Você está na página 1de 16

Motrivivência Ano XX, Nº 31, P. 99-114 Dez.

/2008

O Ensino do Conteúdo Dança na 5ª e 6ª


Série do Ensino Fundamental a Partir da
Dança Folclórica e da Dança de Rua

Daiane Grando1
Ilma Célia Ribeiro Honorato2

Resumo Abstract
O presente estudo partiu da The present study started from the
necessidade de investigação das investigation needs about the peda-
práticas pedagógicas de ensino gogical practices of teaching the
do conteúdo dança nas aulas de subject dance in the Physical Educa-
Educação Física, com objetivo tion, the objective was to give oppor-
de oportunizar a inserção deste a tunity to the insertion of dance from
partir das configurações das danças the perspectives and configuration of
folk dance and street dance. In order
folclóricas e das danças de rua. Para
that, the qualitative method was taken
tal investigação recorremos ao método
into consideration as a methodology
qualitativo com o pressuposto de to cover the issue of understanding
compreender a realidade nela inserida, the participants reality inserted on
utilizando da pesquisa ação por that. The action research was also
permitir atuarmos enquanto sujeitos used to allow the researchers act as
inseridos no processo. Constatamos participants inserted in the process. It
que as possibilidades metodológicas was observed that the methodological
de ensino do conteúdo dança, são possibilities of teaching such subject

1 Graduada em Educação Física Licenciatura pela Faculdade Guairacá de Guarapuava – PR.


2 Docente do Departamento de Educação Física da Faculda Guairacá – PR. Aluna do Programa de
Mestrado em Educação da Universida Estadual de Ponta Grossa – PR (UEPG).
100

aquelas que partindo da realidade do of the dance were those one’s which
aluno valorizam o potencial criativo e taken as assumption the students´
espontâneo do mesmo. reality valuation, as well as, their cre-
ativity and spontaneous potential.
Palavras-chave: Dança; Educação
Física; Metodologia. Key words: Dance; Physical Educa-
tion; Metodology.

Considerações iniciais as capacidades e limitações de


cada sujeito e assim aprimorando
O presente artigo é resulta- também seu vocabulário motor. As
do de reflexões e discussões sobre o propostas desenvolvidas no estudo
conteúdo Dança nas aulas de Edu- visaram o desenvolvimento da cria-
cação Física, pois, observamos certa tividade, autoconfiança, cooperação
acomodação no ensino da Dança e da espontaneidade dos alunos.
no que se refere à busca de novas Desta forma buscamos com-
metodologias que motivem o aluno preender quais as possibilidades me-
a praticá-la. O desafio foi propor todológicas do ensino do conteúdo
reflexões sobre o ensino da Dança, Dança Folclórica e Dança de Rua nas
novas formas de trabalho e maneiras 5ª e 6ª séries do Ensino Fundamental
de atuação do educador de acordo e a partir de tais configurações opor-
com o contexto de sua escola. tunizamos a inserção desse conteúdo
Tivemos também como nas aulas de Educação Física e apre-
intuito o aprofundamento na analise sentando possibilidades de ensino do
das metodologias aplicadas para o mesmo por meio da metodologia da
ensino da Dança no ciclo de inicia- Cultura Corporal3
ção a sistematização do conheci-
mento, mais especificamente nas 5ª Apontamentos históricos da
e 6ª séries do ensino fundamental. dança
Assim focamos nos conteúdos espe-
cíficos Dança folclórica e Dança de Ao analisarmos a vida de
rua - o caso específico do Break. qualquer civilização, podemos per-
Nesse sentido, abordamos ceber que a dança é uma das mais
a dança como conteúdo nas aulas antigas manifestações humanas,
de Educação Física considerando traduzida em linguagem gestual

3 A Cultura Corporal representa as formas culturais do movimentar-se do ser humano historicamente


produzida pela pela humanidade [...] (SOARES et al, 1992).
Ano XX, n° 31, dezembro/2008 101

