Os dias passaram muito rapidamente, e antes que eu pudesse perceber, a reconciliação com Enzo já havia acontecido há tempos.

Sentávamos como de costume, lado a lado, e em alguns dias, Enzo também lanchava perto de mim e de Fernando. O gringo sempre me deixava e me buscava na porta da sala, o que era fofo, mas levantava mais suspeita. Claro, eu sabia que muitos da faculdade já haviam visto um beijo que trocamos, mas não todos. E quanto menos gente para encher a paciência, melhor.

Não tirei notas muito boas, mas consegui manter-me da média para cima. Em uma matéria, eu fui para prova final, já que não consegui estudar o suficiente para passar de primeira. O ano já estava quase no fim, e faltava cerca de um mês para que minhas aulas acabassem. Meu aniversário estava próximo, o que não só indicava que eu completaria dezoito anos, como também seria o aniversário de um ano do meu namoro. Pensei em perguntar o que poderia dar a Fernando de presente para Enzo, mas depois voltei atrás; não seria lá uma idéia digna.

Durante as tardes, eu sentia falta do trabalho. Estava acostumado a ir direto para o estágio depois do almoço, e agora eu apenas colocava matéria em dia, vez ou outra parando para descansar o punho e a mente. Ainda não havia conversado com os irmãos do apartamento ao lado, mas eu sabia quando um deles estava em casa. Quando eu chegava da faculdade, Igor destrancava a porta. Ao crepúsculo, Igor saía antes mesmo de Thomas chegar, e quando o caçula botava os pés no corredor, dava duas batidinhas na porta. Era triste saber que eles não estavam se falando ainda. E que também não estavam falando comigo.

Numa noite, enquanto lanchávamos, toquei no assunto com Fernando, mas ele falou o que eu esperava que ele falasse: ³Isso é assunto deles, e não podemos nos intrometer. Não dá pra gente fazer nada´. Sabia que o loiro estava certo, mesmo porque os irmãos não nos davam muita abertura para o assunto. Uma semana antes da última do mês de outubro, entrei na casa deles. Estava tudo muito silencioso, e eu chamei pelo nome de Igor. Demorou, mas ele me mandou entrar, e eu descobri que ele estava em seu quarto, trabalhando.

Não conversamos muito; e a única coisa que conseguiu realmente tirar aquela expressão lacônica do rosto de Igor foi quando contei que já estava falando com Enzo novamente. Ele parou de ler um grande volume de folhas grampeadas, largando a lapiseira e apoiou as costas na cabeceira. Contei como tudo se desenrolou, não omitindo a briga e a reconciliação que tive com Fernando. Depois voltamos às amenidades, o que o fez baixar os olhos. E tudo ficou quieto. Pigarreei, levantando-me de sua cama.

- Igor,« Semana que vem é meu aniversário, e eu«

- Eu sei. ± Respondeu prontamente.

- Tá. E eu tava pensando em fazer alguma coisa; nada de mais, lá em casa mesmo, só pra gente.

- Isso é bom. ± Observou ± Já pensou no que quer ganhar de presente?

- Não, e nem precisa me dar nada, basta aparecer lá em casa que eu fico satisfeito.

- Mas eu não. ± Piscou, mantendo o olhar.

- Enfim,« Você vai poder ir?

- Claro. ± Respondeu, sem vacilo.

- E« Tem como você passar isso pro Thomas? ± Arrisquei falar no irmão.

Igor ficou me olhando um bom tempo, sem alterar em nada seu semblante, até que deu de ombros, baixando os olhos para o que quer que fosse.

- Não acho que vou ter oportunidade pra isso. Ele não quer falar comigo.

- Mas, não vai nem tentar?

- Eu já tentei. ± Respondeu, como se fosse óbvio.

- Ué, mas quem sabe ele pára e escuta dessa vez? Sei lá, é uma coisa que não é sua, eu quem pedi« Mas pode até ajudar a voltar aos contatos, né? E seria importante pra mim«

-« Vou tentar.

Não consegui conter um sorriso, e fui em direção a Igor. Passei meus braços por seu pescoço, apertando-o fortemente contra meu próprio corpo. Senti que ele também me abraçou, embalando-me com ternura. Um quentinho diferente do que sentia com Fernando surgiu em mim, e eu me sentia seguro naqueles braços. Levantei, mais animado, e vi um sorriso muito discreto brotar nos lábios de Igor. Conversamos mais um pouco, depois voltei para casa. Nesse dia, antes de ir trabalhar, Igor foi me dar tchau.

Thomas chegou não muito depois; arrisco a dizer que se demorasse mais algum segundo, Igor acabaria esbarrando com o irmão. Deu as batidinhas de sempre, depois entrou em casa. Fiquei pensando se deveria ir convidá-lo para meu aniversário, mas deixei que Igor tentasse mais algum contato. Acabei de ler mais algumas folhas da matéria incompleta de Enzo, concluindo que teria de pedir a de Túlio emprestada. Guardei minhas coisas, arrumei a mochila e fui ver televisão. Acabei adormecendo diante da tela luminosa, e só acordei quando senti um roçar em meu rosto.

Entreabri os olhos, ainda zonzo pelo sono, mas lentamente minha mente voltou a funcionar, bem como minha memória. Bem próximo a mim estavam os olhos azulões, penetrantes, que mergulhavam dentro de mim, me deixando sem defesa. Levei um susto, pulando para trás, e acabei caindo do sofá. Fernando correu para me ajudar, agarrando meu braço e pondo-me de pé. Balancei a cabeça, tentando colocar meus pensamentos em ordem, depois virei para o loiro; ele me olhava com gravidade.

- Gui, você tá bem?!

-« Tô! Tô.

- Que houve? Tomou susto?

me assustei. segurando um dos braços. colocando a maionese e o catchup na mesa. Você me confundiu de novo. um pouco receoso. Comemos sem conversar. Fernando me encarou atentamente por alguns segundos. -« Hum. Estava escuro. Aproveitei o tempo e grelhei hambúrgueres para nós. finalmente sentando-se à mesa. bem como os ombros. O gringo apenas sorriu de lado. e pára ao batente da porta da cozinha. né? . não era uma opção viável. O que eu poderia dizer? Mentir? Certamente. Já estava colocando refrigerante para mim quando o gringo aparece.Na hora que eu cheguei. Fernando apoiava o rosto em uma das mãos de um lado do sofá.É! ± Minha voz saiu muito alta. enquanto eu inclinava minha cabeça para trás do outro. Lancei-lhe um sorriso. e fomos para o sofá no mesmo silêncio.. e meneei a cabeça positivamente. olhando preocupado para Fernando. Mas isso foi um breve momento. Suspirei. mesmo« -« Desculpa. . -« Você me confundiu de novo com ele. e somente a televisão iluminava o . mas acabou beijando minha bochecha e indo tomar uma ducha. Fernando ergueu rapidamente as sobrancelhas. né?! Fiquei sem saber o que falar. a covinha exibindo-se só para mim. Coloquei a garrafa na mesa. e eu me repreendi mentalmente ± É.Só pra constar. mas notei que ele baixou os olhos.Do que você tá falando? .

ao me lembrar de meu chefe. bem como o próprio senhor Colin. enquanto que eu o ajudava com aquele complexo ridículo que ele tinha. Aquele prédio devia estar em colapso. e não precisávamos dizer diretamente que um confiava no outro. a mídia ia descobrir o que havia acontecido. Dei a sorte de encontrar com o doutor Rafael em todas as vezes que fui ao hospital. Como o senhor Colin podia permitir que seus subordinados entrassem na cena do crime antes mesmo da perícia? Qual seria o acordo sujo que ele sustentava para conseguir matérias e fotos mais precisas do que os outros jornais? O policial Almeida. não pensando em nada exatamente. e já podia erguer o braço além de minha cabeça. principalmente quando Fernando aparecia no assunto. colocávamos a conversa em dia. e ninguém me procurou. Ele me ajudava bastante. os repórteres continuavam xeretando. não gosto muito de ver pontos. já ficava subentendido em nossas conversas. mas arrisco dizer que foi ele quem possibilitou essas coincidências. apoiei-me nos dois braços e fiquei olhando para os pontinhos apressados lá em baixo. É óbvio. alguém ia acabar cedendo. ainda não podia carregar coisas pesadas. nada ter vazado ainda. E. Criamos uma estranha amizade. procurariam saber o que havia efetivamente acontecido. pareceu receber o pacote de dinheiro com muita familiaridade. levantei e fui para a varanda.apartamento. Um estagiário que foi ferido enquanto cobria uma fatalidade que nem a polícia tinha detalhes ainda não era uma coisa que se passava em branco. dobrando a coluna. Será que a polícia já saberia o que havia ocorrido? Era estranho. convencendo-me de que estava fazendo a coisa certa. eu sabia que estava envolvido. No comercial. Em duas ou três oportunidades. de origem espontânea. o doutor Rafael me acompanhou pelos fundos. Tirara os pontos havia alguns dias. De algum jeito. Sei lá. O doutor Rafael nunca deixava de me implicar. estranhamente. eu fora ao hospital para conferir a cicatrização do ferimento. meu ombro ainda estava ferido por dentro. Respirei fundo o ar da noite. e ficávamos apenas nós dois. meu salário continuava sendo depositado em minha conta no . apoiando o queixo na mão direita. na certa. Quando Mila saía. e me peguei relembrando o dia em que fui atingido. entretanto. Meu ombro quase não doía mais. os carniceiros. Cocei o queixo. nem mesmo o senhor Colin. mas não ter que me preocupar com pontos já havia se mostrado um grande alívio. Como o doutor Rafael pedira. Já havia um bom tempo. E com toda a pressão da televisão e dos jornais. comecei a ficar irritado. Repassei meus passos desde a última conversa com o senhor Colin até a volta para casa.

e mal falavam com a gente também. Mesmo não precisando mais. Apertei os olhos. E fomos dormir assim. na mesma posição. E ficamos calados durante todo o filme. e Igor e Thomas estavam distantes demais para tal. para isso. Saí do banco. Olhei em volta. pensei que eu devia ser muito estúpido para ter perdido o ponto e estar exatamente no lugar mais perigoso para mim. eu passava parte do dia com uma das pessoas que Fernando mais odiava no mundo. mais para mim mesmo do que para qualquer coisa. me deixariam sair de casa para isso. Eu tinha muita vontade de ir até o escritório de Colin e enchê-lo de perguntas. Fernando ainda estava no sofá. e me arrastei para apoiar-me em seu corpo. muito menos Fernando. pegando o primeiro ônibus que passou.banco. meio que tomando coragem. E era realmente a única pessoa que me restara. . e nem Igor. e saltei do ônibus. ficando de costas para o mundo e de frente para casa. apesar de já estarmos nos falando. Talvez muitas de minhas dúvidas e frustrações se resolvessem lá. estava indo mal na faculdade. em meu aniversário. Só me dei conta de onde estava quando o ônibus fez uma curva fechada que não me era estranha. e voltei para dentro de casa. e imediatamente. e confundia meu namorado com o cara que tentara me matar. tão impiedosa? Por que não podemos simplesmente ser feliz? É tudo tão complicado. vez ou outra eu ia ao hospital conversar com o doutor Rafael. não conseguíamos mais sustentar uma conversa por mais de vinte segundos. Mas eu ainda não podia pegar o carro para ir tão longe. principalmente. eu não podia ficar comentando essas coisas com Enzo. as coisas pudessem melhorar. Mas aquele era o lugar mais esclarecedor também. a maioria apenas sobrevive. Fernando apenas levantou os olhos quando me aproximei novamente. porque um assassino seqüestrador podia estar me seguindo. que me deixava exausto só de tentar encontrar alguma resposta para essas e outras muitas perguntas que surgiam em minha mente. tão difícil. ele me envolveu. quase gargalhando da minha desgraça. Foi aí que começou nosso bloqueio: desde aquela noite. acabando por me localizar: eu estava perto do prédio do senhor Colin. é muito difícil viver. e acabei perdendo meu ponto. apontar o dedo para seu rosto e criticá-lo um pouco. Observei-o de soslaio por alguns instantes. Contudo. Nossa vida não podia estar mais tumultuada: eu corria risco de vida. Como é que a vida podia ser assim. nossos vizinhos e melhores amigos não se falavam. Dei de ombros. que estava se mostrando um ótimo amigo. o silêncio parecia eterno. Rolei o corpo. Por um momento. Minha esperança era que. Respirei. e ele trabalhava o mesmo tempo com outra que era odiada por mim. sabendo o quanto eu ia ouvir de todos depois. Essa é a verdade. Ri tristemente.

talvez encontrasse alguém conhecido.Guilherme! Eu não acredito! Como você conseguiu ficar tanto tempo sumido?! Você tá bem?! . e assim que me viu. Fechou a porta. Mas a pequena saleta estava vazia. E você. Cruzou os dedos. Flora. No saguão. Estava intacto. notei que algo havia mudado: havia guardas de prontidão nos flancos do saguão. me assustando.Como?! . Fui atrás de Flora. passando a tranca. barulhento. .Vi-o partir.Tô. e voltei minha atenção para o prédio familiar. Pelo visto.Eu quero saber o que aconteceu naquele prédio! ± Exigiu. . sim.Vem! Agarrando um de meus pulsos. Flora guiou-me para o que eu concluí que fosse sua sala. e me fez sentar frente a sua mesa. Flora já sabia. entregando-me o cartão de sempre. Encontrei-a no andar da gráfica. em murmúrio.O quê?! .Não! ± Gritou ela. o porteiro se lembrou de mim. do mesmo jeito que eu me lembrava. . olhando-me profundamente. como andam as coisas por aqui? . antes de falar com Colin. depois baixou a voz ± Não podemos falar dessas coisas aqui! . não me esconda nada! . a empolgada jornalista correu e me abraçou. eu queria saber como tudo estava. Antes que a porta do elevador se fechasse.Conte-me tudo. parecia tensa em demasia. Resolvi ir direto para a sala dos estagiários.

mas a Marina« .Não! ± Cortou. Como uma das mais antigas e confiáveis funcionárias. ninguém vai lá! Eu sei que Colin tá fazendo isso de propósito.Ué. tem coisa errada por trás! E não é de hoje! Eu preciso saber o que está acontecendo. batendo na boca por ter falado alto demais ± Não. Fiquei pensando em como o senhor Colin era capaz de fazer isso. . correu para falar comigo. Eu costumava ajudá-la com revisão de artigo. mas não o suficiente..E Vivian? . Não era à toa que. Guilherme. a Marina me ligou. me levando para um local seguro onde pudesse descobrir os verdadeiros acontecimentos do dia da matéria sobre o advogado seqüestrado e executado. mas eu já reparei. é claro que ela tinha o direito de se sentir assim. ele não quer que a gente saiba de alguma coisa! Nunca vi aquela menina tão amedrontada! Flora parecia profundamente abalada. Antes de você ir ao hospital e da polícia e do nosso pessoal chegar lá. o que aquele homem tá fazendo! . assim que me viu.Mas então. e ela só deve ter lembrado de mim quando tudo aquilo aconteceu.Mais do que muitos. você já sabe o que houve.Eu sei que tem alguma coisa errada. e na sua influência sobre os meios de comunicação. Suspirei.A Marina está sendo coagida! Ela ficou no setor de montagem. .O que você sabe até agora? . . eu sei! Eu gosto demais do Colin. não! Tudo foi omitido. nem mesmo para o nosso pessoal o Colin liberou a verdade dos fatos! .

Aquela mulher sempre foi muito seca e fria. como porque tinha. . Olhava fixamente para um ponto de sua mesa. o acordo com o policial Almeida de tirarmos fotos antes da perícia. mas dá pra saber quando ela fala menos do que o normal. talvez encontrando explicações para coisas passadas que ela nunca soube explicar. a mulher continuou calada. o rosto fino apoiado sobre uma das mãos.Foi. né? . depois de tanto tempo de trabalho. ± Pareceu refletir por alguns segundos.É. Quando terminei. .É. Ela ficou com a parte da entrevista. Mas achei justo que Flora soubesse.Ele mesmo deu o dinheiro? . Vez ou outra Flora expressava surpresa. -« Isso é tão«! . não só porque era uma pessoa boa.Ela também está escondendo. nós nos separamos. mas não ousou me interromper. Fiquei hesitante quanto a contar a ordem autoritária que recebi do senhor Colin. desde o momento em que recebi a ordem. e do encontro com o assassino. e eu via que era essa a exata sensação de Flora. e eu fui tirar fotos. mal piscava. tomando fôlego. até minha consciência no hospital.Num pacote pardo. eu sei. . Receber a informação de que se era enganado quando se ocupava um cargo importante numa empresa era como um soco no estômago. e contei mais uma vez toda a história..Guilherme. Respirei fundo. . ou espanto. depois voltou os olhos para mim ± A Marina também não esteve com você o tempo todo. Conta tudo desde que você recebeu a ordem. o direito de saber o que acontecia por trás dos panos da imprensa.

acabei descobrindo que ela seria a pessoa quem deixaria a história vazar. .Isso é ilegal! . Levantando as sobrancelhas. a voz num fio.Não sei se devo.Fez uma careta. ou pelo menos por perto. curioso. Pelo menos. A mulher ainda me perguntou alguns detalhes. não é. . Parecia desacreditada. . . . não por pressão. mas por livre e espontânea indignação. como que resmungando a situação. você o fez! . Voltou os olhos expressivos para mim.Mas você pretende levar isso à tona? Flora apenas me encarou. como se tentasse entender como nunca aquela hipótese havia passado por sua cabeça.Eu sei. e eu acabei falando mais sobre meu encontro com o assassino. De surpreso. ± Concordei sinceramente.Mas.Não. Ela apenas desviou os olhos. seu semblante foi passando para indignado. Mas não consegui. não agora. foi fraqueza minha.Isso não é ético! . . Aproveitei e perguntei se ela havia visto alguém com o mesmo perfil na imprensa. seus olhos brilhando em chamas de indignação e fúria. e até irado.Está pensando em fazer alguma coisa? ± Perguntei. A resposta foi negativa. ± Falei com pesar ± Eu devia ter dito ³não´.

Você tava desconfiada de acordos há muito tempo? . ± Piscou um olho para mim ± Não haveria problema nenhum em eu sair daqui.E você vai comigo! . eu não sei de nada. Guilherme. certo! Já entendi! .Desconfiada. olhando para ela. E eu não preciso explicar nada pra ninguém. afinal não tivemos essa conversa. enquanto a outra era um pedido formal de demissão. nunca eu me submeteria à artimanha tão« baixa e suja! .Você vai mesmo acusar o senhor Colin?! Isso vai acabar com a credibilidade dele! . eu adoro esse lugar. Eu recebi essa proposta de emprego. e Flora apenas fulminava-me com o olhar. já assinado por ela. Tecnicamente. Só não sabia que eram coisas que iriam me enojar. sabe? Cheguei a fazer esse pedido de demissão formal.Flora abriu uma gaveta ao seu lado.Certo.Isso pouco me importa! ± Acabou esbravejando ± Nós estamos aqui para relatar a verdade pela verdade! Nunca. você vai mesmo sair daqui?! . Mas eu sempre soube. já sou grandinha! . . sim. mas em branco em frente aos nomes de Vivian e de Colin. mais do que nunca. que por trás daquele sorriso tranqüilo do Colin tinha muita coisa. não. puxando alguns papéis e jogou-os à minha frente. . afinal. Ergui a cabeça. Só que acabei desistindo. Certa.Agora.Então. percebendo que um era uma proposta de trabalho numa imprensa rival à nossa. Encarei-os. e por um tempo ela me pareceu extremamente tentadora.

Você está fugindo! . porque se aquele homem desconfiar que eu vi a cara dele. porque espalmou as mãos na mesa. Pediu-me para que contasse novamente o acontecido. sua expressão determinada chegou a me incomodar. e se uma matéria dessas for publicada.Nós temos o dever de dizer isso a todos! . bem« Eu não quero fazer parte disso. como estou! . mais vagarosa e detalhadamente. repeti para ela. . Flora! Acontece que tem um assassino psicopata atrás de mim. ± Pareceu ponderar.Não estou fugindo. seus olhos mais piedosos ± Mas eu vou revelar os esquemas com a polícia! Isso você não pode impedir! . me esforçando verdadeiramente para lembrar de mais algum detalhe que eu poderia ter esquecido ou . mas acabou encostando as costas no apoio da cadeira. talvez me xingando mentalmente.Foi aí que o bicho pegou.Não estou impedindo você de nada. o que com certeza ele sabe. em outra imprensa?! E ainda para revelar o esquema da pessoa com quem mais aprendi sobre minha futura profissão?! Isso não poderia nunca acabar bem. Flora deve ter notado minha hesitação. Só acho que. -« E como você acha que vou poder provar que sei disso tudo?! ± Acabou soltando. eu não posso sequer estar aqui. o cara me acha fácil! Eu não deveria nem estar aqui. Eu. Olhei atônito para Flora. olhando-me autoritariamente.Flora. eu não posso ir para outra imprensa. . Paciente.Você é uma jornalista. vai ficar de olho em tudo que sair no jornal sobre isso! -« É. Flora! Você não precisa provar nada pra ninguém! Flora ficou quieta por um tempo. você está certo.

que me olhava com muita atenção. um senhor já grisalho com vários arquivos a mão e outro. Se bem que não era a vida dela que estava em perigo. muito embora eu soubesse que o dinheiro em minha conta deveria estar pagando meu silêncio. fechando a porta atrás de si com tamanha força que cheguei a piscar os olhos. e também de como o advogado havia sido encontrado. Dentro da sala. era essencial saber a correta descrição do assassino. completamente abatido. calvo e de expressão marcada. Fiquei estático. estava um homem com seus quarenta e muitos atrás de uma escrivaninha de madeira escura. Bom. pouco restara do fascínio que um dia havia existido. depois se empertigou numa postura severa e saiu da sala. Passadas duas horas desde minha chegada saí de sua sala. parti para o outro lado da rua. Bateu com os nós dos dedos. para o senhor Colin. sentado a um lado. sorriu de lado e depositou os arquivos sobre a mesa. atento a tudo ao meu redor. ainda próximo à porta. Decidido. o . Engoli em seco. Com um aceno. Fiquei parado um tempo frente ao prédio branco e cinza. o que. continuava com o peculiar sorriso em minha direção.deixado de notar. Ela anotou algumas coisas dessa vez. Reparei que ela prestou muito mais atenção ao início de meu relato do que ao fim. cochichou algo em seu ouvido. Já estava no ponto de ônibus. as sobrancelhas pesadas davam -lhe um ar constantemente carrancudo. Não sabia se conseguiria encarar meu chefe. sentindo os olhos de todos dentro daquele limitado espaço pesarem em mim. quase irritando a atendente. Para mim. agarrou um de meus pulsos e me levou para o andar superior. que precisava falar com o delegado imediatamente. pensando se realmente seria ajuizado falar tudo o que acontecera naquele funesto dia. e acabei pegando o elevador para ir embora. Insisti. A mulher aproximou-se do homem sentado. Voltei meus olhos para o mais novo deles. na última porta ao fim de um corredor. para mim. O senhor. O delegado apoiava o queixo numa mão. pegando o ônibus que me deixaria na esquina do departamento de polícia. chegava a ser desconexo. talvez minha presença ali interessava mais do que eu podia pensar. entrando em seguida. a mulher prontamente se levantou. O velho senhor deu uma boa olhada em mim. Colin ainda não havia feito contato comigo. que eu julguei ser o delegado. eu não precisava mais dele. pedindo para que eu repetisse quando tocava em alguma parte mais importante. Subi as escadas. quando uma idéia pouco sensata havia brotado em minha cabeça: eu precisava ir à polícia. talvez uns dez anos mais velho do que eu. Ela resistia bravamente. apenas esperando que algo acontecesse. mas quando citei que era sobre o advogado que havia sido assassinado. e entrei na delegacia. seus olhos transbordando determinação.

