Os dias passaram muito rapidamente, e antes que eu pudesse perceber, a reconciliação com Enzo já havia acontecido há tempos.

Sentávamos como de costume, lado a lado, e em alguns dias, Enzo também lanchava perto de mim e de Fernando. O gringo sempre me deixava e me buscava na porta da sala, o que era fofo, mas levantava mais suspeita. Claro, eu sabia que muitos da faculdade já haviam visto um beijo que trocamos, mas não todos. E quanto menos gente para encher a paciência, melhor.

Não tirei notas muito boas, mas consegui manter-me da média para cima. Em uma matéria, eu fui para prova final, já que não consegui estudar o suficiente para passar de primeira. O ano já estava quase no fim, e faltava cerca de um mês para que minhas aulas acabassem. Meu aniversário estava próximo, o que não só indicava que eu completaria dezoito anos, como também seria o aniversário de um ano do meu namoro. Pensei em perguntar o que poderia dar a Fernando de presente para Enzo, mas depois voltei atrás; não seria lá uma idéia digna.

Durante as tardes, eu sentia falta do trabalho. Estava acostumado a ir direto para o estágio depois do almoço, e agora eu apenas colocava matéria em dia, vez ou outra parando para descansar o punho e a mente. Ainda não havia conversado com os irmãos do apartamento ao lado, mas eu sabia quando um deles estava em casa. Quando eu chegava da faculdade, Igor destrancava a porta. Ao crepúsculo, Igor saía antes mesmo de Thomas chegar, e quando o caçula botava os pés no corredor, dava duas batidinhas na porta. Era triste saber que eles não estavam se falando ainda. E que também não estavam falando comigo.

Numa noite, enquanto lanchávamos, toquei no assunto com Fernando, mas ele falou o que eu esperava que ele falasse: ³Isso é assunto deles, e não podemos nos intrometer. Não dá pra gente fazer nada´. Sabia que o loiro estava certo, mesmo porque os irmãos não nos davam muita abertura para o assunto. Uma semana antes da última do mês de outubro, entrei na casa deles. Estava tudo muito silencioso, e eu chamei pelo nome de Igor. Demorou, mas ele me mandou entrar, e eu descobri que ele estava em seu quarto, trabalhando.

Não conversamos muito; e a única coisa que conseguiu realmente tirar aquela expressão lacônica do rosto de Igor foi quando contei que já estava falando com Enzo novamente. Ele parou de ler um grande volume de folhas grampeadas, largando a lapiseira e apoiou as costas na cabeceira. Contei como tudo se desenrolou, não omitindo a briga e a reconciliação que tive com Fernando. Depois voltamos às amenidades, o que o fez baixar os olhos. E tudo ficou quieto. Pigarreei, levantando-me de sua cama.

- Igor,« Semana que vem é meu aniversário, e eu«

- Eu sei. ± Respondeu prontamente.

- Tá. E eu tava pensando em fazer alguma coisa; nada de mais, lá em casa mesmo, só pra gente.

- Isso é bom. ± Observou ± Já pensou no que quer ganhar de presente?

- Não, e nem precisa me dar nada, basta aparecer lá em casa que eu fico satisfeito.

- Mas eu não. ± Piscou, mantendo o olhar.

- Enfim,« Você vai poder ir?

- Claro. ± Respondeu, sem vacilo.

- E« Tem como você passar isso pro Thomas? ± Arrisquei falar no irmão.

Igor ficou me olhando um bom tempo, sem alterar em nada seu semblante, até que deu de ombros, baixando os olhos para o que quer que fosse.

- Não acho que vou ter oportunidade pra isso. Ele não quer falar comigo.

- Mas, não vai nem tentar?

- Eu já tentei. ± Respondeu, como se fosse óbvio.

- Ué, mas quem sabe ele pára e escuta dessa vez? Sei lá, é uma coisa que não é sua, eu quem pedi« Mas pode até ajudar a voltar aos contatos, né? E seria importante pra mim«

-« Vou tentar.

Não consegui conter um sorriso, e fui em direção a Igor. Passei meus braços por seu pescoço, apertando-o fortemente contra meu próprio corpo. Senti que ele também me abraçou, embalando-me com ternura. Um quentinho diferente do que sentia com Fernando surgiu em mim, e eu me sentia seguro naqueles braços. Levantei, mais animado, e vi um sorriso muito discreto brotar nos lábios de Igor. Conversamos mais um pouco, depois voltei para casa. Nesse dia, antes de ir trabalhar, Igor foi me dar tchau.

Thomas chegou não muito depois; arrisco a dizer que se demorasse mais algum segundo, Igor acabaria esbarrando com o irmão. Deu as batidinhas de sempre, depois entrou em casa. Fiquei pensando se deveria ir convidá-lo para meu aniversário, mas deixei que Igor tentasse mais algum contato. Acabei de ler mais algumas folhas da matéria incompleta de Enzo, concluindo que teria de pedir a de Túlio emprestada. Guardei minhas coisas, arrumei a mochila e fui ver televisão. Acabei adormecendo diante da tela luminosa, e só acordei quando senti um roçar em meu rosto.

Entreabri os olhos, ainda zonzo pelo sono, mas lentamente minha mente voltou a funcionar, bem como minha memória. Bem próximo a mim estavam os olhos azulões, penetrantes, que mergulhavam dentro de mim, me deixando sem defesa. Levei um susto, pulando para trás, e acabei caindo do sofá. Fernando correu para me ajudar, agarrando meu braço e pondo-me de pé. Balancei a cabeça, tentando colocar meus pensamentos em ordem, depois virei para o loiro; ele me olhava com gravidade.

- Gui, você tá bem?!

-« Tô! Tô.

- Que houve? Tomou susto?

Suspirei. .Na hora que eu cheguei. finalmente sentando-se à mesa. Comemos sem conversar. bem como os ombros. né?! Fiquei sem saber o que falar. um pouco receoso. e pára ao batente da porta da cozinha. mesmo« -« Desculpa. Lancei-lhe um sorriso.É! ± Minha voz saiu muito alta.. Fernando ergueu rapidamente as sobrancelhas. não era uma opção viável. Você me confundiu de novo. Fernando me encarou atentamente por alguns segundos. Mas isso foi um breve momento. mas acabou beijando minha bochecha e indo tomar uma ducha.Só pra constar. me assustei. e fomos para o sofá no mesmo silêncio. O que eu poderia dizer? Mentir? Certamente. Fernando apoiava o rosto em uma das mãos de um lado do sofá. enquanto eu inclinava minha cabeça para trás do outro. Estava escuro. -« Hum. mas notei que ele baixou os olhos. Já estava colocando refrigerante para mim quando o gringo aparece. segurando um dos braços. olhando preocupado para Fernando. Aproveitei o tempo e grelhei hambúrgueres para nós. e meneei a cabeça positivamente. e eu me repreendi mentalmente ± É. a covinha exibindo-se só para mim. e somente a televisão iluminava o . né? . -« Você me confundiu de novo com ele. O gringo apenas sorriu de lado. colocando a maionese e o catchup na mesa.Do que você tá falando? . Coloquei a garrafa na mesa.

apartamento. alguém ia acabar cedendo. Ele me ajudava bastante. De algum jeito. comecei a ficar irritado. de origem espontânea. na certa. os repórteres continuavam xeretando. No comercial. e não precisávamos dizer diretamente que um confiava no outro. ao me lembrar de meu chefe. Repassei meus passos desde a última conversa com o senhor Colin até a volta para casa. e ficávamos apenas nós dois. O doutor Rafael nunca deixava de me implicar. e ninguém me procurou. eu fora ao hospital para conferir a cicatrização do ferimento. já ficava subentendido em nossas conversas. mas arrisco dizer que foi ele quem possibilitou essas coincidências. Quando Mila saía. Já havia um bom tempo. não gosto muito de ver pontos. não pensando em nada exatamente. Sei lá. Tirara os pontos havia alguns dias. Aquele prédio devia estar em colapso. Dei a sorte de encontrar com o doutor Rafael em todas as vezes que fui ao hospital. mas não ter que me preocupar com pontos já havia se mostrado um grande alívio. principalmente quando Fernando aparecia no assunto. o doutor Rafael me acompanhou pelos fundos. Como o senhor Colin podia permitir que seus subordinados entrassem na cena do crime antes mesmo da perícia? Qual seria o acordo sujo que ele sustentava para conseguir matérias e fotos mais precisas do que os outros jornais? O policial Almeida. colocávamos a conversa em dia. convencendo-me de que estava fazendo a coisa certa. Criamos uma estranha amizade. e já podia erguer o braço além de minha cabeça. Um estagiário que foi ferido enquanto cobria uma fatalidade que nem a polícia tinha detalhes ainda não era uma coisa que se passava em branco. meu salário continuava sendo depositado em minha conta no . Como o doutor Rafael pedira. estranhamente. nada ter vazado ainda. ainda não podia carregar coisas pesadas. E. nem mesmo o senhor Colin. Cocei o queixo. e me peguei relembrando o dia em que fui atingido. É óbvio. a mídia ia descobrir o que havia acontecido. apoiei-me nos dois braços e fiquei olhando para os pontinhos apressados lá em baixo. dobrando a coluna. procurariam saber o que havia efetivamente acontecido. levantei e fui para a varanda. meu ombro ainda estava ferido por dentro. Será que a polícia já saberia o que havia ocorrido? Era estranho. Respirei fundo o ar da noite. enquanto que eu o ajudava com aquele complexo ridículo que ele tinha. apoiando o queixo na mão direita. Meu ombro quase não doía mais. bem como o próprio senhor Colin. os carniceiros. eu sabia que estava envolvido. E com toda a pressão da televisão e dos jornais. pareceu receber o pacote de dinheiro com muita familiaridade. entretanto. Em duas ou três oportunidades.

tão difícil. muito menos Fernando. e imediatamente. Contudo. Por um momento. Foi aí que começou nosso bloqueio: desde aquela noite. estava indo mal na faculdade. as coisas pudessem melhorar. Mesmo não precisando mais. que me deixava exausto só de tentar encontrar alguma resposta para essas e outras muitas perguntas que surgiam em minha mente. Nossa vida não podia estar mais tumultuada: eu corria risco de vida. e acabei perdendo meu ponto. não conseguíamos mais sustentar uma conversa por mais de vinte segundos. em meu aniversário. ele me envolveu. pensei que eu devia ser muito estúpido para ter perdido o ponto e estar exatamente no lugar mais perigoso para mim. sabendo o quanto eu ia ouvir de todos depois. Apertei os olhos. quase gargalhando da minha desgraça. Rolei o corpo. Minha esperança era que. apesar de já estarmos nos falando. pegando o primeiro ônibus que passou. Fernando apenas levantou os olhos quando me aproximei novamente. e saltei do ônibus. Como é que a vida podia ser assim. principalmente.banco. Respirei. Observei-o de soslaio por alguns instantes. me deixariam sair de casa para isso. Saí do banco. mais para mim mesmo do que para qualquer coisa. o silêncio parecia eterno. e confundia meu namorado com o cara que tentara me matar. e nem Igor. Mas aquele era o lugar mais esclarecedor também. e ele trabalhava o mesmo tempo com outra que era odiada por mim. tão impiedosa? Por que não podemos simplesmente ser feliz? É tudo tão complicado. meio que tomando coragem. ficando de costas para o mundo e de frente para casa. E era realmente a única pessoa que me restara. na mesma posição. para isso. Fernando ainda estava no sofá. Dei de ombros. eu não podia ficar comentando essas coisas com Enzo. que estava se mostrando um ótimo amigo. a maioria apenas sobrevive. Eu tinha muita vontade de ir até o escritório de Colin e enchê-lo de perguntas. e me arrastei para apoiar-me em seu corpo. acabando por me localizar: eu estava perto do prédio do senhor Colin. eu passava parte do dia com uma das pessoas que Fernando mais odiava no mundo. Só me dei conta de onde estava quando o ônibus fez uma curva fechada que não me era estranha. . nossos vizinhos e melhores amigos não se falavam. apontar o dedo para seu rosto e criticá-lo um pouco. porque um assassino seqüestrador podia estar me seguindo. e voltei para dentro de casa. Olhei em volta. é muito difícil viver. E fomos dormir assim. Talvez muitas de minhas dúvidas e frustrações se resolvessem lá. e Igor e Thomas estavam distantes demais para tal. E ficamos calados durante todo o filme. e mal falavam com a gente também. Ri tristemente. vez ou outra eu ia ao hospital conversar com o doutor Rafael. Essa é a verdade. Mas eu ainda não podia pegar o carro para ir tão longe.

.Guilherme! Eu não acredito! Como você conseguiu ficar tanto tempo sumido?! Você tá bem?! .Vem! Agarrando um de meus pulsos.Não! ± Gritou ela. . e me fez sentar frente a sua mesa. eu queria saber como tudo estava. olhando-me profundamente.Eu quero saber o que aconteceu naquele prédio! ± Exigiu. sim. Antes que a porta do elevador se fechasse. como andam as coisas por aqui? . Fechou a porta.Tô. Encontrei-a no andar da gráfica. Mas a pequena saleta estava vazia. entregando-me o cartão de sempre.Como?! . me assustando.Vi-o partir. antes de falar com Colin. em murmúrio. do mesmo jeito que eu me lembrava. Estava intacto. E você. o porteiro se lembrou de mim. Resolvi ir direto para a sala dos estagiários. e voltei minha atenção para o prédio familiar. Fui atrás de Flora. barulhento. Pelo visto. não me esconda nada! . Flora já sabia.Conte-me tudo. Flora. talvez encontrasse alguém conhecido. e assim que me viu. Flora guiou-me para o que eu concluí que fosse sua sala.O quê?! . parecia tensa em demasia. Cruzou os dedos. depois baixou a voz ± Não podemos falar dessas coisas aqui! . No saguão. passando a tranca. a empolgada jornalista correu e me abraçou. . notei que algo havia mudado: havia guardas de prontidão nos flancos do saguão.

tem coisa errada por trás! E não é de hoje! Eu preciso saber o que está acontecendo..Eu sei que tem alguma coisa errada.Mais do que muitos. correu para falar comigo. me levando para um local seguro onde pudesse descobrir os verdadeiros acontecimentos do dia da matéria sobre o advogado seqüestrado e executado. e na sua influência sobre os meios de comunicação. . e ela só deve ter lembrado de mim quando tudo aquilo aconteceu. batendo na boca por ter falado alto demais ± Não. mas eu já reparei. assim que me viu. Como uma das mais antigas e confiáveis funcionárias. você já sabe o que houve. . Eu costumava ajudá-la com revisão de artigo. não! Tudo foi omitido.Ué. ninguém vai lá! Eu sei que Colin tá fazendo isso de propósito. ele não quer que a gente saiba de alguma coisa! Nunca vi aquela menina tão amedrontada! Flora parecia profundamente abalada.O que você sabe até agora? .E Vivian? .Não! ± Cortou. Antes de você ir ao hospital e da polícia e do nosso pessoal chegar lá. nem mesmo para o nosso pessoal o Colin liberou a verdade dos fatos! . Não era à toa que. mas a Marina« .A Marina está sendo coagida! Ela ficou no setor de montagem. Suspirei. eu sei! Eu gosto demais do Colin. mas não o suficiente. a Marina me ligou. Guilherme. Fiquei pensando em como o senhor Colin era capaz de fazer isso. . o que aquele homem tá fazendo! . é claro que ela tinha o direito de se sentir assim.Mas então.

Quando terminei. Respirei fundo. depois de tanto tempo de trabalho. e do encontro com o assassino.É. nós nos separamos. e contei mais uma vez toda a história.Num pacote pardo. né? . e eu fui tirar fotos. Receber a informação de que se era enganado quando se ocupava um cargo importante numa empresa era como um soco no estômago. mal piscava. Olhava fixamente para um ponto de sua mesa. e eu via que era essa a exata sensação de Flora. eu sei. Fiquei hesitante quanto a contar a ordem autoritária que recebi do senhor Colin. tomando fôlego. Ela ficou com a parte da entrevista. -« Isso é tão«! . . desde o momento em que recebi a ordem.. mas não ousou me interromper. . Mas achei justo que Flora soubesse. ± Pareceu refletir por alguns segundos. o rosto fino apoiado sobre uma das mãos. não só porque era uma pessoa boa. Vez ou outra Flora expressava surpresa.Ele mesmo deu o dinheiro? . . o acordo com o policial Almeida de tirarmos fotos antes da perícia.Ela também está escondendo. talvez encontrando explicações para coisas passadas que ela nunca soube explicar. até minha consciência no hospital. Conta tudo desde que você recebeu a ordem. ou espanto. Aquela mulher sempre foi muito seca e fria. mas dá pra saber quando ela fala menos do que o normal. como porque tinha. a mulher continuou calada. o direito de saber o que acontecia por trás dos panos da imprensa. depois voltou os olhos para mim ± A Marina também não esteve com você o tempo todo. .Foi.É.Guilherme.

não agora. Mas não consegui. . . ± Concordei sinceramente. a voz num fio. ± Falei com pesar ± Eu devia ter dito ³não´.Eu sei. Voltou os olhos expressivos para mim. não por pressão. mas por livre e espontânea indignação. e até irado. A resposta foi negativa. como se tentasse entender como nunca aquela hipótese havia passado por sua cabeça. foi fraqueza minha.Não sei se devo. seu semblante foi passando para indignado. . A mulher ainda me perguntou alguns detalhes.Mas você pretende levar isso à tona? Flora apenas me encarou. Pelo menos. como que resmungando a situação. . e eu acabei falando mais sobre meu encontro com o assassino.Isso é ilegal! . . Levantando as sobrancelhas. ou pelo menos por perto.Fez uma careta. . você o fez! . De surpreso. Parecia desacreditada. não é.Está pensando em fazer alguma coisa? ± Perguntei.Não.Mas. Aproveitei e perguntei se ela havia visto alguém com o mesmo perfil na imprensa.Isso não é ético! . Ela apenas desviou os olhos. acabei descobrindo que ela seria a pessoa quem deixaria a história vazar. seus olhos brilhando em chamas de indignação e fúria. curioso.

afinal. E eu não preciso explicar nada pra ninguém. você vai mesmo sair daqui?! . mas em branco em frente aos nomes de Vivian e de Colin. sabe? Cheguei a fazer esse pedido de demissão formal. eu adoro esse lugar. afinal não tivemos essa conversa. Certa.Você vai mesmo acusar o senhor Colin?! Isso vai acabar com a credibilidade dele! . e Flora apenas fulminava-me com o olhar. Tecnicamente. sim. mais do que nunca. nunca eu me submeteria à artimanha tão« baixa e suja! . olhando para ela. enquanto a outra era um pedido formal de demissão. certo! Já entendi! . Mas eu sempre soube. que por trás daquele sorriso tranqüilo do Colin tinha muita coisa. Só que acabei desistindo. não.Você tava desconfiada de acordos há muito tempo? .Agora. puxando alguns papéis e jogou-os à minha frente. Eu recebi essa proposta de emprego. . Ergui a cabeça. Só não sabia que eram coisas que iriam me enojar.Isso pouco me importa! ± Acabou esbravejando ± Nós estamos aqui para relatar a verdade pela verdade! Nunca. Encarei-os.Então. eu não sei de nada. Guilherme.E você vai comigo! . percebendo que um era uma proposta de trabalho numa imprensa rival à nossa. já assinado por ela. . já sou grandinha! .Certo. ± Piscou um olho para mim ± Não haveria problema nenhum em eu sair daqui. e por um tempo ela me pareceu extremamente tentadora.Desconfiada.Flora abriu uma gaveta ao seu lado.

seus olhos mais piedosos ± Mas eu vou revelar os esquemas com a polícia! Isso você não pode impedir! . Flora deve ter notado minha hesitação. bem« Eu não quero fazer parte disso. olhando-me autoritariamente.Flora. em outra imprensa?! E ainda para revelar o esquema da pessoa com quem mais aprendi sobre minha futura profissão?! Isso não poderia nunca acabar bem.Você é uma jornalista.Não estou fugindo. Olhei atônito para Flora. . o que com certeza ele sabe. porque espalmou as mãos na mesa. Paciente. me esforçando verdadeiramente para lembrar de mais algum detalhe que eu poderia ter esquecido ou . talvez me xingando mentalmente.Nós temos o dever de dizer isso a todos! . o cara me acha fácil! Eu não deveria nem estar aqui. Flora! Você não precisa provar nada pra ninguém! Flora ficou quieta por um tempo. como estou! .Você está fugindo! . Só acho que. vai ficar de olho em tudo que sair no jornal sobre isso! -« É. Pediu-me para que contasse novamente o acontecido. mas acabou encostando as costas no apoio da cadeira. você está certo. repeti para ela. sua expressão determinada chegou a me incomodar.Não estou impedindo você de nada. e se uma matéria dessas for publicada. Eu. . porque se aquele homem desconfiar que eu vi a cara dele. ± Pareceu ponderar. eu não posso ir para outra imprensa. eu não posso sequer estar aqui.Foi aí que o bicho pegou. mais vagarosa e detalhadamente. Flora! Acontece que tem um assassino psicopata atrás de mim. -« E como você acha que vou poder provar que sei disso tudo?! ± Acabou soltando.

eu não precisava mais dele. que eu julguei ser o delegado. um senhor já grisalho com vários arquivos a mão e outro. completamente abatido. na última porta ao fim de um corredor. o . mas quando citei que era sobre o advogado que havia sido assassinado. talvez minha presença ali interessava mais do que eu podia pensar. muito embora eu soubesse que o dinheiro em minha conta deveria estar pagando meu silêncio. e acabei pegando o elevador para ir embora.deixado de notar. Fiquei parado um tempo frente ao prédio branco e cinza. pouco restara do fascínio que um dia havia existido. Para mim. e entrei na delegacia. Não sabia se conseguiria encarar meu chefe. para mim. Bom. calvo e de expressão marcada. parti para o outro lado da rua. atento a tudo ao meu redor. para o senhor Colin. fechando a porta atrás de si com tamanha força que cheguei a piscar os olhos. Voltei meus olhos para o mais novo deles. Com um aceno. Decidido. sorriu de lado e depositou os arquivos sobre a mesa. a mulher prontamente se levantou. pegando o ônibus que me deixaria na esquina do departamento de polícia. Se bem que não era a vida dela que estava em perigo. Bateu com os nós dos dedos. Subi as escadas. Passadas duas horas desde minha chegada saí de sua sala. estava um homem com seus quarenta e muitos atrás de uma escrivaninha de madeira escura. agarrou um de meus pulsos e me levou para o andar superior. entrando em seguida. A mulher aproximou-se do homem sentado. depois se empertigou numa postura severa e saiu da sala. era essencial saber a correta descrição do assassino. Reparei que ela prestou muito mais atenção ao início de meu relato do que ao fim. e também de como o advogado havia sido encontrado. sentado a um lado. o que. Fiquei estático. quando uma idéia pouco sensata havia brotado em minha cabeça: eu precisava ir à polícia. seus olhos transbordando determinação. O velho senhor deu uma boa olhada em mim. continuava com o peculiar sorriso em minha direção. O senhor. sentindo os olhos de todos dentro daquele limitado espaço pesarem em mim. Já estava no ponto de ônibus. que precisava falar com o delegado imediatamente. pedindo para que eu repetisse quando tocava em alguma parte mais importante. chegava a ser desconexo. O delegado apoiava o queixo numa mão. Colin ainda não havia feito contato comigo. Insisti. cochichou algo em seu ouvido. quase irritando a atendente. ainda próximo à porta. que me olhava com muita atenção. apenas esperando que algo acontecesse. talvez uns dez anos mais velho do que eu. pensando se realmente seria ajuizado falar tudo o que acontecera naquele funesto dia. Engoli em seco. Dentro da sala. as sobrancelhas pesadas davam -lhe um ar constantemente carrancudo. Ela anotou algumas coisas dessa vez. Ela resistia bravamente.

