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PADRÕES ARQUETÍPICOS DAS DEUSAS EM NARRATIVAS DE

VIDA DE MULHERES MOSSOROENSES

CARVALHO, Pammella Lyenne Barbosa de


Psicóloga, Mestranda em Ciências Sociais e Humanas/UERN, pammellacarvalho@hotmail.com
FONSECA, Ailton Siqueira de Sousa (Orientador)
Professor Adjunto IV da UERN, Doutorado em Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais pela PUC-SP,
ailtonsiqueira@uol.com.br

RESUMO O objetivo desse trabalho foi compreender as experiências de vida das mulheres a
partir das suas narrativas, percebendo como é a construção do arquétipo feminino na
experiência de cada uma. A escuta acolhedora da história de vida de cada mulher permite que
ela possa falar sobre suas experiências sem julgamentos ou interpretações preconceituosas, e o
conhecimento dos arquétipos que regem seu modo de ser permite identificar as obstruções do
desenvolvimento pleno. A pesquisa foi de abordagem qualitativa, do tipo narrativa de vida. A
população para esta pesquisa foi composta de mulheres que residem na área de abrangência
da UBS Dr. José Holanda, no bairro Dom Jaime Câmara, em Mossoró, e estão em
acompanhamento psicológico no grupo de apoio Espaço da Palavra. A amostra foi do tipo
intencional, quatro mulheres foram escolhidas para colaborar com a pesquisa. Como
instrumento de pesquisa foi utilizado a entrevista aberta, norteada pela escuta sensível de
René Barbier. Nas mulheres que foram colaboradoras, cinco padrões de deusas emergiram:
Héstia, Hera, Deméter, Perséfone e Afrodite. Duas delas pareceram estar mais fixadas em um
padrão, a pesquisa demostrou que estas apresentavam mais rigidez e mais sintomas de
adoecimento psíquico. Concluímos que os mitos, de fato, quando compreendidos em nossa
narrativa de vida favorecem o caminho da individualização e crescimento pessoal. Insistimos
na importância de que as narrativas continuem a serem contadas, e que existam mais
pesquisadores interessados em ouvir e acolher o outro, para além da lógica positivista da
dualidade sujeito-objeto.
Palavras-chave: mitos. arquétipos. deusas. mulheres.

ABSTRACT/RESUMEN The objective of this work was to understand the life experiences
of women from their narratives, realizing how it is the construction of the feminine archetype
in the experience of each one. The warm listening of each woman's life history allows her to
speak about her experiences without prejudiced judgments or interpretations, and the
knowledge of the archetypes that govern her way of being allows one to identify the
obstructions of full development. The research was qualitative, of the narrative type of life.
The population for this research was composed of women residing in the area covered by the
UBS Dr. José Holanda, in the neighborhood Dom Jaime Câmara, in Mossoró, and are under
psychological counseling in the support group Espaço da Palavra. The sample was of the
intentional type, four women were chosen to collaborate with the research. As a research tool,
an open interview was used, guided by the sensitive listening of René Barbier. In the women
who were collaborators, five patterns of goddesses emerged: Hestia, Hera, Demeter,
Perséfone and Afrodite. Two of them appeared to be more set in a pattern, the research
showed that they showed more rigidity and more symptoms of psychic illness. We conclude
that myths, in fact, when understood in our narrative of life, favor the path of
individualization and personal growth. We insist on the importance that narratives continue to
be told, and that there are more researchers interested in listening and welcoming the other,
beyond the positivist logic of subject-object duality.
Keywords: myths. archetypes. gods. women.