.Ora.Poupe-me das piadas. Quando reparei.Ora.He. um pouco de humor num ambiente tão pesado não faz mal a ninguém. Roberto. Roberto?! ± Cutucou o delegado com o cotovelo. he! Não há um que não reaja assim. Sentei. Deixei que meu queixo caísse despropositalmente quando fixei meus olhos nos deles.Não seja tão grosso com ele. Baptista. o senhor sentou-se na mesa. Havia experiência naquele rosto. filho. apoiando os cotovelos e não tirando os olhos dos meus. . ainda encarando seus olhos.Muito bem. . mas pareceu-me mais confortante do que eu poderia pensar. agora que estávamos mais próximos. dê-lhe uma cadeira. ele não tinha mais do que trinta e dois. ± Alfinetou o velho Baptista. . Descruzei meus braços. Que cor mais absurda era aquela?! Os olhos dele eram tão azuis. A voz do senhor era fina. embora um pouco relutante. he. Definitivamente. o homem que parecia o mais novo segurava a própria cadeira próximo a mim. tentando parecer que não estava tanto na defensiva. pude analisar melhor suas feições. ± O delegado baixou as mãos ± Comece a falar. ± Comentou animado o velho. e um pouco esganiçada. rapaz! Só queremos conversar com você. . que pairavam o violeta. não se aflija. enquanto que o delegado inclinou o corpo largo para frente.homem me pediu para que eu me aproximasse. né. . sim. o que prontamente fiz. . O velho riu e acenou para o jovem mais ao lado. Notei que ele era da mesma estatura que Fernando e. . Empurrando alguns papéis. mas também havia juventude.Sim. até ouvir a risada do velho.

porque o delegado passou a mão no rosto.Eu sou o delegado Neves. Voltei minha atenção ao quarentão. . O homem ao seu lado é o detetive Abikair. . O jovem ao meu lado esquerdo não mostrava reações.Senhores. que apenas acenou brevemente com a cabeça.Mas não vai nem se apresentar? Eu não sabia quem era aquele senhor que parecia ter imensa influência naquele lugar. ± Justificou-se. Olhei para o jovem.Não assuste o garoto. até que ele pareceu enfezar-se ainda mais. . olhando-o impaciente. . estou apenas« . Fiquei observando seus olhos miúdos e escuros por um tempo. Baptista! . que já apoiara os cotovelos novamente sobre a mesa. Talvez ele fosse o detetive do caso e.. e sentia que seus olhos violetas ainda estavam em mim.Não estou sendo grosso. filho! Não tenho o dia todo! .Vamos. por favor! . por isso.Não estou criticando. estou sendo direto. Roberto. Roberto! ± Riu-se Baptista. mas decididamente pronto para obedecê-lo.Pare de criticar meus meios. permanecera na sala do delegado Neves. e esse velho inconveniente aqui é o Baptista.

. tirando os óculos redondos e limpando-os numa pequena fronha branca. . Os dois se calaram. . nunca sairia daquele escritório.Oh. . Abikair deixou-se encostar novamente à parede.Vamos deixar que o jovem fale.Um pouco de ética.Disso já sabemos. ou não?! ± Cortou Abikair. Cheguei o corpo para frente.Hãm.« Vocês já devem saber da pessoa que foi baleada. Voltou a sentar na cadeira. Ao que pareceu. . antes que Neves cuspisse mais uma resposta para Baptista. Ele olhava um pouco escandalizado para os dois. ± Disse Neves. o delegado conteve-se por considerar as palavras do jovem detetive sensatas. os braços cruzados frente ao peito. juntando as mãos sobre as coxas. perdão. as costas apoiadas na parede ao lado de um arquivo de cor grafite. para depois apoiá-los novamente sobre o nariz ± Acho que Roberto se deixou levar pela coisa. levantando-se da cadeira. . enquanto Baptista o olhava com implicante meiguice. jovem Abikair. . Com a certeza de que a discussão havia acabado. daquelas que fazem até seus pêlos da nuca se arrepiarem. certo? . enfadonho ± Conte logo o que sabe.« Bem. e todos os olhos detiveram-se no detetive Abikair.E não foi? ± Concluiu ironicamente Baptista. pensando que. ± O velho riu.Eu me deixei levar?! ± Indignou-se o delegado. eu peço! .A voz era potente e grossa.Eu sei de algumas coisas que talvez possam ajudar vocês a encontrar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. se não falasse logo.

± Girei a cabeça.Vamos.Muda. O delegado Neves pareceu surpreso.E se eu dissesse que conheço esse estagiário? ± Falei. Roberto.Ele é o detetive. Era isso o que tinha pra dizer?! . . Roberto. . vendo os olhos do detetive Abikair deslocarem-se do chão para mim ± Era um estagiário. O senhor Baptista também pareceu surpreender-se. talvez impressionado demais para voltar à carranca habitual e fingir que nada o atingia. . comemos rosquinhas?! . fuzilante. .Sim. delegado Neves.É claro que sabemos! O que acha que fazemos aqui.Não era um jornalista.Você o conhece?! ± Recompôs-se o delegado. um estagiário! ± Deu de ombros ± O que mais. Apenas o detetive Abikair continuava o mesmo. .. filho. o clima mudou dentro do pequeno ambiente. ± Abikair olhava-me com extrema fixação ± Muda tudo.Que seja. Aí sim. sabemos que um jornalista foi atingido enquanto estava ilegalmente no covil do seqüestrador. Neves apenas o olhou. ± Pediu Baptista. ± Baptista deu uns tapinhas no braço do delegado ± Ele sabe o que fala. mas esboçou logo um sorriso de satisfação. -« Isso não muda coisa alguma! . o que mais?! . deixe o garoto falar.

não? ± Baptista balançou a cabeça ± E como ele está? . seus olhos apertados pelo cenho franzido ± Precisamos que você lembre de tudo o que seu amigo lhe contou! E rápido! . . .« Senti suas mãos apoiarem-se no encosto da cadeira em que eu estava sentado. cá está ele.Bem pontuado.Ora.A essa altura.Filho.Precisamos de qualquer informação sobre isso. ele já deve ter recebido alta. . . Roberto. Entretanto. . . jovem Abikair.Hãm. e pronto. preste atenção.Eu acho« ± Notei que Abikair começou a se aproximar por trás de mim ± que depois de um susto desses. ± Sorriu. leva tempo para recuperar-se de um tiro! Vai ver ele contou tudo o que aconteceu a seu amiguinho. quase fechando os olhos com as rugas. ± Olhei para Neves. mais do que nunca. qualquer um teria motivo suficiente para não sair de casa. . Baptista o olhava com interesse.Não pressione o garoto.E por que não o trouxe aqui?! ± Protestou Neves.Parece que o senso de justiça de nosso estagiário falou mais alto.. enquanto que o delegado parecia levemente transtornado. há uma chance de começarmos a completar o quebra-cabeça desse caso! Eu não posso perder tempo! . ele está bem. Baptista! Agora. Roberto.

. focou-os em mim. e depois para Abikair. O detetive mantinha os olhos arroxeados na porta do escritório. apenas inclinou um pouco a cabeça. parecendo fazer anotações mentais quando vez ou outra levantava os olhos. eu sentia que o detetive já sabia quem eu era ± Ainda não disse seu nome. a mão escondendo a boca denunciava que estava pensando em alguma coisa. Já o velho Baptista desviava os olhos de Neves para mim. mentir para as autoridades. ± Estranhamente. O detetive ouvia tudo com exclusiva atenção. . para depois fazer perguntas e ficar pensativo. . Terminada a narração. quando falei do tiro no ombro esquerdo. A certeza disso foi que.Não há com que se preocupar. desencostando-se de mim. sua mão recuou um pouco da cadeira. chegando a omitir alguns detalhes para que parecesse mais convincente a minha história de que era apenas um conhecido do verdadeiro estagiário.Pois então. filho! Fale! Respirei fundo. eu sou. emudeci-me.Guilherme. tomando coragem para contar tudo o que lembrava do ocorrido naquela tarde. arregalavam os olhos. mas quando se sentiu observado. enquanto que as pessoas normais. Mas o olhar do detetive Abikair caía sobre mim tão centrado que me convencia de que ele sabia que fora comigo que acontecera o tal fato. delegado Neves. O delegado Neves me olhava.. era quase assustador ver seu sorriso crescer diante de algum detalhe mais sórdido. esperando alguma reação daqueles senhores. quem é? . como o delegado Neves. E você. O senhor Baptista parecia divertidamente interessado em minhas palavras. Não era uma coisa certa de se fazer. Guilherme Azevedo Zheinkner. Tive de me esforçar para não escorregar e acabar colocando a história em primeira pessoa. -« O senhor é o detetive do caso? ± Abikair não pareceu tão pasmado com minha pergunta como os demais.Sim.

eu sei que sua autoridade aqui é absoluta.. entretanto. . subitamente ± Precisamos que conste nos autos! . . . . .Delegado Neves. tirando os cabelos quase negros dos olhos. enaltecendo-o de maneira a deixar claro ao delegado que era ele quem decidia o que fazer. ele me disse que só viu uma parte do rosto dele.Por que não vai visitar o amigo de Guilherme. O detetive Abikair falava muito bem.Só perguntando. não consegui notar nenhum pingo de hesitação. creio que posso encontrar-me com a testemunha e fazer constar nos autos a nossa conversa. Abikair? ± Sugeriu Baptista.Você acha que seu amigo se lembra bem do rosto que ele viu? . enquanto Neves ainda pensava. como responsável do caso.Acha que ele estaria em condições de fazer um retrato falado? ± Arriscou o detetive.Não é má idéia. tentando esconder a boca com uma das mãos enrugadas. jovem Abikair! ± Elogiou Baptista.Nós precisamos dessa testemunha aqui! ± Berrou o delegado. .Bom. Mas ele deve se lembrar. O delegado apenas piscou. Baptista começou a rir baixinho. O detetive apenas olhou-o por alguns segundos. sim. seria um advogado. a minha é ainda superior e. Engoli em seco. . ± Concordou. e ele parecia muito certo de seu lugar.Se não fosse detetive. emudecendo.

e soltou um pouco o meu pescoço. e todas as pessoas pareciam olhar para nós. Roberto! Vai perder o controle novamente?! ± Incitou-o. . que me fez um sinal com a cabeça. e comecei a segui-lo para fora do escritório do delegado Neves. e seu rosto estava muito mais severo do que antes. . Se me derem licença. senti meu braço direito ser agarrado.Não venha com churumelas. . diferente. Pulei. o ar de curiosidade me deixava embaraçado a ponto de eu sentir minhas bochechas em brasa. Baptista! . Fiquei olhando aquela expressão fria. O detetive fez uma curva fechada. sem reação alguma. e fui jogado contra a parede. seus olhos excêntricos em Neves.Mas«! Que afronta é essa?! ± Urrou o delegado. permitindo-me abaixar a cabeça. Roberto! O rapaz está certo! Você está abaixo dele! .Velho.Ora. num toque frio. olhando nas gemas do detetive. um pouco irada.Acha que poderíamos encontrar com seu amigo agora? ± Perguntou.«! Antes mesmo que eu pudesse ouvir mais alguma coisa.. A impassibilidade de Abikair havia sumido. eu« . Levantei. uma mão grande e espalmada postou-se no meio de minhas costas. bem como meu pescoço. . mas assim que fui escondido pela parede. e eu me apressei a acompanhá-lo.Eu« Eu vou ligar pra ele. Ele finalmente piscou. Passamos por várias mesas.Oh.Te levo ao telefone. .

senhor Abikair.De fato. nenhuma decoração. . nem objetos pessoais.Eu sei. Não havia nada senão trabalho naquele ambiente. querendo arrancar de mim toda e qualquer informação me deixou em pânico.Você mentiu para as autoridades. Só de entrar naquela sala fechada. com três pessoas que me encaravam insistentemente. meio sem jeito ± Eu estava« enfim. O detetive soltou meu pescoço. -« . . nenhuma foto. ainda segurando meu braço.Isso é crime.Você sabe que acabou de falar um falso testemunho? -« . Porque eu vou descobrir.. depois os voltou para mim. ± Asseverou o olhar ± Mas nem pense em mentir ou omitir alguma coisa de mim. entramos numa salinha apertada. eu sabia. ± Falei. o que era a verdade. -« Mas você sabia! Abikair me encarou longamente. sinto muito. ou se realmente estava com medo de falar. não importa. Desviou os olhos para o corredor. e isso provavelmente porque ele acabara de chegar.Por que não? Continuando o caminho pelo corredor. e eu acabei encobrindo minha identidade. Vai querer mesmo o tal retrato falado? . O detetive puxou a . talvez na dúvida entre eu ser mais um espertalhão que tentava se safar.

talvez um pouco incomodado. ± Apontei-os com o dedo. deixando-os sobre a mesa.É ele. repassando cada momento em minha mente. incerto. . Passei mais tempo de olhos fechados.Você disse que só viu o olhar dele. . meia. . . e não tive mais dúvidas. Paciente. certo? Apenas esta faixa do rosto? ± Indicou com os dedos.É. Esses olhos não enganam.Tem certeza? ± Perguntou. enquanto eu o analisava. sei lá o que era aquilo. puxou um bloco e um lápis. empurrando acidentalmente a cadeira. o que fez com que eu me afastasse. Passados quarenta minutos. Fiquei meio apreensivo. Abriu uma das gavetas ao lado da perna. foi isso. indicando que eu devia sentar também. apoiou os cotovelos sobre a mesa e dedicou atenção suprema à minha descrição do assassino. . Notei alguns traços imperfeitos. ele atendeu ao meu pedido.Então? Está parecido? Abikair virou o desenho para mim e.Absoluta. ao abri-los. e tal foi minha surpresa quando. Entregou-me o papel algum tempo depois. . depois cruzou os dedos. Ele estava usando algum gorro. e pedi para que o detetive acertasse-os.cadeira. pensando se a imagem que guardara em minha memória ainda era a mesma da pessoa que eu havia visto. esforçando-me verdadeiramente para lembrar mais alguma coisa que poderia ter deixado escapar pela intimidação na sala do delegado Neves. . dei de cara com um desenho muito semelhante ao homem que atirara em mim. pude ver a cópia fiel da faixa do olhar daquele homem. ele limpava a mão suja pela grafite. Pedi para que o detetive pintasse os olhos com a caneta azul. era ele. Enfatizei cada detalhe que me pareceu mais importante da pessoa que eu havia visto naquela tarde.

e abaixei a cabeça. quase impossíveis de se encontrar. depois escondi as partes que eu não havia visto no homem. Ali estava ele. eu tinha certeza! Aqueles olhos eram únicos.Espera aí« . Voltou com a pasta grossa para cima da mesa. e colocou-as na minha frente. Era exatamente o mesmo homem. tive que pensar bastante para ter certeza do que ia decidir. os olhos não eram os mesmo. no fim. mas pareceu aceitar consideravelmente o fato de não ter conseguido achar o tal. Dei uma olhada rápida para o detetive. entre trinta e quarenta e cinco anos. O detetive abriu a gaveta. Depois. Puxei minha blusa. foi ficando mais difícil. Aquele estava muito parecido. . atentando para o tipo físico dos homens. Todos os que apareciam nas fotos eram homens de olhos azuis. uma que eu tinha certeza de que ele não me mostrara. tirando uma pasta cheia. abriu-a e pegou um envelope branco e gordo de dentro dela.Como? Coloquei a foto bem próxima à borda.-« Espere um pouco. Alguns. bem como escondendo seu corpo e todo o resto que não me fora revelado naquele dia. Tirou seu conteúdo. escondendo seus cabelos com um dedo. cobrindo do nariz para baixo do homem. e aproximei meu rosto. . Puxei as fotografias uma a uma. parecido até demais. nenhum deles era o homem que havia me alvejado. que se revelou serem fotos. que me encarava um pouco confuso. reparei numa foto nova. eu descartei desde a primeira olhada.Acha que consegue identificar o tal homem como sendo um desses? -« Posso tentar. . cujos olhos eu sempre confundia com os olhos de Fernando. Mas. mas assim que a puxou novamente para colocá-la na gaveta. O detetive Abikair não pareceu muito feliz com isso.

enquanto elas pareciam fixadas no nada.Não. esse suspeito não é nem do mesmo caso.Guilherme. ± Disse Abikair.Acho que você está um pouco equivocado. detetive. Ouvi seu suspiro. não estou! Eu tenho certeza! . tomando a foto de minhas mãos. temos um grande problema. Será que ele não acreditava em mim? Eu não estava mentindo para ele.. certeza absoluta! Esses olhos.É esse! . e ele fechou fortemente os olhos por alguns segundos. .Absoluta! A mais absoluta certeza! Eu nunca poderia esquecer esses olhos! . . .Senhor Abikair. por favor! ± Por que ele não acreditava em mim?! ± Eu tenho plena certeza de que é ele! Eu não poderia me enganar! Eu sei que é ele! -« Então. eu tenho certeza. e ele fora o único para quem não menti. Olhei para as belas esferas arroxeadas do detetive Abikair.É esse.Esse?! . é ele mesmo! -« Você tem certeza disso?! .

. nada. Guilherme. ..Ué. petrificado ± É a foto do meu irmão. não estava enganado.Então?! Eu realmente não estava entendo paçocas! Criminosos poderiam praticar vários crimes. Guilherme. é esse cara. mesmo! . apesar de tudo. ± Encarei Abikair. era que Abikair parecia extremamente preocupado com a minha certeza. É ele.Essa foto é minha.Essa foto não é de nenhum caso. era ele mesmo.Não pertence a nenhum caso.O que poderia impedir esse homem de ser o assassino desse caso?! .Senhor Abikair. ou melhor. . . Várias vezes . Não sabia mais o que dizer. era ele. . então como é que ela apareceu aqui?! Eu sei do que estou falando.Tecnicamente. é sim! -« ± Continuava imerso em pensamentos. então por que o suspeito de um crime não poderia ser o autor de um outro? O mais estranho. eu estou certo do que falo. Como dar a certeza para alguém de que seu irmão era um assassino?! Eu tinha certeza.Mas eu« Hãm?! . perturbado.

Não que ele tivesse cara de quem aceita alguém para conversar nessas horas. Tomei ar para responder. Abikair empertigou-se. Mas depois. bem frente aos olhos. o detetive pediu para que eu respondesse algumas coisas e.Pois não? ± Voltou os olhos anormais para mim. mas curioso para saber o que o detetive ia fazer.Eu« . . certo? Primeiro. fazendo com que eu me calasse. o detetive me olhou longamente.tentei falar alguma coisa. -« Muito bem. a foto do irmão nas mãos.Senhor Abikair? . pasme. Segurava a cabeça com o braço apoiado sobre a mesa.Você tem essa certeza toda? ± Cortou. um pouco de desapontamento e. conforme eu fazia a caneta correr. incredulidade. cruzando levemente os braços. Entreguei meus dados. se não se importa. suspirou e brandeou as expressões. mas eu tampouco poderia sair sem ter a certeza de que estava bem. Puxando uma folha da gaveta. me sentindo um pouco mal e acuado. levantava os olhos para olhá-lo.O senhor« O senhor acredita em mim. não mais pensando em quanto tempo eu ainda precisava ficar lá. . Engoli em seco. Preciso de alguns dados seus. . mas a expressão do detetive não era lá muito motivadora. -« Tenho. deixando-me escorrer na cadeira. e tal atitude me deixou preocupado a princípio. O semblante pensativo denunciava preocupação. .

eu«! . Não foi como contar alguma coisa ruim para um amigo. fiquei mais atento ao que . ele duvidar. a luz da pequena janela refratava em sua íris. já que. violetas e arroxeadas pinceladas de maneira espetacularmente vívidas. Daquele jeito. Pediu para que eu não saísse da cidade.Você já mentiu para as autoridades antes. como que parte de seu diferente ser. Não chegou a falar do irmão novamente. O senhor Abikair passava-me estranhos sentimentos. Aquilo foi diferente. . chegando a andar comigo até o ponto mais próximo. mas depois confirmar que continuava a acreditar no quer que você dissesse. como Fernando. eu não acho que« . ele acreditava na possibilidade de uma perseguição súbita por parte do assassino.Eu não menti pra você! ± Acabei me exaltando ± Eu nunca mentiria pra você! Abikair ficou quieto um longo tempo.Pessoalmente. o que me deixou morto de curiosidade. Pouco falei nesse percurso.« . pareciam aquarelas azuladas. .Não..E poderia muito bem estar fazendo de novo. .Eu sei.Senhor. Acompanhou-me até a porta de saída da delegacia de polícia. mas depois descruzou e apoiou os antebraços na mesa. produzindo um efeito sem igual: seus olhos. inclinando-se para frente e ficando mais próximo de mim. Guilherme. mas também pediu para que eu ficasse em alerta. Eu não duvido da sua sinceridade. originalmente azuis.

o que estava acontecendo comigo?! Por que havia um volume começando a se erguer em minhas calças?! Senti-me extremamente envergonhado. cheguei a olhar em volta para ver se mais alguém havia reparado. a pele brilhante e morena. sentando mais ao fundo. sem desviarmos os olhos. com aquela cara de provocante austeridade. pareciam uma mistura de cores.« Isso só Fernando sabia fazer. maravilhoso. uma vez que não estávamos nos falando direito. mas logo veio uma curva. um morenão que. depois de mentir para o delegado. Tive que virar a cabeça para continuar olhando para ele. A verdade era que aquele detetive era. cooperar com o detetive Abikair. meio às minhas pernas. e fugir de um homicida. Entrei no ônibus. e às dicas de proteção que o detetive me passava. mas com as luzes da tarde. Apoiei a cabeça no vidro. a postura. E pensar em meu namorado não me animou mais. o efeito que provocava. Mas me desarmar com apenas o olhar. excitar-se quando se vê uma cena de sexo. Quem disse que seria fácil? . E acusar o irmão do detetive como assassino. ainda a tempo de ver seus olhos grudarem nos meus. enquanto que a cintura era mais estreita. escuros e penetrantes. Achar outros bonitos. os olhos severos. tudo bem. até que o veículo começou a se mexer. conseguira me excitar com apenas um olhar. os cabelos diferentes. Olhei para minhas mãos. Do mesmo tamanho que Fernando. como se fosse uma seda muito fina.acontecia à minha volta. o jeito de falar. Os olhos. escondendo minha ereção com as mãos. O cabelo era castanho escuro. Não estava certo. Precisava chegar logo em casa. Uma excentricidade que me atraiu. cor de jambo. Só ele costumava saber. pude ver mais daquele homem tão contido em suas formalidades. Sua pele era originalmente morena. tive a impressão de que seus ombros eram um pouco mais largos. resolver de uma vez por todos os pepinos da minha vida: falar e juntar novamente os irmãos do apartamento ao lado. simplesmente. o brilho por eles exibido pairava o mesmo tom que tinha um vinho tinto. Ficamos nos encarando fixamente. ajudar o doutor Rafael com aquele complexo ridículo e Enzo com o sumiço do irmão. me acertar com meu namorado. e cintilava a cada toque de luz. e o detetive ficou para trás. com os olhos arroxeados. Tudo nele parecia peculiar: o toque frio. com uma grossa borda negra que continha as cores. não era também o melhor dos consolos. Ao ar aberto.