. ± Comentou animado o velho. . sim. ainda encarando seus olhos. enquanto que o delegado inclinou o corpo largo para frente. que pairavam o violeta. embora um pouco relutante. Roberto?! ± Cutucou o delegado com o cotovelo. Baptista. dê-lhe uma cadeira. não se aflija. O velho riu e acenou para o jovem mais ao lado. o que prontamente fiz. o senhor sentou-se na mesa.Ora. um pouco de humor num ambiente tão pesado não faz mal a ninguém. e um pouco esganiçada. agora que estávamos mais próximos. ± Alfinetou o velho Baptista.Não seja tão grosso com ele. mas também havia juventude. o homem que parecia o mais novo segurava a própria cadeira próximo a mim. né. . Notei que ele era da mesma estatura que Fernando e. Empurrando alguns papéis. . Descruzei meus braços.Poupe-me das piadas. tentando parecer que não estava tanto na defensiva. ± O delegado baixou as mãos ± Comece a falar.Sim.Muito bem. filho. . he. Quando reparei. ele não tinha mais do que trinta e dois. A voz do senhor era fina. . he! Não há um que não reaja assim. Havia experiência naquele rosto. . mas pareceu-me mais confortante do que eu poderia pensar.He.Ora. Deixei que meu queixo caísse despropositalmente quando fixei meus olhos nos deles. rapaz! Só queremos conversar com você.homem me pediu para que eu me aproximasse. Roberto. Que cor mais absurda era aquela?! Os olhos dele eram tão azuis. pude analisar melhor suas feições. apoiando os cotovelos e não tirando os olhos dos meus. Definitivamente. . Sentei. até ouvir a risada do velho.

estou sendo direto.Senhores. e sentia que seus olhos violetas ainda estavam em mim. .Não estou criticando. mas decididamente pronto para obedecê-lo. ± Justificou-se. Fiquei observando seus olhos miúdos e escuros por um tempo.Eu sou o delegado Neves.. permanecera na sala do delegado Neves. até que ele pareceu enfezar-se ainda mais. Olhei para o jovem. Baptista! . por favor! . olhando-o impaciente. porque o delegado passou a mão no rosto. estou apenas« . O jovem ao meu lado esquerdo não mostrava reações. que já apoiara os cotovelos novamente sobre a mesa. Talvez ele fosse o detetive do caso e. filho! Não tenho o dia todo! .Vamos. O homem ao seu lado é o detetive Abikair. .Não assuste o garoto.Não estou sendo grosso.Mas não vai nem se apresentar? Eu não sabia quem era aquele senhor que parecia ter imensa influência naquele lugar. que apenas acenou brevemente com a cabeça. por isso. Roberto! ± Riu-se Baptista. Voltei minha atenção ao quarentão. e esse velho inconveniente aqui é o Baptista. Roberto. . .Pare de criticar meus meios.

jovem Abikair. nunca sairia daquele escritório. perdão.Hãm.Eu me deixei levar?! ± Indignou-se o delegado. eu peço! . se não falasse logo.Vamos deixar que o jovem fale.Eu sei de algumas coisas que talvez possam ajudar vocês a encontrar o assassino do advogado Henrique Sardenberg. Os dois se calaram. . juntando as mãos sobre as coxas. as costas apoiadas na parede ao lado de um arquivo de cor grafite. tirando os óculos redondos e limpando-os numa pequena fronha branca. ± O velho riu. . Abikair deixou-se encostar novamente à parede. levantando-se da cadeira. Voltou a sentar na cadeira. antes que Neves cuspisse mais uma resposta para Baptista. . Com a certeza de que a discussão havia acabado. e todos os olhos detiveram-se no detetive Abikair. . para depois apoiá-los novamente sobre o nariz ± Acho que Roberto se deixou levar pela coisa. Ele olhava um pouco escandalizado para os dois.E não foi? ± Concluiu ironicamente Baptista. ou não?! ± Cortou Abikair. . certo? . Ao que pareceu. pensando que. o delegado conteve-se por considerar as palavras do jovem detetive sensatas.A voz era potente e grossa.Um pouco de ética. os braços cruzados frente ao peito. daquelas que fazem até seus pêlos da nuca se arrepiarem. enfadonho ± Conte logo o que sabe.« Bem. ± Disse Neves.« Vocês já devem saber da pessoa que foi baleada.Disso já sabemos. Cheguei o corpo para frente. enquanto Baptista o olhava com implicante meiguice.Oh. . .

± Baptista deu uns tapinhas no braço do delegado ± Ele sabe o que fala. . O senhor Baptista também pareceu surpreender-se. deixe o garoto falar. Era isso o que tinha pra dizer?! .Sim. sabemos que um jornalista foi atingido enquanto estava ilegalmente no covil do seqüestrador. Neves apenas o olhou. Roberto. o que mais?! .. mas esboçou logo um sorriso de satisfação. . talvez impressionado demais para voltar à carranca habitual e fingir que nada o atingia.Muda. vendo os olhos do detetive Abikair deslocarem-se do chão para mim ± Era um estagiário. ± Pediu Baptista. ± Girei a cabeça.Ele é o detetive.Não era um jornalista. Apenas o detetive Abikair continuava o mesmo. delegado Neves.Que seja.E se eu dissesse que conheço esse estagiário? ± Falei. O delegado Neves pareceu surpreso. comemos rosquinhas?! .É claro que sabemos! O que acha que fazemos aqui. o clima mudou dentro do pequeno ambiente. -« Isso não muda coisa alguma! . ± Abikair olhava-me com extrema fixação ± Muda tudo. . Roberto.Vamos.Você o conhece?! ± Recompôs-se o delegado. filho. . Aí sim. . fuzilante. um estagiário! ± Deu de ombros ± O que mais.

há uma chance de começarmos a completar o quebra-cabeça desse caso! Eu não posso perder tempo! . mais do que nunca. . . enquanto que o delegado parecia levemente transtornado. e pronto. não? ± Baptista balançou a cabeça ± E como ele está? . ± Olhei para Neves. cá está ele.« Senti suas mãos apoiarem-se no encosto da cadeira em que eu estava sentado.. .Não pressione o garoto. Entretanto.Parece que o senso de justiça de nosso estagiário falou mais alto. ele está bem.E por que não o trouxe aqui?! ± Protestou Neves.Eu acho« ± Notei que Abikair começou a se aproximar por trás de mim ± que depois de um susto desses. .Hãm. leva tempo para recuperar-se de um tiro! Vai ver ele contou tudo o que aconteceu a seu amiguinho. Baptista o olhava com interesse.A essa altura.Ora.Precisamos de qualquer informação sobre isso. . Roberto. Roberto. seus olhos apertados pelo cenho franzido ± Precisamos que você lembre de tudo o que seu amigo lhe contou! E rápido! . ele já deve ter recebido alta.Bem pontuado. . . Baptista! Agora. qualquer um teria motivo suficiente para não sair de casa.Filho. preste atenção. quase fechando os olhos com as rugas. jovem Abikair. ± Sorriu.

Já o velho Baptista desviava os olhos de Neves para mim. quem é? . Tive de me esforçar para não escorregar e acabar colocando a história em primeira pessoa.Sim. tomando coragem para contar tudo o que lembrava do ocorrido naquela tarde. era quase assustador ver seu sorriso crescer diante de algum detalhe mais sórdido. . eu sou. E você. O detetive mantinha os olhos arroxeados na porta do escritório. arregalavam os olhos. quando falei do tiro no ombro esquerdo. como o delegado Neves.. Guilherme Azevedo Zheinkner. O delegado Neves me olhava. sua mão recuou um pouco da cadeira. parecendo fazer anotações mentais quando vez ou outra levantava os olhos.Guilherme. chegando a omitir alguns detalhes para que parecesse mais convincente a minha história de que era apenas um conhecido do verdadeiro estagiário. focou-os em mim. mentir para as autoridades. Mas o olhar do detetive Abikair caía sobre mim tão centrado que me convencia de que ele sabia que fora comigo que acontecera o tal fato. Não era uma coisa certa de se fazer. a mão escondendo a boca denunciava que estava pensando em alguma coisa. eu sentia que o detetive já sabia quem eu era ± Ainda não disse seu nome. desencostando-se de mim. e depois para Abikair. ± Estranhamente. O senhor Baptista parecia divertidamente interessado em minhas palavras. mas quando se sentiu observado. enquanto que as pessoas normais. A certeza disso foi que. filho! Fale! Respirei fundo. Terminada a narração. emudeci-me. O detetive ouvia tudo com exclusiva atenção. delegado Neves.Não há com que se preocupar. . esperando alguma reação daqueles senhores. . apenas inclinou um pouco a cabeça.Pois então. para depois fazer perguntas e ficar pensativo. -« O senhor é o detetive do caso? ± Abikair não pareceu tão pasmado com minha pergunta como os demais.

subitamente ± Precisamos que conste nos autos! ..Se não fosse detetive. O detetive Abikair falava muito bem. tentando esconder a boca com uma das mãos enrugadas. creio que posso encontrar-me com a testemunha e fazer constar nos autos a nossa conversa. . enaltecendo-o de maneira a deixar claro ao delegado que era ele quem decidia o que fazer. tirando os cabelos quase negros dos olhos. como responsável do caso. Mas ele deve se lembrar. Abikair? ± Sugeriu Baptista. . não consegui notar nenhum pingo de hesitação. O detetive apenas olhou-o por alguns segundos. jovem Abikair! ± Elogiou Baptista. Engoli em seco. eu sei que sua autoridade aqui é absoluta. O delegado apenas piscou. . Baptista começou a rir baixinho.Só perguntando. sim. ele me disse que só viu uma parte do rosto dele. seria um advogado. a minha é ainda superior e.Nós precisamos dessa testemunha aqui! ± Berrou o delegado.Acha que ele estaria em condições de fazer um retrato falado? ± Arriscou o detetive. .Não é má idéia.Por que não vai visitar o amigo de Guilherme. . enquanto Neves ainda pensava.Bom. e ele parecia muito certo de seu lugar. ± Concordou. emudecendo. . entretanto.Delegado Neves. .Você acha que seu amigo se lembra bem do rosto que ele viu? .

Não venha com churumelas. Roberto! Vai perder o controle novamente?! ± Incitou-o. bem como meu pescoço.Eu« Eu vou ligar pra ele. . seus olhos excêntricos em Neves. mas assim que fui escondido pela parede. Fiquei olhando aquela expressão fria. e eu me apressei a acompanhá-lo.Mas«! Que afronta é essa?! ± Urrou o delegado. o ar de curiosidade me deixava embaraçado a ponto de eu sentir minhas bochechas em brasa. e soltou um pouco o meu pescoço. Ele finalmente piscou.«! Antes mesmo que eu pudesse ouvir mais alguma coisa.Ora. Pulei. senti meu braço direito ser agarrado.Acha que poderíamos encontrar com seu amigo agora? ± Perguntou. Levantei. num toque frio.Te levo ao telefone. . e seu rosto estava muito mais severo do que antes. . sem reação alguma. uma mão grande e espalmada postou-se no meio de minhas costas. Se me derem licença. e todas as pessoas pareciam olhar para nós. olhando nas gemas do detetive. que me fez um sinal com a cabeça. . A impassibilidade de Abikair havia sumido. e fui jogado contra a parede. O detetive fez uma curva fechada. um pouco irada. diferente. permitindo-me abaixar a cabeça.Oh. Passamos por várias mesas. eu« .Velho. Roberto! O rapaz está certo! Você está abaixo dele! . Baptista! . e comecei a segui-lo para fora do escritório do delegado Neves. ..

± Falei.Eu sei.. eu sabia. depois os voltou para mim. Só de entrar naquela sala fechada. nem objetos pessoais.Por que não? Continuando o caminho pelo corredor.Você mentiu para as autoridades.Você sabe que acabou de falar um falso testemunho? -« . entramos numa salinha apertada. senhor Abikair. e isso provavelmente porque ele acabara de chegar. -« . . sinto muito. Vai querer mesmo o tal retrato falado? . ou se realmente estava com medo de falar. nenhuma decoração.De fato. -« Mas você sabia! Abikair me encarou longamente. Desviou os olhos para o corredor. o que era a verdade. talvez na dúvida entre eu ser mais um espertalhão que tentava se safar. O detetive puxou a . . Não havia nada senão trabalho naquele ambiente. nenhuma foto. querendo arrancar de mim toda e qualquer informação me deixou em pânico. ainda segurando meu braço. ± Asseverou o olhar ± Mas nem pense em mentir ou omitir alguma coisa de mim. e eu acabei encobrindo minha identidade.Isso é crime. O detetive soltou meu pescoço. com três pessoas que me encaravam insistentemente. meio sem jeito ± Eu estava« enfim. Porque eu vou descobrir. não importa.

Você disse que só viu o olhar dele. . . Passados quarenta minutos. Paciente. meia.cadeira.Então? Está parecido? Abikair virou o desenho para mim e. . dei de cara com um desenho muito semelhante ao homem que atirara em mim. e pedi para que o detetive acertasse-os.É. ao abri-los. . empurrando acidentalmente a cadeira. ele limpava a mão suja pela grafite. certo? Apenas esta faixa do rosto? ± Indicou com os dedos. Passei mais tempo de olhos fechados. enquanto eu o analisava. pensando se a imagem que guardara em minha memória ainda era a mesma da pessoa que eu havia visto. Fiquei meio apreensivo. .Absoluta. Pedi para que o detetive pintasse os olhos com a caneta azul.Tem certeza? ± Perguntou. sei lá o que era aquilo. Abriu uma das gavetas ao lado da perna. ele atendeu ao meu pedido. e tal foi minha surpresa quando. era ele. depois cruzou os dedos. incerto. indicando que eu devia sentar também. Esses olhos não enganam. . Notei alguns traços imperfeitos. esforçando-me verdadeiramente para lembrar mais alguma coisa que poderia ter deixado escapar pela intimidação na sala do delegado Neves. pude ver a cópia fiel da faixa do olhar daquele homem. foi isso. talvez um pouco incomodado. apoiou os cotovelos sobre a mesa e dedicou atenção suprema à minha descrição do assassino. o que fez com que eu me afastasse. repassando cada momento em minha mente. e não tive mais dúvidas.É ele. Ele estava usando algum gorro. ± Apontei-os com o dedo. Enfatizei cada detalhe que me pareceu mais importante da pessoa que eu havia visto naquela tarde. puxou um bloco e um lápis. deixando-os sobre a mesa. Entregou-me o papel algum tempo depois. .

Todos os que apareciam nas fotos eram homens de olhos azuis. mas assim que a puxou novamente para colocá-la na gaveta. que se revelou serem fotos. quase impossíveis de se encontrar. no fim. uma que eu tinha certeza de que ele não me mostrara. depois escondi as partes que eu não havia visto no homem.Espera aí« . eu tinha certeza! Aqueles olhos eram únicos. Depois. Voltou com a pasta grossa para cima da mesa.Como? Coloquei a foto bem próxima à borda. eu descartei desde a primeira olhada. tive que pensar bastante para ter certeza do que ia decidir. . bem como escondendo seu corpo e todo o resto que não me fora revelado naquele dia. Puxei as fotografias uma a uma. Mas. Alguns. tirando uma pasta cheia. que me encarava um pouco confuso. Aquele estava muito parecido.-« Espere um pouco. atentando para o tipo físico dos homens. e colocou-as na minha frente. reparei numa foto nova. O detetive Abikair não pareceu muito feliz com isso. Puxei minha blusa. O detetive abriu a gaveta. . parecido até demais. escondendo seus cabelos com um dedo. Tirou seu conteúdo. entre trinta e quarenta e cinco anos.Acha que consegue identificar o tal homem como sendo um desses? -« Posso tentar. Dei uma olhada rápida para o detetive. foi ficando mais difícil. mas pareceu aceitar consideravelmente o fato de não ter conseguido achar o tal. nenhum deles era o homem que havia me alvejado. os olhos não eram os mesmo. Era exatamente o mesmo homem. abriu-a e pegou um envelope branco e gordo de dentro dela. Ali estava ele. cobrindo do nariz para baixo do homem. e aproximei meu rosto. . e abaixei a cabeça. cujos olhos eu sempre confundia com os olhos de Fernando.

Ouvi seu suspiro.Não. por favor! ± Por que ele não acreditava em mim?! ± Eu tenho plena certeza de que é ele! Eu não poderia me enganar! Eu sei que é ele! -« Então. Será que ele não acreditava em mim? Eu não estava mentindo para ele.Guilherme. ± Disse Abikair.Esse?! . enquanto elas pareciam fixadas no nada..Senhor Abikair.Acho que você está um pouco equivocado. temos um grande problema. detetive.É esse! . e ele fora o único para quem não menti. . e ele fechou fortemente os olhos por alguns segundos.É esse.Absoluta! A mais absoluta certeza! Eu nunca poderia esquecer esses olhos! . esse suspeito não é nem do mesmo caso. eu tenho certeza. não estou! Eu tenho certeza! . certeza absoluta! Esses olhos. . tomando a foto de minhas mãos. é ele mesmo! -« Você tem certeza disso?! . Olhei para as belas esferas arroxeadas do detetive Abikair. .

era que Abikair parecia extremamente preocupado com a minha certeza. é sim! -« ± Continuava imerso em pensamentos. nada.. Várias vezes . perturbado.Então?! Eu realmente não estava entendo paçocas! Criminosos poderiam praticar vários crimes. ± Encarei Abikair.Ué. Como dar a certeza para alguém de que seu irmão era um assassino?! Eu tinha certeza. É ele.Essa foto é minha. . eu estou certo do que falo. é esse cara. então por que o suspeito de um crime não poderia ser o autor de um outro? O mais estranho. era ele. .Essa foto não é de nenhum caso. . então como é que ela apareceu aqui?! Eu sei do que estou falando.O que poderia impedir esse homem de ser o assassino desse caso?! . petrificado ± É a foto do meu irmão. Guilherme.Não pertence a nenhum caso. Guilherme. apesar de tudo. .Tecnicamente.Senhor Abikair. mesmo! . . não estava enganado. ou melhor. Não sabia mais o que dizer. era ele mesmo.Mas eu« Hãm?! .

se não se importa. -« Muito bem. conforme eu fazia a caneta correr. não mais pensando em quanto tempo eu ainda precisava ficar lá. Mas depois. suspirou e brandeou as expressões. certo? Primeiro. Segurava a cabeça com o braço apoiado sobre a mesa.O senhor« O senhor acredita em mim. mas curioso para saber o que o detetive ia fazer. mas eu tampouco poderia sair sem ter a certeza de que estava bem. o detetive pediu para que eu respondesse algumas coisas e. levantava os olhos para olhá-lo. Tomei ar para responder. mas a expressão do detetive não era lá muito motivadora. cruzando levemente os braços.tentei falar alguma coisa.Você tem essa certeza toda? ± Cortou.Senhor Abikair? .Eu« . Entreguei meus dados. me sentindo um pouco mal e acuado.Pois não? ± Voltou os olhos anormais para mim. o detetive me olhou longamente. incredulidade. . pasme. fazendo com que eu me calasse. a foto do irmão nas mãos. Engoli em seco. Abikair empertigou-se. e tal atitude me deixou preocupado a princípio. Não que ele tivesse cara de quem aceita alguém para conversar nessas horas. bem frente aos olhos. Preciso de alguns dados seus. um pouco de desapontamento e. . -« Tenho. deixando-me escorrer na cadeira. O semblante pensativo denunciava preocupação. Puxando uma folha da gaveta. . .

eu não acho que« . já que. Eu não duvido da sua sinceridade. .Eu não menti pra você! ± Acabei me exaltando ± Eu nunca mentiria pra você! Abikair ficou quieto um longo tempo. . .Não. como Fernando. Daquele jeito. Pouco falei nesse percurso. Acompanhou-me até a porta de saída da delegacia de polícia. fiquei mais atento ao que . Guilherme. como que parte de seu diferente ser. ele duvidar. produzindo um efeito sem igual: seus olhos.« . ele acreditava na possibilidade de uma perseguição súbita por parte do assassino. eu«! .Eu sei. mas depois descruzou e apoiou os antebraços na mesa. pareciam aquarelas azuladas. Não chegou a falar do irmão novamente. violetas e arroxeadas pinceladas de maneira espetacularmente vívidas. Aquilo foi diferente. o que me deixou morto de curiosidade.Pessoalmente. O senhor Abikair passava-me estranhos sentimentos. mas também pediu para que eu ficasse em alerta. originalmente azuis. Não foi como contar alguma coisa ruim para um amigo. Pediu para que eu não saísse da cidade.. inclinando-se para frente e ficando mais próximo de mim. chegando a andar comigo até o ponto mais próximo. a luz da pequena janela refratava em sua íris.Você já mentiu para as autoridades antes. mas depois confirmar que continuava a acreditar no quer que você dissesse.E poderia muito bem estar fazendo de novo.Senhor.

pareciam uma mistura de cores. Tudo nele parecia peculiar: o toque frio. sentando mais ao fundo. resolver de uma vez por todos os pepinos da minha vida: falar e juntar novamente os irmãos do apartamento ao lado. Achar outros bonitos. e às dicas de proteção que o detetive me passava. excitar-se quando se vê uma cena de sexo. E acusar o irmão do detetive como assassino. e o detetive ficou para trás. sem desviarmos os olhos. enquanto que a cintura era mais estreita. Apoiei a cabeça no vidro. o jeito de falar. tudo bem. cor de jambo. com os olhos arroxeados. Entrei no ônibus. mas com as luzes da tarde. simplesmente. a postura. Os olhos. o brilho por eles exibido pairava o mesmo tom que tinha um vinho tinto. Só ele costumava saber. pude ver mais daquele homem tão contido em suas formalidades. e cintilava a cada toque de luz. os cabelos diferentes. O cabelo era castanho escuro. com uma grossa borda negra que continha as cores. Tive que virar a cabeça para continuar olhando para ele. meio às minhas pernas. e fugir de um homicida. Uma excentricidade que me atraiu. Ao ar aberto. os olhos severos. escuros e penetrantes. cooperar com o detetive Abikair. me acertar com meu namorado. Mas me desarmar com apenas o olhar. um morenão que. uma vez que não estávamos nos falando direito. escondendo minha ereção com as mãos. Precisava chegar logo em casa. não era também o melhor dos consolos. cheguei a olhar em volta para ver se mais alguém havia reparado. a pele brilhante e morena. o que estava acontecendo comigo?! Por que havia um volume começando a se erguer em minhas calças?! Senti-me extremamente envergonhado. Do mesmo tamanho que Fernando. até que o veículo começou a se mexer. Quem disse que seria fácil? . A verdade era que aquele detetive era. o efeito que provocava. com aquela cara de provocante austeridade. depois de mentir para o delegado. Ficamos nos encarando fixamente. E pensar em meu namorado não me animou mais. Sua pele era originalmente morena.acontecia à minha volta. mas logo veio uma curva. ainda a tempo de ver seus olhos grudarem nos meus. maravilhoso. tive a impressão de que seus ombros eram um pouco mais largos. ajudar o doutor Rafael com aquele complexo ridículo e Enzo com o sumiço do irmão. Olhei para minhas mãos.« Isso só Fernando sabia fazer. Não estava certo. como se fosse uma seda muito fina. conseguira me excitar com apenas um olhar.