ultrapassa gerações e está presente raízes do preconceito existente em


em nosso cotidiano, analisando sua relação aos homens praticarem a
história é possível conhecer costu- Dança vem do passado e mesmo
mes e hábitos de uma sociedade. com as diversas transformações
A dança não era utilizada apenas ocorridas em nossa sociedade, este
como movimentação corporal, mas ainda é um problema que existe
como ligação entre o homem e na atualidade. Bregolato também
seus deuses. Para Rangel (2002) as relata que:
evidências de que a dança acompa-
nha o homem desde o período pré- O homem que ainda não falava
histórico, foram verificadas através se utilizou do gesto rudimentar
para expressar suas emoções
das marcas e pinturas deixadas nas
num ritmo natural. A dança na
cavernas, rochas, paredes, vasos e
vida do homem primitivo tinha
pertences domésticos. Encontramos muito significado, porque fazia
os primeiros registros sobre a Dança parte de todos os acontecimen-
no período paleolítico em que “A tos de sua vida: nascimento, ca-
dança imitava os passos dos animais samento, mortes, caça, guerras
com o fim de atraí-los ao perímetro (onde exibiam lutas), iniciação
de tiro e simula também seu acasala- a adolescência, fertilidade e
mento, para que se multipliquem as acasalamento (eróticas), doen-
espécies” (OSSANA, 1988, p. 43). ças, cerimônias tribais, vitórias,
Neste contexto Rangel nos paz, sementaria, colheita, festas
mostra que no período Neolítico: do sol e da lua (2000, p. 73).

[...] A dança passa a ser uma for- Assim, sons e instrumen-


ma de adoração aos espíritos, de tos eram utilizados para acom-
culto aos mortos em substituição panharem os movimentos, para
a magia e a feitiçaria, isto é, as isso utilizaram tambores, cabeças
cerimônias religiosas tinham esvaziadas e cheias de sementes ou
papel predominante, sendo que pedrinhas, flautas de bambu ou até
a execução das atividades dan- mesmo estalando os dedos, batendo
çantes eram relegadas apenas ao palmas e os pés no chão. Dançavam
sexo masculino (2002, p. 35). em grupo em forma de círculo com
todos executando os mesmos movi-
Neste período percebemos mentos, dançavam também em co-
que a dança era executada apenas lunas e na formação onde um guia
pelas mulheres, esse pequeno relato vai à frente conduzindo os demais
de sua história nos mostra que as (BREGOLATO, 2000)
102

Percebemos então, a dança se relacionarem e de se reunirem


nesse passado longínquo, como fruto com seu grupo ou comunidade
da necessidade de expressão e co- (NANNI 2003). A partir dessas
municação humana, de forma que: relações de integração surgiram as
danças populares, fortalecendo esse
[...] as qualidades de movimen- senso comunitário e utilizando do
tos da dança primitiva repousam movimento rítmico de expressão
em movimentações e não apenas lúdico-religiosa para agradecer,
em mero divertimento. Parece festejar e suplicar.
ser parte integrante de sua vida Considerando as danças
social, uma ação espontânea, no populares como uma evolução das
sentido de auto-expressão e co- danças rituais, verificamos que a
municação. O primitivo, quan- mesma deixou um pouco de lado
do dança, trabalha seu corpo, a religiosidade que lhe deu origem
brinca, fala, reza; o movimento e se fortaleceu popularmente, isso
consiste numa forma harmôni- facilitou para que mais tarde surgis-
ca total onde o corpo flui como sem novos tipos de dança, como as
modo de pensar, sentir, agir e re- danças da corte e as danças corte-
agir [...] (NANNI, 2003, p.99). sãs. Com isso, a dança foi se sepa-
rando de certos aspectos da vida
A dança para o homem do homem e se transformou num
primitivo significava mais do que um trabalho de arte ao se integrar à vida
simples divertimento, ela fazia parte da sociedade (NANNI, 2003).
de todos os momentos de sua vida, A autora referencia que
fossem eles de alegria ou tristeza. com sua evolução a dança se de-
Dançar para a humanidade nessa senvolveu de forma padronizada
época era utilizar do corpo para ex- perdendo seu impulso criativo e
pressar sentimentos, pensamentos, seu significado, porém ganhando
ações e reações, ou seja, o corpo se planejamento e organização que
liberta a expressão de tal forma que os fizeram com que fosse usada como
espetáculo. Assim a dança se dis-
movimentos estabelecem relações e é
tanciou dos interesses culturais da
possível interagir com o mundo.
maioria da população, se voltando
A dança dos camponeses, para as classes dominantes, isto aca-
que se originou dessas danças pri- bou vindo a se transformar na futura
mitivas baseadas em rituais, evoluiu Dança Clássica, em que acabou se
como formas espontâneas de coreo- aprisionando em aspectos técnicos
grafias e como integração sociocul- e rígidos, deixando de lado os mo-
tural, partindo da necessidade de vimentos expressivos e criativos.
Ano XX, n° 31, dezembro/2008 103