Fernando ficou mudo e . Comecei a sentir raiva de mim mesmo. Meus olhos arderam. Um deles derrubou alguns livros da mesa. extremamente exótico. depois fui para o quarto e me escondi debaixo das cobertas. o maxilar contraído parecia aumentar minha dor de cabeça. Bufei. Acabei descendo dois pontos depois do meu. Tirei a camisa. a garganta apertava e ficava cada vez mais difícil respirar normalmente. sentindo uma incrível raiva brotar dentro de mim. Afinal. Minhas reações não eram justas. o céu já estava escuro. Eu não podia ficar tão desarmado só com o olhar de outro homem. antes que qualquer um dos irmãos notasse minha chegada. baixar os olhos não era a melhor das opções. do que estava fazendo com a minha vida e com a vida dos outros. àquela hora. mirando-o. joguei os travesseiros em qualquer direção. nem comigo nem com Fernando. que ainda não sei como não perdi o ponto no qual deveria descer. Encarei o telefone. com um corpo moreno artesanalmente esculpido. não conseguia crer que ficara naquele estado com um simples encarar de olhos. incomodado com o rastro das lágrimas em minha face. quentes. isso era exclusividade do meu namorado. Puxei na memória o número do ramal do loiro. arfante. O telefone estava na mesinha de cabeceira. Eu não podia continuar daquele jeito. já estava para desligar quando a voz familiar atendeu a ligação. puxei a porta das escadas e subi de dois em dois degraus até chegar em casa. e virei a cabeça. Tranquei a porta. Eu precisava fazer alguma coisa para resolver a minha vida. já que não achava prudente levantar antes disso. Eu não podia nem fechar os olhos. Meu peito doía tanto. como tanto meus amigos me pediam.Minha cabeça estava tão transtornada. apertei os olhos. Então. por que raios eu estava ali. Quando respondi à saudação. Apoiei-o no estômago com as duas mãos. nem meio metro de mim. Escondi os olhos no braço apoiado à janela. Entrei correndo no prédio. não consegui olhar para os lados. mas daí a ficar« Não conseguia nem pensar na palavra. Com o corpo encolhido. a mente em branco. e o outro quase voou pela janela. meu braço estava pesado demais para se esticar até o aparelho. troquei a calça por um short e fiquei com as meias. que o rosto de Fernando surgia diante de mim. o que só me deixou mais raivoso ainda. Lágrimas de ira riscavam ardentemente meu rosto. com a cueca melada?! Num acesso de raiva. mas quando finalmente consegui mover meu corpo. mordendo o lábio inferior como num velho hábito de indecisão. socando o colchão repetidas vezes. principalmente no aspecto amoroso. entretanto. e peguei-o com a mão direita. Segui pelas ruas a passos largos. Não sei precisar quanto tempo passei naquela mágoa de mim mesmo. o que estava acontecendo comigo?! Tá certo que o detetive Abikair era um homem bonito. Suspirei. ele já devia estar no escritório. até que simplesmente não consegui mais me mover. Os toques cadenciados aumentavam minha expectativa.

Não. Sentia todo o meu ser se contrair.« . .É.« Oi.Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? . uma sensação de vazio dentro do corpo. . .Hum.« Certo. eu« Não aconteceu nada.Gui? . . então nada mais justo do que eu puxar assunto. então.Hãm.pediu um momento. . Ouvia sua conversa com outras pessoas. o barulho de uma porta se fechando e o fio do telefone sendo suspenso. Engoli em seco. porque eu só escutava sua longa e calma respiração. pesado. Que bom. O fato de Fernando não falar nada também contribuía para o meu nervosismo.É« -« . -« O antigo silêncio voltou.Oi. o que me deixou mais aflito ainda. fora eu quem ligara.

Apertei meus olhos. Mas não saía nada. seu imbecil! Fala alguma coisa!´. mas eu sabia que precisava falar alguma coisa. delicada ± Que aconteceu? . trancando a mandíbula. Novamente. Meus olhos começavam a esquentar novamente. piscando muito para desembaçar a vista. Gui? ± Sua voz era doce. mesmo? -« .Fala comigo. .Fê«? . espremendo-os fortemente. Prendi a respiração. soltando uma expiração rápida outra vez. Deixei que uma expiração rápida escapasse sem querer. desenfreadas. e ele deve ter percebido que eu estava uma pilha de nervosismo. só podia pensar. qualquer coisa. Limpei o rosto com as costas das mãos. meu amor« Fechei os olhos.Gui.-« Por que eu não consegui falar nada? Eu não sabia ao certo o que eu queria tanto falar. As gotas quentes rolavam. mas eu não me importei.Gui« Fala comigo« -« Fê? . ouvíamos nossas próprias respirações. ³Fala alguma coisa. já fungando. Estava sentado na ponta da cama.Que foi. o braço esquerdo sustentando parte do peso ao lado de minha perna. os dois pés apoiados no chão.« Tá tudo bem. .

Gui. mais lágrimas brotavam de meus olhos. eu« Fê« .. Muito« . tá? -« . eu só« ± Respirei fundo. loiro. Vem logo. Espera só um pouco.Já tô chegando.Tá. Gui. colhendo novamente minhas próprias lágrimas ± Tá.Fê? -« Já tô indo praí. né? -« Claro.Te amo. não sabia o que dizer.Fê. . .« Volta logo pra casa. ± Funguei. Precisava dele ao meu lado ± Tá tudo bem com a gente. Como sempre« ± Solucei alto. ± Aquelas palavras fizeram-me desabar ± Te amo.Tá. Gui. . .Tá.Nada. . .Eu também. que eu já tô chegando.

se o loiro me pegasse sem roupas depois de ter tomado banho. Vesti uma bermuda e uma camisa de manga curta. E lembrar do detetive me fez pensar se eu deveria contar ou não a Fernando o que tinha feito naquele dia. Entrei debaixo do chuveiro. Desligamos o telefone mais ou menos na mesma hora. certo de que um copo de mate acalmaria meus nervos. voltaríamos a ser como antes. Com o controle. eu ia levar muito esporro. passava os canais. Não sabia onde colocar os braços. minha ansiedade já não tinha mais canais para ser extravasada. Estava tudo bem. O gringo iria gritar. não sei o que ele acharia pior. Quando terminei de puxar a barra da camisa. pelado e molhado. apontar o dedo e o diabo. Enquanto me secava. Fernando chegaria a qualquer momento do trabalho. consolado. como eu poderia ter duvidado do amor que eu sentia por Fernando. Fernando dissera que estava tudo bem. Honestamente. Minhas dúvidas eram besteiras. destacados meio ao meu rosto claro. olhei para minha imagem no espelho. assim. Os reflexos do pulsar de meu coração martelavam minha garganta. eu não precisava mais me preocupar com aquela falta de conversa. mas o ribombar produzido por meu próprio corpo pareceu somar-se aos goles que eu tomava. agora que não estava mais sentado. impaciente. com a ausência de toques mais íntimos. conclui que aquele não era o melhor momento para Fernando saber do meu diazinho agitado. me dei conta de minha ansiedade. Engolindo em seco. ecoavam em meu ouvido. mas no momento em que o fiz. achei que ver um pouco de televisão me acalmaria. Pensei em sentar. Respirei fundo depois de lavar o copo. Contaria o que me havia ocorrido num momento mais pacífico.Nem nos despedimos. levantei e fui ao banheiro. Foi quando eu acabava de grudar o velcro da bermuda que me toquei o que acabara de acontecer. falaria que era um absurdo eu sair sozinho e ir direto pra toca do lobo e esperar não ser mordido. tão facilmente? A dor que eu senti fora tamanha. Comparado com o momento em que estava com o detetive Abikair. Entretanto. Batucava a colher na pia enquanto esvaziava o copo de chá gelado. eu ir ao meu antigo trabalho ou me dispor a colaborar com a polícia. qualquer ruído me alarmava. Não que nada fosse interessante. que sanou todo e qualquer vacilo meu quanto ao sentimento que eu tinha por meu namorado. . espernear. não havia mais com o que me preocupar. O alívio era tão grande que sentei na cama e fiquei lá. mas eu não conseguia me concentrar em uma única coisa. Desliguei a tevê. mas não parava em nenhum. Ele mesmo falara. tentava ao máximo me acalmar. que pareciam adendos desengonçados de meu corpo. Esporro seria pouco para o que eu ouviria. não conseguia ficar parado. Meus olhos ainda estavam vermelhos. estar de pé parecia mais cômodo. e assim que deixei o aparelho sobre a mesinha. meu coração parecia retumbar mil vezes mais rápido. Caminhei até a cozinha.

a figura do gringo surgiu meio ao escuro do corredor. O loiro ainda respirava com dificuldade. e eu me senti prestes a cair quando ele parou a menos de dois passos de distância. e a folha de madeira se abriu. fungando o perfume da pele sensível. o olhar era fixo. Pisquei. impactante. mas não saiu nada. deixando-me inebriado. sabia que não conseguiria falar nada. Depois. senti uma de suas mãos soltar meu corpo para segurar minha face. A maçaneta se torceu. Levantei. fiz menção de falar. todavia ao mesmo tempo gostaria de poder adiar o contato. Sentia que estava prestes a chorar. Seu cheiro adentrava minhas narinas com impressionante força. meu joelho já estava cedendo. Minha mão começou a tremer. sendo facilmente tragado por aquele profundo oceano com tormentas emocionais. e cada segundo de espera me deixava mais nervoso. as coxas junto ao peito. Permiti-me abraçar seu pescoço. e eu levantei a cabeça rapidamente. Eu queria conversar com o loiro. ficaria travado e em angustiante silêncio. de frente para a porta. Engoli em seco. Ele arfou. Afundei o rosto na curva de seu pescoço. . nem quando ele começou a se aproximar de mim. que me fulminava com toda intensidade. arrepiados certamente por sua corrida até a casa. As esferas azuis não piscavam. e ele venceu a distância entre nós enlaçando minha cintura estreitamente. m as o corpo estava estancado. enlaçando-me forte ao homem que amava. fazendo meu peito apertar ainda mais. apoiando a testa nos joelhos. mas descompassadamente. A mão ainda segurava a maçaneta. antes mesmo da porta estar totalmente aberta. A primeira coisa que consegui enxergar. agitado. e o barulho familiar de chaves soou para além de meus tímpanos. e eu não consegui reagir diante de tamanha beleza. Nada mais passava em minha mente. Cada passo por Fernando dado tornava meus joelhos mais fracos. meus olhos ardiam imensamente. encarando meu namorado. segurando o encosto de umas das cadeiras da mesa de jantar. Parecia uma marcha. um estrondo ecoou no corredor. Por um momento. mas eu duvido muito que fosse apenas pela corrida.Sentei no chão. Seu olhar era sôfrego quando as esferas azuis detiveramse em mim. Sua boca estava entreaberta. Baixei os olhos por alguns instantes. como se muitas pessoas estivessem andando juntas. e fechei os olhos. Mas depois seu real desespero se revelou nas feições preocupadas. parecia que Fernando não sabia bem onde colocar as mãos. falar qualquer coisa. Baixei a cabeça. mas nada saia de minha entalada garganta. Não conseguia desviar meus olhos dos dele. Queria que o loiro chegasse logo. nada mais apertava meu coração a não ser a presença de Fernando. tentando distinguir a origem dos barulhos. de uma única vez. Senti seus braços comprimindo-me contra seu corpo quente. Ruídos para além da porta de entrada de meu apartamento se fizeram ouvir. Olhava para o teto. as rosadas maçãs do rosto a denunciar seu esforço. foram seus fios dourados. mas voltei a erguê-los. minhas pernas pareciam bambas. As chaves pareciam estar desesperadamente sendo balançadas.

Suas mãos afundavam-se em minhas coxas. do mundo todo. e meus dedos deslizaram automaticamente para seus cabelos. dando voltas. meu corpo estava tão quente. Sentia que não conseguia respirar. curvas. e parecia queimar ainda mais nos locais tocados pelo gringo. minhas coxas apoiadas em seus antebraços. montei no tronco do gringo. mas eu não esperava que ele fosse cuidadoso. Sentia chupões fortes na pele sensível de meu pescoço. e rocei a língua em seu lóbulo. penetrando-os e agarrandoos com força. Fernando me fazia esquecer dos vizinhos. desejava mais contato com o corpo tão quente e desejável de Fernando. Agarrei um de seus ombros. minhas pernas firmemente atadas em seu quadril. posto que precisava daquele contato tão urgentemente quanto ele. Fernando tomou minha boca não muito delicadamente. um de seus dedos muito próximo de minha entrada. de Abikair. Senti-o cutucar de leve meu ponto. os olhos oceânicos direcionaram-se em minha direção. e deixei que minha voz escapasse livremente. da faculdade. o que só fez com que meu quadril se empinasse instintivamente. Nossas línguas estavam saudosas. seus dedos tocaram minha entrada. Não agüentei me reprimir mais. dos prédios de frente para nossa janela. . os lábios vermelhos. desfiz o beijo na busca de ar e meu pescoço foi imediatamente atacado. e estávamos nos amando tão loucamente. O gringo apertava o quadril contra o meu. senti seu membro endurecer ainda mais contra minha virilha. e meu baixo ereto roçou o dele. descendo para o pescoço. e encontrei a face de Fernando próxima a mim. Rebolei levemente. com um impulso. que nem o tempo parecia existir. A franja arrepiada concedia-lhe um aspecto ainda mais ferino. lambendo e chupando lábios superiores e inferiores. Ele gemeu. quando sentiu que era observado. Abri os olhos. a outra mão ocupava-se em apertar minhas nádegas. Os cabelos revoltos agrupavam-se em tufos esporádicos por mim puxados e. Fernando espalmou as mãos o suficiente para conseguir segurar minhas duas nádegas de forma a quase penetrar-me com os dedos médios. A língua de Fernando lambeu meu lábio inferior. Suas bochechas mais que rosadas. onde inconscientemente cravei meus dentes. Éramos só nos dois. Puxei a cabeça do loiro para o lado. animalescos. demorando a conseguir concentrar-me para focar a imagem meio ao turbilhão de desejos e taras que me acometia. e por alguns segundos temi que meus tímpanos estourassem com tamanha intensidade de pulsação. Eu precisava de mais. sua boca entreaberta. Meu coração ribombava como um tambor de olodum.Piscando uma vez. Senti que era empurrado e dei de costas com a parede da sala ao lado da porta de acesso ao corredor. passando o outro braço por seu pescoço e. e um sorriso matreiro de dentes brancos brilhou rapidamente. selvagens. Eu arfava rápido. Ele me empurrou com mais força contra a parede. me deixando louco. segurando meus dois pulsos e colocando meus braços acima de minha cabeça. e massageavam-se incansavelmente.

Agarrei-me a ele. aumentando a louca sensação que a adrenalina causava em mim. porque pela reação do gringo. depois de fechar a porta. mas estava impossível suportar mais daquela tortura. e rebolei devagar sobre o volume de Fernando. Procurei novamente seu pescoço.Aaahhh« Fechei os olhos para gemer. Ainda não havia erguido o torso completamente quando Fernando. Os olhos azuis cintilaram perigosamente em minha direção. quando ergueu a cabeça para olhar para mim. Acho que devo ter mostrado uma cara muito safada. seu volume rijo quase a rasgar nossas calças. meu coração louco bombardeava meu peito.Me fode« Meu sussurro saiu rouco. Ele ainda estava com meu mamilo na boca. Eu o encarei.Que foi. e o queria naquela hora. Minhas costas bateram novamente contra a parede. . Respirei fundo. tão imprensado contra mim. Meu quadril jogava-se inconscientemente contra o do loiro. fui arremessado para a cama. Foi só eu terminar de falar que a língua do gringo parou. e foi ainda melhor quando ele arrancou minha blusa e abocanhou um mamilo enquanto o outro recebia atenção especial de uma de suas mãos. uma das mãos com os dedos enfiados entre minhas nádegas. mordendo-o com força. loiro? Quer que eu repita? Obviamente que não precisei repetir. colando a boca em seu ouvido e falando uma das frases que até hoje tenho vergonha de repetir. Ele sugava fortemente o botão em meu peito quando me curvei e abracei sua cabeça. eu precisava de Fernando. os cabelos despenteadamente selvagens. Era bom demais ter o gringo daquele jeito. seus dedos definitivamente querendo penetrar por minha bermuda. os lábios avermelhados. Ele piscou. eu devia estar parecendo um garoto de programa bem devasso que se oferecia de graça. o loiro empurrou a pelve contra a minha. uma dor deliciosa me incitou a morder Fernando com mais força. e nem um segundo depois eu já estava sendo fortemente beijado. . eu sentia que estava me descontrolando. se . e vê-lo daquela maneira tão provocante me fez erguer umas das sobrancelhas e rir de lado. De repente. depois lambendo e chupando o local machucado. Minha garganta arranhava enquanto Fernando lambia e sugava a frágil pele de meu pescoço. arfando. A língua ainda pressionava a carne túrgida. . e minhas pernas tremiam precariamente. Mal chegamos ao nosso quarto. Senti que estávamos nos movendo.

portanto ficava mais fácil sentir e distinguir qualquer coisa. ele mal me despira e sua boca já abocanhara meu membro. separou minhas virilhas. Os toques não eram nada delicados. às vezes minhas contrações involuntárias eram de dor. Fernando segurou minhas pernas bem abertas. Eu já respirava com a boca há muito tempo. dessa vez. Suspirei. Aliás. mas ele não me deixou tirá-la. seus toques eram mais eficazes do que carinhosos. a tênue luz dos postes da rua fazia com que fracos feixes luminosos refletissem o brilho daqueles cabelos dourados e da pele beijada pelo sol. Depois. que saía livre para ecoar por toda a casa. Os olhos oceânicos fixaram-se nos meus. era mais um motivo para eu esquecer de fazê-lo direito. Não controlava mais minha voz. nem se eu quisesse muito conseguiria escapar. Senti automaticamente que meu volume crescia e endurecia a cada novo roçar do gringo. e afundou novamente o rosto entre meus documentos. levantei um pouco e apoiei meus braços atrás do corpo para ver melhor o que Fernando estava fazendo para me deixar tão excitado. me levando ao delírio. agarrando minhas coxas com firmeza. e como o nosso primeiro beijo. e então a cabeça loira abaixou-se. Levei minhas mãos ao cós de minha bermuda. Os movimentos felinos me hipnotizavam quase ao ponto de babar. Empinando o traseiro. Primeiro ele apoiou a mão espalmada. se fosse Fernando. o loiro ajoelhou-se entre minhas pernas e. ele deitou a cabeça sobre meu baixo. Nosso ritmo estava muito rápido. chegando a erguê-las um pouco. Suas mãos pressionavam minhas partes. Passando os braços por baixo de minhas coxas. Era Fernando. fazendo questão de tocar cada coisa de uma vez. de súbito. Eu estava me sentindo completamente preso. minha cabeça quase bateu na cabeceira da cama. mas ficou ainda mais difícil colocar qualquer ar para dentro dos pulmões e. O modo como seus músculos se contraíam só para que seu torso ficasse erguido me fascinava. Perdi o apoio dos braços ao agarrar o lençol e puxá-lo. . massageava meus testículos e. O pano de minha bermuda era muito fino. porque no pequeno instante que se separou de mim foi para sumir com minha bermuda e minha cueca. queimando-me como se estivesse em uma fogueira gigante. penetrou-me com dois de seus dedos já úmidos por minha própria semente.livrou das próprias roupas e colocou-se nu sobre meu corpo. Uma das mãos veio auxiliar a carícia. sorrindo involuntariamente. brilhantes e provocantes. nunca daria pra escapar. conseguindo tocar desde meu membro até os testículos. e acho que Fernando também não estava agüentando muito. Fernando acariciava a cabeça de meu membro arrastando a língua. uma de suas mãos massageando meus testículos enquanto a outro tocava um de meus mamilos. para meu profundo êxtase. Minha barriga contraiu-se sozinha. Vi-o jogar a peça para trás e voltar a se afundar entre minhas pernas. como respirar parecia um jeito de me controlar. sugando mais forte que o de costume. Mas eu não me importava. meu corpo esquentava rapidamente.

me torturando. voltando minha atenção para o que estava logo à frente de meus olhos. De primeira ele me olhou feio. iniciou um beijo feroz. E eu não perdi tempo. Fernando gritou alto e forte. Empurrei seu corpo contra o colchão. mas não me importei. quase esmagando meus braços. Aquilo me excitou tanto que eu estava decidido a arrombar Fernando. quem havia desempenhado esse papel fora eu. puxei-o para um beijo. Bem. cheios de luxúria. voltando meu corpo e deixando-me de ponta a cabeça para ele. Assim que percebi que meus dedos deslizavam com mais facilidade. Abracei o corpo em brasas e fiz com que Fernando ficasse sob mim. Ele tentou me tirar de lá. afinal. Aqueles pêlos claros« Aposto que poucos tinham pêlos claros como os de Fernando num lugar . empurrava minha pelve contra seu rosto. desejo. mas puxou-me para junto do corpo e.. dava pra perceber que ele queria continuar ali. . Queria mais de nossa intimidade. . Senti que estava muito próximo do alívio. Senti meu próprio gosto naquela língua macia e experiente. Deitei sobre seu corpo. enfiei minha língua na entrada dele enquanto brincava com seu membro. Depois passou a língua pelos lábios e. me chupando igual nunca havia feito.Ah« Ah« Isso« Ah« Eu não sabia o que fazer. agarrando-o pelo braço. não era à toa. então agarrei o gringo pelos cabelos e tirei aquela boca quente e safada de meio baixo. mas eu não saí. quase rasgava o lençol de tanto puxar por meu corpo estar tão trêmulo. Agarrei suas coxas e as abri. selvageria. Eu gemia.Aaah« Ai« Eu senti que fora um gemido de dor. Dei um sorriso de lado. O jeito como ele apertava os olhos e o tom de voz denunciaram que ainda não havia prazer naquela invasão. nas últimas vezes. aquele jeito diferente e agressivo do loiro de me excitar estava me fazendo perder as estribeiras. e assim que minha boca encontrou com seu baixo. me posicionando melhor. nossos abdomens se encontrando. e abri um pouco as pernas. me enfiei dentro dele. passando sua língua para dentro de minha boca.Ué«? Você não queria« que eu te fudesse? Vi os olhos oceânicos cintilarem em minha direção. enfiei dois dedos em seu pequeno orifício. Entretanto foi só dar uma atenção especial a um de seus mamilos rijos e seu membro que o loiro relaxou.