depois fui para o quarto e me escondi debaixo das cobertas. o céu já estava escuro. e virei a cabeça. entretanto. por que raios eu estava ali. Apoiei-o no estômago com as duas mãos. Eu não podia nem fechar os olhos. o maxilar contraído parecia aumentar minha dor de cabeça. antes que qualquer um dos irmãos notasse minha chegada. que ainda não sei como não perdi o ponto no qual deveria descer. não conseguia crer que ficara naquele estado com um simples encarar de olhos. mordendo o lábio inferior como num velho hábito de indecisão. até que simplesmente não consegui mais me mover. nem comigo nem com Fernando. mirando-o. Entrei correndo no prédio. Bufei. Eu não podia continuar daquele jeito. extremamente exótico. sentindo uma incrível raiva brotar dentro de mim. e peguei-o com a mão direita. Quando respondi à saudação. com a cueca melada?! Num acesso de raiva. puxei a porta das escadas e subi de dois em dois degraus até chegar em casa. a garganta apertava e ficava cada vez mais difícil respirar normalmente. joguei os travesseiros em qualquer direção. Comecei a sentir raiva de mim mesmo. Encarei o telefone. isso era exclusividade do meu namorado. nem meio metro de mim. não consegui olhar para os lados. Tranquei a porta. Lágrimas de ira riscavam ardentemente meu rosto. Minhas reações não eram justas. O telefone estava na mesinha de cabeceira. troquei a calça por um short e fiquei com as meias. Então. apertei os olhos. o que estava acontecendo comigo?! Tá certo que o detetive Abikair era um homem bonito. Puxei na memória o número do ramal do loiro. àquela hora. Segui pelas ruas a passos largos. arfante. Meu peito doía tanto. Afinal. Tirei a camisa. a mente em branco. Um deles derrubou alguns livros da mesa. principalmente no aspecto amoroso. Escondi os olhos no braço apoiado à janela. ele já devia estar no escritório. já estava para desligar quando a voz familiar atendeu a ligação. Os toques cadenciados aumentavam minha expectativa. Acabei descendo dois pontos depois do meu. Suspirei. já que não achava prudente levantar antes disso. do que estava fazendo com a minha vida e com a vida dos outros. Não sei precisar quanto tempo passei naquela mágoa de mim mesmo. com um corpo moreno artesanalmente esculpido. Com o corpo encolhido. Eu não podia ficar tão desarmado só com o olhar de outro homem. mas daí a ficar« Não conseguia nem pensar na palavra. o que só me deixou mais raivoso ainda. socando o colchão repetidas vezes. baixar os olhos não era a melhor das opções. que o rosto de Fernando surgia diante de mim. Eu precisava fazer alguma coisa para resolver a minha vida.Minha cabeça estava tão transtornada. incomodado com o rastro das lágrimas em minha face. e o outro quase voou pela janela. meu braço estava pesado demais para se esticar até o aparelho. Meus olhos arderam. mas quando finalmente consegui mover meu corpo. Fernando ficou mudo e . quentes. como tanto meus amigos me pediam.

-« O antigo silêncio voltou.Hum. porque eu só escutava sua longa e calma respiração. eu« Não aconteceu nada. o que me deixou mais aflito ainda. então. fora eu quem ligara. Ouvia sua conversa com outras pessoas. . .« Oi.Não. Que bom. uma sensação de vazio dentro do corpo. O fato de Fernando não falar nada também contribuía para o meu nervosismo. Engoli em seco.« Certo.É« -« .pediu um momento. o barulho de uma porta se fechando e o fio do telefone sendo suspenso.Oi. . pesado. Sentia todo o meu ser se contrair.Hãm. .Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? . então nada mais justo do que eu puxar assunto.« .É. .Gui? .

delicada ± Que aconteceu? . já fungando. Novamente.Gui. As gotas quentes rolavam. ³Fala alguma coisa. meu amor« Fechei os olhos. mas eu não me importei. ouvíamos nossas próprias respirações.Gui« Fala comigo« -« Fê? . trancando a mandíbula. os dois pés apoiados no chão.Fala comigo. Meus olhos começavam a esquentar novamente. Estava sentado na ponta da cama. mas eu sabia que precisava falar alguma coisa. seu imbecil! Fala alguma coisa!´.Que foi. Prendi a respiração. piscando muito para desembaçar a vista. Deixei que uma expiração rápida escapasse sem querer. e ele deve ter percebido que eu estava uma pilha de nervosismo.Fê«? .-« Por que eu não consegui falar nada? Eu não sabia ao certo o que eu queria tanto falar. desenfreadas. o braço esquerdo sustentando parte do peso ao lado de minha perna. .« Tá tudo bem. mesmo? -« . qualquer coisa. Mas não saía nada. . espremendo-os fortemente. Limpei o rosto com as costas das mãos. Apertei meus olhos. Gui? ± Sua voz era doce. só podia pensar. soltando uma expiração rápida outra vez.

Eu também. eu« Fê« . eu só« ± Respirei fundo. ± Funguei. .. Espera só um pouco.« Volta logo pra casa.Te amo. mais lágrimas brotavam de meus olhos.Fê? -« Já tô indo praí. Precisava dele ao meu lado ± Tá tudo bem com a gente. Como sempre« ± Solucei alto.Nada. Gui.Fê. ± Aquelas palavras fizeram-me desabar ± Te amo. tá? -« .Tá. que eu já tô chegando. Gui. né? -« Claro. . Vem logo. não sabia o que dizer.Tá. . loiro.Já tô chegando. . Gui. . . colhendo novamente minhas próprias lágrimas ± Tá. Muito« .Tá.

Estava tudo bem. Com o controle. Quando terminei de puxar a barra da camisa. Contaria o que me havia ocorrido num momento mais pacífico. Não sabia onde colocar os braços. eu ir ao meu antigo trabalho ou me dispor a colaborar com a polícia. Batucava a colher na pia enquanto esvaziava o copo de chá gelado. não sei o que ele acharia pior. minha ansiedade já não tinha mais canais para ser extravasada. estar de pé parecia mais cômodo. espernear. Ele mesmo falara. Meus olhos ainda estavam vermelhos. Pensei em sentar. Comparado com o momento em que estava com o detetive Abikair. olhei para minha imagem no espelho. e assim que deixei o aparelho sobre a mesinha. assim. apontar o dedo e o diabo. Entretanto. eu ia levar muito esporro. Os reflexos do pulsar de meu coração martelavam minha garganta. meu coração parecia retumbar mil vezes mais rápido. Honestamente. com a ausência de toques mais íntimos. agora que não estava mais sentado. passava os canais. ecoavam em meu ouvido. Minhas dúvidas eram besteiras. achei que ver um pouco de televisão me acalmaria. destacados meio ao meu rosto claro. Caminhei até a cozinha. Fernando chegaria a qualquer momento do trabalho. conclui que aquele não era o melhor momento para Fernando saber do meu diazinho agitado. falaria que era um absurdo eu sair sozinho e ir direto pra toca do lobo e esperar não ser mordido. como eu poderia ter duvidado do amor que eu sentia por Fernando. Fernando dissera que estava tudo bem. E lembrar do detetive me fez pensar se eu deveria contar ou não a Fernando o que tinha feito naquele dia. Respirei fundo depois de lavar o copo. mas não parava em nenhum. impaciente. me dei conta de minha ansiedade. eu não precisava mais me preocupar com aquela falta de conversa. mas o ribombar produzido por meu próprio corpo pareceu somar-se aos goles que eu tomava. O alívio era tão grande que sentei na cama e fiquei lá. Entrei debaixo do chuveiro. consolado. se o loiro me pegasse sem roupas depois de ter tomado banho. Desliguei a tevê. Enquanto me secava. Engolindo em seco. Vesti uma bermuda e uma camisa de manga curta. mas no momento em que o fiz. pelado e molhado. mas eu não conseguia me concentrar em uma única coisa. não havia mais com o que me preocupar. que pareciam adendos desengonçados de meu corpo. . Não que nada fosse interessante. tão facilmente? A dor que eu senti fora tamanha. Desligamos o telefone mais ou menos na mesma hora. voltaríamos a ser como antes. tentava ao máximo me acalmar. não conseguia ficar parado. que sanou todo e qualquer vacilo meu quanto ao sentimento que eu tinha por meu namorado.Nem nos despedimos. O gringo iria gritar. Esporro seria pouco para o que eu ouviria. certo de que um copo de mate acalmaria meus nervos. qualquer ruído me alarmava. Foi quando eu acabava de grudar o velcro da bermuda que me toquei o que acabara de acontecer. levantei e fui ao banheiro.

enlaçando-me forte ao homem que amava. e eu levantei a cabeça rapidamente. deixando-me inebriado. Senti seus braços comprimindo-me contra seu corpo quente. um estrondo ecoou no corredor. segurando o encosto de umas das cadeiras da mesa de jantar. nem quando ele começou a se aproximar de mim. antes mesmo da porta estar totalmente aberta. como se muitas pessoas estivessem andando juntas. Levantei. A mão ainda segurava a maçaneta. mas voltei a erguê-los. m as o corpo estava estancado. Seu olhar era sôfrego quando as esferas azuis detiveramse em mim. mas não saiu nada.Sentei no chão. encarando meu namorado. meu joelho já estava cedendo. Depois. todavia ao mesmo tempo gostaria de poder adiar o contato. e ele venceu a distância entre nós enlaçando minha cintura estreitamente. fungando o perfume da pele sensível. nada mais apertava meu coração a não ser a presença de Fernando. A primeira coisa que consegui enxergar. Seu cheiro adentrava minhas narinas com impressionante força. Engoli em seco. apoiando a testa nos joelhos. Afundei o rosto na curva de seu pescoço. e a folha de madeira se abriu. fiz menção de falar. as coxas junto ao peito. tentando distinguir a origem dos barulhos. Cada passo por Fernando dado tornava meus joelhos mais fracos. falar qualquer coisa. minhas pernas pareciam bambas. Minha mão começou a tremer. Queria que o loiro chegasse logo. mas descompassadamente. Parecia uma marcha. de uma única vez. e fechei os olhos. Sua boca estava entreaberta. Olhava para o teto. foram seus fios dourados. e eu não consegui reagir diante de tamanha beleza. impactante. Pisquei. A maçaneta se torceu. sendo facilmente tragado por aquele profundo oceano com tormentas emocionais. e cada segundo de espera me deixava mais nervoso. agitado. As chaves pareciam estar desesperadamente sendo balançadas. Nada mais passava em minha mente. senti uma de suas mãos soltar meu corpo para segurar minha face. a figura do gringo surgiu meio ao escuro do corredor. parecia que Fernando não sabia bem onde colocar as mãos. arrepiados certamente por sua corrida até a casa. Eu queria conversar com o loiro. meus olhos ardiam imensamente. As esferas azuis não piscavam. mas eu duvido muito que fosse apenas pela corrida. . de frente para a porta. as rosadas maçãs do rosto a denunciar seu esforço. Por um momento. o olhar era fixo. que me fulminava com toda intensidade. Sentia que estava prestes a chorar. O loiro ainda respirava com dificuldade. Baixei os olhos por alguns instantes. e o barulho familiar de chaves soou para além de meus tímpanos. Ruídos para além da porta de entrada de meu apartamento se fizeram ouvir. Não conseguia desviar meus olhos dos dele. Permiti-me abraçar seu pescoço. mas nada saia de minha entalada garganta. Baixei a cabeça. ficaria travado e em angustiante silêncio. Mas depois seu real desespero se revelou nas feições preocupadas. sabia que não conseguiria falar nada. e eu me senti prestes a cair quando ele parou a menos de dois passos de distância. fazendo meu peito apertar ainda mais. Ele arfou.

Nossas línguas estavam saudosas. dando voltas. Fernando espalmou as mãos o suficiente para conseguir segurar minhas duas nádegas de forma a quase penetrar-me com os dedos médios. Eu precisava de mais. minhas coxas apoiadas em seus antebraços. e meu baixo ereto roçou o dele. e estávamos nos amando tão loucamente. Eu arfava rápido. desfiz o beijo na busca de ar e meu pescoço foi imediatamente atacado. com um impulso. mas eu não esperava que ele fosse cuidadoso. Senti que era empurrado e dei de costas com a parede da sala ao lado da porta de acesso ao corredor. de Abikair. passando o outro braço por seu pescoço e. A franja arrepiada concedia-lhe um aspecto ainda mais ferino. quando sentiu que era observado. lambendo e chupando lábios superiores e inferiores. selvagens. Suas bochechas mais que rosadas. minhas pernas firmemente atadas em seu quadril. Fernando me fazia esquecer dos vizinhos. Rebolei levemente. do mundo todo. Suas mãos afundavam-se em minhas coxas. demorando a conseguir concentrar-me para focar a imagem meio ao turbilhão de desejos e taras que me acometia. sua boca entreaberta. Fernando tomou minha boca não muito delicadamente. Abri os olhos. penetrando-os e agarrandoos com força. Sentia que não conseguia respirar. o que só fez com que meu quadril se empinasse instintivamente. e massageavam-se incansavelmente. me deixando louco. Os cabelos revoltos agrupavam-se em tufos esporádicos por mim puxados e. os lábios vermelhos. os olhos oceânicos direcionaram-se em minha direção.Piscando uma vez. descendo para o pescoço. Ele gemeu. a outra mão ocupava-se em apertar minhas nádegas. meu corpo estava tão quente. Agarrei um de seus ombros. segurando meus dois pulsos e colocando meus braços acima de minha cabeça. Éramos só nos dois. Sentia chupões fortes na pele sensível de meu pescoço. senti seu membro endurecer ainda mais contra minha virilha. Meu coração ribombava como um tambor de olodum. O gringo apertava o quadril contra o meu. um de seus dedos muito próximo de minha entrada. posto que precisava daquele contato tão urgentemente quanto ele. da faculdade. Ele me empurrou com mais força contra a parede. curvas. e um sorriso matreiro de dentes brancos brilhou rapidamente. animalescos. Puxei a cabeça do loiro para o lado. e deixei que minha voz escapasse livremente. . dos prédios de frente para nossa janela. Senti-o cutucar de leve meu ponto. Não agüentei me reprimir mais. e parecia queimar ainda mais nos locais tocados pelo gringo. montei no tronco do gringo. desejava mais contato com o corpo tão quente e desejável de Fernando. que nem o tempo parecia existir. e encontrei a face de Fernando próxima a mim. e meus dedos deslizaram automaticamente para seus cabelos. e rocei a língua em seu lóbulo. onde inconscientemente cravei meus dentes. e por alguns segundos temi que meus tímpanos estourassem com tamanha intensidade de pulsação. seus dedos tocaram minha entrada. A língua de Fernando lambeu meu lábio inferior.

Era bom demais ter o gringo daquele jeito. se . Mal chegamos ao nosso quarto. Ele ainda estava com meu mamilo na boca. e rebolei devagar sobre o volume de Fernando. . arfando. fui arremessado para a cama. o loiro empurrou a pelve contra a minha. e o queria naquela hora. Respirei fundo. seus dedos definitivamente querendo penetrar por minha bermuda. Senti que estávamos nos movendo. mas estava impossível suportar mais daquela tortura. Os olhos azuis cintilaram perigosamente em minha direção.Agarrei-me a ele. porque pela reação do gringo. . mordendo-o com força. seu volume rijo quase a rasgar nossas calças. . uma dor deliciosa me incitou a morder Fernando com mais força. Ele sugava fortemente o botão em meu peito quando me curvei e abracei sua cabeça. uma das mãos com os dedos enfiados entre minhas nádegas.Me fode« Meu sussurro saiu rouco. Eu o encarei. quando ergueu a cabeça para olhar para mim. e foi ainda melhor quando ele arrancou minha blusa e abocanhou um mamilo enquanto o outro recebia atenção especial de uma de suas mãos. Minha garganta arranhava enquanto Fernando lambia e sugava a frágil pele de meu pescoço. depois de fechar a porta. Meu quadril jogava-se inconscientemente contra o do loiro. Ele piscou. e nem um segundo depois eu já estava sendo fortemente beijado. os cabelos despenteadamente selvagens. eu precisava de Fernando. e minhas pernas tremiam precariamente. e vê-lo daquela maneira tão provocante me fez erguer umas das sobrancelhas e rir de lado. loiro? Quer que eu repita? Obviamente que não precisei repetir. Ainda não havia erguido o torso completamente quando Fernando. meu coração louco bombardeava meu peito. Foi só eu terminar de falar que a língua do gringo parou. eu devia estar parecendo um garoto de programa bem devasso que se oferecia de graça. colando a boca em seu ouvido e falando uma das frases que até hoje tenho vergonha de repetir. aumentando a louca sensação que a adrenalina causava em mim.Que foi. A língua ainda pressionava a carne túrgida. eu sentia que estava me descontrolando. Procurei novamente seu pescoço. Acho que devo ter mostrado uma cara muito safada. tão imprensado contra mim. os lábios avermelhados. De repente.Aaahhh« Fechei os olhos para gemer. depois lambendo e chupando o local machucado. Minhas costas bateram novamente contra a parede.

se fosse Fernando. dessa vez. para meu profundo êxtase. brilhantes e provocantes. ele deitou a cabeça sobre meu baixo. Os movimentos felinos me hipnotizavam quase ao ponto de babar. Era Fernando. e então a cabeça loira abaixou-se. a tênue luz dos postes da rua fazia com que fracos feixes luminosos refletissem o brilho daqueles cabelos dourados e da pele beijada pelo sol. penetrou-me com dois de seus dedos já úmidos por minha própria semente. sorrindo involuntariamente. Levei minhas mãos ao cós de minha bermuda. ele mal me despira e sua boca já abocanhara meu membro. nunca daria pra escapar. . meu corpo esquentava rapidamente. O pano de minha bermuda era muito fino. o loiro ajoelhou-se entre minhas pernas e. e acho que Fernando também não estava agüentando muito. me levando ao delírio.livrou das próprias roupas e colocou-se nu sobre meu corpo. conseguindo tocar desde meu membro até os testículos. levantei um pouco e apoiei meus braços atrás do corpo para ver melhor o que Fernando estava fazendo para me deixar tão excitado. Vi-o jogar a peça para trás e voltar a se afundar entre minhas pernas. Os toques não eram nada delicados. Nosso ritmo estava muito rápido. às vezes minhas contrações involuntárias eram de dor. massageava meus testículos e. Fernando segurou minhas pernas bem abertas. portanto ficava mais fácil sentir e distinguir qualquer coisa. era mais um motivo para eu esquecer de fazê-lo direito. Perdi o apoio dos braços ao agarrar o lençol e puxá-lo. mas ficou ainda mais difícil colocar qualquer ar para dentro dos pulmões e. e como o nosso primeiro beijo. separou minhas virilhas. seus toques eram mais eficazes do que carinhosos. Passando os braços por baixo de minhas coxas. como respirar parecia um jeito de me controlar. nem se eu quisesse muito conseguiria escapar. Os olhos oceânicos fixaram-se nos meus. Empinando o traseiro. de súbito. Suspirei. O modo como seus músculos se contraíam só para que seu torso ficasse erguido me fascinava. Primeiro ele apoiou a mão espalmada. queimando-me como se estivesse em uma fogueira gigante. Suas mãos pressionavam minhas partes. chegando a erguê-las um pouco. Eu estava me sentindo completamente preso. e afundou novamente o rosto entre meus documentos. Uma das mãos veio auxiliar a carícia. Senti automaticamente que meu volume crescia e endurecia a cada novo roçar do gringo. porque no pequeno instante que se separou de mim foi para sumir com minha bermuda e minha cueca. agarrando minhas coxas com firmeza. mas ele não me deixou tirá-la. Fernando acariciava a cabeça de meu membro arrastando a língua. sugando mais forte que o de costume. Minha barriga contraiu-se sozinha. minha cabeça quase bateu na cabeceira da cama. Aliás. Depois. Não controlava mais minha voz. que saía livre para ecoar por toda a casa. uma de suas mãos massageando meus testículos enquanto a outro tocava um de meus mamilos. fazendo questão de tocar cada coisa de uma vez. Eu já respirava com a boca há muito tempo. Mas eu não me importava.