Assim a dança, deixa de ser se inicia a valorização de seu sen-


um ato espontâneo do homem, pois tido educacional. Juntamente com
agora havia uma exacerbação de vários outros construtores do ensino
técnicas as quais delimitavam a liber- da dança, ela se tornou um elemen-
dade de expressão e de criatividade, to educacional, a qual está presente
para a busca pela perfeição idealista na escola através da disciplina de
de movimentos, que deviam ser Arte e de Educação Física.
executados com estrema elegância, A disciplina de Dança
seguindo as formalidades de cada foi implantada no Curso de Licen-
espetáculo e os interesses das classes ciatura em Educação Física, em
dominantes daquela época. 1937, pela professora Maria Helena
Em meio a esta valorização Baptist de Sá Earp, na antiga Escola
de técnicas que surge o ballet, que Nacional de Educação Física do Rio
é uma das danças que mais exige de Janeiro, hoje Escola de Educação
de seus praticantes e que valoriza Física e desporto da UFRJ, (NANNI,
a perfeição e a técnica. Com isso 2002). A disciplina de dança desde
é estabelecida uma nova forma de então se faz presente no currículo
dança, na qual é deixado de lado dos cursos de Educação Física de
o caráter social-comunitário, não todo o País, também sendo aos pou-
preservando a cultura popular de cos reconhecida como conteúdo da
raízes locais regionais e nacionais Educação Física escolar.
(NANNI, 2003). A partir do breve relato da
No século XX, acontece- perspectiva histórica da dança, pos-
ram grandes mudanças no âmbito suímos segundo Marques (2007) ”re-
da dança. Através de Isadora Dun- ferências, patamares, solos concretos
can, considerada criadora da Dança para problematizarmos, criticarmos e
Moderna, abriram novos caminhos, construirmos” reflexões e análises no
pois Duncan reiterou que “a dança campo da dança, mais especificamen-
te da Educação Física e é nesse sentido
deveria ser instrumento básico para
que retrataremos a partir de agora so-
a composição de uma nova ordem
bre o ensino da dança especificamente
social, e desta forma, resgataria seu
no ambiente escolar.
sentido educacional, como queria
Platão” (NANNI, 2003, p.104).
Nesse longo processo de A dança enquanto conteúdo
transformações, e com o surgimento da educação física escolar
destes vários tipos de dança, perce-
bemos então que por meio da dança A prática da dança na
moderna de Isadora Duncan é que Educação Física deve estar voltada
104

para a expressão criativa e espon- A abordagem da Dança


tânea, não apenas para a recreação proposta por essas diretrizes se
ou para o treino de habilidades embasa na perspectiva crítica, ou
motoras. Pensando a dança como seja, através do conteúdo devemos
conteúdo nas aulas, sabemos que problematizar a forma como essa
esta, possibilita a educação integral, manifestação corporal tem sido
pois, como processo educacional e usada pela mídia, se apropriando da
capaz de proporcionar uma perfei- erotização do corpo e se tornando
ta formação corporal, um espírito produto de consumo do público
socializador, um processo criativo jovem. Seguindo essa perspectiva
e o desenvolvimento dos aspectos devemos levar o aluno a compre-
éticos e estéticos, ou seja, ela é a ex- ender características, significados,
pressão verdadeira e natural do ser vertentes e influências que a Dança
humano NANNI (2002). Devemos sofre pela sociedade em geral.
então a partir dessa diversidade de O processo educativo mui-
contextos e situações conhecer a re- tas vezes subestima o individuo que
alidade do aluno para proporcionar dança limitando seu potencial a
a ele um aprendizado significativo técnicas muito limitadas e precisas,
levando o mesmo a se reconhecer portanto, um trabalho de apren-
como elemento integrante e partici- dizagem motora variado, criativo
pante da sociedade. e dinâmico é muito mais atraente
A Dança é o conteúdo produtivo e apaixonante do que
responsável por apresentar as pos- horas de repetições previamente
sibilidades de superar as diferenças programadas, visto que não são
corporais e os limites, é vista como apenas os alunos que não evoluem
forma de libertação do ser promo- nos aspectos motores, mas também
vendo a expressão de movimentos o conteúdo Dança se fragmenta
(PARANÁ, 2008). As Diretrizes enquanto conteúdo escolar.
Curriculares de Educação Física Pensando na possibilidade
para a Educação Básica do Estado do de inserir o conteúdo Dança nas 5ª
Paraná (2008) salienta a importância e 6ª séries do ensino fundamental
de desenvolver o conteúdo de modo partindo da realidade do educando
que não aconteça uma super valo- é que este trabalho iniciou as ações
rização de coreografias e técnicas práticas com as danças folclóricas
sejam elas mecânicas ou corporais, nos seus aspectos históricos.
pois estas não levam o aluno a refle- Além das lendas, contos,
tir apenas apresentam o “fazer pelo artesanatos, mitos e brincadeiras a
fazer”, “a prática pela prática”. Dança é um dos meios utilizados para
Ano XX, n° 31, dezembro/2008 105

preservar a cultura popular, ela man- grau de complexidade mais elevado


tém as raízes socioculturais de uma - é que possibilitamos o conteúdo
comunidade e sua herança folclórica. dança de rua mais especificamente
Ao trabalharmos com a Dança Fol- o Break como mei de intervenção
clórica na escola, proporcionamos para com os alunos.
aos alunos o conhecimento das mais A Dança Break, vincula-
diversas manifestações étnicas e cul- da ao movimento Hip-Hop é um
turais, de acordo com as peculiarida- dos aspectos artísticos e teve suas
des de cada país ou região. primeiras manifestações nos EUA,
Para Marques (2007), a por volta de 1970 como forma de
dança folclórica ao ser transmitida organização social. O Break é uma
via escola seria uma forma de pre- Dança que teve inicio juntamente
servar as raízes culturais brasileiras com a guerra do Vietnã, como for-
que estariam sendo esquecidas ma de protesto. Os dançarinos por
devido a globalização e aos meios meio da totalidade de cada passo
de comunicação de massa. A autora imitavam por meio de expressão
nos mostra que é de suma impor- corporal, objetos e instrumentos
tância tal resgate, mas enfatiza que que causaram deformação física nos
este muitas vezes é utilizado pelas soldados, como exemplo o giro de
escolas de forma ingênua na espe- cabeça representando os helicópte-
rança de combater a fascinação que ros utilizados na guerra.
a mídia exerce sobre os alunos. A origem do break é remo-
Levando em consideração ta à época de James Brawn, no final
o que nos mostra Marques, perce- dos anos 60 e inicio da década de
bemos que as danças folclóricas não 70 em Nova York. A origem desse
podem ser vistas pela escola como termo “break” possui várias versões,
meio para criticar e desvalorizar as uma delas é referente a música, pois
danças da atualidade, mas sim deve os dançarinos dançavam nos seus
ser um conhecimento que passado Breaks (batidas), através de movi-
para o aluno se preocupa em fazer o mentos acrobáticos e quebrados
mesmo entender o passado e o pre- (VILELA 1998).
sente, relacionando com seu futuro. Esta arte corporal da cul-
Dando continuidade a tura Hip-Hop é marcada por estilos
idéia de inserção do conteúdo dan- musicais acompanhados de formas
ça a partir da realidade do educando de vestir, está cercada de símbolos,
e o aprofundamento em conheci- criando uma identidade de grupo
mentos considerados mais distantes perante a sociedade, este estilo com
da sua realidade - portanto com um passar do tempo conquistou jovens
106

de outras classes econômico-sociais que “a pesquisa qualitativa [...] é


sendo dançada não mais apenas nas realizada principalmente em am-
periferias ou guetos, mas também bientes do cotidiano, como escolas,
nos centros urbanos de cultura e ginásios, instalações esportivas,
lazer. Os dançarinos através de academias e hospitais.” Os autores
uma linguagem artístico-corporal também ressaltam o que foi citado
estão dizendo algo por meio de anteriormente em que “[...] o aspec-
seus corpos, lutando por um ideal to mais importante da pesquisa qua-
e questionando o sistema de justiça litativa é o conteúdo interpretativo,
social no qual estão inseridos. e não o excesso de preocupação
A grande maioria das es- com o procedimento”, ou seja, a
colas públicas brasileiras apresenta prioridade é o processo e não o
em sua realidade estas diferenças
produto final.
sociais, por isso o Break pode
Também optamos por utili-
sim ser um conteúdo significativo
zar a metodologia de pesquisa-ação,
para os alunos, visto que além de
no qual nos proporcionou a possibi-
desenvolvermos aspectos afetivos,
cognitivos e motores estaremos lidade de inserimos de forma partici-
debatendo e refletindo assuntos pativa na produção de conhecimen-
polêmicos, como a desigualdade so- tos com os sujeitos, ou seja, com os
cial e os preconceitos relacionados alunos. A pesquisa-ação como nos
a ela, sendo que estes fazem parte mostra Thiollent (2005, p.16):
da vida em sociedade.
[...] é um tipo de pesquisa social
com base empírica que é conce-
Aspectos metodológicos
bida e realizada em estreita asso-
ciação com uma ação ou com a
O presente estudo se iden- resolução de um problema cole-
tifica com as características da pes- tivo e no qual os pesquisadores
quisa qualitativa, pois esta faz uso da e os participantes representa-
interpretação e análise da realidade tivos da situação ou problema
estudada buscando a compreensão estão envolvidos de modo coo-
do contexto da mesma de forma in- perativo ou participativo.
terpretativa. Para esta metodologia o
ambiente estudado é um meio repleto Na pesquisa, estivemos
de sentidos e significados que podem envolvidos com os participantes, na
ser investigados e analisados. aplicação das diversas possibilida-
Os autores Thomas; Nel- des de ensino da Dança Folclórica
son e Silverman (2007) explicitam e da Dança de Rua por meio dessa
Ano XX, n° 31, dezembro/2008 107

metodologia coletiva, discutimos aulas, para que os mesmos relatas-


e refletimos sobre a produção de sem a visão que possuem sobre o
conhecimentos, que para Thiollent conteúdo Dança na escola.
(2005, p.17): Em um segundo momento,
aplicamos a questão aberta citada
Na pesquisa-ação os pesquisa- anteriormente e iniciamos as aulas
dores desempenham um papel com o conteúdo Dança, totalizan-
ativo no equacionamento dos do dez aulas sendo estas voltadas
problemas encontrados, no para o conteúdo específico Dança
acompanhamento e na avalia- Folclórica e Dança de Rua e pau-
ção das ações desencadeadas tadas por uma práxis pedagógica4.
em função dos problemas. Sem Por meio da aplicação das aulas e
dúvida a pesquisa-ação exige a análise de conteúdo das respostas
uma estrutura de relação entre dos alunos nos possibilitaram subsí-
pesquisadores e pessoas da si-
dios para a discussão de resultados
tuação investigada que seja de
da pesquisa.
tipo participativo [...].
Os (des) caminhos perante o
Portanto, aplicamos a desafio
pesquisa em uma Escola Estadual
do Município de Boa Ventura de Iniciamos as reflexões,
São Roque - Paraná, tendo como partindo da analise e interpretação
sujeito alunos de 5ª e 6ª série da realidade na qual foi realizada a
dessa escola. Para realização da pesquisa. A primeira aula ministrada
coleta de dados utilizamos como em sala teve como principal objeti-
ferramenta de pesquisa um diário vo conhecer a visão que os alunos
de campo, no qual anotamos todos possuem do conteúdo Dança, para
os aspectos relevantes das aulas assim tentar identificar alguns fatores
ministradas, sejam estes positivos que poderiam dificultar ou facilitar
ou negativos frente a aplicação do o desenvolvimento das aulas. Para
conteúdo. Também foi aplicada tal procedimento elaboramos uma
uma questão aberta para os alunos questão aberta, em que os alunos
com o seguinte questionamento: escreveram o entendimento sobre
“O que é dança para você?” Esta Dança. As manifestações referentes
aplicada antes da realização das a esse questionamento foram:

4 Utilizamos o termo “práxis” nesse trabalho para retratar a não dissociação da teoria e prática, ou
seja, partimos do princípio que nenhuma teoria está desvinculada da prática e vice versa.
108

A dança é meu esporte favorito Na primeira aula identifi-


é o que eu mais gosto! (aluno camos que a Dança é um conteúdo
da 5ª A). pouco trabalhado na Educação Fí-
sica, seu ensino ainda esta focado
Dança é um esporte, só que ao apenas em reproduções coreográfi-
invés de usar bola, bambolê, cor- cas para apresentações em eventos
da é praticado com música e tem escolares. O esporte é o conteúdo
que mexer o corpo.[...] eu gosto
predominante nas aulas e através
de música, que eu me lembre ne-
disso percebemos que para os
nhum professor trabalhou dança
alunos tudo é considerado esporte
comigo (aluna da 5ª A).
inclusive a Dança a qual não possui
A dança para mim é uma forma tal objetivo na escola.
de se exercitar e mostrar o ta- Diante deste contexto,
lento tanto na escola como no utilizamos na segunda aula alguns
palco, para dançar precisamos jogos rítmicos como forma de inse-
fazer exercícios e decorar tudo rirmos o conteúdo, porém encon-
na cabeça para não fazer errado tramos alguns obstáculos, um deles
em alguma apresentação (Alu- foi o espaço, visto que as turmas são
na da 6ª A). grandes limitando a realização das
atividades, outra dificuldade encon-
Dançar as vezes é bom as vezes trada foi a falta de concentração e
é ruim, a dança é algo impor- também a aceitação dos mesmos
tante para aprender em bailes e perante um novo conhecimento.
em festas (Aluno da 6ª A). Por meio do diário de
campo constatamos as seguintes
Eu gosto um pouco de dança,
observações:
para mim dançar é balançar,
se exercitar e se divertir. Coisa
Como fazer essa aula de dança
mais boa é dançar! (Aluna da
na sala professora? A turma é
6ª A).
grande não tem espaço! (Aluno
6ª A).
Através da dança a pessoa mos-
tra se ela é extrovertida ou tími- Eu acho melhor nos irmos ao cam-
da, expressa alegrias e emoções po jogar futebol! (Aluno 5ª A).
(Aluno 6ª A).
Quero aula prática aula na sala
Bom para mim dança é criativi- não é aula de Educação Física!
dade (Aluna 5ª A). (Aluna 6ª A).
Ano XX, n° 31, dezembro/2008 109

Percebemos por estas falas Homem não dança? (Aluno 5ª


o quanto a disciplina de Educação A).
Física está vinculada as aulas fora
da sala. Esta realidade esta estrita- Eu acho que nós não dançamos
mente associada a identidade que porque temos muita vergonha
a Educação Física foi construindo (Aluna 6ª A).
através do tempo, ou seja, o que
era determinado anteriormente por Eu tenho muita vergonha! (Alu-
na 6ª A).
diferentes instituições sendo estas
baseadas em modelos médicos,
Diante destas respostas,
militares e esportivos, permitindo
percebemos os obstáculos que
um esvaziamento de conteúdos.
iríamos encontrar principalmente
Outro momento realiza-
do neste trabalho foi a aplicação nas vivências das danças. Os mais
de mais uma aula em sala, após a evidentes seriam a timidez e al-
exposição do conteúdo relacionado guns preconceitos principalmente
as danças folclóricas, conteúdo este no que tange a questão de gênero
escolhido porque faz parte da reali- menina e menino.
dade desses alunos, que conforme Discutindo tais obstáculos,
Paraná (2008) propõe que o profes- percebemos que os meninos ao
sor poderá desenvolver a vivência serem questionados a justificarem o
de uma dança próxima ao cotidiano porquê da recusa a dançar, utilizam
de seu aluno, para depois realizar da timidez como principal justifi-
uma dança de acesso restrito a ele. cativa, porém verificamos que eles
Após discutir os aspectos históricos apenas fazem desta um meio para
das danças folclóricas principal- não manifestarem os preconceitos
mente do “xote”, da “rancheira” embutidos nas relações “homem/dan-
e da “vaneira”5 discutimos com os ça, masculinidade/feminilidade”.
mesmos sobre o assunto, expondo Ainda prepondera no dis-
idéias e eventuais dúvidas como as curso de muitos alunos a visão
que apresentamos a seguir: de que a dança é uma expressão
exclusivamente feminina, mesmo
A dança é importante só para vivendo em um país em que muitos
quem quer se profissionalizar? grupos de dança são formados por
(Aluno 5ª A). homens como as danças de rua,

5 Danças folclóricas procedentes do Estado do rio Grande do Sul, que são bastante utilizadas no
Município onde a pesquisa foi realizada como forma de lazer.
110

de salão, capoeira, entre outras, surpresos com os sentidos e signifi-


que não estão apenas relacionadas cados desta manifestação da cultura
com a fragilidade e delicadeza da Hip-Hop. Observamos algumas ver-
bailarina clássica, mas sim a força balizações por parte dos alunos:
e a virilidade do homem brasileiro
(MARQUES, 2007). Então esta dança pode ser con-
A partir da realidade en- siderada uma forma de protesto
contrada e da analise de algumas li- as injustiças na sociedade? (Alu-
teraturas, constatamos que uma das no 5ª A).
justificativas nas quais o professor
não trabalha dança em suas aulas, Essa disputa na dança e não na
é a falta de aceitação dos alunos briga é bem legal (Aluno 5ª A).
especialmente do sexo masculino.
Além disso, questões estruturais e Ao analisarem alguns as-
falta de conhecimento específico pectos referentes ao Break, os alu-
em relação ao conteúdo Dança são nos puderam compartilhar algumas
evidentes em tal realidade. idéias. Como relatamos anterior-
Partindo destas analises e mente constatamos a importância
tomando como referencia o exem- de compreender que a dança foi
plo dado por Marques (2007) ante- utilizada por seus “criadores, atores
riormente, buscamos na dança de sociais”, como uma mobilização
rua, no caso especifico do Break, grupal na busca de uma inclusão
mostrar aos alunos a dança como social, de uma vida digna para os
uma atividade comum a ambos os jovens das periferias, assim esse
sexos, ou seja, este conteúdo tinha modo de vida se opunha a violência
o objetivo de “quebrar as barreiras” tão presente na sociedade atual.
do preconceito de gênero, visto que Apesar de alguns obstácu-
o Break tem como principais adeptos los encontrados ao ministrar a aula
representantes do sexo masculino. em sala - visto que a ênfase apenas
Por meio de aula em sala na prática ainda perpetua na maio-
expondo o assunto relacionado ago- ria das escolas - a aula foi produtiva
ra a dança de rua, oportunizamos e despertou o interesse dos alunos
aos alunos conhecer um pouco de que ficaram ansiosos para produzir
uma dança a qual está um tanto os conhecimentos nas vivências.
quanto distante da realidade dos A aplicação da primeira
mesmos. Todos mostraram bastante aula foi marcada por acontecimen-
interesse ao conhecer esta dança tos similares em ambas as turmas,
historicamente, ficando bastante tais como:
Ano XX, n° 31, dezembro/2008 111

a) A separação meninos e (NANNI, 2002). O professor deve


meninas; mostrar ao aluno que a dança é uma
b) Participação pouco efetiva arte composta por movimentos uni-
das turmas; versais, comum a todos os povos e
c) A turma na sua grande a expressividade libertada por meio
maioria apresenta grande difi- dela é inerente a cada sexo.
culdade de coordenação nos É comum na atualidade
movimentos, sendo que tais a Educação Física e consequente-
são compatíveis com seu nível mente a dança serem considerados
de desenvolvimento motor; sinônimos de “aula vaga”. Outra
d) Timidez foi o principal situação recorrente é esse conteúdo
obstáculo, ou desculpa para ser vivenciado na escola apenas nas
não participar; festas juninas, ou outros eventos,
e) Preconceitos no que tange este conteúdo é parte integrante
as questões de gênero. do planejamento do professor e,
portanto, deve ser vivenciado.
Considerando que este No decorrer das aulas a
foi o primeiro contato dos alunos participação dos alunos que era
com o conteúdo dança folclórica, um dos fatores mais preocupantes,
percebemos que estes possuem passou a ter melhoras significativas.
muitas limitações, como podemos A cada aula aplicada presenciamos
observar: evoluções tanto no aspecto motor
quanto na socialização. A preo-
Queremos jogar bola professo- cupação dos meninos em estarem
ra! (Aluno 6ª A) “perdendo tempo”, deixando de
jogar futebol foi diminuindo e estes
Deixa nós jogar bola, as me- passaram a se interessar pela aula,
ninas ficam na sala dançando principalmente quando iniciamos as
(Aluno 5ª A). vivências do Break, que conseguiu
superar fragilidades iniciais.
O preconceito dos meni- As aulas de Break foram
nos em relação a dança, a conside- compostas por três fases a primeira
rando uma atividade tipicamente contemplava a vivência de alguns
feminina, talvez tenha origem “no passos, a segunda deu liberdade
conceito errôneo da sociedade mo- para que os alunos transformassem
derna que coloca a sensibilidade, os passos vivenciados e a terceira foi
fundamental ao trabalho criativo a de criação e apreciação, em que
como uma característica feminina” os alunos em grupos criaram suas
112

próprias coreografias e apresenta- vido pelos mesmos podemos cons-


ram para a turma. tatar que a maioria compreendeu os
Descrevendo mais deta- objetivos do conteúdo Dança, valori-
lhadamente cada uma dessas fases zando os conhecimentos produzidos
percebemos que os alunos se sen- por meio da aplicação do mesmo nas
tiram capazes e praticamente todos aulas de Educação Física, essa idéia
desenvolveram a proposta da aula, é confirmada por alguns relatos os
apesar das dificuldades motoras, quais podem exemplificar de forma
cada um dançou dentro de seus li- mais consistente alguns objetivos
mites, “cada um fez a sua dança”. alcançados:
No momento em que pro-
pusemos aos alunos formarem Eu achei esplendido, porque eu
grupos e criarem suas próprias co- não imaginava que a pessoa po-
dia inventar passos para dançar!
reografias de Break a partir dos co-
(Aluna 5ª A).
nhecimentos produzidos até então,
sentimos realmente a importância
Eu achava que a dança era um
de proporcionar ao aluno momen- obstáculo para mim, eu tinha
tos de espontaneidade e liberdade vergonha porque não sabia dan-
de criação, para que este desenvol- çar. Formamos um grupo com os
va seu potencial criativo. Diante meninos que quase nunca dança-
deste contexto, lembramos o que vam, não é querer se gabar, mas
Barreto (2008) enfatizou, nos mos- foi um “show” os “Free Boys”
trando que a escola não deve adotar (nome escolhido por eles para o
uma metodologia para o ensino da grupo) detonaram! (Aluno 6ªA).
dança que esteja focada apenas em
cópias e repetições coreográficas, Primeiro nós sentimos muita
exigindo que os movimentos sejam vergonha, mas depois a vergo-
executados de forma que todos es- nha passou e nós até apresen-
tejam perfeitamente iguais inibindo tamos uma coreografia, deu um
“friozinho na barriga”, mas nós
a expressividade do aluno.
dançamos bem! (Aluno 5ª A).

