Os dias passaram muito rapidamente, e antes que eu pudesse perceber, a reconciliação com Enzo já havia acontecido há tempos.

Sentávamos como de costume, lado a lado, e em alguns dias, Enzo também lanchava perto de mim e de Fernando. O gringo sempre me deixava e me buscava na porta da sala, o que era fofo, mas levantava mais suspeita. Claro, eu sabia que muitos da faculdade já haviam visto um beijo que trocamos, mas não todos. E quanto menos gente para encher a paciência, melhor.

Não tirei notas muito boas, mas consegui manter-me da média para cima. Em uma matéria, eu fui para prova final, já que não consegui estudar o suficiente para passar de primeira. O ano já estava quase no fim, e faltava cerca de um mês para que minhas aulas acabassem. Meu aniversário estava próximo, o que não só indicava que eu completaria dezoito anos, como também seria o aniversário de um ano do meu namoro. Pensei em perguntar o que poderia dar a Fernando de presente para Enzo, mas depois voltei atrás; não seria lá uma idéia digna.

Durante as tardes, eu sentia falta do trabalho. Estava acostumado a ir direto para o estágio depois do almoço, e agora eu apenas colocava matéria em dia, vez ou outra parando para descansar o punho e a mente. Ainda não havia conversado com os irmãos do apartamento ao lado, mas eu sabia quando um deles estava em casa. Quando eu chegava da faculdade, Igor destrancava a porta. Ao crepúsculo, Igor saía antes mesmo de Thomas chegar, e quando o caçula botava os pés no corredor, dava duas batidinhas na porta. Era triste saber que eles não estavam se falando ainda. E que também não estavam falando comigo.

Numa noite, enquanto lanchávamos, toquei no assunto com Fernando, mas ele falou o que eu esperava que ele falasse: ³Isso é assunto deles, e não podemos nos intrometer. Não dá pra gente fazer nada´. Sabia que o loiro estava certo, mesmo porque os irmãos não nos davam muita abertura para o assunto. Uma semana antes da última do mês de outubro, entrei na casa deles. Estava tudo muito silencioso, e eu chamei pelo nome de Igor. Demorou, mas ele me mandou entrar, e eu descobri que ele estava em seu quarto, trabalhando.

Não conversamos muito; e a única coisa que conseguiu realmente tirar aquela expressão lacônica do rosto de Igor foi quando contei que já estava falando com Enzo novamente. Ele parou de ler um grande volume de folhas grampeadas, largando a lapiseira e apoiou as costas na cabeceira. Contei como tudo se desenrolou, não omitindo a briga e a reconciliação que tive com Fernando. Depois voltamos às amenidades, o que o fez baixar os olhos. E tudo ficou quieto. Pigarreei, levantando-me de sua cama.

- Igor,« Semana que vem é meu aniversário, e eu«

- Eu sei. ± Respondeu prontamente.

- Tá. E eu tava pensando em fazer alguma coisa; nada de mais, lá em casa mesmo, só pra gente.

- Isso é bom. ± Observou ± Já pensou no que quer ganhar de presente?

- Não, e nem precisa me dar nada, basta aparecer lá em casa que eu fico satisfeito.

- Mas eu não. ± Piscou, mantendo o olhar.

- Enfim,« Você vai poder ir?

- Claro. ± Respondeu, sem vacilo.

- E« Tem como você passar isso pro Thomas? ± Arrisquei falar no irmão.

Igor ficou me olhando um bom tempo, sem alterar em nada seu semblante, até que deu de ombros, baixando os olhos para o que quer que fosse.

- Não acho que vou ter oportunidade pra isso. Ele não quer falar comigo.

- Mas, não vai nem tentar?

- Eu já tentei. ± Respondeu, como se fosse óbvio.

- Ué, mas quem sabe ele pára e escuta dessa vez? Sei lá, é uma coisa que não é sua, eu quem pedi« Mas pode até ajudar a voltar aos contatos, né? E seria importante pra mim«

-« Vou tentar.

Não consegui conter um sorriso, e fui em direção a Igor. Passei meus braços por seu pescoço, apertando-o fortemente contra meu próprio corpo. Senti que ele também me abraçou, embalando-me com ternura. Um quentinho diferente do que sentia com Fernando surgiu em mim, e eu me sentia seguro naqueles braços. Levantei, mais animado, e vi um sorriso muito discreto brotar nos lábios de Igor. Conversamos mais um pouco, depois voltei para casa. Nesse dia, antes de ir trabalhar, Igor foi me dar tchau.

Thomas chegou não muito depois; arrisco a dizer que se demorasse mais algum segundo, Igor acabaria esbarrando com o irmão. Deu as batidinhas de sempre, depois entrou em casa. Fiquei pensando se deveria ir convidá-lo para meu aniversário, mas deixei que Igor tentasse mais algum contato. Acabei de ler mais algumas folhas da matéria incompleta de Enzo, concluindo que teria de pedir a de Túlio emprestada. Guardei minhas coisas, arrumei a mochila e fui ver televisão. Acabei adormecendo diante da tela luminosa, e só acordei quando senti um roçar em meu rosto.

Entreabri os olhos, ainda zonzo pelo sono, mas lentamente minha mente voltou a funcionar, bem como minha memória. Bem próximo a mim estavam os olhos azulões, penetrantes, que mergulhavam dentro de mim, me deixando sem defesa. Levei um susto, pulando para trás, e acabei caindo do sofá. Fernando correu para me ajudar, agarrando meu braço e pondo-me de pé. Balancei a cabeça, tentando colocar meus pensamentos em ordem, depois virei para o loiro; ele me olhava com gravidade.

- Gui, você tá bem?!

-« Tô! Tô.

- Que houve? Tomou susto?

Fernando me encarou atentamente por alguns segundos. e eu me repreendi mentalmente ± É. Coloquei a garrafa na mesa. Já estava colocando refrigerante para mim quando o gringo aparece. Aproveitei o tempo e grelhei hambúrgueres para nós. bem como os ombros. Você me confundiu de novo. -« Você me confundiu de novo com ele. Fernando ergueu rapidamente as sobrancelhas. um pouco receoso. Mas isso foi um breve momento. a covinha exibindo-se só para mim. mesmo« -« Desculpa. -« Hum. segurando um dos braços. e fomos para o sofá no mesmo silêncio.Do que você tá falando? .. Fernando apoiava o rosto em uma das mãos de um lado do sofá. Estava escuro. Comemos sem conversar. e pára ao batente da porta da cozinha.Só pra constar. O gringo apenas sorriu de lado. não era uma opção viável. né?! Fiquei sem saber o que falar. colocando a maionese e o catchup na mesa. Suspirei. e meneei a cabeça positivamente. finalmente sentando-se à mesa. Lancei-lhe um sorriso. né? . enquanto eu inclinava minha cabeça para trás do outro. . mas acabou beijando minha bochecha e indo tomar uma ducha.Na hora que eu cheguei.É! ± Minha voz saiu muito alta. mas notei que ele baixou os olhos. me assustei. olhando preocupado para Fernando. O que eu poderia dizer? Mentir? Certamente. e somente a televisão iluminava o .

e ficávamos apenas nós dois. apoiando o queixo na mão direita. na certa. eu sabia que estava envolvido. e já podia erguer o braço além de minha cabeça. ao me lembrar de meu chefe. De algum jeito. E com toda a pressão da televisão e dos jornais. e ninguém me procurou. Cocei o queixo. apoiei-me nos dois braços e fiquei olhando para os pontinhos apressados lá em baixo. de origem espontânea. Respirei fundo o ar da noite. ainda não podia carregar coisas pesadas. Meu ombro quase não doía mais. Um estagiário que foi ferido enquanto cobria uma fatalidade que nem a polícia tinha detalhes ainda não era uma coisa que se passava em branco. nem mesmo o senhor Colin. não pensando em nada exatamente. os carniceiros. a mídia ia descobrir o que havia acontecido. não gosto muito de ver pontos. eu fora ao hospital para conferir a cicatrização do ferimento. mas não ter que me preocupar com pontos já havia se mostrado um grande alívio. Criamos uma estranha amizade. Em duas ou três oportunidades. colocávamos a conversa em dia.apartamento. o doutor Rafael me acompanhou pelos fundos. e me peguei relembrando o dia em que fui atingido. Tirara os pontos havia alguns dias. levantei e fui para a varanda. estranhamente. Ele me ajudava bastante. Sei lá. Repassei meus passos desde a última conversa com o senhor Colin até a volta para casa. procurariam saber o que havia efetivamente acontecido. convencendo-me de que estava fazendo a coisa certa. meu salário continuava sendo depositado em minha conta no . e não precisávamos dizer diretamente que um confiava no outro. Quando Mila saía. pareceu receber o pacote de dinheiro com muita familiaridade. Aquele prédio devia estar em colapso. entretanto. enquanto que eu o ajudava com aquele complexo ridículo que ele tinha. Será que a polícia já saberia o que havia ocorrido? Era estranho. já ficava subentendido em nossas conversas. bem como o próprio senhor Colin. comecei a ficar irritado. mas arrisco dizer que foi ele quem possibilitou essas coincidências. No comercial. Como o senhor Colin podia permitir que seus subordinados entrassem na cena do crime antes mesmo da perícia? Qual seria o acordo sujo que ele sustentava para conseguir matérias e fotos mais precisas do que os outros jornais? O policial Almeida. principalmente quando Fernando aparecia no assunto. E. É óbvio. Como o doutor Rafael pedira. dobrando a coluna. O doutor Rafael nunca deixava de me implicar. nada ter vazado ainda. Dei a sorte de encontrar com o doutor Rafael em todas as vezes que fui ao hospital. os repórteres continuavam xeretando. alguém ia acabar cedendo. meu ombro ainda estava ferido por dentro. Já havia um bom tempo.

e imediatamente. Como é que a vida podia ser assim. e acabei perdendo meu ponto. ficando de costas para o mundo e de frente para casa. é muito difícil viver. apontar o dedo para seu rosto e criticá-lo um pouco. e nem Igor. Essa é a verdade. eu não podia ficar comentando essas coisas com Enzo. . Dei de ombros. E era realmente a única pessoa que me restara. Mas eu ainda não podia pegar o carro para ir tão longe. estava indo mal na faculdade. Ri tristemente. ele me envolveu. eu passava parte do dia com uma das pessoas que Fernando mais odiava no mundo.banco. muito menos Fernando. mais para mim mesmo do que para qualquer coisa. Fernando ainda estava no sofá. Mas aquele era o lugar mais esclarecedor também. e voltei para dentro de casa. para isso. tão impiedosa? Por que não podemos simplesmente ser feliz? É tudo tão complicado. e ele trabalhava o mesmo tempo com outra que era odiada por mim. tão difícil. Mesmo não precisando mais. sabendo o quanto eu ia ouvir de todos depois. e saltei do ônibus. Respirei. Nossa vida não podia estar mais tumultuada: eu corria risco de vida. Fernando apenas levantou os olhos quando me aproximei novamente. meio que tomando coragem. não conseguíamos mais sustentar uma conversa por mais de vinte segundos. Observei-o de soslaio por alguns instantes. Saí do banco. Minha esperança era que. nossos vizinhos e melhores amigos não se falavam. as coisas pudessem melhorar. Talvez muitas de minhas dúvidas e frustrações se resolvessem lá. Por um momento. quase gargalhando da minha desgraça. E fomos dormir assim. me deixariam sair de casa para isso. que me deixava exausto só de tentar encontrar alguma resposta para essas e outras muitas perguntas que surgiam em minha mente. na mesma posição. porque um assassino seqüestrador podia estar me seguindo. em meu aniversário. apesar de já estarmos nos falando. principalmente. o silêncio parecia eterno. Apertei os olhos. e me arrastei para apoiar-me em seu corpo. que estava se mostrando um ótimo amigo. pegando o primeiro ônibus que passou. e mal falavam com a gente também. Foi aí que começou nosso bloqueio: desde aquela noite. Só me dei conta de onde estava quando o ônibus fez uma curva fechada que não me era estranha. E ficamos calados durante todo o filme. e Igor e Thomas estavam distantes demais para tal. Olhei em volta. vez ou outra eu ia ao hospital conversar com o doutor Rafael. Rolei o corpo. Contudo. a maioria apenas sobrevive. Eu tinha muita vontade de ir até o escritório de Colin e enchê-lo de perguntas. e confundia meu namorado com o cara que tentara me matar. acabando por me localizar: eu estava perto do prédio do senhor Colin. pensei que eu devia ser muito estúpido para ter perdido o ponto e estar exatamente no lugar mais perigoso para mim.

Fui atrás de Flora. Mas a pequena saleta estava vazia. talvez encontrasse alguém conhecido. não me esconda nada! .Como?! .Guilherme! Eu não acredito! Como você conseguiu ficar tanto tempo sumido?! Você tá bem?! .Vi-o partir. barulhento. Flora. Fechou a porta.Eu quero saber o que aconteceu naquele prédio! ± Exigiu. o porteiro se lembrou de mim. Flora guiou-me para o que eu concluí que fosse sua sala. Antes que a porta do elevador se fechasse. Cruzou os dedos.O quê?! . antes de falar com Colin. parecia tensa em demasia. me assustando. e voltei minha atenção para o prédio familiar. .Vem! Agarrando um de meus pulsos. Pelo visto. No saguão.Conte-me tudo. passando a tranca. .Não! ± Gritou ela. eu queria saber como tudo estava. e me fez sentar frente a sua mesa. em murmúrio. do mesmo jeito que eu me lembrava. Encontrei-a no andar da gráfica. Estava intacto. entregando-me o cartão de sempre. E você. a empolgada jornalista correu e me abraçou. . e assim que me viu. notei que algo havia mudado: havia guardas de prontidão nos flancos do saguão. olhando-me profundamente. Resolvi ir direto para a sala dos estagiários. como andam as coisas por aqui? . sim. Flora já sabia. depois baixou a voz ± Não podemos falar dessas coisas aqui! .Tô.

e ela só deve ter lembrado de mim quando tudo aquilo aconteceu..Mais do que muitos. e na sua influência sobre os meios de comunicação. o que aquele homem tá fazendo! .E Vivian? . assim que me viu. Guilherme. batendo na boca por ter falado alto demais ± Não. Fiquei pensando em como o senhor Colin era capaz de fazer isso. mas a Marina« . Suspirei. . me levando para um local seguro onde pudesse descobrir os verdadeiros acontecimentos do dia da matéria sobre o advogado seqüestrado e executado. correu para falar comigo. tem coisa errada por trás! E não é de hoje! Eu preciso saber o que está acontecendo. eu sei! Eu gosto demais do Colin. mas eu já reparei. Como uma das mais antigas e confiáveis funcionárias. nem mesmo para o nosso pessoal o Colin liberou a verdade dos fatos! .Não! ± Cortou.A Marina está sendo coagida! Ela ficou no setor de montagem. Antes de você ir ao hospital e da polícia e do nosso pessoal chegar lá. mas não o suficiente. . não! Tudo foi omitido. ele não quer que a gente saiba de alguma coisa! Nunca vi aquela menina tão amedrontada! Flora parecia profundamente abalada.O que você sabe até agora? . você já sabe o que houve. Não era à toa que. Eu costumava ajudá-la com revisão de artigo.Mas então. . a Marina me ligou. é claro que ela tinha o direito de se sentir assim. ninguém vai lá! Eu sei que Colin tá fazendo isso de propósito.Eu sei que tem alguma coisa errada.Ué.

não só porque era uma pessoa boa. . ± Pareceu refletir por alguns segundos. mas dá pra saber quando ela fala menos do que o normal. como porque tinha. Conta tudo desde que você recebeu a ordem. Fiquei hesitante quanto a contar a ordem autoritária que recebi do senhor Colin.É.. talvez encontrando explicações para coisas passadas que ela nunca soube explicar. o direito de saber o que acontecia por trás dos panos da imprensa. até minha consciência no hospital. e do encontro com o assassino. depois de tanto tempo de trabalho. . Vez ou outra Flora expressava surpresa. o rosto fino apoiado sobre uma das mãos. Mas achei justo que Flora soubesse. e eu fui tirar fotos. mal piscava. a mulher continuou calada.Guilherme. -« Isso é tão«! . mas não ousou me interromper.Ele mesmo deu o dinheiro? . eu sei. Aquela mulher sempre foi muito seca e fria. Receber a informação de que se era enganado quando se ocupava um cargo importante numa empresa era como um soco no estômago. ou espanto. Olhava fixamente para um ponto de sua mesa.Ela também está escondendo. o acordo com o policial Almeida de tirarmos fotos antes da perícia. nós nos separamos. Respirei fundo. depois voltou os olhos para mim ± A Marina também não esteve com você o tempo todo. tomando fôlego. . né? .É. e contei mais uma vez toda a história. Ela ficou com a parte da entrevista. desde o momento em que recebi a ordem. Quando terminei. .Foi.Num pacote pardo. e eu via que era essa a exata sensação de Flora.

De surpreso.Fez uma careta. .Isso é ilegal! . Parecia desacreditada. mas por livre e espontânea indignação. não agora. como que resmungando a situação. como se tentasse entender como nunca aquela hipótese havia passado por sua cabeça. . você o fez! . a voz num fio. A mulher ainda me perguntou alguns detalhes. seus olhos brilhando em chamas de indignação e fúria.Mas. e eu acabei falando mais sobre meu encontro com o assassino.Está pensando em fazer alguma coisa? ± Perguntei. curioso.Não.Não sei se devo. . Voltou os olhos expressivos para mim. não é. acabei descobrindo que ela seria a pessoa quem deixaria a história vazar. ± Falei com pesar ± Eu devia ter dito ³não´. Ela apenas desviou os olhos. Pelo menos. foi fraqueza minha. Levantando as sobrancelhas. Aproveitei e perguntei se ela havia visto alguém com o mesmo perfil na imprensa. seu semblante foi passando para indignado. A resposta foi negativa. não por pressão.Isso não é ético! . e até irado. . Mas não consegui.Eu sei. .Mas você pretende levar isso à tona? Flora apenas me encarou. ou pelo menos por perto. ± Concordei sinceramente. .

eu adoro esse lugar. e por um tempo ela me pareceu extremamente tentadora. ± Piscou um olho para mim ± Não haveria problema nenhum em eu sair daqui. Encarei-os. . enquanto a outra era um pedido formal de demissão.Isso pouco me importa! ± Acabou esbravejando ± Nós estamos aqui para relatar a verdade pela verdade! Nunca. Só não sabia que eram coisas que iriam me enojar. sabe? Cheguei a fazer esse pedido de demissão formal.Você tava desconfiada de acordos há muito tempo? . Guilherme. puxando alguns papéis e jogou-os à minha frente. Ergui a cabeça.Agora.Flora abriu uma gaveta ao seu lado. Certa. não. que por trás daquele sorriso tranqüilo do Colin tinha muita coisa. eu não sei de nada. já assinado por ela.Certo.Então. já sou grandinha! .Desconfiada. . Mas eu sempre soube. E eu não preciso explicar nada pra ninguém. Eu recebi essa proposta de emprego. Tecnicamente. Só que acabei desistindo. mais do que nunca. e Flora apenas fulminava-me com o olhar. você vai mesmo sair daqui?! .Você vai mesmo acusar o senhor Colin?! Isso vai acabar com a credibilidade dele! . percebendo que um era uma proposta de trabalho numa imprensa rival à nossa. olhando para ela. afinal não tivemos essa conversa. sim. mas em branco em frente aos nomes de Vivian e de Colin. nunca eu me submeteria à artimanha tão« baixa e suja! . afinal.E você vai comigo! . certo! Já entendi! .

Flora! Acontece que tem um assassino psicopata atrás de mim. talvez me xingando mentalmente.Você está fugindo! .Flora. o cara me acha fácil! Eu não deveria nem estar aqui. vai ficar de olho em tudo que sair no jornal sobre isso! -« É. me esforçando verdadeiramente para lembrar de mais algum detalhe que eu poderia ter esquecido ou . em outra imprensa?! E ainda para revelar o esquema da pessoa com quem mais aprendi sobre minha futura profissão?! Isso não poderia nunca acabar bem. e se uma matéria dessas for publicada. Eu. você está certo. mas acabou encostando as costas no apoio da cadeira.Nós temos o dever de dizer isso a todos! . olhando-me autoritariamente. mais vagarosa e detalhadamente. ± Pareceu ponderar. eu não posso sequer estar aqui. . Pediu-me para que contasse novamente o acontecido. sua expressão determinada chegou a me incomodar. como estou! . -« E como você acha que vou poder provar que sei disso tudo?! ± Acabou soltando. porque espalmou as mãos na mesa. . eu não posso ir para outra imprensa. Só acho que. Flora! Você não precisa provar nada pra ninguém! Flora ficou quieta por um tempo. Paciente.Foi aí que o bicho pegou. seus olhos mais piedosos ± Mas eu vou revelar os esquemas com a polícia! Isso você não pode impedir! . repeti para ela.Não estou impedindo você de nada. Olhei atônito para Flora. bem« Eu não quero fazer parte disso. o que com certeza ele sabe.Você é uma jornalista.Não estou fugindo. Flora deve ter notado minha hesitação. porque se aquele homem desconfiar que eu vi a cara dele.

fechando a porta atrás de si com tamanha força que cheguei a piscar os olhos. para mim. que me olhava com muita atenção. talvez minha presença ali interessava mais do que eu podia pensar. um senhor já grisalho com vários arquivos a mão e outro. Ela resistia bravamente. Fiquei parado um tempo frente ao prédio branco e cinza. Com um aceno. Se bem que não era a vida dela que estava em perigo. e também de como o advogado havia sido encontrado. na última porta ao fim de um corredor. quase irritando a atendente. as sobrancelhas pesadas davam -lhe um ar constantemente carrancudo. sentado a um lado. pedindo para que eu repetisse quando tocava em alguma parte mais importante. entrando em seguida. para o senhor Colin. Decidido. que eu julguei ser o delegado. mas quando citei que era sobre o advogado que havia sido assassinado. depois se empertigou numa postura severa e saiu da sala. Engoli em seco. atento a tudo ao meu redor. o . Insisti. Ela anotou algumas coisas dessa vez. Colin ainda não havia feito contato comigo. agarrou um de meus pulsos e me levou para o andar superior. pegando o ônibus que me deixaria na esquina do departamento de polícia. sorriu de lado e depositou os arquivos sobre a mesa. era essencial saber a correta descrição do assassino. calvo e de expressão marcada. sentindo os olhos de todos dentro daquele limitado espaço pesarem em mim. cochichou algo em seu ouvido. Bom. muito embora eu soubesse que o dinheiro em minha conta deveria estar pagando meu silêncio. talvez uns dez anos mais velho do que eu. e acabei pegando o elevador para ir embora. A mulher aproximou-se do homem sentado. que precisava falar com o delegado imediatamente. chegava a ser desconexo. a mulher prontamente se levantou. O delegado apoiava o queixo numa mão. seus olhos transbordando determinação. Já estava no ponto de ônibus. Para mim. eu não precisava mais dele. estava um homem com seus quarenta e muitos atrás de uma escrivaninha de madeira escura. O velho senhor deu uma boa olhada em mim. continuava com o peculiar sorriso em minha direção. Dentro da sala. o que. pouco restara do fascínio que um dia havia existido. Reparei que ela prestou muito mais atenção ao início de meu relato do que ao fim. quando uma idéia pouco sensata havia brotado em minha cabeça: eu precisava ir à polícia.deixado de notar. e entrei na delegacia. Subi as escadas. pensando se realmente seria ajuizado falar tudo o que acontecera naquele funesto dia. Voltei meus olhos para o mais novo deles. Não sabia se conseguiria encarar meu chefe. ainda próximo à porta. apenas esperando que algo acontecesse. completamente abatido. O senhor. parti para o outro lado da rua. Fiquei estático. Bateu com os nós dos dedos. Passadas duas horas desde minha chegada saí de sua sala.