Entretanto foi só dar uma atenção especial a um de seus mamilos rijos e seu membro que o loiro relaxou. nas últimas vezes. Deitei sobre seu corpo. Bem. então agarrei o gringo pelos cabelos e tirei aquela boca quente e safada de meio baixo. aquele jeito diferente e agressivo do loiro de me excitar estava me fazendo perder as estribeiras.Ah« Ah« Isso« Ah« Eu não sabia o que fazer. Assim que percebi que meus dedos deslizavam com mais facilidade. Aqueles pêlos claros« Aposto que poucos tinham pêlos claros como os de Fernando num lugar . . me chupando igual nunca havia feito. e abri um pouco as pernas. mas não me importei. Senti que estava muito próximo do alívio. . voltando minha atenção para o que estava logo à frente de meus olhos. dava pra perceber que ele queria continuar ali. E eu não perdi tempo. Ele tentou me tirar de lá. Depois passou a língua pelos lábios e. não era à toa. mas eu não saí.Aaah« Ai« Eu senti que fora um gemido de dor. Empurrei seu corpo contra o colchão. agarrando-o pelo braço. quase rasgava o lençol de tanto puxar por meu corpo estar tão trêmulo. Aquilo me excitou tanto que eu estava decidido a arrombar Fernando. nossos abdomens se encontrando.. Fernando gritou alto e forte. me enfiei dentro dele. Dei um sorriso de lado. Senti meu próprio gosto naquela língua macia e experiente. me posicionando melhor. Agarrei suas coxas e as abri. enfiei minha língua na entrada dele enquanto brincava com seu membro. Abracei o corpo em brasas e fiz com que Fernando ficasse sob mim.Ué«? Você não queria« que eu te fudesse? Vi os olhos oceânicos cintilarem em minha direção. enfiei dois dedos em seu pequeno orifício. De primeira ele me olhou feio. passando sua língua para dentro de minha boca. desejo. quem havia desempenhado esse papel fora eu. voltando meu corpo e deixando-me de ponta a cabeça para ele. me torturando. quase esmagando meus braços. iniciou um beijo feroz. afinal. selvageria. Eu gemia. Queria mais de nossa intimidade. O jeito como ele apertava os olhos e o tom de voz denunciaram que ainda não havia prazer naquela invasão. puxei-o para um beijo. e assim que minha boca encontrou com seu baixo. cheios de luxúria. mas puxou-me para junto do corpo e. empurrava minha pelve contra seu rosto.

aquele barulho típico de corpos e choque e algo muito úmido sendo batido. meu traseiro empinado. Meu corpo tremia debilmente. e senti-me penetrado com tanta firmeza quanto estava penetrando. . Não agüentei o peso do meu corpo e caí de cara no colchão. agarrei seu membro duro e melado. os mamilos duros de Fernando raspavam em minhas costas. sentia que seus dedos ainda estavam dentro de mim e. na nossa primeira experiência na posição ³69´. por isso meus gemidos saíram sufocados. Sentia meu corpo ser jogado para depois ser trazido de novo pelas mãos que seguravam com força meus flancos. minhas pernas arreganhadas. enquanto meus dedos cuidavam de sua entrada. mas tive que me deter. Com um espasmo. Já estava esperando por seu suco. ainda sendo impulsionado para frente e para trás. e seu corpo começou a tremer tanto quanto o meu.Hungh« Hunf« Hum« -« Ah! Apertei o tornozelo de Fernando. Gritei. encontrando-se brevemente com meu próprio membro para. Uma de minhas pernas foi agarrada. Ainda segurava o membro do loiro em minha boca. A partir de movimentos bruscos. quando senti meus flancos serem agarrados o suficiente para que Fernando saísse de baixo de mim. e me aliviei na boca dele. Ele não esperou que eu me acostumasse com seu volume túrgido e começou os movimentos forte e rapidamente. Não demorou nem um minuto. encostando o rosto em sua virilha. como ele havia feito comigo. esfregando minha língua na ponta e massageando seus testículos. enfim. O membro dele se arrastou por meu corpo. sugando o mais forte que pude. mas Fernando estava incrivelmente resistente.Aaahh« Espera« Loiro« Eu vou« . abocanhei-o. Seu baixo entrou torturante por minha entrada. a boca do gringo envolveu-me com volúpia. enfiando-o em minha boca. e eu gritei de êxtase misturado à dor. melando meu abdômen. e vi estrelas quando o gringo me virou de frente para ele. Ele ainda estava rígido como uma pedra quente. Sem dó.como aquele. Sentir seu membro entrando e saindo de . Não demorei muito para me aliviar novamente. me sentindo insano. cutucar minha entrada. olhando fixamente para o baixo do gringo. o loiro me colocou arqueado sob si. E foi tão sem aviso quanto eu o havia feito. Não sei precisar quanto tempo ficamos assim.

Abraçamos-nos. para depois fixar-me novamente nas esferas azuis. e depois girando« Berrei. e depois ficamos nos encarando por um longo tempo. Trouxe o corpo para o lado. desarrumada. Olhamos-nos. Seu gemido foi longo. os cabelos tinham as pontas molhadas pelo suor. O corpo quente me esquentava. suspirando. sabia que era a mão grande e precisa de Fernando. suados e cansados. Eu estava doido por causa do sexo selvagem que acabáramos de fazer. Fechei os olhos. mas era sua respiração em meu peito que mais mexia comigo. Segurei com delicadeza seu rosto. Eu estava explodindo. gozava. minhas mãos alcançaram automaticamente seu pescoço e eu puxei sua boca para juntar-se a minha. e beijamo-nos devagar. abrindo o peito na tentativa vã de me controlar. depois deitou a cabeça em meu peito. Expirei. nós desmontamos. os olhos apertados. A cama estava toda suja. Até que Fernando se enfiou tão forte dentro de mim que eu achei sinceramente que iria desmaiar. nos analisando. O calor parou acima de meu coração. e se aliviou. Fernando caiu para um lado. mas eu também não queria falar nada com minha mirada constante e meu silêncio mórbido. senti seus lábios macios pressionarem-se contra os meus. Nossas línguas se encontraram. gemia e tremia. passamos minutos apenas nos olhando. embora eu estivesse cansado demais para virar a cabeça imediatamente. como se nunca nada tivesse acontecido para que problemas surgissem em nosso relacionamento. Beijava-o insanamente enquanto sentia que sua semente me preenchia ternamente. Fechei os olhos. ainda sustentavam aquele ar selvagem e perigoso. mas eu ainda tremia de prazer.mim tão forte. Minha entrada latejava. Puxava o ar com força para dentro de meus pulmões. uma sensação úmida em minha entrada. Porém. a pele parecia reluzir e a face estava muito corada. Suspirei. seu toque suave em meu peito me disse que ele estava tão esgotado quanto eu. Ele respirava com a ajuda da boca. Até que o loiro respirou mais fundo. a outra mão segurava minha nuca. Os olhos. e senti sua mão esquentar-me o sangue. Beijei . tão expressivos. Esquecemos de nosso bloqueio. Esquecemos do tempo. Estávamos arfantes. agarrou-me gentilmente pelo tronco e me trouxe para perto de si. Algo tocou minhas costas e. distantes. rouco e delirantemente luxurioso. mas era quase impossível fazer aquela sensação de excitação desaparecer. ouvia meu coração bater forte. mirando-me inexpressivo. tudo ao mesmo tempo. O loiro desfez o beijo. suava. A voz grave me deu calafrios. Calma e tranqüila. ficando de frente para o loiro. seus dedos afundaram-se em meus cabelos molhados. e eu para outro. e Fernando aproximou o rosto. abraçando seu corpo e acariciando seus cabelos. Nossos olhos não se desgrudaram. Eu não sabia o que ele queria me dizer com aquele olhar silencioso. e o que estava a nossa volta também. Ele piscou. Esquecemos tudo aquilo que existia entre nossos corpos. minha outra mão passara por trás de seu pescoço e repousara em seu ombro. E finalmente.

A que eu colocara na oportunidade dizia ³Good at being bad´. . Ao mover as pernas. quando finalmente lembrei do que havia acontecido na noite anterior.seus cabelos. estava de bruços com a cabeça virada para mim. no entanto. completamente envergonhado e com medo de sujar o chão no caminho. . Ele acariciou meu braço em resposta. devasso. Eu nunca havia feito um sexo tão animal como aquele! Fora pervertido. Suspirei. e fiquei impressionado em como ainda não havia reparado que Fernando estivera adormecido ao meu lado durante todo esse tempo. depois escorreguei minha mão por sua face. sem noção de espaço e tempo. .Wow! ± Me assustei. decidi fazer o café da manhã para nós dois. acariciando-os. Seus cabelos finos estavam completamente desalinhados. tomando coragem para sair da cama e senti algo deslizar por minha lombar. Arregalei os olhos. não assustado. derramando um pouco de leite. animalesco«! No entanto. sem pensar em mais nada a não ser na felicidade que estava sentindo naquele momento. segurei minha cabeça e fiquei observando suas feições serenas. A barba estava começando a crescer. Levei meus dedos aos fios loiros. Meus olhos ardiam com a claridade. vesti uma samba-canção e peguei uma de suas muitas blusas estampadas. Fechei os olhos. Tomei um banho. quando tentei me levantar. Apoiei meu braço ao colchão. senti algo melado entre as coxas e em minha entrada. Foi difícil me concentrar em fazer torradas com aquele cheiro tão delicioso. Acordei um pouco atordoado. aquele me pareceu o ato mais passional por nós dois praticado. Superando a preguiça. e o perfume inebriante de Fernando adentrava efetivamente por minhas narinas. lascivo. e meu corpo estava cansado. Estava colocando leite em um copo quando braços circundaram minha cintura. mesmo que sem o carinho cuidadoso de sempre. e foi ao tentar levantar que me dei conta do ocorrido. fazendo com que eu ficasse arrepiado. eu não podia deixar de sorrir e sentir meu peito esquentar só de lembrar de como Fernando havia me amado.Bom dia« ± Seus lábios roçaram minha orelha. Respirei fundo. Adormecemos assim. beijando meus lábios. e parecia escorrer. Não havíamos trocado uma só palavra de amor e. como que tomando coragem para mexer qualquer músculo. mas surpreso: não havíamos usado camisinha! A semente de Fernando ainda estava dentro de mim. Coloquei a mão em concha entre minhas nádegas e caminhei devagar até o banheiro. murmurei palavras doces.

-« Desculpa. . cuidadosa. as esferas azuis ainda sustentando o olhar.. encarando-me. ± Piscou. ficando de frente para ele e tocando seu braço ± E você? . Franzi o cenho. ± Virei o corpo. . ± Abracei o gringo.Você tá bem? ± A voz veio baixa. Fernando não parecia estar . ± Passei meus braços por seu tronco. tombando a cabeça ± Não fui muito delicado com você. Repousou uma das mãos em meu rosto.Desculpar pelo quê? .Também. Fernando fixou os olhos nos meus. Jogou meus cabelos para trás. ontem« . puxando-o para mais perto. ± As sobrancelhas arquearam-se.Eu não preciso que diga alguma coisa. Embora o foco de suas pupilas estivesse em mim.Bom dia. Fê« .« por semana passada« Por tudo.Por ontem. -« Eu não sei o que te dizer. suspirando ± Só fica do meu lado. acariciando minha face. afastando-me um pouco do abraço e olhando para as esferas do loiro. .Tô.Eu não esperava que fosse.

só pros mais chegados. Sentamo-nos à mesa e comemos nosso desjejum conversando trivialidades.Eu sei. Meneei a cabeça negativamente com um sorriso nos lábios.Guilherme. . despedindo-se com um beijo rápido. eu lembro. talvez o doutor Rafael« . porque com momentos tão bons esquecemos da hora. o loiro me deixou à porta da sala. Fê. porém terno. e beijei sua boca rapidamente. nem por semana passada nem por nada. fomos à faculdade. meu aniversário« . Eu não me arrependo nem por ontem. De praxe.Esquece isso.Não parece! ± Puxei seu nariz. você. eu particularmente não conseguia me conter depois dos comentários irônicos que Fernando soltava. . agradável. Sentei-me ao lado de Enzo. como se ele não soubesse muito bem onde colocá-las. mas« Vi as mãos claras de Enzo se abraçarem. Nada demais. . Depois de nos arrumarmos correndo. O que importa é que a gente tá bem agora. e ele riu gostosamente. aconteceu. . e eu me sentia renovadamente confortável.Eu sei.Tô pensando em fazer alguma coisa. E o que aconteceu. agradeço o convite. O clima estava leve. que me recebeu com um sorriso amigável e assisti às aulas sem maiores problemas. um pouco desconcertado. como se aquele fosse um dia qualquer. tipo nós dois. Thomas e Igor. aproveitei a folga depois dos exercícios que o professor havia mandado para conversar com Enzo. No segundo tempo. como que o acordando. Segurei seu rosto com as duas mãos. ± Respondeu.exatamente me olhando. Eu não estava preocupado ao chamar Enzo para meu aniversário porque sabia que haveria mais pessoas com as quais ele poderia conversar sem ter que se sentir . . Rimos juntos.Escuta.

. né? Eu sei que por enquanto a gente tá como colegas. não disse nada. eu realmente não compreendia Enzo.Se a gente quer continuar a amizade. . uma hora ou outra a gente vai ter que se encarar. não sei. ± Apoiou o queixo na mão. Seus olhos esverdeados ainda me encaravam à espera da conclusão de minha frase. os olhos em mim.« ± Coçou a nuca de cabelos louros ± Acho que ainda tá muito cedo. a gente precisa de laços. Sacudi a caneta preta em minhas mãos.Eu. mesmo. . Enzo. . .Cedo pra quê? ± Não era ingenuidade.Pra« Ah. .Não.Você não acha que a gente merece mais que isso? -« Os glóbulos voltaram-se para o lado. como se Enzo estivesse imerso em seus próprios pensamentos e analisasse com cuidado minhas palavras. Guilherme. .Por que não? . como que num movimento de ansiedade.Eu já não faço isso? ± Indagou. você sabe. Os lábios levemente avermelhados deram um sorriso de lado. obviamente falando de seu olhar fixo em mim. Não esperei por sua resposta. . mas« Hunf« Suspirei.mal. as esferas castanhoesverdeadas dirigiram-se para baixo e embora ele tenha respirado fundo. rodando o pescoço e voltando a olhar para Enzo.

e eu agarrei meu próprio membro.Claro. sentindo-me perturbado. ± Sua formalidade era notória ± Tem um minuto? . Mas fosse quem fosse. ± Olhei para o meio de minhas pernas.Guilherme. o olhar expressivo. pode falar.voltei minha atenção ao celular que vibrava em meu bolso. mais um motivo para não atender a uma ligação no meio da aula. os ombros largos e a cintura delgada. foi tão insistente que depois de cinco chamadas.Você preencheu o formulário com seus contatos. detetive. Engoli em seco. as íris tão azuis que beiravam o arroxeado. sentia uma estranha sensação escorrer por minha coluna e minhas entranhas reviraram incomodamente. a imaginei do detetive Abikair e toda sua fisionomia exótica e atrativa: seus cabelos escuros de tons vinho. Abikair. . O número me era estranho.Ah! Sim. . Imediatamente. meio irritado. . tentando me conter. contidas em grossas bordas negras.Está ouvindo bem? . saí de sala para atender o infeliz que me importunava. Meu coração pulsava dolorosamente. pois não? . sou eu. eu« Como conseguiu meu número? .Guilherme? .Estou. a pele morena como bronze polido« Meu corpo reagiu.Alô! ± Atendi. . correndo para entrar num dos boxes do banheiro.

- Vou precisar que você compareça à delegacia. Ainda não posso precisar a data, mas acredito que seja daqui a três dias, dia 27 de outubro.

- Ah,« E que horas?

- Durante a noite, não vou arriscar sermos vistos por ninguém, nem de dentro nem de fora. ± Respondeu, veemente.

- Não tem como ser em outra data, detetive Abikair?

-« Por quê?

Senti meu baixo pulsar em minha mão. Não era possível que estava reagindo assim somente com a voz do detetive por telefone. Joguei a cabeça para trás, sentando-me no vaso sanitário e apoiando a testa na parede do boxe. Respirei fundo, fechando os olhos; ele devia saber que eu me sentia assim, devia fazer de propósito.

- Guilherme?

- É meu aniversário, senhor Abikair.

- Oh! ± Ele pareceu verdadeiramente surpreso; adoravelmente surpreso ± Verdade, não havia reparado isso no formulário. Perdão.

- Que isso, detetive.

- Não, Guilherme, foi falta de atenção minha. Mil perdões. ± O barulho indicava que ele havia acabado de sentar ± Na noite seguinte, então? Dia 28?

- Tudo bem.

- O endereço que você deixou é mesmo o seu?

- É, sim. Por quê?

- Não vou deixar você ir à delegacia sozinho durante a noite, Guilherme. ± Censuroume, como se eu não percebesse o óbvio.

- Mas eu tenho com quem ir, não precisa«

- Eu não estou perguntando se tem quem te leve ou não à delegacia, Guilherme. Também não estou pedindo que aceite que eu o escolte. ± Me calei, surpreso ± Eu VOU escoltá-lo, queira você ou não, porque caso você não tenha percebido ainda, você é uma testemunha ocular de um seqüestro combinado com homicídio.

- Eu sei, senhor Abikair«

- Não, Guilherme, acho que você não sabe a dimensão da situação em que você se meteu ao entrar naquele quarto. ± A voz de Abikair era potente e severa, embora em baixo volume ± Estamos falando de um criminoso seqüestrador e assassino que está à solta, esperando pacientemente o estagiário tolo sentir-se acomodado à falsa sensação de segurança para esticar as pernas em algum local provável para dar um fim à única pessoa que pode comprometer sua identidade e liberdade.

- Eu«

- E como você bem sabe, eu não sou dessa cidade, nem desse estado. Venho perseguindo os passos desse criminoso há algum tempo, e nunca antes chegamos tão perto de poder prendê-lo, uma vez que nunca antes conseguimos evidência ou testemunha alguma para incriminá-lo. Essa é a primeira vez que alguém consegue cruzar seu caminho sem morrer no processo. E se eu precisar escoltá-lo da sua casa até a

delegacia com mais quinze policiais à paisana, por mais que sejam dois metros de distância, é isso que vou fazer!

Ouvi o detetive respirar fundo, ainda quieto. Eu não sabia se estava levando esporro ou se, depois de tanto tempo atrás do cara, como ele mesmo dissera, o detetive Abikair apenas sentira a extrema necessidade de extravasar um pouco. Continuei calado, meio sem jeito de dizer qualquer coisa. Conseguia ouvir a respiração levemente descompassada de Abikair, e fechei os olhos, imaginando como ele estaria naquele momento: sentado atrás de sua mesa, de pé e apoiado à parede, sentado sobre a mesa ou deitado em sua cama, nu, o corpo ligeiramente molhado pelo banho que acabara de tomar, os cabelos úmidos jogados ao colchão, o peito«

- Guilherme?

Acordei de meus devaneios luxuriosos quando a grave voz adentrou por meu ouvido e arrepiou os pêlos de minha nuca.

- Sim?

- Perdão novamente. Eu falei demais.

- Tudo bem, detetive. Deve ser bem frustrante tentar pegar um cara desses e nunca conseguir. ± Levei a mão à boca assim que terminei a frase; o que eu estava insinuando, que o detetive Abikair era incompetente?!

- É, Guilherme. Mais do que se pode imaginar. E esse em especial é meu calcanhar de Aquiles.

Tombei a cabeça para o lado, sorrindo de leve. As palavras de Abikair pareciam as de uma criança que admitia que não conseguia alcançar a prateleira de cima: sinceras e fofinhas. Dei de ombros, finalmente consegui tirar minha mão de minhas partes íntimas.

« Dia 28. detetive. Eu não conseguia entender por que o detetive conseguia. . Então. levando a outra à testa. . Estava acontecendo de novo.Não faça isso com você mesmo.Pode deixar. Guilherme. mas a única coisa que consegui foi um silêncio profundo quebrado apenas pelo barulho de minha própria respiração. certo? . detetive.Se precisar de algo. Eu sei que.Claro. meu quadril ameaçava jogar-se para frente e para trás.Tenha um bom dia. Olhei para o teto. ± Aquelas palavras me fizeram morder os lábios. . Isso tinha que parar. meu membro não parava de ficar túrgido só de lembrar daquela voz grave e rígida ao meu ouvido. Mas até então.Espero que sim. dessa vez. Guilherme« ± Murmurei para mim mesmo ± Não faça isso com ele« .Eu ligo confirmando. também..Eu acredito no senhor. . . com absurda facilidade. o senhor consegue. É meu celular pessoal.Você também. me tirar do sério. Eu estava nitidamente fora de controle. Apertei o celular em minha mão. . liga para este número. imaginando qual seria a explicação para aquela reação. dia 28. . E espero contar com sua ajuda.Certo. Suspirei fundo antes de desligar o aparelho. . irei prontamente encontrá-lo.

No celular. Arrumava minhas coisas quando notei que Enzo ainda estava sentado ao meu lado. Acalmei-me um pouco. Estalei alguns dedos no caminho de volta.Ao banheiro. Encarei-o por algum tempo. . e encarei meu rosto. Não demorou muito e o sinal do término da aula soou. e os cabelos no corte desalinhado emolduravam um rosto meio quadrado. mas não é a mim que você afeta quando mente desse jeito. A pele clara contrastava com os cabelos castanhos escuros. sim. sem entender muito bem o que ocorria. . ± Continuei a juntar minhas coisas e enfiá-las na mochila. depois guardei o celular no bolso e fui lavar o rosto. atípico na minha família. né? . Os lábios pouco pronunciados davam contorno a uma boca sem graça. Passei mais uma água no rosto antes que meus olhos descessem e eu começasse a pensar em como não gostava de meu corpo.Onde você foi? . Os olhos cor de mel. . balancei a cabeça e juntei minhas mãos entre as coxas ao curvar o tronco. muitas pessoas no corredor me faziam desviar e chegar lentamente à sala de aula. Apoieime com as duas mãos na pia de granito rajado. meio oval. chamavam a atenção se olhados mais de perto.Eu não me importo de você não falar quem era.Inspirei profundamente e expirei com força. Você saiu para atender. . Não era ninguém. -« Hãm? .Ah.E quem era? ± Franzi o cenho.

ao terminar de mastigar um pedaço de nhoque de aipim. Formou-se novamente um silêncio no carro. Mas apesar disso. o carro vermelho de Enzo já havia partido. alguém comentou alguma coisa? . Ainda estava com a agenda na mão quando o acompanhei com os olhos e encontrei meu namorado à porta de minha sala.Enzo levantou-se. os olhos azuis fixaram-se incomodamente em mim.Não. ± Continuou o movimento com o saleiro ± Só achei você estranho. Joguei a mochila na cadeira de nosso quarto e deixei que meu corpo caísse sobre o colchão. imaginando se agora era o momento de falar para Fernando que eu estava cooperando com a polícia. Cada garfada parecia um sacrilégio.Não. e meneei negativamente a cabeça ± Tem certeza? Parei de mastigar por uns instantes. Por que. dessa vez muito mais pesado do que antes. os braços largados. . O loiro não falou nenhuma palavra sequer depois disso. tá tudo bem. Limpei a boca com o guardanapo e tomei um gole do meu suco. Olhei pela janela. . engolindo a comida. . colocando a mochila num dos ombros e foi embora. Fiquei quieto na volta para casa. ele sorriu de lado e apoiou as costas ao batente da porta. Quando chegamos ao estacionamento. Fernando apenas ergueu as sobrancelhas quando baixou os olhos para o saleiro em forma de anuência. Ergui as sobrancelhas. Acabei de arrumar minhas coisas e desci as escadas junto a Fernando. Gui? ± Levantei os olhos pra ele. ainda mastigando minha couve. como se o gringo estivesse me comprimindo contra uma parede. Ele ainda me mirava. Chegamos em casa e Fernando foi direto para o banho. eu sabia que ele ainda voltaria no assunto. . e provavelmente foi por isso que Fernando notou que alguma coisa acontecera. O jeito como me olhava enquanto comíamos me pressionava. a outra mão parara o movimento e o saleiro ficara na diagonal. agora no carro. Estávamos almoçando num restaurante perto de casa quando. nada.Tenho.Aconteceu alguma coisa. o garfo suspenso pela mão esquerda. e ficava difícil continuar sustentando o ar de normalidade a cada momento.