Aaahh« Espera« Loiro« Eu vou« . Uma de minhas pernas foi agarrada. olhando fixamente para o baixo do gringo. o loiro me colocou arqueado sob si. Meu corpo tremia debilmente. O membro dele se arrastou por meu corpo. agarrei seu membro duro e melado. Não demorou nem um minuto. encontrando-se brevemente com meu próprio membro para. Não agüentei o peso do meu corpo e caí de cara no colchão. abocanhei-o. Sentia meu corpo ser jogado para depois ser trazido de novo pelas mãos que seguravam com força meus flancos. melando meu abdômen. e me aliviei na boca dele. enfim. Com um espasmo. minhas pernas arreganhadas. sugando o mais forte que pude. esfregando minha língua na ponta e massageando seus testículos. meu traseiro empinado. e seu corpo começou a tremer tanto quanto o meu. Ele não esperou que eu me acostumasse com seu volume túrgido e começou os movimentos forte e rapidamente.como aquele. enquanto meus dedos cuidavam de sua entrada. quando senti meus flancos serem agarrados o suficiente para que Fernando saísse de baixo de mim.Hungh« Hunf« Hum« -« Ah! Apertei o tornozelo de Fernando. mas tive que me deter. sentia que seus dedos ainda estavam dentro de mim e. Não demorei muito para me aliviar novamente. Ainda segurava o membro do loiro em minha boca. os mamilos duros de Fernando raspavam em minhas costas. . Já estava esperando por seu suco. A partir de movimentos bruscos. Ele ainda estava rígido como uma pedra quente. cutucar minha entrada. e senti-me penetrado com tanta firmeza quanto estava penetrando. como ele havia feito comigo. E foi tão sem aviso quanto eu o havia feito. e vi estrelas quando o gringo me virou de frente para ele. por isso meus gemidos saíram sufocados. Seu baixo entrou torturante por minha entrada. Sentir seu membro entrando e saindo de . aquele barulho típico de corpos e choque e algo muito úmido sendo batido. e eu gritei de êxtase misturado à dor. encostando o rosto em sua virilha. na nossa primeira experiência na posição ³69´. Gritei. Não sei precisar quanto tempo ficamos assim. mas Fernando estava incrivelmente resistente. me sentindo insano. Sem dó. enfiando-o em minha boca. ainda sendo impulsionado para frente e para trás. a boca do gringo envolveu-me com volúpia.

ainda sustentavam aquele ar selvagem e perigoso. Trouxe o corpo para o lado. O corpo quente me esquentava. Calma e tranqüila. mirando-me inexpressivo. Abraçamos-nos. mas era sua respiração em meu peito que mais mexia comigo. abrindo o peito na tentativa vã de me controlar. Puxava o ar com força para dentro de meus pulmões. agarrou-me gentilmente pelo tronco e me trouxe para perto de si. nos analisando. Ele piscou. Os olhos. Nossas línguas se encontraram. A voz grave me deu calafrios. Até que Fernando se enfiou tão forte dentro de mim que eu achei sinceramente que iria desmaiar. Fechei os olhos. e depois girando« Berrei. tudo ao mesmo tempo. Ele respirava com a ajuda da boca. Suspirei. mas eu também não queria falar nada com minha mirada constante e meu silêncio mórbido. tão expressivos. passamos minutos apenas nos olhando. O calor parou acima de meu coração. a pele parecia reluzir e a face estava muito corada. e beijamo-nos devagar. A cama estava toda suja. abraçando seu corpo e acariciando seus cabelos. Fernando caiu para um lado. Beijava-o insanamente enquanto sentia que sua semente me preenchia ternamente. Eu estava doido por causa do sexo selvagem que acabáramos de fazer. seus dedos afundaram-se em meus cabelos molhados. os cabelos tinham as pontas molhadas pelo suor. ficando de frente para o loiro. Eu estava explodindo. e se aliviou. Segurei com delicadeza seu rosto. os olhos apertados. suspirando. senti seus lábios macios pressionarem-se contra os meus. mas era quase impossível fazer aquela sensação de excitação desaparecer. suava. para depois fixar-me novamente nas esferas azuis. e Fernando aproximou o rosto. uma sensação úmida em minha entrada. e depois ficamos nos encarando por um longo tempo. Esquecemos de nosso bloqueio. como se nunca nada tivesse acontecido para que problemas surgissem em nosso relacionamento. Esquecemos tudo aquilo que existia entre nossos corpos. Porém. depois deitou a cabeça em meu peito. Olhamos-nos. Expirei. mas eu ainda tremia de prazer. E finalmente. Até que o loiro respirou mais fundo. Beijei . Seu gemido foi longo. sabia que era a mão grande e precisa de Fernando. minha outra mão passara por trás de seu pescoço e repousara em seu ombro. gemia e tremia. Eu não sabia o que ele queria me dizer com aquele olhar silencioso. a outra mão segurava minha nuca. e eu para outro. gozava. desarrumada. embora eu estivesse cansado demais para virar a cabeça imediatamente. Nossos olhos não se desgrudaram. seu toque suave em meu peito me disse que ele estava tão esgotado quanto eu. e senti sua mão esquentar-me o sangue. suados e cansados. ouvia meu coração bater forte. distantes. Esquecemos do tempo. nós desmontamos. Minha entrada latejava. Estávamos arfantes. O loiro desfez o beijo. Fechei os olhos. rouco e delirantemente luxurioso.mim tão forte. minhas mãos alcançaram automaticamente seu pescoço e eu puxei sua boca para juntar-se a minha. Algo tocou minhas costas e. e o que estava a nossa volta também.

e foi ao tentar levantar que me dei conta do ocorrido. senti algo melado entre as coxas e em minha entrada. Acordei um pouco atordoado. tomando coragem para sair da cama e senti algo deslizar por minha lombar.Bom dia« ± Seus lábios roçaram minha orelha. Não havíamos trocado uma só palavra de amor e. Arregalei os olhos. e parecia escorrer. murmurei palavras doces. fazendo com que eu ficasse arrepiado. aquele me pareceu o ato mais passional por nós dois praticado. Seus cabelos finos estavam completamente desalinhados. quando tentei me levantar. Coloquei a mão em concha entre minhas nádegas e caminhei devagar até o banheiro. estava de bruços com a cabeça virada para mim. mas surpreso: não havíamos usado camisinha! A semente de Fernando ainda estava dentro de mim. mesmo que sem o carinho cuidadoso de sempre. . Levei meus dedos aos fios loiros. e fiquei impressionado em como ainda não havia reparado que Fernando estivera adormecido ao meu lado durante todo esse tempo. A que eu colocara na oportunidade dizia ³Good at being bad´. Foi difícil me concentrar em fazer torradas com aquele cheiro tão delicioso. e o perfume inebriante de Fernando adentrava efetivamente por minhas narinas. Superando a preguiça. quando finalmente lembrei do que havia acontecido na noite anterior. Ao mover as pernas. A barba estava começando a crescer. Tomei um banho. . e meu corpo estava cansado. Meus olhos ardiam com a claridade. acariciando-os. Ele acariciou meu braço em resposta.seus cabelos. Suspirei. sem noção de espaço e tempo. como que tomando coragem para mexer qualquer músculo. decidi fazer o café da manhã para nós dois. Adormecemos assim. animalesco«! No entanto. eu não podia deixar de sorrir e sentir meu peito esquentar só de lembrar de como Fernando havia me amado. Fechei os olhos. não assustado.Wow! ± Me assustei. segurei minha cabeça e fiquei observando suas feições serenas. beijando meus lábios. Apoiei meu braço ao colchão. sem pensar em mais nada a não ser na felicidade que estava sentindo naquele momento. devasso. no entanto. Respirei fundo. Eu nunca havia feito um sexo tão animal como aquele! Fora pervertido. lascivo. completamente envergonhado e com medo de sujar o chão no caminho. derramando um pouco de leite. vesti uma samba-canção e peguei uma de suas muitas blusas estampadas. Estava colocando leite em um copo quando braços circundaram minha cintura. . depois escorreguei minha mão por sua face.

± Passei meus braços por seu tronco.Bom dia. Fê« . ± Piscou. encarando-me. ontem« .Desculpar pelo quê? . afastando-me um pouco do abraço e olhando para as esferas do loiro. -« Eu não sei o que te dizer. Jogou meus cabelos para trás. .Eu não esperava que fosse. suspirando ± Só fica do meu lado.Também. tombando a cabeça ± Não fui muito delicado com você. Embora o foco de suas pupilas estivesse em mim.Tô. ficando de frente para ele e tocando seu braço ± E você? . cuidadosa.Você tá bem? ± A voz veio baixa.« por semana passada« Por tudo. as esferas azuis ainda sustentando o olhar.Por ontem. Franzi o cenho.. . puxando-o para mais perto. . ± Abracei o gringo.Eu não preciso que diga alguma coisa. -« Desculpa. ± Virei o corpo. Fernando não parecia estar . Repousou uma das mãos em meu rosto. ± As sobrancelhas arquearam-se. acariciando minha face. Fernando fixou os olhos nos meus.

Depois de nos arrumarmos correndo.Esquece isso. aconteceu. agradeço o convite.Eu sei. Fê. O clima estava leve. De praxe. como se aquele fosse um dia qualquer. e beijei sua boca rapidamente. Nada demais. só pros mais chegados. nem por semana passada nem por nada. Rimos juntos. tipo nós dois. aproveitei a folga depois dos exercícios que o professor havia mandado para conversar com Enzo.Não parece! ± Puxei seu nariz. que me recebeu com um sorriso amigável e assisti às aulas sem maiores problemas. e ele riu gostosamente. E o que aconteceu. um pouco desconcertado. agradável. Sentamo-nos à mesa e comemos nosso desjejum conversando trivialidades.Guilherme. Thomas e Igor. porém terno. porque com momentos tão bons esquecemos da hora. ± Respondeu. despedindo-se com um beijo rápido. . Segurei seu rosto com as duas mãos. Eu não estava preocupado ao chamar Enzo para meu aniversário porque sabia que haveria mais pessoas com as quais ele poderia conversar sem ter que se sentir . fomos à faculdade. você. eu particularmente não conseguia me conter depois dos comentários irônicos que Fernando soltava. . Meneei a cabeça negativamente com um sorriso nos lábios. como se ele não soubesse muito bem onde colocá-las. . Eu não me arrependo nem por ontem. e eu me sentia renovadamente confortável. eu lembro.Tô pensando em fazer alguma coisa. meu aniversário« . como que o acordando.Eu sei. No segundo tempo. talvez o doutor Rafael« . . O que importa é que a gente tá bem agora. o loiro me deixou à porta da sala.exatamente me olhando. mas« Vi as mãos claras de Enzo se abraçarem. Sentei-me ao lado de Enzo.Escuta. .

. . como se Enzo estivesse imerso em seus próprios pensamentos e analisasse com cuidado minhas palavras. ± Apoiou o queixo na mão. Guilherme.Não. Enzo. . .Eu. rodando o pescoço e voltando a olhar para Enzo.Por que não? . as esferas castanhoesverdeadas dirigiram-se para baixo e embora ele tenha respirado fundo. eu realmente não compreendia Enzo. não disse nada.Você não acha que a gente merece mais que isso? -« Os glóbulos voltaram-se para o lado. os olhos em mim. você sabe.mal. uma hora ou outra a gente vai ter que se encarar. Sacudi a caneta preta em minhas mãos. Os lábios levemente avermelhados deram um sorriso de lado. como que num movimento de ansiedade. . Seus olhos esverdeados ainda me encaravam à espera da conclusão de minha frase.Pra« Ah.Cedo pra quê? ± Não era ingenuidade. não sei. Não esperei por sua resposta. . mesmo. mas« Hunf« Suspirei.« ± Coçou a nuca de cabelos louros ± Acho que ainda tá muito cedo. obviamente falando de seu olhar fixo em mim. né? Eu sei que por enquanto a gente tá como colegas. .Eu já não faço isso? ± Indagou. a gente precisa de laços. .Se a gente quer continuar a amizade.

eu« Como conseguiu meu número? .Alô! ± Atendi.Você preencheu o formulário com seus contatos. detetive. e eu agarrei meu próprio membro. pois não? . Mas fosse quem fosse.Ah! Sim. saí de sala para atender o infeliz que me importunava.Guilherme? . sentindo-me perturbado. ± Sua formalidade era notória ± Tem um minuto? . as íris tão azuis que beiravam o arroxeado. foi tão insistente que depois de cinco chamadas. meio irritado. tentando me conter. . contidas em grossas bordas negras.Guilherme.Claro. Engoli em seco. mais um motivo para não atender a uma ligação no meio da aula. correndo para entrar num dos boxes do banheiro.Estou. O número me era estranho. o olhar expressivo. Imediatamente.voltei minha atenção ao celular que vibrava em meu bolso. pode falar. . . sou eu. a imaginei do detetive Abikair e toda sua fisionomia exótica e atrativa: seus cabelos escuros de tons vinho. os ombros largos e a cintura delgada. sentia uma estranha sensação escorrer por minha coluna e minhas entranhas reviraram incomodamente. Abikair. Meu coração pulsava dolorosamente. ± Olhei para o meio de minhas pernas. a pele morena como bronze polido« Meu corpo reagiu.Está ouvindo bem? . .

- Vou precisar que você compareça à delegacia. Ainda não posso precisar a data, mas acredito que seja daqui a três dias, dia 27 de outubro.

- Ah,« E que horas?

- Durante a noite, não vou arriscar sermos vistos por ninguém, nem de dentro nem de fora. ± Respondeu, veemente.

- Não tem como ser em outra data, detetive Abikair?

-« Por quê?

Senti meu baixo pulsar em minha mão. Não era possível que estava reagindo assim somente com a voz do detetive por telefone. Joguei a cabeça para trás, sentando-me no vaso sanitário e apoiando a testa na parede do boxe. Respirei fundo, fechando os olhos; ele devia saber que eu me sentia assim, devia fazer de propósito.

- Guilherme?

- É meu aniversário, senhor Abikair.

- Oh! ± Ele pareceu verdadeiramente surpreso; adoravelmente surpreso ± Verdade, não havia reparado isso no formulário. Perdão.

- Que isso, detetive.

- Não, Guilherme, foi falta de atenção minha. Mil perdões. ± O barulho indicava que ele havia acabado de sentar ± Na noite seguinte, então? Dia 28?

- Tudo bem.

- O endereço que você deixou é mesmo o seu?

- É, sim. Por quê?

- Não vou deixar você ir à delegacia sozinho durante a noite, Guilherme. ± Censuroume, como se eu não percebesse o óbvio.

- Mas eu tenho com quem ir, não precisa«

- Eu não estou perguntando se tem quem te leve ou não à delegacia, Guilherme. Também não estou pedindo que aceite que eu o escolte. ± Me calei, surpreso ± Eu VOU escoltá-lo, queira você ou não, porque caso você não tenha percebido ainda, você é uma testemunha ocular de um seqüestro combinado com homicídio.

- Eu sei, senhor Abikair«

- Não, Guilherme, acho que você não sabe a dimensão da situação em que você se meteu ao entrar naquele quarto. ± A voz de Abikair era potente e severa, embora em baixo volume ± Estamos falando de um criminoso seqüestrador e assassino que está à solta, esperando pacientemente o estagiário tolo sentir-se acomodado à falsa sensação de segurança para esticar as pernas em algum local provável para dar um fim à única pessoa que pode comprometer sua identidade e liberdade.

- Eu«

- E como você bem sabe, eu não sou dessa cidade, nem desse estado. Venho perseguindo os passos desse criminoso há algum tempo, e nunca antes chegamos tão perto de poder prendê-lo, uma vez que nunca antes conseguimos evidência ou testemunha alguma para incriminá-lo. Essa é a primeira vez que alguém consegue cruzar seu caminho sem morrer no processo. E se eu precisar escoltá-lo da sua casa até a

delegacia com mais quinze policiais à paisana, por mais que sejam dois metros de distância, é isso que vou fazer!

Ouvi o detetive respirar fundo, ainda quieto. Eu não sabia se estava levando esporro ou se, depois de tanto tempo atrás do cara, como ele mesmo dissera, o detetive Abikair apenas sentira a extrema necessidade de extravasar um pouco. Continuei calado, meio sem jeito de dizer qualquer coisa. Conseguia ouvir a respiração levemente descompassada de Abikair, e fechei os olhos, imaginando como ele estaria naquele momento: sentado atrás de sua mesa, de pé e apoiado à parede, sentado sobre a mesa ou deitado em sua cama, nu, o corpo ligeiramente molhado pelo banho que acabara de tomar, os cabelos úmidos jogados ao colchão, o peito«

- Guilherme?

Acordei de meus devaneios luxuriosos quando a grave voz adentrou por meu ouvido e arrepiou os pêlos de minha nuca.

- Sim?

- Perdão novamente. Eu falei demais.

- Tudo bem, detetive. Deve ser bem frustrante tentar pegar um cara desses e nunca conseguir. ± Levei a mão à boca assim que terminei a frase; o que eu estava insinuando, que o detetive Abikair era incompetente?!

- É, Guilherme. Mais do que se pode imaginar. E esse em especial é meu calcanhar de Aquiles.

Tombei a cabeça para o lado, sorrindo de leve. As palavras de Abikair pareciam as de uma criança que admitia que não conseguia alcançar a prateleira de cima: sinceras e fofinhas. Dei de ombros, finalmente consegui tirar minha mão de minhas partes íntimas.

Você também. .Pode deixar. Olhei para o teto.Não faça isso com você mesmo. Guilherme. É meu celular pessoal. . . detetive. levando a outra à testa. mas a única coisa que consegui foi um silêncio profundo quebrado apenas pelo barulho de minha própria respiração. Isso tinha que parar. imaginando qual seria a explicação para aquela reação. com absurda facilidade. . Mas até então.Espero que sim. Eu não conseguia entender por que o detetive conseguia. o senhor consegue. detetive. me tirar do sério. meu quadril ameaçava jogar-se para frente e para trás. .Certo. Então. ± Aquelas palavras me fizeram morder os lábios. Guilherme« ± Murmurei para mim mesmo ± Não faça isso com ele« . dessa vez. dia 28.Se precisar de algo. irei prontamente encontrá-lo. Suspirei fundo antes de desligar o aparelho. . .. E espero contar com sua ajuda. liga para este número. certo? . Eu estava nitidamente fora de controle.Tenha um bom dia.Claro. também. Apertei o celular em minha mão. Eu sei que.Eu ligo confirmando. meu membro não parava de ficar túrgido só de lembrar daquela voz grave e rígida ao meu ouvido.Eu acredito no senhor. Estava acontecendo de novo. .« Dia 28.

Eu não me importo de você não falar quem era. muitas pessoas no corredor me faziam desviar e chegar lentamente à sala de aula.Inspirei profundamente e expirei com força. -« Hãm? .Ao banheiro. Acalmei-me um pouco.No celular. Arrumava minhas coisas quando notei que Enzo ainda estava sentado ao meu lado. . balancei a cabeça e juntei minhas mãos entre as coxas ao curvar o tronco. Passei mais uma água no rosto antes que meus olhos descessem e eu começasse a pensar em como não gostava de meu corpo. Apoieime com as duas mãos na pia de granito rajado. sem entender muito bem o que ocorria. . Não demorou muito e o sinal do término da aula soou.Ah. A pele clara contrastava com os cabelos castanhos escuros. . depois guardei o celular no bolso e fui lavar o rosto.Onde você foi? . meio oval. ± Continuei a juntar minhas coisas e enfiá-las na mochila. e encarei meu rosto. e os cabelos no corte desalinhado emolduravam um rosto meio quadrado.E quem era? ± Franzi o cenho. Não era ninguém. . né? . Encarei-o por algum tempo. mas não é a mim que você afeta quando mente desse jeito. Os olhos cor de mel. sim. Estalei alguns dedos no caminho de volta. Os lábios pouco pronunciados davam contorno a uma boca sem graça. chamavam a atenção se olhados mais de perto. atípico na minha família. Você saiu para atender.

