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A MULHER NO ESPAÇO PÚBLICO – UMA REFLEXÃO ACERCA DO

PROCESSO DE URBANIZAÇÃO CONTEMPORÂNEO E DA (NÃO)


PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO

Clarice Fernandes Rodrigues

Resumo:
Diante dos desafios enfrentados pelo planejamento urbano contemporâneo, fica evidente a
necessidade de se pensar diferentes formas de planejar a cidade, através de um urbanismo mais
inclusivo e perceptivo. O território nacional foi genericamente construído como espaço enquanto
valor de troca, em detrimento do espaço enquanto valor de uso, como resultante disso a cidade se
torna impessoal, acessada somente sob sua faceta mercadológica, deixando dúvidas quanto a real
legitimidade do planejamento que insiste em manter uma lógica racionalista e tecnocrata, com
lapsos de participação social, sempre favorável à acumulação do capital. Pouco se fala sobre um
planejamento urbano voltado para a perspectiva de gênero, sendo as mulheres historicamente
excluídas da produção do espaço urbano, desde o advento das cidades, exclusão essa que se mantém
hoje adaptada a uma sociedade patriarcal, hierarquizada e capitalista. Essa exclusão é refletida em
espaços de insegurança e vulnerabilidade, que moldam a forma com que as mulheres vivenciam e se
apropriam das cidades. O debate em questão é uma forma de afirmar a importância de incorporar,
na produção do campo da Arquitetura e do Urbanismo, soluções para as especificidades das
vivências de grupos sociais vulnerabilizados, marcando a necessidade de incluir mulheres no
planejamento das cidades, como agentes transformadoras e usuárias do espaço urbano.

Palavras-chave: gênero, espaço urbano, espaço público, mulher, planejamento urbano

Planejamento urbano contemporâneo

Ana Fani Alessandri Carlos, inicia seu texto “A lógica do planejamento versus a dialética do
mundo”, traçando os três grandes desafios do planejamento urbano contemporâneo.

O primeiro seria pensar como para além de problemas imediatos localizados em espaços sociais
específicos, planejar tendo em vista o futuro, sobre as estruturas dadas e articulando os impactos
territoriais de determinadas ações. Por exemplo: como estabelecer melhorias sanitárias e viárias em
um assentamento precário sem implicar ali efeitos especulativos que possam causar evasão dessa
população local? Ou, como gerir medidas municipais de grande escala como a construção de um
porto, de um condomínio de luxo, ou a abertura de uma cava de mineração, que se produzem
reações e impactos diretos em outros municípios?

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O segundo desafio seria como adequar o planejamento ao que aparece como “novo” na conjuntura
atual, a latente troca de hegemonia do capital industrial pelo capital financeiro, que intensifica a
cidade como objeto de especulação, espremendo o espaço público entre rotatórias e
estacionamentos, estabelecendo espaços de convívio dentro de espaços privados, como os
shoppings centers, intensificando a setorização social da cidade, fazendo da gestão urbana uma
gestão de mercado de finanças urbanas. E, por outro lado, a presença do povo se manifestando nas
ruas, reivindicando a ação do Estado em fazer valer o direito à cidade.

O terceiro, seria o exercício crítico diante o fato de que após “50 anos de planejamento e ação
estatal as desigualdades sociais permanecem”. Fani tece um par de dúvidas a respeito deste terceiro
desafio:

[...] Será que o planejamento tem a potência, na sociedade capitalista – que se fundamenta exatamente
na desigualdade – de superar sua própria condição inicial visto que o planejamento, sua orientação e
realização como ação e política de classe, está na origem das contradições vividas num país
dependente, como o Brasil? Até que ponto não seria possível pensar exatamente o contrário; isto é, as
contradições vividas são acentuadas pelas ações planificadoras orientadas pelo crescimento visando ao
e reforçando o poder de classe? (CARLOS, 2014, p.27)

E pondera:

Na realidade, é possível afirmar que as ações nas ruas e os movimentos sociais colocam em xeque o
planejamento da cidade por meio do questionamento da orientação das políticas espaciais, dirigidas
pelo processo de valorização do capital em detrimento da realização da vida. [...] Essa perspectiva nos
desafia a pensar o modo como se atualiza o conteúdo (e a forma) da alienação no mundo moderno e,
com isso, as condições objetivas e subjetivas nas quais a vida urbana se realiza, apontando as formas
de provação/privatização. (CARLOS, 2014, p.27)