. Cocei a nuca. Gui? ± Fernando ergueu os ombros. o outro flexionado de modo que a mão ficasse frente à minha boca. Apoiei a cabeça num dos braços. permiti-me um descanso mental. Gui! Eu não sou idiota! . refletindo que talvez fosse melhor compartilhar desse segredo primeiro com os irmãos do apartamento ao lado. . tentando tirar minha atenção do corpo pecaminoso de Fernando e prestar mais atenção em seu olhar.Desfiz-me das calças. Respirei fundo. Eu não sabia por que não conseguira falar para Enzo que estivera conversando com o detetive Abikair logo depois de ³criticá-lo´ de não se permitir criar laços novamente comigo. guardou para si mesmo quando fechou a boca e expirou longamente.Não foi nada.Como não foi nada?! ± O loiro estava se alterando rápido. mas fosse o que quer que fosse. e troquei a camisa de malha por uma camiseta confortável. mas nada mais que isso. apoiando-me com um dos braços atrás do tronco e levando meus olhos aos deles.Eu não vou continuar essa conversa com você gritando desse jeito. rolando e ficando de barriga para baixo. Espreguicei-me longamente. . a toalha amarrada à cintura fazia uma fenda profunda sobre a coxa direita e o torso nu brilhava por ainda estar úmido do banho. Encaramos-nos por um tempo até que suas sobrancelhas se ergueram levemente e eu entendi que ele estava ali para conversar. Com as duas mãos colocou os cabelos para trás. Suas mãos abraçavam-se comodamente enquanto descansavam em seu colo. O gringo tomou ar. Senti o colchão afundar. ± Declarei. e você não tá querendo me contar. desviando o olhar. trocando-as por um short confortável. Fechei os olhos e. olhar esse que não estava para muita simpatia. . e esse era um provável motivo para ele ter me dado a resposta que me deu. aí havia outra dificuldade. suspirando. Sentei com as pernas flexionadas numa típica posição defensiva. Fê. como se estivesse fazendo um enorme esforço para entender alguma coisa. Engoli em seco. Porém. já que eu não poderia falar com os dois ao mesmo tempo. que se sentara de lado para mim.Quê que tá acontecendo. Torci o tronco para olhar o gringo. Continuei imóvel ± Eu sei que aconteceu alguma coisa. subi um pouco a barra da camiseta porque a janela fechada fizera com que o quarto ficasse abafado. o típico hábito de gesticular se manifestando ± Claro que aconteceu alguma coisa. embora sua cabeça estivesse em minha direção.

Fernando estava certo.Pára de negar! ± Berrou. e eu recuei o corpo. . eu já disse! . volta pro arranca-rabo. .Nada.Você tá brigando! Você que tá gritando! ± Argumentei. e não passa um dia. . .A gente tá brigando! . as expressões muito sérias e com um ar de gravidade. porra! Já estava pronto para retrucar. . que te deixou desse jeito e eu não sei?! O que você tá me escondendo?! .A gente não tá brigando. ele sabia e sabia principalmente que eu também sabia disso.Por que a gente sempre briga depois que transa? ± Franzi o cenho ± A gente teve um sexo tão gostoso ontem. mas só consegui que suas sobrancelhas se arqueassem mais. Mas logo pareceu se arrepender ao fechar os olhos e levar uma mão aos olhos ± Por favor.Que merda. Guilherme! Eu nunca tinha transado com você daquele jeito. Baixou a cabeça.E eu não estaria gritando se você me falasse a verdade. permaneceu em silêncio por alguns segundos até que finalmente virou os olhos para mim. ficando completamente de frente para mim ± Que eu te fiz. nunca tinha me sentido assim com você! Não tô entendendo o que aconteceu nesse tempo pra você ficar me escondendo coisas! ± Girou o corpo. . pára de mentir pra mim. porém só conseguir arregalar os olhos enquanto as palavras morriam em minha garganta.parando o movimento quando as mãos alcançaram a base do pescoço.

Seus olhos. mas não revidou com qualquer grosseria típica de quando se enervava e passava dos limites.Foi porque fui violento demais com você?! Você não queria daquele jeito?! Ou foi porque a gente fez sem camisinha?! . Via-o me olhar de cima. e estendi a mão espalmada para que Fernando não se levantasse. Recolhi as mãos bronzeadas de cima de suas pernas. e ajoelhei-me aos seus pés. e sim com austeridade. . Não consegui decidir.« Escuta. baixaram-se até suas coxas. azuis de um profundo mar aberto. e o gringo ficou quieto. onde descansaram e assentaram-se abraçadas. sem trégua. Suspirei.Fernando. cansado da troca de argumentos inflamada. Ele esperava por alguma revelação minha. e notei que seus lábios pronunciados estavam levemente crispados. só que em outro momento.Não consegui falar nada. As mãos. Tentei me acalmar. mas correndo o risco de o loiro ficar verdadeiramente magoado comigo. okay? . não com arrogância.Fê. que haviam parado meio ao seu processo de gesticulação. Dei a volta. afinal eu não estava saindo do quarto. encaravam-me fixamente. . pára! Acabei usando um tom muito alto. e meu silêncio só irritava mais ao gringo. apenas fiquei encarando meu namorado em seu sofrimento silencioso com um dilema difícil degladiando-se em meu íntimo: contar a Fernando que eu havia ido ao meu trabalho e encontrado com Flora. Respirei profundamente. Levantei. depois soltei o ar devagar.« ± Tentei começar. mas não eram finos. mas eu decidira que o melhor seria contar ao loiro tudo. Fernando tinha dedos longos e elegantes. não adiantava nada pedir calma a alguém se você mesmo estava irritado. ficando de frente para o gringo. depois voltei meus olhos para meu namorado. segurando-as com as minhas.O que foi?! Foi porque eu te mordi. além de ir à polícia e cooperar com o detetive Abikair. ou continuar escondendo até uma hora mais apropriada. porque te arrombei demais?! .Fê. mas ele continuou falando. . Olhava-me um pouco surpreso.« Vamos falar disso depois. ele ainda me encarava.

não seria a primeira vez! ± Alfinetou. quando? ± Havia um tom repressivo em sua voz. derrubei-o novamente na cama ± Wow! .Não..Por quê? . . Vou te contar tudo.Eu prometo que te conto tudo. mas Fernando não estava alterado.Por que não dá?! . tá? .Bem.Depois.Eu te prometi que ia te contar depois do meu aniversário! Tá achando que eu tô mentindo?! . . mas ele recolheu as mãos das minhas.Depois do meu aniversário.Agora não dá! . inconformado. mas antes de passar por mim. .Porque eu não quero falar! .Ótimo! ± O loiro quis se levantar. ± Insisti. Guilherme! Eu quero saber agora! . me fazendo apertar os olhos.

apesar de nosso inconsciente estar gritando. Nós costumávamos brigar muito. Vi uma das mãos grandes cobrir a face estapeada. foram mais rápidos do que os reflexos de meu raciocínio. Fernando estava nervoso. por favor! ± Quase implorei ± Eu vou te contar tudo. quê que custa esperar?! .Por quê?! Pra dar tempo de você inventar uma boa história e mentir na minha cara de novo?! Não me agüentei. Seus olhos arregalados denunciavam tanto espanto quanto minha mão sobre minha boca. Meus instintos. chutes ou tapas. Eu já estava nervoso. Sentia meu coração bater louco em meu peito. Mas nunca nenhum de nós havia agredido o outro. se saía. nunca havíamos trocados socos. ficando de pé ± Tô falando que vou te falar.Qual a porra do drama de falar agora. eu já havia desferido um tapa de mão aberta em cheio na face esquerda de Fernando. que era pra ser a sinceridade! . cacete! Espera! . a expressão do loiro era dura ± Custa a base do nosso relacionamento. caralho?! . espantado. inflamados por minhas emoções. só espera um pouco até« ..Fernando. E eu havia esbofeteado Fernando. Fernando continuava com o rosto virado para a direita. E foi quando o gringo soltou sua última frase que eu perdi as estribeiras. e antes que pudesse me conter.Custa a minha confiança em você.Fernando. tô falando que vou te contar.Porra. cada vez nossas vozes se exaltavam ainda mais e falávamos coisas que.Ai. me escuta! ± Berrei. a gente acabava se machucando na cama. mas nunca saia da agressão verbal e. e lentamente a . um silêncio mortal havia de apoderado de meu quarto e me fazia escutar o tiquetaquear de meu relógio de pulso. não desejávamos que fosse expresso. a tez bronzeada de seu rosto começava a ficar avermelhada. caralho! ± Recolhi a mão assim que havia percebido o que havia feito. Guilherme! ± Arregalei os olhos. .

as esferas incrivelmente azuis arregalavam-se para mim. o que me fez passar as mãos nos cabelos e segurar minha cabeça. e também desnecessário. não tentei impedi-lo novamente. Primeiro sorriu de nervoso.cabeça virou na minha direção. isso não pode ficar assim«´. e consegui chegar a tempo na sala antes que o gringo saísse de casa. certamente indo para o de visitas. ou se foi você querer continuar mentindo quando eu sabia que você« Ele se deteve. baixando um pouco a cabeça. Segurando a maçaneta. ³Não. não conseguia deixar de me fixar no belo rosto. e eu ficara feliz de saber que Fernando gostara tanto da noite passada quanto eu. parecia penoso demais terminar a frase. mas depois meneou a cabeça em negativa. mas não consegui sair da posição em que estava. Os glóbulos não se fixaram em nenhum lugar. nossos olhos se encontraram. e embora quisesse desviar meus olhos de Fernando. Sentei-me na cama. Senti meu corpo tremer. levantei. como se Fernando estivesse procurando a resposta em algum lugar de seu campo de visão. o loiro saiu de nosso quarto. intensa ± Se foi você ter mentido pra mim. ligeiramente trêmulas. e vi quando lágrimas escorreram. e só depois de um bom tempo o gringo piscou os olhos. As sobrancelhas arqueadas como que em dor. pensei comigo mesmo. Decidido. Quando tirou a mão do rosto. distingui com tristeza as marcas dos meus dedos. os olhos alagados e o rosto vermelho. já que ambos sabíamos como completar aquelas palavras.Fê. gordas e silenciosa. limitei-me a acompanhá-lo com os olhos e. A boca estava semi-aberta. A quietude me dava a sensação de vácuo. eu« Calei-me assim que ele voltou o olhar para mim. Respirava com dificuldade. mas eu mesmo me boicotei« Pus tudo a perder« Acabei piorando a situação. inconsolável.Eu realmente não sei o que dói mais« ± A culpa tomou-me. assim que ele parou ao batente da porta. . Quando se levantou. Como eu pude permitir que aquilo acontecesse?! Nós estávamos tão bem. como que espantando as lágrimas para conseguir enxergar alguma coisa. . O que eu estava fazendo?! O que eu havia feito?! . O loiro desviou os olhos para o lado.Fernando! . de seus olhos.

Cocei a nuca.Só espera um pouco« Só mais um pouquinho« -« Até seu aniversário? . . vi que suas coisas ainda estavam em nossa casa. como que tentando manter a calma. suspirando. tentando ao máximo me convencer de que. ele não precisava ficar para ouvir a resposta. então eu que arcasse com as conseqüências. Massageei minhas têmporas quando sentei na cama do quarto de visitas.É. Fora eu o responsável pela merda toda. Olhei para cima. Fernando e eu não nos falávamos: ele não puxava . Os dias seguintes seguiram-se apáticos. e voltei a olhar para o loiro. Comecei a hiperventilar. Abracei meu corpo. -« Não sei se consigo esperar tanto. Fê« ± Quase suplicava. Afinal. ± Fernando baixou os olhos para os próprios pés. até que o tronco torceu-se e os olhos de um azul impressionante novamente se focalizaram nos meus.Três dias. era uma pergunta retórica. Mas só fui me acalmar mesmo quando. chegando ao quarto de visitas. não sabia se de nervoso ou de ter conseguido que Fernando me ouvisse.Você agüentaria três minutos. Ouvi-o respirar profundamente. Fernando saiu de casa. se Fernando havia parado para me escutar. mas não ousei chorar ou ficar mais abatido. depois os voltou para mim. certamente estaria aberto para uma nova conversa. notava-se que estava cabisbaixo.O loiro parou.Desculpa« -« . engolindo a tristeza. e me apoiei à parede. meio sem jeito. Guilherme. . se eu mentisse pra você? Depois disso. depois sentei com as pernas esticadas. .

já que o meu tinha apenas alguns fragmentos soltos. ou talvez o gringo simplesmente estivesse cansado dos últimos dias. Como não houve reação. . .Eu vou. . ao fim da aula. .No seu aniversário.« Mas tô indo mais porque você parece estar com problemas. afastando-os dos olhos e. mas fiquei na dúvida se seria melhor apenas tocá-lo. pois estava chegando o mais tarde possível.assunto. uma manhã cinzenta indicava que o dia 27 do décimo mês seria chuvoso. e consegui o caderno de Túlio emprestado. que pareciam tão seguros de sua decisão. Ele estava deitado de lado. Tentei não me importar e. quando estava para me levantar. Talvez o despertador não tivesse funcionado. eu notei. reparei que Fernando ainda dormia. Não consegui copiar direito a matéria naquele dia. e sorri de leve. Encaramos-nos por instantes e Fernando virou a cabeça. depois que eu já havia me deitado para dormir. Pensei em chamá-lo. Acordei. voltou-os para mim. depois de esfregá-los um pouco. Encarei por alguns segundos os olhos castanho-esverdeados de Enzo.Guilherme. Passou uma das mãos nos cabelos. Enfim. acariciei a pele exposta e ele finalmente trouxe o corpo. se levantando e indo para o chuveiro. Antes de sair da sala. então toquei seu ombro. Enzo achou meu comportamento estranho. -« Hãm? . mas não ousou perguntar coisa alguma. Enzo tocou-me as costas. e eu não conseguia começar a falar de nada.Valeu.Oi? . ficando de barriga para cima.

Antes de ir para o consultório. e fomos de minha sala até o apartamento em silêncio. depois que eu te contar o que era. . Ele ainda escovava os dentes. Até mais. Fernando bochechava. Fernando já estava à minha porta.. e parou exatamente com a escova no canto direito da boca. Enzo passou por mim e. depois parou de frente para mim. Era uma abertura para que eu pudesse falar.Tchau.Umas oito. . e decidi que estava na hora de quebrar o gelo. não vou esconder nada.Tá.« Eu vou te contar tudo. Aproximeime dele. -« . . segurei sua mão.Tá. passando os dedos para ajeitar os fios loiros. -« ± Voltou a escovar os dentes. Mas eu prometo.Hoje. depois que todos forem embora.Eu sei que você vai ficar puto comigo.Que horas? . Almoçamos em casa. Secou a boca. sete e meia« Apareça quando puder. quando percebi. cuspindo e limpando a escova de dentes. . .

Antes de pensa em qualquer resposta. encarando as esferas de esmeraldas ± Ainda mais num dia como hoje.Era isso. . . Já estava para apertar o botão da campainha quando me perguntei o que estava fazendo lá. . a porta se abriu e deparei-me com o moreno de olhos verdes e barba por fazer. sinceramente ± Acho que é mais uma das muitas vezes que eu fico perdido depois que brigo com ele. se você está perguntando da briga que tive com Thomas.Mas e você? Hoje é seu aniversário. certo? ± Pisquei.. não está nem um pouco animado? . os olhos instigantes pousados de mim. .Como estão as coisas? . achei melhor dizer alguma coisa. acordei e fui ao apartamento ao lado.Não muito bem. Já ao final de meu suco. vi que ele levava a carteira nas mãos. ± Sorri de lado ± Acabei magoando o Fernando.Não muito.Mas alguma coisa você vai fazer. mesmo. eu pensativo com meu suco de laranja e Igor.Não sei« ± Respondi. Desviou-se de mim. Mesmo depois de Fernando deixar o apartamento. fiquei ainda um tempo parado no mesmo lugar. De súbito. ± Colocou o copo na mesa de centro ± O que eu quero saber é o que vai fazer agora? . Comemos um lanche da tarde.Faz o que você quiser. e saiu para trabalhar. Igor me encarou ininterruptamente. Sabia que o moreno queria me perguntar o que estava acontecendo. . e acabei indo com ele à padaria.Isso qualquer um suspeitaria. mas Igor nunca me obrigaria a dizer algo que não queria. .

± Ergui a cabeça para encarálo. ± Arqueou as sobrancelhas. Igor não era muito de demonstrar sentimentos. mas« nada mais animador que isso. Guilherme.Espero que você consiga conversar com ele lá em casa.Tentei. ± Disse. ± Aconcheguei-me ao sofá ± E você? Algum progresso? -« Quase nulo. . suspirando ± Mas ele foge de mim. deixando minha cabeça em seu colo enquanto ele acariciava muito levemente meus cabelos. ± Recostou a cabeça. . eu sei. naquele momento em especial. sabia que os irmãos estimavam muito um ao outro. . ele estava sensível. sentando ao lado de Igor. . pois depois de tanto tempo brigado com o irmão.. . que imediatamente abraçou-me com um dos braços compridos. como se estivesse muito cansado ± Não me recordo de ter ficado tanto tempo brigado com Thomas. Igor estava transparentemente infeliz. Levantei. mas agradeço a oportunidade de ter um assunto para tentar um contato. Você sabe que é desnecessário eu falar isso pra ele. Apesar de não demonstrarem abertamente.Também espero.Chegou a falar de meu aniversário? Não consegui falar com ele esses dias. Qualquer pessoa conseguiria ler suas emoções. mas eu me surpreendi em como.É. Recostei-me em seu corpo. . e por Thomas também. Deixei um bilhete.Honestamente? ± Meneei positivamente a cabeça ± Não muito. Sei que ele não agüenta minha insistência. Fiquei triste por ele. numa expressão única de sofrimento ± Espero desesperadamente para voltar a falar com ele.Mas você tenta falar com ele? . Vez ou outra a gente se cruza.

já havia passado tanto tempo?! Quando menos esperávamos. Arrumar as coisas. fica.Thomas. como os de uma criança perdida. . Olhei o relógio em meu pulso. Ainda segurava a maçaneta quando se petrificou ao ver a mim e a Igor. . por favor«! O olhar do moreno estava baixo. e talvez minha visita tenha feito o moreno mais velho esquecer de que era hora de sair de casa. .Fica. ± Seus olhos estavam tristonhos.Guilherme.Oi. Como nenhum dos dois falou. Guigui« ± Notei que estava um pouco incomodado. .Bom. . Olhei para trás. . eu vou indo. decidi que era hora de ir embora. Espero vocês hoje. Já estava pra sair quando Thomas agarrou meu braço.Hum? . Não queria ficar . heim? -« Oi.Fica. e« . mas ele nada expressava. mais tarde. Fiquei sem jeito.Claro. procurando o rosto de Igor. Thomas irrompeu pela porta. para que pudessem aproveitar a oportunidade e conversarem. além de abatido. ± Assentiu Igor. direcionado para algum ponto entre nossas pernas. eu« Eu preciso ir. Os irmãos estavam evitando-se ao máximo.O barulho de chaves ecoou pelo apartamento. Thomas! Faz tempo.

um pequeno embrulho quadrado preso por um laçarote vermelho. passando a chave. . mas tô guardando o dinheiro pra« .Obrigado. tão verdes quanto os de Igor. encontrei Fernando sentado à mesa da sala.Thomas. Fê. Frente a ele. Qual foi a minha surpresa quando. indo para a cozinha e pegando um copo de água ± Sei lá. . depois me aproximei dele. isso me basta. Fechei a porta.« ± Usei o tom mais compreensível que pude ± Eu não quero ficar me metendo. Os glóbulos oceânicos. . ± Desabafei.Queria ter comprado algo melhor. . me encarando com tamanha intensidade que cheguei a ficar confuso sobre o que o gringo estava de fato sentindo.Boa noite. Apoiei-me no encosto da cadeira. ao abrir a porta.Boa noite. Desculpe. mas também não queria que eles continuassem brigados. Feliz Aniversário. Os olhos verdes. o jeito que eu te tratei« . depois se voltaram para o irmão sentado no sofá. ± Acabei soltando casualmente. que antes repousavam sobre o pequeno quadrado embrulhado. -« . ± Olhei diretamente para ele ± Eu não me importo.Tudo bem. ± Entregou-me a caixinha. Você tá aqui. Vacilei por um momento. mas decidi que era hora de arrumar as coisas para receber os convidados. calmamente direcionaram-se para mim.Tive receio de você não vir.no meio do desentendimento dos irmãos. ± Sorri com o tamanho do presente. Fernando mordeu os lábios inferiores. arregalaram-se brevemente. Deixei a casa de meus vizinhos e voltei para meu apartamento. . ele brincava com as fitas do pequeno presente.

assim como o doutor Rafael. Nada muito pomposo. já que nem sair para fazer estágio eu podia. imaginando onde poderia usar aquelas coisas.Ah. . E eu falei que ia te contar. Fernando veio logo depois.Eu sei disso. . mas além de não sermos muito chegados. e resolvi ir para a varanda me refrescar um pouco. Do bolso. Também telefonei à Flora. Seus braços cruzados denunciavam que o loiro ainda estava chateado comigo. Todavia. o que você tá planejando fazer? Com a ajuda de Fernando. afinal.Eu não esqueci isso. Pensei em chamar Marina. mas a arrumação diferente fez com que houvesse mais espaço para melhor acomodar as pessoas. . e mais. me comprar um presente. tirando a fita e o papel colorido. o qual eu havia telefonado logo depois de conversar com Fernando. é! Desculpe.Né?! ± Aceitei o copo que me foi oferecido. -« Então. Enzo havia confirmado a presença. Por fim.Agora.. me deixou mais relaxado. só falta tomar banho e se arrumar. poderia ser perigoso. mas dá um puta trabalho fazer essas coisas. havia duas abotoaduras prateadas. ela estivera comigo no dia de meu pequeno acidente. . e o tal assassino poderia estar de olho nela. só o fato de ele falar comigo. um copo de mate em suas mãos. . foi fácil fazer de nossa casa um salão de festas. Por mais que não fizessem as pazes. depois que todos fossem embora.Não parece. ± Fernando encostou-se ao parapeito ± Não vai abrir o presente? . Confortadas em uma confortável armação. convidei Túlio quando pedi seu caderno emprestado. eu sabia que os irmãos compareceriam. ± Virei para olhar o gringo apoiado à parede ± Eu ainda quero saber o que fez você mentir pra mim. Sorri. puxei a caixinha. Estava todo suado. que ficou toda empolgada por ser lembrada.

Notando meu olhar. eram de um loiro escuro. Fernando já estava sentado no sofá. Topei o pé numa das cadeiras da sala. Era o doutor Rafael. os convidados começaram a chegar. já que nem banho eu havia tomado. a calça preta deixava suas pernas mais longas.São de prata. Separei minha roupa. as expressões de Fernando amenizaram-se. seria pedir demais para tomarmos banhos juntos depois de um desentendimento. Obrigado. porém sincero.É? ± Sorri para ele. mas não ousei me virar. no banheiro social. impecável: a camisa social azul claro realçava extremamente seus belos olhos azuis. Ouvi Fernando remexer as roupas. olhei para o relógio e vi que precisava me apressar.. e os sapatos negros brilhavam nos pés cruzados. Fernando já estava debaixo do chuveiro. um atrás do outro. . Depois da breve conversa. mechas douradas mesclando-se a outras que. Ele saiu do quarto e eu me permiti girar para sentar e amarrar os tênis. . aproximando-me um pouco ± Espero ter a oportunidade pra usálas.São bonitas. uma calça jeans azul marinho e meus tênis. se o telefone não houvesse tocado. e me decepcionei um pouco. apoiando o rosto numa das mãos. surgiu em seus lábios. e um sorriso fraco. uma camisa de manga curta preta com um pequeno símbolo no peito esquerdo. ainda molhados. -« Você entendeu o que esse presente quis dizer? -« Hãm? O loiro continuaria falando. ainda. mas tudo bem. Ainda me vestia quando senti a fragrância inebriante invadir minhas narinas. ± Observou. Quando cheguei à sala. . Pouco tempo depois. estavam cuidadosamente despenteados. por ainda estarem molhadas. confirmando que viria e se desculpando por ter que aparecer em trajes de trabalho. e me apressei no banho. o que me acordou e fez com que o gringo reparasse que era observado. Os cabelos. já que ele sairia direto do hospital.