Considerações finais: eu danço, Quando a professora falou em


você dança, nós dançamos! dança eu já pensei que era
chato, mas quando dançamos
Após a aplicação das aulas, daí percebi que era bem bom.
em conversa com os alunos e por Quando eu comecei a dançar
meio de um relatório final desenvol- eu era “duro”, não se mexia,
Ano XX, n° 31, dezembro/2008 113

ficava só parado por causa da que seria o “ideal” na aplicação de


minha timidez. Comecei a dan- aulas de Dança, mas sim mostrar
çar e minha timidez foi embora que é possível oportunizar o aluno
e daí ficou mais legal ainda, fi- o acesso as mais diversas formas de
zemos grupos criamos passos e conhecimento no processo ensino
apresentamos, foi muito legal! aprendizagem da Educação Física
(Aluno 6ª A). no ambiente escolar.
Constatamos que os ob-
jetivos do trabalho foram alcança-
Eu não gosto de dança e não
dos e que ao realizarmos diversas
participei porque não gosto de
reflexões em relação ao conteúdo
dançar, mas eu gosto de jogar
Dança nas práticas pedagógicas
bola! (Aluno 5ªA).
da Educação Física reconhecemos
que há muito que superar no que
Pela primeira vez a dança é mui- se refere ao seu ensino, pois, por
to legal! Pela primeira vez é mui- meio dos dados coletados na pes-
to legal dançar! (Aluna 5ªA). quisa nos permitiram pontuar a
ausência de aulas deste conteúdo
Verificamos que por meio e consequentemente de métodos
de métodos de ensino do conteúdo mais significativos para o trato com
Dança, os quais sejam compatíveis este conhecimento.
com o nível de desenvolvimento do Nesse sentido, salienta-
aluno e com sua realidade foi possí- mos que o professor de Educação
vel inseri-lo de forma significativa nas Física deve oportunizar o ensino
aulas. Sendo assim por meio das pos- deste conteúdo o qual é um dos
sibilidades metodológicas de ensino temas da cultura corporal assim
do conteúdo Dança utilizada nesta como o jogo, as lutas, o esporte e
pesquisa observamos que na aplicação a ginástica deixando de lado o es-
deste ou de qualquer outro conteúdo, tereótipo de que seu único espaço
precisamos valorizar as ações criativas de atuação são as quadras e que seu
e espontâneas dos alunos. saber científico se limita somente ao
Nesse sentido, a aplicação ensino do esporte.
de todo e qualquer conteúdo deve
nortear uma prática pedagógica
compatível com a realidade em que Referências
os alunos estão inseridos. Portanto,
não buscamos por meio desta pes- BARRETO, Débora. Dança...:
quisa revelar um “receituário” do ensino sentidos e possibilidades
114

na escola. 3. ed.- Campinas, SP, Física: Propostas de ensino da


Autores Associados, 2008. Dança e o universo da Educação
BRACHT, V. Pesquisa em ação. Física- Jundiaí, SP: Fontoura,
BREGOLATO, Roseli Aparecida. 2002.
Cultura corporal da dança. São SOARES et al. Metodologia do
Paulo: Ícone, 2000. Ensino de Educação Física. São
MARQUES, Isabel A. Dançando Paulo: Cortez, 1992.
na escola – 4ª. ed. - São Paulo: THIOLLENT, Michel. Metodologia
Cortez, 2007. da pesquisa-ação. São Paulo:
NANNI, Dionisia. Dança Educação Cortez, 2005.
– Princípios, métodos e técnicas. THOMAS, Jerry. R. NELSON.
Rio de Janeiro: 4ª edição: Sprint, Jack K. SILVERMAN, Stephen
2002. J. Métodos de Pesquisa em
_______. Ensino da Dança. Rio de Atividade Física. Tradução de
Janeiro: Shape, 2003. Denize Regina Sales, Márcia
OSSANA, Paulina. Educação pela dos Santos Donelles. 5ª. edição.
Dança. São Paulo, Editora Porto Alegre: Artmed, 2007.
Summus, 1988. VILELA, Lilian Freitas. O corpo
PARANÁ. Secretaria de Estado da que dança: os jovens e suas
Educação. Superintendência tribos urbanas. Data da defesa:
da Educação. Diretrizes 27-11-1998. 248 folhas. Nível:
Curriculares de Educação Física Dissertação (mestrado) em
para a Educação Básica. Curitiba, Educação Física - Universidade
2008. Disponível em: http:// Estadual de Campinas. Faculdade
www.diaadiaeducacao.pr.gov. de Educação Física, Campinas,
br/diaadia/diaadia/arquivos/File/ SP.
livro_e_diretrizes/diretrizes_
educacaofisica_2008.pdf.
RANGEL, Nilda Barbosa Cavalcante. Recebido: 10/fevereiro/2010.
Dança, Educação, Educação Aprovado: 25/abril/2010.