Fiquei quieto na volta para casa. Quando chegamos ao estacionamento. colocando a mochila num dos ombros e foi embora.Não. eu sabia que ele ainda voltaria no assunto. Ele ainda me mirava. O jeito como me olhava enquanto comíamos me pressionava. . os olhos azuis fixaram-se incomodamente em mim.Não. Chegamos em casa e Fernando foi direto para o banho. imaginando se agora era o momento de falar para Fernando que eu estava cooperando com a polícia. . e ficava difícil continuar sustentando o ar de normalidade a cada momento. Limpei a boca com o guardanapo e tomei um gole do meu suco. Por que. o carro vermelho de Enzo já havia partido.Aconteceu alguma coisa. Mas apesar disso. tá tudo bem. engolindo a comida. Joguei a mochila na cadeira de nosso quarto e deixei que meu corpo caísse sobre o colchão.Tenho. ao terminar de mastigar um pedaço de nhoque de aipim. Ainda estava com a agenda na mão quando o acompanhei com os olhos e encontrei meu namorado à porta de minha sala. dessa vez muito mais pesado do que antes. ainda mastigando minha couve. Acabei de arrumar minhas coisas e desci as escadas junto a Fernando. Ergui as sobrancelhas. o garfo suspenso pela mão esquerda. Cada garfada parecia um sacrilégio. ele sorriu de lado e apoiou as costas ao batente da porta. como se o gringo estivesse me comprimindo contra uma parede. nada. Estávamos almoçando num restaurante perto de casa quando. e meneei negativamente a cabeça ± Tem certeza? Parei de mastigar por uns instantes.Enzo levantou-se. Fernando apenas ergueu as sobrancelhas quando baixou os olhos para o saleiro em forma de anuência. os braços largados. e provavelmente foi por isso que Fernando notou que alguma coisa acontecera. a outra mão parara o movimento e o saleiro ficara na diagonal. . O loiro não falou nenhuma palavra sequer depois disso. Formou-se novamente um silêncio no carro. . ± Continuou o movimento com o saleiro ± Só achei você estranho. Gui? ± Levantei os olhos pra ele. agora no carro. Olhei pela janela. alguém comentou alguma coisa? .

tentando tirar minha atenção do corpo pecaminoso de Fernando e prestar mais atenção em seu olhar. rolando e ficando de barriga para baixo. Gui? ± Fernando ergueu os ombros. Fê. mas fosse o que quer que fosse.Não foi nada. Torci o tronco para olhar o gringo. a toalha amarrada à cintura fazia uma fenda profunda sobre a coxa direita e o torso nu brilhava por ainda estar úmido do banho. ± Declarei. Engoli em seco. como se estivesse fazendo um enorme esforço para entender alguma coisa. Encaramos-nos por um tempo até que suas sobrancelhas se ergueram levemente e eu entendi que ele estava ali para conversar. Com as duas mãos colocou os cabelos para trás.Como não foi nada?! ± O loiro estava se alterando rápido. Cocei a nuca. guardou para si mesmo quando fechou a boca e expirou longamente. apoiando-me com um dos braços atrás do tronco e levando meus olhos aos deles. e você não tá querendo me contar. Respirei fundo. Senti o colchão afundar. embora sua cabeça estivesse em minha direção. O gringo tomou ar. mas nada mais que isso. Apoiei a cabeça num dos braços. Suas mãos abraçavam-se comodamente enquanto descansavam em seu colo. que se sentara de lado para mim. Eu não sabia por que não conseguira falar para Enzo que estivera conversando com o detetive Abikair logo depois de ³criticá-lo´ de não se permitir criar laços novamente comigo. suspirando. . já que eu não poderia falar com os dois ao mesmo tempo. Continuei imóvel ± Eu sei que aconteceu alguma coisa.Eu não vou continuar essa conversa com você gritando desse jeito. e troquei a camisa de malha por uma camiseta confortável. permiti-me um descanso mental. Gui! Eu não sou idiota! . aí havia outra dificuldade. e esse era um provável motivo para ele ter me dado a resposta que me deu.Quê que tá acontecendo. .Desfiz-me das calças. Fechei os olhos e. trocando-as por um short confortável. refletindo que talvez fosse melhor compartilhar desse segredo primeiro com os irmãos do apartamento ao lado. . Porém. subi um pouco a barra da camiseta porque a janela fechada fizera com que o quarto ficasse abafado. . Sentei com as pernas flexionadas numa típica posição defensiva. o típico hábito de gesticular se manifestando ± Claro que aconteceu alguma coisa. desviando o olhar. olhar esse que não estava para muita simpatia. Espreguicei-me longamente. o outro flexionado de modo que a mão ficasse frente à minha boca.

ele sabia e sabia principalmente que eu também sabia disso.Nada. eu já disse! . Guilherme! Eu nunca tinha transado com você daquele jeito. mas só consegui que suas sobrancelhas se arqueassem mais. volta pro arranca-rabo. porém só conseguir arregalar os olhos enquanto as palavras morriam em minha garganta.A gente tá brigando! .A gente não tá brigando. ficando completamente de frente para mim ± Que eu te fiz.Que merda.Você tá brigando! Você que tá gritando! ± Argumentei. e eu recuei o corpo.E eu não estaria gritando se você me falasse a verdade. . pára de mentir pra mim. porra! Já estava pronto para retrucar. . Baixou a cabeça. Fernando estava certo.Pára de negar! ± Berrou. permaneceu em silêncio por alguns segundos até que finalmente virou os olhos para mim. . nunca tinha me sentido assim com você! Não tô entendendo o que aconteceu nesse tempo pra você ficar me escondendo coisas! ± Girou o corpo. Mas logo pareceu se arrepender ao fechar os olhos e levar uma mão aos olhos ± Por favor. . e não passa um dia. que te deixou desse jeito e eu não sei?! O que você tá me escondendo?! .parando o movimento quando as mãos alcançaram a base do pescoço. . as expressões muito sérias e com um ar de gravidade. .Por que a gente sempre briga depois que transa? ± Franzi o cenho ± A gente teve um sexo tão gostoso ontem.

Seus olhos. mas não eram finos. ele ainda me encarava. segurando-as com as minhas. onde descansaram e assentaram-se abraçadas. que haviam parado meio ao seu processo de gesticulação. e o gringo ficou quieto.Fê.Não consegui falar nada. mas correndo o risco de o loiro ficar verdadeiramente magoado comigo. Respirei profundamente. Dei a volta. mas eu decidira que o melhor seria contar ao loiro tudo. afinal eu não estava saindo do quarto. porque te arrombei demais?! . ficando de frente para o gringo. além de ir à polícia e cooperar com o detetive Abikair. Fernando tinha dedos longos e elegantes.Foi porque fui violento demais com você?! Você não queria daquele jeito?! Ou foi porque a gente fez sem camisinha?! .« Vamos falar disso depois. .Fê. e meu silêncio só irritava mais ao gringo. só que em outro momento.« ± Tentei começar. mas ele continuou falando. não adiantava nada pedir calma a alguém se você mesmo estava irritado. sem trégua. depois voltei meus olhos para meu namorado. pára! Acabei usando um tom muito alto.« Escuta. okay? . Ele esperava por alguma revelação minha. apenas fiquei encarando meu namorado em seu sofrimento silencioso com um dilema difícil degladiando-se em meu íntimo: contar a Fernando que eu havia ido ao meu trabalho e encontrado com Flora. Suspirei. e sim com austeridade.Fernando. Recolhi as mãos bronzeadas de cima de suas pernas. e notei que seus lábios pronunciados estavam levemente crispados. . baixaram-se até suas coxas. Tentei me acalmar. encaravam-me fixamente. depois soltei o ar devagar. não com arrogância. Via-o me olhar de cima. Olhava-me um pouco surpreso. cansado da troca de argumentos inflamada. e estendi a mão espalmada para que Fernando não se levantasse. Não consegui decidir. . azuis de um profundo mar aberto. ou continuar escondendo até uma hora mais apropriada. e ajoelhei-me aos seus pés. Levantei. mas não revidou com qualquer grosseria típica de quando se enervava e passava dos limites.O que foi?! Foi porque eu te mordi. As mãos.

Eu prometo que te conto tudo. . Guilherme! Eu quero saber agora! .. mas ele recolheu as mãos das minhas. não seria a primeira vez! ± Alfinetou.Eu te prometi que ia te contar depois do meu aniversário! Tá achando que eu tô mentindo?! . . Vou te contar tudo.Depois do meu aniversário.Não.Agora não dá! . mas antes de passar por mim. . ± Insisti.Depois. quando? ± Havia um tom repressivo em sua voz.Por quê? .Bem.Por que não dá?! . me fazendo apertar os olhos. inconformado. tá? .Porque eu não quero falar! . derrubei-o novamente na cama ± Wow! .Ótimo! ± O loiro quis se levantar. mas Fernando não estava alterado.

Nós costumávamos brigar muito. caralho! ± Recolhi a mão assim que havia percebido o que havia feito. Fernando estava nervoso. inflamados por minhas emoções.Qual a porra do drama de falar agora. Seus olhos arregalados denunciavam tanto espanto quanto minha mão sobre minha boca.Fernando. ficando de pé ± Tô falando que vou te falar. chutes ou tapas. só espera um pouco até« . nunca havíamos trocados socos. por favor! ± Quase implorei ± Eu vou te contar tudo. e lentamente a . caralho?! . mas nunca saia da agressão verbal e. Mas nunca nenhum de nós havia agredido o outro. se saía. e antes que pudesse me conter. a tez bronzeada de seu rosto começava a ficar avermelhada. Meus instintos. tô falando que vou te contar. foram mais rápidos do que os reflexos de meu raciocínio. Sentia meu coração bater louco em meu peito. Guilherme! ± Arregalei os olhos.Custa a minha confiança em você.Fernando. Fernando continuava com o rosto virado para a direita.Porra.. me escuta! ± Berrei. a gente acabava se machucando na cama. E foi quando o gringo soltou sua última frase que eu perdi as estribeiras.Por quê?! Pra dar tempo de você inventar uma boa história e mentir na minha cara de novo?! Não me agüentei.Ai. que era pra ser a sinceridade! . Eu já estava nervoso. apesar de nosso inconsciente estar gritando. quê que custa esperar?! . Vi uma das mãos grandes cobrir a face estapeada. cacete! Espera! . cada vez nossas vozes se exaltavam ainda mais e falávamos coisas que. um silêncio mortal havia de apoderado de meu quarto e me fazia escutar o tiquetaquear de meu relógio de pulso. a expressão do loiro era dura ± Custa a base do nosso relacionamento. espantado. não desejávamos que fosse expresso. eu já havia desferido um tapa de mão aberta em cheio na face esquerda de Fernando. E eu havia esbofeteado Fernando. .

A boca estava semi-aberta. de seus olhos. e consegui chegar a tempo na sala antes que o gringo saísse de casa. mas não consegui sair da posição em que estava. Quando tirou a mão do rosto. ligeiramente trêmulas. Os glóbulos não se fixaram em nenhum lugar.Fê. distingui com tristeza as marcas dos meus dedos. e vi quando lágrimas escorreram. mas depois meneou a cabeça em negativa. Quando se levantou.cabeça virou na minha direção. certamente indo para o de visitas. assim que ele parou ao batente da porta. Senti meu corpo tremer. intensa ± Se foi você ter mentido pra mim. e embora quisesse desviar meus olhos de Fernando. gordas e silenciosa. As sobrancelhas arqueadas como que em dor. O que eu estava fazendo?! O que eu havia feito?! . . nossos olhos se encontraram. mas eu mesmo me boicotei« Pus tudo a perder« Acabei piorando a situação. Sentei-me na cama. já que ambos sabíamos como completar aquelas palavras. e também desnecessário. os olhos alagados e o rosto vermelho. eu« Calei-me assim que ele voltou o olhar para mim. Como eu pude permitir que aquilo acontecesse?! Nós estávamos tão bem. não tentei impedi-lo novamente. não conseguia deixar de me fixar no belo rosto. parecia penoso demais terminar a frase. o que me fez passar as mãos nos cabelos e segurar minha cabeça.Fernando! . ³Não. Decidido. Respirava com dificuldade. Segurando a maçaneta. limitei-me a acompanhá-lo com os olhos e. A quietude me dava a sensação de vácuo. Primeiro sorriu de nervoso. como que espantando as lágrimas para conseguir enxergar alguma coisa. O loiro desviou os olhos para o lado. e só depois de um bom tempo o gringo piscou os olhos. baixando um pouco a cabeça. isso não pode ficar assim«´. pensei comigo mesmo. ou se foi você querer continuar mentindo quando eu sabia que você« Ele se deteve. levantei. as esferas incrivelmente azuis arregalavam-se para mim.Eu realmente não sei o que dói mais« ± A culpa tomou-me. como se Fernando estivesse procurando a resposta em algum lugar de seu campo de visão. e eu ficara feliz de saber que Fernando gostara tanto da noite passada quanto eu. . inconsolável. o loiro saiu de nosso quarto.

Mas só fui me acalmar mesmo quando. então eu que arcasse com as conseqüências. . ele não precisava ficar para ouvir a resposta.Você agüentaria três minutos. se eu mentisse pra você? Depois disso. até que o tronco torceu-se e os olhos de um azul impressionante novamente se focalizaram nos meus. Comecei a hiperventilar.Desculpa« -« . depois os voltou para mim. como que tentando manter a calma. Os dias seguintes seguiram-se apáticos.O loiro parou. Olhei para cima. chegando ao quarto de visitas.É. depois sentei com as pernas esticadas.Três dias. meio sem jeito. notava-se que estava cabisbaixo. Guilherme. ± Fernando baixou os olhos para os próprios pés. . se Fernando havia parado para me escutar. Afinal. Abracei meu corpo. não sabia se de nervoso ou de ter conseguido que Fernando me ouvisse. vi que suas coisas ainda estavam em nossa casa. . e voltei a olhar para o loiro. engolindo a tristeza. suspirando. Fernando e eu não nos falávamos: ele não puxava . era uma pergunta retórica.Só espera um pouco« Só mais um pouquinho« -« Até seu aniversário? . Cocei a nuca. Massageei minhas têmporas quando sentei na cama do quarto de visitas. Fê« ± Quase suplicava. mas não ousei chorar ou ficar mais abatido. Fernando saiu de casa. -« Não sei se consigo esperar tanto. certamente estaria aberto para uma nova conversa. e me apoiei à parede. Ouvi-o respirar profundamente. Fora eu o responsável pela merda toda. tentando ao máximo me convencer de que.

então toquei seu ombro. Pensei em chamá-lo. e eu não conseguia começar a falar de nada. -« Hãm? . mas fiquei na dúvida se seria melhor apenas tocá-lo. Enzo tocou-me as costas.« Mas tô indo mais porque você parece estar com problemas. uma manhã cinzenta indicava que o dia 27 do décimo mês seria chuvoso. .Valeu. reparei que Fernando ainda dormia. acariciei a pele exposta e ele finalmente trouxe o corpo. pois estava chegando o mais tarde possível. Talvez o despertador não tivesse funcionado. que pareciam tão seguros de sua decisão. eu notei. Passou uma das mãos nos cabelos. depois que eu já havia me deitado para dormir. .Eu vou. Antes de sair da sala. Não consegui copiar direito a matéria naquele dia. Ele estava deitado de lado. . e sorri de leve. Encarei por alguns segundos os olhos castanho-esverdeados de Enzo. Acordei. Como não houve reação.assunto.No seu aniversário. quando estava para me levantar. depois de esfregá-los um pouco. já que o meu tinha apenas alguns fragmentos soltos. . Tentei não me importar e. mas não ousou perguntar coisa alguma. e consegui o caderno de Túlio emprestado. ou talvez o gringo simplesmente estivesse cansado dos últimos dias.Oi? . Enzo achou meu comportamento estranho. voltou-os para mim. ficando de barriga para cima. se levantando e indo para o chuveiro. Encaramos-nos por instantes e Fernando virou a cabeça. afastando-os dos olhos e. Enfim.Guilherme. ao fim da aula.

e decidi que estava na hora de quebrar o gelo. Enzo passou por mim e. não vou esconder nada. -« .Hoje. Mas eu prometo.. . passando os dedos para ajeitar os fios loiros. Era uma abertura para que eu pudesse falar. -« ± Voltou a escovar os dentes. e parou exatamente com a escova no canto direito da boca. .Tá. quando percebi. . Ele ainda escovava os dentes. Secou a boca. Fernando bochechava. Aproximeime dele. cuspindo e limpando a escova de dentes. Até mais.Tchau. depois parou de frente para mim. segurei sua mão.Tá. depois que eu te contar o que era. depois que todos forem embora. e fomos de minha sala até o apartamento em silêncio.« Eu vou te contar tudo. . Fernando já estava à minha porta.Umas oito.Eu sei que você vai ficar puto comigo. . sete e meia« Apareça quando puder. Antes de ir para o consultório.Que horas? . Almoçamos em casa.

sinceramente ± Acho que é mais uma das muitas vezes que eu fico perdido depois que brigo com ele. fiquei ainda um tempo parado no mesmo lugar. Sabia que o moreno queria me perguntar o que estava acontecendo. . se você está perguntando da briga que tive com Thomas. De súbito.Isso qualquer um suspeitaria. encarando as esferas de esmeraldas ± Ainda mais num dia como hoje. mas Igor nunca me obrigaria a dizer algo que não queria.Era isso. Comemos um lanche da tarde.Faz o que você quiser.Não muito bem.. certo? ± Pisquei. a porta se abriu e deparei-me com o moreno de olhos verdes e barba por fazer. Já estava para apertar o botão da campainha quando me perguntei o que estava fazendo lá. os olhos instigantes pousados de mim. Igor me encarou ininterruptamente. achei melhor dizer alguma coisa. eu pensativo com meu suco de laranja e Igor.Como estão as coisas? .Mas alguma coisa você vai fazer. Mesmo depois de Fernando deixar o apartamento.Mas e você? Hoje é seu aniversário. . Antes de pensa em qualquer resposta. e acabei indo com ele à padaria.Não muito. e saiu para trabalhar. Desviou-se de mim. não está nem um pouco animado? . vi que ele levava a carteira nas mãos. ± Colocou o copo na mesa de centro ± O que eu quero saber é o que vai fazer agora? . . Já ao final de meu suco. mesmo.Não sei« ± Respondi. ± Sorri de lado ± Acabei magoando o Fernando. . . acordei e fui ao apartamento ao lado. .

É. . numa expressão única de sofrimento ± Espero desesperadamente para voltar a falar com ele.Mas você tenta falar com ele? . . mas agradeço a oportunidade de ter um assunto para tentar um contato. Deixei um bilhete. . Igor não era muito de demonstrar sentimentos. pois depois de tanto tempo brigado com o irmão.Também espero. Vez ou outra a gente se cruza. Igor estava transparentemente infeliz. ± Aconcheguei-me ao sofá ± E você? Algum progresso? -« Quase nulo. Apesar de não demonstrarem abertamente. . .Chegou a falar de meu aniversário? Não consegui falar com ele esses dias. . Levantei. deixando minha cabeça em seu colo enquanto ele acariciava muito levemente meus cabelos.. Você sabe que é desnecessário eu falar isso pra ele. Fiquei triste por ele. suspirando ± Mas ele foge de mim.Espero que você consiga conversar com ele lá em casa.Honestamente? ± Meneei positivamente a cabeça ± Não muito. Qualquer pessoa conseguiria ler suas emoções. como se estivesse muito cansado ± Não me recordo de ter ficado tanto tempo brigado com Thomas. ± Recostou a cabeça. ± Ergui a cabeça para encarálo. ± Disse.Tentei. Sei que ele não agüenta minha insistência. ± Arqueou as sobrancelhas. Recostei-me em seu corpo. eu sei. e por Thomas também. que imediatamente abraçou-me com um dos braços compridos. ele estava sensível. sabia que os irmãos estimavam muito um ao outro. naquele momento em especial. sentando ao lado de Igor. mas« nada mais animador que isso. Guilherme. mas eu me surpreendi em como.

Guigui« ± Notei que estava um pouco incomodado. além de abatido.Thomas. mais tarde. Ainda segurava a maçaneta quando se petrificou ao ver a mim e a Igor. . . ± Assentiu Igor. direcionado para algum ponto entre nossas pernas. eu« Eu preciso ir. decidi que era hora de ir embora.Fica. .Bom. . fica. e« . e talvez minha visita tenha feito o moreno mais velho esquecer de que era hora de sair de casa.Hum? . para que pudessem aproveitar a oportunidade e conversarem. Não queria ficar . Os irmãos estavam evitando-se ao máximo. Espero vocês hoje. Já estava pra sair quando Thomas agarrou meu braço. Olhei para trás. Fiquei sem jeito.O barulho de chaves ecoou pelo apartamento. como os de uma criança perdida. Arrumar as coisas.Claro.Oi.Fica. . heim? -« Oi. mas ele nada expressava. eu vou indo. Olhei o relógio em meu pulso. por favor«! O olhar do moreno estava baixo. Thomas! Faz tempo. ± Seus olhos estavam tristonhos. já havia passado tanto tempo?! Quando menos esperávamos.Guilherme. . Thomas irrompeu pela porta. Como nenhum dos dois falou. procurando o rosto de Igor.

depois se voltaram para o irmão sentado no sofá.Tudo bem.Boa noite. encontrei Fernando sentado à mesa da sala. ± Desabafei. Desculpe. me encarando com tamanha intensidade que cheguei a ficar confuso sobre o que o gringo estava de fato sentindo. Fernando mordeu os lábios inferiores. tão verdes quanto os de Igor. Você tá aqui. . Os olhos verdes. calmamente direcionaram-se para mim. um pequeno embrulho quadrado preso por um laçarote vermelho.Queria ter comprado algo melhor. . mas decidi que era hora de arrumar as coisas para receber os convidados.Boa noite. mas tô guardando o dinheiro pra« .Tive receio de você não vir. mas também não queria que eles continuassem brigados.Obrigado.Thomas. -« . . Vacilei por um momento. Qual foi a minha surpresa quando. ele brincava com as fitas do pequeno presente. o jeito que eu te tratei« . Os glóbulos oceânicos. . ± Entregou-me a caixinha. Apoiei-me no encosto da cadeira. Fechei a porta. ± Acabei soltando casualmente. . ± Sorri com o tamanho do presente. que antes repousavam sobre o pequeno quadrado embrulhado.« ± Usei o tom mais compreensível que pude ± Eu não quero ficar me metendo. indo para a cozinha e pegando um copo de água ± Sei lá. arregalaram-se brevemente. isso me basta. Frente a ele. depois me aproximei dele. passando a chave. Deixei a casa de meus vizinhos e voltei para meu apartamento. Feliz Aniversário.no meio do desentendimento dos irmãos. ± Olhei diretamente para ele ± Eu não me importo. Fê. ao abrir a porta.

Eu não esqueci isso. mas a arrumação diferente fez com que houvesse mais espaço para melhor acomodar as pessoas. que ficou toda empolgada por ser lembrada. Nada muito pomposo. depois que todos fossem embora. . Fernando veio logo depois. tirando a fita e o papel colorido. Do bolso. Também telefonei à Flora.Né?! ± Aceitei o copo que me foi oferecido. . poderia ser perigoso. Pensei em chamar Marina. Por fim. só o fato de ele falar comigo. Estava todo suado. mas além de não sermos muito chegados. ± Fernando encostou-se ao parapeito ± Não vai abrir o presente? . o que você tá planejando fazer? Com a ajuda de Fernando. Enzo havia confirmado a presença. Confortadas em uma confortável armação. E eu falei que ia te contar. e mais. Todavia. imaginando onde poderia usar aquelas coisas. . afinal.Ah. só falta tomar banho e se arrumar. um copo de mate em suas mãos. Seus braços cruzados denunciavam que o loiro ainda estava chateado comigo. -« Então. foi fácil fazer de nossa casa um salão de festas. e resolvi ir para a varanda me refrescar um pouco. havia duas abotoaduras prateadas.Agora. Por mais que não fizessem as pazes.Não parece. convidei Túlio quando pedi seu caderno emprestado. . é! Desculpe. . eu sabia que os irmãos compareceriam.. mas dá um puta trabalho fazer essas coisas. Sorri. me deixou mais relaxado.Eu sei disso. e o tal assassino poderia estar de olho nela. ela estivera comigo no dia de meu pequeno acidente. ± Virei para olhar o gringo apoiado à parede ± Eu ainda quero saber o que fez você mentir pra mim. puxei a caixinha. assim como o doutor Rafael. já que nem sair para fazer estágio eu podia. me comprar um presente. o qual eu havia telefonado logo depois de conversar com Fernando.

Pouco tempo depois. mas não ousei me virar. porém sincero. Os cabelos. apoiando o rosto numa das mãos. eram de um loiro escuro. e me apressei no banho. Ainda me vestia quando senti a fragrância inebriante invadir minhas narinas. . surgiu em seus lábios. Fernando já estava sentado no sofá. Ele saiu do quarto e eu me permiti girar para sentar e amarrar os tênis.São de prata.São bonitas. os convidados começaram a chegar. -« Você entendeu o que esse presente quis dizer? -« Hãm? O loiro continuaria falando. se o telefone não houvesse tocado. a calça preta deixava suas pernas mais longas. ainda molhados. uma calça jeans azul marinho e meus tênis. um atrás do outro. e me decepcionei um pouco. Obrigado. ± Observou. . Fernando já estava debaixo do chuveiro. já que ele sairia direto do hospital.É? ± Sorri para ele. . no banheiro social.. e os sapatos negros brilhavam nos pés cruzados. mechas douradas mesclando-se a outras que. Notando meu olhar. Ouvi Fernando remexer as roupas. mas tudo bem. Depois da breve conversa. estavam cuidadosamente despenteados. Topei o pé numa das cadeiras da sala. impecável: a camisa social azul claro realçava extremamente seus belos olhos azuis. por ainda estarem molhadas. Quando cheguei à sala. Era o doutor Rafael. aproximando-me um pouco ± Espero ter a oportunidade pra usálas. as expressões de Fernando amenizaram-se. confirmando que viria e se desculpando por ter que aparecer em trajes de trabalho. ainda. Separei minha roupa. o que me acordou e fez com que o gringo reparasse que era observado. uma camisa de manga curta preta com um pequeno símbolo no peito esquerdo. olhei para o relógio e vi que precisava me apressar. já que nem banho eu havia tomado. e um sorriso fraco. seria pedir demais para tomarmos banhos juntos depois de um desentendimento.