Thomas estava conversando com Enzo e Flora. eu« Eu peguei seu endereço lá na imprensa« Não sabia que você estava dando uma festa. Foram quinze segundos de conversa. para a minha surpresa. foi a vez de meus pais. desculpe. e por fim.« Essa é a casa do Guilherme? . tudo bem.Hãm. e Igor também passou por minha porta. e então o telefone tocou.Você chamou mais alguém? ± Falou.Primeiro foi Enzo. que me ligava do sul do país para me dar os parabéns. Alguns segundos.« Eu sabia que a Flora ia te ver.Oi! Hãm. ± Sibilei. enquanto que Igor falava com o doutor Rafael e Fernando. não queria que Fernando percebesse. Flora tocou a campainha. voltando a conversar com meus convidados. mas consegui disfarçar bem. Desliguei. Mas. e esse o tempo de meu pai e minha mãe juntos. Olhei automaticamente para o loiro. eu« Pode entrar.Pois não? . apenas com o movimento dos lábios. mas para seu alívio. . campainha tocou. fomos abrir a porta. nem fiz nenhuma cara. Túlio chegou alguns minutos mais tarde. bem. todos estavam conversando o mais descontraidamente que podiam. junto a mim. . e o doutor Rafael veio logo depois. Uma terceira vez o telefone tocou. .Não. . Não me importei.Marina?! ± Fiz com que Fernando saísse da frente. Era o Dan. Fernando pediu licença e. ninguém. Thomas foi o segundo a chegar. Vez ou outra os trios mudavam e passavam a ser duplas ou quartetos. Também tive que agüentar a Karina. . ele me devolveu o olhar confuso. afinal era o seu aniversário e. arregalando os olhos. Tudo parecia bem. Depois.Não. franziu o cenho e abriu a porta. O gringo olhou pelo olho mágico. . mas a pessoa do outro lado da linha nada respondia. No meio de apresentações. me empurrando para que eu ficasse escondido à vista de quem quer que fosse.

mas Fernando já havia escutado. Comecei a ficar com dor de cabeça. embora sua única reação fora sair de perto assim que ouviu que Marina havia falado. ± Declarou. entregando-me um embrulho macio. ± Debochou ± Mas eu realmente preciso que você complete esses relatórios ou então. . tá! ± Fernando agarrou o braço daquele enjoado de olho puxado. irritado.Desculpa. você sabe que« .Eu lembro de ter falado que era aniversário do Guilherme. e você sabe o que aconteceria se« Oh. e fiquei aliviado de minha colega de estágio não tocar no assunto daquele dia.Tudo bem! ± Me apressei. e Fernando e eu voltamos a nos olhar. e Fernando levantara os olhos dos papéis para me encarar.Tá. Marina me abraçou. . e reparei que tinha umas fichas que você não tinha acabado de completar. Ricardo. ± O loiro estava enfadonho. Quando abriu a porta. a campainha tocou. Percebi uma ponta de impaciência no gringo. Já estava para trancar a porta quando a campainha voltou a soar. mas eu mesmo estava surpreso com os acontecimentos. essa fui eu quem não esperava. Eu . acabei de sair lá do consultório.Fernando. Conversamos um pouco. deparei-me com Ricardo. Nada de strippers. vai sobrar pra mim. uma festinha! Não acredito que você não me chamou! Onde estão os strippers? . levando-o até a mesa da sala.. Igor e Enzo olharam para mim. bufou e apoiou a cabeça na porta. desconfiados.Eu sei que você foi lá um dia desses. O loiro voltou a olhar pelo olho mágico. então. é verdade.Ih. . mas o senhor Colin não« . Novamente.

Voltou o rosto para mim. franzindo o cenho. . ± Disse. pelo olho mágico.não queria acreditar no que estava acontecendo.Boa noite. Batidas na porta. mas não consegui ser mais rápido que as palavras daquele homem. . detetive Abikair. . é? ± O loiro recusou a mão estendida do detetive. .Esse eu não conheço. e tremi levemente. Guilherme. sempre muito sério.Detetive Brenno Abikair. já era tarde demais. mas imprevistos me forçaram a pedir que me acompanhe agora à delegacia para um segundo depoimento. . Um calafrio percorreu a minha espinha.Detetive? ± A voz de Fernando era áspera. ± Estendeu a mão de cobre para cumprimentar Fernando ± Sou responsável pela investigação do caso cujo criminoso feriu Guilherme.Sei que é seu aniversário. em seu tom tipicamente formal ± Desculpe vir sem avisar. agarrei a maçaneta para abrir logo a porta. os olhos em fúria dardejavamme. mirando-me com aqueles olhos profundos que me tragavam para dentro de suas íris arroxeadas.Guilherme. e não parecendo se importar muito com o gringo. .Ah. Quando eu abri a porta. distingui a fisionomia da pessoa que eu menos queria ver naquele momento. sou eu. . mas precisamos novamente de sua colaboração. . O gringo deixou Ricardo e seus papéis para verificar quem era. e me fez apertar os olho e encolher os ombros. Vê se você sabe quem é. Fechei o olho direito e. Lá estava o exótico detetive. ± Falou.

Seu semblante era de fúria. do outro. porque do jeito que as coisas estavam.E eu achando que não dava para piorar« ± Acabei soltando. Afastei-me. Larissa. a campainha tocou. e eu sabia que ele pensava que fosse quem fosse. .³Novamente´?! ± Fernando se alterou. corpo escultural e feições belas. fartos e dourados. porém belo. havia Ricardo. era mais uma coisa que eu havia escondido dele. quase nos chocamos. Cabelos loiros. mais uma vez atrapalhando minha vida ao não desgrudar de meu namorado. O sorriso de lado esboçado na boca de lábios rosados e pronunciados era debochado. e abri a porta. Guilherme?! Apertei os olhos. olhos azuis que chegavam a doer ao se destacarem em sua pele clara.É. E começou meu inferno. ele havia descoberto tudo o que eu estava escondendo.Larissa?! ± Fernando só conseguiu dizer. e olhei pelo olho mágico. parece que a festa tá boa mesmo! Deu pra ouvir sua voz lá do saguão de entrada! Extravagante como sempre. Isso só provou que a ironia do destino pode ser muito mais pesada e cruel do que se imagina. eu poderia justificadamente enlouquecer. Flora e Marina. e a maioria dos convidados voltou-se para nos olhar ± ³Novamente´. Em menos de meia hora. representando o perigo que a imprensa era para mim. membros logos e delgados. pra completar a catástrofe. na certa querendo se fechar um pouco no quarto ou no banheiro. escondendo meu rosto. De um lado. porém bronzeada. a figura que eu menos desejava encontrar naquele momento. só faltava mesmo o senhor Colin aparecer junto com o assassino. . Por que diabos estava ocorrendo tudo aquilo justo naquele momento?! Eu não me importava por ser meu aniversário. E pra completar. Arriscaria dizer que. Ninguém mais conversava. desacreditado. Fernando?! Não consegue ser discreto! . Ainda havia o detetive Abikair. Era alta para uma mulher. Era demais para minha cabeça. Fui mais rápido do que ele. né. . e foi no silêncio que aquela mulher entrou por minha porta. Fernando voltou-se rápido para mim. mas minha situação com Fernando não estava das melhores.. O gringo estava indo em direção ao corredor. a irmã mais velha de Fernando parecia ter descoberto nosso refúgio. mais uma vez. e eu já estava para segui-lo quando. levando uma de minhas mãos às têmporas. Acho que foi muita sorte não ter surtado.

cólera. Era um misto de extrema irritação. Abikair parecia não se importar nem um pouco em estar participando no palco daquela trama dramática que se formava na minha sala de visitas. mas não pude deixar de. mágoa. como também o resto de meu apartamento. Túlio estava perdido. Sentindo-se observado. petrificado demais pela situação. de tão rígido o punho fechado. girar a cabeça para encontrar os olhos de Fernando. pegando-me de súbito. fleumaticamente. na certa roendo umas das unhas pintadas de rosa-choque. dardejavam não só as pessoas à sua frente. . por incrível que pareça. trêmulo. Eu mal podia respirar. Lalá! ± Era a voz de Ricardo.« ± Larissa avançou para mais perto de todos. Marina olhava-a de soslaio. incredulidade. profundos. tão dourados como ouro.Larissa era uma figura luminosa. Seria muito difícil definir em poucas palavras o que as expressões do loiro esboçavam. Não pude me mexer ou falar. As sobrancelhas estavam tão arqueadas no cenho franzido que mal se distinguia o início de uma e o término de outra. que associei ao de Larissa. . ódio. brilhavam como diamante. As mãos estavam brancas. esvoaçavam a cada movimento seu ± Mas eu não esperava mais do que isso vindo de você. Flora levara uma mão à boca. Ricardo apenas esboçava um sorriso triunfante. e o doutor Rafael se esforçava em transmitir normalidade. Os olhos. Os olhos oceânicos. Enzo também foi capaz de capturar a densidade do momento. indignação. para não dizer descarregados. panaquinha. quebrando o gelo do silêncio que se formara desde sua chegada ± Que lixo! Eu não acredito que você trocou nossa casa por esse barraco.Então. as esferas azuis voltaram-se para mim. Os irmãos estavam tensos. mais cortantes do que nunca. é aqui que você tá morando?! ± Exclamou Larissa. não parecia que todos aqueles sentimentos pelo gringo sentidos eram direcionados.De cara é pouco. surpresa e.Eu te falei. compartilhando de sua preocupação. tão azuis quanto os de meu namorado. honey*! . na certa tentando me acalmar. a mim. os cabelos longos e loiros. Estranhamente. mas eu não ousei olhar na cara daquele japonês dos infernos ± Te falei que você ia ficar de cara! .

me tirando do transe e acordando-me para a situação-limite em que se encontrava.Pelo visto. Meu queixo ainda caído. . . . Notei que o detetive Abikair erguera uma das sobrancelhas.Eu tô aqui porque o Paulo quer você em casa agora. pendurada num dos ombros delineados e escondidos pelas fartas mechas loiras. Mas Larissa não pareceu se abalar. já que um tá morto e o outro é meia vara. ± Da bolsa prateada de marca. e ele engoliu em seco. Mas nem precisei me virar e encarar meu namorado para entender o que se passava em sua cabeça. senti que ele queria falar alguma coisa. não sei se podia ou se queria impedi-lo de fazer alguma loucura. tive medo de olhar para o loiro novamente. ouvira a voz de Fernando carregada com tanta ira. e ainda que continuasse mudo. ele fez questão de se manifestar. Larissa puxou um isqueiro e um maço de cigarros ± Meio difícil. seus olhos apertavam-se para o detetive. ³panaquinha´ era o apelido carinhoso que a irmã de Fernando dera ao caçula. os olhos pequenos se arregalaram.Que diabos você tá fazendo na minha casa?! ± Nunca. Percebi movimentos atrás de mim. Estava quase irreconhecível ± E que merda você tinha na cabeça quando inventou de dar o endereço daqui pra ela?! Consegui ver Ricardo desfazer o sorriso.Você não vai fumar na minha casa! ± Esbravejou o loiro. Parece que um casal amigo dele vai jantar lá em casa e quer conhecer o filho varão da família. né? . e vi Flora segurar Marina perto de si. com tanto ódio. em todo o tempo que estivemos juntos.

Eu não volto praquele lugar. voltando a guardar seus pertences. eu soubesse que esse fosse um feito que já atravessara até as barreiras do impossível. que drama! ± Larissa ergueu as mãos enquanto revirava os olhos. não vou violar a santidade do seu chiqueirinho! . enquanto eu me virava para o loiro com o olhar quase suplicante. no mínimo. a irmã do gringo sustentou um olhar impaciente.Larissa. Larissa parecia fazer pouco de toda e qualquer reação do gringo. Fernando tombou a cabeça para o lado. muito embora. como se fosse difícil para ela que alguém tivesse esquecido quem ela era. muito pelo contrário.Nossa. o cotovelo do outro apoiado ao primeiro ± Agora. abrindo um pouco a boca em anuência. Levantou as sobrancelhas. não é? Os olhos azuis e cortantes direcionaram-se para mim. . .. apoiando uma das mãos na esguia cintura ± Não precisa repetir. Tive que obrigar-me a sair do torpor que me havia acometido para que conseguisse. Estalando os dedos. Era estranho ver alguém que não se intimidava com Fernando.Não é isso que o Paulo falou. ± Abraçou a cintura estreita com um dos braços. e foi com esse movimento que eu finalmente comecei a me mover. já deixei isso bem claro da última vez que tive lá! . vamo logo que eu já tô cansada de ficar bancando de babá o tempo todo pra um mané feito você. suavizar a situação. porque.

meus lábios crispados e os olhos duros. depois virei para o indivíduo inconveniente próximo à mesa de jantar. Respirei profundamente. Avancei em sua direção. mas ninguém acreditou muito. e apesar do esforço que expressava. já falo com o senhor. para que os demais não vissem que eu o havia agarrado pelo cotovelo. me desculpando e pedindo para que continuassem a aproveitar a festa. Fiquei próximo a ele. .Me dê um minuto. e eu me senti atraído por seu cavalheirismo notável.Fernando.O que acha que está fazendo? ± Desafiou-me. Larissa seguiu o irmão. Girei em meus calcanhares. Ele assentiu com graça. Um problema temporariamente resolvido. leva sua irmã pro quarto de hóspedes e converse com ela lá. Mas eu não estava no humor. chegando perto o suficiente para que o detetive Abikair ouvisse meus sussurros. ..Você vem comigo. . . ± Notei que Fernando estava pronto para soltar sua indignação sobre mim com todas as descobertas. Virei-me para meus convidados. como eu esperava que fosse. ± Disse apenas. mas sustentei o olhar firme para ele ± Por favor. Tentei tranqüilizá-los com um sorriso forçado. -« Vem.

seja como for.Lá pra fora. Fiquei encarando-o por algum tempo aquela figura deplorável. .Você não sabe do que tá falando. eu tô falando sério. Se posso ser sincero com você em algum ponto. . dissoluto. ± Sorriu.Bom.Não. fechando a porta atrás de mim. Você acha que me afeta com essas coisas. fazer dele o meu saco de pancadas pessoal.. . ± Cruzei os braços. cansado demais e pronto para despejar nele toda e qualquer frustração. é dizendo que Fernando não tá te agüentando mais. minha paciência parecia ter ressurgido das cinzas. apoiando-me na porta de minha casa.Não sei do que você tá falando. olhando-me com antipatia.Qual o seu problema? ± Acabei soltando. Guiei Ricardo sem jeito nenhum para o corredor.Qual o meu problema? Qual é o seu?! . Ele se desvinculou de mim. . Agora. quem vai acabar sozinho no fim das contas é você. mas você acaba é atingindo o Fernando. depois de um suspiro. Massageei brevemente as têmporas. ± Desconversou. . não eu. . debochado. Felizmente.

. mas eu tinha problemas maiores para resolver além de trocar desavenças com Ricardo. Se precisar.Claro. não é desse jeito que você vai conseguir alguma coisa. ± Ergui meus olhos.Flora. . . Mas me ligue. quando puder. Guilherme. Cruzei a sala de visitas.Não é preciso ser psicólogo pra reconhecer um doente quando se vê um. Ele ficou quieto. desculpe por isso. e aproximei minha boca ao ouvido de Flora. é?! ± Perturbou.Agora. ± Murmurei em resposta. . me olhando com fúria. virou conselheiro amoroso. riscando um pepino da lista e partindo para outro. Eu apenas ergui uma sobrancelha.Não se preocupe.Olha. já partindo para perto de Túlio enquanto Flora se despedia dos demais carregando Marina. mas se importa de«? ± Não precisei de mais uma palavra. Se não quer ficar sozinho. Entrei para casa.. olhando-o de cima ± Só sei que essa sua carência não vai ser suprida do jeito que você tá querendo. . eu não sei o que você e Fernando tiveram no passado. . e tô pouco me fudendo também.

à porta. . Igor fez o favor de tomar decisões por mim. soltando-o vagarosamente. O doutor Rafael estava entre eles e assim que fiquei próximo o suficiente. Tombei a cabeça ao ver o médico direcionando-se ao apartamento de meus vizinhos. ± Antecipou o irmão mais velho ± Dá pra notar a situação delicada em que você se encontra.. Thomas deu um passo à frente. diria até que nem estavam dentro de casa.Estamos indo para casa. Cheguei perto dele. um olhar significativo. no momento. Ergui a cabeça. Ficamos assim por alguns segundos. Puxei profundamente o ar para dentro de meus pulmões. mas não era hora de ficar encucado com aquilo. . mas não sem esse último lançar para mim. Guilherme. ± Respondi. Se não soubesse. Ele e Enzo partiram. próximo à porta da sala. o detetive ainda estava em sua posição inicial. e finalmente me voltei para o detetive Abikair. Seus olhos pareciam querer me passar forças. até que os irmãos iam saindo para o apartamento ao lado com o doutor Rafael entre eles. segurando-me pelos braços. ansiosos e desconfortáveis com a presença um do outro. com sinceridade. Igor e Thomas esperavam por minhas palavras.Não precisa nem falar. ele apenas me observava. e achei estranho que Fernando fizesse tão pouco estardalhaço ao discutir com Larissa.Agradeço a compreensão de vocês. Girei o corpo. Guilherme. mas eu não fui capaz de absorvê-las. . Só percebi o silêncio pesadamente anormal depois que todos os outros convidados haviam deixado minha casa. despreocupado. ± Comentou meu colega de sala. caminhando para a entrada da varanda.

Detetive. essa noite já estava fadada. apesar do vento cortar meu rosto e fazer com que meus cabelos dançassem ao seu bel prazer. sem querer sentindo a fragrância natural do detetive. .Acho que não cheguei no melhor dos momentos.. evidenciando ainda mais a pupila negra meio a aquarela arroxeada que era seu olho. ± Chamei por sobre o ombro. Cheiro de amêndoas. . refratava em sua íris. abrindo-os novamente e finalmente me virando para o detetive. fechando os olhos. agora que o céu estava limpo. . ± Deu de ombros. apoiando os braços no parapeito e ficando de costas para o apartamento como eu fizera.Infelizmente. ± Só pude dizer.Não pude esperar até amanhã. com sinceridade. A noite estava fresca e. Ele me fitava. suas expressões levemente curiosas. ± Voltou os olhos para mim. . e estávamos sozinhos novamente. ainda sentindo seus olhos em mim ± Com ou sem você aqui. Ele se aproximou de mim. Automaticamente. ± Concordei. E respirei muito profundamente. Apertei os olhos. Ouvi que o detetive fechar a porta de correr atrás de si. silencioso e penetrante.Não esquenta. Desculpe pelo transtorno. A luz da lua. as esferas roxas voltando-se para a noite lá fora. o homem da pele de cobre me seguiu. o ar estava úmido. .

tão furiosa quanto o irmão. suas feições esboçando ira como eu nunca havia visto antes. A pele. . sua voz grossa e potente era ainda mais sedutora. cada elemento de suas feições evidenciado pelo conjunto de luzes e sombras proporcionados naquela posição diante de uma noite escura iluminada por uma lua quase cheia. Abikair. Repassamos algumas coisas. Revirei os olhos para mim mesmo. o detetive venceu a distância existente entre nós. Fiquei agradecido por isso. Fiquei um pouco atordoado com aquela visão. Abikair me fez uma série de perguntas.Por favor. que parecia ter perdido toda a compostura. Só então. esquecendo brevemente que Fernando estava com a irmã no quarto de hóspedes e de como articular palavras. me odiando por conseguir notar tudo aquilo na situação em que estava. apesar de inteligíveis de onde eu estava. respondendo tudo o que o detetive me perguntava. Com um passo. Agora que murmurava. muito morena. ± Cortei. . não. o seguia. os cotovelos esfriando por se apoiarem no parapeito da varanda. Podemos conversar aqui. Gritos furiosos ecoavam pelo ambiente. as esferas ainda mais expressivas. e o silêncio voltou a reinar. Escondi meu rosto em minhas mãos. Os dois saíram de casa. e notei que ele se absteve de puxar de seu bolso interno o pequeno bloquinho e a caneta que eram demarcados em seu peito esquerdo. virei meu corpo inteiro para o detetive. Larissa. colando nossos braços. à luz do luar.. podemos ir à delegacia« . interrompendo-nos apenas com um estrondo vindo de dentro do apartamento.Não tem problema. Fernando atravessava a sala de visitas.Se preferir. tinha sua beleza exótica ainda mais evidenciada. parecia reluzir como seda ou cetim.

erguendo levemente as sobrancelhas ± ³Detetive´ dá muita bandeira. Novamente. . sabia que depois a conversa com ele ia pegar fogo. . Quem poderia ser? Já estava para atender quando a mão grande e espalmada de Abikair me deteve. Olhei para ele.Definitivamente. Eu já estava exausto demais para me desgastar com apreensão por antecedência. não consegui nem responder nem me mover. . detetive. Abri a boca. não era uma boa ocasião.Fiquei sem palavras e.Já disse para não se preocupar. ± Pediu. apesar de ter a impressão de que o detetive Abikair chamava por meu nome.Me chame de ³Brenno´. encontrando os olhos preocupados do detetive. Se preferir. ³Abikair´. Ouvi batidas na porta. me alertando. confuso.Vamos entrar. até que senti o toque em meu ombro. . Concordei com leves movimentos. Virei o pescoço. Consegui deixar Fernando de lado. e notei sua . o detetive me acompanhou e aceitou o copo de água que ofereci. ± Balancei a cabeça. O que havia acontecido? O que eu fizera. cansado. olhando-me fulminantemente. jogando a cabeça para trás. mas não consegui dizer nada e me limitei a suspirar. para que tudo mudasse de uma noite presumivelmente agradável e sem muitas surpresas para uma circunstância excessivamente catastrófica? Por alguns segundos ainda fiquei perdido em meus pensamentos. Fechei os olhos. em tão pouco tempo. ± Declarou o moreno.

Desculpe interromper. . apoiando-me ao batente da porta da cozinha ± Esse é um de meus vizinhos. . ele não percebera. um pouco sem jeito ± Acho que me preocupei à toa. Parecia temeroso de ter sido seguido. . Igor. em tom de desculpa. Implorei para que ele não tivesse percebido como ele havia acordado e enrijecido subitamente. Abikair afastou-se o suficiente para abrir a porta e Igor entrar. Desencostando-se de mim. pensamos que« ± Deu de ombros. além da fisionomia.Eu agradeço. era ele quem iria checar. Mas não tem muito que vocês possam fazer por mim. ± Assimilou. Por sorte. Fosse que fosse.Precisa de alguma coisa? Ouvimos Fernando sair. ± Declarei. Abikair. . ± Disse.Certo. parecendo memorizar. Com uma rápida olhada. .Não está interrompendo nada. o nome e os dados de Igor. e meu vizinho aproximou-se vagarosamente de mim. apenas com aquele toque. . mais precisamente sobre um de meus mamilos. Igor só pôde sorrir. Mas o pior era que sua mão estava exatamente sobre meu peito. o detetive aproximou-se do olho mágico. Os morenos trocaram um olhar que me pareceu ligeiramente cúmplice. agora.preocupação. uma mão próxima ao flanco onde eu julgava estar uma arma.

