Os dias passaram muito rapidamente, e antes que eu pudesse perceber, a reconciliação com Enzo já havia acontecido há tempos.

Sentávamos como de costume, lado a lado, e em alguns dias, Enzo também lanchava perto de mim e de Fernando. O gringo sempre me deixava e me buscava na porta da sala, o que era fofo, mas levantava mais suspeita. Claro, eu sabia que muitos da faculdade já haviam visto um beijo que trocamos, mas não todos. E quanto menos gente para encher a paciência, melhor.

Não tirei notas muito boas, mas consegui manter-me da média para cima. Em uma matéria, eu fui para prova final, já que não consegui estudar o suficiente para passar de primeira. O ano já estava quase no fim, e faltava cerca de um mês para que minhas aulas acabassem. Meu aniversário estava próximo, o que não só indicava que eu completaria dezoito anos, como também seria o aniversário de um ano do meu namoro. Pensei em perguntar o que poderia dar a Fernando de presente para Enzo, mas depois voltei atrás; não seria lá uma idéia digna.

Durante as tardes, eu sentia falta do trabalho. Estava acostumado a ir direto para o estágio depois do almoço, e agora eu apenas colocava matéria em dia, vez ou outra parando para descansar o punho e a mente. Ainda não havia conversado com os irmãos do apartamento ao lado, mas eu sabia quando um deles estava em casa. Quando eu chegava da faculdade, Igor destrancava a porta. Ao crepúsculo, Igor saía antes mesmo de Thomas chegar, e quando o caçula botava os pés no corredor, dava duas batidinhas na porta. Era triste saber que eles não estavam se falando ainda. E que também não estavam falando comigo.

Numa noite, enquanto lanchávamos, toquei no assunto com Fernando, mas ele falou o que eu esperava que ele falasse: ³Isso é assunto deles, e não podemos nos intrometer. Não dá pra gente fazer nada´. Sabia que o loiro estava certo, mesmo porque os irmãos não nos davam muita abertura para o assunto. Uma semana antes da última do mês de outubro, entrei na casa deles. Estava tudo muito silencioso, e eu chamei pelo nome de Igor. Demorou, mas ele me mandou entrar, e eu descobri que ele estava em seu quarto, trabalhando.

Não conversamos muito; e a única coisa que conseguiu realmente tirar aquela expressão lacônica do rosto de Igor foi quando contei que já estava falando com Enzo novamente. Ele parou de ler um grande volume de folhas grampeadas, largando a lapiseira e apoiou as costas na cabeceira. Contei como tudo se desenrolou, não omitindo a briga e a reconciliação que tive com Fernando. Depois voltamos às amenidades, o que o fez baixar os olhos. E tudo ficou quieto. Pigarreei, levantando-me de sua cama.

- Igor,« Semana que vem é meu aniversário, e eu«

- Eu sei. ± Respondeu prontamente.

- Tá. E eu tava pensando em fazer alguma coisa; nada de mais, lá em casa mesmo, só pra gente.

- Isso é bom. ± Observou ± Já pensou no que quer ganhar de presente?

- Não, e nem precisa me dar nada, basta aparecer lá em casa que eu fico satisfeito.

- Mas eu não. ± Piscou, mantendo o olhar.

- Enfim,« Você vai poder ir?

- Claro. ± Respondeu, sem vacilo.

- E« Tem como você passar isso pro Thomas? ± Arrisquei falar no irmão.

Igor ficou me olhando um bom tempo, sem alterar em nada seu semblante, até que deu de ombros, baixando os olhos para o que quer que fosse.

- Não acho que vou ter oportunidade pra isso. Ele não quer falar comigo.

- Mas, não vai nem tentar?

- Eu já tentei. ± Respondeu, como se fosse óbvio.

- Ué, mas quem sabe ele pára e escuta dessa vez? Sei lá, é uma coisa que não é sua, eu quem pedi« Mas pode até ajudar a voltar aos contatos, né? E seria importante pra mim«

-« Vou tentar.

Não consegui conter um sorriso, e fui em direção a Igor. Passei meus braços por seu pescoço, apertando-o fortemente contra meu próprio corpo. Senti que ele também me abraçou, embalando-me com ternura. Um quentinho diferente do que sentia com Fernando surgiu em mim, e eu me sentia seguro naqueles braços. Levantei, mais animado, e vi um sorriso muito discreto brotar nos lábios de Igor. Conversamos mais um pouco, depois voltei para casa. Nesse dia, antes de ir trabalhar, Igor foi me dar tchau.

Thomas chegou não muito depois; arrisco a dizer que se demorasse mais algum segundo, Igor acabaria esbarrando com o irmão. Deu as batidinhas de sempre, depois entrou em casa. Fiquei pensando se deveria ir convidá-lo para meu aniversário, mas deixei que Igor tentasse mais algum contato. Acabei de ler mais algumas folhas da matéria incompleta de Enzo, concluindo que teria de pedir a de Túlio emprestada. Guardei minhas coisas, arrumei a mochila e fui ver televisão. Acabei adormecendo diante da tela luminosa, e só acordei quando senti um roçar em meu rosto.

Entreabri os olhos, ainda zonzo pelo sono, mas lentamente minha mente voltou a funcionar, bem como minha memória. Bem próximo a mim estavam os olhos azulões, penetrantes, que mergulhavam dentro de mim, me deixando sem defesa. Levei um susto, pulando para trás, e acabei caindo do sofá. Fernando correu para me ajudar, agarrando meu braço e pondo-me de pé. Balancei a cabeça, tentando colocar meus pensamentos em ordem, depois virei para o loiro; ele me olhava com gravidade.

- Gui, você tá bem?!

-« Tô! Tô.

- Que houve? Tomou susto?

colocando a maionese e o catchup na mesa.. e pára ao batente da porta da cozinha. Fernando ergueu rapidamente as sobrancelhas. Lancei-lhe um sorriso.É! ± Minha voz saiu muito alta. . e meneei a cabeça positivamente. né?! Fiquei sem saber o que falar. -« Você me confundiu de novo com ele. Estava escuro. mas notei que ele baixou os olhos.Só pra constar. Fernando apoiava o rosto em uma das mãos de um lado do sofá. e fomos para o sofá no mesmo silêncio. olhando preocupado para Fernando. um pouco receoso. mas acabou beijando minha bochecha e indo tomar uma ducha. segurando um dos braços. bem como os ombros. -« Hum.Na hora que eu cheguei. Coloquei a garrafa na mesa. não era uma opção viável. Você me confundiu de novo. Mas isso foi um breve momento. me assustei. Comemos sem conversar. enquanto eu inclinava minha cabeça para trás do outro. O gringo apenas sorriu de lado. e eu me repreendi mentalmente ± É. finalmente sentando-se à mesa. Suspirei. Aproveitei o tempo e grelhei hambúrgueres para nós. a covinha exibindo-se só para mim. O que eu poderia dizer? Mentir? Certamente. Já estava colocando refrigerante para mim quando o gringo aparece. Fernando me encarou atentamente por alguns segundos. e somente a televisão iluminava o . né? . mesmo« -« Desculpa.Do que você tá falando? .

alguém ia acabar cedendo. comecei a ficar irritado. Quando Mila saía. e me peguei relembrando o dia em que fui atingido. mas arrisco dizer que foi ele quem possibilitou essas coincidências. dobrando a coluna. enquanto que eu o ajudava com aquele complexo ridículo que ele tinha.apartamento. os carniceiros. nada ter vazado ainda. e ninguém me procurou. Já havia um bom tempo. Respirei fundo o ar da noite. Repassei meus passos desde a última conversa com o senhor Colin até a volta para casa. Meu ombro quase não doía mais. os repórteres continuavam xeretando. o doutor Rafael me acompanhou pelos fundos. estranhamente. e já podia erguer o braço além de minha cabeça. mas não ter que me preocupar com pontos já havia se mostrado um grande alívio. E com toda a pressão da televisão e dos jornais. Um estagiário que foi ferido enquanto cobria uma fatalidade que nem a polícia tinha detalhes ainda não era uma coisa que se passava em branco. Ele me ajudava bastante. Cocei o queixo. Como o doutor Rafael pedira. nem mesmo o senhor Colin. Dei a sorte de encontrar com o doutor Rafael em todas as vezes que fui ao hospital. Sei lá. ainda não podia carregar coisas pesadas. No comercial. principalmente quando Fernando aparecia no assunto. eu sabia que estava envolvido. bem como o próprio senhor Colin. De algum jeito. meu salário continuava sendo depositado em minha conta no . pareceu receber o pacote de dinheiro com muita familiaridade. levantei e fui para a varanda. de origem espontânea. entretanto. Criamos uma estranha amizade. na certa. Em duas ou três oportunidades. e ficávamos apenas nós dois. ao me lembrar de meu chefe. E. procurariam saber o que havia efetivamente acontecido. É óbvio. O doutor Rafael nunca deixava de me implicar. colocávamos a conversa em dia. a mídia ia descobrir o que havia acontecido. apoiando o queixo na mão direita. Será que a polícia já saberia o que havia ocorrido? Era estranho. Como o senhor Colin podia permitir que seus subordinados entrassem na cena do crime antes mesmo da perícia? Qual seria o acordo sujo que ele sustentava para conseguir matérias e fotos mais precisas do que os outros jornais? O policial Almeida. convencendo-me de que estava fazendo a coisa certa. Aquele prédio devia estar em colapso. e não precisávamos dizer diretamente que um confiava no outro. não pensando em nada exatamente. não gosto muito de ver pontos. meu ombro ainda estava ferido por dentro. Tirara os pontos havia alguns dias. já ficava subentendido em nossas conversas. eu fora ao hospital para conferir a cicatrização do ferimento. apoiei-me nos dois braços e fiquei olhando para os pontinhos apressados lá em baixo.

Nossa vida não podia estar mais tumultuada: eu corria risco de vida. Olhei em volta. as coisas pudessem melhorar. pensei que eu devia ser muito estúpido para ter perdido o ponto e estar exatamente no lugar mais perigoso para mim. Observei-o de soslaio por alguns instantes. e saltei do ônibus. Saí do banco. Foi aí que começou nosso bloqueio: desde aquela noite. a maioria apenas sobrevive. e voltei para dentro de casa. Fernando ainda estava no sofá. Respirei. nossos vizinhos e melhores amigos não se falavam. e acabei perdendo meu ponto. e ele trabalhava o mesmo tempo com outra que era odiada por mim. na mesma posição. Eu tinha muita vontade de ir até o escritório de Colin e enchê-lo de perguntas. eu não podia ficar comentando essas coisas com Enzo. Contudo. tão difícil. vez ou outra eu ia ao hospital conversar com o doutor Rafael. estava indo mal na faculdade. Só me dei conta de onde estava quando o ônibus fez uma curva fechada que não me era estranha. principalmente. muito menos Fernando. E fomos dormir assim. eu passava parte do dia com uma das pessoas que Fernando mais odiava no mundo. Por um momento. apontar o dedo para seu rosto e criticá-lo um pouco. o silêncio parecia eterno. Rolei o corpo. quase gargalhando da minha desgraça. me deixariam sair de casa para isso. Talvez muitas de minhas dúvidas e frustrações se resolvessem lá. Como é que a vida podia ser assim. Essa é a verdade. apesar de já estarmos nos falando. e imediatamente. e Igor e Thomas estavam distantes demais para tal. E era realmente a única pessoa que me restara. Mesmo não precisando mais. e me arrastei para apoiar-me em seu corpo. ficando de costas para o mundo e de frente para casa. E ficamos calados durante todo o filme. sabendo o quanto eu ia ouvir de todos depois. acabando por me localizar: eu estava perto do prédio do senhor Colin. e nem Igor. que estava se mostrando um ótimo amigo. em meu aniversário. meio que tomando coragem. . e mal falavam com a gente também. Mas aquele era o lugar mais esclarecedor também. tão impiedosa? Por que não podemos simplesmente ser feliz? É tudo tão complicado. não conseguíamos mais sustentar uma conversa por mais de vinte segundos. para isso. mais para mim mesmo do que para qualquer coisa.banco. Apertei os olhos. que me deixava exausto só de tentar encontrar alguma resposta para essas e outras muitas perguntas que surgiam em minha mente. Mas eu ainda não podia pegar o carro para ir tão longe. porque um assassino seqüestrador podia estar me seguindo. Dei de ombros. e confundia meu namorado com o cara que tentara me matar. Fernando apenas levantou os olhos quando me aproximei novamente. Minha esperança era que. é muito difícil viver. pegando o primeiro ônibus que passou. ele me envolveu. Ri tristemente.

do mesmo jeito que eu me lembrava. Flora. Fechou a porta. No saguão. não me esconda nada! .O quê?! . Pelo visto. me assustando. Encontrei-a no andar da gráfica.Conte-me tudo.Guilherme! Eu não acredito! Como você conseguiu ficar tanto tempo sumido?! Você tá bem?! . como andam as coisas por aqui? . Flora já sabia.Tô. e assim que me viu. talvez encontrasse alguém conhecido. e me fez sentar frente a sua mesa.Eu quero saber o que aconteceu naquele prédio! ± Exigiu. depois baixou a voz ± Não podemos falar dessas coisas aqui! . antes de falar com Colin.Vem! Agarrando um de meus pulsos. E você. . Estava intacto. a empolgada jornalista correu e me abraçou. notei que algo havia mudado: havia guardas de prontidão nos flancos do saguão. olhando-me profundamente.Não! ± Gritou ela. Antes que a porta do elevador se fechasse. Fui atrás de Flora. parecia tensa em demasia.Vi-o partir. entregando-me o cartão de sempre.Como?! . Cruzou os dedos. o porteiro se lembrou de mim. . e voltei minha atenção para o prédio familiar. eu queria saber como tudo estava. passando a tranca. em murmúrio. Resolvi ir direto para a sala dos estagiários. sim. Mas a pequena saleta estava vazia. Flora guiou-me para o que eu concluí que fosse sua sala. barulhento. .

me levando para um local seguro onde pudesse descobrir os verdadeiros acontecimentos do dia da matéria sobre o advogado seqüestrado e executado.Mais do que muitos. .Ué. Guilherme. tem coisa errada por trás! E não é de hoje! Eu preciso saber o que está acontecendo. mas não o suficiente. e ela só deve ter lembrado de mim quando tudo aquilo aconteceu. a Marina me ligou. batendo na boca por ter falado alto demais ± Não.Não! ± Cortou. Como uma das mais antigas e confiáveis funcionárias. nem mesmo para o nosso pessoal o Colin liberou a verdade dos fatos! . não! Tudo foi omitido. . Fiquei pensando em como o senhor Colin era capaz de fazer isso. e na sua influência sobre os meios de comunicação. o que aquele homem tá fazendo! .A Marina está sendo coagida! Ela ficou no setor de montagem. . assim que me viu. Suspirei.Mas então.. ele não quer que a gente saiba de alguma coisa! Nunca vi aquela menina tão amedrontada! Flora parecia profundamente abalada.E Vivian? . Eu costumava ajudá-la com revisão de artigo. Antes de você ir ao hospital e da polícia e do nosso pessoal chegar lá. mas a Marina« . eu sei! Eu gosto demais do Colin. Não era à toa que. correu para falar comigo. ninguém vai lá! Eu sei que Colin tá fazendo isso de propósito. mas eu já reparei.O que você sabe até agora? . é claro que ela tinha o direito de se sentir assim.Eu sei que tem alguma coisa errada. você já sabe o que houve.

. o direito de saber o que acontecia por trás dos panos da imprensa. depois de tanto tempo de trabalho. Quando terminei. até minha consciência no hospital. Aquela mulher sempre foi muito seca e fria. Respirei fundo. nós nos separamos. . tomando fôlego. e eu via que era essa a exata sensação de Flora. Fiquei hesitante quanto a contar a ordem autoritária que recebi do senhor Colin. ± Pareceu refletir por alguns segundos. mal piscava.É. Receber a informação de que se era enganado quando se ocupava um cargo importante numa empresa era como um soco no estômago. e eu fui tirar fotos.. né? . . Vez ou outra Flora expressava surpresa.É. Conta tudo desde que você recebeu a ordem.Ela também está escondendo. mas não ousou me interromper. como porque tinha. a mulher continuou calada. não só porque era uma pessoa boa.Ele mesmo deu o dinheiro? . o acordo com o policial Almeida de tirarmos fotos antes da perícia. ou espanto. Ela ficou com a parte da entrevista. Olhava fixamente para um ponto de sua mesa. . desde o momento em que recebi a ordem.Num pacote pardo.Guilherme. -« Isso é tão«! . talvez encontrando explicações para coisas passadas que ela nunca soube explicar. mas dá pra saber quando ela fala menos do que o normal. Mas achei justo que Flora soubesse. e do encontro com o assassino.Foi. o rosto fino apoiado sobre uma das mãos. eu sei. e contei mais uma vez toda a história. depois voltou os olhos para mim ± A Marina também não esteve com você o tempo todo.

. seu semblante foi passando para indignado. A resposta foi negativa. Ela apenas desviou os olhos.Está pensando em fazer alguma coisa? ± Perguntei. Parecia desacreditada. Aproveitei e perguntei se ela havia visto alguém com o mesmo perfil na imprensa. como se tentasse entender como nunca aquela hipótese havia passado por sua cabeça. .Isso não é ético! . você o fez! .Isso é ilegal! . foi fraqueza minha. não é. não por pressão. e até irado.Mas você pretende levar isso à tona? Flora apenas me encarou.Fez uma careta. curioso. ± Concordei sinceramente. não agora. acabei descobrindo que ela seria a pessoa quem deixaria a história vazar. e eu acabei falando mais sobre meu encontro com o assassino. A mulher ainda me perguntou alguns detalhes. como que resmungando a situação. Mas não consegui. . Pelo menos. a voz num fio. De surpreso. .Não sei se devo. seus olhos brilhando em chamas de indignação e fúria. ou pelo menos por perto.Não. mas por livre e espontânea indignação.Eu sei. Voltou os olhos expressivos para mim. ± Falei com pesar ± Eu devia ter dito ³não´. . . Levantando as sobrancelhas.Mas.

Só não sabia que eram coisas que iriam me enojar. não. Encarei-os. e Flora apenas fulminava-me com o olhar. Guilherme. afinal. mais do que nunca. afinal não tivemos essa conversa. mas em branco em frente aos nomes de Vivian e de Colin.Certo. eu não sei de nada. percebendo que um era uma proposta de trabalho numa imprensa rival à nossa. nunca eu me submeteria à artimanha tão« baixa e suja! . Tecnicamente.Agora. olhando para ela. já sou grandinha! . e por um tempo ela me pareceu extremamente tentadora.Você tava desconfiada de acordos há muito tempo? . . sabe? Cheguei a fazer esse pedido de demissão formal. você vai mesmo sair daqui?! . já assinado por ela.Desconfiada. Eu recebi essa proposta de emprego. sim. Certa.Flora abriu uma gaveta ao seu lado. Ergui a cabeça.Isso pouco me importa! ± Acabou esbravejando ± Nós estamos aqui para relatar a verdade pela verdade! Nunca. Mas eu sempre soube. certo! Já entendi! . que por trás daquele sorriso tranqüilo do Colin tinha muita coisa. ± Piscou um olho para mim ± Não haveria problema nenhum em eu sair daqui.Você vai mesmo acusar o senhor Colin?! Isso vai acabar com a credibilidade dele! . puxando alguns papéis e jogou-os à minha frente. .Então. eu adoro esse lugar.E você vai comigo! . E eu não preciso explicar nada pra ninguém. enquanto a outra era um pedido formal de demissão. Só que acabei desistindo.

Não estou impedindo você de nada. seus olhos mais piedosos ± Mas eu vou revelar os esquemas com a polícia! Isso você não pode impedir! . Flora! Acontece que tem um assassino psicopata atrás de mim. em outra imprensa?! E ainda para revelar o esquema da pessoa com quem mais aprendi sobre minha futura profissão?! Isso não poderia nunca acabar bem. Olhei atônito para Flora. vai ficar de olho em tudo que sair no jornal sobre isso! -« É. -« E como você acha que vou poder provar que sei disso tudo?! ± Acabou soltando. ± Pareceu ponderar. Flora deve ter notado minha hesitação. talvez me xingando mentalmente. Flora! Você não precisa provar nada pra ninguém! Flora ficou quieta por um tempo. sua expressão determinada chegou a me incomodar. mas acabou encostando as costas no apoio da cadeira. eu não posso ir para outra imprensa. porque espalmou as mãos na mesa.Flora. me esforçando verdadeiramente para lembrar de mais algum detalhe que eu poderia ter esquecido ou .Você é uma jornalista. Só acho que. porque se aquele homem desconfiar que eu vi a cara dele. você está certo. . como estou! . bem« Eu não quero fazer parte disso. eu não posso sequer estar aqui. Paciente. o que com certeza ele sabe. repeti para ela. e se uma matéria dessas for publicada. olhando-me autoritariamente. Eu.Não estou fugindo. .Você está fugindo! . Pediu-me para que contasse novamente o acontecido.Foi aí que o bicho pegou. o cara me acha fácil! Eu não deveria nem estar aqui. mais vagarosa e detalhadamente.Nós temos o dever de dizer isso a todos! .

O senhor. Fiquei estático. Se bem que não era a vida dela que estava em perigo. parti para o outro lado da rua. Subi as escadas. o que. sentindo os olhos de todos dentro daquele limitado espaço pesarem em mim. Com um aceno. um senhor já grisalho com vários arquivos a mão e outro. Bom. quase irritando a atendente. Fiquei parado um tempo frente ao prédio branco e cinza. eu não precisava mais dele. para mim. Ela anotou algumas coisas dessa vez. era essencial saber a correta descrição do assassino. seus olhos transbordando determinação. e acabei pegando o elevador para ir embora. as sobrancelhas pesadas davam -lhe um ar constantemente carrancudo. ainda próximo à porta. e entrei na delegacia. Reparei que ela prestou muito mais atenção ao início de meu relato do que ao fim. que precisava falar com o delegado imediatamente. pensando se realmente seria ajuizado falar tudo o que acontecera naquele funesto dia. o . fechando a porta atrás de si com tamanha força que cheguei a piscar os olhos. que me olhava com muita atenção. a mulher prontamente se levantou. completamente abatido. Voltei meus olhos para o mais novo deles. agarrou um de meus pulsos e me levou para o andar superior. talvez uns dez anos mais velho do que eu. mas quando citei que era sobre o advogado que havia sido assassinado. Engoli em seco. O velho senhor deu uma boa olhada em mim. para o senhor Colin. Para mim. Insisti. estava um homem com seus quarenta e muitos atrás de uma escrivaninha de madeira escura. continuava com o peculiar sorriso em minha direção. O delegado apoiava o queixo numa mão. calvo e de expressão marcada. e também de como o advogado havia sido encontrado. na última porta ao fim de um corredor. talvez minha presença ali interessava mais do que eu podia pensar. pedindo para que eu repetisse quando tocava em alguma parte mais importante. cochichou algo em seu ouvido. Colin ainda não havia feito contato comigo. Não sabia se conseguiria encarar meu chefe. apenas esperando que algo acontecesse. A mulher aproximou-se do homem sentado. Passadas duas horas desde minha chegada saí de sua sala. quando uma idéia pouco sensata havia brotado em minha cabeça: eu precisava ir à polícia. chegava a ser desconexo. Já estava no ponto de ônibus. depois se empertigou numa postura severa e saiu da sala. Ela resistia bravamente.deixado de notar. Dentro da sala. sentado a um lado. muito embora eu soubesse que o dinheiro em minha conta deveria estar pagando meu silêncio. sorriu de lado e depositou os arquivos sobre a mesa. pouco restara do fascínio que um dia havia existido. pegando o ônibus que me deixaria na esquina do departamento de polícia. entrando em seguida. que eu julguei ser o delegado. atento a tudo ao meu redor. Bateu com os nós dos dedos. Decidido.

o senhor sentou-se na mesa. não se aflija. rapaz! Só queremos conversar com você. enquanto que o delegado inclinou o corpo largo para frente. sim.Poupe-me das piadas. ± Comentou animado o velho. Roberto?! ± Cutucou o delegado com o cotovelo.homem me pediu para que eu me aproximasse.Ora.Ora. O velho riu e acenou para o jovem mais ao lado. Notei que ele era da mesma estatura que Fernando e. mas também havia juventude. . Sentei. mas pareceu-me mais confortante do que eu poderia pensar. Quando reparei. filho. . até ouvir a risada do velho. agora que estávamos mais próximos. e um pouco esganiçada. embora um pouco relutante. um pouco de humor num ambiente tão pesado não faz mal a ninguém. . Baptista. A voz do senhor era fina. . . tentando parecer que não estava tanto na defensiva. o que prontamente fiz.Sim. dê-lhe uma cadeira. apoiando os cotovelos e não tirando os olhos dos meus. o homem que parecia o mais novo segurava a própria cadeira próximo a mim. he. Deixei que meu queixo caísse despropositalmente quando fixei meus olhos nos deles. Empurrando alguns papéis. ainda encarando seus olhos. .Muito bem. que pairavam o violeta. Havia experiência naquele rosto.He. Roberto. pude analisar melhor suas feições. ± Alfinetou o velho Baptista. né. ele não tinha mais do que trinta e dois. ± O delegado baixou as mãos ± Comece a falar.Não seja tão grosso com ele. he! Não há um que não reaja assim. . Definitivamente. . Que cor mais absurda era aquela?! Os olhos dele eram tão azuis. Descruzei meus braços.

Eu sou o delegado Neves. Olhei para o jovem. filho! Não tenho o dia todo! . O homem ao seu lado é o detetive Abikair.Senhores. mas decididamente pronto para obedecê-lo. Fiquei observando seus olhos miúdos e escuros por um tempo. por favor! . estou apenas« .Não assuste o garoto. .Não estou sendo grosso. . Voltei minha atenção ao quarentão.Vamos. olhando-o impaciente. porque o delegado passou a mão no rosto. O jovem ao meu lado esquerdo não mostrava reações. e sentia que seus olhos violetas ainda estavam em mim. . estou sendo direto. permanecera na sala do delegado Neves. e esse velho inconveniente aqui é o Baptista.. ± Justificou-se. até que ele pareceu enfezar-se ainda mais. que já apoiara os cotovelos novamente sobre a mesa. Roberto! ± Riu-se Baptista. que apenas acenou brevemente com a cabeça.Não estou criticando.Mas não vai nem se apresentar? Eu não sabia quem era aquele senhor que parecia ter imensa influência naquele lugar. Talvez ele fosse o detetive do caso e. Baptista! . por isso.Pare de criticar meus meios. Roberto. .

Voltou a sentar na cadeira.« Vocês já devem saber da pessoa que foi baleada.E não foi? ± Concluiu ironicamente Baptista.Eu me deixei levar?! ± Indignou-se o delegado. perdão. e todos os olhos detiveram-se no detetive Abikair. eu peço! . pensando que. Com a certeza de que a discussão havia acabado. enfadonho ± Conte logo o que sabe. . Ele olhava um pouco escandalizado para os dois. . para depois apoiá-los novamente sobre o nariz ± Acho que Roberto se deixou levar pela coisa. se não falasse logo. . nunca sairia daquele escritório. daquelas que fazem até seus pêlos da nuca se arrepiarem. antes que Neves cuspisse mais uma resposta para Baptista. Abikair deixou-se encostar novamente à parede.Um pouco de ética. levantando-se da cadeira.Hãm. o delegado conteve-se por considerar as palavras do jovem detetive sensatas. .Oh. os braços cruzados frente ao peito.A voz era potente e grossa.Eu sei de algumas coisas que talvez possam ajudar vocês a encontrar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. juntando as mãos sobre as coxas.« Bem. ± Disse Neves. .Vamos deixar que o jovem fale. . Os dois se calaram. . Ao que pareceu. ou não?! ± Cortou Abikair. ± O velho riu. as costas apoiadas na parede ao lado de um arquivo de cor grafite.Disso já sabemos. Cheguei o corpo para frente. tirando os óculos redondos e limpando-os numa pequena fronha branca. enquanto Baptista o olhava com implicante meiguice. certo? . jovem Abikair.

talvez impressionado demais para voltar à carranca habitual e fingir que nada o atingia. filho.Muda. ± Baptista deu uns tapinhas no braço do delegado ± Ele sabe o que fala. ± Pediu Baptista.Ele é o detetive.Que seja. .Você o conhece?! ± Recompôs-se o delegado. Roberto. -« Isso não muda coisa alguma! .. Neves apenas o olhou. O delegado Neves pareceu surpreso.Não era um jornalista. Apenas o detetive Abikair continuava o mesmo. delegado Neves. Era isso o que tinha pra dizer?! .É claro que sabemos! O que acha que fazemos aqui. ± Abikair olhava-me com extrema fixação ± Muda tudo. ± Girei a cabeça. um estagiário! ± Deu de ombros ± O que mais. .Sim. o clima mudou dentro do pequeno ambiente. Aí sim. vendo os olhos do detetive Abikair deslocarem-se do chão para mim ± Era um estagiário. . sabemos que um jornalista foi atingido enquanto estava ilegalmente no covil do seqüestrador. o que mais?! . comemos rosquinhas?! .Vamos. deixe o garoto falar. O senhor Baptista também pareceu surpreender-se. Roberto. . fuzilante.E se eu dissesse que conheço esse estagiário? ± Falei. mas esboçou logo um sorriso de satisfação. .

ele está bem.E por que não o trouxe aqui?! ± Protestou Neves.A essa altura. Roberto. . qualquer um teria motivo suficiente para não sair de casa. Entretanto. seus olhos apertados pelo cenho franzido ± Precisamos que você lembre de tudo o que seu amigo lhe contou! E rápido! . ele já deve ter recebido alta. Baptista! Agora.Não pressione o garoto.Precisamos de qualquer informação sobre isso.Parece que o senso de justiça de nosso estagiário falou mais alto. jovem Abikair.Hãm.Eu acho« ± Notei que Abikair começou a se aproximar por trás de mim ± que depois de um susto desses. mais do que nunca.Filho.. quase fechando os olhos com as rugas. leva tempo para recuperar-se de um tiro! Vai ver ele contou tudo o que aconteceu a seu amiguinho. enquanto que o delegado parecia levemente transtornado. cá está ele. . . ± Olhei para Neves. .Bem pontuado. Roberto. ± Sorriu.« Senti suas mãos apoiarem-se no encosto da cadeira em que eu estava sentado. há uma chance de começarmos a completar o quebra-cabeça desse caso! Eu não posso perder tempo! . e pronto.Ora. não? ± Baptista balançou a cabeça ± E como ele está? . . . Baptista o olhava com interesse. preste atenção. .

para depois fazer perguntas e ficar pensativo. focou-os em mim. e depois para Abikair. A certeza disso foi que. . desencostando-se de mim.Não há com que se preocupar. filho! Fale! Respirei fundo.Guilherme. chegando a omitir alguns detalhes para que parecesse mais convincente a minha história de que era apenas um conhecido do verdadeiro estagiário. delegado Neves. emudeci-me. parecendo fazer anotações mentais quando vez ou outra levantava os olhos. O senhor Baptista parecia divertidamente interessado em minhas palavras. enquanto que as pessoas normais. . como o delegado Neves. quando falei do tiro no ombro esquerdo. O delegado Neves me olhava. sua mão recuou um pouco da cadeira. Mas o olhar do detetive Abikair caía sobre mim tão centrado que me convencia de que ele sabia que fora comigo que acontecera o tal fato.Sim. Terminada a narração. O detetive mantinha os olhos arroxeados na porta do escritório. Não era uma coisa certa de se fazer. apenas inclinou um pouco a cabeça. Tive de me esforçar para não escorregar e acabar colocando a história em primeira pessoa. esperando alguma reação daqueles senhores. era quase assustador ver seu sorriso crescer diante de algum detalhe mais sórdido. -« O senhor é o detetive do caso? ± Abikair não pareceu tão pasmado com minha pergunta como os demais. Já o velho Baptista desviava os olhos de Neves para mim.. ± Estranhamente. a mão escondendo a boca denunciava que estava pensando em alguma coisa. O detetive ouvia tudo com exclusiva atenção. eu sentia que o detetive já sabia quem eu era ± Ainda não disse seu nome. mas quando se sentiu observado. . arregalavam os olhos. E você. quem é? . tomando coragem para contar tudo o que lembrava do ocorrido naquela tarde. mentir para as autoridades. Guilherme Azevedo Zheinkner. eu sou.Pois então.

Baptista começou a rir baixinho. ± Concordou. entretanto. O delegado apenas piscou. creio que posso encontrar-me com a testemunha e fazer constar nos autos a nossa conversa. emudecendo.Nós precisamos dessa testemunha aqui! ± Berrou o delegado. ele me disse que só viu uma parte do rosto dele. a minha é ainda superior e. .Por que não vai visitar o amigo de Guilherme. eu sei que sua autoridade aqui é absoluta. .Se não fosse detetive. Mas ele deve se lembrar. .Você acha que seu amigo se lembra bem do rosto que ele viu? . jovem Abikair! ± Elogiou Baptista. tirando os cabelos quase negros dos olhos.Acha que ele estaria em condições de fazer um retrato falado? ± Arriscou o detetive. O detetive apenas olhou-o por alguns segundos. seria um advogado. Engoli em seco. . O detetive Abikair falava muito bem. . enquanto Neves ainda pensava. sim. não consegui notar nenhum pingo de hesitação.. Abikair? ± Sugeriu Baptista. como responsável do caso.Delegado Neves. enaltecendo-o de maneira a deixar claro ao delegado que era ele quem decidia o que fazer. . subitamente ± Precisamos que conste nos autos! .Só perguntando. tentando esconder a boca com uma das mãos enrugadas.Não é má idéia.Bom. e ele parecia muito certo de seu lugar. .

eu« . Roberto! O rapaz está certo! Você está abaixo dele! .Ora. e eu me apressei a acompanhá-lo.«! Antes mesmo que eu pudesse ouvir mais alguma coisa..Mas«! Que afronta é essa?! ± Urrou o delegado. bem como meu pescoço. permitindo-me abaixar a cabeça.Não venha com churumelas. . . num toque frio. e seu rosto estava muito mais severo do que antes. Se me derem licença. olhando nas gemas do detetive. senti meu braço direito ser agarrado. sem reação alguma. uma mão grande e espalmada postou-se no meio de minhas costas. e comecei a segui-lo para fora do escritório do delegado Neves.Oh. Roberto! Vai perder o controle novamente?! ± Incitou-o. . seus olhos excêntricos em Neves. diferente. Ele finalmente piscou.Eu« Eu vou ligar pra ele. Pulei. o ar de curiosidade me deixava embaraçado a ponto de eu sentir minhas bochechas em brasa. e fui jogado contra a parede. Levantei. . Passamos por várias mesas. mas assim que fui escondido pela parede.Te levo ao telefone. Baptista! . . Fiquei olhando aquela expressão fria. um pouco irada.Acha que poderíamos encontrar com seu amigo agora? ± Perguntou.Velho. e soltou um pouco o meu pescoço. e todas as pessoas pareciam olhar para nós. A impassibilidade de Abikair havia sumido. que me fez um sinal com a cabeça. O detetive fez uma curva fechada.

e isso provavelmente porque ele acabara de chegar. nenhuma decoração.Eu sei. Não havia nada senão trabalho naquele ambiente. o que era a verdade. ainda segurando meu braço.Você sabe que acabou de falar um falso testemunho? -« . Desviou os olhos para o corredor. querendo arrancar de mim toda e qualquer informação me deixou em pânico. -« Mas você sabia! Abikair me encarou longamente.Você mentiu para as autoridades.Por que não? Continuando o caminho pelo corredor. talvez na dúvida entre eu ser mais um espertalhão que tentava se safar. -« . não importa. Porque eu vou descobrir. meio sem jeito ± Eu estava« enfim. . O detetive soltou meu pescoço. eu sabia. entramos numa salinha apertada. ± Asseverou o olhar ± Mas nem pense em mentir ou omitir alguma coisa de mim. . nem objetos pessoais. depois os voltou para mim.Isso é crime. ± Falei. O detetive puxou a . senhor Abikair. Vai querer mesmo o tal retrato falado? . com três pessoas que me encaravam insistentemente. sinto muito. ou se realmente estava com medo de falar. e eu acabei encobrindo minha identidade.. Só de entrar naquela sala fechada.De fato. nenhuma foto.

era ele. depois cruzou os dedos. . ± Apontei-os com o dedo. foi isso. incerto. Esses olhos não enganam.É ele. deixando-os sobre a mesa. e não tive mais dúvidas. ao abri-los. pude ver a cópia fiel da faixa do olhar daquele homem. indicando que eu devia sentar também. esforçando-me verdadeiramente para lembrar mais alguma coisa que poderia ter deixado escapar pela intimidação na sala do delegado Neves. Pedi para que o detetive pintasse os olhos com a caneta azul. ele atendeu ao meu pedido. Abriu uma das gavetas ao lado da perna. . apoiou os cotovelos sobre a mesa e dedicou atenção suprema à minha descrição do assassino. . repassando cada momento em minha mente. Fiquei meio apreensivo. . .Então? Está parecido? Abikair virou o desenho para mim e.cadeira. Passados quarenta minutos. certo? Apenas esta faixa do rosto? ± Indicou com os dedos. enquanto eu o analisava. o que fez com que eu me afastasse. e pedi para que o detetive acertasse-os. ele limpava a mão suja pela grafite. Paciente. Enfatizei cada detalhe que me pareceu mais importante da pessoa que eu havia visto naquela tarde. Ele estava usando algum gorro.Você disse que só viu o olhar dele. puxou um bloco e um lápis.É. dei de cara com um desenho muito semelhante ao homem que atirara em mim. talvez um pouco incomodado. . pensando se a imagem que guardara em minha memória ainda era a mesma da pessoa que eu havia visto. sei lá o que era aquilo. . e tal foi minha surpresa quando. Notei alguns traços imperfeitos.Tem certeza? ± Perguntou. Entregou-me o papel algum tempo depois. meia.Absoluta. Passei mais tempo de olhos fechados. empurrando acidentalmente a cadeira.

no fim. Tirou seu conteúdo. uma que eu tinha certeza de que ele não me mostrara. atentando para o tipo físico dos homens. reparei numa foto nova. . cobrindo do nariz para baixo do homem. Alguns. Todos os que apareciam nas fotos eram homens de olhos azuis. que me encarava um pouco confuso. e abaixei a cabeça. e colocou-as na minha frente. Depois. . os olhos não eram os mesmo.Como? Coloquei a foto bem próxima à borda. foi ficando mais difícil. O detetive Abikair não pareceu muito feliz com isso. Mas. Voltou com a pasta grossa para cima da mesa. Ali estava ele. tirando uma pasta cheia. nenhum deles era o homem que havia me alvejado. cujos olhos eu sempre confundia com os olhos de Fernando. quase impossíveis de se encontrar. entre trinta e quarenta e cinco anos. Dei uma olhada rápida para o detetive. tive que pensar bastante para ter certeza do que ia decidir. eu descartei desde a primeira olhada. mas pareceu aceitar consideravelmente o fato de não ter conseguido achar o tal. Puxei as fotografias uma a uma. Aquele estava muito parecido. que se revelou serem fotos. parecido até demais. eu tinha certeza! Aqueles olhos eram únicos. . Puxei minha blusa. abriu-a e pegou um envelope branco e gordo de dentro dela. bem como escondendo seu corpo e todo o resto que não me fora revelado naquele dia. depois escondi as partes que eu não havia visto no homem. escondendo seus cabelos com um dedo. Era exatamente o mesmo homem.Espera aí« .Acha que consegue identificar o tal homem como sendo um desses? -« Posso tentar. e aproximei meu rosto.-« Espere um pouco. O detetive abriu a gaveta. mas assim que a puxou novamente para colocá-la na gaveta.

Absoluta! A mais absoluta certeza! Eu nunca poderia esquecer esses olhos! .. Olhei para as belas esferas arroxeadas do detetive Abikair. é ele mesmo! -« Você tem certeza disso?! . detetive. e ele fechou fortemente os olhos por alguns segundos.Senhor Abikair. esse suspeito não é nem do mesmo caso.É esse. .Não.É esse! . enquanto elas pareciam fixadas no nada.Acho que você está um pouco equivocado. e ele fora o único para quem não menti.Esse?! . não estou! Eu tenho certeza! . certeza absoluta! Esses olhos. por favor! ± Por que ele não acreditava em mim?! ± Eu tenho plena certeza de que é ele! Eu não poderia me enganar! Eu sei que é ele! -« Então. eu tenho certeza. . . ± Disse Abikair.Guilherme. temos um grande problema. Será que ele não acreditava em mim? Eu não estava mentindo para ele. Ouvi seu suspiro. tomando a foto de minhas mãos.

apesar de tudo. Guilherme.O que poderia impedir esse homem de ser o assassino desse caso?! . era que Abikair parecia extremamente preocupado com a minha certeza. É ele.Senhor Abikair. era ele mesmo. então como é que ela apareceu aqui?! Eu sei do que estou falando.Então?! Eu realmente não estava entendo paçocas! Criminosos poderiam praticar vários crimes. nada.Essa foto é minha. é sim! -« ± Continuava imerso em pensamentos.Tecnicamente. não estava enganado. Várias vezes . ± Encarei Abikair. eu estou certo do que falo. .Mas eu« Hãm?! . ou melhor. então por que o suspeito de um crime não poderia ser o autor de um outro? O mais estranho. mesmo! . era ele..Essa foto não é de nenhum caso. . perturbado. Guilherme. . Como dar a certeza para alguém de que seu irmão era um assassino?! Eu tinha certeza. . é esse cara. Não sabia mais o que dizer.Ué.Não pertence a nenhum caso. . petrificado ± É a foto do meu irmão.

. fazendo com que eu me calasse.O senhor« O senhor acredita em mim. mas curioso para saber o que o detetive ia fazer.Pois não? ± Voltou os olhos anormais para mim. Preciso de alguns dados seus.Senhor Abikair? .Eu« . me sentindo um pouco mal e acuado. e tal atitude me deixou preocupado a princípio. certo? Primeiro. . a foto do irmão nas mãos. Tomei ar para responder.Você tem essa certeza toda? ± Cortou. Engoli em seco. . o detetive me olhou longamente. mas eu tampouco poderia sair sem ter a certeza de que estava bem. incredulidade. não mais pensando em quanto tempo eu ainda precisava ficar lá. cruzando levemente os braços. Abikair empertigou-se. conforme eu fazia a caneta correr. deixando-me escorrer na cadeira. levantava os olhos para olhá-lo. suspirou e brandeou as expressões. pasme. Entreguei meus dados. -« Muito bem. bem frente aos olhos. o detetive pediu para que eu respondesse algumas coisas e. Mas depois. um pouco de desapontamento e. . O semblante pensativo denunciava preocupação. Puxando uma folha da gaveta. Segurava a cabeça com o braço apoiado sobre a mesa. Não que ele tivesse cara de quem aceita alguém para conversar nessas horas. -« Tenho.tentei falar alguma coisa. mas a expressão do detetive não era lá muito motivadora. se não se importa.

Daquele jeito. eu«! .Eu sei. eu não acho que« . produzindo um efeito sem igual: seus olhos.Eu não menti pra você! ± Acabei me exaltando ± Eu nunca mentiria pra você! Abikair ficou quieto um longo tempo. . chegando a andar comigo até o ponto mais próximo.Senhor. Não chegou a falar do irmão novamente. a luz da pequena janela refratava em sua íris. como Fernando.Não. Eu não duvido da sua sinceridade. já que. mas também pediu para que eu ficasse em alerta. Aquilo foi diferente. Não foi como contar alguma coisa ruim para um amigo. ele duvidar. fiquei mais atento ao que . Pouco falei nesse percurso. como que parte de seu diferente ser.« . O senhor Abikair passava-me estranhos sentimentos. pareciam aquarelas azuladas. .. Pediu para que eu não saísse da cidade.Você já mentiu para as autoridades antes. originalmente azuis. mas depois confirmar que continuava a acreditar no quer que você dissesse. . o que me deixou morto de curiosidade.Pessoalmente. inclinando-se para frente e ficando mais próximo de mim. Acompanhou-me até a porta de saída da delegacia de polícia. violetas e arroxeadas pinceladas de maneira espetacularmente vívidas. mas depois descruzou e apoiou os antebraços na mesa. ele acreditava na possibilidade de uma perseguição súbita por parte do assassino. Guilherme.E poderia muito bem estar fazendo de novo.

Ficamos nos encarando fixamente. simplesmente. uma vez que não estávamos nos falando direito. Precisava chegar logo em casa. Achar outros bonitos. como se fosse uma seda muito fina. com os olhos arroxeados. Ao ar aberto. E pensar em meu namorado não me animou mais. e cintilava a cada toque de luz. A verdade era que aquele detetive era. Tive que virar a cabeça para continuar olhando para ele. com aquela cara de provocante austeridade. conseguira me excitar com apenas um olhar. até que o veículo começou a se mexer. Não estava certo. Só ele costumava saber. não era também o melhor dos consolos. o brilho por eles exibido pairava o mesmo tom que tinha um vinho tinto. Entrei no ônibus. O cabelo era castanho escuro. e fugir de um homicida. Quem disse que seria fácil? . cheguei a olhar em volta para ver se mais alguém havia reparado. resolver de uma vez por todos os pepinos da minha vida: falar e juntar novamente os irmãos do apartamento ao lado. os cabelos diferentes. pareciam uma mistura de cores. meio às minhas pernas. Tudo nele parecia peculiar: o toque frio. me acertar com meu namorado. a postura. pude ver mais daquele homem tão contido em suas formalidades. Olhei para minhas mãos. mas logo veio uma curva. com uma grossa borda negra que continha as cores. tive a impressão de que seus ombros eram um pouco mais largos. Mas me desarmar com apenas o olhar. Sua pele era originalmente morena. ainda a tempo de ver seus olhos grudarem nos meus. depois de mentir para o delegado. enquanto que a cintura era mais estreita. tudo bem. Os olhos. o jeito de falar. escuros e penetrantes. um morenão que. ajudar o doutor Rafael com aquele complexo ridículo e Enzo com o sumiço do irmão. e o detetive ficou para trás. Uma excentricidade que me atraiu. e às dicas de proteção que o detetive me passava. o efeito que provocava. sentando mais ao fundo. Do mesmo tamanho que Fernando. cor de jambo.acontecia à minha volta. escondendo minha ereção com as mãos. cooperar com o detetive Abikair.« Isso só Fernando sabia fazer. Apoiei a cabeça no vidro. maravilhoso. o que estava acontecendo comigo?! Por que havia um volume começando a se erguer em minhas calças?! Senti-me extremamente envergonhado. os olhos severos. sem desviarmos os olhos. mas com as luzes da tarde. excitar-se quando se vê uma cena de sexo. a pele brilhante e morena. E acusar o irmão do detetive como assassino.

Então. apertei os olhos. e peguei-o com a mão direita. troquei a calça por um short e fiquei com as meias. nem comigo nem com Fernando. a mente em branco. não conseguia crer que ficara naquele estado com um simples encarar de olhos. arfante. o céu já estava escuro. a garganta apertava e ficava cada vez mais difícil respirar normalmente. antes que qualquer um dos irmãos notasse minha chegada. entretanto. o maxilar contraído parecia aumentar minha dor de cabeça. Tirei a camisa. isso era exclusividade do meu namorado. baixar os olhos não era a melhor das opções. o que estava acontecendo comigo?! Tá certo que o detetive Abikair era um homem bonito. Eu precisava fazer alguma coisa para resolver a minha vida. Lágrimas de ira riscavam ardentemente meu rosto. incomodado com o rastro das lágrimas em minha face. como tanto meus amigos me pediam. Com o corpo encolhido. Escondi os olhos no braço apoiado à janela. Um deles derrubou alguns livros da mesa. Quando respondi à saudação. Comecei a sentir raiva de mim mesmo. Meus olhos arderam. Encarei o telefone. mirando-o. puxei a porta das escadas e subi de dois em dois degraus até chegar em casa. Bufei. Eu não podia ficar tão desarmado só com o olhar de outro homem. com um corpo moreno artesanalmente esculpido. nem meio metro de mim. o que só me deixou mais raivoso ainda. mas quando finalmente consegui mover meu corpo. até que simplesmente não consegui mais me mover. principalmente no aspecto amoroso. do que estava fazendo com a minha vida e com a vida dos outros. meu braço estava pesado demais para se esticar até o aparelho. Meu peito doía tanto.Minha cabeça estava tão transtornada. socando o colchão repetidas vezes. Fernando ficou mudo e . Puxei na memória o número do ramal do loiro. Os toques cadenciados aumentavam minha expectativa. e virei a cabeça. joguei os travesseiros em qualquer direção. já que não achava prudente levantar antes disso. mordendo o lábio inferior como num velho hábito de indecisão. com a cueca melada?! Num acesso de raiva. O telefone estava na mesinha de cabeceira. Acabei descendo dois pontos depois do meu. Minhas reações não eram justas. Não sei precisar quanto tempo passei naquela mágoa de mim mesmo. Eu não podia continuar daquele jeito. Suspirei. quentes. Eu não podia nem fechar os olhos. não consegui olhar para os lados. mas daí a ficar« Não conseguia nem pensar na palavra. ele já devia estar no escritório. Entrei correndo no prédio. que ainda não sei como não perdi o ponto no qual deveria descer. àquela hora. Apoiei-o no estômago com as duas mãos. Afinal. Segui pelas ruas a passos largos. por que raios eu estava ali. Tranquei a porta. extremamente exótico. que o rosto de Fernando surgia diante de mim. e o outro quase voou pela janela. sentindo uma incrível raiva brotar dentro de mim. já estava para desligar quando a voz familiar atendeu a ligação. depois fui para o quarto e me escondi debaixo das cobertas.

.Hãm. -« O antigo silêncio voltou. eu« Não aconteceu nada. então nada mais justo do que eu puxar assunto. o que me deixou mais aflito ainda.Não. então. Que bom.« . Engoli em seco.« Oi. porque eu só escutava sua longa e calma respiração.Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? .Gui? .É.« Certo. pesado. Ouvia sua conversa com outras pessoas.É« -« . o barulho de uma porta se fechando e o fio do telefone sendo suspenso.Oi.pediu um momento. . . Sentia todo o meu ser se contrair.Hum. . . O fato de Fernando não falar nada também contribuía para o meu nervosismo. uma sensação de vazio dentro do corpo. fora eu quem ligara.

já fungando.Gui.Gui« Fala comigo« -« Fê? . Prendi a respiração. Meus olhos começavam a esquentar novamente. mas eu sabia que precisava falar alguma coisa. e ele deve ter percebido que eu estava uma pilha de nervosismo. Estava sentado na ponta da cama. . seu imbecil! Fala alguma coisa!´. o braço esquerdo sustentando parte do peso ao lado de minha perna. Mas não saía nada.-« Por que eu não consegui falar nada? Eu não sabia ao certo o que eu queria tanto falar. Limpei o rosto com as costas das mãos.« Tá tudo bem. só podia pensar. piscando muito para desembaçar a vista. trancando a mandíbula. qualquer coisa. As gotas quentes rolavam. mas eu não me importei. meu amor« Fechei os olhos. ³Fala alguma coisa. soltando uma expiração rápida outra vez. Novamente.Fê«? . desenfreadas. Gui? ± Sua voz era doce. mesmo? -« . delicada ± Que aconteceu? . . os dois pés apoiados no chão.Fala comigo. espremendo-os fortemente. Deixei que uma expiração rápida escapasse sem querer.Que foi. ouvíamos nossas próprias respirações. Apertei meus olhos.

Gui. . Como sempre« ± Solucei alto.« Volta logo pra casa. eu só« ± Respirei fundo. Precisava dele ao meu lado ± Tá tudo bem com a gente.Eu também.Te amo. Muito« . Gui. .Tá. tá? -« .Fê? -« Já tô indo praí. ± Aquelas palavras fizeram-me desabar ± Te amo.Nada. mais lágrimas brotavam de meus olhos. Espera só um pouco. .Tá. ± Funguei.Já tô chegando. que eu já tô chegando.Fê. colhendo novamente minhas próprias lágrimas ± Tá. . né? -« Claro. Gui.. . loiro. Vem logo.Tá. eu« Fê« . . não sabia o que dizer.

mas o ribombar produzido por meu próprio corpo pareceu somar-se aos goles que eu tomava. espernear. meu coração parecia retumbar mil vezes mais rápido. passava os canais. eu ir ao meu antigo trabalho ou me dispor a colaborar com a polícia. mas eu não conseguia me concentrar em uma única coisa. consolado. se o loiro me pegasse sem roupas depois de ter tomado banho. Comparado com o momento em que estava com o detetive Abikair. me dei conta de minha ansiedade. Com o controle. impaciente. minha ansiedade já não tinha mais canais para ser extravasada. O gringo iria gritar. Ele mesmo falara. Entrei debaixo do chuveiro. Esporro seria pouco para o que eu ouviria. destacados meio ao meu rosto claro. não havia mais com o que me preocupar. eu não precisava mais me preocupar com aquela falta de conversa. que sanou todo e qualquer vacilo meu quanto ao sentimento que eu tinha por meu namorado. pelado e molhado. com a ausência de toques mais íntimos. Contaria o que me havia ocorrido num momento mais pacífico. Vesti uma bermuda e uma camisa de manga curta. Pensei em sentar. Desliguei a tevê. Meus olhos ainda estavam vermelhos. mas no momento em que o fiz. Estava tudo bem. Enquanto me secava. Fernando chegaria a qualquer momento do trabalho. Foi quando eu acabava de grudar o velcro da bermuda que me toquei o que acabara de acontecer. conclui que aquele não era o melhor momento para Fernando saber do meu diazinho agitado. tentava ao máximo me acalmar. Fernando dissera que estava tudo bem. Respirei fundo depois de lavar o copo. tão facilmente? A dor que eu senti fora tamanha. falaria que era um absurdo eu sair sozinho e ir direto pra toca do lobo e esperar não ser mordido. qualquer ruído me alarmava. Entretanto. Desligamos o telefone mais ou menos na mesma hora. Não sabia onde colocar os braços. e assim que deixei o aparelho sobre a mesinha. ecoavam em meu ouvido. Não que nada fosse interessante. Honestamente. . não conseguia ficar parado. Caminhei até a cozinha. achei que ver um pouco de televisão me acalmaria. certo de que um copo de mate acalmaria meus nervos. levantei e fui ao banheiro. olhei para minha imagem no espelho. apontar o dedo e o diabo. O alívio era tão grande que sentei na cama e fiquei lá. estar de pé parecia mais cômodo. Minhas dúvidas eram besteiras. mas não parava em nenhum. não sei o que ele acharia pior.Nem nos despedimos. que pareciam adendos desengonçados de meu corpo. como eu poderia ter duvidado do amor que eu sentia por Fernando. Batucava a colher na pia enquanto esvaziava o copo de chá gelado. eu ia levar muito esporro. voltaríamos a ser como antes. Engolindo em seco. Quando terminei de puxar a barra da camisa. E lembrar do detetive me fez pensar se eu deveria contar ou não a Fernando o que tinha feito naquele dia. Os reflexos do pulsar de meu coração martelavam minha garganta. agora que não estava mais sentado. assim.

Afundei o rosto na curva de seu pescoço. mas descompassadamente. Por um momento. parecia que Fernando não sabia bem onde colocar as mãos. O loiro ainda respirava com dificuldade. Baixei a cabeça. Olhava para o teto. mas não saiu nada. nem quando ele começou a se aproximar de mim. fungando o perfume da pele sensível. que me fulminava com toda intensidade. o olhar era fixo. e cada segundo de espera me deixava mais nervoso. Ruídos para além da porta de entrada de meu apartamento se fizeram ouvir. arrepiados certamente por sua corrida até a casa. Engoli em seco. antes mesmo da porta estar totalmente aberta. foram seus fios dourados. . Sentia que estava prestes a chorar. segurando o encosto de umas das cadeiras da mesa de jantar. tentando distinguir a origem dos barulhos. Depois. Senti seus braços comprimindo-me contra seu corpo quente. Cada passo por Fernando dado tornava meus joelhos mais fracos. Nada mais passava em minha mente. m as o corpo estava estancado. Eu queria conversar com o loiro. a figura do gringo surgiu meio ao escuro do corredor. fiz menção de falar. e o barulho familiar de chaves soou para além de meus tímpanos. nada mais apertava meu coração a não ser a presença de Fernando. sabia que não conseguiria falar nada. Minha mão começou a tremer. mas eu duvido muito que fosse apenas pela corrida. Mas depois seu real desespero se revelou nas feições preocupadas. e ele venceu a distância entre nós enlaçando minha cintura estreitamente. e a folha de madeira se abriu. Permiti-me abraçar seu pescoço. as coxas junto ao peito. Seu cheiro adentrava minhas narinas com impressionante força. As esferas azuis não piscavam. Seu olhar era sôfrego quando as esferas azuis detiveramse em mim. falar qualquer coisa. Ele arfou. e eu levantei a cabeça rapidamente. sendo facilmente tragado por aquele profundo oceano com tormentas emocionais. senti uma de suas mãos soltar meu corpo para segurar minha face. de uma única vez. Não conseguia desviar meus olhos dos dele. de frente para a porta. minhas pernas pareciam bambas. Pisquei. A mão ainda segurava a maçaneta. Levantei. e eu não consegui reagir diante de tamanha beleza. como se muitas pessoas estivessem andando juntas. mas voltei a erguê-los. A primeira coisa que consegui enxergar. enlaçando-me forte ao homem que amava. apoiando a testa nos joelhos. Parecia uma marcha. meus olhos ardiam imensamente. agitado. deixando-me inebriado. e eu me senti prestes a cair quando ele parou a menos de dois passos de distância. Queria que o loiro chegasse logo. fazendo meu peito apertar ainda mais. Sua boca estava entreaberta. encarando meu namorado. Baixei os olhos por alguns instantes. As chaves pareciam estar desesperadamente sendo balançadas. meu joelho já estava cedendo. e fechei os olhos. ficaria travado e em angustiante silêncio. as rosadas maçãs do rosto a denunciar seu esforço. todavia ao mesmo tempo gostaria de poder adiar o contato.Sentei no chão. mas nada saia de minha entalada garganta. um estrondo ecoou no corredor. A maçaneta se torceu. impactante.

e encontrei a face de Fernando próxima a mim. e meus dedos deslizaram automaticamente para seus cabelos. e estávamos nos amando tão loucamente. mas eu não esperava que ele fosse cuidadoso. senti seu membro endurecer ainda mais contra minha virilha. Nossas línguas estavam saudosas. dos prédios de frente para nossa janela. Puxei a cabeça do loiro para o lado. A língua de Fernando lambeu meu lábio inferior. segurando meus dois pulsos e colocando meus braços acima de minha cabeça. do mundo todo. e meu baixo ereto roçou o dele. e rocei a língua em seu lóbulo. desejava mais contato com o corpo tão quente e desejável de Fernando. Éramos só nos dois. montei no tronco do gringo. Fernando me fazia esquecer dos vizinhos. Sentia chupões fortes na pele sensível de meu pescoço. . minhas pernas firmemente atadas em seu quadril. Ele gemeu. O gringo apertava o quadril contra o meu. descendo para o pescoço. sua boca entreaberta. Senti que era empurrado e dei de costas com a parede da sala ao lado da porta de acesso ao corredor. Abri os olhos. e por alguns segundos temi que meus tímpanos estourassem com tamanha intensidade de pulsação. da faculdade. e massageavam-se incansavelmente. Eu precisava de mais. Suas mãos afundavam-se em minhas coxas. o que só fez com que meu quadril se empinasse instintivamente. Meu coração ribombava como um tambor de olodum. e deixei que minha voz escapasse livremente. Rebolei levemente. Não agüentei me reprimir mais. posto que precisava daquele contato tão urgentemente quanto ele. Sentia que não conseguia respirar. com um impulso. desfiz o beijo na busca de ar e meu pescoço foi imediatamente atacado. meu corpo estava tão quente. Agarrei um de seus ombros. onde inconscientemente cravei meus dentes. que nem o tempo parecia existir. Fernando espalmou as mãos o suficiente para conseguir segurar minhas duas nádegas de forma a quase penetrar-me com os dedos médios. Eu arfava rápido. curvas. dando voltas. passando o outro braço por seu pescoço e. Suas bochechas mais que rosadas. demorando a conseguir concentrar-me para focar a imagem meio ao turbilhão de desejos e taras que me acometia. selvagens. minhas coxas apoiadas em seus antebraços. lambendo e chupando lábios superiores e inferiores.Piscando uma vez. a outra mão ocupava-se em apertar minhas nádegas. de Abikair. A franja arrepiada concedia-lhe um aspecto ainda mais ferino. Os cabelos revoltos agrupavam-se em tufos esporádicos por mim puxados e. seus dedos tocaram minha entrada. Fernando tomou minha boca não muito delicadamente. Ele me empurrou com mais força contra a parede. animalescos. um de seus dedos muito próximo de minha entrada. os olhos oceânicos direcionaram-se em minha direção. penetrando-os e agarrandoos com força. e parecia queimar ainda mais nos locais tocados pelo gringo. Senti-o cutucar de leve meu ponto. quando sentiu que era observado. me deixando louco. e um sorriso matreiro de dentes brancos brilhou rapidamente. os lábios vermelhos.

uma das mãos com os dedos enfiados entre minhas nádegas. Minhas costas bateram novamente contra a parede. o loiro empurrou a pelve contra a minha. Ele sugava fortemente o botão em meu peito quando me curvei e abracei sua cabeça. e o queria naquela hora. Eu o encarei. Minha garganta arranhava enquanto Fernando lambia e sugava a frágil pele de meu pescoço. Os olhos azuis cintilaram perigosamente em minha direção. eu precisava de Fernando. seu volume rijo quase a rasgar nossas calças. aumentando a louca sensação que a adrenalina causava em mim. A língua ainda pressionava a carne túrgida. depois lambendo e chupando o local machucado. Meu quadril jogava-se inconscientemente contra o do loiro. arfando. e foi ainda melhor quando ele arrancou minha blusa e abocanhou um mamilo enquanto o outro recebia atenção especial de uma de suas mãos. De repente.Aaahhh« Fechei os olhos para gemer. os cabelos despenteadamente selvagens. Ele piscou. Respirei fundo. se . Ele ainda estava com meu mamilo na boca. colando a boca em seu ouvido e falando uma das frases que até hoje tenho vergonha de repetir. Ainda não havia erguido o torso completamente quando Fernando. depois de fechar a porta. os lábios avermelhados. e minhas pernas tremiam precariamente.Agarrei-me a ele.Que foi. eu devia estar parecendo um garoto de programa bem devasso que se oferecia de graça. porque pela reação do gringo. tão imprensado contra mim. Senti que estávamos nos movendo. mordendo-o com força.Me fode« Meu sussurro saiu rouco. meu coração louco bombardeava meu peito. e nem um segundo depois eu já estava sendo fortemente beijado. e vê-lo daquela maneira tão provocante me fez erguer umas das sobrancelhas e rir de lado. loiro? Quer que eu repita? Obviamente que não precisei repetir. Mal chegamos ao nosso quarto. mas estava impossível suportar mais daquela tortura. Acho que devo ter mostrado uma cara muito safada. Foi só eu terminar de falar que a língua do gringo parou. . quando ergueu a cabeça para olhar para mim. eu sentia que estava me descontrolando. uma dor deliciosa me incitou a morder Fernando com mais força. e rebolei devagar sobre o volume de Fernando. fui arremessado para a cama. Procurei novamente seu pescoço. . Era bom demais ter o gringo daquele jeito. seus dedos definitivamente querendo penetrar por minha bermuda. .

agarrando minhas coxas com firmeza. Senti automaticamente que meu volume crescia e endurecia a cada novo roçar do gringo. de súbito. sorrindo involuntariamente. Fernando segurou minhas pernas bem abertas. Aliás. mas ficou ainda mais difícil colocar qualquer ar para dentro dos pulmões e. Primeiro ele apoiou a mão espalmada. Depois. meu corpo esquentava rapidamente. separou minhas virilhas. e acho que Fernando também não estava agüentando muito. e afundou novamente o rosto entre meus documentos. às vezes minhas contrações involuntárias eram de dor.livrou das próprias roupas e colocou-se nu sobre meu corpo. O pano de minha bermuda era muito fino. Uma das mãos veio auxiliar a carícia. Nosso ritmo estava muito rápido. Eu já respirava com a boca há muito tempo. Mas eu não me importava. portanto ficava mais fácil sentir e distinguir qualquer coisa. Os olhos oceânicos fixaram-se nos meus. para meu profundo êxtase. era mais um motivo para eu esquecer de fazê-lo direito. se fosse Fernando. me levando ao delírio. uma de suas mãos massageando meus testículos enquanto a outro tocava um de meus mamilos. Levei minhas mãos ao cós de minha bermuda. que saía livre para ecoar por toda a casa. Não controlava mais minha voz. a tênue luz dos postes da rua fazia com que fracos feixes luminosos refletissem o brilho daqueles cabelos dourados e da pele beijada pelo sol. nunca daria pra escapar. Empinando o traseiro. . O modo como seus músculos se contraíam só para que seu torso ficasse erguido me fascinava. ele deitou a cabeça sobre meu baixo. Fernando acariciava a cabeça de meu membro arrastando a língua. Passando os braços por baixo de minhas coxas. massageava meus testículos e. e então a cabeça loira abaixou-se. Suspirei. como respirar parecia um jeito de me controlar. e como o nosso primeiro beijo. sugando mais forte que o de costume. Perdi o apoio dos braços ao agarrar o lençol e puxá-lo. o loiro ajoelhou-se entre minhas pernas e. conseguindo tocar desde meu membro até os testículos. Suas mãos pressionavam minhas partes. Vi-o jogar a peça para trás e voltar a se afundar entre minhas pernas. penetrou-me com dois de seus dedos já úmidos por minha própria semente. dessa vez. Minha barriga contraiu-se sozinha. Os movimentos felinos me hipnotizavam quase ao ponto de babar. fazendo questão de tocar cada coisa de uma vez. ele mal me despira e sua boca já abocanhara meu membro. brilhantes e provocantes. chegando a erguê-las um pouco. nem se eu quisesse muito conseguiria escapar. Os toques não eram nada delicados. porque no pequeno instante que se separou de mim foi para sumir com minha bermuda e minha cueca. queimando-me como se estivesse em uma fogueira gigante. Eu estava me sentindo completamente preso. Era Fernando. seus toques eram mais eficazes do que carinhosos. minha cabeça quase bateu na cabeceira da cama. mas ele não me deixou tirá-la. levantei um pouco e apoiei meus braços atrás do corpo para ver melhor o que Fernando estava fazendo para me deixar tão excitado.

passando sua língua para dentro de minha boca. Senti que estava muito próximo do alívio. O jeito como ele apertava os olhos e o tom de voz denunciaram que ainda não havia prazer naquela invasão.Ué«? Você não queria« que eu te fudesse? Vi os olhos oceânicos cintilarem em minha direção. Eu gemia. selvageria. me posicionando melhor. Queria mais de nossa intimidade. Fernando gritou alto e forte. voltando meu corpo e deixando-me de ponta a cabeça para ele. Bem. puxei-o para um beijo. Abracei o corpo em brasas e fiz com que Fernando ficasse sob mim. afinal. Empurrei seu corpo contra o colchão. quase esmagando meus braços. Depois passou a língua pelos lábios e. quase rasgava o lençol de tanto puxar por meu corpo estar tão trêmulo. dava pra perceber que ele queria continuar ali. me torturando. quem havia desempenhado esse papel fora eu. não era à toa. iniciou um beijo feroz. voltando minha atenção para o que estava logo à frente de meus olhos. desejo. então agarrei o gringo pelos cabelos e tirei aquela boca quente e safada de meio baixo. nossos abdomens se encontrando. Entretanto foi só dar uma atenção especial a um de seus mamilos rijos e seu membro que o loiro relaxou. Ele tentou me tirar de lá. De primeira ele me olhou feio. enfiei dois dedos em seu pequeno orifício. me enfiei dentro dele. E eu não perdi tempo. .. Aqueles pêlos claros« Aposto que poucos tinham pêlos claros como os de Fernando num lugar . Senti meu próprio gosto naquela língua macia e experiente.Ah« Ah« Isso« Ah« Eu não sabia o que fazer. aquele jeito diferente e agressivo do loiro de me excitar estava me fazendo perder as estribeiras. me chupando igual nunca havia feito. mas puxou-me para junto do corpo e. empurrava minha pelve contra seu rosto. enfiei minha língua na entrada dele enquanto brincava com seu membro. Dei um sorriso de lado. Agarrei suas coxas e as abri. e assim que minha boca encontrou com seu baixo. nas últimas vezes. cheios de luxúria. .Aaah« Ai« Eu senti que fora um gemido de dor. Aquilo me excitou tanto que eu estava decidido a arrombar Fernando. agarrando-o pelo braço. mas eu não saí. e abri um pouco as pernas. Assim que percebi que meus dedos deslizavam com mais facilidade. mas não me importei. Deitei sobre seu corpo.

Já estava esperando por seu suco. esfregando minha língua na ponta e massageando seus testículos. abocanhei-o. Não agüentei o peso do meu corpo e caí de cara no colchão.Aaahh« Espera« Loiro« Eu vou« . Ainda segurava o membro do loiro em minha boca. Não demorou nem um minuto. enquanto meus dedos cuidavam de sua entrada. sentia que seus dedos ainda estavam dentro de mim e. mas Fernando estava incrivelmente resistente. Sem dó. Uma de minhas pernas foi agarrada. e senti-me penetrado com tanta firmeza quanto estava penetrando. enfiando-o em minha boca. E foi tão sem aviso quanto eu o havia feito. agarrei seu membro duro e melado. O membro dele se arrastou por meu corpo. Meu corpo tremia debilmente. aquele barulho típico de corpos e choque e algo muito úmido sendo batido. A partir de movimentos bruscos. ainda sendo impulsionado para frente e para trás. Gritei. mas tive que me deter. meu traseiro empinado. como ele havia feito comigo. sugando o mais forte que pude. e vi estrelas quando o gringo me virou de frente para ele. minhas pernas arreganhadas. e eu gritei de êxtase misturado à dor. enfim. encontrando-se brevemente com meu próprio membro para. por isso meus gemidos saíram sufocados. Não demorei muito para me aliviar novamente. e me aliviei na boca dele. cutucar minha entrada. na nossa primeira experiência na posição ³69´. quando senti meus flancos serem agarrados o suficiente para que Fernando saísse de baixo de mim.como aquele. Ele ainda estava rígido como uma pedra quente. Sentia meu corpo ser jogado para depois ser trazido de novo pelas mãos que seguravam com força meus flancos. o loiro me colocou arqueado sob si. Sentir seu membro entrando e saindo de . Com um espasmo. e seu corpo começou a tremer tanto quanto o meu. Não sei precisar quanto tempo ficamos assim. encostando o rosto em sua virilha. a boca do gringo envolveu-me com volúpia. melando meu abdômen. olhando fixamente para o baixo do gringo. Seu baixo entrou torturante por minha entrada. Ele não esperou que eu me acostumasse com seu volume túrgido e começou os movimentos forte e rapidamente. me sentindo insano. .Hungh« Hunf« Hum« -« Ah! Apertei o tornozelo de Fernando. os mamilos duros de Fernando raspavam em minhas costas.

suados e cansados. suava. para depois fixar-me novamente nas esferas azuis. seus dedos afundaram-se em meus cabelos molhados. e o que estava a nossa volta também. Eu não sabia o que ele queria me dizer com aquele olhar silencioso. e eu para outro. Nossos olhos não se desgrudaram. mas era quase impossível fazer aquela sensação de excitação desaparecer. Beijava-o insanamente enquanto sentia que sua semente me preenchia ternamente. agarrou-me gentilmente pelo tronco e me trouxe para perto de si. E finalmente. a pele parecia reluzir e a face estava muito corada. e depois girando« Berrei. sabia que era a mão grande e precisa de Fernando. Estávamos arfantes. a outra mão segurava minha nuca. e se aliviou. depois deitou a cabeça em meu peito. os cabelos tinham as pontas molhadas pelo suor. embora eu estivesse cansado demais para virar a cabeça imediatamente. os olhos apertados. Minha entrada latejava. Ele piscou. Calma e tranqüila. e senti sua mão esquentar-me o sangue. minha outra mão passara por trás de seu pescoço e repousara em seu ombro. nós desmontamos. minhas mãos alcançaram automaticamente seu pescoço e eu puxei sua boca para juntar-se a minha. Ele respirava com a ajuda da boca. ouvia meu coração bater forte. mas eu ainda tremia de prazer. Trouxe o corpo para o lado. Segurei com delicadeza seu rosto. e Fernando aproximou o rosto. ainda sustentavam aquele ar selvagem e perigoso. gozava. Olhamos-nos. seu toque suave em meu peito me disse que ele estava tão esgotado quanto eu. suspirando. nos analisando. mirando-me inexpressivo. abrindo o peito na tentativa vã de me controlar. e depois ficamos nos encarando por um longo tempo. Até que o loiro respirou mais fundo. mas era sua respiração em meu peito que mais mexia comigo. Até que Fernando se enfiou tão forte dentro de mim que eu achei sinceramente que iria desmaiar. A voz grave me deu calafrios. Beijei . Seu gemido foi longo. distantes. ficando de frente para o loiro. gemia e tremia. Fechei os olhos. Eu estava explodindo. Fernando caiu para um lado. passamos minutos apenas nos olhando. Abraçamos-nos. uma sensação úmida em minha entrada. abraçando seu corpo e acariciando seus cabelos. e beijamo-nos devagar. O calor parou acima de meu coração. rouco e delirantemente luxurioso. Os olhos. A cama estava toda suja. Porém. Esquecemos de nosso bloqueio. tão expressivos. Algo tocou minhas costas e. Esquecemos do tempo. senti seus lábios macios pressionarem-se contra os meus. Nossas línguas se encontraram. Esquecemos tudo aquilo que existia entre nossos corpos. tudo ao mesmo tempo. mas eu também não queria falar nada com minha mirada constante e meu silêncio mórbido. O corpo quente me esquentava. O loiro desfez o beijo. Puxava o ar com força para dentro de meus pulmões. desarrumada.mim tão forte. Expirei. Eu estava doido por causa do sexo selvagem que acabáramos de fazer. Suspirei. como se nunca nada tivesse acontecido para que problemas surgissem em nosso relacionamento. Fechei os olhos.

vesti uma samba-canção e peguei uma de suas muitas blusas estampadas. Ao mover as pernas. Seus cabelos finos estavam completamente desalinhados. A que eu colocara na oportunidade dizia ³Good at being bad´. . acariciando-os. segurei minha cabeça e fiquei observando suas feições serenas.Wow! ± Me assustei. e fiquei impressionado em como ainda não havia reparado que Fernando estivera adormecido ao meu lado durante todo esse tempo. Adormecemos assim. Eu nunca havia feito um sexo tão animal como aquele! Fora pervertido. Suspirei. Estava colocando leite em um copo quando braços circundaram minha cintura. Foi difícil me concentrar em fazer torradas com aquele cheiro tão delicioso. beijando meus lábios. Apoiei meu braço ao colchão. mesmo que sem o carinho cuidadoso de sempre. no entanto. Levei meus dedos aos fios loiros. Superando a preguiça.seus cabelos. devasso. murmurei palavras doces. eu não podia deixar de sorrir e sentir meu peito esquentar só de lembrar de como Fernando havia me amado. não assustado. completamente envergonhado e com medo de sujar o chão no caminho. Arregalei os olhos. mas surpreso: não havíamos usado camisinha! A semente de Fernando ainda estava dentro de mim. Não havíamos trocado uma só palavra de amor e. derramando um pouco de leite.Bom dia« ± Seus lábios roçaram minha orelha. sem noção de espaço e tempo. e parecia escorrer. estava de bruços com a cabeça virada para mim. Acordei um pouco atordoado. Respirei fundo. e foi ao tentar levantar que me dei conta do ocorrido. . A barba estava começando a crescer. Fechei os olhos. decidi fazer o café da manhã para nós dois. como que tomando coragem para mexer qualquer músculo. animalesco«! No entanto. . e o perfume inebriante de Fernando adentrava efetivamente por minhas narinas. senti algo melado entre as coxas e em minha entrada. Ele acariciou meu braço em resposta. e meu corpo estava cansado. Meus olhos ardiam com a claridade. quando finalmente lembrei do que havia acontecido na noite anterior. lascivo. sem pensar em mais nada a não ser na felicidade que estava sentindo naquele momento. Tomei um banho. quando tentei me levantar. tomando coragem para sair da cama e senti algo deslizar por minha lombar. Coloquei a mão em concha entre minhas nádegas e caminhei devagar até o banheiro. fazendo com que eu ficasse arrepiado. depois escorreguei minha mão por sua face. aquele me pareceu o ato mais passional por nós dois praticado.

as esferas azuis ainda sustentando o olhar.. suspirando ± Só fica do meu lado. tombando a cabeça ± Não fui muito delicado com você. ± Passei meus braços por seu tronco. .« por semana passada« Por tudo.Você tá bem? ± A voz veio baixa. cuidadosa. ± Virei o corpo. ontem« . acariciando minha face. Jogou meus cabelos para trás. . .Eu não preciso que diga alguma coisa.Eu não esperava que fosse. ± As sobrancelhas arquearam-se. afastando-me um pouco do abraço e olhando para as esferas do loiro. ficando de frente para ele e tocando seu braço ± E você? . Repousou uma das mãos em meu rosto. Fernando não parecia estar . encarando-me. Embora o foco de suas pupilas estivesse em mim. puxando-o para mais perto.Tô. ± Abracei o gringo. -« Desculpa. Franzi o cenho.Desculpar pelo quê? . ± Piscou. Fernando fixou os olhos nos meus. Fê« .Bom dia. -« Eu não sei o que te dizer.Também.Por ontem.

Eu não estava preocupado ao chamar Enzo para meu aniversário porque sabia que haveria mais pessoas com as quais ele poderia conversar sem ter que se sentir . . agradável. fomos à faculdade. ± Respondeu. um pouco desconcertado. . como se aquele fosse um dia qualquer.Escuta. Meneei a cabeça negativamente com um sorriso nos lábios. Sentamo-nos à mesa e comemos nosso desjejum conversando trivialidades. O que importa é que a gente tá bem agora. E o que aconteceu. porém terno. O clima estava leve. Nada demais. você. despedindo-se com um beijo rápido. Depois de nos arrumarmos correndo.exatamente me olhando.Tô pensando em fazer alguma coisa. Thomas e Igor. mas« Vi as mãos claras de Enzo se abraçarem. e ele riu gostosamente. e eu me sentia renovadamente confortável.Eu sei. meu aniversário« . como que o acordando. que me recebeu com um sorriso amigável e assisti às aulas sem maiores problemas. agradeço o convite. No segundo tempo. só pros mais chegados. Segurei seu rosto com as duas mãos. Rimos juntos. . eu lembro.Eu sei. nem por semana passada nem por nada. porque com momentos tão bons esquecemos da hora. De praxe. aproveitei a folga depois dos exercícios que o professor havia mandado para conversar com Enzo. tipo nós dois. Eu não me arrependo nem por ontem. . como se ele não soubesse muito bem onde colocá-las. o loiro me deixou à porta da sala. .Não parece! ± Puxei seu nariz. talvez o doutor Rafael« . Fê. e beijei sua boca rapidamente.Guilherme. Sentei-me ao lado de Enzo. eu particularmente não conseguia me conter depois dos comentários irônicos que Fernando soltava.Esquece isso. aconteceu.

os olhos em mim. Guilherme.Eu. rodando o pescoço e voltando a olhar para Enzo.Você não acha que a gente merece mais que isso? -« Os glóbulos voltaram-se para o lado. . Sacudi a caneta preta em minhas mãos.mal. . como se Enzo estivesse imerso em seus próprios pensamentos e analisasse com cuidado minhas palavras. ± Apoiou o queixo na mão. você sabe. Seus olhos esverdeados ainda me encaravam à espera da conclusão de minha frase. . Os lábios levemente avermelhados deram um sorriso de lado.« ± Coçou a nuca de cabelos louros ± Acho que ainda tá muito cedo. . Enzo.Se a gente quer continuar a amizade. . as esferas castanhoesverdeadas dirigiram-se para baixo e embora ele tenha respirado fundo.Pra« Ah. né? Eu sei que por enquanto a gente tá como colegas. mas« Hunf« Suspirei. uma hora ou outra a gente vai ter que se encarar.Cedo pra quê? ± Não era ingenuidade.Não. obviamente falando de seu olhar fixo em mim. Não esperei por sua resposta. . .Por que não? . não sei.Eu já não faço isso? ± Indagou. a gente precisa de laços. mesmo. como que num movimento de ansiedade. . eu realmente não compreendia Enzo. não disse nada.

Claro. Meu coração pulsava dolorosamente. foi tão insistente que depois de cinco chamadas. tentando me conter.Guilherme.Ah! Sim. . as íris tão azuis que beiravam o arroxeado. Abikair. sentia uma estranha sensação escorrer por minha coluna e minhas entranhas reviraram incomodamente. . a imaginei do detetive Abikair e toda sua fisionomia exótica e atrativa: seus cabelos escuros de tons vinho. Imediatamente. ± Olhei para o meio de minhas pernas. pois não? . . e eu agarrei meu próprio membro.Você preencheu o formulário com seus contatos. saí de sala para atender o infeliz que me importunava. o olhar expressivo. pode falar. correndo para entrar num dos boxes do banheiro. mais um motivo para não atender a uma ligação no meio da aula. meio irritado. eu« Como conseguiu meu número? .Alô! ± Atendi.Guilherme? . ± Sua formalidade era notória ± Tem um minuto? .Está ouvindo bem? . contidas em grossas bordas negras. detetive. a pele morena como bronze polido« Meu corpo reagiu. Mas fosse quem fosse. .voltei minha atenção ao celular que vibrava em meu bolso. sentindo-me perturbado. O número me era estranho. os ombros largos e a cintura delgada.Estou. sou eu. Engoli em seco.

- Vou precisar que você compareça à delegacia. Ainda não posso precisar a data, mas acredito que seja daqui a três dias, dia 27 de outubro.

- Ah,« E que horas?

- Durante a noite, não vou arriscar sermos vistos por ninguém, nem de dentro nem de fora. ± Respondeu, veemente.

- Não tem como ser em outra data, detetive Abikair?

-« Por quê?

Senti meu baixo pulsar em minha mão. Não era possível que estava reagindo assim somente com a voz do detetive por telefone. Joguei a cabeça para trás, sentando-me no vaso sanitário e apoiando a testa na parede do boxe. Respirei fundo, fechando os olhos; ele devia saber que eu me sentia assim, devia fazer de propósito.

- Guilherme?

- É meu aniversário, senhor Abikair.

- Oh! ± Ele pareceu verdadeiramente surpreso; adoravelmente surpreso ± Verdade, não havia reparado isso no formulário. Perdão.

- Que isso, detetive.

- Não, Guilherme, foi falta de atenção minha. Mil perdões. ± O barulho indicava que ele havia acabado de sentar ± Na noite seguinte, então? Dia 28?

- Tudo bem.

- O endereço que você deixou é mesmo o seu?

- É, sim. Por quê?

- Não vou deixar você ir à delegacia sozinho durante a noite, Guilherme. ± Censuroume, como se eu não percebesse o óbvio.

- Mas eu tenho com quem ir, não precisa«

- Eu não estou perguntando se tem quem te leve ou não à delegacia, Guilherme. Também não estou pedindo que aceite que eu o escolte. ± Me calei, surpreso ± Eu VOU escoltá-lo, queira você ou não, porque caso você não tenha percebido ainda, você é uma testemunha ocular de um seqüestro combinado com homicídio.

- Eu sei, senhor Abikair«

- Não, Guilherme, acho que você não sabe a dimensão da situação em que você se meteu ao entrar naquele quarto. ± A voz de Abikair era potente e severa, embora em baixo volume ± Estamos falando de um criminoso seqüestrador e assassino que está à solta, esperando pacientemente o estagiário tolo sentir-se acomodado à falsa sensação de segurança para esticar as pernas em algum local provável para dar um fim à única pessoa que pode comprometer sua identidade e liberdade.

- Eu«

- E como você bem sabe, eu não sou dessa cidade, nem desse estado. Venho perseguindo os passos desse criminoso há algum tempo, e nunca antes chegamos tão perto de poder prendê-lo, uma vez que nunca antes conseguimos evidência ou testemunha alguma para incriminá-lo. Essa é a primeira vez que alguém consegue cruzar seu caminho sem morrer no processo. E se eu precisar escoltá-lo da sua casa até a

delegacia com mais quinze policiais à paisana, por mais que sejam dois metros de distância, é isso que vou fazer!

Ouvi o detetive respirar fundo, ainda quieto. Eu não sabia se estava levando esporro ou se, depois de tanto tempo atrás do cara, como ele mesmo dissera, o detetive Abikair apenas sentira a extrema necessidade de extravasar um pouco. Continuei calado, meio sem jeito de dizer qualquer coisa. Conseguia ouvir a respiração levemente descompassada de Abikair, e fechei os olhos, imaginando como ele estaria naquele momento: sentado atrás de sua mesa, de pé e apoiado à parede, sentado sobre a mesa ou deitado em sua cama, nu, o corpo ligeiramente molhado pelo banho que acabara de tomar, os cabelos úmidos jogados ao colchão, o peito«

- Guilherme?

Acordei de meus devaneios luxuriosos quando a grave voz adentrou por meu ouvido e arrepiou os pêlos de minha nuca.

- Sim?

- Perdão novamente. Eu falei demais.

- Tudo bem, detetive. Deve ser bem frustrante tentar pegar um cara desses e nunca conseguir. ± Levei a mão à boca assim que terminei a frase; o que eu estava insinuando, que o detetive Abikair era incompetente?!

- É, Guilherme. Mais do que se pode imaginar. E esse em especial é meu calcanhar de Aquiles.

Tombei a cabeça para o lado, sorrindo de leve. As palavras de Abikair pareciam as de uma criança que admitia que não conseguia alcançar a prateleira de cima: sinceras e fofinhas. Dei de ombros, finalmente consegui tirar minha mão de minhas partes íntimas.

Certo. . o senhor consegue.Claro. . meu membro não parava de ficar túrgido só de lembrar daquela voz grave e rígida ao meu ouvido. ± Aquelas palavras me fizeram morder os lábios. dessa vez. irei prontamente encontrá-lo. . Guilherme. também.Se precisar de algo.Eu acredito no senhor. liga para este número.Você também. . E espero contar com sua ajuda. Eu não conseguia entender por que o detetive conseguia.Não faça isso com você mesmo. levando a outra à testa. Apertei o celular em minha mão. . meu quadril ameaçava jogar-se para frente e para trás. imaginando qual seria a explicação para aquela reação. Estava acontecendo de novo. mas a única coisa que consegui foi um silêncio profundo quebrado apenas pelo barulho de minha própria respiração. . . Isso tinha que parar.Pode deixar. detetive. dia 28. Então. Suspirei fundo antes de desligar o aparelho. Olhei para o teto. Mas até então.« Dia 28. Eu estava nitidamente fora de controle. me tirar do sério.Espero que sim. detetive. Guilherme« ± Murmurei para mim mesmo ± Não faça isso com ele« . . Eu sei que.. com absurda facilidade.Tenha um bom dia. certo? . É meu celular pessoal.Eu ligo confirmando.

Apoieime com as duas mãos na pia de granito rajado. .No celular. né? .Inspirei profundamente e expirei com força. . Você saiu para atender. chamavam a atenção se olhados mais de perto. e os cabelos no corte desalinhado emolduravam um rosto meio quadrado. meio oval. Não demorou muito e o sinal do término da aula soou. Os lábios pouco pronunciados davam contorno a uma boca sem graça. Arrumava minhas coisas quando notei que Enzo ainda estava sentado ao meu lado. ± Continuei a juntar minhas coisas e enfiá-las na mochila. . mas não é a mim que você afeta quando mente desse jeito. . muitas pessoas no corredor me faziam desviar e chegar lentamente à sala de aula. Encarei-o por algum tempo. Os olhos cor de mel. balancei a cabeça e juntei minhas mãos entre as coxas ao curvar o tronco. Acalmei-me um pouco.Ao banheiro. e encarei meu rosto. -« Hãm? . sem entender muito bem o que ocorria. atípico na minha família. depois guardei o celular no bolso e fui lavar o rosto. A pele clara contrastava com os cabelos castanhos escuros. Não era ninguém.E quem era? ± Franzi o cenho. Estalei alguns dedos no caminho de volta. Passei mais uma água no rosto antes que meus olhos descessem e eu começasse a pensar em como não gostava de meu corpo. sim.Ah.Eu não me importo de você não falar quem era.Onde você foi? .

alguém comentou alguma coisa? . e provavelmente foi por isso que Fernando notou que alguma coisa acontecera.Não. . Fernando apenas ergueu as sobrancelhas quando baixou os olhos para o saleiro em forma de anuência. . dessa vez muito mais pesado do que antes.Não. ainda mastigando minha couve. ao terminar de mastigar um pedaço de nhoque de aipim. Quando chegamos ao estacionamento. O jeito como me olhava enquanto comíamos me pressionava. imaginando se agora era o momento de falar para Fernando que eu estava cooperando com a polícia. Limpei a boca com o guardanapo e tomei um gole do meu suco. .Tenho. Por que. Ergui as sobrancelhas. agora no carro. engolindo a comida. Gui? ± Levantei os olhos pra ele. Chegamos em casa e Fernando foi direto para o banho. Fiquei quieto na volta para casa.Enzo levantou-se. Olhei pela janela. ele sorriu de lado e apoiou as costas ao batente da porta. e ficava difícil continuar sustentando o ar de normalidade a cada momento.Aconteceu alguma coisa. Cada garfada parecia um sacrilégio. Ainda estava com a agenda na mão quando o acompanhei com os olhos e encontrei meu namorado à porta de minha sala. nada. os braços largados. . Joguei a mochila na cadeira de nosso quarto e deixei que meu corpo caísse sobre o colchão. Estávamos almoçando num restaurante perto de casa quando. Ele ainda me mirava. o garfo suspenso pela mão esquerda. eu sabia que ele ainda voltaria no assunto. a outra mão parara o movimento e o saleiro ficara na diagonal. Mas apesar disso. Acabei de arrumar minhas coisas e desci as escadas junto a Fernando. ± Continuou o movimento com o saleiro ± Só achei você estranho. O loiro não falou nenhuma palavra sequer depois disso. os olhos azuis fixaram-se incomodamente em mim. tá tudo bem. colocando a mochila num dos ombros e foi embora. o carro vermelho de Enzo já havia partido. como se o gringo estivesse me comprimindo contra uma parede. e meneei negativamente a cabeça ± Tem certeza? Parei de mastigar por uns instantes. Formou-se novamente um silêncio no carro.

tentando tirar minha atenção do corpo pecaminoso de Fernando e prestar mais atenção em seu olhar. Fê. aí havia outra dificuldade.Quê que tá acontecendo. rolando e ficando de barriga para baixo. Sentei com as pernas flexionadas numa típica posição defensiva. . e esse era um provável motivo para ele ter me dado a resposta que me deu. Senti o colchão afundar. . já que eu não poderia falar com os dois ao mesmo tempo. Porém. guardou para si mesmo quando fechou a boca e expirou longamente. apoiando-me com um dos braços atrás do tronco e levando meus olhos aos deles. Suas mãos abraçavam-se comodamente enquanto descansavam em seu colo. embora sua cabeça estivesse em minha direção. Espreguicei-me longamente. Apoiei a cabeça num dos braços. .Não foi nada. a toalha amarrada à cintura fazia uma fenda profunda sobre a coxa direita e o torso nu brilhava por ainda estar úmido do banho.Como não foi nada?! ± O loiro estava se alterando rápido. subi um pouco a barra da camiseta porque a janela fechada fizera com que o quarto ficasse abafado. Cocei a nuca. Continuei imóvel ± Eu sei que aconteceu alguma coisa. Gui! Eu não sou idiota! . e troquei a camisa de malha por uma camiseta confortável. mas nada mais que isso. Eu não sabia por que não conseguira falar para Enzo que estivera conversando com o detetive Abikair logo depois de ³criticá-lo´ de não se permitir criar laços novamente comigo.Eu não vou continuar essa conversa com você gritando desse jeito. Fechei os olhos e.Desfiz-me das calças. desviando o olhar. o típico hábito de gesticular se manifestando ± Claro que aconteceu alguma coisa. olhar esse que não estava para muita simpatia. o outro flexionado de modo que a mão ficasse frente à minha boca. ± Declarei. Com as duas mãos colocou os cabelos para trás. como se estivesse fazendo um enorme esforço para entender alguma coisa. Gui? ± Fernando ergueu os ombros. e você não tá querendo me contar. suspirando. Torci o tronco para olhar o gringo. O gringo tomou ar. . permiti-me um descanso mental. mas fosse o que quer que fosse. Encaramos-nos por um tempo até que suas sobrancelhas se ergueram levemente e eu entendi que ele estava ali para conversar. que se sentara de lado para mim. Respirei fundo. trocando-as por um short confortável. Engoli em seco. refletindo que talvez fosse melhor compartilhar desse segredo primeiro com os irmãos do apartamento ao lado.

Que merda. porra! Já estava pronto para retrucar. e eu recuei o corpo. . porém só conseguir arregalar os olhos enquanto as palavras morriam em minha garganta. . eu já disse! . ele sabia e sabia principalmente que eu também sabia disso. mas só consegui que suas sobrancelhas se arqueassem mais.parando o movimento quando as mãos alcançaram a base do pescoço. Baixou a cabeça. Mas logo pareceu se arrepender ao fechar os olhos e levar uma mão aos olhos ± Por favor. .Nada. volta pro arranca-rabo. pára de mentir pra mim. e não passa um dia. permaneceu em silêncio por alguns segundos até que finalmente virou os olhos para mim.Você tá brigando! Você que tá gritando! ± Argumentei. .A gente não tá brigando. nunca tinha me sentido assim com você! Não tô entendendo o que aconteceu nesse tempo pra você ficar me escondendo coisas! ± Girou o corpo. . . ficando completamente de frente para mim ± Que eu te fiz. as expressões muito sérias e com um ar de gravidade.E eu não estaria gritando se você me falasse a verdade.Por que a gente sempre briga depois que transa? ± Franzi o cenho ± A gente teve um sexo tão gostoso ontem. que te deixou desse jeito e eu não sei?! O que você tá me escondendo?! .Pára de negar! ± Berrou. Guilherme! Eu nunca tinha transado com você daquele jeito.A gente tá brigando! . Fernando estava certo.

não adiantava nada pedir calma a alguém se você mesmo estava irritado. Levantei. baixaram-se até suas coxas. ele ainda me encarava.Fernando. okay? . e estendi a mão espalmada para que Fernando não se levantasse. As mãos. . Fernando tinha dedos longos e elegantes. cansado da troca de argumentos inflamada. Dei a volta. mas não revidou com qualquer grosseria típica de quando se enervava e passava dos limites. só que em outro momento. que haviam parado meio ao seu processo de gesticulação. mas não eram finos. Não consegui decidir. e sim com austeridade. apenas fiquei encarando meu namorado em seu sofrimento silencioso com um dilema difícil degladiando-se em meu íntimo: contar a Fernando que eu havia ido ao meu trabalho e encontrado com Flora. Seus olhos. Recolhi as mãos bronzeadas de cima de suas pernas. afinal eu não estava saindo do quarto. . mas eu decidira que o melhor seria contar ao loiro tudo. e meu silêncio só irritava mais ao gringo. Respirei profundamente. ou continuar escondendo até uma hora mais apropriada. porque te arrombei demais?! . onde descansaram e assentaram-se abraçadas.Foi porque fui violento demais com você?! Você não queria daquele jeito?! Ou foi porque a gente fez sem camisinha?! . Suspirei.Não consegui falar nada. Via-o me olhar de cima.« ± Tentei começar. mas correndo o risco de o loiro ficar verdadeiramente magoado comigo.« Escuta. Ele esperava por alguma revelação minha.« Vamos falar disso depois. segurando-as com as minhas. depois voltei meus olhos para meu namorado. .Fê. sem trégua. Olhava-me um pouco surpreso. não com arrogância. e o gringo ficou quieto.O que foi?! Foi porque eu te mordi. Tentei me acalmar. azuis de um profundo mar aberto. e notei que seus lábios pronunciados estavam levemente crispados. ficando de frente para o gringo. e ajoelhei-me aos seus pés. além de ir à polícia e cooperar com o detetive Abikair. encaravam-me fixamente. depois soltei o ar devagar. pára! Acabei usando um tom muito alto. mas ele continuou falando.Fê.

mas Fernando não estava alterado.Depois do meu aniversário.Por quê? .Porque eu não quero falar! . mas antes de passar por mim.Não..Eu prometo que te conto tudo. . mas ele recolheu as mãos das minhas. .Agora não dá! .Ótimo! ± O loiro quis se levantar.Bem. me fazendo apertar os olhos. inconformado. . derrubei-o novamente na cama ± Wow! .Depois.Por que não dá?! . tá? . Guilherme! Eu quero saber agora! . ± Insisti. Vou te contar tudo.Eu te prometi que ia te contar depois do meu aniversário! Tá achando que eu tô mentindo?! . não seria a primeira vez! ± Alfinetou. quando? ± Havia um tom repressivo em sua voz.

não desejávamos que fosse expresso. mas nunca saia da agressão verbal e. ficando de pé ± Tô falando que vou te falar.Porra. Fernando estava nervoso.Por quê?! Pra dar tempo de você inventar uma boa história e mentir na minha cara de novo?! Não me agüentei. Seus olhos arregalados denunciavam tanto espanto quanto minha mão sobre minha boca. a expressão do loiro era dura ± Custa a base do nosso relacionamento. por favor! ± Quase implorei ± Eu vou te contar tudo. cada vez nossas vozes se exaltavam ainda mais e falávamos coisas que. Mas nunca nenhum de nós havia agredido o outro. só espera um pouco até« . a gente acabava se machucando na cama. caralho! ± Recolhi a mão assim que havia percebido o que havia feito. um silêncio mortal havia de apoderado de meu quarto e me fazia escutar o tiquetaquear de meu relógio de pulso. apesar de nosso inconsciente estar gritando. se saía. que era pra ser a sinceridade! . foram mais rápidos do que os reflexos de meu raciocínio. quê que custa esperar?! .Ai. tô falando que vou te contar. cacete! Espera! . inflamados por minhas emoções. E eu havia esbofeteado Fernando.Qual a porra do drama de falar agora. Vi uma das mãos grandes cobrir a face estapeada. me escuta! ± Berrei. Eu já estava nervoso. espantado. Nós costumávamos brigar muito. nunca havíamos trocados socos.. Guilherme! ± Arregalei os olhos. caralho?! . chutes ou tapas.Custa a minha confiança em você.Fernando. eu já havia desferido um tapa de mão aberta em cheio na face esquerda de Fernando. E foi quando o gringo soltou sua última frase que eu perdi as estribeiras. Meus instintos. e antes que pudesse me conter. Sentia meu coração bater louco em meu peito. a tez bronzeada de seu rosto começava a ficar avermelhada.Fernando. e lentamente a . . Fernando continuava com o rosto virado para a direita.

levantei. e eu ficara feliz de saber que Fernando gostara tanto da noite passada quanto eu. Sentei-me na cama.cabeça virou na minha direção. As sobrancelhas arqueadas como que em dor. A boca estava semi-aberta. Primeiro sorriu de nervoso. o que me fez passar as mãos nos cabelos e segurar minha cabeça. nossos olhos se encontraram. não conseguia deixar de me fixar no belo rosto. eu« Calei-me assim que ele voltou o olhar para mim. mas não consegui sair da posição em que estava. Decidido.Fê. Quando tirou a mão do rosto. assim que ele parou ao batente da porta. . pensei comigo mesmo. Quando se levantou. e consegui chegar a tempo na sala antes que o gringo saísse de casa. parecia penoso demais terminar a frase. ³Não. Como eu pude permitir que aquilo acontecesse?! Nós estávamos tão bem. distingui com tristeza as marcas dos meus dedos. mas depois meneou a cabeça em negativa. e também desnecessário. e só depois de um bom tempo o gringo piscou os olhos. O loiro desviou os olhos para o lado. Os glóbulos não se fixaram em nenhum lugar. e vi quando lágrimas escorreram. certamente indo para o de visitas. como que espantando as lágrimas para conseguir enxergar alguma coisa. ou se foi você querer continuar mentindo quando eu sabia que você« Ele se deteve. e embora quisesse desviar meus olhos de Fernando.Eu realmente não sei o que dói mais« ± A culpa tomou-me. A quietude me dava a sensação de vácuo. já que ambos sabíamos como completar aquelas palavras. gordas e silenciosa. intensa ± Se foi você ter mentido pra mim. as esferas incrivelmente azuis arregalavam-se para mim. isso não pode ficar assim«´.Fernando! . . O que eu estava fazendo?! O que eu havia feito?! . ligeiramente trêmulas. Senti meu corpo tremer. inconsolável. como se Fernando estivesse procurando a resposta em algum lugar de seu campo de visão. baixando um pouco a cabeça. mas eu mesmo me boicotei« Pus tudo a perder« Acabei piorando a situação. de seus olhos. limitei-me a acompanhá-lo com os olhos e. Respirava com dificuldade. o loiro saiu de nosso quarto. os olhos alagados e o rosto vermelho. não tentei impedi-lo novamente. Segurando a maçaneta.

como que tentando manter a calma. . ± Fernando baixou os olhos para os próprios pés. suspirando. tentando ao máximo me convencer de que. depois sentei com as pernas esticadas. certamente estaria aberto para uma nova conversa.O loiro parou.Só espera um pouco« Só mais um pouquinho« -« Até seu aniversário? . mas não ousei chorar ou ficar mais abatido. e voltei a olhar para o loiro. Comecei a hiperventilar.É. se eu mentisse pra você? Depois disso. -« Não sei se consigo esperar tanto.Desculpa« -« . ele não precisava ficar para ouvir a resposta. Ouvi-o respirar profundamente. então eu que arcasse com as conseqüências. era uma pergunta retórica. . Afinal. Fernando saiu de casa. Fernando e eu não nos falávamos: ele não puxava . e me apoiei à parede. Mas só fui me acalmar mesmo quando. . não sabia se de nervoso ou de ter conseguido que Fernando me ouvisse. Cocei a nuca. Guilherme.Você agüentaria três minutos. vi que suas coisas ainda estavam em nossa casa. engolindo a tristeza. Abracei meu corpo. meio sem jeito. até que o tronco torceu-se e os olhos de um azul impressionante novamente se focalizaram nos meus.Três dias. Fora eu o responsável pela merda toda. depois os voltou para mim. Olhei para cima. Fê« ± Quase suplicava. notava-se que estava cabisbaixo. se Fernando havia parado para me escutar. Massageei minhas têmporas quando sentei na cama do quarto de visitas. chegando ao quarto de visitas. Os dias seguintes seguiram-se apáticos.

eu notei. Talvez o despertador não tivesse funcionado. Enfim. . Enzo achou meu comportamento estranho. afastando-os dos olhos e. depois que eu já havia me deitado para dormir. voltou-os para mim. Ele estava deitado de lado. quando estava para me levantar. pois estava chegando o mais tarde possível. Não consegui copiar direito a matéria naquele dia. Enzo tocou-me as costas. então toquei seu ombro. -« Hãm? . Passou uma das mãos nos cabelos. Pensei em chamá-lo. . . ou talvez o gringo simplesmente estivesse cansado dos últimos dias. mas fiquei na dúvida se seria melhor apenas tocá-lo. uma manhã cinzenta indicava que o dia 27 do décimo mês seria chuvoso.« Mas tô indo mais porque você parece estar com problemas. . já que o meu tinha apenas alguns fragmentos soltos. Acordei. e eu não conseguia começar a falar de nada. reparei que Fernando ainda dormia. Tentei não me importar e. e sorri de leve. se levantando e indo para o chuveiro. ficando de barriga para cima. Encaramos-nos por instantes e Fernando virou a cabeça.Eu vou.Oi? . e consegui o caderno de Túlio emprestado. mas não ousou perguntar coisa alguma.Valeu.Guilherme. Encarei por alguns segundos os olhos castanho-esverdeados de Enzo. depois de esfregá-los um pouco.No seu aniversário. que pareciam tão seguros de sua decisão. acariciei a pele exposta e ele finalmente trouxe o corpo. ao fim da aula. Como não houve reação. Antes de sair da sala.assunto.

Tá. . Antes de ir para o consultório. .« Eu vou te contar tudo. Fernando já estava à minha porta.. sete e meia« Apareça quando puder. depois parou de frente para mim. Ele ainda escovava os dentes. e fomos de minha sala até o apartamento em silêncio. e parou exatamente com a escova no canto direito da boca. não vou esconder nada. Enzo passou por mim e.Hoje. Secou a boca.Tchau. . depois que eu te contar o que era. cuspindo e limpando a escova de dentes. segurei sua mão.Tá.Umas oito. -« ± Voltou a escovar os dentes. .Eu sei que você vai ficar puto comigo. Aproximeime dele. Fernando bochechava. -« .Que horas? . passando os dedos para ajeitar os fios loiros. depois que todos forem embora. Era uma abertura para que eu pudesse falar. Almoçamos em casa. e decidi que estava na hora de quebrar o gelo. . quando percebi. Mas eu prometo. Até mais.

os olhos instigantes pousados de mim. . . vi que ele levava a carteira nas mãos. não está nem um pouco animado? . ± Sorri de lado ± Acabei magoando o Fernando. . mesmo. achei melhor dizer alguma coisa. Já estava para apertar o botão da campainha quando me perguntei o que estava fazendo lá. certo? ± Pisquei. a porta se abriu e deparei-me com o moreno de olhos verdes e barba por fazer.Não muito.Isso qualquer um suspeitaria. De súbito.Mas alguma coisa você vai fazer.. Igor me encarou ininterruptamente.Faz o que você quiser. acordei e fui ao apartamento ao lado. fiquei ainda um tempo parado no mesmo lugar. e acabei indo com ele à padaria. .Não muito bem.Não sei« ± Respondi. Desviou-se de mim. . mas Igor nunca me obrigaria a dizer algo que não queria. encarando as esferas de esmeraldas ± Ainda mais num dia como hoje. Antes de pensa em qualquer resposta.Como estão as coisas? .Mas e você? Hoje é seu aniversário. Comemos um lanche da tarde. sinceramente ± Acho que é mais uma das muitas vezes que eu fico perdido depois que brigo com ele.Era isso. Mesmo depois de Fernando deixar o apartamento. ± Colocou o copo na mesa de centro ± O que eu quero saber é o que vai fazer agora? . se você está perguntando da briga que tive com Thomas. e saiu para trabalhar. Sabia que o moreno queria me perguntar o que estava acontecendo. Já ao final de meu suco. eu pensativo com meu suco de laranja e Igor. .

Guilherme. que imediatamente abraçou-me com um dos braços compridos. Deixei um bilhete. . numa expressão única de sofrimento ± Espero desesperadamente para voltar a falar com ele. ± Arqueou as sobrancelhas. como se estivesse muito cansado ± Não me recordo de ter ficado tanto tempo brigado com Thomas. Qualquer pessoa conseguiria ler suas emoções. Você sabe que é desnecessário eu falar isso pra ele. Recostei-me em seu corpo. mas« nada mais animador que isso. . . . pois depois de tanto tempo brigado com o irmão. ± Disse.Mas você tenta falar com ele? .Também espero. Fiquei triste por ele. deixando minha cabeça em seu colo enquanto ele acariciava muito levemente meus cabelos. Igor não era muito de demonstrar sentimentos.Espero que você consiga conversar com ele lá em casa. suspirando ± Mas ele foge de mim.Chegou a falar de meu aniversário? Não consegui falar com ele esses dias. mas agradeço a oportunidade de ter um assunto para tentar um contato. sentando ao lado de Igor. Apesar de não demonstrarem abertamente. Sei que ele não agüenta minha insistência. Igor estava transparentemente infeliz. ± Ergui a cabeça para encarálo. ele estava sensível.Tentei. naquele momento em especial. Levantei. . Vez ou outra a gente se cruza. mas eu me surpreendi em como. sabia que os irmãos estimavam muito um ao outro. .. ± Aconcheguei-me ao sofá ± E você? Algum progresso? -« Quase nulo. ± Recostou a cabeça. e por Thomas também.Honestamente? ± Meneei positivamente a cabeça ± Não muito.É. eu sei.

.Bom. ± Assentiu Igor. fica. Olhei para trás. procurando o rosto de Igor. Arrumar as coisas.Hum? . além de abatido. Como nenhum dos dois falou.O barulho de chaves ecoou pelo apartamento.Guilherme.Fica. eu vou indo. mais tarde. . Ainda segurava a maçaneta quando se petrificou ao ver a mim e a Igor. heim? -« Oi. direcionado para algum ponto entre nossas pernas. Guigui« ± Notei que estava um pouco incomodado. para que pudessem aproveitar a oportunidade e conversarem. Não queria ficar . já havia passado tanto tempo?! Quando menos esperávamos. Já estava pra sair quando Thomas agarrou meu braço. mas ele nada expressava. por favor«! O olhar do moreno estava baixo. decidi que era hora de ir embora. . Thomas! Faz tempo. como os de uma criança perdida. . Fiquei sem jeito.Thomas. eu« Eu preciso ir. Os irmãos estavam evitando-se ao máximo. . Thomas irrompeu pela porta. ± Seus olhos estavam tristonhos. . e talvez minha visita tenha feito o moreno mais velho esquecer de que era hora de sair de casa. e« . Espero vocês hoje.Claro.Oi.Fica. Olhei o relógio em meu pulso.

Vacilei por um momento.no meio do desentendimento dos irmãos. Fechei a porta. Os olhos verdes. . arregalaram-se brevemente. mas tô guardando o dinheiro pra« .Tive receio de você não vir.Obrigado. Qual foi a minha surpresa quando. depois me aproximei dele. um pequeno embrulho quadrado preso por um laçarote vermelho. encontrei Fernando sentado à mesa da sala. isso me basta. -« . Os glóbulos oceânicos. mas decidi que era hora de arrumar as coisas para receber os convidados. Fê. mas também não queria que eles continuassem brigados. que antes repousavam sobre o pequeno quadrado embrulhado. ± Entregou-me a caixinha. Apoiei-me no encosto da cadeira. Deixei a casa de meus vizinhos e voltei para meu apartamento. ± Desabafei. Você tá aqui.Thomas. ± Sorri com o tamanho do presente.« ± Usei o tom mais compreensível que pude ± Eu não quero ficar me metendo.Queria ter comprado algo melhor. Fernando mordeu os lábios inferiores. ao abrir a porta.Boa noite. ele brincava com as fitas do pequeno presente. o jeito que eu te tratei« . .Tudo bem. ± Acabei soltando casualmente. depois se voltaram para o irmão sentado no sofá. . . Frente a ele. ± Olhei diretamente para ele ± Eu não me importo. indo para a cozinha e pegando um copo de água ± Sei lá. calmamente direcionaram-se para mim. Feliz Aniversário.Boa noite. Desculpe. me encarando com tamanha intensidade que cheguei a ficar confuso sobre o que o gringo estava de fato sentindo. tão verdes quanto os de Igor. passando a chave. .

Do bolso. e mais. só falta tomar banho e se arrumar. . havia duas abotoaduras prateadas. Seus braços cruzados denunciavam que o loiro ainda estava chateado comigo. mas além de não sermos muito chegados. Fernando veio logo depois. só o fato de ele falar comigo. um copo de mate em suas mãos. -« Então. Também telefonei à Flora. tirando a fita e o papel colorido. ± Virei para olhar o gringo apoiado à parede ± Eu ainda quero saber o que fez você mentir pra mim. afinal. é! Desculpe.. . puxei a caixinha.Eu não esqueci isso.Né?! ± Aceitei o copo que me foi oferecido. . Pensei em chamar Marina.Não parece. Por mais que não fizessem as pazes. assim como o doutor Rafael. que ficou toda empolgada por ser lembrada. o qual eu havia telefonado logo depois de conversar com Fernando. e o tal assassino poderia estar de olho nela. já que nem sair para fazer estágio eu podia. mas dá um puta trabalho fazer essas coisas.Eu sei disso. E eu falei que ia te contar. eu sabia que os irmãos compareceriam. Confortadas em uma confortável armação. Enzo havia confirmado a presença. imaginando onde poderia usar aquelas coisas. Nada muito pomposo. poderia ser perigoso. mas a arrumação diferente fez com que houvesse mais espaço para melhor acomodar as pessoas. . Por fim. ± Fernando encostou-se ao parapeito ± Não vai abrir o presente? . Todavia. ela estivera comigo no dia de meu pequeno acidente.Ah. convidei Túlio quando pedi seu caderno emprestado. Sorri. me deixou mais relaxado. depois que todos fossem embora. me comprar um presente. e resolvi ir para a varanda me refrescar um pouco. o que você tá planejando fazer? Com a ajuda de Fernando. . Estava todo suado.Agora. foi fácil fazer de nossa casa um salão de festas.

e os sapatos negros brilhavam nos pés cruzados. impecável: a camisa social azul claro realçava extremamente seus belos olhos azuis.São bonitas. uma camisa de manga curta preta com um pequeno símbolo no peito esquerdo. a calça preta deixava suas pernas mais longas. Notando meu olhar. já que ele sairia direto do hospital. Os cabelos. o que me acordou e fez com que o gringo reparasse que era observado. Separei minha roupa. se o telefone não houvesse tocado. Topei o pé numa das cadeiras da sala. Depois da breve conversa. . Ele saiu do quarto e eu me permiti girar para sentar e amarrar os tênis.. apoiando o rosto numa das mãos.São de prata. uma calça jeans azul marinho e meus tênis. . ± Observou. confirmando que viria e se desculpando por ter que aparecer em trajes de trabalho. no banheiro social. surgiu em seus lábios. eram de um loiro escuro. Fernando já estava debaixo do chuveiro. Era o doutor Rafael. Ouvi Fernando remexer as roupas. já que nem banho eu havia tomado. as expressões de Fernando amenizaram-se. seria pedir demais para tomarmos banhos juntos depois de um desentendimento. Quando cheguei à sala. mas tudo bem. estavam cuidadosamente despenteados. e um sorriso fraco. os convidados começaram a chegar. Pouco tempo depois. olhei para o relógio e vi que precisava me apressar. um atrás do outro. . e me apressei no banho. Fernando já estava sentado no sofá. -« Você entendeu o que esse presente quis dizer? -« Hãm? O loiro continuaria falando. Ainda me vestia quando senti a fragrância inebriante invadir minhas narinas. ainda molhados. aproximando-me um pouco ± Espero ter a oportunidade pra usálas.É? ± Sorri para ele. porém sincero. mechas douradas mesclando-se a outras que. ainda. por ainda estarem molhadas. e me decepcionei um pouco. Obrigado. mas não ousei me virar.

. eu« Eu peguei seu endereço lá na imprensa« Não sabia que você estava dando uma festa.Não. e esse o tempo de meu pai e minha mãe juntos.Hãm. franziu o cenho e abriu a porta. Flora tocou a campainha. desculpe. Alguns segundos. enquanto que Igor falava com o doutor Rafael e Fernando. eu« Pode entrar. ± Sibilei. Fernando pediu licença e. Olhei automaticamente para o loiro. Também tive que agüentar a Karina. Tudo parecia bem. Desliguei. Foram quinze segundos de conversa. O gringo olhou pelo olho mágico.Oi! Hãm.« Essa é a casa do Guilherme? . arregalando os olhos. bem.« Eu sabia que a Flora ia te ver. Depois. foi a vez de meus pais. afinal era o seu aniversário e. me empurrando para que eu ficasse escondido à vista de quem quer que fosse. para a minha surpresa. voltando a conversar com meus convidados. No meio de apresentações. nem fiz nenhuma cara.Você chamou mais alguém? ± Falou. . Uma terceira vez o telefone tocou. . . e então o telefone tocou. que me ligava do sul do país para me dar os parabéns. todos estavam conversando o mais descontraidamente que podiam. Thomas estava conversando com Enzo e Flora.Não. e por fim. campainha tocou. e o doutor Rafael veio logo depois.Marina?! ± Fiz com que Fernando saísse da frente. Thomas foi o segundo a chegar. mas consegui disfarçar bem. mas a pessoa do outro lado da linha nada respondia.Primeiro foi Enzo. ninguém. não queria que Fernando percebesse. e Igor também passou por minha porta. Mas.Pois não? . Vez ou outra os trios mudavam e passavam a ser duplas ou quartetos. Era o Dan. ele me devolveu o olhar confuso. mas para seu alívio. tudo bem. . apenas com o movimento dos lábios. . Não me importei. Túlio chegou alguns minutos mais tarde. fomos abrir a porta. junto a mim.

Desculpa. vai sobrar pra mim. Já estava para trancar a porta quando a campainha voltou a soar. a campainha tocou. desconfiados. mas eu mesmo estava surpreso com os acontecimentos.Ih. essa fui eu quem não esperava.Tá. . . Igor e Enzo olharam para mim. entregando-me um embrulho macio. ± Debochou ± Mas eu realmente preciso que você complete esses relatórios ou então. é verdade. Percebi uma ponta de impaciência no gringo. Marina me abraçou.. bufou e apoiou a cabeça na porta. mas o senhor Colin não« . e fiquei aliviado de minha colega de estágio não tocar no assunto daquele dia. mas Fernando já havia escutado. ± O loiro estava enfadonho. e Fernando e eu voltamos a nos olhar. Comecei a ficar com dor de cabeça. uma festinha! Não acredito que você não me chamou! Onde estão os strippers? . acabei de sair lá do consultório. então. levando-o até a mesa da sala. Eu .Eu sei que você foi lá um dia desses. Quando abriu a porta.Tudo bem! ± Me apressei. Novamente. . você sabe que« . Conversamos um pouco. tá! ± Fernando agarrou o braço daquele enjoado de olho puxado. Nada de strippers. e Fernando levantara os olhos dos papéis para me encarar.Fernando. e você sabe o que aconteceria se« Oh. embora sua única reação fora sair de perto assim que ouviu que Marina havia falado.Eu lembro de ter falado que era aniversário do Guilherme. ± Declarou. deparei-me com Ricardo. irritado. O loiro voltou a olhar pelo olho mágico. e reparei que tinha umas fichas que você não tinha acabado de completar. Ricardo.

detetive Abikair. mas imprevistos me forçaram a pedir que me acompanhe agora à delegacia para um segundo depoimento. ± Disse. Batidas na porta.Guilherme. Vê se você sabe quem é. . . agarrei a maçaneta para abrir logo a porta. sempre muito sério. é? ± O loiro recusou a mão estendida do detetive. ± Falou. e não parecendo se importar muito com o gringo. Um calafrio percorreu a minha espinha. . mas precisamos novamente de sua colaboração. .não queria acreditar no que estava acontecendo. . mirando-me com aqueles olhos profundos que me tragavam para dentro de suas íris arroxeadas. . pelo olho mágico.Sei que é seu aniversário. e tremi levemente. sou eu. franzindo o cenho.Ah. já era tarde demais. . Lá estava o exótico detetive. distingui a fisionomia da pessoa que eu menos queria ver naquele momento. e me fez apertar os olho e encolher os ombros. os olhos em fúria dardejavamme.Boa noite.Detetive? ± A voz de Fernando era áspera. ± Estendeu a mão de cobre para cumprimentar Fernando ± Sou responsável pela investigação do caso cujo criminoso feriu Guilherme. Fechei o olho direito e.Detetive Brenno Abikair. . Voltou o rosto para mim. O gringo deixou Ricardo e seus papéis para verificar quem era. mas não consegui ser mais rápido que as palavras daquele homem. em seu tom tipicamente formal ± Desculpe vir sem avisar. Guilherme.Esse eu não conheço. Quando eu abri a porta.

só faltava mesmo o senhor Colin aparecer junto com o assassino. eu poderia justificadamente enlouquecer. e eu sabia que ele pensava que fosse quem fosse. ele havia descoberto tudo o que eu estava escondendo. membros logos e delgados. porém bronzeada. mas minha situação com Fernando não estava das melhores. Afastei-me. a campainha tocou. e foi no silêncio que aquela mulher entrou por minha porta. Por que diabos estava ocorrendo tudo aquilo justo naquele momento?! Eu não me importava por ser meu aniversário. Cabelos loiros. O sorriso de lado esboçado na boca de lábios rosados e pronunciados era debochado. né. Flora e Marina. Fernando voltou-se rápido para mim. Fui mais rápido do que ele. Ainda havia o detetive Abikair. porque do jeito que as coisas estavam. mais uma vez. . e a maioria dos convidados voltou-se para nos olhar ± ³Novamente´. e abri a porta. e eu já estava para segui-lo quando.É. levando uma de minhas mãos às têmporas. mais uma vez atrapalhando minha vida ao não desgrudar de meu namorado. Isso só provou que a ironia do destino pode ser muito mais pesada e cruel do que se imagina. fartos e dourados. escondendo meu rosto. Arriscaria dizer que.³Novamente´?! ± Fernando se alterou. desacreditado. E pra completar. E começou meu inferno. porém belo.E eu achando que não dava para piorar« ± Acabei soltando. do outro. a figura que eu menos desejava encontrar naquele momento. e olhei pelo olho mágico. Seu semblante era de fúria.. havia Ricardo. pra completar a catástrofe. . Era alta para uma mulher. Ninguém mais conversava. olhos azuis que chegavam a doer ao se destacarem em sua pele clara. Larissa. Guilherme?! Apertei os olhos. . De um lado. parece que a festa tá boa mesmo! Deu pra ouvir sua voz lá do saguão de entrada! Extravagante como sempre. Fernando?! Não consegue ser discreto! . na certa querendo se fechar um pouco no quarto ou no banheiro.Larissa?! ± Fernando só conseguiu dizer. representando o perigo que a imprensa era para mim. Em menos de meia hora. a irmã mais velha de Fernando parecia ter descoberto nosso refúgio. era mais uma coisa que eu havia escondido dele. quase nos chocamos. corpo escultural e feições belas. O gringo estava indo em direção ao corredor. Acho que foi muita sorte não ter surtado. Era demais para minha cabeça.

honey*! . para não dizer descarregados. tão azuis quanto os de meu namorado. Abikair parecia não se importar nem um pouco em estar participando no palco daquela trama dramática que se formava na minha sala de visitas. As sobrancelhas estavam tão arqueadas no cenho franzido que mal se distinguia o início de uma e o término de outra. pegando-me de súbito. Túlio estava perdido. . na certa roendo umas das unhas pintadas de rosa-choque. Enzo também foi capaz de capturar a densidade do momento. Não pude me mexer ou falar. e o doutor Rafael se esforçava em transmitir normalidade. compartilhando de sua preocupação. Sentindo-se observado. esvoaçavam a cada movimento seu ± Mas eu não esperava mais do que isso vindo de você.Então. surpresa e. Era um misto de extrema irritação. trêmulo. petrificado demais pela situação. na certa tentando me acalmar. por incrível que pareça. não parecia que todos aqueles sentimentos pelo gringo sentidos eram direcionados. quebrando o gelo do silêncio que se formara desde sua chegada ± Que lixo! Eu não acredito que você trocou nossa casa por esse barraco. Marina olhava-a de soslaio. Estranhamente. mas não pude deixar de. As mãos estavam brancas.Larissa era uma figura luminosa. Os irmãos estavam tensos.De cara é pouco. girar a cabeça para encontrar os olhos de Fernando.Eu te falei. mas eu não ousei olhar na cara daquele japonês dos infernos ± Te falei que você ia ficar de cara! . Ricardo apenas esboçava um sorriso triunfante. ódio. que associei ao de Larissa. Seria muito difícil definir em poucas palavras o que as expressões do loiro esboçavam. as esferas azuis voltaram-se para mim. mais cortantes do que nunca. Lalá! ± Era a voz de Ricardo. Eu mal podia respirar. incredulidade. Os olhos. panaquinha. como também o resto de meu apartamento. Os olhos oceânicos. indignação. tão dourados como ouro. de tão rígido o punho fechado. cólera. dardejavam não só as pessoas à sua frente. Flora levara uma mão à boca. profundos.« ± Larissa avançou para mais perto de todos. a mim. . brilhavam como diamante. mágoa. é aqui que você tá morando?! ± Exclamou Larissa. os cabelos longos e loiros. fleumaticamente.

e ainda que continuasse mudo. seus olhos apertavam-se para o detetive. me tirando do transe e acordando-me para a situação-limite em que se encontrava. ele fez questão de se manifestar. ± Da bolsa prateada de marca. Notei que o detetive Abikair erguera uma das sobrancelhas. Meu queixo ainda caído. e vi Flora segurar Marina perto de si. tive medo de olhar para o loiro novamente. e ele engoliu em seco. Estava quase irreconhecível ± E que merda você tinha na cabeça quando inventou de dar o endereço daqui pra ela?! Consegui ver Ricardo desfazer o sorriso. Percebi movimentos atrás de mim.Você não vai fumar na minha casa! ± Esbravejou o loiro. já que um tá morto e o outro é meia vara. Mas Larissa não pareceu se abalar. em todo o tempo que estivemos juntos. Mas nem precisei me virar e encarar meu namorado para entender o que se passava em sua cabeça. ³panaquinha´ era o apelido carinhoso que a irmã de Fernando dera ao caçula. . . Parece que um casal amigo dele vai jantar lá em casa e quer conhecer o filho varão da família. né? . não sei se podia ou se queria impedi-lo de fazer alguma loucura. .Pelo visto.Eu tô aqui porque o Paulo quer você em casa agora. senti que ele queria falar alguma coisa.Que diabos você tá fazendo na minha casa?! ± Nunca. ouvira a voz de Fernando carregada com tanta ira. com tanto ódio. os olhos pequenos se arregalaram. pendurada num dos ombros delineados e escondidos pelas fartas mechas loiras. Larissa puxou um isqueiro e um maço de cigarros ± Meio difícil.

vamo logo que eu já tô cansada de ficar bancando de babá o tempo todo pra um mané feito você. apoiando uma das mãos na esguia cintura ± Não precisa repetir. eu soubesse que esse fosse um feito que já atravessara até as barreiras do impossível. voltando a guardar seus pertences. já deixei isso bem claro da última vez que tive lá! . que drama! ± Larissa ergueu as mãos enquanto revirava os olhos. Tive que obrigar-me a sair do torpor que me havia acometido para que conseguisse. não vou violar a santidade do seu chiqueirinho! .. Era estranho ver alguém que não se intimidava com Fernando. Levantou as sobrancelhas. não é? Os olhos azuis e cortantes direcionaram-se para mim. muito embora. a irmã do gringo sustentou um olhar impaciente. ± Abraçou a cintura estreita com um dos braços. muito pelo contrário. e foi com esse movimento que eu finalmente comecei a me mover.Larissa.Não é isso que o Paulo falou. no mínimo. Estalando os dedos. como se fosse difícil para ela que alguém tivesse esquecido quem ela era. abrindo um pouco a boca em anuência.Eu não volto praquele lugar. enquanto eu me virava para o loiro com o olhar quase suplicante. porque. Fernando tombou a cabeça para o lado. .Nossa. o cotovelo do outro apoiado ao primeiro ± Agora. . suavizar a situação. Larissa parecia fazer pouco de toda e qualquer reação do gringo.

. chegando perto o suficiente para que o detetive Abikair ouvisse meus sussurros. e eu me senti atraído por seu cavalheirismo notável. e apesar do esforço que expressava. Fiquei próximo a ele. . Virei-me para meus convidados.Me dê um minuto. já falo com o senhor.O que acha que está fazendo? ± Desafiou-me. leva sua irmã pro quarto de hóspedes e converse com ela lá. mas ninguém acreditou muito. Avancei em sua direção. Larissa seguiu o irmão. Girei em meus calcanhares. . me desculpando e pedindo para que continuassem a aproveitar a festa. Ele assentiu com graça.. Um problema temporariamente resolvido. Respirei profundamente. . ± Notei que Fernando estava pronto para soltar sua indignação sobre mim com todas as descobertas. meus lábios crispados e os olhos duros. ± Disse apenas.Fernando.Você vem comigo. mas sustentei o olhar firme para ele ± Por favor. -« Vem. depois virei para o indivíduo inconveniente próximo à mesa de jantar. como eu esperava que fosse. para que os demais não vissem que eu o havia agarrado pelo cotovelo. Mas eu não estava no humor. Tentei tranqüilizá-los com um sorriso forçado.

Qual o seu problema? ± Acabei soltando. . Massageei brevemente as têmporas.Qual o meu problema? Qual é o seu?! . Fiquei encarando-o por algum tempo aquela figura deplorável. é dizendo que Fernando não tá te agüentando mais. fechando a porta atrás de mim. Você acha que me afeta com essas coisas. ± Cruzei os braços. minha paciência parecia ter ressurgido das cinzas.Lá pra fora. Guiei Ricardo sem jeito nenhum para o corredor. Felizmente. eu tô falando sério. dissoluto. Se posso ser sincero com você em algum ponto. seja como for.Bom. ± Sorriu. olhando-me com antipatia. .Não sei do que você tá falando. debochado. mas você acaba é atingindo o Fernando. fazer dele o meu saco de pancadas pessoal. . cansado demais e pronto para despejar nele toda e qualquer frustração. depois de um suspiro. não eu. ± Desconversou. Agora. apoiando-me na porta de minha casa. .. . quem vai acabar sozinho no fim das contas é você.Você não sabe do que tá falando. . Ele se desvinculou de mim.Não.

Não se preocupe. Entrei para casa. quando puder. Se precisar.Agora. Eu apenas ergui uma sobrancelha. desculpe por isso.Não é preciso ser psicólogo pra reconhecer um doente quando se vê um. Guilherme. eu não sei o que você e Fernando tiveram no passado. riscando um pepino da lista e partindo para outro.Flora. e tô pouco me fudendo também. virou conselheiro amoroso. não é desse jeito que você vai conseguir alguma coisa. . ± Ergui meus olhos. Mas me ligue. . me olhando com fúria. mas eu tinha problemas maiores para resolver além de trocar desavenças com Ricardo.Claro. . ± Murmurei em resposta. olhando-o de cima ± Só sei que essa sua carência não vai ser suprida do jeito que você tá querendo. Se não quer ficar sozinho. Cruzei a sala de visitas. mas se importa de«? ± Não precisei de mais uma palavra. . e aproximei minha boca ao ouvido de Flora. .Olha. já partindo para perto de Túlio enquanto Flora se despedia dos demais carregando Marina. Ele ficou quieto. . é?! ± Perturbou..

ele apenas me observava.Estamos indo para casa. Ele e Enzo partiram. ± Comentou meu colega de sala. Igor e Thomas esperavam por minhas palavras.Não precisa nem falar. e achei estranho que Fernando fizesse tão pouco estardalhaço ao discutir com Larissa. até que os irmãos iam saindo para o apartamento ao lado com o doutor Rafael entre eles. Puxei profundamente o ar para dentro de meus pulmões. . e finalmente me voltei para o detetive Abikair.Agradeço a compreensão de vocês. Guilherme. Guilherme. um olhar significativo. Ergui a cabeça. Ficamos assim por alguns segundos. caminhando para a entrada da varanda. próximo à porta da sala. no momento. ansiosos e desconfortáveis com a presença um do outro. mas não era hora de ficar encucado com aquilo. Igor fez o favor de tomar decisões por mim. . ± Respondi. diria até que nem estavam dentro de casa. Só percebi o silêncio pesadamente anormal depois que todos os outros convidados haviam deixado minha casa. à porta. despreocupado. Thomas deu um passo à frente. . Tombei a cabeça ao ver o médico direcionando-se ao apartamento de meus vizinhos.. com sinceridade. mas não sem esse último lançar para mim. Cheguei perto dele. Girei o corpo. ± Antecipou o irmão mais velho ± Dá pra notar a situação delicada em que você se encontra. segurando-me pelos braços. soltando-o vagarosamente. Seus olhos pareciam querer me passar forças. mas eu não fui capaz de absorvê-las. Se não soubesse. o detetive ainda estava em sua posição inicial. O doutor Rafael estava entre eles e assim que fiquei próximo o suficiente.

agora que o céu estava limpo. essa noite já estava fadada. Ele se aproximou de mim. . evidenciando ainda mais a pupila negra meio a aquarela arroxeada que era seu olho. ± Só pude dizer. o ar estava úmido. sem querer sentindo a fragrância natural do detetive. Desculpe pelo transtorno. refratava em sua íris. ± Voltou os olhos para mim. apesar do vento cortar meu rosto e fazer com que meus cabelos dançassem ao seu bel prazer. abrindo-os novamente e finalmente me virando para o detetive. Ele me fitava. Apertei os olhos. . o homem da pele de cobre me seguiu. fechando os olhos.Detetive. Automaticamente. as esferas roxas voltando-se para a noite lá fora. E respirei muito profundamente. .Acho que não cheguei no melhor dos momentos. Ouvi que o detetive fechar a porta de correr atrás de si. . ± Deu de ombros. silencioso e penetrante.Não esquenta. ± Chamei por sobre o ombro. e estávamos sozinhos novamente. A noite estava fresca e.. . apoiando os braços no parapeito e ficando de costas para o apartamento como eu fizera.Não pude esperar até amanhã. suas expressões levemente curiosas. ± Concordei. Cheiro de amêndoas. ainda sentindo seus olhos em mim ± Com ou sem você aqui.Infelizmente. A luz da lua. com sinceridade.

Não tem problema. Agora que murmurava. não. . Fernando atravessava a sala de visitas. Com um passo. Fiquei um pouco atordoado com aquela visão. tão furiosa quanto o irmão..Por favor. interrompendo-nos apenas com um estrondo vindo de dentro do apartamento. os cotovelos esfriando por se apoiarem no parapeito da varanda. e notei que ele se absteve de puxar de seu bolso interno o pequeno bloquinho e a caneta que eram demarcados em seu peito esquerdo. virei meu corpo inteiro para o detetive. Gritos furiosos ecoavam pelo ambiente. e o silêncio voltou a reinar. A pele. que parecia ter perdido toda a compostura. muito morena. suas feições esboçando ira como eu nunca havia visto antes. as esferas ainda mais expressivas. respondendo tudo o que o detetive me perguntava. tinha sua beleza exótica ainda mais evidenciada. apesar de inteligíveis de onde eu estava.Se preferir. . Revirei os olhos para mim mesmo. Podemos conversar aqui. ± Cortei. Abikair. podemos ir à delegacia« . Abikair me fez uma série de perguntas. Fiquei agradecido por isso. colando nossos braços. sua voz grossa e potente era ainda mais sedutora. o seguia. Escondi meu rosto em minhas mãos. o detetive venceu a distância existente entre nós. Larissa. me odiando por conseguir notar tudo aquilo na situação em que estava. Repassamos algumas coisas. Só então. Os dois saíram de casa. à luz do luar. parecia reluzir como seda ou cetim. cada elemento de suas feições evidenciado pelo conjunto de luzes e sombras proporcionados naquela posição diante de uma noite escura iluminada por uma lua quase cheia. esquecendo brevemente que Fernando estava com a irmã no quarto de hóspedes e de como articular palavras.

em tão pouco tempo.Fiquei sem palavras e. sabia que depois a conversa com ele ia pegar fogo. detetive. Quem poderia ser? Já estava para atender quando a mão grande e espalmada de Abikair me deteve. não era uma boa ocasião. me alertando. Abri a boca. Olhei para ele. Virei o pescoço. mas não consegui dizer nada e me limitei a suspirar. . . encontrando os olhos preocupados do detetive.Vamos entrar. Ouvi batidas na porta. apesar de ter a impressão de que o detetive Abikair chamava por meu nome. o detetive me acompanhou e aceitou o copo de água que ofereci. ± Balancei a cabeça. não consegui nem responder nem me mover. para que tudo mudasse de uma noite presumivelmente agradável e sem muitas surpresas para uma circunstância excessivamente catastrófica? Por alguns segundos ainda fiquei perdido em meus pensamentos.Me chame de ³Brenno´. confuso. O que havia acontecido? O que eu fizera. olhando-me fulminantemente. Novamente. erguendo levemente as sobrancelhas ± ³Detetive´ dá muita bandeira. até que senti o toque em meu ombro. . ± Declarou o moreno. Eu já estava exausto demais para me desgastar com apreensão por antecedência. Concordei com leves movimentos. e notei sua . . ³Abikair´. Consegui deixar Fernando de lado.Já disse para não se preocupar. cansado.Definitivamente. Fechei os olhos. Se preferir. ± Pediu. jogando a cabeça para trás.

. o nome e os dados de Igor. e meu vizinho aproximou-se vagarosamente de mim. ele não percebera. Parecia temeroso de ter sido seguido. um pouco sem jeito ± Acho que me preocupei à toa. Com uma rápida olhada. era ele quem iria checar.Não está interrompendo nada. . ± Disse.Precisa de alguma coisa? Ouvimos Fernando sair. apoiando-me ao batente da porta da cozinha ± Esse é um de meus vizinhos. Abikair afastou-se o suficiente para abrir a porta e Igor entrar.Desculpe interromper. Fosse que fosse. Por sorte. uma mão próxima ao flanco onde eu julgava estar uma arma. . Abikair. o detetive aproximou-se do olho mágico. ± Assimilou. agora. mais precisamente sobre um de meus mamilos.Certo. em tom de desculpa. Os morenos trocaram um olhar que me pareceu ligeiramente cúmplice. parecendo memorizar. .Eu agradeço. além da fisionomia. pensamos que« ± Deu de ombros. Igor.preocupação. . . Mas o pior era que sua mão estava exatamente sobre meu peito. apenas com aquele toque. Implorei para que ele não tivesse percebido como ele havia acordado e enrijecido subitamente. Desencostando-se de mim. ± Declarei. Mas não tem muito que vocês possam fazer por mim. Igor só pôde sorrir.

Aproveitei a oportunidade e perguntei o porquê de o doutor Rafael ter acompanhado-os ao apartamento. Além disso. nem desculpas. Sem subterfúgios. Principalmente de Igor. mas suspirou e olhou para além do corredor. Bufou. um sorriso discreto nos lábios bem definidos. Não gostei de ouvir aquilo de Igor. Entretanto.Receio que tirei proveito de toda a situação.Acabou que estamos obrigatoriamente juntos no mesmo lugar.Acho que complexado atrai complexado. O moreno sorriu. Franzi o cenho. coçando a nuca. .. já seria intromissão ao extremo. podia sentir facilmente sua respiração quente e compassada e ver cada nuance da cor de seus olhos verdes e vivos. não podia fazer muito por eles. ± Igor ergueu as sobrancelhas. meu vizinho voltando a erguer o tronco. a situação não me permitia muita liberdade para tentar ajudar outros com seus problemas. O rosto de Igor estava a centímetros do meu. um pouco incomodado. Ainda que acostumado com sua proximidade. Passei os dedos nos cabelos. não pude deixar de sentir minhas bochechas esquentando. segurando-me por alguns instantes. tirando-os de minha fronte. . Meu meio sorriso fez com que os olhos de Igor baixassem. depois me beijou a testa. Ele depositou cada mão em um ombro meu. e Igor pareceu entender meus receios. aproximando-me da porta de meu apartamento enquanto automaticamente o detetive Abikair se afastava para o centro da sala. levemente dando de ombros ± Mas não sei o que fazer. Lancei um olhar rápido para o detetive recostado a uma das paredes da sala. O moreno me encarava com as esmeraldas enigmáticas. na mesma hora. um tanto humorados. Esperei que ele falasse alguma coisa. .

você sabe. -« Que bom. mas em vez de sentar. mantendo a outra dobrada para apoiar um dos cotovelos. optei por escorar as costas na parede e escorregar até o chão. e fui prudente em desviar os olhos do corpo do detetive para a luminária da cozinha. . aproximando-me dele mais do que normalmente faria. ± Estancou por alguns segundos ± O que você precisar. ao mesmo tempo contido por a etiqueta condenar os curiosos aos assuntos alheios. Fiquei surpreso quando notei o detetive repetindo minhas ações. o que não era nada usual de Igor.« Estamos aqui ao lado. uma hora ou outra. O espaço entre meu peito e o braço dele era ínfimo. minhas sinapses se faziam com mais rapidez do que eu podia esperar. Igor. o moreno deu as costas pra mim e entrou em seu próprio apartamento antes que a porta de minha casa escondesse o corredor. Acho que é assim que se sente quando se fala em ³banho de água fria´.Eu sei. ele permaneceu agachado sobre as pernas dobradas. Estiquei uma das pernas. Fiquei um pouco perdido em mim mesmo.. Com um último sorriso.Eu vou indo. Abikair me olhava curioso. Continuei com uma mão à maçaneta e a outra espalmada na folha de madeira por algum tempo. e embora uma vontade louca de recostar-me àquela pele brilhante e aparentemente quente começasse a me tomar. e apesar da falsa aparência letárgica. Eu sempre corro pra lá. finalmente saindo de minha posição anormal e voltando ao mundo real. . Oportunidade de ouro. Minha mente estava levemente estuporada. Caminhei até o detetive. A calça social marcava bem os músculos largos e destacados de suas coxas grossas.

também.. ± Sorri com o comentário de Abikair.Desculpe. ± Manifestou-se o detetive. percebia que ele estava com expressões diferentes das outras que eu já havia visto. Não quero ser um estorvo. a presença do senhor aqui é o menor. .Como eu disse antes. descobrindo que ele também me encarava.Sinto muito por estragar seu dia. senhor Abikair. . sem nem conseguir piscar. Voltei meus olhos para os de Abikair. Fiquei preso pelo magnetismo de suas íris arroxeadas de tão azuis.Não me chame de detetive. de todos os problemas que eu já tenho. essa noite já estava fadada. -« Acho que já tenho o suficiente por hoje. Um misto de compaixão. depois de longos minutos de silêncio. . . Sua voz saíra mais delicada que o usual. ± Novamente deixei que meus lábios se alargassem.Não me chame de ³senhor´. detetive.Acredite. Agora que me demorava mais no rosto do detetive. . .

A sensação que eu tinha era a de relaxar facilmente. como alguém que fecha os olhos e . apoiando-se mais à parede. é o mais certo a se fazer.É. Mas ele desviou os olhos dos meus. Peguei-me imaginando o que Abikair queria precisamente me dizer com suas expressões.Malditas bolas de neve. refletindo suas reais emoções. E era incomum. . . . e eu tive que acompanhar seu gesto. Concordo com a estratégia.Pode não parecer. ± Foi a vez dele de sorrir fracamente com o comentário. e ao mesmo tempo agradável. a inusitada proximidade que mantínhamos um do outro.Certo. que essas exatas emoções fossem a mim direcionadas pelo detetive. .« Malditas« . mas eu não gosto de misturar meus pepinos. para não dizer estranho. Era estranho. Abikair deixou que a coluna se desenrolasse.Eu não percebi se o senhor« ± Notei seu olhar e corrigi rapidamente minha falha ± Se você ligou pra cá ou pro meu celular.Acha que amanhã poderá comparecer à delegacia? .compreensão e pesar transbordava facilmente de seu semblante bronzeado.

O silêncio reinou novamente. para que sua sombra sob a luz da sala não o denunciasse. Abikair apontou a cozinha. ainda conseguia ver o . ao que me pareceu. Abikair foi se aproximando da porta de entrada.44 Magnum. O detetive havia tomado mais fôlego para continuar sua fala. tomando cuidado. Pensei que seria melhor termos continuado a conversar. com o pente completo com suas 8 balas. em minhas mãos. e no cativeiro de Henrique Sardenberg. certamente.deixa-se guiar cegamente por outrem para atravessar uma rodovia movimentada. Se não estivéssemos em silêncio. Voltando as aquarelas para mim. Alerta. uma pistola grafite com o punho negro e. bem« Abikair aparentava em suas feições exóticas extrema frieza. e sido desconsiderada por um conjunto de fatores que eu particularmente não conseguia enxergar. e com ela veio uma Desert Eagle . . Devagar. ± Baixou a cabeça. Não era a primeira arma que eu havia visto na vida. fitando os próprios pés ± Acabei me deixando levar num rompante. A mão foi ao flanco novamente. mas acredito que tal idéia já teria passado pela mente do detetive. Como a abertura na parede era larga. não cheguei a ligar. Abikair postou uma mão em meu ombro. prevendo que eu estava prestes a levantar. Comecei a sentir o pulsar incômodo em meu pescoço. escorei-me à parede. nem a primeira que eu havia visto em ação. dardejou toda e qualquer entrada de ventilação que meu apartamento possuía nos cômodos que seu raio de visão lhe permitia verificar. Com os olhos ainda voltados para cima. Novamente um barulho. Mas devia ter feito isso. quando ainda morava com meu pai. Não foi difícil identificar a origem dos estranhos sons como vindas do corredor além da folha de madeira escura. mas eu só conseguia pensar em como os nós dos meus dedos estavam brancos de tanta força com que fechava meus punhos. tranqüilidade ou hormônios sexuais. Como um felino. Minha garganta ficou seca. talvez não o tivéssemos percebido. engolir me parecia ser um tremendo esforço. e eu entendi que deveria ficar onde estava. e flanqueando a sala de visitas. ele me ensinara a manejar o 38. uma quietude mórbida que me agonizaria muito menos se não tomasse a tensão que o homem ao meu lado exalava pelo ambiente. porém. o suor frio parecia se formar promiscuamente em minhas têmporas. Em seu caminho. dessa vez mais baixo. e andando devagar para não provocar suspeitas. Olhou profundamente em meus olhos. puxou ar para responder. mas um barulho chamou nossa atenção. Não sei ao certo se o que o detetive exalava era segurança. o detetive esgueirou-se até ficar ao lado da porta. ainda que você não atendesse.Não.

Seu cenho franzido e os olhos inquietos denunciavam a vontade de pensar rápido. que me despia e bambeava os joelhos. ao passo que eu pulei no lugar.detetive agir. como que processando alguma coisa. na qual eu me sentia estranhamente o local da briga. envolvendo-me com seus braços e escondendo-me sob si. Todo o sangue de meu corpo pareceu se concentra em minhas víceras. Abikair continuou com os olhos em mim. Qual foi minha surpresa quando. era só isso que acontecia. Habituado ao trabalho. Tocou as costas na aresta atrás de si. Os glóbulos azulões do detetive dardejavam para todos os cantos nos raros intervalos que me arriscava a abrir os meus. pensei. pronto para ter sua integridade física maculada. e rezava pela segunda opção. e então a colisão de corpos. Entretanto. ao abrir os olhos. só consegui pensar em como era tentador beijar a pele bronzeada de seu pescoço parcialmente desprotegido. Soltei a cabeça. Uma brincadeira de gato e rato. A pistola ainda em sua mão esquerda. levando uma mão à boca para contar qualquer reação de surpresa antes que ela realmente se manifestasse. Piscou de leve. ao morrer. me perguntando se minhas suspeitas estavam certas. O som de passos começou a ecoar pelo corredor. Mas só o que ouvíamos era o som entrecortado de nossas próprias respirações. não via a vida inteira passar pelos olhos. Gelei ao ler seus lábios. Ele me lançava um olhar penetrante e urgente. ³Uma bomba´. encontrei o detetive ao meu lado. como quem quer que estivesse lá fora pretendesse denunciar sua presença. o corpo grande e pertubadoramente quente de Abikair deitava-se sobre o meu. ou se fora apenas força do hábito do detetive. muito embora ser fácil de notar que sua atenção estava em algo mais. . algo se chocou contra minha porta. compreendendo todo o significado que aqueles ruídos poderiam representar para mim: ³Acho que ele me seguiu´. e mesmo naquela situação. e uma sensação de torpor enjoativo me tomou. E então. já levara as mãos à cabeça. e eu sabia que meu peito não estava muito diferente. Sentia o cheiro da pele do moreno sobre mim adentrar minhas narinas sem dó. Nada mais. Enquanto batia a cabeça no chão frio da cozinha. Arregalei os olhos quando notei o rosto de Abikair voltado para mim. e sibilou algumas palavras. o rosto tão próximo de mim que podia sentir seu cheiro de amêndoas. ansioso e temeroso por ele. o detetive não se moveu um milímetro sequer. e antes que pudesse me refrear. Fechei os olhos. pensando em como os segundos se arrastavam nas horas mais críticas e se era só eu quem. na tentativa tola e frustrada de me proteger da eminente explosão. o corpo de bronze foi se descolando do meu. Abikair respirava mais rapidamente do que jamais havia notado. ainda mantendo-me deitado ao chão com uma das mãos morenas espalmada em meu abdômen. Fiquei esperando. Passos. Aos poucos. Explosão essa que não chegou.

e deitado. o detetive Abikair ficou agachado e foi para a sala de visitas. pois nem os movimentos de Abikair eu conseguia ouvir. . à procura de meu celular. o sangue ainda concentrado no centro de meu corpo. . um leve tremor atravessando a espinha. arregalando os olhos. E. Permaneci como estava. piscando muito e sentindo a garganta arranhar cada vez mais doloridamente. me deixando ainda mais sensível ao seu cheiro ± Não saia daqui até eu vir te buscar. não consegui puxar ar algum quando foquei o pequeno Gato Félix e sua maleta amarela feitos de massa de modelar. de qualquer maneira. Senti sua respiração quente e acelerada tocar minha bochecha. sussurrou ao pé de meu ouvido.Fique aqui. embora eu fizesse força para respirar. ± Ele suspirou. Fernando. eriçando meus pêlos da nuca aos pés e. O silêncio me assustava. Onde Fernando estava?! O loiro havia saído com a irmã. as mãos agora se assentando sobre meu peito. Sentia que suava frio. nem preciso falar que eu não tinha. Comecei a hiperventilar. sumindo do meu campo de visão.Fernando«! ± Murmurei. aproximando seu rosto do meu muito rapidamente. e meus olhos não paravam em nenhum ponto fixo. o que me fez fechar os olhos e entreabrir meus lábios. assustado. frenético. Sem promessas ou garantias. mas eu provavelmente o havia deixado em meu quarto.minhas mãos parcialmente suspensas por não saber onde colocá-las. mas nada havia garantido que estava fora do prédio! Ele poderia muito bem tê-la apenas acompanhado até o carro e já estava no caminho de volta! E se houvesse acontecido alguma coisa com ele?! E se ele estava ferido. Engolia em seco. Fernando! . esperando alguma informação dele que pudesse me apaziguar e me tirar daquela tensão que não me abandonava com o pesado silêncio que reinava em meu apartamento. E. deitado. Fitava Abikair com gravidade. com a voz mais rouca e grave que o normal. Não conseguia piscar. O número de Larissa. cada vez mais nervoso. e meus olhos pousaram nos imãs da geladeira. O detetive baixou a cabeça. Tentei me distrair com alguma coisa da cozinha. de barriga para cima. Fernando ainda não possuía celular. Eu já volto. ou sendo ameaçado?! Poderia ter sido seqüestrado?! E se tivesse sido pego como refém?! Não havia preço no mundo que eu pudesse trocar pela vida de meu namorado! Apalpei os bolsos.

sentido algo que denunciasse algum efeito. explodira em outro apartamento?! Seria possível?! Não. na verdade. decidido a me levantar. Meneei negativamente a cabeça enquanto ele ditava alguns comandos à pessoa do outro lado da linha. nós teríamos que ter ouvido alguma coisa.. .Eu preciso encontrar o Fernando. o moreno exótico permitiu-se direcionar toda a sua atenção para mim. me encararam com censura. mas sua mão havia se fechado de tal maneira em meu pulso que eu não conseguia me desfazer de seu agarrão. não! Não. Fechando o flip do celular com um dedo. ± Declarou. e seus olhos. e com movimentos pouco lentos fiquei de pé. trazendo-me de volta para o centro da sala. nervoso. . Mordi os lábios. Apoiei-me nos antebraços. E o doutor Rafael também estava lá! O que seria da pequena e meiga garotinha ruiva e mirrada com os olhos da mãe. não«! Meus vizinhos! Como estariam Igor e Thomas?! Teriam sido eles afetados?! E se a bomba não pareceu surtir efeito porque. sua testa se vincando com minha desobediência. as palavras de Abikair fluíam com certa irritação de seus lábios tentadores. Já estava para abrir a porta quando sua mão livre agarrou com força meu punho. eu sentia a extrema necessidade de saber como e onde meu namorado estava. um dedo apontando para a cozinha.Ah. Guilherme. ± Já o meu tom era urgente. que morava na Austrália?! Isso não podia estar acontecendo! Isso não podia acontecer! Não por minha causa! Eu não queria nem pensar que alguém havia se machucado por minha única e exclusiva responsabilidade. E eu me sentia cada vez mais agoniado com os segundos preciosos que se passavam diante de minha imobilidade. O detetive levara o telefone ao ouvido quando me aproximei dele.Você está dificultando o meu trabalho aqui. . um tom levemente impaciente em sua voz grave. Tentei me mover novamente. primeiro sobressaltados.

me questionando se fora algum dos homens de Abikair quem fizera aqueles barulhos. Era engraçado pensar que o detetive estaria mandando algum torpedo para um de seus colegas.Seus vizinhos também estão bem. minha garganta doía com os arranhões de tão seca. talvez por notar que minha preocupação iminente havia acabado de desaparecer. o detetive pareceu menos tenso. . Levei uma mão à testa. Ainda está discutindo com a irmã frente ao prédio. um tanto baixos. por um momento. Franzi o cenho. e pude me mover até a cozinha e pegar um copo de água para mim. Como ele poderia ter tanta certeza de que estava tudo bem com Igor.Não. não me pareceu absurdo confiar nas palavras dele. ao ponto de bambear minhas pernas e me fazer suspirar. me sentindo mais tranqüilo. Thomas e o doutor Rafael? Alguma coisa no modo como ele sustentava o olhar me fez dar de ombros e jogar a cabeça para trás. Depois de tudo aquilo.. . tomaram parte de minha atenção.Tem alguém no corredor? ± Lancei a pergunta. ainda que um pouco inquieto pela prévia situação. Não posso mentir que o alívio que senti me renovou. Analisando-me com olhos críticos. Ainda estava colocando o copo na pia da cozinha quando mais uma vez senti meu corpo ser lançado .Tenho certeza de que ele está bem. Ouvi-o tomar ar. O apertão em meu pulso afrouxou. ± Balançou o celular algumas vezes ± Não estamos sozinhos. um pouco confuso. juntando minhas sobrancelhas. Sons eletrônicos. .

e minha atenção voltar-se-ia para os danos produzidos. todos os meus sentidos voltaram. pois eu tinha certeza que não conseguiria suportar que outros passassem pelo que acontecera. havia sido seguido. Primeiro aquela surdez incômoda. supersensíveis.«! Foi a última coisa que eu consegui escutar. da cozinha e da varanda não mais iluminavam os respectivos cômodos. No fundo de minha consciência. latejando pela pancada. Estranho. Tive receios de abrir os olhos ou de parar de agarrar-me a Abikair. Um tremor tomou conta de minhas mãos. madeira e gesso na boca. Minúsculas partículas de pó dançavam lentamente sobre meus olhos. tudo ficou silencioso. e minha reação automática foi praguejar enquanto levava uma mão ao local dolorido. . Felizmente. Pereceu-me uma eternidade até que minhas sinapses nervosas fossem concluídas e eu pude entender o que ocorrera em meu apartamento. Meu ombro bateu doidamente. Abikair não fizera mau julgamento. seus olhos estavam desesperados como eu nunca havia visto. Mas dessa vez não consegui sentir o doce cheiro de amêndoas que despregava dele. os sons de estilhaços ainda em queda e minhas mãos fincando-se nas costas do corpo que me protegia. Vi-o passar os braços em volta de mim e trazer-me para perto de seu próprio corpo. os olhos espremidos de tão fechados. as lâmpadas da sala. De súbito. fazendo com que o ar ficasse turvo e visível à luz da noite. tentando pegar o detetive com a guarda baixa. voltei minha atenção para o cenário que se formava para além do detetive. um zumbido estranho e contínuo tomou meus sentidos e. E quem quer que estivesse espreitando havia esperado pela melhor hora para fazer seu movimento. Depois. apenas um pensamento de alívio: ainda bem que não havia mais pessoas em minha casa. minha visão ainda funcionava. avassaladoramente. enquanto eu preservava-me petrificado.ao chão sem meu consentimento.Guilherme. ao que tudo indicava ele. Senti o gosto de poeira. Por alguma razão. Escondi minha cabeça naquele peito largo e quente. Sabia que o torpor que estava sentindo logo passaria. o cheiro de demolição. embora eu conseguisse ver Abikair mover seus lábios. . agora a falta de olfato. e a reação automática foi abraçar o corpo sobre mim. de fato. A consciência de mim mesmo e da mudança no ambiente se arrastava por mim. E só depois de perceber isso.

levantando levemente as partículas de demolição assentadas no piso do cômodo. Minhas pernas estavam ainda no ritmo do torpor anterior e não queriam se mover. O choque do detetive com o chão da cozinha produziu um baque maciço. Apoiei meu tronco na baixa divisão entre a área e a cozinha. Com o braço bom. e me parecia que a qualquer momento alguém me surpreenderia com algum impacto. mas mordi os lábios para conter o urro de dor que por pouco não escapou. Levei um choque. O nervoso me fazia tremer. Agarrei Abikair pela cintura. puxei a nós dois para a pequena área além da cozinha. mas não me preocupei com isso na hora. Suspirei ruidosamente ao acabar de puxar suas pernas. Os sons foram se apassivando. . e o puxei para cima de meu próprio corpo. Senti o ombro alvejado latejar doloridamente. exatamente como devia ter acontecido a Henrique Sardenberg. e olhei para o caminho por mim feito. O que fazer. quando menos pude esperar. O pavimento da cozinha era do tipo perfeito para enganar a sujeira. espremendo os olhos com a força e a dor por mim desprendidas para arrastar o corpo inerte do detetive. e meus olhos continuavam cerrados como se minha vida dependesse da privação de constatação do dano em minha casa feito. seu corpo tombou ao meu lado. e não conseguiria pegar qualquer faca ou cutelo sem despertar um quarteirão inteiro. precisava chegar até o pequeno banheiro ao lado do tanque e nos esconder. Um filete rubro e rutilante riscara o rosto de bronze polido. O resfolego intensificava-se a cada momento. Minhas mãos ainda se vincavam as costas do detetive. passando os braços por baixo dos seus. o que fazer?! Não havia armas em casa. os cabelos escuros esbranquiçados por uma fina camada de poeira. e a atmosfera de estrago pareceu tranqüilizar-se numa mórbida serenidade. o desespero a poucos segundos de me tomar por inteiro. e um chiado acompanhava cada invasão de ar nos pulmões colados em meu corpo. Um suspiro chamou minha atenção.não conseguiria me perdoar se algo acontecesse aos meus amigos e colegas. Um estalo me fez abrir os olhos. Uma emboscada. acabamos por limpar o pó que havia se assentado por todo o lugar. Mesmo se Ricardo e Larissa estivessem em meu apartamento. mesmo assim« Eu me sentiria culpado. fechando novamente os olhos. e meu corpo resolveu voltar a se mexer. mas nem isso impediu de se notar perceptivelmente a trilha que deixamos. E eu morreria do mesmo jeito: com um buraco de grosso calibre bem aberto em minha nuca. e levantei a cabeça para mirar Abikair. Vi-o balançar a cabeça e. Meneei a cabeça negativamente.

Eu estava borrando de medo. Tentei engolir a saliva. aqui é Delta Bravo. O barulho arrastado tomou conta do silencioso ambiente. como se abri-los muito pudesse me fazer capaz de escutar melhor. que saiu mais forte do que eu pretendia. a ansiedade me desesperava mais do que tudo. copia? . Peguei-me arregalando os olhos.Passos. seu nome não fora divulgado em nenhum lugar! Os passos cessaram. e eu temia que até os meus vizinhos pudessem escutá-lo.Explosão de pequeno porte no aparelho 673.Pode falar. Ergui a cabeça. Ele não podia saber quem era Abikair. só quem tem sangue frio para esse tipo de coisa consegue manter a cabeça no lugar. meus móveis. Delta. dessa vez com movimentos mais rápidos. ele vai me achar!´. mas a garganta pulsante continuava seca e arranhando. O coração pulsava louco em minha garganta. Soltei devagar a expiração. nessas horas. . apenas no desespero pavoroso que me acometia diante da iminência da morte. .Central. e eu levei uma mão à boca. responsável Alfa Bravo. Parecia remexer minha casa. ± Respondeu uma voz feminina eletrônica que eu julguei ser de um rádio transmissor. ³Ele vai me achar. me obrigando fortemente a respirar sem fazer qualquer ruído. A incerteza do destino é algo assombroso. Meu foco ia se perdendo a medida que a quietude novamente reinava. Como ele descobrira?! Não era possível que ele tivesse seguido Abikair com o exato intuito de me encontrar. só podia pensar. Não adiantava tentar ficar calmo. Não conseguia pensar em nada. quase que literalmente. Apertei mais os olhos. Quem quer que fosse voltou a se mexer. . ainda incomunicável. como que a procura de algo. o detetive ainda desacordado recostado sobre meu ombro.

estalando a língua ± Delta Bravo. Delta e Kapa Bravo. central. Delta Bravo.Reforço à caminho. Delta Bravo.Confirma. líder Alfa Bravo. ± Pediu a voz eletrônica. Beta. destacamento Alfa. . . . Operação ³Israel´. central. e eu ouvi o homem bufar. . procure por Alfa Bravo.Provavelmente caseiro. . central.Positivo. confirma? . O detonador já foi ativado. . esquadrão anti-bombas na dianteira. aparelho 673. ..Suspende o esquadrão. central. ± Pediu com enfado.Um momento.Alguma estimativa do tipo de explosivo? ± Pediu a mulher.Certo. aguardando segundo contato.

. acreditando ser aquele homem o fim de minha vida? Meus olhos voltaram-se para Abikair. certo? O cara não podia ter todo esse trabalho só para me apanhar. Ainda travava uma das minhas mais árduas batalhas internas quando o homem em minha casa voltou a andar. Ele. Se fosse realmente alguém da equipe do detetive. Ele não tinha culpa de eu ter me encontrado com o assassino de Henrique Sardenberg. O alívio era revigorante. bem« Estávamos salvos. mas também pareceu amolecer cada músculo meu. ainda desacordado.Central.Não podia ser uma emboscada. Mande uma ambulância. . o que vai ser?!´.Já está a caminho. Deixei que meu corpo relaxasse. ou continuava escondido. assim como meus amigos. Delta. expirando longamente. quem quer que fosse o Delta Bravo. encontrei Alfa Bravo. perguntei a mim mesmo. o sangue vertendo generoso do lanho na lateral de sua cabeça. certo? Não. apressou-se em nossa direção. Eu confiava na sorte e denunciava a minha posição. a cabeça tombando levemente: estava salvo. dessa vez mais pausadamente. E eu não podia deixar que nada lhe acontecesse de ruim. -« Hunf! Os movimentos se interromperam quando eu deixei que um reclame de dor atravessasse minha garganta. era muita coisa para pegar um peixe pequeno como eu. . ³E aí. Puxou um pequeno rádio do bolso. curvando o corpo grande e encarou-nos por alguns segundos. Mas se não fossem« Eu só esperava por uma morte rápida.

Levantou-se rapidamente.. Um pensamento me passou pela cabeça. apertei a toalha contra a cabeça do detetive. . . tentando limpar um pouco do líquido rubro da testa de Abikair.Você está ferido? ± Veio a pergunta.Deixe-me ver« O homem certificou-se de não mexer muito no detetive Abikair.Ele.Pressione aqui. Sua expressão não foi das melhores. Fiz como o homem mandou. Puxou um lenço do bolso. um tom de preocupação e urgência tomando sua voz. virando-o apenas o suficiente para examinar mais atentamente o talho muito próximo ao supercílio do detetive. em dúvida ± Mas ele tá com um machucado sério na cabeça. . . Com o braço bom. sentindo o braço que me fora alvejado doer de súbito. Acho que não« ± Concertei a resposta. ± Pediu. Os olhos castanhos e opacos voltaram-se para mim. que me angustiava a cada segundo com seus olhos permanentemente fechados. colocando-a sobre o rasgo na pele bronzeada. que ainda não havia me movido um único centímetro de minha posição inicial.Não.« Ele não« . o cenho franzindo-se cada vez mais. Virei levemente o corpo. puxando uma das toalhas de rosto que estavam penduradas no secador da área de serviço.

eu não via nem esboço. e minha mente começou a viajar para longe. A porta havia sido destruída. bem como o pequeno aparelho de som . Meneei positivamente a cabeça e. mas tirando isso. pouco se via. estava feito. assumindo meu lugar. . não consegui parar de pensar no quão idiota eu fora. nem a mim nem àqueles próximos a mim. Assenti com a cabeça. para o passado. por atos impensados e já cometidos. Ainda batia minhas roupas. mas nada que umas batidas no chão não resolvessem. quando me dei conta do que acontecera com meu apartamento. e eu não pude recusar sua oferta. e o homem se afastou para continuar a se comunicar pelo rádio. Eu fora covarde demais para admitir isso para mim mesmo. se a ambulância não chegar aqui logo. o homem pressionava o machucado de Abikair enquanto eu levantava. e me peguei na dúvida. e pela película branca e pegajosa sobre o estofado. Da mesa. A tela da televisão estava trincada. Não era hora de se remoer. embora as pernas das cadeiras se sobressaíssem nos escombros. concluí que o homem havia apagado algum fogo com o extintor. Meu braço estava realmente doendo. Além da cozinha. Mais precisamente para quando o senhor Colin me mandou entrar naquele apartamento. impressionado com a eficiência com a qual o sangue de Abikair havia manchado minha blusa. não. seus restos ainda permaneciam escorados na parede próxima ao acesso ao corredor. O sofá estava chamuscado.-« Não. o que estava feito.Acha que pode se levantar? A voz do homem me trouxe de volta à realidade. Era óbvio que alguma coisa errada iria acontecer. novamente. Entretanto. Eu nem sequer pensara nas conseqüências que aquela ação poderia causar. a ³neblina´ das partículas de poeira ainda dificultavam a exata percepção do que havia na sala. mas naquele momento de ³liberdade mental´. ± O homem captou minha intenção ± Mas vai. A perna estava dormente. Eu não consegui me prender às suas palavras. o resto era desconforto muscular pelo choque inesperado contra o chão.

direcionando meus olhos para o corredor que dava acesso aos quartos. ± Respondeu pacientemente. Estalei a língua. e alguns dos artigos de decoração haviam-se quebrado. demorando-me brevemente no trincado na porta de vidro da varanda. ao notar sua relutância em ceder. Dois quadros estavam tortos.Desculpe. posso perguntar algumas coisas? ± Disse.Por favor. Não é nada que você não possa me falar.que costumei a deixar na sala.Tudo ao seu tempo. . . segurando o braço que ainda latejava. aquela parte não parecia ter sido atingida. Apesar da pequena sujeira que os destroços de minha casa causaram ao corredor do quarto andar. ± Adicionei. . cansado demais para lamentar pelos estragos e aliviado o suficiente para agradecer por estar vivo. -« O que você quer saber? Continuei sustentando o olhar opaco daquele homem de feições duras. ao voltar para a cozinha e encarar o homem que trabalhava com o detetive. felizmente. Suspirei. Num estalo. caminhei até a porta de meu apartamento. o apartamento ao lado estava intacto. eu preciso saber alguma coisa do que acabou de acontecer.Meus vizinhos« . . voltando-me para olhar o apartamento de meus vizinhos. Baixei a cabeça. Deixei que meus olhos vagassem pelos destroços que há pouco tempo formavam minha sala.

Alguém do prédio«? . consegui me locomover até o banheiro. Eu não tinha o número de Larissa. O corte era tão profundo que em nada pude ajudar com as provisões que havia trazido do banheiro. faixas e remédio para tentar ajudar Abikair. nunca quis guardar o de Ricardo. . mordendo-os por dentro e me segurando para manter a respiração calma. mas presumindo que tudo o que o detetive sabia era compartilhado com seus homens. Nem ninguém do seu andar.Já havia saído com a irmã antes da explosão. e sentindo que a preocupação ia diminuindo. o homem rapidamente voltou a pressionar o talho na cabeça do detetive. fiz a pergunta que mais me incomodava ± Meu namorado«? . -« ± Por um momento hesitei em pronunciar aquelas palavras. a certeza era a de que ele não havia sofrido nada. ± Falou com certa amargura. O tecido . Ao remover a toalha do corte. e Fernando ainda não comprara um celular novo. Foi só aqui.. Isso já era muito bom. Pensando nisso. Puxei os lábios para dentro. como se não quisesse admitir o crédito da pessoa que armara a explosão tão bem. e estão junto ao nosso pessoal lá fora. O jeito era esperar até que ele desse notícias. que até poderia estar com eles.Não. -« Obrigado.Já foram removidos. onde consegui gazes. Pelo menos.

que saltava a vista e despertava enorme desconforto.Afirmativo. outro homem.Espero que não. os olhos de um castanho incomum. a cabeça raspada denunciava que fazia menos de dois dias que ele havia cortado o cabelo. ± Veio a resposta rápida. Sua figura era um tanto ordinária. tão destacados que quem não prestasse atenção falaria que ele estava usando lápis de olho e lentes de contato. Delta. surgiu à porta de meu apartamento. A blusa preta acompanhava a calça jeans de um azul muito escuro. . Em menos de um minuto. copia? . após alguns segundos de chiado.Sobe aqui que não sei quanto tempo ele vai agüentar. mais baixo do que eu. Sua pele era marfim.Acha que vai demorar muito pra ambulância chegar? . . Delta. ± O homem voltou a puxar o rádio ± Delta Bravo para Kapa Bravo.antes tão alvo agora se tingia de um vermelho rutilante. . ± Respondeu o rádio.Copia. . mas seus traços de pessoa normal marcaram minha memória. Kapa falando.

e só agora eu reparara que havia uma mochila em suas costas. Deixa eu ver como tá. um pouco surpreso de ver o quanto uma pessoa normal. poderia ser tão marcante. Venha comigo. fique junto de nós. Os lábios abriram um sorriso no rosto ameno. Segui os passos do integrante Kapa da equipe do detetive. e ele se aproximou devagar. com características tão comuns. a testa de marfim se vincando ± Espera um momentinho.Guilherme.Se eu tirar a mão daqui. um pouco aflito com a situação em que Abikair se encontrava. -« ± Pareceu refletir um pouco..O moleque não brinca em serviço. ficando entre Souza e o detetive.Astuto da parte dele ter um ex-paramédico na equipe. . ± Comentou Souza. mais grave do que eu previa ± Você está bem? Só consegui menear positivamente a cabeça. seus olhos opacos ainda na toalha ensangüentada. .Sabe onde está Souza e Abikair? ± Limitei-me a apontar com o dedo ± Certo. ± Veio a voz. . Souza. O homem baixou. . vai esguichar. .

depois a tirou. Rapidamente. pegou-as e as deixou na barriga de Abikair. Pressionando as gazes sobre o talho. o homem levou o objeto metálico à fronte do detetive. . Ao que me parecia.Huff« ± Suspirou mais uma vez ± Vai. . a outra mão amparando a cabeça. ± Levantei as sobrancelhas para indicar que estava ouvindo ± Pode me arranjar uma toalha maior do que essa? .Quando eu disser ³vai´. e ouvi alguns estalos vindos do apertar de seus dedos. os olhos castanhos se voltaram para mim. Olhou para Souza. puxando forte para que a gaze pressionasse tanto quanto a mão de Souza o fazia. Pressionou a toalha contra o ferimento de Abikair. Enquanto suas mãos continuavam em ação. alongando rapidamente o pescoço.Certo.Guilherme. Souza fez como o homem havia instruído. o homem habilmente enfaixou a cabeça de Abikair.Tirou a mochila das costas. fechou os olhos por alguns instantes e voltou a abri-los. . puxando um pequeno aparelho metálico de dentro. você aperta bem forte e tira a toalha. . Ao enxergar as gazes e as faixas que eu havia trazido. o tal artefato era um tipo de grampeador. Suspirou.

Virei as costas, correndo para o armário do quarto de hóspedes e peguei umas das toalhas na prateleira de cima. Voltei correndo, entregando-a para o homem, que agradeceu com um meneio de cabeça e um sorriso brando rápido. Dobrando uma parta da toalha, o homem colocou-a sobre a cabeça do detetive, segurando suas laterais para que a pressão sobre o machucado fosse maior.

Ouvi o som da sirene da ambulância, constatando que o carro branco iluminado chegara ao espiar pela janela. Vi o alívio pairar nas expressões dos dois homens; realmente, Abikair era muito querido entre os membros de sua equipe.

- Central para Delta Bravo, copia? ± Voltou a chamar o rádio.

- Copia, central.

- Qual a situação de Alfa Bravo?

- Estável. ± Repetiu Souza, ao ler os lábios do homem ao seu lado ± A ambulância já chegou.

- Certo, Delta Bravo. Operação ³Israel´ no aparelho 673, encerrada. Câmbio final.

Souza guardou o rádio, o outro homem ainda o encarava com certa expectativa. Ao notar meu olhar sobre si, tentou esboçar alguma despreocupação.

- Agora está tudo bem. ± Tentava me tranqüilizar ± Você vai precisar nos acompanhar por essa noite. Separe umas mudas de roupa, assim vai ser melhor.

Um pouco confuso, assenti, e me direcionei para meu quarto. Peguei minha mochila, coloquei algumas camisas, calças e cuecas. Joguei a escova de dente e o shampoo junto, bem como uma toalha e meu carregador de celular. No caminho, carreguei minha carteira e as chaves de casa. Ao voltar para a sala, para-médicos vestidos em branco já haviam colocado o detetive Abikair numa maca móvel e saíam de meu apartamento, um deles segurando uma bolsa de soro ao alto. Fiquei observando aquela cena, um pouco desnorteado. Foi o toque de uma mão em meu ombro que me tirou da inércia.

- Precisa pegar mais alguma coisa? ± Perguntou, seus olhos destacados me encarando com certa preocupação.

- Acho que não.

- Certo. Vamos indo?

Pensei em deixar algum recado para Fernando; acho que ele se assustaria se encontrasse a casa destruída. Mas assim que passamos pelo local onde a porta deveria estar, o policial selou a entrada com algumas daquelas fitas amarelas que a polícia utiliza para isolamento da cena do crime. Definitivamente, a equipe de Abikair devia ter vindo com

ele de outro estado; ações assim não costumavam ser vistas. O homem voltou a colocar a própria mochila nas costas, ergueu-se e bateu as mãos.

- Vamos indo?

- Ahãm.

Descíamos pela escada, já que o elevador parecia estar interditado, e me pareceu uma cena de filme quando, no saguão do meu prédio, viaturas da polícia e uma ambulância faziam o cerco da entrada como que para impedir que curiosos se aproximassem demais. As luzes ao alto e os flashes repentinos indicaram que a imprensa também sabia ser ligeira e já metia o focinho no que mal terminara de acabar. Passando-me para seu lado esquerdo, o homem de codinome Kapa colocou um braço envolta de meus ombros, guiando-me para um dos carros pretos, parado em cima da calçada. Deu a volta e sentou-se comigo no banco de trás. Identifiquei Souza próximo às portas traseiras da ambulância, e vi-o entrar antes que elas se fechassem.

- Pra delegacia ou pra pousada? ± Veio uma voz feminina.

- Pousada. ± Respondeu o homem ao meu lado.

Fiquei surpreso ao constatar que o motorista, na verdade, era uma mulher. Ela carregava um rádio semelhantes ao de Souza e do Kapa, bem como roupas escuras, mas que facilmente se misturariam com a multidão lá fora. Ela era a última integrante da equipe de Abikair, e tão logo ouviu a resposta do homem, engatou a primeira e tirou-nos da aglomeração que se formara em torno de meu prédio. Os cabelos castanhos claros eram

justamente à minha frente. não acreditei. .Olá. entretanto lá estava aquela mulher sentada. mas pelo menos tente entender. Afinal. Ela girou o corpo para trás. Eu entendo. ± Baixei a cabeça. decididos e um pouco culpados.ondulados e fartos. Flora. Já tenho tudo aqui. . Ela me parecia muito baixa. seus olhos escuros voltando-se para mim. e já tinha buscado ar para formular uma resposta. . o que aquela voz familiar estava fazendo ali? Ela já havia ido embora de meu apartamento fazia um bom tempo.Eu sei. . De cara. ± Disse. os lábios volumosos e as sobrancelhas finas eram muito escuras.Acha que precisa buscar alguma coisa? Primeiro pensei que ela estava falando comigo. Guilherme. quando notei pelo retrovisor que ela direcionava seus olhos firmes à pessoa no banco do carona. uma pequena mala ao colo. depois de um tempo de silêncio ± Não me importo se você me odiar. notando que ela desviava os olhos de mim. . mas a determinação em seu rosto tirava qualquer dúvida da destreza de seus atos.Não.

O destino me dera uma rasteira. Quando me dei conta para onde estávamos indo. Era como se tivéssemos adentrado a um andar do prédio de uma companhia grande. entregando identificações para todos ali dentro. Havia computadores. e demorou um pouco até que ele voltasse. câmeras e dispositivos de alarme em sua redondeza indicavam o contrário. ³Há quanto tempo eles estão aqui?´. rádios.Pegue a rua da direita. uma sala espelhada que eu julguei ser da perícia« Realmente. Sentado a uma das mesas. o que eles passavam era um cansaço acumulado. ± Disse o homem ao meu lado. Demos a volta nas instalações da pousada. várias mesas. ninguém pensaria que havia tanta coisa debaixo da construção abandonada. gravadores. o carro sacolejava um bocado. os fachos das lanternas que haviam sido acionadas iluminaram uma pequena abertura ao chão: um abrigo anti-bombas. fones. paramos frente a uma construção de madeira. rastreadores. Uma antiga pousada. Mas as luzes acesas. Não havia mais como escapar. pilhas de documentos e pessoas à volta. telefones. me perguntando no que aconteceria a partir daquele momento. Vi-me cercado por outras pessoas que até então eu não havia notado. entrei numa sala espaçosa e bem-estruturada. Coloquei o cordão do cartão no pescoço. que os jornais falaram que havia sido desativada por causa de falência do dono. notei que estávamos nos limites de minha cidade. me perguntei enquanto seguia Flora e era seguido pela mulher que dirigira o carro negro. Pegamos uma estrada de chão. A testa se . na verdade. Depois de uns dois quilômetros. Nenhum deles parecia muito animado com a minha presença. e eu caíra em sua armadilha. depois de alguns lances de escada. Arregalei os olhos quando. uma mulher de cabelos castanhos avermelhados direcionou os olhos de cor âmbar e ergueu a mão para calar quem quer que estivesse falado com ela. rodeada de quadros com folhas afixadas. Puxei o ar com força para dentro de meus pulmões. Apenas o homem ao meu lado saiu do carro quando o veículo estacionou.O silêncio reinou por alguns segundos. próprio do estilo de construção da pousada. era o fim da linha. .

Por um momento. Alguma dúvida? ³Ah. ± Tombou a cabeça para a direita ± Até a volta do detetive. sem questionar. Enquanto vocês ficarem aqui. O nome da operação é ³Israel´. vocês dois estão envolvidos nessa. Era o olhar sustentado por alguém forte.Muito bem. mas manteremos vocês atualizados da situação. daí a pedirem para que pegássemos alguns de nossos pertences. eu estou no comando.vincou. e de uma forma ou de outra. pois elas serão para sua própria proteção. e notei que o olhar dela recaiu em mim. Flora e eu nos olhamos. Cocei a nuca. nós não saímos daqui. Vocês não estão autorizados a fazer qualquer ligação ou contato exterior sem nossa autorização. e ela levantou e caminhou até ficar próxima a mim e a Flora. espantado com o que estava acontecendo. Aqui é nosso lugar de investigação. parei para pensar. satirizei em meu pensamento. Seus olhos escanearam a nos dois. . . quase que novamente. comigo. vocês seguirão às nossas orientações. que parecia dar passos . e ela estalou a língua enquanto cruzava os braços.Nós não temos a obrigação de passar todas as informações para vocês. Esta é uma unidade secreta montada pelo detetive Abikair. que tal milhões delas?!´. unicamente para capturar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. .Essa é a nossa equipe principal. e só então reconheci a voz da mulher como sendo a mesma que era emitida pelo rádio quando Souza e o homem chamado por Kapa contatavam a ³central´. nem podemos ser vistos.

Vou levar vocês pra dentro. Guilherme. Hanna. voltaram sua atenção para os seus afazeres.« . Depois de entrar à esquerda.firmes e não deixar pontas soltas.Certo. Guiou-nos pela abertura da direita. . dando-nos acesso ao que parecia uma sala de estar comum. Pode usar tudo que tem no quarto. inclusive aqueles que nos haviam escoltado. sem saída. tentando entender a informação implícita naquela declaração. . como se ela não conseguisse relaxar e tivesse a obrigação de permanecer tensa o tempo todo. você fica aqui.Podem me chamar pelo nome. Sobrenomes serão confusos. passando por um corredor largo. o homem empurrou uma porta. . Flora não pôde recusar. Franzi o cenho. Hanna e o resto da equipe. ± Pediu o homem. abrindo uma das portas que havia no último corredor. .Flora. Apenas o homem de olhos destacadamente ordinários pareceu se importar com nossa presença. tente se sentir à vontade. com jeito. Os lábios permaneciam crispados.Depois. . Dando as costas para nós. Seguimos o homem para além das mesas e equipamentos.

± Isso era um hábito dele. escrivaninha e banheiro. Deixei a mochila sobre a cama. . duas camas. .Guilherme. televisão.A porta ao fim do corredor é meu quarto. Era difícil acreditar a que ponto a coisa havia chegado.Eu sei. Ele girou a maçaneta.« Estamos aqui pra desatar esse nó.Continuamos pelo corredor. notei ± Sei que tudo está muito confuso e preocupante pra você.Espero que compreenda nossas medidas extremas. sem jeito. Deixei-me cair na cama. sem querer suspirando profundamente e permitindome. com um pouco de decoração. e o de Souza. uma mesa de cabeceira. armário. e observei sua expressão pensativa enquanto ele se aproximava de mim. deixar meus ombros caírem e meu pescoço alongar. . pela primeira vez. Abikair dormirá com você de vez em quando. até chegar à última porta à esquerda. . O que você precisar. é só nos chamar. ± Disse. Notei o olhar do homem em mim. mas o quarto dele é o da porta à frente. abaixando a cabeça. deixando-me passar e entrar num quarto comum. Meneei positivamente a cabeça. pensando no quão parecido aquele lugar era com o meu próprio quarto. .

-« ± Continuei esperando suas palavras. o homem voltou seu tronco para mim.Depois. Antes. e ele sorriu brevemente. de deixar meu quarto. Antônio me deixou naquele quarto estranho. E eu também não pude negar. . porém.-« Eu só queria« . ± Pediu. Fechando a porta atrás de si. no mesmo tom que havia usado com Flora. como se estivesse se sentindo culpado com aquela situação ± É Antônio. pensando em quando eu conseguiria ter a vida normal que levava um jovem aos seus dezenove anos.