O capitalismo é antes de tudo um fenômeno social, um dispositivo de arranjo social, logo suas
crises são fenômenos igualmente sociais. O tecnocratismo hegemônico na gestão do capital é o
maior agravante de seu potencial (e de sua ação) socialmente e ambientalmente inconsequente, que
ao se reproduzir “aprofunda-se: extrema concentração de renda, aumento do desemprego,
deterioração do emprego formal e fome, por exemplo, são os desdobramentos de uma história
anunciada.” (CARLOS, 2014, p.28)

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O território nacional foi genericamente construído como espaço enquanto valor de troca, em
detrimento do espaço enquanto valor de uso, como resultante disso a cidade se torna impessoal,
acessada somente sob sua faceta mercadológica.

A extensão do capitalismo imprime uma nova velocidade às mudanças, apoiada numa aliança entre os
setores econômicos e o Estado, que, por sua vez, assume importância fundamental para a organização
de um espaço voltado prioritariamente às exigências da reprodução econômica. Tal amálgama
propicia a construção da infraestrutura física, a criação de instrumentos fiscais e a política monetária
para que a valorização do capital (como fonte de crescimento) se realize superando suas próprias
crises – daí o papel importante do planejamento para o desenvolvimento da economia sob o
fundamento neoliberal. Nesta orientação, a terra e o solo urbano passam a ter um novo significado,
são em si fonte de valorização – orientando as políticas públicas que afetam diretamente o uso do
espaço, e, portanto, sua reprodução. (CARLOS, 2014, p.30)

Dessa forma, as pressões do capital na cidade se dão de forma genérica, fazendo valer seus valores
mundializados em todos os setores de sua estrutura fragmentária. Essas pressões atacam
diretamente a morfologia da cidade, transformando seus espaços, localizando novas centralidades,
gentrificando, localizando os setores sociais e estabelecendo suas identidades: condomínios
fechados, conjuntos do Minha Casa Minha Vida faixa 1, favelas, bairros de classe média, etc.;
externo a um eixo de valor de consumo, o espaço público vai sendo gradativamente sufocado, seja
pela privatização, seja pelo abandono das gestões urbanas.

[...] As constantes mudanças culminam no eclipse da rua, promovido pelo modelo rodoviarista, na
deterioração e no empobrecimento dos espaços públicos e, com eles, do próprio sentido do espaço
público, degradando ou inviabilizando as relações entre os cidadãos. (CARLOS, 2014, p.31)

[...] Nesta perspectiva, o planejamento restabelece a eficiência econômica da cidade no movimento de


acumulação. (CARLOS, 2014, p.35)

[...] A sociedade empobrecida tende a reduzir-se a signos; o corpo ao olhar; o habitante a espectador.
(CARLOS, 2014, p.34)

Essa pressão exercida pelo capital sobre a cidade e o cidadão, que se reforça na constante
substituição do valor de uso pelo valor de troca, se sustenta em “uma passividade cuidadosamente
controlada” (CARLOS, 2014, p.33), como resultante dessa alienação o cidadão passa a observar a
cidade com estranhamento e já não se reconhece plenamente diante do espaço mutante.

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Essa conjuntura aponta duas perspectivas de encarar o espaço urbano, a do plano da lógica
racionalista, que encara a cidade como “mundo inerte sobre a prancheta” e opera sobre dados,
estatísticas, projeções e simulações, sem uma realidade pressuposta, sintetizando e codificando o
espaço e um “espaço sem espessura”, “subordinando as relações sociais às manipulações
quantitativas”.