INTRODUÇÃO

Estés (2014), na obra Mulheres que correm com os lobos, defende que toda mulher
possui um arquétipo próprio do feminino: “a mulher selvagem”, que é a integração dos
arquétipos das deusas da mitologia grega, é a “Grande mãe”. O distanciamento desse
arquétipo gera o adoecimento psíquico.
A mulher selvagem carrega todas as facetas importantes da feminilidade, e quando se
está em contato com esse arquétipo têm-se a sabedoria e a intuição necessárias para escolha
de parceiros e manutenção ou rompimento de vínculos afetivos. “Suas vidas criativas
florescem; seus relacionamentos adquirem significado, profundidade e saúde; seus ciclos de
sexualidade, criatividade, trabalho e diversão são reestabelecidos” (ESTÉS, 2014, p. 20).
Toda mulher contém, em sua psique, as representações do feminino expressas na
mitologia, havendo predominância de uma ou mais deusas. Quando se perde o contato com
esse arquétipo não temos condições de nos desenvolver plenamente. A obstrução desse
desenvolvimento se manifesta na interrupção da capacidade de dar respostas criativas a
situações específicas e às suas necessidades internas, traduzindo-se em adaptação excessiva
ao meio, acomodação, dependência, aprisionamento ao passado, comportamento
estereotipado, refletindo na estagnação do crescimento pessoal.
A escuta acolhedora da história de vida de cada mulher permite que ela possa falar
sobre suas experiências sem julgamentos ou interpretações preconceituosas. Estés (1998) fala
que as histórias mais poderosas são aquelas que surgem em decorrência do sofrimento, pois
essas mesmas histórias quando contadas a um outro podem fornecer as curas mais intensas
para os males passados, presentes ou futuros. “As histórias podem ensinar, corrigir erros,
aliviar o coração e a escuridão, proporcionar abrigo psíquico, auxiliar a transformação e curar
ferimentos” (ESTÉS, 1998, p. 37).
Diante disso, nosso objetivo foi compreender as experiências de vida das mulheres a
partir das suas narrativas, percebendo como é a construção do arquétipo feminino na
experiência de cada uma, e se há obstrução do desenvolvimento pleno.

I REFERENCIAL TEÓRICO

1.1 MITOS
Os mitos estão presentes na vida das pessoas desde que a humanidade existe. São os
mitos que narram as origens do mundo, do homem, da vida, e de todos os ciclos vitais. O mito
integra o homem aos demais homens, e integra o homem a um sentido maior de existência,
liga o homem ao sagrado, ao divino. São pistas para as potencialidades espirituais da vida
humana. São o caminho para o transcendente.
Para Joseph Campbell (1990) aquilo que os seres humanos têm em comum se revela
nos mitos. Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação através
dos tempos. “A primeira função de uma mitologia viva é conciliar a consciência com as
precondições da sua própria existência – quer dizer, com a natureza da vida” (CAMPBELL,
2008, p. 31).
Todos seguimos um caminho muito parecido do berço até o túmulo no que diz
respeito ao desenvolvimento psicológico, afirma Campbell (2008), e os mitos podem nos
auxiliar nessa jornada interior em busca da individuação. A essência do mito é que sua
narrativa faça sentido para aquele momento da vida, que a imagem que ele traz seja a fonte
que sustenta a existência daquele pessoa e daquele povo.
A existência de narrativas míticas foi comprovada em todas as sociedades, e essas
narrativas geralmente giram em torno de um núcleo comum: um elemento que está presente
em todas as outras narrativas, com roupagens diferentes. “É como se a mesma peça fosse
levada de um lugar a outro, e em cada lugar os atores locais vestissem costumes locais e
encenassem a mesma velha peça” (CAMPBELL, 1990, p. 40).
Para Campbell, cada pessoa tem um mito norteador, que vai além do mito de sua
sociedade, e cada um deve encontrar um aspecto do mito que se relacione com sua própria
vida. Os personagens míticos funcionam como arquétipos daquilo que nós podemos ser. Mas
antes de falar sobre como o mito se relaciona pessoalmente a cada um, vamos observar as
quatro funções do mito, descritas por Campbell, numa entrevista concedida a Moyers
(CAMPBELL, 1990):
A primeira função é a mística, os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério,
do universo transcendente, do sentido das coisas para além das circunstâncias da sua vida. A
segunda é a função cosmológica, a dimensão da qual a ciência se ocupa, estudando a origem,
a composição, a evolução do universo, abrindo mais uma vez portas para o mistério. A
terceira função é a sociológica: os mitos sustentam determinada ordem social, são os
princípios éticos de uma sociedade. A função pedagógica, ou psicológica, é a quarta. É a
forma que os mitos se relacionam a minha vida humana, como os mitos podem me ensinar
sobre algo. Nesse sentido é que falamos em arquétipos, e a partir deles chegaremos aos mitos
das deusas como arquétipos orientadores do feminino.

1.2 ARQUÉTIPO DA DEUSA


Os arquétipos são conteúdos do inconsciente coletivo presentes na psique de todos os
humanos, segundo Jung. São elementos comuns, instintos, impulsos, conflitos, medos, os
quais são o solo em que os mitos surgem. “A alma contém todas as imagens das quais
surgiram os mitos” (JUNG, 2000).
Por estarem presentes no inconsciente, os arquétipos não se manifestam facilmente a
consciência, precisam que seu conteúdo se apresente disfarçado no sonhos, nos contos de
fada, e nos mitos. Estés (2014) afirma que os mitos e os contos de fada são o caminho para
encontrar mais facilmente o arquétipo.
O arquétipo é ativado quando algo ocorre na vida da pessoa que liga-se àquela
representação. Surge, então, uma reação instintiva, contra toda lógica de comportamento
daquele individuo, produzindo formas de ação neuróticas, que tornam-se patológicas quando
reproduzidas sem nenhuma tomada de consciência de que se está agindo motivado por um
arquétipo (JUNG, 2000).
Para Bolen (1990) os arquétipos refletem diferentes aspectos da nossa personalidade,
e o seu conhecimento permite que compreendamos melhor nossos sentimentos e
comportamentos. A deusa, afirma Moura (2017, p. 24), surge como uma metáfora para o
reconhecimento da energia feminina divina em todos nós. Ela é a forma que um arquétipo
feminino pode assumir no contexto de uma narrativa mitológica (WOOLGER, 2007).
A primeira manifestação da deusa nas tradições agrárias do Neolítico e a mais
simples é a da mãe Terra, a qual contém todas as energias das outras deusas, é uma deusa
total. Antes do aparecimento das religiões centradas na figura masculina, tínhamos uma
cultural matrifocal, que venerava a Grande Deusa (Bolen, 1990).
Para Woolger (2007) a Grande Deusa foi desintegrada com o surgimento das
religiões patriarcais, de modo que os atributos e símbolos que um dia foram investidos numa
Grande Deusa foram divididos entre muitas deusas, imagens simbólicas representadas pelas
deusas gregas. No íntimo de cada mulher, entretanto, há o desejo e a busca pela recuperação
da inteireza da Grande Deusa.
As deusas podem ser classificadas em três grupos. O primeiro grupo é o das deusas
virgens: Ártemis, Atenas e Héstia, elas representam a qualidade de independência e auto
suficiência das mulheres. O segundo grupo inclui Hera, Deméter e Perséfone, elas
representam os papéis tradicionais de esposa, mãe e filha, são deusas orientadas para os
relacionamentos. Afrodite, a deusa da beleza e do amor, está sozinha na terceira categoria, ela
motiva as mulheres a procurarem intensidade nos relacionamentos em vez da permanência
neles; motiva-as a valorizarem o processo criativo e a serem receptivas às mudanças
(BOLEN, 1990).

1.2.1 Artémis
Artémis é a mais antiga deusa da metodologia grega, filha de Zeus e Leto, irmã
gêmea de Apolo, logo após nascer ajudou sua mãe no parto do irmão. É a deusa da caça,
protetora dos animais e da natureza. Em Éfeso foi considerada deusa da fertilidade e protetora
das mulheres em trabalho de parto.
A mulher regida pelo arquétipo de Artémis tem como característica um espírito
independente e aventureiro. Preza pela liberdade e luta contra toda forma e opressão e
violência. Valoriza mais os relacionamentos amorosos e de amizade entre as mulheres. Tem
preferência em morar no campo, nas cidades pequenas; e prefere alimentar-se de forma mais
orgânica. Quando está em desarmonia nega sua sensualidade, por achar que esse é um atributo
explorado pelos homens; ou, não consegue encontrar seu papel, se esposa, mãe, profissional,
pois sente que são espaços dominados pelo patriarcado (MOURA, 2017).

1.2.2 Atena
Uma das versões para sua origem conta que Métis, mãe de Atená, profetizava que
sua filha seria corajosa, imponente, guerreira, e que roubaria o trono de seu pai, Zeus. Zeus,
temendo perder o poder engoliu Metis. Atená, porém, continuou a crescer na cabeça de Zeus,
que tomado por uma dor de cabeça profunda, pediu a Hefesto que lhe abrisse a cabeça, de
dentro dela sai Atená, já adulta, com trajes de guerreira. Atená não se casou, nem teve
amantes. Era a deusa guerreira, protetora das cidades e conselheira de Zeus.
A mulher regida pelo arquétipo de Atená deseja ser bem sucedida no mundo, deseja
realizar-se profissionalmente. Luta contra desigualdade econômica. Gosta de adquirir
conhecimento. Sente-se à vontade no mundo patriarcal. Dá pouca importância ao seu corpo,
sua sexualidade e beleza. Afasta-se das suas emoções e das dos outros, por sentir-se
vulnerável ao que não é objetivo. Quando em desarmonia, expressa pouca compaixão pela dor
do outro, torna-se fria emocionalmente, o que a afasta de outras pessoas e a coloca em um
estado de constante solidão. A sua excessiva racionalidade pode afasta-la do contato com a
natureza e com a espiritualidade (MOURA, 2017).
1.2.3 Héstia
Héstia era a filha primogênita de Reia e Crono, mas não fez nenhuma questão para
assumir seu lugar. Conta o hino homérico que Afrodite induziu Posídon e Apolo a se
apaixonarem por Héstia, mas ela os recusou firmemente, prestando solene juramento que
permaneceria virgem para sempre. Zeus então lhe concedeu como presente o centro da casa e
do templo, para que ela recebesse as oferendas dos mortais. Héstia era conhecida através da
sua importância nos rituais, era comum ser representada através do fogo nas lareiras. Nem o
lar, nem o templo ficavam santificados até a sua entrada.
Héstia é o arquétipo ativo nas mulheres que priorizam o cuidar da casa, o estar
reclusa, as atividades sacerdotais. Cuidar dos detalhes do lar é uma atividade fundamental
para Héstia. São mulheres que, muitas vezes, ficam no anonimato. Héstia também confere a
mulher o lugar de sábia anciã, voltada para sua interioridade. Para Bolen (1990) com Héstia
como presença interior, a mulher não fica “ligada” às pessoas, às consequências, posses ou
poder; ela é inteira em si mesma.
As maiores dificuldades que podem se apresentar a Héstia são o isolamento e a
solidão. Ela também pode ser desvalorizada e isso ter um efeito negativo em sua autoestima,
ela pode sentir-se incompetente em adotar padrões que outras mulheres desenvolvem e são
cobrados pela sociedade atual (BOLEN, 1990)

1.2.4 Hera
Na mitologia, Hera é filha de Cronos e Reia, e casa-se com seu irmão Zeus,
tornando-se rainha do Olimpo. Simboliza o poder, o casamento. É a única mulher entre as
deusas que apresenta-se ao lado de Zeus. Apesar das muitas traições de Zeus, Hera permanece
como a esposa fiel, monogâmica, vingativa. A relação conjugal de Zeus e Hera é o protótipo
do casamento humano, com brigas, separações e repetidas voltas.
A mulher que tem o arquétipo de Hera é a guardiã das tradições, do poder. Tem uma
imponência natural, é aquela que sabe seu lugar no mundo, decidida, com espírito de
liderança. Restringir seu papel ao lar torna-a insatisfeita, precisa estar no mundo dos homens,
tomando as decisões, governando. Preza mais o casamento que os filhos (MOURA, 2017).
Quando está em desarmonia, torna-se uma pessoa amarga, exigente, dominadora do
marido e dos filhos, com quem luta pelo poder. Torna-se intolerante com as mudanças nas
estruturas da sociedade e com os novos valores que venham a abalar a moral e os bons
costumes. Se traída, torna-se extremamente ciumenta e vingativa, mas não considera a
separação, pois precisa sustentar e manter a relação conjugal (MOURA, 2017).

1.2.5 Deméter
Conta a mitologia que Deméter é filha de Cronos e Réa, irmã de Zeus, Hades,
Poseidon, Hera e Héstia. Foi devorada, junto com seus irmãos, pelo seu pai, temeroso de
perder o trono para os filhos. Mais tarde, todos foram resgatados de dentro de Cronos por
Zeus, que tornou-se o detentor do trono. Ela representa os ciclos da vida e o poder de gerar a
vida, simboliza a figura da mãe. Sua história está intimamente relacionada a de Coré-
Perséfone, sua filha que foi raptada por Hades. Deméter passa o resto da vida sofrendo pela
perca de sua filha: os ciclos de outono e inverno; com raros momentos de alegria, quando
reencontra-se com a filha, gerando os ciclos de verão e primavera.
A mulher com o arquétipo de Deméter deseja ardentemente a maternidade, seja de
filhos biológicos, ou adotivos, ou mesmo tornando-se mãe de pais idosos. Torna-se a
cuidadora de quem precisar. Doa sua vida em função dos outros, sem esperar ser gratificada
por isso. Sua realização é servir aos que ama. Gosta de criar trabalhos com suas próprias
mãos, de cozinhar, de plantar. Desequilíbrios podem surgir se Deméter tornar-se super-
protetora, possessiva, controladora, criando filhos dependentes e imaturos. Não lida bem com
a saída dos filhos de casa, realizando chantagens e cobranças de atenção demasiada
(MOURA, 2017).