Ora. pude analisar melhor suas feições. ainda encarando seus olhos. Roberto. ± Comentou animado o velho. não se aflija. ± Alfinetou o velho Baptista.Poupe-me das piadas. ± O delegado baixou as mãos ± Comece a falar. rapaz! Só queremos conversar com você. até ouvir a risada do velho. sim.He. embora um pouco relutante. . né. O velho riu e acenou para o jovem mais ao lado. o senhor sentou-se na mesa. Descruzei meus braços. Empurrando alguns papéis.homem me pediu para que eu me aproximasse. Quando reparei.Sim.Não seja tão grosso com ele. que pairavam o violeta. um pouco de humor num ambiente tão pesado não faz mal a ninguém. . . o homem que parecia o mais novo segurava a própria cadeira próximo a mim. enquanto que o delegado inclinou o corpo largo para frente. agora que estávamos mais próximos. . . Definitivamente. tentando parecer que não estava tanto na defensiva. Havia experiência naquele rosto. Baptista. Sentei. o que prontamente fiz. e um pouco esganiçada. he. . . dê-lhe uma cadeira. he! Não há um que não reaja assim. Deixei que meu queixo caísse despropositalmente quando fixei meus olhos nos deles.Ora. Notei que ele era da mesma estatura que Fernando e. . mas também havia juventude. ele não tinha mais do que trinta e dois. mas pareceu-me mais confortante do que eu poderia pensar. apoiando os cotovelos e não tirando os olhos dos meus. Que cor mais absurda era aquela?! Os olhos dele eram tão azuis. filho.Muito bem. Roberto?! ± Cutucou o delegado com o cotovelo. A voz do senhor era fina.

Roberto! ± Riu-se Baptista. Talvez ele fosse o detetive do caso e. mas decididamente pronto para obedecê-lo. Baptista! .Eu sou o delegado Neves. e sentia que seus olhos violetas ainda estavam em mim. ± Justificou-se. estou sendo direto.Pare de criticar meus meios.Não estou criticando. Roberto. que apenas acenou brevemente com a cabeça. olhando-o impaciente. O jovem ao meu lado esquerdo não mostrava reações. . que já apoiara os cotovelos novamente sobre a mesa.Mas não vai nem se apresentar? Eu não sabia quem era aquele senhor que parecia ter imensa influência naquele lugar.Não estou sendo grosso.Senhores. por isso..Vamos. Olhei para o jovem. filho! Não tenho o dia todo! . até que ele pareceu enfezar-se ainda mais. por favor! . e esse velho inconveniente aqui é o Baptista. estou apenas« . Voltei minha atenção ao quarentão. Fiquei observando seus olhos miúdos e escuros por um tempo. . . porque o delegado passou a mão no rosto.Não assuste o garoto. permanecera na sala do delegado Neves. . O homem ao seu lado é o detetive Abikair.

Os dois se calaram. .Um pouco de ética. perdão.Vamos deixar que o jovem fale. e todos os olhos detiveram-se no detetive Abikair.« Bem. juntando as mãos sobre as coxas. certo? . Abikair deixou-se encostar novamente à parede.E não foi? ± Concluiu ironicamente Baptista. ± O velho riu.Disso já sabemos.Eu me deixei levar?! ± Indignou-se o delegado. nunca sairia daquele escritório. ± Disse Neves. .Eu sei de algumas coisas que talvez possam ajudar vocês a encontrar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. . daquelas que fazem até seus pêlos da nuca se arrepiarem. as costas apoiadas na parede ao lado de um arquivo de cor grafite. jovem Abikair. pensando que. .A voz era potente e grossa. ou não?! ± Cortou Abikair.« Vocês já devem saber da pessoa que foi baleada. enfadonho ± Conte logo o que sabe. enquanto Baptista o olhava com implicante meiguice. . Cheguei o corpo para frente. . levantando-se da cadeira. para depois apoiá-los novamente sobre o nariz ± Acho que Roberto se deixou levar pela coisa. Ao que pareceu. Ele olhava um pouco escandalizado para os dois. antes que Neves cuspisse mais uma resposta para Baptista. os braços cruzados frente ao peito. eu peço! . se não falasse logo.Oh. tirando os óculos redondos e limpando-os numa pequena fronha branca.Hãm. . o delegado conteve-se por considerar as palavras do jovem detetive sensatas. Voltou a sentar na cadeira. Com a certeza de que a discussão havia acabado.

. um estagiário! ± Deu de ombros ± O que mais. o que mais?! .Você o conhece?! ± Recompôs-se o delegado. talvez impressionado demais para voltar à carranca habitual e fingir que nada o atingia.Não era um jornalista. deixe o garoto falar. .Vamos.É claro que sabemos! O que acha que fazemos aqui. ± Baptista deu uns tapinhas no braço do delegado ± Ele sabe o que fala.. vendo os olhos do detetive Abikair deslocarem-se do chão para mim ± Era um estagiário. Apenas o detetive Abikair continuava o mesmo. Roberto. -« Isso não muda coisa alguma! . . comemos rosquinhas?! . .Ele é o detetive.E se eu dissesse que conheço esse estagiário? ± Falei.Que seja.Muda. sabemos que um jornalista foi atingido enquanto estava ilegalmente no covil do seqüestrador. Aí sim. ± Pediu Baptista. fuzilante. ± Girei a cabeça. o clima mudou dentro do pequeno ambiente. O delegado Neves pareceu surpreso. delegado Neves. Era isso o que tinha pra dizer?! . mas esboçou logo um sorriso de satisfação. ± Abikair olhava-me com extrema fixação ± Muda tudo.Sim. . filho. Neves apenas o olhou. O senhor Baptista também pareceu surpreender-se. Roberto.

. jovem Abikair. leva tempo para recuperar-se de um tiro! Vai ver ele contou tudo o que aconteceu a seu amiguinho. há uma chance de começarmos a completar o quebra-cabeça desse caso! Eu não posso perder tempo! .A essa altura. .Hãm. . ± Olhei para Neves. preste atenção. . Baptista! Agora. ± Sorriu.. . qualquer um teria motivo suficiente para não sair de casa. enquanto que o delegado parecia levemente transtornado. ele já deve ter recebido alta.Eu acho« ± Notei que Abikair começou a se aproximar por trás de mim ± que depois de um susto desses. Roberto.Filho. . quase fechando os olhos com as rugas.« Senti suas mãos apoiarem-se no encosto da cadeira em que eu estava sentado. ele está bem. Baptista o olhava com interesse.Não pressione o garoto. e pronto.Precisamos de qualquer informação sobre isso.E por que não o trouxe aqui?! ± Protestou Neves. Entretanto. seus olhos apertados pelo cenho franzido ± Precisamos que você lembre de tudo o que seu amigo lhe contou! E rápido! .Ora. Roberto. mais do que nunca. não? ± Baptista balançou a cabeça ± E como ele está? .Bem pontuado. cá está ele.Parece que o senso de justiça de nosso estagiário falou mais alto. .

e depois para Abikair. arregalavam os olhos. apenas inclinou um pouco a cabeça. a mão escondendo a boca denunciava que estava pensando em alguma coisa. O detetive mantinha os olhos arroxeados na porta do escritório. quem é? . . emudeci-me. tomando coragem para contar tudo o que lembrava do ocorrido naquela tarde. A certeza disso foi que. eu sentia que o detetive já sabia quem eu era ± Ainda não disse seu nome. O detetive ouvia tudo com exclusiva atenção. Mas o olhar do detetive Abikair caía sobre mim tão centrado que me convencia de que ele sabia que fora comigo que acontecera o tal fato. desencostando-se de mim.Não há com que se preocupar. chegando a omitir alguns detalhes para que parecesse mais convincente a minha história de que era apenas um conhecido do verdadeiro estagiário. esperando alguma reação daqueles senhores. E você. Não era uma coisa certa de se fazer. quando falei do tiro no ombro esquerdo. mas quando se sentiu observado. ± Estranhamente. enquanto que as pessoas normais. filho! Fale! Respirei fundo.. mentir para as autoridades. Já o velho Baptista desviava os olhos de Neves para mim. eu sou.Guilherme. Tive de me esforçar para não escorregar e acabar colocando a história em primeira pessoa. como o delegado Neves. Terminada a narração. sua mão recuou um pouco da cadeira. delegado Neves. O delegado Neves me olhava. Guilherme Azevedo Zheinkner.Sim. O senhor Baptista parecia divertidamente interessado em minhas palavras. . . para depois fazer perguntas e ficar pensativo. -« O senhor é o detetive do caso? ± Abikair não pareceu tão pasmado com minha pergunta como os demais. era quase assustador ver seu sorriso crescer diante de algum detalhe mais sórdido. parecendo fazer anotações mentais quando vez ou outra levantava os olhos. focou-os em mim.Pois então.

emudecendo. . . entretanto.. e ele parecia muito certo de seu lugar.Bom. a minha é ainda superior e. . . O detetive apenas olhou-o por alguns segundos. enaltecendo-o de maneira a deixar claro ao delegado que era ele quem decidia o que fazer. . subitamente ± Precisamos que conste nos autos! .Por que não vai visitar o amigo de Guilherme. creio que posso encontrar-me com a testemunha e fazer constar nos autos a nossa conversa. Abikair? ± Sugeriu Baptista.Não é má idéia. Mas ele deve se lembrar.Você acha que seu amigo se lembra bem do rosto que ele viu? . como responsável do caso. jovem Abikair! ± Elogiou Baptista. eu sei que sua autoridade aqui é absoluta.Delegado Neves. Baptista começou a rir baixinho. ele me disse que só viu uma parte do rosto dele. tirando os cabelos quase negros dos olhos. .Acha que ele estaria em condições de fazer um retrato falado? ± Arriscou o detetive. ± Concordou. O delegado apenas piscou. não consegui notar nenhum pingo de hesitação. . seria um advogado.Nós precisamos dessa testemunha aqui! ± Berrou o delegado. Engoli em seco.Se não fosse detetive. sim. enquanto Neves ainda pensava.Só perguntando. O detetive Abikair falava muito bem. tentando esconder a boca com uma das mãos enrugadas.

e soltou um pouco o meu pescoço. que me fez um sinal com a cabeça.Velho. Pulei. num toque frio. Levantei.Te levo ao telefone. . e eu me apressei a acompanhá-lo. Ele finalmente piscou.Eu« Eu vou ligar pra ele.Ora. um pouco irada. O detetive fez uma curva fechada. . Baptista! . eu« . . A impassibilidade de Abikair havia sumido. e fui jogado contra a parede. diferente. sem reação alguma. permitindo-me abaixar a cabeça. e seu rosto estava muito mais severo do que antes. mas assim que fui escondido pela parede. seus olhos excêntricos em Neves. e todas as pessoas pareciam olhar para nós.Acha que poderíamos encontrar com seu amigo agora? ± Perguntou.. bem como meu pescoço. senti meu braço direito ser agarrado. uma mão grande e espalmada postou-se no meio de minhas costas. Roberto! O rapaz está certo! Você está abaixo dele! . o ar de curiosidade me deixava embaraçado a ponto de eu sentir minhas bochechas em brasa.Oh. olhando nas gemas do detetive.Não venha com churumelas. . Fiquei olhando aquela expressão fria. e comecei a segui-lo para fora do escritório do delegado Neves.«! Antes mesmo que eu pudesse ouvir mais alguma coisa. Se me derem licença. Roberto! Vai perder o controle novamente?! ± Incitou-o.Mas«! Que afronta é essa?! ± Urrou o delegado. Passamos por várias mesas. .

Vai querer mesmo o tal retrato falado? . com três pessoas que me encaravam insistentemente.Isso é crime. . talvez na dúvida entre eu ser mais um espertalhão que tentava se safar.. meio sem jeito ± Eu estava« enfim. . Porque eu vou descobrir. Só de entrar naquela sala fechada.Por que não? Continuando o caminho pelo corredor. sinto muito. nem objetos pessoais.De fato. não importa. ainda segurando meu braço. senhor Abikair. nenhuma decoração. depois os voltou para mim. Desviou os olhos para o corredor. eu sabia. e eu acabei encobrindo minha identidade. o que era a verdade. nenhuma foto. e isso provavelmente porque ele acabara de chegar. ± Falei. ou se realmente estava com medo de falar. O detetive soltou meu pescoço. -« Mas você sabia! Abikair me encarou longamente. ± Asseverou o olhar ± Mas nem pense em mentir ou omitir alguma coisa de mim.Eu sei. Não havia nada senão trabalho naquele ambiente. entramos numa salinha apertada. O detetive puxou a .Você sabe que acabou de falar um falso testemunho? -« . -« .Você mentiu para as autoridades. querendo arrancar de mim toda e qualquer informação me deixou em pânico.

Abriu uma das gavetas ao lado da perna.É. Passados quarenta minutos. ao abri-los. ± Apontei-os com o dedo. Fiquei meio apreensivo.É ele. esforçando-me verdadeiramente para lembrar mais alguma coisa que poderia ter deixado escapar pela intimidação na sala do delegado Neves.Você disse que só viu o olhar dele. deixando-os sobre a mesa. certo? Apenas esta faixa do rosto? ± Indicou com os dedos. incerto. dei de cara com um desenho muito semelhante ao homem que atirara em mim. pensando se a imagem que guardara em minha memória ainda era a mesma da pessoa que eu havia visto. Entregou-me o papel algum tempo depois. e pedi para que o detetive acertasse-os. o que fez com que eu me afastasse. e tal foi minha surpresa quando.Absoluta. talvez um pouco incomodado. puxou um bloco e um lápis.cadeira. . era ele. sei lá o que era aquilo. Paciente. . repassando cada momento em minha mente. Esses olhos não enganam. apoiou os cotovelos sobre a mesa e dedicou atenção suprema à minha descrição do assassino. Pedi para que o detetive pintasse os olhos com a caneta azul. depois cruzou os dedos. meia. . ele atendeu ao meu pedido.Tem certeza? ± Perguntou. .Então? Está parecido? Abikair virou o desenho para mim e. ele limpava a mão suja pela grafite. Passei mais tempo de olhos fechados. pude ver a cópia fiel da faixa do olhar daquele homem. enquanto eu o analisava. Notei alguns traços imperfeitos. . empurrando acidentalmente a cadeira. Ele estava usando algum gorro. . e não tive mais dúvidas. . foi isso. Enfatizei cada detalhe que me pareceu mais importante da pessoa que eu havia visto naquela tarde. indicando que eu devia sentar também.

Mas. Era exatamente o mesmo homem. Aquele estava muito parecido. que me encarava um pouco confuso.-« Espere um pouco. no fim. Voltou com a pasta grossa para cima da mesa. os olhos não eram os mesmo. Depois. eu descartei desde a primeira olhada. nenhum deles era o homem que havia me alvejado. abriu-a e pegou um envelope branco e gordo de dentro dela. Todos os que apareciam nas fotos eram homens de olhos azuis. mas assim que a puxou novamente para colocá-la na gaveta. depois escondi as partes que eu não havia visto no homem. Puxei as fotografias uma a uma.Como? Coloquei a foto bem próxima à borda. O detetive Abikair não pareceu muito feliz com isso. Puxei minha blusa. mas pareceu aceitar consideravelmente o fato de não ter conseguido achar o tal. . e aproximei meu rosto. . entre trinta e quarenta e cinco anos. uma que eu tinha certeza de que ele não me mostrara. . que se revelou serem fotos. O detetive abriu a gaveta. cujos olhos eu sempre confundia com os olhos de Fernando.Espera aí« . tive que pensar bastante para ter certeza do que ia decidir. parecido até demais. e abaixei a cabeça.Acha que consegue identificar o tal homem como sendo um desses? -« Posso tentar. Tirou seu conteúdo. e colocou-as na minha frente. cobrindo do nariz para baixo do homem. eu tinha certeza! Aqueles olhos eram únicos. bem como escondendo seu corpo e todo o resto que não me fora revelado naquele dia. foi ficando mais difícil. tirando uma pasta cheia. escondendo seus cabelos com um dedo. Dei uma olhada rápida para o detetive. atentando para o tipo físico dos homens. reparei numa foto nova. Alguns. Ali estava ele. quase impossíveis de se encontrar.

certeza absoluta! Esses olhos. não estou! Eu tenho certeza! .Senhor Abikair.Não. detetive. tomando a foto de minhas mãos. esse suspeito não é nem do mesmo caso.É esse. temos um grande problema. Olhei para as belas esferas arroxeadas do detetive Abikair. e ele fora o único para quem não menti. Será que ele não acreditava em mim? Eu não estava mentindo para ele. é ele mesmo! -« Você tem certeza disso?! . enquanto elas pareciam fixadas no nada. . Ouvi seu suspiro. . por favor! ± Por que ele não acreditava em mim?! ± Eu tenho plena certeza de que é ele! Eu não poderia me enganar! Eu sei que é ele! -« Então. eu tenho certeza.Esse?! .Guilherme.É esse! .Acho que você está um pouco equivocado. e ele fechou fortemente os olhos por alguns segundos.. ± Disse Abikair. .Absoluta! A mais absoluta certeza! Eu nunca poderia esquecer esses olhos! .

. É ele. eu estou certo do que falo. ou melhor. então por que o suspeito de um crime não poderia ser o autor de um outro? O mais estranho. era que Abikair parecia extremamente preocupado com a minha certeza. não estava enganado. .Essa foto não é de nenhum caso.Então?! Eu realmente não estava entendo paçocas! Criminosos poderiam praticar vários crimes. mesmo! . Guilherme. . petrificado ± É a foto do meu irmão. Como dar a certeza para alguém de que seu irmão era um assassino?! Eu tinha certeza.O que poderia impedir esse homem de ser o assassino desse caso?! .. era ele. Não sabia mais o que dizer. é sim! -« ± Continuava imerso em pensamentos. é esse cara. nada. Várias vezes .Essa foto é minha. ± Encarei Abikair.Ué. .Tecnicamente. apesar de tudo. .Mas eu« Hãm?! .Não pertence a nenhum caso. era ele mesmo. perturbado. então como é que ela apareceu aqui?! Eu sei do que estou falando. Guilherme.Senhor Abikair.

. conforme eu fazia a caneta correr.Você tem essa certeza toda? ± Cortou. . cruzando levemente os braços. a foto do irmão nas mãos. . e tal atitude me deixou preocupado a princípio. fazendo com que eu me calasse. um pouco de desapontamento e. Entreguei meus dados. Tomei ar para responder. me sentindo um pouco mal e acuado. Mas depois. levantava os olhos para olhá-lo. se não se importa. incredulidade. -« Tenho. Segurava a cabeça com o braço apoiado sobre a mesa. o detetive pediu para que eu respondesse algumas coisas e. Abikair empertigou-se. não mais pensando em quanto tempo eu ainda precisava ficar lá. bem frente aos olhos. certo? Primeiro. pasme.O senhor« O senhor acredita em mim. O semblante pensativo denunciava preocupação. mas eu tampouco poderia sair sem ter a certeza de que estava bem. mas a expressão do detetive não era lá muito motivadora. mas curioso para saber o que o detetive ia fazer. Preciso de alguns dados seus. Engoli em seco. Não que ele tivesse cara de quem aceita alguém para conversar nessas horas. o detetive me olhou longamente.Pois não? ± Voltou os olhos anormais para mim. .tentei falar alguma coisa. Puxando uma folha da gaveta. -« Muito bem.Eu« .Senhor Abikair? . deixando-me escorrer na cadeira. suspirou e brandeou as expressões.

Acompanhou-me até a porta de saída da delegacia de polícia. pareciam aquarelas azuladas.« . . Guilherme. inclinando-se para frente e ficando mais próximo de mim. Aquilo foi diferente.Senhor. O senhor Abikair passava-me estranhos sentimentos. originalmente azuis. o que me deixou morto de curiosidade. como que parte de seu diferente ser.. Daquele jeito. chegando a andar comigo até o ponto mais próximo. .E poderia muito bem estar fazendo de novo. eu«! . eu não acho que« . Pouco falei nesse percurso. Pediu para que eu não saísse da cidade.Eu não menti pra você! ± Acabei me exaltando ± Eu nunca mentiria pra você! Abikair ficou quieto um longo tempo. violetas e arroxeadas pinceladas de maneira espetacularmente vívidas. produzindo um efeito sem igual: seus olhos.Não. mas depois descruzou e apoiou os antebraços na mesa. como Fernando. ele acreditava na possibilidade de uma perseguição súbita por parte do assassino. mas depois confirmar que continuava a acreditar no quer que você dissesse.Eu sei. Não foi como contar alguma coisa ruim para um amigo. ele duvidar. Eu não duvido da sua sinceridade. Não chegou a falar do irmão novamente. a luz da pequena janela refratava em sua íris. fiquei mais atento ao que . . mas também pediu para que eu ficasse em alerta.Você já mentiu para as autoridades antes.Pessoalmente. já que.

Quem disse que seria fácil? . com os olhos arroxeados. Os olhos. Tudo nele parecia peculiar: o toque frio. uma vez que não estávamos nos falando direito. depois de mentir para o delegado. Sua pele era originalmente morena. Entrei no ônibus. e fugir de um homicida. Não estava certo. A verdade era que aquele detetive era. resolver de uma vez por todos os pepinos da minha vida: falar e juntar novamente os irmãos do apartamento ao lado. O cabelo era castanho escuro. o brilho por eles exibido pairava o mesmo tom que tinha um vinho tinto.« Isso só Fernando sabia fazer. sem desviarmos os olhos. cheguei a olhar em volta para ver se mais alguém havia reparado. simplesmente. até que o veículo começou a se mexer. Tive que virar a cabeça para continuar olhando para ele. o jeito de falar. mas com as luzes da tarde. pude ver mais daquele homem tão contido em suas formalidades. meio às minhas pernas. enquanto que a cintura era mais estreita. como se fosse uma seda muito fina. me acertar com meu namorado. Apoiei a cabeça no vidro. o que estava acontecendo comigo?! Por que havia um volume começando a se erguer em minhas calças?! Senti-me extremamente envergonhado. Mas me desarmar com apenas o olhar. os olhos severos. Do mesmo tamanho que Fernando. a postura. o efeito que provocava. e o detetive ficou para trás. os cabelos diferentes. e às dicas de proteção que o detetive me passava. um morenão que. Ficamos nos encarando fixamente. ainda a tempo de ver seus olhos grudarem nos meus. excitar-se quando se vê uma cena de sexo. Ao ar aberto. maravilhoso. com aquela cara de provocante austeridade. Só ele costumava saber. E pensar em meu namorado não me animou mais. pareciam uma mistura de cores. tive a impressão de que seus ombros eram um pouco mais largos. Precisava chegar logo em casa. sentando mais ao fundo. E acusar o irmão do detetive como assassino. cor de jambo. a pele brilhante e morena. tudo bem. escuros e penetrantes. Olhei para minhas mãos. conseguira me excitar com apenas um olhar. não era também o melhor dos consolos. escondendo minha ereção com as mãos. mas logo veio uma curva. Uma excentricidade que me atraiu.acontecia à minha volta. cooperar com o detetive Abikair. ajudar o doutor Rafael com aquele complexo ridículo e Enzo com o sumiço do irmão. Achar outros bonitos. e cintilava a cada toque de luz. com uma grossa borda negra que continha as cores.

troquei a calça por um short e fiquei com as meias. não conseguia crer que ficara naquele estado com um simples encarar de olhos. baixar os olhos não era a melhor das opções. já que não achava prudente levantar antes disso. já estava para desligar quando a voz familiar atendeu a ligação. Eu precisava fazer alguma coisa para resolver a minha vida. Segui pelas ruas a passos largos. o céu já estava escuro. nem meio metro de mim. Quando respondi à saudação. Suspirei. a mente em branco. com a cueca melada?! Num acesso de raiva. Escondi os olhos no braço apoiado à janela. Eu não podia ficar tão desarmado só com o olhar de outro homem. o que estava acontecendo comigo?! Tá certo que o detetive Abikair era um homem bonito. joguei os travesseiros em qualquer direção. Afinal. a garganta apertava e ficava cada vez mais difícil respirar normalmente. meu braço estava pesado demais para se esticar até o aparelho. Encarei o telefone. Os toques cadenciados aumentavam minha expectativa. sentindo uma incrível raiva brotar dentro de mim. que ainda não sei como não perdi o ponto no qual deveria descer. não consegui olhar para os lados. Tranquei a porta. Eu não podia continuar daquele jeito. Meu peito doía tanto. ele já devia estar no escritório. mordendo o lábio inferior como num velho hábito de indecisão. e virei a cabeça. Eu não podia nem fechar os olhos. incomodado com o rastro das lágrimas em minha face. o maxilar contraído parecia aumentar minha dor de cabeça. extremamente exótico. quentes.Minha cabeça estava tão transtornada. nem comigo nem com Fernando. entretanto. Com o corpo encolhido. àquela hora. Fernando ficou mudo e . Comecei a sentir raiva de mim mesmo. mas quando finalmente consegui mover meu corpo. e peguei-o com a mão direita. antes que qualquer um dos irmãos notasse minha chegada. Minhas reações não eram justas. Tirei a camisa. Bufei. do que estava fazendo com a minha vida e com a vida dos outros. como tanto meus amigos me pediam. Acabei descendo dois pontos depois do meu. mas daí a ficar« Não conseguia nem pensar na palavra. Apoiei-o no estômago com as duas mãos. Então. apertei os olhos. Puxei na memória o número do ramal do loiro. que o rosto de Fernando surgia diante de mim. Entrei correndo no prédio. mirando-o. Não sei precisar quanto tempo passei naquela mágoa de mim mesmo. arfante. isso era exclusividade do meu namorado. principalmente no aspecto amoroso. puxei a porta das escadas e subi de dois em dois degraus até chegar em casa. Lágrimas de ira riscavam ardentemente meu rosto. depois fui para o quarto e me escondi debaixo das cobertas. e o outro quase voou pela janela. socando o colchão repetidas vezes. o que só me deixou mais raivoso ainda. com um corpo moreno artesanalmente esculpido. Meus olhos arderam. até que simplesmente não consegui mais me mover. Um deles derrubou alguns livros da mesa. O telefone estava na mesinha de cabeceira. por que raios eu estava ali.

« Oi. Sentia todo o meu ser se contrair. -« O antigo silêncio voltou.Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? .Oi. .É« -« . Ouvia sua conversa com outras pessoas.Hum. o que me deixou mais aflito ainda. Engoli em seco. . porque eu só escutava sua longa e calma respiração. uma sensação de vazio dentro do corpo. fora eu quem ligara.Não. pesado. eu« Não aconteceu nada. .pediu um momento.É.« Certo. o barulho de uma porta se fechando e o fio do telefone sendo suspenso.« . Que bom. . então.Gui? . O fato de Fernando não falar nada também contribuía para o meu nervosismo. .Hãm. então nada mais justo do que eu puxar assunto.

mas eu sabia que precisava falar alguma coisa.Fala comigo. os dois pés apoiados no chão. Mas não saía nada. As gotas quentes rolavam. já fungando. Apertei meus olhos.Gui« Fala comigo« -« Fê? . Prendi a respiração.Que foi. e ele deve ter percebido que eu estava uma pilha de nervosismo. meu amor« Fechei os olhos.Fê«? . Meus olhos começavam a esquentar novamente. qualquer coisa. Gui? ± Sua voz era doce. trancando a mandíbula. desenfreadas. só podia pensar.-« Por que eu não consegui falar nada? Eu não sabia ao certo o que eu queria tanto falar. . mesmo? -« . delicada ± Que aconteceu? . o braço esquerdo sustentando parte do peso ao lado de minha perna. ouvíamos nossas próprias respirações. Novamente. piscando muito para desembaçar a vista. Deixei que uma expiração rápida escapasse sem querer. Limpei o rosto com as costas das mãos. seu imbecil! Fala alguma coisa!´. Estava sentado na ponta da cama. .Gui.« Tá tudo bem. espremendo-os fortemente. soltando uma expiração rápida outra vez. mas eu não me importei. ³Fala alguma coisa.

que eu já tô chegando.Tá. eu« Fê« . Espera só um pouco. colhendo novamente minhas próprias lágrimas ± Tá. . . não sabia o que dizer.Tá. tá? -« . eu só« ± Respirei fundo.« Volta logo pra casa.Fê.Te amo. . Gui. né? -« Claro. loiro.Já tô chegando. ± Aquelas palavras fizeram-me desabar ± Te amo. ± Funguei. . Como sempre« ± Solucei alto. .Tá. Gui. Vem logo. Gui. Precisava dele ao meu lado ± Tá tudo bem com a gente. Muito« .Nada.. mais lágrimas brotavam de meus olhos.Eu também. .Fê? -« Já tô indo praí.

estar de pé parecia mais cômodo. Pensei em sentar. mas não parava em nenhum. impaciente. Fernando chegaria a qualquer momento do trabalho. Entrei debaixo do chuveiro. Foi quando eu acabava de grudar o velcro da bermuda que me toquei o que acabara de acontecer. Engolindo em seco. Vesti uma bermuda e uma camisa de manga curta. Batucava a colher na pia enquanto esvaziava o copo de chá gelado. Honestamente.Nem nos despedimos. olhei para minha imagem no espelho. Ele mesmo falara. eu não precisava mais me preocupar com aquela falta de conversa. certo de que um copo de mate acalmaria meus nervos. O gringo iria gritar. apontar o dedo e o diabo. E lembrar do detetive me fez pensar se eu deveria contar ou não a Fernando o que tinha feito naquele dia. tentava ao máximo me acalmar. tão facilmente? A dor que eu senti fora tamanha. minha ansiedade já não tinha mais canais para ser extravasada. Contaria o que me havia ocorrido num momento mais pacífico. e assim que deixei o aparelho sobre a mesinha. qualquer ruído me alarmava. não sei o que ele acharia pior. Comparado com o momento em que estava com o detetive Abikair. como eu poderia ter duvidado do amor que eu sentia por Fernando. Os reflexos do pulsar de meu coração martelavam minha garganta. agora que não estava mais sentado. não conseguia ficar parado. mas o ribombar produzido por meu próprio corpo pareceu somar-se aos goles que eu tomava. Caminhei até a cozinha. mas eu não conseguia me concentrar em uma única coisa. Desliguei a tevê. assim. conclui que aquele não era o melhor momento para Fernando saber do meu diazinho agitado. O alívio era tão grande que sentei na cama e fiquei lá. meu coração parecia retumbar mil vezes mais rápido. Não sabia onde colocar os braços. Esporro seria pouco para o que eu ouviria. Estava tudo bem. passava os canais. Com o controle. que sanou todo e qualquer vacilo meu quanto ao sentimento que eu tinha por meu namorado. destacados meio ao meu rosto claro. Fernando dissera que estava tudo bem. Entretanto. que pareciam adendos desengonçados de meu corpo. levantei e fui ao banheiro. falaria que era um absurdo eu sair sozinho e ir direto pra toca do lobo e esperar não ser mordido. consolado. pelado e molhado. espernear. Não que nada fosse interessante. eu ia levar muito esporro. Quando terminei de puxar a barra da camisa. não havia mais com o que me preocupar. com a ausência de toques mais íntimos. Enquanto me secava. ecoavam em meu ouvido. Minhas dúvidas eram besteiras. . Respirei fundo depois de lavar o copo. Meus olhos ainda estavam vermelhos. eu ir ao meu antigo trabalho ou me dispor a colaborar com a polícia. achei que ver um pouco de televisão me acalmaria. Desligamos o telefone mais ou menos na mesma hora. se o loiro me pegasse sem roupas depois de ter tomado banho. voltaríamos a ser como antes. mas no momento em que o fiz. me dei conta de minha ansiedade.

o olhar era fixo. nada mais apertava meu coração a não ser a presença de Fernando. a figura do gringo surgiu meio ao escuro do corredor. Nada mais passava em minha mente. fiz menção de falar. todavia ao mesmo tempo gostaria de poder adiar o contato. m as o corpo estava estancado. Ele arfou. Levantei. apoiando a testa nos joelhos. Permiti-me abraçar seu pescoço. encarando meu namorado. senti uma de suas mãos soltar meu corpo para segurar minha face. Cada passo por Fernando dado tornava meus joelhos mais fracos.Sentei no chão. Sua boca estava entreaberta. A primeira coisa que consegui enxergar. e eu me senti prestes a cair quando ele parou a menos de dois passos de distância. um estrondo ecoou no corredor. Depois. A mão ainda segurava a maçaneta. Baixei os olhos por alguns instantes. impactante. mas voltei a erguê-los. de uma única vez. sendo facilmente tragado por aquele profundo oceano com tormentas emocionais. e o barulho familiar de chaves soou para além de meus tímpanos. Não conseguia desviar meus olhos dos dele. que me fulminava com toda intensidade. deixando-me inebriado. fazendo meu peito apertar ainda mais. A maçaneta se torceu. e fechei os olhos. as rosadas maçãs do rosto a denunciar seu esforço. e ele venceu a distância entre nós enlaçando minha cintura estreitamente. e eu levantei a cabeça rapidamente. e cada segundo de espera me deixava mais nervoso. Minha mão começou a tremer. Seu olhar era sôfrego quando as esferas azuis detiveramse em mim. falar qualquer coisa. de frente para a porta. agitado. Engoli em seco. Afundei o rosto na curva de seu pescoço. Parecia uma marcha. e eu não consegui reagir diante de tamanha beleza. O loiro ainda respirava com dificuldade. como se muitas pessoas estivessem andando juntas. antes mesmo da porta estar totalmente aberta. Olhava para o teto. enlaçando-me forte ao homem que amava. parecia que Fernando não sabia bem onde colocar as mãos. As chaves pareciam estar desesperadamente sendo balançadas. arrepiados certamente por sua corrida até a casa. Mas depois seu real desespero se revelou nas feições preocupadas. mas eu duvido muito que fosse apenas pela corrida. meus olhos ardiam imensamente. Senti seus braços comprimindo-me contra seu corpo quente. minhas pernas pareciam bambas. Sentia que estava prestes a chorar. Queria que o loiro chegasse logo. e a folha de madeira se abriu. ficaria travado e em angustiante silêncio. fungando o perfume da pele sensível. Ruídos para além da porta de entrada de meu apartamento se fizeram ouvir. meu joelho já estava cedendo. as coxas junto ao peito. sabia que não conseguiria falar nada. Pisquei. As esferas azuis não piscavam. mas não saiu nada. Eu queria conversar com o loiro. Por um momento. Baixei a cabeça. mas nada saia de minha entalada garganta. . nem quando ele começou a se aproximar de mim. foram seus fios dourados. segurando o encosto de umas das cadeiras da mesa de jantar. tentando distinguir a origem dos barulhos. mas descompassadamente. Seu cheiro adentrava minhas narinas com impressionante força.

mas eu não esperava que ele fosse cuidadoso. selvagens. Ele gemeu. dos prédios de frente para nossa janela. desfiz o beijo na busca de ar e meu pescoço foi imediatamente atacado. Eu precisava de mais. Suas mãos afundavam-se em minhas coxas. Abri os olhos. sua boca entreaberta. me deixando louco. Senti que era empurrado e dei de costas com a parede da sala ao lado da porta de acesso ao corredor. Fernando me fazia esquecer dos vizinhos. que nem o tempo parecia existir. penetrando-os e agarrandoos com força. Rebolei levemente. desejava mais contato com o corpo tão quente e desejável de Fernando. curvas. da faculdade. Eu arfava rápido. do mundo todo. e deixei que minha voz escapasse livremente. de Abikair. Fernando espalmou as mãos o suficiente para conseguir segurar minhas duas nádegas de forma a quase penetrar-me com os dedos médios. e estávamos nos amando tão loucamente. onde inconscientemente cravei meus dentes. minhas pernas firmemente atadas em seu quadril. Ele me empurrou com mais força contra a parede. os lábios vermelhos. e rocei a língua em seu lóbulo. Suas bochechas mais que rosadas. a outra mão ocupava-se em apertar minhas nádegas. Sentia que não conseguia respirar. A língua de Fernando lambeu meu lábio inferior. Sentia chupões fortes na pele sensível de meu pescoço. com um impulso. e meu baixo ereto roçou o dele. e encontrei a face de Fernando próxima a mim. e parecia queimar ainda mais nos locais tocados pelo gringo. e por alguns segundos temi que meus tímpanos estourassem com tamanha intensidade de pulsação. Fernando tomou minha boca não muito delicadamente. passando o outro braço por seu pescoço e. Puxei a cabeça do loiro para o lado. Meu coração ribombava como um tambor de olodum. seus dedos tocaram minha entrada. dando voltas. Senti-o cutucar de leve meu ponto. A franja arrepiada concedia-lhe um aspecto ainda mais ferino. minhas coxas apoiadas em seus antebraços. e um sorriso matreiro de dentes brancos brilhou rapidamente. descendo para o pescoço. lambendo e chupando lábios superiores e inferiores. senti seu membro endurecer ainda mais contra minha virilha. os olhos oceânicos direcionaram-se em minha direção. o que só fez com que meu quadril se empinasse instintivamente. demorando a conseguir concentrar-me para focar a imagem meio ao turbilhão de desejos e taras que me acometia. Os cabelos revoltos agrupavam-se em tufos esporádicos por mim puxados e. e meus dedos deslizaram automaticamente para seus cabelos. animalescos. um de seus dedos muito próximo de minha entrada.Piscando uma vez. montei no tronco do gringo. . O gringo apertava o quadril contra o meu. Éramos só nos dois. Nossas línguas estavam saudosas. quando sentiu que era observado. posto que precisava daquele contato tão urgentemente quanto ele. e massageavam-se incansavelmente. Agarrei um de seus ombros. segurando meus dois pulsos e colocando meus braços acima de minha cabeça. Não agüentei me reprimir mais. meu corpo estava tão quente.

Que foi. e rebolei devagar sobre o volume de Fernando. uma dor deliciosa me incitou a morder Fernando com mais força. uma das mãos com os dedos enfiados entre minhas nádegas. colando a boca em seu ouvido e falando uma das frases que até hoje tenho vergonha de repetir. A língua ainda pressionava a carne túrgida. porque pela reação do gringo. Ele sugava fortemente o botão em meu peito quando me curvei e abracei sua cabeça. os cabelos despenteadamente selvagens. seus dedos definitivamente querendo penetrar por minha bermuda. depois lambendo e chupando o local machucado. eu precisava de Fernando. seu volume rijo quase a rasgar nossas calças. . e vê-lo daquela maneira tão provocante me fez erguer umas das sobrancelhas e rir de lado. os lábios avermelhados. eu devia estar parecendo um garoto de programa bem devasso que se oferecia de graça. Minhas costas bateram novamente contra a parede. loiro? Quer que eu repita? Obviamente que não precisei repetir. De repente. . o loiro empurrou a pelve contra a minha. Ele piscou. arfando. Os olhos azuis cintilaram perigosamente em minha direção.Aaahhh« Fechei os olhos para gemer. fui arremessado para a cama. Era bom demais ter o gringo daquele jeito. se . mas estava impossível suportar mais daquela tortura. e minhas pernas tremiam precariamente. meu coração louco bombardeava meu peito. . mordendo-o com força.Me fode« Meu sussurro saiu rouco. aumentando a louca sensação que a adrenalina causava em mim. Senti que estávamos nos movendo. e foi ainda melhor quando ele arrancou minha blusa e abocanhou um mamilo enquanto o outro recebia atenção especial de uma de suas mãos. Mal chegamos ao nosso quarto. quando ergueu a cabeça para olhar para mim. Acho que devo ter mostrado uma cara muito safada. Respirei fundo. Meu quadril jogava-se inconscientemente contra o do loiro. eu sentia que estava me descontrolando. Procurei novamente seu pescoço. e nem um segundo depois eu já estava sendo fortemente beijado. e o queria naquela hora. depois de fechar a porta. Eu o encarei. Foi só eu terminar de falar que a língua do gringo parou.Agarrei-me a ele. Ele ainda estava com meu mamilo na boca. Minha garganta arranhava enquanto Fernando lambia e sugava a frágil pele de meu pescoço. tão imprensado contra mim. Ainda não havia erguido o torso completamente quando Fernando.

conseguindo tocar desde meu membro até os testículos. O modo como seus músculos se contraíam só para que seu torso ficasse erguido me fascinava. ele mal me despira e sua boca já abocanhara meu membro. Nosso ritmo estava muito rápido. para meu profundo êxtase. sugando mais forte que o de costume. Mas eu não me importava. Empinando o traseiro. a tênue luz dos postes da rua fazia com que fracos feixes luminosos refletissem o brilho daqueles cabelos dourados e da pele beijada pelo sol. . Suas mãos pressionavam minhas partes. se fosse Fernando. Levei minhas mãos ao cós de minha bermuda. às vezes minhas contrações involuntárias eram de dor. Fernando segurou minhas pernas bem abertas. mas ficou ainda mais difícil colocar qualquer ar para dentro dos pulmões e. Não controlava mais minha voz. meu corpo esquentava rapidamente. minha cabeça quase bateu na cabeceira da cama. nunca daria pra escapar. porque no pequeno instante que se separou de mim foi para sumir com minha bermuda e minha cueca. Minha barriga contraiu-se sozinha. separou minhas virilhas. brilhantes e provocantes. era mais um motivo para eu esquecer de fazê-lo direito. Perdi o apoio dos braços ao agarrar o lençol e puxá-lo. e acho que Fernando também não estava agüentando muito. e afundou novamente o rosto entre meus documentos. Uma das mãos veio auxiliar a carícia. Aliás. sorrindo involuntariamente. mas ele não me deixou tirá-la. Os olhos oceânicos fixaram-se nos meus. Suspirei. de súbito. Eu estava me sentindo completamente preso. ele deitou a cabeça sobre meu baixo. Era Fernando. massageava meus testículos e. e então a cabeça loira abaixou-se. seus toques eram mais eficazes do que carinhosos. uma de suas mãos massageando meus testículos enquanto a outro tocava um de meus mamilos. portanto ficava mais fácil sentir e distinguir qualquer coisa. Eu já respirava com a boca há muito tempo. levantei um pouco e apoiei meus braços atrás do corpo para ver melhor o que Fernando estava fazendo para me deixar tão excitado. queimando-me como se estivesse em uma fogueira gigante. Fernando acariciava a cabeça de meu membro arrastando a língua. dessa vez. nem se eu quisesse muito conseguiria escapar. Depois. me levando ao delírio. penetrou-me com dois de seus dedos já úmidos por minha própria semente. Os movimentos felinos me hipnotizavam quase ao ponto de babar. o loiro ajoelhou-se entre minhas pernas e. chegando a erguê-las um pouco.livrou das próprias roupas e colocou-se nu sobre meu corpo. Vi-o jogar a peça para trás e voltar a se afundar entre minhas pernas. Passando os braços por baixo de minhas coxas. O pano de minha bermuda era muito fino. Senti automaticamente que meu volume crescia e endurecia a cada novo roçar do gringo. fazendo questão de tocar cada coisa de uma vez. agarrando minhas coxas com firmeza. que saía livre para ecoar por toda a casa. Os toques não eram nada delicados. como respirar parecia um jeito de me controlar. e como o nosso primeiro beijo. Primeiro ele apoiou a mão espalmada.

iniciou um beijo feroz. cheios de luxúria. Entretanto foi só dar uma atenção especial a um de seus mamilos rijos e seu membro que o loiro relaxou. voltando minha atenção para o que estava logo à frente de meus olhos. Agarrei suas coxas e as abri. então agarrei o gringo pelos cabelos e tirei aquela boca quente e safada de meio baixo.Aaah« Ai« Eu senti que fora um gemido de dor. mas puxou-me para junto do corpo e. Aquilo me excitou tanto que eu estava decidido a arrombar Fernando. quase rasgava o lençol de tanto puxar por meu corpo estar tão trêmulo. Aqueles pêlos claros« Aposto que poucos tinham pêlos claros como os de Fernando num lugar . quase esmagando meus braços. Senti que estava muito próximo do alívio. não era à toa.Ué«? Você não queria« que eu te fudesse? Vi os olhos oceânicos cintilarem em minha direção. Empurrei seu corpo contra o colchão. nas últimas vezes. Assim que percebi que meus dedos deslizavam com mais facilidade. desejo. puxei-o para um beijo.. . Ele tentou me tirar de lá. quem havia desempenhado esse papel fora eu. empurrava minha pelve contra seu rosto. voltando meu corpo e deixando-me de ponta a cabeça para ele. O jeito como ele apertava os olhos e o tom de voz denunciaram que ainda não havia prazer naquela invasão. enfiei minha língua na entrada dele enquanto brincava com seu membro. . Depois passou a língua pelos lábios e. Deitei sobre seu corpo. Bem. e abri um pouco as pernas. mas eu não saí. Dei um sorriso de lado. Fernando gritou alto e forte. selvageria. Abracei o corpo em brasas e fiz com que Fernando ficasse sob mim. mas não me importei. me torturando. Queria mais de nossa intimidade. E eu não perdi tempo. dava pra perceber que ele queria continuar ali. me posicionando melhor. aquele jeito diferente e agressivo do loiro de me excitar estava me fazendo perder as estribeiras. passando sua língua para dentro de minha boca. me enfiei dentro dele. De primeira ele me olhou feio. enfiei dois dedos em seu pequeno orifício. me chupando igual nunca havia feito. nossos abdomens se encontrando. afinal. agarrando-o pelo braço. Senti meu próprio gosto naquela língua macia e experiente.Ah« Ah« Isso« Ah« Eu não sabia o que fazer. Eu gemia. e assim que minha boca encontrou com seu baixo.

mas Fernando estava incrivelmente resistente. agarrei seu membro duro e melado. e seu corpo começou a tremer tanto quanto o meu. por isso meus gemidos saíram sufocados. como ele havia feito comigo. os mamilos duros de Fernando raspavam em minhas costas. abocanhei-o. o loiro me colocou arqueado sob si. e senti-me penetrado com tanta firmeza quanto estava penetrando. Gritei. E foi tão sem aviso quanto eu o havia feito. encostando o rosto em sua virilha.Aaahh« Espera« Loiro« Eu vou« . olhando fixamente para o baixo do gringo. encontrando-se brevemente com meu próprio membro para. a boca do gringo envolveu-me com volúpia. Meu corpo tremia debilmente. Sentir seu membro entrando e saindo de . O membro dele se arrastou por meu corpo.como aquele. aquele barulho típico de corpos e choque e algo muito úmido sendo batido. Ele ainda estava rígido como uma pedra quente. melando meu abdômen. Ainda segurava o membro do loiro em minha boca. Não agüentei o peso do meu corpo e caí de cara no colchão. Não demorou nem um minuto. e eu gritei de êxtase misturado à dor. Seu baixo entrou torturante por minha entrada. Uma de minhas pernas foi agarrada. mas tive que me deter. e vi estrelas quando o gringo me virou de frente para ele.Hungh« Hunf« Hum« -« Ah! Apertei o tornozelo de Fernando. Ele não esperou que eu me acostumasse com seu volume túrgido e começou os movimentos forte e rapidamente. cutucar minha entrada. Com um espasmo. . Já estava esperando por seu suco. me sentindo insano. minhas pernas arreganhadas. na nossa primeira experiência na posição ³69´. meu traseiro empinado. enfiando-o em minha boca. Sem dó. esfregando minha língua na ponta e massageando seus testículos. Sentia meu corpo ser jogado para depois ser trazido de novo pelas mãos que seguravam com força meus flancos. enfim. sugando o mais forte que pude. Não demorei muito para me aliviar novamente. e me aliviei na boca dele. quando senti meus flancos serem agarrados o suficiente para que Fernando saísse de baixo de mim. ainda sendo impulsionado para frente e para trás. sentia que seus dedos ainda estavam dentro de mim e. Não sei precisar quanto tempo ficamos assim. enquanto meus dedos cuidavam de sua entrada. A partir de movimentos bruscos.

mim tão forte. Expirei. Nossas línguas se encontraram. e senti sua mão esquentar-me o sangue. suava. seus dedos afundaram-se em meus cabelos molhados. Segurei com delicadeza seu rosto. Ele respirava com a ajuda da boca. embora eu estivesse cansado demais para virar a cabeça imediatamente. Os olhos. Calma e tranqüila. gemia e tremia. O loiro desfez o beijo. mirando-me inexpressivo. Puxava o ar com força para dentro de meus pulmões. depois deitou a cabeça em meu peito. Abraçamos-nos. Olhamos-nos. A voz grave me deu calafrios. Eu não sabia o que ele queria me dizer com aquele olhar silencioso. Fernando caiu para um lado. desarrumada. mas era sua respiração em meu peito que mais mexia comigo. e depois ficamos nos encarando por um longo tempo. nós desmontamos. e eu para outro. Até que Fernando se enfiou tão forte dentro de mim que eu achei sinceramente que iria desmaiar. abrindo o peito na tentativa vã de me controlar. Nossos olhos não se desgrudaram. O corpo quente me esquentava. ainda sustentavam aquele ar selvagem e perigoso. gozava. uma sensação úmida em minha entrada. Trouxe o corpo para o lado. e o que estava a nossa volta também. suspirando. Ele piscou. Beijei . como se nunca nada tivesse acontecido para que problemas surgissem em nosso relacionamento. e se aliviou. Estávamos arfantes. Seu gemido foi longo. os olhos apertados. Fechei os olhos. e depois girando« Berrei. os cabelos tinham as pontas molhadas pelo suor. nos analisando. Algo tocou minhas costas e. Porém. e Fernando aproximou o rosto. ficando de frente para o loiro. Esquecemos tudo aquilo que existia entre nossos corpos. e beijamo-nos devagar. sabia que era a mão grande e precisa de Fernando. suados e cansados. mas eu também não queria falar nada com minha mirada constante e meu silêncio mórbido. Esquecemos do tempo. Beijava-o insanamente enquanto sentia que sua semente me preenchia ternamente. A cama estava toda suja. ouvia meu coração bater forte. seu toque suave em meu peito me disse que ele estava tão esgotado quanto eu. tudo ao mesmo tempo. Eu estava explodindo. senti seus lábios macios pressionarem-se contra os meus. Até que o loiro respirou mais fundo. rouco e delirantemente luxurioso. mas eu ainda tremia de prazer. passamos minutos apenas nos olhando. tão expressivos. abraçando seu corpo e acariciando seus cabelos. a pele parecia reluzir e a face estava muito corada. Eu estava doido por causa do sexo selvagem que acabáramos de fazer. a outra mão segurava minha nuca. distantes. agarrou-me gentilmente pelo tronco e me trouxe para perto de si. Esquecemos de nosso bloqueio. Fechei os olhos. E finalmente. para depois fixar-me novamente nas esferas azuis. Suspirei. mas era quase impossível fazer aquela sensação de excitação desaparecer. minhas mãos alcançaram automaticamente seu pescoço e eu puxei sua boca para juntar-se a minha. O calor parou acima de meu coração. Minha entrada latejava. minha outra mão passara por trás de seu pescoço e repousara em seu ombro.

e meu corpo estava cansado. Ao mover as pernas.Bom dia« ± Seus lábios roçaram minha orelha. Superando a preguiça. beijando meus lábios. Apoiei meu braço ao colchão. Levei meus dedos aos fios loiros. Fechei os olhos. como que tomando coragem para mexer qualquer músculo. completamente envergonhado e com medo de sujar o chão no caminho. segurei minha cabeça e fiquei observando suas feições serenas. quando tentei me levantar. devasso. decidi fazer o café da manhã para nós dois. lascivo. Foi difícil me concentrar em fazer torradas com aquele cheiro tão delicioso. Suspirei. murmurei palavras doces. . Adormecemos assim. Meus olhos ardiam com a claridade. Tomei um banho. Estava colocando leite em um copo quando braços circundaram minha cintura. depois escorreguei minha mão por sua face. fazendo com que eu ficasse arrepiado. . quando finalmente lembrei do que havia acontecido na noite anterior. e fiquei impressionado em como ainda não havia reparado que Fernando estivera adormecido ao meu lado durante todo esse tempo. senti algo melado entre as coxas e em minha entrada.Wow! ± Me assustei. Seus cabelos finos estavam completamente desalinhados. sem pensar em mais nada a não ser na felicidade que estava sentindo naquele momento. Coloquei a mão em concha entre minhas nádegas e caminhei devagar até o banheiro. no entanto. Eu nunca havia feito um sexo tão animal como aquele! Fora pervertido. eu não podia deixar de sorrir e sentir meu peito esquentar só de lembrar de como Fernando havia me amado. A barba estava começando a crescer.seus cabelos. e o perfume inebriante de Fernando adentrava efetivamente por minhas narinas. tomando coragem para sair da cama e senti algo deslizar por minha lombar. e parecia escorrer. A que eu colocara na oportunidade dizia ³Good at being bad´. Acordei um pouco atordoado. Arregalei os olhos. não assustado. sem noção de espaço e tempo. estava de bruços com a cabeça virada para mim. . acariciando-os. aquele me pareceu o ato mais passional por nós dois praticado. e foi ao tentar levantar que me dei conta do ocorrido. derramando um pouco de leite. animalesco«! No entanto. vesti uma samba-canção e peguei uma de suas muitas blusas estampadas. Não havíamos trocado uma só palavra de amor e. mas surpreso: não havíamos usado camisinha! A semente de Fernando ainda estava dentro de mim. Ele acariciou meu braço em resposta. mesmo que sem o carinho cuidadoso de sempre. Respirei fundo.

Bom dia. . puxando-o para mais perto. ± Passei meus braços por seu tronco. ± As sobrancelhas arquearam-se. Repousou uma das mãos em meu rosto. . afastando-me um pouco do abraço e olhando para as esferas do loiro. suspirando ± Só fica do meu lado.« por semana passada« Por tudo. Fê« . Fernando não parecia estar .Desculpar pelo quê? . -« Desculpa.Tô. ± Piscou. tombando a cabeça ± Não fui muito delicado com você. -« Eu não sei o que te dizer.Você tá bem? ± A voz veio baixa. ontem« .Eu não esperava que fosse. ± Abracei o gringo. . Fernando fixou os olhos nos meus. Embora o foco de suas pupilas estivesse em mim..Por ontem.Também. ± Virei o corpo.Eu não preciso que diga alguma coisa. encarando-me. Jogou meus cabelos para trás. acariciando minha face. cuidadosa. ficando de frente para ele e tocando seu braço ± E você? . as esferas azuis ainda sustentando o olhar. Franzi o cenho.

talvez o doutor Rafael« . o loiro me deixou à porta da sala.Eu sei.Escuta. mas« Vi as mãos claras de Enzo se abraçarem. e eu me sentia renovadamente confortável. que me recebeu com um sorriso amigável e assisti às aulas sem maiores problemas. só pros mais chegados. .Tô pensando em fazer alguma coisa. Meneei a cabeça negativamente com um sorriso nos lábios. ± Respondeu. . E o que aconteceu. Segurei seu rosto com as duas mãos. você. Eu não me arrependo nem por ontem. meu aniversário« . aconteceu. eu lembro. e ele riu gostosamente. porém terno. como se aquele fosse um dia qualquer. um pouco desconcertado. porque com momentos tão bons esquecemos da hora. nem por semana passada nem por nada. . Fê. Eu não estava preocupado ao chamar Enzo para meu aniversário porque sabia que haveria mais pessoas com as quais ele poderia conversar sem ter que se sentir .Não parece! ± Puxei seu nariz. Nada demais. despedindo-se com um beijo rápido. Sentamo-nos à mesa e comemos nosso desjejum conversando trivialidades.Guilherme. como que o acordando. tipo nós dois. aproveitei a folga depois dos exercícios que o professor havia mandado para conversar com Enzo.Eu sei. como se ele não soubesse muito bem onde colocá-las. No segundo tempo. fomos à faculdade.Esquece isso. O que importa é que a gente tá bem agora. Depois de nos arrumarmos correndo. agradeço o convite. . De praxe. eu particularmente não conseguia me conter depois dos comentários irônicos que Fernando soltava. Thomas e Igor. agradável. . Sentei-me ao lado de Enzo.exatamente me olhando. e beijei sua boca rapidamente. Rimos juntos. O clima estava leve.

Pra« Ah. né? Eu sei que por enquanto a gente tá como colegas. Os lábios levemente avermelhados deram um sorriso de lado.mal.Você não acha que a gente merece mais que isso? -« Os glóbulos voltaram-se para o lado. obviamente falando de seu olhar fixo em mim.« ± Coçou a nuca de cabelos louros ± Acho que ainda tá muito cedo. . eu realmente não compreendia Enzo. não sei. como que num movimento de ansiedade.Por que não? . Sacudi a caneta preta em minhas mãos. ± Apoiou o queixo na mão. Enzo. . mas« Hunf« Suspirei.Se a gente quer continuar a amizade. Seus olhos esverdeados ainda me encaravam à espera da conclusão de minha frase. . .Cedo pra quê? ± Não era ingenuidade.Não. não disse nada. você sabe. . a gente precisa de laços. como se Enzo estivesse imerso em seus próprios pensamentos e analisasse com cuidado minhas palavras. . . .Eu já não faço isso? ± Indagou. mesmo. Guilherme.Eu. os olhos em mim. rodando o pescoço e voltando a olhar para Enzo. as esferas castanhoesverdeadas dirigiram-se para baixo e embora ele tenha respirado fundo. Não esperei por sua resposta. uma hora ou outra a gente vai ter que se encarar.

voltei minha atenção ao celular que vibrava em meu bolso. . ± Olhei para o meio de minhas pernas.Guilherme. Engoli em seco.Estou. pode falar. eu« Como conseguiu meu número? . a imaginei do detetive Abikair e toda sua fisionomia exótica e atrativa: seus cabelos escuros de tons vinho. Meu coração pulsava dolorosamente. .Claro. sentia uma estranha sensação escorrer por minha coluna e minhas entranhas reviraram incomodamente. foi tão insistente que depois de cinco chamadas. Abikair.Você preencheu o formulário com seus contatos. Imediatamente. e eu agarrei meu próprio membro. as íris tão azuis que beiravam o arroxeado.Ah! Sim. a pele morena como bronze polido« Meu corpo reagiu. saí de sala para atender o infeliz que me importunava. meio irritado. . mais um motivo para não atender a uma ligação no meio da aula. . pois não? . o olhar expressivo. tentando me conter.Guilherme? . correndo para entrar num dos boxes do banheiro. sentindo-me perturbado. os ombros largos e a cintura delgada. contidas em grossas bordas negras.Alô! ± Atendi.Está ouvindo bem? . Mas fosse quem fosse. O número me era estranho. sou eu. ± Sua formalidade era notória ± Tem um minuto? . detetive.

- Vou precisar que você compareça à delegacia. Ainda não posso precisar a data, mas acredito que seja daqui a três dias, dia 27 de outubro.

- Ah,« E que horas?

- Durante a noite, não vou arriscar sermos vistos por ninguém, nem de dentro nem de fora. ± Respondeu, veemente.

- Não tem como ser em outra data, detetive Abikair?

-« Por quê?

Senti meu baixo pulsar em minha mão. Não era possível que estava reagindo assim somente com a voz do detetive por telefone. Joguei a cabeça para trás, sentando-me no vaso sanitário e apoiando a testa na parede do boxe. Respirei fundo, fechando os olhos; ele devia saber que eu me sentia assim, devia fazer de propósito.

- Guilherme?

- É meu aniversário, senhor Abikair.

- Oh! ± Ele pareceu verdadeiramente surpreso; adoravelmente surpreso ± Verdade, não havia reparado isso no formulário. Perdão.

- Que isso, detetive.

- Não, Guilherme, foi falta de atenção minha. Mil perdões. ± O barulho indicava que ele havia acabado de sentar ± Na noite seguinte, então? Dia 28?

- Tudo bem.

- O endereço que você deixou é mesmo o seu?

- É, sim. Por quê?

- Não vou deixar você ir à delegacia sozinho durante a noite, Guilherme. ± Censuroume, como se eu não percebesse o óbvio.

- Mas eu tenho com quem ir, não precisa«

- Eu não estou perguntando se tem quem te leve ou não à delegacia, Guilherme. Também não estou pedindo que aceite que eu o escolte. ± Me calei, surpreso ± Eu VOU escoltá-lo, queira você ou não, porque caso você não tenha percebido ainda, você é uma testemunha ocular de um seqüestro combinado com homicídio.

- Eu sei, senhor Abikair«

- Não, Guilherme, acho que você não sabe a dimensão da situação em que você se meteu ao entrar naquele quarto. ± A voz de Abikair era potente e severa, embora em baixo volume ± Estamos falando de um criminoso seqüestrador e assassino que está à solta, esperando pacientemente o estagiário tolo sentir-se acomodado à falsa sensação de segurança para esticar as pernas em algum local provável para dar um fim à única pessoa que pode comprometer sua identidade e liberdade.

- Eu«

- E como você bem sabe, eu não sou dessa cidade, nem desse estado. Venho perseguindo os passos desse criminoso há algum tempo, e nunca antes chegamos tão perto de poder prendê-lo, uma vez que nunca antes conseguimos evidência ou testemunha alguma para incriminá-lo. Essa é a primeira vez que alguém consegue cruzar seu caminho sem morrer no processo. E se eu precisar escoltá-lo da sua casa até a

delegacia com mais quinze policiais à paisana, por mais que sejam dois metros de distância, é isso que vou fazer!

Ouvi o detetive respirar fundo, ainda quieto. Eu não sabia se estava levando esporro ou se, depois de tanto tempo atrás do cara, como ele mesmo dissera, o detetive Abikair apenas sentira a extrema necessidade de extravasar um pouco. Continuei calado, meio sem jeito de dizer qualquer coisa. Conseguia ouvir a respiração levemente descompassada de Abikair, e fechei os olhos, imaginando como ele estaria naquele momento: sentado atrás de sua mesa, de pé e apoiado à parede, sentado sobre a mesa ou deitado em sua cama, nu, o corpo ligeiramente molhado pelo banho que acabara de tomar, os cabelos úmidos jogados ao colchão, o peito«

- Guilherme?

Acordei de meus devaneios luxuriosos quando a grave voz adentrou por meu ouvido e arrepiou os pêlos de minha nuca.

- Sim?

- Perdão novamente. Eu falei demais.

- Tudo bem, detetive. Deve ser bem frustrante tentar pegar um cara desses e nunca conseguir. ± Levei a mão à boca assim que terminei a frase; o que eu estava insinuando, que o detetive Abikair era incompetente?!

- É, Guilherme. Mais do que se pode imaginar. E esse em especial é meu calcanhar de Aquiles.

Tombei a cabeça para o lado, sorrindo de leve. As palavras de Abikair pareciam as de uma criança que admitia que não conseguia alcançar a prateleira de cima: sinceras e fofinhas. Dei de ombros, finalmente consegui tirar minha mão de minhas partes íntimas.

meu quadril ameaçava jogar-se para frente e para trás.Eu ligo confirmando. o senhor consegue. detetive. liga para este número.Tenha um bom dia.Se precisar de algo. .« Dia 28. Então. Mas até então. Olhei para o teto. meu membro não parava de ficar túrgido só de lembrar daquela voz grave e rígida ao meu ouvido. dessa vez. Eu não conseguia entender por que o detetive conseguia. .Eu acredito no senhor. Estava acontecendo de novo.Não faça isso com você mesmo. Suspirei fundo antes de desligar o aparelho. . Isso tinha que parar. Eu estava nitidamente fora de controle. Guilherme. mas a única coisa que consegui foi um silêncio profundo quebrado apenas pelo barulho de minha própria respiração. certo? . imaginando qual seria a explicação para aquela reação. Guilherme« ± Murmurei para mim mesmo ± Não faça isso com ele« . . Eu sei que. com absurda facilidade.Espero que sim. ± Aquelas palavras me fizeram morder os lábios. irei prontamente encontrá-lo. . Apertei o celular em minha mão. levando a outra à testa. dia 28. É meu celular pessoal.Pode deixar. .Você também.. . E espero contar com sua ajuda.Certo. me tirar do sério. . detetive.Claro. também.

Estalei alguns dedos no caminho de volta. e encarei meu rosto. . sim. A pele clara contrastava com os cabelos castanhos escuros. meio oval. muitas pessoas no corredor me faziam desviar e chegar lentamente à sala de aula. Os olhos cor de mel.No celular. ± Continuei a juntar minhas coisas e enfiá-las na mochila. .Onde você foi? . Você saiu para atender.Inspirei profundamente e expirei com força. -« Hãm? . Não era ninguém. mas não é a mim que você afeta quando mente desse jeito. Encarei-o por algum tempo. .Ah. chamavam a atenção se olhados mais de perto. sem entender muito bem o que ocorria. Passei mais uma água no rosto antes que meus olhos descessem e eu começasse a pensar em como não gostava de meu corpo. Não demorou muito e o sinal do término da aula soou.Eu não me importo de você não falar quem era. . balancei a cabeça e juntei minhas mãos entre as coxas ao curvar o tronco. e os cabelos no corte desalinhado emolduravam um rosto meio quadrado.Ao banheiro. atípico na minha família. depois guardei o celular no bolso e fui lavar o rosto. Apoieime com as duas mãos na pia de granito rajado. né? . Acalmei-me um pouco. Arrumava minhas coisas quando notei que Enzo ainda estava sentado ao meu lado.E quem era? ± Franzi o cenho. Os lábios pouco pronunciados davam contorno a uma boca sem graça.

± Continuou o movimento com o saleiro ± Só achei você estranho. . Joguei a mochila na cadeira de nosso quarto e deixei que meu corpo caísse sobre o colchão. e provavelmente foi por isso que Fernando notou que alguma coisa acontecera. Gui? ± Levantei os olhos pra ele. Ainda estava com a agenda na mão quando o acompanhei com os olhos e encontrei meu namorado à porta de minha sala. Olhei pela janela. ele sorriu de lado e apoiou as costas ao batente da porta. a outra mão parara o movimento e o saleiro ficara na diagonal. Ergui as sobrancelhas. e ficava difícil continuar sustentando o ar de normalidade a cada momento. engolindo a comida. Por que. como se o gringo estivesse me comprimindo contra uma parede.Não. dessa vez muito mais pesado do que antes. eu sabia que ele ainda voltaria no assunto. alguém comentou alguma coisa? . Fiquei quieto na volta para casa. Fernando apenas ergueu as sobrancelhas quando baixou os olhos para o saleiro em forma de anuência. o garfo suspenso pela mão esquerda. Limpei a boca com o guardanapo e tomei um gole do meu suco. agora no carro. tá tudo bem. nada. imaginando se agora era o momento de falar para Fernando que eu estava cooperando com a polícia. ao terminar de mastigar um pedaço de nhoque de aipim. Ele ainda me mirava. .Não. Acabei de arrumar minhas coisas e desci as escadas junto a Fernando. Formou-se novamente um silêncio no carro. Cada garfada parecia um sacrilégio. e meneei negativamente a cabeça ± Tem certeza? Parei de mastigar por uns instantes. ainda mastigando minha couve. .Tenho.Enzo levantou-se. os braços largados. o carro vermelho de Enzo já havia partido. Quando chegamos ao estacionamento. Estávamos almoçando num restaurante perto de casa quando. colocando a mochila num dos ombros e foi embora. Chegamos em casa e Fernando foi direto para o banho.Aconteceu alguma coisa. os olhos azuis fixaram-se incomodamente em mim. . O jeito como me olhava enquanto comíamos me pressionava. Mas apesar disso. O loiro não falou nenhuma palavra sequer depois disso.

mas nada mais que isso. Com as duas mãos colocou os cabelos para trás. rolando e ficando de barriga para baixo. Continuei imóvel ± Eu sei que aconteceu alguma coisa. Torci o tronco para olhar o gringo. Encaramos-nos por um tempo até que suas sobrancelhas se ergueram levemente e eu entendi que ele estava ali para conversar. . Suas mãos abraçavam-se comodamente enquanto descansavam em seu colo.Como não foi nada?! ± O loiro estava se alterando rápido. O gringo tomou ar. aí havia outra dificuldade. ± Declarei. como se estivesse fazendo um enorme esforço para entender alguma coisa. . Eu não sabia por que não conseguira falar para Enzo que estivera conversando com o detetive Abikair logo depois de ³criticá-lo´ de não se permitir criar laços novamente comigo. olhar esse que não estava para muita simpatia. Espreguicei-me longamente. Gui? ± Fernando ergueu os ombros. já que eu não poderia falar com os dois ao mesmo tempo. trocando-as por um short confortável. o típico hábito de gesticular se manifestando ± Claro que aconteceu alguma coisa. apoiando-me com um dos braços atrás do tronco e levando meus olhos aos deles. refletindo que talvez fosse melhor compartilhar desse segredo primeiro com os irmãos do apartamento ao lado. mas fosse o que quer que fosse. permiti-me um descanso mental. . e troquei a camisa de malha por uma camiseta confortável. Cocei a nuca. guardou para si mesmo quando fechou a boca e expirou longamente. Engoli em seco. Gui! Eu não sou idiota! . . e esse era um provável motivo para ele ter me dado a resposta que me deu. Sentei com as pernas flexionadas numa típica posição defensiva. Fê. embora sua cabeça estivesse em minha direção. o outro flexionado de modo que a mão ficasse frente à minha boca. tentando tirar minha atenção do corpo pecaminoso de Fernando e prestar mais atenção em seu olhar.Desfiz-me das calças.Não foi nada. Fechei os olhos e. Respirei fundo. Senti o colchão afundar. desviando o olhar.Quê que tá acontecendo. suspirando. que se sentara de lado para mim. e você não tá querendo me contar. subi um pouco a barra da camiseta porque a janela fechada fizera com que o quarto ficasse abafado. Porém.Eu não vou continuar essa conversa com você gritando desse jeito. a toalha amarrada à cintura fazia uma fenda profunda sobre a coxa direita e o torso nu brilhava por ainda estar úmido do banho. Apoiei a cabeça num dos braços.

porém só conseguir arregalar os olhos enquanto as palavras morriam em minha garganta. permaneceu em silêncio por alguns segundos até que finalmente virou os olhos para mim. Mas logo pareceu se arrepender ao fechar os olhos e levar uma mão aos olhos ± Por favor. .Você tá brigando! Você que tá gritando! ± Argumentei. ficando completamente de frente para mim ± Que eu te fiz. e não passa um dia. . ele sabia e sabia principalmente que eu também sabia disso. eu já disse! .A gente não tá brigando.A gente tá brigando! . que te deixou desse jeito e eu não sei?! O que você tá me escondendo?! . mas só consegui que suas sobrancelhas se arqueassem mais. .Que merda. e eu recuei o corpo. pára de mentir pra mim. . volta pro arranca-rabo. . Fernando estava certo.Pára de negar! ± Berrou. as expressões muito sérias e com um ar de gravidade. nunca tinha me sentido assim com você! Não tô entendendo o que aconteceu nesse tempo pra você ficar me escondendo coisas! ± Girou o corpo. Guilherme! Eu nunca tinha transado com você daquele jeito. porra! Já estava pronto para retrucar.E eu não estaria gritando se você me falasse a verdade.parando o movimento quando as mãos alcançaram a base do pescoço. .Por que a gente sempre briga depois que transa? ± Franzi o cenho ± A gente teve um sexo tão gostoso ontem. Baixou a cabeça.Nada.

Não consegui decidir. Suspirei. mas correndo o risco de o loiro ficar verdadeiramente magoado comigo. Tentei me acalmar. baixaram-se até suas coxas. As mãos.« ± Tentei começar. e sim com austeridade. . azuis de um profundo mar aberto. apenas fiquei encarando meu namorado em seu sofrimento silencioso com um dilema difícil degladiando-se em meu íntimo: contar a Fernando que eu havia ido ao meu trabalho e encontrado com Flora. não com arrogância. Ele esperava por alguma revelação minha.« Vamos falar disso depois. e ajoelhei-me aos seus pés. e estendi a mão espalmada para que Fernando não se levantasse. Olhava-me um pouco surpreso.Foi porque fui violento demais com você?! Você não queria daquele jeito?! Ou foi porque a gente fez sem camisinha?! . porque te arrombei demais?! . Fernando tinha dedos longos e elegantes. Via-o me olhar de cima. Levantei. só que em outro momento. depois voltei meus olhos para meu namorado.Fê. Seus olhos. e o gringo ficou quieto. mas ele continuou falando. mas não eram finos. okay? . . mas eu decidira que o melhor seria contar ao loiro tudo.Fê. ou continuar escondendo até uma hora mais apropriada. . cansado da troca de argumentos inflamada. e notei que seus lábios pronunciados estavam levemente crispados. não adiantava nada pedir calma a alguém se você mesmo estava irritado. onde descansaram e assentaram-se abraçadas. ele ainda me encarava. Dei a volta. depois soltei o ar devagar. além de ir à polícia e cooperar com o detetive Abikair. Recolhi as mãos bronzeadas de cima de suas pernas. pára! Acabei usando um tom muito alto. sem trégua. e meu silêncio só irritava mais ao gringo.O que foi?! Foi porque eu te mordi.Não consegui falar nada. que haviam parado meio ao seu processo de gesticulação. segurando-as com as minhas. afinal eu não estava saindo do quarto. ficando de frente para o gringo.Fernando. encaravam-me fixamente. Respirei profundamente.« Escuta. mas não revidou com qualquer grosseria típica de quando se enervava e passava dos limites.

Vou te contar tudo. mas antes de passar por mim..Porque eu não quero falar! .Agora não dá! . . . derrubei-o novamente na cama ± Wow! . não seria a primeira vez! ± Alfinetou.Eu prometo que te conto tudo.Depois do meu aniversário. mas Fernando não estava alterado. tá? .Depois.Por que não dá?! . me fazendo apertar os olhos.Não.Por quê? .Bem. quando? ± Havia um tom repressivo em sua voz. Guilherme! Eu quero saber agora! .Eu te prometi que ia te contar depois do meu aniversário! Tá achando que eu tô mentindo?! . mas ele recolheu as mãos das minhas.Ótimo! ± O loiro quis se levantar. inconformado. ± Insisti. .

E foi quando o gringo soltou sua última frase que eu perdi as estribeiras. caralho?! . me escuta! ± Berrei. Fernando continuava com o rosto virado para a direita. só espera um pouco até« . apesar de nosso inconsciente estar gritando. a gente acabava se machucando na cama. Guilherme! ± Arregalei os olhos. e antes que pudesse me conter. Sentia meu coração bater louco em meu peito. a expressão do loiro era dura ± Custa a base do nosso relacionamento. não desejávamos que fosse expresso.Fernando. tô falando que vou te contar. inflamados por minhas emoções. espantado.Ai. Mas nunca nenhum de nós havia agredido o outro.Porra. um silêncio mortal havia de apoderado de meu quarto e me fazia escutar o tiquetaquear de meu relógio de pulso. cada vez nossas vozes se exaltavam ainda mais e falávamos coisas que. que era pra ser a sinceridade! . por favor! ± Quase implorei ± Eu vou te contar tudo. cacete! Espera! . Seus olhos arregalados denunciavam tanto espanto quanto minha mão sobre minha boca. Eu já estava nervoso. foram mais rápidos do que os reflexos de meu raciocínio. caralho! ± Recolhi a mão assim que havia percebido o que havia feito. se saía. nunca havíamos trocados socos. e lentamente a . Vi uma das mãos grandes cobrir a face estapeada. mas nunca saia da agressão verbal e. Nós costumávamos brigar muito. quê que custa esperar?! . E eu havia esbofeteado Fernando.Qual a porra do drama de falar agora. .Fernando. chutes ou tapas.Custa a minha confiança em você. ficando de pé ± Tô falando que vou te falar. Fernando estava nervoso. eu já havia desferido um tapa de mão aberta em cheio na face esquerda de Fernando. a tez bronzeada de seu rosto começava a ficar avermelhada. Meus instintos..Por quê?! Pra dar tempo de você inventar uma boa história e mentir na minha cara de novo?! Não me agüentei.

como que espantando as lágrimas para conseguir enxergar alguma coisa. eu« Calei-me assim que ele voltou o olhar para mim. Quando tirou a mão do rosto. Primeiro sorriu de nervoso. A quietude me dava a sensação de vácuo. . ³Não. isso não pode ficar assim«´. os olhos alagados e o rosto vermelho. .cabeça virou na minha direção. não tentei impedi-lo novamente. Quando se levantou. intensa ± Se foi você ter mentido pra mim. ligeiramente trêmulas. Senti meu corpo tremer. baixando um pouco a cabeça. mas depois meneou a cabeça em negativa. mas eu mesmo me boicotei« Pus tudo a perder« Acabei piorando a situação. Segurando a maçaneta. ou se foi você querer continuar mentindo quando eu sabia que você« Ele se deteve. Respirava com dificuldade. e vi quando lágrimas escorreram.Fernando! .Fê. O loiro desviou os olhos para o lado. Sentei-me na cama.Eu realmente não sei o que dói mais« ± A culpa tomou-me. de seus olhos. já que ambos sabíamos como completar aquelas palavras. distingui com tristeza as marcas dos meus dedos. e embora quisesse desviar meus olhos de Fernando. o que me fez passar as mãos nos cabelos e segurar minha cabeça. não conseguia deixar de me fixar no belo rosto. pensei comigo mesmo. parecia penoso demais terminar a frase. o loiro saiu de nosso quarto. e também desnecessário. como se Fernando estivesse procurando a resposta em algum lugar de seu campo de visão. Os glóbulos não se fixaram em nenhum lugar. e eu ficara feliz de saber que Fernando gostara tanto da noite passada quanto eu. A boca estava semi-aberta. e consegui chegar a tempo na sala antes que o gringo saísse de casa. mas não consegui sair da posição em que estava. gordas e silenciosa. Decidido. levantei. Como eu pude permitir que aquilo acontecesse?! Nós estávamos tão bem. inconsolável. As sobrancelhas arqueadas como que em dor. limitei-me a acompanhá-lo com os olhos e. O que eu estava fazendo?! O que eu havia feito?! . as esferas incrivelmente azuis arregalavam-se para mim. certamente indo para o de visitas. e só depois de um bom tempo o gringo piscou os olhos. assim que ele parou ao batente da porta. nossos olhos se encontraram.

depois os voltou para mim.Só espera um pouco« Só mais um pouquinho« -« Até seu aniversário? . até que o tronco torceu-se e os olhos de um azul impressionante novamente se focalizaram nos meus. se eu mentisse pra você? Depois disso.É. então eu que arcasse com as conseqüências. Massageei minhas têmporas quando sentei na cama do quarto de visitas. e me apoiei à parede. e voltei a olhar para o loiro. era uma pergunta retórica. Afinal. vi que suas coisas ainda estavam em nossa casa. não sabia se de nervoso ou de ter conseguido que Fernando me ouvisse. certamente estaria aberto para uma nova conversa. Fernando e eu não nos falávamos: ele não puxava . . Fernando saiu de casa. Fê« ± Quase suplicava. -« Não sei se consigo esperar tanto. mas não ousei chorar ou ficar mais abatido. chegando ao quarto de visitas. notava-se que estava cabisbaixo. Ouvi-o respirar profundamente. meio sem jeito.Você agüentaria três minutos.Desculpa« -« . se Fernando havia parado para me escutar. . Mas só fui me acalmar mesmo quando. Cocei a nuca. depois sentei com as pernas esticadas. Os dias seguintes seguiram-se apáticos. Olhei para cima. como que tentando manter a calma. ± Fernando baixou os olhos para os próprios pés.O loiro parou. . Guilherme. suspirando. Comecei a hiperventilar. engolindo a tristeza. Abracei meu corpo. Fora eu o responsável pela merda toda.Três dias. tentando ao máximo me convencer de que. ele não precisava ficar para ouvir a resposta.

se levantando e indo para o chuveiro.« Mas tô indo mais porque você parece estar com problemas. Passou uma das mãos nos cabelos. . ficando de barriga para cima. Talvez o despertador não tivesse funcionado.assunto. Encaramos-nos por instantes e Fernando virou a cabeça. Como não houve reação.No seu aniversário. já que o meu tinha apenas alguns fragmentos soltos. Antes de sair da sala. Enfim. mas não ousou perguntar coisa alguma. . depois de esfregá-los um pouco. Encarei por alguns segundos os olhos castanho-esverdeados de Enzo. -« Hãm? .Guilherme.Oi? . uma manhã cinzenta indicava que o dia 27 do décimo mês seria chuvoso. acariciei a pele exposta e ele finalmente trouxe o corpo. voltou-os para mim. então toquei seu ombro. Ele estava deitado de lado.Valeu. pois estava chegando o mais tarde possível. Pensei em chamá-lo. . e sorri de leve. . afastando-os dos olhos e. quando estava para me levantar.Eu vou. e eu não conseguia começar a falar de nada. reparei que Fernando ainda dormia. que pareciam tão seguros de sua decisão. ou talvez o gringo simplesmente estivesse cansado dos últimos dias. eu notei. mas fiquei na dúvida se seria melhor apenas tocá-lo. e consegui o caderno de Túlio emprestado. Enzo achou meu comportamento estranho. Não consegui copiar direito a matéria naquele dia. ao fim da aula. Acordei. Tentei não me importar e. depois que eu já havia me deitado para dormir. Enzo tocou-me as costas.

segurei sua mão.Umas oito. Era uma abertura para que eu pudesse falar. Secou a boca. depois que todos forem embora. e fomos de minha sala até o apartamento em silêncio. . e parou exatamente com a escova no canto direito da boca.Eu sei que você vai ficar puto comigo. Enzo passou por mim e.Que horas? . -« . Fernando bochechava.Tchau. . . passando os dedos para ajeitar os fios loiros.Hoje. Até mais. Ele ainda escovava os dentes.. . sete e meia« Apareça quando puder. e decidi que estava na hora de quebrar o gelo.Tá. quando percebi. depois que eu te contar o que era. cuspindo e limpando a escova de dentes. -« ± Voltou a escovar os dentes. Antes de ir para o consultório. Fernando já estava à minha porta.« Eu vou te contar tudo. . Mas eu prometo. depois parou de frente para mim. Almoçamos em casa.Tá. Aproximeime dele. não vou esconder nada.

Já estava para apertar o botão da campainha quando me perguntei o que estava fazendo lá.Faz o que você quiser. mas Igor nunca me obrigaria a dizer algo que não queria. eu pensativo com meu suco de laranja e Igor. Já ao final de meu suco. Desviou-se de mim.Não muito bem. certo? ± Pisquei. mesmo. ± Colocou o copo na mesa de centro ± O que eu quero saber é o que vai fazer agora? . acordei e fui ao apartamento ao lado. e acabei indo com ele à padaria. sinceramente ± Acho que é mais uma das muitas vezes que eu fico perdido depois que brigo com ele.Isso qualquer um suspeitaria. .Como estão as coisas? . . ± Sorri de lado ± Acabei magoando o Fernando.Mas e você? Hoje é seu aniversário. De súbito. os olhos instigantes pousados de mim. Sabia que o moreno queria me perguntar o que estava acontecendo.Não muito. encarando as esferas de esmeraldas ± Ainda mais num dia como hoje. a porta se abriu e deparei-me com o moreno de olhos verdes e barba por fazer. Mesmo depois de Fernando deixar o apartamento. Antes de pensa em qualquer resposta. vi que ele levava a carteira nas mãos. fiquei ainda um tempo parado no mesmo lugar. Comemos um lanche da tarde. .Mas alguma coisa você vai fazer. Igor me encarou ininterruptamente. não está nem um pouco animado? .. .Não sei« ± Respondi. e saiu para trabalhar. . . se você está perguntando da briga que tive com Thomas.Era isso. achei melhor dizer alguma coisa.

± Arqueou as sobrancelhas. . eu sei. Vez ou outra a gente se cruza. Levantei.Honestamente? ± Meneei positivamente a cabeça ± Não muito. naquele momento em especial. mas eu me surpreendi em como. que imediatamente abraçou-me com um dos braços compridos. mas agradeço a oportunidade de ter um assunto para tentar um contato. Igor estava transparentemente infeliz. sabia que os irmãos estimavam muito um ao outro. deixando minha cabeça em seu colo enquanto ele acariciava muito levemente meus cabelos. ± Ergui a cabeça para encarálo.É. pois depois de tanto tempo brigado com o irmão.Mas você tenta falar com ele? . como se estivesse muito cansado ± Não me recordo de ter ficado tanto tempo brigado com Thomas. sentando ao lado de Igor. Qualquer pessoa conseguiria ler suas emoções. ± Aconcheguei-me ao sofá ± E você? Algum progresso? -« Quase nulo. Guilherme. . ele estava sensível. numa expressão única de sofrimento ± Espero desesperadamente para voltar a falar com ele.Também espero. ± Disse. Deixei um bilhete.Tentei. . ± Recostou a cabeça. Recostei-me em seu corpo. . suspirando ± Mas ele foge de mim. . e por Thomas também. Sei que ele não agüenta minha insistência. . Você sabe que é desnecessário eu falar isso pra ele. Igor não era muito de demonstrar sentimentos. Fiquei triste por ele.. Apesar de não demonstrarem abertamente. mas« nada mais animador que isso.Chegou a falar de meu aniversário? Não consegui falar com ele esses dias.Espero que você consiga conversar com ele lá em casa.

mais tarde. eu« Eu preciso ir. . mas ele nada expressava. e« .O barulho de chaves ecoou pelo apartamento. como os de uma criança perdida. fica. .Fica.Bom. Arrumar as coisas. procurando o rosto de Igor. . heim? -« Oi. e talvez minha visita tenha feito o moreno mais velho esquecer de que era hora de sair de casa. decidi que era hora de ir embora.Oi. Espero vocês hoje. Já estava pra sair quando Thomas agarrou meu braço. Thomas irrompeu pela porta. . para que pudessem aproveitar a oportunidade e conversarem.Thomas. ± Seus olhos estavam tristonhos. Fiquei sem jeito. Guigui« ± Notei que estava um pouco incomodado.Guilherme.Fica. Ainda segurava a maçaneta quando se petrificou ao ver a mim e a Igor. Olhei para trás. . Como nenhum dos dois falou. Não queria ficar . por favor«! O olhar do moreno estava baixo. . ± Assentiu Igor. Olhei o relógio em meu pulso.Claro. Os irmãos estavam evitando-se ao máximo. além de abatido. já havia passado tanto tempo?! Quando menos esperávamos.Hum? . Thomas! Faz tempo. eu vou indo. direcionado para algum ponto entre nossas pernas.

Tudo bem. Você tá aqui. ± Acabei soltando casualmente. .Boa noite.Boa noite. -« . Os glóbulos oceânicos. arregalaram-se brevemente. mas tô guardando o dinheiro pra« . . encontrei Fernando sentado à mesa da sala. ele brincava com as fitas do pequeno presente. que antes repousavam sobre o pequeno quadrado embrulhado.Obrigado. Feliz Aniversário.« ± Usei o tom mais compreensível que pude ± Eu não quero ficar me metendo. ± Olhei diretamente para ele ± Eu não me importo. depois me aproximei dele. Vacilei por um momento. Fechei a porta. me encarando com tamanha intensidade que cheguei a ficar confuso sobre o que o gringo estava de fato sentindo. depois se voltaram para o irmão sentado no sofá.Queria ter comprado algo melhor. . Deixei a casa de meus vizinhos e voltei para meu apartamento. indo para a cozinha e pegando um copo de água ± Sei lá. Apoiei-me no encosto da cadeira. um pequeno embrulho quadrado preso por um laçarote vermelho. tão verdes quanto os de Igor. ao abrir a porta. . mas também não queria que eles continuassem brigados. ± Desabafei. ± Entregou-me a caixinha. Desculpe. isso me basta.no meio do desentendimento dos irmãos. Fernando mordeu os lábios inferiores. mas decidi que era hora de arrumar as coisas para receber os convidados. Os olhos verdes. Frente a ele. calmamente direcionaram-se para mim. .Tive receio de você não vir.Thomas. passando a chave. o jeito que eu te tratei« . Fê. Qual foi a minha surpresa quando. ± Sorri com o tamanho do presente.

Todavia. Por mais que não fizessem as pazes. . imaginando onde poderia usar aquelas coisas. ela estivera comigo no dia de meu pequeno acidente. o que você tá planejando fazer? Com a ajuda de Fernando. e mais. Do bolso. Confortadas em uma confortável armação. poderia ser perigoso. só falta tomar banho e se arrumar. já que nem sair para fazer estágio eu podia.Agora.Ah. ± Fernando encostou-se ao parapeito ± Não vai abrir o presente? . Estava todo suado. Seus braços cruzados denunciavam que o loiro ainda estava chateado comigo. havia duas abotoaduras prateadas. Pensei em chamar Marina.Eu sei disso. só o fato de ele falar comigo. assim como o doutor Rafael.. é! Desculpe.Não parece. Por fim. -« Então. . que ficou toda empolgada por ser lembrada. foi fácil fazer de nossa casa um salão de festas. mas além de não sermos muito chegados. E eu falei que ia te contar. eu sabia que os irmãos compareceriam. afinal.Eu não esqueci isso. me deixou mais relaxado. depois que todos fossem embora. e resolvi ir para a varanda me refrescar um pouco. me comprar um presente. puxei a caixinha. mas a arrumação diferente fez com que houvesse mais espaço para melhor acomodar as pessoas. mas dá um puta trabalho fazer essas coisas. . . o qual eu havia telefonado logo depois de conversar com Fernando.Né?! ± Aceitei o copo que me foi oferecido. Sorri. e o tal assassino poderia estar de olho nela. tirando a fita e o papel colorido. convidei Túlio quando pedi seu caderno emprestado. Enzo havia confirmado a presença. ± Virei para olhar o gringo apoiado à parede ± Eu ainda quero saber o que fez você mentir pra mim. Nada muito pomposo. Fernando veio logo depois. . um copo de mate em suas mãos. Também telefonei à Flora.

já que ele sairia direto do hospital. uma calça jeans azul marinho e meus tênis. impecável: a camisa social azul claro realçava extremamente seus belos olhos azuis. e os sapatos negros brilhavam nos pés cruzados. no banheiro social. mas tudo bem. mas não ousei me virar. . . seria pedir demais para tomarmos banhos juntos depois de um desentendimento. e me apressei no banho. eram de um loiro escuro. Notando meu olhar. Ouvi Fernando remexer as roupas. a calça preta deixava suas pernas mais longas. se o telefone não houvesse tocado. os convidados começaram a chegar. Ainda me vestia quando senti a fragrância inebriante invadir minhas narinas. ainda. Obrigado. Pouco tempo depois. Quando cheguei à sala. um atrás do outro. Era o doutor Rafael. apoiando o rosto numa das mãos. por ainda estarem molhadas.São de prata. Separei minha roupa.São bonitas. mechas douradas mesclando-se a outras que. ± Observou. as expressões de Fernando amenizaram-se. uma camisa de manga curta preta com um pequeno símbolo no peito esquerdo. ainda molhados. confirmando que viria e se desculpando por ter que aparecer em trajes de trabalho. Ele saiu do quarto e eu me permiti girar para sentar e amarrar os tênis. Fernando já estava debaixo do chuveiro.É? ± Sorri para ele. e um sorriso fraco. olhei para o relógio e vi que precisava me apressar. o que me acordou e fez com que o gringo reparasse que era observado. Depois da breve conversa. e me decepcionei um pouco. estavam cuidadosamente despenteados. já que nem banho eu havia tomado. -« Você entendeu o que esse presente quis dizer? -« Hãm? O loiro continuaria falando. surgiu em seus lábios. aproximando-me um pouco ± Espero ter a oportunidade pra usálas. . Fernando já estava sentado no sofá. Topei o pé numa das cadeiras da sala.. porém sincero. Os cabelos.

Túlio chegou alguns minutos mais tarde.« Essa é a casa do Guilherme? . mas consegui disfarçar bem. Alguns segundos. para a minha surpresa.Pois não? .Primeiro foi Enzo. Depois. . Fernando pediu licença e. voltando a conversar com meus convidados. todos estavam conversando o mais descontraidamente que podiam. que me ligava do sul do país para me dar os parabéns. ± Sibilei. . arregalando os olhos. e por fim. Não me importei. não queria que Fernando percebesse. eu« Pode entrar. Era o Dan.Não. e então o telefone tocou. desculpe. foi a vez de meus pais. afinal era o seu aniversário e. franziu o cenho e abriu a porta. . Thomas estava conversando com Enzo e Flora. eu« Eu peguei seu endereço lá na imprensa« Não sabia que você estava dando uma festa. Desliguei. Uma terceira vez o telefone tocou. O gringo olhou pelo olho mágico. enquanto que Igor falava com o doutor Rafael e Fernando. fomos abrir a porta. Vez ou outra os trios mudavam e passavam a ser duplas ou quartetos. ninguém. mas a pessoa do outro lado da linha nada respondia. junto a mim. ele me devolveu o olhar confuso. Flora tocou a campainha.Oi! Hãm.« Eu sabia que a Flora ia te ver. apenas com o movimento dos lábios. e Igor também passou por minha porta. Olhei automaticamente para o loiro. campainha tocou. No meio de apresentações. . bem. e o doutor Rafael veio logo depois. nem fiz nenhuma cara. .Marina?! ± Fiz com que Fernando saísse da frente.Você chamou mais alguém? ± Falou. me empurrando para que eu ficasse escondido à vista de quem quer que fosse. Também tive que agüentar a Karina. tudo bem. Mas. Thomas foi o segundo a chegar. . mas para seu alívio. Foram quinze segundos de conversa.Hãm. e esse o tempo de meu pai e minha mãe juntos. Tudo parecia bem.Não.

Comecei a ficar com dor de cabeça. ± Debochou ± Mas eu realmente preciso que você complete esses relatórios ou então. mas o senhor Colin não« . vai sobrar pra mim. e Fernando e eu voltamos a nos olhar. desconfiados. ± Declarou. irritado. . Igor e Enzo olharam para mim. Percebi uma ponta de impaciência no gringo.Tá.Tudo bem! ± Me apressei. Novamente. Nada de strippers. bufou e apoiou a cabeça na porta. e reparei que tinha umas fichas que você não tinha acabado de completar. mas Fernando já havia escutado. essa fui eu quem não esperava. e você sabe o que aconteceria se« Oh.Eu sei que você foi lá um dia desses. Conversamos um pouco. tá! ± Fernando agarrou o braço daquele enjoado de olho puxado. . uma festinha! Não acredito que você não me chamou! Onde estão os strippers? .. a campainha tocou. ± O loiro estava enfadonho. entregando-me um embrulho macio. Já estava para trancar a porta quando a campainha voltou a soar. mas eu mesmo estava surpreso com os acontecimentos. e Fernando levantara os olhos dos papéis para me encarar. embora sua única reação fora sair de perto assim que ouviu que Marina havia falado. e fiquei aliviado de minha colega de estágio não tocar no assunto daquele dia. você sabe que« . deparei-me com Ricardo.Eu lembro de ter falado que era aniversário do Guilherme. acabei de sair lá do consultório.Ih.Desculpa. O loiro voltou a olhar pelo olho mágico. Quando abriu a porta.Fernando. então. Eu . Ricardo. Marina me abraçou. . levando-o até a mesa da sala. é verdade.

Guilherme. . Vê se você sabe quem é. mas precisamos novamente de sua colaboração. mas não consegui ser mais rápido que as palavras daquele homem. distingui a fisionomia da pessoa que eu menos queria ver naquele momento. já era tarde demais.Esse eu não conheço. e me fez apertar os olho e encolher os ombros. . Quando eu abri a porta. agarrei a maçaneta para abrir logo a porta. Batidas na porta. Voltou o rosto para mim. os olhos em fúria dardejavamme.não queria acreditar no que estava acontecendo. é? ± O loiro recusou a mão estendida do detetive. Fechei o olho direito e. mas imprevistos me forçaram a pedir que me acompanhe agora à delegacia para um segundo depoimento.Sei que é seu aniversário. em seu tom tipicamente formal ± Desculpe vir sem avisar. franzindo o cenho. .Detetive Brenno Abikair. .Detetive? ± A voz de Fernando era áspera. pelo olho mágico. mirando-me com aqueles olhos profundos que me tragavam para dentro de suas íris arroxeadas. O gringo deixou Ricardo e seus papéis para verificar quem era. Guilherme.Ah. ± Falou. ± Disse. e tremi levemente. sempre muito sério. . sou eu. Lá estava o exótico detetive. . . Um calafrio percorreu a minha espinha. ± Estendeu a mão de cobre para cumprimentar Fernando ± Sou responsável pela investigação do caso cujo criminoso feriu Guilherme. e não parecendo se importar muito com o gringo.Boa noite. detetive Abikair. .

Seu semblante era de fúria. Flora e Marina. eu poderia justificadamente enlouquecer. Cabelos loiros. e olhei pelo olho mágico. porém bronzeada. .E eu achando que não dava para piorar« ± Acabei soltando. e foi no silêncio que aquela mulher entrou por minha porta. O sorriso de lado esboçado na boca de lábios rosados e pronunciados era debochado. Arriscaria dizer que.. e eu sabia que ele pensava que fosse quem fosse. De um lado. escondendo meu rosto. fartos e dourados. Acho que foi muita sorte não ter surtado.³Novamente´?! ± Fernando se alterou. a campainha tocou. né. porém belo. E pra completar. era mais uma coisa que eu havia escondido dele. . corpo escultural e feições belas. Por que diabos estava ocorrendo tudo aquilo justo naquele momento?! Eu não me importava por ser meu aniversário.Larissa?! ± Fernando só conseguiu dizer. Fui mais rápido do que ele. parece que a festa tá boa mesmo! Deu pra ouvir sua voz lá do saguão de entrada! Extravagante como sempre. e a maioria dos convidados voltou-se para nos olhar ± ³Novamente´. E começou meu inferno. a figura que eu menos desejava encontrar naquele momento. e eu já estava para segui-lo quando. Guilherme?! Apertei os olhos.É. havia Ricardo. membros logos e delgados. porque do jeito que as coisas estavam. quase nos chocamos. Era demais para minha cabeça. ele havia descoberto tudo o que eu estava escondendo. representando o perigo que a imprensa era para mim. mas minha situação com Fernando não estava das melhores. olhos azuis que chegavam a doer ao se destacarem em sua pele clara. pra completar a catástrofe. do outro. desacreditado. Em menos de meia hora. Ninguém mais conversava. Afastei-me. e abri a porta. na certa querendo se fechar um pouco no quarto ou no banheiro. mais uma vez atrapalhando minha vida ao não desgrudar de meu namorado. Larissa. . Ainda havia o detetive Abikair. Fernando?! Não consegue ser discreto! . a irmã mais velha de Fernando parecia ter descoberto nosso refúgio. Fernando voltou-se rápido para mim. Isso só provou que a ironia do destino pode ser muito mais pesada e cruel do que se imagina. Era alta para uma mulher. só faltava mesmo o senhor Colin aparecer junto com o assassino. O gringo estava indo em direção ao corredor. mais uma vez. levando uma de minhas mãos às têmporas.

que associei ao de Larissa. para não dizer descarregados. surpresa e. tão azuis quanto os de meu namorado. Não pude me mexer ou falar. Estranhamente. As mãos estavam brancas. indignação. girar a cabeça para encontrar os olhos de Fernando. compartilhando de sua preocupação. Marina olhava-a de soslaio. Os olhos. e o doutor Rafael se esforçava em transmitir normalidade. Flora levara uma mão à boca. honey*! . Lalá! ± Era a voz de Ricardo. profundos. mas eu não ousei olhar na cara daquele japonês dos infernos ± Te falei que você ia ficar de cara! . dardejavam não só as pessoas à sua frente. Seria muito difícil definir em poucas palavras o que as expressões do loiro esboçavam. Era um misto de extrema irritação. brilhavam como diamante. fleumaticamente. as esferas azuis voltaram-se para mim. trêmulo. As sobrancelhas estavam tão arqueadas no cenho franzido que mal se distinguia o início de uma e o término de outra. é aqui que você tá morando?! ± Exclamou Larissa. Enzo também foi capaz de capturar a densidade do momento. não parecia que todos aqueles sentimentos pelo gringo sentidos eram direcionados. os cabelos longos e loiros. de tão rígido o punho fechado. Eu mal podia respirar. .De cara é pouco.Então. ódio. incredulidade. como também o resto de meu apartamento. esvoaçavam a cada movimento seu ± Mas eu não esperava mais do que isso vindo de você.Larissa era uma figura luminosa. Abikair parecia não se importar nem um pouco em estar participando no palco daquela trama dramática que se formava na minha sala de visitas. Os olhos oceânicos. mas não pude deixar de. na certa tentando me acalmar. Os irmãos estavam tensos.Eu te falei. a mim.« ± Larissa avançou para mais perto de todos. petrificado demais pela situação. Túlio estava perdido. Sentindo-se observado. mágoa. cólera. mais cortantes do que nunca. por incrível que pareça. panaquinha. pegando-me de súbito. Ricardo apenas esboçava um sorriso triunfante. tão dourados como ouro. quebrando o gelo do silêncio que se formara desde sua chegada ± Que lixo! Eu não acredito que você trocou nossa casa por esse barraco. na certa roendo umas das unhas pintadas de rosa-choque. .

. Percebi movimentos atrás de mim. Larissa puxou um isqueiro e um maço de cigarros ± Meio difícil. já que um tá morto e o outro é meia vara. Mas Larissa não pareceu se abalar.Você não vai fumar na minha casa! ± Esbravejou o loiro. Notei que o detetive Abikair erguera uma das sobrancelhas. ele fez questão de se manifestar. tive medo de olhar para o loiro novamente. e ainda que continuasse mudo.Que diabos você tá fazendo na minha casa?! ± Nunca.Eu tô aqui porque o Paulo quer você em casa agora. pendurada num dos ombros delineados e escondidos pelas fartas mechas loiras. os olhos pequenos se arregalaram. e ele engoliu em seco. . me tirando do transe e acordando-me para a situação-limite em que se encontrava. senti que ele queria falar alguma coisa. . seus olhos apertavam-se para o detetive.Pelo visto. em todo o tempo que estivemos juntos. ³panaquinha´ era o apelido carinhoso que a irmã de Fernando dera ao caçula. ouvira a voz de Fernando carregada com tanta ira. Mas nem precisei me virar e encarar meu namorado para entender o que se passava em sua cabeça. e vi Flora segurar Marina perto de si. Parece que um casal amigo dele vai jantar lá em casa e quer conhecer o filho varão da família. Estava quase irreconhecível ± E que merda você tinha na cabeça quando inventou de dar o endereço daqui pra ela?! Consegui ver Ricardo desfazer o sorriso. com tanto ódio. Meu queixo ainda caído. não sei se podia ou se queria impedi-lo de fazer alguma loucura. ± Da bolsa prateada de marca. né? .

no mínimo. não é? Os olhos azuis e cortantes direcionaram-se para mim. o cotovelo do outro apoiado ao primeiro ± Agora. Era estranho ver alguém que não se intimidava com Fernando. como se fosse difícil para ela que alguém tivesse esquecido quem ela era. já deixei isso bem claro da última vez que tive lá! . muito pelo contrário. apoiando uma das mãos na esguia cintura ± Não precisa repetir.Não é isso que o Paulo falou. enquanto eu me virava para o loiro com o olhar quase suplicante. Larissa parecia fazer pouco de toda e qualquer reação do gringo. e foi com esse movimento que eu finalmente comecei a me mover.Eu não volto praquele lugar.. ± Abraçou a cintura estreita com um dos braços. muito embora. suavizar a situação. que drama! ± Larissa ergueu as mãos enquanto revirava os olhos. vamo logo que eu já tô cansada de ficar bancando de babá o tempo todo pra um mané feito você. . Fernando tombou a cabeça para o lado.Nossa. porque. Levantou as sobrancelhas.Larissa. Estalando os dedos. abrindo um pouco a boca em anuência. não vou violar a santidade do seu chiqueirinho! . eu soubesse que esse fosse um feito que já atravessara até as barreiras do impossível. Tive que obrigar-me a sair do torpor que me havia acometido para que conseguisse. a irmã do gringo sustentou um olhar impaciente. . voltando a guardar seus pertences.

meus lábios crispados e os olhos duros. leva sua irmã pro quarto de hóspedes e converse com ela lá. Virei-me para meus convidados. Mas eu não estava no humor. e apesar do esforço que expressava.O que acha que está fazendo? ± Desafiou-me. Avancei em sua direção. já falo com o senhor. depois virei para o indivíduo inconveniente próximo à mesa de jantar. . para que os demais não vissem que eu o havia agarrado pelo cotovelo. e eu me senti atraído por seu cavalheirismo notável. me desculpando e pedindo para que continuassem a aproveitar a festa. Girei em meus calcanhares.Fernando. . mas sustentei o olhar firme para ele ± Por favor.Me dê um minuto. como eu esperava que fosse.. -« Vem.Você vem comigo. . ± Notei que Fernando estava pronto para soltar sua indignação sobre mim com todas as descobertas. . Fiquei próximo a ele. Respirei profundamente. mas ninguém acreditou muito. Larissa seguiu o irmão. Ele assentiu com graça. chegando perto o suficiente para que o detetive Abikair ouvisse meus sussurros. ± Disse apenas. Tentei tranqüilizá-los com um sorriso forçado. Um problema temporariamente resolvido.

mas você acaba é atingindo o Fernando. seja como for. . Guiei Ricardo sem jeito nenhum para o corredor. Você acha que me afeta com essas coisas. é dizendo que Fernando não tá te agüentando mais. não eu. fazer dele o meu saco de pancadas pessoal. ± Desconversou. Se posso ser sincero com você em algum ponto. . depois de um suspiro. dissoluto.Não sei do que você tá falando. .Qual o meu problema? Qual é o seu?! . cansado demais e pronto para despejar nele toda e qualquer frustração. olhando-me com antipatia. quem vai acabar sozinho no fim das contas é você.. Agora. ± Sorriu.Qual o seu problema? ± Acabei soltando. minha paciência parecia ter ressurgido das cinzas. apoiando-me na porta de minha casa. eu tô falando sério. Massageei brevemente as têmporas.Lá pra fora. Fiquei encarando-o por algum tempo aquela figura deplorável. . fechando a porta atrás de mim. . Ele se desvinculou de mim.Você não sabe do que tá falando. . ± Cruzei os braços. debochado.Não.Bom. Felizmente.

já partindo para perto de Túlio enquanto Flora se despedia dos demais carregando Marina. olhando-o de cima ± Só sei que essa sua carência não vai ser suprida do jeito que você tá querendo.Flora.Olha. ± Murmurei em resposta. Se não quer ficar sozinho.. virou conselheiro amoroso. Ele ficou quieto. .Não se preocupe. Cruzei a sala de visitas. quando puder.Claro. me olhando com fúria. desculpe por isso. Mas me ligue. .Não é preciso ser psicólogo pra reconhecer um doente quando se vê um. . mas se importa de«? ± Não precisei de mais uma palavra. é?! ± Perturbou. mas eu tinha problemas maiores para resolver além de trocar desavenças com Ricardo. . riscando um pepino da lista e partindo para outro. não é desse jeito que você vai conseguir alguma coisa. e aproximei minha boca ao ouvido de Flora. Se precisar. Entrei para casa. Guilherme.Agora. . Eu apenas ergui uma sobrancelha. e tô pouco me fudendo também. . ± Ergui meus olhos. eu não sei o que você e Fernando tiveram no passado.

até que os irmãos iam saindo para o apartamento ao lado com o doutor Rafael entre eles. à porta. Igor e Thomas esperavam por minhas palavras. e finalmente me voltei para o detetive Abikair. . O doutor Rafael estava entre eles e assim que fiquei próximo o suficiente. mas eu não fui capaz de absorvê-las. mas não era hora de ficar encucado com aquilo. um olhar significativo. . segurando-me pelos braços. Ele e Enzo partiram. e achei estranho que Fernando fizesse tão pouco estardalhaço ao discutir com Larissa. Seus olhos pareciam querer me passar forças. com sinceridade. Puxei profundamente o ar para dentro de meus pulmões. ± Respondi. Guilherme. ± Antecipou o irmão mais velho ± Dá pra notar a situação delicada em que você se encontra. diria até que nem estavam dentro de casa. despreocupado. caminhando para a entrada da varanda. Girei o corpo. Tombei a cabeça ao ver o médico direcionando-se ao apartamento de meus vizinhos. ansiosos e desconfortáveis com a presença um do outro. Igor fez o favor de tomar decisões por mim. Guilherme..Agradeço a compreensão de vocês. ± Comentou meu colega de sala.Não precisa nem falar. o detetive ainda estava em sua posição inicial. no momento. Só percebi o silêncio pesadamente anormal depois que todos os outros convidados haviam deixado minha casa. Se não soubesse. soltando-o vagarosamente. . próximo à porta da sala.Estamos indo para casa. Ergui a cabeça. Cheguei perto dele. Thomas deu um passo à frente. ele apenas me observava. Ficamos assim por alguns segundos. mas não sem esse último lançar para mim.

abrindo-os novamente e finalmente me virando para o detetive.Não pude esperar até amanhã. . Cheiro de amêndoas. ± Concordei. suas expressões levemente curiosas. . refratava em sua íris. evidenciando ainda mais a pupila negra meio a aquarela arroxeada que era seu olho. E respirei muito profundamente. apesar do vento cortar meu rosto e fazer com que meus cabelos dançassem ao seu bel prazer. . Automaticamente.Infelizmente. . com sinceridade.Detetive. Apertei os olhos.Não esquenta. ± Deu de ombros. apoiando os braços no parapeito e ficando de costas para o apartamento como eu fizera. . ainda sentindo seus olhos em mim ± Com ou sem você aqui. ± Só pude dizer. as esferas roxas voltando-se para a noite lá fora. fechando os olhos. Ouvi que o detetive fechar a porta de correr atrás de si. Ele se aproximou de mim.Acho que não cheguei no melhor dos momentos. ± Chamei por sobre o ombro. sem querer sentindo a fragrância natural do detetive. agora que o céu estava limpo. ± Voltou os olhos para mim. o homem da pele de cobre me seguiu. Desculpe pelo transtorno. Ele me fitava. A noite estava fresca e. e estávamos sozinhos novamente.. silencioso e penetrante. essa noite já estava fadada. A luz da lua. o ar estava úmido.

Fernando atravessava a sala de visitas.. .Se preferir.Por favor. podemos ir à delegacia« . à luz do luar. Repassamos algumas coisas. ± Cortei. virei meu corpo inteiro para o detetive. muito morena. Com um passo. o seguia. Abikair. Fiquei agradecido por isso. as esferas ainda mais expressivas. interrompendo-nos apenas com um estrondo vindo de dentro do apartamento. sua voz grossa e potente era ainda mais sedutora. tão furiosa quanto o irmão. A pele. que parecia ter perdido toda a compostura. Revirei os olhos para mim mesmo. Agora que murmurava. e notei que ele se absteve de puxar de seu bolso interno o pequeno bloquinho e a caneta que eram demarcados em seu peito esquerdo. o detetive venceu a distância existente entre nós. Escondi meu rosto em minhas mãos. e o silêncio voltou a reinar. colando nossos braços. suas feições esboçando ira como eu nunca havia visto antes. parecia reluzir como seda ou cetim. Os dois saíram de casa. respondendo tudo o que o detetive me perguntava. os cotovelos esfriando por se apoiarem no parapeito da varanda. não. Gritos furiosos ecoavam pelo ambiente. me odiando por conseguir notar tudo aquilo na situação em que estava. Larissa. Só então. tinha sua beleza exótica ainda mais evidenciada. cada elemento de suas feições evidenciado pelo conjunto de luzes e sombras proporcionados naquela posição diante de uma noite escura iluminada por uma lua quase cheia.Não tem problema. Abikair me fez uma série de perguntas. apesar de inteligíveis de onde eu estava. . Podemos conversar aqui. Fiquei um pouco atordoado com aquela visão. esquecendo brevemente que Fernando estava com a irmã no quarto de hóspedes e de como articular palavras.

para que tudo mudasse de uma noite presumivelmente agradável e sem muitas surpresas para uma circunstância excessivamente catastrófica? Por alguns segundos ainda fiquei perdido em meus pensamentos.Me chame de ³Brenno´. Abri a boca. jogando a cabeça para trás. não consegui nem responder nem me mover. Olhei para ele. Virei o pescoço. em tão pouco tempo. e notei sua .Definitivamente. Se preferir. cansado. olhando-me fulminantemente. Consegui deixar Fernando de lado. encontrando os olhos preocupados do detetive. ± Pediu. Novamente. . mas não consegui dizer nada e me limitei a suspirar. o detetive me acompanhou e aceitou o copo de água que ofereci. Concordei com leves movimentos.Já disse para não se preocupar. ± Declarou o moreno. Eu já estava exausto demais para me desgastar com apreensão por antecedência. não era uma boa ocasião. Ouvi batidas na porta. confuso.Vamos entrar. . ³Abikair´.Fiquei sem palavras e. . Fechei os olhos. Quem poderia ser? Já estava para atender quando a mão grande e espalmada de Abikair me deteve. até que senti o toque em meu ombro. O que havia acontecido? O que eu fizera. . detetive. apesar de ter a impressão de que o detetive Abikair chamava por meu nome. me alertando. sabia que depois a conversa com ele ia pegar fogo. erguendo levemente as sobrancelhas ± ³Detetive´ dá muita bandeira. ± Balancei a cabeça.

apoiando-me ao batente da porta da cozinha ± Esse é um de meus vizinhos. pensamos que« ± Deu de ombros. Abikair afastou-se o suficiente para abrir a porta e Igor entrar. . agora. Fosse que fosse. uma mão próxima ao flanco onde eu julgava estar uma arma. ± Disse. em tom de desculpa. Com uma rápida olhada.Eu agradeço. o detetive aproximou-se do olho mágico. um pouco sem jeito ± Acho que me preocupei à toa. parecendo memorizar. ± Declarei. mais precisamente sobre um de meus mamilos. Parecia temeroso de ter sido seguido. Igor só pôde sorrir. Por sorte. . Desencostando-se de mim. Abikair. Mas o pior era que sua mão estava exatamente sobre meu peito. . além da fisionomia.Desculpe interromper.Não está interrompendo nada. Os morenos trocaram um olhar que me pareceu ligeiramente cúmplice. apenas com aquele toque. . Igor. e meu vizinho aproximou-se vagarosamente de mim. era ele quem iria checar.preocupação.Certo. o nome e os dados de Igor. ele não percebera. . Implorei para que ele não tivesse percebido como ele havia acordado e enrijecido subitamente. ± Assimilou. Mas não tem muito que vocês possam fazer por mim. .Precisa de alguma coisa? Ouvimos Fernando sair.

Ainda que acostumado com sua proximidade. um tanto humorados. podia sentir facilmente sua respiração quente e compassada e ver cada nuance da cor de seus olhos verdes e vivos. Bufou. um sorriso discreto nos lábios bem definidos. Não gostei de ouvir aquilo de Igor. depois me beijou a testa.Receio que tirei proveito de toda a situação. e Igor pareceu entender meus receios. meu vizinho voltando a erguer o tronco.Acho que complexado atrai complexado. . não podia fazer muito por eles. segurando-me por alguns instantes. O rosto de Igor estava a centímetros do meu.Acabou que estamos obrigatoriamente juntos no mesmo lugar. Franzi o cenho. Esperei que ele falasse alguma coisa. Passei os dedos nos cabelos. Entretanto. . já seria intromissão ao extremo. Principalmente de Igor. Lancei um olhar rápido para o detetive recostado a uma das paredes da sala. mas suspirou e olhou para além do corredor. coçando a nuca. Aproveitei a oportunidade e perguntei o porquê de o doutor Rafael ter acompanhado-os ao apartamento. aproximando-me da porta de meu apartamento enquanto automaticamente o detetive Abikair se afastava para o centro da sala. na mesma hora. ± Igor ergueu as sobrancelhas. Meu meio sorriso fez com que os olhos de Igor baixassem. um pouco incomodado. Sem subterfúgios. Ele depositou cada mão em um ombro meu. O moreno sorriu.. levemente dando de ombros ± Mas não sei o que fazer. O moreno me encarava com as esmeraldas enigmáticas. não pude deixar de sentir minhas bochechas esquentando. . tirando-os de minha fronte. a situação não me permitia muita liberdade para tentar ajudar outros com seus problemas. Além disso. nem desculpas.

finalmente saindo de minha posição anormal e voltando ao mundo real. Fiquei surpreso quando notei o detetive repetindo minhas ações..Eu vou indo. Eu sempre corro pra lá. você sabe.« Estamos aqui ao lado. mas em vez de sentar. e apesar da falsa aparência letárgica. Igor. Abikair me olhava curioso. minhas sinapses se faziam com mais rapidez do que eu podia esperar. Continuei com uma mão à maçaneta e a outra espalmada na folha de madeira por algum tempo. O espaço entre meu peito e o braço dele era ínfimo. Com um último sorriso. mantendo a outra dobrada para apoiar um dos cotovelos. aproximando-me dele mais do que normalmente faria. o que não era nada usual de Igor.Eu sei. Minha mente estava levemente estuporada. e fui prudente em desviar os olhos do corpo do detetive para a luminária da cozinha. optei por escorar as costas na parede e escorregar até o chão. ao mesmo tempo contido por a etiqueta condenar os curiosos aos assuntos alheios. . -« Que bom. e embora uma vontade louca de recostar-me àquela pele brilhante e aparentemente quente começasse a me tomar. ± Estancou por alguns segundos ± O que você precisar. A calça social marcava bem os músculos largos e destacados de suas coxas grossas. Acho que é assim que se sente quando se fala em ³banho de água fria´. Caminhei até o detetive. ele permaneceu agachado sobre as pernas dobradas. Estiquei uma das pernas. o moreno deu as costas pra mim e entrou em seu próprio apartamento antes que a porta de minha casa escondesse o corredor. uma hora ou outra. Fiquei um pouco perdido em mim mesmo. . Oportunidade de ouro.

. de todos os problemas que eu já tenho..Desculpe. ± Sorri com o comentário de Abikair. Voltei meus olhos para os de Abikair.Como eu disse antes. .Não me chame de detetive. ± Manifestou-se o detetive. Fiquei preso pelo magnetismo de suas íris arroxeadas de tão azuis. percebia que ele estava com expressões diferentes das outras que eu já havia visto. Agora que me demorava mais no rosto do detetive. ± Novamente deixei que meus lábios se alargassem.Sinto muito por estragar seu dia. depois de longos minutos de silêncio. descobrindo que ele também me encarava. Não quero ser um estorvo. Sua voz saíra mais delicada que o usual. sem nem conseguir piscar. -« Acho que já tenho o suficiente por hoje. . a presença do senhor aqui é o menor. . também. Um misto de compaixão.Acredite. senhor Abikair. . . detetive. essa noite já estava fadada.Não me chame de ³senhor´.

. Peguei-me imaginando o que Abikair queria precisamente me dizer com suas expressões. é o mais certo a se fazer. E era incomum. Mas ele desviou os olhos dos meus.Acha que amanhã poderá comparecer à delegacia? .Certo. e eu tive que acompanhar seu gesto. refletindo suas reais emoções. Concordo com a estratégia.Eu não percebi se o senhor« ± Notei seu olhar e corrigi rapidamente minha falha ± Se você ligou pra cá ou pro meu celular. como alguém que fecha os olhos e . Era estranho. mas eu não gosto de misturar meus pepinos. Abikair deixou que a coluna se desenrolasse.compreensão e pesar transbordava facilmente de seu semblante bronzeado.Pode não parecer. para não dizer estranho. e ao mesmo tempo agradável. . que essas exatas emoções fossem a mim direcionadas pelo detetive. ± Foi a vez dele de sorrir fracamente com o comentário. . A sensação que eu tinha era a de relaxar facilmente. .Malditas bolas de neve.É. a inusitada proximidade que mantínhamos um do outro. apoiando-se mais à parede.« Malditas« .

e flanqueando a sala de visitas. o detetive esgueirou-se até ficar ao lado da porta. . e andando devagar para não provocar suspeitas. ao que me pareceu. puxou ar para responder. e com ela veio uma Desert Eagle . escorei-me à parede. ainda que você não atendesse. não cheguei a ligar. Abikair postou uma mão em meu ombro. Não sei ao certo se o que o detetive exalava era segurança. uma quietude mórbida que me agonizaria muito menos se não tomasse a tensão que o homem ao meu lado exalava pelo ambiente. Mas devia ter feito isso. porém. Novamente um barulho. engolir me parecia ser um tremendo esforço. ainda conseguia ver o . Em seu caminho. nem a primeira que eu havia visto em ação. Não era a primeira arma que eu havia visto na vida.deixa-se guiar cegamente por outrem para atravessar uma rodovia movimentada. Abikair apontou a cozinha. Devagar. Olhou profundamente em meus olhos. em minhas mãos. uma pistola grafite com o punho negro e. A mão foi ao flanco novamente. Abikair foi se aproximando da porta de entrada. mas um barulho chamou nossa atenção. Minha garganta ficou seca. bem« Abikair aparentava em suas feições exóticas extrema frieza. e sido desconsiderada por um conjunto de fatores que eu particularmente não conseguia enxergar. ± Baixou a cabeça. Como a abertura na parede era larga. mas acredito que tal idéia já teria passado pela mente do detetive. fitando os próprios pés ± Acabei me deixando levar num rompante. tomando cuidado. Não foi difícil identificar a origem dos estranhos sons como vindas do corredor além da folha de madeira escura. certamente. Com os olhos ainda voltados para cima. dardejou toda e qualquer entrada de ventilação que meu apartamento possuía nos cômodos que seu raio de visão lhe permitia verificar. Alerta. e no cativeiro de Henrique Sardenberg. dessa vez mais baixo. Se não estivéssemos em silêncio. O silêncio reinou novamente.44 Magnum. Pensei que seria melhor termos continuado a conversar. Voltando as aquarelas para mim. ele me ensinara a manejar o 38. O detetive havia tomado mais fôlego para continuar sua fala.Não. mas eu só conseguia pensar em como os nós dos meus dedos estavam brancos de tanta força com que fechava meus punhos. Como um felino. tranqüilidade ou hormônios sexuais. para que sua sombra sob a luz da sala não o denunciasse. o suor frio parecia se formar promiscuamente em minhas têmporas. talvez não o tivéssemos percebido. prevendo que eu estava prestes a levantar. e eu entendi que deveria ficar onde estava. com o pente completo com suas 8 balas. quando ainda morava com meu pai. Comecei a sentir o pulsar incômodo em meu pescoço.

pronto para ter sua integridade física maculada. o rosto tão próximo de mim que podia sentir seu cheiro de amêndoas. Seu cenho franzido e os olhos inquietos denunciavam a vontade de pensar rápido. que me despia e bambeava os joelhos. Todo o sangue de meu corpo pareceu se concentra em minhas víceras. ansioso e temeroso por ele. ao passo que eu pulei no lugar. Passos. Piscou de leve. pensei. ³Uma bomba´. Fiquei esperando. só consegui pensar em como era tentador beijar a pele bronzeada de seu pescoço parcialmente desprotegido. Nada mais. e uma sensação de torpor enjoativo me tomou. como que processando alguma coisa. como quem quer que estivesse lá fora pretendesse denunciar sua presença. o corpo de bronze foi se descolando do meu. Ele me lançava um olhar penetrante e urgente. Tocou as costas na aresta atrás de si. e eu sabia que meu peito não estava muito diferente. pensando em como os segundos se arrastavam nas horas mais críticas e se era só eu quem. e antes que pudesse me refrear. ao abrir os olhos. e então a colisão de corpos. Mas só o que ouvíamos era o som entrecortado de nossas próprias respirações. algo se chocou contra minha porta. encontrei o detetive ao meu lado. compreendendo todo o significado que aqueles ruídos poderiam representar para mim: ³Acho que ele me seguiu´. não via a vida inteira passar pelos olhos. e mesmo naquela situação. Enquanto batia a cabeça no chão frio da cozinha. envolvendo-me com seus braços e escondendo-me sob si. muito embora ser fácil de notar que sua atenção estava em algo mais. Arregalei os olhos quando notei o rosto de Abikair voltado para mim. Qual foi minha surpresa quando. levando uma mão à boca para contar qualquer reação de surpresa antes que ela realmente se manifestasse. A pistola ainda em sua mão esquerda. Habituado ao trabalho. o corpo grande e pertubadoramente quente de Abikair deitava-se sobre o meu. E então. e rezava pela segunda opção. na tentativa tola e frustrada de me proteger da eminente explosão. O som de passos começou a ecoar pelo corredor. já levara as mãos à cabeça. ou se fora apenas força do hábito do detetive. Abikair respirava mais rapidamente do que jamais havia notado. Gelei ao ler seus lábios. . Abikair continuou com os olhos em mim. Os glóbulos azulões do detetive dardejavam para todos os cantos nos raros intervalos que me arriscava a abrir os meus. Soltei a cabeça. ainda mantendo-me deitado ao chão com uma das mãos morenas espalmada em meu abdômen. Aos poucos. Entretanto. era só isso que acontecia. Fechei os olhos. me perguntando se minhas suspeitas estavam certas.detetive agir. Explosão essa que não chegou. Uma brincadeira de gato e rato. ao morrer. na qual eu me sentia estranhamente o local da briga. o detetive não se moveu um milímetro sequer. Sentia o cheiro da pele do moreno sobre mim adentrar minhas narinas sem dó. e sibilou algumas palavras.

assustado. o sangue ainda concentrado no centro de meu corpo. . . me deixando ainda mais sensível ao seu cheiro ± Não saia daqui até eu vir te buscar. aproximando seu rosto do meu muito rapidamente. Sentia que suava frio. sussurrou ao pé de meu ouvido. E. O número de Larissa. Permaneci como estava. ± Ele suspirou. Onde Fernando estava?! O loiro havia saído com a irmã. as mãos agora se assentando sobre meu peito. Eu já volto. nem preciso falar que eu não tinha. Engolia em seco. um leve tremor atravessando a espinha. pois nem os movimentos de Abikair eu conseguia ouvir. de barriga para cima. Fernando ainda não possuía celular. e deitado. mas eu provavelmente o havia deixado em meu quarto.Fique aqui. Tentei me distrair com alguma coisa da cozinha. cada vez mais nervoso. de qualquer maneira. arregalando os olhos. Não conseguia piscar. O detetive baixou a cabeça. o que me fez fechar os olhos e entreabrir meus lábios. deitado. ou sendo ameaçado?! Poderia ter sido seqüestrado?! E se tivesse sido pego como refém?! Não havia preço no mundo que eu pudesse trocar pela vida de meu namorado! Apalpei os bolsos. não consegui puxar ar algum quando foquei o pequeno Gato Félix e sua maleta amarela feitos de massa de modelar. Fitava Abikair com gravidade. sumindo do meu campo de visão. mas nada havia garantido que estava fora do prédio! Ele poderia muito bem tê-la apenas acompanhado até o carro e já estava no caminho de volta! E se houvesse acontecido alguma coisa com ele?! E se ele estava ferido. e meus olhos pousaram nos imãs da geladeira. Comecei a hiperventilar. embora eu fizesse força para respirar. Sem promessas ou garantias. frenético. Senti sua respiração quente e acelerada tocar minha bochecha. eriçando meus pêlos da nuca aos pés e. esperando alguma informação dele que pudesse me apaziguar e me tirar daquela tensão que não me abandonava com o pesado silêncio que reinava em meu apartamento. O silêncio me assustava. com a voz mais rouca e grave que o normal. E. Fernando! . piscando muito e sentindo a garganta arranhar cada vez mais doloridamente.minhas mãos parcialmente suspensas por não saber onde colocá-las. Fernando. à procura de meu celular. o detetive Abikair ficou agachado e foi para a sala de visitas. e meus olhos não paravam em nenhum ponto fixo.Fernando«! ± Murmurei.

e com movimentos pouco lentos fiquei de pé. sua testa se vincando com minha desobediência. que morava na Austrália?! Isso não podia estar acontecendo! Isso não podia acontecer! Não por minha causa! Eu não queria nem pensar que alguém havia se machucado por minha única e exclusiva responsabilidade. me encararam com censura. ± Declarou. um dedo apontando para a cozinha. Mordi os lábios. e seus olhos. mas sua mão havia se fechado de tal maneira em meu pulso que eu não conseguia me desfazer de seu agarrão. Apoiei-me nos antebraços. Já estava para abrir a porta quando sua mão livre agarrou com força meu punho. Meneei negativamente a cabeça enquanto ele ditava alguns comandos à pessoa do outro lado da linha. . não! Não. explodira em outro apartamento?! Seria possível?! Não. .Ah. E o doutor Rafael também estava lá! O que seria da pequena e meiga garotinha ruiva e mirrada com os olhos da mãe. decidido a me levantar. um tom levemente impaciente em sua voz grave. trazendo-me de volta para o centro da sala. primeiro sobressaltados. Tentei me mover novamente. as palavras de Abikair fluíam com certa irritação de seus lábios tentadores. O detetive levara o telefone ao ouvido quando me aproximei dele. ± Já o meu tom era urgente. na verdade. sentido algo que denunciasse algum efeito. não«! Meus vizinhos! Como estariam Igor e Thomas?! Teriam sido eles afetados?! E se a bomba não pareceu surtir efeito porque. Guilherme.Você está dificultando o meu trabalho aqui. o moreno exótico permitiu-se direcionar toda a sua atenção para mim.Eu preciso encontrar o Fernando.. eu sentia a extrema necessidade de saber como e onde meu namorado estava. nervoso. E eu me sentia cada vez mais agoniado com os segundos preciosos que se passavam diante de minha imobilidade. nós teríamos que ter ouvido alguma coisa. . Fechando o flip do celular com um dedo.

Tenho certeza de que ele está bem. ainda que um pouco inquieto pela prévia situação. um tanto baixos. Ainda estava colocando o copo na pia da cozinha quando mais uma vez senti meu corpo ser lançado . não me pareceu absurdo confiar nas palavras dele. Sons eletrônicos.. Ouvi-o tomar ar. . . O apertão em meu pulso afrouxou. me sentindo mais tranqüilo. o detetive pareceu menos tenso. Era engraçado pensar que o detetive estaria mandando algum torpedo para um de seus colegas. por um momento. Franzi o cenho. minha garganta doía com os arranhões de tão seca. um pouco confuso. talvez por notar que minha preocupação iminente havia acabado de desaparecer. ± Balançou o celular algumas vezes ± Não estamos sozinhos. Depois de tudo aquilo. e pude me mover até a cozinha e pegar um copo de água para mim.Tem alguém no corredor? ± Lancei a pergunta. ao ponto de bambear minhas pernas e me fazer suspirar. Não posso mentir que o alívio que senti me renovou.Não.Seus vizinhos também estão bem. . Thomas e o doutor Rafael? Alguma coisa no modo como ele sustentava o olhar me fez dar de ombros e jogar a cabeça para trás. Levei uma mão à testa. Ainda está discutindo com a irmã frente ao prédio. Analisando-me com olhos críticos. me questionando se fora algum dos homens de Abikair quem fizera aqueles barulhos. Como ele poderia ter tanta certeza de que estava tudo bem com Igor. juntando minhas sobrancelhas. tomaram parte de minha atenção.

os sons de estilhaços ainda em queda e minhas mãos fincando-se nas costas do corpo que me protegia. Primeiro aquela surdez incômoda. Pereceu-me uma eternidade até que minhas sinapses nervosas fossem concluídas e eu pude entender o que ocorrera em meu apartamento. de fato. No fundo de minha consciência. ao que tudo indicava ele. Sabia que o torpor que estava sentindo logo passaria. Minúsculas partículas de pó dançavam lentamente sobre meus olhos. A consciência de mim mesmo e da mudança no ambiente se arrastava por mim. agora a falta de olfato. um zumbido estranho e contínuo tomou meus sentidos e. tentando pegar o detetive com a guarda baixa. da cozinha e da varanda não mais iluminavam os respectivos cômodos. Vi-o passar os braços em volta de mim e trazer-me para perto de seu próprio corpo. havia sido seguido. E quem quer que estivesse espreitando havia esperado pela melhor hora para fazer seu movimento. . apenas um pensamento de alívio: ainda bem que não havia mais pessoas em minha casa. Abikair não fizera mau julgamento. latejando pela pancada. Meu ombro bateu doidamente.Guilherme. Tive receios de abrir os olhos ou de parar de agarrar-me a Abikair. E só depois de perceber isso. Senti o gosto de poeira. supersensíveis. todos os meus sentidos voltaram. Mas dessa vez não consegui sentir o doce cheiro de amêndoas que despregava dele. enquanto eu preservava-me petrificado. De súbito. o cheiro de demolição. e a reação automática foi abraçar o corpo sobre mim. Um tremor tomou conta de minhas mãos. e minha atenção voltar-se-ia para os danos produzidos. e minha reação automática foi praguejar enquanto levava uma mão ao local dolorido. Escondi minha cabeça naquele peito largo e quente. . os olhos espremidos de tão fechados. Felizmente. embora eu conseguisse ver Abikair mover seus lábios. voltei minha atenção para o cenário que se formava para além do detetive.«! Foi a última coisa que eu consegui escutar. seus olhos estavam desesperados como eu nunca havia visto. avassaladoramente. Depois. Por alguma razão. Estranho. madeira e gesso na boca. tudo ficou silencioso. minha visão ainda funcionava.ao chão sem meu consentimento. pois eu tinha certeza que não conseguiria suportar que outros passassem pelo que acontecera. as lâmpadas da sala. fazendo com que o ar ficasse turvo e visível à luz da noite.

e olhei para o caminho por mim feito. Minhas pernas estavam ainda no ritmo do torpor anterior e não queriam se mover. . e não conseguiria pegar qualquer faca ou cutelo sem despertar um quarteirão inteiro. Uma emboscada. os cabelos escuros esbranquiçados por uma fina camada de poeira. Com o braço bom. espremendo os olhos com a força e a dor por mim desprendidas para arrastar o corpo inerte do detetive. e meu corpo resolveu voltar a se mexer. mas nem isso impediu de se notar perceptivelmente a trilha que deixamos. Os sons foram se apassivando. levantando levemente as partículas de demolição assentadas no piso do cômodo. o que fazer?! Não havia armas em casa. Levei um choque. e me parecia que a qualquer momento alguém me surpreenderia com algum impacto. Apoiei meu tronco na baixa divisão entre a área e a cozinha. Mesmo se Ricardo e Larissa estivessem em meu apartamento. Meneei a cabeça negativamente. O choque do detetive com o chão da cozinha produziu um baque maciço. O que fazer. Agarrei Abikair pela cintura. e a atmosfera de estrago pareceu tranqüilizar-se numa mórbida serenidade. fechando novamente os olhos. O nervoso me fazia tremer. o desespero a poucos segundos de me tomar por inteiro. e um chiado acompanhava cada invasão de ar nos pulmões colados em meu corpo. e levantei a cabeça para mirar Abikair. mas não me preocupei com isso na hora. e o puxei para cima de meu próprio corpo. Minhas mãos ainda se vincavam as costas do detetive. Vi-o balançar a cabeça e. e meus olhos continuavam cerrados como se minha vida dependesse da privação de constatação do dano em minha casa feito. O pavimento da cozinha era do tipo perfeito para enganar a sujeira. seu corpo tombou ao meu lado. Um suspiro chamou minha atenção. O resfolego intensificava-se a cada momento. Um filete rubro e rutilante riscara o rosto de bronze polido. Um estalo me fez abrir os olhos. E eu morreria do mesmo jeito: com um buraco de grosso calibre bem aberto em minha nuca. precisava chegar até o pequeno banheiro ao lado do tanque e nos esconder. mesmo assim« Eu me sentiria culpado. mas mordi os lábios para conter o urro de dor que por pouco não escapou. puxei a nós dois para a pequena área além da cozinha. quando menos pude esperar. passando os braços por baixo dos seus. Senti o ombro alvejado latejar doloridamente. acabamos por limpar o pó que havia se assentado por todo o lugar. exatamente como devia ter acontecido a Henrique Sardenberg.não conseguiria me perdoar se algo acontecesse aos meus amigos e colegas. Suspirei ruidosamente ao acabar de puxar suas pernas.

Meu foco ia se perdendo a medida que a quietude novamente reinava. Ergui a cabeça. Como ele descobrira?! Não era possível que ele tivesse seguido Abikair com o exato intuito de me encontrar. .Explosão de pequeno porte no aparelho 673. e eu temia que até os meus vizinhos pudessem escutá-lo. . apenas no desespero pavoroso que me acometia diante da iminência da morte. meus móveis. Tentei engolir a saliva.Pode falar. . Soltei devagar a expiração. como que a procura de algo. dessa vez com movimentos mais rápidos.Central. Peguei-me arregalando os olhos. Parecia remexer minha casa. Quem quer que fosse voltou a se mexer. Ele não podia saber quem era Abikair. e eu levei uma mão à boca. ainda incomunicável. nessas horas. Não conseguia pensar em nada. O barulho arrastado tomou conta do silencioso ambiente. mas a garganta pulsante continuava seca e arranhando. copia? . A incerteza do destino é algo assombroso.Passos. ele vai me achar!´. o detetive ainda desacordado recostado sobre meu ombro. Delta. como se abri-los muito pudesse me fazer capaz de escutar melhor. aqui é Delta Bravo. Apertei mais os olhos. só podia pensar. Eu estava borrando de medo. Não adiantava tentar ficar calmo. me obrigando fortemente a respirar sem fazer qualquer ruído. quase que literalmente. O coração pulsava louco em minha garganta. só quem tem sangue frio para esse tipo de coisa consegue manter a cabeça no lugar. que saiu mais forte do que eu pretendia. ³Ele vai me achar. a ansiedade me desesperava mais do que tudo. responsável Alfa Bravo. ± Respondeu uma voz feminina eletrônica que eu julguei ser de um rádio transmissor. seu nome não fora divulgado em nenhum lugar! Os passos cessaram.

central. central.Um momento. Delta Bravo. líder Alfa Bravo. confirma? .Provavelmente caseiro. .Positivo. e eu ouvi o homem bufar. destacamento Alfa.Reforço à caminho.Suspende o esquadrão. . .Confirma. aguardando segundo contato. . Delta e Kapa Bravo.Alguma estimativa do tipo de explosivo? ± Pediu a mulher. esquadrão anti-bombas na dianteira. . Operação ³Israel´. central.Certo. procure por Alfa Bravo. Delta Bravo. . ± Pediu com enfado. O detonador já foi ativado. aparelho 673.. Beta. . central. ± Pediu a voz eletrônica. estalando a língua ± Delta Bravo.

ou continuava escondido. mas também pareceu amolecer cada músculo meu. dessa vez mais pausadamente. Se fosse realmente alguém da equipe do detetive. era muita coisa para pegar um peixe pequeno como eu. quem quer que fosse o Delta Bravo. certo? Não.Não podia ser uma emboscada. Deixei que meu corpo relaxasse. Delta. Ele. certo? O cara não podia ter todo esse trabalho só para me apanhar. apressou-se em nossa direção. perguntei a mim mesmo. a cabeça tombando levemente: estava salvo. expirando longamente. Puxou um pequeno rádio do bolso. E eu não podia deixar que nada lhe acontecesse de ruim. . o sangue vertendo generoso do lanho na lateral de sua cabeça. Ainda travava uma das minhas mais árduas batalhas internas quando o homem em minha casa voltou a andar. assim como meus amigos. o que vai ser?!´. acreditando ser aquele homem o fim de minha vida? Meus olhos voltaram-se para Abikair. O alívio era revigorante. Eu confiava na sorte e denunciava a minha posição. curvando o corpo grande e encarou-nos por alguns segundos. bem« Estávamos salvos.Central.Já está a caminho. ainda desacordado. . -« Hunf! Os movimentos se interromperam quando eu deixei que um reclame de dor atravessasse minha garganta. ³E aí. Ele não tinha culpa de eu ter me encontrado com o assassino de Henrique Sardenberg. Mas se não fossem« Eu só esperava por uma morte rápida. . encontrei Alfa Bravo. Mande uma ambulância.

Os olhos castanhos e opacos voltaram-se para mim. Com o braço bom..Não. Sua expressão não foi das melhores. . . Virei levemente o corpo. sentindo o braço que me fora alvejado doer de súbito. puxando uma das toalhas de rosto que estavam penduradas no secador da área de serviço. Fiz como o homem mandou. um tom de preocupação e urgência tomando sua voz. que ainda não havia me movido um único centímetro de minha posição inicial. que me angustiava a cada segundo com seus olhos permanentemente fechados.Você está ferido? ± Veio a pergunta. colocando-a sobre o rasgo na pele bronzeada. o cenho franzindo-se cada vez mais. Um pensamento me passou pela cabeça. Acho que não« ± Concertei a resposta.Ele. em dúvida ± Mas ele tá com um machucado sério na cabeça. tentando limpar um pouco do líquido rubro da testa de Abikair.« Ele não« . Puxou um lenço do bolso. ± Pediu. . .Deixe-me ver« O homem certificou-se de não mexer muito no detetive Abikair.Pressione aqui. virando-o apenas o suficiente para examinar mais atentamente o talho muito próximo ao supercílio do detetive. Levantou-se rapidamente. apertei a toalha contra a cabeça do detetive.

A tela da televisão estava trincada. O sofá estava chamuscado.Acha que pode se levantar? A voz do homem me trouxe de volta à realidade. quando me dei conta do que acontecera com meu apartamento. Além da cozinha. bem como o pequeno aparelho de som . estava feito. Eu não consegui me prender às suas palavras. Entretanto. e me peguei na dúvida. Meu braço estava realmente doendo. Eu fora covarde demais para admitir isso para mim mesmo. o que estava feito. e o homem se afastou para continuar a se comunicar pelo rádio. pouco se via. impressionado com a eficiência com a qual o sangue de Abikair havia manchado minha blusa. assumindo meu lugar. mas tirando isso. A perna estava dormente. não. mas naquele momento de ³liberdade mental´. e pela película branca e pegajosa sobre o estofado. e minha mente começou a viajar para longe. Eu nem sequer pensara nas conseqüências que aquela ação poderia causar. ± O homem captou minha intenção ± Mas vai. Assenti com a cabeça. eu não via nem esboço. embora as pernas das cadeiras se sobressaíssem nos escombros. novamente. . se a ambulância não chegar aqui logo.-« Não. Não era hora de se remoer. nem a mim nem àqueles próximos a mim. Ainda batia minhas roupas. e eu não pude recusar sua oferta. o homem pressionava o machucado de Abikair enquanto eu levantava. concluí que o homem havia apagado algum fogo com o extintor. Meneei positivamente a cabeça e. para o passado. Da mesa. por atos impensados e já cometidos. o resto era desconforto muscular pelo choque inesperado contra o chão. A porta havia sido destruída. Mais precisamente para quando o senhor Colin me mandou entrar naquele apartamento. mas nada que umas batidas no chão não resolvessem. não consegui parar de pensar no quão idiota eu fora. seus restos ainda permaneciam escorados na parede próxima ao acesso ao corredor. a ³neblina´ das partículas de poeira ainda dificultavam a exata percepção do que havia na sala. Era óbvio que alguma coisa errada iria acontecer.

Por favor. voltando-me para olhar o apartamento de meus vizinhos. .que costumei a deixar na sala. ao notar sua relutância em ceder. Apesar da pequena sujeira que os destroços de minha casa causaram ao corredor do quarto andar. aquela parte não parecia ter sido atingida. caminhei até a porta de meu apartamento. . direcionando meus olhos para o corredor que dava acesso aos quartos. Dois quadros estavam tortos. demorando-me brevemente no trincado na porta de vidro da varanda. cansado demais para lamentar pelos estragos e aliviado o suficiente para agradecer por estar vivo. Deixei que meus olhos vagassem pelos destroços que há pouco tempo formavam minha sala. Suspirei. -« O que você quer saber? Continuei sustentando o olhar opaco daquele homem de feições duras. ± Adicionei. Estalei a língua. segurando o braço que ainda latejava. ao voltar para a cozinha e encarar o homem que trabalhava com o detetive. Num estalo. felizmente. e alguns dos artigos de decoração haviam-se quebrado. Não é nada que você não possa me falar.Desculpe. posso perguntar algumas coisas? ± Disse. Baixei a cabeça.Meus vizinhos« . ± Respondeu pacientemente. .Tudo ao seu tempo. eu preciso saber alguma coisa do que acabou de acontecer. o apartamento ao lado estava intacto. .

que até poderia estar com eles. Isso já era muito bom. O tecido . a certeza era a de que ele não havia sofrido nada. O jeito era esperar até que ele desse notícias. Nem ninguém do seu andar. fiz a pergunta que mais me incomodava ± Meu namorado«? . Ao remover a toalha do corte.Não. Puxei os lábios para dentro. faixas e remédio para tentar ajudar Abikair. e Fernando ainda não comprara um celular novo.Alguém do prédio«? . consegui me locomover até o banheiro. nunca quis guardar o de Ricardo. Pelo menos. Foi só aqui.Já foram removidos. mas presumindo que tudo o que o detetive sabia era compartilhado com seus homens. e sentindo que a preocupação ia diminuindo. e estão junto ao nosso pessoal lá fora.. -« ± Por um momento hesitei em pronunciar aquelas palavras. O corte era tão profundo que em nada pude ajudar com as provisões que havia trazido do banheiro.Já havia saído com a irmã antes da explosão. Eu não tinha o número de Larissa. ± Falou com certa amargura. mordendo-os por dentro e me segurando para manter a respiração calma. Pensando nisso. o homem rapidamente voltou a pressionar o talho na cabeça do detetive. . como se não quisesse admitir o crédito da pessoa que armara a explosão tão bem. onde consegui gazes. -« Obrigado.

± O homem voltou a puxar o rádio ± Delta Bravo para Kapa Bravo. .Sobe aqui que não sei quanto tempo ele vai agüentar. ± Respondeu o rádio. A blusa preta acompanhava a calça jeans de um azul muito escuro.Copia. . . mais baixo do que eu. Delta. a cabeça raspada denunciava que fazia menos de dois dias que ele havia cortado o cabelo.antes tão alvo agora se tingia de um vermelho rutilante.Espero que não. Delta. Kapa falando. Sua pele era marfim.Acha que vai demorar muito pra ambulância chegar? . copia? . ± Veio a resposta rápida. os olhos de um castanho incomum. . Em menos de um minuto. mas seus traços de pessoa normal marcaram minha memória. outro homem. que saltava a vista e despertava enorme desconforto. tão destacados que quem não prestasse atenção falaria que ele estava usando lápis de olho e lentes de contato. surgiu à porta de meu apartamento. após alguns segundos de chiado. Sua figura era um tanto ordinária.Afirmativo.

fique junto de nós. poderia ser tão marcante. ± Comentou Souza. com características tão comuns. . . Os lábios abriram um sorriso no rosto ameno. e ele se aproximou devagar.O moleque não brinca em serviço. um pouco aflito com a situação em que Abikair se encontrava. a testa de marfim se vincando ± Espera um momentinho. . e só agora eu reparara que havia uma mochila em suas costas.Astuto da parte dele ter um ex-paramédico na equipe. . Souza. vai esguichar. -« ± Pareceu refletir um pouco. O homem baixou. .Sabe onde está Souza e Abikair? ± Limitei-me a apontar com o dedo ± Certo. ± Veio a voz. seus olhos opacos ainda na toalha ensangüentada.. Segui os passos do integrante Kapa da equipe do detetive.Se eu tirar a mão daqui. Deixa eu ver como tá. ficando entre Souza e o detetive. Venha comigo. um pouco surpreso de ver o quanto uma pessoa normal. mais grave do que eu previa ± Você está bem? Só consegui menear positivamente a cabeça.Guilherme.

Rapidamente. Ao enxergar as gazes e as faixas que eu havia trazido. Olhou para Souza. ± Levantei as sobrancelhas para indicar que estava ouvindo ± Pode me arranjar uma toalha maior do que essa? .Guilherme. puxando um pequeno aparelho metálico de dentro. Pressionou a toalha contra o ferimento de Abikair.Tirou a mochila das costas. você aperta bem forte e tira a toalha. alongando rapidamente o pescoço. puxando forte para que a gaze pressionasse tanto quanto a mão de Souza o fazia. Souza fez como o homem havia instruído. Enquanto suas mãos continuavam em ação. depois a tirou. o tal artefato era um tipo de grampeador. . e ouvi alguns estalos vindos do apertar de seus dedos.Huff« ± Suspirou mais uma vez ± Vai. a outra mão amparando a cabeça. o homem habilmente enfaixou a cabeça de Abikair. fechou os olhos por alguns instantes e voltou a abri-los. pegou-as e as deixou na barriga de Abikair. . os olhos castanhos se voltaram para mim. Suspirou. Pressionando as gazes sobre o talho. Ao que me parecia. .Quando eu disser ³vai´. . o homem levou o objeto metálico à fronte do detetive.Certo.

Virei as costas, correndo para o armário do quarto de hóspedes e peguei umas das toalhas na prateleira de cima. Voltei correndo, entregando-a para o homem, que agradeceu com um meneio de cabeça e um sorriso brando rápido. Dobrando uma parta da toalha, o homem colocou-a sobre a cabeça do detetive, segurando suas laterais para que a pressão sobre o machucado fosse maior.

Ouvi o som da sirene da ambulância, constatando que o carro branco iluminado chegara ao espiar pela janela. Vi o alívio pairar nas expressões dos dois homens; realmente, Abikair era muito querido entre os membros de sua equipe.

- Central para Delta Bravo, copia? ± Voltou a chamar o rádio.

- Copia, central.

- Qual a situação de Alfa Bravo?

- Estável. ± Repetiu Souza, ao ler os lábios do homem ao seu lado ± A ambulância já chegou.

- Certo, Delta Bravo. Operação ³Israel´ no aparelho 673, encerrada. Câmbio final.

Souza guardou o rádio, o outro homem ainda o encarava com certa expectativa. Ao notar meu olhar sobre si, tentou esboçar alguma despreocupação.

- Agora está tudo bem. ± Tentava me tranqüilizar ± Você vai precisar nos acompanhar por essa noite. Separe umas mudas de roupa, assim vai ser melhor.

Um pouco confuso, assenti, e me direcionei para meu quarto. Peguei minha mochila, coloquei algumas camisas, calças e cuecas. Joguei a escova de dente e o shampoo junto, bem como uma toalha e meu carregador de celular. No caminho, carreguei minha carteira e as chaves de casa. Ao voltar para a sala, para-médicos vestidos em branco já haviam colocado o detetive Abikair numa maca móvel e saíam de meu apartamento, um deles segurando uma bolsa de soro ao alto. Fiquei observando aquela cena, um pouco desnorteado. Foi o toque de uma mão em meu ombro que me tirou da inércia.

- Precisa pegar mais alguma coisa? ± Perguntou, seus olhos destacados me encarando com certa preocupação.

- Acho que não.

- Certo. Vamos indo?

Pensei em deixar algum recado para Fernando; acho que ele se assustaria se encontrasse a casa destruída. Mas assim que passamos pelo local onde a porta deveria estar, o policial selou a entrada com algumas daquelas fitas amarelas que a polícia utiliza para isolamento da cena do crime. Definitivamente, a equipe de Abikair devia ter vindo com

ele de outro estado; ações assim não costumavam ser vistas. O homem voltou a colocar a própria mochila nas costas, ergueu-se e bateu as mãos.

- Vamos indo?

- Ahãm.

Descíamos pela escada, já que o elevador parecia estar interditado, e me pareceu uma cena de filme quando, no saguão do meu prédio, viaturas da polícia e uma ambulância faziam o cerco da entrada como que para impedir que curiosos se aproximassem demais. As luzes ao alto e os flashes repentinos indicaram que a imprensa também sabia ser ligeira e já metia o focinho no que mal terminara de acabar. Passando-me para seu lado esquerdo, o homem de codinome Kapa colocou um braço envolta de meus ombros, guiando-me para um dos carros pretos, parado em cima da calçada. Deu a volta e sentou-se comigo no banco de trás. Identifiquei Souza próximo às portas traseiras da ambulância, e vi-o entrar antes que elas se fechassem.

- Pra delegacia ou pra pousada? ± Veio uma voz feminina.

- Pousada. ± Respondeu o homem ao meu lado.

Fiquei surpreso ao constatar que o motorista, na verdade, era uma mulher. Ela carregava um rádio semelhantes ao de Souza e do Kapa, bem como roupas escuras, mas que facilmente se misturariam com a multidão lá fora. Ela era a última integrante da equipe de Abikair, e tão logo ouviu a resposta do homem, engatou a primeira e tirou-nos da aglomeração que se formara em torno de meu prédio. Os cabelos castanhos claros eram

Eu entendo. . ± Baixei a cabeça. notando que ela desviava os olhos de mim.ondulados e fartos. .Acha que precisa buscar alguma coisa? Primeiro pensei que ela estava falando comigo. mas pelo menos tente entender. De cara.Eu sei. Guilherme. Já tenho tudo aqui. Flora. . entretanto lá estava aquela mulher sentada. uma pequena mala ao colo. Ela girou o corpo para trás.Não. justamente à minha frente. Afinal. o que aquela voz familiar estava fazendo ali? Ela já havia ido embora de meu apartamento fazia um bom tempo. não acreditei. e já tinha buscado ar para formular uma resposta. os lábios volumosos e as sobrancelhas finas eram muito escuras. quando notei pelo retrovisor que ela direcionava seus olhos firmes à pessoa no banco do carona. . . mas a determinação em seu rosto tirava qualquer dúvida da destreza de seus atos.Olá. ± Disse. seus olhos escuros voltando-se para mim. depois de um tempo de silêncio ± Não me importo se você me odiar. decididos e um pouco culpados. Ela me parecia muito baixa.

Depois de uns dois quilômetros. Uma antiga pousada. ³Há quanto tempo eles estão aqui?´. me perguntei enquanto seguia Flora e era seguido pela mulher que dirigira o carro negro. me perguntando no que aconteceria a partir daquele momento. Apenas o homem ao meu lado saiu do carro quando o veículo estacionou. fones. Mas as luzes acesas. uma mulher de cabelos castanhos avermelhados direcionou os olhos de cor âmbar e ergueu a mão para calar quem quer que estivesse falado com ela. ninguém pensaria que havia tanta coisa debaixo da construção abandonada. na verdade. Nenhum deles parecia muito animado com a minha presença. e eu caíra em sua armadilha. pilhas de documentos e pessoas à volta. Quando me dei conta para onde estávamos indo. o carro sacolejava um bocado. os fachos das lanternas que haviam sido acionadas iluminaram uma pequena abertura ao chão: um abrigo anti-bombas. o que eles passavam era um cansaço acumulado. uma sala espelhada que eu julguei ser da perícia« Realmente. Havia computadores. O destino me dera uma rasteira. Não havia mais como escapar. rádios.Pegue a rua da direita. depois de alguns lances de escada. Coloquei o cordão do cartão no pescoço. Demos a volta nas instalações da pousada. telefones. rastreadores. . câmeras e dispositivos de alarme em sua redondeza indicavam o contrário. era o fim da linha. Pegamos uma estrada de chão. entrei numa sala espaçosa e bem-estruturada. próprio do estilo de construção da pousada. entregando identificações para todos ali dentro. que os jornais falaram que havia sido desativada por causa de falência do dono. rodeada de quadros com folhas afixadas. A testa se . e demorou um pouco até que ele voltasse. Arregalei os olhos quando.O silêncio reinou por alguns segundos. várias mesas. ± Disse o homem ao meu lado. Puxei o ar com força para dentro de meus pulmões. gravadores. notei que estávamos nos limites de minha cidade. paramos frente a uma construção de madeira. Sentado a uma das mesas. Vi-me cercado por outras pessoas que até então eu não havia notado. Era como se tivéssemos adentrado a um andar do prédio de uma companhia grande.

que tal milhões delas?!´. quase que novamente. sem questionar. daí a pedirem para que pegássemos alguns de nossos pertences. ± Tombou a cabeça para a direita ± Até a volta do detetive. comigo. espantado com o que estava acontecendo. . e só então reconheci a voz da mulher como sendo a mesma que era emitida pelo rádio quando Souza e o homem chamado por Kapa contatavam a ³central´. unicamente para capturar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. que parecia dar passos .Muito bem. nem podemos ser vistos. O nome da operação é ³Israel´. Flora e eu nos olhamos. vocês seguirão às nossas orientações. e ela levantou e caminhou até ficar próxima a mim e a Flora. . Seus olhos escanearam a nos dois.Essa é a nossa equipe principal. satirizei em meu pensamento.vincou. mas manteremos vocês atualizados da situação. Era o olhar sustentado por alguém forte. Esta é uma unidade secreta montada pelo detetive Abikair. parei para pensar. e de uma forma ou de outra. Aqui é nosso lugar de investigação. Cocei a nuca. Por um momento. Enquanto vocês ficarem aqui. nós não saímos daqui. pois elas serão para sua própria proteção. Alguma dúvida? ³Ah. e ela estalou a língua enquanto cruzava os braços. e notei que o olhar dela recaiu em mim. eu estou no comando.Nós não temos a obrigação de passar todas as informações para vocês. vocês dois estão envolvidos nessa. . Vocês não estão autorizados a fazer qualquer ligação ou contato exterior sem nossa autorização.

Apenas o homem de olhos destacadamente ordinários pareceu se importar com nossa presença. Seguimos o homem para além das mesas e equipamentos. voltaram sua atenção para os seus afazeres.« .firmes e não deixar pontas soltas. Hanna. . como se ela não conseguisse relaxar e tivesse a obrigação de permanecer tensa o tempo todo. o homem empurrou uma porta. Franzi o cenho. com jeito. Guiou-nos pela abertura da direita. . Depois de entrar à esquerda. . ± Pediu o homem.Flora. Flora não pôde recusar. tente se sentir à vontade. Dando as costas para nós. você fica aqui.Podem me chamar pelo nome. inclusive aqueles que nos haviam escoltado. Guilherme. . . sem saída. Os lábios permaneciam crispados.Depois. Sobrenomes serão confusos. Hanna e o resto da equipe. tentando entender a informação implícita naquela declaração. abrindo uma das portas que havia no último corredor.Certo. Pode usar tudo que tem no quarto. dando-nos acesso ao que parecia uma sala de estar comum.Vou levar vocês pra dentro. passando por um corredor largo.

± Isso era um hábito dele. sem querer suspirando profundamente e permitindome. duas camas. pensando no quão parecido aquele lugar era com o meu próprio quarto. uma mesa de cabeceira. escrivaninha e banheiro. notei ± Sei que tudo está muito confuso e preocupante pra você. . é só nos chamar. . até chegar à última porta à esquerda. ± Disse.Espero que compreenda nossas medidas extremas. deixar meus ombros caírem e meu pescoço alongar.Continuamos pelo corredor. mas o quarto dele é o da porta à frente. Era difícil acreditar a que ponto a coisa havia chegado. . abaixando a cabeça. e observei sua expressão pensativa enquanto ele se aproximava de mim.« Estamos aqui pra desatar esse nó.Guilherme. armário. sem jeito. e o de Souza. pela primeira vez. Deixei a mochila sobre a cama. deixando-me passar e entrar num quarto comum. Deixei-me cair na cama. Meneei positivamente a cabeça. Ele girou a maçaneta.A porta ao fim do corredor é meu quarto. . Notei o olhar do homem em mim. televisão.Eu sei. com um pouco de decoração. O que você precisar. Abikair dormirá com você de vez em quando. .

Antes. -« ± Continuei esperando suas palavras. porém. . de deixar meu quarto. o homem voltou seu tronco para mim. Antônio me deixou naquele quarto estranho. ± Pediu. E eu também não pude negar. pensando em quando eu conseguiria ter a vida normal que levava um jovem aos seus dezenove anos.-« Eu só queria« . no mesmo tom que havia usado com Flora.Depois. e ele sorriu brevemente. como se estivesse se sentindo culpado com aquela situação ± É Antônio. Fechando a porta atrás de si.

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