[...] Desse modo, ele representa a vitória da ordem – calculada na racionalidade lógica sobre as
possibilidades de transformação social – numa ação política que redefine e cria fronteiras no espaço
como desdobramento da propriedade, separando o vivido do concebido que sustenta a ação política.
(CARLOS, 2014, p.37)

Outra perspectiva seria a das práticas sociais, a do plano da dialética, protagonizada pelos
movimentos sociais (e também pelas manifestações) que:

[...] a) eles não aceitam, apenas, o convite do Estado (dos bem intencionados) para participar
residualmente da gestão (e assim manifestando-se institucionalmente de forma consentida), eles
querem decidir sobre a totalidade da gestão. Querem decidir como participar, como orientar a ação
portadora de um projeto, social restituidora de direitos; b) questionam as alianças políticas em jogo
apontando a necessidade de um projeto possível-impossível no sentido em que este não se realiza no
“aqui e agora” (portanto no tempo presente) nem se volta para solucionar urgências, mas passando por
essas necessidades imediatas, orientam o futuro; c) sua existência aponta a necessidade de algo mais
amplo e profundo, um projeto cujo conteúdo aponte para realização do humano, fundamento da
construção real do direito a cidade numa escala temporal que diz respeito ao futuro, sendo assim um
projeto necessário para orientar o presente em direção a um futuro outro. A realização do fim da
alienação requer o fim da cidade tal qual construída ao longo do processo histórico. (CARLOS, 2014,
p.37)

Diante dessas duas perspectivas levantadas por Fani, fica a dúvida quanto à real legitimidade do
planejamento contemporâneo, que insiste em manter uma lógica racionalista, com lapsos de
participação social, sempre em detrimento do crescimento do capital.

É necessário se pensar diferentes formas de planejar a cidade. Jane Jacobs (2009) entra, já em 1967,
com a discussão de um urbanismo mais inclusivo e perceptivo, onde ela defende que é preciso
observar a cidade em todos os seus detalhes e procurar trabalhar na escala do pedestre. Jacobs
(2009) defende que o mais importante é haver um plano geral com base na realidade social,
ambiental e econômica, mas que é preciso ainda haver planos parciais, planos especiais e estudos
detalhados, para que finalmente o projeto seja desenvolvido e executado.

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Esse novo urbanismo inclusivo, deve desenvolver capacidades de e modos diversos, preparados
para atender a todo o espectro social, incluindo os mais frágeis e excluídos das atuais formas de
planejamento. Dizer sobre os mais frágeis significa, mais amplamente, as pessoas de classe social
baixa; mais especificamente, as crianças, as pessoas com deficiência, os idosos e sobre tudo as
mulheres, que, como veremos mais adiante, são excluídas da produção do espaço urbano desde o
advento das cidades. Exclusão essa que se mantêm até hoje, adaptada a uma sociedade patriarcal,
hierarquizada e capitalista.

A mulher no planejamento da cidade

Os modos de produção do espaço urbano, historicamente desconsideram as mulheres. Isso pode ser
facilmente verificado com uma breve retomada histórica do processo de urbanização da civilização
humana.

O modelo de urbanização romano, considerado um dos melhores do mediterrâneo (López, 2014),


teve seu conceito de espaço público e de compartilhamento idealizado e concebido pelo e para o
gênero masculino.

O homem ficaria responsável pelo sustento de sua família, ao mesmo tempo em que, se engajava
politicamente e garantia a segurança do território familiar, enquanto a mulher, permaneceria em seu
ambiente doméstico, protegida dos possíveis perigos que poderiam atingi-la caso desbravasse os
além-muros deste território familiar.

Nas cidades gregas, as relações sociais aconteciam em espaços identificados em função do gênero
masculino: o desenrolar das tarefas políticas, a gestão dos negócios, a realização de ofícios e
desempenhos sacerdotais, só poderiam ser consolidadas em espaços públicos concedidos aos
homens livres. Inclusive as atividades lúdicas, como os espetáculos circenses, as corridas de cavalos
e as lutas de gladiadores.

As áreas exclusivamente femininas raramente se expressavam nas estruturas da cidade antiga, com
a única exceção de templos dedicados à uma deusa, que recebia algumas mulheres mães durante
alguns dias do ano, quando eram celebradas festas para honrar à sua divindade. Mesmo assim, esses
templos femininos se encontravam nas periferias das cidades, enquanto os templos de divindades
masculinas se localizavam no centro.

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Os fóruns em praças públicas, que os gregos denominavam ágora, onde os cidadãos se reuniam em
assembleias à deliberarem sobre suas demandas, também eram frequentados apenas por homens.
Em torno dessa praça pública ficavam grandes edifícios destinados aos deuses, de cunho político,
judiciário e econômico, onde somente os homens teriam acesso.

A divisão público-privada, nesta perspectiva de gênero nos espaços da cidade antiga, pode ser
renomeada público-doméstica. Enquanto as mulheres permaneciam a maior parte do tempo dentro
de suas casas, os homens estavam autorizados e, nesta perspectiva excludente, aptos a frequentar o
espaço exterior ao da residência.

Dando um salto na história, pensando sobre esse modelo de urbanização, pode-se considerar que
apesar de ter sofrido algumas mudanças, a questão da subordinação da mulher e de sua ausência na
produção do espaço urbano continua muito pequena, quando não nula, podendo ser esse o fator
crucial que explica como são diferentes as formas de apropriação do espaço urbano entre os homens
e as mulheres.

Mildred Warner, professora de planejamento urbano na Universidade de Cornell nos Estados


Unidos, levanta a questão sobre um planejamento mais inclusivo:

“Se perguntar 'uma mulher se sentiria segura andando aqui à noite?' e obter uma resposta positiva
provavelmente significa que a maioria das pessoas se sentiria confortável usando aquele espaço.
Mulheres podem ser usadas como um termômetro para a segurança e outras prioridades em
planejamento.” (Warner apud Vieira, 2016, p.17)

Estupros, altos índices de feminicídio, desvalorização profissional, assédio, objetificação do corpo,


responsabilidade pelo papel reprodutivo e falta de representatividade nas diversas instâncias são
apenas algumas das questões que as mulheres enfrentam diariamente, fatores que geram cada vez
mais insegurança e vulnerabilidade e que acabam moldando a forma com que as mulheres
vivenciam e se apropriam da cidade.

Por exemplo, uma mulher nem sempre escolhe um trajeto de deslocamento urbano pela sua
distância, mas também, pela sensação de segurança que esse caminho proporciona. Quando há falta
de iluminação, pouco movimento e falta de visibilidade (pontos cegos), é bem provável que a
mulher mude seu percurso, mesmo que isso signifique andar mais. Nesse sentido, o desenho urbano

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afeta diretamente a vida das mulheres, ao propor, ou não, soluções que evitem esse tipo de
configuração espacial segregante.

A mulher acaba moldando seus comportamentos a partir de imposições de um espaço produzido


pelos homens e para os homens, dessa forma, é importante que o Planejamento Urbano e os projetos
de Espaços Públicos reconheçam essa segregação de gênero e, sempre que possível norteiem suas
decisões de projeto sob a perspectiva feminina tendo como objetivo o acesso de mulheres à cidade.

Quando construímos ambientes urbanos a partir de perspectivas privilegiadas ao longo da história,


violamos a ideia de cidades para todos. Os direitos e necessidades do público feminino devem ser
contemplados no planejamento das nossas cidades, e para que isso ocorra, a participação das mulheres
em todas as etapas do processo deve ser ativa. A presença delas na política, governanças locais,
associações de moradores e entre tomadores de decisão é fundamental para que suas vozes sejam
ouvidas e suas necessidades representadas. (COURB Brasil, 2016)

No Brasil, essa luta pelo envolvimento da mulher nos espaços e decisões públicas não é algo
recente, segundo Lucia Avelar, em seu texto ‘A mulher no espaço público brasileiro’ (AVELAR,
sem data), acontece desde as mulheres que reivindicaram e lutaram pelo direito ao voto, concedido,
até então, exclusivamente aos homens proprietários de terras e com renda estipulada, luta essa se
estendeu até a década de 1930; em seguida, com algumas mulheres que se organizaram em formato
de federação, na década de 1950, que ampliaram as reivindicações por direitos iguais; as mulheres
que se envolveram em movimentos de esquerda, nas ditaduras do continente; os sempre presentes
movimentos de mulheres nas periferias urbanas; e ainda, a abertura de participação e o aumento da
representação dos movimentos feministas.

É importante deixar clara a perspectiva feminista tratada aqui, para isso utilizo como referência
Silvia Federicci em seu ensaio “O feminismo e as políticas do comum em uma era de acumulação
primitiva” de 2014. Essa perspectiva “se refere a um ponto de partida formado pela luta contra a
discriminação sexual e pelas lutas sobre o trabalho reprodutivo1, que (nas palavras de Linebaug2) é

1
O trabalho reprodutivo engloba todo o trabalho realizado na esfera privada e familiar, como os cuidados com
crianças, adultos dependentes e pessoas doentes. Esse trabalho quase sempre não é pago e bastante desvalorizado,
sendo geralmente desempenhado pelas mulheres. O trabalho produtivo é todo aquele que resulta na produção de
bens e serviços com valor econômico no mercado, realizado na esfera pública e profissional.

2
Silvia Federicci usa como referência A Carta Magna Manifesto de Peter Linebaugh: LINEBAUGH, Peter. The Carta
Magna Manifesto: Liberties ands Commons dor All. Berkley: Universiti of California Press, 2007.

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a pedra angular sobre a qual se constrói a sociedade, e a partir da qual deve ser analisada toda
organização social” (FEDERICCI, 2014, p.147).

A discussão do feminismo, nesse caso, deve entrar em pelo menos dois âmbitos na questão da
produção das cidades: o econômico, uma vez que as mulheres compõem o grande corpo produtivo
do capital, sendo maioria, logo, a matriz da força de trabalho; e na questão das mulheres como
protagonistas da revolução, da reforma urbana e das transformações da sociedade, pois para romper
com toda essa lógica do espaço é preciso romper com o machismo, uma vez que o patriarcado é o
que dá fôlego ao sistema capitalista e, consequentemente, ao sucateamento da vida urbana.

As Mulheres e o Comum

Diante da proposta de pensar uma cidade sob a perspectiva de um planejamento feminista, talvez a
noção de comum, proposta por Silvia Federicci, possa nos ajudar a pensar as possibilidades do
feminino na produção de outros arranjos sociais.

Por exemplo, o que constitui o comum? Os exemplos são abundantes. Temos ar, água e terras comuns,
os bens digitais e serviços comuns. Também se descrevem com frequência como comuns os direitos
adquiridos (por exemplo, as pensões da previdência social), do mesmo modo que se reúnem nessa
denominação os idiomas, as bibliotecas e as produções coletivas de culturas antigas. (FEDERICCI,
2014, p. 147).

O comum é o bem (material ou imaterial), é o contrário à propriedade privada, não se manifesta


como o espaço público, que seria o correlato da propriedade privada, mas se manifesta como
contrário à própria dicotomia público-privado. O comum se manifesta em um lugar dicotômico a
esta dicotomia específica (publico-privado). Da mesma forma, estabelece uma relação que não
encontra correlato nem no estado, nem no capital, estabelecendo assim uma relação dicotômica com
o que seria o Estado-capital. David Harvey em seu livro “Cidades Rebeldes: Do direito à cidade à
revolução urbana”, reitera essa questão, quando disserta sobre o espaço público estatal: “estes
espaços e bens públicos urbanos sempre foram uma questão de poder de Estado e administração
pública, e esses espaços e bens não constituem necessariamente um comum” (HARVEY, 2014, p.
143). Na grande maioria das vezes, esses investimentos públicos estão vinculados a algo que se
assemelha ao comum, mas que têm sua comunalidade encerrada, ou parcialmente encerrada, ao
promover rentismos patrimoniais a proprietários de terras, financeiristas e empreiteiras (HARVEY,
2014). O comum é o contrário dessa dualidade chamada público-privada, ele está em outra

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instância, um terceiro lugar, um lugar pressuposto, anterior à noção de propriedade privada, que
foge dos radares da economia monetária e mercantil (FEDERICCI, 2014).

Comum vem de comunidade, mas é importante entender essa “comunidade” não como uma
realidade fechada em grupos com interesses exclusivos, como aquelas baseadas na religião. A
comunidade citada aqui é entendida “como um tipo de relação baseada nos princípios de
cooperação e de responsabilidade” (FEDERICCI, 2014), entre as pessoas e em relação aos bens
comuns. Um bom exemplo dado por Federicci é um movimento que criou hortas urbanas nos
Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990, graças à iniciativa de imigrantes. Essa produção de
consumo para a vizinhança foge dos padrões comerciais e desperta sobre o fato de podermos, nós
mesmos, ter controle sobre nossa produção alimentar, além de estreitar os laços e expandir os
espaços de encontro e socialização entre as pessoas. Estas comunidades se organizam através da
produção e reprodução destes comuns urbanos.

Para entrar nessa perspectiva feminista da visão de comum, é necessário reconhecer que as
mulheres sempre foram as principais sujeitas do trabalho reprodutivo, e por isso, estariam mais
comprometidas com a defesa do comum, por dependerem mais dele que os homens, para se
libertarem das amarras do processo de acumulação capitalista.

Federicci cita vários exemplos de acontecimentos que elas demonstraram estar à frente nos
interesses da coletividade e de difundir os laços de apoio mútuo, sendo representantes do combate
ao processo de mercantilização total da natureza:

“As mulheres são as agricultoras de subsistência do planeta. Na África, produzem 80% dos alimentos
que a população consome, apesar dos esforços do Banco Mundial e de outras agências internacionais
para convencê-las a dedicar seus esforços aos cultivos comerciais” (FEDERICCI, 2014, p. 151)

“[...] na Índia as mulheres têm lutado para recuperar as matas degradadas e proteger as árvores, unindo
esforços para expulsar os madeireiros e bloquear operações de mineração e de construção de represas”
(FEDERICCI, 2014, p. 152)

“Os ‘tontines’ (como são chamados em algumas regiões da África) são sistemas bancários
desenvolvidos por mulheres, autônomas e autogestionadas, que sob diferentes denominações
proporcionam dinheiro a grupos e indivíduos que não têm acesso aos bancos, e que funcionam
exclusivamente na base da confiança.” (FEDERICCI, 2014, p. 152)

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No Brasil, as mulheres do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), ao conquistarem a
direito de manterem-se nas terras ocupadas pelo movimento, organizam a construção das casas de
forma a manter a lógica dos trabalhos compartilhados: lavar e cozinhar juntas. Elas se organizam de
forma a revezarem-se e fazerem turnos com os homens, assim como faziam durante a luta nos
assentamentos. Elas também se organizam de forma a cuidarem umas das outras, protegendo-se e
socorrendo as companheiras que tenham sofrido algum tipo de agressão por parte dos homens.

Federicci coloca a mulher como sendo a célula comum da família. Essa família, que a tempos faz da
mulher uma espécie de “prisioneira doméstica”, vem como uma base das “novas formas coletivas
de reprodução”, e reitera:

“Hoje em dia, tanto para as mulheres como para os homens, é crucial dar um passo e reconectar nossa
realidade com essa parte da história, para desmantelar a arquitetura de gênero em nossas vidas e
reconstruir nossos lares e nossas vidas comuns.” (FEDERICCI, 2014, p. 157)

Conclusão

A crítica apontada aqui se inicia na estrutura do planejamento contemporâneo como um todo,


mostrando falhas de um processo que, além de tudo, exclui as mulheres. Tal exclusão se dá na não
visibilidade de ações que já estão presentes a tempos, mas que não são vistas, ouvidas e valorizadas.
Trazer o conceito de comum sob a perspectiva feminista nos faz enxergar algumas dessas ações.

“Está profundamente esculpido em nossa consciência que as mulheres foram designadas como o
comum dos homens, como uma fonte de riqueza e serviços colocados à sua disposição, do mesmo
modo como os capitalistas se apropriaram da natureza. Mas, citando Dolores Hayden, a reorganização
do trabalho reprodutivo e, consequentemente, a reorganização da estrutura domiciliar e do espaço
público, não é uma questão de identidade, é uma questão de trabalho e, poderíamos acrescentar, uma
questão de poder, segurança e proteção (Hayden, 1986, p. 230). [...] Afirmar que as mulheres devem
tomar as rédeas na coletivização do trabalho reprodutivo e da estruturação das moradias não significa
naturalizar o trabalho doméstico como uma vocação feminina. É rejeitar a obliteração das experiências
coletivas, do conhecimento e das lutas que as mulheres acumularam em relação ao trabalho
reprodutivo, e cuja a história é parte essencial de nossa resistência ao capitalismo.” (FEDERICI, 2014,
p.157)

Fica a dúvida: como inserir as mulheres no planejamento das cidades de forma que elas tenham a
oportunidade de se tornarem protagonistas do processo, em todas as instâncias? Terezinha de
Oliveira Gonzaga (2011) destaca que:

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“...o Estado deve incorporar em sua estrutura espaços para materialização dessas políticas públicas,
criando ou aparelhando melhor organismos específicos que tratem dessas questões, como
coordenadorias da mulher, secretarias, ministérios e programas específicos em todas as secretarias.”
(GONZAGA, 2011, p. 56)

Porém, acabamos por cair mais uma vez nas questões relacionadas à crise instaurada pelas práticas
do planejamento urbano atual e na necessidade das tais novas formas de planejar. Finalizo o
raciocínio sem uma solução exata, mas com mais uma dúvida: Como efetivar o planejamento de
modo a superar a sua crise interna através do feminismo? Seria possível?

Referências

AVELAR, Lúcia. A mulher no espaço público brasileiro. Sem data. Disponível em:
<academia.edu/10654249/A_Mulher_no_espa%C3%A7o_p%C3%BAblico_brasileiro> Acessado
em 5 Ago 2016.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. A lógica do planejamento versus a dialética do mundo. In:
LIMONAD, Ester; CASTRO, Edna. Um novo planejamento para um novo Brasil? Rio de Janeiro:
Letra Capital, 2014. pp. 25-39.

COURB Brasil. Mulheres no espaço urbano: como fazer cidades melhores para elas? ArchDaily
Brasil, 04 Jul 2016. Disponível em: <http://www.archdaily.com.br/br/790741/mulheres-no-espaco-
urbano-como-fazer-cidades-melhores-para-elas > Acessado em 5 Ago 2016.

FEDERICI, Silvia. O feminismo e as políticas do comum em uma era de acumulação primitiva..


Feminismo, economia e política: debater para a construção da igualdade e autonomia das mulheres /
Renata Moreno (Org.). São Paulo: SOF Sempreviva Organização Feminista, 2014. pp. 145-158.

GONZAGA, Terezinha de Oliveira. A cidade e a arquitetura também mulher: planejamento urbano,


projetos arquitetônicos e gênero. São Paulo, Annablume, 2011.

HARVEY, David. Cidades Rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo, Martins
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JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

LÓPEZ, Rosa M. Cid. Espacyo e genero em La Antigüedad: La ciudad de Roma. Xornadas Muller
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PECCINI, Isabela Rapizo. Cidade: Substantivo Feminino – As desigualdades de gênero e o espaço


público (não) vivenciado pela mulher. Trabalho Final de Graduação, Faculdade de Arquitetura e
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SANTORO, Paula F. Gênero e Planejamento territorial: uma aproximação. Trabalho apresentado


no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Caxambu, 2008.

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TAVARES, Rossana Brandão. Indiferença à Diferença: espaços urbanos de resistência na
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Graduação em Urbanismo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio de
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VIEIRA, Lara Pita. Manul de táticas urbanas emergentes sob a perspectiva de gênero. Trabalho
Final de Graduação, Universidade de Brasília, 2016.

Women in the public space - a reflection on the process of contemporary urbanization and the
(non) participation of women in the production of space

Astract:
In view of the challenges faced by contemporary urban planning, the need to think about different
ways of planning a city, through a more inclusive and perceptive urbanism, is evident. National
territory was generically built as exchange-value space, in detriment of use-value space. As a result,
cities become impersonal, accessed only under its market aspect, leaving doubts in what regards the
legitimacy of such planning, which insists in following a rationalist and technocratic logic, with
lapses of social participation, always in favor of capital accumulation
Urban planning under a gender perspective is rarely discussed - women being historically excluded
from the production of urban space since the advent of cities. Such exclusion continues up to this
very day, adapted to a patriarchal, hierarchical and capitalist societies. This exclusion shows itself
as insecure and vulnerable urban spaces, that shape the way women experience and own cities.
The discussion presented here is wat to state the importance of incorporating solutions for the
specific needs of vulnerable social groups in the field of Architecture and Urbanism, marking the
need to include women as shapers and users of the urban space.
Keywords: gender, urban space, public space, woman, urban planning

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