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O que as religiões explicam sobre a morte

Por Raphaela de C. Mello
access_time11 mar 2013, 12h44

Confira nesta reportagem o que as religiões falam sobre a última (ou não) viagem de nossas vidas

Terapeuta explica que vivenciar o luto é imprescindível para suportar tanto sofrimento e fazer ressurgir um novo
viver 

São Paulo – As religiões ajudam o homem a enfrentar inquietações para as quais a ciência não tem respostas ainda ou
para as quais as repostas da ciência não são suficientes. A morte de um ente querido é uma das piores dores que um
ser humano pode sentir.
Vivenciar o luto é imprescindível para suportar tanto sofrimento e fazer ressurgir um novo viver, como a terapeuta
Adriana Thomaz, especializada no assunto, explica na entrevista sobre o luto, publicada na revista Bons Fluidos.

Abaixo, uma análise do que dizem as religiões sobre a morte e como cada uma delas pode ajudar a superar esse
momento.

Budismo

– Vida e morte são uma unidade, não se separam. Tudo, a cada instante, está nascendo e morrendo e logo não há
nascimento a ser desejado nem morte a ser rejeitada. Dentro do quadro imenso do universo, os seres estão em
movimento e cada um carrega uma personalidade perecível.

O budismo nega o eu eterno. Os seres morrem e renascem abandonando a ideia do que foram. Buda dizia que o corpo
morto é uma carroça quebrada e não se deve arrastar uma carroça quebrada, ou seja, devemos nos desapegar dessa
forma. O budismo japonês não nega nem afirma categoricamente esse processo.

A vertente tibetana aceita a volta do espírito em outras vidas. Para os discípulos dessa corrente, depois da morte do
corpo físico a consciência cumpre 49 etapas em 49 dias, a fim de se reorganizar.

Depois, há o renascimento em algum nível de realidade, seja humano, animal ou inanimado, determinado pelo carma
vivido. Se fatos e circunstâncias influenciaram a vida da pessoa, depois da morte continuam a produzir efeitos e
consequências na trajetória dela.

Os budistas criam alegorias para entender o que acontece depois desse plano – cada um terá sua própria experiência.
Portanto, cabe aqui uma única recomendação: faça o bem a todos os seres.

Afinal, não há criaturas piores ou melhores. Todos somos interligados, cada espécie com sua função e necessidade no
mundo.
Monja Coen, fundadora da Comunidade Zen Budista, em São Paulo.
Candomblé

– O candomblé compreende diversas vertentes. Respondo pelo candomblé contemporâneo, que agrega conceitos de
filosofia, psicologia e tradições orientais. Sob tal perspectiva, se o indivíduo leva uma vida imbuída de verdade, o pós-
morte será uma extensão de suas ações, portanto, uma passagem confortável, sem julgamentos. 

Tal passagem pode ser facilitada também pela influência dos orixás – entidades que representam o vento, o mar, a
mata e assim por diante – e que lhe servem de guias espirituais. Acreditamos no processo evolutivo da reencarnação e
na existência de reinos espirituais, para onde se encaminham os mortos, dedicados a cada tradição religiosa.

Essas comunidades interagem, não há fronteiras entre elas. Depois da morte, o tempo é relativo e o espírito pode ser
resgatado ou não – tudo dependerá de como usou o livre-arbítrio. Quem realiza esse resgate nas comunidades
espirituais são os espíritos de luz, como os velhos, os caboclos, os índios, as pombagiras, que recebem quem chega e
também transmitem ensinamentos com vistas à evolução.

Depois de sucessivas reencarnações, o espírito pode optar por servir aos homens encarnados como um ser de luz e não
mais retornar à Terra. Ainda assim segue trabalhando pelo próprio aprimoramento.

Babalorixá Kabila Aruanda, de São Paulo.


Catolicismo

– O fundamento da fé na ressurreição se encontra no fato de Deus ter ressuscitado seu filho, Jesus. Morrer e ser
ressuscitado significa chegar a uma ampliação plena da cognição, de tal maneira que, só na morte, a pessoa tenha a
possibilidade de conhecer, com clareza total e absoluta, o significado e as consequências de sua vida vivida, no nível
individual, socioestrutural, histórico e cósmico.

Ela própria, junto com Deus e com base nos parâmetros dele, julga sua trajetória, percebendo, em que medida,
correspondeu ou não às diretrizes divinas. Tal processo é conhecido por “juízo final”. Na morte, Deus oferece a cada
pessoa uma última oportunidade de conversão, momento chamado de “purgatório”.

No entanto, ela pode se negar a aceitar os critérios superiores por Ele estabelecido. Ao agir assim, criaria para si uma
situação degradante, o “inferno”. 