Ele depositou cada mão em um ombro meu.. Além disso. na mesma hora. podia sentir facilmente sua respiração quente e compassada e ver cada nuance da cor de seus olhos verdes e vivos. não podia fazer muito por eles. um tanto humorados. depois me beijou a testa. segurando-me por alguns instantes. mas suspirou e olhou para além do corredor. Entretanto. Sem subterfúgios.Acho que complexado atrai complexado. Não gostei de ouvir aquilo de Igor. O moreno sorriu. Meu meio sorriso fez com que os olhos de Igor baixassem. ± Igor ergueu as sobrancelhas. a situação não me permitia muita liberdade para tentar ajudar outros com seus problemas. levemente dando de ombros ± Mas não sei o que fazer. O rosto de Igor estava a centímetros do meu.Receio que tirei proveito de toda a situação. aproximando-me da porta de meu apartamento enquanto automaticamente o detetive Abikair se afastava para o centro da sala. Principalmente de Igor. O moreno me encarava com as esmeraldas enigmáticas. Ainda que acostumado com sua proximidade. Franzi o cenho. um pouco incomodado. meu vizinho voltando a erguer o tronco. . Passei os dedos nos cabelos. coçando a nuca. e Igor pareceu entender meus receios.Acabou que estamos obrigatoriamente juntos no mesmo lugar. Lancei um olhar rápido para o detetive recostado a uma das paredes da sala. nem desculpas. Aproveitei a oportunidade e perguntei o porquê de o doutor Rafael ter acompanhado-os ao apartamento. já seria intromissão ao extremo. Esperei que ele falasse alguma coisa. . não pude deixar de sentir minhas bochechas esquentando. . Bufou. tirando-os de minha fronte. um sorriso discreto nos lábios bem definidos.

minhas sinapses se faziam com mais rapidez do que eu podia esperar. o que não era nada usual de Igor. Caminhei até o detetive.Eu sei. e apesar da falsa aparência letárgica. mantendo a outra dobrada para apoiar um dos cotovelos.Eu vou indo. ao mesmo tempo contido por a etiqueta condenar os curiosos aos assuntos alheios. você sabe. Com um último sorriso.. Acho que é assim que se sente quando se fala em ³banho de água fria´. Eu sempre corro pra lá. O espaço entre meu peito e o braço dele era ínfimo. optei por escorar as costas na parede e escorregar até o chão. Continuei com uma mão à maçaneta e a outra espalmada na folha de madeira por algum tempo. e fui prudente em desviar os olhos do corpo do detetive para a luminária da cozinha. . ± Estancou por alguns segundos ± O que você precisar. Fiquei um pouco perdido em mim mesmo. aproximando-me dele mais do que normalmente faria. finalmente saindo de minha posição anormal e voltando ao mundo real. ele permaneceu agachado sobre as pernas dobradas. mas em vez de sentar. o moreno deu as costas pra mim e entrou em seu próprio apartamento antes que a porta de minha casa escondesse o corredor. -« Que bom. Oportunidade de ouro. Igor. Minha mente estava levemente estuporada. Abikair me olhava curioso. Fiquei surpreso quando notei o detetive repetindo minhas ações. A calça social marcava bem os músculos largos e destacados de suas coxas grossas. uma hora ou outra. .« Estamos aqui ao lado. Estiquei uma das pernas. e embora uma vontade louca de recostar-me àquela pele brilhante e aparentemente quente começasse a me tomar.

.Sinto muito por estragar seu dia. Não quero ser um estorvo. Agora que me demorava mais no rosto do detetive. percebia que ele estava com expressões diferentes das outras que eu já havia visto. descobrindo que ele também me encarava. de todos os problemas que eu já tenho.Não me chame de detetive. detetive. . a presença do senhor aqui é o menor. também. . . Sua voz saíra mais delicada que o usual. .Não me chame de ³senhor´. essa noite já estava fadada. .Acredite. -« Acho que já tenho o suficiente por hoje. ± Sorri com o comentário de Abikair. ± Manifestou-se o detetive. Voltei meus olhos para os de Abikair.Desculpe.Como eu disse antes. Fiquei preso pelo magnetismo de suas íris arroxeadas de tão azuis. senhor Abikair. ± Novamente deixei que meus lábios se alargassem. depois de longos minutos de silêncio. sem nem conseguir piscar. . Um misto de compaixão.

Peguei-me imaginando o que Abikair queria precisamente me dizer com suas expressões. e ao mesmo tempo agradável. como alguém que fecha os olhos e . Era estranho. A sensação que eu tinha era a de relaxar facilmente. que essas exatas emoções fossem a mim direcionadas pelo detetive. .Pode não parecer. e eu tive que acompanhar seu gesto. a inusitada proximidade que mantínhamos um do outro. Concordo com a estratégia.compreensão e pesar transbordava facilmente de seu semblante bronzeado. E era incomum. mas eu não gosto de misturar meus pepinos.É. . apoiando-se mais à parede. .Malditas bolas de neve. Mas ele desviou os olhos dos meus.« Malditas« . para não dizer estranho.Certo. ± Foi a vez dele de sorrir fracamente com o comentário. . é o mais certo a se fazer.Eu não percebi se o senhor« ± Notei seu olhar e corrigi rapidamente minha falha ± Se você ligou pra cá ou pro meu celular. refletindo suas reais emoções.Acha que amanhã poderá comparecer à delegacia? . Abikair deixou que a coluna se desenrolasse.

nem a primeira que eu havia visto em ação. e flanqueando a sala de visitas. uma quietude mórbida que me agonizaria muito menos se não tomasse a tensão que o homem ao meu lado exalava pelo ambiente. quando ainda morava com meu pai. tomando cuidado. Novamente um barulho. O detetive havia tomado mais fôlego para continuar sua fala. e com ela veio uma Desert Eagle .deixa-se guiar cegamente por outrem para atravessar uma rodovia movimentada. bem« Abikair aparentava em suas feições exóticas extrema frieza. escorei-me à parede. o suor frio parecia se formar promiscuamente em minhas têmporas. Com os olhos ainda voltados para cima. uma pistola grafite com o punho negro e. talvez não o tivéssemos percebido. engolir me parecia ser um tremendo esforço.44 Magnum. com o pente completo com suas 8 balas. e sido desconsiderada por um conjunto de fatores que eu particularmente não conseguia enxergar. O silêncio reinou novamente. A mão foi ao flanco novamente. mas eu só conseguia pensar em como os nós dos meus dedos estavam brancos de tanta força com que fechava meus punhos. e andando devagar para não provocar suspeitas. porém. Não era a primeira arma que eu havia visto na vida. prevendo que eu estava prestes a levantar. Comecei a sentir o pulsar incômodo em meu pescoço. Em seu caminho. ele me ensinara a manejar o 38.Não. Minha garganta ficou seca. Mas devia ter feito isso. não cheguei a ligar. Voltando as aquarelas para mim. Olhou profundamente em meus olhos. Abikair apontou a cozinha. o detetive esgueirou-se até ficar ao lado da porta. para que sua sombra sob a luz da sala não o denunciasse. Abikair foi se aproximando da porta de entrada. certamente. Não foi difícil identificar a origem dos estranhos sons como vindas do corredor além da folha de madeira escura. . ± Baixou a cabeça. tranqüilidade ou hormônios sexuais. dessa vez mais baixo. e no cativeiro de Henrique Sardenberg. ainda conseguia ver o . fitando os próprios pés ± Acabei me deixando levar num rompante. e eu entendi que deveria ficar onde estava. Alerta. em minhas mãos. ainda que você não atendesse. Pensei que seria melhor termos continuado a conversar. Devagar. Como a abertura na parede era larga. Abikair postou uma mão em meu ombro. Não sei ao certo se o que o detetive exalava era segurança. Se não estivéssemos em silêncio. puxou ar para responder. mas um barulho chamou nossa atenção. ao que me pareceu. dardejou toda e qualquer entrada de ventilação que meu apartamento possuía nos cômodos que seu raio de visão lhe permitia verificar. mas acredito que tal idéia já teria passado pela mente do detetive. Como um felino.

ou se fora apenas força do hábito do detetive. A pistola ainda em sua mão esquerda. e então a colisão de corpos. Qual foi minha surpresa quando. Abikair respirava mais rapidamente do que jamais havia notado. . e rezava pela segunda opção. e antes que pudesse me refrear. algo se chocou contra minha porta. levando uma mão à boca para contar qualquer reação de surpresa antes que ela realmente se manifestasse. Tocou as costas na aresta atrás de si. Entretanto. e mesmo naquela situação. o corpo de bronze foi se descolando do meu. não via a vida inteira passar pelos olhos. encontrei o detetive ao meu lado. e eu sabia que meu peito não estava muito diferente. Passos. compreendendo todo o significado que aqueles ruídos poderiam representar para mim: ³Acho que ele me seguiu´. Soltei a cabeça. o rosto tão próximo de mim que podia sentir seu cheiro de amêndoas. na tentativa tola e frustrada de me proteger da eminente explosão. Habituado ao trabalho. pronto para ter sua integridade física maculada. que me despia e bambeava os joelhos. o detetive não se moveu um milímetro sequer. Nada mais. e uma sensação de torpor enjoativo me tomou.detetive agir. Seu cenho franzido e os olhos inquietos denunciavam a vontade de pensar rápido. Arregalei os olhos quando notei o rosto de Abikair voltado para mim. Mas só o que ouvíamos era o som entrecortado de nossas próprias respirações. já levara as mãos à cabeça. Ele me lançava um olhar penetrante e urgente. Aos poucos. Sentia o cheiro da pele do moreno sobre mim adentrar minhas narinas sem dó. como quem quer que estivesse lá fora pretendesse denunciar sua presença. E então. Piscou de leve. me perguntando se minhas suspeitas estavam certas. Todo o sangue de meu corpo pareceu se concentra em minhas víceras. pensando em como os segundos se arrastavam nas horas mais críticas e se era só eu quem. na qual eu me sentia estranhamente o local da briga. era só isso que acontecia. envolvendo-me com seus braços e escondendo-me sob si. muito embora ser fácil de notar que sua atenção estava em algo mais. ao abrir os olhos. só consegui pensar em como era tentador beijar a pele bronzeada de seu pescoço parcialmente desprotegido. Gelei ao ler seus lábios. Explosão essa que não chegou. e sibilou algumas palavras. ao morrer. Enquanto batia a cabeça no chão frio da cozinha. pensei. Uma brincadeira de gato e rato. Fechei os olhos. Fiquei esperando. como que processando alguma coisa. O som de passos começou a ecoar pelo corredor. ansioso e temeroso por ele. Os glóbulos azulões do detetive dardejavam para todos os cantos nos raros intervalos que me arriscava a abrir os meus. o corpo grande e pertubadoramente quente de Abikair deitava-se sobre o meu. ³Uma bomba´. ainda mantendo-me deitado ao chão com uma das mãos morenas espalmada em meu abdômen. Abikair continuou com os olhos em mim. ao passo que eu pulei no lugar.

sussurrou ao pé de meu ouvido. Fitava Abikair com gravidade. e meus olhos pousaram nos imãs da geladeira. . mas eu provavelmente o havia deixado em meu quarto. embora eu fizesse força para respirar. assustado. Onde Fernando estava?! O loiro havia saído com a irmã. deitado. cada vez mais nervoso. me deixando ainda mais sensível ao seu cheiro ± Não saia daqui até eu vir te buscar. o que me fez fechar os olhos e entreabrir meus lábios. de barriga para cima. arregalando os olhos. Sem promessas ou garantias. o sangue ainda concentrado no centro de meu corpo.Fique aqui. Senti sua respiração quente e acelerada tocar minha bochecha. não consegui puxar ar algum quando foquei o pequeno Gato Félix e sua maleta amarela feitos de massa de modelar. O silêncio me assustava. o detetive Abikair ficou agachado e foi para a sala de visitas.Fernando«! ± Murmurei. um leve tremor atravessando a espinha. Eu já volto. mas nada havia garantido que estava fora do prédio! Ele poderia muito bem tê-la apenas acompanhado até o carro e já estava no caminho de volta! E se houvesse acontecido alguma coisa com ele?! E se ele estava ferido. Fernando! . pois nem os movimentos de Abikair eu conseguia ouvir. esperando alguma informação dele que pudesse me apaziguar e me tirar daquela tensão que não me abandonava com o pesado silêncio que reinava em meu apartamento. sumindo do meu campo de visão. O número de Larissa. Permaneci como estava. eriçando meus pêlos da nuca aos pés e. Fernando. E. O detetive baixou a cabeça. ou sendo ameaçado?! Poderia ter sido seqüestrado?! E se tivesse sido pego como refém?! Não havia preço no mundo que eu pudesse trocar pela vida de meu namorado! Apalpei os bolsos. e deitado. Tentei me distrair com alguma coisa da cozinha. aproximando seu rosto do meu muito rapidamente. à procura de meu celular. E. e meus olhos não paravam em nenhum ponto fixo.minhas mãos parcialmente suspensas por não saber onde colocá-las. Sentia que suava frio. de qualquer maneira. ± Ele suspirou. as mãos agora se assentando sobre meu peito. Comecei a hiperventilar. piscando muito e sentindo a garganta arranhar cada vez mais doloridamente. Engolia em seco. Não conseguia piscar. . Fernando ainda não possuía celular. nem preciso falar que eu não tinha. frenético. com a voz mais rouca e grave que o normal.

e com movimentos pouco lentos fiquei de pé. não«! Meus vizinhos! Como estariam Igor e Thomas?! Teriam sido eles afetados?! E se a bomba não pareceu surtir efeito porque. decidido a me levantar. sentido algo que denunciasse algum efeito.. Fechando o flip do celular com um dedo. trazendo-me de volta para o centro da sala. e seus olhos. . .Eu preciso encontrar o Fernando. ± Já o meu tom era urgente. E eu me sentia cada vez mais agoniado com os segundos preciosos que se passavam diante de minha imobilidade. O detetive levara o telefone ao ouvido quando me aproximei dele. mas sua mão havia se fechado de tal maneira em meu pulso que eu não conseguia me desfazer de seu agarrão. o moreno exótico permitiu-se direcionar toda a sua atenção para mim. me encararam com censura. não! Não. Guilherme. Meneei negativamente a cabeça enquanto ele ditava alguns comandos à pessoa do outro lado da linha.Ah. Tentei me mover novamente. Apoiei-me nos antebraços. Mordi os lábios. E o doutor Rafael também estava lá! O que seria da pequena e meiga garotinha ruiva e mirrada com os olhos da mãe. primeiro sobressaltados.Você está dificultando o meu trabalho aqui. um tom levemente impaciente em sua voz grave. eu sentia a extrema necessidade de saber como e onde meu namorado estava. nervoso. na verdade. ± Declarou. as palavras de Abikair fluíam com certa irritação de seus lábios tentadores. sua testa se vincando com minha desobediência. Já estava para abrir a porta quando sua mão livre agarrou com força meu punho. explodira em outro apartamento?! Seria possível?! Não. um dedo apontando para a cozinha. . nós teríamos que ter ouvido alguma coisa. que morava na Austrália?! Isso não podia estar acontecendo! Isso não podia acontecer! Não por minha causa! Eu não queria nem pensar que alguém havia se machucado por minha única e exclusiva responsabilidade.

juntando minhas sobrancelhas. Era engraçado pensar que o detetive estaria mandando algum torpedo para um de seus colegas. Ainda estava colocando o copo na pia da cozinha quando mais uma vez senti meu corpo ser lançado . Thomas e o doutor Rafael? Alguma coisa no modo como ele sustentava o olhar me fez dar de ombros e jogar a cabeça para trás. Analisando-me com olhos críticos. ao ponto de bambear minhas pernas e me fazer suspirar.Seus vizinhos também estão bem. Não posso mentir que o alívio que senti me renovou. Ouvi-o tomar ar. um pouco confuso. um tanto baixos. tomaram parte de minha atenção. me sentindo mais tranqüilo.Tem alguém no corredor? ± Lancei a pergunta. Sons eletrônicos.Não.. talvez por notar que minha preocupação iminente havia acabado de desaparecer.Tenho certeza de que ele está bem. minha garganta doía com os arranhões de tão seca. Levei uma mão à testa. Depois de tudo aquilo. . ainda que um pouco inquieto pela prévia situação. Como ele poderia ter tanta certeza de que estava tudo bem com Igor. me questionando se fora algum dos homens de Abikair quem fizera aqueles barulhos. O apertão em meu pulso afrouxou. Ainda está discutindo com a irmã frente ao prédio. . . o detetive pareceu menos tenso. por um momento. e pude me mover até a cozinha e pegar um copo de água para mim. ± Balançou o celular algumas vezes ± Não estamos sozinhos. não me pareceu absurdo confiar nas palavras dele. Franzi o cenho.

pois eu tinha certeza que não conseguiria suportar que outros passassem pelo que acontecera. No fundo de minha consciência. e a reação automática foi abraçar o corpo sobre mim. madeira e gesso na boca. Abikair não fizera mau julgamento. De súbito.«! Foi a última coisa que eu consegui escutar. fazendo com que o ar ficasse turvo e visível à luz da noite. minha visão ainda funcionava. ao que tudo indicava ele. enquanto eu preservava-me petrificado. voltei minha atenção para o cenário que se formava para além do detetive. supersensíveis. de fato. embora eu conseguisse ver Abikair mover seus lábios. Meu ombro bateu doidamente. Tive receios de abrir os olhos ou de parar de agarrar-me a Abikair. Por alguma razão. Mas dessa vez não consegui sentir o doce cheiro de amêndoas que despregava dele. avassaladoramente.Guilherme. o cheiro de demolição. Minúsculas partículas de pó dançavam lentamente sobre meus olhos. as lâmpadas da sala. Vi-o passar os braços em volta de mim e trazer-me para perto de seu próprio corpo. Felizmente. os sons de estilhaços ainda em queda e minhas mãos fincando-se nas costas do corpo que me protegia. E só depois de perceber isso. Estranho. Primeiro aquela surdez incômoda. havia sido seguido. Sabia que o torpor que estava sentindo logo passaria. agora a falta de olfato. os olhos espremidos de tão fechados. E quem quer que estivesse espreitando havia esperado pela melhor hora para fazer seu movimento. Senti o gosto de poeira. A consciência de mim mesmo e da mudança no ambiente se arrastava por mim. tentando pegar o detetive com a guarda baixa. todos os meus sentidos voltaram. um zumbido estranho e contínuo tomou meus sentidos e. . Um tremor tomou conta de minhas mãos. Pereceu-me uma eternidade até que minhas sinapses nervosas fossem concluídas e eu pude entender o que ocorrera em meu apartamento. e minha reação automática foi praguejar enquanto levava uma mão ao local dolorido. seus olhos estavam desesperados como eu nunca havia visto. . da cozinha e da varanda não mais iluminavam os respectivos cômodos. Depois. Escondi minha cabeça naquele peito largo e quente.ao chão sem meu consentimento. e minha atenção voltar-se-ia para os danos produzidos. latejando pela pancada. tudo ficou silencioso. apenas um pensamento de alívio: ainda bem que não havia mais pessoas em minha casa.

Um estalo me fez abrir os olhos. Apoiei meu tronco na baixa divisão entre a área e a cozinha. Suspirei ruidosamente ao acabar de puxar suas pernas. O nervoso me fazia tremer. puxei a nós dois para a pequena área além da cozinha. E eu morreria do mesmo jeito: com um buraco de grosso calibre bem aberto em minha nuca. Minhas pernas estavam ainda no ritmo do torpor anterior e não queriam se mover. O resfolego intensificava-se a cada momento. e meu corpo resolveu voltar a se mexer. Mesmo se Ricardo e Larissa estivessem em meu apartamento. e um chiado acompanhava cada invasão de ar nos pulmões colados em meu corpo. e levantei a cabeça para mirar Abikair. passando os braços por baixo dos seus. Meneei a cabeça negativamente.não conseguiria me perdoar se algo acontecesse aos meus amigos e colegas. Senti o ombro alvejado latejar doloridamente. Minhas mãos ainda se vincavam as costas do detetive. Vi-o balançar a cabeça e. O choque do detetive com o chão da cozinha produziu um baque maciço. mas mordi os lábios para conter o urro de dor que por pouco não escapou. Levei um choque. espremendo os olhos com a força e a dor por mim desprendidas para arrastar o corpo inerte do detetive. O pavimento da cozinha era do tipo perfeito para enganar a sujeira. Um filete rubro e rutilante riscara o rosto de bronze polido. os cabelos escuros esbranquiçados por uma fina camada de poeira. . mas não me preocupei com isso na hora. e olhei para o caminho por mim feito. Os sons foram se apassivando. e o puxei para cima de meu próprio corpo. O que fazer. mas nem isso impediu de se notar perceptivelmente a trilha que deixamos. fechando novamente os olhos. exatamente como devia ter acontecido a Henrique Sardenberg. e me parecia que a qualquer momento alguém me surpreenderia com algum impacto. acabamos por limpar o pó que havia se assentado por todo o lugar. e a atmosfera de estrago pareceu tranqüilizar-se numa mórbida serenidade. quando menos pude esperar. e meus olhos continuavam cerrados como se minha vida dependesse da privação de constatação do dano em minha casa feito. levantando levemente as partículas de demolição assentadas no piso do cômodo. o que fazer?! Não havia armas em casa. precisava chegar até o pequeno banheiro ao lado do tanque e nos esconder. e não conseguiria pegar qualquer faca ou cutelo sem despertar um quarteirão inteiro. Um suspiro chamou minha atenção. Com o braço bom. seu corpo tombou ao meu lado. o desespero a poucos segundos de me tomar por inteiro. Agarrei Abikair pela cintura. mesmo assim« Eu me sentiria culpado. Uma emboscada.

