Você está na página 1de 1

UMA IGREJA VELHA

http://macfly.multiply.com/journal/item/128

"Intolerâncias" é o título de artigo de Mauro Santayana, no "Jornal do Brasil", de 12 de outubro 2005.


Começa assim: "Um fiel 'desequilibrado' da Assembléia de Deus apedrejou a imagem de Nossa
Senhora, durante a procissão do Círio de Nazaré, em Belém. O 'bispo' da Igreja Universal do Reino de
Deus, Sérgio von Helde, esmurrou e chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida, em programa de
televisão visto por milhões de pessoas, faz dez anos hoje - e não era desequilibrado".

Santayana segue: "Há mais ou menos um mês, outro 'desequilibrado' matou, a enxadadas, seus
velhos patrões, um casal de japoneses, em chácara de Brasília. De acordo com as testemunhas, o
assassino, convertido há alguns meses à mesma Igreja Universal, sentiu-se incumbido, pelo pastor, de
'retirar os demônios' do corpo dos anciãos. Atemorizados, os patrões o despediram. Matou primeiro a
patroa, e depois o patrão, a pedradas e a enxadadas, gritando que o fazia 'em nome do Senhor'.

A Polícia fechou a igreja local". Não me direciono, aqui, contra a Igreja Universal. Creio serem
coincidências os episódios em que ela é citada. A questão é outra.

No passado, éramos chamados de "crentes" e éramos respeitados. Eu tinha 16 anos, trabalhava num
escritório, na 7 de Setembro, no Rio. Numa noite, roubaram o cofre da empresa. A polícia veio investigar.
Fim do expediente, eu precisava sair porque estudava. Um policial disse: "Deixa o menino ir. Ele é crente
e crente não faz isso". Não era eu, como pessoa. Eram os crentes. Acima de suspeita. Depois viramos
"evangélicos". Alguns são "gospel". Ora, vão para os Estados Unidos!

Mas quando éramos respeitados, o caráter era trabalhado em nossas igrejas. A ênfase mudou. Passou
a ser o poder espiritual. Daí para o poder material e político foi um passo, porque não era o
quebrantamento espiritual, mas poder espiritual para dominar. Nesta busca de poder, o que nos limitava
foi posto de lado, pouco a pouco, a Bíblia. Porque ela estabelece padrões e limites. Foi substituída por
uma enxurrada de revelações, de profecias, de era do Espírito, onde líderes nem sempre sensatos
fogem ao controle das Escrituras e ditam sua visão pessoal como palavra divina.

O senso crítico se esvaiu. De pastor passou-se a bispo. De bispo a primaz. De primaz a apóstolo. De
apóstolo a pai apóstolo. Uma megalomania que evidencia desequilíbrio gravíssimo. Como há
desequilibrados em nossas igrejas! O evangelho produz saúde, não doença! Quem chama à sanidade
espiritual e emocional é frio, ressentido porque o rebanho não cresce. A ética cedeu à celebração. Vale
mais o culto festivo que o culto reflexivo, de análise da vida diante de Deus, de conserto, de afirmação de
valores.

O narcisismo é chocante. Pasmei num congresso em que preguei. Um típico programa de auditório:
música pauleira e manipulação. A entrada do cantor em palco foi doentia. Luzes apagadas, rufar de
instrumentos, luzes sobre ele, de cabeça baixa, até levantá-la em ar triunfal. E a gritaria. Senti-me
fisicamente mal. E envergonhado. Não foi isso que aprendi na Bíblia.

A Convenção eclesiástica em que faço parte, em excelente documento, pede um Brasil novo, à luz dos
gravíssimos casos de corrupção no país. Mas junto com o Brasil novo precisamos clamar por "uma igreja
velha". Uma igreja velha, sim. Uma igreja antiga. Uma igreja em que a Bíblia seja pregada, em que a
crença no poder do Espírito para fazer a obra crescer nos leve a prescindir de atos desonestos, de
manipulações e de extorsão na contribuição. Uma igreja velha em que evangelizemos, e não agridamos.
Em que aceitemos o crescimento dado pelo Espírito, e não o de "marketing". Uma igreja velha, onde
caráter seja mais importante que os nomes de figurões usados para adornar a igreja. Uma igreja velha
em que o Evangelho não ceda lugar à convivência amiga, sem contestações e sem exigências, "porque
precisamos atrair as pessoas". Uma igreja velha que pregue Jesus e não política. E que não chame de
"alienados" os que pregam que "Jesus salva" e que só Jesus pode mudar o mundo. Que minha igreja,
que aprendi a amar, seja uma igreja velha. Cheia de "crentes" e não de "gospéis" (céus!). Se ela não
quiser, este pastor maduro, que se sente "velho", terá que buscar uma "igreja velha". Mas está tão difícil
achar crentes "velhos" e "igrejas velhas"!

Você também pode gostar