Deus quer que todas as pessoas alcancem a plenitude, o “céu”, que significa a comunhão plena e íntima com Ele.
Dessa forma, o ser humano fica para sempre amparado no amor divino, numa felicidade total, além de viver em
comunhão com seus irmãos e irmãs.

Renold Blank, doutor em teologia e filosofia e professor emérito da Pontifícia Faculdade de Teologia de São
Paulo.
Espiritismo

– De acordo com a doutrina espírita, o espírito – a essência do ser – continua vivo depois da morte, que só atinge o
corpo. O que encontramos do outro lado reflete o que realizamos na Terra.

É uma consequência justa, baseada no merecimento. Desencarnação é o processo de libertação do espírito. No entanto,
este pode ficar apegado a dores, paixões, vícios, materialismo, preocupações.

O desligamento do plano material consome dias, meses ou até anos. Há, inclusive, aqueles que não sabem que
desencarnaram. Por isso, é importante termos em vida a compreensão de que haverá continuidade e de que não
faremos a travessia sozinhos. O espírito é acompanhado por amigos espirituais e familiares.

Pela sintonia que estabelece por meio de pensamentos e sentimentos, será atraído para comunidades de luz ou para o
umbral, espécie de purgatório temporário, onde terá a chance de aprender e se elevar.

Quando estiver preparado, o espírito retornará ao plano físico num novo corpo para quitar dívidas e adquirir créditos.
Alguns chegam devendo e voltam ainda mais endividados por causa de orgulho, desequilíbrios e faltas graves.
Reencarnamos quantas vezes forem necessárias. Seres de luz podem ascender ao mundo superior e não mais voltar à
Terra.

Geraldo Campetti, diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB)


Islamismo

– Os muçulmanos acreditam que todos nascem puros e inocentes, com uma beleza inata e a capacidade de progredir e
adquirir conhecimento. No entanto, possuímos o livre-arbítrio.

Ao mesmo tempo em que temos uma tendência natural para o bem, somos livres e capazes de crueldade e injustiça.
Sendo assim, quem professa a fé islâmica será responsabilizado por todos os seus pensamentos e ações no Dia do
Juízo, quando o mundo será enrolado como um pergaminho e todos serão julgados por Deus.

Aqueles que apresentarem bons atos serão recompensados com o paraíso, os outros irão para o inferno – conceitos
puramente metafóricos. A verdadeira natureza do céu e do inferno só é conhecida por Deus.

A crença no Dia do Juízo significa que a morte não é o fim da vida, mas um portal para a vida eterna. Portanto, os
muçulmanos percebem o tempo como sendo contínuo, desse mundo para o próximo; e o tempo passado aqui moldará
a natureza do tempo eterno.

Em suma, a salvação – neste mundo e na vida depois da morte – está em praticar boas obras e promover tudo o que
seja nobre, justo e digno de louvor.

Ziauddin Sardar, autor de Em que Acreditam os Muçulmanos (Civilização Brasileira)


Hinduísmo

– Na Índia, quando uma pessoa morre, seu corpo é levado pelos parentes para o Rio Ganges. Lá ocorre a cremação,
num ritual repleto de detalhes. Para os indianos, a pessoa não é o corpo, mas a alma, que parte para outra dimensão.
Por isso, cantam e festejam. Dependendo do mérito conquistado em vida, o espírito passará um período no loka – uma
espécie de céu. Esgotadas as credenciais, tem de retornar à instância física. 
No trajeto, assimila o que necessita vivenciar na próxima estada – o espírito percorre as dimensões mentais e
emocionais e vai conhecendo os desafios que terá de enfrentar na vida nova. Nasce, portanto, imbuído da missão que
vem cumprir na encarnação atual, resgatando uma parcela dos erros cometidos no decorrer das vidas anteriores.
E regressa para as famílias alinhadas a seu mérito (ou demérito) espiritual, mental e emocional. Almas evoluídas
nascem na mais alta casta, a dos brâmanes, representada por sacerdotes e filósofos. O grupo logo abaixo cai na casta
dos xátrias, composta de guerreiros e políticos.
As almas menos nobres vão para a casta dos comerciantes, os vaishas, e, por último, para a casta dos trabalhadores, os
shudras. Quando a alma atinge um patamar espiritual elevado e consegue finalmente se desapegar do mundo material,
mental e emocional, passa a ter um entendimento perfeito das coisas, sem ilusões.
Aí não precisa mais encarnar. A grande maioria dos indianos aceita essa sina plenamente. Entende que está onde está
por mérito e, se ascender, passando por todas as instâncias no decorrer de sucessivas encarnações, haverá uma grande
ordem social. Do contrário, imperará a desordem.
Luís Malta Louceiro, filósofo e especialista em cultura indiana
Judaísmo

– O judaísmo prega que todos os mortos serão ressuscitados na Era Messiânica (quando o Messias chegar à Terra).
Mas a ideia da reencarnação também está presente nos livros judaicos, embora os rabinos falem muito pouco sobre
ela.

Para a cabala – conjunto de princípios espirituais anterior às grandes religiões monoteístas -, a alma é imortal. Antes
de nascer, assinamos uma espécie de contrato por meio do qual nos comprometemos a enfrentar determinadas
situações desafiadoras que podem trazer tristezas e dificuldades, provações que contribuem para nosso
aperfeiçoamento.

Quando morremos, revisamos o que fizemos ou não na Terra antes de estar aptos a retornar. Há três níveis de alma
que vão pouco a pouco se alojando no corpo. O mais “baixo”, chamado nefesh, entra primeiro; o intermediário, ruach,
aos 12 ou 13 anos; e o mais elevado, neshama, aos 20 anos.

Quando a pessoa morre, a neshama leva uma semana para partir – por isso, nesse período, os espelhos da casa são
cobertos. Assim, a alma, ainda confusa em relação a seu estado, não corre o risco de levar um choque ao visitar o
local. O segundo nível demora até 30 dias para desabitar o corpo.
E o mais baixo até um ano. Enquanto a alma ou partes dela estiverem ligadas ao corpo, não estará pronta para
reencarnar, o que pode lhe causar sofrimento. A consciência da pessoa em vida determina seu entendimento na hora
da morte. De toda forma, para proteger o ente querido e ajudar a alma a se elevar, demonstrando amor por quem
partiu, os familiares entoam uma prece em sua memória, chamada kadish.”

Yonatan Shani, diretor do Kabbalah Centre do Brasil


Se a vida depois da morte existe ou não ninguém poderá emitir atestado de garantia. Mas o que com certeza se
conhece muito bem é o avassalador interesse do público pelo tema. Interesse que é fartamente alimentado pela
indústria cinematográfica.

Afinal, será que atravessamos tempos tão incertos – haja vista a onda de catástrofes naturais, além dos surtos de
violência e de intolerância -, a ponto de buscarmos conforto não na vida em si, mas em sua continuidade em esferas
superiores?

Será por isso que sentimos uma urgência em compreender o incompreensível, ou seja, o mistério da finitude? Ainda
não somos capazes de tolerar a única certeza que nos é dada: nossa mortalidade?

Por que, de tempos em tempos, a morte vira tema?

Na visão de Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), a vida depois da
morte é um tema de interesse cíclico. Aparece na mídia de tempos em tempos, causando alvoroço no público e, claro,
motivando a indústria do entretenimento a produzir obras com o tema.
“Foi assim na época do blockbuster O Sexto Sentido. Filmes e livros pautam uns aos outros. Se há um primeiro
projeto que vai bem, o resto vai atrás”, afirma Sottomaior.

Geraldo Campetti faz outro diagnóstico. Segundo ele, nos dias de hoje, pautados pelo materialismo e pelo hedonismo,
as pessoas estão perseguindo respostas mais satisfatórias.

“As buscas guiadas pelo prazer imediato se esgotam rapidamente, deixando um vazio, como se não estivéssemos
satisfazendo uma necessidade que vai muito além das questões superficiais”, afirma Campetti.

A necessidade de encontrar sentido para os eventos da vida acaba vencendo a alienação. “Quem sou eu? O que estou
fazendo aqui? Para onde vou depois da morte?”.

Ante indagações tão complexas, diz Geraldo, simplificações como a dicotomia céu-inferno não dão conta de saciar
nossa sede de entendimento: “As pessoas querem explicações mais racionais para a vida e isso instiga
questionamentos existenciais muito mais amplos e profundos”.
Em meio a tantas incertezas – de terremotos e tsunamis a doenças de cura desconhecida, mesmo com tanta oferta de
tecnologia -, a continuidade da vida em planos superiores soa como o refrigério de que necessitamos para nos
mantermos em pé.

“Essa certeza é um consolo incrível. Apegados a ela, não precisamos depositar todas as esperanças apenas na vida
física”, diz o diretor da Federação Espírita Brasileira.

Por outro lado, a imortalidade do espírito nos responsabiliza pelos sentimentos, pensamentos e ações praticados aqui,
no plano terrestre. Carregaremos para a vida depois da morte os créditos e os débitos angariados no dia a dia. “Se
acredito que a morte é passagem, transformação, eu vivo a vida de forma mais consciente e coerente”, afirma Geraldo.

Assim, não corremos o risco de ser abatidos pela desmotivação, manifesta em questionamentos como estes: “Para que
me esforçar para ser um ser humano melhor, se tudo vai acabar um dia?”, “Se existe um Deus justo, por que pessoas
inocentes são alvo de tantas calamidades?”.

Como lidamos com o temor e a incerteza


Enquanto estamos ocupados com a rotina, executando tarefas, parece que mantemos o sensor espiritual desligado e a
temática da morte e seus desdobramentos passam longe. Mas, quando as fatalidades atravessam nosso caminho, cresce
o interesse pelo assunto. Essa é a teoria de Marcelo Cezar.

“Quando a enfermidade, a perda de entes queridos ou mesmo as grandes catástrofes nos afligem, levamos um
solavanco e percebemos que as coisas podem acabar de repente”, diz ele. E que vida não sofre a interferência do
imponderável?

Nessas horas, lamentamos os infortúnios e paramos por aí, ou levantamos hipóteses que expliquem as contrariedades
que nos vitimaram. Em geral, a segunda alternativa prevalece.

“Lidar com eventos incongruentes que perpassam a vida é angustiante. A maioria das pessoas precisa se agarrar a
alguma explicação”, diz Daniel, e emenda uma crítica: “Para Freud, a figura de Deus como pai e protetor, aquele que
decide as coisas por nós, é uma grande infantilização. Precisamos virar adultos e parar de achar que alguém vai cuidar
de nós”.

Jetter discorda. Para ele, o desalento ou a sensação de desamparo ante os mistérios da existência não são suficientes
para justificar a crença em esferas mais elevadas, onde o espírito seguiria sua trajetória: “Os materialistas rotulam o
crente como alguém desgostoso com a realidade. Trata-se de uma visão equivocada”.

O conceito de morte e renascimento, ou seja, de reencarnação, segundo ele, se insere num contexto bem mais amplo:
“Trata-se de um processo biológico e evolutivo. Não é algo religioso e, sim, uma lei universal da natureza”.
Segundo Geraldo, “a sucessão de vidas regidas pela lei de causa e efeito nos dá a oportunidade de ampliar a
consciência. Esse entendimento tornará a sociedade mais ajustada”.

Será? É a pergunta dos ateus. Para eles, a expectativa em relação ao destino da alma desencarnada produz inquietações
nada amigáveis: “As pesquisas mostram que boa parte das pessoas fica ansiosa ou deprimida com a possibilidade do
que vem depois da morte, preocupadas se vão se dar bem ou mal”.

A incerteza se soma à culpa pelas falhas cometidas e à apreensão quanto ao preço cobrado por elas, uma vez que
somos responsáveis pelos acontecimentos de nossa biografia. Já os céticos dispensam esse fardo. “Somos livres da
culpa, um sentimento impingido pelas religiões. Vivemos ao acaso, regidos por leis naturais e abertos à influência de
toda gente, sejam nossos iguais, sejam diferentes”, diz Daniel.

Quais são as contribuições da ciência?


Esse debate ganha a cada dia maior intensidade, tentando elucidar questões ligadas à saga humana e isso inclui a
partida desse plano. Na busca por respostas, a concepção de religiosidade, cada vez mais multifacetada, leva as
pessoas a agregar novos pontos de vista a suas crenças.

“A religião como instituição está caminhando para o fim. E a noção de espiritualidade, ligada à força interior de cada
um, está se disseminando”, diz Marcelo. “A religiosidade está dentro de cada um. São os valores morais e éticos
praticados aqui e levados para o mundo espiritual”, afirma Geraldo.

“Algumas religiões entendem a jornada de pós-morte de forma simples, outras de maneira complexa. Mas todas as
tradições do planeta acreditam na existência de algum tipo de travessia”, afirma Sukie. “Trata-se de um mistério
universal.”

As especulações, segundo ela, nascem das inquietações da alma, do desejo de, um dia, nos unirmos aos entes queridos
no além, da necessidade de nutrirmos a esperança de que a vida não termina aqui ou até mesmo da ânsia pela
redenção.

“A própria noção de viagem que tem um destino, no pós-morte, carrega em si um sentido de não ruptura com a
realidade – de um caminhar provido de intencionalidade, energia e, quem sabe, até mesmo de júbilo”, diz ela.

Assim, então, só nos resta indagar como as projeções sobre o que sucede a morte nos ajudam a passar com mérito pela
estada terrena. Sukie tem a resposta: “Aprendemos que em vida também temos de atravessar períodos de morte
emocional, como a morte do casamento, da juventude, da carreira, da saúde”. Sim, vida e morte estão entrelaçadas.

https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/o-que-as-religioes-explicam-sobre-a-morte/4/

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