³Ele vai me achar.Pode falar. ainda incomunicável. nessas horas. ele vai me achar!´. copia? . Parecia remexer minha casa.Explosão de pequeno porte no aparelho 673. só quem tem sangue frio para esse tipo de coisa consegue manter a cabeça no lugar. O barulho arrastado tomou conta do silencioso ambiente. Peguei-me arregalando os olhos. Como ele descobrira?! Não era possível que ele tivesse seguido Abikair com o exato intuito de me encontrar. A incerteza do destino é algo assombroso. ± Respondeu uma voz feminina eletrônica que eu julguei ser de um rádio transmissor.Passos. seu nome não fora divulgado em nenhum lugar! Os passos cessaram. apenas no desespero pavoroso que me acometia diante da iminência da morte. me obrigando fortemente a respirar sem fazer qualquer ruído. Não conseguia pensar em nada.Central. Apertei mais os olhos. Ergui a cabeça. como que a procura de algo. . como se abri-los muito pudesse me fazer capaz de escutar melhor. . responsável Alfa Bravo. e eu temia que até os meus vizinhos pudessem escutá-lo. só podia pensar. Tentei engolir a saliva. que saiu mais forte do que eu pretendia. Meu foco ia se perdendo a medida que a quietude novamente reinava. O coração pulsava louco em minha garganta. dessa vez com movimentos mais rápidos. Quem quer que fosse voltou a se mexer. aqui é Delta Bravo. e eu levei uma mão à boca. meus móveis. o detetive ainda desacordado recostado sobre meu ombro. mas a garganta pulsante continuava seca e arranhando. Eu estava borrando de medo. . Delta. a ansiedade me desesperava mais do que tudo. quase que literalmente. Não adiantava tentar ficar calmo. Soltei devagar a expiração. Ele não podia saber quem era Abikair.

aparelho 673. e eu ouvi o homem bufar. Beta. esquadrão anti-bombas na dianteira.Positivo. . destacamento Alfa. .. central. . . procure por Alfa Bravo. ± Pediu a voz eletrônica. aguardando segundo contato. . estalando a língua ± Delta Bravo. Delta Bravo.Reforço à caminho.Suspende o esquadrão.Um momento.Certo. Delta Bravo.Provavelmente caseiro. central.Alguma estimativa do tipo de explosivo? ± Pediu a mulher. central. líder Alfa Bravo. central. confirma? . Operação ³Israel´. O detonador já foi ativado. .Confirma. . Delta e Kapa Bravo. ± Pediu com enfado.

apressou-se em nossa direção. E eu não podia deixar que nada lhe acontecesse de ruim. acreditando ser aquele homem o fim de minha vida? Meus olhos voltaram-se para Abikair. Mas se não fossem« Eu só esperava por uma morte rápida. o que vai ser?!´. .Já está a caminho. perguntei a mim mesmo.Não podia ser uma emboscada. Se fosse realmente alguém da equipe do detetive. assim como meus amigos. bem« Estávamos salvos. certo? Não. o sangue vertendo generoso do lanho na lateral de sua cabeça. Ele. curvando o corpo grande e encarou-nos por alguns segundos. encontrei Alfa Bravo. Mande uma ambulância. Ainda travava uma das minhas mais árduas batalhas internas quando o homem em minha casa voltou a andar. Deixei que meu corpo relaxasse. era muita coisa para pegar um peixe pequeno como eu. dessa vez mais pausadamente. quem quer que fosse o Delta Bravo. ainda desacordado. . -« Hunf! Os movimentos se interromperam quando eu deixei que um reclame de dor atravessasse minha garganta. a cabeça tombando levemente: estava salvo. Puxou um pequeno rádio do bolso.Central. mas também pareceu amolecer cada músculo meu. expirando longamente. certo? O cara não podia ter todo esse trabalho só para me apanhar. O alívio era revigorante. Ele não tinha culpa de eu ter me encontrado com o assassino de Henrique Sardenberg. Delta. ou continuava escondido. ³E aí. . Eu confiava na sorte e denunciava a minha posição.

« Ele não« .Deixe-me ver« O homem certificou-se de não mexer muito no detetive Abikair.. Fiz como o homem mandou.Não. Puxou um lenço do bolso. um tom de preocupação e urgência tomando sua voz. .Você está ferido? ± Veio a pergunta. tentando limpar um pouco do líquido rubro da testa de Abikair. em dúvida ± Mas ele tá com um machucado sério na cabeça. Um pensamento me passou pela cabeça. Sua expressão não foi das melhores. que me angustiava a cada segundo com seus olhos permanentemente fechados. que ainda não havia me movido um único centímetro de minha posição inicial. ± Pediu.Pressione aqui. Levantou-se rapidamente. . colocando-a sobre o rasgo na pele bronzeada.Ele. Virei levemente o corpo. Os olhos castanhos e opacos voltaram-se para mim. . apertei a toalha contra a cabeça do detetive. puxando uma das toalhas de rosto que estavam penduradas no secador da área de serviço. . o cenho franzindo-se cada vez mais. virando-o apenas o suficiente para examinar mais atentamente o talho muito próximo ao supercílio do detetive. Acho que não« ± Concertei a resposta. Com o braço bom. sentindo o braço que me fora alvejado doer de súbito.

assumindo meu lugar. bem como o pequeno aparelho de som . e me peguei na dúvida. A perna estava dormente. Além da cozinha. eu não via nem esboço. novamente. A tela da televisão estava trincada.-« Não. A porta havia sido destruída. a ³neblina´ das partículas de poeira ainda dificultavam a exata percepção do que havia na sala. pouco se via. nem a mim nem àqueles próximos a mim. quando me dei conta do que acontecera com meu apartamento. não. Da mesa.Acha que pode se levantar? A voz do homem me trouxe de volta à realidade. seus restos ainda permaneciam escorados na parede próxima ao acesso ao corredor. Eu fora covarde demais para admitir isso para mim mesmo. e minha mente começou a viajar para longe. O sofá estava chamuscado. mas nada que umas batidas no chão não resolvessem. Não era hora de se remoer. o homem pressionava o machucado de Abikair enquanto eu levantava. Eu não consegui me prender às suas palavras. e pela película branca e pegajosa sobre o estofado. Mais precisamente para quando o senhor Colin me mandou entrar naquele apartamento. . mas naquele momento de ³liberdade mental´. o que estava feito. por atos impensados e já cometidos. mas tirando isso. Assenti com a cabeça. e eu não pude recusar sua oferta. Entretanto. não consegui parar de pensar no quão idiota eu fora. e o homem se afastou para continuar a se comunicar pelo rádio. se a ambulância não chegar aqui logo. Ainda batia minhas roupas. Era óbvio que alguma coisa errada iria acontecer. para o passado. estava feito. ± O homem captou minha intenção ± Mas vai. concluí que o homem havia apagado algum fogo com o extintor. Meu braço estava realmente doendo. embora as pernas das cadeiras se sobressaíssem nos escombros. impressionado com a eficiência com a qual o sangue de Abikair havia manchado minha blusa. o resto era desconforto muscular pelo choque inesperado contra o chão. Meneei positivamente a cabeça e. Eu nem sequer pensara nas conseqüências que aquela ação poderia causar.

± Adicionei. e alguns dos artigos de decoração haviam-se quebrado. o apartamento ao lado estava intacto. . posso perguntar algumas coisas? ± Disse. .Desculpe. segurando o braço que ainda latejava. demorando-me brevemente no trincado na porta de vidro da varanda. caminhei até a porta de meu apartamento. aquela parte não parecia ter sido atingida. . Suspirei. Num estalo.que costumei a deixar na sala. Estalei a língua. eu preciso saber alguma coisa do que acabou de acontecer. felizmente. cansado demais para lamentar pelos estragos e aliviado o suficiente para agradecer por estar vivo. ao notar sua relutância em ceder. . -« O que você quer saber? Continuei sustentando o olhar opaco daquele homem de feições duras. Dois quadros estavam tortos.Tudo ao seu tempo.Por favor. Baixei a cabeça. direcionando meus olhos para o corredor que dava acesso aos quartos. voltando-me para olhar o apartamento de meus vizinhos. Deixei que meus olhos vagassem pelos destroços que há pouco tempo formavam minha sala. Não é nada que você não possa me falar. Apesar da pequena sujeira que os destroços de minha casa causaram ao corredor do quarto andar. ao voltar para a cozinha e encarar o homem que trabalhava com o detetive. ± Respondeu pacientemente.Meus vizinhos« .

.Já foram removidos. nunca quis guardar o de Ricardo. . Eu não tinha o número de Larissa. Pensando nisso. ± Falou com certa amargura. Puxei os lábios para dentro. fiz a pergunta que mais me incomodava ± Meu namorado«? . O jeito era esperar até que ele desse notícias. Ao remover a toalha do corte. onde consegui gazes. e Fernando ainda não comprara um celular novo. Foi só aqui. Pelo menos. consegui me locomover até o banheiro. e estão junto ao nosso pessoal lá fora.Já havia saído com a irmã antes da explosão. O corte era tão profundo que em nada pude ajudar com as provisões que havia trazido do banheiro. -« Obrigado. que até poderia estar com eles. faixas e remédio para tentar ajudar Abikair. mordendo-os por dentro e me segurando para manter a respiração calma. como se não quisesse admitir o crédito da pessoa que armara a explosão tão bem. Nem ninguém do seu andar.Não.Alguém do prédio«? . a certeza era a de que ele não havia sofrido nada. o homem rapidamente voltou a pressionar o talho na cabeça do detetive. Isso já era muito bom. e sentindo que a preocupação ia diminuindo. mas presumindo que tudo o que o detetive sabia era compartilhado com seus homens. O tecido . -« ± Por um momento hesitei em pronunciar aquelas palavras.

a cabeça raspada denunciava que fazia menos de dois dias que ele havia cortado o cabelo. tão destacados que quem não prestasse atenção falaria que ele estava usando lápis de olho e lentes de contato.Espero que não.Acha que vai demorar muito pra ambulância chegar? . .Afirmativo. surgiu à porta de meu apartamento. copia? .Copia. Sua figura era um tanto ordinária. . que saltava a vista e despertava enorme desconforto. . após alguns segundos de chiado. mas seus traços de pessoa normal marcaram minha memória. .Sobe aqui que não sei quanto tempo ele vai agüentar. ± Respondeu o rádio. Sua pele era marfim. outro homem. A blusa preta acompanhava a calça jeans de um azul muito escuro. Em menos de um minuto. Delta. ± O homem voltou a puxar o rádio ± Delta Bravo para Kapa Bravo. Kapa falando. ± Veio a resposta rápida. mais baixo do que eu. os olhos de um castanho incomum.antes tão alvo agora se tingia de um vermelho rutilante. Delta.

e só agora eu reparara que havia uma mochila em suas costas. mais grave do que eu previa ± Você está bem? Só consegui menear positivamente a cabeça. O homem baixou.Sabe onde está Souza e Abikair? ± Limitei-me a apontar com o dedo ± Certo. fique junto de nós. Souza. Segui os passos do integrante Kapa da equipe do detetive. vai esguichar. . . -« ± Pareceu refletir um pouco. ficando entre Souza e o detetive. com características tão comuns.Se eu tirar a mão daqui.Astuto da parte dele ter um ex-paramédico na equipe. . ± Veio a voz..O moleque não brinca em serviço. e ele se aproximou devagar. Deixa eu ver como tá. seus olhos opacos ainda na toalha ensangüentada. Os lábios abriram um sorriso no rosto ameno.Guilherme. um pouco aflito com a situação em que Abikair se encontrava. Venha comigo. ± Comentou Souza. a testa de marfim se vincando ± Espera um momentinho. . poderia ser tão marcante. um pouco surpreso de ver o quanto uma pessoa normal. .

você aperta bem forte e tira a toalha.Guilherme. fechou os olhos por alguns instantes e voltou a abri-los. Souza fez como o homem havia instruído. ± Levantei as sobrancelhas para indicar que estava ouvindo ± Pode me arranjar uma toalha maior do que essa? . Suspirou. . Ao enxergar as gazes e as faixas que eu havia trazido. puxando forte para que a gaze pressionasse tanto quanto a mão de Souza o fazia.Quando eu disser ³vai´. . Pressionando as gazes sobre o talho. pegou-as e as deixou na barriga de Abikair.Huff« ± Suspirou mais uma vez ± Vai. o tal artefato era um tipo de grampeador. . o homem levou o objeto metálico à fronte do detetive. Enquanto suas mãos continuavam em ação. Pressionou a toalha contra o ferimento de Abikair. o homem habilmente enfaixou a cabeça de Abikair. os olhos castanhos se voltaram para mim. alongando rapidamente o pescoço. . a outra mão amparando a cabeça.Certo. Rapidamente. puxando um pequeno aparelho metálico de dentro. Ao que me parecia. Olhou para Souza. e ouvi alguns estalos vindos do apertar de seus dedos. depois a tirou.Tirou a mochila das costas.

Virei as costas, correndo para o armário do quarto de hóspedes e peguei umas das toalhas na prateleira de cima. Voltei correndo, entregando-a para o homem, que agradeceu com um meneio de cabeça e um sorriso brando rápido. Dobrando uma parta da toalha, o homem colocou-a sobre a cabeça do detetive, segurando suas laterais para que a pressão sobre o machucado fosse maior.

Ouvi o som da sirene da ambulância, constatando que o carro branco iluminado chegara ao espiar pela janela. Vi o alívio pairar nas expressões dos dois homens; realmente, Abikair era muito querido entre os membros de sua equipe.

- Central para Delta Bravo, copia? ± Voltou a chamar o rádio.

- Copia, central.

- Qual a situação de Alfa Bravo?

- Estável. ± Repetiu Souza, ao ler os lábios do homem ao seu lado ± A ambulância já chegou.

- Certo, Delta Bravo. Operação ³Israel´ no aparelho 673, encerrada. Câmbio final.

Souza guardou o rádio, o outro homem ainda o encarava com certa expectativa. Ao notar meu olhar sobre si, tentou esboçar alguma despreocupação.

- Agora está tudo bem. ± Tentava me tranqüilizar ± Você vai precisar nos acompanhar por essa noite. Separe umas mudas de roupa, assim vai ser melhor.

Um pouco confuso, assenti, e me direcionei para meu quarto. Peguei minha mochila, coloquei algumas camisas, calças e cuecas. Joguei a escova de dente e o shampoo junto, bem como uma toalha e meu carregador de celular. No caminho, carreguei minha carteira e as chaves de casa. Ao voltar para a sala, para-médicos vestidos em branco já haviam colocado o detetive Abikair numa maca móvel e saíam de meu apartamento, um deles segurando uma bolsa de soro ao alto. Fiquei observando aquela cena, um pouco desnorteado. Foi o toque de uma mão em meu ombro que me tirou da inércia.

- Precisa pegar mais alguma coisa? ± Perguntou, seus olhos destacados me encarando com certa preocupação.

- Acho que não.

- Certo. Vamos indo?

Pensei em deixar algum recado para Fernando; acho que ele se assustaria se encontrasse a casa destruída. Mas assim que passamos pelo local onde a porta deveria estar, o policial selou a entrada com algumas daquelas fitas amarelas que a polícia utiliza para isolamento da cena do crime. Definitivamente, a equipe de Abikair devia ter vindo com

ele de outro estado; ações assim não costumavam ser vistas. O homem voltou a colocar a própria mochila nas costas, ergueu-se e bateu as mãos.

- Vamos indo?

- Ahãm.

Descíamos pela escada, já que o elevador parecia estar interditado, e me pareceu uma cena de filme quando, no saguão do meu prédio, viaturas da polícia e uma ambulância faziam o cerco da entrada como que para impedir que curiosos se aproximassem demais. As luzes ao alto e os flashes repentinos indicaram que a imprensa também sabia ser ligeira e já metia o focinho no que mal terminara de acabar. Passando-me para seu lado esquerdo, o homem de codinome Kapa colocou um braço envolta de meus ombros, guiando-me para um dos carros pretos, parado em cima da calçada. Deu a volta e sentou-se comigo no banco de trás. Identifiquei Souza próximo às portas traseiras da ambulância, e vi-o entrar antes que elas se fechassem.

- Pra delegacia ou pra pousada? ± Veio uma voz feminina.

- Pousada. ± Respondeu o homem ao meu lado.

Fiquei surpreso ao constatar que o motorista, na verdade, era uma mulher. Ela carregava um rádio semelhantes ao de Souza e do Kapa, bem como roupas escuras, mas que facilmente se misturariam com a multidão lá fora. Ela era a última integrante da equipe de Abikair, e tão logo ouviu a resposta do homem, engatou a primeira e tirou-nos da aglomeração que se formara em torno de meu prédio. Os cabelos castanhos claros eram

Eu sei. Já tenho tudo aqui. . Flora. os lábios volumosos e as sobrancelhas finas eram muito escuras. . justamente à minha frente.ondulados e fartos. .Acha que precisa buscar alguma coisa? Primeiro pensei que ela estava falando comigo. Eu entendo.Não. notando que ela desviava os olhos de mim. seus olhos escuros voltando-se para mim. Guilherme. decididos e um pouco culpados. De cara. Afinal. entretanto lá estava aquela mulher sentada. e já tinha buscado ar para formular uma resposta. depois de um tempo de silêncio ± Não me importo se você me odiar. quando notei pelo retrovisor que ela direcionava seus olhos firmes à pessoa no banco do carona. ± Baixei a cabeça. Ela me parecia muito baixa. mas a determinação em seu rosto tirava qualquer dúvida da destreza de seus atos. ± Disse. Ela girou o corpo para trás. não acreditei. uma pequena mala ao colo. o que aquela voz familiar estava fazendo ali? Ela já havia ido embora de meu apartamento fazia um bom tempo.Olá. . mas pelo menos tente entender. .

Não havia mais como escapar. entrei numa sala espaçosa e bem-estruturada. Uma antiga pousada. ± Disse o homem ao meu lado. Havia computadores. Demos a volta nas instalações da pousada. e eu caíra em sua armadilha. rádios. uma mulher de cabelos castanhos avermelhados direcionou os olhos de cor âmbar e ergueu a mão para calar quem quer que estivesse falado com ela. notei que estávamos nos limites de minha cidade. era o fim da linha. próprio do estilo de construção da pousada. ninguém pensaria que havia tanta coisa debaixo da construção abandonada. Mas as luzes acesas. Puxei o ar com força para dentro de meus pulmões. Quando me dei conta para onde estávamos indo. A testa se . paramos frente a uma construção de madeira. os fachos das lanternas que haviam sido acionadas iluminaram uma pequena abertura ao chão: um abrigo anti-bombas. fones. me perguntando no que aconteceria a partir daquele momento. Arregalei os olhos quando. Depois de uns dois quilômetros. ³Há quanto tempo eles estão aqui?´.O silêncio reinou por alguns segundos. várias mesas. pilhas de documentos e pessoas à volta. uma sala espelhada que eu julguei ser da perícia« Realmente. Vi-me cercado por outras pessoas que até então eu não havia notado. entregando identificações para todos ali dentro. o que eles passavam era um cansaço acumulado. que os jornais falaram que havia sido desativada por causa de falência do dono. o carro sacolejava um bocado. Era como se tivéssemos adentrado a um andar do prédio de uma companhia grande. câmeras e dispositivos de alarme em sua redondeza indicavam o contrário. telefones. . depois de alguns lances de escada. O destino me dera uma rasteira. gravadores. Coloquei o cordão do cartão no pescoço. Apenas o homem ao meu lado saiu do carro quando o veículo estacionou. e demorou um pouco até que ele voltasse.Pegue a rua da direita. Pegamos uma estrada de chão. rodeada de quadros com folhas afixadas. na verdade. Sentado a uma das mesas. me perguntei enquanto seguia Flora e era seguido pela mulher que dirigira o carro negro. rastreadores. Nenhum deles parecia muito animado com a minha presença.

.Nós não temos a obrigação de passar todas as informações para vocês. . vocês seguirão às nossas orientações. e só então reconheci a voz da mulher como sendo a mesma que era emitida pelo rádio quando Souza e o homem chamado por Kapa contatavam a ³central´. e ela estalou a língua enquanto cruzava os braços. ± Tombou a cabeça para a direita ± Até a volta do detetive. Flora e eu nos olhamos. Por um momento. Alguma dúvida? ³Ah. . quase que novamente. Cocei a nuca. sem questionar. O nome da operação é ³Israel´. Esta é uma unidade secreta montada pelo detetive Abikair.Muito bem.Essa é a nossa equipe principal. Enquanto vocês ficarem aqui. daí a pedirem para que pegássemos alguns de nossos pertences. nós não saímos daqui. Era o olhar sustentado por alguém forte. e ela levantou e caminhou até ficar próxima a mim e a Flora. que tal milhões delas?!´. que parecia dar passos . e notei que o olhar dela recaiu em mim. Vocês não estão autorizados a fazer qualquer ligação ou contato exterior sem nossa autorização. pois elas serão para sua própria proteção. satirizei em meu pensamento. e de uma forma ou de outra. espantado com o que estava acontecendo. vocês dois estão envolvidos nessa. Aqui é nosso lugar de investigação. mas manteremos vocês atualizados da situação. unicamente para capturar o assassino do advogado Henrique Sardenberg.vincou. comigo. Seus olhos escanearam a nos dois. parei para pensar. nem podemos ser vistos. eu estou no comando.

Seguimos o homem para além das mesas e equipamentos. passando por um corredor largo. sem saída. dando-nos acesso ao que parecia uma sala de estar comum.Certo. . Sobrenomes serão confusos.Depois. Apenas o homem de olhos destacadamente ordinários pareceu se importar com nossa presença. Pode usar tudo que tem no quarto. Franzi o cenho. . .firmes e não deixar pontas soltas. Depois de entrar à esquerda. abrindo uma das portas que havia no último corredor. Hanna e o resto da equipe.Vou levar vocês pra dentro. tente se sentir à vontade. inclusive aqueles que nos haviam escoltado. Os lábios permaneciam crispados. tentando entender a informação implícita naquela declaração. como se ela não conseguisse relaxar e tivesse a obrigação de permanecer tensa o tempo todo. Dando as costas para nós. . ± Pediu o homem. você fica aqui. Guiou-nos pela abertura da direita.Flora. Guilherme. Flora não pôde recusar. Hanna. o homem empurrou uma porta. voltaram sua atenção para os seus afazeres.« . . com jeito.Podem me chamar pelo nome.

televisão. .Guilherme. abaixando a cabeça. deixar meus ombros caírem e meu pescoço alongar. sem querer suspirando profundamente e permitindome. escrivaninha e banheiro.Continuamos pelo corredor. . com um pouco de decoração. deixando-me passar e entrar num quarto comum. Notei o olhar do homem em mim. uma mesa de cabeceira. . Abikair dormirá com você de vez em quando. Ele girou a maçaneta. Meneei positivamente a cabeça.A porta ao fim do corredor é meu quarto. .Espero que compreenda nossas medidas extremas. pela primeira vez. até chegar à última porta à esquerda. Era difícil acreditar a que ponto a coisa havia chegado.« Estamos aqui pra desatar esse nó. ± Isso era um hábito dele. e o de Souza. armário. sem jeito. Deixei-me cair na cama. ± Disse. pensando no quão parecido aquele lugar era com o meu próprio quarto. é só nos chamar. O que você precisar. e observei sua expressão pensativa enquanto ele se aproximava de mim. . Deixei a mochila sobre a cama. notei ± Sei que tudo está muito confuso e preocupante pra você. duas camas. mas o quarto dele é o da porta à frente.Eu sei.

E eu também não pude negar. . no mesmo tom que havia usado com Flora. como se estivesse se sentindo culpado com aquela situação ± É Antônio.Depois. Fechando a porta atrás de si. -« ± Continuei esperando suas palavras. e ele sorriu brevemente. o homem voltou seu tronco para mim. Antes. pensando em quando eu conseguiria ter a vida normal que levava um jovem aos seus dezenove anos. Antônio me deixou naquele quarto estranho. porém. ± Pediu. de deixar meu quarto.-« Eu só queria« .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful