Os dias passaram muito rapidamente, e antes que eu pudesse perceber, a reconciliação com Enzo já havia acontecido há tempos.

Sentávamos como de costume, lado a lado, e em alguns dias, Enzo também lanchava perto de mim e de Fernando. O gringo sempre me deixava e me buscava na porta da sala, o que era fofo, mas levantava mais suspeita. Claro, eu sabia que muitos da faculdade já haviam visto um beijo que trocamos, mas não todos. E quanto menos gente para encher a paciência, melhor.

Não tirei notas muito boas, mas consegui manter-me da média para cima. Em uma matéria, eu fui para prova final, já que não consegui estudar o suficiente para passar de primeira. O ano já estava quase no fim, e faltava cerca de um mês para que minhas aulas acabassem. Meu aniversário estava próximo, o que não só indicava que eu completaria dezoito anos, como também seria o aniversário de um ano do meu namoro. Pensei em perguntar o que poderia dar a Fernando de presente para Enzo, mas depois voltei atrás; não seria lá uma idéia digna.

Durante as tardes, eu sentia falta do trabalho. Estava acostumado a ir direto para o estágio depois do almoço, e agora eu apenas colocava matéria em dia, vez ou outra parando para descansar o punho e a mente. Ainda não havia conversado com os irmãos do apartamento ao lado, mas eu sabia quando um deles estava em casa. Quando eu chegava da faculdade, Igor destrancava a porta. Ao crepúsculo, Igor saía antes mesmo de Thomas chegar, e quando o caçula botava os pés no corredor, dava duas batidinhas na porta. Era triste saber que eles não estavam se falando ainda. E que também não estavam falando comigo.

Numa noite, enquanto lanchávamos, toquei no assunto com Fernando, mas ele falou o que eu esperava que ele falasse: ³Isso é assunto deles, e não podemos nos intrometer. Não dá pra gente fazer nada´. Sabia que o loiro estava certo, mesmo porque os irmãos não nos davam muita abertura para o assunto. Uma semana antes da última do mês de outubro, entrei na casa deles. Estava tudo muito silencioso, e eu chamei pelo nome de Igor. Demorou, mas ele me mandou entrar, e eu descobri que ele estava em seu quarto, trabalhando.

Não conversamos muito; e a única coisa que conseguiu realmente tirar aquela expressão lacônica do rosto de Igor foi quando contei que já estava falando com Enzo novamente. Ele parou de ler um grande volume de folhas grampeadas, largando a lapiseira e apoiou as costas na cabeceira. Contei como tudo se desenrolou, não omitindo a briga e a reconciliação que tive com Fernando. Depois voltamos às amenidades, o que o fez baixar os olhos. E tudo ficou quieto. Pigarreei, levantando-me de sua cama.

- Igor,« Semana que vem é meu aniversário, e eu«

- Eu sei. ± Respondeu prontamente.

- Tá. E eu tava pensando em fazer alguma coisa; nada de mais, lá em casa mesmo, só pra gente.

- Isso é bom. ± Observou ± Já pensou no que quer ganhar de presente?

- Não, e nem precisa me dar nada, basta aparecer lá em casa que eu fico satisfeito.

- Mas eu não. ± Piscou, mantendo o olhar.

- Enfim,« Você vai poder ir?

- Claro. ± Respondeu, sem vacilo.

- E« Tem como você passar isso pro Thomas? ± Arrisquei falar no irmão.

Igor ficou me olhando um bom tempo, sem alterar em nada seu semblante, até que deu de ombros, baixando os olhos para o que quer que fosse.

- Não acho que vou ter oportunidade pra isso. Ele não quer falar comigo.

- Mas, não vai nem tentar?

- Eu já tentei. ± Respondeu, como se fosse óbvio.

- Ué, mas quem sabe ele pára e escuta dessa vez? Sei lá, é uma coisa que não é sua, eu quem pedi« Mas pode até ajudar a voltar aos contatos, né? E seria importante pra mim«

-« Vou tentar.

Não consegui conter um sorriso, e fui em direção a Igor. Passei meus braços por seu pescoço, apertando-o fortemente contra meu próprio corpo. Senti que ele também me abraçou, embalando-me com ternura. Um quentinho diferente do que sentia com Fernando surgiu em mim, e eu me sentia seguro naqueles braços. Levantei, mais animado, e vi um sorriso muito discreto brotar nos lábios de Igor. Conversamos mais um pouco, depois voltei para casa. Nesse dia, antes de ir trabalhar, Igor foi me dar tchau.

Thomas chegou não muito depois; arrisco a dizer que se demorasse mais algum segundo, Igor acabaria esbarrando com o irmão. Deu as batidinhas de sempre, depois entrou em casa. Fiquei pensando se deveria ir convidá-lo para meu aniversário, mas deixei que Igor tentasse mais algum contato. Acabei de ler mais algumas folhas da matéria incompleta de Enzo, concluindo que teria de pedir a de Túlio emprestada. Guardei minhas coisas, arrumei a mochila e fui ver televisão. Acabei adormecendo diante da tela luminosa, e só acordei quando senti um roçar em meu rosto.

Entreabri os olhos, ainda zonzo pelo sono, mas lentamente minha mente voltou a funcionar, bem como minha memória. Bem próximo a mim estavam os olhos azulões, penetrantes, que mergulhavam dentro de mim, me deixando sem defesa. Levei um susto, pulando para trás, e acabei caindo do sofá. Fernando correu para me ajudar, agarrando meu braço e pondo-me de pé. Balancei a cabeça, tentando colocar meus pensamentos em ordem, depois virei para o loiro; ele me olhava com gravidade.

- Gui, você tá bem?!

-« Tô! Tô.

- Que houve? Tomou susto?

Do que você tá falando? . né? .. e eu me repreendi mentalmente ± É. mas acabou beijando minha bochecha e indo tomar uma ducha. O que eu poderia dizer? Mentir? Certamente. mas notei que ele baixou os olhos. Comemos sem conversar. Lancei-lhe um sorriso. e fomos para o sofá no mesmo silêncio. Estava escuro. me assustei. Suspirei. mesmo« -« Desculpa. -« Hum. Já estava colocando refrigerante para mim quando o gringo aparece. Mas isso foi um breve momento. bem como os ombros. enquanto eu inclinava minha cabeça para trás do outro. não era uma opção viável. olhando preocupado para Fernando. Fernando apoiava o rosto em uma das mãos de um lado do sofá. Aproveitei o tempo e grelhei hambúrgueres para nós. segurando um dos braços. um pouco receoso. e pára ao batente da porta da cozinha. né?! Fiquei sem saber o que falar. a covinha exibindo-se só para mim.Na hora que eu cheguei.Só pra constar. finalmente sentando-se à mesa. -« Você me confundiu de novo com ele.É! ± Minha voz saiu muito alta. Fernando ergueu rapidamente as sobrancelhas. colocando a maionese e o catchup na mesa. e somente a televisão iluminava o . Coloquei a garrafa na mesa. Você me confundiu de novo. O gringo apenas sorriu de lado. e meneei a cabeça positivamente. . Fernando me encarou atentamente por alguns segundos.

No comercial. eu fora ao hospital para conferir a cicatrização do ferimento. pareceu receber o pacote de dinheiro com muita familiaridade. Cocei o queixo.apartamento. ainda não podia carregar coisas pesadas. Repassei meus passos desde a última conversa com o senhor Colin até a volta para casa. convencendo-me de que estava fazendo a coisa certa. Meu ombro quase não doía mais. nada ter vazado ainda. ao me lembrar de meu chefe. E com toda a pressão da televisão e dos jornais. Será que a polícia já saberia o que havia ocorrido? Era estranho. Um estagiário que foi ferido enquanto cobria uma fatalidade que nem a polícia tinha detalhes ainda não era uma coisa que se passava em branco. os carniceiros. levantei e fui para a varanda. colocávamos a conversa em dia. Em duas ou três oportunidades. meu ombro ainda estava ferido por dentro. É óbvio. procurariam saber o que havia efetivamente acontecido. mas arrisco dizer que foi ele quem possibilitou essas coincidências. entretanto. eu sabia que estava envolvido. alguém ia acabar cedendo. Como o doutor Rafael pedira. os repórteres continuavam xeretando. Aquele prédio devia estar em colapso. meu salário continuava sendo depositado em minha conta no . De algum jeito. E. Como o senhor Colin podia permitir que seus subordinados entrassem na cena do crime antes mesmo da perícia? Qual seria o acordo sujo que ele sustentava para conseguir matérias e fotos mais precisas do que os outros jornais? O policial Almeida. Ele me ajudava bastante. não pensando em nada exatamente. principalmente quando Fernando aparecia no assunto. Quando Mila saía. enquanto que eu o ajudava com aquele complexo ridículo que ele tinha. Sei lá. estranhamente. não gosto muito de ver pontos. Respirei fundo o ar da noite. e já podia erguer o braço além de minha cabeça. Já havia um bom tempo. e ninguém me procurou. Criamos uma estranha amizade. nem mesmo o senhor Colin. O doutor Rafael nunca deixava de me implicar. a mídia ia descobrir o que havia acontecido. mas não ter que me preocupar com pontos já havia se mostrado um grande alívio. apoiei-me nos dois braços e fiquei olhando para os pontinhos apressados lá em baixo. na certa. de origem espontânea. bem como o próprio senhor Colin. dobrando a coluna. comecei a ficar irritado. e não precisávamos dizer diretamente que um confiava no outro. o doutor Rafael me acompanhou pelos fundos. apoiando o queixo na mão direita. e ficávamos apenas nós dois. já ficava subentendido em nossas conversas. Dei a sorte de encontrar com o doutor Rafael em todas as vezes que fui ao hospital. e me peguei relembrando o dia em que fui atingido. Tirara os pontos havia alguns dias.

Saí do banco. eu passava parte do dia com uma das pessoas que Fernando mais odiava no mundo. E ficamos calados durante todo o filme. sabendo o quanto eu ia ouvir de todos depois. ele me envolveu. Mesmo não precisando mais. nossos vizinhos e melhores amigos não se falavam. Só me dei conta de onde estava quando o ônibus fez uma curva fechada que não me era estranha. ficando de costas para o mundo e de frente para casa. que estava se mostrando um ótimo amigo. Eu tinha muita vontade de ir até o escritório de Colin e enchê-lo de perguntas. Respirei. meio que tomando coragem.banco. mais para mim mesmo do que para qualquer coisa. Foi aí que começou nosso bloqueio: desde aquela noite. estava indo mal na faculdade. muito menos Fernando. na mesma posição. Por um momento. e voltei para dentro de casa. as coisas pudessem melhorar. acabando por me localizar: eu estava perto do prédio do senhor Colin. eu não podia ficar comentando essas coisas com Enzo. apesar de já estarmos nos falando. Essa é a verdade. e acabei perdendo meu ponto. o silêncio parecia eterno. apontar o dedo para seu rosto e criticá-lo um pouco. Rolei o corpo. Observei-o de soslaio por alguns instantes. pegando o primeiro ônibus que passou. é muito difícil viver. e imediatamente. tão impiedosa? Por que não podemos simplesmente ser feliz? É tudo tão complicado. E fomos dormir assim. pensei que eu devia ser muito estúpido para ter perdido o ponto e estar exatamente no lugar mais perigoso para mim. Contudo. me deixariam sair de casa para isso. Apertei os olhos. Mas aquele era o lugar mais esclarecedor também. . Fernando ainda estava no sofá. em meu aniversário. Fernando apenas levantou os olhos quando me aproximei novamente. Talvez muitas de minhas dúvidas e frustrações se resolvessem lá. porque um assassino seqüestrador podia estar me seguindo. não conseguíamos mais sustentar uma conversa por mais de vinte segundos. para isso. e ele trabalhava o mesmo tempo com outra que era odiada por mim. e me arrastei para apoiar-me em seu corpo. Dei de ombros. Olhei em volta. Nossa vida não podia estar mais tumultuada: eu corria risco de vida. e mal falavam com a gente também. Ri tristemente. vez ou outra eu ia ao hospital conversar com o doutor Rafael. Mas eu ainda não podia pegar o carro para ir tão longe. quase gargalhando da minha desgraça. e confundia meu namorado com o cara que tentara me matar. principalmente. que me deixava exausto só de tentar encontrar alguma resposta para essas e outras muitas perguntas que surgiam em minha mente. E era realmente a única pessoa que me restara. Como é que a vida podia ser assim. a maioria apenas sobrevive. e Igor e Thomas estavam distantes demais para tal. tão difícil. e nem Igor. e saltei do ônibus. Minha esperança era que.

No saguão. me assustando.O quê?! . Flora já sabia. barulhento. Cruzou os dedos. Flora. Fechou a porta. sim. e assim que me viu. Estava intacto. parecia tensa em demasia. em murmúrio. depois baixou a voz ± Não podemos falar dessas coisas aqui! . . . Mas a pequena saleta estava vazia.Como?! .Conte-me tudo.Vem! Agarrando um de meus pulsos. Flora guiou-me para o que eu concluí que fosse sua sala. entregando-me o cartão de sempre. como andam as coisas por aqui? .Eu quero saber o que aconteceu naquele prédio! ± Exigiu. Pelo visto.Guilherme! Eu não acredito! Como você conseguiu ficar tanto tempo sumido?! Você tá bem?! . E você.Tô. Resolvi ir direto para a sala dos estagiários. passando a tranca. notei que algo havia mudado: havia guardas de prontidão nos flancos do saguão. Antes que a porta do elevador se fechasse.Vi-o partir. a empolgada jornalista correu e me abraçou. e me fez sentar frente a sua mesa. talvez encontrasse alguém conhecido. o porteiro se lembrou de mim. Fui atrás de Flora. . do mesmo jeito que eu me lembrava. eu queria saber como tudo estava. antes de falar com Colin. e voltei minha atenção para o prédio familiar. não me esconda nada! . Encontrei-a no andar da gráfica.Não! ± Gritou ela. olhando-me profundamente.

Como uma das mais antigas e confiáveis funcionárias.Não! ± Cortou.A Marina está sendo coagida! Ela ficou no setor de montagem. Fiquei pensando em como o senhor Colin era capaz de fazer isso. Não era à toa que. ninguém vai lá! Eu sei que Colin tá fazendo isso de propósito.Mais do que muitos.Mas então. . batendo na boca por ter falado alto demais ± Não. mas a Marina« . Suspirei. Eu costumava ajudá-la com revisão de artigo. . nem mesmo para o nosso pessoal o Colin liberou a verdade dos fatos! . . me levando para um local seguro onde pudesse descobrir os verdadeiros acontecimentos do dia da matéria sobre o advogado seqüestrado e executado. Guilherme. correu para falar comigo. não! Tudo foi omitido.. é claro que ela tinha o direito de se sentir assim. e ela só deve ter lembrado de mim quando tudo aquilo aconteceu. mas não o suficiente. Antes de você ir ao hospital e da polícia e do nosso pessoal chegar lá. e na sua influência sobre os meios de comunicação. a Marina me ligou. tem coisa errada por trás! E não é de hoje! Eu preciso saber o que está acontecendo. assim que me viu.Ué. eu sei! Eu gosto demais do Colin. ele não quer que a gente saiba de alguma coisa! Nunca vi aquela menina tão amedrontada! Flora parecia profundamente abalada. o que aquele homem tá fazendo! .Eu sei que tem alguma coisa errada.E Vivian? . mas eu já reparei. você já sabe o que houve.O que você sabe até agora? .

Guilherme. nós nos separamos. como porque tinha. mal piscava. . . ou espanto. o acordo com o policial Almeida de tirarmos fotos antes da perícia. talvez encontrando explicações para coisas passadas que ela nunca soube explicar. até minha consciência no hospital. depois voltou os olhos para mim ± A Marina também não esteve com você o tempo todo. depois de tanto tempo de trabalho. eu sei. Olhava fixamente para um ponto de sua mesa. Mas achei justo que Flora soubesse. mas não ousou me interromper. desde o momento em que recebi a ordem. . ± Pareceu refletir por alguns segundos. Ela ficou com a parte da entrevista.Foi. Conta tudo desde que você recebeu a ordem. Fiquei hesitante quanto a contar a ordem autoritária que recebi do senhor Colin. o rosto fino apoiado sobre uma das mãos.. o direito de saber o que acontecia por trás dos panos da imprensa. mas dá pra saber quando ela fala menos do que o normal. né? . não só porque era uma pessoa boa. Receber a informação de que se era enganado quando se ocupava um cargo importante numa empresa era como um soco no estômago. e eu via que era essa a exata sensação de Flora. Vez ou outra Flora expressava surpresa. Respirei fundo. e do encontro com o assassino.É. Aquela mulher sempre foi muito seca e fria. e eu fui tirar fotos.Num pacote pardo. . a mulher continuou calada. Quando terminei.Ele mesmo deu o dinheiro? . e contei mais uma vez toda a história. tomando fôlego. -« Isso é tão«! .É.Ela também está escondendo.

Aproveitei e perguntei se ela havia visto alguém com o mesmo perfil na imprensa. . seus olhos brilhando em chamas de indignação e fúria. e eu acabei falando mais sobre meu encontro com o assassino. como se tentasse entender como nunca aquela hipótese havia passado por sua cabeça. mas por livre e espontânea indignação.Mas. Voltou os olhos expressivos para mim. De surpreso. Levantando as sobrancelhas. . ou pelo menos por perto.Mas você pretende levar isso à tona? Flora apenas me encarou. Mas não consegui.Não. Ela apenas desviou os olhos. você o fez! . A resposta foi negativa. . ± Falei com pesar ± Eu devia ter dito ³não´.Está pensando em fazer alguma coisa? ± Perguntei. curioso.Não sei se devo. não é. A mulher ainda me perguntou alguns detalhes. . e até irado. foi fraqueza minha. como que resmungando a situação.Isso não é ético! . acabei descobrindo que ela seria a pessoa quem deixaria a história vazar. ± Concordei sinceramente.Isso é ilegal! . . seu semblante foi passando para indignado. não agora. a voz num fio. Parecia desacreditada.Fez uma careta. .Eu sei. Pelo menos. não por pressão.

afinal. sim.Certo. ± Piscou um olho para mim ± Não haveria problema nenhum em eu sair daqui. Encarei-os. Certa.Flora abriu uma gaveta ao seu lado. nunca eu me submeteria à artimanha tão« baixa e suja! . puxando alguns papéis e jogou-os à minha frente. você vai mesmo sair daqui?! . Só não sabia que eram coisas que iriam me enojar. certo! Já entendi! . percebendo que um era uma proposta de trabalho numa imprensa rival à nossa.Desconfiada. Mas eu sempre soube. que por trás daquele sorriso tranqüilo do Colin tinha muita coisa.Você vai mesmo acusar o senhor Colin?! Isso vai acabar com a credibilidade dele! . eu não sei de nada. mas em branco em frente aos nomes de Vivian e de Colin. Eu recebi essa proposta de emprego. e Flora apenas fulminava-me com o olhar. mais do que nunca. Só que acabei desistindo. Tecnicamente. sabe? Cheguei a fazer esse pedido de demissão formal. já sou grandinha! . eu adoro esse lugar. E eu não preciso explicar nada pra ninguém.E você vai comigo! . Guilherme.Isso pouco me importa! ± Acabou esbravejando ± Nós estamos aqui para relatar a verdade pela verdade! Nunca.Então. Ergui a cabeça. .Agora. afinal não tivemos essa conversa. não. olhando para ela. enquanto a outra era um pedido formal de demissão.Você tava desconfiada de acordos há muito tempo? . e por um tempo ela me pareceu extremamente tentadora. já assinado por ela. .

o que com certeza ele sabe. sua expressão determinada chegou a me incomodar. Pediu-me para que contasse novamente o acontecido. eu não posso sequer estar aqui. ± Pareceu ponderar. me esforçando verdadeiramente para lembrar de mais algum detalhe que eu poderia ter esquecido ou .Foi aí que o bicho pegou. o cara me acha fácil! Eu não deveria nem estar aqui. . Olhei atônito para Flora.Flora.Não estou impedindo você de nada. e se uma matéria dessas for publicada. como estou! . Paciente. Eu. porque se aquele homem desconfiar que eu vi a cara dele.Nós temos o dever de dizer isso a todos! . Flora! Você não precisa provar nada pra ninguém! Flora ficou quieta por um tempo. Só acho que. você está certo. -« E como você acha que vou poder provar que sei disso tudo?! ± Acabou soltando. Flora! Acontece que tem um assassino psicopata atrás de mim. repeti para ela. mas acabou encostando as costas no apoio da cadeira.Não estou fugindo. talvez me xingando mentalmente.Você está fugindo! . olhando-me autoritariamente. eu não posso ir para outra imprensa. em outra imprensa?! E ainda para revelar o esquema da pessoa com quem mais aprendi sobre minha futura profissão?! Isso não poderia nunca acabar bem. vai ficar de olho em tudo que sair no jornal sobre isso! -« É. mais vagarosa e detalhadamente. bem« Eu não quero fazer parte disso.Você é uma jornalista. seus olhos mais piedosos ± Mas eu vou revelar os esquemas com a polícia! Isso você não pode impedir! . Flora deve ter notado minha hesitação. porque espalmou as mãos na mesa. .

Bom. na última porta ao fim de um corredor. A mulher aproximou-se do homem sentado. e também de como o advogado havia sido encontrado. entrando em seguida. cochichou algo em seu ouvido. a mulher prontamente se levantou. talvez uns dez anos mais velho do que eu. seus olhos transbordando determinação. O senhor. um senhor já grisalho com vários arquivos a mão e outro. que me olhava com muita atenção. O velho senhor deu uma boa olhada em mim. o que. o . continuava com o peculiar sorriso em minha direção.deixado de notar. apenas esperando que algo acontecesse. pegando o ônibus que me deixaria na esquina do departamento de polícia. sentindo os olhos de todos dentro daquele limitado espaço pesarem em mim. Com um aceno. muito embora eu soubesse que o dinheiro em minha conta deveria estar pagando meu silêncio. completamente abatido. que eu julguei ser o delegado. Ela resistia bravamente. pensando se realmente seria ajuizado falar tudo o que acontecera naquele funesto dia. Dentro da sala. Voltei meus olhos para o mais novo deles. atento a tudo ao meu redor. quando uma idéia pouco sensata havia brotado em minha cabeça: eu precisava ir à polícia. pedindo para que eu repetisse quando tocava em alguma parte mais importante. sentado a um lado. O delegado apoiava o queixo numa mão. Ela anotou algumas coisas dessa vez. Para mim. que precisava falar com o delegado imediatamente. e acabei pegando o elevador para ir embora. chegava a ser desconexo. calvo e de expressão marcada. para mim. sorriu de lado e depositou os arquivos sobre a mesa. Insisti. para o senhor Colin. Se bem que não era a vida dela que estava em perigo. Já estava no ponto de ônibus. Não sabia se conseguiria encarar meu chefe. pouco restara do fascínio que um dia havia existido. parti para o outro lado da rua. eu não precisava mais dele. Engoli em seco. estava um homem com seus quarenta e muitos atrás de uma escrivaninha de madeira escura. era essencial saber a correta descrição do assassino. Bateu com os nós dos dedos. fechando a porta atrás de si com tamanha força que cheguei a piscar os olhos. Colin ainda não havia feito contato comigo. talvez minha presença ali interessava mais do que eu podia pensar. as sobrancelhas pesadas davam -lhe um ar constantemente carrancudo. mas quando citei que era sobre o advogado que havia sido assassinado. Fiquei estático. agarrou um de meus pulsos e me levou para o andar superior. ainda próximo à porta. quase irritando a atendente. Decidido. e entrei na delegacia. Passadas duas horas desde minha chegada saí de sua sala. Reparei que ela prestou muito mais atenção ao início de meu relato do que ao fim. Fiquei parado um tempo frente ao prédio branco e cinza. depois se empertigou numa postura severa e saiu da sala. Subi as escadas.

he! Não há um que não reaja assim.Muito bem. embora um pouco relutante. não se aflija. . agora que estávamos mais próximos. ainda encarando seus olhos. Empurrando alguns papéis. Quando reparei. enquanto que o delegado inclinou o corpo largo para frente. Havia experiência naquele rosto. Sentei. o que prontamente fiz. Roberto?! ± Cutucou o delegado com o cotovelo. filho. apoiando os cotovelos e não tirando os olhos dos meus. . ele não tinha mais do que trinta e dois. que pairavam o violeta. Roberto. ± O delegado baixou as mãos ± Comece a falar. Que cor mais absurda era aquela?! Os olhos dele eram tão azuis. um pouco de humor num ambiente tão pesado não faz mal a ninguém.Ora. até ouvir a risada do velho. . Notei que ele era da mesma estatura que Fernando e. rapaz! Só queremos conversar com você. .Ora. tentando parecer que não estava tanto na defensiva. pude analisar melhor suas feições. o homem que parecia o mais novo segurava a própria cadeira próximo a mim. Definitivamente. sim. . he. Deixei que meu queixo caísse despropositalmente quando fixei meus olhos nos deles. e um pouco esganiçada. . . O velho riu e acenou para o jovem mais ao lado.Poupe-me das piadas. ± Alfinetou o velho Baptista. Descruzei meus braços. mas também havia juventude. .He.Não seja tão grosso com ele.Sim. o senhor sentou-se na mesa. né.homem me pediu para que eu me aproximasse. Baptista. ± Comentou animado o velho. mas pareceu-me mais confortante do que eu poderia pensar. A voz do senhor era fina. dê-lhe uma cadeira.

Eu sou o delegado Neves. por isso. Fiquei observando seus olhos miúdos e escuros por um tempo. porque o delegado passou a mão no rosto. estou apenas« . . . Talvez ele fosse o detetive do caso e. ± Justificou-se. olhando-o impaciente. que já apoiara os cotovelos novamente sobre a mesa. mas decididamente pronto para obedecê-lo.Senhores. Olhei para o jovem. O homem ao seu lado é o detetive Abikair.Não estou criticando..Vamos.Não estou sendo grosso. Baptista! .Pare de criticar meus meios. Roberto! ± Riu-se Baptista. estou sendo direto. e sentia que seus olhos violetas ainda estavam em mim. até que ele pareceu enfezar-se ainda mais. permanecera na sala do delegado Neves. filho! Não tenho o dia todo! . O jovem ao meu lado esquerdo não mostrava reações. . Roberto. . e esse velho inconveniente aqui é o Baptista.Não assuste o garoto. Voltei minha atenção ao quarentão. por favor! .Mas não vai nem se apresentar? Eu não sabia quem era aquele senhor que parecia ter imensa influência naquele lugar. que apenas acenou brevemente com a cabeça.

. perdão.Eu me deixei levar?! ± Indignou-se o delegado. Cheguei o corpo para frente. se não falasse logo. ou não?! ± Cortou Abikair. para depois apoiá-los novamente sobre o nariz ± Acho que Roberto se deixou levar pela coisa. eu peço! . . o delegado conteve-se por considerar as palavras do jovem detetive sensatas.« Bem. Voltou a sentar na cadeira.Hãm.Disso já sabemos. as costas apoiadas na parede ao lado de um arquivo de cor grafite. . . .A voz era potente e grossa.Eu sei de algumas coisas que talvez possam ajudar vocês a encontrar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. Com a certeza de que a discussão havia acabado. antes que Neves cuspisse mais uma resposta para Baptista. enquanto Baptista o olhava com implicante meiguice. os braços cruzados frente ao peito. e todos os olhos detiveram-se no detetive Abikair. Abikair deixou-se encostar novamente à parede.« Vocês já devem saber da pessoa que foi baleada. ± O velho riu. daquelas que fazem até seus pêlos da nuca se arrepiarem. . jovem Abikair. nunca sairia daquele escritório. Os dois se calaram. pensando que. ± Disse Neves.Vamos deixar que o jovem fale. Ao que pareceu. juntando as mãos sobre as coxas. levantando-se da cadeira. enfadonho ± Conte logo o que sabe.Oh.E não foi? ± Concluiu ironicamente Baptista.Um pouco de ética. certo? . . Ele olhava um pouco escandalizado para os dois. tirando os óculos redondos e limpando-os numa pequena fronha branca.

-« Isso não muda coisa alguma! .Muda.Sim. ± Abikair olhava-me com extrema fixação ± Muda tudo. fuzilante. Neves apenas o olhou.É claro que sabemos! O que acha que fazemos aqui. filho.E se eu dissesse que conheço esse estagiário? ± Falei.Vamos. delegado Neves. . mas esboçou logo um sorriso de satisfação..Não era um jornalista. sabemos que um jornalista foi atingido enquanto estava ilegalmente no covil do seqüestrador. . O delegado Neves pareceu surpreso. vendo os olhos do detetive Abikair deslocarem-se do chão para mim ± Era um estagiário. talvez impressionado demais para voltar à carranca habitual e fingir que nada o atingia. um estagiário! ± Deu de ombros ± O que mais. o que mais?! . ± Baptista deu uns tapinhas no braço do delegado ± Ele sabe o que fala. Apenas o detetive Abikair continuava o mesmo. ± Girei a cabeça.Ele é o detetive. . deixe o garoto falar. comemos rosquinhas?! . .Que seja. Roberto. Roberto. o clima mudou dentro do pequeno ambiente.Você o conhece?! ± Recompôs-se o delegado. O senhor Baptista também pareceu surpreender-se. Aí sim. ± Pediu Baptista. Era isso o que tinha pra dizer?! . .

não? ± Baptista balançou a cabeça ± E como ele está? . .Bem pontuado.Eu acho« ± Notei que Abikair começou a se aproximar por trás de mim ± que depois de um susto desses. Entretanto. leva tempo para recuperar-se de um tiro! Vai ver ele contou tudo o que aconteceu a seu amiguinho. .Hãm. ele já deve ter recebido alta. Roberto. quase fechando os olhos com as rugas. cá está ele. .« Senti suas mãos apoiarem-se no encosto da cadeira em que eu estava sentado. Roberto. Baptista! Agora. jovem Abikair.. . qualquer um teria motivo suficiente para não sair de casa. . mais do que nunca. e pronto. há uma chance de começarmos a completar o quebra-cabeça desse caso! Eu não posso perder tempo! .A essa altura. ± Olhei para Neves. .Ora. enquanto que o delegado parecia levemente transtornado.Parece que o senso de justiça de nosso estagiário falou mais alto. seus olhos apertados pelo cenho franzido ± Precisamos que você lembre de tudo o que seu amigo lhe contou! E rápido! . preste atenção.Precisamos de qualquer informação sobre isso.Não pressione o garoto. ele está bem.E por que não o trouxe aqui?! ± Protestou Neves. .Filho. ± Sorriu. Baptista o olhava com interesse.

Pois então. ± Estranhamente. arregalavam os olhos. eu sentia que o detetive já sabia quem eu era ± Ainda não disse seu nome. Já o velho Baptista desviava os olhos de Neves para mim. emudeci-me. O detetive mantinha os olhos arroxeados na porta do escritório. . Terminada a narração. quem é? . O delegado Neves me olhava. delegado Neves. quando falei do tiro no ombro esquerdo. -« O senhor é o detetive do caso? ± Abikair não pareceu tão pasmado com minha pergunta como os demais. era quase assustador ver seu sorriso crescer diante de algum detalhe mais sórdido.Não há com que se preocupar. focou-os em mim. Tive de me esforçar para não escorregar e acabar colocando a história em primeira pessoa. O senhor Baptista parecia divertidamente interessado em minhas palavras. desencostando-se de mim. eu sou. para depois fazer perguntas e ficar pensativo. apenas inclinou um pouco a cabeça. Guilherme Azevedo Zheinkner.Sim. A certeza disso foi que.. enquanto que as pessoas normais.Guilherme. chegando a omitir alguns detalhes para que parecesse mais convincente a minha história de que era apenas um conhecido do verdadeiro estagiário. e depois para Abikair. . mas quando se sentiu observado. mentir para as autoridades. Mas o olhar do detetive Abikair caía sobre mim tão centrado que me convencia de que ele sabia que fora comigo que acontecera o tal fato. O detetive ouvia tudo com exclusiva atenção. parecendo fazer anotações mentais quando vez ou outra levantava os olhos. sua mão recuou um pouco da cadeira. . como o delegado Neves. E você. filho! Fale! Respirei fundo. esperando alguma reação daqueles senhores. tomando coragem para contar tudo o que lembrava do ocorrido naquela tarde. a mão escondendo a boca denunciava que estava pensando em alguma coisa. Não era uma coisa certa de se fazer.

enaltecendo-o de maneira a deixar claro ao delegado que era ele quem decidia o que fazer.Só perguntando. entretanto.Se não fosse detetive.Você acha que seu amigo se lembra bem do rosto que ele viu? . O delegado apenas piscou.Acha que ele estaria em condições de fazer um retrato falado? ± Arriscou o detetive. Abikair? ± Sugeriu Baptista. emudecendo. . Engoli em seco.. tirando os cabelos quase negros dos olhos. ± Concordou. subitamente ± Precisamos que conste nos autos! . Mas ele deve se lembrar. O detetive Abikair falava muito bem.Por que não vai visitar o amigo de Guilherme. jovem Abikair! ± Elogiou Baptista. O detetive apenas olhou-o por alguns segundos. . a minha é ainda superior e.Não é má idéia. . enquanto Neves ainda pensava.Bom.Delegado Neves. sim. . ele me disse que só viu uma parte do rosto dele. como responsável do caso. e ele parecia muito certo de seu lugar.Nós precisamos dessa testemunha aqui! ± Berrou o delegado. seria um advogado. não consegui notar nenhum pingo de hesitação. creio que posso encontrar-me com a testemunha e fazer constar nos autos a nossa conversa. Baptista começou a rir baixinho. tentando esconder a boca com uma das mãos enrugadas. eu sei que sua autoridade aqui é absoluta. . . .

e seu rosto estava muito mais severo do que antes. Ele finalmente piscou. diferente.Eu« Eu vou ligar pra ele. . senti meu braço direito ser agarrado. A impassibilidade de Abikair havia sumido. Passamos por várias mesas. e todas as pessoas pareciam olhar para nós. Pulei.Mas«! Que afronta é essa?! ± Urrou o delegado.Acha que poderíamos encontrar com seu amigo agora? ± Perguntou. . permitindo-me abaixar a cabeça. seus olhos excêntricos em Neves. num toque frio.Velho.Oh. sem reação alguma. Fiquei olhando aquela expressão fria. mas assim que fui escondido pela parede. bem como meu pescoço. Levantei. uma mão grande e espalmada postou-se no meio de minhas costas. que me fez um sinal com a cabeça. eu« . e eu me apressei a acompanhá-lo. Baptista! .. e comecei a segui-lo para fora do escritório do delegado Neves.Ora.Não venha com churumelas. e fui jogado contra a parede. . e soltou um pouco o meu pescoço.Te levo ao telefone. . um pouco irada.«! Antes mesmo que eu pudesse ouvir mais alguma coisa. . Roberto! O rapaz está certo! Você está abaixo dele! . Roberto! Vai perder o controle novamente?! ± Incitou-o. Se me derem licença. o ar de curiosidade me deixava embaraçado a ponto de eu sentir minhas bochechas em brasa. O detetive fez uma curva fechada. olhando nas gemas do detetive.

± Asseverou o olhar ± Mas nem pense em mentir ou omitir alguma coisa de mim. nenhuma decoração. eu sabia. . e eu acabei encobrindo minha identidade. O detetive soltou meu pescoço. com três pessoas que me encaravam insistentemente. senhor Abikair. . talvez na dúvida entre eu ser mais um espertalhão que tentava se safar.Você sabe que acabou de falar um falso testemunho? -« . não importa.Você mentiu para as autoridades. querendo arrancar de mim toda e qualquer informação me deixou em pânico. O detetive puxou a . entramos numa salinha apertada. meio sem jeito ± Eu estava« enfim. ainda segurando meu braço. e isso provavelmente porque ele acabara de chegar. ou se realmente estava com medo de falar. Desviou os olhos para o corredor. ± Falei. sinto muito. depois os voltou para mim. o que era a verdade. -« Mas você sabia! Abikair me encarou longamente. nem objetos pessoais.Eu sei. Só de entrar naquela sala fechada.Isso é crime.De fato.Por que não? Continuando o caminho pelo corredor. Vai querer mesmo o tal retrato falado? .. nenhuma foto. -« . Porque eu vou descobrir. Não havia nada senão trabalho naquele ambiente.

sei lá o que era aquilo. . era ele. deixando-os sobre a mesa. repassando cada momento em minha mente. Notei alguns traços imperfeitos. enquanto eu o analisava. talvez um pouco incomodado. meia. Paciente. . e não tive mais dúvidas. depois cruzou os dedos. Pedi para que o detetive pintasse os olhos com a caneta azul. pensando se a imagem que guardara em minha memória ainda era a mesma da pessoa que eu havia visto.Então? Está parecido? Abikair virou o desenho para mim e. esforçando-me verdadeiramente para lembrar mais alguma coisa que poderia ter deixado escapar pela intimidação na sala do delegado Neves. . Passei mais tempo de olhos fechados. Entregou-me o papel algum tempo depois. incerto. . ele limpava a mão suja pela grafite. . o que fez com que eu me afastasse. e tal foi minha surpresa quando. Ele estava usando algum gorro. . Enfatizei cada detalhe que me pareceu mais importante da pessoa que eu havia visto naquela tarde. pude ver a cópia fiel da faixa do olhar daquele homem. Passados quarenta minutos. dei de cara com um desenho muito semelhante ao homem que atirara em mim. puxou um bloco e um lápis. ao abri-los.Tem certeza? ± Perguntou.cadeira. Fiquei meio apreensivo.É ele. Abriu uma das gavetas ao lado da perna.É. Esses olhos não enganam. indicando que eu devia sentar também. empurrando acidentalmente a cadeira. e pedi para que o detetive acertasse-os. ele atendeu ao meu pedido. foi isso. ± Apontei-os com o dedo.Você disse que só viu o olhar dele. .Absoluta. apoiou os cotovelos sobre a mesa e dedicou atenção suprema à minha descrição do assassino. certo? Apenas esta faixa do rosto? ± Indicou com os dedos.

que se revelou serem fotos.Como? Coloquei a foto bem próxima à borda. Puxei as fotografias uma a uma.Acha que consegue identificar o tal homem como sendo um desses? -« Posso tentar. tive que pensar bastante para ter certeza do que ia decidir. Todos os que apareciam nas fotos eram homens de olhos azuis. depois escondi as partes que eu não havia visto no homem. bem como escondendo seu corpo e todo o resto que não me fora revelado naquele dia. atentando para o tipo físico dos homens. Voltou com a pasta grossa para cima da mesa. Depois. Ali estava ele. Tirou seu conteúdo. O detetive abriu a gaveta. mas pareceu aceitar consideravelmente o fato de não ter conseguido achar o tal. uma que eu tinha certeza de que ele não me mostrara.-« Espere um pouco. cujos olhos eu sempre confundia com os olhos de Fernando. e aproximei meu rosto. Puxei minha blusa. nenhum deles era o homem que havia me alvejado. quase impossíveis de se encontrar. escondendo seus cabelos com um dedo. O detetive Abikair não pareceu muito feliz com isso. eu descartei desde a primeira olhada. e abaixei a cabeça. mas assim que a puxou novamente para colocá-la na gaveta. Mas. . e colocou-as na minha frente. que me encarava um pouco confuso. Era exatamente o mesmo homem. cobrindo do nariz para baixo do homem.Espera aí« . entre trinta e quarenta e cinco anos. . os olhos não eram os mesmo. . tirando uma pasta cheia. foi ficando mais difícil. parecido até demais. Dei uma olhada rápida para o detetive. Aquele estava muito parecido. reparei numa foto nova. eu tinha certeza! Aqueles olhos eram únicos. abriu-a e pegou um envelope branco e gordo de dentro dela. no fim. Alguns.

Senhor Abikair. detetive. Ouvi seu suspiro. é ele mesmo! -« Você tem certeza disso?! .Absoluta! A mais absoluta certeza! Eu nunca poderia esquecer esses olhos! .É esse..Acho que você está um pouco equivocado.Não. eu tenho certeza. enquanto elas pareciam fixadas no nada.Esse?! . tomando a foto de minhas mãos. certeza absoluta! Esses olhos.Guilherme. Olhei para as belas esferas arroxeadas do detetive Abikair. não estou! Eu tenho certeza! . ± Disse Abikair. . e ele fechou fortemente os olhos por alguns segundos. e ele fora o único para quem não menti.É esse! . . temos um grande problema. Será que ele não acreditava em mim? Eu não estava mentindo para ele. esse suspeito não é nem do mesmo caso. . por favor! ± Por que ele não acreditava em mim?! ± Eu tenho plena certeza de que é ele! Eu não poderia me enganar! Eu sei que é ele! -« Então.

.Não pertence a nenhum caso.Ué. então como é que ela apareceu aqui?! Eu sei do que estou falando. Guilherme. ± Encarei Abikair. é esse cara.Mas eu« Hãm?! . mesmo! . Várias vezes . apesar de tudo. .. não estava enganado. .Essa foto é minha. É ele. ou melhor. Guilherme. eu estou certo do que falo. nada.Tecnicamente. Como dar a certeza para alguém de que seu irmão era um assassino?! Eu tinha certeza. era ele mesmo. perturbado. Não sabia mais o que dizer. petrificado ± É a foto do meu irmão.Senhor Abikair. era ele.Essa foto não é de nenhum caso.O que poderia impedir esse homem de ser o assassino desse caso?! . então por que o suspeito de um crime não poderia ser o autor de um outro? O mais estranho. .Então?! Eu realmente não estava entendo paçocas! Criminosos poderiam praticar vários crimes. era que Abikair parecia extremamente preocupado com a minha certeza. . é sim! -« ± Continuava imerso em pensamentos.

não mais pensando em quanto tempo eu ainda precisava ficar lá. deixando-me escorrer na cadeira. me sentindo um pouco mal e acuado. Não que ele tivesse cara de quem aceita alguém para conversar nessas horas. fazendo com que eu me calasse. . conforme eu fazia a caneta correr. Engoli em seco. Abikair empertigou-se. -« Muito bem. certo? Primeiro. mas curioso para saber o que o detetive ia fazer.Eu« . pasme. Mas depois. incredulidade. Puxando uma folha da gaveta. suspirou e brandeou as expressões. Tomei ar para responder. levantava os olhos para olhá-lo.O senhor« O senhor acredita em mim.Você tem essa certeza toda? ± Cortou.Pois não? ± Voltou os olhos anormais para mim. mas eu tampouco poderia sair sem ter a certeza de que estava bem. O semblante pensativo denunciava preocupação. cruzando levemente os braços. Entreguei meus dados. . o detetive pediu para que eu respondesse algumas coisas e. um pouco de desapontamento e. . o detetive me olhou longamente. Segurava a cabeça com o braço apoiado sobre a mesa. se não se importa. e tal atitude me deixou preocupado a princípio. bem frente aos olhos. -« Tenho. . Preciso de alguns dados seus.Senhor Abikair? .tentei falar alguma coisa. a foto do irmão nas mãos. mas a expressão do detetive não era lá muito motivadora.

eu«! .. . Daquele jeito. violetas e arroxeadas pinceladas de maneira espetacularmente vívidas. produzindo um efeito sem igual: seus olhos. Acompanhou-me até a porta de saída da delegacia de polícia. Eu não duvido da sua sinceridade.Não. Aquilo foi diferente. originalmente azuis. . como que parte de seu diferente ser. fiquei mais atento ao que . a luz da pequena janela refratava em sua íris.« . Pouco falei nesse percurso. O senhor Abikair passava-me estranhos sentimentos.Eu sei. mas também pediu para que eu ficasse em alerta. mas depois descruzou e apoiou os antebraços na mesa. eu não acho que« .Pessoalmente.Eu não menti pra você! ± Acabei me exaltando ± Eu nunca mentiria pra você! Abikair ficou quieto um longo tempo. Pediu para que eu não saísse da cidade. Guilherme. Não chegou a falar do irmão novamente. chegando a andar comigo até o ponto mais próximo. já que. . pareciam aquarelas azuladas. mas depois confirmar que continuava a acreditar no quer que você dissesse. ele acreditava na possibilidade de uma perseguição súbita por parte do assassino. como Fernando.E poderia muito bem estar fazendo de novo.Você já mentiu para as autoridades antes. o que me deixou morto de curiosidade. ele duvidar.Senhor. inclinando-se para frente e ficando mais próximo de mim. Não foi como contar alguma coisa ruim para um amigo.

até que o veículo começou a se mexer. mas com as luzes da tarde. enquanto que a cintura era mais estreita. Do mesmo tamanho que Fernando. e fugir de um homicida. como se fosse uma seda muito fina. um morenão que. a postura. Só ele costumava saber. com uma grossa borda negra que continha as cores. Os olhos. e o detetive ficou para trás. E pensar em meu namorado não me animou mais. A verdade era que aquele detetive era. ajudar o doutor Rafael com aquele complexo ridículo e Enzo com o sumiço do irmão. resolver de uma vez por todos os pepinos da minha vida: falar e juntar novamente os irmãos do apartamento ao lado. escuros e penetrantes. E acusar o irmão do detetive como assassino. Precisava chegar logo em casa. a pele brilhante e morena. Entrei no ônibus. e cintilava a cada toque de luz. O cabelo era castanho escuro. mas logo veio uma curva. cheguei a olhar em volta para ver se mais alguém havia reparado. com aquela cara de provocante austeridade. Sua pele era originalmente morena. sem desviarmos os olhos. o que estava acontecendo comigo?! Por que havia um volume começando a se erguer em minhas calças?! Senti-me extremamente envergonhado. Ao ar aberto. Tudo nele parecia peculiar: o toque frio. meio às minhas pernas. cor de jambo. Não estava certo. Quem disse que seria fácil? . depois de mentir para o delegado. não era também o melhor dos consolos. me acertar com meu namorado. Achar outros bonitos. pude ver mais daquele homem tão contido em suas formalidades. os olhos severos. escondendo minha ereção com as mãos. Mas me desarmar com apenas o olhar. Ficamos nos encarando fixamente.« Isso só Fernando sabia fazer. Olhei para minhas mãos. o efeito que provocava. conseguira me excitar com apenas um olhar. Apoiei a cabeça no vidro. simplesmente. pareciam uma mistura de cores. ainda a tempo de ver seus olhos grudarem nos meus. sentando mais ao fundo. Tive que virar a cabeça para continuar olhando para ele. uma vez que não estávamos nos falando direito. tudo bem. cooperar com o detetive Abikair. o brilho por eles exibido pairava o mesmo tom que tinha um vinho tinto.acontecia à minha volta. e às dicas de proteção que o detetive me passava. o jeito de falar. excitar-se quando se vê uma cena de sexo. maravilhoso. Uma excentricidade que me atraiu. os cabelos diferentes. com os olhos arroxeados. tive a impressão de que seus ombros eram um pouco mais largos.