Thomas foi o segundo a chegar.Pois não? . .Marina?! ± Fiz com que Fernando saísse da frente. . e por fim. Foram quinze segundos de conversa. tudo bem. enquanto que Igor falava com o doutor Rafael e Fernando.Você chamou mais alguém? ± Falou. mas consegui disfarçar bem. .« Essa é a casa do Guilherme? . eu« Eu peguei seu endereço lá na imprensa« Não sabia que você estava dando uma festa. mas a pessoa do outro lado da linha nada respondia. Túlio chegou alguns minutos mais tarde. Depois. Fernando pediu licença e. Thomas estava conversando com Enzo e Flora. franziu o cenho e abriu a porta. junto a mim. nem fiz nenhuma cara. e o doutor Rafael veio logo depois. Olhei automaticamente para o loiro. . . ele me devolveu o olhar confuso. e Igor também passou por minha porta. ± Sibilei. Mas. Flora tocou a campainha. para a minha surpresa. Vez ou outra os trios mudavam e passavam a ser duplas ou quartetos. mas para seu alívio. Não me importei. O gringo olhou pelo olho mágico.« Eu sabia que a Flora ia te ver.Oi! Hãm. apenas com o movimento dos lábios. foi a vez de meus pais. Desliguei. bem. Alguns segundos.Não. e esse o tempo de meu pai e minha mãe juntos. arregalando os olhos. fomos abrir a porta. todos estavam conversando o mais descontraidamente que podiam.Não. Também tive que agüentar a Karina. afinal era o seu aniversário e. que me ligava do sul do país para me dar os parabéns. Uma terceira vez o telefone tocou.Primeiro foi Enzo. eu« Pode entrar. não queria que Fernando percebesse. voltando a conversar com meus convidados. campainha tocou. Tudo parecia bem. No meio de apresentações. . e então o telefone tocou. Era o Dan.Hãm. desculpe. me empurrando para que eu ficasse escondido à vista de quem quer que fosse. ninguém.

e Fernando levantara os olhos dos papéis para me encarar. bufou e apoiou a cabeça na porta.Ih. Ricardo. ± Debochou ± Mas eu realmente preciso que você complete esses relatórios ou então. .Tá. Comecei a ficar com dor de cabeça. desconfiados. e fiquei aliviado de minha colega de estágio não tocar no assunto daquele dia. uma festinha! Não acredito que você não me chamou! Onde estão os strippers? .Desculpa. irritado.Eu sei que você foi lá um dia desses. levando-o até a mesa da sala.Eu lembro de ter falado que era aniversário do Guilherme. tá! ± Fernando agarrou o braço daquele enjoado de olho puxado. é verdade. Novamente. ± O loiro estava enfadonho. Nada de strippers. e reparei que tinha umas fichas que você não tinha acabado de completar. . Igor e Enzo olharam para mim. você sabe que« . Já estava para trancar a porta quando a campainha voltou a soar. mas o senhor Colin não« . mas Fernando já havia escutado. Conversamos um pouco. . Eu . entregando-me um embrulho macio. a campainha tocou.. e Fernando e eu voltamos a nos olhar. então.Tudo bem! ± Me apressei.Fernando. deparei-me com Ricardo. O loiro voltou a olhar pelo olho mágico. vai sobrar pra mim. Marina me abraçou. acabei de sair lá do consultório. embora sua única reação fora sair de perto assim que ouviu que Marina havia falado. mas eu mesmo estava surpreso com os acontecimentos. essa fui eu quem não esperava. Percebi uma ponta de impaciência no gringo. ± Declarou. Quando abriu a porta. e você sabe o que aconteceria se« Oh.

Sei que é seu aniversário.Detetive Brenno Abikair.Esse eu não conheço. . Quando eu abri a porta. ± Falou. os olhos em fúria dardejavamme. Voltou o rosto para mim.Ah. em seu tom tipicamente formal ± Desculpe vir sem avisar. Lá estava o exótico detetive. ± Estendeu a mão de cobre para cumprimentar Fernando ± Sou responsável pela investigação do caso cujo criminoso feriu Guilherme.Detetive? ± A voz de Fernando era áspera. Fechei o olho direito e. sempre muito sério. . O gringo deixou Ricardo e seus papéis para verificar quem era. . agarrei a maçaneta para abrir logo a porta. ± Disse. Vê se você sabe quem é. mas não consegui ser mais rápido que as palavras daquele homem. pelo olho mágico.não queria acreditar no que estava acontecendo. Batidas na porta. . já era tarde demais.Boa noite. Guilherme. . . mas imprevistos me forçaram a pedir que me acompanhe agora à delegacia para um segundo depoimento. . e tremi levemente. . franzindo o cenho. e não parecendo se importar muito com o gringo. mas precisamos novamente de sua colaboração. Um calafrio percorreu a minha espinha. é? ± O loiro recusou a mão estendida do detetive. distingui a fisionomia da pessoa que eu menos queria ver naquele momento.Guilherme. detetive Abikair. mirando-me com aqueles olhos profundos que me tragavam para dentro de suas íris arroxeadas. sou eu. e me fez apertar os olho e encolher os ombros.

Arriscaria dizer que. parece que a festa tá boa mesmo! Deu pra ouvir sua voz lá do saguão de entrada! Extravagante como sempre. a campainha tocou. Flora e Marina. Acho que foi muita sorte não ter surtado. ele havia descoberto tudo o que eu estava escondendo. Por que diabos estava ocorrendo tudo aquilo justo naquele momento?! Eu não me importava por ser meu aniversário. olhos azuis que chegavam a doer ao se destacarem em sua pele clara. Larissa. Guilherme?! Apertei os olhos. quase nos chocamos.. representando o perigo que a imprensa era para mim. O gringo estava indo em direção ao corredor. escondendo meu rosto. e eu sabia que ele pensava que fosse quem fosse. eu poderia justificadamente enlouquecer. era mais uma coisa que eu havia escondido dele. a irmã mais velha de Fernando parecia ter descoberto nosso refúgio. porque do jeito que as coisas estavam.E eu achando que não dava para piorar« ± Acabei soltando. e eu já estava para segui-lo quando. Seu semblante era de fúria. E pra completar.³Novamente´?! ± Fernando se alterou. .Larissa?! ± Fernando só conseguiu dizer. E começou meu inferno. .É. na certa querendo se fechar um pouco no quarto ou no banheiro. . Isso só provou que a ironia do destino pode ser muito mais pesada e cruel do que se imagina. Ainda havia o detetive Abikair. porém belo. corpo escultural e feições belas. porém bronzeada. Era alta para uma mulher. só faltava mesmo o senhor Colin aparecer junto com o assassino. fartos e dourados. e foi no silêncio que aquela mulher entrou por minha porta. O sorriso de lado esboçado na boca de lábios rosados e pronunciados era debochado. mais uma vez atrapalhando minha vida ao não desgrudar de meu namorado. Ninguém mais conversava. e olhei pelo olho mágico. a figura que eu menos desejava encontrar naquele momento. do outro. e a maioria dos convidados voltou-se para nos olhar ± ³Novamente´. Era demais para minha cabeça. levando uma de minhas mãos às têmporas. havia Ricardo. desacreditado. membros logos e delgados. né. De um lado. pra completar a catástrofe. Fernando voltou-se rápido para mim. Em menos de meia hora. Fernando?! Não consegue ser discreto! . Afastei-me. Cabelos loiros. e abri a porta. mas minha situação com Fernando não estava das melhores. mais uma vez. Fui mais rápido do que ele.

fleumaticamente.Eu te falei. Estranhamente. Abikair parecia não se importar nem um pouco em estar participando no palco daquela trama dramática que se formava na minha sala de visitas. indignação. quebrando o gelo do silêncio que se formara desde sua chegada ± Que lixo! Eu não acredito que você trocou nossa casa por esse barraco. surpresa e. de tão rígido o punho fechado.De cara é pouco.Larissa era uma figura luminosa. honey*! . Era um misto de extrema irritação. para não dizer descarregados. que associei ao de Larissa. na certa roendo umas das unhas pintadas de rosa-choque. cólera.« ± Larissa avançou para mais perto de todos. mágoa. incredulidade. Túlio estava perdido. Lalá! ± Era a voz de Ricardo. por incrível que pareça. brilhavam como diamante. a mim. Enzo também foi capaz de capturar a densidade do momento. na certa tentando me acalmar. mais cortantes do que nunca. mas eu não ousei olhar na cara daquele japonês dos infernos ± Te falei que você ia ficar de cara! . trêmulo. como também o resto de meu apartamento. Eu mal podia respirar. dardejavam não só as pessoas à sua frente. petrificado demais pela situação. As sobrancelhas estavam tão arqueadas no cenho franzido que mal se distinguia o início de uma e o término de outra. Ricardo apenas esboçava um sorriso triunfante. Marina olhava-a de soslaio. pegando-me de súbito.Então. não parecia que todos aqueles sentimentos pelo gringo sentidos eram direcionados. mas não pude deixar de. . Sentindo-se observado. profundos. Seria muito difícil definir em poucas palavras o que as expressões do loiro esboçavam. Os irmãos estavam tensos. os cabelos longos e loiros. compartilhando de sua preocupação. . girar a cabeça para encontrar os olhos de Fernando. Não pude me mexer ou falar. tão azuis quanto os de meu namorado. panaquinha. é aqui que você tá morando?! ± Exclamou Larissa. Os olhos oceânicos. as esferas azuis voltaram-se para mim. tão dourados como ouro. Os olhos. ódio. As mãos estavam brancas. e o doutor Rafael se esforçava em transmitir normalidade. esvoaçavam a cada movimento seu ± Mas eu não esperava mais do que isso vindo de você. Flora levara uma mão à boca.

± Da bolsa prateada de marca. seus olhos apertavam-se para o detetive.Que diabos você tá fazendo na minha casa?! ± Nunca. não sei se podia ou se queria impedi-lo de fazer alguma loucura. os olhos pequenos se arregalaram. em todo o tempo que estivemos juntos. Meu queixo ainda caído. já que um tá morto e o outro é meia vara. ³panaquinha´ era o apelido carinhoso que a irmã de Fernando dera ao caçula. Notei que o detetive Abikair erguera uma das sobrancelhas. e ele engoliu em seco. Percebi movimentos atrás de mim. Mas nem precisei me virar e encarar meu namorado para entender o que se passava em sua cabeça. Parece que um casal amigo dele vai jantar lá em casa e quer conhecer o filho varão da família. .Pelo visto.Eu tô aqui porque o Paulo quer você em casa agora. e vi Flora segurar Marina perto de si. ele fez questão de se manifestar. e ainda que continuasse mudo. pendurada num dos ombros delineados e escondidos pelas fartas mechas loiras. Larissa puxou um isqueiro e um maço de cigarros ± Meio difícil. senti que ele queria falar alguma coisa. né? . . Estava quase irreconhecível ± E que merda você tinha na cabeça quando inventou de dar o endereço daqui pra ela?! Consegui ver Ricardo desfazer o sorriso. me tirando do transe e acordando-me para a situação-limite em que se encontrava. .Você não vai fumar na minha casa! ± Esbravejou o loiro. ouvira a voz de Fernando carregada com tanta ira. com tanto ódio. tive medo de olhar para o loiro novamente. Mas Larissa não pareceu se abalar.

Não é isso que o Paulo falou. muito pelo contrário. como se fosse difícil para ela que alguém tivesse esquecido quem ela era. . apoiando uma das mãos na esguia cintura ± Não precisa repetir. Era estranho ver alguém que não se intimidava com Fernando. enquanto eu me virava para o loiro com o olhar quase suplicante. . vamo logo que eu já tô cansada de ficar bancando de babá o tempo todo pra um mané feito você. suavizar a situação. Estalando os dedos. o cotovelo do outro apoiado ao primeiro ± Agora.Eu não volto praquele lugar. no mínimo. Levantou as sobrancelhas. Fernando tombou a cabeça para o lado. ± Abraçou a cintura estreita com um dos braços. porque. a irmã do gringo sustentou um olhar impaciente. voltando a guardar seus pertences.. não vou violar a santidade do seu chiqueirinho! . Tive que obrigar-me a sair do torpor que me havia acometido para que conseguisse. muito embora. Larissa parecia fazer pouco de toda e qualquer reação do gringo. que drama! ± Larissa ergueu as mãos enquanto revirava os olhos. não é? Os olhos azuis e cortantes direcionaram-se para mim.Nossa. e foi com esse movimento que eu finalmente comecei a me mover. já deixei isso bem claro da última vez que tive lá! . eu soubesse que esse fosse um feito que já atravessara até as barreiras do impossível.Larissa. abrindo um pouco a boca em anuência.

± Notei que Fernando estava pronto para soltar sua indignação sobre mim com todas as descobertas. para que os demais não vissem que eu o havia agarrado pelo cotovelo. já falo com o senhor.Me dê um minuto. Um problema temporariamente resolvido. Fiquei próximo a ele. depois virei para o indivíduo inconveniente próximo à mesa de jantar.O que acha que está fazendo? ± Desafiou-me. . Larissa seguiu o irmão. Girei em meus calcanhares. Respirei profundamente. mas sustentei o olhar firme para ele ± Por favor. leva sua irmã pro quarto de hóspedes e converse com ela lá.. meus lábios crispados e os olhos duros. ± Disse apenas. . chegando perto o suficiente para que o detetive Abikair ouvisse meus sussurros. Ele assentiu com graça. me desculpando e pedindo para que continuassem a aproveitar a festa. Tentei tranqüilizá-los com um sorriso forçado. e apesar do esforço que expressava. Mas eu não estava no humor. Virei-me para meus convidados.Você vem comigo. como eu esperava que fosse. . . mas ninguém acreditou muito.Fernando. e eu me senti atraído por seu cavalheirismo notável. -« Vem. Avancei em sua direção.

Não. Massageei brevemente as têmporas.Bom. . olhando-me com antipatia. Guiei Ricardo sem jeito nenhum para o corredor.Qual o seu problema? ± Acabei soltando.Lá pra fora. dissoluto. Se posso ser sincero com você em algum ponto. eu tô falando sério.. Felizmente. . ± Desconversou. apoiando-me na porta de minha casa. não eu. seja como for. ± Cruzei os braços. fazer dele o meu saco de pancadas pessoal.Você não sabe do que tá falando. Agora. . Você acha que me afeta com essas coisas.Não sei do que você tá falando. quem vai acabar sozinho no fim das contas é você. minha paciência parecia ter ressurgido das cinzas. fechando a porta atrás de mim. ± Sorriu. cansado demais e pronto para despejar nele toda e qualquer frustração. . Fiquei encarando-o por algum tempo aquela figura deplorável. depois de um suspiro. debochado. . .Qual o meu problema? Qual é o seu?! . mas você acaba é atingindo o Fernando. é dizendo que Fernando não tá te agüentando mais. Ele se desvinculou de mim.

riscando um pepino da lista e partindo para outro. é?! ± Perturbou.Não se preocupe.. Se precisar. . Mas me ligue. . virou conselheiro amoroso.Flora. . desculpe por isso. mas se importa de«? ± Não precisei de mais uma palavra. já partindo para perto de Túlio enquanto Flora se despedia dos demais carregando Marina. ± Ergui meus olhos. Eu apenas ergui uma sobrancelha. Se não quer ficar sozinho. Entrei para casa. Ele ficou quieto. me olhando com fúria. olhando-o de cima ± Só sei que essa sua carência não vai ser suprida do jeito que você tá querendo. quando puder. e aproximei minha boca ao ouvido de Flora. Guilherme. Cruzei a sala de visitas. .Olha. . ± Murmurei em resposta. mas eu tinha problemas maiores para resolver além de trocar desavenças com Ricardo. e tô pouco me fudendo também.Não é preciso ser psicólogo pra reconhecer um doente quando se vê um. não é desse jeito que você vai conseguir alguma coisa.Agora. .Claro. eu não sei o que você e Fernando tiveram no passado.

± Antecipou o irmão mais velho ± Dá pra notar a situação delicada em que você se encontra. . ± Respondi. despreocupado. próximo à porta da sala. ele apenas me observava. Guilherme. . Se não soubesse. Seus olhos pareciam querer me passar forças. segurando-me pelos braços. O doutor Rafael estava entre eles e assim que fiquei próximo o suficiente. um olhar significativo. o detetive ainda estava em sua posição inicial. e achei estranho que Fernando fizesse tão pouco estardalhaço ao discutir com Larissa.Agradeço a compreensão de vocês.Estamos indo para casa. e finalmente me voltei para o detetive Abikair. . até que os irmãos iam saindo para o apartamento ao lado com o doutor Rafael entre eles. Cheguei perto dele.. Thomas deu um passo à frente. mas eu não fui capaz de absorvê-las. Ficamos assim por alguns segundos. Guilherme. com sinceridade. Ergui a cabeça. Puxei profundamente o ar para dentro de meus pulmões. Igor e Thomas esperavam por minhas palavras. mas não era hora de ficar encucado com aquilo. mas não sem esse último lançar para mim. Ele e Enzo partiram.Não precisa nem falar. Só percebi o silêncio pesadamente anormal depois que todos os outros convidados haviam deixado minha casa. à porta. no momento. Igor fez o favor de tomar decisões por mim. Girei o corpo. caminhando para a entrada da varanda. soltando-o vagarosamente. Tombei a cabeça ao ver o médico direcionando-se ao apartamento de meus vizinhos. diria até que nem estavam dentro de casa. ± Comentou meu colega de sala. ansiosos e desconfortáveis com a presença um do outro.

e estávamos sozinhos novamente. ± Deu de ombros. evidenciando ainda mais a pupila negra meio a aquarela arroxeada que era seu olho. com sinceridade. A luz da lua. . o ar estava úmido. Automaticamente. . apoiando os braços no parapeito e ficando de costas para o apartamento como eu fizera. fechando os olhos. ± Voltou os olhos para mim. Cheiro de amêndoas.Infelizmente. ± Só pude dizer. sem querer sentindo a fragrância natural do detetive.Não pude esperar até amanhã.Detetive.. essa noite já estava fadada. .Não esquenta. . ± Concordei. E respirei muito profundamente. as esferas roxas voltando-se para a noite lá fora. . Ele me fitava. Desculpe pelo transtorno. Ouvi que o detetive fechar a porta de correr atrás de si. Ele se aproximou de mim. Apertei os olhos. suas expressões levemente curiosas. A noite estava fresca e. o homem da pele de cobre me seguiu. ainda sentindo seus olhos em mim ± Com ou sem você aqui. abrindo-os novamente e finalmente me virando para o detetive. refratava em sua íris. agora que o céu estava limpo. apesar do vento cortar meu rosto e fazer com que meus cabelos dançassem ao seu bel prazer. silencioso e penetrante.Acho que não cheguei no melhor dos momentos. ± Chamei por sobre o ombro.

o seguia. Fernando atravessava a sala de visitas. suas feições esboçando ira como eu nunca havia visto antes..Se preferir. respondendo tudo o que o detetive me perguntava. virei meu corpo inteiro para o detetive. Podemos conversar aqui. e notei que ele se absteve de puxar de seu bolso interno o pequeno bloquinho e a caneta que eram demarcados em seu peito esquerdo. . parecia reluzir como seda ou cetim. me odiando por conseguir notar tudo aquilo na situação em que estava. o detetive venceu a distância existente entre nós. Os dois saíram de casa. e o silêncio voltou a reinar. cada elemento de suas feições evidenciado pelo conjunto de luzes e sombras proporcionados naquela posição diante de uma noite escura iluminada por uma lua quase cheia. Só então. Abikair me fez uma série de perguntas. apesar de inteligíveis de onde eu estava. Abikair. tinha sua beleza exótica ainda mais evidenciada. A pele. à luz do luar. Larissa. interrompendo-nos apenas com um estrondo vindo de dentro do apartamento. podemos ir à delegacia« . tão furiosa quanto o irmão. colando nossos braços. sua voz grossa e potente era ainda mais sedutora. Com um passo. Escondi meu rosto em minhas mãos. muito morena. Repassamos algumas coisas. esquecendo brevemente que Fernando estava com a irmã no quarto de hóspedes e de como articular palavras.Não tem problema. Fiquei agradecido por isso. que parecia ter perdido toda a compostura.Por favor. Revirei os olhos para mim mesmo. ± Cortei. Gritos furiosos ecoavam pelo ambiente. Fiquei um pouco atordoado com aquela visão. . não. Agora que murmurava. os cotovelos esfriando por se apoiarem no parapeito da varanda. as esferas ainda mais expressivas.

Olhei para ele. . ± Balancei a cabeça. Quem poderia ser? Já estava para atender quando a mão grande e espalmada de Abikair me deteve. ± Declarou o moreno. não consegui nem responder nem me mover. Fechei os olhos. para que tudo mudasse de uma noite presumivelmente agradável e sem muitas surpresas para uma circunstância excessivamente catastrófica? Por alguns segundos ainda fiquei perdido em meus pensamentos. sabia que depois a conversa com ele ia pegar fogo. o detetive me acompanhou e aceitou o copo de água que ofereci. confuso. ³Abikair´. detetive. erguendo levemente as sobrancelhas ± ³Detetive´ dá muita bandeira. e notei sua .Já disse para não se preocupar. até que senti o toque em meu ombro.Definitivamente. . não era uma boa ocasião. em tão pouco tempo. Concordei com leves movimentos.Vamos entrar. Novamente. Eu já estava exausto demais para me desgastar com apreensão por antecedência. . Virei o pescoço. Ouvi batidas na porta. cansado. Consegui deixar Fernando de lado. mas não consegui dizer nada e me limitei a suspirar. apesar de ter a impressão de que o detetive Abikair chamava por meu nome. O que havia acontecido? O que eu fizera. olhando-me fulminantemente. me alertando.Me chame de ³Brenno´. encontrando os olhos preocupados do detetive. jogando a cabeça para trás. . Se preferir.Fiquei sem palavras e. Abri a boca. ± Pediu.

Não está interrompendo nada. Desencostando-se de mim. . mais precisamente sobre um de meus mamilos. em tom de desculpa. ± Disse.Eu agradeço. Com uma rápida olhada.Desculpe interromper. apoiando-me ao batente da porta da cozinha ± Esse é um de meus vizinhos. ± Assimilou. um pouco sem jeito ± Acho que me preocupei à toa. Implorei para que ele não tivesse percebido como ele havia acordado e enrijecido subitamente. Igor só pôde sorrir. agora. Os morenos trocaram um olhar que me pareceu ligeiramente cúmplice. ± Declarei. Abikair. apenas com aquele toque.Certo. o nome e os dados de Igor. Parecia temeroso de ter sido seguido.Precisa de alguma coisa? Ouvimos Fernando sair. Abikair afastou-se o suficiente para abrir a porta e Igor entrar. ele não percebera. uma mão próxima ao flanco onde eu julgava estar uma arma. . era ele quem iria checar. Mas o pior era que sua mão estava exatamente sobre meu peito. além da fisionomia.preocupação. e meu vizinho aproximou-se vagarosamente de mim. parecendo memorizar. . pensamos que« ± Deu de ombros. Por sorte. o detetive aproximou-se do olho mágico. Mas não tem muito que vocês possam fazer por mim. Igor. Fosse que fosse. . . .

Principalmente de Igor. Aproveitei a oportunidade e perguntei o porquê de o doutor Rafael ter acompanhado-os ao apartamento. levemente dando de ombros ± Mas não sei o que fazer. Passei os dedos nos cabelos. na mesma hora. segurando-me por alguns instantes. a situação não me permitia muita liberdade para tentar ajudar outros com seus problemas. O moreno me encarava com as esmeraldas enigmáticas. já seria intromissão ao extremo. ± Igor ergueu as sobrancelhas. Esperei que ele falasse alguma coisa. . meu vizinho voltando a erguer o tronco.Acho que complexado atrai complexado. Entretanto.Receio que tirei proveito de toda a situação. um pouco incomodado.. um sorriso discreto nos lábios bem definidos. Meu meio sorriso fez com que os olhos de Igor baixassem. não podia fazer muito por eles. Além disso.Acabou que estamos obrigatoriamente juntos no mesmo lugar. Franzi o cenho. nem desculpas. O moreno sorriu. um tanto humorados. aproximando-me da porta de meu apartamento enquanto automaticamente o detetive Abikair se afastava para o centro da sala. O rosto de Igor estava a centímetros do meu. . e Igor pareceu entender meus receios. depois me beijou a testa. podia sentir facilmente sua respiração quente e compassada e ver cada nuance da cor de seus olhos verdes e vivos. Sem subterfúgios. não pude deixar de sentir minhas bochechas esquentando. coçando a nuca. mas suspirou e olhou para além do corredor. Bufou. . tirando-os de minha fronte. Ainda que acostumado com sua proximidade. Não gostei de ouvir aquilo de Igor. Ele depositou cada mão em um ombro meu. Lancei um olhar rápido para o detetive recostado a uma das paredes da sala.

e apesar da falsa aparência letárgica. o moreno deu as costas pra mim e entrou em seu próprio apartamento antes que a porta de minha casa escondesse o corredor. Acho que é assim que se sente quando se fala em ³banho de água fria´. Minha mente estava levemente estuporada. mantendo a outra dobrada para apoiar um dos cotovelos.« Estamos aqui ao lado. Fiquei um pouco perdido em mim mesmo. Fiquei surpreso quando notei o detetive repetindo minhas ações. Continuei com uma mão à maçaneta e a outra espalmada na folha de madeira por algum tempo. Com um último sorriso. uma hora ou outra.Eu sei. Estiquei uma das pernas. ao mesmo tempo contido por a etiqueta condenar os curiosos aos assuntos alheios. mas em vez de sentar. Caminhei até o detetive. . Oportunidade de ouro. A calça social marcava bem os músculos largos e destacados de suas coxas grossas. finalmente saindo de minha posição anormal e voltando ao mundo real. . o que não era nada usual de Igor. Eu sempre corro pra lá. Igor. e embora uma vontade louca de recostar-me àquela pele brilhante e aparentemente quente começasse a me tomar. ele permaneceu agachado sobre as pernas dobradas. ± Estancou por alguns segundos ± O que você precisar. você sabe.Eu vou indo. O espaço entre meu peito e o braço dele era ínfimo. aproximando-me dele mais do que normalmente faria. Abikair me olhava curioso.. minhas sinapses se faziam com mais rapidez do que eu podia esperar. e fui prudente em desviar os olhos do corpo do detetive para a luminária da cozinha. optei por escorar as costas na parede e escorregar até o chão. -« Que bom.

Agora que me demorava mais no rosto do detetive. Voltei meus olhos para os de Abikair. detetive. ± Sorri com o comentário de Abikair.Desculpe. depois de longos minutos de silêncio. .Sinto muito por estragar seu dia. descobrindo que ele também me encarava.Não me chame de ³senhor´.Como eu disse antes. ± Novamente deixei que meus lábios se alargassem. a presença do senhor aqui é o menor. Fiquei preso pelo magnetismo de suas íris arroxeadas de tão azuis.. percebia que ele estava com expressões diferentes das outras que eu já havia visto. . Sua voz saíra mais delicada que o usual. . -« Acho que já tenho o suficiente por hoje. . .Acredite. Não quero ser um estorvo. . Um misto de compaixão. de todos os problemas que eu já tenho. também. senhor Abikair. sem nem conseguir piscar.Não me chame de detetive. ± Manifestou-se o detetive. essa noite já estava fadada.

Concordo com a estratégia. como alguém que fecha os olhos e . A sensação que eu tinha era a de relaxar facilmente. E era incomum. ± Foi a vez dele de sorrir fracamente com o comentário.compreensão e pesar transbordava facilmente de seu semblante bronzeado. é o mais certo a se fazer. apoiando-se mais à parede.« Malditas« . . . a inusitada proximidade que mantínhamos um do outro. Peguei-me imaginando o que Abikair queria precisamente me dizer com suas expressões.Malditas bolas de neve. que essas exatas emoções fossem a mim direcionadas pelo detetive.Eu não percebi se o senhor« ± Notei seu olhar e corrigi rapidamente minha falha ± Se você ligou pra cá ou pro meu celular. . . Mas ele desviou os olhos dos meus. Era estranho.Acha que amanhã poderá comparecer à delegacia? . refletindo suas reais emoções. para não dizer estranho.Pode não parecer. e ao mesmo tempo agradável.Certo. mas eu não gosto de misturar meus pepinos. Abikair deixou que a coluna se desenrolasse. e eu tive que acompanhar seu gesto.É.

Olhou profundamente em meus olhos. Devagar. prevendo que eu estava prestes a levantar. tranqüilidade ou hormônios sexuais. engolir me parecia ser um tremendo esforço. A mão foi ao flanco novamente. ele me ensinara a manejar o 38. não cheguei a ligar. Pensei que seria melhor termos continuado a conversar. Novamente um barulho. Minha garganta ficou seca. uma pistola grafite com o punho negro e. e andando devagar para não provocar suspeitas. nem a primeira que eu havia visto em ação. mas eu só conseguia pensar em como os nós dos meus dedos estavam brancos de tanta força com que fechava meus punhos. dardejou toda e qualquer entrada de ventilação que meu apartamento possuía nos cômodos que seu raio de visão lhe permitia verificar. fitando os próprios pés ± Acabei me deixando levar num rompante. O silêncio reinou novamente. porém. Não sei ao certo se o que o detetive exalava era segurança. o suor frio parecia se formar promiscuamente em minhas têmporas. em minhas mãos. Comecei a sentir o pulsar incômodo em meu pescoço. ao que me pareceu. e no cativeiro de Henrique Sardenberg. Se não estivéssemos em silêncio. Voltando as aquarelas para mim. Abikair foi se aproximando da porta de entrada. bem« Abikair aparentava em suas feições exóticas extrema frieza. dessa vez mais baixo. Abikair apontou a cozinha. Mas devia ter feito isso. e flanqueando a sala de visitas. Como um felino. Alerta. para que sua sombra sob a luz da sala não o denunciasse. e com ela veio uma Desert Eagle . . ainda conseguia ver o . certamente. Não era a primeira arma que eu havia visto na vida. ± Baixou a cabeça. mas acredito que tal idéia já teria passado pela mente do detetive. Como a abertura na parede era larga.deixa-se guiar cegamente por outrem para atravessar uma rodovia movimentada. Com os olhos ainda voltados para cima. quando ainda morava com meu pai. ainda que você não atendesse.Não. Abikair postou uma mão em meu ombro. tomando cuidado. O detetive havia tomado mais fôlego para continuar sua fala. uma quietude mórbida que me agonizaria muito menos se não tomasse a tensão que o homem ao meu lado exalava pelo ambiente. Não foi difícil identificar a origem dos estranhos sons como vindas do corredor além da folha de madeira escura. talvez não o tivéssemos percebido. Em seu caminho. mas um barulho chamou nossa atenção. escorei-me à parede. com o pente completo com suas 8 balas. e sido desconsiderada por um conjunto de fatores que eu particularmente não conseguia enxergar. puxou ar para responder. o detetive esgueirou-se até ficar ao lado da porta. e eu entendi que deveria ficar onde estava.44 Magnum.

Abikair respirava mais rapidamente do que jamais havia notado. na tentativa tola e frustrada de me proteger da eminente explosão. compreendendo todo o significado que aqueles ruídos poderiam representar para mim: ³Acho que ele me seguiu´. O som de passos começou a ecoar pelo corredor. pensei. Tocou as costas na aresta atrás de si. na qual eu me sentia estranhamente o local da briga. o corpo grande e pertubadoramente quente de Abikair deitava-se sobre o meu. e rezava pela segunda opção. Passos. . como quem quer que estivesse lá fora pretendesse denunciar sua presença. e eu sabia que meu peito não estava muito diferente. Fiquei esperando. ao abrir os olhos. Todo o sangue de meu corpo pareceu se concentra em minhas víceras. Seu cenho franzido e os olhos inquietos denunciavam a vontade de pensar rápido. Arregalei os olhos quando notei o rosto de Abikair voltado para mim. só consegui pensar em como era tentador beijar a pele bronzeada de seu pescoço parcialmente desprotegido. o corpo de bronze foi se descolando do meu. que me despia e bambeava os joelhos. Ele me lançava um olhar penetrante e urgente. levando uma mão à boca para contar qualquer reação de surpresa antes que ela realmente se manifestasse. Sentia o cheiro da pele do moreno sobre mim adentrar minhas narinas sem dó. Nada mais. muito embora ser fácil de notar que sua atenção estava em algo mais. Enquanto batia a cabeça no chão frio da cozinha. encontrei o detetive ao meu lado. pensando em como os segundos se arrastavam nas horas mais críticas e se era só eu quem. Os glóbulos azulões do detetive dardejavam para todos os cantos nos raros intervalos que me arriscava a abrir os meus. como que processando alguma coisa. e uma sensação de torpor enjoativo me tomou. ao passo que eu pulei no lugar. Entretanto. Aos poucos. ³Uma bomba´. Gelei ao ler seus lábios. A pistola ainda em sua mão esquerda. Soltei a cabeça. e mesmo naquela situação. o rosto tão próximo de mim que podia sentir seu cheiro de amêndoas. pronto para ter sua integridade física maculada. e então a colisão de corpos. Habituado ao trabalho. Mas só o que ouvíamos era o som entrecortado de nossas próprias respirações. ou se fora apenas força do hábito do detetive. Fechei os olhos. ao morrer. não via a vida inteira passar pelos olhos. e sibilou algumas palavras. envolvendo-me com seus braços e escondendo-me sob si. e antes que pudesse me refrear. Qual foi minha surpresa quando. me perguntando se minhas suspeitas estavam certas. ainda mantendo-me deitado ao chão com uma das mãos morenas espalmada em meu abdômen. já levara as mãos à cabeça. E então.detetive agir. o detetive não se moveu um milímetro sequer. ansioso e temeroso por ele. era só isso que acontecia. Uma brincadeira de gato e rato. Abikair continuou com os olhos em mim. Piscou de leve. algo se chocou contra minha porta. Explosão essa que não chegou.

Fernando ainda não possuía celular. assustado. Senti sua respiração quente e acelerada tocar minha bochecha. sussurrou ao pé de meu ouvido. O detetive baixou a cabeça. de qualquer maneira. Onde Fernando estava?! O loiro havia saído com a irmã. e deitado. E. deitado. à procura de meu celular. cada vez mais nervoso. sumindo do meu campo de visão. frenético. piscando muito e sentindo a garganta arranhar cada vez mais doloridamente. me deixando ainda mais sensível ao seu cheiro ± Não saia daqui até eu vir te buscar. . Tentei me distrair com alguma coisa da cozinha. ou sendo ameaçado?! Poderia ter sido seqüestrado?! E se tivesse sido pego como refém?! Não havia preço no mundo que eu pudesse trocar pela vida de meu namorado! Apalpei os bolsos. ± Ele suspirou. Comecei a hiperventilar.Fernando«! ± Murmurei. as mãos agora se assentando sobre meu peito. Engolia em seco. Fitava Abikair com gravidade. pois nem os movimentos de Abikair eu conseguia ouvir. arregalando os olhos. esperando alguma informação dele que pudesse me apaziguar e me tirar daquela tensão que não me abandonava com o pesado silêncio que reinava em meu apartamento. Fernando! . Permaneci como estava. o detetive Abikair ficou agachado e foi para a sala de visitas. aproximando seu rosto do meu muito rapidamente. mas eu provavelmente o havia deixado em meu quarto. Sem promessas ou garantias. Eu já volto. o sangue ainda concentrado no centro de meu corpo. Fernando.minhas mãos parcialmente suspensas por não saber onde colocá-las. nem preciso falar que eu não tinha. Não conseguia piscar. e meus olhos não paravam em nenhum ponto fixo. com a voz mais rouca e grave que o normal. mas nada havia garantido que estava fora do prédio! Ele poderia muito bem tê-la apenas acompanhado até o carro e já estava no caminho de volta! E se houvesse acontecido alguma coisa com ele?! E se ele estava ferido. . o que me fez fechar os olhos e entreabrir meus lábios. E. de barriga para cima. embora eu fizesse força para respirar. um leve tremor atravessando a espinha. O silêncio me assustava. eriçando meus pêlos da nuca aos pés e. Sentia que suava frio.Fique aqui. não consegui puxar ar algum quando foquei o pequeno Gato Félix e sua maleta amarela feitos de massa de modelar. O número de Larissa. e meus olhos pousaram nos imãs da geladeira.

O detetive levara o telefone ao ouvido quando me aproximei dele. não«! Meus vizinhos! Como estariam Igor e Thomas?! Teriam sido eles afetados?! E se a bomba não pareceu surtir efeito porque. Mordi os lábios. um tom levemente impaciente em sua voz grave. primeiro sobressaltados.Eu preciso encontrar o Fernando. nervoso. decidido a me levantar. Fechando o flip do celular com um dedo. e com movimentos pouco lentos fiquei de pé. Apoiei-me nos antebraços. me encararam com censura. Guilherme. sentido algo que denunciasse algum efeito. um dedo apontando para a cozinha. explodira em outro apartamento?! Seria possível?! Não. eu sentia a extrema necessidade de saber como e onde meu namorado estava. Já estava para abrir a porta quando sua mão livre agarrou com força meu punho. . não! Não. as palavras de Abikair fluíam com certa irritação de seus lábios tentadores. na verdade. o moreno exótico permitiu-se direcionar toda a sua atenção para mim. Tentei me mover novamente. que morava na Austrália?! Isso não podia estar acontecendo! Isso não podia acontecer! Não por minha causa! Eu não queria nem pensar que alguém havia se machucado por minha única e exclusiva responsabilidade. Meneei negativamente a cabeça enquanto ele ditava alguns comandos à pessoa do outro lado da linha.Ah. ± Já o meu tom era urgente. sua testa se vincando com minha desobediência. E eu me sentia cada vez mais agoniado com os segundos preciosos que se passavam diante de minha imobilidade. ± Declarou. trazendo-me de volta para o centro da sala.Você está dificultando o meu trabalho aqui. nós teríamos que ter ouvido alguma coisa. E o doutor Rafael também estava lá! O que seria da pequena e meiga garotinha ruiva e mirrada com os olhos da mãe. e seus olhos. . mas sua mão havia se fechado de tal maneira em meu pulso que eu não conseguia me desfazer de seu agarrão.. .

Levei uma mão à testa. ainda que um pouco inquieto pela prévia situação. por um momento. Ainda está discutindo com a irmã frente ao prédio. Analisando-me com olhos críticos.Não. Era engraçado pensar que o detetive estaria mandando algum torpedo para um de seus colegas. . tomaram parte de minha atenção. Ainda estava colocando o copo na pia da cozinha quando mais uma vez senti meu corpo ser lançado .Seus vizinhos também estão bem. me sentindo mais tranqüilo.Tenho certeza de que ele está bem. ao ponto de bambear minhas pernas e me fazer suspirar.Tem alguém no corredor? ± Lancei a pergunta. me questionando se fora algum dos homens de Abikair quem fizera aqueles barulhos. Como ele poderia ter tanta certeza de que estava tudo bem com Igor. minha garganta doía com os arranhões de tão seca. . Não posso mentir que o alívio que senti me renovou. O apertão em meu pulso afrouxou. Franzi o cenho. ± Balançou o celular algumas vezes ± Não estamos sozinhos. um pouco confuso. Ouvi-o tomar ar. talvez por notar que minha preocupação iminente havia acabado de desaparecer. juntando minhas sobrancelhas. não me pareceu absurdo confiar nas palavras dele. . Sons eletrônicos. e pude me mover até a cozinha e pegar um copo de água para mim. o detetive pareceu menos tenso. um tanto baixos. Thomas e o doutor Rafael? Alguma coisa no modo como ele sustentava o olhar me fez dar de ombros e jogar a cabeça para trás.. Depois de tudo aquilo.

havia sido seguido. madeira e gesso na boca. No fundo de minha consciência. Tive receios de abrir os olhos ou de parar de agarrar-me a Abikair. Minúsculas partículas de pó dançavam lentamente sobre meus olhos. tudo ficou silencioso. tentando pegar o detetive com a guarda baixa. agora a falta de olfato. o cheiro de demolição. Mas dessa vez não consegui sentir o doce cheiro de amêndoas que despregava dele. Por alguma razão. os olhos espremidos de tão fechados. minha visão ainda funcionava. da cozinha e da varanda não mais iluminavam os respectivos cômodos. todos os meus sentidos voltaram. . latejando pela pancada. voltei minha atenção para o cenário que se formava para além do detetive. fazendo com que o ar ficasse turvo e visível à luz da noite. A consciência de mim mesmo e da mudança no ambiente se arrastava por mim. os sons de estilhaços ainda em queda e minhas mãos fincando-se nas costas do corpo que me protegia. pois eu tinha certeza que não conseguiria suportar que outros passassem pelo que acontecera. supersensíveis. apenas um pensamento de alívio: ainda bem que não havia mais pessoas em minha casa. as lâmpadas da sala. enquanto eu preservava-me petrificado. Um tremor tomou conta de minhas mãos. Abikair não fizera mau julgamento. Meu ombro bateu doidamente. e minha atenção voltar-se-ia para os danos produzidos.Guilherme. Depois. Primeiro aquela surdez incômoda. Felizmente. Sabia que o torpor que estava sentindo logo passaria. De súbito. Estranho. Pereceu-me uma eternidade até que minhas sinapses nervosas fossem concluídas e eu pude entender o que ocorrera em meu apartamento. de fato. E só depois de perceber isso. Senti o gosto de poeira. ao que tudo indicava ele. embora eu conseguisse ver Abikair mover seus lábios. e a reação automática foi abraçar o corpo sobre mim. E quem quer que estivesse espreitando havia esperado pela melhor hora para fazer seu movimento. seus olhos estavam desesperados como eu nunca havia visto. e minha reação automática foi praguejar enquanto levava uma mão ao local dolorido. Escondi minha cabeça naquele peito largo e quente.ao chão sem meu consentimento.«! Foi a última coisa que eu consegui escutar. . Vi-o passar os braços em volta de mim e trazer-me para perto de seu próprio corpo. avassaladoramente. um zumbido estranho e contínuo tomou meus sentidos e.

e me parecia que a qualquer momento alguém me surpreenderia com algum impacto. E eu morreria do mesmo jeito: com um buraco de grosso calibre bem aberto em minha nuca.não conseguiria me perdoar se algo acontecesse aos meus amigos e colegas. puxei a nós dois para a pequena área além da cozinha. Uma emboscada. passando os braços por baixo dos seus. Minhas pernas estavam ainda no ritmo do torpor anterior e não queriam se mover. Levei um choque. e meus olhos continuavam cerrados como se minha vida dependesse da privação de constatação do dano em minha casa feito. e um chiado acompanhava cada invasão de ar nos pulmões colados em meu corpo. Agarrei Abikair pela cintura. Meneei a cabeça negativamente. exatamente como devia ter acontecido a Henrique Sardenberg. mas não me preocupei com isso na hora. e a atmosfera de estrago pareceu tranqüilizar-se numa mórbida serenidade. O choque do detetive com o chão da cozinha produziu um baque maciço. o que fazer?! Não havia armas em casa. Um estalo me fez abrir os olhos. o desespero a poucos segundos de me tomar por inteiro. O nervoso me fazia tremer. Senti o ombro alvejado latejar doloridamente. fechando novamente os olhos. espremendo os olhos com a força e a dor por mim desprendidas para arrastar o corpo inerte do detetive. e não conseguiria pegar qualquer faca ou cutelo sem despertar um quarteirão inteiro. O que fazer. Com o braço bom. e levantei a cabeça para mirar Abikair. Apoiei meu tronco na baixa divisão entre a área e a cozinha. seu corpo tombou ao meu lado. mas nem isso impediu de se notar perceptivelmente a trilha que deixamos. levantando levemente as partículas de demolição assentadas no piso do cômodo. e olhei para o caminho por mim feito. e meu corpo resolveu voltar a se mexer. O pavimento da cozinha era do tipo perfeito para enganar a sujeira. e o puxei para cima de meu próprio corpo. mesmo assim« Eu me sentiria culpado. quando menos pude esperar. Os sons foram se apassivando. Vi-o balançar a cabeça e. precisava chegar até o pequeno banheiro ao lado do tanque e nos esconder. acabamos por limpar o pó que havia se assentado por todo o lugar. Um filete rubro e rutilante riscara o rosto de bronze polido. Mesmo se Ricardo e Larissa estivessem em meu apartamento. Um suspiro chamou minha atenção. Suspirei ruidosamente ao acabar de puxar suas pernas. Minhas mãos ainda se vincavam as costas do detetive. . mas mordi os lábios para conter o urro de dor que por pouco não escapou. os cabelos escuros esbranquiçados por uma fina camada de poeira. O resfolego intensificava-se a cada momento.

seu nome não fora divulgado em nenhum lugar! Os passos cessaram. só quem tem sangue frio para esse tipo de coisa consegue manter a cabeça no lugar. só podia pensar. quase que literalmente. aqui é Delta Bravo. Como ele descobrira?! Não era possível que ele tivesse seguido Abikair com o exato intuito de me encontrar. apenas no desespero pavoroso que me acometia diante da iminência da morte. ele vai me achar!´. ± Respondeu uma voz feminina eletrônica que eu julguei ser de um rádio transmissor. nessas horas. Delta. como que a procura de algo. dessa vez com movimentos mais rápidos. que saiu mais forte do que eu pretendia. Apertei mais os olhos. O coração pulsava louco em minha garganta. e eu levei uma mão à boca. O barulho arrastado tomou conta do silencioso ambiente.Central. Soltei devagar a expiração. A incerteza do destino é algo assombroso. Ele não podia saber quem era Abikair. Parecia remexer minha casa.Explosão de pequeno porte no aparelho 673.Passos. responsável Alfa Bravo. copia? . a ansiedade me desesperava mais do que tudo. . .Pode falar. o detetive ainda desacordado recostado sobre meu ombro. Não conseguia pensar em nada. Tentei engolir a saliva. Não adiantava tentar ficar calmo. mas a garganta pulsante continuava seca e arranhando. . como se abri-los muito pudesse me fazer capaz de escutar melhor. meus móveis. Meu foco ia se perdendo a medida que a quietude novamente reinava. Ergui a cabeça. Eu estava borrando de medo. me obrigando fortemente a respirar sem fazer qualquer ruído. ³Ele vai me achar. ainda incomunicável. e eu temia que até os meus vizinhos pudessem escutá-lo. Peguei-me arregalando os olhos. Quem quer que fosse voltou a se mexer.

O detonador já foi ativado.. estalando a língua ± Delta Bravo. . Delta Bravo. central. líder Alfa Bravo. . central. . Operação ³Israel´. destacamento Alfa. aguardando segundo contato. aparelho 673. .Positivo. . Beta.Confirma. . Delta e Kapa Bravo.Certo. central.Reforço à caminho. ± Pediu com enfado. procure por Alfa Bravo.Suspende o esquadrão.Alguma estimativa do tipo de explosivo? ± Pediu a mulher.Provavelmente caseiro. central. Delta Bravo.Um momento. esquadrão anti-bombas na dianteira. . e eu ouvi o homem bufar. confirma? . ± Pediu a voz eletrônica.

Ele não tinha culpa de eu ter me encontrado com o assassino de Henrique Sardenberg. Delta. mas também pareceu amolecer cada músculo meu. certo? O cara não podia ter todo esse trabalho só para me apanhar. a cabeça tombando levemente: estava salvo. dessa vez mais pausadamente. O alívio era revigorante. Ainda travava uma das minhas mais árduas batalhas internas quando o homem em minha casa voltou a andar. -« Hunf! Os movimentos se interromperam quando eu deixei que um reclame de dor atravessasse minha garganta. Se fosse realmente alguém da equipe do detetive. . assim como meus amigos. bem« Estávamos salvos. E eu não podia deixar que nada lhe acontecesse de ruim. apressou-se em nossa direção. ³E aí. Puxou um pequeno rádio do bolso. curvando o corpo grande e encarou-nos por alguns segundos. Ele. Eu confiava na sorte e denunciava a minha posição. expirando longamente.Central. o sangue vertendo generoso do lanho na lateral de sua cabeça. quem quer que fosse o Delta Bravo. certo? Não.Não podia ser uma emboscada. Mande uma ambulância.Já está a caminho. encontrei Alfa Bravo. perguntei a mim mesmo. . . ainda desacordado. Mas se não fossem« Eu só esperava por uma morte rápida. era muita coisa para pegar um peixe pequeno como eu. ou continuava escondido. acreditando ser aquele homem o fim de minha vida? Meus olhos voltaram-se para Abikair. o que vai ser?!´. Deixei que meu corpo relaxasse.

Ele. ± Pediu.. Acho que não« ± Concertei a resposta. Os olhos castanhos e opacos voltaram-se para mim. virando-o apenas o suficiente para examinar mais atentamente o talho muito próximo ao supercílio do detetive. Fiz como o homem mandou. Com o braço bom. tentando limpar um pouco do líquido rubro da testa de Abikair. . . colocando-a sobre o rasgo na pele bronzeada. Virei levemente o corpo. em dúvida ± Mas ele tá com um machucado sério na cabeça. que ainda não havia me movido um único centímetro de minha posição inicial. Um pensamento me passou pela cabeça.« Ele não« . Puxou um lenço do bolso. um tom de preocupação e urgência tomando sua voz. o cenho franzindo-se cada vez mais. . sentindo o braço que me fora alvejado doer de súbito. que me angustiava a cada segundo com seus olhos permanentemente fechados. Levantou-se rapidamente. puxando uma das toalhas de rosto que estavam penduradas no secador da área de serviço. . Sua expressão não foi das melhores.Não. apertei a toalha contra a cabeça do detetive.Pressione aqui.Deixe-me ver« O homem certificou-se de não mexer muito no detetive Abikair.Você está ferido? ± Veio a pergunta.

Eu nem sequer pensara nas conseqüências que aquela ação poderia causar. por atos impensados e já cometidos. Não era hora de se remoer. se a ambulância não chegar aqui logo. e pela película branca e pegajosa sobre o estofado. seus restos ainda permaneciam escorados na parede próxima ao acesso ao corredor. Ainda batia minhas roupas. Era óbvio que alguma coisa errada iria acontecer. ± O homem captou minha intenção ± Mas vai. . não consegui parar de pensar no quão idiota eu fora. A porta havia sido destruída. embora as pernas das cadeiras se sobressaíssem nos escombros. impressionado com a eficiência com a qual o sangue de Abikair havia manchado minha blusa. e minha mente começou a viajar para longe. Mais precisamente para quando o senhor Colin me mandou entrar naquele apartamento. o resto era desconforto muscular pelo choque inesperado contra o chão. O sofá estava chamuscado. concluí que o homem havia apagado algum fogo com o extintor. eu não via nem esboço. a ³neblina´ das partículas de poeira ainda dificultavam a exata percepção do que havia na sala. mas naquele momento de ³liberdade mental´. e eu não pude recusar sua oferta. e o homem se afastou para continuar a se comunicar pelo rádio. estava feito. Meneei positivamente a cabeça e.-« Não. quando me dei conta do que acontecera com meu apartamento. A tela da televisão estava trincada. assumindo meu lugar. Eu fora covarde demais para admitir isso para mim mesmo. Eu não consegui me prender às suas palavras. o que estava feito. Da mesa. mas nada que umas batidas no chão não resolvessem. Meu braço estava realmente doendo. nem a mim nem àqueles próximos a mim.Acha que pode se levantar? A voz do homem me trouxe de volta à realidade. Além da cozinha. mas tirando isso. o homem pressionava o machucado de Abikair enquanto eu levantava. não. para o passado. e me peguei na dúvida. Entretanto. Assenti com a cabeça. novamente. pouco se via. bem como o pequeno aparelho de som . A perna estava dormente.

felizmente. voltando-me para olhar o apartamento de meus vizinhos. .que costumei a deixar na sala. . ao voltar para a cozinha e encarar o homem que trabalhava com o detetive. Dois quadros estavam tortos. Estalei a língua. e alguns dos artigos de decoração haviam-se quebrado. Apesar da pequena sujeira que os destroços de minha casa causaram ao corredor do quarto andar. Não é nada que você não possa me falar.Desculpe. posso perguntar algumas coisas? ± Disse. ao notar sua relutância em ceder. aquela parte não parecia ter sido atingida. Baixei a cabeça. . eu preciso saber alguma coisa do que acabou de acontecer.Meus vizinhos« . . caminhei até a porta de meu apartamento. demorando-me brevemente no trincado na porta de vidro da varanda.Por favor. Num estalo. -« O que você quer saber? Continuei sustentando o olhar opaco daquele homem de feições duras. segurando o braço que ainda latejava. o apartamento ao lado estava intacto. Deixei que meus olhos vagassem pelos destroços que há pouco tempo formavam minha sala. ± Adicionei. Suspirei. cansado demais para lamentar pelos estragos e aliviado o suficiente para agradecer por estar vivo.Tudo ao seu tempo. ± Respondeu pacientemente. direcionando meus olhos para o corredor que dava acesso aos quartos.

Puxei os lábios para dentro. e estão junto ao nosso pessoal lá fora. fiz a pergunta que mais me incomodava ± Meu namorado«? . Isso já era muito bom. -« ± Por um momento hesitei em pronunciar aquelas palavras.Já foram removidos.Não. que até poderia estar com eles.Já havia saído com a irmã antes da explosão. e sentindo que a preocupação ia diminuindo. O jeito era esperar até que ele desse notícias. e Fernando ainda não comprara um celular novo. Nem ninguém do seu andar. Pensando nisso. nunca quis guardar o de Ricardo. a certeza era a de que ele não havia sofrido nada. Pelo menos. como se não quisesse admitir o crédito da pessoa que armara a explosão tão bem. Ao remover a toalha do corte. onde consegui gazes. mordendo-os por dentro e me segurando para manter a respiração calma.Alguém do prédio«? . O corte era tão profundo que em nada pude ajudar com as provisões que havia trazido do banheiro. -« Obrigado. . Foi só aqui. faixas e remédio para tentar ajudar Abikair.. o homem rapidamente voltou a pressionar o talho na cabeça do detetive. mas presumindo que tudo o que o detetive sabia era compartilhado com seus homens. O tecido . consegui me locomover até o banheiro. ± Falou com certa amargura. Eu não tinha o número de Larissa.

copia? .Sobe aqui que não sei quanto tempo ele vai agüentar. a cabeça raspada denunciava que fazia menos de dois dias que ele havia cortado o cabelo. . outro homem. . surgiu à porta de meu apartamento. Delta. ± Respondeu o rádio. Delta.Copia.Acha que vai demorar muito pra ambulância chegar? . mas seus traços de pessoa normal marcaram minha memória. . Kapa falando. A blusa preta acompanhava a calça jeans de um azul muito escuro. tão destacados que quem não prestasse atenção falaria que ele estava usando lápis de olho e lentes de contato. ± Veio a resposta rápida.Espero que não. . Em menos de um minuto.Afirmativo. ± O homem voltou a puxar o rádio ± Delta Bravo para Kapa Bravo.antes tão alvo agora se tingia de um vermelho rutilante. Sua figura era um tanto ordinária. após alguns segundos de chiado. os olhos de um castanho incomum. mais baixo do que eu. Sua pele era marfim. que saltava a vista e despertava enorme desconforto.

a testa de marfim se vincando ± Espera um momentinho. fique junto de nós. O homem baixou. e só agora eu reparara que havia uma mochila em suas costas. Souza.. ± Comentou Souza. e ele se aproximou devagar.Se eu tirar a mão daqui. seus olhos opacos ainda na toalha ensangüentada. . ficando entre Souza e o detetive. poderia ser tão marcante. Deixa eu ver como tá. com características tão comuns. . um pouco aflito com a situação em que Abikair se encontrava. . mais grave do que eu previa ± Você está bem? Só consegui menear positivamente a cabeça. Venha comigo.O moleque não brinca em serviço. . . Segui os passos do integrante Kapa da equipe do detetive.Astuto da parte dele ter um ex-paramédico na equipe. ± Veio a voz. Os lábios abriram um sorriso no rosto ameno.Sabe onde está Souza e Abikair? ± Limitei-me a apontar com o dedo ± Certo.Guilherme. um pouco surpreso de ver o quanto uma pessoa normal. vai esguichar. -« ± Pareceu refletir um pouco.

o homem habilmente enfaixou a cabeça de Abikair. Ao enxergar as gazes e as faixas que eu havia trazido. você aperta bem forte e tira a toalha. o tal artefato era um tipo de grampeador. fechou os olhos por alguns instantes e voltou a abri-los. pegou-as e as deixou na barriga de Abikair. puxando um pequeno aparelho metálico de dentro. Enquanto suas mãos continuavam em ação. alongando rapidamente o pescoço. ± Levantei as sobrancelhas para indicar que estava ouvindo ± Pode me arranjar uma toalha maior do que essa? . e ouvi alguns estalos vindos do apertar de seus dedos. os olhos castanhos se voltaram para mim. Pressionou a toalha contra o ferimento de Abikair. Rapidamente. puxando forte para que a gaze pressionasse tanto quanto a mão de Souza o fazia.Huff« ± Suspirou mais uma vez ± Vai. .Quando eu disser ³vai´. . Pressionando as gazes sobre o talho.Guilherme. Suspirou. Olhou para Souza.Tirou a mochila das costas. o homem levou o objeto metálico à fronte do detetive. . Ao que me parecia. Souza fez como o homem havia instruído. a outra mão amparando a cabeça. . depois a tirou.Certo.

Virei as costas, correndo para o armário do quarto de hóspedes e peguei umas das toalhas na prateleira de cima. Voltei correndo, entregando-a para o homem, que agradeceu com um meneio de cabeça e um sorriso brando rápido. Dobrando uma parta da toalha, o homem colocou-a sobre a cabeça do detetive, segurando suas laterais para que a pressão sobre o machucado fosse maior.

Ouvi o som da sirene da ambulância, constatando que o carro branco iluminado chegara ao espiar pela janela. Vi o alívio pairar nas expressões dos dois homens; realmente, Abikair era muito querido entre os membros de sua equipe.

- Central para Delta Bravo, copia? ± Voltou a chamar o rádio.

- Copia, central.

- Qual a situação de Alfa Bravo?

- Estável. ± Repetiu Souza, ao ler os lábios do homem ao seu lado ± A ambulância já chegou.

- Certo, Delta Bravo. Operação ³Israel´ no aparelho 673, encerrada. Câmbio final.

Souza guardou o rádio, o outro homem ainda o encarava com certa expectativa. Ao notar meu olhar sobre si, tentou esboçar alguma despreocupação.

- Agora está tudo bem. ± Tentava me tranqüilizar ± Você vai precisar nos acompanhar por essa noite. Separe umas mudas de roupa, assim vai ser melhor.

Um pouco confuso, assenti, e me direcionei para meu quarto. Peguei minha mochila, coloquei algumas camisas, calças e cuecas. Joguei a escova de dente e o shampoo junto, bem como uma toalha e meu carregador de celular. No caminho, carreguei minha carteira e as chaves de casa. Ao voltar para a sala, para-médicos vestidos em branco já haviam colocado o detetive Abikair numa maca móvel e saíam de meu apartamento, um deles segurando uma bolsa de soro ao alto. Fiquei observando aquela cena, um pouco desnorteado. Foi o toque de uma mão em meu ombro que me tirou da inércia.

- Precisa pegar mais alguma coisa? ± Perguntou, seus olhos destacados me encarando com certa preocupação.

- Acho que não.

- Certo. Vamos indo?

Pensei em deixar algum recado para Fernando; acho que ele se assustaria se encontrasse a casa destruída. Mas assim que passamos pelo local onde a porta deveria estar, o policial selou a entrada com algumas daquelas fitas amarelas que a polícia utiliza para isolamento da cena do crime. Definitivamente, a equipe de Abikair devia ter vindo com

ele de outro estado; ações assim não costumavam ser vistas. O homem voltou a colocar a própria mochila nas costas, ergueu-se e bateu as mãos.

- Vamos indo?

- Ahãm.

Descíamos pela escada, já que o elevador parecia estar interditado, e me pareceu uma cena de filme quando, no saguão do meu prédio, viaturas da polícia e uma ambulância faziam o cerco da entrada como que para impedir que curiosos se aproximassem demais. As luzes ao alto e os flashes repentinos indicaram que a imprensa também sabia ser ligeira e já metia o focinho no que mal terminara de acabar. Passando-me para seu lado esquerdo, o homem de codinome Kapa colocou um braço envolta de meus ombros, guiando-me para um dos carros pretos, parado em cima da calçada. Deu a volta e sentou-se comigo no banco de trás. Identifiquei Souza próximo às portas traseiras da ambulância, e vi-o entrar antes que elas se fechassem.

- Pra delegacia ou pra pousada? ± Veio uma voz feminina.

- Pousada. ± Respondeu o homem ao meu lado.

Fiquei surpreso ao constatar que o motorista, na verdade, era uma mulher. Ela carregava um rádio semelhantes ao de Souza e do Kapa, bem como roupas escuras, mas que facilmente se misturariam com a multidão lá fora. Ela era a última integrante da equipe de Abikair, e tão logo ouviu a resposta do homem, engatou a primeira e tirou-nos da aglomeração que se formara em torno de meu prédio. Os cabelos castanhos claros eram

quando notei pelo retrovisor que ela direcionava seus olhos firmes à pessoa no banco do carona. ± Baixei a cabeça. . . mas a determinação em seu rosto tirava qualquer dúvida da destreza de seus atos. Já tenho tudo aqui. depois de um tempo de silêncio ± Não me importo se você me odiar. o que aquela voz familiar estava fazendo ali? Ela já havia ido embora de meu apartamento fazia um bom tempo. notando que ela desviava os olhos de mim. justamente à minha frente. Ela me parecia muito baixa. ± Disse. Guilherme. os lábios volumosos e as sobrancelhas finas eram muito escuras. . . seus olhos escuros voltando-se para mim. entretanto lá estava aquela mulher sentada.Não. De cara. não acreditei. decididos e um pouco culpados.Acha que precisa buscar alguma coisa? Primeiro pensei que ela estava falando comigo.Olá. e já tinha buscado ar para formular uma resposta. Flora. Eu entendo. mas pelo menos tente entender.Eu sei. Ela girou o corpo para trás.ondulados e fartos. uma pequena mala ao colo. Afinal. .

várias mesas. paramos frente a uma construção de madeira. Apenas o homem ao meu lado saiu do carro quando o veículo estacionou. rádios. rastreadores.Pegue a rua da direita. rodeada de quadros com folhas afixadas. fones. o que eles passavam era um cansaço acumulado. ninguém pensaria que havia tanta coisa debaixo da construção abandonada. O destino me dera uma rasteira. os fachos das lanternas que haviam sido acionadas iluminaram uma pequena abertura ao chão: um abrigo anti-bombas. ± Disse o homem ao meu lado. Uma antiga pousada. Demos a volta nas instalações da pousada. Não havia mais como escapar. depois de alguns lances de escada. A testa se . notei que estávamos nos limites de minha cidade. Sentado a uma das mesas. uma mulher de cabelos castanhos avermelhados direcionou os olhos de cor âmbar e ergueu a mão para calar quem quer que estivesse falado com ela. telefones. entregando identificações para todos ali dentro. uma sala espelhada que eu julguei ser da perícia« Realmente.O silêncio reinou por alguns segundos. próprio do estilo de construção da pousada. e demorou um pouco até que ele voltasse. e eu caíra em sua armadilha. Quando me dei conta para onde estávamos indo. era o fim da linha. Puxei o ar com força para dentro de meus pulmões. Arregalei os olhos quando. na verdade. o carro sacolejava um bocado. Nenhum deles parecia muito animado com a minha presença. me perguntando no que aconteceria a partir daquele momento. . Havia computadores. que os jornais falaram que havia sido desativada por causa de falência do dono. Pegamos uma estrada de chão. Era como se tivéssemos adentrado a um andar do prédio de uma companhia grande. ³Há quanto tempo eles estão aqui?´. me perguntei enquanto seguia Flora e era seguido pela mulher que dirigira o carro negro. gravadores. entrei numa sala espaçosa e bem-estruturada. Vi-me cercado por outras pessoas que até então eu não havia notado. Depois de uns dois quilômetros. Mas as luzes acesas. pilhas de documentos e pessoas à volta. Coloquei o cordão do cartão no pescoço. câmeras e dispositivos de alarme em sua redondeza indicavam o contrário.

pois elas serão para sua própria proteção. daí a pedirem para que pegássemos alguns de nossos pertences. unicamente para capturar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. Esta é uma unidade secreta montada pelo detetive Abikair. eu estou no comando. Por um momento. e ela levantou e caminhou até ficar próxima a mim e a Flora. vocês seguirão às nossas orientações. vocês dois estão envolvidos nessa. Era o olhar sustentado por alguém forte. . ± Tombou a cabeça para a direita ± Até a volta do detetive. comigo. Aqui é nosso lugar de investigação. . e ela estalou a língua enquanto cruzava os braços. satirizei em meu pensamento. que tal milhões delas?!´. espantado com o que estava acontecendo. . e notei que o olhar dela recaiu em mim. O nome da operação é ³Israel´. Cocei a nuca. e só então reconheci a voz da mulher como sendo a mesma que era emitida pelo rádio quando Souza e o homem chamado por Kapa contatavam a ³central´. parei para pensar. que parecia dar passos . Vocês não estão autorizados a fazer qualquer ligação ou contato exterior sem nossa autorização. Enquanto vocês ficarem aqui. quase que novamente. Seus olhos escanearam a nos dois. Flora e eu nos olhamos. nós não saímos daqui.vincou. nem podemos ser vistos. mas manteremos vocês atualizados da situação. sem questionar.Muito bem. Alguma dúvida? ³Ah.Nós não temos a obrigação de passar todas as informações para vocês. e de uma forma ou de outra.Essa é a nossa equipe principal.

tente se sentir à vontade. Depois de entrar à esquerda. . Os lábios permaneciam crispados.Vou levar vocês pra dentro. passando por um corredor largo.Certo. . Dando as costas para nós. o homem empurrou uma porta. Apenas o homem de olhos destacadamente ordinários pareceu se importar com nossa presença. inclusive aqueles que nos haviam escoltado. Seguimos o homem para além das mesas e equipamentos.Depois. como se ela não conseguisse relaxar e tivesse a obrigação de permanecer tensa o tempo todo. . Franzi o cenho. com jeito. Flora não pôde recusar. tentando entender a informação implícita naquela declaração. Hanna. você fica aqui. Hanna e o resto da equipe. dando-nos acesso ao que parecia uma sala de estar comum. voltaram sua atenção para os seus afazeres.« . . Sobrenomes serão confusos. Guiou-nos pela abertura da direita.firmes e não deixar pontas soltas.Flora. Guilherme. . sem saída. Pode usar tudo que tem no quarto. abrindo uma das portas que havia no último corredor. ± Pediu o homem.Podem me chamar pelo nome.

uma mesa de cabeceira. Era difícil acreditar a que ponto a coisa havia chegado. Ele girou a maçaneta. é só nos chamar. e observei sua expressão pensativa enquanto ele se aproximava de mim.A porta ao fim do corredor é meu quarto. sem querer suspirando profundamente e permitindome. . sem jeito. deixando-me passar e entrar num quarto comum. deixar meus ombros caírem e meu pescoço alongar. e o de Souza. televisão. .Continuamos pelo corredor. Deixei a mochila sobre a cama.« Estamos aqui pra desatar esse nó. Meneei positivamente a cabeça.Guilherme. pela primeira vez. . armário. notei ± Sei que tudo está muito confuso e preocupante pra você. pensando no quão parecido aquele lugar era com o meu próprio quarto. Abikair dormirá com você de vez em quando. com um pouco de decoração. duas camas. Notei o olhar do homem em mim. escrivaninha e banheiro. O que você precisar. mas o quarto dele é o da porta à frente. . ± Isso era um hábito dele.Eu sei. até chegar à última porta à esquerda. abaixando a cabeça. ± Disse. Deixei-me cair na cama. .Espero que compreenda nossas medidas extremas.

. e ele sorriu brevemente. pensando em quando eu conseguiria ter a vida normal que levava um jovem aos seus dezenove anos. Fechando a porta atrás de si. ± Pediu. Antônio me deixou naquele quarto estranho. E eu também não pude negar. -« ± Continuei esperando suas palavras. o homem voltou seu tronco para mim. Antes. porém. no mesmo tom que havia usado com Flora.-« Eu só queria« . de deixar meu quarto.Depois. como se estivesse se sentindo culpado com aquela situação ± É Antônio.

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