eruditas sobre ela, eu a analisei e fiz dela um objeto da ciê ncia 37. Não to m ei e m
consideração que m in ha alm a não pode ser objeto de m e u juízo e saber; antes,
m e u juízo e saber são objetos de m in ha alm a 38 . Por isso obrigou-m e o espírito
da profundeza a falar para a alma, a invocá-la como um ser vivo e subsistente
e m si mesmo. Eu tinha de entender que havia perdido m in ha alma.
Disso aprendemos o que o espírito da profundeza pensa da alma: ele a vê
como um ser vivo subsistente e m si mesmo, e assim co ntradiz o espírito dessa
época, para o qual a alm a é um objeto dependente da pessoa, que se deixa julgar
e o rdenar e cuja extensão nós podemos compreender. Tive de reconhecer que
aquilo que anterio rm ente eu designei como m in ha alm a não foi na verdade
m inha alma, mas um sistema doutrinário m o rto 39 . Por isso tive de falar à m inha
alma como a algo distante e desconhecido, que não te m existência através de
m im , mas através do qual eu tenho existência.
Aque le cuja cobiça se aparta das coisas externas, este chega ao lugar da
alm a 40 . Se não enco ntrar a alma, será acometido pelo ho rro r do vazio, e o medo
vai expulsá-lo co m um chicote de várias tiras para um a aspiração desesperada e
para um a cobiça cega das coisas ocas deste mundo. To rnar-se -á um bobo de sua
cobiça ilim itada e se perderá de sua alm a para nunca mais encontrá-la. Co rre rá

36 Mais tarde Ju n g de scre ve u s u a tran sfo rm ação pe sso al o co rri d a n e ste te m po co m o u m e xe m plo do in ício
d a se gun da m e tade d a vid a, que frequentem ente assin alo u u m re to rn o à alm a, de po is de alcançadas
as m e tas e as am biçõ e s d a p ri m e i ra m e tade d a vi d a (Sínéobsdat rat isforinação, 1952. O C , 5, p. xxvi ) . Ve ja
tam bé m : "A m udan ça de vi d a", 1930. O C , 8 ) .
37 Ju n g se re fe re aqui à s u a o bra m ais an tiga. El e e scre ve u p o r e xe m plo e m 1905: "O e xpe rim e n to de
asso ciaçõ e s ao m e n o s n o s fo rn e ce os m e io s de traçar o cam i n h o d a pe squisa e xpe rim e n tal para ch e gar aos
se gre do s d a psique d o e n t i a" ( O C , 2, § 8 9 7) .
38 Em Tipos psicológicos ( 19 20 ) , Ju n g o bs e rvo u que n a psico lo gia, as co n ce pçõ e s são "u m pro d u to d a co n ste lação
psico ló gica s u bje tiva d o pe s qu is ad o r" ( O C , 6, § 8 ) . Es t a re fle xão co n s t it u iu t e m a im po rtan te e m s u a o bra
po s te rio r (cf. SHAbADASANI.Jungandt heMakingofModernPsychobgy. Th e D re a m o f a Scie n ce . Cam bri d ge :
Cam b ri d ge Un i ve rs i t y Pre ss, 20 0 3, § 1).
39 O esboço co n tin u a: "u m s is te m a m o rto de e n s in o , po r m i m e xco gitado e m o n tad o co m as ch am adas
e xpe riê n cias e ju lgam e n to s " (p. 16).
4 0 Em 1913, Ju n g ch am a e ste pro ce sso de in tro ve rsão d a libid o ("A que stão do s Ti p o s Psico ló gico s". O C , 6 ) .
n8 L I B E R P R I M U S foi. i ( v) / i i ( r )

atrás de todas as coisas, vai pu xá-las todas para si, mas n ão en con t rará nelas sua
alm a, pois só a en con t rará d en t ro de si m esm o. E óbvio que sua alm a está nas
coisas e nas pessoas, mas o cego agarra as coisas e as pessoas, mas n ão sua alm a
nas coisas e nas pessoas. N ã o sabe n ada a respeit o de sua alm a. Co m o pod eria
d ist in gu i-la das pessoas e das coisas? Ele en con t raria, sim , sua alm a n a própria
cobiça, mas n ão nos objetos da cobiça. Se ele possuísse sua cobiça, e n ão sua
cobiça o possuísse, t eria colocado u m a m ão sobre a alm a, pois sua cobiça é im a -
gem e expressão de sua a lm a 4 1.
Possuin do a im agem de u m a coisa, possu ím os a m etade da coisa.
A im agem do m u n d o é a m etade do m un do. Q u e m possui o m un do, mas
n ão sua im agem , possui só a m etade do m un do, pois sua alm a é pobre e sem
bens. A riqu eza da alm a con siste de im agen s 42 . Q u e m possui a im agem do
m u n d o possui a m etade do m u n d o, m esm o quan do seu h u m an o é pobre e sem
b en s 4 3. Mas a fome t ran sform a a alm a em fera que engole o p reju d icial e com
isso se en ven en a. Meus am igos, é sábio alim en t ar a alm a, sen ão criareis dragões
e d em ón ios em vossos cor ações 4 4 .

41 E m 1912, Ju n g h a via escr it o: "É u m e r r o c o m u m julgar o desejo segundo a qualidade do objeto... A n a t u r e z a só é b ela
d evid o ao d esejo e ao am or , qu e lh e con ced e a pessoa. O s a t r ib u t o s est ét ico s qu e d a q u i e m a n a m a p lica m -
se p r im e ir a m e n t e à lib id o qu e so z in h a co n st it u i a b eleza d a n a t u r e z a " (Transform ações e sím bolos da libido. O C ,
B, § i 4 7 ) .
4 2 E m Tipos psicológicos, Ju n g a r t icu lo u est a p r im a z ia d a im a ge m at r avés de su a n o çã o d e esse in anim a ( O C , 6,
§ 63S., 73s.). E m suas a n o t a çõ e s d iár ias, C a r y Bayn es c o m e n t o u a r esp eit o d est a passagem : " O qu e m e
im p r e ssio n o u esp ecialm en t e fo i o qu e o Sr. falou sobre o fat o de a "Bi l d " ser m et ad e d o m u n d o . Essa é a
co isa qu e t o r n a a h u m a n id a d e t ão est ú p id a. N ã o e n t e n d e r a m essa coisa. O m u n d o , essa é a co isa qu e os
m a n t é m ext asiad os. Ele s n u n c a co n sid e r a r a m "das Bi l d " se r ia m e n t e a n ã o ser qu e t e n h a m sid o p oet as" ( 8
d e fever eir o de 1924, escr it os d e Ba yn e s) .
43 O esboço co n t in u a : "Q u e m a m b icio n a coisas, est e em p o b r ece co m o a u m e n t o d e r iq u ezas e xt e r io r e s, e su a
a lm a su cu m b e a u m a d o e n ça cr ó n ica " (p . 17).
4 4 O esboço co n t in u a : "Es t a alegor ia d o r e e n co n t r o d a a lm a , m eu s am igos, d eve m o st r a r -vo s qu e só m e
vist es co m o m e ia pessoa, p ois e u m e h a via p e r d id o d e m i n h a alm a. C o m cer t eza , n ã o o p erceb est es; p ois
q u an t o s est ão h o je c o m su a alm a? Ma s se m a lm a n ã o h á ca m in h o p a r a a lé m d est e t e m p o " (p . 17). E m suas
a n o t a çõ e s d iár ias, C a r y Bayn es co m e n t o u est a passagem : "8 d e fever eir o [19 24 ]. Ch e gu e i à co n ve r sa çã o d o
Sr. c o m su a alm a. Tu d o qu e o Sr. d iz é d it o d e m a n e ir a co r r e t a e é sin cer o. N ã o é o gr it o d o h o m e m jo ve m
d esp er t an d o p a r a a vid a , m as o d o h o m e m m a d u r o qu e vive u p le n a e r ica m e n t e à m a n e ir a d o m u n d o e n o
en t an t o , qu ase qu e a b r u p t a m e n t e , ce r t a n o it e , ou ve a lgu é m d iz e r qu e ele n ã o a t in giu a essên cia. A visão
ve io n o auge de su a for ça, q u an d o o Sr. p o d e r ia segu ir e m fr en t e e xa t a m e n t e co m o o Sr. er a, c o m p er feit o
su cesso m a t e r ia l. E u n ã o sei co m o o Sr. t eve for ça su ficien t e p a r a p r e st a r -lh e at en ção. Co n c o r d o r e a lm e n t e
c o m t u d o o qu e o Sr. d iz e o en t en d o. To d o s os qu e p e r d e r a m a co n e xã o c o m su a p r ó p r ia a lm a o u qu e
so u b e r a m co m o d a r - lh e vid a p r e cisa m t e r u m a o p o r t u n id a d e de ve r est e livr o . At é agora cad a p a lavr a
p a r a m i m est á viva e fo r t alece-m e ju st a m e n t e on d e m e sin t o fraca. Ma s, co m o o Sr. d iz , h o je o m u n d o
est á m u it o lon ge d e t e r est a d isp o sição . Ist o n ã o t e m m u i t a im p o r t â n cia , u m livr o p od e sacu d ir o m u n d o
in t e ir o se for escr it o c o m fogo e san gu e" ( escr it o s de Ba yn e s ) .
ALM A E D EU S 119

Al m a e Deu s
[ I H ii ( r ) 2 ] 4 5

Cap. ii.

N a segunda n oit e ch am ei m in h a a lm a 4 6 :
"Est o u cansado, m in h a alm a, já d u ra dem ais o m eu cam in h ar, m in h a bu s-
ca por m im fora de m im . Passei através das coisas e fu i en con t rar-t e atrás da
m iscelân ea. Mas em m in h a viagem equivocada através das coisas descobri a
h u m an idad e e o m un do. En co n t r ei pessoas. E reen con t rei a t i, m in h a alm a, p r i-
m eiram en t e em im agem n a pessoa e, depois, a t i m esm a. En con t r ei-t e lá onde
m en os esperava. D e lá subiste para m im de u m poço escuro. T u te an un ciast e
previam en t e em son h os 4 7 ; eles qu eim avam em m eu coração. Eles me im p elir am
para tudo o que era m ais dest em ido e ousado e forçaram -m e a elevar-m e acim a
de m im m esm o. T u m e fizeste ver verdades das quais n ada suspeitava an t i-
gam ente. Fizest e-m e percorrer cam in h os cujo com p rim en t o in t erm in ável m e
t eria assustado se o con h ecim en t o deles n ão estivesse escon dido em t i.
An d e i du ran t e m u it os anos, t an t o que esqueci que possu ía u m a a lm a 4 8 .
O n d e estavas t u neste tem po todo? Q u e além te abrigava e te dava guarida?
O h , que t u ten has de falar através de m im , que m in h a lin guagem e eu sejam os
para t i sím bolo e expressão! Co m o devo decifrar-t e?
Q u e m és t u , crian ça? Co m o crian ça, com o m en in a, m eus sonhos te repre-
sen t ar am 4 9 ; n ada sei de t eu m ist ér io 50 . Perdoa, se falo com o em sonho, com o
u m bêbad o — t u és Deu s? Deu s é u m a crian ça, u m a m oça? 51 Perdoa, se falo
coisas confusas. Nin gu ém me escuta. Eu falo n o silên cio con tigo, e t u sabes que

4$ E m 1945, Ju n g co m e n t o u o sim b o lism o d o p á ssa r o e d a co b r a e m co n e xã o c o m a ár vo r e e m "A á r vo r e


filosófica" ( O C , 13).
4 6 14 de n o ve m b r o de 1913.
4 7 O esboço co n t in u a : "qu e m e e r a m ob scu r os e q u e e u p r o cu r a va cap t ar co m m i n h a cap acid ad e in su ficie n t e "
( p . 18).

4 8 O esboço co n t in u a : " E u p e r t e n c ia às p essoas e às coisas. N ã o p e r t e n cia a m i m ". N o Livro Negro 2, Ju n g


a fir m a qu e vagu eou p o r o n z e an os (p . 19 ) . P a r o u d e escr ever n est e livr o e m 19 0 2, r e t o m a n d o - o n o
o u t o n o d e 1913.
4 9 Livro Negro 2: "So m e n t e at r avés d a a lm a d a m u lh e r e n co n t r e i- t e n o va m e n t e " (p . 8 ) .
50 Livro Negro 2: "Vê , e u t rago u m a fe r id a co m igo qu e a in d a n ã o sar ou : m i n h a a m b içã o d e cau sar im p r e ssã o "
(p 8 )
$1 Livro Negro 2: "Pr e ciso d iz e r - m e fr an cam en t e: Ser ve-se ele d a im a ge m de u m a cr ian ça, qu e m o r a d e n t r o
de cad a pessoa? N ã o fo r a m H ó r u s , Tages e Cr i s t o cr ian ças? Ta m b é m D i o n i s o e H é r cu le s e r a m cr ian ças
d ivin as. N ã o se d e n o m in o u o D e u s h u m a n a d o , Cr is t o , a si m e sm o Filho do Hom em ? Q u a l t e r ia sid o n isso su a
id e ia m ais p r ofu n d a? Se r á qu e o n o m e d e D e u s é a de Filha do Hom em ? (p . 9 ) .
120 LI BERP RI M U S foi.ii(r)/ ii(v)

não sou um bêbado, um alienado m ental e que m e u coração se revolve sob a


ferida da qual a treva faz escárnio: "Tu mentes para ti. Falas assim para iludir os
outros e fazer co m que acreditem em ti. Que re s ser profeta, mas corres atrás
de tua ambição". A ferida ainda sangra, e e u estou longe de poder não escutar
a própria fala do deboche.
Co m o soa estranho para m im cham ar-te criança, tu que seguras e m tua mão
coisas in fin itas 52. Eu andei pelos cam inhos do dia e tu foste, invisível comigo,
unindo significativamente pedaço a pedaço e fizeste-m e ve r e m cada pedaço
um todo.
Tu retiraste aquilo em que eu pensava me segurar e me deste aquilo de onde
e u nada esperava, e sempre de novo aduziste destinos de lados diferentes e
inesperados. On d e e u semeava, tu me roubavas a co lhe ita e onde e u não se -
meava, tu me davas frutos e m cêntuplo. E sempre de novo perdia o fio, para
encontrá-lo outra vez onde jam ais te ria esperado. Tu seguraste m in ha fé quan -
do estava só e à be ira do desespero. Tu fizeste co m que em todos os momentos
decisivos e u acreditasse em m im mesmo.

[ 2 ] Co m o um viandante cansado, que não pro curo u nada no m undo a não


ser po r ela, devo apro xim ar-m e de m inha alma. De vo aprender que por trás de
tudo está, em última análise, m in ha alma, e se e u perco rrer o mundo, aco ntece-
rá no fim que e nco ntrare i m in h a alma. Mesm o as pessoas mais queridas não são
m eta e fim do am or que pro curam , são símbolos da própria alma.
Meus amigos, adivinhais vós para qual solidão vamos subir?
De vo aprender que a espuma de m e u pensar são meus sonhos, a linguagem
de m in ha alma. Preciso carregá-los em m e u coração e movimentá-los de cá
para lá e m meus sentidos, como as palavras da pessoa mais cara. O s sonhos são
as palavras-guia da alma. Co m o então não deveria amar m in ha alm a e fazer de
suas imagens enigmáticas o objeto de m inhas considerações diárias? Tu achas
que o sonho é tolo e deselegante. O que é belo? O que é deselegante? O que é
inteligente? O que é tolo? O espírito dessa época é tua medida. Mas o espírito

52 O esboço co n tin u a: "Q u ã o e spe ssa e ra a e scuridão antiga! Q u ão forte e in te re s s e ira e ra m i n h a paixão ,
subjugada po r to do s o s de m ó n io s d a am bição , d a bu s ca de fam a, co biça, e stagnação , avide z de to do tipo ,
e quão ign o ran te e u e ra e n tão ! A vi d a m e arran co u para fo ra e e u co rri co n s cie n te m e n te para lo n ge de ti
e o fiz assim to do s esses an o s. Re co n h e ço que tudo e ra bo m . E e u pe n sava que t u estavas pe rd id a, o u ao
m e n o s m e pare cia que e u e stava pe rdido . Mas n ão estavas pe rdida. Eu an d e i pe lo s cam in h o s do dia.
Tu ias invisíve l co m igo e m e co n du zis te de de grau e m de grau, ju n tan d o pe daço a pe daço " (p. 20 - 21) .
ALM A E D EU S 121

da profundeza o sobrepuja nas duas pontas. Só o espírito dessa época conhece a


diferença entre grande e pequeno; mas esta diferença é ilusória como o espírito
que a conhece. / fo i
/ ii(

O espírito da profundeza e nsino u-m e inclusive a co nsiderar como de pe n -


dentes dos sonhos m e u agir e m e u decidir. O s sonhos preparam a vida e eles
te de te rm inam sem que entendas sua linguage m 53. Nó s gostaríamos de apre n -
der esta linguagem, mas quem é capaz de ensiná-la e aprendê-la? Pois só a
erudição não basta; existe um saber do coração, que dá esclarecimentos mais
pro fundo s 54 . O saber do coração não é possível encontrá-lo em ne nhum livro
e em ne nhum a boca de professor, mas ele nasce de ti como o grão verde, da
terra preta. A erudição pertence ao espírito dessa época, mas este espírito não
abrange de form a ne nhum a o sonho, pois a alm a está e m toda a parte onde o
saber ensinado não está.
Mas com o posso conseguir o saber do coração? Só poderás conseguir este
saber vivendo plenam ente tua vida. Tu vives tua vida plenam ente quando tu
vives também aquilo que nunca viveste, mas sempre deixaste para que os outros
o vivessem e pe nsasse m 55. Tu dirás: "Eu não posso viver o u pensar tudo o que os
outros vive m e pensam ". Mas deves dizer: "A vida que e u ainda po deria viver,
eu deveria viver e o pensar que e u ainda po deria pensar, e u deveria pe nsar". Tu
queres fugir de ti, para não teres de viver aquilo que não foi vivido até ago ra 56 .

53 Em 1912 Ju n g e n do s s o u a id e ia de Mae d e r d a função pre m o n itó ria do so n h o ("Te n tativa de u m a


apre se n tação d a te o ria psicanalítica". O C , 4, § 452). N u m de bate n a So cie dade Psicanalítica de Zu ri q u e a
31 de jan e iro d e 1913, Ju n g disse : "O s o n h o não é só satisfação de de se jo s in fan tis, m as é tam bé m sim bó lico
para o futuro ... O so n h o dá a re spo sta atravé s d o sím bo lo , que a ge n te de ve e n t e n d e r" (MSZ, p. 5) . So bre
o de s e n vo lvim e n to d a te o ria do so n h o de Jun g, cf. m e u e n saio Jung and t he Makíngof Modem Psychology: Th e
D re a m o f a Scie n ce , se ção 2.
54 Is to é u m e co d a fam o sa afirm ação d e Blais e Pascal: "O co ração t e m razõ e s que a razão d e s co n h e ce "
(Pensées, 423 [e d. ingle sa: Lo n d re s , Pe n gu in , 1660 / 1995, p. 127]). O e xe m plar que Ju n g t in h a d a o bra d e
Pascal co n té m n um e ro sas n o tas m argin ais.
55 Em 1912, Ju n g afirm o u que a e sco laridade e ra in su ficie n te se algué m quise sse t o rn ar-s e u m "co n h e ce d o r
d a alm a h u m an a". Para co n se guir isso, a pe sso a tin h a de "p e n d u rar n o cabide as ciê ncias e xatas, tirar a
be ca pro fe sso ral, d e s pe d ir-s e do gabine te de e studo s e cam in h ar pe lo m u n d o co m u m co ração h u m an o :
n o h o rro r das prisõ e s, n o s asilo s de alie n ado s, nas tabe rn as do s subúrbio s, no s bo rdé is e casas de jo go ,
n o s salões e le gante s, n a bo ls a de valo re s, n o s 'm e e tin gs ' so cialistas, nas igre jas, nas se itas pre dican te s e
e xtáticas, n o am o r e n o ó dio , e m to das as fo rm as de paixão vividas n o pró prio co rp o " ("No vo s cam in h o s
d a psico lo gia". O C , 7, § 4 0 9 ) .
56 Em 1931, Ju n g fez u m co m e n tário so bre as co n se quê n cias pato gê nicas d a vi d a n ão vivid a do s pais so bre
seus filho s: "Vi a de re gra, o fato r que atua ps iqu icam e n te de u m m o d o m ais in te n s o so bre a crian ça é a
vid a que os pais não vive ram . Es t a afirm ação po de ria pare ce r algo sum ária e supe rficial, s e m a se guinte
re strição : e sta parte d a vi d a a que n o s re fe rim o s se ria aque la que o s pais po d e riam te r vivid o se não a
tive sse m o cultado m e dian te subte rfúgio s m ais o u m e n o s gasto s" ("In tro du ção à o bra de Fran ce s G.
Wi ck e s , An ál i s e d a alm a in fan til'". O C , 17, § 8 7) .
12 2 L I B E R P R I M U S foi. i i ( r ) / i i ( v)

Mas n ão podes fugir de t i m esm o. Ist o está todo o t em po con tigo e exige rea-
lização. Se te colocares cega e surdam en t e esta exigên cia, t u te colocarás cega e
surdam en t e con t ra t i m esm o. En t ão jam ais alcan çarás o saber do coração.
O saber do coração é com o t eu coração é.
De u m coração m au , conheces coisa m á.
De u m coração bom , conheces coisa boa.
Para que vosso con h ecim en t o seja com plet o, con sid erai que vosso coração
é ambos: bom e m au . T u perguntas: "Mas com o? Devo t am bém viver o m al?"
O espírit o da profun deza exige: "A vid a que ain d a poderias viver, deverias
viver. O b em decide, n ão t eu bem , n ão o b em dos out ros, mas o b em ".
O bem está entre mim e os outros, na comunidade. Também eu vivia o que antes não
fazia, e o que ainda podia fazer, eu vivia n a profundeza, e a profundeza começou a falar.
A profundeza me ensinou a outra verdade. Portanto juntou em mim sentido e absurdo.
Tive de reconhecer que sou apenas símbolo e expressão da alma. No sentido do
espírito da profundeza, sou, enquanto estou neste mundo visível, u m símbolo de m i-
nha alma, e sou totalmente servo, submissão, totalmente obediência. O espírito da
profundeza ensinou-me a dizer: "Sou o servo de um a criança". Eu aprendo através
dessa palavra sobretudo a extrem a humildade, como aquilo que me faz mais falta.
O próprio espírito dessa época fez com que eu acreditasse em m in h a razão;
deixou-m e ver u m a imagem de m eu si-mesmo* como u m chefe de ideias maduras.
Mas o espírito da profundeza ensinou-m e que sou u m servidor e servidor de um a
criança. Est a palavra repugnou-me e eu a odiei. Mas tive de reconhecer e adm itir que
m in h a alm a é um a criança e que m eu Deus é u m a criança em m in h a alm a 57.

Se sois rapazes, então vosso Deus é uma m ulher.


Se sois m ulheres, então vosso Deus éum rapaz.

* N ã o se t r a t a aq u i d o a r q u é t ip o d o si-m e sm o qu e só ser ia d efin id o p o st e r io r m e n t e p o r Ju n g. De sd e cr ian ça,


Ju n g est eve in t r igad o co m m an ifest açõ es de u m "o u t r o e u " in t e r io r qu e n ã o o ego con scien t e. Co n f. seus
d iálo go s co m a p ed r a, e m Memórias, p. 4 9 . En t r e t a n t o , o co n ceit o t eó r ico d o a r q u é t ip o d o si-m e sm o é
p o st er io r ao Livro Vermelho ( N o t a d o P r o f - D r . W a lt e r Bo e ch a t ) .
57 N o se m in á r io de 1925, Ju n g a n o t o u a r esp eit o de seus p en sam en t os n essa ép oca: "Est a s id eias sobre anim a
e anim us le va r a m -m e a ad en t r ar a in d a m ais n os p r ob lem as sen t id os su p r em os, e m ais coisas aflo r ar am p a r a
r eexam e. Ne ssa ép oca, e u con cor d ava co m o p r in cíp io k a n t ia n o de qu e e xist ia m coisas qu e n u n ca p o d e r ia m
ser r esolvid as e qu e, p or t an t o, n ã o se d e ve r ia esp ecu lar sobre elas, m as m e p ar ecia qu e, se e u p u d esse
e n co n t r a r essas id eias p recisas sobre a anim a, va lia b e m a p en a t e n t a r fo r m u la r u m a co n ce p çã o de D e u s. Mas
n ão con segu i ch egar a n a d a de sat isfat ór io e p en sei, p o r algu m t em p o, qu e t alvez a figu r a d a anim a fosse a
d ivin d ad e. E u d isse a m i m m esm o qu e t alvez os h o m en s t ivessem o r igin a r ia m e n t e u m D e u s fe m in in o ; m as,
can san d o-se de ser govern ad os pelas m u lh er es, d e r r u b a r a m est e De u s. Pu s p r a t ica m e n t e t od o o p r o b le m a
sen t id o su p r em o n a anim a e co n ce b i-a co m o o esp ír it o d o m in a n t e d a p siqu e. D e st a fo r m a , t r a ve i u m a
d iscu ssão p sicológica com igo m esm o acer ca d o p r o b le m a de D e u s " (introductíon to Jungian Psychology, p. 50 ) .
ALM A E D EU S 123

Se sois hom ens, então vosso Deus é um a m oça.


Deus está onde vós não estais.
Portanto: é sábio que se tenha um Deus. Isto serve para vossa perfeição.
Um a m oça éfuturo parturiente.
Um rapaz éfuturo gerativo.
Um a m ulher é: ter parido.
Um hom em é: ter gerado.
Portanto: se sois crianças enquanto seres atuais, então vosso Deus descerá da altura da m aturidade
para a velhice e a m orte.
Mas se sois seres adultos que geraram ou pariram , seja no corpo ou no espírito, então vosso Deus
subirá de um berço radioso para a altura incom ensurável do futuro, para a m aturidade e plenitude do
tem po que há de vir.
Quem ainda tem sua vida diante de si é um a criança.
Quem vive sua vida no presente é adulto.
Se vós, portanto, viveis tudo o que podeis viver, sois adultos.
Quem é criança nesta época, para este Deus m orre. Quem nesta época é adulto, para este Deus
continua vivendo.
Este m istério quem o ensinou foi o espírito da profundeza.
Feliz e infeliz daquele cujo Deus é adulto!
Feliz e infeliz daquele cujo Deus é um a criança!
O que é m elhor: que a pessoa tenha vida diante de si, ou que Deus tenha vida diante de si>
Não sei responder. Vivei; o inevitável decide.
O espírito da profundeza m e ensinou que m inha vida está abrangida pela criança divina58. De sua
m ão m e veio todo o inesperado, todo o vivo.

Esta criança éoque sinto em m im com o a juventude eternam ente borbulhante59.

Na pessoa infantil tu sentes a transitoriedade sem esperança. Eudo o que vês passando, para ela é

ainda porvir. Seu futuro é cheio de transitoriedade.

58 E m 19 4 0 , Ju n g ap r esen t o u u m est u d o d o m o t ivo d a cr ia n ça d ivin a , n u m vo lu m e e m co la b o r a çã o c o m o


classicist a h ú n ga r o Ka r l Ke r é n yi, A criança divina (cf. "A p sico lo gia d o a r q u é t ip o d a cr ian ça". O C , 9/ 1). Ju n g
escr eveu qu e o m o t ivo d a cr ia n ça o co r r e fr e q u e n t e m e n t e n o p r ocesso d e in d ivid u ação . El e n ã o r ep r esen t a
a in fân cia lit e r a l d o in d ivíd u o , co m o se e n fa t iz a p o r su a n a t u r e z a m it o ló gica . Co m p e n s a a u n ila t e r a lid a d e
d a co n sciê n cia e p r e p a r a o t e r r e n o p a r a o fu t u r o d e se n vo lvim e n t o d a p er son alid ad e. E m d e t e r m in a d a s
co n d içõ e s d e con flit o, a p siq u e in co n scie n t e p r o d u z u m sím b o lo qu e u n e os op ost os. A cr ia n ça é esse
sím b o lo . E l a a n t ecip a o si-m e sm o , qu e é p r o d u z id o m e d ia n t e a sín t ese d os elem en t o s con scien t es
e in co n scie n t e s d a p er so n alid ad e. As fat alid ad es t íp icas qu e so b r e vê m à cr ia n ça in d ica m o t ip o d e
a co n t e cim e n t o s p síq u ico s qu e a co m p a n h a m a gén ese d o si-m e sm o . O n a scim e n t o m a r a vilh o so d a cr ian ça
in d ica qu e ist o acon t ece p siq u ica m e n t e , e m co n t r a p o siçã o a fisicam en t e.
59 E m 19 4 0 , Ju n g escreveu : " U m asp ect o fu n d a m e n t a l d o m o t ivo d a cr ian ça é o seu car át er d e fu t u ro. A
cr ian ça é o fu t u r o e m p o t e n cia l" ( "A p sico lo gia d o a r q u é t ip o d a cr ian ça". O C , 9/ 1, § 278 ) .
124 LI BERP RI M U S foi.ii(r)/ íi(v)

Mas a transitoriedade de tuas coisas que estão chegando nunca experim entou ainda um sentido

hum ano.

Tua continuidade de vida é viver para o além . Tu geras e dás à luz o porvir, tu és fecundo, tu vives

para o além .

O infantil é estéril, seu porvir eo já gerado e novam ente m urchado. Não vive para o além 60.

Me u De us é um a criança; não vos adm ireis, pois, que o espírito dessa época
se revolte e m deboche e zom baria. Ninguém vai rir de m im assim com o e u rio
de m im .
Vosso De us não deve ser um ho m e m do deboche, mas vós mesmos sereis
homens do deboche. Vó s deveis caçoar de vós mesmos e vos revoltar co ntra
isso. Se ainda não o aprendestes dos velhos livros sagrados, ide, bebei o sangue
e co m e i o corpo do e scarn e cido 61 e torturado por causa de nossos pecados, para
que vos torneis totalmente sua natureza, negando seu estar-fo ra de vós, deveis
ser ele mesmo, não chrístíaní, mas Christí, caso contrário não servireis para o De us
que virá.
Haverá algum entre vós que acredita poder poupar-se o cam inho? Poder
e xim ir-se astuciosamente do sofrimento de Cristo ? Eu digo: este se ilude para
seu próprio prejuízo. Ele se de ita sobre pregos e fogo. D o cam inho de Cris to
ninguém pode ser poupado, pois este cam inho conduz ao que virá. Vó s todos
deveis to rnar-vo s Cri s t o s 6 2 .
Vó s não superareis a velha do utrina fazendo menos, mas fazendo mais.
Cada passo para mais perto de m in ha alma estim ula o riso de deboche de meus
demónios, aqueles bisbilhoteiros e envenenadores covardes. Para eles e ra fácil
zombar, pois e u tinha coisas estranhas a fazer.

6 0 O esboço co ntínua: "Me u s am igo s, ve de s que a graça e stá c o m o s adulto s, n ão c o m o in fan til. Agrad e ço
a m e u D e u s e sta m e n sage m . N ã o vo s de ixe is ilu d ir pe la d o u t ri n a d o cris tian is m o ! Su a d o u t ri n a é bo a
para o s e spírito s m adu ro s d o te m po antigo . H o je to rn o u -s e bo a para o s e spírito s im aturo s. Para n ó s, o
cris tian is m o já não é u m a m e n sage m po rtad o ra de graça, e as s im m e s m o pre cisam o s d a graça. Is to que vo s
digo é u m cam i n h o d o po rvir, m e u cam i n h o para a graça" (p. 27) .
61 Is to é, Cri s t o . Cf . Jun g, "O sím bo lo d a tran sfo rm ação n a m i s s a" (1942. O C , 11/ 3).
62 Em "Re s p o s t a a Jó ", Jun g o bse rvo u: "Co m a inabitação d a te rce ira pe sso a d ivin a, isto é, d o Espírito San to
n o h o m e m , o pe ra-s e u m a cristifícação d e m u i t o s " (1952. O C , n , § 758) .
S O BR E O SE RVI Ç O D A A L M A 125

So b r e o se r viço d a a lm a
[IH i i ( v) ]
Cap. iii.

63
N a no ite seguinte, tive de escrever, fiel a seu teor original, todos os sonhos
de que me le m brava 64 . O sentido desse procedim ento e ra obscuro para m im .
Por que tudo isso? Perdoa o barulho que se levanta em m im . Tu queres que eu
faça isto. Q u e coisas estranhas me dize m respeito? Sei demais para não ve r que
ando sobre um a ponte oscilante. Para onde levas? Perdoa m e u medo repleto
de saber. Meus pés vacilam e m seguir-te. Para que névoa e escuridão co nduz
tua vereda? Te nho de aprender também a perder o sentido? Se tu o exiges, que
assim seja. Es ta ho ra te pertence. O que existe, onde não há sentido algum? Só
tolice e lo ucura, assim me parece. Será que existe também um sentido supre -
mo? Isto é teu sentido, m inha alma? Eu coxeio atrás de ti, apoiado e m muletas da
razão. Eu sou um ho m e m e tu andas como um De us. Q u e tortura! Preciso voltar
a m im , para minhas coisas mínimas. Eu via como pequenas as coisas de m inha
alma, lamentavelmente pequenas. Tu me obrigas a vê-las grandes, fazê-las gran-
des. É esta tua intenção? Eu vo u atrás, mas tenho pavor. Escuta m in h a dúvida,
caso contrário não posso ir atrás, pois teu sentido é um sentido supremo e teus
passos são passos de u m De us.

Eu entendo, também não devo pensar; também o pensar não deve existir
mais? De vo entregar-m e totalmente em tuas mãos — mas quem és tu? Não
confio e m ti — n e m sequer confiança tenho — é isto m e u amor po r ti, m in ha
alegria e m ti? Co n fio e m qualquer pessoa honrada, mas e m ti não, m in h a alma?
Tua mão pesa sobre m im , mas e u quero, e u quero. Não te nte i amar pessoas e
confiar nelas e não devo fazê-lo contigo? Esquece m in h a dúvida, e u se i, é de -
selegante duvidar de ti. Tu sabes que posso deixar pesadamente o orgulho de
mendigo sobre o próprio pensar. Eu esquecia que também tu pertences a meus
amigos e que tens o prim e iro dire ito à m inha confiança. O que do u àqueles não
deve pertencer a ti? Eu reconheço m in ha injustiça. Eu te desprezava, ao que me
parece. Min h a alegria e m reencontrá-la e ra falsa. Reconheço que também a
zo m baria tin ha razão e m m im .

63 15 d e n o ve m bro d e 1913.
6 4 N o Livro Negro 2, Ju n g e s cre ve u aqu i d o is so n h o s-pivô , qu an d o e le t i n h a 19 an o s de idade , qu e o le varam a
vo lt ar-s e para as ciê n cias n aturais (p. 13S.) e qu e são de scrito s e m Mem órias (p. n $s s . )
126 L I B E R P R I M U S foi. ii( r ) / iii( v)

Preciso apren der a am ar -t e 6 5 . Devo aban don ar t am bém a auto avaliação? E u


t en h o medo. En t ão a alm a falou-m e e disse: "Est e m edo d epõe con t ra t i". E
verdade, ele d epõe con t ra ti. Ele m at a a sagrada con fian ça en t re t i e m im .

[ 2] Que dureza de destino! Quando vos dirigis à vossa alm a, ireis sentirfalta logo de im ediato de

sentido. Acreditais que estais aprendendo no sem sentido, no eterno desordenado. Tendes razão! Nada

vos redim e do desordenado e insensato, pois esta éa outra m etade do m undo.

Vosso Deus é uma criança, na m edida em que nãofordes infantis. A criança é ordem , sentido? Ou

desordem , capricho? Desordem e insensatez são as m ães da ordem e do sentido. Ordem e sentido são

feitos e não a se fazer.

Vós abris aporta da alm apara deixar entrar em vossa ordem e em vosso sentido as torrentes escuras

do caos. Misturai ao ordenado o caos, e gerareis a criança divina, o sentido suprem o além do sentido e

do absurdo.

Vós tem eis abrir aporta? Tam bém eu tenho m edo, pois esquecem os que o Deus é terrível. Cristo

ensinou: Deus é am or66. Mas deveis saber que tam bém o am or é terrível.

Eu falava a uma alm a am orosa e, quando cheguei m ais perto, fui acom etido de pavor e ajuntei um

m onte de dúvidas e não im aginava que quisesse com isso proteger-m e de m inha terrível alm a.

Tendes pavor da profundeza; deve causar-vos pavor, por sobre isso passa o cam inho daquele que

vem . Tu deves resistir à tentação do m edo e da dúvida e nisso reconhecer até o sangue que teu m edo éjus-

foi. ii( r ) tificado e tua dúvida, razoável. Senão, / com o seria uma verdadeira tentação e uma verdadeira vitória?

Cristo venceu a tentação do dem ónio, mas não a tentação de Deus para o bem e o razoável67. Cristo

está pois subm etido à tentação68.

65 N o Livro Negro 2, Ju n g o b se r vo u aq u i: "Aq u i est á algu ém ao m e u lad o e m e co ch ich a algo d e r u i m n o


o u vid o : ' T u escreves p a r a ser im p r esso e ser d ivu lgad o às pessoas. Q u e r e s p r o vo car sen sação at r avés d o
in c o m u m . N ie t z sch e , p o r é m , o fez m e lh o r d o q u e t u . T u im it a s San t o Ago s t in h o ' " (p . 2 0 ) . A r efer ên cia é
às Confissões, d e San t o Ago st in h o ( 4 0 0 d . C ) , u m a o b r a d e vo cio n a l q u e escr eveu q u an d o t in h a 45 an os d e
id ad e, n a q u al n a r r a su a co n ve r sã o ao cr ist ia n ism o n u m a fo r m a au t o b io gr áfica (Confissões. O xfo r d : O xfo r d
U n ive r s it y Press, 19 9 1 [Tr a d . d e H . Ch a d w i c k ] ) . As Confissões são d ir igid as a D e u s, e r e co r d a m os an os d e
seu d esgar r am en t o d e D e u s e a m a n e ir a d e se u r et o r n o . Fa z e n d o eco a isso, n as seções d e a b e r t u r a d o Liber
Novus, Ju n g d ir ige-se à su a a lm a e r e co r d a os an os d e se u d esgar r am en t o d ela, e a m a n e ir a d e se u r et o r n o .
E m suas ob ras p u b licad as, Ju n g cit a vár ias vezes Ago st in h o e se refere fr e q u e n t e m e n t e às Confissões, e m
Transform ações e sím bolos da libido.
66 A P r i m e i r a Ep íst o la d e Jo ã o : "D e u s é am or , e q u e m p er m a n ece n o a m o r p er m a n ece e m D e u s , e D e u s
n e le " ( 1J0 4 J6 ) .
6 7 Cr i s t o fo i t en t ad o p elo d e m ó n io d u r a n t e q u a r e n t a d ias n o d eser t o ( Lc 4,1-13).
68 M t 21,18-20: "Ao vo lt a r à cid ad e d e m a n h ã ced o, se n t iu fom e. V i u u m a figu eir a p er t o d o ca m in h o ,
foi at é ela, m as n ã o a ch o u n a d a a n ã o ser folh as. En t ã o lh e d isse: 'Jam ais n asça fr u t o d e t i'. E a figu eir a
secou im e d ia t a m e n t e . Ve n d o isso, os d iscíp u lo s se a d m ir a r a m e d isser am : ' Co m o a figu eir a secou d e
r ep en t e!'" ( 21,18 - 20 ) . O evan gelh o segu n d o Ma r co s co n t a: "N o d i a segu in t e, ao saír em d e Be t â n ia , Jesu s
se n t iu fom e. V i u d e lon ge u m a figu eir a co b e r t a d e folh as e fo i ve r se e n co n t r a va algu m a coisa. Ma s n a d a
e n co n t r o u a n ã o ser folh as, p ois n ã o e r a t e m p o d e figos. D isse , en t ã o , à figu eir a: 'Jam ais algu ém co m a fr u t o
SO BR E O SERVI Ç O D A A L M A 127

Isto ainda tendes de aprender: não ficar subm etido a nenhum a tentação, m as fazer tudo voluntaria-

m ente; então estareis livres e além do cristianism o.

Tive de reconhecer que era obrigado a m e subm eter àquilo que eu tem ia, e m ais, que devo inclusive

am ar aquilo de que tinha pavor. Isto tem os de aprender daquele santo que, ao sentir nojo dos doentes da

peste, tom ava o pus de suas feridas e notava que tinha um odor com o o das rosas. As ações dos santos não

eram em vão69.

Tu és dependente de tua alm a em todas as coisas que se referem à tua salvação e à obtenção da graça.

Por isso nenhum sacrifício pode ser pesado dem ais para ti. Se tuas virtudes te estorvam na salvação,

livra-te delas, pois se tornaram um m al para ti. Tanto o escravo da virtude quanto o escravo do vício não

encontram o cam inho70.

Se achas que és o senhor de tua alm a, torna-te seu servo; se fores seu servo, assum e o poder sobre ela,

pois então ela precisa de dom ínio. Que estes sejam teus prim eiros passos.

Dor avan t e, d u ran t e seis n oit es, o esp írit o d a p rofu n d eza se calou e m m im ,

pois eu oscilava en t re m edo, t eim osia e n ojo e er a t ot alm en t e refém de m in h a

paixão. N ã o p od ia n e m q u eria escu t ar a profu n d eza. Mas n a sét im a n oit e, o

esp írit o d a p rofu n d eza m e falou: "O l h a p ara t u a profu n d eza, r eza p ara t u a p r o -

fu n d eza, d espert a os m o r t o s"71.

Mas fiq u ei desam parado e n ão sabia o que fazer. E u olh ei p ara d en t ro de

m im e a ú n ica coisa que lá en con t r ei foi a lem b ran ça de an t igos son h os, que

an ot ei fielm en t e, n ão saben do p ara que ist o ser vir ia. E u q u er ia jogar t u d o fora

e volt ar p ara a lu z d o d ia. Mas o esp írit o m e segurou e m e obrigou a volt ar p ara

d en t ro de m im .

de t i'. E seus d iscíp u lo s o u vir a m ist o " (11,12-14). E m !944> Ju n g escr eveu : " O Cr i s t o - m e u Cr i s t o - n ã o
con h ece n e n h u m a fó r m u la d e m ald ição . Ta m b é m n ã o a p r o va a m a ld içã o d a in o ce n t e figu eir a p elo r a b i
Jesu s". "P o r q u e n ã o ad ot o a Ve r d a d e cat ó lica'?" ( O C , 18, § 1.4 6 8 ) .
6 9 O esboço co n t in u a : "Ele s p o d e m se r vir p a r a vossa r e d e n çã o " (p . 34 ) .
70 Em Assim falava Zaratustra, N ie t z sch e escr eveu : " E m e sm o q u e se t ivessem t od as as vir t u d e s, u m a , p elo
m en o s, d e ve r - se - ia d e t er: m a n d a r d o r m ir a t e m p o as p r ó p r ia s vir t u d e s". "D a s cát ed r as d a vir t u d e "
(Pet r ó p o lis: Vo z e s, 20 0 7, p. 4 4 ) . E m 1939, Ju n g co m e n t o u o co n ce it o o r ie n t a l d e lib e r t a çã o d as vir t u d e s e
vício s e m "Co m e n t á r i o ao livr o t ib et an o d a gr an d e lib e r t a çã o " ( O C , I I , § 8 2 6 ) .
71 E m 22 d e n o ve m b r o d e 1913. N o Livro Negro 2 est á escr it o: "d iz u m a vo z " (p . 22) . E m 21 d e n o ve m b r o , Ju n g
h a via feit o u m a a p r e se n t a çã o à Socied ad e Psican alít ica d e Zu r iq u e d e "Fo r m u lie r u n ge n z u r Psych ologie
des U n b e w u s s t e n " ( Fo r m u la çõ e s à p sico lo gia d o in co n scie n t e ) .
128 LI BERP RI M U S foi.ii(r)/ iii(v)

O d e se r t o
[ I H i i i ( r) ] .
Cap . iv.

72
Se xt a noite. Min h a alm a leva-m e ao deserto, ao deserto de m e u próprio
si-m esm o . Não pensava que m e u si-m e sm o fosse um deserto, um deserto seco
e quente, poeirento e sem bebida. A viagem co nduz através da are ia quente,
vadeando lentam ente, sem objetivo visível de esperança. Co m o é horrível este
deserto! Parece-m e que o cam inho leva bem longe das pessoas. An d o m e u ca-
m inho passo a passo e não sei quanto tempo vai durar m inha viagem.
Por que é um deserto m e u si-m e sm o ? Será que vivi po r demais fora de m im ,
nas pessoas e nas coisas? Por que evitei m e u si-m esm o ? Eu não me e ra caro?
Mas e u evitei o lugar de m in h a alma. Eu e ra meus pensamentos, depois que
não e ra mais as coisas e as outras pessoas. Mas e u era o m e u si-m esm o , co lo ca-
do diante de meus pensamentos. Eu devo também elevar-m e acim a de meus
pensamentos ao enco ntro de m e u próprio si-m esm o . Para lá vai m in h a viagem
e, po r isso, ela co nduz para longe das pessoas e das coisas, à solidão. Isto é so li-
dão, estar consigo mesmo? Solidão só quando o si-m e sm o é um de se rto 73. De vo
fazer do deserto um jardim ? De vo povoar um país deserto? De vo abrir o jardim
encantado do deserto? O que me leva para o deserto, e o que devo fazer lá?
Existe um a ilusão de que não posso mais confiar ao m e u pensamento? Ve rdade i-
ra é apenas a vida, e tão só a vida me leva ao deserto, realmente não m e u pensar
que gostaria de voltar para as pessoas, para as coisas, pois lhe é sinistro estar no
deserto. Min ha alma, o que devo fazer aqui? Mas a m inha alma falou-me e disse:
"Espe ra". Eu escuto a terrível palavra. Ao deserto pertence a d o r 74 .
Pelo fato de e u dar à m in ha alm a tudo o que po dia dar, cheguei ao lugar da
alm a e descobri que este lugar era um deserto quente, seco e estéril. Ne n h um a
cultura do espírito é suficiente para fazer de tua alma um jardim . Eu cuide i de

72 28 de n o ve m bro de 1913.
73 Livro Negro 2: "Eu e scuto as palavras: 'U m an aco re ta e m s e u pró prio d e s e rto 5. Vê m - m e à m e n te o s m o n ge s
d o de se rto sírio " (p. 33).
74 Livro Negro 2: "Pe n s o n o cris tian is m o n o de se rto . Aqu e le s an tigo s i am e xte rio rm e n te para o d e s e rt a Ia m
tam bé m para o de se rto de s e u pró prio s i -m e s m o ? O u s e u s i -m e s m o n ão e ra tão se co e árido qu an to o
m e u ? Lá lu tavam co m o de m ó n io . Eu lu to co m o e spe rar. Ac h o qu e n ão é m e n o r m i n h a lu ta, po is e la é n a
ve rdade u m in fe rn o qu e n t e " (p. 35).
O D ESERT O 129

m e u espírito, do espírito dessa época e m m im , mas não daquele espírito da pro -


fundeza, que se vo lta para as coisas da alma, do m undo da alma. A alm a tem seu
m undo que lhe é próprio. Ne le só e ntra o si-m esm o , o u a pessoa que se to rno u
totalmente seu si-m esm o , que, portanto, não está nas coisas, ne m nas pessoas
e ne m e m seus pensamentos. Afastando m e u desejo das coisas e das pessoas,
afastei m e u si-m e sm o das coisas e das pessoas, mas foi precisamente assim que
me to rne i presa fácil de meus pensamentos, sim e u me transform ei totalmente
em meus pensamentos.

[ 2 ] Também de meus pensamentos tive de me separar, desviando deles m e u


desejo veemente. E imediatamente percebi que m e u si-m e sm o se transformava
e m deserto, onde somente brilhava o so l dos desejos não satisfeitos. Eu fora
vencido pela esterilidade infinita desse deserto. E como po deria lá florescer
alguma coisa, se faltava a força criado ra do desejo? On d e existe a força criado ra
do desejo, ali bro ta do chão a semente que lhe é própria. Mas não te esqueças de
esperar. Nã o viste com o tua força criado ra se vo lto u para o mundo, como de -
baixo dela e através dela se m o vim entaram as coisas mortas, como cresceram e
floresceram e como teus pensamentos fluíram em ricas torrentes? Se tua força
criado ra se voltar agora para o lugar da alma, verás como tua alma vai reverde-
cer e com o seu campo produzirá frutos maravilhosos.
Ningué m pode furtar-se ao esperar, e a m aio ria não conseguirá supo rtar
esse torm ento, mas se lançarão o utra vez co m gula sobre as coisas, pessoas e
pensam entos, cujos escravos se tornarão a partir desse momento. Pois então
ficou claro que esta pessoa é incapaz de perseverar além das coisas, pessoas e
pensamentos e, po r isso, to rnam -se seus senhores, e e la se tornará seu bufão,
pois não pode ficar se m eles, n e m mesmo o tempo necessário para que sua
alm a se te nha tornado um cam po produtivo. Também aquele cuja alm a é um
jardim pre cisa das coisas, pessoas e pensam entos, mas ele é seu amigo e não
seu escravo e bufão.
Todo o futuro já existia na imagem: para enco ntrar sua alma, os antigos iam
para o de se rto 75. Isto é um a imagem. O s antigos viviam seus símbolos, pois para

75 Po r vo lta d e 28$ d . C , San to An t ã o fo i vive r co m o e re m i t a n o de se rto d o Egito , e o u tro s e re m itas o


s e gu iram , o s quais e le e Pacô m io o rgan iz aram e m co m u n id ad e . Is to co n s t i t u i a base d o m o n acato cristão ,
que se e s palh o u pe lo s de se rto s d a Pale s tin a e d a Síria. N o sé culo I V h avia m ilh are s de m o n ge s n o de se rto
d o Egito .
130 L I B E R P R I M U S foi. i i ( r ) / i i i ( v)

eles o m u n d o ain d a n ão se t orn ara real. Por isso iam para a solidão do deserto,
para en sin ar-n os que o lugar da alm a é deserto solit ário. Lá en con t ravam a
plen it u d e das visões, os frutos do deserto, as flores m aravilh osas e sin gulares da
alm a. Pen sa diligen t em en t e nas im agens que os antigos nos legaram . Elas m os-
t ram o cam in h o daquele que vem . O lh a para trás para a ru ín a dos ricos, para o
crescim en t o e a m ort e, para o deserto e os m ost eiros, são as im agens daquele
que vem . Tu d o está predito. Mas qu em sabe in t erpret á-lo?
Se dizes que o lugar da alm a n ão exist e, en t ão ele n ão existe. Mas se dizes
que ele exist e, en t ão ele existe. O b serva o que d iziam os antigos n a im agem : a
palavra é ato criador. O s antigos d iziam : n o prin cípio era a p alavr a 76 . Con sid er a
ist o e m ed it a n ele.
As palavras que oscilam en t re a t olice e o sen t ido suprem o são as m ais a n -
tigas e as m ais verdadeiras.

Exp e r iê n c ia s n o d e se r t o
[ I H iii( r ) 2 ]

77
Ap ó s duro com bate cheguei a u m ped aço de cam in h o m ais pert o de t i.
Co m o foi d u ra esta batalh a! En t r e i n u m m atagal de dúvida, con fusão e riso
irón ico. Recon h eço que devo ficar sozin h o com m in h a alm a. Eu ven h o de m ãos
vazias a t i, m in h a alm a. O que t u queres ou vir? Mas a alm a m e falou e disse:
"Q u an d o você vem a u m amigo, você vem para t irar?" Eu sei, n ão d evia ser as-
sim, mas parece-m e que sou pobre e vazio. Eu gostaria de sen t ar-m e pert o de
t i e sen t ir ao m en os o h álit o de t u a presen ça vivificad ora. Me u cam in h o é areia
quen te. Du r an t e todos os dias, estradas areen tas, poeiren t as. Min h a paciên cia
é às vezes pouca e u m a vez fiqu ei desesperado comigo, com o t u sabes.
Resp on d eu en t ão a alm a e falou: "T u falas com igo com o se fosses u m a
crian ça que se qu eixa à sua m ãe. N ã o sou t u a m ãe". N ã o quero qu eixar-m e,
mas p erm it e d izer-t e que m in h a est rada é lon ga e ch eia de poeira. T u és para
m im com o u m a árvore que dá som bra n o deserto. Go st ar ia de u su fru ir de t u a

76 Jo 1,1: "N o p r in cíp io e r a a Palavr a, e a Palavr a est ava c o m D e u s , e a Palavr a e r a D e u s".


77 11 de d e z e m b r o de 1913.
E XP E R I Ê N C I AS N O D E S E R T O 131

som bra. Mas a alm a respon deu: "T u és u m am an t e do prazer. O n d e est á t u a


paciên cia? Te u t em po ain d a n ão acabou. Esquecest e por que foste ao desert o?"
Min h a fé é fraca, m in h a face est á cega por causa do b r ilh o ofuscante do sol
do deserto. O calor pesa sobre m im com o ch um bo. A sede m e at orm en t a, e eu
n ão ouso im agin ar a duração in fin d a de m eu cam in h o e, sobretudo, n ão vejo
perspect iva dian t e de m im . Mas a alm a respon deu: "Falas com o se ain d a n ão
tivesses apren dido n ada. N ã o podes esperar? Tu d o deve cair m aduro e acabado
em t eu colo? T u estás ch eio, sim , regurgitas de in t en ções e desejos! N ã o sabes
ain d a que o cam in h o para a verdade só está aberto para os sem in t en ção?"
Eu sei, m in h a alm a, que tudo o que dizes é t am bém m eu pen sam en to. Mas
pouco vivo de acordo com isso. A alm a disse: "Com o, d iz-m e, pensas t u que
teus pen sam en tos d everiam aju dá-lo? Eu gost aria de referir-m e sem pre ao fato
de ser u m h om em , só u m ser h u m an o, que é fraco e que às vezes n ão faz o seu
m elh or. Mas a alm a falou: "Pen sas assim do ser pessoa h u m an a?" T u és d u ra,
m in h a alm a, mas ten s razão. Q u ão pouco jeit osos somos com a vid a! Dever ía-
m os crescer com o u m a árvore, que t am bém desconhece sua lei. N ó s nos am ar-
ram os com in t en ções, n ão lem brados de que a in t en ção é lim it ação e m esm o
exclusão da vid a. Acred it am os que com u m a in t en ção podem os ilu m in ar u m a
escuridão, e assim apon tam os para longe da lu z 7 8 . Co m o podem os ilu d ir -n os e
querer saber de an t em ão don de virá para n ós a luz?
Perm it e que te apresente apenas u m a queixa: eu sofro de riso irón ico, de
m eu p róp rio riso irón ico. Mas a alm a m e falou: "T u te m en osprezas?" Ach o que
não. A alm a respon deu: "En t ão escuta, t u m e m en osprezas? Ain d a n ão sabes
que n ão escreves u m livro para alim en t ar t u a vaidade, mas para que fales co-
migo? Co m o podes sofrer de riso irón ico, se falas com igo com as palavras que
eu lh e dou? Sabes ao m en os qu em eu sou? T u m e cercaste, lim it ast e e reduzist e
a u m a fórm u la m ort a? Medist e a profun didade de m eu abism o e pesquisas-
te todos os cam in h os para os quais ain d a te levarei? Ne n h u m sorriso irón ico
pode afetar-te a n ão ser que sejas presu n çoso até a m ed u la de teus ossos". Tu a
verdade é d u ra. Gost ar ia de en t regar-t e m in h a vaidade, pois ela m e ofusca. Vê ,

78 N o Co m e n t á r io de " O segred o d a flor d e o u r o " ( 19 29 ) , Ju n g cr it ico u a t e n d ê n cia o cid e n t a l de t r a n sfo r m a r


t u d o e m m é t o d o s e in t en çõ es. A lição m ais im p o r t a n t e , co n fo r m e os t ext os ch in eses e co n fo r m e o Me st r e
Eck h a r t , e r a d e ixa r qu e os aco n t ecim en t o s p síq u ico s acon t ecessem esp on t an eam en t e: " O d eixar -acon t ecer ,
o Sich-lassen, n a exp r essão de Me st r e Eck h a r t , a ação d a n ão ação fo i, p ar a m i m , u m a ch ave qu e a b r iu a p o r t a
p ar a e n t r a r n o ca m in h o : d evem os d e ixa r as coisas aco n t ecer em p siq u ica m e n t e " ( O C , 13, § 2 0 ) .
132 LI BE R P RI M U S fo i. i i i ( r) / i i i ( v)

fo i po r isso também que pe nse i que m inhas mãos estavam vazias quan do ho je
cheguei a ti. Não pe nse i que és tu que enches as mãos vazias, se elas apenas q u i -
se re m se estender, mas elas não o que re m . Não sabia que e u e ra te u re cipie nte ,
vazio se m ti, mas transbo rdante contigo.

[ 2 ] Isto e ra a m in h a 2 5 A no ite do deserto. Fo i todo este tem po que m in h a


alm a pre ciso u até te r despertado da vida de so m bra para a própria vida e te r
po dido vir ao m e u e nco ntro co m o ser separado. E e u re ce bi duras palavras dela,
mas salutares. Eu precisava ser educado, po is não conseguia ve n ce r o so rriso
iró nico de ntro de m im .
O espírito dessa época julga-se, com o todos os espíritos da época em todos os tem pos, sobrem anei-
ra esperto. Mas a sabedoria é sim ples, não só m odesta. Por isso, o esperto zom ba da sabedoria, pois a
zom baria ésua arm a. Ele usa a arm a afiada e envenenada, porque foi ferido pela sabedoria sim ples. Se
não tivesse sido ferido, não precisaria da arm a. Som ente no deserto com preendem os nossa assom brosa
fo i. iií(r) sim plicidade, m as tem os m edo de reconhecê-la. Por isso rim os dela. Mas a zom baria / não atinge a sim -
plicidade. A zom baria cai sobre o zom bador, e no deserto, onde ninguém escuta e responde,fica asfixiado
em seu próprio riso irónico.

Quanto m ais esperto fores, m ais tola é tua sim plicidade. Os totalm ente espertos são totalm ente tolos
em sua sim plicidade. Não podem os Ubertar-nos da esperteza do espírito dessa época aum entando nós
m esm os nossa esperteza, m as aceitar aquilo que m ais repugna à nossa esperteza, isto é, a sim plicidade.
Mas tam bém não querem os tornar-nos tolos artificiais sucum bindo à sim plicidade, m as ser tolos esper-
tos. Isto leva ao sentido suprem o. A esperteza em parelha com a intenção. A esperteza fascina o m undo,
a sim plicidade, porém , a alm a. Portanto fazei o voto de pobreza do espírito, para terdes parte na alm a79.

Contra isso levantou-se o riso irónico de m inha esperteza80. Muitos vão rir de m inha tolice. Mas
ninguém vai rir m ais do que eu m esm o já ri. Assim venci o riso irónico. Mas quando o tinha vencido,
estava m ais perto de m inha alm a, e ela podiafalar-m e, e logo pude ver que o deserto reverdeceu.

79 Cri s t o pregava: "Be m -ave n t u rad o s o s po bre s e m e spírito , po rqu e de le s é o re in o do s cé u s " ( Mt 5,3). N u m
ce rto n ú m e ro de co m u n id ad e s cristãs, o s m e m bro s faziam o vo to d a po bre za. Em 1934, Ju n g e scre ve u:
"D a m e s m a fo rm a que o vo to de po bre z a m ate rial, n o cristian ism o , afastava a m e n te do s be n s do m un do ,
a po bre z a e spiritu al re n u n cia às falsas rique zas d o e spírito , a fim de fugir não só do s m íse ro s re squício s de
u m gran de passado , que h o je se ch am a "Ig re ja" pro te stan te , m as tam bé m de to das as se duçõ e s d o pe rfum e
e xó tico , a fim de vo ltar a s i m e sm a, e m que à fria lu z d a co n sciê n cia, a de so lação d o m u n d o se e xpan de
até as e stre las". El e acre sce n ta que a ace itação do e stado de po bre z a e s piritu al e ra a ve rd ad e ira he ran ça do
pro te s tan tis m o ("So bre o s arqué tipo s d o in co n s cie n te co le tivo ". O C , 9/ 1, § 2 9 ) .
8 0 O esboço co n tin u a: "Tam b é m isto é u m a im ge m do s an tigo s de que eles viviam s im bo licam e n te nas co isas:
e le s re n u n ciavam à riqu e z a para, n a po bre z a vo lun tária, t o rn ar-s e participan te s de sua alm a. Po r isso tive
de co n fe ssar à m i n h a alm a m i n h a e xtre m a po bre za e n e ce ssidade . E co n t ra isso le van to u -s e o so rriso
iró n ico de m i n h a e s pe rte z a" (p. 4 7 ) .
D ESC I D A AO I N F E R N O N O F U T U R O 133

D e s c i d a ao in fe r n o n o fu t u r o
[IHiii(v)3
Cap . v.

81
Na no ite seguinte, o ar estava cheio de muitas vozes. U m a vo z forte gritou:
"Eu caio ". Outras gritavam confusas e excitadas: "Para onde? O que tu que -
res?" Eu devo co nfiar-m e a esta confusão? Eu estremeço. Isto é um a profundeza
horrível. Tu queres que eu me entregue ao arbítrio de m e u si-m esm o , à ilusão
da própria escuridão? Para onde? Para onde? Tu cais, quero cair contigo, quem
quer que sejas.
Então o espírito da profundeza abriu meus olhos, e e u observei as coisas
interio res, o m undo de m in ha alma, m ultiform e e mutável. [Im agem iii (v) I ]

Ve jo paredes de pedra sombrias, ao longo das quais desço a um a grande


pro fundidade 82 Esto u enterrado até os tornozelos num a sujeira preta diante de
um a gruta escura. Sombras pairam e m torno de m im . Assalta-m e o medo, mas
sei que devo entrar. Eu rastejo através de fendas rochosas e chego a um a gru-
ta interio r, cujo chão está coberto de água preta. Mas lá adiante enxergo um a
pedra co m brilho vermelho, que devo alcançar. Eu passo pela água lamacenta.
A caverna está che ia de um barulho ho rrendo de vozes aos grito s 83. Eu pego a
pedra; ela cobre um a abertura escura na rocha. Seguro a pedra na mão, olhando

81 12 de d e z e m bro de 1913. O esboço corrigido te m : I V O jo go do m isté rio . Pri m e i ra n o ite (p. 34) . Livro Negro 2
co n tin u a: "A lu t a do últim o te m po fo i a lu t a co n t ra o ris o iró nico . U m so n h o , que m e fo i pro po rcio n ad o
po r u m a n o ite de in só n ia e po r trê s dias de so frim e n to , co m p aro u -m e (do co m e ço ao fim ) ao farm acê utico
de Ch am o u n i x, de G. Ke lle r. Eu co n h e ço e re co n h e ço e ste e stilo . Ap re n d i que se de ve dar se u co ração
à pe sso a, o in te le cto , po ré m , ao e spírito d a h u m an id ad e , a D e u s . En tão s u a o bra po de e star alé m d a
vaidade , po is n ão e xiste pro s titu ta m ais h ipó crita do que o in te le cto , qu an do e le su bstitu i o co ração "
(p. 41). Go t t fri e d Ke l l e r ( 1819-1890 ) fo i u m e s crito r suíço . "D e r Ap o t h e k e r vo n Ch am o u n i x: Ei n Bu c h
Ro m a n z e n ". In : K E L L E R , G. Gesam m elt e Gedicht e: Erzãh lun ge n aus d e m Nach las s . Zu ri qu e , Árt e m i s Ve rlag,
1984, p- 351-417
82 O esboço co n tin u a: "D i a n t e de la e stava u m an ão to do de co uro , que guardava a e n t rad a" (p. 4 8 ) .
83 O esboço corrigido co n tin u a: "A pe dra pre cis a se r le van tada, é a pe d ra do to rm e n to , d a l u z ve rm e l h a" (p.
35). O esboço corrigido te m : "E u m cristal h e xago n al, que e m i t i a u m a lu z fria, ave rm e lh ad a" (p. 3$). Al b re ch t
D i e t e ri c h s itu a a apre se n tação d o s u bm u n d o e m As rãs, de Aris tó fan e s (que , n o e n t e n d im e n t o de le , é de
o rige m ó rfica), co m o te n do u m lago gran de e u m lugar co m co bras (Nekpa: Be itráge z u r Erklãrun g d e r
n e u e n td e ckte n Pe trusapo kalypse . Le ip z ig: Te u bn e r, 1983, p. 71). Ju n g s u b li n h o u esses m o tivo s e m s e u
e xe m plar. D i e t e ri c h faz re fe rê ncia à su a de scrição n o vam e n te n a p. 83, que Ju n g assin alo u à m arge m e
s u blin h o u "Fi n s t e rn i s u n d Sch l am m ". D i e t e ri c h tam bé m se re fe re a u m a re pre se n tação ó rfica de u m a
to rre n te de lo do n o s u bm u n d o (p. 81). N a lis ta de re fe rê ncias n o ve rso de se u e xe m plar, Ju n g an o to u "81
Sch l am m ".
134 L I B E R P R I M U S foi. iii(r)/ iii(v)

in t errogat ivam en t e ao m eu redor. N ã o quero prest ar at en ção nas vozes, elas


m e rep u gn am 8 4 . Mas eu quero saber. Aq u i algum a coisa deve t om ar a palavra.
Coloco m eu ouvido n a abert ura. O u ço o ru íd o forte de t orren t es su bt errân eas.
Vejo a cabeça san gren t a de u m a pessoa n a t orren t e escura. Est á boian do ali u m
ferido, u m assassinado. Con t em p lo lon gam en te esta im agem com h orror. Vejo
u m escaravelho grande e n egro an dan do n a t orren t e escura.
No m ais profun do da t orren t e b r ilh a u m sol averm elh ado, ilu m in an d o a
água escura. Vi en t ão — e o h or r or t om ou con t a de m im — u m em aran h ado de
cobras descendo pelas paredes escuras das pedras para a profun deza onde o sol
brilh ava com m aior intensidade. Milh ares de cobras rodearam e en cobriram o sol.
Fez-se noite completa. U m raio verm elho de sangue, sangue verm elho-escuro veio
à tona, jorrou longamente e depois secou. Eu estava paralisado de pavor. O que eu
via ? 8 5 [Im agem i i i ( v) 2 ]
Cu r a as feridas que a d ú vid a m e causa, m in h a alm a. Tam bém ist o deve ser
ven cido, para que eu con h eça t eu sen t ido suprem o. Co m o tudo est á longe, e
quão afastado estou! Meu espírit o é u m espírit o t ort u ran t e, ele d esped aça m i -
n h a visão in t erior, gost aria de desin tegrar e rasgar tudo. Ain d a sou vít im a de
m eu pensar. Q u an d o posso oferecer descanso ao m eu pensar, quan do m eus
pen sam en tos, aqueles cães danados, vão rast ejar a m eus pés? Co m o posso es-
perar algum a vez escutar em t om m ais alto t u a voz, ver m ais claram en t e tuas
m an ifest ações, se todos os m eus pen sam en tos u ivam em volt a de m im ?
Est ou perplexo, mas quero estar perplexo, pois ju r ei, m in h a alm a, con fiar
em t i, m esm o que m e con duzas através de ilusões. Co m o t orn ar-m e p ar t ici-

84 Livro Negro 2: "Es t e b u r aco escu r o - p a r a on d e leva, ist o e u q u er o saber, o qu e ele d iz ? U m o r ácu lo ? É est e
o lu gar d a Pít ia ?" (p . 4 3) .
85 Ju n g n a r r o u est e e p isó d io e m seu se m in á r io d e 1925, r e a lça n d o d iver sos d et alh es. Co m e n t o u qu e:
"Q u a n d o saí d a fan t asia, d e i- m e co n t a de qu e m e u m e ca n ism o h a via fu n cio n ad o às m i l m a r a vilh a s, m as e u
est ava m u it o con fu so q u an t o ao sen t id o d e t od as essas coisas qu e e u vir a . A lu z n a ca ve r n a de cr ist a l er a, a
m e u ver, co m o a p e d r a d a sab ed or ia. O assassin at o secr et o d o h e r ó i e u n ã o p u d e e n t e n d e r ab so lu t am en t e.
O escar avelh o e vid e n t e m e n t e e u r e co n h e ci q u e er a u m an t igo sím b o lo solar, e o sol p oen t e, o d isco
ve r m e lh o lu m in o so , e r a ar q u et íp ico . As ser p en t es p en sei qu e p o d ia m est ar ligad as a m a t e r ia l egíp cio.
N ã o p u d e d a r - m e co n t a e n t ã o de qu e t u d o e r a t ão a r q u e t íp ico qu e e u n ã o p r ecisava p r o cu r a r ligações.
Co n se gu i est ab elecer ligação e n t r e o q u ad r o e o m a r d e san gu e sob re o q u a l e u fan t asiar a a n t e r io r m e n t e . /
Em b o r a e u n ã o p u d esse n a o casião e n t e n d e r o sign ificad o d o h e r ó i assassin ad o, logo d ep ois t ive u m son h o
n o q u a l Siegfr ied e r a assassin ad o p o r m i m . E r a u m caso de d e st r u ir o id e a l d o h e r ó i de m i n h a eficiên cia.
Est e p r e cisa ser sacr ificad o a fim de se p o d er fazer u m a n o va a d a p t a çã o ; n u m a p alavr a, ist o est á ligad o
ao sacr ifício d a fu n ção su p e r io r a fim d e con segu ir a lib id o n ecessár ia p a r a a t iva r as fu n ções in fe r io r e s"
(introductíon to Jungian Psychology, p. 52s.). ( O assassin at o d e Siegfr ied o co r r e m a is ad ian t e, cap. 7) . Ju n g cit o u
t a m b é m a n o n im a m e n t e e d iscu t iu est a fan t asia e m su a p r e le çã o n a ETH a 14 de ju n h o de 1935 (Modem
Psychology. Vo l . 1 e 2, p. 223) .
D ESCI D A AO I N F ERN O N O F U T U R O 135

pan te de t eu sol, se n ão beber a am arga poção son ífera e n ão b eb ê-la até o fim ?
Aju d a-m e a n ão m e afogar n o p róp rio saber. A totalidade de m eu saber am eaça
cair sobre m im . Me u saber t em u m a m u lt id ão de falantes com voz de leão; o ar
t rem e quan do eles falam , e eu sou sua vít im a indefesa. Afast a de m im o esclare-
cim en t o in t eligen t e, a ciên cia 8 6 , aquele carcereiro m au que am arra as alm as e as
t ran ca em celas sem lu z. Mas prot ege-m e sobretudo da serpen te do ju lgam en -
to, que é u m a serpen te t erapêu t ica só d a superfície, mas em t u a profun deza é
ven en o in fer n al e m ort e cru el. Eu gost aria de descer para t u a profun deza com o
puro, com veste bran ca, e n ão chegar apressado com o u m ladrão, rou bar e fu -
gir sem fôlego. Deixa-m e perseverar n o assom bro d ivin o 8 7 , para estar p ron t o a
con t em plar tuas m aravilh as. Deixa-m e d eit ar m in h a cabeça sobre u m a pedra
dian t e de t u a port a, a fim de estar pron t o para receber t u a lu z.

[ 2 ] Q u an d o o deserto com eça a dar frut os, vai p rod u zir u m a veget ação es-
t ran h a. T u te julgarás louco e, em cert o sen tido, serás lo u co 8 8 . N a m ed id a em
que o crist ian ism o deste século sente falta da lou cu ra, sente falt a da vid a d ivin a.
O b servai p or que os antigos n os en sin aram em im agens: a lou cu ra é d ivin a 8 9 .

8 6 "A ciê n cia " est á apagad a n o esboço corrigido (p . 37) .


87 "Be m - a ve n t u r a d o " é su b st it u íd o n o esboço corrigido (p . 38 ) .
88 Es t a frase fo i su b st it u íd a n o esboço corrigido p or: "Cr e sce lo u c u r a " (p . 38 ) .
8 9 O t e m a d a lo u cu r a d ivin a t e m u m a lo n ga h ist ó r ia. Seu locus classícus fo i a d iscu ssão d e Só cr a t e s sob re
ela n o Fedro: a lo u cu r a , "d esd e qu e ve n h a co m o u m d o m d o céu , é o ca n a l at r avés d o q u a l r eceb em os as
m aio r es b ê n ç ã o s" ( P L A T Ã O . Phaedrus andLetters VII and VIII. Lo n d r e s: Pe n gu in , 19 8 6 , p. 4 6 , 24 4 [Tr a d . d e
W H a m i l t o n ] ) . Só cr at es d ist in gu iu q u at r o t ip os d e lo u cu r a d ivin a : 1) a d ivin h a çã o in sp ir a d a , co m o n a
p r o fe t iz a d e De lfo s; 2) casos e m qu e in d ivíd u o s, q u an d o an t igos p ecad os d e r a m o r ige m a p e r t u r b a çõ e s,
p r o r r o m p e r a m e m p r o fecia e in c it a r a m à o r a çã o e ao cu lt o ; 3) p o ssessão pelas Mu sas - o h o m e m d e
t écn ica n u n c a t ocad o p e la lo u cu r a das Mu sa s n u n c a ser á u m b o m p oet a; 4 ) o am an t e. N a Re n a sc e n ç a o
t e m a d a lo u cu r a d ivin a fo i r et o m ad o p elos n e o p la t ô n ico s, co m o Ficin o , e p o r h u m a n ist a s co m o Er a sm o .
A d iscu ssão d e Er a s m o é p a r t icu la r m e n t e im p o r t a n t e , p o r q u e fu n d e a co n ce p çã o p la t ó n ica clássica c o m o
cr ist ia n ism o . Pa r a Er a sm o , o cr ist ia n ism o e r a o t ip o m ais elevad o d e lo u cu r a in sp ir a d a . As s i m co m o Plat ão,
Er a s m o d ist in gu iu d o is t ip os d e lo u cu r a : "As s im , en q u an t o a a lm a u sa co r r e t a m e n t e seus ó r gã o s co r p o r ais,
u m h o m e m é ch am ad o sen sat o; m as n a ver d ad e, q u an d o ela r o m p e suas cad eias e p r o cu r a ser livr e , fu gin d o
de su a p r isão, e n t ã o ch am a-se a isso in san id ad e. Se ist o acon t ece at r avés d e d o e n ça o u d e u m a d eficiên cia
d os ó r gã o s, e n t ã o d e c o m u m acor d o é, sim p le sm e n t e , in san id ad e. E n o e n t a n t o e n co n t r a m o s t a m b é m
h o m e n s d est e t ip o p r e d iz e n d o coisas fu t u r as, co n h ecen d o lín gu as e escr it os q u e n u n c a h a via m est u d ad o
an t es - a n u n cia n d o d e m o d o ger al algo d i vi n o " (in PraíseofFolly. Lo n d r e s: Pe n gu in , 1988, p. 128-129 [Tr a d .
de M A . Scr e e ch ]) . Er a s m o acr escen t a q u e, se a in san id ad e "acon t ece at r avés d e fer vo r d ivin o , p od e n ã o
ser o m e sm o t ip o d e in sa n id a d e , m as é t ão p a r e cid a c o m ela qu e a m a io r ia das pessoas n ã o faz d ist in çã o ".
Pa r a pessoas leigas, as d u as fo r m as d e in sa n id a d e p a r e cia m ser a m e sm a coisa. A felicid ad e qu e os cr ist ãos
p r o cu r a va m "n a d a m ais e r a qu e u m ce r t o t ip o d e lo u cu r a ". O s q u e e xp e r im e n t a m ist o "e xp e r im e n t a m
algo q u e se assem elh a m u it o à lo u cu r a . Fa la m d e fo r m a in co e r e n t e e a n o r m a l, p r o fe r e m son s se m sen t id o
e seu r ost o m u d a b r u sca m e n t e d e exp r essão... d e fat o, eles est ã o ve r d a d e ir a m e n t e fo r a d e s i " ( I b i d . , p.
129-133). E m 1815, o filósofo F . W J. Sch e llin g d iscu t iu a lo u cu r a d ivin a d e u m a fo r m a qu e ap r esen t a ce r t a
p r o xim id a d e co m a an álise d e Ju n g, o b ser van d o qu e "os an t igos n ã o falar am e m vã o d e u m a lo u cu r a d ivin a
e sagrad a". Sch e llin g r e la cio n o u ist o c o m a "a u t o d ila ce r a çã o in t e r io r d a n a t u r e z a ". Su st e n t o u qu e "n a d a
136 L I B E R P R I M U S foi. iii(r)/ iii(v)

Mas porque os antigos viveram esta imagem nas coisas, tornou-se u m a ilusão
para nós, pois nós nos tornamos artífices da realidade do mundo. E indubitável:
quando penetras no mundo da alma, ficas como doido, e um médico vai julgar-te
doente. Isto que e u digo aqui pode parecer doentio. Mas ninguém m elho r do
que e u para dize r que é doentio.
As s im ve nci a loucura. Se não sabeis o que é lo ucura divina, re nunciai ao
julgamento e esperai pelos fru to s 90 . Mas se sabeis que existe um a lo ucura divi-
na, que nada mais é do que a vitória sobre o espírito dessa época pelo espírito
da profundeza, falai então de lo ucura doentia, quando o espírito da profundeza
não pode mais retroceder e obriga a pessoa a falar e m línguas e m ve z de falar
num a linguagem hum ana, e a faz cre r que ela m esm a é o espírito da profundeza.
Falai também de lo ucura do e ntia quando o espírito dessa época não abandona
um a pessoa e a obriga a ve r sempre apenas a superfície, a negar o espírito da
profundeza e co nsiderar a s i m esm a o espírito dessa época. O espírito dessa
época é não divino, o espírito da profundeza é não divino, a balança é divina.
Pelo fato de estar preso ao espírito dessa época, teve de me acontecer o que
me aconteceu nesta no ite, isto é, que o espírito da profundeza irro m pe u co m
poder e rem o veu qual o nda vio le n ta o espírito dessa época. Mas o espírito da
profundeza havia conseguido este poder pelo fato de eu, durante 2 5 noites no
deserto, te r falado à m in h a alm a e lhe te r declarado todo o m e u am o r e sub-
missão. Mas durante os 2 $ dias de dique i todo m e u am or e m in h a submissão às
coisas, às pessoas e aos pensam entos dessa época. So m ente à no ite e u ia para
o deserto.
Nisso podeis distinguir a lo ucura do entia da lo ucura divina. Q u e m faz um a
coisa e deixa de fazer a o utra pode ser chamado de doente, pois sua balança está
fora do prumo.
Qu e m , no entanto, po deria resistir ao mundo, quando é acometido pela
embriaguez e lo ucura divinas? Am o r, alma e De us são belos e assustadores. O s

de gran de po de se r re alizado s e m u m a co n s tan te te n tação d e lo u cu ra, que s e m pre de ve se r su pe rada, m as


n u n ca de ve faltar to talm e n te ". Po r u m lado , h avia e spírito s só brio s n o s quais n ão h avia n e n h u m ve stígio d e
lo u cu ra, ju n t o co m h o m e n s d e inte ligê ncia que p ro d u z i am o bras in te le ctu ais frias. Po r o u tro lado , "e xiste
u m tipo de pe sso a que d o m i n a a lo u cu ra e pre cis am e n te n e ste do m ín io co m ple to so bre e la m o s tra a m ais
alta fo rça d o in te le cto . O o u tro tipo d e pe sso a é d o m in ad o pe la lo u cu ra e é algué m que é re alm e n te lo u co "
(The Ages of t he World. Albân ia: Su n y Pre ss, 2 0 0 0 , p. 10 2-10 4 [trad. d e J. Wi rt h ] ) .
9 0 U m a aplicação d a n o ção d e re gra pragm ática d e Wi l l i a m Jam e s. Ju n g l e u o Pragm at ísm de Jam e s e m 1912,
e a o bra cau s o u u m fo rte im pacto so bre s e u pe n sam e n to . N o pre fácio às suas pre le çõ e s n a Fo rd h am
Un ive rs ity, Ju n g afirm o u que to m ara a re gra pragm ática de Jam e s co m o s e u prin cípio d i re t o r ( O C , 4, p.
9 8 ) . Cf . m e u Jung and t he MakingofModem Psychology: Th e D re a m o f a Scie n ce , p. 57-61).
D ESCI D A AO I N F E RN O N O F U T U R O 137

antigos traziam para este lado do m undo algo da beleza de De us e, po r isso, este
m undo ficou tão belo que pareceu perfeito aos olhos do espírito dessa época e
m elho r do que o seio da divindade. O assombroso e o terrível do m undo estava
sob a abertura e na profundeza de nosso coração. Quan do o espírito da pro fun-
deza se apossa de vós, havereis de se ntir a crueldade e gritar de dor. O espírito
da profundeza está grávido de ferro, fogo e homicídio. Co m razão temeis o
espírito da profundeza, pois ele está cheio de horror.
Vó s vistes nesses dias o que o espírito da profundeza abrigou. Vó s não o
acreditáveis, mas o teríeis sabido se o tivésseis perguntado ao vosso m e d o 9 1.
Sangue brilho u para m im da luz ve rm e lha do cristal e, quando o levantei
para descobrir seu segredo, ali estava diante de m im o ho rro r: n a profundeza
daquele que ve m estava o homicídio. O herói louro jazia assassinado. O escara-
velho é a m orte, que é necessária para a renovação; por isso brilhava com o brasa
atrás dele u m novo sol, o sol da profundeza, o sol enigmático, um sol da noite.
E assim co m o o sol nascente da prim avera faz reviver a te rra m o rta, também o
sol da profundeza dá vida ao morto, e surge o terrível combate entre luz e treva.
Aí ve m à to na a fonte poderosa de sangue e de há m uito não esgotada. Es ta era
o que ve m , o que agora experim entais em vosso corpo, e é ainda mais do que
isto (tive esta visão na noite de 12 de dezembro de 1913).
Profundeza e superfície devem m isturar-se para que surja nova vida, mas
a nova vida não nasce fora de nós, e sim dentro de nós. O que acontece fora
de nós nesses dias é a imagem que os povos vive m nas coisas, para deixar estas
imagens a épocas inesquecivelmente distantes, a fim de que delas aprendam
para seu próprio cam inho, assim com o aprendemos para nós das imagens que
os antigos viveram nas coisas.
A vida não ve m das coisas, mas de nós. Tudo o que acontece fora já passou.

9 1 O esboço co n tin u a: "Tã o e s tran h o m e e ra o e spírito d a pro fu n d e z a que pre cis e i de 25 n o ite s para co n se guir
e n te n dê -lo . E m e s m o e n tão m e e ra tão e s tran h o que e u n ão po d ia ve r n e m pe rgun tar. U n h a d e vi r a
m i m co m o e stran h o de lo n ge de u m lado in au dito . Ti n h a de ch am ar-m e . Eu n ão po d ia in te rro gá-lo a
se u re spe ito e de su a n atu re za. El e se an u n ciava e m vo z alta, co m o n o tu m u lto d a gu e rra c o m a gritaria
m últipla das vo ze s de ssa é po ca. O e spírito de ssa é po ca le van to u -s e d e n tro de m i m co n tra o e stran ge iro e
pro vo co u u m a gritaria de batalh a co m se us m u ito s se rvo s. Eu o u via o frago r de ssa batalh a n o s are s. Su rgiu
e n tão o e spírito d a pro fu n de za e m e co n d u z i u ao lugar d o m ais in te rio r. Mas o e spírito de ssa é po ca m e
m o s t ro u s e u ro sto de co uro , isto é: cu rtido , re sse cado e s e m vida. El e n ão po d ia i m p e d i r-m e de pe n e trar
n o s u bm u n d o e scuro do e spírito d a pro fu n de za. Co m s u rpre s a pe rce bi que m e u s pé s afun davam n a água
de l am a pre ta d o rio d a m o rt e " [ O esboço corrigido acre sce n ta: "po is lá h á m o rt e ", p. 41]. O m isté rio d o cris tal
co m b ri lh o ve rm e lh o e ra m e u pró xim o o bje tivo " ( p 54'55)-
138 LI BE R P RI M U S fol.iii(r)/ ív(v)

Por isso, quem observa de fora aquilo que acontece só vê o quejá passou e que sem pre éa m esm a coi-
sa. Mas quem olha de dentro sabe que tudo é novo. As coisas que acontecem são sem pre as m esm as. Mas
a profundeza criadora da pessoa não é sem pre a m esm a. As coisas não significam nada, só significam em
nós. Nós criam os o significado das coisas. O significado é e sem pre foi artificial; nós o criam os.
Por isso procuram os em nós m esm os o significado das coisas, afim de que o cam inho daquele / que

foi. i i i ( r ) vem possa ficar revelado e nossa vida possa continuar fluindo.

Aquilo de que precisais procede de vós m esm os, isto é, o significado das coisas. O significado das coisas

não é o sentido que lhes épróprio. Este sentido encontra-se nos livros eruditos. As coisas não têm sentido.
O significado das coisas é o cam inho da salvação por nós criado. O significado das coisas é a possibi-
lidade da vida neste m undo, criada por vós. Ele é dom ínio sobre este m undo e a afirm ação de vossa alm a
neste m undo.
Este sentido das coisas é o sentido suprem o, que não está nas coisas nem na alm a, m as o Deus que está
entre as coisas e a alm a, o m edianeiro da vida, o cam inho, aponte e a ultrapassagem 91.

Eu n ão t er ia pod id o en xergar aqu ilo que vem , se n ão o tivesse pod id o ver


em m im m esm o.
Port an t o, eu est ou en volvid o em cada assassin ato, em m im t am b ém b r ilh a
o sol d a profu n d eza con form e o qu al o assassin ato é con su m ad o; em m i m t a m -
b ém est ão as m ilh ares de serpen t es, que q u er iam en golir o sol. E u m esm o sou
assassin o e assassinado, sacrifican t e e vít im a 9 3 . D e m i m flu i a fon t e do sangue.
Vó s todos ten des p art icip ação n o assassin at o 94 . E m vós est ará o ren ascido, e
n ascerá o sol d a profu n deza, e m ilh ares de serpen tes vão desen volver-se a p ar t ir
de vossa m at éria m o r t a e cair sobre o sol p ara su focá-lo. Vosso sangue fluirá para
lá. Ist o os povos d em on st ram n os dias atuais at ravés de ações in esqu ecíveis, que
serão in scrit as com sangue em livros in esqu ecíveis p ara m em ór ia et er n a 9 5 .

9 2 O esboço co n t in u a : "M i n h a a lm a é m e u sen t id o su p r em o, m i n h a im a ge m d e D e u s , n ã o o p r ó p r io D e u s n e m


o p r ó p r io sen t id o su p r em o . O D e u s se r evela n o sen t id o su p r e m o d a co m u n id a d e d as p essoas" (p . 58 ) .
93 E m " O sím b o lo d a t r a n sfo r m a çã o n a m issa " ( 19 4 2) , Ju n g co m e n t a o m o t ivo d a id e n t id a d e d o sacr ificad or
e d o sacrificad o, c o m esp ecial r e fe r ên cia às visõ e s d e Zó z i m o d e Pa n ó p o lis, u m filósofo d a n a t u r e z a e
a lq u im ist a d o sécu lo I I I d . C. Ju n g ob ser vou : " O q u e e u o fe r e ço é m i n h a p r e t e n sã o egoica, n a q u a l e u
m e sm o m e en t rego. Ca d a sacr ifício é p o r isso m ais o u m e n o s u m a u t o ssa cr ifício " ( vo l. X I I I ) , Cf. t a m b é m
o Ka t h a U p a n ixa d e , ca p ít u lo 2, ver so 19. Ju n g cit o u os d ois ver sos segu in t es d o Ka t h a U p a n ixa d e sob re
a n a t u r e z a d o si-m e sm o e m 1921 ( O C , 6, § 329 ) . À m a r ge m d o e xe m p la r d e Ju n g h á u m a lin h a t r açad a
ju n t o a esses versos e m Livros sagrados do Oriente, vo l. X V , p t . 2, p. I I . E m "So n h o s", Ju n g o b se r vo u e m co n e xã o
c o m u m son h o: "M i n h a in t e n sa r elação in co n scie n t e c o m a í n d i a n o Li vr o Ve r m e lh o " (p . 9 ) .
9 4 Ju n g e la b o r o u o t e m a d a cu lp a co le t iva e m "D e p o is d a ca t á st r o fe " ( 19 45) ( O C , 10 ) .
95 Re fe r ê n cia aos a co n t e cim e n t o s d a P r i m e i r a Gu e r r a M u n d ia l. N o o u t o n o d e 1914 ( q u a n d o Ju n g escr eveu
est a seção d a "cam ad a d o is") h ou ve a b a t a lh a d o M a r n e e a p r im e ir a b a t a lh a d e Yp r e s.
D ESCI D A AO I N F ERN O N O F U T U R O 139

Mas quando, eu vos pergun to, as pessoas vão atacar seus irm ãos com a força
das arm as e ações sangrentas? Fazem isso quan do n ão sabem que seus irm ãos
são elas m esm as. Elas m esm as são ofertan tes, mas se prest am m u t u am en t e o
serviço da oferta. Elas todas t êm de ofert ar-se, pois ain d a n ão chegou o t em po
em que a pessoa volt a con t ra si m esm a a faca do sangue para sacrificar aquele
que ele m at a em seu irm ão. Mas qu em as pessoas m atam ? Elas m at am os n o-
bres, os bravos, os h eróis. São a estes que visam , mas n ão sabem que com estes
sign ificam a si próprias. Elas d everiam sacrificar o h erói d en t ro de si m esm as,
m as, com o n ão o sabem , m at am seu bravo irm ão.
O t em po ain d a n ão está m aduro. Mas através desse sacrifício de sangue
deve am adurecer. En q u an t o for possível m at ar o irm ão em vez de a si m esm a, o
tem po n ão est á m aduro. Precisam acon tecer coisas t erríveis até que as pessoas
am ad u reçam . De ou t ro m odo, a pessoa n ão ficará m adu ra. Eis a razão por que
tudo isso, que acontece em nossos dias, deve ser assim , para que a ren ovação
possa vir. Pois a fon te de sangue que segue ao en cobrim en t o do sol é t am bém
a fonte da n ova vid a 9 6 .
Assim com o se apresen t am para vós os destin os dos povos nas coisas, da
m esm a form a acon t ecerá em vossos corações. Se o h erói est iver assassinado
em vós, en t ão nasce para vós o sol da profun deza, brilh an d o de longe e de lugar
in audit o. Mas im ed iat am en t e vai reviver em vós tudo o que parecia m ort o até
agora e se t ran sform ará em serpen tes ven en osas que qu erem en cobrir o sol,
e vós caireis n a n oit e e n a con fusão. Vosso sangue jorrará das m u it as feridas
desse com bate h orrível. Vosso pavor e vosso desespero serão grandes, mas des-
se sofrim en t o n ascerá a n ova vid a. Nascim en t o é sangue e sofrim en t o. Vossa
escuridão que vós n ão pressen tistes, porque estava m ort a, vai reviver e sen t ireis
a pressão do t ot alm en t e m au e con t rário à vid a, que ain d a agora jaz sepulto
n a m at éria de vosso corpo. Mas as serpen tes são pen sam en tos e sen t im en t os
in crivelm en t e m aus.
Pen sáveis que con h ecíeis aquele abism o? Ó vós, in t eligen t es! É ou t ra coisa
vivê-lo experim en t alm en t e. Tu d o virá a vós. Pen sai em todos os h orrores e d ia-

9 6 E m su a p r e le çã o n a ETH a 14 d e ju n h o d e 1935, Ju n g c o m e n t o u ( p a r cia lm e n t e e m r efe r ê n cia a est a


fan t asia, a q u e ele se r e fe r iu a n o n im a m e n t e ) : " O m o t ivo d o sol ap arece e m m u it o s lu gares e ép o ca s e o
sen t id o é sem p r e o m e sm o - qu e n asceu u m a n o va co n sciên cia. E a lu z d a ilu m in a çã o qu e é p r o je t a d a n o
esp aço. E u m a co n t e cim e n t o p sico ló gico ; o t e r m o m é d ico 'a lu cin a çã o ' n ã o faz se n t id o e m p sicologia. / A
cat áb ase d e se m p e n h a u m p ap el m u it o im p o r t a n t e n a Id ad e M é d i a e os an t igos m est r es co n ce b ia m o sol
n ascen t e n e st a cat áb ase co m o u m a n o va lu z , a ' lu x m o d e r n a ', a jo ia , o lá p is" (Modem Psychology, p. 231).
140 LI BERP RI M U S foi.iii(r)/ iv(v)

bólicas atrocidades que as pessoas causaram a seus irmãos. Isto deve chegar a
vós e m vossos corações. So fre i-o e m vós mesmos através de vossa própria mão
e sabei que é vossa mão infame e demoníaca que vos causa o sofrimento, mas
não vosso irmão, que luta co m seus próprios de m ó n io s 97.
Eu gostaria que vísseis o que significa o herói assassinado. Aquelas pessoas
anónimas, que m atam príncipes e m nossos dias, são profetas cegos, que re pre -
sentam nas coisas o que só vale para a al m a 9 8 . Através do assassinato de prín-
cipes ficais sabendo que o príncipe, o herói e m nós, está am e açado 99 . Se deve
parecer um bo m o u m au sinal, não nos vamos preocupar co m isso. O que hoje
é ruim , e m cem anos será bo m e e m duzentos, novamente ruim . Mas temos
de reconhecer o que acontece: existem anónimos e m vó s que ameaçam vossos
príncipes, o legítimo soberano.
Mas nosso soberano é o espírito dessa época, que e m nós tudo co m anda e
dirige, é o espírito universal no qual hoje pensamos e agimos. Ele detém u m po -
der extraordinário, pois trouxe a este m undo bens incomensuráveis e cativou as
pessoas co m delícias inacreditáveis. Está adornado co m as mais belas e heróicas
virtudes e gostaria de fazer subir a hum anidade a um a altura brilhante do so l,
num a subida i n au d i t a 10 0 .
O herói quer desdobrar tudo o que pode. Mas o espírito anónimo da pro -
fundeza co nduz para cim a tudo o que a pessoa não pode. O não poder pre judi-
ca a ulte rio r subida. Mais altura exige m aio r virtude. Não a possuímos. Tem os
de prim e iro criá-la, aprendendo a viver co m nosso não poder. A ele temos de
dar vida, pois como po deria evo luir para o po der senão assim?

97 O esboço co n tin u a: "Se i , m e u s am igo s, que e s to u falan do aqu i e m e n igm as. Mas o e spírito d a pro fu n de za
m e fe z ve r m u itas co isas p ara aju dar o m e u e n te n d im e n to . D e s e jo co n t ar-vo s ain d a m ais co isas d e m in h as
visõ e s, a fim de e n te n d e rd e s m e l h o r as co isas que o e spírito d a pro fu n de za go staria que vó s vísse is. Fe l i z d e
qu e m po de ve r essas co isas! Q u e m n ão as vê de ve vivê -las co m o d e s tin o cego, e m i m age m " (p. 61).
9 8 Em "O e u e o i n co n s ci e n t e " ( 1927) , Ju n g se re fe re ao s e le m e n to s in dividu ais que cae m n o in co n s cie n te ,
o n d e ge ralm e n te se tran s fo rm am e m algo de e s s e n cialm e n te pe rn icio s o , de s tru tivo e anárquico . N o
aspe cto so cial, e ste prin cípio n e gativo se m an ife s ta atravé s de crim e s e spe taculare s co m o re gicídio s,
pe rpe trado s p o r in divíduo s de pre dispo sição pro fé tica" ( O C , 7, § 24 0 ) .
9 9 As s as s in ato s po lítico s e ram fre que n te s n o in ício do sé culo X X . O fato e spe cífico a que se alu de aqu i é o
se guin te : a 28 de ju n h o de 1914, o arqu id u qu e Fran z Fe rd i n an d , h e rd e iro d o im pé rio austro -h ún garo , fo i
assassin ado po r Gavri l o Prin cip, u m e studan te sé rvio de 19 an o s. Ma rt i n Gi l b e rt de scre ve e ste fato, que
d e s e m pe n h o u u m pape l de cis ivo n o s aco n te cim e n to s que le varam à e clo são d a Pri m e i ra Gu e rra Mu n d i al ,
co m o "u m m o m e n t o crítico n a histó ria d o sé culo X X ". A Hist oryoft he Twent iet h Cent ury - Vo l u m e O n e :
190 0 -1933. Lo n d re s : Wi l l i a m Mo rro w, p. 30 8.
10 0 O esboço co n tin u a: "Q u a n d o e u aspirava ao m e u m ai o r po d e r n o m u n d o , e n vi o u -m e o e spírito d a
pro fu n d e z a pe n s am e n to s an ó n im o s e visõ e s que apagaram o que t e n d ia para cim a, o que , n o s e n t i r de ssa
é po ca, e ra o h e ró ico e m m i m " (p. 6 2) .
D I VI SÃO D O E SP Í RI T O 141

Não podemos m atar nosso não poder e elevar-no s acim a disto. Mas era
exatamente o que queríamos. O não poder virá sobre nós e vai exigir sua parte
n a vida. Nó s nos perderemos e m nosso poder e haveremos de acreditar no se n -
tido do espírito dessa época de que é um a perda. Mas não é um a perda, e sim
u m ganho, não e m bens exteriores, mas e m capacidade interior.
Q u e m aprende a viver co m seu não poder aprendeu muito. Isto nos levará
a valorizar as menores coisas e a um a sábia limitação, que é exigida pela altura
maior. Quan do todo o heróico estiver apagado, caímos de vo lta n a indigência do
humano e e m coisa ainda pior. Nossos fundamentos mais profundos entram e m
agitação, pois nossa m aio r tensão, que corresponde ao fora de nós, vai excitá-las.
Caire m o s no lodaçal e nosso submundo, no lixo de todos os séculos e m n ó s 10 1.
O heróico e m ti é que és comandado pelo pensamento de que isto o u aquilo
seja o be m , que esta o u aquela o bra seja indispensável, que esta o u aquela co isa
seja rejeitável, que este o u aquele objetivo deva ser alcançado pelo trabalho am -
bicio nado lá adiante, que este o u aquele prazer deva ser re prim ido po r todos os
meios e inexoravelmente. Co m isso pecas co ntra o não poder. Mas o não poder
existe. Ningué m deve negá-lo, criticá-lo o u levantar a vo z co ntra e l e 10 2 .

D ivis ã o d o e sp ír it o
[IH i v( r) ]
Cap. vi.

Mas n a quarta no ite e u gritei: "D e s ce r ao infe rno é o mesmo que to rnar-se
i n fe rn o "10 3. Tudo está terrivelm ente confuso e emaranhado. Ne ste cam inho do

101 O esboço co n tin u a: "Tu d o o que e sque ce m o s se to rn ará n o vam e n te vivo e m n ó s, to d a paixão h u m an a e
d ivin a, as ne gras se rpe n te s e o s o l ave rm e lh ado d a pro fu n d e z a" (p. 6 4 ) .
10 2 A 9 d e ju n h o de 1917 h o u ve u m de bate so bre a psico lo gia d a gu e rra m u n d i al n a As s o ciação de Psico lo gia
An alítica, apó s u m a apre se n tação fe ita p o r Vo d o z so bre "D a s Ro l an d l i e d ". Ju n g argu m e n to u que "p o d e -
se h ipo te ticam e n te co lo car a gu e rra m u n d i al n o níve l d o suje ito . Tam bé m n o s de talh e s o prin cípio
auto ritário ( o agir m o vid o po r prin cípio s) e o prin cípio in s tin tivo e stão e m co ntradição . O in co n s cie n te
co le tivo alia-s e ao in s t in t ivo ". A re spe ito d o h e ró i, e le disse : "O h e ró i — a figura am ada d o po vo , de ve
cair. To d o s o s he ró is s u cu m b e m po r s i, qu an d o d ifu n d e m e m ce rt a m e d i d a a atitu de de h e ró i e c o m isso
fracassam" (MPA, vo l. 2, p. 10 ). A in te rpre tação psico ló gica d a Pri m e i ra Gu e rra Mu n d i al n o níve l subje tivo
de scre ve o qu e é de se n vo lvido n e ste capítulo . A co n e xão e n tre psico lo gia in d ivid u al e co le tiva que e le
articu la aqu i co n s titu i u m do s leit m ot ívs d e s u a o bra po s te rio r (cf. Present eejút uro, 1957. O C , 10 / 1).
103 Em Além do berne do m al, Ni e t z s ch e e scre ve u: "Q u e m lu t a c o m m o n s tro s de ve te r cu idado para n ão se to rn ar
u m m o n stro . E se o lh as d e m o rad am e n te u m abism o , o abism o o lh a para d e n t ro de t i " (Pe tró po lis: Vo z e s ,
20 0 9 , § 146).
142 L I B E R P R I M U S foi. iii(r)/ iv(v)

d e s e r t o n ão h á a p e n a s a r e i a e sca ld a n t e , m a s e xi s t e m t a m b é m co isa s in vis íve is ,

assust adoram en t e en volven t es, que h ab it am o deserto. Ist o eu n ão sabia. O


cam in h o só é aparen t em en t e livr e, o desert o é só aparen t em en t e vazio. Parece
estar h abit ado por seres en feit içad os que m e at acam com in t en ções assassinas
e t ran sform am em aspecto d aim on íaco m in h a face. Eu assu m i provavelm en t e
u m a form a h orren d a, n a qu al já n ão m e posso recon h ecer. Parece que sou u m a
figura m on st ru osa de an im al, pela qu al t roqu ei m eu ser h u m an o. Est e ca m i-
n h o est á cercado de m agia in fer n al; laços in visíveis foram at irados sobre m im
e m e am arram .
Mas o espírit o da profun deza aproxim ou -se de m im e falou: "Desce para
tua profun deza, afun da-te". Eu , p orém , m e revolt ei con t ra ele e falei: "Co m o
posso afun dar-m e? Sou in capaz de fazer isso com igo".
En t ão o espírit o m e d ir igiu palavras que m e pareceram ridículas, e ele disse:
"Sen t a-t e e descansa".
Mas eu grit ei revoltado: "Assustador, ist o soa com o t olice, exiges t am bém
isto de m im ? T u derrubas deuses que são poderosos e que sign ificam o m áxim o
para n ós. Min h a alm a, onde estás? Con fiei-m e a u m an im al im b ecil, cam baleio
qual b êb ad o ao en con t ro da sarjet a, falo coisas sem n exo com o u m doido? É
este o t eu cam in h o, m in h a alm a? O sangue m e ferve, e eu gost aria de est ran gu -
lar-t e se te pudesse agarrar. T u teces as trevas m ais densas, e eu fico preso com o
u m louco em t u a rede. Mas eu quero, en sin a-m e".
Mas a alm a falou-m e e disse: "Me u cam in h o é lu z".
Eu , p orém , respon d i irrit ad o: "T u cham as lu z aquilo que n ós seres h um an os
ch am am os as piores trevas? T u cham as o d ia de n oit e?"
A ist o m in h a alm a falou palavras que m e ir r it ar am : "Min h a lu z n ão é deste
m u n d o".
Eu exclam ei: "N ã o sei n ada daquele ou t ro m u n d o".
A alm a respon deu: "N ã o deve ele exist ir, só porque n ada sabes dele?" Eu : " E
nosso saber? Tam bém nosso saber n ada vale para ti? O que deve exist ir, se n ão
h á saber? O n d e h á certeza? O n d e t erren o firm e? O n d e luz? Tuas trevas n ão são
apenas m ais negras que a n oit e, mas t am bém sem fundo. Se o saber n ão deve
exist ir, en t ão, qu em sabe, t am bém n ão lin guagem e palavras?"
A alm a: "Tam b ém n en h u m a palavra".
D I VI SÃO D O E SP Í RI T O 143

Eu : "Perd ão, talvez eu ouça m al, t alvez te in t erpret e m al, t alvez eu m e deixe
seduzir por m in h as próprias m en t iras e m acaquices, talvez fazendo u m a caret a
para m im em m eu espelho, talvez u m louco em m eu p róp rio m an icôm io. Talvez
tropeces em m in h a d em ên cia?"
A alm a: "T u te enganas, a m im n ão m en tes. Tuas palavras são m en t iras para
t i, n ão para m im ".
Eu : "Mas pod eria eu revolver-m e n u m a fu riosa t olice, t ram ar o absurdo, a
estupidez perversa?"
A alm a: "Q u e m te d á pen sam en tos e palavra? T u os crias? N ã o és m eu servo,
u m recebedor, que está deitado d ian t e da m in h a p ort a e recolh e m in h a esmola?
E t u ousas pen sar que aquilo que im agin as e falas pod eria ser tolice? N ã o sabes
que ist o p rovém de m im e m e pert en ce?"
Mas eu exclam ei ch eio de raiva: "En t ão t am bém m in h a revolt a deve vir de
t i, en t ão t u te revoltas em m im con t ra t i m esm a". A isso, a alm a falou as palavras
am bíguas: "Ist o é gu erra c i vi l " 10 4 .
Fu i acom etido de dor e raiva, e respon di: "Q u e com éd ia e len ga-len ga! -
mas eu quero. Eu t am bém posso rast ejar pela lam a, o ban al m ais odiado. Posso
t am bém com er p ó, ist o pert en ce ao in fern o. N ã o vou retroceder, eu resisto.
Q u er eis con t in u ar im agin an do t orm en t os, m on st ros com pern as de aran h a,
m on st ros teatrais h orríveis - ridícu los. Para fren t e, est ou preparado. Prep ara-
do, m in h a alm a, que és u m d em ón io, a lu t ar t am b ém contigo. T u colocas u m a
m áscara de Deu s, e eu te ven ero. Dep ois colocas u m a m áscara de d em ón io, ai,
u m a m áscara h orrível, a do ban al, do et ern o m ed íocre. Só u m a van tagem ! Per-
m it e que volt e u m pouco para trás e reflit a! Vale a pen a a lu t a com esta m áscara?
Vale a pen a a ven eração da m áscara de Deu s? Eu n ão posso, arde-m e nas ju n t as
a von t ade de lutar. Nã o , n ão ven cid o posso sair do cam po de batalh a. Q u er o
pegar-te, esm agar-te, palh aço, macaco. Ai , a lu t a é desigual, m in h as m ãos agar-
ram o ar. Mas teus golpes t am bém são ar e eu percebo, são farsas".

Est o u n ovam en t e n o cam in h o do deserto. Fo i u m a visão do deserto, u m a


visão dos solit ários que p ercorrem a lon ga estrada. Nela est ão à espreit a assal-
tan tes in visíveis e assassinos t raiçoeiros que at iram projét eis en ven en ados. A
seta m ort ífera está cravada em m eu coração?

10 4 Livro Negro 2: "És n e u r ó t ico ? N ó s som os n e u r ó t ico s?" (p . 53).


144 L I B E R P R I M U S foi. i v( r ) / i v( v)

[ 2 ] Co m o a p r im eir a visão m e h avia dit o, o assassino t raiçoeiro saiu da p r o-


fun deza e veio para cim a de m im , assim , com o n o dest in o dos povos dessa ép o -
ca, avan çou u m an ón im o e levan t ou a ar m a assassina con t ra o p r ín cip e 10 5 .
Eu m e sen t i t ran sform ado n u m a fera im pet uosa. Meu coração fervia de r a i-
va con t ra o elevado e amado, con t ra m eu prín cipe e h erói, assim com o o an ó-
n im o do povo, im p elid o por seu in st in t o assassino, lan çou -se sobre seu querido
prín cipe.
Pelo fato de eu t razer o assassinato d en t ro de m im , eu o p r e vi 10 6 . Pelo fato
de eu t razer a gu erra em m im , eu a previ. Sen t i-m e enganado e alvo de m en t ir a
por part e de m eu rei. Por que m e sen t i assim ? Ele n ão era aquilo que eu qu eria
que ele fosse. Ele dava ou t ra coisa do que eu esperava. Ele d evia ser r ei n o m eu
sen t ido e n ão n o seu sen tido. Ele d evia ser o que eu ch am ava de id eal. Min h a
alm a m e parecia oca, in sossa e in sign ifican t e. Mas o que eu pensava, referia-se
n a verdade a m eu id eal,
foi. iv(r ) Er a u m a / visão do deserto, eu lu t ava con t ra m in h as próprias im agens r e-
Av( v)

fletidas em espelho. H a via gu erra civil d en t ro de m im . Eu era m eu p róp rio


assassino e o p róp rio assassinado. A seta m or t al estava gravada em m eu coração,
e eu n ão sabia o que ela d everia sign ificar. Meus pen sam en tos eram h om icíd io
e pavor m or t al que se espalhava com o ven en o em t oda a part e de m eu corpo. E
assim era o dest in o dos povos: o assassinato de u m era a seta en ven en ada que
voava ao coração da pessoa e atiçava a gu erra m ais violen t a. Est e assassinato é
a revolt a do n ão poder con t ra o querer, u m a t raição de Judas que gost aríam os
tivesse sido com et id a por o u t r o 10 7 . N ó s procuram os sem pre ain d a o bode que
deve carregar os nossos p ecad os 10 8 .

105 Ve r n o t a 9 9 , p. 140.
10 6 O esboço co n t in u a : "Me u s am igos, se so u b ésseis a p r o fu n d e z a qu e o fu t u r o car r ega e m vó s! Q u e m d esce
p a r a su a p r ó p r ia p r o fu n d e z a co n t e m p la aq u ilo qu e ve m " (p . 7 0 ) .
107 O esboço co n t in u a : "Ass im co m o Ju d as fo i u m elo n ecessá r io n a co r r e n t e d a o b r a d a salvação, t a m b é m
n ossa t r aição de Ju d as c o m r elação ao h e r ó i é u m a p assagem n ecessár ia p a r a a salvação " ( p . 71). E m
Transform ações esím bolos da libido ( 19 12) , Ju n g d iscu t e o p o n t o d e vist a d o abad e O egger n a h ist ó r ia de An a t o le
Fr a n ce , e m O jardim de Epicuro, qu e su st en t ava qu e D e u s t in h a esco lh id o Ju d as co m o u m in s t r u m e n t o p a r a
co m p le t a r a o b r a r e d e n t o r a de Cr i s t o ( O C , B, § 52) .
108 C f L v 16,7-10: "To m a n d o d ep ois os d ois b od es, ele os a p r e se n t a r á d ia n t e d o Se n h o r à e n t r a d a d a t en d a
d e r eu n ião. D e p o is Aa r ã o la n ça r á as sort es sob re os d ois b od es, u m a p a r a o Se n h o r e o u t r a p a r a Az a z e l.
Aa r ã o o fe r e ce r á o b od e qu e cou be p o r sor t e ao Sen h or , fazen d o u m sacr ifício p elo pecado. Q u a n t o ao
b od e qu e t o co u p o r sor t e a Az a z e l, ser á ap r esen t ad o vivo d ia n t e d o Sen h or , p a r a fazer a e xp ia çã o e m a n d á -
lo ao d esert o, p a r a Az a z e l".
ASSASSI N AT O D O H E R Ó I 145

Tudo o que fica velho dem ais torna-se um m al portanto tam bém o vosso m ais elevado. Aprendei isso
dos sofrim entos de Deus crucificado que épossível tam bém trair e crucificar um Deus, isto é, o Deus do
ano velho. Quando um Deus deixa de ser o cam inho da vida, então precisa dim inuir discretam ente109.
O Deus fica doente quando ultrapassa a altura do zénite. Por isso arrebatou-m e o espírito da pro-
fundeza quando o espírito dessa época m e havia conduzido para a altura110.

Assa ssin a t o d o h e r ó i
[IH iv(v)]m
Cap . vii.

N a n oit e seguinte, con tudo, t ive u m a visã o 112 : eu estava n u m a m on t an h a


alt a com u m adolescente. Er a antes d a aurora, o céu n o lado leste já estava
claro. Soou en t ão sobre as m on t an h as a t rom p a de Siegfried em t om fest ivo 113.
Sabíam os que nosso in im igo m or t al estava chegando. Est ávam os arm ados e
em boscados n u m est reit o cam in h o de pedras, com a fin alidade de m at á-lo. D e
repen t e, apareceu ao longe, vin d o do cum e d a m on t an h a n u m carro feito de
ossos de pessoas falecidas. Desceu com m u it a dest reza e glorioso pelo flanco
rochoso e chegou ao cam in h o est reit o onde o esperávam os escon didos. Ao su r-
gir n u m a cu rva do cam in h o, at iram os con t ra ele, e ele caiu m ort alm en t e ferido.
Em seguida preparei-m e para fugir, e u m a ch u va violen t a desabou. D e p o is 114
passei p or u m t orm en t o m or t al e eu sen t i com o cert o que eu m esm o d everia
m e m atar, se n ão conseguisse resolver o en igm a do assassinato do h e r ó i 115 .

109 O «foço co n t in u a : "ist o n os e n sin a r a m os an t igos" (p . 72).


n o O esboço co n t in u a : "Q u e m va i p a r a o d eser t o va i e xp e r im e n t a r t u d o o qu e p er t en ce ao d esert o. Ist o t u d o
n os d e scr e ve r a m os an t igos. D e le s p o d em o s ap r en d er . Ab r i os livr o s an t igos e a p r e n d e i o qu e vir á a vó s n a
solid ão. Tu d o vos ser á d oad o e n a d a eco n o m izad o , a gr aça e o so fr im e n t o " (p . 72).
111 Re fe r ê n cia à la m e n t a çã o p e la m o r t e d o h e r ó i.
112 18 d e d e z e m b r o d e 1913. N o livr o Negro 2, Ju n g ob ser vou : "A n o it e segu in t e fo i p avor osa. E u aco r d ei logo
d e u m so n h o t e r r íve l" (p . 56). O esboço d iz: "s u b iu d a p r o fu n d e z a u m a visã o im p r e ssio n a n t e " (p . 73).
113 Siegfr ied fo i u m p r ín cip e h e r ó ico qu e ap arece n as an t igas ep op eias ge r m â n ica s e n ó r d icas. N a Canção dos
ntbelungos, d o sécu lo X I I , é d escr it o d a segu in t e m a n e ir a : " E c o m q u an t o gar b o Siegfr ied cavalgava! Tr a z i a
u m a gr an d e lan ça, d e h ast e grossa e p o n t a larga; su a b ela esp ad a ch egava at é aos calcan h ar es; e a vist o sa
co r n e t a q u e est e sen h o r car r egava er a fe it a d o o u r o m ais b r ilh a n t e " ( Lo n d r e s: Pe n gu in , 2004, p. 129 [Tr a d .
de A . H a t t o ] ) . N a Canção dos nibelungos, su a esp osa Br u n i l d a é le va d a p o r a r t im a n h a s a r evelar o ú n ico lu gar
on d e ele p o d e r ia ser fer id o e m o r t o . W a gn e r r eelab o r o u est a ep o p eia e m O aneldonibelungo. E m 1912, e m
Transform ações e sím bolos da libido, Ju n g ap r esen t o u u m a in t e r p r e t a çã o p sico ló gica d e Siegfr ied co m o sím b o lo d a
lib id o , cit a n d o p r in cip a lm e n t e o lib r e t o d o Siegfried d e W a gn e r ( O C , B, § 568S.).
114 O esboço co n t in u a : "D e p o is d est a visã o " (p . 73).
115 N o Livro Negro 2, Ju n g a n o t o u : "Su b i c o m facilid ad e u m ca m in h o in a cr e d it a ve lm e n t e ín gr e m e e d ep ois
a ju d e i m i n h a esposa, q u e segu ia d evagar, a su b ir t a m b é m . Algu m a s pessoas ca ço a va m d e n ó s, m as a ch e i
146 L I B E R P R I M U S foi. i v( r ) / i v( v)

Ve i o e n t ã o ao m e u e n c o n t r o o e s p ír it o d a p r o fu n d e z a e d isse a fr ase:
"A verdade m aior é u m a e a m esm a que o absurdo". Est a frase m e aliviou ,
e com o u m a ch u va após longo t em po de calor veio abaixo com força em m im
tudo o que estava ten so dem ais.
Tive en t ão u m a segunda visã o 116 : V i u m jard im m aravilhoso, nele cam in h avam
figuras vestidas de seda bran ca, todas envoltas em capas brilh an t es e coloridas,
algumas eram avermelhadas, outras azuladas e esverdeadas 117. [Im agem iv( v) ]

Eu sei que passei por cim a e além da profundeza. At ravés da culpa, t orn ei-m e
u m r en ascid o 118 .

[ 2 ] N ó s t am bém vivem os em nossos son hos, n ão vivem os só de dia. Às ve-


zes executam os nossos m aiores feitos n o so n h o 119 .
Naquela n oit e, m in h a vid a estava am eaçada, pois eu t in h a de m at ar m eu
sen h or e Deu s, n ão n u m duelo aberto; pois qu em dos m ort ais pod eria m at ar

b o m , p ois in d ica va qu e n ã o sab iam qu e e u h a via m at ad o o h e r ó i" (p . 57) . Ju n g co n t o u n o va m e n t e est e


son h o n o se m in á r io de 1925, acen t u an d o d iver sos d et alh es. An t e p ô s - lh e as segu in t es o b se r va çõ e s:
"Siegfr ied n ã o m e er a u m a figu r a esp ecialm en t e sim p á t ica e n ã o sei p o r qu e m e u in co n scie n t e fico u
ab so r vid o p o r ele. O Siegfr ied de W agn er , d e m o d o esp ecial, é exager ad am en t e e xt r o ve r t id o e às vezes
efet ivam en t e r id ícu lo. N u n c a gost ei d ele. N o en t an t o , o so n h o m o st r o u qu e ele e r a m e u h e r ó i. N ã o p u d e
e n t e n d e r a for t e e m o ç ã o qu e t ive c o m o so n h o ". Ap ó s n a r r a r o son h o, Ju n g co n clu iu : "Se n t i u m a im e n sa
co m p a ixã o p o r ele [Sie gfr ie d ], co m o se e u p r ó p r io t ivesse sid o at in gid o. D e vo , p o r t an t o , t er t id o u m h e r ó i
qu e e u n ã o ap r eciava, e fo i m e u id e a l d e for ça e eficiên cia qu e e u m a t e i. E u h a via m at ad o m e u in t elect o,
aju d ad o a fazê-lo p o r u m a p e r so n ifica çã o d o in co n scie n t e colet ivo, o h o m e n z in h o t r igu eir o com igo. E m
ou t r as p alavras, d e st it u í m i n h a fu n ção su p erior... A ch u va qu e ca iu é u m sím b o lo d a lib e r a çã o d a t en são ;
ou seja, as forças d o in co n scie n t e est ão lib er ad as. Q u a n d o ist o acon t ece, p r o d u z -se o se n t im e n t o de alívio.
O cr im e é exp iad o, p or q u e, logo qu e a fu n ção p r in cip a l é d est it u íd a, exist e u m a ch an ce de ou t r as facet as
d a p er son alid ad e a flo r a r e m " (introductíon to Jungian Psychology, p. 6 1- 6 2) . N o Livro Negro 2, e e m su as a n o t a çõ e s
p o st er io r es sobre est e so n h o e m Mem órias (p . 215), Ju n g d isse t er sen t id o qu e p r e cisa r ia m a t a r -se a si
m esm o , caso n ã o con segu isse r esolver est e en igm a.

116 O esboço co n t in u a : "caí d e n o vo n o son o. T i v e u m a gr an d e visã o " (p . 73- 74 ) .


117 O esboço co n t in u a : "Essa s lu zes p e n e t r a r a m e m m i m e sp ir it u a l e sen sivelm en t e. E n o va m e n t e caí n o son o
co m o u m con valescen t e" (p . 74 ) . Ju n g r e co n t o u est e son h o a An i e l a Jaffé e co m e n t o u qu e d ep ois de t er sid o
con fr on t ad o co m a som b r a, com o n o son h o de Siegfried , est e son h o exp r essou a id e ia de qu e ele er a u m a
coisa e o u t r a coisa ao m esm o t em po. O in con scien t e alcan ça p ar a além d a pessoa, à sem elh an ça de u m a a u r a
de san t o. A so m b r a e r a sem elh an t e à esfera co lo r id a d e lu z qu e r o d eava as pessoas. El e p e n so u qu e se
t r at ava de u m a visã o d o a lé m , on d e as pessoas são co m p let as ( M P , p. 170 ) .
118 O esboço co n t in u a : " O m u n d o in t e r m é d io é u m m u n d o das coisas m a is sim p les. N ã o é u m m u n d o d a
in t e n çã o e d o d ever -ser , m as u m m u n d o d o t alvez, c o m p ossib ilid ad es in d e t e r m in a d a s. Aq u i só e xist e m
p eq u en as est rad as vicin a is, n e n h u m a est r ad a lar ga p a r a m o vim e n t o das t r op as m ilit a r e s, e m c i m a n e n h u m
céu, e m b a ixo n e n h u m in fe r n o " (p . 74 ) . E m o u t u b r o d e 1916, Ju n g d e u algu m as p alest ras n o Cl u b e de
Psico lo gia sobre "Ad ap t ação , in d ivid u a çã o e co le t ivid a d e " n as qu ais co m e n t o u sob re a im p o r t â n cia d a
cu lp a: "a ssim o p r im e ir o passo d a in d ivid u a çã o é u m a culpa t rágica. A a cu m u la çã o d e cu lp a exige expiação
( O C , 18/ 2, § 1.0 9 4)-
119 O esboço acr escen t a: "Vó s ach ais gr a ça d isso? O e sp ír it o d essa é p o ca go st ar ia d e fazer qu e acr ed it ásseis qu e
a p r o fu n d e z a n ão é n e n h u m m u n d o e n e n h u m a r ealid ad e" (p . 74 ) .
ASSASSI N AT O D O H E R Ó I 147

u m Deu s n u m duelo? T u só podes at in gir t eu Deu s n u m assassinato a t r a içã o 120 ,


se t u quiseres ven cê-lo.
Mas ist o é o m ais amargo para a pessoa m ort al: nossos deuses qu erem ser
ven cidos, pois n ecessit am de ren ovação. Q u an d o as pessoas m at am seus p rín ci-
pes, eles o fazem porque n ão con seguem m at ar seus deuses e porque n ão sabem
que d everiam m at ar seus deuses d en t ro de si.
Quando o Deus fica velho, ele se torna som bra, tolice, vai para baixo. A m aior verdade torna-se a
m aior m entira; o dia m ais claro torna-se a noite m ais escura.
Assim com o o dia pressupõe a noite e a noite, o dia, assim o sentido pressupõe o absurdo e o absurdo,
o sentido.
O dia não existe por si, a noite não existe por si.
O verdadeiro, que existe por si m esm o, é dia e noite.
Portanto, o verdadeiro é sentido e absurdo.

O m eio-dia éum instante, a m eia-noite éum instante, a m anhã vem da noite, o anoitecer cam inha
para a noite, m as tam bém o anoitecer vem do dia e a m anhã cam inha para o dia.

Port an t o, o sen t ido é u m in st an t e e passagem de absurdo em absurdo, e o


absurdo é só u m in st an t e e passagem de sen t ido em se n t id o 121
Last im ável que Siegfried, o lou ro de olhos azuis, o h erói alem ão, tivesse que
t om bar por m in h as m ãos, o m ais fiel e m ais valen t e! Ele t in h a tudo em si que
eu con siderava o m aior, o m ais belo, ele era m in h a força, m in h a valen t ia, m eu
orgulho. N u m a lu t a de iguais, eu t eria perecido, só m e restava, pois, o assassin a-
to à traição. Se eu quisesse con t in u ar viven do, só pod eria ser através de astúcia
e m aldade.
N ã o julgueis! Pen sai n o selvagem lou ro das m atas alem ãs que teve de de-
n u n ciar ao deus bran co asiático o t rovão que em p u n h a o m art elo, que foi p re-
gado n a cru z com o u m ladrão de galin has. O desprezo em baçou o p róp rio ser
dos valen t es. Mas sua força vit al ord en ou -lh es que con t in u assem a viver, e eles
t raíram seus deuses belos e selvagens, suas árvores sagradas e a ven eração às
m atas a le m ã s 122 .

120 O esboço co n t in u a : "p a r a o Ju d a s" (p . 75) .


121 O esboço co n t in u a : "M i n h a visã o m o st r o u - m e q u e n ã o est ava so z in h o n o m e u at o. T i ve co m o aju d an t e u m
ad olescen t e, p o r t a n t o a lgu é m m a is jo ve m d o qu e eu ; e u m e sm o co m o u m r e m o ç a d o " (p . 7 6 ) .
122 O esboço co n t in u a : "Assim co m o W o t a n , Siegfr ied t a m b é m t in h a d e m o r r e r " (p . 7 6 ) . E m 1918, Ju n g
escr eveu sob re os efeit os d a in t r o d u çã o d o cr ist ia n ism o n a Ale m a n h a : " O cr ist ia n ism o d ivid iu o
b a r b a r ism o ge r m â n ico e m su a m et ad e in fe r io r e su p e r io r e co n segu iu assim - p ela r ep r essã o d o lad o m ais
148 L I B E R P R I M U S foi.iv(r)/ív(v)

Ist o sign ifica Siegfried para os alem ães! O que quer d izer que Siegfried m orre
para o alem ão! Por isso quase preferi m at ar a m im m esm o para pou pá-lo. Mas eu
qu eria con t in u ar viven d o com u m n ovo D e u s 12 3 .
Depois da m orte n a cruz, Cr ist o foi para o rein o dos m ortos, tornou-se inferno.
Assu m iu assim a figura do an ticristo, do dragão. A imagem do anticristo, que os
antigos nos t ran sm it iram , dá n otícia do novo Deu s, cuja vin d a os antigos previram .
Deu ses são in evit áveis. Q u an t o m ais t u foges de Deu s, m ais cert am en t e
cairás em suas m ãos.
A ch u va e a gran de t orren t e de lágrim as que virão sobre os povos, a t orren t e
de lágrim as d a dist en são, depois que a lim it ação d a m ort e sobrecarregou os
povos com u m peso t errível. É o ch oro do m ort o em m im que precede o sep u l-
t am en t o e o ren ascim en t o. A ch u va é a fecun dação d a t erra, ela prod u z o n ovo
trigo, o Deu s que b rot a jo ve m 12 4 .

Co n c e p ç ã o d o D e u s
[IH iv(v)2]
Cap . viii.

N a segunda n oit e depois disso, falei à m in h a alm a e disse: "Fraco e art ificial
parece-m e este m u n d o novo. Ar t ificia l é u m a palavra com plicad a, m as a se-
m en t e de m ost ard a que se desen volveu em árvore, a palavra que foi con cebida
n o seio de u m a virgem , t orn ou -se u m Deu s ao qu al estava subm issa a t e r r a " 12 5 .

escu r o - d o m e st ica r o lad o m a is cla r o e t o r n á - lo a p r o p r ia d o à cu lt u r a . En q u a n t o isso, p o r é m , a m et ad e


in fe r io r est á esp er an d o a lib e r t a çã o e u m a segu n d a d o m e st ica çã o . Ma s, at é lá, co n t in u a associad a aos
vest ígio s d a e r a p r é -h ist ó r ica , ao in co n scie n t e colet ivo, o qu e sign ifica u m a p e cu lia r e cr escen t e at ivação
d o in co n scie n t e co le t ivo " ("Sob r e o in co n scie n t e ". O C , I O , § 17). D e se n vo lve u est a sit u ação e m "W o t a n "
( O C , 10 ,19 36 ) .
123 N o esboço, est a frase é assim : "M a s n ó s q u e r e m o s co n t in u a r vive n d o c o m u m n o vo D e u s, u m h e r ó i a lém
d e Cr i s t o " (p . 76 ) . N a s Mem órias, Ju n g r e la t o u a An i e l a Jaffé q u e ele h a via p en sad o d e si m e sm o co m o
u m h e r ó i ven ced or , m as o so n h o in d ica va q u e o h e r ó i t in h a d e ser m o r t o . Est e exagero d a vo n t a d e fo i
d e m o n st r a d o n aq u ela é p o ca p r e cisa m e n t e p elos a lem ã es, co m o n a Li n h a Siegfr ied . " U m a vo z d e n t r o d ele
d iz ia : 'Se n ã o en t en d es o son h o, d eves m a t a r - t e ' " ( M P , p. 9 8 . Mem órias, 216 ). A Li n h a Siegfr ied o r igin a l
foi u m a li n h a d efen siva est ab elecid a p elos a le m ã e s n o n o r t e d a Fr a n ça e m 1917 ( e r a n a ve r d a d e u m a
su b d ivisã o d a Li n h a H i n d e n b u r g ) .
124 O t e m a d o d eu s q u e m o r r e e r essu scit a d e se m p e n h a p ap el im p o r t a n t e n a o b r a d e F R A Z E R , J. The
Golden Bough: A St u d y i n Ma gic a n d Re ligio n . Lo n d r e s: M a c m illa n , 1911-1915. E l a fo i u sad a p o r Ju n g e m
Transform ações e sím bolos da libido.
125 U m a r efer ên cia à p a r á b o la d e Cr i s t o d o gr ã o d e m o st a r d a . M t 13,31-2: " O Re i n o d os Cé u s é se m e lh a n t e a
u m gr ã o d e m o st a r d a , q u e u m h o m e m t o m a e se m e ia e m seu cam p o. E a m e n o r d as sem en t es, m as d ep ois
d e cr e scid a é a m a io r d as h o r t a liça s, ch egan d o a t o r n a r - se á r vo r e " (cf. Lc 13,18-20; M c 4 ,30 - 32) .
C O N C EP Ç ÃO D O D EU S 149

Q u an d o assim falei, apareceu de repente o espírito da profundeza, encheu-m e


de t on t u ra e n évoa e falou com voz fort e estas palavras: [ BO iv( v) ] "Concebi teu
em brião tu que vens!

Eu o concebi na m ais profunda necessidade e hum ildade.


Eu o envolvi em panos ridículos e deitei no berço de pobres palavras.
E escárnio o adorou, teu filho, teu filho m aravilhoso, ofilhode alguém que está para vir, que deve
anunciar o Pai, um fruto que é m ais velho do que a árvore da qual nasceu.
Conceberás com dores, e alegria é teu nascim ento.
Medo é teu arauto, dúvida está à tua direita; decepção, à tua esquerda.
Perecem os em nosso ridículo e insensatez quando te enxergam os.
Nossos olhos ficaram cegos e nosso saber em udeceu quando captam os teu brilho.
Tu, novafagulha do fogo eterno em cuja noite nasceste.
Tu vais extorquir de teus fiéis verdadeiras orações, e em tua hom enagem precisam falar em línguas,
que para eles são um horror.
Tu virás sobre eles na hora de sua ignom ínia, tu te revelarás naquilo que eles odeiam , tem em e
abom inam 126.
Tua voz, a harm onia m ais rara, nós vam os perceber na gagueira do desordenado, do jogado fora e
do am aldiçoado com o sem valor.
Teu reino tocarão com as m ãos aqueles que adoraram tam bém antes da m ais profunda hum ildade e
cujo desejo os im peliu através da torrente de lodo do m al.
Tu darás teus dons àqueles que rezam com horror e dúvida, e tua luz vai brilhar para aqueles cujos
joelhos devem dobrar-se contra sua vontade e cheios de revolta.
Tua vida está com aquele que venceu a si m esm o / [ B O v ( r ) ] e negou sua vitória contra sifoi.i v ( r )
/ v( v)

m esm o127.
Tam bém eu sei que a liberalidade da graça só é dada àquele que acredita no m ais elevado e trai a si
m esm o deslealm ente por trinta m oedas de prata128.

126 E m M c 16,17, Cr i s t o a fir m o u q u e aqu eles q u e a cr e d it a m falar ão n ovas lín gu as. A q u e st ã o d e falar e m
lín gu as é d iscu t id a e m i C o r 14 e é t e m a ce n t r a l d o m o vim e n t o p en t eco st al.
127 O t e m a d a a u t o ssu p e r a çã o é im p o r t a n t e n a o b r a d e N ie t z sch e . E m Assim falava Zaratustra, N ie t z sch e
escreve: " E u vos e n sin o o a lé m - h o m e m . O h o m e m é algo q u e p r ecisa ser su p erad o. Q u e fizest es p a r a
su p e r á -lo ? At é agora t od os os seres c r ia r a m a lgu m a coisa qu e os u lt r ap assou : e q u er eis ser r eflu xo d essa
gran d e m a r é e r e t o r n a r ao a n im a l e m ve z d e su p er ar o h o m e m ?" ( "Pr ó lo go d e Za r a t u s t r a 3"; su b lin h a d o
co n fo r m e o e xe m p la r d e Ju n g) . Pa r a a d iscu ssão d e Ju n g sob re est e t e m a e m N ie t z sch e , ve r J A R R E T , J.
( o r g.) . Nietzsche s Zaratustra: N o t e s o f t h e se m in a r give n i n 1934-1939. Vo l . 2. P r in ce t o n : P r in c e t o n U n ive r s it y
Pr ess, 19 8 8 , p. 1.502-1.508.
128 Ju d as t r a iu Jesu s p o r t r in t a m oed as d e p r a t a ( M t 26 ,14-16 ) .
L I B E R P R I M U S foi. iv(r)/ v(v)

Os que sujarem suas m ãos lim pas e que trocarem seu m elhor saber pelo erro e tirarem suas virtudes
de um covil de assassinos são convidados para teu grande banquete.
O astro de teu nascim ento é um a estrela falsa e um planeta.
Estes, ófilhodo que virá, são os m ilagres que se tornarão testem unhas de que és um verdadeiro Deus".

[ 2 ] Q u an d o m eu prín cipe h avia caído, o espírit o da profun deza ab riu m in h a


visão e p er m it iu que eu observasse o n ascim en t o do n ovo Deu s.
A crian ça d ivin a opôs-se a m im a p art ir do trem en dam en te am bíguo, do feio-
-bon ito, do m au -bom , do ridículo-sério, do doente-sadio, do in u m an o-h u m an o
e do n ão d ivin o -d ivin o 129 .
Com p r een d i que o De u s I 3 °, que procuram os n o absoluto, n ão h á de ser e n -
con t rado n o belo, bom , sério, elevado, h u m an o, n em m esm o n o d ivin o absolu -
tos. Lá esteve u m a vez Deu s.
En t e n d i que o n ovo Deu s est á n o relat ivo. Se Deu s é o belo e bom absolutos,
com o deve abranger a plen it u d e da vid a, que é bela e feia, boa e m á, ridícula e
séria, h u m an a e in u m an a? Co m o pode o ser h u m an o viver n o seio da d ivin d a-
de, se a d ivin d ade só se aceit a em sua m et ad e? 131
Se t iverm os subido perto da alt u ra do bem e do belo, nosso r u im e feio jazem
em t orm en t o extrem o. Seu t orm en t o é tão grande e o ar da alt u ra tão rarefeito,
que a pessoa m al ain da pode viver. Por isso o bom e o belo se solidificam em ferro
da id eia ab solu t a 132 , e o r u im e feio t orn am -se poça de lam a, ch eia de vid a infam e.
Por isso, o Cr ist o teve de descer ao in fern o após sua m ort e, caso con t rário
sua su bida ao céu se t eria t orn ado im possível. O Cr ist o teve de se t orn ar antes
seu an t icrist o, seu irm ão su bt errân eo.
Nin gu ém sabe o que acon t eceu nos três dias em que Cr ist o esteve n o i n -
fern o. Mas eu ch eguei a sa b ê -lo 133 . As pessoas de an t igam en t e d iziam que lá
ele pregou aos ad or m ecid os 134 . É verdade o que eles d izem , mas sabeis com o
ist o acon teceu?

129 Ve r n o t a 58, p. 123.


130 Es t a co n ce p çã o d a n a t u r e z a ab r an gen t e d o n o vo D e u s é d e se n vo lvid a de forma co m p le t a m a is ad ian t e
e m "Ap r o fu n d a m e n t o s" ( Se r m ã o , 2, p. 45$s.).
131 O t e m a d a in t egr ação d o m a l n a d ivin d a d e d e se m p e n h o u u m p ap el im p o r t a n t e n as ob ras d e Ju n g - cf.
Aion, 1951. O C , 9/ 2, cap. $, e Resposta ajó, 1952. O C , 11/4.
132 A co n ce p çã o d a id e ia ab so lu t a fo i d e se n vo lvid a p o r H e ge l. Est e e n t e n d e u - a co m o a cu lm in a çã o e a
u n id a d e a u t o d ife r e n cia d o r a d a se q u ê n cia d ialét ica qu e o r igin o u o cosm os. Cf. Hegets Logic ( Lo n d r e s ,
T h a m e s a n d H u d s o n , 1975 [Tr a d . d e W W a lla c e ] ) . Ju n g r efer e-se a ist o e m 1921 e m Tipos psicológicos ( O C ,
6, § 735)-
133 Es t a frase fo i co r t a d a n o esboço corrigido e su b st it u íd a p or: "m a s é p o ssível a d ivin h á -lo ".
134 i P d 4,6 afir m a: "P o is, p a r a isso fo i a n u n cia d a a b o a -n o va aos m o r t o s, a fim d e q u e, ju lgad os co m o
h o m e n s n a car n e, viva m segu n d o D e u s n o e sp ír it o ".
C O N C EP Ç ÃO D O D EU S foi

Er a lou cu ra e m om ice, u m a t errível m ascarada in fern al dos m ais sagrados


m ist érios. D e que ou t ra form a pod eria Cr ist o t er salvo seu an t icrist o? Led e os
livros descon h ecidos dos antigos e apren dereis ali m u it as coisas. At en d ei bem ,
Cr ist o n ão ficou n o in fern o, mas su biu para a alt u ra do a lé m 135 .
Nossa con vicção do valor do b om e do belo t orn ou -se fort e e im perd ível,
por isso pode a vid a est en der-se para m ais além e preen ch er ain d a tudo que
estava am arrado e desejoso. Mas o am arrado e desejoso são precisam en t e o feio
e o m au . T u te revoltas con t ra o feio e o mau?
Nisso podes perceber quão grandes são sua força e seu valor da vid a. T u
pensas que ist o está m ort o em t i? Mas este m ort o pode t ran sform ar-se t am bém
em ser p en t es 136 . As serpen tes vão apagar o prín cipe de t eu d ia.
Vist e que beleza e alegria sobrevieram às pessoas quan do a profun deza de-
sen cadeou est a grande guerra? E assim m esm o foi u m pavoroso co m e ço 137 .

135 O t e m a d a d escid a d e Cr i s t o aos in fe r n o s d e se m p e n h a u m im p o r t a n t e p ap el e m d iver sos evan gelh os


ap ó cr ifo s. N o "Cr e d o d os Ap ó s t o lo s " a fir m a -se qu e "ele d esceu aos in fe r n o s. Ao t e r ce ir o d ia r e ssu scit o u
n o va m e n t e d os m o r t o s". Ju n g co m e n t o u o a p a r e cim e n t o d est e m o t ivo n a a lq u im ia m e d ie va l (Psicologia e
Alquim ia, 1944. O C , 12, § 6 i n . , 4 4 0 , 451. • Mystcríum coníunctíonís 1955/ 1956. O C , 14, § 173). U m a das fon t es a
qu e Ju n g se r e fe r ia ( O C , 12, § 6 i n . ) er a Nckyia: BcítrãgczurErklárungdcrncucntdccktcnPctrusapokalypsc de Alb r e c h t
D ie t e r ic h , qu e co m e n t a va u m fr agm en t o a p o ca líp t ico d o Eva n ge lh o de Ped ro, e m qu e Cr i s t o for n ece u m a
d escr ição d et alh ad a d o in fe r n o . O e xe m p la r qu e Ju n g t in h a d est a o b r a co n t é m n u m er o sas m a r ca çõ e s n as
m ar gen s e n o fin a l est ão m a is d ois p e d a ço s d e p ap el co m u m a list a d e r efer ên cias d e p ágin as e o b ser va çõ es.
E m 1951, ele d e u a segu in t e in t e r p r e t a çã o p sico ló gica d o m o t ivo d a d escid a de Cr i s t o aos in fe r n o s: " O
â m b it o d a in t egr ação é in d ica d o p elo 'd escen su s a d in fer o s', d escid a d e Cr i s t o aos in fe r n o s, d escid a
cu jos efeit os r ed en t o r es ab r an gem in clu sive os m o r t o s. O seu eq u ivalen t e p sico ló gico é a in t egr a çã o d o
in co n scie n t e colet ivo, p ar t e co n st it u t iva e in d isp e n sá ve l d a in d ivid u a çã o " (Aíon. O C , 9/ 2, § 72) . E m 1938
ele an o t o u : "A d escid a aos in fe r n o s, d u r a n t e os t rês d ias e m qu e p er m a n ece m o r t o , sim b o liz a o m e r gu lh o
d o va lo r d esap ar ecid o n o in co n scie n t e , o n d e, vit o r io so sob re o p o d er das t r evas, est abelece u m a n o va
o r d e m d e coisas e de on d e vo lt a , p a r a elevar -se at é o m ais alt o d os céu s, o u seja, at é a clar id ad e su p r e m a d a
co n sciê n cia " (Psicologia e religião. O C , 11, § 14 9 ) . A e xp r e ssã o "livr o s d escon h ecid os d os an t igos" r efer e-se aos
evan gelh os ap ó cr ifo s.
136 O esboço co n t in u a : "M a s a ser p en t e t a m b é m é vid a . O s an t igos d isse r a m e m im a ge m qu e fo i a ser p en t e
qu e p r e p a r o u u m fim p a r a a m a gn ificên cia ju ve n il d o p ar aíso, d iz ia m at é m e sm o qu e fo i o p r ó p r io Cr i s t o
aq u ela se r p e n t e " (p . 8 3) . Ju n g co m e n t a est e m o t ivo e m Aíon ( 19 50 . O C , 9/ 2, § 29 1) .
137 O esboço corrigido t em : "u m c o m e ç o d o in fe r n o " (p . 7 0 ) . E m 1933 Ju n g r eco r d o u : "N o in ício d a gu e r r a e u
est ava e m In ve r n e ss, e r e t o r n e i p assan d o p e la H o l a n d a e p ela Ale m a n h a . C r u z e i c o m os e xé r cit o s qu e ia m
e m d ir e çã o oest e e t ive a sen sação de qu e se t r a t a va d aq u ilo qu e e m a le m ã o ch a m a m o s de Hochzeítsstím m ung,
u m a fest a de a m o r e m t od o o p aís. Tu d o est ava d ecor ad o c o m flores, er a u m a e xp lo sã o de am or , t od os eles
se a m a va m u n s aos o u t r o s e t u d o er a b o n it o . Si m , a gu e r r a e r a im p o r t a n t e , u m gr an d e e m p r e e n d im e n t o ,
m as a co isa p r in cip a l e r a o a m o r fr a t er n o p o r t od o o p aís, t od o m u n d o e r a ir m ã o de t od o m u n d o , p o d ia -
se t e r t u d o o qu e algu ém p o ssu ísse, seja o qu e for. O s cam p on eses a b r ia m suas adegas e d ist r ib u ía m o
qu e t in h a m . Ist o aco n t eceu at é n o r est au r an t e e n o b ar d a est ação fer r o viár ia. E u est ava co m m u i t a fom e,
n ã o t ive r a n a d a p a r a co m e r p o r cer ca de 24 h o r as, e eles t in h a m algu n s sa n d u ích es qu e h a via m sob rad o,
e, q u an d o p e r gu n t e i q u an t o cu st a va m , d isser a m : ' O h ! n ad a, p od e p egar!' E q u an d o cr u z e i a fr o n t e ir a
d a Al e m a n h a , fom os levad os p a r a u m a e n o r m e b a r r a ca ch e ia de ce r ve ja e lin gu iça e p ã o e q u eijo, e n ã o
p agam os n ad a, e r a u m a gr an d e fest a d e am or. Fiq u e i ab so lu t am en t e d esn o r t ead o " ( D O U G L A S , C . Vísíons
Sem ínars. 2. ed. ( P r in ce t o n : P r in c e t o n U n i ve r s i t y Press, 1997, p. 9 74 - 9 75) .
152 L I B E R P R I M U S foi. iv( r ) / v( v)

Se n ão t iverm os a profun deza, com o terem os a altura? Mas vós t em eis a


profun deza e n ão quereis ad m it ir que a t em eis. Mas é bom que t en h ais medo,
d izei-o em voz alt a que tendes medo. E sabedoria t er medo. Só os h eróis d izem
que est ão isen tos de medo. Mas vós sabeis o que acontece ao h erói.
Co m m edo e t rem or, olh an do desconfiados ao redor de vós, ide assim para
a profun deza, mas n ão u m sozin h o; em dois ou m ais, a seguran ça é m aior, pois
a profun deza est á ch eia de assassinato. Assegu rai-vos t am bém sobre o cam in h o
da volt a. Ide com cuidado, com o se fôsseis covardes, a fim de vos an tecipardes
ao assassino de alm as 138 . A profun deza gost aria de vos en golir por com plet o e
afogar n a lam a.
Q u e m desce ao in fern o t am bém se t orn a in fern o, por isso n ão esqueçais de
onde viestes. A profun deza é m ais forte do que n ós; port an t o, sede espertos e
n ão h eróis, pois n ada é m ais perigoso do que ser u m h erói por con t a própria. A
profun deza gost aria de m an t er-vos; a m u it os ela n ão m ais devolveu, por isso as
pessoas fugiram da profun deza e lh e fizeram violên cia.
O que t eria acon tecido se a profun deza, devido à violên cia, se tivesse t ran s-
form ado n a m ort e? Mas a profun deza se t ran sform ou n a m ort e; por isso em it iu
a m ort e m ilh ares de vezes quan do aco r d o u 139 . N ã o podem os m at ar a m ort e,
pois já lh e tom am os toda a vid a. Se ain d a quiserm os ven cer a m ort e, en t ão
tem os de avivá-la.
Por isso, levai em vossa viagem também taças de ouro, cheias de bebida doce da
vida, vin h o tinto e dai-o à matéria m orta para que readquira vida. A matéria m orta
vai transformar-se n a serpente negra. Não vos assusteis, a serpente apagará im edia-
tamente o sol de vosso dia, e um a noite de maravilhosas luzes falsas virá sobre vós I4 °.
Fazei força para despert ar a m ort e. Cavai profun das covas e jogai nelas ofe-
ren das, a fim de que cheguem ao m ort o. Pen sai com coração bon doso n o m al,
este é o cam in h o da subida. Mas antes da su bid a tudo é n oit e e in fern o.

138 A e xp r e ssã o "Assassin o d e alm as" fo r a u sad a p o r Lu t e r o e Zw in glio e, m a is r e ce n t e m e n t e , p o r D a n i e l


Pa u l Sch r e b e r e m su a o b r a DenkwúrâígkeíteneinesNervenkranken. Le p z ig: O s w a l d M u t z e , 1903. Ju n g d iscu t iu
est a o b r a e m 19 0 7 e m "A p sicologia d a d e m e n t ia p r aeco x" ( O C , 3) . E m d iscu ssõ es a r esp eit o de Sch r eb er
n a Asso cia çã o de Psico lo gia An a lít ica a 9 e 16 d e ju lh o de 1915, ap ós a p r e se n t a çõ e s de Sch n e it e r , Ju n g
ch a m o u a a t e n çã o p a r a p ar alelos gn ó st ico s das im agen s de Sch r eb er (Minutes of the Assocíatíonfor Analytícal
Psychology, vo l. 1, p. 8 8 s.) .
139 A r efer ên cia é à ca r n ificin a d a P r im e ir a Gu e r r a M u n d ia l.
140 Ist o se refere à visã o d o cap ít u lo V, "D e s c i d a ao in fe r n o n o fu t u r o ". E m 19 4 0 , Ju n g escr eveu : "A a m e a ça
d a p r ó p r ia sin gu lar id ad e p o r d r a gõ es e cob ras in d ica d e m o d o p a r t icu la r o p er igo d e a co n sciê n cia
r e ce n t e m e n t e a d q u ir id a ser t ragad a n o va m e n t e p ela a lm a in st in t iva , o in co n scie n t e " ( "A p sicologia d o
a r q u é t ip o d a cr ian ça", 9/ 1, § 28 2) .
C O N C EP Ç ÃO D O D EU S 153

O que pensais d a n at u reza do in fern o? O in fern o é quan do a profu n de-


za chega a vós com tudo o que n ão m ais ou ain d a n ão d om in ais. O in fern o
é quan do n ão podeis alcan çar o que pod eríeis alcançar. O in fern o é quan do
deveis pensar, sen t ir e fazer tudo aquilo que sabeis que n ão quereis. O in fern o
é quan do sabeis que ele é vosso dever e vosso querer e que vós m esm os sois res-
pon sáveis por isso. O in fern o é quan do sabeis que todo o sério que tendes em
vist a com relação a vós t am bém é ridículo, que todo delicado t am bém é brut o,
todo o b om t am bém é m au , todo o alto t am bém é baixo, que todas as obras boas
t am bém são obras m ás.
Mas o in fern o m ais profun do é quan do percebeis que o in fern o t am bém
n ão é n en h u m in fern o, mas u m céu alegre, n ão u m céu em si, mas u m t an t o céu
e u m t an t o in fern o.
Est a é a am biguidade de Deu s, ele nasce de u m a am biguidade escura e sobe
para u m a am biguidade lu m in osa. In equ ivocid ad e é u n ilat eralid ad e e con duz à
m o r t e 14 1. Mas a am biguidade é o cam in h o da vid a 14 2 . Se o pé esquerdo n ão vai,
en t ão vai o d ireit o, e t u cam in h as; é ist o que Deu s q u er 14 3 .
Vó s d izeis: o Cr ist o - D e u s é in equ ívoco, ele é o a m o r 14 4 . Mas o que é m ais
am bígu o do que o am or? O am or é o cam in h o d a vid a, m as vosso am or só
en t ão é u m cam in h o d a vid a quan do ele t em u m esquerdo e u m d ireit o. Nad a
é m ais fácil do que b r in car de am biguidade, e n ada m ais difícil do que viver a
am biguidade. Q u e m b r in ca é crian ça, seu Deu s é velh o e m orre. Q u e m vive
é adulto, seu Deu s é jovem e passa para o ou t ro lado. Q u e m b r in ca esconde a
m ort e in t erior. Q u e m vive sente o passar para o out ro lado e o im ort al. Por-
t an t o d eixai aos brin calh ões a brin cad eira. De ixa i cair o que quer cair; se o se-
gurardes, ele vos arrast a jun t o. Exist e u m verd ad eiro am or que n ão se preocupa
com o p r ó xim o 14 5 .

141 O esboço corrigido t e m : "a u m fi m " (p . 73) .


142 E m 1952, Ju n g escr eveu a Z w i W e r b lo w s k y a r esp eit o d a am b igu id ad e in t e n c io n a l de seus escr it os: "A
lin gu agem qu e falo p r e cisa ser a m b ígu a , d eve t e r duplo sentido, p a r a fazer ju st iça à n a t u r e z a p síq u ica c o m seu
d u p lo aspect o. E u p r o cu r o co n scien t e e in t e n cio n a lm e n t e a e xp r e ssã o d e d u p lo sen t id o, p or q u e é su p e r io r
à u n ivo cid a d e e co r r esp o n d e à n a t u r e z a d o se r " (Cartas II, p. 24 5) .
143 O esboço co n t in u a : "O l h a i p a r a as im agen s d os d eu ses qu e os an t igos e os a n t iq u íssim o s n os legar am : su a
n a t u r e z a é a m b ígu a e d e m u it o s sen t id os (p . 8 7) .
144 1J0 4,16: "D e u s é a m o r ; q u e m p er m a n ece n o a m o r p e r m a n e ce e m D e u s, e D e u s n ele".
145 O esboço co n t in u a : "Q u e m d ist o r ce est a e ou t r as p alavras é u m b r in calh ão , p ois n ã o r esp eit a a p ala vr a
falad a. Pr e st a at en ção, t u gan h as a t i m e sm o a p a r t ir d a q u ilo qu e lês n u m livr o . T u lês n u m livr o t a n t o p a r a
d e n t r o co m o p a r a fo r a " ( p . 8 8 ) .
L I B E R P R I M U S foi. iv(r)/ v(v)

Q u an d o o h erói h avia sido assassinado, o sen t ido recon h ecido com o absur-
do, quan do todo o ten so descia ru id osam en t e de n uven s pren h es, quan do tudo
se h avia t orn ado covarde e pen sava n a p róp ria salvação, t om ei con sciên cia e n -
tão do n ascim en t o de D e u s 14 6 . O Deu s in clin ou -se para m im em m eu coração,
quan do eu estava pert u rbado por escárn io e adm iração, por pesar e sorriso, por
sim e não.
D a fun dição dos dois n asceu o ún ico. Ele n asceu com o crian ça de m in h a
p róp ria alm a h u m an a, que com o u m a virgem a con cebeu com m u it o tem or.
Corresp on d e assim à im agem que os antigos nos legaram d ist o 14 7 . Mas quan do
a m ãe, m in h a alm a, estava grávida de Deu s, eu n ão o sabia. Pareceu-m e in clu -
sive com o se m in h a alm a fosse o p róp rio Deu s, ain d a que ele só m orasse em
seu co r p o 14 8 .
E assim cu m p riu -se a im agem dos antigos: eu perseguia m in h a alm a para
m at ar a crian ça d en t ro dela. Pois eu sou t am bém o p ior in im igo de m eu D e u s 14 9 .
Mas recon h ecia que t am bém m in h a h ost ilidade está decret ada em Deu s. Ele é
zom baria, ód io e raiva, pois t am bém ist o é u m cam in h o da vid a.
Devo d izer que o Deu s n ão pod ia vir a ser antes que o h erói tivesse sido as-
sassinado. O h erói, com o n ós o en t en dem os, t orn ou -se in im igo de Deu s, pois o
h erói é perfeição. O s deuses in vejam a perfeição do ser h um an o, pois o perfeit o
n ão precisa dos deuses. Mas com o n in gu ém é perfeito, precisam os dos deuses.
O s deuses am am o perfeito, pois é o cam in h o t ot al da vid a. Mas os deuses n ão
estão com aquele que gost aria de ser perfeito, pois é u m im it ad or do p er feit o 150 .
A im it ação foi u m cam in h o da vid a, quan do o ser h u m an o ain d a precisava do
exem plo h e r ó ico 151. A m an eira de ser do m acaco é u m cam in h o da vid a para o
macaco, e para o ser h um an o, en quan t o é amacac^çto. O amacacado do ser h u -

146 O esboço corrigido t e m "n a scim e n t o d o n o vo " ( co n ce p çã o de u m ) D e u s (p . 74 ) .


147 Re fe r ê n cia à Vi r g e m Ma r ia .
148 Cf. n o t a 57, p. 122.
149 Parece u m a r efer ên cia ao fe r im e n t o de Iz d u b a r n o Líber Secundus, cap. 8, P r im e ir o D i a . Cf. ad ian t e, p. 247.
150 A im p o r t â n cia d a t ot alid ad e sob re a p e r fe içã o é t e m a im p o r t a n t e n a o b r a p o st e r io r de Ju n g. Cf. Aion
(1951). O C , 9/ 2, § 123. • Mysteríum coníunctíonís (19 55). O C , 14, § 616.
151 E m 1916, Ju n g escreveu : " O h o m e m p o ssu i u m a facu ld ad e m u it o va lio sa p a r a os p r o p ó sit o s colet ivos,
m as e xt r e m a m e n t e n o civa p a r a a in d ivid u a çã o : su a t e n d ê n cia à im itação. A p sicologia co le t iva n ã o p od e
p r e scin d ir d a im it a çã o " ( "A e st r u t u r a d o in co n scie n t e ". O C , 7, § 4 6 3) . E m "A p sicologia d o a r q u é t ip o
d a cr ia n ça " ( 19 4 0 ) , Ju n g escr eveu sob re o p er igo d a id en t ificação co m o h er ó i: "T a l id en t ificação é
fr e q u e n t e m e n t e o b st in ad a e p r eocu p an t e p a r a o e q u ilíb r io a n ím ico . Se essa id en t ificação p u d e r ser
d isso lvid a at r avés d a r e d u çã o d a co n sciê n cia à su a m e d id a h u m a n a , a figu r a d o h e r ó i va i d ife r e n cia r -se
gr ad at ivam en t e at é o sím b o lo d o si- m e sm o " ( O C , 9/ 1, § 30 3) .
C O N C EP Ç ÃO D O D EU S 155

m an o d u ra por u m espaço de t em po colossal, mas ch egará o tem po em que vai


cair u m ped aço do amacacado do ser h um an o.
Será u m tem po de salvação e de descida d a pom ba e d o fogo e salvação
etern os.
En t ão n ão h averá m ais n en h u m h erói e n in gu ém que o possa im it ar. Pois, a
p art ir desse tem po, t oda im it ação é am aldiçoada. O n ovo Deu s r i da im it ação
e do seguim ento. Ele n ão precisa de repet id or e de n en h u m discipulado. Ele
força a pessoa através dele mesmo. O Deu s é seu p róp rio part id ário n a pessoa.
Ele im it a a si m esm o.
Pen sam os que em n ós h á o in d ivid u al e que fora de n ós h á o geral. For a de
n ós é geral em relação a fora de n ós, mas é ser in d ivid u al em relação a n ós. Em
n ós é ser in dividual em relação a nós, mas geral em relação a fora de nós. Somos in -
dividuais quando estamos em nós, mas gerais em relação a fora de nós. Mas quando
estamos fora de nós, somos in dividuais e egoístas no geral. Nosso si-m esm o sofre
necessidade quan do estam os fora de n ós e assim preen ch e com suas n ecessida-
des o geral; desta m an eira o geral é falsificado em relação ao in d ivid u al. Q u an d o
estam os em n ós, preen ch em os a necessidade do si-m esm o, n ós prosperam os,
t orn am o-n os con scien tes das necessidades do geral e podem os sat isfazê-las 152 .

Q u an d o colocam os u m Deu s fora de n ós, ele nos arran ca do si-m esm o,


pois o Deu s é m ais fort e do que n ós. Nosso si-m esm o sucum be à m iséria. Mas
quan do o Deu s en t ra n o si-m esm o, en t ão ele nos arran ca do fora de n ó s 153 .
Ch egam os ao ser in d ivid u al em n ós. Assim o Deu s t orn a-se geral em relação ao
fora de n ós; in d ivid u al, p orém , em relação a n ós. Nin gu ém possui m eu Deu s,
mas m eu Deu s possui a todos, in clu sive a m im . O s deuses de todas as pessoas
in d ivid u ais possuem sem pre todas as outras pessoas, in clu sive a m im m esm o.
E assim é sem pre apenas o ú n ico Deu s apesar de sua m u lt iplicid ad e. A ele per-
tences em t i m esm o, mas só pelo fato de t eu si-m esm o te pren der. Ele te pren de
n o prosseguim en to de t u a vid a.

152 Jung abordou a questão do conflito entre individuação e coletividade em 1916, em "Individuação e
coletividade". O C , 18, § 1.103.
153 Cf. comentários de Jung em "Individuação e coletividade" de que "o indivíduo precisa agora consolidar-se,
separando-se totalmente da divindade e tornando-se ele mesmo. Com isso e ao mesmo tempo separa-se da
sociedade. Exteriormente mergulha na solidão e, internamente, no inferno, no afastamento de Deus". O C ,
18, § 1.103.
L I B E R P R I M U S fol.v(r)/ v(v)

O h er ói t em de s u c u m b i r p o r ca u sa de n o ssa r e d e n ç ã o , p o is ele é e xe m p l o e
exige im itação. Mas a m ed id a d a im it ação est á ch e ia 154 . N ó s devem os ser salvos
para a solidão em n ós e para Deu s n o fora de n ós. Ao en t rarm os n est a solidão,
com eça a vid a de Deu s. Q u an d o estam os em n ós, o espaço fora de n ós est á
livre, mas replet o de Deu s.
Nosso relacion am en t o com as pessoas passa por este espaço vazio, p or t an -
to através de Deu s. Mas an tigam en te passava pelo egoíst ico, pois est ávam os
fora de n ós. Por isso m e disse previam en t e o espírit o, que a friagem do espaço
cósm ico se d eposit aria sobre a t e r r a 155 . Co m isso, m ost rou -m e em im agem que
Deu s vai colocar-se en t re os seres h um an os com o ch icot e da friagem glacial
e t ocar cada in d ivíd u o para o calor de seu p róp rio reban h o claust ral. Pois as
pessoas vagueavam com o doidas fora de si.
A am bição egoíst a procu ra ao fin al a si m esm a. T u te en con t rarás a t i m esm o
em t u a am bição, port an t o n ão digas que a am bição é fútil. Se t u am bicion as a t i
m esm o, geras n o abraço a t i m esm o o Filh o de Deu s. Tu a am bição é o Deu s-Pai,
t eu si-m esm o a d eu sa-m ãe, mas o Filh o é o n ovo Deu s, t eu senhor.
Q u an d o abraças t eu si-m esm o, parece-te que o m u n d o ficou frio e vazio. E
neste vazio que en t ra o Deu s que virá.
Q u an d o estás em t u a solidão e todo espaço ao t eu redor se t orn ou frio e
in fin it o, en t ão te afastaste das pessoas, mas ao m esm o tem po chegaste pert o
delas com o n u n ca antes. A am bição egoíst a con d u ziu -t e apenas aparen t em en t e
às pessoas, mas n a verdade con d u ziu -t e para longe delas e n o fin al a t i m esm o
n aqu ilo que estava m ais longe para t i e para as outras pessoas. Mas se estiveres
n a solidão, t eu Deu s vai con d u zir-t e ao Deu s das outras pessoas e com isso à
verd ad eira proxim id ad e, à proxim id ad e do si-m esm o n a ou t ra pessoa.
Q u an d o estás em t i m esm o, tom as con sciên cia de t eu n ão poder. H á s de
perceber quão pouco és capaz de im it ar h eróis e t u m esm o seres u m h erói.
Port an t o, n ão m ais obrigarás os outros a serem h eróis. Eles sofrem do n ão p o-
der com o t u . O n ão poder t am bém quer exist ir, mas ele vai pert u rbar vossos
fol.v(r) deuses. [ BP v( r ) ] /
Mv )

154 Um a interpretação do assassinato de Siegfried no Liber Prímus, cap. vii, "Assassinato do herói".
155 Refere-se ao sonho mencionado no prólogo, p. 107.
M YS T E R I U M . E N C O N T R O 157

Myst erium .
En con t ro
[IH v( v) ]
Cap. ix.

N a n oit e em que m ed it ei sobre a n at u reza de Deu s, veio-m e à m en t e u m a


im agem : eu estava deitado n u m a profun deza escura. U m h om em velh o estava
d ian t e de m im . Tin h a a aparên cia de u m daqueles antigos p rofet as 156 . A seus
pés h avia u m a cobra pret a. A cert a dist ân cia vi u m a casa ch eia de colun as. U m a
lin d a m oça saiu da port a. Cam in h ava in seguram en t e, e percebi que era cega. O
velh o m e acen ou e eu o sigo para a casa ao pé de u m roch edo m u it o alto. At rás
de n ós vem rast ejan do a cobra. N o in t er ior da casa r ein a a escuridão. Est am os
n u m salão alto com paredes cin t ilan t es. N o plan o de fun do h á u m a pedra de
aquarela clara. Q u an d o olh ei n o seu reflexo, apareceu-m e a im agem de Eva, da
árvore e da serpen te. Dep ois avist ei Ulisses e seus com pan h eiros n o vasto mar.
De repen t e abriu-se à d ir eit a u m a p ort a para u m jar d im ilu m in ad o pelo sol.
Saím os, e o velh o m e falou: "Sabes on de est ás?"
Eu : "Sou aqui u m est ran h o e tudo é m aravilh oso, assustador com o u m so-
nho. Q u e m és t u ?"
E: "E u sou Elia s 15 7 e esta é m in h a filh a Sa lo m é "158 .
Eu : "A filh a de H erod íad es, a m u lh er san guin ária?"
E: "Por que julgas assim? T u vês, ela é cega. El a é m in h a filh a, a filh a do
profet a".

156 No Livro Negro 2, Jung observa: "com barba grisalha e veste oriental" (p. 231).
157 Elias foi um dos profetas do Antigo Testamento. Aparece pela primeira vez em iRs 17, trazendo uma
mensagem de Deus a Acab, rei de Israel. Em 1953, o carmelita Père Bruno escreveu a Jung perguntando
como se estabelecia a existência de um arquétipo. Jung respondeu tomando Elias como exemplo,
descrevendo-o como um personagem altamente mítico, o que não o impedia de ter sido provavelmente
uma figura histórica. Aproximando descrições de Elias feitas ao longo da história, Jung descreveu-o
como um "arquétipo vivo", que representava o inconsciente coletivo e o si-mesmo. E observou que esse
arquétipo constelado deu origem a novas formas de assimilação e representava uma compensação por
parte do inconsciente ( O C, 18, § 1.518-1.531).
158 Salomé era filha de Herodíades e enteada do rei Herodes. Em Mt 14 e Mc 6, João Batista havia dito ao
rei Herodes que não lhe era lícito estar casado com a mulher de seu irmão, e Herodes colocou-o na prisão.
Salomé (que não é nomeada, mas simplesmente chamada filha de Herodíades) dançou diante de Herodes
no aniversário deste, e ele prometeu dar-lhe tudo que ela desejasse. Ela pediu a cabeça de João Batista,
que então foi decapitado. No final do século X I X , a figura de Salomé fascinou pintores e escritores, entre
os quais Guillaume Apollinaire, Gustave Flaubert, Stéphane Mallarmé, Gustave Moreau, Oscar W ilde e
Franz von Stuck, recebendo destaque em muitas obras. Cf. D I JKST RA, B. idoísofPerversíty. Fantasies of
Feminine Evil in Fin-de-Siècle Culture. Nova York, O xford Un iversity Press, 1986, p. 379-398.
L I B E R P R I M U S foi. v(r)/ v(v)

Eu : "Q u e m ilagre vos u n iu ?"


E: "Ne n h u m m ilagre. Fo i assim desde o com eço. Min h a sabedoria e m in h a
filh a são u m a coisa só".
Fiq u ei estupefato, n ão con segui en ten der.
E: "Pen sa bem : sua cegueira e m in h a visão fizeram de n ós com pan h eiros
desde a et ern idade".
Eu : "Perd oa m in h a perplexidade, estou m esm o n o su bm u n do?"
S: "T u m e am as?"
Eu : "Co m o posso am ar-t e? Co m o chegas a esta pergunta? Só vejo u m a coi-
sa: t u és Salom é, u m tigre, o sangue do san to est á grudado em tuas m ãos. Co m o
pod eria am ar-t e?"
S: "T u vais m e am ar".
Eu : "Eu ? Am ar -t e? Q u e m te dá o d ireit o de tais pen sam en t os?"
S: "Eu te am o".
Eu : "Afasta-te de m im , t en h o h or r or de t i, fera".
S: "Est ás sendo in ju st o comigo. Elias é m eu pai e conhece os segredos a
fundo. As paredes de sua casa são de pedras preciosas. Seus poços con t êm águas
com força cu rat iva e seu olh o vê as coisas futuras. E o que n ão darias t u por u m
só olh ar nas coisas in fin it as daquele que vem ? N ã o valeriam para t i até m esm o
u m pecado?"
Eu : "Tu a t en t ação é satânica. Eu an seio pelo m u n d o do alto. Aq u i é h orrível.
Co m o o ar está carregado e pesado!"
E: "O que queres? Podes escolh er".
Eu : "Mas eu n ão p ert en ço aos m ort os. Eu vivo à lu z do dia. Por que devo
at orm en t ar-m e aqui por causa de Salom é, se já t en h o o bastan te em su port ar
m in h a própria vid a?"
E: "Escu t ast e o que Salom é disse".
Eu : "N ã o consigo acredit ar que t u , o profeta, podes recon h ecê-la com o filh a
e com pan h eira. El a n ão foi gerada de sem en te in fam e? El a n ão foi p u ra cobiça
e lu xú ria crim in osa?"
E: "Mas ela am ava u m san to".
Eu : " E d erram ou ign om in iosam en t e seu precioso sangue".
E: "El a am ava o profet a que an u n ciava o m u n d o do n ovo Deu s. Am ava-o,
entendes? Pois ela é m in h a filh a".
Eu : "Pensas t u que, pelo fato de ser t u a filh a, ela am ava em João o profeta,
o pai?"
M TSTERI U M . EN CO N T RO 159

E: "E m seu am or podes recon h ecê-la".


Eu : "Mas com o ela o amava? Ch am as ist o de am or?"
E: "O que era en t ão?"
Eu : "Fico h orrorizad o. A qu em n ão causaria h or r or se Salom é o am asse?"
E: "Tu és medroso? Pensa bem , eu e m in h a filha somos u m desde eternidades".
Eu : "T u m e p rop ões enigm as t erríveis. Co m o é possível que esta m u lh er
depravada e t u , profet a de t eu Deu s, sejais u m ?"
E: "Por que te adm iras? T u vês que estam os ju n t os".
Eu : "O que vejo com m eus próprios olh os, ist o é precisam en t e o in con ce-
bível para m im . Tu , Elias, que és u m profeta, a boca de Deu s, e ela u m m on st ro
seden to de sangue. Vó s sois o sím bolo dos m ais ext rem os opostos".
E: "N ó s somos reais, e n ão u m sím bolo".
Vi com o a cobra pret a su biu n a árvore e se escon deu nos galhos. Tu d o ficou
escuro e in cert o. Elias ergueu-se, eu o segui e volt am os em silên cio pelo sa lã o 159 .
A d ú vid a m e dilacerava. Tu d o é t ão ir r eal e, assim m esm o, rest a u m ped aço de
m eu desejo. Será que volt arei? Salom é m e am a, eu a amo? O u ço m ú sica selva-
gem , o tam bor, u m a n oit e abafada de luar, a rígid a-en san gu en t ad a cabeça do
sa n t o 16 0 - sou tom ado pelo medo. Precip it o-m e para fora. É n oit e escura em
t orn o de m im . Q u e m m at ou o h erói? Salom é m e am a por causa disso? Eu a
am o e por isso m at ei o h erói? El a é u m a com o profeta, u m a com João e t am -
b ém u m a com igo? Ai , era ela a m ão de Deu s? Eu n ão a amo, eu a tem o. En t ão o
espírit o d a profun deza falou para m im e disse: "Nisso reconheces sua força de
Deu s". Ten h o de am ar Sa lo m é ? 10 1

159 No Livro Negro 2, Jung observa: "O cristal luzia fracamente. Penso novamente na imagem de Ulisses,
como circunavegou a ilha rochosa das sereias na longa viagem sem rumo. Devo eu, não devo eu?" (p. 74).
160 Isto é, a cabeça de João Batista.
161 No Seminário de 1925, Jung contou novamente: "Usei a mesma técnica da descida, mas desta vez fui
muito mais fundo. A prim eira vez devo dizer que cheguei a uma profundidade de aproximadamente m il
pés, mas desta vez foi uma profundidade cósmica. Foi como ir até à lua, ou como a sensação de pular no
espaço vazio. Primeiro a imagem mental foi de uma cratera, ou de uma cadeia de montanhas, e minha
associação sensível foi a de um morto, como se eu fosse uma vítima. Era o estado de espírito da terra do
além. Pude ver duas pessoas, um velho de barba branca e uma jovem muito bonita. Presumi que eram
reais e prestei atenção ao que estavam dizendo. O velho disse que era Elias e eu fiquei muito chocado,
mas ela era ainda mais perturbadora porque era Salomé. Eu disse para m im mesmo que havia uma
estranha mistura: Salomé e Elias, mas Elias assegurou-me que ele e Salomé estavam juntos desde toda
a eternidade. Também isto perturbou-me. Com eles estava uma serpente negra que tinha simpatia por
mim. Ative-m e a Elias como o mais razoável do grupo, pois parecia ter juízo. Eu estava excessivamente
hesitante quanto a Salomé. Tivemos uma longa conversa, mas eu não entendi. Evidentemente, pensei que
o fato de meu pai ser clérigo era a explicação para o fato de eu ter figuras como esta. O que pensar deste
velho? Salomé não devia ser tocada. Só muito mais tarde é que achei perfeitamente natural a associação
dela com Elias. Sempre que alguém empreende viagens como esta encontra uma jovem e um velho"
i6o LI BERP RI M U S foi.v(r)/ v(v)

l62
[2] Estejogo, que eu vi, é m eu jogo, não o vosso jogo. É m eu segredo, não o vosso. Não podeis

im itar-m e. Meu segredo perm anece virginal e m eus m istérios são invioláveis, pertencem a m im e não

podem jam ais pertencer-vos. Vós tendes os vossos l6 \

Quem entra no que éseuprecisa tatear pelo próxim o, precisa apalpar seu cam inho pedra por pedra.

Precisa abraçar o inútil e o valioso com o m esm o am or. Um a m ontanha é um nada, e um grão de areia

oculta reinos ou tam bém não. O julgam ento precisa abandonar-te, inclusive o saber, m as sobretudo o

orgulho, ainda que repouse sobre m éritos. Bem pobre, m iserável, hum ilde, ignorante, passa pela porta.

Vira tua raiva contra ti m esm o, pois só tu estorvas a ti m esm o tanto no contem plar com o no viver. O

jogo dos m istérios é delicado com o o ar e fum aça ténue, e tu és m atéria bruta, de peso incóm odo. Mas

tua esperança, que é teu m aior bem e m aior poder, deixa ir em frente e servir-te de guia no m undo da

escuridão, pois ela éda m esm a substância que as conform ações daquele m undo164 [Im a gem v ( v ) ] l 6 5 .

O cen ário do jogo dos m ist érios é u m lugar fundo com o a crat era de u m
vulcão. Meu in t er ior profun do é u m vu lcão que lan ça para fora a lava in can -
descente do que n u n ca se form ou , do in discern ível. Assim m eu ín t im o d á à lu z

(introductíon to Jungian Psychology, p. 68-69). A seguir, Jung refere-se a exemplos deste tipo presentes na obra
de Melville, Meyrink, Rider Haggard e na lenda gnóstica de Simão Mago (cf. adiante, n. 154, p. 487),
Kun dry e Klingsor do Parsifal de Wagner (cf. adiante, n. 221, p. 322S.) e na Hypnerotomachía de Francesco
Colonna. Em Memórias, ele disse a respeito da serpente: "Nos mitos a serpente está frequentemente
associada ao herói. Existem numerosos relatos de sua afinidade... Por isso a presença da serpente era um
indício de um mito do herói" (p. 20 6 ) . A respeito de Salomé, Jung disse: "Salomé é uma figura da anima.
Ela é cega porque não vê o sentido das coisas. Elias é a figura do velho profeta sábio e representa o fator
de inteligência e conhecimento; Salomé representa o elemento erótico. Poder-se-ia dizer que as duas
figuras são personificações de Logos e Eros. Mas esta definição seria excessivamente intelectual. Faz mais
sentido deixar as figuras serem o que elas foram para m im naquele tempo - a saber, acontecimentos
e experiências" (introductíon to Jungian Psychology, p. 96-97). Em 1955/1956, Jung escreveu: "Partindo de
considerações puramente psicológicas, procurei em outro lugar caracterizar a consciência masculina com o
conceito de Logos e a feminina com o de Lros. Assim , por 'Logos' entendi o distinguir, julgar e reconhecer e
por 'Eros' entendi o pôr em relação" (Mysteríum coníunctionís. O C , 14, § 224). Sobre a interpretação que Jung
dá de Elias e Salomé em termos de Logos e Eros respectivamente, cf. apêndice B, "Comentários".
162 O esboço corrigido tem: Reflexão doutrinal (p. 8 6 ) . O esboço e o esboço corrigido têm: "Ist o, meus amigos, é um
jogo de mistérios para o qual o espírito da profundeza me trasladou. Eu havia conhecido o nascimento
do novo Deus [a concepção], e por isso o espírito da profundeza me deixou participar das cerimónias
subterrâneas,que deveriam instruir-me sobre as intenções e obras de Deus. Através desses jogos deveria eu
ser iniciado nos mistérios da salvação" (esboço corrigido p. 86).
163 O esboço continua: "No mundo renovado não podeis possuir nada exteriormente, a não ser que vós
mesmos o crieis a partir de vós. Tu só podes entrar em teus próprios mistérios. O espírito da profundeza
tem outra coisa a te ensinar do que a m im . Eu só devo informar-vos sobre o novo Deus e sobre as
cerimónias e mistérios de seu serviço. Mas este é o caminho. E a porta das trevas" (p. 100).
164 O esboço continua: "O jogo dos mistérios realizou-se no mais profundo de meu ser íntimo, que é
precisamente aquele outro mundo. Tu precisas prestar atenção, é também um mundo e sua realidade
é grande e assustadora. Tu choras e ris, tremes e às vezes poreja de t i o suor do medo da morte. O jogo
dos mistérios representa a m im mesmo e, através de m im , é representado de novo aquele mundo ao qual
pertenço. Portanto, meus amigos, aprendeis daquilo que vos digo aqui muita coisa sobre o mundo e,
através dele, sobre vós. Mas com isso não percebestes nada de vossos mistérios, sim, vosso caminho está
mais escuro do que antes, pois meu exemplo vai ser um estorvo para vós em vosso caminho. Vós podeis
seguir-me, mas não em meu caminho, e sim no vosso" (p. 102).
165 Isto retrata a cena na fantasia.
M YS T E R Í U M . E N C O N T R O

filh os do caos, d a m ãe prim eva. Q u e m en t ra n a crat era vir a m at éria caót ica,
derret e-se. O form ado n ele se dissolve e se un e de form a n ova com os filh os do
caos, os poderes das trevas, os dom in adores e sedutores, os coercit ivos e alicia-
dores, os d em on íacos e d ivin os. Essas forças ult rapassam de todos os lados m eu
d et erm in ad o e lim it ad o e m e u n em com todas as form as e com todos os seres e
coisas dist an t es, pelas quais sou in form ad o sobre seu ser e sua n at ureza.
Pelo fato de eu t er caído n a fon te do caos, n o p rim ord ial, t orn o-m e eu m es-
m o refu n dido n a u n ião com o p r im or d ial que é ao m esm o tem po o que já foi
e o que será. E m p r im eir o lugar, chego ao p r im or d ial em m im . Mas assim , p or
ser part e d a m at éria do m u n d o e da con st it u ição do m un do, chego t am bém ao
p r im or d ial do m u n d o em geral. Co m o ser form ado e d et erm in ad o p art icip ei
da vid a, m as só através de m in h a con sciên cia form ada e d et erm in ad a e p or
m eio disso n o ped aço form ado e d et erm in ad o do todo cósm ico, mas n ão n o
n ão form ado e in d et erm in ad o do m un do, que t am bém m e é dado. Mas só é
dada m in h a profun deza, n ão m in h a superfície, que é con sciên cia form ad a e
d et erm in ad a.
O s poderes de m in h a profun deza são o p red et erm in ar e o p r a z e r 16 6 . O p re-
d et erm in ar e o pen sar p r é vio 16 7 são o Pr o m e t e u 16 8 , que, m esm o sem ideias d e-
t erm in ad as, d á form a e d et erm in ação ao ca ó t ico 16 9 , que cava os can ais e apre-
sen t a o objet o ao prazer. O pen sar prévio t am bém est á antes do pen sar p ro-
priam en t e dito. Mas o prazer é a força que, sem form a e d et erm in ação, deseja
e d est rói form as. Ele am a a form a que ela assume em si, mas d est rói a form a
que ela n ão assume. O que pen sa previam en t e é u m vid en t e, mas o prazer é
cego. Ele n ão prevê, mas deseja aquilo que toca. O pen sar prévio n ão t em força
e p or isso n ão é m oven t e. O pen sar prévio precisa do prazer para alcan çar a
con figuração. O prazer precisa do pen sar prévio para chegar à form a de que
n ecessit a 170 . Q u an d o o prazer n ão t em o form an t e vai d ilu ir -se n o m u lt iform e
e, através de in t erm in ável part ição, ficará d esped açad o e im pot en t e, perdido n o

166 Um a interpretação subjetiva das figuras de Elias e Salomé.


167 No esboço corrigido "Predeterminar ou pensar previamente" é substituído por "a ideia". Esta substituição
ocorre durante o resto desta seção (p. 89 ).
168 Na mitologia grega, Prometeu criou a humanidade a partir do barro. Ele podia predizer o futuro e seu
nome significa "previsão". Em 1921 Jung escreveu uma extensa análise do poema épico de Carl Spitteler
Prom etheusundEpim etheus (1881) junto com o Prom etheus Fragm ent (1773) de Goethe (Tipos Psicológicos. O C , 6, cap. 5).
169 O esboço corrigido tem: "lim itação" (p. 8 9 ) .
170 O esboço continua: "Por isso veio a m im o pensador prévio como Elias, o profeta, e o prazer como Salomé"
(p. 103).
162 L I B E R P R I M U S foi. v(r)/ v(v)

in fin it o. Se u m a form a n ão t om a para si o prazer e o con den sa n ão pode chegar


ao m ais elevado, pois ele corre com o água, sem pre de cim a para baixo. Todo
prazer en tregue a si m esm o corre para o m ar profun do e t er m in a n a m ort e
im óvel da irradiação n o espaço in fin it o. O prazer n ão é m ais velh o do que o
pen sar prévio, e o pen sar prévio n ão é m ais velh o do que o prazer. Am b os t êm a
m esm a idade e são in t im am en t e un os por n at ureza. Só n o ser h u m an o t orn a-se
m an ifest a a separação dos dois prin cípios.
Alé m de Elias e Salom é, en con t ro com o t erceiro p rin cíp io a ser p en t e 171. El a
é u m a est ran h a en t re os dois prin cípios, ain d a que ligada a ambos. A serpen te
m e en sin a a diversidade in con d icion al de n at u reza dos dois prin cípios em m im .
Q u an d o olh o a p art ir do pen sar prévio para além do prazer, vejo em p rim eiro
lugar a repugn an te e ven en osa serpen te. Q u an d o sin t o a p art ir do prazer para
além do pen sar prévio, sin t o p rim eiram en t e a fria e h orrível ser p en t e 172 . A ser-
pen te é a n at u reza t erren a do ser h u m an o da qual n ão t em con sciên cia. Sua
m an eira m u d a de acordo com o país e o povo, pois é o secreto que lh e aflui da
m ãe-t erra n u t r iz 17 3 .
A con d ição t erren a (numen locí) separa o pen sar p révio e o prazer n o ser
h u m an o, m as n ão em si. A serpen t e t em sobre si o peso d a t erra, m as t am bém
seu m u t ável e germ in an t e, do qu al tudo p rovém . Sem pre é a serpen t e que faz
com que o ser h u m an o su cu m ba ora a u m ora a ou t ro p rin cíp io de t al form a
que se t orn e erro. N ã o se pode viver só com pen sar p révio ou só com o prazer.
Tu precisas dos dois. N ã o podes ficar ao m esm o t em po n o pen sar p révio e n o
prazer, m as deves ficar alt ern ad am en t e n o pen sar p révio e n o prazer, obede-
cen do às leis respect ivas, ou seja, in fiel ao out ro. Mas as pessoas d ão p referên -
cia a u m ou outro. Un s preferem o pen sar e baseiam sobre ele a art e da vid a.
Exe r cit a m seu pen sar e sua caut ela, e p erd em assim seu prazer. Por isso são
velh os e t êm u m rost o severo. O u t r o s am am o prazer, exercit am seu sen t ir e

171 O esboço continua: "O animal de horror mortífero que estava deitado entre Adão e Eva" (p. 105).
172 O esboço corrigido tem: "A serpente não é só um princípio separador, mas também unificador" (p. 91).
173 Ao comentar isto no seminário de 1925, Jung observou que havia na mitologia muitos relatos da relação
entre um herói e uma serpente, de modo que a presença da serpente indicava que "será novamente um
mito do herói" (p. 89). Mostrou um diagrama de uma cruz com Racional/ Pensamento (Elias) no alto,
Sentimento (Salomé) ao pé, Irracional/ Intuição (Superior) à esquerda e Sensação/ Inferior (Serpente) à
direita (p. 9 0 ) . Jung interpretou a serpente negra como a libido introvertida: "A serpente desencaminha
aparentemente o movimento psicológico para o reino de sombras, mortos e imagens falsas, mas também
para a terra, para a concretização... Na medida em que a serpente leva para as sombras, ela desempenha a
função da anima; ela leva você para as profundezas, conecta o superior e o inferior... a serpente é também o
símbolo da sabedoria" (introductíon to Jungian Psychology, p. 102-103).
M YS T E R I U M . E N C O N T R O 163

viven ciar. Perd em assim o pensar. Por isso são joven s e cegos. O s que pen sam
baseiam o m u n d o sobre o pensado, os sen sit ivos, sobre o sen t ido. T u en con t ras
verdade e erro em am bos.
A exem plo da serpen t e, o cam in h o da vid a ziguezagueia da d ir eit a para a
esquerda e d a esquerda para a d ireit a, do pen sar para o prazer e do prazer para
o pensar. Port an t o, a serpen te é u m adversário e sím bolo da in im izad e, con t udo
u m a pon t e sábia que liga d ir eit a e esquerda através do desejo, segundo a n eces-
sidade de n o ssa vid a.
I74
0 lugar onde Elias e Salom é m oram ju n t os é u m espaço escuro e claro. O
espaço escuro é o espaço do pen sar prévio. Ele é escuro, por isso aquele que o
h abit a precisa de visã o 175 . Est e espaço é lim it ad o, por isso o pen sar prévio n ão
con duz a u m a vast a am plidão, mas à profun deza do passado e do futuro. O
crist al é a id eia form ada, que b r ilh a n o passado vin d ou ro.
Eva / e a serpen te m e m ost ram que m eu p róxim o cam in h o m e leva para o foi.v( r )
prazer e d aí ou t ra vez para u m longo cam in h o errado, com o Ulisses. Ele n ave- ^ ^
gou n o erro quan do astuciosam en te sen t iu prazer em Tr ó ia 176 . O jar d im lu m i-
noso é o espaço do prazer. Q u e m o h abit a n ão precisa da visã o 177 ; ele sente o
in fin it o 178 . U m a pessoa que pen sa e que desce para seu pen sar prévio en con t ra
u m p r óxim o cam in h o n o jar d im de Salom é. Por isso a pessoa que pen sa tem e
seu pen sar prévio, apesar de viver com base n ele. A superfície visível é m ais
segura do que os subfun dam en tos. O pen sar protege con t ra o cam in h o errado,
por isso con duz à petrificação.
U m a pessoa que pen sa tem e Salom é, pois ela quer sua cabeça, sobretudo
quan do ele é u m santo. U m a pessoa que pen sa n ão deve ser u m santo, sen ão cai
sua cabeça. N ã o ajuda n ada escon der-se n o pensar. Lá te alcan ça o en t orp eci-
m en t o. Deves volt ar ao t eu pen sar prévio m at ern al para t om ar ren ovação. Mas
o pen sar prévio con duz à Salom é.

174 O esboço continua: "Seguindo Elias e Salomé, sigo os dois princípios em m im e, através de m im , no mundo
do qual sou parte" (p. 106).
175 O esboço corrigido tem: "i . e, do pensar. E sem pensar não se capta nenhuma ideia" (p. 92).
176 O esboço continua: "O que seria de Ulisses sem a viagem errada?" (p. 107). O esboço corrigido acrescenta:
"Não teria havido Odisseia" (p. 92).
177 O esboço corrigido tem: "Bem mais do prazer, a fim de usufruir do jardim " (p. 92).
178 O esboço corrigido tem: "é impressionante que o jardim de Salomé fique tão perto do salão respeitável e
misterioso das ideias. Esvoaça por isso um respeito pensante ou talvez mesmo um temor diante da ideia,
devido à sua proximidade do paraíso?" (p. 92).
164 L I B E R P R I M U S foi. v(r)/ vi(v)

179
Po r q u e fu i u m pen sador e porque avist ei o p rin cíp io h ost il do prazer a
p ar t ir do pen sar prévio, pareceu-m e ele ser Salom é. Se tivesse sido u m sen t i-
m en t al e tivesse tateado para além , para o pen sar prévio, t eria m e parecido a
u m d áim on serpen t iform e, caso o tivesse enxergado. Mas eu t eria sido cego. Só
t eria sen t ido coisas escorregadias, m ort as, perigosas, cren ças ultrapassadas, co i-
sas desin teressan tes, coisas adocicadas e t eria m e afastado com o m esm o h or r or
com o qu al me afastei de Salom é.
O s prazeres d a pessoa que pen sa são m aus, por isso ela n ão t em prazer.
O s pen sam en tos do se n t im e n t a l 18 0 são m aus, por isso n ão t em pen sam en tos.
Q u e m prefere pen sar a se n t ir 18 1 d eixa apodrecer seu se n t ir 18 2 n o escuro. N ã o
am adurece, mas faz brot ar n o m ofo t repadeiras doen t ias que n ão alcan çam a
lu z. Q u e m prefere sen t ir a pensar, este d eixa seu pen sar n o escuro, onde tece
sua t eia em can tos sujos, tram as desoladoras em que ficam presas moscas e
m ariposas. O pen sador sente o repugn an te dos sen t im en t os, pois o sen t im en t o
n ele é sobretudo repugn an te. O sen sit ivo pen sa o repugn an te dos pen sam en -
tos, pois o pen sar n ele é sobretudo repugn an te. Port an t o, a serpen te est á en t re
aquele que pen sa e aquele que sente. São m u t u am en t e ven en o e t erapia.
No jar d im teve que se revelar para m im que eu am o Salom é. Est e con h eci-
m en t o m e at orm en t ou , pois n ão o h avia im agin ado. O que u m pen sador n ão
pen sa, ele acha que n ão exist e e o que u m sen sit ivo n ão sen te, ele ach a que n ão
exist e. T u com eças a vislu m b rar o todo quan do dom in as t eu con t raprin cípio,
pois o todo repousa sobre dois prin cípios que n ascem de u m a só r a iz 18 3 .
Elias d izia: "E m seu am or deves recon h ecê-la". N ã o só t u san tificas o objeto,
m as o objeto san t ifica t am bém a t i. Salom é am ava o profet a, e ist o a san t ificava.
O profet a am ava a Deu s, e ist o o san t ificava. Mas Salom é n ão am ava a Deu s, e
ist o a dessan tificava. O profet a n ão am ava Salom é, e ist o o dessan tificava. Por-
t an t o eram ven en o e m ort e u m para o outro. Q u e o pen sador receba seu prazer
e o sen t im en t al, seu p róp rio pensar. Ist o con d u z ao ca m in h o 18 4 .

179 O esboço continua: "Eu era um pensador. O que poderia causar-me maior admiração do que a união
interna dos princípios hostis do pensar prévio e do prazer?" (p. 108).
180 Em vez disso, o esboço corrigido tem: "que sente prazer" (p. 94).
181 No esboço corrigido está: "prazer" (p. 94).
182 No esboço corrigido está: "prazer" (p. 94).
183 O esboço continua: "como disse um de vossos poetas: 'O poço suporta dois ferros'" (p. l i o ) .
184 Em 1913 Jung apresentou seu ensaio "A questão dos tipos psicológicos", no qual notava que a libido
ou energia psíquica num indivíduo estava dirigida caracteristicamente para o objeto (extroversão) ou
para o sujeito (introversão) ( O C, 6 ). A partir do verão de 1915, ele manteve sobre essa questão uma
I N ST RU ÇÃO 165

In strução
[IH vi( r ) ]
Cap. x.

N a n oit e segu in t e 18 5 fu i con d u zid o a u m a segunda im agem : estou de pé n a


profun deza roch osa que m e parece u m a crat era. Dian t e de m im vejo a casa
c h e i a d e co lu n a t a s. Ve j o Sa l o m é a n d a n d o p a r a a e s q u e r d a ao lo n go d a p a r e d e
da casa, apalpan do o cam in h o com o cega. E seguida pela serpen te. N a p ort a
est á o velh o, que m e acena. H esit an t e, eu m e aproxim o. Ch a m a Salom é de vo l-
ta. Parece u m a pessoa doen te. N ã o consigo descobrir n ada de sua m aldade em
sua n at u reza. Suas m ãos são bran cas e seu rosto, de expressão m eiga. Dian t e
dos dois est á a serpen te. Est ou d ian t e deles, sem jeit o, com o u m garoto bobo,
dom in ado pela in decisão e am biguidade. O velh o me olh a p erqu irid or e d iz:
"O que queres aqui?"
Eu : "Perd oa, n ão é im p ert in ên cia n em presu n ção que m e t razem aqui. Est ou
aqui com o por acaso; n ão sei o que quero. U m desejo, que ficou on t em em m im
em t u a casa, foi que m e t rou xe aqui. Vê , profet a, est ou cansado, m in h a cabeça
está pesada com o ch um bo. Est o u perdido em m in h a ign orân cia. Já b r in q u ei
dem ais com igo. Fo r am jogos h ipócrit as que eu fazia com igo, e todos m e t e-
r iam causado repu gn ân cia se eu n ão tivesse sido esperto de jogar n o m u n d o das
pessoas o que os out ros de n ós esperam . A m im m e parece que seria m ais real.
Con t u d o n ão gosto de estar aqu i".
Calad os, Elias e Salom é en t raram n a casa. Fu i atrás com relut ân cia. At o r -
m en t ava-m e u m sen t im en t o de culpa. Seria m á con sciên cia? Gost ar ia de volt ar,
mas n ão posso. Est o u dian t e do jogo in cen d iário do crist al fulguran te. Vejo

extensa correspondência com Hans Schmid, em que ele agora caracterizava os introvertidos como
sendo dominados pela função do pensar e os extrovertidos como sendo dominados pela função do
sentir. Caracterizou também os extrovertidos como sendo dominados pelo mecanismo de prazer-dor,
procurando encontrar o amor do objeto, e inconscientemente buscando o poder tirânico. O s introvertidos
buscavam inconscientemente o prazer inferior e precisavam ver que o objeto era também um símbolo de
seu prazer. A 7 de agosto de 1915, Jung escreveu a Schmid: "Os opostos precisam ser equilibrados no próprio indivíduo"
( I SE LI N , H . K. (org.). ZurEntstehungvonC.G.Jungs"PsychologischenTypen", p. 6 6 ). Esta ligação entre pensar
e introversão e entre sentir e extroversão foi mantida em sua análise deste tema em 1917 em "Psicologia
dos processos inconscientes'. Em Tipos Psicológicos, em 1921, este modelo havia-se expandido para englobar dois
grandes tipos de atitude de introvertidos e extrovertidos, ulteriormente subdivididos pela predominância
de uma das quatro funções psicológicas de pensar, sentir, sensação e intuição.
185 22 de dezembro de 1913. Em 19 de dezembro de 1913, Jung deu uma palestra na Associação Psicanalítica
de Zurique sobre "A psicologia do inconsciente".
i66 L I B E R P R I M U S foi. v(r)/ vi(v)

n o b r i l h o a m ã e d e D e u s c o m a cr ia n ça . D i a n t e d e la e s t á P e d r o e m a d o r a ç ã o

- Pedro sozin h o com a chave - o Papa com a t iara t ríplice - u m Bu d a sen t a-


do im óvel no círculo de fogo - u m a deusa en san guen tada de quat ro b r a ço s 18 6
- Salom é é aquilo com as m ãos t orcidas em d esesp er o 18 7 - ist o m e en volve, é
m in h a própria alm a e agora vejo Elias n a im agem da pedra.
Elias e Salom é est ão d ian t e de m im sorrin d o.
Eu : "Est e olh ar é an gustian te, e o sen t ido dessas im agens é obscuro para
m im , Elias; gost aria de p ed ir-lh e, dá lu z".
Elias se afasta em silên cio e vai em fren t e para a esquerda. Salom é vai p ara
a d ir eit a e en t ra n u m a arcada. Elias m e con d u z a u m a sala ain d a m ais escura.
N o teto est á pen d u rad a u m a lâm pad a de lu z averm elh ada. Sen t o-m e n u m a
cad eira, esgotado. Elias está d ian t e de m im , en cost ado n u m leão de m árm ore,
n o m eio da sala.
E: "Est ás com m edo? Tu a ign orân cia acusa de cu lpa t u a m á con sciên cia. N ã o
saber é culpa, mas t u presum es que a necessidade de saber proibid o seja a causa
de t eu sen t im en t o de culpa. Por que achas que estás aqui?"
Eu : "E u n ão sei. Eu m ergu lh ei neste lugar quan do eu , ign oran t e, desejei o
n ão ignorado. E assim estou aqui, adm irado e confuso, u m p ort ão ign oran t e.
Eu percebo coisas m aravilh osas em t u a casa, coisas que m e assustam e cujo
sign ificado d escon h eço".
E: "N ã o seria t u a lei estar aqu i, sen ão com o estarias aqui?"
Eu : "Acom et e-m e o sen t im en t o de fraqueza m ort al, m eu pai".
E: "T u foges. N ã o podes livr ar -t e de t u a lei".
Eu : "Co m o posso livr ar -m e daquilo que m e é descon hecido, que n ão posso
at in gir n em com sen t im en t o e n em com pressen t im en t o?"
E: "T u m en tes. N ã o sabes que t u m esm o conheceste o que sign ifica quan do
Salom é te am a?"

186 O esboço continua: "Kali" (p. 113).


187 Livro Negro 2: "ora aquela figura branca de menina com o cabelo preto - minha própria alma —, ora aquela
figura branca de homem, que naquela época também me apareceu - ela é como o Moisés sentado de
Michelangelo - é Elias" (p. 84). O Moisés de Michelangelo está na Igreja de São Pedro Acorrentado, em
Roma. Foi objeto de um estudo de Freud, publicado em 1914 (The Standard Edition of the Complete Psychological
W orks ofSigmund Freud. 24 vols. Vol. 13, Londres: Th e Hogarth Press and Th e Institute of Psycho-analysis,
1953-1974 [org. por J. Strachey]). O pronome da terceira pessoa "aquilo" identifica aparentemente Salomé
como Kali, cujas diversas mãos se retorcem mutuamente. Cf. nota 196, p. 250.
I N ST RU ÇÃO 167

Eu : "Ten s razão. Su rgiu -m e u m a id eia du vidosa e in cert a. Mas eu a esqueci


de n ovo".
E: "T u n ão a esqueceste. El a qu eim ou fun do em t eu in t erior. T u és covarde?
O u n ão consegues d ist in gu ir su ficien t em en t e esta id eia de t i m esm o, de form a
que dela quisesses t om ar posse?"
Eu : "A id eia foi m u it o longe, e eu tem o ideias que voam longe. São perigo-
sas, pois sou u m ser h u m an o, e t u sabes que as pessoas est ão m u it o acostumadas
a con siderar ideias com o coisas próprias suas, de m odo que acabam se con fu n -
d in d o afin al com elas".
E: "Vais con fu n d ir-t e com u m a árvore ou u m an im al, só porque os vês e
porque eles vivem con tigo n u m m esm o m un do? Precisas ser tuas ideias, por-
que vives n o m u n d o de tuas ideias? Tuas ideias est ão t ão fora de t eu si-m esm o
quan to as árvores e os an im ais est ão fora de t eu co r p o "18 8 .
Eu : "En t en d o. Me u m u n d o das ideias foi para m im m ais palavra do que
m un do. E u pen sei de m eu m u n d o das ideias: elas são eu ".
E: "D iz e s a t eu m u n d o h u m an o e a cada ser fora de t i: t u és eu?"
Eu : "Eu en t rei em t u a casa, m eu pai, com o m edo de u m alun o de escola. Mas
t u m e en sin aste sabedoria salu t ar 18 9 . Tam bém posso con t em plar m in h as ideias
com o estan do fora de m im . Ist o m e ajuda a volt ar àquela con clusão assustadora
que m in h a lín gu a tem e em pron u n ciar. Eu pen sei que Salom é m e am a porque
sou parecido com João ou contigo. Est a id eia m e pareceu in acredit ável. Por isso
a descart ei e pen sei que ela m e am a porque sou m u it o con t rário a t i, ela am a sua
m aldade n a m in h a m aldade. Est a id eia foi an iqu ilad ora".
Elias ficou quieto. Desceu u m peso sobre m im . En t ão en t r ou Salom é, apro-
xim ou -se de m im e colocou seu braço em m eu om bro. Cer t am en t e m e t om ou
por seu pai, em cu ja cad eira eu estava sentado. N ã o ousei m exer-m e n em falar.
S: "Sei que n ão és o pai. T u és seu filh o, e eu sou t u a irm ã".
Eu : "T u , Salom é, m in h a irm ã? Fo i esta a t errível sen sação que em it ist e,
aquele in om in ável h or r or de t i, de t eu con tato? Q u e m foi n ossa m ãe?"

188 Jung mencionou esta conversa no seminário de 1925 e comentou: "Só então aprendi a objetividade
psicológica. Só então pude dizer a um paciente: Tiqu e calmo, algo está acontecendo'. Existem coisas
como ratos numa casa. Não se pode dizer que alguém está errado quando tem um pensamento. Para
compreender o inconsciente devemos ver nossos pensamentos como acontecimentos, como fenómenos"
(introductíon to Jungian Psychology, p. 103).
189 Em vez disso, o esboço corrigido tem: "verdade" (p. 100).
i68 LI BERP RI M U S foi.v(r)/ vi(v)

S: "Mar ia".
Eu : "Ist o é u m sonho in fern al? Maria, n ossa m ãe? Q u e lou cu ra se escon -
de n est a t u a palavra? A m ãe do Salvador, n ossa m ãe? Q u an d o ult rapassei h oje
vosso lim iar, pressen t i desgraça. Ai ! Acon t eceu . Perdeste o juízo, Salom é? Elias,
guarda do d ireit o d ivin o, dize: Ist o é u m sort ilégio d em on íaco dos réprobos?
Co m o pode ela d izer sem elh an te coisa? O u ambos estais fora do juízo? Vó s
sois sím bolos, e Ma r ia é u m sím bolo. Eu est ou apenas confuso dem ais para vos
com preen der agora".
E: "T u podes ch am ar-n os de sím bolos com o m esm o d ireit o que podes ch a-
m ar de sím bolos t am bém as outras pessoas iguais a t i. Nad a enfraqueces e n ada
resolves ao nos ch am ar de sím bolos".
Eu : "T u m e lan ças n u m a con fusão t errível. Vó s quereis ser reais?"
E: "Co m cert eza somos aquilo que cham as de real. Aq u i estam os n ós, e t u
tens de nos aceitar. T u tens a escolh a".
Eu m e calei. Salom é afastou-se de m im . O lh e i desconfiado ao redor de m im .
At rás de m im ard ia u m a ch am a am arelo-averm elh ad a n u m alt ar redon do. Em
t orn o da ch am a se d eit ara a serpen te em form a de círculo. Seus olhos faiscavam
o reflexo am arelado. En cam in h ei-m e vacilan t e para a saída. Ao passar pelo sa-
lão, vi an dan do à m in h a fren te u m en orm e leão. For a era n oit e fria e estrelada.

I9
[2] °N ã o é pouca coisa ad m it ir seu desejo. Mu it as pessoas precisam para
isso de u m esforço especial de sua lealdade. Mu it os n ão qu erem saber onde
está seu desejo, pois lh es pareceria im possível ou por dem ais doloroso. E, ape-

190 O esboço corrigido tem: reflexão (p. 103). No esboço e no esboço corrigido ocorre uma passagem longa. O que segue
aqui é uma paráfrase: Eu me pergunto se isto é real, um mundo inferior, ou a outra realidade, e se foi a outra
realidade que me impeliu para cá. Vejo aqui que Salomé, meu prazer, move-se para a esquerda, o lado do
impuro e mau. Este movimento segue a serpente, que representa a resistência e a hostilidade contra este
movimento. O prazer se afasta da porta. O pensar prévio [esboço corrigido: "a ideia", ao longo de toda esta
passagem] está à porta, conhecendo a entrada para os mistérios. Por isso o desejo funde-se nos muitos, se o
pensar prévio não o orienta e não o impele para a sua meta. Se encontramos um homem que apenas deseja,
encontraremos, por trás do desejo, resistência contra o desejo dele. O desejo sem pensar prévio ganha
muito, mas não conserva nada, por isso seu desejo é a fonte de constante decepção. Por isso Elias chama
de volta Salomé. Se o prazer está unido com o pensar prévio, a serpente permanece diante deles. Para ter
sucesso em alguma coisa, é preciso primeiro lidar com a resistência e a dificuldade, caso contrário a alegria
deixa para trás dor e decepção. Por isso aproximei-me mais. Eu precisava primeiro superar a dificuldade e a
resistência para conseguir o que eu desejava. Quando o desejo supera a dificuldade, torna-se visão e segue o
pensar prévio. Por isso vejo que as mãos de Salomé estão puras, sem nenhum vestígio de crime. Meu desejo
é puro se eu primeiro superar a dificuldade e a resistência. Se eu examino cuidadosamente o prazer e o
pensar prévio, sou como um louco, que segue cegamente seus anseios. Se eu sigo meu pensamento, renuncio
ao meu prazer. O s antigos diziam em imagens que o louco encontra o caminho certo. O pensar prévio tem
a primeira palavra, por isso Elias perguntou-me o que eu queria. Sempre se deve perguntar a si mesmo o
que se deseja, já que existem pessoas demais que não sabem o que querem. Eu não sabia o que eu queria.
Você deve confessar a você mesmo seus anseios e aquilo por que você anseia. Assim você satisfaz seu prazer
e alimenta seu pensar prévio ao mesmo tempo (esboço corrigido, p. 103-104).
I N ST RU ÇÃO 169

sar disso, o desejo é o cam in h o da vid a. Se n ão adm ites t eu desejo, n ão segues


a t i m esm o, m as t rilh as cam in h os estran h os, prescrit os por outras pessoas. E
assim n ão vives a t u a vid a, mas u m a vid a est ran h a. Mas qu em deve viver t u a
vid a, se t u n ão a vives? N ã o é apenas im becilidade t rocar sua p róp ria vid a por
u m a est ran h a, mas t am bém u m a b rin cad eira est úpida, pois n u n ca con seguirás
viver realm en t e a vid a de ou t ra pessoa, t u apenas a finges, enganas o ou t ro e a t i
m esm o, pois só podes viver t u a p róp ria vid a.
Se d e sist e s d e t e u s i- m e s m o , va is vi vê - l o e m o u t r a p esso a; t u te t o r n a r á s
egoíst a em relação a ela e, assim , en gan arás a ou t ra pessoa. Todos acred it am que
t al vid a é possível. Mas é apenas im it ação sim iesca. A fim de ceder a teus ap et i-
tes sim iescos, con t am in as a ou t ra pessoa, porque o m acaco est im u la o sim iesco.
Assim , fazes de t i e da ou t ra pessoa u m macaco. At ravés de im it ação m ú t u a vi -
veis segundo a expect at iva m edian a, para a qual foi estabelecida em t oda a ép o-
ca, através dos desejos de im it ação de todos, u m a im agem , u m h erói. Por isso o
h erói foi assassinado, pois t orn am o-n os todos para ele macacos. Sabes por que
n ão consegues abrir m ão do sim iesco? Por m edo da solidão e d a sujeição.
Vive r a si m esm o sign ifica: ser tarefa para si mesmo. N ã o digas n u n ca que é
u m prazer viver a si mesmo. N ã o será n en h u m a alegria, mas u m longo sofrim en -
to, pois precisas t orn ar-t e t eu próprio criador. Se quiseres criar a t i m esm o, n ão
comeces pelo m elh or e m ais elevado, mas pelo pior e m ais baixo. Por isso dize
que te repugn a viver a t i mesmo. A con fluên cia dos rios da vid a n ão é alegria,
mas dor, pois é violên cia con t ra violên cia, culpa, e rom pe com coisas sagradas.
A im agem da m ãe de Deu s com a criança, que ten h o dian te dos olhos, d á-m e
o en t en dim en t o do m ist ério da t ran sform ação 19 1. Q u an d o pensam ento prévio e
prazer se u n em em m im , surge u m terceiro, o Filh o divin o, que é o sen tido supre-
mo, o sím bolo, a passagem para u m a n ova criat ura. Eu m esm o n ão me t orn o sen -
tido su p r em o 19 2 ou sím bolo, mas o sím bolo torn a-se em m im , de t al form a que
ele t em sua substância, e eu a m in h a. Assim estou eu, com o Pedro, em adoração
dian te do m ilagre da tran sform ação e do t orn ar-se realidade de Deu s em m im .
Ain d a que eu m esm o n ão seja o filh o de Deu s, represen t o-o con t udo com o
alguém que foi m ãe para Deu s e a qu em por isso foi dado, em n om e de Deu s,
a liberdade do atar e desatar. O atar e desatar acontece em m i m 19 3 . En qu an t o
acontece em m im , e eu sou part e do m un do, acontece t am bém através de m im

191 O esboço corrigido tem: "em sua manifestação exterior, na miséria da realidade terrena" (p. 107).
192 Em vez disso, o esboço corrigido tem: "Filh o de Deus" (p. 107).
193 Cf. Mt 18,18: "Tudo que ligardes na terra será ligado nos céus, e tudo que desligardes na terra será
desligado nos céus".
170 L I B E R P R I M U S foi. v(r)/ vi(v)

n o m u n d o, e n i n g u é m p o d e i m p e d i - l o . Mas n ã o a co n t e ce p o r v i a d e m i n h a v o n -
tade, e sim por via de efeito in evit ável. N ã o sou eu que sou sen h or sobre vós,
mas o ser de Deu s em m im . Co m u m a chave t ran co o passado, com a ou t ra abro
o futuro. Ist o acontece en quan t o m e t ran sform o. O m ilagre da t ran sform ação é
que com an da. Eu sou seu servo, igual ao Papa.
Vê s que é m u it o desvairam en t o acredit ar ist o de si m e sm o 19 4 . N ã o se aplica
a m im , mas ao sím bolo. O sím bolo t orn a-se m eu sen h or e soberan o in falível,
vai fir m ar seu d om ín io e se t ran sform ar n u m a im agem rígida e en igm át ica,
cujo sen t ido se volt a t ot alm en t e para d en t ro e cujo prazer relu z para fora com o
fogo ch am ejan t e 19 5 , u m Bu d a n a ch a m a 19 6 . En qu an t o assim m e con cen t rava em
m eu sím bolo, o sím bolo de m eu u m m e t ran sform a em m eu out ro, e aquela
deusa cru el de m eu in t erior, m eu prazer fem in in o, m eu au t ên t ico out ro, o at or-
m en t ad or at orm en t ado, n aqu ilo a ser atorm en tado. In t er p r et ei esta im agem o
m elh or que pude com palavras pobres.

19 7
Segue n o m om en t o de t u a con fusão t eu pen sar prévio, n ão t eu apetite
cego, pois o pen sar prévio te con duz ao difícil, que sem pre deve chegar em

194 O esboço e o esboço corrigido continuam: "O papa em Rom a tornou-se para nós uma imagem c símbolo
de como se realiza a encarnação de Deus e de como ele (Deu s) se torna o senhor visível dos homens.
Portanto, o Deus vindouro torna-se o senhor do mundo. Isto acontece primeiramente (aqui) em mim. O
sentido supremo torna-se meu senhor e soberano infalível, mas não só em m im , talvez também em muitos
outros que eu não conheço" (esboçocorrigido p. 108-109).
195 O esboço corrigido tem: "torno-me então como o Buda sentado no fogo" (p. 109).
196 O esboço corrigido continua: "Onde está a ideia, também está sempre o prazer. Se a ideia está dentro, o
prazer está fora. Por isso me envolve então exteriormente um brilho de prazer pior. Um a divindade lasciva
e ávida de sangue me dá o brilho falso. Isto provém do fato de eu ter de suportar totalmente o vir a ser de
Deus e que por isso não posso separá-lo de m im inicialmente. Mas enquanto não estiver separado de m im ,
sou tomado pela ideia de que eu sou ela, e por isso sou também a mulher, que está ligada desde o começo
à ideia. Ao receber a ideia e a apresentar à maneira de Buda, meu prazer é formado como a Kali indiana,
pois ela é o outro lado de Buda. Mas Kali é Salomé, e Salomé é minha alma" (p. 109).
197 No esboço, ocorre aqui um longa passagem, da qual segue uma paráfrase: O torpor é como uma morte.
Eu preciso de total transformação. Através disto, minha intenção, como a do Buda, dirigiu-se totalmente
para dentro. Então aconteceu a transformação. Mudei então para o prazer, já que eu era um pensador.
Enquanto pensador, rejeitei meu sentimento, mas eu havia rejeitado parte da vida. Então meu sentimento
tornou-se uma planta venenosa e, quando acordei, ele era sensualidade em vez de prazer, a forma mais
inferior e mais comum de prazer. Esta é representada por Kali. Salomé é a imagem do meu prazer, que
sente dor porque foi excluído por muito tempo. Ficou evidente então que Salomé, isto é, meu prazer,
era minha alma. Quando reconheci isto, meu pensamento mudou e subiu à ideia, e então apareceu a
imagem de Elias. Isto me preparou para o jogo do mistério, e mostrou-me antecipadamente o caminho
da transformação pelo qual eu tinha que passar no Mysterium. A convergência do pensar prévio com
o prazer produz o Deus. Reconheci que o Deus em m im queria tornar-se homem, e considerei isto e
respeitei isto, e tornei-me o servo do Deus, mas para nenhum outro senão eu mesmo [esboço corrigido:
seria loucura e presunção supor que fiz isto também para outros, p. 110]. Mergulhei na contemplação da
maravilha da transformação, e primeiro transformei-me no nível inferior do meu prazer, e depois, através
disto, reconheci minha alma. O s sorrisos de Elias e Salomé indicam que estavam contentes com meu
aparecimento, mas eu estrava em profundas trevas. Quando o caminho é escuro, é a ideia que fornece luz.
Quando a ideia, no momento de confusão, possibilita as palavras e não o anseio cego, então as palavras
levam você à dificuldade. Ao passo que a ideia leva você para a direita. E por isso que Elias volta-se para a
esquerda, para o lado do pecaminoso e mau, e Salomé volta-se para o lado do correto e bom. Ela não vai ao
jardim , o lugar do prazer, mas permanece na casa do pai (p. 125-127).
I N ST RU ÇÃO 171

p rim eiro lugar. E ele chega. Q u an d o procuras u m a lu z, cais in icialm en t e n u m a


escuridão ain d a m ais profun da. Nest a escuridão en con t rarás u m a lu z fraca, de
ch am a averm elh ada, que d á u m a claridade m u it o pequen a, mas suficien t e para
ver a coisa seguinte. É ext en u an t e chegar a esta m et a, que n ão parece m et a a l-
gum a. E é b om assim : est ou paralisado e por isso disposto a aceitar. Me u pen sar
prévio lan ça-m e sobre o leão, m in h a fo r ça 19 8 .
Eu p ersist i n a form a san t ificada e n ão au t orizei o caos a rom per seus diques.
E u a c r e d it a va n a o r d e m d o m u n d o e o d ia va t o d o d e s o r d e n a d o e s e m fo r m a .
Por isso t in h a de ad m it ir antes de tudo que m in h a p róp ria lei m e h avia t razid o
a este lugar. En qu an t o Deu s estivesse em m im , pen sava eu , ele seria u m a part e
de m eu si-m esm o. Eu pen sava que m eu eu o en volvia e por isso o con sid era-
va com o m eus pen sam en tos. Mas de m eus pen sam en tos eu pen sava que eram
part e de m eu eu. Assim eu colocava a m im m esm o em m eus pen sam en tos e
assim t am bém a m im m esm o nos pen sam en tos de Deu s, con sid eran d o-o / u m a foi.vi( r )
part e de m eu si-m esm o.
Por causa de m eus pen sam en t os, aban d on ei a m im m esm o; por isso m eu
si-m esm o ficou fam in t o e fez de Deu s u m a id eia egoíst a. Se eu aban d on ar
m eu si-m esm o, a fome vai im p elir-m e a en con t rar m eu si-m esm o em m eu con -
teúdo, port an t o em m eu pensam ento. Por isso gostas de pen sam en tos razoáveis
e ordenados, pois n ão suportarias que t eu si-m esm o estivesse em pen sam en tos
desordenados, isto é, im próprios. At ravés de t eu desejo egoíst a expulsas de t eu
pen sam en to tudo o que n ão te parece ordenado, isto é, n ão apropriado. A ord em
t u a crias de acordo com o que sabes; mas os pen sam en tos do caos t u n ão os co-
nheces, e assim m esm o eles exist em . Meus pen sam en tos n ão são m eu si-m esm o,
e m eu eu n ão abrange o pensam ento. Teu pen sam en to t em este sign ificado e
ain da outro, n ão som en te u m , mas m uit os significados. Nin gu ém sabe quantos.
Meus pen sam en tos n ão são m eu si-m esm o, mas são exat am en t e com o as
coisas do m un do, vivas e m o r t a s 19 9 . Assim com o n ão sou prejudicado por viver

198 No esboço ocorre uma passagem da qual segue uma paráfrase: Se sou forte, também o são minhas
intenções e pressuposições. Meu pensamento enfraquece e muda para a ideia. A ideia se torna forte; ela
é sustentada por sua própria força. Reconheço isto no fato de Elias ser sustentado pelos leões. O leão é
de pedra. Meu prazer está morto e transformado em pedra, porque não amei Salomé. Isto deu ao meu
pensamento a frieza da pedra, e disto a ideia tomou sua solidez, que é necessária para subjugar meu
pensamento. Ele precisava ser subjugado, já que lutava contra Salomé, porque ela lhe pareceu má (p. 128).
199 Em 1921, Jung escreveu: "Devido à realidade específica dos conteúdos inconscientes, podemos chamá-la
de objeto com os mesmos direitos com que chamamos as coisas exteriores de objetos" (Tipospsicológicos. O C ,
6, § 28 0 ) .
172 LI BERP RI M U S foi.vi(r)/ vi(v)

n u m m u n d o p a r c i a l m e n t e d e s o r d e n a d o , t a m b é m n ã o s o u p r e ju d ic a d o se vi ve r

em m eu m u n d o de ideias parcialm en t e desordenado. Pen sam en tos são fen ó-


m en os da n at u reza dos quais n ão tens a posse e cujo sign ificado só conheces
bem im p er feit am en t e 20 0 . O s pen sam en tos crescem em m im com o u m a flores-
ta, diversos an im ais a h abit am . Mas o ser h u m an o é au t orit ário em seu pen sar
e com isso m at a o prazer da florest a e dos an im ais selvagens. O ser h u m an o é
violen t o em sua cobiça, e ele m esm o se t orn a floresta e an im al selvagem. Assim
com o t en h o a liberdade n o m un do, t am bém t en h o a liberdade em m eus pen sa-
m en t os. A liberdade é lim it ad a.
A certas coisas do m u n d o devo dizer: vós n ão deveis ser assim , p orém d ife-
ren tes. Mas antes disso observo cuidadosam en t e sua n at u reza, caso con t rário
n ão posso m u d á-las; de m odo sem elh an t e procedo com certos pen sam en tos.
Tu m udas aquelas coisas do m u n d o que, m esm o n ão sendo proveitoso, p õem
em risco t eu bem -estar. Procede igualm en t e assim com os pen sam en tos. Nad a
é perfeito, m u it a coisa é con flit uosa. O cam in h o da vid a é t ran sform ação, n ão
exclusão. O bem -est ar é m elh or ju iz do que o d ireit o.
Mas quan do t om ei con sciên cia da liberdade em m eu m u n d o de ideias, Sa-
lom é m e abraçou, e eu m e t or n ei profeta, pois t in h a en con t rado prazer n ão
p rim ord ial n a floresta e nos an im ais selvagens. Tin h a m u it o m ais von t ade de
equ iparar-m e ao observado, do que t er a felicidade de con t em plar. Co r r o o
risco de acredit ar que eu m esm o t en h o sen tido, porque con t em plo o sign ifica-
tivo. Nisso ficam os sem pre de n ovo m alucos, e t ran sform am os o observado em
lou cu ra e m acaquice, porque n ão conseguim os aban don ar a im it a çã o 20 1.
Assim com o m eu pen sar é o filh o do pen sar prévio, m eu prazer é a filh a do
am or, da m ãe in ocen t e e con cebedora de Deu s. Alé m de Cr ist o, Ma r ia d eu à lu z
Salom é. Por isso d iz Cr ist o n o evangelho aos egípcios a Salom é: "Co m e q u al-
quer verd u ra, mas n ão com as a verd u ra am arga". E com o Salom é quisesse saber

200 O esboço e o esboço corrigido têm: "Deveria considerar me louco ; [esboço corrigido: seria mais que absurdo] se
eu pensasse que tinha gerado os pensamentos do mistério" (esboço corrigido, p. 115).
201 O esboço continua: "...reconheci o Pai, mas porque eu era um pensador, no entanto, não conheci a mãe,
porém vi o amor na forma do prazer, e o chamei de prazer, e por isso ficou sendo Salomé para mim. Agora
percebo que Maria é a mãe, a inocente, e receptora de amor e não de prazer, que em sua natureza fogosa
e sedutora traz o germe do mal. / Se Salomé, o prazer maldoso, é minha irmã, então eu sou um santo
pensador, e meu intelecto está arruinado. Eu preciso sacrificar meu intelecto e devo confessar que aquilo
que vos disse sobre o prazer, de que ele é o princípio diante do pensar prévio, imperfeito e preconcebido.
Eu olhava como um pensador a partir do ponto de vista de meu pensar, senão teria podido reconhecer que
Salomé, como a filha de Elias, é um derivado do pensar e não o próprio princípio. Maria, a mãe virginal e
inocente, aparece como sendo esse princípio" (p. 133).
SO LU Ç ÃO 173

o p orqu ê, Cr ist o lh e disse: "Se t irard es o m an t o da vergon h a e se os dois se t or-


n arem u m , e o m ascu lin o com o fem in in o, n em m ascu lin o e n em fe m in in o " 2 0 2 .
O pen sam en t o prévio é gerador, o am or é receb ed or 20 3. Am b os est ão além
deste m un do. Aq u i est ão razão e prazer, o resto n ós apenas pressen t im os. Seria
t ola ilusão afirm ar que est ão neste m un do. E m t orn o desta lu z h á t an t a coisa
en igm át ica e serpen t iform e. Eu recu perei da profun deza o poder, e com o u m
leão ele an da dian t e de m i m 2 0 4 .

Solução
[ I H vi ( v) ] 2 ° 5
Cap. xi.

206
N a t erceira n oit e seguinte, fu i tom ado por u m desejo profun do de con -
t in u ar viven cian d o o m ist ério. Gr an d e era o con flit o en t re d ú vid a e desejo em
m im . Mas de repen te vi que estava n u m a alcan t ilad a crist a roch osa em região
desért ica. E d ia de claridade ofuscante. Avist ei acim a de m im , n u m plan o m ais
elevado, o profeta. Su a m ão fez u m gesto de afastam ento, e eu d esist i de m in h a
in t en ção de subir. Esp er ei em baixo, olh an do para cim a. O lh o: à d ir eit a para a
n oit e escura, à esquerda para o d ia claro. O roch edo d ivid e d ia e n oit e. N o lado

202 O Evangelho dos Egípcios é um dos evangelhos apócrifos, que expõe um diálogo entre Crist o e
Salomé. Crist o afirma que veio destruir a obra do feminino, a saber, a concupiscência, o nascimento e a
deterioração. A pergunta de Salomé sobre quanto tempo a morte prevalecerá, Crist o respondeu: enquanto
as mulheres gerarem filhos. Aqu i Jung está se referindo à seguinte passagem: "Ela disse: 'Então eu fiz bem
em não parir', imaginando que não é permitido gerar filhos. O Senhor respondeu: 'Com e de todas as
ervas, mas não comas das amargas'". O diálogo continua: "Quando Salomé perguntou quando isto será
tornado público, o Senhor disse: 'Quando você calcar aos pés o manto da vergonha e quando de dois for
feito um, e o masculino com o feminino, nem masculino nem feminino'" (TheApocryphalNewTestament.
Oxford: O xford University Press, 1999, p. 18 [org. por J.K. Elliot ]). Jung cita este lógíon, ao qual teve acesso
através dos Stromateís de Clemente, como exemplo da união dos opostos em Visions, vol. 1, p. 524 (1932), e
como exemplo da coníunctío de masculino e feminino em "A psicologia do arquétipo da criança" (1940).
O C , 9/ 1, § 295) e Mysterium corúunctíonís (1955/ 1956). O C , 14, § 528.
203 O esboço e o esboço corrigido têm: "mas quando o jogo dos mistérios me mostrou isto, não o entendi, mas
pensei que tinha gerado um pensamento desvairado. Sou alienado, se acreditar nisso. E cu acreditei.
Por isso o medo tomou conta de mim, e eu queria esclarecer Elias e Salomé como meus pensamentos
arbitrários e, assim, enfraquecê-los" (esboço corrigido, p. 118).
204 O esboço continua: "A imagem da noite fresca e estrelada, com o vasto céu, abriu-me os olhos para
a infinitude do mundo interior que eu, como pessoa mais ávida, ainda achei muito fria. Não posso
apoderar-me das estrelas, apenas contemplá-las. Por isso m inha impetuosa avidez sente aquele mundo
como escuro e frio" (p. 135).
205 Isto descreve uma cena na fantasia a seguir.
206 25 de dezembro de 1913.
174 LI BE R P RI M U S foi.vi(r)/ vi(v)

escuro est á d eit ad a u m a grande serpen te negra, n o lado claro, u m a serpen te


bran ca. Levan t am suas cabeças u m a con t ra a ou t ra, em at it ude de lu t a. Elias
está acim a delas lá n o alto. D e repen t e, as serpen tes precipit am -se u m a con t ra
a ou t ra, e se t rava u m a lu t a feroz. A serpen te n egra parece ser m ais forte. A
bran ca recua. Gran d es n uven s de p ó levan t am -se do lugar da batalh a. Mas vejo:
a serpen te n egra ret ira-se de novo. A part e d ian t eira de seu corpo t orn ou -se
bran ca. Am b as as serpen tes con t orcem -se e desaparecem , u m a n a lu z, a ou t ra
n a e scu r id ã o 20 7 .
Elias: "O que vist e?"
Eu : "Eu vi a lu t a de duas serpen tes m u it o fortes. Pareceu-m e que a serpen te
n egra ven ceria a bran ca, mas repara, a n egra ret irou -se, e sua cabeça e a part e
d ian t eira de seu corpo ficaram bran cas".
E: "En t en d es ist o?"
Eu : "E u reflet i, m as n ão con sigo en t en d er n ada. Q u e r d izer que o poder
da boa lu z é t ão gran de que m esm o a escu rid ão, que lh e resist e, é ilu m in ad a
p or ela?"
Elias sobe à m in h a fren te a u m a alt u ra m u it o grande; eu sigo atrás. N o
cum e, chegamos a u m m u ro, arm ado em blocos m aciços. Er a u m a fort aleza ao
redor de todo o c u m e 2 0 8 . No in t er ior h avia u m grande pát io, e n o m eio dele, u m
im en so bloco de pedra, com o u m altar. Sobre esta pedra est á o profet a e fala:
"Est e é o t em plo do sol. Est e pát io é u m recipien t e que recolh e a lu z do sol".
Elias desce da pedra, sua figura vai d im in u in d o ao descer, prat icam en t e u m
anão, bem diferen t e dele m esm o.
Eu pergun t ei: "Q u e m és t u ?"
"Eu sou M i m e 2 0 9 , e eu quero m ost rar-lh e as fontes. A lu z recolh id a t or n a-
-se água e flu i em diversas fontes do cum e para os vales da t erra". Dep ois disso,

207 No seminário de 1925, Jung disse: "Algumas noites mais tarde senti que as coisas deviam continuar,
de modo que novamente procurei seguir o mesmo procedimento, mas a coisa não descia. Permaneci na
superfície. Dei-m e conta então de que eu tinha um conflito dentro de m im a respeito de descer, mas não
pude entender o que era, apenas senti que dois princípios escuros estavam lutando um contra o outro,
duas serpentes" (introductíon to Jungian Psychology, p. 104).
208 No seminário de 1925, Jung acrescentou: "Eu pensei: isto é um lugar sagrado dos druidas" (introductíon to
Jungian Psychology, p. 104).
209 Em O anel do níhelungo, de Wagner, o anão nibelungo Mime é irmão de Alberich e mestre artesão. Alberich
roubou o ouro do Reno das donzelas do Reno; renunciando ao amor, ele conseguiu forjar com ele um anel
que conferia poder ilimitado. No Siegfried, Mime, que mora numa caverna, traz Siegfried para fora, para que
mate o gigante Fafner, que foi transformado num dragão e agora possui o anel. Siegfried mata Fafner com
a espada invencível forjada por Mime, e mata Mime, que queria matá-lo depois de recuperar o ouro.
SO LU Ç ÃO 175

desaparece n u m a fen da d a roch a. Eu o sigo descendo para u m a cavern a escura.


O u ço o ru m orejar de u m a fonte. O u ço, vin d a lá de baixo, a voz do an ão: "Aq u i
est ão m eus poços, sábio ficará qu em deles beber".
Mas n ão consigo chegar até em baixo. Falt a-m e coragem . Saio da cavern a e
fico an dan do de cá para lá sobre as pedras do pát io. Tu d o m e parece est ran h o
e in com preen sível. Aq u i é tudo solit ário e de silên cio sepulcral. O ar é claro e
fresco com o n a m aior alt u ra, em t oda part e t ran sbordan do m aravilh osam en t e
a lu z do sol, em volt a de m im o grande m uro. U m a serpen te vem rast ejan do
sobre as pedras. E a serpen te do profeta. Co m o vem ela do subm un do para
o m u n d o da superfície? Sigo-a e vejo que rast eja n a d ireção do m uro. Recebo
u m a coragem est ran h a: lá está u m a casa pequen a, com u m pórt ico, m u it o pe-
quen a, en cravada n a roch a. A serpen te t orn a-se in fin it am en t e pequena. Sin t o
com o eu t am bém vo u en colh en do. O s m u ros erguem -se em im pon en t es m o n -
tan h as, e eu vejo: eu est ou em baixo, n o ch ão da crat era, n o subm un do, e estou
dian t e da casa do p r o fe t a 210 . Ele sai pela p ort a de sua casa.
Eu : "Percebo, Elias, que m e deixast e ver e viver todo t ipo de coisas est ra-
n h as, antes que eu pudesse chegar a t i. Mas confesso que tudo é obscuro para
m im . Te u m u n d o m e aparece h oje n u m a n ova lu z. H á pouco ain d a m e sen t ia
com o se estivesse separado de t eu lugar por dist ân cias ast ron óm icas, lá onde
pret en do chegar h oje e vejo: parece ser o m esm o lugar".
E: "Est ivest e m u it o ansioso para vir aqui. N ã o fu i eu que en gan ei, t u te
enganaste a t i mesmo. Mas vê bem , qu em quer ver, perde m u it a coisa; t u te
enganaste".
Eu : " E verdade, eu desejava m u it o chegar a t i para perceber o u lt erior. Sa-
lom é m e assustou e m e t orn ou confuso. Tive vert igen s, pois o que ela d izia
parecia-m e m on st ru oso e com o lou cu ra. O n d e está Salom é?"

210 No seminário de 192$, Jung interpretou este episódio da seguinte maneira: "A luta das duas serpentes: a
branca significa um movimento para o dia, a negra para o reino das trevas, com aspectos morais também.
Havia dentro de m im um conflito real, uma resistência a descer. Min h a tendência mais forte era subir.
Porque eu ficara tão impressionado no dia anterior com a crueldade do lugar que havia visto, minha
tendência era realmente encontrar um caminho para o consciente subindo, como fiz na montanha... Elias
disse que embaixo ou em cima era exatamente a mesma coisa. Con fira o Inferno de Dante. O s gnósticos
expressam esta mesma ideia com o símbolo dos cones invertidos. Assim , a montanha e a cratera são
semelhantes. Não havia nada de estrutura consciente nestas fantasias, eram apenas fatos ocorridos. Por
isso suponho que Dante tirou suas ideias dos mesmos arquétipos" (introductíon to Jungian Psychology, p. 104-
105). McGuire sugere que Jung está se referindo à concepção de Dante "da forma cónica da cavidade do
Inferno, com seus círculos, espelhando inversamente a forma do Céu, com suas esferas" (Ib id .). Em Aíon,
Jung observou também que as serpentes eram um típico par de opostos e que o conflito entre serpentes
era um motivo encontrado na alquimia medieval (1951. O C , 9/ 2, § 181).
176 LI BERP RI M U S foi.vi(r)/ vi(v)

E: "Co m o est ás agit ado! O que ist o te im p or t a? Va i at é o cr ist a l e p r ep a-


r a-t e e m su a lu z ".

U m a coroa de fogo en volveu de raios a pedra. O m edo m e atacou, o que


vejo: o sapato grosseiro do cam pon ês? O pé de u m poderoso que esmaga u m a
cidade in t eira? Vejo a cru z, o descim en t o da cru z, a lam en t ação - qu ão d o-
lorosa é esta visão! N ã o quero m ais - vejo a crian ça d ivin a, n a m ão d ir eit a a
serpen te bran ca e n a m ão esquerda a serpen te negra - vejo o m on t e verde, n o
alto dele a cru z de Cr ist o, e t orren t es de sangue descem do cum e do m on t e -
n ão aguento m ais, é in su port ável - vejo a cru z e n ela Cr ist o em sua ú lt im a h ora
e t orm en t o - em t orn o do pé d a cru z m ovim en t a-se a serpen te n egra - em
redor dos m eus pés ela se en roscou - eu est ou en feit içad o e abro m eus braços.
Salom é se aproxim a. A serpen te en rolou -se ao redor de todo o m eu corpo, e
m in h a aparên cia é a de u m leão.
Salom é diz: "Ma r ia foi a m ãe de Cr ist o, en ten des?"
Eu : "E u vejo que u m a força t errível e in com preen sível m e obriga a im it ar o
Sen h or em seu ú lt im o padecim en to. Mas com o pod eria at rever-m e a ch am ar
Mar ia de m in h a m ãe?"
S: "T u és Cr ist o ".
Est ou parado em pé, com os braços abertos com o u m crucificado, m eu cor-
po apertado e h orrivelm en t e en rolado pela serpen te: "T u , Salom é, dizes que
sou Cr is t o ?" 2 11

211 No seminário de 1925, Jung contou isto novamente, após a declaração de Salomé de que ele era
Cristo: "Apesar de minhas objeções, ela manteve isto. Eu disse: 'isso é loucura', e me enchi de resistência
cética" (introductíon to Jungian Psychology, p. 104). Ele interpretou este acontecimento da seguinte maneira:
"A abordagem de Salomé e sua veneração por mim é obviamente esse lado da função inferior que está
cercado por uma aura de mal. O indivíduo é assaltado pelo medo de que talvez isto seja loucura. E assim
que a loucura começa, isto é a loucura... Você não pode tornar-se consciente destes fatos inconscientes
sem entregar-se a eles. Se você puder superar seu medo do inconsciente e deixar-se descer, estes fatos
adquirem uma vida própria. Você pode ser agarrado por estas ideias a tal ponto que você fica realmente
louco, ou quase louco. Estas imagens têm tanta realidade, que se recomendam a si mesmas, e sentido tão
extraordinário que se fica preso. Fazem parte dos antigos mistérios; na verdade, tais fantasias é que fizeram
os mistérios. Comparem-se os mistérios de Isis, narrados em Apuleio, com a iniciação e divinização do
iniciado... Tem-se uma sensação especial ao passar por semelhante iniciação. A parte importante que
levou à divinização foi o ato de a serpente enrolar-se em mim. A performance de Salomé foi a divinização.
O rosto do animal no qual senti que o meu foi transformado era o famoso [Deus] Leontocéfalo dos
mistérios de Mitra, a figura representada com uma serpente enrolada num homem, a cabeça da serpente
encostada na cabeça do homem, e o rosto do homem no de um leão... Neste mistério de divinização você
se transforma no veículo e é o veículo da criação no qual os opostos se conciliam". E acrescentou que
"tudo isto é simbolismo mitraico do início ao fim " (Ibid ., p. 9 8-9 9 ). Em O asno de ouro, Lúcio passa por uma
iniciação aos mistérios de Isis. A importância deste episódio é que ele é a única descrição direta de uma
tal iniciação que chegou até nós. Sobre o acontecimento em si, Lúcio afirma: "Aproxímeí-me dos próprios portões
SO LU Ç ÃO 177

Sin t o-m e com o se estivesse sozin h o em pé, n u m alto m on t e, com os braços


rígidos e abertos. A serpen te apert a m eu corpo com seus an éis aterradores, e o
sangue jo r r a de m eu corpo em fontes nos lados do m on t e para baixo. Salom é
curva-se sobre m eus pés e os en volve com seus cabelos negros. Fica m u it o t em -
po assim deit ada. D e repen te ela grit a: "E u vejo lu z!" Realm en t e ela en xerga,
seus olh os est ão abertos. A serpen te cai de m eu corpo e jaz com o m or t a n o
chão. Passo por cim a dela e m e ajoelh o aos pés do profeta, cujo sem blan te b r i-
lh a com o ch am a.
E: "Tu a obra est á acabada aqui. O u t r as coisas virão. Procu ra in can savelm en -
te e sobretudo escreve fielm en t e o que vês".
Salom é olh ava extasiada para a lu z que se irrad iava do profeta. Elias t ran sfor-
m ou-se n u m a poderosa ch am a de b rilh o bran co, a serpente deitou-se em volt a
de seu pé, com o paralisada. Salom é estava ajoelhada dian t e da lu z em adm irável
arrebatam en to. Brot aram -m e lágrim as dos olhos, e eu saí apressadamente para
a n oit e com o alguém que n ão t em parte n a glória do m ist ério. Meus pés n ão
t ocaram o ch ão desta t erra, e m in h a sen sação é a de desfazer-m e n o a r 2 12 .

[ 2] 2 I 3 M e u d esejo 214 levou -m e para cim a, para o d ia superclaro, cu ja lu z é o


con t rário do espaço escuro do pen sar p r é vio 215 . O con t raprin cípio é, com o eu
acreditava en ten der, o am or celest ial, a m ãe. A escuridão que en volve o pen sar

da m orte e pus o pé no lim iar de Perséfone, e no entanto foi-m e perm itido voltar, arrebatado através de todos os elem entos. À m eía-noite vi
o sol brilhando com o se fosse m eío-día-, entrei na presença dos deuses do m undo inferior e dos deuses do m undo superior,fiqueiperto deles
eadorei-os". Em seguida, ele foi apresentado num púlpito no templo diante de uma multidão. Vestia trajes
que tinham desenhos de serpentes e leões alados, segurava uma tocha e trazia uma grinalda de folhas de
palmeira com as pontas voltadas para fora como raios de luz" (The GoldenAss. Harm ondsworth, 1984, p.
241 [Trad. de R. Graves]). O exemplar de Jung de uma tradução desta obra tem uma linha na margem na
altura desta passagem.
212 Em "Aspectos psicológicos da Co r e"(i9 5i), Jung descreveu estas cenas como segue: "Em uma casa
subterrânea, ou melhor, no mundo subterrâneo vive um mago e profeta velhíssimo, com uma 'filha', que
não é sua filha verdadeira. Ela é dançarina, uma criatura muito flexível, mas está em busca de cura, pois
ficou cega" ( O C, 9/ 1, § 360). Esta descrição de Elias levou-o posteriormente à descrição de Filêmon. Jung
observou que isto "esboça a desconhecida como uma figura mítica no além (isto é, no inconsciente). Ela é
soror ou filia mystíca de um hierofante ou 'filósofo', portanto é evidentemente um paralelo em relação àquelas
sizígias místicas tais como as encontramos nas figuras de Simão Mago e Helena, Zósim o sob a Teosebeia,
Comário e Cleópatra, etc. Nossa figura onírica está mais próxima à de Helena" ( O C, 9/ 1, § 372).
213 O esboço corrigido tem: "reflexão" (p. 127). No Livro Negro 2, Jung copiou as seguintes citações da Divina
Comédia, de Dante na tradução alemã (p. 104): "Pensativo, escuto o sopro do amor; aceito como verdade o
que sempre me prediz, e copio tudo, nada inventando eu mesmo" (Dante. Purgatório. 24. Canto 52-54).
"E logo a chama, que ainda se movimenta, para onde quer que a trilha do fogo vá, assim segue a forma
aonde o espírito a carrega" ( D AN T E . Purgatório. 25. Can to 97-99).
214 O esboço tem: "A notícia do desejo reanimado da mãe" (p. 143).
215 O esboço corrigido tem: "Imagem prim ordial" (p. 127).
178 LI BERP RI M U S foi.vi(r)/ vi(v)

p r é v i o 2 16 p a r e ce p r o vi r do fat o de que e le se p r o ce ssa i n vi s i ve lm e n t e n o i n t e r i o r


e n a p rofu n d eza 217 . Mas a claridade do am or parece p rovir do fato de o am or ser
vid a e agir visíveis. Me u prazer estava n o pen sar prévio e t in h a lá seu jar d im de
delícias, cercado de p u ra escuridão e n oit e. Para m eu prazer eu desci, mas para
m eu am or eu subi. Vejo Elias n o alto, acim a de m im : ist o m ost ra que o pen sar
prévio está m ais pert o do am or do que eu , a pessoa. An t es que suba para o amor,
u m a con dição precisa ser satisfeita, que se apresen ta com o a lu t a das duas ser-
pentes. À esquerda é dia, à d ireit a é n oit e. Cla r o é o rein o do amor, escuro é o
rein o do pensar prévio. O s dois prin cípios se separaram rigorosam en te, são at é
m esm o in im igos e assum iram a form a de serpentes. A figura da serpen te sign i-
fica a n at u reza d em on íaca dos dois prin cípios. Recon h eço n esta lu t a u m a repe-
tição daquela visão em que presen ciei a bat alh a en t re o sol e a serpente n egr a 218 .
Naqu ela vez a adorável lu z foi apagada, e o sangue com eçou a escorrer. Fo i
a Gr an d e Gu er r a. Mas o espírit o d a p r ofu n d eza 219 quer que esta gu erra seja
en t en d id a com o u m a divisão n a p róp ria n at u reza de cada p essoa 220 . Pois, após a
m ort e do h erói, nosso im pu lso de vid a n ão p ôd e im it ar m ais n ada e por isso foi
para a profun deza de cada pessoa e causou a assustadora divisão en t re as forças
da p r ofu n d eza 221. O pen sar prévio é ser só, o am or é ser ju n t o. O s dois precisam
u m do outro, mas m esm o assim se m at am m u t u am en t e. Pelo fato de as pessoas

216 O esboço corrigido tem: "A ideia ou a imagem prim ordial" (p. 127).
217 O esboço corrigido tem: "vive" (p. 127).
218 Isto é, no capítulo 5, "Descida ao inferno no futuro".
219 O esboço corrigido tem: "o espírito" (p. 127).
220 O esboço continua: "Por isso dizem todos que ele pode lutar pelo bem e pela paz, lá onde não é possível
um duelar mútuo pelo bem. Mas como as pessoas não sabem que a divisão está em seu próprio interior,
acham os alemães que os ingleses e russos não têm razão; os ingleses e russos porém dizem que os alemães
não têm razão. Mas ninguém consegue julgar os rostos segundo ter razão e não ter razão. Quando a
metade da humanidade está sem razão, cada pessoa está pela metade sem razão. Por isso é uma divisão em
sua própria alma. Mas o ser humano é obcecado e sempre só conhece uma de suas metades. O alemão tem
em si o inglês e o russo, que ele combate fora de si mesmo. De igual modo, o inglês e o russo têm em si o
alemão que eles combatem. As pessoas veem a discórdia externa, mas não a interna, que é a única fonte da
grande guerra. Mas antes que o ser humano possa ascender para a luz e o amor, há necessidade da grande
batalha" (p. 145).
221 Em dezembro de 1916, em seu prefácio a A psicologia dos processos inconscientes, Jung escreveu: "Nada
mais apropriado do que os processos psicológicos que acompanham a guerra atual - notadamente a
anarquização inacreditável dos critérios em geral, as difamações recíprocas, os surtos imprevisíveis de
vandalismo e destruição, a maré indizível de mentiras e a incapacidade do homem de deter o demónio
sanguinário para obrigar o homem que pensa a encarar o problema do inconsciente caótico e agitado,
debaixo do mundo ordenado da consciência. Esta Guerra Mundial mostra implacavelmente que o
homem civilizado ainda é um bárbaro. Ao mesmo tempo, prova que um açoite de ferro está à espera, caso
ainda se tenha a veleidade de responsabilizar o vizinho pelos seus próprios defeitos. A psicologia do indivíduo
corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do m odo com o
o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a
transformar-se a psicologia da nação" (vol. 7, p. xix).
SO LU Ç ÃO 179

n ão saberem que a divisão está d en t ro delas m esm as, t orn am -se desvairadas / e foi.vi( r )
em p u rram a cu lpa u m a para a ou t ra. Se u m a m etade d a h u m an id ade est á sem ^ ^
razão, en t ão cada pessoa está pela m etade sem razão. Mas n ão vê a divisão em
sua alm a, que é a fon te d a desgraça ext ern a. Se estás irr it ad o con t ra t eu irm ão,
pen sa que estás irr it ad o con t ra o irm ão d en t ro de t i, ist o é, con t ra aquilo em t i
que é sem elh an t e a t eu irm ão.
En q u an t o pessoa és parte d a h u m an id ad e e por isso ten s part e n o todo da
h u m an idad e de t al form a com o se fosses a h u m an id ade toda. Se t u ven ces e
m atas o t eu con cid ad ão que se op õe a t i, en t ão m atas aquela pessoa t am bém em
t i e terás m atado u m a part e de t u a vid a. O espírit o desse m ort o vai seguir-te e
n ão p erm it irá que te alegres com t u a vid a. T u precisas de t eu todo para passar
pela vid a.
Se eu m e aban don o ao puro prin cípio, coloco-m e n u m dos lados e m e t orn o
u n ilat eral. Por isso m eu pen sar p révio t orn a-se, n o p r in cíp io 222 da m ãe celeste,
u m an ão repu lsivo que m or a n a cavern a escura com o u m n ão n ascido n o út ero.
Tu n ão o seguirás, m esm o que te diga que poderias beber sabedoria em sua
fonte. O pen sam en t o p r é vio 2 2 3 vai aparecer-t e lá com o esperteza de an ão, falsa
e obscura, assim com o m e apareceu lá em baixo a m ãe do céu com o Salom é. O
que falt a oport u n am en t e n o p rin cíp io pu ro aparece com o serpen te. O h erói
am bicion a ao m áxim o o prin cípio puro e por isso é fin alm en t e ven cid o pela
serpen te. Q u an d o te diriges ao p en sar 224 , leva ju n t o t eu coração. Q u an d o te
diriges ao am or, leva ju n t o t u a cabeça. Vazio é o am or sem pensar, ou o pen sar
sem amor. A serpen te espreit a atrás do prin cípio puro. Por isso fiqu ei sem ân i-
m o até en con t rar a serpen te que m e levou im ed iat am en t e para o ou t ro p rin cí-
pio. N a descida, eu en colh i.
Gran d e é qu em est á n o am or, pois o am or é a obra at u al do grande criador,
do m om en t o at ual do vir a ser e do desaparecer do m un do. Poderoso é qu em
am a. Mas qu em se afasta do am or sen te-se poderoso.
Em t eu pen sar p révio conheces a n u lidade de t eu ser m om en t ân eo com o
u m dos m en ores pon tos en t re o in fin it o do passado e o in fin it o do porvir. Pe-
quen o é o pensador, gran de ele se ju lga quan do se afasta do pensar. Mas quan do

222 O esboço corrigido tem: "o profeta, a personificação da ideia" (p. 131).
223 O esboço corrigido tem: "ideia" (p. 131).
224 O esboço corrigido tem: "ideia" (substituída durante todo o parágrafo) (p. 131).
i8o LI BERP RI M U S fol.vi(r)/ vii(v)

falamos d a aparên cia, a coisa é ou t ra. Para qu em está n o am or, a form a é u m


em pecilh o pequeno. Mas seu h orizon t e t er m in a com a form a que lh e é dada.
Para qu em está n o pensar, a form a é in t ran spon ível e alt a com o o céu. Mas ele
vê n a n oit e a variedade dos in con t áveis m un dos e de suas in t erm in áveis rot a-
ções. Q u e m está n o am or é u m recipien t e ch eio e t ran sbordan t e que aguarda
o m om en t o de doar. Q u e m está n o pen sam en t o prévio é profun do e vazio e
espera o en ch im en t o.
Am o r e pen sam en t o prévio est ão n u m m esm o lugar. O am or n ão pode exis-
t ir sem pen sam en t o prévio, e pen sam en t o prévio, sem am or. A pessoa h u m an a
está sem pre por dem ais em u m ou outro. Ist o est á relacion ado com a n at u reza
h u m an a. O s an im ais e as plan tas parecem t er o suficien t e em todos os lados, só
o ser h u m an o oscila en t re o dem ais e o de m en os. O scila qu em está in seguro
do quan to deve dar aqui e do quan t o deve dar lá, alguém cujo saber e poder são
suficien t es, mas que ele m esm o deve fazer. O ser h u m an o n ão cresce apenas
por si m esm o, mas é t a m b é m 2 2 5 criad or por si m esm o. Deu s se m an ifest a n e le 226 .
O ser h u m an o é m en os h abilidoso para a divin dade, e p or isso oscila en t re o
dem ais e o de m e n o s 227 .
O espírit o dessa época con den ou -n os à precipit ação. N ã o tens m ais fut uro
n em passado, se servires ao espírit o dessa época. Precisam os da vid a d a et er n i-
dade. N a profun deza guardam os fut uro e passado. O fut uro é velh o e o passado
é jovem . T u serves ao espírit o dessa época e pensas que podes fugir do espírit o
da profun deza. Mas a profun deza n ão d em ora m u it o e vai forçá-lo para d en t ro
do m ist ério de Cr i s t o 2 2 8 . Faz part e desse m ist ério que o ser h u m an o n ão será

225 O esboço corrigido acrescenta: "consciente". De dentro de si m esm o é suprim ido (p. 133).
226 Em vez disso, o esboço e o esboço corrigido têm: "A força criadora de Deus torna-se (nele), uma, pessoa [uma
consciência pessoal] a partir do (inconsciente) coletivo (p. 133-134).
227 O esboço e o esboço corrigido têm: "mas por que, perguntas tu, aparece-te o pensar prévio [a ideia] na figura
de um velho profeta judeu e teu [o] prazer na figura da pagã Salomé? Mas amigo, não te esqueças de que
eu também sou um pensador volente no espírito dessa época e que estou totalmente sob o feitiço da
serpente. Através da iniciação nos mistérios do espírito da profundeza, estou disposto a não relegar ainda
totalmente todo o arcaico, que falta ao pensador no espírito dessa época, conforme o espírito dessa época
sempre exige, mas reassumi-lo em meu ser pessoa, para tornar plena minha vida. Eu fiquei realmente
pobre e bem afastado de Deus. Preciso assumir ainda em m im o divino e o mundano, pois o espírito dessa
época nada mais tem para me dar e ainda me tirou o pouco que eu possuía da verdadeira vida. Tornou-me
sobretudo imprudente e ganancioso, pois ele é só presente e me obrigou a caçar tudo o que é presente para
satisfazer o momento atual" (p. 134-135).
228 O esboço e o esboço corrigido têm: "Como os antigos profetas [antigos] viveram antes do mistério de Cristo,
assim estou também eu ainda antes do [desse] mistério de Crist o [enquanto reassumo o passado] apesar
de eu viver dois m il anos após ele [mais tarde] e ter acreditado ser um cristão. Mas jamais fui um Crist o"
(P. 136).
SO LU Ç ÃO 181

salvo pelo h erói, mas que ele m esm o se t orn a u m Cr ist o. Ist o nos en sin a sim bo-
licam en t e o exem plo da vid a dos santos.
Vê m al qu em deseja ver. Fo i m in h a von t ade que m e enganou. Fo i m in h a
von t ade que provocou a grande divisão dos d em ón ios. Port an t o, n ão devo m ais
querer? Eu satisfiz m in h a von t ade t ão bem quan t o pude. E assim saciei tudo
o que t in h a am bições d en t ro de m im . Ao fin al con clu í que em tudo isso eu
qu eria a m im m esm o, mas sem procu rar a m im m esm o. Por isso n ão quis m ais
p rocu rar-m e fora de m im , mas d en t ro de m im . Q u is en t ão segurar a m im m es-
m o, e quis de n ovo ir adian t e, sem saber o que qu eria, e assim caí n o m ist ério.
Port an t o, n ão devo m ais querer? Vó s quisestes esta guerra. Ist o é bom . Se
n ão a quisésseis de fato, o m al desta gu erra seria p eq u en o 229 . Mas com vossa
von t ade t orn ais o m al grande. Mas n ão conseguis fazer dessa guerra o m aior
m al, n u n ca apren dereis a ven cer a violên cia e o com bate fora de vó s 23 °. Por
isso é b om que qu eirais de todo o coração este m aior m a l 2 31. Vó s sois crist ãos e
seguidores de h eróis e esperais por salvadores, que devem t om ar sobre si vossos
sofrim en t os e poupar-vos o Gólgot a. Co m isso erigis para vó s 2 3 2 u m m on t e
Calvário, que cobre t od a a Eu rop a. Se vos sucede fazer dessa guerra u m m al
t errível e lan çar n est a fauce escan carada in con t áveis vít im as, isto é b om , pois
t orn a cada u m de vós pron t o para sacrificar a si m esm o. Pois com o eu , assim vós
vos aproxim ais d a realização do m ist ério de Cr ist o.
Logo sen t ireis o pu n h o de ferro n a n uca. Est e é o in ício do cam in h o. Q u a n -
do sangue, fogo, gritos de aflição en ch erem este m un do, en t ão vos recon h ece-
reis em vossos atos: em bebedai-vos n o h or r or san gren to d a guerra, saciai-vos
de m at ar e dest ruir, en t ão vossos olh os se abrirão de que sois vós m esm os que
prod u zis tais fr u t o s 233 . Vó s estais a cam in h o se quereis t udo isso. O querer cria
cegueira, e cegueira con duz ao cam in h o. Devem os querer o erro? N ã o deves,

229 Em Assim falava Zaratustra, escreveu Nietzsche: "Redim ir os homens passados e em vez de dizer "é o
passado", dizer-se então "é o que eu quis" - só isto é redenção para m im " ("Da Redenção", p. 191).
230 Em 11 de fevereiro de 1916, num debate na Associação de Psicologia Analítica, Jung disse: "Abusamos
da vontade quando dizemos que o crescimento natural está submetido à vontade... A guerra nos ensina:
querer não adianta nada - devemos ver como ficará. Nós estamos totalmente sujeitos ao poder absoluto
do vir a ser" (MPA, vol. 1, p. 106).
231 O esboço e o esboço corrigido têm: "Pois vós sois [nós somos] interiormente ainda velhos judeus e pagãos com
deuses abomináveis" (p. 137).
232 O esboço corrigido tem: "para nós" (p. 138).
233 O esboço corrigido tem: "e nós nos chamávamos cristãos, seguidores de Cristo. Sermos nós mesmos Cristo,
este é o verdadeiro seguimento de Crist o" (p. 139).
182 LI BERP RI M U S foi.vi(r)/ vii(v)

mas irás querer aquele erro que t u con sideras a m elh or verdade, assim com o
procederam as pessoas desde sem pre.
O sím bolo do crist al sign ifica a lei im ut ável do acon t ecim en t o que vem por
si m esm o. Nest e n ú cleo vês o que virá. Eu vi algo am edron t ador e in con cebível
(ist o foi n a n oit e de Nat al de 1913). Eu vi o sapato grosseiro, o sin al do h orror
da gu erra dos cam p on eses 234 , dos in cên d ios crim in osos e da atrocidade san gui-
n ária. N ã o sabia in t erp ret ar de ou t ro m odo para m im este sin al a n ão ser de que
estava dian t e de n ós algo san gren to e t errível. V i o pé de u m poderoso que es-
magava u m a cidade in t eira. D e que out ro m odo pod eria in t erp ret ar este sin al?
Vi que aqu i com eçava o cam in h o do autossacrifício. Serão todos arrebatados
pelo t error dos grandes acon t ecim en t os e vão querer en t en d ê-los n a cegueira
com o acon t ecim en t os ext ern os. É u m acon t ecim en t o in t erior, é o cam in h o da
realização do m ist ério de Cr is t o 2 35 , pois os povos apren dem o autossacrifício.
O h or r or pode ser tão grande, que o olh ar das pessoas pode volt ar-se para
den t ro, que seu querer n ão m ais procure o si-m esm o nos out ros, mas em si
m esm as 236 . Eu o vi, eu sei que este é o cam in h o. Eu vi a m ort e de Cr ist o e vi seu
lam en t o, eu sen t i o t orm en t o de sua m ort e, da grande m ort e. Eu vi u m n ovo
Deu s, u m m en in o que d om in a os d em ón ios com sua m ã o 2 37 . Deu s m an t ém em
seu poder os prin cípios separados e os un e. Deu s vem a ser em m im através da
un ião dos prin cípios. Ele é sua un ião.
Se queres u m prin cípio, en t ão estás n o t eu ser u m , mas longe de t eu ser
outro. Se queres os dois prin cípios, u m e outro, en t ão suscitas a d esu n ião dos
prin cípios, pois n ão podes querer os dois ao m esm o tem po. Disso surge a n e-
cessidade em que aparece Deu s, ele t om a n a m ão t eu querer d ivid id o, n a m ão
de u m a crian ça, cu ja von t ade é sim ples e está além da desun ião. N ã o podes

234 Isto se refere possivelmente à revolta dos camponeses alemães de 1525.


235 Em 1918, em seu prefácio à 2. ed. de A psicologia do inconsciente, Jung escreveu: "O espetáculo dessa catástrofe
faz com que o homem, sentindo-se totalmente impotente, se volte para si mesmo, olhe para dentro e,
como tudo vacila, busque algo que lhe dê segurança. Muitos ainda procuram fora de si mesmos... Mas
são poucos os que buscam dentro de si, poucos os que se perguntam se não seriam mais úteis à sociedade
humana se cada qual começasse por si, se não seria melhor, em vez de exigir dos outros, pôr à prova
primeiro em sua própria pessoa, em seu foro interior, a suspensão da ordem vigente, as leis e vitórias que
apregoam em praça pública" ( O C, 7, p. xv).
236 O esboço tem: "Se isto não acontecer, o Crist o não será vencido e o mal precisa ficar ainda maior. Por
isso eu te digo isso, meu amigo, para que o repitas aos teus amigos, e para que chegue aos ouvidos do
povo" (p. 157).
237 O esboço continua: "eu vi que a partir do Cristo-Deus formou-se um novo Deus, um Héracles mais
jovem " (p. 157).
SO LU Ç ÃO 183

apren d ê-lo, ele só pode vir a ser em t i. N ã o podes qu erê-lo, ele t ir a de t u a m ão


o querer e quer a si m esm o. Deseja a t i m esm o, ist o leva ao ca m in h o 238 .
Mas n o fundo ten s h or r or de t i m esm o, por isso preferes correr a todos os
out ros do que a t i m esm o. Eu vi a m on t an h a do sacrifício, e o sangue escorria
em t orren t es de seus lados. Q u an d o vi com o orgulh o e força en ch iam os h o-
m en s, com o b rilh ava a beleza nos olh os das m ulh eres quan do a Gr an d e Gu e r r a
reben t ou , soube en t ão que a h u m an id ade estava a cam in h o do autossacrifício.
O espírit o da p r ofu n d eza 239 t om ou con t a da h u m an id ade e a obrigou ao
autossacrifício. N ã o procu reis a cu lpa aqui ou ali. O espírit o da profun deza
apoderou-se do dest in o dos h om en s, assim com o se apoderou de m eu destin o.
Ele con duz a h u m an id ade através d a t orren t e de sangue para o m ist ério. No
m ist ério, a p róp ria pessoa t orn a-se os dois prin cípios, leão e serpen te.

238 No esboço e no esboço corrigido, ocorre aqui uma longa passagem, da qual segue uma paráfrase: O Deus
segura o amor na mão direita, o pensar prévio ["a ideia", substituída do princípio ao fim] na esquerda.
O amor está no nosso lado favorável, o pensar prévio no desfavorável. Isto deveria recomendar a você o
amor, na medida em que você faz parte deste mundo, e especialmente se você é um pensador. O Deus
possui ambos. A unidade deles é Deus. O Deus se desenvolve através da união de ambos os princípios em
você [m im ]. Você [eu] não se torna Deus através disto, ou se torna divino, mas Deus se torna humano.
Ele se torna manifesto em você e através de você, como uma criança. O divino virá a você como infantil
ou imaturo, na medida cm que você c um homem desenvolvido. O homem infantil tem um Deus velho,
o velho Deus que nós conhecemos c cuja morte nós vimos. Sc você c adulto, você só pode tornar se mais
infantil. Você tem a juventude diante de você c todos os mistérios do que está por vir. O infantil tem a
morte diante dele, já que precisa primeiro tornar se adulto. Você se tornará adulto na medida cm que
superar o Deus dos antigos c da sua infância. Você o supera não pondo-o de lado, obedecendo ao espírito
do tempo [: Zeitgeist]. O espírito deste tempo oscila entre o sim e o não como um bêbado ["já que ele é
a incerteza da consciência geral presente"]. Você ["Alguém", do princípio ao fim] só pode superar o velho
Deus transformando-se você mesmo nele e experimentando você mesmo o sofrimento e morte dele. Você
o supera e se torna você mesmo, como alguém que se procura a si mesmo e já não im ita heróis. Você se
liberta a si mesmo quando você se liberta do velho Deus e seu modelo. Quando você se tornou o modelo,
você já não precisa mais do dele. No fato de o Deus segurar em suas mãos o amor c a prudência na forma
da serpente, foi me mostrado que ele se apoderara da vontade humana. ["Deus unifica a oposição entre
o amor e a ideia, e a segura em suas mãos".] O amor e o pensar prévio existiram desde toda a eternidade,
mas não foram queridos. Todos querem sempre o espírito deste tempo, que pensa e deseja. Aquele que
quer o espírito das profundezas, quer o amor e o pensar prévio. Se você quer os dois, você se torna Deus.
Se você faz isto, o Deus nasce e toma posse da vontade dos homens e segura a vontade dele na mão de seu
filho. O espírito das profundezas aparece em você como totalmente infantil. Sc você não quer o espírito
das profundezas, ele é para você um tormento. O querer leva ao caminho. O amor e o pensar prévio
estão no mundo do além, enquanto você não os quer e a vontade de você está entre eles como a serpente
["os mantém separados"]. Se você quer os dois, eclode em você a luta entre querer o amor e querer o
pensar prévio ["o reconhecimento"]. Você verá que você não pode querer os dois ao mesmo tempo. Nesta
necessidade o Deus nascerá, como você experimentou no mystcrium, e ele tomará a vontade dividida
em suas mãos, nas mãos de uma criança, cuja vontade é simples e para além do ser dividida. O que é esta
vontade divino-infantil? Você não consegue aprendê-la através de uma descrição, ela só pode vir a ser em
você. Você tampouco pode querê-la. Você não pode aprendê-la ou ter empatia com ela a partir daquilo
que eu digo. E incrível como os homens são capazes de enganar se a si mesmos c m entir para si mesmos.
Que isto seja uma advertência. O que cu digo é o meu mistério e não o de você, o meu caminho c não o
de você, já que o meu self pertence a m im c não a você. Você não deve aprender o meu caminho, mas o seu
próprio. Meu caminho leva a m im e não a você (p. 142-145).
239 O esboço corrigido tem: "o grande espírito" (p. 146).
184 LI BERP RI M U S foi.vi(r)/ vii(v)

P e lo fat o d e e u q u e r e r t a m b é m m e u se r o u t r o , d e vo t o r n a r - m e u m Cr i s t o .

Eu serei t ran sform ado em Cr ist o, devo su port á-lo. Assim jo r r a o sangue red en -
tor. At ravés do autossacrifício, m eu prazer será t ran sform ado e passa para u m
prin cípio m ais alto. O am or en xerga, mas o prazer é cego. O s dois prin cípios
são u m só n o sím bolo d a ch am a. O s prin cípios despem -se da form a h u m a n a 2 4 0 .

240 A esta altura o esboço corrigido tem uma longa passagem, da qual segue uma paráfrase: Enquanto você via
como o orgulho e a força encheram os homens e a beleza jorrou dos olhos das mulheres quando a guerra
fascinou as pessoas, você sabia que a humanidade estava a caminho. Você sabia que esta guerra não era
apenas aventura, atos criminosos e assassinatos, mas o mistério do autossacrifício. O ["grande", mudado
do início ao fim] espírito das profundezas apoderou-se da humanidade e for^ou-a, através da guerra, ao
autossacrifício. Não procure a culpa aqui ou ali. ["A culpa não está fora"]. - E o espírito das profundezas
que leva as pessoas ao Mystcrium, assim como me levou a mim. Ele leva o povo ao rio de sangue, como me
levou a mim. Experim entei no Mysterium aquilo que as pessoas foram forçadas a fazer na atualidadc ["que
aconteceu fora em grande escala"]. Eu não o sabia, mas o Mystcrium ensinou me como minha vontade
lançou se aos pés do Deus crucificado. Eu experimentei [quis] o autossacrifício de Cristo. O Mysterium
de Crist o completou-se diante dos meus olhos. Meu pensar prévio ["A ideia que estava acima de m im "]
forçava-me a isto, mas eu resisti. Meu desejo mais alto, meus leões, minha paixão mais ardente c mais forte,
eu queria levantar contra a misteriosa vontade de autossacrifício. Assim eu era como um leão envolvido
pela serpente, ["uma imagem do destino renovando-se eternamente"]. Salomé achegou-se a m im vindo
da direita, do lado favorável. O prazer despertou cm mim. Experim entei que meu prazer me vem quando
realizo o autossacrifício. Ouço que Maria, o símbolo do amor, é também a [minha] mãe de Cristo, já que
o amor também gerou a Cristo. O amor traz o autossacrificador e o autossacrifício. O amor é também
a mãe do meu autossacrifício. No fato de ouvir e aceitar isto, experimento que me torno Cristo, já que
reconheço que o amor me transforma em Cristo. Mas ainda duvido, já que é quase impossível o pensador
diferenciar-se de seu pensamento e aceitar que aquilo que acontece em seu pensamento é também algo
fora dele mesmo. Está fora dele no mundo interior. Eu me torno Crist o no Mystcrium; ou melhor, cu vejo
como fui transformado cm Cristo c no entanto ainda sou inteiramente cu mesmo, de modo que cu podia
ainda duvidar quando meu prazer me disse que cu era Cristo. [Salomé,] Meu prazer, disse-me ["que eu sou
Crist o"] porque o amor, que é mais elevado que o prazer, mas que ainda está em m im escondido no prazer,
levara-me ao autossacrifício e transformara-me em Cristo. O prazer aproximou-se de m im , envolveu-
me com anéis e forçou-me a experimentar o tormento de Crist o e a derramar meu sangue pelo mundo.
Minha vontade, que antes servia ao espírito deste tempo ["Zeitgeist", substituído do início ao fim ], desceu
ao espírito das profundezas e, assim como estava anteriormente determinada pelo espírito do tempo, está
agora determinada pelo espírito das profundezas, pelo pensar prévio ["ideia", substituída do início ao fim ]
e o prazer. Determinou-me através da vontade de autossacrifício, e ao derramamento do sangue, a essência
de minha vida. Note-se que é meu prazer mau que me leva ao autossacrifício. Sua parte mais recôndita é
o amor, que será libertado do prazer através do sacrifício. Aqu i aconteceu a maravilha de que meu prazer
anteriormente cego começou a ver. Meu prazer era cego, e era amor. Já que minha vontade mais forte
quis o autossacrifício, meu prazer mudou, entrou num princípio superior, que em Deus é um princípio
com pensar prévio. O amor tem visão, mas o prazer é cego. O prazer quer sempre aquilo que está mais
próximo, e explora a multiplicidade, indo de uma coisa a outra, sem uma meta, apenas buscando e nunca
satisfeito. O amor quer aquilo que está mais afastado, o melhor e o que satisfaz. E vi algo mais, a saber,
que o pensar prévio em m im tinha a forma de um antigo profeta, o que mostrava que era pré-cristão, e
transformou-se num princípio que já não aparecia mais em forma humana, mas na forma absoluta de pura
luz branca. Assim o relativo humano transformou se no absoluto divino através do Mystcrium de Cristo.
O pensar prévio e o prazer uniram-se em m im de uma forma nova e a vontade em mim, que parecia
estranha e perigosa, a vontade do espírito das profundezas, ficou paralisada aos pés da chama cintilante.
Tornei-me uma só coisa com minha vontade. Isto aconteceu em mim, eu apenas o vi no jogo do mistério.
Através disto, tornaram se conhecidas muitas coisas que antes eu não sabia, ["como num jogo"]. Mas
achei tudo duvidoso. Senti como se eu estivesse derretendo no ar, já que a terra do Mysterium [daquele
espírito] ainda me era estranha. O Mystcrium mostrou me as coisas que estavam diante de m im c
precisavam ser levadas a cabo. Mas cu não sabia como nem quando. Mas aquela imagem de Salomé dotada
de visão, ajoelhada em êxtase diante da chama branca, era um forte sentimento que veio para o lado de
minha vontade e guiou-me através de todas as coisas que vieram depois. O que aconteceu foi minha
viagem comigo mesmo, através de cujo sofrimento eu precisava alcançar o que servia para a conclusão do
Mystcrium que cu havia visto ["eu havia visto antes"] (p. 146-150).
SO LU Ç ÃO 185

O m ist ério m ost rou -m e em im agem o que eu d evia viver depois. Eu n ão


possu ía n ada daquelas am abilidades que o m ist ério m e m ost rou , mas t eria que
ad qu iri-las todas a in d a 24 1.

fínís part. prím . ( fim d a p r im e ir a p art e)

241 Gilles Q uispel informa que Jung contou ao poeta holandês Roland Horst que ele havia escrito Tipos
psicológicos com base em trin ta páginas do Livro Vermelho. Apu d H O E L L E R , S. The Gnostíc Jung and the Seven
Sermons to the Dead (Wh eaton , 111., Quest, 1985, p. 6 ) . E provável que ele tivesse em mente estes três
capítulos precedentes do "Mysterium ". O que é apresentado aqui desenvolve as noções do conflito entre
funções opostas, da identificação com a função principal e do desenvolvimento do símbolo reconciliador
como uma solução do conflito dos opostos, que são as questões centrais no cap. 5 de Tipos psicológicos ( O C ,
6 ) , o "Problema dos tipos na poesia". No seminário de 1925, Jung disse: "Descobri que o inconsciente está
elaborando enormes fantasias coletivas. Assim como, antes, eu estava apaixonadamente interessado em
elaborar mitos, agora adquiri interesse exatamente igual pelo material do inconsciente. Esta é, na verdade,
a única maneira de chegar à formação de um mito. E por isso o primeiro capítulo de Psicologia do inconsciente
tornou-se exatissimamente verdadeiro. Observei a criação de mitos que acontecem, e adquiri um
conhecimento do inconsciente, formando assim o conceito que desempenha esse papel nos Tipos. Tomei
todo o meu material empírico de meus pacientes, mas a solução do problema tirei-a de dentro, de minhas
observações dos processos inconscientes. Procurei fundir estas duas correntes de experiência exterior e
experiência interior no livro dos Tipos e dei ao processo de fusão das duas correntes o nome de função
transcendente" (introductíon to Jungian Psychology, p. 35).
Lib er Secundus
As imagens do erran t e 1
[IH I JV nolíte audíre verba prophetarum , quí prophetant vobís et decípíunt vos: visionem cordís suí
loquuntur, non de ore Dom íní. audíví quae díxerunt [prophetae] prophetantes ín nom íne m eo m en-
dacíum , atque dícentes: som níaví, som níaví. usquequo ístud est ín corde prophetarum vatícínantíum
m endacíum et prophetantíum seductíonem cordís suí? quí voluntjacere ut oblívíscatur populus m eus
nom ínís m eípropter som nía eorum , quae narra[n]t unusquísque adproxím um suum : sícut oblítí sunt
patres eorum nom ínís m eípropter Baal. propheta, quí hahet som níum , narret som níum et quí hahet
serm onem m eum , loquatur serm onem m eum vere: quídpaleís ad trítícum ? dícít dom ínus.

["Não ou çais as palavras dos profet as que vos p rofet izam ! Eles vos en gan am ,

an u n cian d o visões que provêm de seu coração e n ão d a boca do Sen h or " ( Jr 23,16)].

["O u vi o que d isseram os profet as que p rofet izam m en t iras em m eu n om e.


Tiveum sonhol Tive u m son h o! At é quan do h averá en t re os profetas os que p r o -
fet izam m en t iras e os que p rofet izam en gan os de seu coração? Eles que t en t am
fazer o m eu povo esquecer o m eu n om e, p or m eio de son h os que con t am un s
aos ou t ros: com o seus pais esqu eceram o m eu n om e por causa de Baal! O p r o -
fet a que t em u m son h o, que o con t e! E o que t em u m a p alavra m in h a, que a fale
com verd ad e! O que t em a p alh a em com u m com o grão? — orácu lo do Sen h or "
( Jr 23,25-28 ) ]./

1 O esboço manuscrito tem A aventura do percurso errado (p. 353).


2 Em seu ensaio sobre Picasso, em 1932, Jung descreveu as pinturas (quadros) de esquizofrênicos, levando
em conta somente aqueles em que uma perturbação psíquica produziria provavelmente sintomas
esquizoides, em vez de pessoas que sofriam dessa condição, como a seguir: "Do ponto de vista puramente
formal predomina a característica dafragmentação, expressa nas assim chamadas linhas de ruptura, uma
espécie de fendas de rejeição psíquica, traçadas através do quadro" ( O C, 15, § 208).
3 Essas passagens em latim da Bíblia, também transcritas da Bíblia de Lutero, são todas citadas por Jung
em Tipos psicológicos (1921), que ele introduziu com os seguintes comentários: "A forma pela qual Crist o
apresentou ao mundo o conteúdo de seu inconsciente foi aceita e declarada obrigatória em geral. Todas as
fantasias individuais perderam seu efeito e valor; foram perseguidas como heréticas, como no-lo atestam
o movimento gnóstico e todas as heresias posteriores. O profeta Jeremias já se expressara neste sentido"
( O C, 6, § 8 1) .

189
190 L I B E R S E C U N D U S 2/3

O Ve r m e l h o 4
Ca p . i .

[ I H 2 ] 5 A p ort a do m ist ério est á t ran cad a atrás de m im . Sin t o que m in h a vo n -


tade est á paralisada, e que o espírit o da profun deza m e possui. Nad a sei sobre
u m cam in h o. Por isso n ão posso querer ist o ou aquilo, pois n ada m e in d ica se é
ist o ou aquilo que quero. Eu espero, sem saber o que eu espero. Mas já n a n oit e
seguinte sen t i que h avia alcan çado u m pon t o seguro 6 .

7
Ju lgu ei en con t rar-m e n a t orre m ais alt a de u m castelo. Eu o percebo pelo
ar: est ou bem afastado n o tem po. Lon gam en t e vagueia m eu olh ar por sobre
t orres solitárias e on duladas, u m a variação de cam pos e m atas. E u usava u m a
capa verde. Pen d ia de m eu om bro u m a t rom pa. Eu era o guarda da t orre. O lh e i
para fora para o espaço lon gín qu o. V i lá fora u m pon t o verm elh o, vem se apro-
xim an d o por u m a est rada prodigiosa, desaparece às vezes n a m at a e surge de
novo: é u m cavaleiro com rou pa verm elh a, o Cavaleiro Verm elh o. Ve m ao m eu
castelo: já cavalga através do port ão. O u ço passos n a escada, os degraus ran gem ,
bat em à port a: u m m edo est ran h o se apodera de m im . Al i est á o Verm elh o, sua
esbelta figura t oda de verm elh o, até m esm o seu cabelo é verm elh o. Eu penso:
deve ser o d em ón io.

O Verm elh o: "Min h as saudações, h om em d a t orre alta! Eu o vi de longe,


observan do e esperando. Tu a espera m e ch am ou ".
Eu : "Q u e m és t u ?"
O V : "Q u e m eu sou? T u pensas que sou o d em ón io. N ã o faças julgam en t os
apressados. Talvez possas con versar com igo sem saber qu em eu sou. Q u e co m -
pan h eiro superst icioso t u és, para logo pen sar n o d em ón io?"
Eu : "Se n ão ten s u m poder sobren at u ral, com o pudeste perceber que eu
estava em m in h a t orre em at it ude de espera, olh an do para o descon h ecido e
novo? Min h a vid a n o castelo é pobre, u m a vez que fico sem pre sentado aqui e
n in gu ém sobe até m im ".

4 O esboço corrigido tem: VA grande Odisseia I . O Verm elho (p.157).


5 Isto retrata Jung na cena de abertura dessa fantasia.
6 Este parágrafo foi acrescentado ao esboço (p. 167).
7 26 de dezembro de 1913.
O VERM ELH O 191

O V : "O que esperas en t ão?"


Eu : "Esp er o m u it as coisas, mas espero sobretudo que possa vir a m im algo
da riqu eza do m u n d o que n ão vem os".
O V : "En t ão est ou n o lugar cert o ju n t o de t i. Via jo h á m u it o por todas as
t erras e procu ro aqueles que, com o t u , est ão sentados n u m a t orre alt a e buscam
coisas n u n ca vist as".
Eu : "T u m e torn as curioso. Pareces ser de u m t ipo raro. Tu a aparên cia n ão é
c o m u m , e — d e s c u lp e - m e — t a m b é m m e p a r e ce q u e t r a z e s co n t igo u m a r e s t r a -
nho, algo m un dan o, at revido ou folgazão, ou — d it o fran cam en t e - algo pagão".
O V : "T u n ão m e ofendes; ao con t rário, acertas bem n o alvo. Mas n ão sou
u m velh o pagão, com o pareces crer".
Eu : "Ist o t am bém n ão quero afirm ar; para isso n ão és su ficien t em en t e vis-
toso e lat in o. N ã o ten s n ada de clássico em t i. Pareces ser u m filh o de nosso
tem po, m as, devo observar, u m pouco fora do com u m . T u n ão és u m au t ên t ico
pagão, mas u m pagão que corre ao lado de n ossa religião crist ã".
O V : "És de fato u m b om decifrador de en igm as. T u desem penhas t eu papel
b em m elh or do que m u it os out ros que sim plesm en t e m e ign oraram ".
Eu : "Te u t om é reservado e irón ico. Nu n ca tiveste t eu coração at in gido pe-
los sacrossantos m ist érios de n ossa religião crist ã?"
O V : "T u és u m a pessoa in acred it avelm en t e lerd a e séria. És sem pre assim
tão in sist en t e?"
Eu : "E u gost aria - dian t e de Deu s - ser sem pre tão sério e fiel a m im m es-
m o, com o procu ro sê-lo. Para m im est á se t orn an d o difícil estar em t u a presen -
ça. T u trazes con tigo u m a espécie de ar de con den ação, cert am en t e és u m in t e-
gran te da escola n egra de Salern o 8 , onde se en sin am artes m aléficas de pagãos
e descendentes de pagãos".
O V : "T u és su perst icioso e alem ão d em ais. T u tom as ao pé d a let r a o que
d izem as Sagradas Escr it u r as, caso con t rário n ão poderias ju lgar t ão d u r a-
m en t e".
/ Eu : "Lon ge de m im u m ju lgam en t o duro. Mas o m eu faro n ão m e engana.
T u estás te esquivan do e n ão queres te trair. O que escondes?"

8 Salerno é uma cidade ao sudoeste da Itália, fundada pelos romanos. Jung refere-se provavelmente à
Accademía Segreta, criada nos anos 1540 e que promovia a alquimia.
192 L I B E R S E C U N D U S 3/4

( O Verm elh o parece ficar m ais verm elh o, sua capa resplan dece com o ferro
em brasa).

O V : "N ã o escondo n ada, seu in gén u o cord ial. D ivir t o -m e apenas com t u a
pon derosa seriedade e t u a cóm ica sin ceridade. O que é raro em n ossa época,
sobretudo nas pessoas que d isp õem da razão".
Eu : "E u creio que n ão podes en t en d er-m e de todo. T u m e avalias segundo
aqueles que conheces de pessoas vivas. Mas devo d izer-t e, por am or à verdade,
que eu de fato n ão p ert en ço a esta época e a este lugar. U m feit iceiro m e b an iu
para este lugar e para esta época desde tem pos m u it o antigos. N a realidade n ão
sou aquele que vês dian t e de t i".
O V : "Falas coisas espantosas. Q u e m és en t ão?"
Eu : "Ist o n ão vem ao caso: est ou dian t e de t i com o aquele que sou at u alm en -
te. Por que estou aqui e sou assim , n ão sei. Mas sei que devo estar aqui para te
dar satisfação da m elh or form a possível. Sei t ão pouco qu em t u és, quão pouco
t u sabes qu em eu sou".
O V : "Ist o soa bem estran h o. Es por acaso u m santo? U m filósofo n ão és,
pois a lin guagem eru d it a n ão est á contigo. Mas u m santo? É m ais provável. Tu a
seriedade ch eira a fan atism o. T u ten s u m a at m osfera ét ica e u m a sim plicid ad e
que lem b ram pão e água".
Eu : "N ã o posso d izer sim n em n ão: falas com o u m aprision ado n o espírit o
dessa época. Falt am -t e, ao que m e parece, as m et áforas".
O V : "Por acaso frequen taste t am bém a escola dos pagãos? Respon des
com o u m sofist a 9 . Co m o chegaste en t ão ao pon t o de m e m ed ir com a m ed id a
da religião cristã, se n ão és n en h u m san to?"
Eu : "Parece-m e que isto seria u m a m ed id a a ser u t ilizad a m esm o por quem
n ão é santo. Cr e io t er percebido que n in gu ém pode esquivar-se im pu n em en t e
dos m ist érios da religião cristã. Rep it o que aquele que n u n ca d esped açou seu
coração com o sen h or Jesus Cr ist o arrast a consigo u m pagão, que o im pede de
chegar ao m elh or".

9 O s sofístas eram filósofos gregos do século I V e V a .C, sediados em Atenas, incluindo pessoas como
Protágoras, Górgias e Hípias. Davam aulas e aceitavam alunos, cobrando honorários; dedicavam especial
atenção à retórica. O ataque de Platão a eles em alguns Diálogos, deu uma conotação negativa ao termo,
como alguém que brinca com palavras.
O VERM ELH O 193

O V : "D e n ovo este velh o refrão? Para que isto, se n ão és n en h u m santo


cristão? N ã o serás de fato u m m ald it o sofista?"
Eu : "T u estás preso em t eu m un do. Mas podes pen sar que seria possível
est im ar corret am en t e o valor do crist ian ism o sem que seja n ecessariam en te
u m san t o".
O V : "És u m d ou t or em teologia, que exam in a o crist ian ism o a p ar t ir de
fora e o avalia h ist oricam en t e, port an t o u m sofista?"
Eu : "T u és teim oso. O que penso é que n ão foi por acaso que o m u n d o todo
se t orn ou cristão. Cr e io t am bém que foi t arefa da h u m an id ad e ocid en t al t razer
Cr ist o n o coração e crescer com seu sofrim en t o, m ort e e ressu rreição".
O V : "Exist e m t am bém judeus que são pessoas de bem e que n ão precisa-
r am de t eu elogiado evan gelho".
Eu : "Ao que m e parece, n ão és u m bom con h ecedor de pessoas: n u n ca per-
cebeste que falta algo ao ju d eu , a u m n a cabeça, a out ro n o coração, e que ele
m esm o sente que lh e falt a algum a coisa?"
O V : "N ã o sou ju d eu , mas t en h o que defen der os judeus: t u pareces u m
odiador de judeus".
Eu : "Co m isso repetes todos aqueles judeus que sem pre acusam u m ju lga-
m en t o n ão m u it o favorável a eles de ód io aos judeus, ao passo que eles m esm os
fazem as piadas m ais pican t es sobre sua p róp ria raça. Pelo fato de os judeus
sen t irem b em n it id am en t e aquela d et erm in ad a falta, mas n ão a qu ererem ad -
m it ir, são t ão suscet íveis a qualquer julgam en to. Acred it as que o crist ian ism o
passou pela alm a da pessoa sem d eixar vest ígio? E acreditas que alguém que n ão
o com p art ilh ou in t eriorm en t e t erá part e em seus fr u t o s?"10
O V: "Tu tens argumentos. Mas tua seriedade? Poderias estar mais à vontade. Se
não és n en h um santo, não vejo realmente por que precisas ser tão sério. Tu estragas
totalmente teu prazer. Q u e, diabos, há em tua cabeça? Só o cristianism o com sua
fuga lam urien ta do m un do pode torn ar as pessoas / tão tardas e fastidiosas".
Eu : "Ach o que exist em ain d a outras coisas que pregam a seriedade".

10 O esboço continua: "Ninguém pode importar-se com um desenvolvimento psíquico de muitos séculos e
colher o que não semeou" (p. 172).
194 L I B E R S E C U N D U S 3/4

O V : "Ah , já sei, t u queres d izer a vid a. Con h eço este palavrório. Eu t am bém
vivo e ela n ão m e preocupa n em u m pouco. A vid a n ão exige n en h u m a serieda-
de; ao con t rário, é m elh or d an çar pela vid a " 11.
Eu : "Co n h eço a dan ça. Seria b om se t udo se resolvesse com a dan ça! A d an -
ça faz part e do t em po do ardor. Sei que h á pessoas para as quais é sem pre t em -
po de ardor e pessoas que t am bém qu erem d an çar a seu Deu s. O s p rim eiros são
ridículos, os outros b r in cam de tem pos an tigos, em vez de ad m it ir em h on est a-
m en t e sua deficiên cia em possibilidades de expressão".
O V : "Aqu i, m eu caro, t iro m in h a m áscara. Agora t ran sform o-m e em algo
sério, pois ist o se refere a m eu ram o. Seria im agin ável ain d a u m a t erceira coisa
de que a dan ça fosse sím bolo".

O verm elh o do cavaleiro t ran sform ou -se n u m verm elh o delicado, cor de
carn e. E olh ai - ó m aravilh a - de m in h a capa verde b rot am folhas em t oda
parte.

Eu : "Exist e provavelm en t e t am bém u m a alegria dian t e de Deu s, que pode-


ríam os ch am ar de dan ça. Mas esta alegria eu ain d a n ão a en con t rei. Meu olh ar
perscru t a as coisas que vêm . Vie r a m coisas, mas en t re elas n ão estava a alegria".
O V : "N ã o m e recon heces, m eu irm ão, eu sou a alegria!"
Eu : "Deverias t u ser a alegria? Eu te vejo com o através de u m a n évoa. Tu a
im agem desaparece dian t e de m im . Deixa-m e pegar t u a m ão, amado, on de es-
tás? O n d e estás?"
A alegria? Er a ele a alegria?

[2] Cer t am en t e era o d em ón io, este Verm elh o, mas o m eu d em ón io. Er a


m in h a alegria, a alegria da pessoa séria que vigia sozin h a n u m a alt a t orre, sua
alegria rósea, com odor de rosas, de u m verm elh o claro e q u en t e 12 . N ã o a ale-
gria secreta em seus pen sam en tos e em seu olhar, mas aquela est ran h a alegria

11 Em Assim falava Zaratustra, de Nietzsche, Zaratustra alerta para a superioridade de espírito da seriedade e
adverte: "Homens superiores, o pior que tendes é não haverdes aprendido a dançar como é preciso dançar:
a dançar por cima de vós mesmos" ("Do homem superior", xx, p. 368).
12 Num seminário de 1939, Jung discutiu a transformação histórica da figura do demónio. Disse: "Quando
aparece vermelho, tem fogo, isto é, natureza de paixão: causa luxúria, ódio e amor indomável" ( JU N G , L.
& M EYER- GRASS, M. Kindertràume. Dússeldorf: Walter Verlag, 1987, p. 194. Edição brasileira: Seminários
sobre sonhos de crianças. Petrópolis: Vozes 2011, p. 188).
O VERM ELH O 195

do m u n d o que chega in esperadam en t e com o u m ven t o su l quen te com ondas


de perfum es de flores e de facilidade da vid a. Sabeis de vossos poetas que pes-
soas sérias, quan do olh am para fora esperan do as coisas da profun deza, são
p rim eiram en t e procuradas pelo d em ón io em sua alegria p r im aver il 13 . Co m o
u m a on da, ela levan t a a pessoa e a leva para fora. Q u e m prova dessa alegria
esquece a si m esm o 14 . E n ão h á n ada m ais doce do que esquecer a si m esm o.
N ã o são poucos os que se esquecem do que foram . Porém m ais n um erosos são
aqueles que est ão tão firm em en t e en raizados, que n em m esm o a on d a rósea
consegue errad icá-los. Est ão pet rificados e são pesados dem ais, os out ros são
leves dem ais.

Eu d iscu t i seriam en t e com o d em ón io e m e p ort ei com ele com o se fosse


u m a pessoa real. Ap r e n d i n o m ist ério t rat ar com o pessoas e seriam en t e aqueles
livres-erran t es descon h ecidos, que h abit am o m u n d o in t erior, pois eles são r e-
ais porque at u am 15 . N ã o ad ian t a d izer n o espírit o dessa época: n ão h á d em ón io.
Com igo h ouve u m . Ta l coisa ocorreu em m im . Fiz com ele o que pude. Pude fa-
lar com ele. Co m o d em ón io é in evit ável u m a con versa sobre religião, pois ele a
provoca, se a gente n ão se quiser subm et er in con d icion alm en t e a ele. A religião
é exat am en t e o assun to n o qual n ão m e en t en do com o d em ón io. Ten h o que
d iscu t ir com ele, pois n ão posso esperar sem m ais que ele, com o person alidade
au t ón om a, aceite m eu pon t o de vist a.
Seria fuga se n ão procurasse m e en t en der com ele. Se t iveres a rara opor-
t un idade de falar com o d em ón io, n ão te esqueças de dialogar seriam en t e com
ele. Ele é, em ú lt im a an álise, o t eu d em ón io. O d em ón io é, com o adversário de
t eu ou t ro pon t o de vist a, aquele que te t en t a e coloca pedras em t eu cam in h o,
lá onde você m en os delas precisa.
Aceit ar o d em ón io n ão sign ifica passar para o lado dele, caso con t rário a
gente se t or n a d em ón io. Sign ifica en t en der-se. Co m isso assumes t eu out ro
pon t o de vist a. Co m isso o d em ón io perde algum t erren o e t u t am bém . E ist o
pod eria ser m u it o bom .

13 O esboço continua: "Já percebestes, através de Fausto, de que espécie incondicional é esta alegria" (p. 175). A
referência é ao Fausto, de Goethe.
14 O esboço tem: "Com o sabeis através de Fausto, não são poucos os que esquecem o que foram, porque
deixam levar tudo pela água" (p. 175).
15 Jung elaborou este ponto em 1928 ao apresentar o método da imaginação ativa: "Con t ra isso, o credo
científico de nossa época desenvolveu uma fobia supersticiosa em relação à fantasia. É verdadeiro aquilo que
atua. Ora, as fantasias do inconsciente atuam sem dúvida alguma" ( O C, 7, § 353).
196 LI BE R SECU N D U S 4/ 5

Ap esar de a religião repugn ar ao d em ón io, devido à sua especial seriedade


e cordialidade, fica paten te que é exat am en t e a religião pela qual o d em ón io
pode ser levado a u m en t en d im en t o. O que eu disse sobre a dan ça faz sen tido,
pois falei sobre algo que pert en ce a seu d om ín io. Ele só n ão leva a sério o que
d iz respeit o a ou t ra pessoa, pois é u m a peculiaridade de todo d em ón io. Assim
4/5 chego à sua seriedade e alcan çam os t erren o com u m / , onde o en t en d im en t o é
possível. O d em ón io está con ven cido de que a d an ça n ão é ardor n em lou cu ra,
mas expressão de algo que n ão pert en ce n em a u m , n em à ou t ra, e sim à ale-
gria. Nisso con cordo com o d em ón io. Por isso ele se h u m an iza d ian t e de m eus
olh os. Mas eu fico verde com o árvore n a prim avera.
Mas que a alegria seja o d em ón io, ou o d em ón io seja a alegria, ist o deve
d ar-t e o que pensar. Eu pen sei sobre isso u m a sem an a in t eira, mas tem o que
n ão foi o suficien t e. T u negas que t u a alegria seja o d em ón io. Mas parece que
n a alegria h á sem pre algo de d em on íaco. Se t u a alegria n ão é n en h u m d em ón io
para t i, tam pouco o é para t eu p róxim o, pois a alegria é o m aior desabroch ar e
reverd ejar da vid a. Ist o te arrast a para a descida, e t u precisas tatear n ova pist a,
pois a lu z se apagou t ot alm en t e para t i n o fogo da alegria. O u t u a alegria arrast a
t eu p róxim o e o at ira para fora dos t rilh os, pois a vid a é com o u m gran de fogo
que in cen d eia tudo o que é com bu st ível. Mas o fogo é o elem en t o do d em ón io.
Q u an d o vi que o d em ón io era a alegria, t eria preferido fazer u m pacto com
ele. Mas com a alegria n ão podes fazer pacto n en h u m , pois ela some rap id a-
m en t e de novo. E por isso t am bém que n ão podes capt u rar t eu d em ón io. Faz
part e de sua n at u reza n ão ser capt urável. Se ele se d eixar pren der, é bobo, e t u
n ão terás n en h u m ganho em possu ir m ais u m d em ón io bobo. O d em ón io p r o-
cu ra sem pre serrar o galho em que estás sentado. Ist o é út il e previn e con t ra o
adorm ecer e os vícios a ele ligados.
O d em ón io é u m m au elem en to. E a alegria? Q u e a alegria t am bém t raz
em si o m al, t u o vês quan do andas atrás dela, pois en t ão chegas ao prazer, e do
prazer d iret am en t e ao in fern o, ao t eu in fern o, especificam en te t eu , u m in fern o
que é diferen t e para cada u m 16 .
Med ian t e o en t en d im en t o com o d em ón io, ele assu m iu algo de m in h a se-
riedade, e eu, algo de sua alegria. Ist o m e d eu coragem . Mas se o d em ón io t iver

16 O esboço continua: "Toda pessoa atenta conhece seu inferno, mas não seu demónio. Não existem só
demónios alegres, mas também tristes" (p. 178).
O C AST ELO N A FLO REST A 197

ganho em seriedade, en t ão é n ecessário preparar-se para algum a coisa 17 . É sem -


pre arriscado aceit ar a alegria, mas ela nos con duz à vid a e à sua desilusão, da
qual depen de t oda n ossa vid a 18 .

O castelo n a florest a 19
Cap. ii.

20
[ I H 5] N a segunda noite imediatamente a seguir, en trei sozinho n a floresta
escura e n otei que me havia perdido 21. Est ou n um a estrada de terra m uito ru im e vou
tropeçando n a escuridão. Cheguei finalmente a u m a água escura e parada de charne-
ca, no meio da qual havia u m pequeno e velho castelo. Eu pensei que seria bom pedir
aqui pousada para a noite. Bato no portão, espero m uito tempo, começa a chover.
Preciso bater de novo. Agora ouço alguém vindo: a pessoa abre a porta. U m senhor
com vestes antiquadas, u m servo, pergunta o que desejo. Peço hospedagem para a
noite, e ele me faz entrar n u m antessala escura. Depois me leva a subir u m a escada
de madeira, gasta e escura. Em cim a, chego a u m espaço mais amplo e mais alto, em
form a de salão, com paredes brancas, ao longo das quais há arcas e armários pretos.
Sou levado a u m a espécie de sala de recepções. É u m a sala sim ples com ve-
lh os m óveis estofados. A lu z m ort iça de u m lam pião an t iquado ilu m in a a sala
apenas o n ecessário. O servo bate n u m a p ort a lat eral e depois a abre devagar.
O lh o rapidam en t e para lá: é o qu art o de t rabalh o de u m sábio, estantes de l i -
vros nas quat ro paredes, u m a grande m esa de trabalh o à qual está sentado u m
velh o em veste t alar pret a. Acen a-m e para que m e aproxim e. O ar n o quart o
é pesado, e o velh o d á u m a im pressão preocupan te. Ele n ão é sem dign idade,
ist o é, parece pert en cer àqueles que t êm t an t a dign idade quan to a gente lhes
dá. Te m aquela expressão m odest a-t em erosa da pessoa cu lt a que h á m u it o foi

17 O esboço continua: "Com o o demónio conseguiu a seriedade, isto eu experimentei numa aventura
posterior. Através da seriedade, ele se torna certamente mais perigoso para t i, mas, acredita-me, isto lhe
fará m al" (p. 178-179).
18 O esboço continua: "Com a alegria recém-adquirida, saí para a aventura, sem saber para onde o caminho me
levava. Evidentemente eu poderia ter sabido que o demónio sempre nos alicia em primeiro lugar através
das mulheres. Como pensador, eu era sabido em pensamentos, não em matéria de vida. Ali eu era até
mesmo tolo e confuso. Portanto, pronto para cair numa armadilha de pegar raposa" (p. 179).
19 O esboço m anuscrito tem: Segunda aventura (p. 383).
20 28 de dezembro de 1913.
21 O inferno, de Dante, começa com o poeta perdido numa floresta escura. H á uma tira de papel nesta página
do exemplar de Jung.
198 L I B E R S E C U N D U S 5/7

5/6 red u zid a a n ada pela quan t idade de saber. Penso que ele é u m verd ad eiro / sábio
que apren deu a gran de m od ést ia dian t e da in com en su rabilid ad e do saber e que
se d ed icou com plet am en t e ao objeto da ciên cia, pon deran do t ím id a e im p ar -
cialm en t e com o se ele em pessoa tivesse que apresen tar com respon sabilidade
o processo da veracidade cien t ífica.
Cu m p r im en t o u -m e t im id am en t e, com o que ausente e afastan do-m e. N ã o
m e ad m irei, pois eu t in h a a aparên cia de u m h om em com u m . Só com esforço
con seguia desviar os olhos de seu trabalho. Eu repet i m eu pedido de h ospeda-
gem por u m a n oit e. Ap ó s lon ga pausa, o velh o disse: "Be m , t u queres d orm ir,
dorm e em paz". V i que estava absorto e por isso lh e ped i que recom endasse ao
servo para m e m ost rar u m qu art o de d orm ir. Disse: "T u pedes m u it o, espera,
n ão posso m e d ist rair agora". Mergu lh ou de n ovo em seu livro. Esp er ei p acien -
t em en t e. Ap ó s cert o tem po, olh ou -m e adm irado: "O que desejas aqui? — O h ,
desculpa - eu h avia esquecido t ot alm en t e que estavas esperan do aqui. Ch a -
m arei im ed iat am en t e o servo". O servo veio e levou -m e ao m esm o an dar de
antes, para u m pequen o quart o com paredes bran cas nuas e u m a grande cam a.
Desejou -m e boa-n oit e e se ret irou .
Co m o eu estivesse cansado, t ir ei a rou pa e m e d eit ei n a cam a, após t er apa-
gado a lu z de u m a vela de sebo. O s len çóis eram ext rem am en t e ásperos e o t r a-
vesseiro, duro. Meu cam in h o errado levou -m e a u m lugar est ran h o: u m velh o
e pequen o castelo, cujo sábio propriet ário passava eviden t em en t e sozin h o suas
n oit es com seus livros. Parece que n ão h avia m ais n in gu ém n a casa, a n ão ser o
servo, que m orava acolá n a t orre. U m m odo de vid a id eal, mas solit ário o desse
velh o com seus livros, pen sei eu. E n isso se d em oraram por longo t em po m eus
pen sam en tos, até que percebi que u m ou t ro pen sam en t o n ão m e aban don ava,
ist o é, que o velh o m an t in h a escon dida aqui sua bela filh a - id eia rom ân t ica
absurda - u m t em a sem graça e já explorado - mas o rom ân t ico est á em todas
as ju n t as de cada pessoa - u m a id eia gen uin am en t e rom ân t ica - u m castelo
n a floresta - solit ário-crepu scu lar - u m velh o m u m ificad o em seus livros, que
guarda u m tesouro valioso e o esconde ciosam en t e de todo m u n d o — que ideias
ridículas m e sobrevêm ! É in fern o ou pu rgat ório que preciso con ceber em m i -
n h a viagem errad a à sem elh an ça dos sonhos in fan t is? Mas sin t o-m e in capaz
de elevar meus pen sam en tos a algo m ais forte ou m ais bon it o. Devo con sen t ir
nesses pen sam en tos. O que ad ian t aria repeli-los - eles volt am - m elh or en -
golir este gole in sípid o do que m an t ê-lo n a boca. Co m o será que ela se parece,
O C AST ELO N A FLO REST A 199

esta h eroín a aborrecida? Cer t am en t e lou ra, pálida - olh os azuis - an siosa-
m en t e esperan do de cada cam in h an t e ext raviado o salvador de sua prisão p a-
t ern a - ah , eu con h eço este absurdo t rivial - prefiro d or m ir - por que, diabos,
devo at orm en t ar-m e com essas fantasias ocas?
O sono n ão quer n ada. Vir o - m e de u m lado a ou t ro — o sono n ão vem —
devo eu t er em m im m esm o afin al esta alm a n ão resgatada? Será que é ela que
n ão m e d eixa d orm ir? Ter ei eu u m a alm a t ão rom ân t ica? Só faltava ist o — seria
dolorosam en t e ridículo. Será que a m ais in sípid a das bebidas n ão t erá m ais fim ?
Já deve ser m eia-n oit e - e n ada de sono ain da. O que será que n ão m e d eixa
d orm ir? Será algum a coisa neste quarto? A cam a est ará en feit içada? E sim ples-
m en t e m acabro para on de a in són ia pode levar u m a pessoa - in clu sive para as
teorias m ais disparatadas e m ais supersticiosas. Parece fazer frio, eu est ou com
frio - t alvez, e n ão d u r m a por causa disso - aqui é realm en t e sin ist ro - Deu s
sabe o que acontece aqui — n ão escut ei passos h á pouco? Nã o , deve t er sido lá
fora — vir o para o ou t ro lado, fecho os olhos com força, preciso d orm ir. A por-
t a está se abrin do? Me u Deu s, alguém está aí? Est ou ven d o bem ? U m a m oça
esguia, pálid a com o a m ort e, est á à porta? Céu s, o que é isto? El a se aproxim a!
"Ch egast e fin alm en t e?", pergu n t ou b aixin h o. Im p ossível - é u m engano
pavoroso - o rom an ce quer t orn ar-se real - quer t ran sform ar-se em h ist ória
est ú p id a de fantasm as? A que disparat e est ou con den ado? E m in h a alm a que
alberga t ais glórias rom ân t icas? Ist o t am b ém deve acon t ecer com igo? Est o u
realm en t e n o in fern o - o p ior despert ar após a m ort e quan do se ressu scit a
n u m a b ib liot eca pú blica. Desp r ezei as pessoas de m in h a época e seu gosto,
t an t o assim que devo viver e escrever n o in fern o os rom an ces sobre os quais
já cu spi h á m u it o t em po? Será que a m etade in fer ior do gosto m éd io d a h u -
m an id ad e t am bém t em d ireit o à san t idade e in violab ilid ad e, de m odo que n ão
possam os d izer n en h u m a palavra desairosa / sobre isso, sem t erm os de pagar 6/7
o pecado n o in fern o?
El a fala: "Ah , t u t am b ém pensas o t r ivial de m im ? Tam b ém t u te deixas se-
d u zir pela m alfadada ilusão de que eu p ert en ço a u m rom an ce? Tam b ém t u ,
de qu em esperava que tivesse abandonado as aparên cias e se esforçasse para
at in gir a essên cia das coisas?"
Eu : "Perd ão, mas existes realm en t e? E u m a sem elh an ça por dem ais in feliz
com aquelas cenas de rom an ces, desgastadas até a parvoíce, que eu pudesse
aceit ar que n ão fosses apenas u m produ t o de m eu cérebro in son e. Min h a d ú -
200 L I B E R S E C U N D U S 7/8

vid a n ão está realm en t e ju st ificad a, quan do u m a sit uação coincide de t al form a


com o t ipo do rom an ce sen t im en t al?"
Ela: "In feliz, com o podes d u vid ar de m in h a realidade?"
Ca iu de joelh os, soluçan do, aos pés de m in h a cam a e escon deu o rosto nas
m ãos. Me u Deu s, ela é de fato real, e eu lh e faço in just iça? Min h a com paixão
despert ou.
Eu : "Mas, d ize-m e, por am or de Deu s: t u és real? Devo levar-t e a sério com o
realidade?"
Ela ch orou e n ada respon deu.
Eu : "Q u e m és en t ão?"
Ela: "Eu sou a filh a do velh o. Ele m e m an t ém aqui n u m a prisão in su port ável,
n ão por ciú m e ou ód io, mas por am or, pois sou sua ú n ica filh a e o ret rat o vivo
de m in h a m ãe, falecida m u it o jovem ".
Reco r r i à m in h a razão: ist o n ão é u m a estupidez in fern al? Palavra por p a-
lavra, o rom an ce de u m a bibliot eca pública! O deuses, para onde m e levastes?
É para rir, é para ch orar — é d u ro ser u m belo sofredor, u m d est roçad o t ragica-
m en t e, mas t orn ar-se u m macaco, vós belos e grandes? O ban al e et ern am en t e
ridículo, o in d izivelm en t e gasto e usado n u n ca vos foi depositado nas m ãos,
erguidas em oração, com o d ád iva do céu.
Ela con t in u a deit ada ali e ch ora - e se fosse real? Seria en t ão dign a de pen a
e t oda pessoa t er ia com p aixão dela. Se for u m a m oça decen te, o que n ão lh e
deve t er custado en t rar n o qu art o de d or m ir de u m h om em descon h ecido! E
ven cer de t al m odo sua t im id ez?
Eu : "Min h a qu erid a crian ça, apesar de tudo e de todos, quero acredit ar que
és real. O que posso fazer por t i?"
Ela: "Afin al, fin alm en t e u m a palavra de boca h u m an a!"
Ela se levan t a, seu rosto b rilh a, ela é bon it a. U m a pu reza profun da está em
seu olhar. El a possui u m a alm a bela e afastada do m un do, u m a alm a que gos-
t aria de chegar à vid a d a realidade, a t oda a realidade d eplorável, ao ban h o de
lam a e p oço de saúde. O h , sobre esta beleza da alm a! Vê -la descer para o su b-
m u n d o d a realidade - que espet áculo!
Ela: "O que podes fazer por m im ? Já fizeste m u it o. T u falaste a palavra lib er -
t adora quan do n ão colocaste m ais en t re m im e t i o ban al. Pois fica sabendo: eu
estava en feit içad a pelo ban al".
Eu : "Ai de m im , agora de t orn as bem fan tástica".
O C AST E LO N A F LO REST A 20I

Ela: "Sê razoável, prezado amigo, e n ão tropeces sobre o fan tástico, pois o
con t o de fadas é só a avó do rom an ce e m ais u n iversalm en t e válid o do que o r o -
m an ce m ais lid o de t u a época. E t u sabes que aquilo que, desde m ilén ios, passa
pela boca de todo o povo é com efeito o m ais m astigado e que m ais se ap roxim a
da verdade h u m an a m ais elevada. Port an t o, n ão deixes que o fan t ást ico se i n -
t erpon h a en t re n ó s"22 .
Eu : "Tu és inteligente e não pareces ter herdado a sabedoria de teu pai. Dize-m e,
o que pensas das verdades divinas, das chamadas verdades últimas? Seria m uito es-
t ran h o para m im procurá-las n a banalidade. D e acordo com sua n at ureza devem
ser bem excepcion ais. Pen sa apenas em nossos grandes filósofos".
Ela: "Q u an t o m ais excepcion ais essas verdades últ im as, t an t o m ais in u m a-
nas t am bém devem ser e t an t o m en os vão d izer-lh e algo de valor e sign ificat ivo
sobre a n at u reza e o ser h um an os. Só o que é h u m an o e que t u in sult as com o
ban al e vulgar, ist o / con t ém a sabedoria que t u procuras. O fan t ást ico n ão fala
con t ra, mas a favor de m im e prova que sou h u m an am en t e u n iversal e que n ão
só preciso da libert ação, mas t am bém a m ereço. Pois consigo viver n o m u n d o
da realidade tão b em ou talvez m elh or do que m u it os de m in h a espécie".
Eu : "Not ável sen h orit a, t u és descon certan te. Q u an d o vi t eu pai, pen sei que
fosse con vid ar-m e para u m a con versa in t elect u al. N ã o o fez, e eu fiqu ei abor-
recido, pois sen t i-m e u lt rajado em m in h a dign idade por seu pouco caso. Mas
ju n t o a t i en con t rei coisa bem m elh or. T u m e dás assunto para pensar. T u és
in com u m ".
Ela: "T u te enganas, sou bem com u m ".
Eu : "N ã o posso acredit ar nisso. Co m o é bela e adorável a expressão de t u a
alm a em teus olhos! Feliz e in vejável o h om em que te lib ert ar!"
Ela: "T u m e am as?"
Eu : "Por Deu s, eu te am o — m as in felizm en t e já sou casado".
Ela: "Port an t o — vês t u : a realidade ban al é in clu sive u m libert ador. Agrad e-
ço-t e, prezado amigo, e m an do por t i u m a saudação a Salom é".

22 Em seu "Satisfação do desejo e simbolismo nos contos de fada" (1908), o colega de Jung, Franz Riklin ,
argumenta que os contos de fadas foram as invenções espontâneas da alma humana prim itiva e a tendência
geral da satisfação do desejo (ThePsychoanalytícReview, 1913, p. 95 [trad. de W A. W h it e]). Em Transformações
e símbolos da libido, Jung considerou tanto os contos de fada quanto os mitos como representando imagens
primordiais. Em sua obra posterior, considerou-os como expressão dos arquétipos, como em "Sobre
os arquétipos do inconsciente coletivo" ( O C, 9/ 1, § 6 ). A discípula de Jung Marie-Louise von Franz
desenvolveu a interpretação psicológica dos contos de fada numa série de obras. Cf. Psychologísche
Mãrchenínterpretatíon - Ein e Einfíihrung. Munique: Kõsel Verlag, 1986.
202 L I B E R S E C U N D U S 8/ 9

A estas palavras, desfez-se sua figura n a escuridão. Lu z m ort iça d a lu a e n -


t r ou n o quarto. N o lugar on de esteve, h á algo escuro — é u m buque de rosas
ver m elh as 23.

24
[2] Q u an d o n ão te acontece n en h u m a aven t u ra ext ern a, t am bém n ão
acontece n en h u m a in t ern a. O ped aço que assumes do d em ón io, ou seja, a ale-
gria, p rovid en cia aven t u ra para t i. Faz falt a para t i con h ecer teus lim it es. Se
n ão os conheces, corres d en t ro das barreiras art ificiais de t u a im agin ação e
da expect at iva de teus sem elh an tes. Mas t u a vid a su port a m al ser con t id a por
barreiras art ificiais. A vid a quer saltar por sobre essas barreiras e t u te torn as
desun ido con tigo m esm o. Essas barreiras n ão são teus verdadeiros lim it es, mas
são lim it ação arbit rária que te im p õe u m a violên cia in út il. Procu ra en t ão e n -
con t rar teus verdadeiros lim it es. N ó s n ão os con hecem os de an t em ão, mas só
os vem os e com preen dem os quan do n ós os alcan çam os. Mas ist o t am bém só te
acontece quan do t u ten s equilíbrio. Sem equilíbrio, cais por cim a e para fora de
teus lim it es, sem perceber o que te acon teceu. Mas só consegues equ ilíbrio se
alim en t ares t eu oposto. Mas ist o te repugn a in t eriorm en t e, pois n ão é h eróico.
Meu espírit o pen sou em tudo o que é raro e in com u m , espreit a possibilid a-
des n ão descobertas, pistas que vão para o oculto, luzes que b r ilh am n a n oit e. E
quan do m eu espírit o fez isto, todo o com u m sofreu dan o em m im , sem que eu o
percebesse, e com eçou a querer vid a, pois eu n ão a vivia. Por isso acon t eceu-m e
esta aven t ura. O rom ân t ico m e atacou. O rom ân t ico é u m passo para trás. Para
chegar ao cam in h o, n ós devem os t am bém dar alguns passos para t r ás 25 .
N a aven t ura, vivo o que vi n o m ist ério. O que lá vi com o Elias e Salom é,
ist o t ran sform ou -se em vid a n o velh o sábio e em sua pálid a e aprision ada filh a.

23 Em "Aspectos psicológicos da Co r e"(i9 5i), Jung descreve este episódio assim: "Um a casa isolada numa
floresta. Nela mora um velho sábio. Aparece de repente sua filha, uma espécie de fantasma, queixando-se
de que as pessoas sempre a consideram como mero fantasma" ( O C, 9/ 1, § 361). Jung comentou (seguindo
suas observações sobre o episódio de Elias e Salomé, acima nota 212, p. 318): "O sonho 3 apresenta o
mesmo tema, porém num plano mais semelhante ao do conto de fadas. Aqu i a anima é caracterizada como
um ser fantasmagórico" (ibid., § 373).
24 O esboço continua: "Meu amigo, não percebes nada de minha vida exteriormente visível. Só ouves de
minha vida interior a contrapartida da vida exterior. Mas se pensas por isso que eu só tenho minha vida
interior e que esta é m inha única vida, estás enganado. Pois precisas saber que tua vida interior não fica
mais rica à custa da vida exterior, mas fica mais pobre. Se não vives exteriormente, não ficarás mais rico
interiormente, apenas mais sobrecarregado. Isto não contribui para teu benefício, e é um começo do
mal. Nem tua vida exterior ficará mais rica e mais bela à custa da vida interior, mas só mais pobre e mais
miserável. O equilíbrio encontra o caminho" (p. 188).
2$ O esboço continua: "Voltei à minha Idade Média, onde ainda fui romântico e lá vivi a aventura" (p. 190).
O C AST E LO N A FLO REST A 203

O que eu vivo é u m ret rat o det urpado do m ist ério. N o cam in h o do rom ân t ico
cheguei à disform idade e m edian idade da vid a, em que m eus pen sam en tos se
apagam e n a qual esqu eço prat icam en t e a m im m esm o. O que am ava antes
disso, devo agora viven ciar com o bagaço e ressequido, e o que desprezava an tes,
t ive que in vejar com o ascendente e desejar desam parado. Eu aceit ei o ridícu lo
dessa aven t ura. Mas acon teceu isto, vi t am bém que a m oça se t ran sform ava e
m ost rava u m sen t ido p róp rio seu. Se pergun t arm os pelo desejo do ridículo, ist o
basta para t ran sform á-lo.
O que se passa com a m asculin idade? Sabes qu an t a fem in ilid ad e falt a ao
h om em para seu aperfeiçoam en t o? Sabes qu an t a m asculin idade falt a à m u lh er
para seu aperfeiçoam en t o? Vó s procu rais o fem in in o n a m u lh er e o m ascu lin o
n o h om em . E assim h á sem pre apenas h om en s e m ulh eres. Mas onde estão
as pessoas? Tu , h om em , n ão deves procu rar o fem in in o n a m ulh er, mas deves
p rocu rá-lo e recon h ecê-lo em t i, pois t u [o] possuis desde o com eço. Mas gos-
tas de desem pen h ar o papel da m ascu lin idade, porque ist o flui pelo cam in h o
desim pedido do t rad icion al. Tu , m ulh er, n ão deves procu rar o m ascu lin o n o
h om em , mas deves aceit ar em t i o m asculin o, pois t u / o possuis desde o com e-
ço. Mas ist o te d ivert e e é fácil fazer o papel de m u lh er zin h a, por isso o h om em
te despreza, pois ele despreza o fem in in o. Mas a pessoa é m ascu lin a e fem in in a,
n ão é só h om em ou só m ulh er. D e t u a alm a n ão sabes d izer de que gén ero ela
é. Mas se prestares b em aten ção, verás que o h om em m ais m ascu lin o t em alm a
fem in in a, e que a m u lh er m ais fem in in a t em alm a m ascu lin a. Q u an t o m ais
h om em és, t an t o m ais afastado est á de t i o que a m u lh er realm en t e é, pois o
fem in in o em t i m esm o te é est ran h o e d esp rezível 26 .
Se tom ares do d em ón io u m ped aço de alegria e com isso saíres para a aven -
t u ra, aceitas para t i t eu prazer. Mas o prazer alicia im ed iat am en t e tudo o que
desejas, e agora depen de de t i se t eu prazer te vai corrom per ou elevar. Se fores
do d em ón io, vais an dar às escuras atrás d a variedade e n ist o te perder. Mas se
ficares con tigo m esm o, com o pessoa que é seu si-m esm o e n ão do d em ón io,
en t ão te recordarás de t u a h um an idade. T u te com port arás para com a m u lh er

26 Em Tipos psicológicos (1921), Jung escreveu: "Mulher muito feminina tem alma masculina; homem muito
masculino tem alma feminina. Deve-se este contraste ao fato de o homem não ser plenamente viril em
todas as coisas, mas possuir, via de regra, certos traços femininos. Quanto mais viril sua atitude externa,
mais suprimidos são os traços femininos; aparecem, então, no in con scien t e"(O C, 6, § 759 [884]). Ele
designa a alma feminina do homem de anima, e a alma masculina da mulher de anímus, e descreve como as
pessoas projetam suas imagens da alma sobre os membros do sexo oposto (ibid.).
204 LI BE R SECU N D U S 9/10

n ão sim plesm en t e com o h om em , mas com o pessoa, ist o é, com o se fosses do


m esm o gén ero dela. T u te record arás de t eu fem in in o. Pod erá parecer-t e com o
se fosses pouco vir il, até cert o pon t o est ú pid o e efem inado. Mas t u deves acei-
tar o ridículo, sen ão ele sofre necessidade em t i e, quan do m en os te previn es
con t ra ele, vai de repen t e cair sobre t i e t orn ar-t e ridículo.
E difícil para o h om em m ais m ascu lin o aceit ar seu fem in in o, pois lh e parece
ridículo, sin al de fraqueza e de deselegân cia. Sim , parece-t e com o se tivesses
perdido todas as virt u d es, com o se tivesses sido rebaixado. O m esm o se d á com
a m u lh er que aceit a seu m ascu lin o 27 . Parece-t e u m a escuridão. T u és escravo
daquilo que precisas em t u a alm a. O h om em m ais m ascu lin o precisa da m u lh er,
por isso é seu escravo. Tor n a-t e t u m esm o m u lh e r 28 , e ficarás livre da escraviza-
ção à m ulh er. N ã o te é p erm it id o aban don ar a m u lh er en quan t o n ão souberes
caçoar de t oda t u a m ascu lin idade. Fica-t e bem usar u m a vez vestes fem in in as:
vão zom bar de t i, mas à m ed id a que te t orn as m ulh er, alcanças a liberdade em
relação à m u lh er e de sua t iran ia. A aceit ação do fem in in o leva ao aperfeiçoa-
m en to. O m esm o vale para a m u lh er que aceit a seu m asculin o.
O fem in in o n o h om em está ligado ao m al. En con t r o-o n o cam in h o do
prazer. O m ascu lin o n a m u lh er est á ligado ao m al. Por isso repugn a à pessoa
aceit ar seu p róp rio outro. Mas, se o aceitas, acontece o que está vin cu lad o ao
aperfeiçoam en t o da pessoa: quan do te t orn ast e objeto de caçoada para t i, vem
voan do para pert o o pássaro bran co da alm a, que estava longe, mas que t u a h u -
m ildade a t r a iu 29 . O m ist ério chega pert o de t i, e acon t ecem coisas ao t eu redor
com o m ilagres. Br ilh a o fulgor áureo, pois o sol em erge de seu sepulcro. Co m o
h om em , n ão tens alm a, pois ela est á n a m u lh er; com o m u lh er, n ão ten s alm a,
pois ela est á n o h om em . Mas quan do te t orn as pessoa, t u a alm a vem a t i.
Se perm an eces d en t ro dos lim it es arbit rária e art ificialm en t e criados, andas
com o en t re dois m uros: n ão enxergas a in com en su rabilid ad e do m un do. Mas
se derrubas os m u ros que lim it am t u a visão e quan do a in com en su rabilid ad e

27 Para Jung, a integração da anima para o homem, e do animus para a mulher era necessária para o desenvol-
vimento da personalidade. Em 1928, ele descreveu este processo, que exigiu a retirada das projeções dos
membros do sexo oposto, diferenciando-as e tomando consciência delas em "O eu e o inconsciente" ( O C ,
7, § 29 6S. Cf. tb. Aion, 1951. O C , 9/ 2, § 20s.).
28 Em vez dessa frase, o esboço corrigido tem: "Mas se ele assumir em si mesmo o feminino, ficará livre da es-
cravidão da mulher" (p. 178).
29 Albrecht Dieterich observou: "Muitas vezes, a alma já é de antemão um pássaro na crença popular"
(Ábraxas - Studien zur Religionsgeschichte des spáten Altertum s. Leipzig: [s.e.], 1891, p. 184).
O C AST E LO N A FLO REST A 205

e sua in fin it a in cert eza se t orn arem assustadores para t i, despert a em t i o an -


t iqu íssim o adorm ecido cujo m en sageiro é o pássaro bran co. En t ão precisas da
m en sagem do velh o dom ador do caos. N o t u rbilh ão do caos m or am os etern os
m ilagres. Te u m u n d o com eça a ficar m aravilh oso. A pessoa n ão faz part e só de
u m m u n d o ordenado, mas pert en ce t am bém ao m u n d o m aravilh oso de sua
alm a. Por isso precisaríeis in cu t ir h or r or em vosso m u n d o orden ado a fim de
que percais o gosto pelo estar dem asiado fora.
Vossa alm a sofre necessidade, pois em seu m u n d o pesa a cobiça. Q u an d o
olh ais para fora de vós, vedes a m at a ao longe e as m on t an h as e para além disso
vosso olh ar sobe para os espaços siderais. Mas quan do olh ais para d en t ro de
vós, vedes n ovam en t e o que est á pert o, longe e in fin it o, pois o m u n d o in t er ior
é tão in fin it o quan t o o m u n d o ext erior. Assim com o tendes part e n a n at u reza
m u lt iform e do m u n d o através de vosso corpo, assim tendes part e n a n at u reza
m u lt iform e do m u n d o in t er ior através de vossa alm a. Est e m u n d o in t er ior é
realm en t e in fin it o e em n ada m ais pobre do que o ext erior. O ser h u m an o vive
em dois m un dos. U m dem en t e vive aqui ou lá, mas n u n ca aqui e lá.
3
°Tu pensas talvez que u m a pessoa, que dedica sua vid a à pesquisa, leve u m a
vid a esp irit u al e viva sua alm a em / m aior m ed id a do que qualquer ou t ra pessoa. 9/10
Mas t am b ém esta vid a é ext ern a, t ão ext ern a com o a vid a de u m a pessoa que
vive as coisas ext ern as. U m t al pesquisador n ão vive as coisas ext ern as, mas os
pen sam en tos ext ern os, port an t o n ão a si m esm o, p orém seu objeto. Se dizes
de u m a pessoa que ela se perd eu t ot alm en t e n a ext eriorid ad e e d esperd iça em
devassidão seus anos, deves d izer o m esm o desse velh o. Ele avilt ou -se em todos
os livros e em todos os pen sam en tos de outros. Por isso sua alm a passa por
necessidade, precisa h u m ilh ar-se e correr ao quart o de todos os estran h os, para
m en digar aquele recon h ecim en t o que ela lh e nega.
Por isso vês aqueles velh os sábios corren d o atrás de recon h ecim en t o de
m odo rid ícu lo e desprezível. Ficam ofen didos quan do n ão se m en cion a seu
n om e, desolados, quan do alguém d iz m elh or a m esm a coisa, in t ran sigen t es,
quan do alguém m u d a u m a coisin h a em sua opin ião. Se fores a u m a reu n ião de
pessoas sábias, verás esses velh os last im áveis com seus grandes m érit os e suas

30 O esboço e o esboço corrigido têm: "À medida que eu era este velho, enterrado em livros c árida ciência, justo e
ponderado, arrancando grãos de areia do deserto sem fim , sofre meu [si-mesmo] assim chamado alma, isto
c, meu si mesmo interior, grande necessidade (p. 180).
20 6 LI BE R SECU N D U S IO/ II

alm as fam in t as, que est ão sedentas de recon h ecim en t o, mas que n u n ca con se-
guem m it igar sua sede. A alm a exige t u a t olice, n ão t eu saber.
Pelo fato de n ão m e elevar acim a do sexu al-m ascu lin o e assim n ão u lt rapas-
sar o h um an o, t ran sform a-se o rid ícu lo fem in in o para m im n u m a n at u reza p le-
n a de sen tido. O m ais difícil é estar além do sexual e ficar d en t ro do h um an o.
Se te elevas acim a do sexual, com a ajuda de u m a proposição geral, t u m esm o te
torn as aquela proposição e ultrapassas o h um an o. Ficarás port an t o seco, du ro
e in u m an o.
T u gostarias de ult rapassar o sexual a p ar t ir de fun dam en t os h um an os e
jam ais a p ar t ir de fun dam en tos de u m a proposição geral que con t in u a sendo
sem pre a m esm a nas m ais diversas sit uações e que, por isso, n ão t em valor p le-
n o para cada sit uação em part icu lar. Q u an d o atuas a p ar t ir do h u m an o, atuas a
p art ir da respect iva situação, sem prin cípio geral, só de acordo com a situação.
Assim correspon des à situação, talvez com violação de u m a proposição geral.
Mas ist o n ão deve m olest á-lo dem ais, pois t u n ão és a proposição. Exist e u m
out ro h um an o, u m dem asiado h um an o, e qu em en t rou neste h u m an o, a este
faz bem lem brar-se do ben efício da proposição geral 31. Pois t am bém a propo-
sição geral t em sen t ido e n ão foi colocada por brin cad eira. H á m u it o trabalh o
respeit ável do espírit o h u m an o n ela. Pessoas dessa espécie n ão est ão além da
sexualidade devido a u m p rin cíp io geral, mas devido à sua im agin ação n a qual
se perd eram . Torn aram -se sua p róp ria im agin ação e arbit raried ad e, para seu
p róp rio preju ízo. Faz-lh es falt a lem brar-se do sexual a fim de que acordem de
seus sonhos para a realidade.
É t ão doloroso quan to u m a n oit e em claro sen t ir o além a p ar t ir do aquém ,
isto é, o out ro e o oposto em m im . Ap r oxim a-se cautelosam en te qual febre,
qual n évoa ven en osa. E quan do teus sen tidos est ão excit ados e tensos ao m á-
xim o, en t ão vem o d em on íaco com o algo t ão in sípid o e gasto, t ão m orn o e
sem sabor, que sentes enjoo. Aq u i gostarias m u it o de n ão m ais sen t ir t eu além .
Assu st ad o e enojado, desejas estar de volt a à beleza m u it o alt a de t eu m u n d o
visível. Cospes e am aldiçoas t udo o que está além de t eu belo m un do, pois sabes
que é n áusea, escória, im u n d ície do an im al h um an o, que se alim en t a em casas

31 Humano, demasiado humano é o título de uma obra de Nietzsche, publicada em três fascículos a partir de 1878.
Descreve a observação psicológica como a reflexão sobre o "humano, demasiado humano" (Cambridge:
Cambridge University Press, 1996, p. 31 [trad. de R J. Hollingdale]).
O C AST E LO N A FLO REST A 207

boloren t as, que se arrast a em todas as t rilh as, que m ete o n ariz em todos os
can tos do m u n d o e que, desde o b erço até a m ort e, só desfrut a daquilo que já
an dou n a boca de todos.
Mas n ão gostarias de parar aqui, n ão coloques a n áusea en t re t eu aquém e
t eu além . O cam in h o para t eu além passa pelo in fern o, por t eu in fern o todo es-
pecial, cujo ch ão con sist e de en t u lh o que atinge os joelh os, cujo ar foi respirado
m ilh ares de vezes, cujo fogo é a paixão de an ões e cujo d em ón io são os let reiros
qu im éricos.
Tod o o odiado e t odo o n ojen t o é t eu in fern o todo especial. Pod eria ser
diferen t e? Tod o in fern o diferen t e seria ao m en os dign o de ser vist o ou d iver-
tido. Mas ist o n ão é n u n ca o in fern o. Te u in fern o está con st ru íd o de todas as
coisas que t u atiras com u m a m ald ição e u m p on t ap é para fora de t eu san tuário.
Q u an d o en tras em t eu in fern o, n ão penses jam ais que en t ras com o alguém
que sofre em t erm os de beleza ou com o u m desprezador orgulhoso, mas en tras
com o u m im b ecil cu rioso e adm iras as m igalhas que caíram de t u a m esa 32 . /
T u preferirias tudo bem irrit ad o, mas percebes ao m esm o t em po com o lh e
vai b em a ir a. Te u rid ícu lo in fern al esten de-se por m ilh as. Feliz de t i quan do
consegues praguejar! Vais sen t ir que o praguejar red im e a vid a. Q u an d o passa-
res, port an t o, pelo in fern o, n ão te esqueças de prest ar at en ção em tudo o que
vais en con t ran do. En t en d e-t e calm am en t e com tudo o que quer despert ar t eu
desprezo ou t u a raiva; assim abres cam in h o para a m aravilh a que eu viven ciei
com a m oça pálida. T u dás alm a ao desalm ado e, através disso, pode surgir algu-
m a coisa do pavoroso n ada. Assim t eu out ro será salvo para a vid a. Teus valores
vão p u xá-lo daquilo que és at ualm en t e para fren t e e para além de t i m esm o.
Mas t eu sendo vai p u xar-t e para o ch ão com o ch um bo. N ã o podes viver as duas
coisas ao m esm o tem po. Por isso salva-te o cam in h o. T u n ão podes estar ao
m esm o t em po n a m on t an h a e n o vale, mas t eu cam in h o leva-t e da m on t an h a
para o vale e do vale para a m on t an h a. Mu it a coisa com eça d ivert id o e con duz
para a escuridão. O in fern o t em círcu los 33.

32 Em outubro de 1916, em sua palestra no Clube de Psicologia sobre "Individuação e coletividade", Jung
ponderou que, através da individuação, "o indivíduo precisa agora consolidar-se, separando-se totalmente
da divindade e tornando-se ele mesmo. Com isso separa-se ao mesmo tempo da sociedade. Exteriormente
mergulha na solidão e internamente no inferno, no afastamento de Deu s"(O C, 18/2, § 1.103).
33 Na descrição de Dante, em a Divina Comédia, o inferno tem nove círculos.
208 LI BE R SECU N D U S 11/12

U m dos degradados34
Cap. iii.

[ I H 11] N a n oit e segu in t e 35 en con t rei-m e de n ovo an dan do em t erras co-


bertas de neve de aspecto fam iliar. U m céu de an oit ecer cin zen t o en cobria o
sol. O ar é de frio úm ido. Algu ém ju n t ou -se a m im , que n ão parecia con fiável.
Tin h a u m olh o só e ain d a u m a série de cicat rizes n o rosto. Est á vest ido de m a-
n eira pobre e suja, u m vagabundo. Tin h a u m a barba pret a com prid a, que n ão
via t esoura h á m u it o tem po. Para qualquer em ergên cia, eu t in h a u m b om bas-
tão. "Est á u m frio m ald it o", disse ele após algum tem po. Con cor d ei. Ap ó s pausa
ain d a m ais lon ga, pergun t ou: "Par a onde o sen h or vai?"
Eu : "Eu vou até o p róxim o vilarejo, on de pret en do passar a n oit e".
Ele: "Tam b ém qu eria fazer o m esm o, mas n ão vai dar para u m a cam a".
Eu : "Falt a d in h eiro? Bem , verem os. O sen h or n ão t em em prego?"
Ele: "Pois é, os tem pos est ão difíceis. At é poucos dias atrás, era em pregado
de u m serralh eiro. Aí ele ficou sem trabalho. Agora est ou n a estrada e procu ro
em prego".
Eu : "N ã o quer em pregar-se n u m a lavoura? N o cam po sem pre h á falta de
força de t rabalh o".
Ele: "O em prego n a lavou ra n ão m e serve. Sign ifica levan t ar cedo de m an h ã,
o t rabalh o é pesado e o salário é baixo".
Eu : "Mas n o cam po é sem pre m ais bon it o do que n u m a cidade".
Ele: "No cam po é m on ót on o, a gente n ão vê n in gu ém ".
Eu : "Exist e m pessoas t am bém n a aldeia".
Ele: "Mas n ão se t em at rações in t elect u ais, os cam poneses são rudes.
Eu o olh ei adm irado. Por Deu s, ele t am bém quer at rações in t elect uais? Ele
d everia gan har h on est am en t e seu susten to e, depois disso, pen sar n u m a atração
u/ 12 in t elect u al. /
Eu : "Mas d ize-m e, qual a at ração in t elect u al que o sen h or en con t ra n a c i -
dade?"

34 O esboço m anuscrito tem: Terceira aventura (p. 440 ) . O esboço corrigido tem: "O vagabundo", que vem coberto por
um papel (p. 186).
35 29 de dezembro de 1913
U M D O S D EGRAD AD O S 209

Ele: "À n oit e pode-se ir aos cin em at ógrafos. É form id ável e barato. Lá é
possível ver tudo o que se passa n o m u n d o".
Devo pen sar n o in fern o, lá t am bém exist em cin em at ógrafos para aqueles
que desprezaram este in st it u t o n a t erra e n ele n ão en t raram , porque todos os
outros en con t raram n ele seu gosto.
Eu : "O que lh e in t eressou m ais n o cin em at ógrafo?"
Ele: "A gente vê t odo t ipo de belas h abilidades. H a via u m que cor r ia pelas
casas acim a. U m ou t ro t razia a cabeça debaixo do braço. O u t r o ain d a ficava em
m eio ao fogo sem se queim ar. É realm en t e m aravilh oso o quan to as pessoas
sabem fazer".
E ist o o h om em ch am a de at rações in t elect u ais! D e fato - ist o parece m a -
ravilh oso: os santos t am bém n ão t raziam as cabeças debaixo do b r aço ? 36 São
Fran cisco e San to In ácio t am bém n ão se elevaram do ch ão oran do - os três
h om en s n u m forn o em ch am as? 37 N ã o é u m a id eia blasfem a con siderar a Acta
Sanctorum com o u m cin em at ógrafo h ist órico? 38 Ah , os m ilagres de h oje são sim -
plesm en t e algo m en os m ít ico do que técn ico. O lh o para m eu acom pan h an te
com t er n u r a - ele vive a h ist ória do m u n d o - e eu?
Eu : "D e certo, ist o é m u it o b em feito. Vi u m ais algum a coisa do gén ero?
Ele: "Sim , eu vi com o o r ei da Esp an h a foi assassinado".
Eu : "Mas ele n ão foi assassinado".
Ele: "Be m , isto n ão im port a, en t ão foi u m outro desses m alditos reis capit alis-
tas. U m ao m enos se foi. Pen a que n ão levou a todos, en t ão o povo estaria livre".
N ã o ousei d izer m ais nada: Guilherm e Tell, u m a obra de Fr ied r ich Sch iller - o
h om em est á n o m eio, n a t orren t e d a h ist ória h eróica. Algu ém que dá aos povos
adorm ecidos a n ot ícia do assassinato do t ir a n o 39 .

36 O emblema da cidade de Zurique traz este motivo, mostrando os mártires do final do século terceiro,
Félix, Régula e Exuperâncio.
37 Parece ser uma referência a Sidrac, Misac e Abdénago, em Dan iel 3, aos quais Nabucodonosor mandou
jogar na fornalha por se recusarem a adorar o ídolo de ouro que ele havia erigido. Eles saíram ilesos do
fogo, o que levou Nabucodonosor a decretar que seria decapitado desde então quem falasse contra o Deus
deles.
38 A Acta Sanctorum é uma coletânea da vida e lendas dos santos, ordenada de acordo com seus dias
comemorativos, publicada pelos jesuítas da Bélgica, conhecidos como padres bolandistas. A publicação
começou em 1643 e chegou a 63 fólios.
39 Em Guilherme Tell (1805), Friedrich Schiller dramatizou a revolta dos cantões suíços contra o controle pelo
império dos Hapsburgos da Áustria no começo do século catorze, o que levou à fundação da confederação
suíça. No quarto ato, terceira cena, Guilherm e Tell mata Gessler, o representante imperial. Stussi, o guarda
florestal, anunciou: "O tirano do país está morto. Daqui para frente não teremos mais opressão. Somos
homens livres" ( T E LL, W Chicago: Un iversity of Chicago Press, 1973, p. 119 [Trad. de W Main lan d]).
2IO LI BE R SECU N D U S 12/13

Ch egam os à h ospedaria, u m a propriedade r u r al — u m a sala so-frivelm en t e


lim p a - alguns h om en s sentados a u m can to, beben do cerveja. Sou t rat ado por
"sen h or" e levado para o m elh or canto, on de u m a t oalh a qu adricu lada cobria a
part e su perior da m esa. O ou t ro sen tou-se n a parte in ferior da m esa, e resolvi
en com en d ar-lh e u m a boa jan t a. Ele m e olh ava im pacien t e e fam in t o - com
seu ú n ico olho.
Eu : "O n d e o sen h or perd eu seu olh o?"
Ele: "N u m a briga. Mas eu t am bém esfaqueei ele bastan te. Ele recebeu u m a
pen a de três meses de prisão. Eu recebi seis meses. Mas era bon it o n a prisão.
Naquele tem po, a con st ru ção era t ot alm en t e n ova. Eu t rabalh ava n a serralh eria.
N ã o h avia m u it o que fazer, mas a com id a era boa. A prisão n ão é tão r u im ".
O lh e i ao redor para cert ificar-m e de que n in gu ém estava escutan do que eu
estava em com pan h ia de u m ex-presid iário. Parece que n in gu ém h avia p ercebi-
do n ada. Ao que tudo in d icava, eu estava n u m a sociedade lim p a. H á n o in fern o
t am bém presídios para aqueles que n u n ca est iveram n u m deles em vida? Alé m
do m ais — n ão será u m sen t im en t o m u it o bon it o t er chegado u m a vez bem ao
fundo do poço, ao ch ão da realidade, a p ar t ir do qual n ão exist e n en h u m para
baixo, mas no m áxim o ain d a u m para cim a? O n d e se t em dian t e de si t oda a
alt u ra da realidade?
Ele: "Dep ois de cu m p rid a a pen a, fiqu ei ao desam paro, porque m e m an d a-
ram em bora. Fu i, en t ão, para a Fran ça. Lá era bon it o".
Q u e n uan ces apresen ta a beleza! E possível apren der algum a coisa de pes-
soas assim .
Eu : "Q u a l foi o m ot ivo de sua briga?"
Ele: "Fo i por causa de u m a m oça. El a teve u m filh o bastardo com ele, mas
eu qu eria casar com ela assim m esm o. D e resto, ela era d ireit a. Dep ois, ela n ão
quis m ais. Nu n ca m ais t ive n ot ícias dela".
Eu : "Q u e idade o sen h or t em agora?"
Ele: "Faço 35 n a prim avera. Preciso en con t rar u m trabalh o decen te, en t ão
nos casarem os. Eu en con t rei u m . Mas eu t en h o u m problem a nos pu lm ões.
Ist o, n o en t an t o, m elh orará em breve".
/ Teve u m violen t o acesso de tosse. N ã o eram boas perspectivas e eu m e
ad m irava em silên cio do in abalável ot im ism o do pobre diabo.
Ap ó s o jan t ar, fu i para a cam a n u m quart o bem sim ples. Escu t ei com o o
ou t ro arru m ava seu alojam en t o ao lado. Tossiu várias vezes. Dep ois ficou qu ie-
U M D O S D EGRAD AD O S 211

to. Mas de repen t e acordei de n ovo com seus gem idos e gorgolejar lúgubres,
m ist u rados com tosse sem issufocada. Escu t ei com at en ção preocupada - sem
dúvida, era o outro. É com o u m a coisa perigosa. Levan t ei-m e depressa e vest i
apenas o n ecessário. Ab r i a p ort a de seu quarto. O b rilh o d a lu a en t rava de
cheio. O h om em jazia vestido sobre u m colch ão de palha. D e sua boca saía u m
fio escuro de sangue que fez u m a poça no chão. Ele gem ia semissufocado e ex-
pectorava sangue. Q u is levan tar-se, mas caiu de novo para trás. Apressei-m e em
socorrê-lo. Mas vi que a m ort e já h avia colocado a m ão sobre ele. Est á tudo sujo
de sangue. Min h as m ãos est ão ch eias de sangue. Solt a u m suspiro de estertor.
A t en são se desfaz, u m leve est rem ecim en t o perpassa seus m em bros. E en t ão
tudo est á m ort o e quieto.
O n d e estou? Exist e m t am bém falecim en tos n o in fern o para aqueles que
n u n ca pen saram n a m ort e? O lh o para m in h as m ãos cobertas de sangue - com o
se eu fosse u m assassino... N ã o é o sangue de m eu irm ão que se cola em m in h as
m ãos? A lu a desen h a em pret o m in h a som bra n a parede bran ca do quarto. O
que faço aqui? Para que este espet áculo pavoroso? O lh o in t errogat ivam en t e
para a lu a com o t est em un h a. O que in t eressa ist o à lua? El a já n ão viu coisa
pior? Ist o é in d iferen t e para suas m on t an h as an ulares de et ern a duração - u m
pouco m ais ou m en os. A m ort e? N ã o revela ela o em buste t errível d a vida? Por
isso é t ot alm en t e in d iferen t e para a lu a se e com o alguém part e daqui. Som en t e
n ós dam os m u it a im p ort ân cia a isso — com que d ireit o?
O que fez este h om em ? Ele t rabalh ou , passou algum t em po sem fazer n ada,
r iu , bebeu, com eu , d o r m iu , sacrificou seu olh o pela m u lh er e, por am or a ela,
perd eu sua h on r a de cidadão, além disso viveu sofrivelm en t e o m it o h um an o,
ad m irou os autores de coisas m aravilh osas, elogiou o assassinato do t iran o e
son h ou obscuram en t e com a liberdade do povo. E en t ão - en t ão m or r eu la -
m en t avelm en t e - com o todos os outros. Ist o é válid o em geral. Eu m e sen t ei
sobre o fun dam en t o m ais baixo. Q u a n t a som bra sobre a t erra! Todas as luzes
som em n a ú lt im a d esesperan ça e solidão. Ist o é u m a ú lt im a verdade, n ão u m
en igm a. Q u e ilusão p ôd e fazer-n os acredit ar n u m enigm a?

[2] N ó s estam os sobre as pedras agudas d a m iséria e d a m ort e.


U m vagabundo ju n t ou -se a m im e quer en t rar em m in h a alm a, port an t o
sou m u it o vagabundo. O n d e se m et eu m in h a vagabundagem , en quan t o eu n ão
a praticava? Eu fu i u m jogador d a vid a, alguém que a pen sava com o difícil e a
212 LI BE R SECU N D U S 13/14

vivia n a facilidade. O vagabundo estava bem longe e esquecido. A vid a torn ara-se
d u ra e m ais som bria. O in vern o n ão t erm in ava m ais, e o vagabundo estava n a
neve e sen t ia frio. Ju n t ei-m e a ele, pois precisava dele. Ele t orn a a vid a fácil e
sim ples. Ele con duz à profun deza, ao fun dam en to, em que eu vejo a alt it ude.
Sem a profun deza, n ão t en h o a alt it ude. Talvez eu esteja n a alt it u de, mas é exa-
t am en t e por isso que n ão me d ou con t a dela. Preciso por isso do n ível profun do
para m in h a ren ovação. Se eu est iver sem pre n a alt it u de, eu a desgasto, e en t ão
o m elh or se t orn a para m im u m h orror.
Mas com o n ão quero que m eu m elh or se t orn e u m h orror, eu m esm o m e
t ran sform o n u m h orror, n u m h or r or para m im , n u m h or r or para os out ros,
n u m t errível espírit o de t ort u ra. Sê h on esto e dize que t eu m elh or t orn ou -se
u m h or r or para t i, assim livrarás a t i e a outros de u m t orm en t o in út il. U m a
pessoa que n ão consegue m ais descer de sua alt it ude é doen te e t orm en t o para
si e para os outros. Q u an d o at in gires t u a profun deza, verás t u a alt it u de b r ilh ar
claram en t e sobre t i, dign a de desejo e longe, com o se fosse in alcan çável, pois n o
m ais ín t im o de t i preferes ain d a n ão alcan çá-la, por isso ela te parece in alcan -
çável. T u gostas de exalt ar t u a alt it u de, m esm o n o tem po de t eu n ível profun do,
e d izer-t e que só a abandonaste com pesar e que n ão vivest e neste t em po todo
em que passaste sem ela. Bon s costum es, que quase se t ran sform aram em ou t ra
n at u reza em t i, fizeram que assim falasses. Mas sabes que bem n o fundo ist o
n ão é verdade.
Em t eu n ível profun do n ão te distin gues em n ada m ais de teus irm ãos h u -
m an os. N ã o te envergonhes e n ão te arrepen das, pois à m ed id a que vives a vid a
de teus irm ãos e desces à sua in feriorid ad e, / em barcas t am bém n a t orren t e
sagrada da vid a em geral, n a qu al n ão és m ais u m in d ivíd u o em alt a m on t an h a,
mas u m peixe en t re peixes, u m a rã en t re rãs.
Tu a alt it ude é t u a p róp ria m on t an h a, que pert en ce a t i e só a t i. Lá estás em
t ua in d ivid u alid ad e e vives t u a vid a part icularíssim a, n ão vives a vid a d a h ist ória
e dos fardos e bens im perd íveis, n u n ca perdidos da h u m an idade. Lá vives o ser
con t ín u o, mas n ão o t orn ar-se. O t orn ar-se pert en ce à alt it ude e é doloroso.
Co m o podes t orn ar-t e, se n u n ca és> Por isso precisas do n ível profun do, pois lá
t u és. Por isso precisas da alt it u d e, pois lá te t orn as.
Q u an d o vives n o t eu n ível profun do a vid a com u m , tom as con sciên cia de
t eu si-m esm o. Q u an d o estás em t u a alt it u de, t u és t eu m elh or e só tom as con s-
ciên cia de t eu m elh or, mas n ão daquilo que és com o sendo n a vid a com u m . O
U M D O S D EGRAD AD O S 213

que n ós somos com o t orn an d o-se n ão se sabe n u n ca. Mas n a alt it u d e, a im agi-
n ação é m ais forte. Im agin am os que sabemos o que somos com o t orn an d o-n os
e t an t o m ais quan t o m en os querem os saber o que somos com o sendo. Por isso
n ão gostamos do n ível profun do, apesar de, ou sobretudo porque som en te lá
at in girem os u m con h ecim en t o claro de n ós m esm os.
Para o t orn an d o-se tudo é en igm át ico, para o sendo não. Q u e m sofre por
causa do en igm át ico pen sa em seu n ível profun do; resolve os enigm as de que
sofrem os, mas n ão aqueles em que nos alegramos.
Ser aquele que t u és é ban h o do ren ascim en t o. O ser do n ível profun do n ão
é u m p ersist ir in con d icion al, mas u m crescim en t o in fin it am en t e vagaroso. T u
pensas estar parado quiet o com o água de cist ern a, mas t u te derram as len t a-
m en t e n o m ar, que cobre em t oda part e a t er r a nos lugares m ais profun dos e é
tão gran de que a t er r a firm e parece apenas u m a ilh a, en caixad a n o seio do m ar
in fin do.
Co m o gota do m ar part icipas das corren t es das m arés altas e baixas. De va -
gar avan ças para a t er r a e devagar ret orn as, n u m respirar de in fin d a duração.
T u viajas longas dist ân cias em corren t ezas im percept íveis, banhas lit orais des-
con h ecidos e n ão sabes com o chegaste lá. Levan t as-t e com as ondas da grande
tem pestade e despencas de n ovo n a profun deza. E n ão sabes com o ist o te acon -
tece. An t es pensavas que t eu m ovim en t o vin h a de t i e que h avia necessidade de
t u a decisão e de t eu esforço para que te m ovim en t asses e saísses do lugar. Mas
com todo o esforço n u n ca terias chegado àquele m ovim en t o e àquelas paragens
a que o m ar e o grande ven t o do m u n d o te levam .
Sobre in fin d as plan ícies azuis afundas em negras profun dezas; peixes lu m i-
nosos passam por t i, ram agem m aravilh osa te en volve. T u te esgueiras através
de fendas e de plan tas en t relaçadas, balou çan t es, de folhas escuras, e o m ar aflui
n ovam en t e para t i em água verd e-clara sobre lit orais de areia bran ca, e u m a
on d a te espum eja para a p raia e te engole ou t ra vez, e u m a grande on d a m an sa
te ergue e te con duz para novas plan ícies e profun dezas, para plan tas en t relaça-
das, peixes de rabos longos e polvos viscosos deslizan do devagar, e água verde,
e areia bran ca, e ondas de arreben t ação.
Mas de longe b r ilh a para t i em lu z dourada t u a alt it u de sobre o m ar, com o a
lu a que em erge d a m aré alta, e t u tom as con sciên cia de longe de t eu si-m esm o.
E o desejo apan h a a t i e a von t ade para seu p róp rio m ovim en t o. T u queres ir do
ser para o t orn ar-se, pois recon heceste que a respiração do m ar exist e e que seu
214 LI BE R SECU N D U S 14/15

fluir e reflu ir que te leva de lá para cá, onde part e n en h u m a te pren de, e onde
suas ondas, que te jogam para lit orais estran h os e te en golem n ovam en t e, te
gorgolejam para baixo e para cim a.
T u vist e que ist o foi a vid a do t odo e a m ort e de cada in d ivíd u o. A l i te
sen t ist e en volvid o pela m ort e geral, p ela m ort e n o lugar m ais profu n d o d a
t erra, pela m ort e em t u a p r óp r ia profu n d eza, resp iran d o e flu in d o est ran h a-
m en t e. O h - t u desejas sair, desespero e m edo m o r t al t om am con t a de t i em
t od a est a m ort e, que resp ira devagar e que flu i et ern am en t e p ara lá e con t ra.
Todas essas águas claras e escuras, quen t es, m orn as e frias. Tod os esses z o ó -
fitos on deados, balou çan t es e oscilan t es, todas essas m aravilh as n ot u rn as vão
t orn ar-se h or r or p ara t i e t u desejas sol, ar lím p id o e seco, roch ed o fir m e, l u -
gar d et erm in ad o e lin h a ret a, o im óvel e seguro, regra e objet ivo prem ed it ad o,
est ar só e in t en ção p róp ria.
D e n oit e veio-m e o con h ecim en t o da m ort e, do m or r er que en globa o m u n -
do todo. V i com o n ós vivem os para d en t ro d a m ort e, com o o cereal dourado
e on du lan t e vem abaixo sob a foice do ceifeiro, / à sem elh an ça de u m a on da
m an sa do m ar n a praia. Q u e m est á posicion ado n a vid a com u m t om ará con sci-
ên cia, assustado, da m ort e. Por isso o m edo da m ort e o em p u rra para a solidão.
Lá ele n ão vive, mas t om a con sciên cia d a vid a e se alegra, pois n a solidão ele é
u m t orn an do-se e ven ceu a m ort e. Ele ven ce a m ort e através da vit ória sobre
a vid a com u m . N a solidão ele n ão vive, pois ele n ão é o que é, mas ele se t orn a.
Algu ém t orn an do-se t om a con sciên cia da vid a, alguém sendo, n u n ca, pois
está n o m eio da vid a. Ele precisa da alt it u de e da solidão para t om ar con sci-
ên cia da vid a. Mas n a vid a t orn a-se con scien t e da m ort e. E é b om que tom es
con sciên cia da m ort e com u m , pois en t ão sabes para que servem t u a solidão e
t ua alt it ude. Tu a alt it u de é com o a lu a, que cam in h a solit ariam en t e ilu m in an d o
e et ern am en t e clara observa as n oit es. As vezes ela se esconde, e en t ão estás
t ot alm en t e n o escuro da t erra, mas sem pre de n ovo com pleta-se até a claridade
plen a. O m orrer da t er r a lh e é estran ho. Ela vê de longe a vid a n a t erra, ela m es-
m a im óvel e clara, sem vapor en volven t e e sem m ar em m ovim en t o. Su a form a
im ut ável está firm e desde a et ern idade. El a é a lu z solit ária e clara d a n oit e, o
ser in d ivid u al e o ped aço p r óxim o da et ern idade.
A p art ir dela t u vês de m odo frio, im óvel e radian t e. Co m u m a lu z prateada
do além e com crepúsculos verdes, soterras o h orror lon gín qu o. T u o vês, mas
t eu olh ar é claro e frio. Tuas m ãos estão verm elh as de sangue vivo, mas o lu ar
O EREMITA 215

de t eu olh ar é im óvel. É o sangue vit al de t eu irm ão; sim , é t eu p róp rio sangue,
mas t eu olh ar perm an ece brilh an d o e abrange o todo do h orror e a rot un didade
d a Ter r a. Te u olh ar repousa sobre m ares prateados, sobre cum es cheios de neve,
sobre vales azuis, e n ão ouves o gem er e u ivar do an im al h um an o.
A lu a est á m ort a. Tu a alm a foi para a lu a, para o guarda das alm as 4 0 . E assim
a alm a en t r ou n a m o r t e 4 1. Eu en t r ei n a m ort e in t er ior e vi que o m orrer ext erior
é m elh or do que a m ort e in t erior. E eu resolvi m orrer fora e viver den t ro. Por
isso eu m e d esviei 4 2 e p rocu rei os lugares d a vid a in t erior.

O erem it a
Cap. iv. Dies I . 4 3
[ I H 15] Novam en t e n a n oit e segu in t e 44 , en con t rei-m e em novos cam in h os;
ar quen te e seco m e circu n d ava, e eu vi: o deserto, areia am arela em t oda a
ext en são, am on t oada em dun as, u m sol caustican te, u m céu azu l com o aço liq -
uefeito, o ar t rem u lan d o sobre a t erra, à m in h a d ir eit a u m vale profun dam en t e
escavado com u m leit o seco de rio, algumas gram ín eas am areladas e algumas
sarças cobertas de poeira. N a areia vejo pegadas de p és descalços que vão do
vale roch oso para o plan alto. Eu os segui ao longo de u m a d u n a elevada. O n d e
ela en t ra em declive, as pegadas m u d am para ou t ra direção, parecem frescas, ao

40 Em Transformações e símbolos da libido (1912) Jung cita crenças de diferentes culturas de que a lua foi o lugar de
reunião das almas que haviam partido ( O C , B, § 49 6). Em Mysterium coniunctíonís (1955/ 1956), Jung comenta
este motivo na alquimia ( O C, 14, § 150).
41 O esboço continua: "Eu aceitei o vagabundo, vivi e m orri com ele. Ao vivê-lo, eu o assassinei, pois a gente
mata o que a gente vive" (p. 217).
42 O esboço corrigido tem: "da m orte" (p. 20 0 ) .
43 (Prim eiro dia.) O esboço m anuscrito tem: "Quarta aventura: prim eiro dia (p. 476 ). O esboço corrigido tem: "Dies I .
Noite" (p. 201).
44 30 de dezembro de 1913, No Livro Negro 3, Jung observou: "Todo tipo de coisas me desviam para longe de
minha ciência à qual eu acreditava estar dedicado firmemente. Através dela, queria servir à humanidade,
e agora, m inha alma, tu me levas para essas coisas novas. Sim , o mundo do meio, intransitável, multiplamente
cintilante. Esqueci que cheguei a um mundo novo, que antes me era estranho. Não vejo caminho nem
trilha. Aqu i deverá tornar-se verdade o que acreditei sobre a alma, que ela sabia melhor seu próprio
caminho e que nenhum desígnio lhe poderia prescrever um caminho melhor. Sinto que é tirado um grande
pedaço da ciência. Deve estar certo, por amor à alma e por amor à sua vida. Dolorosa é apenas a ideia de
que isto só aconteceu para mim e que talvez ninguém consiga tirar alguma luz daquilo que eu produzo. Mas
minha alma exige esta produção. Devo poder dizê-lo também só para mim sem esperança - por amor a
Deus. Deveras um caminho duro. Contudo aqueles eremitas dos primeiros séculos cristãos - o que faziam
de diferente? E eram, por acaso, as piores e mais imprestáveis pessoas que viviam naquele tempo? De modo
nenhum, pois eram aqueles que tiravam a mais inexorável consequência da necessidade psicológica de seu
tempo. Eles deixavam mulher e filhos, riqueza, fama - ciência e se dirigiam ao deserto - por amor a Deus.
Assim seja" (p. 1-2).
2l6 LI BE R SECU N D U S 15/16

la d o e s t ã o p egad as ve lh a s, sem ia p a ga d a s. Sigo - a s c o m a t e n ç ã o : vã o n o va m e n t e


pela en cost a da d u n a e desem bocam n u m a ou t ra pegada — mas é a m esm a / que
eu já h avia seguido, ou seja, aquela que su biu do vale.
Sigo, adm irado, as pegadas agora para baixo. Logo chego às rochas quen tes,
averm elhadas, carcom idas pelo ven to. Sobre a pedra, perde-se a pegada, mas
vejo on de o roch edo cai em degraus e eu desço. O ar est á quen te e a pedra
qu eim a m in h as solas dos pés. Agora estou embaixo; aqui estão de novo as pegadas.
Elas vão ao longo das curvas do vale e percorrem curt a distância. Est ou de repente
diante de pequena cabana de adobe, coberta de juncos. U m a bamboleante arm ação
de m adeira formava a porta sobre a qual estava desenhada u m a cruz em vermelho.
Ab r i devagar. U m h om em magro, de cabeça calva, pele m arrom -escura, envolto
n um m an t o bran co de lin h o, est á sentado n u m a est eira, com o dorso encostado
n a parede. Sobre seus joelh os est á u m livro em pergam in h o am arelado com
bela escrit a pret a - u m livro em grego, dos evangelhos sem dúvida. Est ou ju n t o
a u m erem it a do deserto líb io 4 5 .
Eu : "Est o u pert u rban d o o senhor, pai?"
E: "T u n ão pert urbas. Mas n ão m e cham es de pai. Sou u m h om em com o t u .
O que desejas?"
Eu : "Ven h o sem desejo algum . Vi m por acaso a este lugar do deserto e e n -
con t rei lá em cim a pegadas n a areia, que m e t rou xeram por diversas voltas a t i".
E: "T u en con t rast e as pegadas de m in h a cam in h ad a diária à h ora do arrebol
e à h ora do p ôr do sol".
Eu : "Perd oa-m e se in t errom p o t u a con cen t ração. Mas para m im é u m a
oport un idade ú n ica estar ju n t o a t i. Nu n ca t in h a vist o u m erem it a".
E: "Da q u i para baixo podes ver n ão poucos neste vale. Algu n s t êm cabanas
com o eu, outros m or am em t úm ulos que os antigos escavaram nessas rochas.
Eu m oro n o lugar m ais alto do vale, porque aqui é o pon t o m ais solit ário e m ais
quieto e porque aqui t en h o m ais p róxim o o sossegÒ do deserto".
Eu : "Já estás h á m u it o t em po aqui?"

45 No capítulo seguinte, o eremita é identificado com Amónio. Numa carta de 31 de dezembro de 1913,
Jung observou que se trata de um eremita do terceiro século d.C. (AFj). H á três personagens históricos de
nome Am ón io em Alexan dria daquela época: Amónio, um filósofo cristão do terceiro século, considerado
por um tempo o responsável pela divisão medieval dos evangelhos; Am ón io Ceto, nascido cristão, mas que
voltou à filosofia grega, e cuja obra apresenta uma transição do platonismo para o neoplatonismo; e um
Am ón io neoplatônico do século quinto, que tentou conciliar Aristóteles e a Bíblia. Em Alexan dria havia
bom entendimento entre neoplatonismo e cristianismo, e alguns dos discípulos deste último Am ón io
converteram-se ao cristianismo.
O EREMITA 217

E: "Vivo aqui provavelm en t e h á un s dez anos, mas de fato n ão consigo le m -


b rar-m e exat am en t e quan to t em po faz. Pode fazer alguns anos m ais. O t em po
passa tão depressa".
Eu : "O t em po passa rápid o para t i? Co m o é possível? Tu a vid a deve ser t re-
m en d am en t e m on ót on a".
E: "Cer t am en t e, o tem po passa rápid o para m im . At é rápid o dem ais. T u
pareces ser u m pagão".
Eu : "Eu ? N ã o — n ã o e xa t a m e n t e . C r e s c i n a fé cr ist ã ".

E: "En t ão, com o podes pergun t ar se o t em po é longo para m im ? Deves saber


com que se ocupa alguém que est á t rist e. Lon go se t orn a o tem po só para os
ociosos".
Eu : "Perd oa-m e de n ovo - m in h a curiosidade é grande - com que te ocupas
t u ?"
E: "Es por acaso u m a crian ça? E m p r im eir o lugar vês que aqui eu leio e, de-
pois, t en h o m in h a d ist ribu ição regular do t em po".
Eu : "Mas eu n ão vejo n ada aqu i com que poderias te ocupar. Est e livro já o
deves t er lid o todo várias vezes. E se são os evangelhos, com o supon ho, cert a-
m en t e já os sabes de cor".
E: "Co m que in fan t ilid ad e t u falas! T u sabes que se pode ler u m livro d i-
versas vezes - talvez o saibas quase de cor, e apesar disso, quan do olhas para as
lin h as que est ão dian t e de t i, vão aparecer coisas novas para t i, ou terás m esm o
ideias t ot alm en t e n ovas, que n ão t in h as antes. Ca d a palavra pode agir criat iva-
m en t e em t eu espírit o. E m ais, se puseres de lado o livro por u m a sem an a e o
ret om ares, depois que t eu espírit o sofreu nesse m eio t em po diversas t ran sfor-
m ações, n ascerá para t i m ais do que u m a n ova lu z".
Eu : "Ten h o dificuldade em en t en der isso. N o livro est á sem pre apenas u m a
ú n ica e m esm a coisa, cert am en t e u m con t eú d o m aravilh osam en t e profun do,
m esm o d ivin o, mas n ão t ão rico que pudesse en ch er anos in con t áveis".
E: "T u és surpreen den t e. Co m o lês este livro sagrado? T u vês de fato sem -
pre apenas u m ú n ico e m esm o sen t ido nele? Don d e ven s tu? És realm en t e u m
pagão".
Eu : "Rogo-t e, n ão m e leves a m al se falo com o u m pagão. Perm it e apenas
que fale contigo. Est o u aqui para apren der de t i. Con sid er o-m e u m alun o ign o-
ran t e, que o sou deveras nessas coisas".
218 LI BE R SECU N D U S 16/17

E: "Se te ch am o pagão, n ão con sideres ist o u m in su lt o. Tam bém eu fu i an t i-


gam ente u m pagão e pensava, se bem / m e lem bro, exat am en t e com o t u . Co m o
posso en t ão con den ar t u a ign orân cia?"
Eu : "Agradeço t u a paciên cia. Mas in t eressa-m e m u it o saber com o t u lês e o
que ext rais do livr o".
E: "N ã o é fácil respon der à t u a pergun ta. É m ais fácil explicar as cores a
u m cego. An t es de m ais n ada precisas saber de u m a coisa: u m a sequên cia de
palavras n ão t em apenas u m sen tido. Mas as pessoas se esforçam por dar a u m
orden am en t o de palavras apenas u m ú n ico sen tido, ist o é, por t er u m a lin gu a-
gem in equívoca. Est e esforço é u n iversal e lim it ad o e pert en ce aos graus m ais
profun dos do plan o criad or de Deu s. Nos graus m ais elevados da in t rospecção
dos fun dam en tos d ivin os, conheces que os orden am en t os de palavras t êm m ais
de u m sen t ido válido. Só ao on iscien t e é dado con h ecer todos os sen t idos das
sequên cias das palavras. Aos poucos, e com esforço, conseguim os captar algum
sen t ido m ais".
Eu : "Se en t en do bem , é t u a opin ião que t am bém as Sagradas Escrit u ras do
Novo Test am en t o t êm u m sen t ido duplo, u m sen t ido exot érico e esot érico,
assim com o o afirm am de seus livros sagrados alguns letrados judeus".
E: "Lon ge de m im t al sin ist ra superstição. Percebo que és bem in experien t e
nas coisas de Deu s".
Eu : "Preciso recon h ecer m in h a profun da ign orân cia nessas coisas. Mas es-
t ou curioso para perceber e assim ilar o que t u en ten des por sen t ido m ú lt iplo
do orden am en t o das palavras".
E: "In felizm en t e n ão estou em con dições de lh e d izer tudo o que sei a este
respeito. Mas t en t arei esclarecer-lh e ao m en os os elem en tos básicos. Para t an -
to e devido à t u a ign orân cia, vo u com eçar por u m ou t ro lado: precisas saber
que eu , antes de con h ecer o crist ian ism o, fu i professor de ret órica e filósofo n a
cidade de Alexan d r ia. Eu t in h a grande afluên cia de estudantes, en t re os quais
m u it os rom an os, t am bém alguns bárbaros da Gália e Bret an h a. Eu n ão lhes e n -
sin ava apenas a h ist ória da filosofia grega, mas t am bém os sistem as m ais novos,
en t re eles t am bém o sist em a de Filo, que n ós ch am ávam os "o ju d e u "4 6 . Er a u m

46 Filo, o judeu, também chamado Fílon de Alexan dria (20 a.C-50 d . C) , foi um filósofo judeu de língua
grega. Suas obras são uma fusão da filosofia grega e do judaísmo. Para Fílon, Deus, a quem se referia pelo
termo platónico "O Un o", era transcendente e incognoscível. Certos poderes desciam de Deus para o
mundo. A faceta de Deus que nos é conhecível através da razão é o Logos divino. Houve muito debate
O EREMITA 219

crân io, mas t rem en d am en t e abstrato, com o cost u m am ser os judeus quan do
cr iam sistem as, e com isso era escravo de suas palavras. En t ão criei m eu p róp rio
sist em a e u r d i u m a t ram a m ed on h a de palavras n a qual sufoquei n ão só m eus
ouvin t es com o t am bém a m im m esm o. Digeríam os m al palavras e con ceit os,
nossas próprias palavras d eploráveis, e lh es at ribu íam os até pot ên cia d ivin a.
Acred it ávam os m esm o em sua realidade e ju lgávam os possuir o d ivin o e t ê-lo
fixado em palavras".
Eu : "Mas Filo , o ju d eu — c e r t a m e n t e t e r e fe r e s a est e —, fo i u m filó so fo sé r io

e grande pensador, e o p róp rio evan gelista João n ão se recu sou a assum ir alguns
pen sam en tos de Filo em seu evan gelho".
E: "Ten s razão. Est e é o m érit o de Filo. Ele cu n h ou u m a lin guagem , com o
tan tos out ros filósofos. Ele pert en ce aos art ist as da lin guagem . Mas as palavras
n ão devem t orn ar-se d eu ses"47.
Eu : "Aqu i n ão te en ten do. N ã o est á d it o n o evangelho de João: Deu s era a
Palavra? Parece-m e estar d it o aí claram en t e o que t u con den aste h á pouco".
E: "Cu id a-t e para n ão te t orn ares u m escravo da palavra. Aq u i está o evan -
gelho. Lê a p ar t ir dessa passagem on de se d iz: n ela estava a vid a. O que d iz João
a li?"4 8
Eu : "' E a vid a era a lu z dos h om en s. A lu z b r ilh a nas trevas, mas as trevas n ão
a com preen deram . H ou ve u m h om em en viado por Deu s, de n om e João. Ele
veio com o t est em un h a, para dar t est em un h o da lu z. Er a est a a lu z verd ad eira
que, vin d o ao m un do, ilu m in a todas as pessoas. El a estava n o m un do, e por ela
o m u n d o foi feito, mas o m u n d o n ão a con h eceu . E ist o que leio aqui. Mas o
que achas disso?"

sobre a exata relação entre o conceito de Logos de Fílon e o do Evangelho de João. Em 23 de junho de
!934» J u n g escreveu a James Kirsch : "A gnose, da qual proveio o Evangelista João, é certamente judia, mas é
helénica na essência, no estilo de Fílon judeu, do qual também se origina a doutrina do Logos" ( JA) .
47 Em 1957, Jung escreveu: 'Até hoje não se percebeu com a necessária clareza e profundidade que a nossa
época, apesar do excesso de irreligiosidade, está consideravelmente sobrecarregada com o que adveio da
era cristã, a saber, com o predomínio da Palavra, daquele Logos que representa a figura central da fé cristã. A
palavra tornou-se, ao pé da letra, o nosso Deus e assim permaneceu" ( O C, 10, § 554).
48 Jo 1,1-10: "No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. No princípio
ela estava com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dela, e sem ela nada se fez do que foi feito.
Nela estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos. A luz brilha nas trevas, mas as trevas não a
compreenderam. Houve um homem enviado por Deus, de nome João. Ele veio como testemunha, para
dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar
testemunho da luz. Era esta a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilum ina todas as pessoas. Ela estava no
mundo, e por ela o mundo foi feito, mas o mundo não a conheceu".
220 LI BE R SECU N D U S 17/19

E: "Eu te pergun to, este Àoyoç (logos) era u m con ceito, u m a palavra? Ele era
u m a lu z, até m esm o u m h om em e m orou en t re os h om en s. T u vês, Filo só e m -
prest ou a palavra a João, para que Jo ão tivesse à disposição, além da palavra l u z ' ,
t am bém a palavra Àoyoç, para descrever o Filh o do H o m e m . E m João, o sen t i-
do do Àoyoç foi at ribu íd o ao h om em vivo, mas em Filo foi at ribu íd o ao Àoyoç a
vid a, a vid a d ivin a in clu sive ao con ceit o de m ort o. Co m isso, o m ort o n ão gan h a
n en h u m vid a, e o vivo será m ort o. E ist o t am bém foi m eu erro m on st ru oso".
Eu : "Percebo o que pensas. Est e pen sam en t o é n ovo para m im e parece-m e
8 dign o de con sideração. Sem pre m e pareceu até agora / que era exat am en t e ist o
o m ais sign ificat ivo em João, de que o Filh o do H o m e m é o Àoyoç, erguendo
o m ais ín fim o até o esp irit u al m ais elevado, até o m u n d o do Àoyoç. Mas t u m e
levas a ver a coisa de m odo in vert id o, ou seja, que João t raz para baixo o sen t ido
do Àoyoç ao h om em ".
E: "Ap ren d i a recon h ecer que João t em in clu sive o grande m érit o de t er
elevado o ser h u m an o acim a do sen t ido do Àoyoç".
Eu : "T u tens pon tos de vist a estran h os que despert am ao m áxim o m in h a
curiosidade. Co m o é isto? T u pensas que o h u m an o est á acim a do Àoyoç?"
E: "A esta pergu n t a quero respon der d en t ro do lim it e de t u a com preen são:
se o h u m an o n ão tivesse sido o m ais im p ort an t e para Deu s, ele, com o Filh o,
n ão t eria sido m an ifestado n a carn e, mas n o Àoyoç"49
Eu : "Ist o m e parece eviden t e, mas confesso que esta con cepção é su preen -
den te para m im . E especialm en te adm irável que t u , u m erem it a crist ão, tenhas
chegado a tais ideias. Jam ais esperava ist o de t i".
E: "Co m o já observei, t u fazes u m a id eia t ot alm en t e errad a de m im e de
m in h a n at ureza. T u desejas ver aqui u m pequen o exem plo de m in h a ocupação.
Só com a m u d an ça de apren dizado passei m u it os anos. T u t am bém já m udaste
algum a vez de apren dizado? - En t ão deves saber que é preciso m u it o tem po
para isso. Eu fu i u m professor de sucesso em m in h a profissão. Co m o sabes,
essas pessoas d ificilm en t e ou jam ais m u d am de apren dizado. Eu , por exem plo,
vejo que o sol se pôs. Logo será n oit e t ot al. A n oit e é o t em po do silên cio. Vo u
m ost rar-lh e o lugar de passar a n oit e. A m an h ã eu a preciso para m eu trabalh o,
mas após o m eio-d ia podes vir de novo, se quiseres. Con t in u ar em os en t ão a
n ossa con versa".

49 Jo 1,14: "E a Palavra se fez carne e habitou entre nós, vimos a sua glória, a glória do Filho único do Pai,
cheio de graça e verdade".
O EREM ITA 221

Co n d u ziu -m e para fora da cabana, o vale est á im erso em som bra azul. Já
b r ilh am as p rim eiras estrelas n o céu. Levou -m e ao red or do can t o de u m r o -
chedo. Est am os d ian t e da en t rad a de u m t ú m u lo 50 , que foi escavado n a pedra.
En t ram os: n ão longe da en t rad a h avia u m m on t e de ju n cos, coberto com u m a
esteira. Ao lado, u m a m orin ga de água, e sobre u m a t oalh a bran ca, t âm aras secas
e u m pão preto.
E: "Aqu i está t u a pousada e t u a refeição da n oit e. D o r m e bem e n ão te es-
queças de t u a oração da m an h ã, quan do o sol se levan t ar".

[2] O solit ário m or a n u m deserto im en so, ch eio de beleza adm irável. Ele
observa o todo n o sen t ido in t erior. Para ele é odioso o m u lt iform e quan do lh e
está p róxim o. Ele o observa de lon ge, em seu todo. Por isso est ão para ele acim a
do m u lt iform e, o fulgor prateado, a paz e a beleza. O que lh e está p róxim o p re-
cisa ser sim ples e n at u ral, pois o m u lt iform e e em baraçado, quan do p róxim os,
rasgam e quebram o fulgor prateado. N ã o pode h aver n en h u m a t urvação do
ar, n en h u m a fum arada e n en h u m a n eb lin a ao seu redor, caso con t rário n ão
consegue observar o dist an t e m u lt iform e n o todo. Por isso, o solit ário prefere o
deserto, on de tudo o que está pert o é sim ples, e n en h u m a t urvação e em bara-
lh am en t o h á en t re ele e o lon gín qu o.

A vida do solitário seria fria, nãofosse o grande sol, que aquece o are os rochedos. O sol e seu brilho
eterno substituem no solitário o calor de sua vida.
Seu coração deseja ardentem ente o sol.
Ele viaja para as terras do sol.
Sonha com o brilho trem eluzente do sol, com pedras de calor abrasador, expostas ao sol do m eio-dia,
com reflexos de calor dourado da areia seca. f
O solitário procura o sol, e ninguém está m ais disposto do que ele para abrir seu coração. Por isso
am a m ais que tudo o deserto, porque am a seu profundo sossego.
Precisa de m enos alim ento, pois o sol e seu calor o alim entam . Por isso, o solitário am a sobretudo o
deserto, pois é um a m ãe para ele, que dá no tem po oportuno alim ento e calor vivificantes.
No deserto, o solitário está livre de preocupações, por isso toda sua vida se volta para os pom ares
em florde sua alm a, que só conseguem m edrar sob um sol quente. Em seus pom ares crescem as preciosas
frutas verm elhas, que escondem , sob pele esticada, doçura tum escente.

50 O esboço tem: "egípcio" (p. 227). Nesse contexto, água, tâmaras e pão eram oferendas aos mortos.
222 L I B E R S E C U N D U S 19/21

Tu pensas que o solitário épobre. Não vês que ele cam inha debaixo de árvores carregadas de frutas e
que sua m ão toca em centenas de grãos. Sobfolhas escuras, nasce de um viçoso rebento a for de um ver-
m elho exuberante, e os frutos quase explodem devido ao sum o que pressiona. Resinas cheirosas gotejam
de suas árvores, e sob seus pés desabrocha a sem ente que pressiona.
Quando o sol, com o pássaro cansado, desce sobre a superfície plana do m ar, o solitário se recolhe,
suspende a respiração, não se m exe e ésó expectativa até que a m aravilha da renovação da luz se eleva
no Oriente.

Existe um a expectativa bastante incerta para o solitário?1.


Os sustos do deserto e a m orte por sede o envolvem , e tu não entendes com o o solitário consegue
19/ 20 viver. /
Seu olhar, porém , repousa sobre os pom ares e seu ouvido escuta as fontes, sua m ão toca ao m esm o
tem po as folhas e os frutos e sua respiração inala doces arom as de árvores ricam ente floridas.
Não tem palavras suficientes parafalar-te sobre a m agnificência exuberante de seus pom ares.
Gagueja quando fala disso e parece pobre de espírito e vida. Sua m ão não sabe onde pegar nessa abun-
dância indescritível.

Ele te dá um a pequena e pouco vistosafruta que caiu agora m esm o a seus pés. Parece-te sem valor;
m as quando a observas, vês que esta fruta tom ou um sol que nunca terias sonhado. Exala um arom a que
perturba teu sentido olfativo, que te leva a sonhar com jardins de rosas, com vinhos doces e palm eiras
sussurrantes. E tu seguras sonhando esta fruta na m ão e tu gostarias de ter a árvore na qual ela cresceu,
o pom ar no qual esta árvore está e o sol que fecundou este pom ar.

E tu m esm o queres ser aquele solitário que cam inha com o sol por seus pom ares, cujo olhar repousa
sobre ram agens que pendem floridas,cuja m ão acaricia o grão cêntuplo cuja respiração perm ite beber os
arom as de m ilhares de rosas.

Extenuado pelo sol e em briagado por vinho espum ante, vais deitar-te para repouso em túm ulos
antiquíssim os, cujas paredes ressoam de várias vozes e estão m ulticoloridas por m ilhares de anos solares
do passado.

20/ 21 Ao acordar, vês tudo vivo de novo o que já passou, e quando dorm es, descansas com o tudo que já
passou, e teus sonhos fazem ressoar de novo suaves hinos sacros, vindos de longe.

Tu afundas no sono através dos m ilhares de anos solares e te ergues despertando através dos m ilhares
de anos solares, e teus sonhos, cheios de coisas já sabidas enfeitam as paredes de teu quarto de dorm ir.

Tu te vês tam bém no todo.

51 O esboço continua: "Seguindo rastos e círculos aleatórios, volto a m im mesmo e a ele, o solitário, cuja luz
protegida vive na profundeza, protegida por maciços rochedos, tendo acima deserto escaldante e céu
resplandecente" (p. 229).
O EREM ITA 223

T u estás sentado, encostado n a parede e observas o todo belo e en igm át ico.


A Sum m a52 est á d ian t e de t i com o u m livro, e u m desejo in dizível se apossa de
t i para d evorá-lo. Por isso te recostas, ficas com o que paralisado e sen tado por
longo tem po. Es t ot alm en t e in capaz de com p reen d ê-lo. Cá e lá t rem u la u m a
lu z, cá e lá cai u m a fru t a de alt a árvore, que podes apanhar, cá e lá t eu pé d á de
en con t ro a ouro. Mas o que é isto, com parado com o todo que está exposto
dian t e de t i e ao t eu alcance? T u estendes a m ão, mas ela fica presa em teias
in visíveis. T u queres ver ist o com exat idão, mas logo se in t erp õe algo n ebuloso
e através do qual n ão se pode enxergar. Gost arias de arran car u m ped aço para
t i. Mas é liso e im pen et rável com o ferro polido. Por isso te recostas n a parede
e, quan do t iveres rastejado através de todos os cadin h os in can descen tes do i n -
fern o do desespero, estás sentado de n ovo e te recostas e observas a m aravilh a
d a Sum m a que jaz espalh ada dian t e de t i. Cá e lá t rem u la u m a lu z, cá e lá cai u m a
frut a. Tu d o é m u it o pouco para t i. Mas com eças a te d iver t ir e n ão dás at en ção
aos anos que vão passando. O que são anos? O que é t em po passando depressa
para aquele que est á sentado debaixo da árvore? Te u t em po passa com o u m
sopro e t u esperas pela p róxim a lu z, pela p róxim a fru t a.

A Escrit u ra está dian t e de t i e d iz sempre a m esm a coisa se acreditas em pala-


vras. Mas se acreditas em coisas para as quais foram estabelecidas apenas palavras,
n u n ca chegarás ao fim . E assim m esm o precisas cam in h ar pela estrada sem fim ,
pois a vid a n ão flui sobre cam in h os lim it ad os, mas ilim it ad os. Mas a ausên cia
de lim it es t e 53 m ete m edo, pois o ilim it ad o é assustador, e t eu h u m an o se revolt a
con t ra isso; por isso procuras lim it es e rest rições para que n ão te percas cam ba-
lean do para d en t ro do in fin it o. Rest rição será im prescin d ível para t i. T u gritas
pela palavra que t em este ú n ico sign ificado e n en h u m outro, a fim de que esca-
pes do am bígu o ilim it ad o. A palavra será Deu s para t i, pois ela te protege das
in ú m eras possibilidades de in t erpret ação. A palavra é m agia prot et ora con t ra
os d em ón ios do in fin it o que qu erem arran car t u a alm a e espalh á-la aos quatro
ven t os. Est ás salvo se puderes fin alm en t e dizer: ist o é ist o e som en te isto. T u

52 Palavra latina para "todo"/ "toda", "inteiro"/ "inteira".


53 O esboço tem "te" (Dich ) e o esboço corrigido tem "me" (Mir ), p. 232. Durante toda esta seção, o esboço corrigido
substitui "te" por "me" e "t u " por "eu" (p. 214).
224 LI BE R SECU N D U S 21/23

dizes a palavra mágica, e o ilim it ad o est á preso n o fin it o. Por isso as pessoas
p rocu ram e cr iam palavras 54 .
Q u e m rom pe o dique da palavra d erru b a deuses e profan a o tem plo. O
solit ário é u m assassino. Ele m at a o povo, pois com isso pen sa e quebra velh as
m uralh as sagradas. Ele ch am a para d en t ro os d em ón ios do ilim it ad o. Ele fica
sentado, recosta-se e n ão vê n em ouve o gem er da h u m an id ad e, tom ado pela
t errível em briaguez de fogo. Ap esar disso n ão consegues en con t rar as novas
palavras, se n ão quebrares as velh as. Mas n in gu ém deve quebrar velh as palavras,
porque en con t ra a palavra n ova que é u m dique resist en t e con t ra o ilim it ad o e
t raz em si m ais vid a do que a palavra velh a. U m a palavra n ova é u m Deu s n ovo
para a pessoa velh a. A pessoa perm an ece a m esm a, se t u lh e crias t am bém im a -
gens novas de Deu s. El a con t in u a sendo u m a im it ad ora. O que era palavra deve
t orn ar-se pessoa. A palavra cr iou e era antes do m un do. Br ilh o u com o u m a lu z
nas trevas, e as trevas n ão a en t en d eram 55 . Deve port an t o surgir u m a palavra
que en t en d a as trevas, pois para que serve a lu z que n ão en t en de as trevas? Mas
tua lu z deve alcan çar o sign ificado da lu z.

O Deu s da palavra é frio e m ort o e b r ilh a de longe com o a lua, en igm át ica e
21/22 in at in gível. D e ixa que a palavra volt e a seu / criador, precisam en t e ao h om em ,
e assim a palavra é elevada ao h om em . Q u e o h om em seja lu z, lim it e, m edida.
Q u e seja vosso fru t o que an siosam en te t en t ais pegar. As trevas n ão en t en d em
a palavra, mas o h om em ; sim , elas o en t en d em , pois ele m esm o é u m ped aço das
trevas. N ã o descendo da palavra para o h om em , mas subin do da palavra até o
h om em , ist o en t en d em as trevas. As trevas são t u a m ãe, con vém a elas t er res-
peito, pois a m ãe é perigosa. El a t em poder sobre t i, pois é t u a gen it ora. H o n r a
as trevas com o a lu z, assim ilu m in as tuas trevas.

Q u an d o en ten des as trevas, elas t om am posse de t i. Vê m sobre t i com o a


n oit e com u m a som bra azul e in ú m eras estrelas bru xu lean t es. Silên cio e paz te
en cobrem quan do com eças a en t en der as trevas. Só qu em n ão en t en de as t r e-
vas tem e a n oit e. At ravés da com preen são das trevas, do n ot u rn o, do abissal em

54 Em 1940, Jung comentou sobre a magia protetora da palavra ("O símbolo da transformação na missa".
O C , 11, § 4 4 2) .
55 Cf. nota 48, p. 219..
D IES I I 225

t i, serás t ot alm en t e sim ples. E t u te preparas para d or m ir com o todos du ran t e


os séculos, e dorm es por debaixo do seio dos m ilén ios, e tuas paredes ressoam
de velh os cân t icos sacros. Pois o sim ples é aquilo que sem pre foi. Silên cio e
n oit e azu l est en dem -se sobre t i, en quan t o t u dorm es n o t ú m u lo dos m ilén ios.

Dies I I . ' 6
Ca p . v.
[ I H 22] 57 , 58 Aco r d e i, o d ia avermelhava o O rien t e. U m a noite, u m a noite m aravil-
hosa ficou para trás, n a profundeza m ais longínqua dos tempos. Em que espaços
distantes estive? Co m que sonhei? Co m u m cavalo branco? Parece-me que vi este
cavalo branco no céu orien t al sobre o sol nascente. O cavalo falou-me: "O que disse
isto?" Ist o falou: "Vivas a quem está n a escuridão, pois para ele o dia já passou".
Er am quatro cavalos brancos com asas douradas. Puxavam o carro do sol para cim a,
nele estava de pé H élio, com cabeça ch am ejan t e 59 . Eu estava aqui embaixo n o des-
filadeiro, admirado e assustado. Milh ares de serpentes negras apressavam-se para
seus buracos. H élio con tin uava subindo para as largas trilhas do céu. Ajoelh ei-m e,
levantei m in has m ãos suplicantes para o alto e gritei: "Dá-n os tua luz, sedutor do
fogo, abraçado, crucificado e ressuscitado, tua luz, tua luz". Co m esse clamor, acor-
dei. Nã o disse Am ón io on t em à noite: "Nã o te esqueças de tua oração da manhã,
quando o sol se levantar?" Pensei: talvez ele adore secretamente o sol. /
D o lado de fora soprava u m ven t o fresco d a m an h ã. Ar e ia am arela escorre
em fin os veios pelas rochas abaixo. O verm elh o esten de-se sobre o céu, e eu
vejo os p rim eiros raios se lan çan d o para o firm am en t o. Silên cio e solidão m a -
jestosos ao redor. Lá u m a grande lagart ixa sobre u m a pedra espera o sol. Est ou
com o que paralisado e lem b ro-m e com dificuldade de tudo o que acon teceu
on t em e sobretudo do que disse Am ón io. O que disse afinal? Q u e as sequ ên -
cias de palavras t êm vários sen tidos e que João t rou xe para os h om en s o Àoyoç.

56 O esboço corrigido tem: "( O erem ita). Segundo dia. De manhã" (p. 219).
57 Em "A árvore filosófica" (1945), Jung observou: "Um a pessoa que está enraizada embaixo e no alto
pareceria uma árvore tanto na posição normal, como na inversa. A meta não é o alto, mas o centro" ( O C ,
U> § 333)- Com entou também sobre "a árvore invertida" no § 41OS.
58 I O de janeiro de 1914.
59 Na mitologia grega, Hélio era o deus-sol, que dirigia pelo cosmo uma carruagem puxada por quatro
corcéis.
226 LI BE R SECU N D U S 23/ 24

Ist o n ão soa m u it o cristão. Será que ele é u m gn ó st ico ? 6 0 Não , parece-m e i m -


possível, pois ist o o foram os piores de todos os idólat ras da palavra, com o ele
provavelm en t e d iria.
O sol - o que m e en ch e de t ão gran de jú b ilo in t er ior ? N ã o devo esquecer
m in h a oração da m an h ã — mas on de est á m in h a oração d a m an h ã? Am ad o sol,
n ão t en h o oração, pois n ão sei com o devo in vocar-t e. Agor a rezei para o sol.
Mas Am ó n io ach ava que eu d evia rezar a Deu s ao raiar d a m an h ã. Mas ele n ão
sabe — n ão tem os m ais oração. Co m o p od eria t er n oção de n ossa n u dez e p o-
breza? Para on de foram as orações? Aq u i elas m e falt am . Ist o deve ser causado
pelo deserto. Aq u i parece que d everia h aver oração. Será que este deserto é
t ão especialm en t e difícil? Pen so que n ão é m ais difícil do que nossas cidades.
Mas por que n ão rezam os lá? Devo olh ar para o sol, com o se ele tivesse algum a
coisa a ver com isso. A h - son h os an t iqu íssim os da h u m an id ad e, n ão é possível
fugir deles.
O que farei n est a lon ga m an h ã toda? N ã o en t en d o com o Am ó n io agu en -
t ou est a vid a p or u m an o que seja. An d o p ara cim a e p ara baixo n o leit o seco
do r io e sen t o-m e fin alm en t e n u m a ped ra. Dia n t e de m im , algum as ervas
am arelas. U m besouro pret o ve m se arrast an d o e va i em p u rran d o u m a b o li-
n h a d ian t e de si - u m escaravelh o 6 1. Ó pequ en o e qu erid o an im alzin h o, estás
ain d a n o t rabalh o de viver t eu belo m it o? Co m o t rabalh a com seriedade e
sem descan so! Tivesses apenas u m a p álid a id eia de que represen t as u m m it o
an tigo, pararias com t u a q u im er a, assim com o n ós, h u m an os, param os de r e -
presen t ar m it ologia.
O ir r eal causa n ojo. Soa bem est ran h o neste lugar o que digo, e o bom
Am ó n io cert am en t e n ão con cord aria com isso. Mas, o que procu ro exat am en t e
aqui? Nã o , n ão quero julgar de an t em ão, pois ain d a n ão en t en d i realm en t e o
que ele pen sa de fato. Ele t em d ireit o de ser ouvido. Alé m do m ais, on t em eu
pen sava diferen t e, era-lh e até m u it o grato por querer m e en sin ar. Tom o n o-

60 Durante este período, Jung estava ocupado com o estudo dos textos gnósticos, nos quais encontrou
paralelos históricos com suas próprias experiências. Cf. R I BI , A. Die Suche nach den eígenenW urzeln: Die
Bedeutung von Gnosis, Herm etik und Alchem ie fur C G . Jung und Marie-Louise von Franz und deren
Einfluss auf das moderne Verstándnis dieser Disziplin . Berna: Peter Lang, 1999.
61 Em "Síncronícidade: um princípio de conexões acausaís' (1952), Jung escreveu: "O escaravelho é um símbolo clássico
do renascimento. O livro Am-Tuatào Egito descreve a maneira como o deus-sol morto se transforma no
Kheperâ, o escaravelho, na décima estação e, a seguir, na duodécima estação, sobe à barcaça que trará o
deus-sol rejuvenescido de volta ao céu matinal do dia seguinte" ( O C, 13, § 843).
D IES I I 227

vãm en t e u m a at it ude crít ica e superior, est ou port an t o n o m elh or cam in h o de


n ada apren der. Seus pen sam en t os, que n ão são t ão ru in s, são até bon s. N ã o sei
por que desejo sem pre rebaixar a pessoa.
Q u e r id o besouro, para onde foste, n ão te vejo m ais — ah , lá adian te já estás
com t u a b olin h a m ít ica. Esses an im aizin h os ficam absortos em seu t rabalh o de
m an eira bem diferen t e de n ós - n en h u m a dúvida, n ada de desistir, n en h u m a
h esitação. Será que ist o vem do fato de eles viver em seu m it o?

Querido escaravelho, m eu pai, eu te venero, bendito seja teu trabalho - eternam ente - am ém .

Q u e absurdo est ou dizen do? Est ou adoran do u m bich o — deve ser efeito do
deserto. Ele parece exigir in con d icion alm en t e oração.
Co m o é bon it o aqui! A cor averm elh ada das pedras é m aravilh osa. Elas r e-
flet em o calor de cem m il sóis passados - esses grãozin h os de areia rolaram
em m ares fan t ast icam en t e p rim it ivos nos quais n adavam m on st ros de form as
jam ais vist as. O n d e estavas t u , ser h um an o, naqueles dias? Nest a areia quen te
est iveram deitados, aconchegados com o crian ças à sua m ãe, teus antepassados
p ré-h ist óricos ain d a em form a an im al.
Ó m ãe pedra, eu te am o, aconchegado a teu corpo quente, estou deitado, teu filho tardio. Bendita

sejas, m ãe prim itiva.

I Teus são m eu coração, toda a glória e força. Am ém . 23/24

O que digo? Ist o foi o deserto. Co m o tudo me parece t er vida! Est e lugar é
realm en te terrível. Essas pedras - são mesmo pedras? Parece que se ju n t aram
deliberadam ente. Est ão ordenadas com o u m exércit o perfilado. Dispu seram -se
sim et ricam en t e em form ações rochosas, as grandes ficam sós, as pequenas p re-
en ch em as lacun as e se ju n t am n u m grupo que precede o grande. Aq u i as pedras
foram Est ados.
Est o u son h an do ou acordado? Faz calor — o sol já vai alto — com o an d am
depressa as horas! D e fato, a m an h ã já passou — e com o foi m aravilh osa! Será
que é o sol, ou serão essas pedras vivas, ou será o deserto que fazem zu n ir m in h a
cabeça?
Vo u subin do do vale para cim a e logo est ou dian t e da caban a do erem it a.
Est á sen tado em sua est eira, perd id o em profu n d a m edit ação.
Eu : "Me u pai, aqui est ou eu ".
E: "Co m o passaste t u a m an h ã?"
228 L I B E R S E C U N D U S 24/25

Eu : "O n t e m , fiquei adm irado quan do disseste que o tem po passava m u it o


depressa para t i. N ã o pergu n t ei m ais n ada e n ão m e ad m ir ei m ais disso. Ap r e n -
d i m u it a coisa. Mas n ão o suficien t e para que con t in u es sendo u m en igm a ain -
da m aior para m im agora do que antes. O que n ão deves viven ciar n o deserto,
h om em adm irável! At é as pedras devem falar con t igo".
E: "Alegro-m e que tenhas apren dido a en t en d er algum a coisa da vid a de
erem it a. Ist o facilit ará n ossa difícil tarefa. N ã o quero m et er-m e em teus segre-
dos, mas sin t o que ven s de u m m u n d o est ran h o que n ão t em n ada a ver com o
m eu ".
Eu : "O que dizes é verdade. Aq u i eu sou u m estran h o, o m ais est ran h o que
já vist e. Mesm o u m h om em das costas m ais dist an t es da Br et an h a est aria m ais
p róxim o de t i do que eu. Por isso, t em paciên cia, m est re, e p erm it e que eu beba
da fon te de t u a sabedoria. Ain d a que o deserto sedento nos rodeie, flui de t i
u m a t orren t e in visível de água viva".
E: "Fizest e t u a oração?"
Eu : "Perd ão, m est re, eu p rocu rei, m as n ão en con t rei oração algum a. Sen t i
n o en t an t o que eu rezava ao sol n ascen te".
E: "N ã o te preocupes por causa disso. Se t u n ão en con t rast e palavras, t u a
alm a, con tudo, en con t rou palavras in dizíveis para saudar o d ia que raiava".
Eu : "Mas foi u m a oração pagã a H élio ".
E: "Isso te basta".
Eu : "Mas, m est re, eu n ão rezei em m eu son h o só ao sol, e sim t am bém , em
m eu aut o-esquecim en t o, ao escaravelho e à t erra".
E: "N ã o te adm ires de n ada e de m odo n en h u m con den es ou lam en t es isso.
Vam os ao trabalho. Gost arias de pergun t ar algo a respeit o de n ossa con versa
de on t em ?"
Eu : "E u te in t er r om p i on t em quan do falavas de Filo. Q u er ias exp licar-m e o
que en ten des pelo sen t ido m ú lt iplo das sequên cias de palavras".
E: "Q u e r o agora con t ar-t e com o fiqu ei livre do t errível en redam en t o da
t eia de palavras: cert a vez aproxim ou -se de m im u m lib ert o de m eu pai, que
desde m in h a in fân cia m e era afeiçoado, e m e disse:

Am ón io, está tudo bem contigo?' 'Cert am en t e', respondi, 'vês que sou
letrado e tenho grande êxito'.
Ele: 'Eu quero dizer, estás feliz e completamente vivo?'
D IES I I 229

Eu ri: 'Estás vendo que tudo está bem '.


Disse o idoso: ' Eu vi como deste preleções. Parecias preocupado com
o julgamento de teus ouvintes. Inserias chistes espirituosos para agradar o
auditório. Reun ias maneiras eruditas de falar para im pressioná-lo. Tu eras
inquieto e apressado, como se ainda tivesses que arrebatar todo o saber para
t i. Tu não estás em t i mesmo'.
Ain d a que essas palavras me tivessem parecido in icialm en te ridículas,
elas me im pressionaram , e eu, con tra a m in h a vontade, tive de / dar razão ao
velho, pois ele estava certo.
Disse ele então: 'Meu prezado Am ón io, tenho para t i um a excelente n o-
vidade: Deus tornou-se carne em seu Filho e trouxe a nós todos a salvação'.
' O que dizes', exclam ei, 'queres evidentemente significar O sír is 6 2 , que
deve aparecer em corpo m ort al'.
'Não', retrucou ele, 'este homem viveu na Judeia e nasceu de uma virgem'.
Ri e respondi: 'Já sei, um mercador judeu levou para a Judeia a notícia
de nossa rain ha-virgem , cuja imagem vês n a parede de um de nossos t em -
plos, e lá a contou como história da carochinha'.
'Não', in sist iu o velho, 'ele era o Filh o de Deus'.
'En tão pensas naturalmente em H o r u s 6 3 , o filho de Osíris', respondi eu.
'Não, ele não era H oru s, mas um homem real e foi suspenso numa cruz'.
Ah , pensas então em Seth, cujo castigo nossos antepassados relataram
muitas vezes'.
O velho con tin uou em sua convicção e disse: 'Ele m orreu e, ao terceiro
dia, ressuscitou'.
'Nesse caso, trata-se de O síris', falei já com certa impaciência.
'Não', exclamou ele, 'seu nome era Jesus, o Un gido'.
Ah , t u queres dizer esse Deus judeu, que o povo da classe in ferior ve-
n era no porto e cujos mistérios imundos ele celebra nos subterrâneos'.
'Ele era u m hom em e contudo Filh o de Deus', disse o velho, e me olhou
fixamente.
'Ist o é absurdo, meu prezado velho', disse eu e o em purrei pela porta
a fora. Mas como u m eco em distantes rochedos escarpados repetiam-se as
palavras em m im : um a pessoa hum ana e contudo Filh o de Deus. Pareceu-
-me significativo, e foram estas palavras que me levaram ao cristianism o.

62 Osíris era o Deus egípcio da vida, morte e fertilidade. Seth era o Deus do deserto. Osíris foi assassinado e
esquartejado por seu irmão Seth. Seu corpo foi recuperado por sua esposa Isis, reajuntado e ressuscitado.
Jung tratou de Osíris e Seth em Transformações e símbolos da libido (1912). O C , B, § 3$8s.
63 Hórus, filho de Osíris, era o Deus egípcio do céu. Ele lutou contra Seth.
230 LI BER SECU N D U S 25/27

Eu : "Mas n ão pensas que o crist ian ism o pod eria ser ao fin al u m a rem od ela-
ção de vossas d ou t rin as egípcias?"
E: "Se dizes que nossas antigas d ou t rin as eram expressões m en os p er t in en -
tes ao crist ian ism o en t ão con cordo de im ed iat o con t igo".
Eu : "Sim , mas aceitas en t ão que a h ist ória das religiões visa a u m objet ivo
ú lt im o?"
E: "Me u pai com p rou cert a vez u m escravo negro n a região das nascentes
do rio Nilo. Vin h a de u m país que n u n ca ou vira falar de O síris ou de q u al-
quer ou t ro de nossos deuses, mas ele m e con t ava coisas que n u m a lin guagem
sim ples d iziam a m esm a coisa que n ós acredit ávam os de O síris e dos outros
deuses. Ap r e n d i a en t en der que aqueles negros in cu lt os já possu íam , sem o sa-
ber, a m aior ia daquilo que as religiões dos povos cultos desen volveram até u m a
d ou t rin a acabada. Q u e m entendesse corret am en t e aquela lin guagem pod eria
recon h ecer n ela n ão só as d ou t rin as pagãs, mas t am bém a d ou t rin a de Jesus. E
é com isso que m e ocupo agora: leio os evangelhos e procu ro seu sen t ido vin -
douro. Con h ecem os seu sign ificado com o est á paten te d ian t e de n ós, mas n ão
con h ecem os seu sen t ido ocult o que apon t a para o futuro. E u m erro acredit ar
que as religiões sejam diferen t es em sua essên cia. No fundo, t rat a-se sem pre d a
m esm a religião. Ca d a form a religiosa subsequente é o sen t ido das an t eriores".
Eu : " E descobriste o sign ificado vin d ou ro?"
E: "Nã o , ain d a n ão, é m u it o difícil, mas t en h o esperan ça de que vou con se-
guir. At é agora quer parecer-m e que preciso do est ím u lo de out ros para isso,
mas são t en t ações de satan ás, eu o sei".
Eu : "N ã o chegas a acredit ar que esta obra pod eria an t ecipar seu êxit o se
estivesses m ais pert o de outras pessoas?"
E: "Talvez ten has razão."
D e repen te ele olh ou para m im com o que em d ú vid a e desconfiado. "Mas",
con t in u ou ele, "eu am o o deserto, com preen des? Est e deserto am arelo, ch eio do
calor do sol. Aq u i t u vês d iariam en t e a face do sol, aqui estás sozin h o, aqui vês
o glorioso H élio — n ão isto é pagão — o que h á com igo? Est ou pert urbado - t u
és satan ás - eu te con h eço - afasta-te de m im , in im igo".
/ Levan t ou -se de repen t e com o en louquecido e quis at irar-se sobre m im .
Mas eu estou b em longe, n o século vin t e 6 4 .

64 O esboço corrigido tem: "e a m im mesmo pareceu tão irreal como um sonho" (p. 228). O s eremitas cristãos
estavam sempre de prontidão contra o aparecimento de satanás. Famoso exemplo de tentações pelo
demónio ocorre na vida de Santo Antão, escrito por Santo Atanásio. Para prevenir seus monges, "ensina
como o diabo se disfarça para levar à queda os santos. O diabo é, evidentemente, a voz do próprio
D IES I I 231

[2] [ I H 26] Quem dorm e no túm ulo dos m ilénios sonha um sonho glorioso. Sonha um sonho
antiquíssim o. Sonha com o sol nascente.
Se tu dorm es este sono nesta época do m undo e sonhas este sonho, sabes que nesta época tam bém
nascerá o sol. Agora ainda estam os na escuridão, m as o dia está acim a de nós.
Quem traz em si as trevas, a este está próxim a a luz. Quem desce para dentro de suas trevas, este
chega ao nascer da luz atuante, do Hélio que atrai o sol.
Seu carro sobe puxado por quatro corcéis brancos; em suas costas não há cruz e em seu lado não há
chaga, m as ele é saudável e sua cabeça arde em fogo.
Não éum hom em , objeto de escárnio, m as um ser glorioso e de poder indiscutível.
Eu não sei o que eu falo, eu falo no sonho. Am para-m e, pois cam baleio em briagado de fogo.
Bebi fogo nesta noite, pois desci pelos m ilénios abaixo e m ergulhei no m ais profundo do sol.
E ergui-m e em briagado de sol, com a face ardente e m inha cabeça em fogo.
Dá-m e tua m ão, um a m ão hum ana, para que m e m antenha preso à terra, pois j rodas girantes de
fogo m e levantam e desejo jubiloso m e arrebata até o zénite.

N o en t an t o vem o d ia, verd ad eiro d ia, o d ia desse m un do. E eu est ou escon -


dido n o desfiladeiro da t erra, b em em baixo e sozin h o, n a som bra alvorecen te
do vale. Est a é a som bra e a gravidade da t erra.
Co m o posso rezar ao sol que nasce bem dist an t e n o O r ie n t e sobre o deser-
to? Por que devo rezar a ele? Eu bebi o sol em m im , por que d everia rezar? Mas
o deserto, o deserto em m im exige oração, pois o deserto quer en ch er-se de
coisa viva. Eu gost aria de ped i-lo a Deu s, ao sol e a algum dos outros im ort ais.
Eu peço porque sou vazio e u m pedin t e. N o d ia do m u n d o esqueço que eu
bebi em m im o sol e est ou em briagado de lu z atuan te e força que qu eim a. Mas
eu en t r ei n a som bra d a t erra e vi que estou n u e que n ada t en h o para cob rir
m in h a pobreza. Ma l tocas a t erra, liqu id ad a est á a vid a que m or a em t i; ela foge
de t i para d en t ro das coisas.
E u m a vid a m aravilh osa com eça nas coisas. O que t u con sideravas m ort o
e in an im ad o revela vid a secreta, in t en ção silen ciosa e in exorável. T u en trast e
n u m a engrenagem em que cada coisa percorre seu p róp rio cam in h o com gestos
específicos, ao t eu lado, acim a de t i, abaixo de t i e através de t i, in clu sive as pe-

inconsciente do eremita que se volta contra a repressão violenta da natureza individual" ( O C, 6, § 82). As
experiências de Antão foram elaboradas por Flaubert em seu livro La tentatíon de Saint Antoine, obra familiar a
Jung (Psicologia e alquim ia. O C , 12, § 59).
232 L I B E R S E C U N D U S 27/ 29

dras falam con tigo e fios m ágicos t ecem u m a t ram a de t i para a coisa e d a coisa
para t i. Coisas dist an t es e próxim as at uam em t i e t u ages de m an eira obscura
sobre a coisa p róxim a e dist an t e. E sem pre estás desam parado e és vít im a.
Mas se olh ares bem , verás algo que n u n ca vist e an tes, ist o é, que as coisas v i -
vem t u a vid a, que elas se alim en t am de t i: os rios carregam t u a vid a para o vale,
com t u a força cai u m a pedra sobre a ou t ra, t am bém plan t as e an im ais crescem
através de t i e t u m orres neles. U m a folh a d an çan d o ao ven t o d an ça em t i, o
an im al ir r a cio n a l 6 5 ad ivin h a teus pen sam en tos e te represen t a. A t erra in t eir a
suga sua vid a de t i e t udo se espelh a em t i.
N ã o acontece n ada n aquilo em que n ão estás en redado de m an eira secreta;
pois tudo se ord en ou em t orn o de t i e represen t a t eu m ais ín t im o. Nad a em t i
está ocult o às coisas p or m ais dist an t e, precioso e secreto que seja. As coisas o
possuem . Te u cach orro rou ba t eu pai falecido de h á m u it o e t u o achas parecido
com ele. A vaca n o pasto ad ivin h ou t u a m ãe e, ch eia de t ran qu ilid ad e e cert eza,
ela te fascina. As estrelas in sin u am -se em teus segredos m ais profun dos, e os
vales m acios d a t erra abrigam -t e em seio m at ern o.
Q u a l crian ça sem ru m o estás lam en t avelm en t e en t re os poderosos que se-
gu ram os fios de t u a vid a. T u bradas por socorro e te agarras ao m elh or que
p rim eiro aparece n o cam in h o. Talvez ele saiba acon selh ar-t e, talvez con h eça os
pen sam en tos que n ão tens e que todas as coisas sugaram de t i.

Eu sei que tu gostarias de ouvir notícias daquele que nunca foi vivido pelas coisas, m as que viveu e

realizou a si m esm o. Pois tu és um filho da terra, esgotado pela terra sugadora, que por si nada pode, m as

apenas suga o sol. Por isso gostarias de ter notícias do filho do sol, que brilha e não suga.

I Gostarias de ouvir do Filho de Deus, que brilhou, ofereceu e testem unhou, e do qual foi renascido,

com o a terra gera para o solfilhos verdes e coloridos.

Dele gostarias de ouvir, do salvador reluz ente, que, com ofilho do sol, cortou as teias da terra, que

arrebentou os fios m ágicos e soltou o am arrado, quefoi dono de si m esm o e servo de ninguém , que não

exauriu ninguém e cujo tesouro ninguém esvaz iou.

Gostarias de ouvir daquele que não foi obscurecido pela som bra da terra, m as que a ilum inou, que

viu todos os pensam entos e cujos pensam entos ninguém adivinhou, que possuiu em sí o sentido de todas as

coisas e cujo sentido nenhum a coisa soube exprim ir.

65 Um a inversão da definição de Aristóteles do homem como "animal racional".


D IES I I 233

O solit ário fugiu do m un do, fech ou os olh os, t am pou os ouvidos e en t er-
rou-se n u m a cavern a d en t ro de si m esm o, mas de n ada adian t ou . O deserto o
exau riu , a pedra falou a seus pen sam en t os, a cavern a ressoa seus sen t im en t os, e
assim t orn ou -se ele m esm o deserto, pedra e cavern a. E tudo era vazio, deserto,
im p ot ên cia e est erilidade, pois ele n ão b rilh ava e con t in u ou sendo u m filh o
d a t erra, que esgotou u m livro e ele m esm o foi esgotado pelo deserto. Ele era
desejo e n ão brilh o, t ot alm en t e t er r a e n ão sol.
Por isso estava n o deserto com o u m san to esperto, pois sabia m u it o bem
que de ou t ro m odo n ão con seguiria d ist in gu ir-se dos out ros filh os da t erra.
Tivesse bebido de si, t eria bebido fogo.

O solit ário foi para o deserto a fim de en con t rar-se. N ã o deseja, p orém ,
en con t rar a si m esm o, mas o sen t ido m ú lt iplo do livro sagrado. T u podes su -
gar para d en t ro de t i a in com en su rabilid ad e do pequen o e do grande, mas t u
ficarás m ais vazio, cada vez m ais vazio, pois plen it u d e in com en su rável e vazio
in com en su rável são a m esm a co isa 6 6 .
Desejava en con t rar n o ext er ior aqu ilo de que precisava. Mas o sen t id o
m ú lt ip lo t u só o en con t ras em t i, n ão nas coisas, pois a m u lt ip licid ad e do sen -
t id o n ão é algo que é dado de u m a só vez, m as é u m en cadeam en t o de sign ifi-
cados. O s sign ificados que se seguem un s aos out ros n ão est ão nas coisas, mas
em t i, que estás su jeit o a m u it as m u d an ças en qu an t o t iveres part e n a vid a.
Tam b ém as coisas m u d am , m as t u n ão o percebes, se t u m esm o n ão m u d a-
res. Mas se m udas, m od ifica-se o aspecto do m un do. O sen t id o m ú lt ip lo das
coisas é t eu sen t id o m ú lt iplo. E in ú t il qu erer fu n d am en t á-lo nas coisas. E é
p rop riam en t e por isso que o solit ário foi p ara o deserto; n ão exam in a p orém
a si m esm o, mas a coisa.
E por isso acon t eceu -lh e o m esm o que a t odo solit ário quan do ele deseja: o
d em ón io veio a ele com fala m an sa e fu n d am en t ação con vin cen t e, sabia d izer
a palavra cer t a n o m om en t o cert o. Ele o alicia para o seu desejo. E u cer t a-
m en t e d everia parecer o d em ón io para ele, pois eu assu m i m in h as t revas. Eu
com ia a t er r a e bebia o sol, e eu era u m a árvore verd e, que est á de pé e cresce
n a so lid ã o 6 7 ./

66 Cf. a descrição de pleroma, em Jung, p. 449ss. adiante.


67 O esboço e o esboço corrigido continuam: "Mas eu vi a solidão e sua beleza, eu compreendi a vida do não vivido
e o sentido do sem-sentido. Compreendi também este lado de minha multiplicidade. E assim cresceu
minha árvore na solidão e no sossego; comeu a terra com raízes profundas e bebeu o sol com galhos altos.
234 LI BE R SECU N D U S 29/ 30

A m ort e 68
Cap. vi.
[ I H 29 ] N a n oit e segu in t e 6 9 , fu i para a t er r a do Nor t e e en con t rei-m e sob céu
cin zen t o, n u m ar n ebuloso e ú m id o-frio. Dir igi-m e para as plan ícies, onde as
águas em m an so deslizar, lu zin d o em grandes espelhos, aproxim am -se do m ar,
onde m ais e m ais acaba t oda pressa do fluir e onde t oda força e todo esforço
se acasalam com a im en sid ão ilim it ad a do oceano. As árvores rareiam , grandes
ch arn ecas acom pan h am as águas calm as e t urvas, sem fim e solit ário é o h o r i-
zon t e, rodeado por n uven s cin zen t as. Devagar, com a respiração suspensa, com
a gran de e m edrosa expect at iva daquele que espum ej a furiosam en t e e se espar-
ram a pelo in fin it o, sigo m in h a irm ã, a água. Silen cioso e quase im percept ível é
seu fluir e, assim m esm o, aproxim am o-n os sem pre m ais do feliz e m ais elevado
abraço, para en t rar n o seio da origem , n a ext en são sem lim it es e n a p rofu n -
deza in com en su rável. Lá se erguem colin as baixas e am arelas. U m lago grande
e m ort o esten de-se a seu sopé. Cam in h am os silen ciosam en t e ao seu redor, e as
colin as se ab riram para u m h orizon t e crepuscular, in d izivelm en t e lon gín qu o,
onde céu e m ar se fu n d em n u m a in fin it u d e.
Lá em cim a, sobre a últim a dun a está alguém, trazia u m m an to preto e preguea-
do, está de pé, im óvel, e olha para longe. Ap roxim o-m e dele; é magro e pálido e u m a
seriedade absoluta estampa-se em seus traços fisionóm icos. Dirijo-lh e a palavra:
"Posso ficar u m pouco con tigo, Escu ro? Eu te recon h eci de longe. Só u m fica
parado com o t u , t ão só e n o ú lt im o can t o do m u n d o".
Respon d eu : "Est ran h o, podes ficar à von t ade com igo se n ão ficares com
frio. Vê s que sou frio e n u n ca u m coração bat eu em m im ".
"E u sei que és gelo e fim , t u és a quietude fria da pedra, t u és a neve m ais
alt a das m on t an h as e a geada m ais in t en sa n o espaço cósm ico vazio. Ist o preciso
sen t ir e é a razão por que devo ficar pert o de t i".
"O que te t raz a m im , m at éria viva? O s vivos n u n ca são h ósped es aqui. E
verdade que vêm todos passando t rist es em grandes grupos, todos que se des-

O hóspede solitário [estranho] entrou em minha alma. Mas minha vida verdejante me inundou. [Assim
caminhei, seguindo a natureza da água]. A solidão cresceu c estendeu se cm torno de m im . Eu não
conhecia a infinitude da solidão, c cu caminhava, caminhava c olhava. Q u eria sondar as profundezas da
solidão c fui tão longe ate que se extinguiu cada um dos últimos ecos da vida" (p. 235).
68 O esboço m anuscrito tem: Quinta aventura: a m orte (p. 557).
69 2 de janeiro de 1914.
A M O RTE 235

p ed iram / lá em cim a d a lu z do d ia, para n u n ca m ais volt ar. Mas pessoas vivas
n ão vêm n u n ca. O que procuras aqu i?"
"Me u cam in h o est ran h o e in esperado t rou xe-m e até aqui, quan do eu se-
guia, ch eio de esperan ça, o cam in h o das t orren t es da vid a. E assim te en con t rei.
Aq u i estás bem e n o t eu devido lugar?"
"Sim , d aqu i se part e para o in d ist in gu ível, onde n in gu ém é igual ou d iferen -
te do out ro, mas on de todos são u m . Vê s o que vem vin d o lá?"
"Vejo algo com o u m a parede escura de nuvens que vem nadando n a t orren t e".
"O lh a m elh or, o que recon h eces?"
"Vejo tropas incalculáveis e bem cerradas de hom ens, velhos, mulheres e crian -
ças. No meio, vejo cavalos, gado e rebanho m iúdo, u m a n uvem de insetos voa em
volt a da tropa - u m a floresta vem boiando — flores murchas sem conta — u m ve-
rão todo, m ort o. Est ão perto. O olh ar de todos é fixo e frio — seus pés n ão se
m ovem - n en h u m som sai de suas fileiras cerradas. Rígid os, seguram -se pe-
las m ãos e braços, olh am para fren t e e n ão prest am at en ção em n ós - passam
fluindo n a m on st ru osa t orren t e. Escu ro, esta visão é h orrível!"
"T u quiseste ficar com igo, sossega. Prest a at en ção agora!"
Eu vejo: "As p rim eiras filas ch egaram lá onde as ondas d a reben t ação se m is-
t u ram violen t am en t e com a água da t orren t e. E parece com o se u m a on d a de
ar, bat en do con t ra o m ar, estivesse baten do con t ra a m u lt id ão dos m ort os. Be m
alto red em oin h am , esvoaçan d o em pretos farrapos e se desfazendo em n uven s
turvas de n évoa. U m a on d a após ou t ra se ap roxim a e sem pre novas m u lt id ões
som em n o ar negro. Escu ro, d ize-m e, ist o é o fim ?"
"O b ser va!"
O m ar escuro reben t a com fragor - u m a pedra averm elh ada aparece den t ro
disso - é com o sangue - u m m ar de sangue espum eja aos meus pés - a profu n -
deza do m ar fica verm elh a — sin t o-m e estranho — estou dependurado n o ar pelos
pés? Ist o é o m ar ou o céu? U m a bola de sangue e de fogo se m ist u ra - u m a lu z
verm elh a est oura de seu in vólu cro fumegante - u m n ovo sol avan ça para a m ais
ext rem a profu n deza - ele desaparece sob m eus p és 7 °.
O l h o ao m e u red or. Es t o u só. Fic o u n oit e. O que d isse Am ó n io ? A n oit e
é o t em p o d o silên cio.

70 Cf. a visão no Liber Prímus, cap. 5, "Descida ao inferno no futuro", p. 133.


236 L I B E R S E C U N D U S 30/31

[2] [ I H 30] O lh e i ao m eu red or e percebi que a solidão se e st e n d e r a ao i n -


com en su rável, e m e pen et rou de u m frio h orrip ilan t e. Ain d a ard ia sol em m im ,
mas eu sen t i que en t rava n a grande som bra. Sigo a m u lt id ão que, devagar e i m -
pert u rbável, en con t ra o cam in h o da profun deza, da profun deza do vin d ou ro.
Assim saí daquela n oit e (era a segunda n oit e de 1914) e fiqu ei ch eio de expec-
t at iva m edrosa. Saí para abraçar o vin d ou ro. O cam in h o era longo, e assustador
era o vin d ou ro. Er a a m ort e h orren d a, u m m ar de sangue, que eu vi. Disso
fez-se u m n ovo sol, pavoroso e u m a in versão do que ch am ávam os de d ia. Agar -
ram os a escuridão, e seu sol h á de b rilh ar sobre n ós, san gren to e arden t e com o
u m grande ocaso.
Q u an d o en t en d i m in h a escuridão, veio sobre m im a n oit e m aravilh osa, e
m eu son h o m ergu lh ou -m e nas profun dezas dos m ilén ios, e d aí ergueu-se m i -
n h a fén ix.

Mas o que acon teceu com m eu dia? Ar ch ot es foram acesos, cólera san gren t a
e brigas se in flam aram . Assim que a escuridão t om ou con t a do m un do, levan -
tou-se a guerra cru el, e a escu ridão d est ru iu a lu z do m un do, pois ela era i n -
con cebível e n ão prest ava m ais. Port an t o, t ín h am os de exp erim en t ar o in fern o.
Eu vi com o as virt u d es se t ran sform aram nessa época em vício, com o t u a
d oçu ra se t ran sform ou em d u reza, t u a bon dade em ru d eza, t eu am or em ód io e
tua razão em lou cu ra. Por que querias en t en d er a escuridão? Mas t u precisavas
en t en d ê-la, sen ão ela te agarraria. Feliz daquele que se an t ecipa a este agarra-
m en to.
Pensaste alguma vez n o m al em ti? O h , falaste disso, t u o m en cion aste e con -
sentiste sorrin do nele com o u m defeito h um an o em geral ou com o u m m al-en -
ten dido que aparece frequentes vezes. Mas sabias / o que é o m al e que ele está
m u it o pert o, atrás de tuas virt u d es, de t al m odo que ele é in clu sive t u a p róp ria
virt u d e, com o seu con t eú d o in evit ável 71. T u en carceraste satan ás d u ran t e u m
m ilén io n o abism o e, passado este m ilén io, rist e dele, porque se t orn ara u m
con t o de fadas in fa n t il 72 . Mas quan do o t errível Gr an d e levan t a sua cabeça,

71 Em 1940, Jung escreveu: "O mal é relativo; em parte é evitável e em parte é uma fatalidade. Isto se aplica
também à virtude, e muitas vezes não sabemos o que é pior" ("Interpretação psicológica do dogma da
Trindade". O C , 11/2, § 291.
72 No esboço corrigido esta frase é substituída por: "O mal é a metade do mundo, uma das conchas da ostra"
(p. 242).
A M O RTE 237

o m u n d o estrem ece. O frio ext erior pen et ra em t i. Co m pavor vês que estás
indefeso e que a m u lt id ão de tuas virt u d es cai im pot en t e de joelh os. O m al se
agarra com a violên cia de d em ón ios, e tuas virt u d es t ran svazam para ele. Nest a
bat alh a estás t ot alm en t e só, pois teus deuses ficaram surdos. N ã o sabes quais
são os piores d em ón ios, se teus vícios ou tuas virt u d es. Mas de u m a coisa ficarás
cien te: que virt u d e e vício são irm ãos.
73
N ó s precisam os do frio da m ort e para que vejam os claram en t e. A vid a
quer viver e m orrer, com eçar e t er m in a r 74 . T u n ão és forçado a viver et ern a-
m en t e, mas t am bém podes m orrer, pois para ambas as coisas h á u m a von t ade
em t i.
Vid a e m ort e devem m an t er em t u a exist ên cia o eq u ilíb r io 75 . As pessoas de
h oje precisam de u m gran de ped aço de m ort e, pois coisa in corret a dem ais vive
n elas, e coisas correias dem ais m or r em nelas. Co r r et o é o que m an t ém o eq u i-
líbrio, in corret o é o que d est rói o equilíbrio. Mas at in gido o equ ilíbrio, en t ão
é in corret o o que m an t ém o equ ilíbrio e corret o o que o d est rói. Equ ilíbrio é
vid a e m ort e ao m esm o tem po. D a perfeição d a vid a faz part e o equ ilíbrio com
a m ort e. Q u an d o aceito a m ort e, reverdece m in h a árvore, pois a m ort e in t en si-
fica a vid a. Se eu m e con cen t ro n a m ort e global, m eus bot ões se abrem . Q u an t o
n ossa vid a precisa d a m ort e!
A alegria nas m en ores coisas só vem a t i quan do t iveres aceito a m ort e. Mas
se olh ares vorazm en t e para aquilo que ain d a poderias viver, t eu en t ret en im en -
to n ão é gran de o suficien t e para t i, e as coisas m en ores que ain d a te cercam
n ão são m ais alegria para t i. Por isso en caro a m ort e com sim pat ia, pois ela m e
en sin a a viver.
Q u an d o aceitas a m ort e em t i, ist o é com o u m a n oit e de am ad u recim en t o
e u m pressen t im en t o m edroso, mas é u m a n oit e de am ad u recim en t o n u m a vi -

73 O esboço continua: "Nesta batalha sangrenta, a morte se dirigiu a ti, assim como hoje o grande matar e morrer
enche o mundo. O frio da morte te penetra. Quando na solidão eu estava enrijecido até a morte, vi clara-
mente e vi o vindouro tão claramente como as estrelas e as montanhas distantes na noite gelada" (p. 260).
74 Em Transformações e símbolos da libido (1912) Jung afirmou que a libido não era apenas um impulso vital
schopenhaueriano, mas que continha o esforço contrário em direção à morte nela mesma ( O C, B, § 69 6).
75 O esboço continua: "Deixar viver o correto e deixar morrer o incorreto, esta é a arte de viver" (p. 261).
Em 1934, Jung escreveu: "A vida é um processo energético como qualquer outro, mas, em princípio, todo
processo energético é irreversível e, por isso, orientado univocamente para um objetivo. E o objetivo é o
estado de repouso... Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade,
porque na hora secreta do meio-dia da vida inverte-se a parábola e nasce a morte... Não querer viver é
sinónimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva" ("A alma e a morte". O C ,
8, § 798 e 8 0 0 ) . Cf. meu "'Th e Boundless Expanse': Jungs Reflections on Life and Death". Quadrant:
Journal of the C G . Jung Foundation for Analytical Psychology, 38, 2008, p. 9-32.
238 LI BE R SECU N D U S 31/32

n h a, carregada de uvas d oces 76 . E m breve te alegrarás com t u a riqu eza. A m ort e


am adurece. Precisam os da m ort e para poder colh er frut os. Sem a m ort e, a vid a
n ão t em sen tido, pois o prolon gam en t o an u la de n ovo a si m esm o e nega seu
p róp rio sen tido. Para ser e gozar de t eu ser, precisas d a m ort e, e a lim it ação faz
com que possas realizar t eu ser.

[ I H 31] Q u an d o vejo a desolação e a t olice da t er r a e por isso en t ro de


cabeça cobert a n a m ort e, tudo o que vejo vir a gelo, mas n o m u n d o da som bra
se levan t a o outro, se levan t a o sol ver m elh o 77 . Ele se ergue secreta e in espera-
dam en t e e, com o fan tasm a satân ico, gira m eu m un do. Eu pressin t o sangue e
assassinato. Som en t e sangue e assassinato ain d a são sublim es e t êm sua beleza
própria. Pode-se aceit ar a beleza de u m ato san gren to de violên cia.
Mas é o in aceit ável, o t rem en d am en t e adverso, aquilo que eu r ejeit ei desde
sem pre, que se ergue d en t ro de m im . Pois quan do t er m in a a m iserabilidade e
pobreza desta vid a, com eça u m a ou t ra vid a n aqu ilo que é o oposto a m im . Ist o
é t ão oposto que n em faço id eia. Pois n ão est á oposto segundo as leis d a razão,
mas t ot alm en t e e de acordo com todo o seu ser. Sim , n ão é apenas oposto, mas
repugn an te, in visível e h orrivelm en t e repugn an te, algo que m e t ir a o fôlego,
que arran ca a força dos m úsculos, con fun de m in h a m en t e, que m e fere ven e-
n osam en t e e por trás n o calcan h ar e sem pre acert a ju st am en t e lá onde eu n ão
im agin ava que tivesse u m lugar vu ln er ável 78 .
N ã o vem de en con t ro a m im com o u m in im igo fort e, valen t e e perigoso,
mas eu é que m or r o n u m m on t e de esterco, en quan t o galinhas m ansas cacare-
jam ao m eu redor e, adm iradas e sem n ada en ten der, bot am ovos. U m cach orro
passa e levan t a sua p ern a n a m in h a d ireção e con t in u a t rot an d o calm am en t e
seu cam in h o. Am ald içoo sete vezes a h ora de m eu n ascim en t o, e se eu n ão p re-
ferir su icid ar-m e im ed iat am en t e, preparo-m e para viver m in h a segunda h ora
de n ascim en t o. O s antigos d iziam : "Interfaeces et urinam nascímur79. Du r an t e n oit es
perdidas cercaram -m e os h orrores do n ascim en t o. N a t erceira n oit e fez-se o u -
vir u m a risad a da m at a virgem para a qu al n ada é sim ples dem ais. En t ão a vid a
31/32 com eçou n ovam en t e a se m exer. /

76 Cf. acima, nota de rodapé 20, p. 231.


77 Um a referência à visão supra.
78 Em Transformações e símbolos da libido (1912), Jung comentou o motivo do calcanhar ferido ( O C, B, § 461).
79 "Nascemos entre fezes e urina", um dito atribuído a Santo Agostinho, entre outros.
O S REST O S D E T E M P LO S A N T I G O S 239

O s restos de templos
an tigos 80
Ca p . v i i .

[ I H 32] 8 l , 8 2 E apareceu ou t ra vez u m a n ova aven t ura: dian t e de m im est en -


dem -se im en sas pradarias - u m tapete de flores - colin as suaves - b em ao
longe - bosques de verde vivo. En con t r o-m e com duas pessoas estran h as -
com pan h eiros bem casuais de cam in h ada: u m velh o m onge e u m a pessoa alt a,
espigada e m agra, com an dar in fan t il e com u m a veste verm elh a desbotada.
Q u an d o ch egaram m ais perto, recon h eci n o com prid o o cavaleiro verm elh o.
Co m o m u d ou ! Est á m ais velh o, seu cabelo verm elh o ficou grisalho, sua veste
de u m verm elh o de fogo estava gasta, su rrad a e last im ável. E o outro? Te m u m a
barriga respeit ável e parece que n ão teve dias ru in s. Mas seu rosto m e pareceu
con h ecido: ele é, por todos os deuses, Am ó n io !
Q u e t ran sform ações! E don de vêm esses h om en s diferen t íssim os? Ap r o xi-
m o-m e deles e os saúdo. Am b os m e olh am assustados e fazem o sin al da cru z.
Percebo que o h orror deles é causado por m in h a aparên cia: est ou todo cobert o
de folhas verdes que b rot am de m eu corpo. Eu os saúdo, sorrin do, por u m a
segunda vez.

Am ó n io exclam a h orrorizad o: "Apage Sat an ás"8 3.


O Verm elh o: "Mald it a ralé pagã da floresta!"
Eu : "Mas, prezados am igos, o que pensais? Eu sou o est ran h o h ip erbóreo,
que te visit ou n o deserto, Am ó n io 8 4 . E eu sou o guarda da t orre que t u , Ve r m e -
lh o, visit ast e u m a vez".
Am ó n io : "Eu te con h eço, chefe dos d em ón ios. Con t igo com eçou m in h a de-
gradação".

80 Em vez disso, o esboço manuscrito tem: "Sexta aventura" (p. 586). O esboço corrigido tem: "6. Ideais adulterados"
(P- 247)-
81 A forma de mosaico se parece com os mosaicos de Ravena, que Jung visitou em 1913 e 1914 e que lhe
causaram profunda impressão.
82 5 de janeiro de 1914.
83 "Retira-te, satanás" - expressão comum na Idade Média.
84 Na mitologia grega, os hiperbóreos eram um povo que vivia num país de luz solar, além do vento norte,
adorando Apolo. Nietzsche se refere várias vezes aos espíritos livres como hiperbóreos em O anticristo, § 1.
Frankfurt no Meno: Insel Verlag, 1986.
240 LI BE R SECU N D U S 32/33

O Verm elh o olh ou para ele repreen sivam en t e e lh e d eu u m cutucão. O


m onge calou-se con stran gido. O Verm elh o d irigiu -se orgulh osam en te a m im .
V: Ap esar de t u a seriedade h ipócrit a, t u m e deste já n aquela vez u m a i m -
pressão duvidosa de falt a de caráter. Tu a m ald it a pose crist ã!"
Nest e m om en t o, Am ó n io d eu -lh e fort e cutucão, e o Verm elh o se calou
con t rariado. E assim ficaram os dois dian t e de m im con stran gidos e ridícu los, e
t am bém dignos de com paixão.
Eu : "H o m e m de Deu s, de on de ven s? Q u e dest in o in au d it o te t raz até aqui
e, ain d a m ais, n a com pan h ia do Verm elh o?"
A: "N ã o gosto de falar contigo. Mas parece ser u m d esígn io de Deu s, do
qual n ão se pode fugir. E bom que saibas que t u , espírit o m align o, operaste algo
32/33 h orrível em m im . T u m e seduziste com / t u a am ald içoad a curiosidade a fim de
esten der avidam en t e m in h a m ão para os m ist érios d ivin os, pois m e t orn ast e
con scien t e n aquela vez de que eu n ão sabia propriam en t e n ada sobre eles. Tu a
observação de que eu precisava d a proxim id ad e das pessoas para chegar aos
m ais altos m ist érios en t orpeceu -m e com o ven en o in fern al. Logo em seguida,
con voqu ei u m a reu n ião dos irm ãos n o vale e disse-lh es que u m m en sageiro de
Deu s m e aparecera — tão m iseravelm en t e m e deslum braste — e m e acon selh ara
a fun dar u m m ost eiro com os irm ãos.
Q u an d o o Irm ão Filet o levan t ou u m a objeção, refu t ei-a m en cion an d o a
passagem d a Sagrada Escr it u r a on de se d iz que n ão é b om para o h om em viver
só 8 5 . E assim fun dam os o m ost eiro, pert o do Nilo, don de p od íam os ver os n a -
vios passando.
Cu lt ivam os cam pos fért eis, e t an t o h avia a fazer, que os estudos sagrados
caíram em esquecim en to. Torn am o-n os prósperos, e u m d ia fu i tom ado de
im en sa saudade de rever Alexan d r ia. Met i-m e n a cabeça que lá qu eria visit ar
o bispo. Mas p rim eiram en t e a vid a n o n avio, depois o grande m ovim en t o n as
ruas de Ale xa n d r ia m e in eb riaram de t al form a que m e p erd i com plet am en t e.
Co m o n o sonho, em barqu ei n u m dos grandes n avios que iam para a Itália.
Fu i tom ado de ân sia in con t rolável de ver o m u n d o; bebia vin h o e via que as

85 Um a referência a Gn 2,18: "E o Senhor disse: Não é bom que o homem esteja só; vou fazer-lhe uma
auxiliar que lhe corresponda". H á uma referência a um certo Fileto na Bíblia, 2Tm 2,16-19: "Evit a as
conversas fúteis e mundanas. O s que com elas se ocupam, mais e mais avançam para a impiedade, e
sua palavra alastra-se como gangrena. Him en eu e Fileto são desse grupo. Eles se desviaram da verdade,
dizendo que a ressurreição já se realizou e, assim, subvertem a fé de alguns".
O S REST O S D E T E M P LO S A N T I G O S 241

m ulh eres eram lin d as. E u m e d eliciava com os prazeres e m e an im alizava t o-


t alm en t e. Q u an d o desem barquei em Náp oles, lá estava o Verm elh o e soube
en t ão que h avia caído nas m ãos do m align o".
V: "Cala-t e, velh o m aluco. N ã o fosse eu , t erias te t ran sform ado t ot alm en t e
em porco. Q u an d o m e avistaste, t u fin alm en t e te con t rolast e, abandonaste a
bebida e as m ulh eres e volt ast e ao m ost eiro.
Agor a escuta m in h a h ist ória, sát iro m ald it o: eu t am bém caí n a t u a ar m a-
d ilh a, tuas art im an h as pagãs m e sed u ziram . Dep ois daquela n ossa con versa,
n a qu al m e apanhaste n u m a arm ad ilh a de raposas com t u a observação sobre
a dan ça, fiqu ei sério, t ão sério que en t rei para o m ost eiro, rezei, jeju ei e m e
con vert i.
Em m eu deslum bram en t o, qu eria reform ar o cult o d ivin o, e in t rod u zi, com
a aprovação episcopal, a dan ça n o rit u al.
To r n ei-m e Abad e e, com o t al, era o ú n ico a t er o d ireit o de dan çar dian t e
do altar, assim com o D a vi dian t e da Ar c a da Alia n ça 8 6 . Mas aos poucos t am bém
os irm ãos com eçaram a dan çar, in clu sive a piedosa com un idade, e fin alm en t e
d an çou a cidade in t eira.
Fo i espantoso. Fu gi para a solidão e d an cei o d ia todo até a exaustão, mas de
m an h ã recom eçou a d an ça in fern al.
Procu rei fugir de m im m esm o, an d ei erran t e pelas n oit es afora. D e d ia eu
m e ocult ava e dan çava sozin h o nas m atas e m on t es desertos. Assim cheguei aos
poucos à Itália. Lá em baixo, n o Su l, passei m ais despercebido do que n o Nor t e,
e pude m ist u rar-m e ao povo. Só em Náp oles reen con t rei cert a orien t ação e foi
t am bém lá que en con t rei este esfarrapado h om em de Deu s. Seu aspecto m e
fort aleceu. Nele pude rest abelecer-m e. O u vist e com o t am bém ele recobrou o
ân im o com igo e p ôd e chegar de n ovo ao cam in h o cert o".
A: "Preciso confessar que n ão m e en t en d i t ão m al com o Verm elh o, ele é
u m a espécie de d em ón io aten uado".
V: "Tam b ém eu devo d izer que m eu m onge é de u m a espécie pouco fan át i-
ca, apesar de eu t er adqu irido u m a grande m á von t ade con t ra t oda essa religião
crist ã desde m in h as vivên cias n o m ost eiro".

86 Em i Cr 15, Davi dança diante da Arca da Aliança.


242 L I B E R S E C U N D U S 33/34

Eu : "Prezados am igos, alegro-m e de coração por vê-los ju n t os e satisfeitos".


Am b os: "N ã o estam os satisfeitos, zom bador e satan ás; d eixa o cam in h o l i -
vre, ladrão, pagão!"
Eu : "En t ão por que an dais ju n t os pelo m u n d o se n ão estais satisfeitos e se
n ão sois am igos?"
A: "O que fazer? Tam bém o d em ón io é n ecessário, caso con t rário n ão se
t em n ada para in cu t ir t em or às pessoas".
V: " E absolut am en te n ecessário que eu com pactue com o clero, sen ão perco
m in h a freguesia".
Eu : "Q u e r d izer que foi a necessidade da vid a que vos reu n iu ! Id e em paz e
su port ai-vos u m ao ou t ro".
Am b os: "Ist o n ão poderem os jam ais".
Eu : "O h , eu vejo, ist o depen de do sist em a. Vó s quereis p r im eir o m orrer de
todo? Agor a d eixai o cam in h o livre para m im , velh os fan tasm as!"

[2] [ I H 33] Dep ois que vi a m ort e e todo o t errível aparato que a cercava e
depois que eu m esm o m e t or n ei n oit e e gelo, levan t ou-se em m im u m a vid a e
m ovim en t o desagradáveis. Co m eço u m in h a sede pelas águas ruidosas do saber
m ais p rofu n d o 8 7 ; com o t in ir dos copos de vin h o, ou via ao longe grit aria de bê*
33/34 bados, risadas de m u lh eres, baru lh o de ru a. Mú sica de dan ça, / bat id a de pés e
grit os de euforia brot avam de todas as gretas e, em vez do ven t o su l com odor
de rosas, cercava-m e o ch eiro do an im al h um an o. Tagarelice su ja de lu xú ria
de prost it ut as resvalava em risadin h as ao longo das paredes, vapor de vin h o e
fum aça de cozin h a, vozerio est ú pid o d a m u lt id ão vin h am em fum açada. Mãos
quen tes, pegajosas e m acias t en t avam agarrar-m e, cobertas m acias de cam a de
en ferm os m e en rolaram . Fu i gerado para a vid a a p ar t ir de baixo, e cresci com o
crescem os h eróis, t an t o em h oras com o em anos. E, quan do estava crescido,
en con t rei-m e n o m eio da t er r a e vi que era prim avera.

[ I H 34] Mas eu n ão era m ais a pessoa que h avia sido, e sim u m est ran h o
cresceu através de m im . Est e ser era u m en te alegre da floresta, u m m on st ro
de folhas verdes, u m sát iro e travesso, que m ora sozin h o n a floresta e que é u m

87 O esboço corrigido tem "da sabedoria", em vez de "do saber mais profundo" (p. 251).
O S REST O S D E T E M P LO S A N T I G O S 243

ser arbóreo, que n ada m ais am a do que o verd ejan t e e o que cresce, que n ão vai
à p rocu ra n em recebe as pessoas, ch eio de caprich os e acasos, obedecen do a
leis in visíveis, esverdean do e m u rch an d o com as árvores, n em belo e n em feio,
n em b om e n em m au , som en te vivo, velh íssim o e ain d a bem jovem , n u e assim
m esm o vest ido n at u ralm en t e. N ã o é gente, mas n at u reza, assustador, ridículo,
poderoso, in fan t il, fraco, enganador e enganado, ch eio de in con st ân cia e su -
perficialidade e, n o en t an t o, at in gin do a profun didade até o cern e do m un do.
Eu h avia sugado para d en t ro de m im a vid a de m eus dois amigos; sobre as
ruín as do t em plo cresceu u m a árvore verde. Eles n ão se opuseram à vid a, m as,
seduzidos pela vid a, t orn aram -se sua p róp ria farsa. Eles caíram n o esterco, por
isso ch am avam o ser vivo de d em ón io e t raidor. Pelo fato de os dois acred i-
t arem à sua m an eira em si e em sua própria bondade, caíram fin alm en t e n o
esterco, com o lugar de en t erro n at u ral e ú lt im o de todos os ideais sobrevividos.
O m ais belo e o m elh or, com o o m ais feio e o p ior t er m in am a seu t em po n o l u -
gar m ais ridícu lo do m un do, rodeados por m ascarados, con duzidos por loucos,
seguem h orrorizad os para a cova d a pod rid ão.

Depois do am aldiçoar vem o riso, para que a alm a seja liberta dos m ortos.
O s ideais são desejados e pensados segundo sua natureza e n a m edida em que
são, mas tam bém só n a m edida em que são. Con t udo, não se pode negar seu ser
atuante. Q u e m acha que vive realm ente seus ideais, ou que possa vivê-los, t em m a-
n ia de grandeza e se com porta como louco, ao representar para si u m ideal elevado:
o herói, porém , está m orto. O s ideais são m ortais, portanto é preciso preparar-se
para seu fim : pode custar-lhe talvez o pescoço. Mas não vês que foste t u que deste
sentido, valor e força atuante a t eu ideal? Q u an d o te tornaste vít im a do ideal, então
o ideal enlouquece, brin ca carnaval contigo e conduz n a Q u art a-feira de Cin zas
ao inferno. O ideal é u m in strum en to que se pode descartar a qualquer momento,
u m a tocha em cam inhos escuros. Q u e m anda por aí de d ia com u m a tocha é louco.
Q u an t o desceram meus ideais, com que frescor reverdejou m in h a árvore!

88
Q u a n d o eu reverd eci, estavam aí os restos t rist es de t em plos e jard in s de
rosas an tigos, e eu recon h eci com h orror seu paren tesco ín t im o. Ao que m e

88 O esboço e o esboço corrigido têm: "Eu era o holocausto de meus santuários e me tornara belezas, por isso eles
me levaram para a morte no abatimento [por isso me sobreveio a m orte]" (p. 254).
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parece, eles se u n ir am n u m a alian ça desavergonhada. Mas en t en d i que esta


alian ça já exist iu em tem pos idos. U m a vez que eu ain d a afirm ava de m aus
san t uários de que eram de pu reza crist alin a, u m a vez que eu com parava m eus
am igos com o perfum e das rosas da Pér sia 8 9 , os dois con clu íram u m pacto de
silen ciosa reciprocidade. Ap aren t em en t e fugiam u m do outro, mas secret a-
m en t e t rabalh avam de m ãos dadas. O silên cio solit ário do t em plo at raiu -m e
para longe das pessoas, para m ist érios suprat erren os, nos quais m e en volvi até
o t édio. En qu an t o eu lu t ava com Deu s, o d em ón io ficou pron t o para que eu o
recebesse e m e arrast ou o quan t o possível para seu lado. Tam bém lá n ão en con -
t rei lim it es a n ão ser t éd io e n ojo. E u n ão vivia, mas era im pelid o, u m escravo
de m eus id eais 9 0 .
Agor a est ão elas aí, as ruín as, d iscu t em en t re si e n ão con seguiram recon ci-
liar-se n em m esm o em sua m iséria com u m . Eu m e h avia t orn ado u m com igo
m esm o com o ser n at u ral, mas eu era u m sá t ir o 9 1, que assustava cam in h an t es
solit ários e que evit ava os lugares das pessoas. Mas eu reverd ecia e florescia por
m im m esm o. Ain d a n ão era n ovam en t e alguém com seu con flit o en t re prazer
m u n d an o e prazer do espírit o. Eu n ão vivia esses prazeres, mas vivia a m im
m esm o, e era u m a árvore verde bem feliz n u m a dist an t e floresta p r im aver il.
Assim apren d i a viver sem m u n d o e sem espírit o, e m e ad m irava de com o se
pode viver bem dessa m an eira.
Mas o ser h u m an o, a h u m an idade? Al i est avam as duas pon tes aban d on a-
das, que d everiam levar para a h u m an id ad e: u m a levava de cim a para baixo, e
as pessoas escorregavam n ela p ara baixo; ist o as d ivert ia. / A ou t ra levava de
baixo p ara cim a, e as pessoas su biam por ela gem en do. Ist o as can sava. N ó s v i -
vem os nossos sem elh an t es n o can saço e n a alegria. Se eu m esm o n ão vivo, mas
só m e arrast o p ara cim a, ist o p rop orcion a ao ou t ro d iversão im erecid a. Se eu
apenas m e d ivirt o, ist o causa ao ou t ro can saço im erecid o. Se eu só vivo, est ou
afastado das pessoas. Elas n ão m e veem m ais, e, se m e vir em , ficam adm iradas

89 Na Pérsia, as pétalas esmagadas de rosas eram destiladas para se fazer óleo de rosas, do que se faziam
perfumes.
90 Em 1926, Jung escreveu: "A passagem da manhã para a tarde é uma inversão dos antigos valores. E imperiosa
a necessidade de se reconhecer o valor oposto aos antigos ideais, de perceber o engano das convicções
defendidas até então de reconhecer e sentir a inverdade das verdades aceitas até o momento, de
reconhecer e sentir toda a resistência e mesmo a inimizade do que até então julgávamos ser amor" ("O
inconsciente na vida psíquica normal e patológica". O C , 7, § 11$).
91 O esboço corrigido tem: "um ente verde" (p. 255).
O S REST O S D E T E M P LO S A N T I G O S 245

e assustadas. Mas eu m esm o, sim plesm en t e viven d o, reverdecen do, florindo,


m u rch an d o, est ou com o árvore sem pre n o m esm o lugar e d eixo im p assivel-
m en t e que os sofrim en t os e as alegrias das pessoas soprem ru id osam en t e por
cim a de m im . E m esm o assim sou u m a pessoa que n ão pode alien ar-se d a
d iscórd ia do coração h u m an o.
Mas m eus ideais podem ser t am bém m eus cach orros, cujos lat idos e brigas
n ão m e p ert u rbam . En t ão sou para as pessoas ao m en os u m cach orro bon zin h o
ou m au . Mas o que d everia ser n ão é obtido, ist o é, que eu viva e seja u m a pes-
soa. Parece quase im possível viver com o pessoa. En q u an t o n ão estiveres con s-
cien t e de t eu si-m esm o, podes viver; mas quan do te t orn ares con scien t e de t eu
si-m esm o, vais cain do de u m buraco em outro. Co m todos os t e u s 9 2 ren asci-
m en t os poderias d a r -t e 9 3 m al em ú lt im a an álise. Por isso t am bém Bu d a d esist iu
fin alm en t e do ren ascim en t o, pois estava farto de passar por todas as form as de
pessoas e a n im a is 9 4 . Ap ó s todos os ren ascim en t os perm an eces sendo o leão de
quatro patas sobre a t erra, o %ajxaÀecov [cam aleão], u m a criat u ra, u m calei-
doscópio, u m sáurio rast ejan t e e brilh an t e, mas n en h u m leão, cu ja n at u reza seja
an áloga à do sol, que t em sua força por si m esm o e que n ão en t ra de rastos nas
cores pro te toras do m eio am bien t e e que se defende pelo disfarce. Eu con h eci
o cam aleão e n ão quero m ais an dar de rastos sobre a t erra, m u d ar de cor e ser
ren ascido, mas quero ser por força própria, com o o sol que dá a lu z e n ão a
suga. Ist o é p róp rio d a t erra. Lem b r o-m e de m in h a n at u reza solar e gost aria de
apressar-m e n a d ireção de m eu com eço. Mas as r u ín as 9 5 est ão n o m eu cam in h o.
Elas d izem : "E m relação às pessoas t u deves ser ist o ou aqu ilo". Min h a pele de
cam aleão se eriça. As ruín as in sist em com igo e qu erem colorir-m e. Mas já n ão
deve ser. N e m o bem e n em o m al devem ser m eus sen hores. Em p u r r o-as para o
lado, restos ridículos de vid a, e con t in u o m eu cam in h o que m e leva ao O r ien t e.

92 O esboço corrigido tem "meus" (p. 257).


93 O esboço corrigido tem "me" (p. 257).
94 O esboço corrigido tem: "como um camaleão" (p. 258). Ocorre aqui uma passagem no esboço do qual o que
se segue é uma paráfrase: é nossa natureza de camaleão que nos impele através dessas transformações.
Enquanto formos camaleões, necessitamos de uma incursão anual no banho do renascimento. Por isso,
Jung olhava com horror para o aspecto ultrapassado de seus ideais, pois amava seu verde e desconfiava
de sua pele de camaleão, que mudava de cor segundo o meio ambiente. O camaleão faz isso astutamente.
H á quem chame esta mudança de progresso através do renascimento. Assim t u experimentas 777
renascimentos. O Buda não precisou de tanto tempo para ver que mesmo os renascimentos eram em vão
(p. 275-276). Havia uma crença de que a alma tinha de passar por 777 reencarnações ( W O O D S, E. The
NewTheosophy. Wheaton, 111.: Th e Theosophical Press, 1929, p. 41).
95 Em vez disso, o esboço tem: "meus restos ideais de vida" (p. 277).
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At r á s de m i m e st ã o as fo r ça s q u e r e la n t e s q u e e s t i ve r a m t a n t o t e m p o e n t r e m i m
e m im m esm o.
Agor a estou bem sozin h o. Já n ão posso d izer-t e: "Escu t a!", ou: "t u deves",
ou: "t u poderias", mas agora só falo ain d a com igo. Agora n in gu ém pode fazer
por m im a m en or coisa que seja. N ã o t en h o m ais obrigação contigo, e t u n ão
tens obrigação com igo, pois eu d esapareço e t u desapareces para m im . N ã o
escuto m ais pedido n en h u m e n ão t en h o pedido a te fazer. N ã o brigo n em m e
recon cilio m ais contigo, mas coloco o silên cio en t re m im e t i.
Lon ge perde-se t eu cham ado, e o rasto de m eus passos n ão podes en con t rar.
Pois com o ven t o oeste, que vem da superfície do oceano, viajo sobre a t er r a
verde, passo pelas florestas e vou dobran do a relva n ova. Falo com as árvores e
os an im ais da floresta, e as pedras m e in d icam o cam in h o. Q u an d o sin t o sede, e
a fon te n ão vem a m im , eu m esm o vou à fonte. Q u an d o sin t o fom e, e o pão n ão
vem a m im , procu ro m eu pão e o pego lá onde o en con t ro. N ã o presto ajuda e
n ão preciso de ajuda n en h u m a. Se algum a necessidade m e aflige, n ão olh o ao
redor se h á algum ajudan te por perto, mas aceito a necessidade, eu m e curvo, eu
m e vir o e supero. Eu rio, eu ch oro, eu blasfem o, mas n ão olh o ao redor.
Nest e cam in h o n in gu ém m e segue, e eu n ão cru zo o cam in h o de n in gu ém .
Est ou sozin h o, mas preen ch o m in h a solidão com