puxei a porta das escadas e subi de dois em dois degraus até chegar em casa. não conseguia crer que ficara naquele estado com um simples encarar de olhos. Tirei a camisa. a mente em branco. o céu já estava escuro. Acabei descendo dois pontos depois do meu. Minhas reações não eram justas. o que estava acontecendo comigo?! Tá certo que o detetive Abikair era um homem bonito. como tanto meus amigos me pediam. o que só me deixou mais raivoso ainda. Tranquei a porta. Fernando ficou mudo e . a garganta apertava e ficava cada vez mais difícil respirar normalmente. por que raios eu estava ali. baixar os olhos não era a melhor das opções. Puxei na memória o número do ramal do loiro. Um deles derrubou alguns livros da mesa. Quando respondi à saudação. meu braço estava pesado demais para se esticar até o aparelho. mordendo o lábio inferior como num velho hábito de indecisão. Meus olhos arderam. entretanto. sentindo uma incrível raiva brotar dentro de mim. Suspirei. ele já devia estar no escritório. já que não achava prudente levantar antes disso. O telefone estava na mesinha de cabeceira. com a cueca melada?! Num acesso de raiva. Escondi os olhos no braço apoiado à janela. isso era exclusividade do meu namorado. joguei os travesseiros em qualquer direção. o maxilar contraído parecia aumentar minha dor de cabeça. Eu não podia nem fechar os olhos. extremamente exótico. que ainda não sei como não perdi o ponto no qual deveria descer. já estava para desligar quando a voz familiar atendeu a ligação. Apoiei-o no estômago com as duas mãos. do que estava fazendo com a minha vida e com a vida dos outros. Bufei. antes que qualquer um dos irmãos notasse minha chegada. não consegui olhar para os lados. com um corpo moreno artesanalmente esculpido. nem meio metro de mim. Afinal. nem comigo nem com Fernando. Encarei o telefone. que o rosto de Fernando surgia diante de mim. Não sei precisar quanto tempo passei naquela mágoa de mim mesmo. Entrei correndo no prédio. Meu peito doía tanto. Então. troquei a calça por um short e fiquei com as meias. incomodado com o rastro das lágrimas em minha face. Os toques cadenciados aumentavam minha expectativa. Lágrimas de ira riscavam ardentemente meu rosto. Eu não podia continuar daquele jeito. Com o corpo encolhido. até que simplesmente não consegui mais me mover. àquela hora. mas quando finalmente consegui mover meu corpo. e peguei-o com a mão direita. Eu precisava fazer alguma coisa para resolver a minha vida. Eu não podia ficar tão desarmado só com o olhar de outro homem. e virei a cabeça. principalmente no aspecto amoroso. quentes. Comecei a sentir raiva de mim mesmo. socando o colchão repetidas vezes. arfante. mas daí a ficar« Não conseguia nem pensar na palavra. mirando-o.Minha cabeça estava tão transtornada. Segui pelas ruas a passos largos. depois fui para o quarto e me escondi debaixo das cobertas. apertei os olhos. e o outro quase voou pela janela.

então nada mais justo do que eu puxar assunto.Oi. Ouvia sua conversa com outras pessoas. O fato de Fernando não falar nada também contribuía para o meu nervosismo. fora eu quem ligara.« Certo. Que bom.Hãm. . . Engoli em seco.É« -« .Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? . . -« O antigo silêncio voltou. . pesado. o barulho de uma porta se fechando e o fio do telefone sendo suspenso.Não. o que me deixou mais aflito ainda. porque eu só escutava sua longa e calma respiração.pediu um momento. uma sensação de vazio dentro do corpo. Sentia todo o meu ser se contrair.Hum.« .Gui? . então.É.« Oi. . eu« Não aconteceu nada.

os dois pés apoiados no chão.Gui. trancando a mandíbula. Novamente. As gotas quentes rolavam.Fê«? .Que foi. mas eu sabia que precisava falar alguma coisa. Mas não saía nada. mas eu não me importei. Meus olhos começavam a esquentar novamente. . soltando uma expiração rápida outra vez. espremendo-os fortemente.« Tá tudo bem.Gui« Fala comigo« -« Fê? . . e ele deve ter percebido que eu estava uma pilha de nervosismo. qualquer coisa. piscando muito para desembaçar a vista. seu imbecil! Fala alguma coisa!´.Fala comigo. Prendi a respiração. o braço esquerdo sustentando parte do peso ao lado de minha perna. ³Fala alguma coisa. Limpei o rosto com as costas das mãos. Gui? ± Sua voz era doce. delicada ± Que aconteceu? . ouvíamos nossas próprias respirações. Estava sentado na ponta da cama. Apertei meus olhos. mesmo? -« . meu amor« Fechei os olhos. Deixei que uma expiração rápida escapasse sem querer. desenfreadas. já fungando. só podia pensar.-« Por que eu não consegui falar nada? Eu não sabia ao certo o que eu queria tanto falar.

eu só« ± Respirei fundo. . que eu já tô chegando. né? -« Claro. Gui. Como sempre« ± Solucei alto. colhendo novamente minhas próprias lágrimas ± Tá. Espera só um pouco. Gui.Tá. eu« Fê« .Eu também. ± Funguei. loiro. . . tá? -« . não sabia o que dizer. .. . Vem logo. Muito« .Já tô chegando.Fê? -« Já tô indo praí.Tá. mais lágrimas brotavam de meus olhos. Gui. .« Volta logo pra casa. ± Aquelas palavras fizeram-me desabar ± Te amo.Fê.Nada.Tá. Precisava dele ao meu lado ± Tá tudo bem com a gente.Te amo.

minha ansiedade já não tinha mais canais para ser extravasada. eu não precisava mais me preocupar com aquela falta de conversa. se o loiro me pegasse sem roupas depois de ter tomado banho. e assim que deixei o aparelho sobre a mesinha. Enquanto me secava. falaria que era um absurdo eu sair sozinho e ir direto pra toca do lobo e esperar não ser mordido. Entrei debaixo do chuveiro. voltaríamos a ser como antes. mas eu não conseguia me concentrar em uma única coisa. conclui que aquele não era o melhor momento para Fernando saber do meu diazinho agitado. não sei o que ele acharia pior. mas o ribombar produzido por meu próprio corpo pareceu somar-se aos goles que eu tomava. Vesti uma bermuda e uma camisa de manga curta. Caminhei até a cozinha. Estava tudo bem. olhei para minha imagem no espelho. Esporro seria pouco para o que eu ouviria. Contaria o que me havia ocorrido num momento mais pacífico. levantei e fui ao banheiro. não conseguia ficar parado. tão facilmente? A dor que eu senti fora tamanha. O gringo iria gritar. pelado e molhado. Ele mesmo falara. me dei conta de minha ansiedade. ecoavam em meu ouvido. Desliguei a tevê. impaciente. destacados meio ao meu rosto claro. mas não parava em nenhum. mas no momento em que o fiz. Pensei em sentar. qualquer ruído me alarmava. Fernando chegaria a qualquer momento do trabalho. Entretanto. Engolindo em seco. com a ausência de toques mais íntimos. como eu poderia ter duvidado do amor que eu sentia por Fernando. eu ir ao meu antigo trabalho ou me dispor a colaborar com a polícia. Desligamos o telefone mais ou menos na mesma hora. Meus olhos ainda estavam vermelhos. Honestamente.Nem nos despedimos. tentava ao máximo me acalmar. Com o controle. que sanou todo e qualquer vacilo meu quanto ao sentimento que eu tinha por meu namorado. Não que nada fosse interessante. não havia mais com o que me preocupar. espernear. agora que não estava mais sentado. Não sabia onde colocar os braços. eu ia levar muito esporro. Respirei fundo depois de lavar o copo. Quando terminei de puxar a barra da camisa. Comparado com o momento em que estava com o detetive Abikair. meu coração parecia retumbar mil vezes mais rápido. Minhas dúvidas eram besteiras. que pareciam adendos desengonçados de meu corpo. consolado. apontar o dedo e o diabo. E lembrar do detetive me fez pensar se eu deveria contar ou não a Fernando o que tinha feito naquele dia. estar de pé parecia mais cômodo. certo de que um copo de mate acalmaria meus nervos. passava os canais. Foi quando eu acabava de grudar o velcro da bermuda que me toquei o que acabara de acontecer. O alívio era tão grande que sentei na cama e fiquei lá. . Os reflexos do pulsar de meu coração martelavam minha garganta. Fernando dissera que estava tudo bem. Batucava a colher na pia enquanto esvaziava o copo de chá gelado. assim. achei que ver um pouco de televisão me acalmaria.

como se muitas pessoas estivessem andando juntas. Minha mão começou a tremer. fiz menção de falar. m as o corpo estava estancado. Queria que o loiro chegasse logo. parecia que Fernando não sabia bem onde colocar as mãos. Parecia uma marcha. deixando-me inebriado. as rosadas maçãs do rosto a denunciar seu esforço. Cada passo por Fernando dado tornava meus joelhos mais fracos. mas voltei a erguê-los. Ele arfou. As chaves pareciam estar desesperadamente sendo balançadas. todavia ao mesmo tempo gostaria de poder adiar o contato. O loiro ainda respirava com dificuldade. Levantei. mas nada saia de minha entalada garganta. que me fulminava com toda intensidade. o olhar era fixo. Não conseguia desviar meus olhos dos dele. Mas depois seu real desespero se revelou nas feições preocupadas. A maçaneta se torceu. minhas pernas pareciam bambas. As esferas azuis não piscavam. e cada segundo de espera me deixava mais nervoso. Depois. meus olhos ardiam imensamente. mas descompassadamente. Eu queria conversar com o loiro. tentando distinguir a origem dos barulhos. e eu levantei a cabeça rapidamente. mas não saiu nada. Senti seus braços comprimindo-me contra seu corpo quente. Sentia que estava prestes a chorar. Por um momento. mas eu duvido muito que fosse apenas pela corrida. de frente para a porta. e fechei os olhos. segurando o encosto de umas das cadeiras da mesa de jantar. e o barulho familiar de chaves soou para além de meus tímpanos. fazendo meu peito apertar ainda mais. A mão ainda segurava a maçaneta. impactante. as coxas junto ao peito. antes mesmo da porta estar totalmente aberta. Afundei o rosto na curva de seu pescoço. Seu cheiro adentrava minhas narinas com impressionante força. e eu não consegui reagir diante de tamanha beleza. apoiando a testa nos joelhos. falar qualquer coisa. . arrepiados certamente por sua corrida até a casa. sendo facilmente tragado por aquele profundo oceano com tormentas emocionais. ficaria travado e em angustiante silêncio. um estrondo ecoou no corredor. e eu me senti prestes a cair quando ele parou a menos de dois passos de distância. Sua boca estava entreaberta. Olhava para o teto. enlaçando-me forte ao homem que amava. A primeira coisa que consegui enxergar.Sentei no chão. foram seus fios dourados. nem quando ele começou a se aproximar de mim. Nada mais passava em minha mente. Baixei a cabeça. encarando meu namorado. Pisquei. Ruídos para além da porta de entrada de meu apartamento se fizeram ouvir. senti uma de suas mãos soltar meu corpo para segurar minha face. e a folha de madeira se abriu. Baixei os olhos por alguns instantes. a figura do gringo surgiu meio ao escuro do corredor. Seu olhar era sôfrego quando as esferas azuis detiveramse em mim. agitado. Permiti-me abraçar seu pescoço. nada mais apertava meu coração a não ser a presença de Fernando. e ele venceu a distância entre nós enlaçando minha cintura estreitamente. Engoli em seco. meu joelho já estava cedendo. de uma única vez. fungando o perfume da pele sensível. sabia que não conseguiria falar nada.

Sentia chupões fortes na pele sensível de meu pescoço. e deixei que minha voz escapasse livremente. e meu baixo ereto roçou o dele. Fernando tomou minha boca não muito delicadamente. e massageavam-se incansavelmente. montei no tronco do gringo. me deixando louco. Senti-o cutucar de leve meu ponto. . e encontrei a face de Fernando próxima a mim. e estávamos nos amando tão loucamente. onde inconscientemente cravei meus dentes. e meus dedos deslizaram automaticamente para seus cabelos. minhas coxas apoiadas em seus antebraços. sua boca entreaberta. demorando a conseguir concentrar-me para focar a imagem meio ao turbilhão de desejos e taras que me acometia. Senti que era empurrado e dei de costas com a parede da sala ao lado da porta de acesso ao corredor. que nem o tempo parecia existir. os lábios vermelhos. A língua de Fernando lambeu meu lábio inferior. do mundo todo. minhas pernas firmemente atadas em seu quadril. descendo para o pescoço. e rocei a língua em seu lóbulo. Não agüentei me reprimir mais. da faculdade. Rebolei levemente. O gringo apertava o quadril contra o meu. posto que precisava daquele contato tão urgentemente quanto ele. dos prédios de frente para nossa janela. a outra mão ocupava-se em apertar minhas nádegas. Suas bochechas mais que rosadas. Eu precisava de mais. selvagens. mas eu não esperava que ele fosse cuidadoso. segurando meus dois pulsos e colocando meus braços acima de minha cabeça. e parecia queimar ainda mais nos locais tocados pelo gringo. curvas. Ele gemeu. penetrando-os e agarrandoos com força. com um impulso. seus dedos tocaram minha entrada. Suas mãos afundavam-se em minhas coxas. dando voltas. animalescos. Eu arfava rápido. Fernando me fazia esquecer dos vizinhos. o que só fez com que meu quadril se empinasse instintivamente. Puxei a cabeça do loiro para o lado. desejava mais contato com o corpo tão quente e desejável de Fernando.Piscando uma vez. Nossas línguas estavam saudosas. lambendo e chupando lábios superiores e inferiores. Os cabelos revoltos agrupavam-se em tufos esporádicos por mim puxados e. Agarrei um de seus ombros. A franja arrepiada concedia-lhe um aspecto ainda mais ferino. Meu coração ribombava como um tambor de olodum. os olhos oceânicos direcionaram-se em minha direção. Sentia que não conseguia respirar. passando o outro braço por seu pescoço e. quando sentiu que era observado. Éramos só nos dois. e um sorriso matreiro de dentes brancos brilhou rapidamente. desfiz o beijo na busca de ar e meu pescoço foi imediatamente atacado. Fernando espalmou as mãos o suficiente para conseguir segurar minhas duas nádegas de forma a quase penetrar-me com os dedos médios. Ele me empurrou com mais força contra a parede. e por alguns segundos temi que meus tímpanos estourassem com tamanha intensidade de pulsação. Abri os olhos. meu corpo estava tão quente. senti seu membro endurecer ainda mais contra minha virilha. de Abikair. um de seus dedos muito próximo de minha entrada.

Me fode« Meu sussurro saiu rouco. quando ergueu a cabeça para olhar para mim. Acho que devo ter mostrado uma cara muito safada. Respirei fundo. De repente. loiro? Quer que eu repita? Obviamente que não precisei repetir. fui arremessado para a cama. e minhas pernas tremiam precariamente. eu devia estar parecendo um garoto de programa bem devasso que se oferecia de graça. e nem um segundo depois eu já estava sendo fortemente beijado. .Que foi. colando a boca em seu ouvido e falando uma das frases que até hoje tenho vergonha de repetir. mordendo-o com força. Os olhos azuis cintilaram perigosamente em minha direção.Agarrei-me a ele. uma das mãos com os dedos enfiados entre minhas nádegas. e vê-lo daquela maneira tão provocante me fez erguer umas das sobrancelhas e rir de lado. e foi ainda melhor quando ele arrancou minha blusa e abocanhou um mamilo enquanto o outro recebia atenção especial de uma de suas mãos. Ele piscou. se . Era bom demais ter o gringo daquele jeito. depois de fechar a porta. . uma dor deliciosa me incitou a morder Fernando com mais força. Ele ainda estava com meu mamilo na boca. eu precisava de Fernando. Eu o encarei. Meu quadril jogava-se inconscientemente contra o do loiro. Procurei novamente seu pescoço. depois lambendo e chupando o local machucado. Foi só eu terminar de falar que a língua do gringo parou. Senti que estávamos nos movendo. meu coração louco bombardeava meu peito. aumentando a louca sensação que a adrenalina causava em mim. tão imprensado contra mim. os cabelos despenteadamente selvagens. Ele sugava fortemente o botão em meu peito quando me curvei e abracei sua cabeça. o loiro empurrou a pelve contra a minha. arfando. Mal chegamos ao nosso quarto. os lábios avermelhados.Aaahhh« Fechei os olhos para gemer. e o queria naquela hora. Minha garganta arranhava enquanto Fernando lambia e sugava a frágil pele de meu pescoço. A língua ainda pressionava a carne túrgida. e rebolei devagar sobre o volume de Fernando. Minhas costas bateram novamente contra a parede. . eu sentia que estava me descontrolando. Ainda não havia erguido o torso completamente quando Fernando. porque pela reação do gringo. seu volume rijo quase a rasgar nossas calças. seus dedos definitivamente querendo penetrar por minha bermuda. mas estava impossível suportar mais daquela tortura.

Não controlava mais minha voz. . Os olhos oceânicos fixaram-se nos meus. Levei minhas mãos ao cós de minha bermuda. sorrindo involuntariamente. para meu profundo êxtase. Passando os braços por baixo de minhas coxas. brilhantes e provocantes. e então a cabeça loira abaixou-se. O pano de minha bermuda era muito fino. e como o nosso primeiro beijo. fazendo questão de tocar cada coisa de uma vez. agarrando minhas coxas com firmeza. massageava meus testículos e. Eu já respirava com a boca há muito tempo. Aliás. Suas mãos pressionavam minhas partes. separou minhas virilhas. Os toques não eram nada delicados. sugando mais forte que o de costume. Primeiro ele apoiou a mão espalmada. dessa vez. de súbito. uma de suas mãos massageando meus testículos enquanto a outro tocava um de meus mamilos. Fernando segurou minhas pernas bem abertas. o loiro ajoelhou-se entre minhas pernas e. chegando a erguê-las um pouco. penetrou-me com dois de seus dedos já úmidos por minha própria semente. e afundou novamente o rosto entre meus documentos. Uma das mãos veio auxiliar a carícia. nem se eu quisesse muito conseguiria escapar. mas ficou ainda mais difícil colocar qualquer ar para dentro dos pulmões e. levantei um pouco e apoiei meus braços atrás do corpo para ver melhor o que Fernando estava fazendo para me deixar tão excitado. ele deitou a cabeça sobre meu baixo. Nosso ritmo estava muito rápido.livrou das próprias roupas e colocou-se nu sobre meu corpo. como respirar parecia um jeito de me controlar. ele mal me despira e sua boca já abocanhara meu membro. O modo como seus músculos se contraíam só para que seu torso ficasse erguido me fascinava. queimando-me como se estivesse em uma fogueira gigante. Fernando acariciava a cabeça de meu membro arrastando a língua. Os movimentos felinos me hipnotizavam quase ao ponto de babar. Senti automaticamente que meu volume crescia e endurecia a cada novo roçar do gringo. conseguindo tocar desde meu membro até os testículos. a tênue luz dos postes da rua fazia com que fracos feixes luminosos refletissem o brilho daqueles cabelos dourados e da pele beijada pelo sol. Era Fernando. se fosse Fernando. Depois. Mas eu não me importava. me levando ao delírio. Perdi o apoio dos braços ao agarrar o lençol e puxá-lo. que saía livre para ecoar por toda a casa. minha cabeça quase bateu na cabeceira da cama. seus toques eram mais eficazes do que carinhosos. nunca daria pra escapar. era mais um motivo para eu esquecer de fazê-lo direito. e acho que Fernando também não estava agüentando muito. Empinando o traseiro. Vi-o jogar a peça para trás e voltar a se afundar entre minhas pernas. mas ele não me deixou tirá-la. porque no pequeno instante que se separou de mim foi para sumir com minha bermuda e minha cueca. meu corpo esquentava rapidamente. às vezes minhas contrações involuntárias eram de dor. portanto ficava mais fácil sentir e distinguir qualquer coisa. Eu estava me sentindo completamente preso. Minha barriga contraiu-se sozinha. Suspirei.

me enfiei dentro dele. . agarrando-o pelo braço. Abracei o corpo em brasas e fiz com que Fernando ficasse sob mim. e abri um pouco as pernas. empurrava minha pelve contra seu rosto. selvageria. iniciou um beijo feroz. mas eu não saí. Aquilo me excitou tanto que eu estava decidido a arrombar Fernando. . quem havia desempenhado esse papel fora eu. voltando minha atenção para o que estava logo à frente de meus olhos. De primeira ele me olhou feio. Empurrei seu corpo contra o colchão. então agarrei o gringo pelos cabelos e tirei aquela boca quente e safada de meio baixo. Senti que estava muito próximo do alívio. Queria mais de nossa intimidade. Ele tentou me tirar de lá. quase esmagando meus braços. enfiei minha língua na entrada dele enquanto brincava com seu membro. nas últimas vezes. Senti meu próprio gosto naquela língua macia e experiente. afinal. O jeito como ele apertava os olhos e o tom de voz denunciaram que ainda não havia prazer naquela invasão. Bem.Ué«? Você não queria« que eu te fudesse? Vi os olhos oceânicos cintilarem em minha direção. voltando meu corpo e deixando-me de ponta a cabeça para ele. passando sua língua para dentro de minha boca. e assim que minha boca encontrou com seu baixo. dava pra perceber que ele queria continuar ali. Eu gemia. me posicionando melhor. me torturando. Fernando gritou alto e forte. puxei-o para um beijo. quase rasgava o lençol de tanto puxar por meu corpo estar tão trêmulo. Dei um sorriso de lado. Aqueles pêlos claros« Aposto que poucos tinham pêlos claros como os de Fernando num lugar . cheios de luxúria. não era à toa.Ah« Ah« Isso« Ah« Eu não sabia o que fazer. enfiei dois dedos em seu pequeno orifício. nossos abdomens se encontrando. Entretanto foi só dar uma atenção especial a um de seus mamilos rijos e seu membro que o loiro relaxou. mas não me importei. desejo. me chupando igual nunca havia feito. Agarrei suas coxas e as abri. mas puxou-me para junto do corpo e. Depois passou a língua pelos lábios e. Deitei sobre seu corpo. aquele jeito diferente e agressivo do loiro de me excitar estava me fazendo perder as estribeiras. E eu não perdi tempo.. Assim que percebi que meus dedos deslizavam com mais facilidade.Aaah« Ai« Eu senti que fora um gemido de dor.

aquele barulho típico de corpos e choque e algo muito úmido sendo batido. enfiando-o em minha boca. agarrei seu membro duro e melado. Não demorou nem um minuto. encostando o rosto em sua virilha. Não demorei muito para me aliviar novamente. Com um espasmo. sentia que seus dedos ainda estavam dentro de mim e. na nossa primeira experiência na posição ³69´. Não agüentei o peso do meu corpo e caí de cara no colchão. .como aquele. encontrando-se brevemente com meu próprio membro para. Sentir seu membro entrando e saindo de . mas Fernando estava incrivelmente resistente. A partir de movimentos bruscos. e senti-me penetrado com tanta firmeza quanto estava penetrando. enfim. sugando o mais forte que pude. Sentia meu corpo ser jogado para depois ser trazido de novo pelas mãos que seguravam com força meus flancos. Gritei. e me aliviei na boca dele. e eu gritei de êxtase misturado à dor. Sem dó. E foi tão sem aviso quanto eu o havia feito. enquanto meus dedos cuidavam de sua entrada. Seu baixo entrou torturante por minha entrada. Meu corpo tremia debilmente.Hungh« Hunf« Hum« -« Ah! Apertei o tornozelo de Fernando. esfregando minha língua na ponta e massageando seus testículos. minhas pernas arreganhadas. os mamilos duros de Fernando raspavam em minhas costas.Aaahh« Espera« Loiro« Eu vou« . cutucar minha entrada. abocanhei-o. e seu corpo começou a tremer tanto quanto o meu. Não sei precisar quanto tempo ficamos assim. o loiro me colocou arqueado sob si. quando senti meus flancos serem agarrados o suficiente para que Fernando saísse de baixo de mim. olhando fixamente para o baixo do gringo. por isso meus gemidos saíram sufocados. Ainda segurava o membro do loiro em minha boca. melando meu abdômen. e vi estrelas quando o gringo me virou de frente para ele. Ele não esperou que eu me acostumasse com seu volume túrgido e começou os movimentos forte e rapidamente. me sentindo insano. meu traseiro empinado. a boca do gringo envolveu-me com volúpia. mas tive que me deter. O membro dele se arrastou por meu corpo. Uma de minhas pernas foi agarrada. Ele ainda estava rígido como uma pedra quente. como ele havia feito comigo. Já estava esperando por seu suco. ainda sendo impulsionado para frente e para trás.

Esquecemos de nosso bloqueio. A voz grave me deu calafrios. e eu para outro. embora eu estivesse cansado demais para virar a cabeça imediatamente. Fechei os olhos. seu toque suave em meu peito me disse que ele estava tão esgotado quanto eu. Olhamos-nos. suados e cansados. tão expressivos. nós desmontamos. seus dedos afundaram-se em meus cabelos molhados. suava. Ele piscou. Nossas línguas se encontraram. Expirei. rouco e delirantemente luxurioso. Abraçamos-nos. para depois fixar-me novamente nas esferas azuis. Nossos olhos não se desgrudaram. Beijava-o insanamente enquanto sentia que sua semente me preenchia ternamente. mirando-me inexpressivo. Eu estava explodindo. distantes. os olhos apertados. Calma e tranqüila. como se nunca nada tivesse acontecido para que problemas surgissem em nosso relacionamento. os cabelos tinham as pontas molhadas pelo suor. ainda sustentavam aquele ar selvagem e perigoso. Puxava o ar com força para dentro de meus pulmões. a pele parecia reluzir e a face estava muito corada. depois deitou a cabeça em meu peito. Suspirei. ficando de frente para o loiro. A cama estava toda suja. nos analisando. passamos minutos apenas nos olhando. Minha entrada latejava. agarrou-me gentilmente pelo tronco e me trouxe para perto de si. e o que estava a nossa volta também. Eu estava doido por causa do sexo selvagem que acabáramos de fazer. Fechei os olhos. Estávamos arfantes. mas era sua respiração em meu peito que mais mexia comigo. sabia que era a mão grande e precisa de Fernando. e senti sua mão esquentar-me o sangue. Até que Fernando se enfiou tão forte dentro de mim que eu achei sinceramente que iria desmaiar. Eu não sabia o que ele queria me dizer com aquele olhar silencioso. Esquecemos tudo aquilo que existia entre nossos corpos. suspirando. ouvia meu coração bater forte. Ele respirava com a ajuda da boca. Esquecemos do tempo. mas era quase impossível fazer aquela sensação de excitação desaparecer. minha outra mão passara por trás de seu pescoço e repousara em seu ombro. minhas mãos alcançaram automaticamente seu pescoço e eu puxei sua boca para juntar-se a minha.mim tão forte. O calor parou acima de meu coração. a outra mão segurava minha nuca. Até que o loiro respirou mais fundo. senti seus lábios macios pressionarem-se contra os meus. mas eu também não queria falar nada com minha mirada constante e meu silêncio mórbido. Seu gemido foi longo. Porém. Beijei . Fernando caiu para um lado. e depois girando« Berrei. e beijamo-nos devagar. uma sensação úmida em minha entrada. Os olhos. O corpo quente me esquentava. desarrumada. abrindo o peito na tentativa vã de me controlar. e Fernando aproximou o rosto. Segurei com delicadeza seu rosto. Trouxe o corpo para o lado. mas eu ainda tremia de prazer. Algo tocou minhas costas e. gemia e tremia. O loiro desfez o beijo. e se aliviou. E finalmente. tudo ao mesmo tempo. e depois ficamos nos encarando por um longo tempo. gozava. abraçando seu corpo e acariciando seus cabelos.

Wow! ± Me assustei. decidi fazer o café da manhã para nós dois. sem noção de espaço e tempo. quando finalmente lembrei do que havia acontecido na noite anterior. aquele me pareceu o ato mais passional por nós dois praticado. Foi difícil me concentrar em fazer torradas com aquele cheiro tão delicioso. Superando a preguiça. eu não podia deixar de sorrir e sentir meu peito esquentar só de lembrar de como Fernando havia me amado. Levei meus dedos aos fios loiros. beijando meus lábios. Adormecemos assim. A barba estava começando a crescer. e o perfume inebriante de Fernando adentrava efetivamente por minhas narinas. quando tentei me levantar.seus cabelos. estava de bruços com a cabeça virada para mim. Fechei os olhos. derramando um pouco de leite.Bom dia« ± Seus lábios roçaram minha orelha. Não havíamos trocado uma só palavra de amor e. Arregalei os olhos. Ao mover as pernas. Coloquei a mão em concha entre minhas nádegas e caminhei devagar até o banheiro. Estava colocando leite em um copo quando braços circundaram minha cintura. como que tomando coragem para mexer qualquer músculo. . Suspirei. Acordei um pouco atordoado. Eu nunca havia feito um sexo tão animal como aquele! Fora pervertido. sem pensar em mais nada a não ser na felicidade que estava sentindo naquele momento. Ele acariciou meu braço em resposta. mas surpreso: não havíamos usado camisinha! A semente de Fernando ainda estava dentro de mim. devasso. tomando coragem para sair da cama e senti algo deslizar por minha lombar. senti algo melado entre as coxas e em minha entrada. . acariciando-os. segurei minha cabeça e fiquei observando suas feições serenas. . e meu corpo estava cansado. lascivo. fazendo com que eu ficasse arrepiado. A que eu colocara na oportunidade dizia ³Good at being bad´. Tomei um banho. e fiquei impressionado em como ainda não havia reparado que Fernando estivera adormecido ao meu lado durante todo esse tempo. murmurei palavras doces. vesti uma samba-canção e peguei uma de suas muitas blusas estampadas. Meus olhos ardiam com a claridade. completamente envergonhado e com medo de sujar o chão no caminho. Seus cabelos finos estavam completamente desalinhados. mesmo que sem o carinho cuidadoso de sempre. não assustado. e foi ao tentar levantar que me dei conta do ocorrido. Apoiei meu braço ao colchão. animalesco«! No entanto. depois escorreguei minha mão por sua face. Respirei fundo. no entanto. e parecia escorrer.

Bom dia. ontem« . as esferas azuis ainda sustentando o olhar.Eu não esperava que fosse. Fernando fixou os olhos nos meus. Fernando não parecia estar .Tô.. Fê« . Embora o foco de suas pupilas estivesse em mim. tombando a cabeça ± Não fui muito delicado com você.Por ontem. Repousou uma das mãos em meu rosto. ± Piscou. puxando-o para mais perto. ficando de frente para ele e tocando seu braço ± E você? . afastando-me um pouco do abraço e olhando para as esferas do loiro. cuidadosa.Também.« por semana passada« Por tudo. acariciando minha face. -« Eu não sei o que te dizer. Jogou meus cabelos para trás.Desculpar pelo quê? . encarando-me. suspirando ± Só fica do meu lado. Franzi o cenho. . . ± Abracei o gringo.Você tá bem? ± A voz veio baixa. ± As sobrancelhas arquearam-se. ± Passei meus braços por seu tronco. ± Virei o corpo. -« Desculpa. .Eu não preciso que diga alguma coisa.

No segundo tempo. despedindo-se com um beijo rápido. porque com momentos tão bons esquecemos da hora. De praxe.Tô pensando em fazer alguma coisa. eu lembro. porém terno. . meu aniversário« . Eu não me arrependo nem por ontem. agradável. mas« Vi as mãos claras de Enzo se abraçarem.exatamente me olhando. O que importa é que a gente tá bem agora. só pros mais chegados. Fê. e beijei sua boca rapidamente. . fomos à faculdade. como se ele não soubesse muito bem onde colocá-las. nem por semana passada nem por nada. eu particularmente não conseguia me conter depois dos comentários irônicos que Fernando soltava. e eu me sentia renovadamente confortável. você. . Sentamo-nos à mesa e comemos nosso desjejum conversando trivialidades. talvez o doutor Rafael« . ± Respondeu. Segurei seu rosto com as duas mãos. aconteceu.Eu sei. tipo nós dois. O clima estava leve.Esquece isso.Guilherme. e ele riu gostosamente. Meneei a cabeça negativamente com um sorriso nos lábios. aproveitei a folga depois dos exercícios que o professor havia mandado para conversar com Enzo. como se aquele fosse um dia qualquer. . Depois de nos arrumarmos correndo. agradeço o convite. Nada demais.Escuta. E o que aconteceu. Sentei-me ao lado de Enzo. que me recebeu com um sorriso amigável e assisti às aulas sem maiores problemas. o loiro me deixou à porta da sala. Rimos juntos.Não parece! ± Puxei seu nariz. . Eu não estava preocupado ao chamar Enzo para meu aniversário porque sabia que haveria mais pessoas com as quais ele poderia conversar sem ter que se sentir . Thomas e Igor. como que o acordando.Eu sei. um pouco desconcertado.

Enzo. a gente precisa de laços. as esferas castanhoesverdeadas dirigiram-se para baixo e embora ele tenha respirado fundo. os olhos em mim. como se Enzo estivesse imerso em seus próprios pensamentos e analisasse com cuidado minhas palavras. Não esperei por sua resposta. . Os lábios levemente avermelhados deram um sorriso de lado.« ± Coçou a nuca de cabelos louros ± Acho que ainda tá muito cedo. eu realmente não compreendia Enzo.Não. ± Apoiou o queixo na mão.Você não acha que a gente merece mais que isso? -« Os glóbulos voltaram-se para o lado. . . . rodando o pescoço e voltando a olhar para Enzo.Pra« Ah.Se a gente quer continuar a amizade. não disse nada. como que num movimento de ansiedade.Cedo pra quê? ± Não era ingenuidade. não sei. obviamente falando de seu olhar fixo em mim. Seus olhos esverdeados ainda me encaravam à espera da conclusão de minha frase. uma hora ou outra a gente vai ter que se encarar. .mal. Guilherme.Eu. você sabe.Por que não? . mas« Hunf« Suspirei. .Eu já não faço isso? ± Indagou. Sacudi a caneta preta em minhas mãos. né? Eu sei que por enquanto a gente tá como colegas. mesmo. . .

meio irritado. a imaginei do detetive Abikair e toda sua fisionomia exótica e atrativa: seus cabelos escuros de tons vinho. sou eu. sentindo-me perturbado. detetive. as íris tão azuis que beiravam o arroxeado. saí de sala para atender o infeliz que me importunava. Meu coração pulsava dolorosamente. Abikair. ± Sua formalidade era notória ± Tem um minuto? . .Guilherme? . contidas em grossas bordas negras. a pele morena como bronze polido« Meu corpo reagiu. .Estou. e eu agarrei meu próprio membro. eu« Como conseguiu meu número? . o olhar expressivo. mais um motivo para não atender a uma ligação no meio da aula. O número me era estranho. Engoli em seco.voltei minha atenção ao celular que vibrava em meu bolso. .Está ouvindo bem? . os ombros largos e a cintura delgada. correndo para entrar num dos boxes do banheiro. Imediatamente. tentando me conter.Você preencheu o formulário com seus contatos. pode falar. pois não? . . ± Olhei para o meio de minhas pernas. Mas fosse quem fosse. sentia uma estranha sensação escorrer por minha coluna e minhas entranhas reviraram incomodamente.Claro. foi tão insistente que depois de cinco chamadas.Ah! Sim.Alô! ± Atendi.Guilherme.

- Vou precisar que você compareça à delegacia. Ainda não posso precisar a data, mas acredito que seja daqui a três dias, dia 27 de outubro.

- Ah,« E que horas?

- Durante a noite, não vou arriscar sermos vistos por ninguém, nem de dentro nem de fora. ± Respondeu, veemente.

- Não tem como ser em outra data, detetive Abikair?

-« Por quê?

Senti meu baixo pulsar em minha mão. Não era possível que estava reagindo assim somente com a voz do detetive por telefone. Joguei a cabeça para trás, sentando-me no vaso sanitário e apoiando a testa na parede do boxe. Respirei fundo, fechando os olhos; ele devia saber que eu me sentia assim, devia fazer de propósito.

- Guilherme?

- É meu aniversário, senhor Abikair.

- Oh! ± Ele pareceu verdadeiramente surpreso; adoravelmente surpreso ± Verdade, não havia reparado isso no formulário. Perdão.

- Que isso, detetive.

- Não, Guilherme, foi falta de atenção minha. Mil perdões. ± O barulho indicava que ele havia acabado de sentar ± Na noite seguinte, então? Dia 28?

- Tudo bem.

- O endereço que você deixou é mesmo o seu?

- É, sim. Por quê?

- Não vou deixar você ir à delegacia sozinho durante a noite, Guilherme. ± Censuroume, como se eu não percebesse o óbvio.

- Mas eu tenho com quem ir, não precisa«

- Eu não estou perguntando se tem quem te leve ou não à delegacia, Guilherme. Também não estou pedindo que aceite que eu o escolte. ± Me calei, surpreso ± Eu VOU escoltá-lo, queira você ou não, porque caso você não tenha percebido ainda, você é uma testemunha ocular de um seqüestro combinado com homicídio.

- Eu sei, senhor Abikair«

- Não, Guilherme, acho que você não sabe a dimensão da situação em que você se meteu ao entrar naquele quarto. ± A voz de Abikair era potente e severa, embora em baixo volume ± Estamos falando de um criminoso seqüestrador e assassino que está à solta, esperando pacientemente o estagiário tolo sentir-se acomodado à falsa sensação de segurança para esticar as pernas em algum local provável para dar um fim à única pessoa que pode comprometer sua identidade e liberdade.

- Eu«

- E como você bem sabe, eu não sou dessa cidade, nem desse estado. Venho perseguindo os passos desse criminoso há algum tempo, e nunca antes chegamos tão perto de poder prendê-lo, uma vez que nunca antes conseguimos evidência ou testemunha alguma para incriminá-lo. Essa é a primeira vez que alguém consegue cruzar seu caminho sem morrer no processo. E se eu precisar escoltá-lo da sua casa até a

delegacia com mais quinze policiais à paisana, por mais que sejam dois metros de distância, é isso que vou fazer!

Ouvi o detetive respirar fundo, ainda quieto. Eu não sabia se estava levando esporro ou se, depois de tanto tempo atrás do cara, como ele mesmo dissera, o detetive Abikair apenas sentira a extrema necessidade de extravasar um pouco. Continuei calado, meio sem jeito de dizer qualquer coisa. Conseguia ouvir a respiração levemente descompassada de Abikair, e fechei os olhos, imaginando como ele estaria naquele momento: sentado atrás de sua mesa, de pé e apoiado à parede, sentado sobre a mesa ou deitado em sua cama, nu, o corpo ligeiramente molhado pelo banho que acabara de tomar, os cabelos úmidos jogados ao colchão, o peito«

- Guilherme?

Acordei de meus devaneios luxuriosos quando a grave voz adentrou por meu ouvido e arrepiou os pêlos de minha nuca.

- Sim?

- Perdão novamente. Eu falei demais.

- Tudo bem, detetive. Deve ser bem frustrante tentar pegar um cara desses e nunca conseguir. ± Levei a mão à boca assim que terminei a frase; o que eu estava insinuando, que o detetive Abikair era incompetente?!

- É, Guilherme. Mais do que se pode imaginar. E esse em especial é meu calcanhar de Aquiles.

Tombei a cabeça para o lado, sorrindo de leve. As palavras de Abikair pareciam as de uma criança que admitia que não conseguia alcançar a prateleira de cima: sinceras e fofinhas. Dei de ombros, finalmente consegui tirar minha mão de minhas partes íntimas.

também.Não faça isso com você mesmo. É meu celular pessoal. certo? . . detetive. mas a única coisa que consegui foi um silêncio profundo quebrado apenas pelo barulho de minha própria respiração. liga para este número. Então. imaginando qual seria a explicação para aquela reação. E espero contar com sua ajuda.Eu acredito no senhor. irei prontamente encontrá-lo. detetive. Olhei para o teto. . Isso tinha que parar. Eu sei que. Suspirei fundo antes de desligar o aparelho. . levando a outra à testa. . com absurda facilidade.Pode deixar.Tenha um bom dia..Eu ligo confirmando.Se precisar de algo. dessa vez. Eu não conseguia entender por que o detetive conseguia. Apertei o celular em minha mão.Você também.« Dia 28. Guilherme« ± Murmurei para mim mesmo ± Não faça isso com ele« . o senhor consegue.Espero que sim.Claro. . Eu estava nitidamente fora de controle. Guilherme. . ± Aquelas palavras me fizeram morder os lábios. Mas até então.Certo. meu membro não parava de ficar túrgido só de lembrar daquela voz grave e rígida ao meu ouvido. me tirar do sério. Estava acontecendo de novo. . meu quadril ameaçava jogar-se para frente e para trás. dia 28. .

. atípico na minha família. mas não é a mim que você afeta quando mente desse jeito. e encarei meu rosto. meio oval. -« Hãm? . depois guardei o celular no bolso e fui lavar o rosto. Acalmei-me um pouco. Estalei alguns dedos no caminho de volta.Onde você foi? . Apoieime com as duas mãos na pia de granito rajado. Os olhos cor de mel. Não demorou muito e o sinal do término da aula soou. chamavam a atenção se olhados mais de perto. . Passei mais uma água no rosto antes que meus olhos descessem e eu começasse a pensar em como não gostava de meu corpo.Inspirei profundamente e expirei com força.Eu não me importo de você não falar quem era. Arrumava minhas coisas quando notei que Enzo ainda estava sentado ao meu lado.E quem era? ± Franzi o cenho. né? . Você saiu para atender.No celular. Os lábios pouco pronunciados davam contorno a uma boca sem graça. . muitas pessoas no corredor me faziam desviar e chegar lentamente à sala de aula. sim.Ah. e os cabelos no corte desalinhado emolduravam um rosto meio quadrado.Ao banheiro. . Não era ninguém. balancei a cabeça e juntei minhas mãos entre as coxas ao curvar o tronco. A pele clara contrastava com os cabelos castanhos escuros. Encarei-o por algum tempo. ± Continuei a juntar minhas coisas e enfiá-las na mochila. sem entender muito bem o que ocorria.

Formou-se novamente um silêncio no carro. Acabei de arrumar minhas coisas e desci as escadas junto a Fernando.Enzo levantou-se. Gui? ± Levantei os olhos pra ele. . . imaginando se agora era o momento de falar para Fernando que eu estava cooperando com a polícia. alguém comentou alguma coisa? . Fiquei quieto na volta para casa. colocando a mochila num dos ombros e foi embora. . tá tudo bem. Joguei a mochila na cadeira de nosso quarto e deixei que meu corpo caísse sobre o colchão. engolindo a comida. ele sorriu de lado e apoiou as costas ao batente da porta. O loiro não falou nenhuma palavra sequer depois disso. Ainda estava com a agenda na mão quando o acompanhei com os olhos e encontrei meu namorado à porta de minha sala. ± Continuou o movimento com o saleiro ± Só achei você estranho. o carro vermelho de Enzo já havia partido. eu sabia que ele ainda voltaria no assunto. Fernando apenas ergueu as sobrancelhas quando baixou os olhos para o saleiro em forma de anuência. dessa vez muito mais pesado do que antes. Ele ainda me mirava. nada. Chegamos em casa e Fernando foi direto para o banho.Não. O jeito como me olhava enquanto comíamos me pressionava. Mas apesar disso. agora no carro. a outra mão parara o movimento e o saleiro ficara na diagonal. os braços largados. como se o gringo estivesse me comprimindo contra uma parede. e meneei negativamente a cabeça ± Tem certeza? Parei de mastigar por uns instantes. ainda mastigando minha couve.Aconteceu alguma coisa. os olhos azuis fixaram-se incomodamente em mim. Ergui as sobrancelhas. e provavelmente foi por isso que Fernando notou que alguma coisa acontecera. o garfo suspenso pela mão esquerda.Não. Estávamos almoçando num restaurante perto de casa quando. . Cada garfada parecia um sacrilégio. Quando chegamos ao estacionamento. Olhei pela janela. Limpei a boca com o guardanapo e tomei um gole do meu suco.Tenho. Por que. e ficava difícil continuar sustentando o ar de normalidade a cada momento. ao terminar de mastigar um pedaço de nhoque de aipim.

Suas mãos abraçavam-se comodamente enquanto descansavam em seu colo. rolando e ficando de barriga para baixo. como se estivesse fazendo um enorme esforço para entender alguma coisa. apoiando-me com um dos braços atrás do tronco e levando meus olhos aos deles. . Engoli em seco. Fechei os olhos e. Apoiei a cabeça num dos braços. a toalha amarrada à cintura fazia uma fenda profunda sobre a coxa direita e o torso nu brilhava por ainda estar úmido do banho. mas nada mais que isso. permiti-me um descanso mental.Eu não vou continuar essa conversa com você gritando desse jeito.Não foi nada. subi um pouco a barra da camiseta porque a janela fechada fizera com que o quarto ficasse abafado. tentando tirar minha atenção do corpo pecaminoso de Fernando e prestar mais atenção em seu olhar. . Senti o colchão afundar. o outro flexionado de modo que a mão ficasse frente à minha boca.Desfiz-me das calças. mas fosse o que quer que fosse. Eu não sabia por que não conseguira falar para Enzo que estivera conversando com o detetive Abikair logo depois de ³criticá-lo´ de não se permitir criar laços novamente comigo.Quê que tá acontecendo. Gui? ± Fernando ergueu os ombros. e troquei a camisa de malha por uma camiseta confortável. ± Declarei. Torci o tronco para olhar o gringo. guardou para si mesmo quando fechou a boca e expirou longamente. Fê. Espreguicei-me longamente. trocando-as por um short confortável.Como não foi nada?! ± O loiro estava se alterando rápido. desviando o olhar. refletindo que talvez fosse melhor compartilhar desse segredo primeiro com os irmãos do apartamento ao lado. Cocei a nuca. e você não tá querendo me contar. O gringo tomou ar. Sentei com as pernas flexionadas numa típica posição defensiva. Gui! Eu não sou idiota! . embora sua cabeça estivesse em minha direção. olhar esse que não estava para muita simpatia. o típico hábito de gesticular se manifestando ± Claro que aconteceu alguma coisa. suspirando. já que eu não poderia falar com os dois ao mesmo tempo. aí havia outra dificuldade. Encaramos-nos por um tempo até que suas sobrancelhas se ergueram levemente e eu entendi que ele estava ali para conversar. . Com as duas mãos colocou os cabelos para trás. Continuei imóvel ± Eu sei que aconteceu alguma coisa. que se sentara de lado para mim. . Respirei fundo. Porém. e esse era um provável motivo para ele ter me dado a resposta que me deu.

. permaneceu em silêncio por alguns segundos até que finalmente virou os olhos para mim. pára de mentir pra mim. . Baixou a cabeça.Pára de negar! ± Berrou. nunca tinha me sentido assim com você! Não tô entendendo o que aconteceu nesse tempo pra você ficar me escondendo coisas! ± Girou o corpo. e eu recuei o corpo. Guilherme! Eu nunca tinha transado com você daquele jeito. as expressões muito sérias e com um ar de gravidade.Nada.Por que a gente sempre briga depois que transa? ± Franzi o cenho ± A gente teve um sexo tão gostoso ontem. . . mas só consegui que suas sobrancelhas se arqueassem mais. .Que merda. eu já disse! . e não passa um dia.parando o movimento quando as mãos alcançaram a base do pescoço. porém só conseguir arregalar os olhos enquanto as palavras morriam em minha garganta. ele sabia e sabia principalmente que eu também sabia disso. Fernando estava certo. Mas logo pareceu se arrepender ao fechar os olhos e levar uma mão aos olhos ± Por favor. volta pro arranca-rabo.E eu não estaria gritando se você me falasse a verdade.A gente não tá brigando. ficando completamente de frente para mim ± Que eu te fiz. . que te deixou desse jeito e eu não sei?! O que você tá me escondendo?! . porra! Já estava pronto para retrucar.Você tá brigando! Você que tá gritando! ± Argumentei.A gente tá brigando! .

encaravam-me fixamente. Respirei profundamente. apenas fiquei encarando meu namorado em seu sofrimento silencioso com um dilema difícil degladiando-se em meu íntimo: contar a Fernando que eu havia ido ao meu trabalho e encontrado com Flora.Fernando. segurando-as com as minhas. mas correndo o risco de o loiro ficar verdadeiramente magoado comigo. Não consegui decidir. baixaram-se até suas coxas. Suspirei. ele ainda me encarava. okay? .« Vamos falar disso depois.Foi porque fui violento demais com você?! Você não queria daquele jeito?! Ou foi porque a gente fez sem camisinha?! . e estendi a mão espalmada para que Fernando não se levantasse. mas não eram finos. ficando de frente para o gringo. pára! Acabei usando um tom muito alto. Seus olhos. só que em outro momento. e meu silêncio só irritava mais ao gringo.Fê.O que foi?! Foi porque eu te mordi. afinal eu não estava saindo do quarto. e notei que seus lábios pronunciados estavam levemente crispados.« Escuta. sem trégua. . que haviam parado meio ao seu processo de gesticulação. Olhava-me um pouco surpreso. Levantei.Fê. Via-o me olhar de cima. Recolhi as mãos bronzeadas de cima de suas pernas. além de ir à polícia e cooperar com o detetive Abikair. . não com arrogância. mas ele continuou falando. e sim com austeridade. depois voltei meus olhos para meu namorado.Não consegui falar nada. Fernando tinha dedos longos e elegantes. ou continuar escondendo até uma hora mais apropriada. azuis de um profundo mar aberto. cansado da troca de argumentos inflamada. . Dei a volta. As mãos. mas eu decidira que o melhor seria contar ao loiro tudo. depois soltei o ar devagar. não adiantava nada pedir calma a alguém se você mesmo estava irritado.« ± Tentei começar. e o gringo ficou quieto. onde descansaram e assentaram-se abraçadas. Tentei me acalmar. e ajoelhei-me aos seus pés. Ele esperava por alguma revelação minha. porque te arrombei demais?! . mas não revidou com qualquer grosseria típica de quando se enervava e passava dos limites.

.. . Guilherme! Eu quero saber agora! .Depois. quando? ± Havia um tom repressivo em sua voz.Agora não dá! . mas ele recolheu as mãos das minhas.Ótimo! ± O loiro quis se levantar. tá? . . inconformado.Eu prometo que te conto tudo. ± Insisti.Bem. derrubei-o novamente na cama ± Wow! .Porque eu não quero falar! . mas Fernando não estava alterado. mas antes de passar por mim.Por quê? .Não.Por que não dá?! . me fazendo apertar os olhos. Vou te contar tudo.Eu te prometi que ia te contar depois do meu aniversário! Tá achando que eu tô mentindo?! . não seria a primeira vez! ± Alfinetou.Depois do meu aniversário.

e antes que pudesse me conter. a gente acabava se machucando na cama. um silêncio mortal havia de apoderado de meu quarto e me fazia escutar o tiquetaquear de meu relógio de pulso. a expressão do loiro era dura ± Custa a base do nosso relacionamento. cada vez nossas vozes se exaltavam ainda mais e falávamos coisas que. . Seus olhos arregalados denunciavam tanto espanto quanto minha mão sobre minha boca. Sentia meu coração bater louco em meu peito.Fernando. Nós costumávamos brigar muito. por favor! ± Quase implorei ± Eu vou te contar tudo. foram mais rápidos do que os reflexos de meu raciocínio.Fernando. inflamados por minhas emoções. Fernando estava nervoso. E eu havia esbofeteado Fernando.Custa a minha confiança em você. Eu já estava nervoso. a tez bronzeada de seu rosto começava a ficar avermelhada. tô falando que vou te contar. ficando de pé ± Tô falando que vou te falar. não desejávamos que fosse expresso. cacete! Espera! .Ai. só espera um pouco até« . Meus instintos. nunca havíamos trocados socos. Mas nunca nenhum de nós havia agredido o outro. eu já havia desferido um tapa de mão aberta em cheio na face esquerda de Fernando. se saía. Fernando continuava com o rosto virado para a direita. espantado. Guilherme! ± Arregalei os olhos.Qual a porra do drama de falar agora.Por quê?! Pra dar tempo de você inventar uma boa história e mentir na minha cara de novo?! Não me agüentei. me escuta! ± Berrei. mas nunca saia da agressão verbal e. caralho! ± Recolhi a mão assim que havia percebido o que havia feito. E foi quando o gringo soltou sua última frase que eu perdi as estribeiras. chutes ou tapas.. Vi uma das mãos grandes cobrir a face estapeada. que era pra ser a sinceridade! .Porra. apesar de nosso inconsciente estar gritando. quê que custa esperar?! . caralho?! . e lentamente a .

já que ambos sabíamos como completar aquelas palavras. As sobrancelhas arqueadas como que em dor. inconsolável. não tentei impedi-lo novamente. O loiro desviou os olhos para o lado. A boca estava semi-aberta. Primeiro sorriu de nervoso. baixando um pouco a cabeça. Sentei-me na cama. e só depois de um bom tempo o gringo piscou os olhos. o loiro saiu de nosso quarto. de seus olhos. e embora quisesse desviar meus olhos de Fernando.Fê. ou se foi você querer continuar mentindo quando eu sabia que você« Ele se deteve. intensa ± Se foi você ter mentido pra mim. ligeiramente trêmulas. mas eu mesmo me boicotei« Pus tudo a perder« Acabei piorando a situação. Segurando a maçaneta. gordas e silenciosa.Fernando! . levantei. limitei-me a acompanhá-lo com os olhos e.cabeça virou na minha direção. como se Fernando estivesse procurando a resposta em algum lugar de seu campo de visão. Respirava com dificuldade. Senti meu corpo tremer. Quando se levantou. eu« Calei-me assim que ele voltou o olhar para mim.Eu realmente não sei o que dói mais« ± A culpa tomou-me. e eu ficara feliz de saber que Fernando gostara tanto da noite passada quanto eu. o que me fez passar as mãos nos cabelos e segurar minha cabeça. e também desnecessário. . ³Não. como que espantando as lágrimas para conseguir enxergar alguma coisa. mas depois meneou a cabeça em negativa. as esferas incrivelmente azuis arregalavam-se para mim. Os glóbulos não se fixaram em nenhum lugar. certamente indo para o de visitas. e consegui chegar a tempo na sala antes que o gringo saísse de casa. Quando tirou a mão do rosto. Decidido. os olhos alagados e o rosto vermelho. nossos olhos se encontraram. distingui com tristeza as marcas dos meus dedos. parecia penoso demais terminar a frase. pensei comigo mesmo. assim que ele parou ao batente da porta. A quietude me dava a sensação de vácuo. O que eu estava fazendo?! O que eu havia feito?! . . e vi quando lágrimas escorreram. isso não pode ficar assim«´. mas não consegui sair da posição em que estava. Como eu pude permitir que aquilo acontecesse?! Nós estávamos tão bem. não conseguia deixar de me fixar no belo rosto.

Abracei meu corpo. vi que suas coisas ainda estavam em nossa casa.Você agüentaria três minutos. tentando ao máximo me convencer de que. não sabia se de nervoso ou de ter conseguido que Fernando me ouvisse.Três dias. ele não precisava ficar para ouvir a resposta. Afinal. se Fernando havia parado para me escutar. e voltei a olhar para o loiro. e me apoiei à parede. Massageei minhas têmporas quando sentei na cama do quarto de visitas. Guilherme. engolindo a tristeza. Cocei a nuca. . se eu mentisse pra você? Depois disso. mas não ousei chorar ou ficar mais abatido. como que tentando manter a calma. Fernando saiu de casa. Mas só fui me acalmar mesmo quando. Os dias seguintes seguiram-se apáticos. . -« Não sei se consigo esperar tanto. ± Fernando baixou os olhos para os próprios pés. então eu que arcasse com as conseqüências.É.Desculpa« -« . Fora eu o responsável pela merda toda. chegando ao quarto de visitas. depois os voltou para mim.O loiro parou. até que o tronco torceu-se e os olhos de um azul impressionante novamente se focalizaram nos meus. Olhei para cima. . Fernando e eu não nos falávamos: ele não puxava . Ouvi-o respirar profundamente. era uma pergunta retórica. Comecei a hiperventilar. meio sem jeito. certamente estaria aberto para uma nova conversa. depois sentei com as pernas esticadas. Fê« ± Quase suplicava. suspirando.Só espera um pouco« Só mais um pouquinho« -« Até seu aniversário? . notava-se que estava cabisbaixo.

« Mas tô indo mais porque você parece estar com problemas. que pareciam tão seguros de sua decisão. Pensei em chamá-lo. ou talvez o gringo simplesmente estivesse cansado dos últimos dias. então toquei seu ombro. e sorri de leve. Antes de sair da sala. Enzo tocou-me as costas.Eu vou. ao fim da aula. uma manhã cinzenta indicava que o dia 27 do décimo mês seria chuvoso. Tentei não me importar e. Passou uma das mãos nos cabelos. pois estava chegando o mais tarde possível. acariciei a pele exposta e ele finalmente trouxe o corpo. voltou-os para mim. se levantando e indo para o chuveiro. quando estava para me levantar.assunto. Ele estava deitado de lado. Encarei por alguns segundos os olhos castanho-esverdeados de Enzo. . afastando-os dos olhos e. Encaramos-nos por instantes e Fernando virou a cabeça.Oi? . -« Hãm? . Enzo achou meu comportamento estranho. ficando de barriga para cima. mas fiquei na dúvida se seria melhor apenas tocá-lo. Não consegui copiar direito a matéria naquele dia. Talvez o despertador não tivesse funcionado. Enfim. . . depois de esfregá-los um pouco. Acordei. depois que eu já havia me deitado para dormir. e eu não conseguia começar a falar de nada. reparei que Fernando ainda dormia. .Guilherme. mas não ousou perguntar coisa alguma.No seu aniversário. Como não houve reação.Valeu. e consegui o caderno de Túlio emprestado. eu notei. já que o meu tinha apenas alguns fragmentos soltos.

não vou esconder nada. Era uma abertura para que eu pudesse falar.Eu sei que você vai ficar puto comigo. .Umas oito. -« ± Voltou a escovar os dentes. Fernando bochechava. e parou exatamente com a escova no canto direito da boca. e fomos de minha sala até o apartamento em silêncio.Que horas? . quando percebi. Mas eu prometo. passando os dedos para ajeitar os fios loiros.Hoje. Enzo passou por mim e.Tá. -« . depois que eu te contar o que era. Aproximeime dele. Até mais. Fernando já estava à minha porta. Secou a boca. cuspindo e limpando a escova de dentes. segurei sua mão.« Eu vou te contar tudo. Antes de ir para o consultório..Tchau. depois parou de frente para mim. Ele ainda escovava os dentes. . . . Almoçamos em casa. depois que todos forem embora. .Tá. e decidi que estava na hora de quebrar o gelo. sete e meia« Apareça quando puder.

Mas alguma coisa você vai fazer.Não muito bem.Era isso. mesmo. ± Sorri de lado ± Acabei magoando o Fernando. De súbito. Desviou-se de mim. Já estava para apertar o botão da campainha quando me perguntei o que estava fazendo lá. certo? ± Pisquei. . e saiu para trabalhar. . Igor me encarou ininterruptamente. vi que ele levava a carteira nas mãos.Não sei« ± Respondi.. ± Colocou o copo na mesa de centro ± O que eu quero saber é o que vai fazer agora? . . Já ao final de meu suco. . Comemos um lanche da tarde. . achei melhor dizer alguma coisa. encarando as esferas de esmeraldas ± Ainda mais num dia como hoje. eu pensativo com meu suco de laranja e Igor.Não muito.Mas e você? Hoje é seu aniversário. . acordei e fui ao apartamento ao lado. Mesmo depois de Fernando deixar o apartamento. Sabia que o moreno queria me perguntar o que estava acontecendo.Isso qualquer um suspeitaria. fiquei ainda um tempo parado no mesmo lugar. os olhos instigantes pousados de mim. mas Igor nunca me obrigaria a dizer algo que não queria. sinceramente ± Acho que é mais uma das muitas vezes que eu fico perdido depois que brigo com ele. Antes de pensa em qualquer resposta. e acabei indo com ele à padaria.Faz o que você quiser. se você está perguntando da briga que tive com Thomas. a porta se abriu e deparei-me com o moreno de olhos verdes e barba por fazer. não está nem um pouco animado? .Como estão as coisas? .

Você sabe que é desnecessário eu falar isso pra ele. . Apesar de não demonstrarem abertamente. que imediatamente abraçou-me com um dos braços compridos.Espero que você consiga conversar com ele lá em casa. Guilherme. Qualquer pessoa conseguiria ler suas emoções. Deixei um bilhete. ± Disse. mas« nada mais animador que isso. . sabia que os irmãos estimavam muito um ao outro.Tentei.Honestamente? ± Meneei positivamente a cabeça ± Não muito. Igor não era muito de demonstrar sentimentos. . eu sei. Vez ou outra a gente se cruza. .. ele estava sensível. . ± Arqueou as sobrancelhas. sentando ao lado de Igor. Levantei. ± Recostou a cabeça.Também espero.Chegou a falar de meu aniversário? Não consegui falar com ele esses dias. . mas eu me surpreendi em como. Recostei-me em seu corpo. deixando minha cabeça em seu colo enquanto ele acariciava muito levemente meus cabelos. pois depois de tanto tempo brigado com o irmão. naquele momento em especial.Mas você tenta falar com ele? . Sei que ele não agüenta minha insistência. numa expressão única de sofrimento ± Espero desesperadamente para voltar a falar com ele. e por Thomas também. suspirando ± Mas ele foge de mim. mas agradeço a oportunidade de ter um assunto para tentar um contato. ± Ergui a cabeça para encarálo.É. ± Aconcheguei-me ao sofá ± E você? Algum progresso? -« Quase nulo. Igor estava transparentemente infeliz. como se estivesse muito cansado ± Não me recordo de ter ficado tanto tempo brigado com Thomas. Fiquei triste por ele.

Olhei o relógio em meu pulso. . fica. .Thomas. Como nenhum dos dois falou. Espero vocês hoje. Fiquei sem jeito. mas ele nada expressava. Já estava pra sair quando Thomas agarrou meu braço. heim? -« Oi. Thomas irrompeu pela porta.Fica. por favor«! O olhar do moreno estava baixo. e« . . . . além de abatido. para que pudessem aproveitar a oportunidade e conversarem.Hum? . eu vou indo.Fica. Os irmãos estavam evitando-se ao máximo. eu« Eu preciso ir.Claro. Thomas! Faz tempo. Ainda segurava a maçaneta quando se petrificou ao ver a mim e a Igor.O barulho de chaves ecoou pelo apartamento.Oi.Bom. Olhei para trás. direcionado para algum ponto entre nossas pernas. procurando o rosto de Igor. ± Seus olhos estavam tristonhos. Guigui« ± Notei que estava um pouco incomodado.Guilherme. já havia passado tanto tempo?! Quando menos esperávamos. mais tarde. e talvez minha visita tenha feito o moreno mais velho esquecer de que era hora de sair de casa. como os de uma criança perdida. Arrumar as coisas. ± Assentiu Igor. . Não queria ficar . decidi que era hora de ir embora.

Apoiei-me no encosto da cadeira. arregalaram-se brevemente. Vacilei por um momento. Deixei a casa de meus vizinhos e voltei para meu apartamento. Os olhos verdes. Desculpe. ± Desabafei. ao abrir a porta. ele brincava com as fitas do pequeno presente. Frente a ele.Boa noite. encontrei Fernando sentado à mesa da sala.Thomas.Obrigado. Fechei a porta. me encarando com tamanha intensidade que cheguei a ficar confuso sobre o que o gringo estava de fato sentindo. . -« . .no meio do desentendimento dos irmãos. . isso me basta. Você tá aqui. ± Acabei soltando casualmente. que antes repousavam sobre o pequeno quadrado embrulhado. mas tô guardando o dinheiro pra« .« ± Usei o tom mais compreensível que pude ± Eu não quero ficar me metendo.Queria ter comprado algo melhor. Fernando mordeu os lábios inferiores. Os glóbulos oceânicos. calmamente direcionaram-se para mim. Fê.Tudo bem. um pequeno embrulho quadrado preso por um laçarote vermelho. ± Entregou-me a caixinha. Qual foi a minha surpresa quando. . tão verdes quanto os de Igor.Boa noite. mas também não queria que eles continuassem brigados. ± Olhei diretamente para ele ± Eu não me importo. Feliz Aniversário. passando a chave. indo para a cozinha e pegando um copo de água ± Sei lá. . depois se voltaram para o irmão sentado no sofá. o jeito que eu te tratei« . depois me aproximei dele.Tive receio de você não vir. mas decidi que era hora de arrumar as coisas para receber os convidados. ± Sorri com o tamanho do presente.

± Virei para olhar o gringo apoiado à parede ± Eu ainda quero saber o que fez você mentir pra mim.Agora. tirando a fita e o papel colorido. . um copo de mate em suas mãos. . Fernando veio logo depois. Nada muito pomposo. Pensei em chamar Marina. Seus braços cruzados denunciavam que o loiro ainda estava chateado comigo. afinal. . Sorri.Não parece. mas além de não sermos muito chegados. e o tal assassino poderia estar de olho nela.Eu não esqueci isso. Todavia. e mais. me deixou mais relaxado. Também telefonei à Flora. convidei Túlio quando pedi seu caderno emprestado. Por mais que não fizessem as pazes. . o qual eu havia telefonado logo depois de conversar com Fernando.Né?! ± Aceitei o copo que me foi oferecido. . é! Desculpe. Enzo havia confirmado a presença.Ah. E eu falei que ia te contar. Do bolso. havia duas abotoaduras prateadas. depois que todos fossem embora. ela estivera comigo no dia de meu pequeno acidente. -« Então. puxei a caixinha. foi fácil fazer de nossa casa um salão de festas.Eu sei disso. só o fato de ele falar comigo. assim como o doutor Rafael. me comprar um presente. Estava todo suado. já que nem sair para fazer estágio eu podia. e resolvi ir para a varanda me refrescar um pouco. mas a arrumação diferente fez com que houvesse mais espaço para melhor acomodar as pessoas. Por fim.. que ficou toda empolgada por ser lembrada. mas dá um puta trabalho fazer essas coisas. imaginando onde poderia usar aquelas coisas. ± Fernando encostou-se ao parapeito ± Não vai abrir o presente? . poderia ser perigoso. eu sabia que os irmãos compareceriam. só falta tomar banho e se arrumar. Confortadas em uma confortável armação. o que você tá planejando fazer? Com a ajuda de Fernando.

São de prata. ± Observou. ainda. Ouvi Fernando remexer as roupas. . o que me acordou e fez com que o gringo reparasse que era observado. e um sorriso fraco. porém sincero. uma camisa de manga curta preta com um pequeno símbolo no peito esquerdo. as expressões de Fernando amenizaram-se. olhei para o relógio e vi que precisava me apressar. por ainda estarem molhadas. Topei o pé numa das cadeiras da sala.. aproximando-me um pouco ± Espero ter a oportunidade pra usálas. mechas douradas mesclando-se a outras que.São bonitas. confirmando que viria e se desculpando por ter que aparecer em trajes de trabalho. impecável: a camisa social azul claro realçava extremamente seus belos olhos azuis. seria pedir demais para tomarmos banhos juntos depois de um desentendimento.É? ± Sorri para ele. Quando cheguei à sala. já que ele sairia direto do hospital. surgiu em seus lábios. ainda molhados. Era o doutor Rafael. a calça preta deixava suas pernas mais longas. Notando meu olhar. os convidados começaram a chegar. Depois da breve conversa. mas não ousei me virar. Pouco tempo depois. Separei minha roupa. Ainda me vestia quando senti a fragrância inebriante invadir minhas narinas. mas tudo bem. . e me decepcionei um pouco. Fernando já estava sentado no sofá. um atrás do outro. se o telefone não houvesse tocado. eram de um loiro escuro. Obrigado. já que nem banho eu havia tomado. e os sapatos negros brilhavam nos pés cruzados. apoiando o rosto numa das mãos. estavam cuidadosamente despenteados. . Os cabelos. Ele saiu do quarto e eu me permiti girar para sentar e amarrar os tênis. Fernando já estava debaixo do chuveiro. no banheiro social. -« Você entendeu o que esse presente quis dizer? -« Hãm? O loiro continuaria falando. uma calça jeans azul marinho e meus tênis. e me apressei no banho.

eu« Eu peguei seu endereço lá na imprensa« Não sabia que você estava dando uma festa. Vez ou outra os trios mudavam e passavam a ser duplas ou quartetos. Fernando pediu licença e. Thomas foi o segundo a chegar.Não. campainha tocou. Flora tocou a campainha.« Eu sabia que a Flora ia te ver. apenas com o movimento dos lábios. fomos abrir a porta. mas consegui disfarçar bem. tudo bem. que me ligava do sul do país para me dar os parabéns. junto a mim. ± Sibilei. me empurrando para que eu ficasse escondido à vista de quem quer que fosse. foi a vez de meus pais.Primeiro foi Enzo. arregalando os olhos. para a minha surpresa. ele me devolveu o olhar confuso. afinal era o seu aniversário e. não queria que Fernando percebesse. e o doutor Rafael veio logo depois. Uma terceira vez o telefone tocou. Depois. e então o telefone tocou. Thomas estava conversando com Enzo e Flora. Túlio chegou alguns minutos mais tarde. . todos estavam conversando o mais descontraidamente que podiam.Marina?! ± Fiz com que Fernando saísse da frente. . . . mas a pessoa do outro lado da linha nada respondia. nem fiz nenhuma cara. Foram quinze segundos de conversa. franziu o cenho e abriu a porta. Tudo parecia bem.Você chamou mais alguém? ± Falou. Não me importei. mas para seu alívio.Oi! Hãm. e Igor também passou por minha porta. voltando a conversar com meus convidados.« Essa é a casa do Guilherme? . Alguns segundos. O gringo olhou pelo olho mágico. enquanto que Igor falava com o doutor Rafael e Fernando. bem. Também tive que agüentar a Karina.Hãm. Era o Dan. desculpe. Olhei automaticamente para o loiro. . Mas. eu« Pode entrar. e esse o tempo de meu pai e minha mãe juntos.Pois não? . e por fim. No meio de apresentações. . ninguém.Não. Desliguei.

mas eu mesmo estava surpreso com os acontecimentos. então. e Fernando e eu voltamos a nos olhar. Percebi uma ponta de impaciência no gringo. vai sobrar pra mim. mas Fernando já havia escutado. ± Declarou. você sabe que« . embora sua única reação fora sair de perto assim que ouviu que Marina havia falado. irritado. Comecei a ficar com dor de cabeça. Novamente. acabei de sair lá do consultório. tá! ± Fernando agarrou o braço daquele enjoado de olho puxado.Fernando. e você sabe o que aconteceria se« Oh. ± O loiro estava enfadonho. a campainha tocou. é verdade. essa fui eu quem não esperava. O loiro voltou a olhar pelo olho mágico. e reparei que tinha umas fichas que você não tinha acabado de completar.. Eu . Quando abriu a porta. Conversamos um pouco. bufou e apoiou a cabeça na porta. . Marina me abraçou. Igor e Enzo olharam para mim.Desculpa. desconfiados.Tudo bem! ± Me apressei. levando-o até a mesa da sala.Tá. Já estava para trancar a porta quando a campainha voltou a soar.Eu sei que você foi lá um dia desses.Ih. e Fernando levantara os olhos dos papéis para me encarar. mas o senhor Colin não« . uma festinha! Não acredito que você não me chamou! Onde estão os strippers? . ± Debochou ± Mas eu realmente preciso que você complete esses relatórios ou então. entregando-me um embrulho macio.Eu lembro de ter falado que era aniversário do Guilherme. Nada de strippers. . deparei-me com Ricardo. Ricardo. e fiquei aliviado de minha colega de estágio não tocar no assunto daquele dia. .

e não parecendo se importar muito com o gringo. mas precisamos novamente de sua colaboração. . . é? ± O loiro recusou a mão estendida do detetive. .Detetive? ± A voz de Fernando era áspera. já era tarde demais.Ah. Lá estava o exótico detetive. ± Falou. . . franzindo o cenho. detetive Abikair. mas não consegui ser mais rápido que as palavras daquele homem. O gringo deixou Ricardo e seus papéis para verificar quem era. Batidas na porta. agarrei a maçaneta para abrir logo a porta. e me fez apertar os olho e encolher os ombros.Esse eu não conheço. ± Estendeu a mão de cobre para cumprimentar Fernando ± Sou responsável pela investigação do caso cujo criminoso feriu Guilherme.Sei que é seu aniversário. ± Disse. . distingui a fisionomia da pessoa que eu menos queria ver naquele momento.Boa noite. os olhos em fúria dardejavamme. sempre muito sério.não queria acreditar no que estava acontecendo. e tremi levemente. . mirando-me com aqueles olhos profundos que me tragavam para dentro de suas íris arroxeadas. Guilherme. Vê se você sabe quem é. Um calafrio percorreu a minha espinha. Voltou o rosto para mim.Detetive Brenno Abikair. em seu tom tipicamente formal ± Desculpe vir sem avisar. .Guilherme. Quando eu abri a porta. sou eu. Fechei o olho direito e. pelo olho mágico. mas imprevistos me forçaram a pedir que me acompanhe agora à delegacia para um segundo depoimento.

Arriscaria dizer que. Isso só provou que a ironia do destino pode ser muito mais pesada e cruel do que se imagina. O gringo estava indo em direção ao corredor. corpo escultural e feições belas. havia Ricardo. Acho que foi muita sorte não ter surtado. Afastei-me.Larissa?! ± Fernando só conseguiu dizer. e a maioria dos convidados voltou-se para nos olhar ± ³Novamente´. do outro. Flora e Marina. fartos e dourados.É. Em menos de meia hora. a irmã mais velha de Fernando parecia ter descoberto nosso refúgio. quase nos chocamos. eu poderia justificadamente enlouquecer. e olhei pelo olho mágico. porém belo. Ainda havia o detetive Abikair. Fui mais rápido do que ele. E pra completar. Larissa. escondendo meu rosto. Fernando voltou-se rápido para mim. parece que a festa tá boa mesmo! Deu pra ouvir sua voz lá do saguão de entrada! Extravagante como sempre. Fernando?! Não consegue ser discreto! . porém bronzeada. mas minha situação com Fernando não estava das melhores. . membros logos e delgados. Cabelos loiros.. e eu já estava para segui-lo quando. pra completar a catástrofe. Guilherme?! Apertei os olhos. a figura que eu menos desejava encontrar naquele momento.E eu achando que não dava para piorar« ± Acabei soltando. só faltava mesmo o senhor Colin aparecer junto com o assassino. na certa querendo se fechar um pouco no quarto ou no banheiro. Por que diabos estava ocorrendo tudo aquilo justo naquele momento?! Eu não me importava por ser meu aniversário. Ninguém mais conversava. e foi no silêncio que aquela mulher entrou por minha porta. . e abri a porta. E começou meu inferno. porque do jeito que as coisas estavam. desacreditado. e eu sabia que ele pensava que fosse quem fosse. Era demais para minha cabeça. mais uma vez. representando o perigo que a imprensa era para mim. O sorriso de lado esboçado na boca de lábios rosados e pronunciados era debochado.³Novamente´?! ± Fernando se alterou. Era alta para uma mulher. levando uma de minhas mãos às têmporas. a campainha tocou. ele havia descoberto tudo o que eu estava escondendo. né. olhos azuis que chegavam a doer ao se destacarem em sua pele clara. era mais uma coisa que eu havia escondido dele. Seu semblante era de fúria. De um lado. . mais uma vez atrapalhando minha vida ao não desgrudar de meu namorado.

petrificado demais pela situação.Eu te falei. Abikair parecia não se importar nem um pouco em estar participando no palco daquela trama dramática que se formava na minha sala de visitas. brilhavam como diamante. compartilhando de sua preocupação. cólera. Lalá! ± Era a voz de Ricardo.Larissa era uma figura luminosa. surpresa e. Enzo também foi capaz de capturar a densidade do momento. girar a cabeça para encontrar os olhos de Fernando. incredulidade. mais cortantes do que nunca. . que associei ao de Larissa. Marina olhava-a de soslaio. profundos.De cara é pouco. na certa roendo umas das unhas pintadas de rosa-choque. Ricardo apenas esboçava um sorriso triunfante. As mãos estavam brancas. mágoa. Os olhos oceânicos. Os olhos. é aqui que você tá morando?! ± Exclamou Larissa. esvoaçavam a cada movimento seu ± Mas eu não esperava mais do que isso vindo de você. Era um misto de extrema irritação. tão dourados como ouro. de tão rígido o punho fechado. pegando-me de súbito. por incrível que pareça.Então. não parecia que todos aqueles sentimentos pelo gringo sentidos eram direcionados. Estranhamente. . Seria muito difícil definir em poucas palavras o que as expressões do loiro esboçavam. indignação.« ± Larissa avançou para mais perto de todos. panaquinha. mas eu não ousei olhar na cara daquele japonês dos infernos ± Te falei que você ia ficar de cara! . como também o resto de meu apartamento. Eu mal podia respirar. na certa tentando me acalmar. trêmulo. os cabelos longos e loiros. Sentindo-se observado. as esferas azuis voltaram-se para mim. mas não pude deixar de. tão azuis quanto os de meu namorado. Os irmãos estavam tensos. ódio. fleumaticamente. quebrando o gelo do silêncio que se formara desde sua chegada ± Que lixo! Eu não acredito que você trocou nossa casa por esse barraco. honey*! . Não pude me mexer ou falar. dardejavam não só as pessoas à sua frente. e o doutor Rafael se esforçava em transmitir normalidade. Flora levara uma mão à boca. para não dizer descarregados. As sobrancelhas estavam tão arqueadas no cenho franzido que mal se distinguia o início de uma e o término de outra. Túlio estava perdido. a mim.

pendurada num dos ombros delineados e escondidos pelas fartas mechas loiras. Notei que o detetive Abikair erguera uma das sobrancelhas. com tanto ódio.Pelo visto.Que diabos você tá fazendo na minha casa?! ± Nunca. ouvira a voz de Fernando carregada com tanta ira. e ele engoliu em seco. os olhos pequenos se arregalaram.Eu tô aqui porque o Paulo quer você em casa agora. seus olhos apertavam-se para o detetive. tive medo de olhar para o loiro novamente. Mas nem precisei me virar e encarar meu namorado para entender o que se passava em sua cabeça. Percebi movimentos atrás de mim. ele fez questão de se manifestar. ³panaquinha´ era o apelido carinhoso que a irmã de Fernando dera ao caçula. né? . Mas Larissa não pareceu se abalar. Parece que um casal amigo dele vai jantar lá em casa e quer conhecer o filho varão da família. ± Da bolsa prateada de marca. em todo o tempo que estivemos juntos. não sei se podia ou se queria impedi-lo de fazer alguma loucura. me tirando do transe e acordando-me para a situação-limite em que se encontrava. já que um tá morto e o outro é meia vara. .Você não vai fumar na minha casa! ± Esbravejou o loiro. Larissa puxou um isqueiro e um maço de cigarros ± Meio difícil. . senti que ele queria falar alguma coisa. e vi Flora segurar Marina perto de si. Estava quase irreconhecível ± E que merda você tinha na cabeça quando inventou de dar o endereço daqui pra ela?! Consegui ver Ricardo desfazer o sorriso. e ainda que continuasse mudo. Meu queixo ainda caído. .

enquanto eu me virava para o loiro com o olhar quase suplicante. porque. muito embora. eu soubesse que esse fosse um feito que já atravessara até as barreiras do impossível. Fernando tombou a cabeça para o lado. Levantou as sobrancelhas. muito pelo contrário. ± Abraçou a cintura estreita com um dos braços. no mínimo. a irmã do gringo sustentou um olhar impaciente.Nossa.Não é isso que o Paulo falou. e foi com esse movimento que eu finalmente comecei a me mover. voltando a guardar seus pertences.Eu não volto praquele lugar. suavizar a situação. já deixei isso bem claro da última vez que tive lá! . Tive que obrigar-me a sair do torpor que me havia acometido para que conseguisse.Larissa. não vou violar a santidade do seu chiqueirinho! . apoiando uma das mãos na esguia cintura ± Não precisa repetir. como se fosse difícil para ela que alguém tivesse esquecido quem ela era. não é? Os olhos azuis e cortantes direcionaram-se para mim. Era estranho ver alguém que não se intimidava com Fernando. que drama! ± Larissa ergueu as mãos enquanto revirava os olhos.. vamo logo que eu já tô cansada de ficar bancando de babá o tempo todo pra um mané feito você. abrindo um pouco a boca em anuência. Estalando os dedos. Larissa parecia fazer pouco de toda e qualquer reação do gringo. o cotovelo do outro apoiado ao primeiro ± Agora. . .

. como eu esperava que fosse. .Me dê um minuto. Girei em meus calcanhares. -« Vem. Larissa seguiu o irmão. me desculpando e pedindo para que continuassem a aproveitar a festa. Avancei em sua direção. mas ninguém acreditou muito. para que os demais não vissem que eu o havia agarrado pelo cotovelo. Fiquei próximo a ele. meus lábios crispados e os olhos duros. depois virei para o indivíduo inconveniente próximo à mesa de jantar.O que acha que está fazendo? ± Desafiou-me. mas sustentei o olhar firme para ele ± Por favor. e apesar do esforço que expressava.Fernando. já falo com o senhor. leva sua irmã pro quarto de hóspedes e converse com ela lá.Você vem comigo. chegando perto o suficiente para que o detetive Abikair ouvisse meus sussurros. . Ele assentiu com graça. Respirei profundamente. ± Disse apenas. . ± Notei que Fernando estava pronto para soltar sua indignação sobre mim com todas as descobertas. e eu me senti atraído por seu cavalheirismo notável. Tentei tranqüilizá-los com um sorriso forçado. Virei-me para meus convidados. Mas eu não estava no humor.. Um problema temporariamente resolvido.

± Sorriu. Guiei Ricardo sem jeito nenhum para o corredor.Não sei do que você tá falando. . . .Qual o meu problema? Qual é o seu?! . Fiquei encarando-o por algum tempo aquela figura deplorável.Qual o seu problema? ± Acabei soltando. apoiando-me na porta de minha casa. fazer dele o meu saco de pancadas pessoal. ± Cruzei os braços.Bom. ± Desconversou. depois de um suspiro. . Você acha que me afeta com essas coisas. seja como for. minha paciência parecia ter ressurgido das cinzas.Lá pra fora. olhando-me com antipatia. Agora. cansado demais e pronto para despejar nele toda e qualquer frustração. quem vai acabar sozinho no fim das contas é você. eu tô falando sério.Não. é dizendo que Fernando não tá te agüentando mais. Ele se desvinculou de mim. Felizmente. debochado. Massageei brevemente as têmporas.Você não sabe do que tá falando. . não eu. Se posso ser sincero com você em algum ponto. mas você acaba é atingindo o Fernando. . dissoluto. fechando a porta atrás de mim..

me olhando com fúria. . Ele ficou quieto. .Flora. quando puder. . e aproximei minha boca ao ouvido de Flora.Agora.Não é preciso ser psicólogo pra reconhecer um doente quando se vê um. Cruzei a sala de visitas. Entrei para casa. Se não quer ficar sozinho.Olha.Não se preocupe. ± Murmurei em resposta. Se precisar. Mas me ligue. .. olhando-o de cima ± Só sei que essa sua carência não vai ser suprida do jeito que você tá querendo. mas se importa de«? ± Não precisei de mais uma palavra. e tô pouco me fudendo também. . ± Ergui meus olhos. Guilherme. mas eu tinha problemas maiores para resolver além de trocar desavenças com Ricardo.Claro. . eu não sei o que você e Fernando tiveram no passado. Eu apenas ergui uma sobrancelha. desculpe por isso. é?! ± Perturbou. não é desse jeito que você vai conseguir alguma coisa. já partindo para perto de Túlio enquanto Flora se despedia dos demais carregando Marina. virou conselheiro amoroso. riscando um pepino da lista e partindo para outro.

e finalmente me voltei para o detetive Abikair. até que os irmãos iam saindo para o apartamento ao lado com o doutor Rafael entre eles. diria até que nem estavam dentro de casa. Seus olhos pareciam querer me passar forças. Ficamos assim por alguns segundos. soltando-o vagarosamente. O doutor Rafael estava entre eles e assim que fiquei próximo o suficiente. ± Respondi. Ele e Enzo partiram. Thomas deu um passo à frente. . Se não soubesse. Puxei profundamente o ar para dentro de meus pulmões. com sinceridade. mas não sem esse último lançar para mim.. . à porta. Girei o corpo. Tombei a cabeça ao ver o médico direcionando-se ao apartamento de meus vizinhos. no momento. próximo à porta da sala. ansiosos e desconfortáveis com a presença um do outro. Igor fez o favor de tomar decisões por mim. mas eu não fui capaz de absorvê-las.Estamos indo para casa. caminhando para a entrada da varanda. ± Antecipou o irmão mais velho ± Dá pra notar a situação delicada em que você se encontra. . Ergui a cabeça. e achei estranho que Fernando fizesse tão pouco estardalhaço ao discutir com Larissa. Guilherme. ele apenas me observava. segurando-me pelos braços. um olhar significativo. Só percebi o silêncio pesadamente anormal depois que todos os outros convidados haviam deixado minha casa. Igor e Thomas esperavam por minhas palavras. Cheguei perto dele. Guilherme.Agradeço a compreensão de vocês. mas não era hora de ficar encucado com aquilo. despreocupado.Não precisa nem falar. ± Comentou meu colega de sala. o detetive ainda estava em sua posição inicial.

Desculpe pelo transtorno. o ar estava úmido. as esferas roxas voltando-se para a noite lá fora. Cheiro de amêndoas.Não esquenta.Infelizmente. . ± Voltou os olhos para mim. abrindo-os novamente e finalmente me virando para o detetive.Não pude esperar até amanhã. . o homem da pele de cobre me seguiu. com sinceridade. ± Deu de ombros.Detetive. sem querer sentindo a fragrância natural do detetive. evidenciando ainda mais a pupila negra meio a aquarela arroxeada que era seu olho. ainda sentindo seus olhos em mim ± Com ou sem você aqui. Ouvi que o detetive fechar a porta de correr atrás de si. apesar do vento cortar meu rosto e fazer com que meus cabelos dançassem ao seu bel prazer. Automaticamente. silencioso e penetrante. E respirei muito profundamente. e estávamos sozinhos novamente. Apertei os olhos. ± Chamei por sobre o ombro. suas expressões levemente curiosas. . fechando os olhos. . . agora que o céu estava limpo. Ele se aproximou de mim. A luz da lua. ± Concordei.Acho que não cheguei no melhor dos momentos. essa noite já estava fadada. Ele me fitava. refratava em sua íris. A noite estava fresca e. ± Só pude dizer.. apoiando os braços no parapeito e ficando de costas para o apartamento como eu fizera.

os cotovelos esfriando por se apoiarem no parapeito da varanda. o seguia. Larissa. sua voz grossa e potente era ainda mais sedutora. Abikair. e notei que ele se absteve de puxar de seu bolso interno o pequeno bloquinho e a caneta que eram demarcados em seu peito esquerdo.Por favor. me odiando por conseguir notar tudo aquilo na situação em que estava. tinha sua beleza exótica ainda mais evidenciada. interrompendo-nos apenas com um estrondo vindo de dentro do apartamento. ± Cortei. colando nossos braços. esquecendo brevemente que Fernando estava com a irmã no quarto de hóspedes e de como articular palavras. Escondi meu rosto em minhas mãos. o detetive venceu a distância existente entre nós. cada elemento de suas feições evidenciado pelo conjunto de luzes e sombras proporcionados naquela posição diante de uma noite escura iluminada por uma lua quase cheia. Fiquei um pouco atordoado com aquela visão.Não tem problema. Gritos furiosos ecoavam pelo ambiente. que parecia ter perdido toda a compostura. Agora que murmurava.. Fernando atravessava a sala de visitas. podemos ir à delegacia« . apesar de inteligíveis de onde eu estava. tão furiosa quanto o irmão. suas feições esboçando ira como eu nunca havia visto antes. A pele. Com um passo. Podemos conversar aqui. não.Se preferir. à luz do luar. Abikair me fez uma série de perguntas. . parecia reluzir como seda ou cetim. Fiquei agradecido por isso. respondendo tudo o que o detetive me perguntava. . Os dois saíram de casa. Revirei os olhos para mim mesmo. Repassamos algumas coisas. as esferas ainda mais expressivas. virei meu corpo inteiro para o detetive. muito morena. Só então. e o silêncio voltou a reinar.

até que senti o toque em meu ombro. Novamente.Fiquei sem palavras e. detetive. em tão pouco tempo. Se preferir. Abri a boca. apesar de ter a impressão de que o detetive Abikair chamava por meu nome. confuso. não era uma boa ocasião. Quem poderia ser? Já estava para atender quando a mão grande e espalmada de Abikair me deteve. Olhei para ele. . Eu já estava exausto demais para me desgastar com apreensão por antecedência.Definitivamente. olhando-me fulminantemente. e notei sua . para que tudo mudasse de uma noite presumivelmente agradável e sem muitas surpresas para uma circunstância excessivamente catastrófica? Por alguns segundos ainda fiquei perdido em meus pensamentos. .Já disse para não se preocupar. erguendo levemente as sobrancelhas ± ³Detetive´ dá muita bandeira. sabia que depois a conversa com ele ia pegar fogo. Ouvi batidas na porta. ³Abikair´. Concordei com leves movimentos. O que havia acontecido? O que eu fizera. encontrando os olhos preocupados do detetive. ± Pediu. cansado. ± Declarou o moreno. Virei o pescoço. não consegui nem responder nem me mover. Consegui deixar Fernando de lado.Vamos entrar. Fechei os olhos. ± Balancei a cabeça. jogando a cabeça para trás. . o detetive me acompanhou e aceitou o copo de água que ofereci.Me chame de ³Brenno´. . mas não consegui dizer nada e me limitei a suspirar. me alertando.

Igor só pôde sorrir. um pouco sem jeito ± Acho que me preocupei à toa. Mas não tem muito que vocês possam fazer por mim. . o detetive aproximou-se do olho mágico. mais precisamente sobre um de meus mamilos. .Eu agradeço. Com uma rápida olhada. Abikair. . o nome e os dados de Igor. Fosse que fosse. ± Declarei. . Por sorte. . ele não percebera. Desencostando-se de mim. parecendo memorizar. Implorei para que ele não tivesse percebido como ele havia acordado e enrijecido subitamente. era ele quem iria checar. pensamos que« ± Deu de ombros. além da fisionomia. apoiando-me ao batente da porta da cozinha ± Esse é um de meus vizinhos. ± Assimilou. agora. em tom de desculpa. . Os morenos trocaram um olhar que me pareceu ligeiramente cúmplice.Não está interrompendo nada. ± Disse. Abikair afastou-se o suficiente para abrir a porta e Igor entrar.Desculpe interromper.Certo. Parecia temeroso de ter sido seguido. Igor. apenas com aquele toque.preocupação. e meu vizinho aproximou-se vagarosamente de mim. Mas o pior era que sua mão estava exatamente sobre meu peito. uma mão próxima ao flanco onde eu julgava estar uma arma.Precisa de alguma coisa? Ouvimos Fernando sair.

não podia fazer muito por eles. mas suspirou e olhou para além do corredor. O moreno me encarava com as esmeraldas enigmáticas. .Acabou que estamos obrigatoriamente juntos no mesmo lugar.. e Igor pareceu entender meus receios. . levemente dando de ombros ± Mas não sei o que fazer. um sorriso discreto nos lábios bem definidos. Ainda que acostumado com sua proximidade. Passei os dedos nos cabelos. a situação não me permitia muita liberdade para tentar ajudar outros com seus problemas. Bufou. podia sentir facilmente sua respiração quente e compassada e ver cada nuance da cor de seus olhos verdes e vivos. um tanto humorados. Meu meio sorriso fez com que os olhos de Igor baixassem. Além disso. O moreno sorriu. Sem subterfúgios. Principalmente de Igor. aproximando-me da porta de meu apartamento enquanto automaticamente o detetive Abikair se afastava para o centro da sala. coçando a nuca. tirando-os de minha fronte. O rosto de Igor estava a centímetros do meu. Aproveitei a oportunidade e perguntei o porquê de o doutor Rafael ter acompanhado-os ao apartamento. na mesma hora. não pude deixar de sentir minhas bochechas esquentando.Receio que tirei proveito de toda a situação. Lancei um olhar rápido para o detetive recostado a uma das paredes da sala. nem desculpas. um pouco incomodado. ± Igor ergueu as sobrancelhas. depois me beijou a testa. já seria intromissão ao extremo. meu vizinho voltando a erguer o tronco. segurando-me por alguns instantes. Esperei que ele falasse alguma coisa.Acho que complexado atrai complexado. Não gostei de ouvir aquilo de Igor. Franzi o cenho. Ele depositou cada mão em um ombro meu. . Entretanto.

Igor. ± Estancou por alguns segundos ± O que você precisar. Fiquei surpreso quando notei o detetive repetindo minhas ações. -« Que bom. Fiquei um pouco perdido em mim mesmo. aproximando-me dele mais do que normalmente faria. mas em vez de sentar. ao mesmo tempo contido por a etiqueta condenar os curiosos aos assuntos alheios. optei por escorar as costas na parede e escorregar até o chão. A calça social marcava bem os músculos largos e destacados de suas coxas grossas.Eu sei. Oportunidade de ouro. Caminhei até o detetive. Continuei com uma mão à maçaneta e a outra espalmada na folha de madeira por algum tempo. e embora uma vontade louca de recostar-me àquela pele brilhante e aparentemente quente começasse a me tomar. e fui prudente em desviar os olhos do corpo do detetive para a luminária da cozinha. e apesar da falsa aparência letárgica. Abikair me olhava curioso.. Com um último sorriso. finalmente saindo de minha posição anormal e voltando ao mundo real. Minha mente estava levemente estuporada. Eu sempre corro pra lá.« Estamos aqui ao lado. o que não era nada usual de Igor. você sabe. mantendo a outra dobrada para apoiar um dos cotovelos. minhas sinapses se faziam com mais rapidez do que eu podia esperar. Acho que é assim que se sente quando se fala em ³banho de água fria´. Estiquei uma das pernas.Eu vou indo. o moreno deu as costas pra mim e entrou em seu próprio apartamento antes que a porta de minha casa escondesse o corredor. uma hora ou outra. ele permaneceu agachado sobre as pernas dobradas. O espaço entre meu peito e o braço dele era ínfimo. . .

.Não me chame de ³senhor´.. ± Novamente deixei que meus lábios se alargassem. . essa noite já estava fadada. . Um misto de compaixão. ± Sorri com o comentário de Abikair. descobrindo que ele também me encarava. também. sem nem conseguir piscar.Como eu disse antes.Sinto muito por estragar seu dia. senhor Abikair. ± Manifestou-se o detetive. Sua voz saíra mais delicada que o usual. Agora que me demorava mais no rosto do detetive. . detetive. depois de longos minutos de silêncio.Desculpe. de todos os problemas que eu já tenho. Fiquei preso pelo magnetismo de suas íris arroxeadas de tão azuis. Voltei meus olhos para os de Abikair. . percebia que ele estava com expressões diferentes das outras que eu já havia visto. a presença do senhor aqui é o menor. Não quero ser um estorvo.Não me chame de detetive. -« Acho que já tenho o suficiente por hoje.Acredite. .

Malditas bolas de neve. Peguei-me imaginando o que Abikair queria precisamente me dizer com suas expressões. E era incomum.Acha que amanhã poderá comparecer à delegacia? . Era estranho.Certo. apoiando-se mais à parede. Mas ele desviou os olhos dos meus. é o mais certo a se fazer.Pode não parecer. . a inusitada proximidade que mantínhamos um do outro. A sensação que eu tinha era a de relaxar facilmente. ± Foi a vez dele de sorrir fracamente com o comentário. refletindo suas reais emoções. que essas exatas emoções fossem a mim direcionadas pelo detetive. . mas eu não gosto de misturar meus pepinos. e eu tive que acompanhar seu gesto. como alguém que fecha os olhos e . para não dizer estranho.« Malditas« . . Abikair deixou que a coluna se desenrolasse.É.Eu não percebi se o senhor« ± Notei seu olhar e corrigi rapidamente minha falha ± Se você ligou pra cá ou pro meu celular. .compreensão e pesar transbordava facilmente de seu semblante bronzeado. Concordo com a estratégia. e ao mesmo tempo agradável.

Novamente um barulho. porém. Mas devia ter feito isso. ele me ensinara a manejar o 38. bem« Abikair aparentava em suas feições exóticas extrema frieza. Minha garganta ficou seca. engolir me parecia ser um tremendo esforço. prevendo que eu estava prestes a levantar. uma quietude mórbida que me agonizaria muito menos se não tomasse a tensão que o homem ao meu lado exalava pelo ambiente. O silêncio reinou novamente. o suor frio parecia se formar promiscuamente em minhas têmporas. Voltando as aquarelas para mim. ao que me pareceu. . mas acredito que tal idéia já teria passado pela mente do detetive. Não foi difícil identificar a origem dos estranhos sons como vindas do corredor além da folha de madeira escura. e andando devagar para não provocar suspeitas. e flanqueando a sala de visitas. tomando cuidado. fitando os próprios pés ± Acabei me deixando levar num rompante. puxou ar para responder. Devagar. Abikair foi se aproximando da porta de entrada. ainda conseguia ver o . Abikair apontou a cozinha. mas eu só conseguia pensar em como os nós dos meus dedos estavam brancos de tanta força com que fechava meus punhos. tranqüilidade ou hormônios sexuais. para que sua sombra sob a luz da sala não o denunciasse.Não. não cheguei a ligar. nem a primeira que eu havia visto em ação. dessa vez mais baixo. Como um felino. escorei-me à parede.deixa-se guiar cegamente por outrem para atravessar uma rodovia movimentada. Não era a primeira arma que eu havia visto na vida. Em seu caminho. Abikair postou uma mão em meu ombro. A mão foi ao flanco novamente. e sido desconsiderada por um conjunto de fatores que eu particularmente não conseguia enxergar. e no cativeiro de Henrique Sardenberg. o detetive esgueirou-se até ficar ao lado da porta. Olhou profundamente em meus olhos. certamente. uma pistola grafite com o punho negro e. Comecei a sentir o pulsar incômodo em meu pescoço. Não sei ao certo se o que o detetive exalava era segurança. O detetive havia tomado mais fôlego para continuar sua fala. ainda que você não atendesse. quando ainda morava com meu pai. Com os olhos ainda voltados para cima. com o pente completo com suas 8 balas. ± Baixou a cabeça. Se não estivéssemos em silêncio. Alerta. e eu entendi que deveria ficar onde estava. em minhas mãos. talvez não o tivéssemos percebido. mas um barulho chamou nossa atenção.44 Magnum. dardejou toda e qualquer entrada de ventilação que meu apartamento possuía nos cômodos que seu raio de visão lhe permitia verificar. Pensei que seria melhor termos continuado a conversar. e com ela veio uma Desert Eagle . Como a abertura na parede era larga.

. Piscou de leve. Abikair respirava mais rapidamente do que jamais havia notado. não via a vida inteira passar pelos olhos. ainda mantendo-me deitado ao chão com uma das mãos morenas espalmada em meu abdômen. Qual foi minha surpresa quando. algo se chocou contra minha porta. E então. e mesmo naquela situação. Arregalei os olhos quando notei o rosto de Abikair voltado para mim. pensando em como os segundos se arrastavam nas horas mais críticas e se era só eu quem. Fiquei esperando. o detetive não se moveu um milímetro sequer. Enquanto batia a cabeça no chão frio da cozinha. compreendendo todo o significado que aqueles ruídos poderiam representar para mim: ³Acho que ele me seguiu´. A pistola ainda em sua mão esquerda. só consegui pensar em como era tentador beijar a pele bronzeada de seu pescoço parcialmente desprotegido. envolvendo-me com seus braços e escondendo-me sob si. e sibilou algumas palavras. Seu cenho franzido e os olhos inquietos denunciavam a vontade de pensar rápido. muito embora ser fácil de notar que sua atenção estava em algo mais. na tentativa tola e frustrada de me proteger da eminente explosão. o corpo grande e pertubadoramente quente de Abikair deitava-se sobre o meu. Sentia o cheiro da pele do moreno sobre mim adentrar minhas narinas sem dó. Todo o sangue de meu corpo pareceu se concentra em minhas víceras. como quem quer que estivesse lá fora pretendesse denunciar sua presença. pensei. ao morrer. e rezava pela segunda opção. Ele me lançava um olhar penetrante e urgente. e eu sabia que meu peito não estava muito diferente. Gelei ao ler seus lábios. Fechei os olhos. levando uma mão à boca para contar qualquer reação de surpresa antes que ela realmente se manifestasse. Habituado ao trabalho. encontrei o detetive ao meu lado. pronto para ter sua integridade física maculada. Os glóbulos azulões do detetive dardejavam para todos os cantos nos raros intervalos que me arriscava a abrir os meus. o rosto tão próximo de mim que podia sentir seu cheiro de amêndoas. ao abrir os olhos. ou se fora apenas força do hábito do detetive. ansioso e temeroso por ele. era só isso que acontecia. Aos poucos. Entretanto. o corpo de bronze foi se descolando do meu. Soltei a cabeça. e antes que pudesse me refrear. e então a colisão de corpos. e uma sensação de torpor enjoativo me tomou. Tocou as costas na aresta atrás de si. na qual eu me sentia estranhamente o local da briga. me perguntando se minhas suspeitas estavam certas. Mas só o que ouvíamos era o som entrecortado de nossas próprias respirações. O som de passos começou a ecoar pelo corredor. Uma brincadeira de gato e rato. Explosão essa que não chegou. como que processando alguma coisa.detetive agir. que me despia e bambeava os joelhos. ³Uma bomba´. Abikair continuou com os olhos em mim. ao passo que eu pulei no lugar. Nada mais. Passos. já levara as mãos à cabeça.

arregalando os olhos. O detetive baixou a cabeça. me deixando ainda mais sensível ao seu cheiro ± Não saia daqui até eu vir te buscar. e meus olhos não paravam em nenhum ponto fixo. mas eu provavelmente o havia deixado em meu quarto. deitado.minhas mãos parcialmente suspensas por não saber onde colocá-las. de qualquer maneira.Fique aqui. Fernando! . sumindo do meu campo de visão. o detetive Abikair ficou agachado e foi para a sala de visitas. ± Ele suspirou. Fernando. aproximando seu rosto do meu muito rapidamente. E. um leve tremor atravessando a espinha. cada vez mais nervoso. Sentia que suava frio. Não conseguia piscar. sussurrou ao pé de meu ouvido. . Tentei me distrair com alguma coisa da cozinha. Permaneci como estava. E. à procura de meu celular. e deitado. mas nada havia garantido que estava fora do prédio! Ele poderia muito bem tê-la apenas acompanhado até o carro e já estava no caminho de volta! E se houvesse acontecido alguma coisa com ele?! E se ele estava ferido. Fitava Abikair com gravidade. ou sendo ameaçado?! Poderia ter sido seqüestrado?! E se tivesse sido pego como refém?! Não havia preço no mundo que eu pudesse trocar pela vida de meu namorado! Apalpei os bolsos. Comecei a hiperventilar. embora eu fizesse força para respirar. Onde Fernando estava?! O loiro havia saído com a irmã. de barriga para cima. Engolia em seco. nem preciso falar que eu não tinha. Senti sua respiração quente e acelerada tocar minha bochecha. Eu já volto.Fernando«! ± Murmurei. Fernando ainda não possuía celular. não consegui puxar ar algum quando foquei o pequeno Gato Félix e sua maleta amarela feitos de massa de modelar. o sangue ainda concentrado no centro de meu corpo. frenético. pois nem os movimentos de Abikair eu conseguia ouvir. esperando alguma informação dele que pudesse me apaziguar e me tirar daquela tensão que não me abandonava com o pesado silêncio que reinava em meu apartamento. piscando muito e sentindo a garganta arranhar cada vez mais doloridamente. O número de Larissa. Sem promessas ou garantias. eriçando meus pêlos da nuca aos pés e. e meus olhos pousaram nos imãs da geladeira. . o que me fez fechar os olhos e entreabrir meus lábios. com a voz mais rouca e grave que o normal. O silêncio me assustava. assustado. as mãos agora se assentando sobre meu peito.

me encararam com censura. um dedo apontando para a cozinha.Você está dificultando o meu trabalho aqui. não«! Meus vizinhos! Como estariam Igor e Thomas?! Teriam sido eles afetados?! E se a bomba não pareceu surtir efeito porque. sentido algo que denunciasse algum efeito. eu sentia a extrema necessidade de saber como e onde meu namorado estava. explodira em outro apartamento?! Seria possível?! Não.Eu preciso encontrar o Fernando. E o doutor Rafael também estava lá! O que seria da pequena e meiga garotinha ruiva e mirrada com os olhos da mãe. decidido a me levantar. Meneei negativamente a cabeça enquanto ele ditava alguns comandos à pessoa do outro lado da linha. na verdade. ± Declarou. nós teríamos que ter ouvido alguma coisa.Ah. mas sua mão havia se fechado de tal maneira em meu pulso que eu não conseguia me desfazer de seu agarrão. ± Já o meu tom era urgente. não! Não. sua testa se vincando com minha desobediência. . . Guilherme. . que morava na Austrália?! Isso não podia estar acontecendo! Isso não podia acontecer! Não por minha causa! Eu não queria nem pensar que alguém havia se machucado por minha única e exclusiva responsabilidade. as palavras de Abikair fluíam com certa irritação de seus lábios tentadores. E eu me sentia cada vez mais agoniado com os segundos preciosos que se passavam diante de minha imobilidade. trazendo-me de volta para o centro da sala. O detetive levara o telefone ao ouvido quando me aproximei dele. primeiro sobressaltados. Já estava para abrir a porta quando sua mão livre agarrou com força meu punho. Tentei me mover novamente. Fechando o flip do celular com um dedo. Mordi os lábios. nervoso.. o moreno exótico permitiu-se direcionar toda a sua atenção para mim. e seus olhos. um tom levemente impaciente em sua voz grave. e com movimentos pouco lentos fiquei de pé. Apoiei-me nos antebraços.

Não posso mentir que o alívio que senti me renovou. Ainda estava colocando o copo na pia da cozinha quando mais uma vez senti meu corpo ser lançado . juntando minhas sobrancelhas. Como ele poderia ter tanta certeza de que estava tudo bem com Igor. me questionando se fora algum dos homens de Abikair quem fizera aqueles barulhos. O apertão em meu pulso afrouxou. me sentindo mais tranqüilo. tomaram parte de minha atenção. Analisando-me com olhos críticos.. Thomas e o doutor Rafael? Alguma coisa no modo como ele sustentava o olhar me fez dar de ombros e jogar a cabeça para trás. . não me pareceu absurdo confiar nas palavras dele.Não. .Tenho certeza de que ele está bem. o detetive pareceu menos tenso. por um momento. ainda que um pouco inquieto pela prévia situação.Seus vizinhos também estão bem.Tem alguém no corredor? ± Lancei a pergunta. Era engraçado pensar que o detetive estaria mandando algum torpedo para um de seus colegas. um pouco confuso. ao ponto de bambear minhas pernas e me fazer suspirar. e pude me mover até a cozinha e pegar um copo de água para mim. . Levei uma mão à testa. Depois de tudo aquilo. minha garganta doía com os arranhões de tão seca. um tanto baixos. Ouvi-o tomar ar. ± Balançou o celular algumas vezes ± Não estamos sozinhos. Franzi o cenho. Sons eletrônicos. Ainda está discutindo com a irmã frente ao prédio. talvez por notar que minha preocupação iminente havia acabado de desaparecer.

fazendo com que o ar ficasse turvo e visível à luz da noite. enquanto eu preservava-me petrificado. todos os meus sentidos voltaram. Primeiro aquela surdez incômoda. apenas um pensamento de alívio: ainda bem que não havia mais pessoas em minha casa. Minúsculas partículas de pó dançavam lentamente sobre meus olhos. Vi-o passar os braços em volta de mim e trazer-me para perto de seu próprio corpo. Felizmente. e minha reação automática foi praguejar enquanto levava uma mão ao local dolorido. latejando pela pancada. seus olhos estavam desesperados como eu nunca havia visto. Um tremor tomou conta de minhas mãos. um zumbido estranho e contínuo tomou meus sentidos e. Pereceu-me uma eternidade até que minhas sinapses nervosas fossem concluídas e eu pude entender o que ocorrera em meu apartamento. havia sido seguido. Mas dessa vez não consegui sentir o doce cheiro de amêndoas que despregava dele. e minha atenção voltar-se-ia para os danos produzidos. da cozinha e da varanda não mais iluminavam os respectivos cômodos. ao que tudo indicava ele. Tive receios de abrir os olhos ou de parar de agarrar-me a Abikair.«! Foi a última coisa que eu consegui escutar. tudo ficou silencioso. embora eu conseguisse ver Abikair mover seus lábios.ao chão sem meu consentimento. E só depois de perceber isso. as lâmpadas da sala. o cheiro de demolição. Estranho.Guilherme. . madeira e gesso na boca. Meu ombro bateu doidamente. avassaladoramente. de fato. tentando pegar o detetive com a guarda baixa. Depois. E quem quer que estivesse espreitando havia esperado pela melhor hora para fazer seu movimento. A consciência de mim mesmo e da mudança no ambiente se arrastava por mim. Sabia que o torpor que estava sentindo logo passaria. os olhos espremidos de tão fechados. Abikair não fizera mau julgamento. pois eu tinha certeza que não conseguiria suportar que outros passassem pelo que acontecera. agora a falta de olfato. voltei minha atenção para o cenário que se formava para além do detetive. minha visão ainda funcionava. supersensíveis. No fundo de minha consciência. e a reação automática foi abraçar o corpo sobre mim. Senti o gosto de poeira. De súbito. Escondi minha cabeça naquele peito largo e quente. os sons de estilhaços ainda em queda e minhas mãos fincando-se nas costas do corpo que me protegia. Por alguma razão. .

mesmo assim« Eu me sentiria culpado. quando menos pude esperar. levantando levemente as partículas de demolição assentadas no piso do cômodo. . Uma emboscada. O nervoso me fazia tremer. Minhas mãos ainda se vincavam as costas do detetive. Meneei a cabeça negativamente. Apoiei meu tronco na baixa divisão entre a área e a cozinha. precisava chegar até o pequeno banheiro ao lado do tanque e nos esconder. acabamos por limpar o pó que havia se assentado por todo o lugar. e um chiado acompanhava cada invasão de ar nos pulmões colados em meu corpo. Vi-o balançar a cabeça e. e olhei para o caminho por mim feito. e meus olhos continuavam cerrados como se minha vida dependesse da privação de constatação do dano em minha casa feito. os cabelos escuros esbranquiçados por uma fina camada de poeira. Suspirei ruidosamente ao acabar de puxar suas pernas. Mesmo se Ricardo e Larissa estivessem em meu apartamento. Minhas pernas estavam ainda no ritmo do torpor anterior e não queriam se mover. Senti o ombro alvejado latejar doloridamente. Um suspiro chamou minha atenção. O que fazer. puxei a nós dois para a pequena área além da cozinha. E eu morreria do mesmo jeito: com um buraco de grosso calibre bem aberto em minha nuca. mas nem isso impediu de se notar perceptivelmente a trilha que deixamos. Os sons foram se apassivando. seu corpo tombou ao meu lado. e me parecia que a qualquer momento alguém me surpreenderia com algum impacto. O choque do detetive com o chão da cozinha produziu um baque maciço. o que fazer?! Não havia armas em casa. Levei um choque. Um filete rubro e rutilante riscara o rosto de bronze polido. mas mordi os lábios para conter o urro de dor que por pouco não escapou. exatamente como devia ter acontecido a Henrique Sardenberg. O resfolego intensificava-se a cada momento. espremendo os olhos com a força e a dor por mim desprendidas para arrastar o corpo inerte do detetive. mas não me preocupei com isso na hora. Com o braço bom. passando os braços por baixo dos seus. e a atmosfera de estrago pareceu tranqüilizar-se numa mórbida serenidade. O pavimento da cozinha era do tipo perfeito para enganar a sujeira. e meu corpo resolveu voltar a se mexer. Um estalo me fez abrir os olhos. fechando novamente os olhos. e levantei a cabeça para mirar Abikair. e não conseguiria pegar qualquer faca ou cutelo sem despertar um quarteirão inteiro. e o puxei para cima de meu próprio corpo.não conseguiria me perdoar se algo acontecesse aos meus amigos e colegas. o desespero a poucos segundos de me tomar por inteiro. Agarrei Abikair pela cintura.

Peguei-me arregalando os olhos. . que saiu mais forte do que eu pretendia. e eu levei uma mão à boca. Eu estava borrando de medo. O barulho arrastado tomou conta do silencioso ambiente.Pode falar. quase que literalmente. responsável Alfa Bravo. só quem tem sangue frio para esse tipo de coisa consegue manter a cabeça no lugar.Passos.Explosão de pequeno porte no aparelho 673. e eu temia que até os meus vizinhos pudessem escutá-lo. Como ele descobrira?! Não era possível que ele tivesse seguido Abikair com o exato intuito de me encontrar. dessa vez com movimentos mais rápidos. . aqui é Delta Bravo. ³Ele vai me achar. Não conseguia pensar em nada. copia? . Não adiantava tentar ficar calmo. Apertei mais os olhos. ainda incomunicável. meus móveis. O coração pulsava louco em minha garganta. . apenas no desespero pavoroso que me acometia diante da iminência da morte. ± Respondeu uma voz feminina eletrônica que eu julguei ser de um rádio transmissor. me obrigando fortemente a respirar sem fazer qualquer ruído. Quem quer que fosse voltou a se mexer. como se abri-los muito pudesse me fazer capaz de escutar melhor. seu nome não fora divulgado em nenhum lugar! Os passos cessaram.Central. nessas horas. A incerteza do destino é algo assombroso. como que a procura de algo. ele vai me achar!´. só podia pensar. o detetive ainda desacordado recostado sobre meu ombro. a ansiedade me desesperava mais do que tudo. Tentei engolir a saliva. Ergui a cabeça. mas a garganta pulsante continuava seca e arranhando. Parecia remexer minha casa. Meu foco ia se perdendo a medida que a quietude novamente reinava. Soltei devagar a expiração. Delta. Ele não podia saber quem era Abikair.

central.Confirma. ± Pediu a voz eletrônica. esquadrão anti-bombas na dianteira. . Delta e Kapa Bravo.Positivo. O detonador já foi ativado.Alguma estimativa do tipo de explosivo? ± Pediu a mulher.Certo. aguardando segundo contato. Operação ³Israel´.. . aparelho 673. Beta. líder Alfa Bravo. ± Pediu com enfado. . destacamento Alfa. procure por Alfa Bravo. e eu ouvi o homem bufar. Delta Bravo. estalando a língua ± Delta Bravo. . Delta Bravo.Um momento.Provavelmente caseiro. central. .Suspende o esquadrão.Reforço à caminho. . confirma? . . central. central.

. perguntei a mim mesmo. . O alívio era revigorante. E eu não podia deixar que nada lhe acontecesse de ruim. Ainda travava uma das minhas mais árduas batalhas internas quando o homem em minha casa voltou a andar. .Já está a caminho. -« Hunf! Os movimentos se interromperam quando eu deixei que um reclame de dor atravessasse minha garganta. Eu confiava na sorte e denunciava a minha posição. bem« Estávamos salvos. a cabeça tombando levemente: estava salvo. Mande uma ambulância.Não podia ser uma emboscada. era muita coisa para pegar um peixe pequeno como eu. apressou-se em nossa direção. Delta. Deixei que meu corpo relaxasse.Central. o que vai ser?!´. certo? O cara não podia ter todo esse trabalho só para me apanhar. Puxou um pequeno rádio do bolso. encontrei Alfa Bravo. certo? Não. acreditando ser aquele homem o fim de minha vida? Meus olhos voltaram-se para Abikair. ainda desacordado. mas também pareceu amolecer cada músculo meu. ou continuava escondido. ³E aí. Ele não tinha culpa de eu ter me encontrado com o assassino de Henrique Sardenberg. Se fosse realmente alguém da equipe do detetive. curvando o corpo grande e encarou-nos por alguns segundos. Mas se não fossem« Eu só esperava por uma morte rápida. dessa vez mais pausadamente. Ele. expirando longamente. o sangue vertendo generoso do lanho na lateral de sua cabeça. assim como meus amigos. quem quer que fosse o Delta Bravo.

que ainda não havia me movido um único centímetro de minha posição inicial. Fiz como o homem mandou. Com o braço bom. Virei levemente o corpo. colocando-a sobre o rasgo na pele bronzeada. Um pensamento me passou pela cabeça. sentindo o braço que me fora alvejado doer de súbito.Ele. .« Ele não« . .Pressione aqui. o cenho franzindo-se cada vez mais.Você está ferido? ± Veio a pergunta. que me angustiava a cada segundo com seus olhos permanentemente fechados.Não. Levantou-se rapidamente. puxando uma das toalhas de rosto que estavam penduradas no secador da área de serviço.Deixe-me ver« O homem certificou-se de não mexer muito no detetive Abikair.. . Os olhos castanhos e opacos voltaram-se para mim. Sua expressão não foi das melhores. Puxou um lenço do bolso. em dúvida ± Mas ele tá com um machucado sério na cabeça. ± Pediu. um tom de preocupação e urgência tomando sua voz. apertei a toalha contra a cabeça do detetive. virando-o apenas o suficiente para examinar mais atentamente o talho muito próximo ao supercílio do detetive. . tentando limpar um pouco do líquido rubro da testa de Abikair. Acho que não« ± Concertei a resposta.

± O homem captou minha intenção ± Mas vai. pouco se via. eu não via nem esboço. quando me dei conta do que acontecera com meu apartamento. Meu braço estava realmente doendo. Eu fora covarde demais para admitir isso para mim mesmo. mas naquele momento de ³liberdade mental´. e o homem se afastou para continuar a se comunicar pelo rádio. o resto era desconforto muscular pelo choque inesperado contra o chão. Da mesa. o que estava feito. se a ambulância não chegar aqui logo. embora as pernas das cadeiras se sobressaíssem nos escombros. Eu não consegui me prender às suas palavras. nem a mim nem àqueles próximos a mim. mas tirando isso. a ³neblina´ das partículas de poeira ainda dificultavam a exata percepção do que havia na sala. Eu nem sequer pensara nas conseqüências que aquela ação poderia causar. não consegui parar de pensar no quão idiota eu fora. assumindo meu lugar. Além da cozinha. seus restos ainda permaneciam escorados na parede próxima ao acesso ao corredor. A tela da televisão estava trincada. Era óbvio que alguma coisa errada iria acontecer. A perna estava dormente. e pela película branca e pegajosa sobre o estofado. e eu não pude recusar sua oferta. A porta havia sido destruída. impressionado com a eficiência com a qual o sangue de Abikair havia manchado minha blusa. mas nada que umas batidas no chão não resolvessem. O sofá estava chamuscado. por atos impensados e já cometidos.Acha que pode se levantar? A voz do homem me trouxe de volta à realidade. concluí que o homem havia apagado algum fogo com o extintor. estava feito.-« Não. Não era hora de se remoer. bem como o pequeno aparelho de som . Mais precisamente para quando o senhor Colin me mandou entrar naquele apartamento. Ainda batia minhas roupas. novamente. Meneei positivamente a cabeça e. . e minha mente começou a viajar para longe. Entretanto. o homem pressionava o machucado de Abikair enquanto eu levantava. não. Assenti com a cabeça. para o passado. e me peguei na dúvida.

ao voltar para a cozinha e encarar o homem que trabalhava com o detetive.Desculpe. demorando-me brevemente no trincado na porta de vidro da varanda.que costumei a deixar na sala. . ± Adicionei. Baixei a cabeça. Estalei a língua. . eu preciso saber alguma coisa do que acabou de acontecer. Apesar da pequena sujeira que os destroços de minha casa causaram ao corredor do quarto andar. direcionando meus olhos para o corredor que dava acesso aos quartos. o apartamento ao lado estava intacto.Meus vizinhos« . Não é nada que você não possa me falar. felizmente.Tudo ao seu tempo. caminhei até a porta de meu apartamento. . aquela parte não parecia ter sido atingida. Num estalo. -« O que você quer saber? Continuei sustentando o olhar opaco daquele homem de feições duras. cansado demais para lamentar pelos estragos e aliviado o suficiente para agradecer por estar vivo. Deixei que meus olhos vagassem pelos destroços que há pouco tempo formavam minha sala. . posso perguntar algumas coisas? ± Disse. segurando o braço que ainda latejava. ao notar sua relutância em ceder. ± Respondeu pacientemente.Por favor. e alguns dos artigos de decoração haviam-se quebrado. voltando-me para olhar o apartamento de meus vizinhos. Suspirei. Dois quadros estavam tortos.

. -« Obrigado. Isso já era muito bom. o homem rapidamente voltou a pressionar o talho na cabeça do detetive. Pelo menos.Alguém do prédio«? .Não. nunca quis guardar o de Ricardo. Ao remover a toalha do corte. a certeza era a de que ele não havia sofrido nada. fiz a pergunta que mais me incomodava ± Meu namorado«? . Nem ninguém do seu andar.Já foram removidos. como se não quisesse admitir o crédito da pessoa que armara a explosão tão bem. Pensando nisso. . onde consegui gazes. O corte era tão profundo que em nada pude ajudar com as provisões que havia trazido do banheiro. Foi só aqui. Eu não tinha o número de Larissa. e estão junto ao nosso pessoal lá fora. que até poderia estar com eles. mordendo-os por dentro e me segurando para manter a respiração calma. O jeito era esperar até que ele desse notícias.Já havia saído com a irmã antes da explosão. Puxei os lábios para dentro. e sentindo que a preocupação ia diminuindo. ± Falou com certa amargura. faixas e remédio para tentar ajudar Abikair. mas presumindo que tudo o que o detetive sabia era compartilhado com seus homens. consegui me locomover até o banheiro. e Fernando ainda não comprara um celular novo. -« ± Por um momento hesitei em pronunciar aquelas palavras. O tecido .

copia? . os olhos de um castanho incomum. . Kapa falando.antes tão alvo agora se tingia de um vermelho rutilante. Em menos de um minuto. ± O homem voltou a puxar o rádio ± Delta Bravo para Kapa Bravo. Delta. ± Respondeu o rádio.Copia. mais baixo do que eu.Sobe aqui que não sei quanto tempo ele vai agüentar. após alguns segundos de chiado. . surgiu à porta de meu apartamento. Sua figura era um tanto ordinária.Espero que não. que saltava a vista e despertava enorme desconforto. mas seus traços de pessoa normal marcaram minha memória. A blusa preta acompanhava a calça jeans de um azul muito escuro. .Acha que vai demorar muito pra ambulância chegar? . a cabeça raspada denunciava que fazia menos de dois dias que ele havia cortado o cabelo. Delta.Afirmativo. tão destacados que quem não prestasse atenção falaria que ele estava usando lápis de olho e lentes de contato. outro homem. ± Veio a resposta rápida. . Sua pele era marfim.

± Comentou Souza. Os lábios abriram um sorriso no rosto ameno. com características tão comuns. mais grave do que eu previa ± Você está bem? Só consegui menear positivamente a cabeça. O homem baixou.Sabe onde está Souza e Abikair? ± Limitei-me a apontar com o dedo ± Certo. e só agora eu reparara que havia uma mochila em suas costas.Astuto da parte dele ter um ex-paramédico na equipe. Venha comigo. ficando entre Souza e o detetive. .Guilherme. . Deixa eu ver como tá. .O moleque não brinca em serviço. vai esguichar.Se eu tirar a mão daqui. -« ± Pareceu refletir um pouco. . seus olhos opacos ainda na toalha ensangüentada.. ± Veio a voz. e ele se aproximou devagar. Segui os passos do integrante Kapa da equipe do detetive. poderia ser tão marcante. . Souza. um pouco surpreso de ver o quanto uma pessoa normal. um pouco aflito com a situação em que Abikair se encontrava. a testa de marfim se vincando ± Espera um momentinho. fique junto de nós.

Rapidamente.Quando eu disser ³vai´.Tirou a mochila das costas. e ouvi alguns estalos vindos do apertar de seus dedos. . os olhos castanhos se voltaram para mim. pegou-as e as deixou na barriga de Abikair. Enquanto suas mãos continuavam em ação. Pressionou a toalha contra o ferimento de Abikair.Guilherme.Certo. alongando rapidamente o pescoço. puxando forte para que a gaze pressionasse tanto quanto a mão de Souza o fazia.Huff« ± Suspirou mais uma vez ± Vai. Ao enxergar as gazes e as faixas que eu havia trazido. depois a tirou. Pressionando as gazes sobre o talho. . fechou os olhos por alguns instantes e voltou a abri-los. . a outra mão amparando a cabeça. o homem levou o objeto metálico à fronte do detetive. o tal artefato era um tipo de grampeador. Suspirou. ± Levantei as sobrancelhas para indicar que estava ouvindo ± Pode me arranjar uma toalha maior do que essa? . puxando um pequeno aparelho metálico de dentro. . o homem habilmente enfaixou a cabeça de Abikair. Souza fez como o homem havia instruído. você aperta bem forte e tira a toalha. Olhou para Souza. Ao que me parecia.

Virei as costas, correndo para o armário do quarto de hóspedes e peguei umas das toalhas na prateleira de cima. Voltei correndo, entregando-a para o homem, que agradeceu com um meneio de cabeça e um sorriso brando rápido. Dobrando uma parta da toalha, o homem colocou-a sobre a cabeça do detetive, segurando suas laterais para que a pressão sobre o machucado fosse maior.

Ouvi o som da sirene da ambulância, constatando que o carro branco iluminado chegara ao espiar pela janela. Vi o alívio pairar nas expressões dos dois homens; realmente, Abikair era muito querido entre os membros de sua equipe.

- Central para Delta Bravo, copia? ± Voltou a chamar o rádio.

- Copia, central.

- Qual a situação de Alfa Bravo?

- Estável. ± Repetiu Souza, ao ler os lábios do homem ao seu lado ± A ambulância já chegou.

- Certo, Delta Bravo. Operação ³Israel´ no aparelho 673, encerrada. Câmbio final.

Souza guardou o rádio, o outro homem ainda o encarava com certa expectativa. Ao notar meu olhar sobre si, tentou esboçar alguma despreocupação.

- Agora está tudo bem. ± Tentava me tranqüilizar ± Você vai precisar nos acompanhar por essa noite. Separe umas mudas de roupa, assim vai ser melhor.

Um pouco confuso, assenti, e me direcionei para meu quarto. Peguei minha mochila, coloquei algumas camisas, calças e cuecas. Joguei a escova de dente e o shampoo junto, bem como uma toalha e meu carregador de celular. No caminho, carreguei minha carteira e as chaves de casa. Ao voltar para a sala, para-médicos vestidos em branco já haviam colocado o detetive Abikair numa maca móvel e saíam de meu apartamento, um deles segurando uma bolsa de soro ao alto. Fiquei observando aquela cena, um pouco desnorteado. Foi o toque de uma mão em meu ombro que me tirou da inércia.

- Precisa pegar mais alguma coisa? ± Perguntou, seus olhos destacados me encarando com certa preocupação.

- Acho que não.

- Certo. Vamos indo?

Pensei em deixar algum recado para Fernando; acho que ele se assustaria se encontrasse a casa destruída. Mas assim que passamos pelo local onde a porta deveria estar, o policial selou a entrada com algumas daquelas fitas amarelas que a polícia utiliza para isolamento da cena do crime. Definitivamente, a equipe de Abikair devia ter vindo com

ele de outro estado; ações assim não costumavam ser vistas. O homem voltou a colocar a própria mochila nas costas, ergueu-se e bateu as mãos.

- Vamos indo?

- Ahãm.

Descíamos pela escada, já que o elevador parecia estar interditado, e me pareceu uma cena de filme quando, no saguão do meu prédio, viaturas da polícia e uma ambulância faziam o cerco da entrada como que para impedir que curiosos se aproximassem demais. As luzes ao alto e os flashes repentinos indicaram que a imprensa também sabia ser ligeira e já metia o focinho no que mal terminara de acabar. Passando-me para seu lado esquerdo, o homem de codinome Kapa colocou um braço envolta de meus ombros, guiando-me para um dos carros pretos, parado em cima da calçada. Deu a volta e sentou-se comigo no banco de trás. Identifiquei Souza próximo às portas traseiras da ambulância, e vi-o entrar antes que elas se fechassem.

- Pra delegacia ou pra pousada? ± Veio uma voz feminina.

- Pousada. ± Respondeu o homem ao meu lado.

Fiquei surpreso ao constatar que o motorista, na verdade, era uma mulher. Ela carregava um rádio semelhantes ao de Souza e do Kapa, bem como roupas escuras, mas que facilmente se misturariam com a multidão lá fora. Ela era a última integrante da equipe de Abikair, e tão logo ouviu a resposta do homem, engatou a primeira e tirou-nos da aglomeração que se formara em torno de meu prédio. Os cabelos castanhos claros eram

. . e já tinha buscado ar para formular uma resposta. o que aquela voz familiar estava fazendo ali? Ela já havia ido embora de meu apartamento fazia um bom tempo. seus olhos escuros voltando-se para mim. Já tenho tudo aqui. mas pelo menos tente entender.ondulados e fartos. mas a determinação em seu rosto tirava qualquer dúvida da destreza de seus atos. Flora. . Ela me parecia muito baixa. não acreditei.Eu sei. decididos e um pouco culpados. Eu entendo. justamente à minha frente. Guilherme. quando notei pelo retrovisor que ela direcionava seus olhos firmes à pessoa no banco do carona. ± Baixei a cabeça. depois de um tempo de silêncio ± Não me importo se você me odiar. ± Disse. Ela girou o corpo para trás. .Acha que precisa buscar alguma coisa? Primeiro pensei que ela estava falando comigo.Não. uma pequena mala ao colo. entretanto lá estava aquela mulher sentada. De cara.Olá. notando que ela desviava os olhos de mim. os lábios volumosos e as sobrancelhas finas eram muito escuras. . Afinal.

Pegamos uma estrada de chão. entregando identificações para todos ali dentro. e eu caíra em sua armadilha. Sentado a uma das mesas. Era como se tivéssemos adentrado a um andar do prédio de uma companhia grande. rodeada de quadros com folhas afixadas. me perguntei enquanto seguia Flora e era seguido pela mulher que dirigira o carro negro. Coloquei o cordão do cartão no pescoço. Nenhum deles parecia muito animado com a minha presença. Não havia mais como escapar. Mas as luzes acesas. uma sala espelhada que eu julguei ser da perícia« Realmente. próprio do estilo de construção da pousada. era o fim da linha. Vi-me cercado por outras pessoas que até então eu não havia notado. pilhas de documentos e pessoas à volta.Pegue a rua da direita. ± Disse o homem ao meu lado. O destino me dera uma rasteira. Demos a volta nas instalações da pousada. me perguntando no que aconteceria a partir daquele momento. Quando me dei conta para onde estávamos indo. que os jornais falaram que havia sido desativada por causa de falência do dono. uma mulher de cabelos castanhos avermelhados direcionou os olhos de cor âmbar e ergueu a mão para calar quem quer que estivesse falado com ela. na verdade. depois de alguns lances de escada. rastreadores. . gravadores. os fachos das lanternas que haviam sido acionadas iluminaram uma pequena abertura ao chão: um abrigo anti-bombas. ninguém pensaria que havia tanta coisa debaixo da construção abandonada.O silêncio reinou por alguns segundos. câmeras e dispositivos de alarme em sua redondeza indicavam o contrário. o carro sacolejava um bocado. A testa se . e demorou um pouco até que ele voltasse. Havia computadores. o que eles passavam era um cansaço acumulado. Uma antiga pousada. telefones. rádios. Puxei o ar com força para dentro de meus pulmões. entrei numa sala espaçosa e bem-estruturada. notei que estávamos nos limites de minha cidade. fones. ³Há quanto tempo eles estão aqui?´. Depois de uns dois quilômetros. paramos frente a uma construção de madeira. Apenas o homem ao meu lado saiu do carro quando o veículo estacionou. Arregalei os olhos quando. várias mesas.

vocês seguirão às nossas orientações. Enquanto vocês ficarem aqui. e ela levantou e caminhou até ficar próxima a mim e a Flora. Flora e eu nos olhamos. nós não saímos daqui. quase que novamente. que tal milhões delas?!´. e de uma forma ou de outra.Nós não temos a obrigação de passar todas as informações para vocês. sem questionar. espantado com o que estava acontecendo. parei para pensar. Seus olhos escanearam a nos dois. e só então reconheci a voz da mulher como sendo a mesma que era emitida pelo rádio quando Souza e o homem chamado por Kapa contatavam a ³central´. Vocês não estão autorizados a fazer qualquer ligação ou contato exterior sem nossa autorização. eu estou no comando. O nome da operação é ³Israel´.vincou. Por um momento. daí a pedirem para que pegássemos alguns de nossos pertences. vocês dois estão envolvidos nessa. Esta é uma unidade secreta montada pelo detetive Abikair. mas manteremos vocês atualizados da situação. . .Essa é a nossa equipe principal. . satirizei em meu pensamento. comigo. pois elas serão para sua própria proteção. Alguma dúvida? ³Ah.Muito bem. Aqui é nosso lugar de investigação. ± Tombou a cabeça para a direita ± Até a volta do detetive. nem podemos ser vistos. e notei que o olhar dela recaiu em mim. unicamente para capturar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. Era o olhar sustentado por alguém forte. Cocei a nuca. que parecia dar passos . e ela estalou a língua enquanto cruzava os braços.

Guiou-nos pela abertura da direita.Flora. Dando as costas para nós. Os lábios permaneciam crispados. como se ela não conseguisse relaxar e tivesse a obrigação de permanecer tensa o tempo todo. . com jeito.Certo. Pode usar tudo que tem no quarto. . Guilherme. voltaram sua atenção para os seus afazeres. o homem empurrou uma porta.« .Podem me chamar pelo nome.firmes e não deixar pontas soltas. Sobrenomes serão confusos. Franzi o cenho. sem saída. Flora não pôde recusar.Depois. você fica aqui. Apenas o homem de olhos destacadamente ordinários pareceu se importar com nossa presença. . dando-nos acesso ao que parecia uma sala de estar comum. tentando entender a informação implícita naquela declaração. Seguimos o homem para além das mesas e equipamentos. .Vou levar vocês pra dentro. passando por um corredor largo. . ± Pediu o homem. inclusive aqueles que nos haviam escoltado. Depois de entrar à esquerda. Hanna. Hanna e o resto da equipe. tente se sentir à vontade. abrindo uma das portas que havia no último corredor.

com um pouco de decoração. Notei o olhar do homem em mim. notei ± Sei que tudo está muito confuso e preocupante pra você. até chegar à última porta à esquerda. pensando no quão parecido aquele lugar era com o meu próprio quarto. . armário. O que você precisar. sem querer suspirando profundamente e permitindome.Guilherme. e observei sua expressão pensativa enquanto ele se aproximava de mim. Meneei positivamente a cabeça. Deixei-me cair na cama. . ± Isso era um hábito dele. Abikair dormirá com você de vez em quando. pela primeira vez. .« Estamos aqui pra desatar esse nó. sem jeito. ± Disse. Ele girou a maçaneta. televisão. é só nos chamar. mas o quarto dele é o da porta à frente. . escrivaninha e banheiro.Continuamos pelo corredor. e o de Souza. abaixando a cabeça.Espero que compreenda nossas medidas extremas. Era difícil acreditar a que ponto a coisa havia chegado. deixar meus ombros caírem e meu pescoço alongar. . deixando-me passar e entrar num quarto comum.Eu sei. Deixei a mochila sobre a cama. uma mesa de cabeceira.A porta ao fim do corredor é meu quarto. duas camas.

-« ± Continuei esperando suas palavras. E eu também não pude negar.Depois. Fechando a porta atrás de si. Antes. no mesmo tom que havia usado com Flora. de deixar meu quarto. Antônio me deixou naquele quarto estranho. pensando em quando eu conseguiria ter a vida normal que levava um jovem aos seus dezenove anos. e ele sorriu brevemente. porém. o homem voltou seu tronco para mim. como se estivesse se sentindo culpado com aquela situação ± É Antônio.-« Eu só queria« . ± Pediu. .

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