1.2.6 Perséfone
Homero narra que Coré, filha de Zeus e Deméter, estava no campo colhendo flores,
quando a terra se abriu e ela é tomada por Hades, que a arrasta para o mundo subterrâneo.
Zeus havia permitido o casamento de Hades com Coré, sem o consentimento de sua mãe,
Deméter. Após casar-se com Hades, adquire o nome de Perséfone e torna-se a rainha do reino
dos mortos. Sem poder tomar sua filha de Hades, ao ver o sofrimento de Deméter, Zeus
estabelece períodos no ano em que Perséfone passa junto ao seu esposo e outro junto a sua
mãe.
A mulher regida pelo arquétipo de Perséfone possui gestos discretos, é doce, meiga,
e possui um envolvente ar de mistério. Tem uma vida simbólica muito expressiva, sente
necessidade de ligar-se aos mistérios da vida, de isolar-se do resto do mundo. Sendo mal
compreendida por essa necessidade de ligar-se ao mundo interior, é a curandeira, a bruxa, a
sacerdotisa, aquela que atravessa os dois mundos, que lida bem com as dores e sofrimentos
humanos. É a filha dependente da mãe, apegada, que mesmo depois de casada não desliga-se
na casa materna. Inspira no outro o desejo de ser cuidada pela sua passividade e fragilidade,
deixando-se, muitas vezes, conduzir-se pelo outro. Quando está em desarmonia mostra falta
de ímpeto para buscar seus objetivos, torna-se dependente, passiva aos desejos e imposições
dos outros. Por vezes desenvolve depressão por lidar mal com as críticas e incompreensões.
Não vivencia os prazeres do corpo e da sexualidade, por sentir que este é efêmero, sem
importância (MOURA, 2017).

1.2.7 Afrodite
A narrativa mais aceita para origem de Afrodite é contada por Hesíodo, ela nasceu
quando Cronos cortou os órgãos genitais de Urano e arremessou-os no mar; da espuma
surgida ergueu-se Afrodite. Ela é a deusa do amor, da beleza e da sexualidade. No seu mito,
amou muitos deuses, como Poseidon, Hermes, Ares e Dionisio. E muitos humanos, foi por
eles amada e reverenciada. Também insuflou a paixão entre muitos casais. Sua beleza
imponente desperta os desejos mais profundos da alma humana.
A mulher que possui no seu interior o arquétipo de Afrodite irradia beleza, atração e
fertilidade. Seduz não só com a beleza física, mas por seus gestos, seus modos. No seu íntimo
é acolhedora, generosa, capaz de compreender as dores causadas pelo amor. Busca atender
suas necessidades instintivas, como fome, sede, sono, sexo. Realiza-se no contato com o
outro, no encontro amoroso. Quando encontra-se em desarmonia, banaliza os sentimentos de
amor e amizade, o que a impede de formar vínculos mais profundos com o outro. Vulgariza o
corpo e a sexualidade (MOURA, 2017).

II PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A pesquisa foi de abordagem qualitativa, do tipo narrativa de vida.


Na perspectiva das narrativas de vida, o método consiste no relato que uma pessoa
faz de um episódio qualquer de sua experiência vivida, cabendo aqui as descrições,
explicações, gestos, pausas que, mesmo não sendo formas narrativas, contribuem para
construção de significados. Tal narrativa é orientada pela intenção de conhecimento do
pesquisador. Busca apreender um discurso que se esforça para contar uma história real,
durante uma relação dialógica com um pesquisador, orientado para a descrição de
experiências pertinentes ao objeto de estudo (BERTAUX, 2010). A função da análise dos
dados não é verificar hipóteses anteriormente elaboradas, mas de construir hipóteses
(BERTAUX, 2010).
A presente pesquisa encontra-se na “categoria de situação”, que consiste no estudo
de casos individuais, variando ao máximo as características destes, de modo a permitir a
elaboração de hipóteses sobre os processos que fazem com que as pessoas se encontrem na
situação estudada.
A população para esta pesquisa foi composta de mulheres que residem na área de
abrangência da UBS Dr. José Holanda, no bairro Dom Jaime Câmara, em Mossoró, e estão
em acompanhamento psicológico no grupo de apoio Espaço da Palavra. A escolha dessa
comunidade se deu por esta ser o lócus de atuação da pesquisadora durante o período da
residência multiprofissional (RMABSFC).
O grupo foi criado em 2012, iniciativa da psicóloga Maria Tereza Vieira Holanda, no
período em que atuava no Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF-AB). O Espaço da
Palavra tem o objetivo de ser uma terapêutica alternativa para os usuários de saúde mental da
comunidade. O grupo tem periodicidade semanal, como forma de fortalecer o vínculo entre o
profissional e os usuários, e entre usuários e usuários.
Atualmente participam do grupo cerca de 15 mulheres. A amostra foi do tipo
intencional, dentre essas mulheres foram escolhidas quatro, levando-se em consideração a
disponibilidade para participação da pesquisa e tempo de participação no grupo. Deu-se
preferência às mulheres que participam do grupo há mais de um ano, e com idade acima de 30
anos por entender que elas possuem um patrimônio histórico mais extenso que as demais.
Como instrumento de pesquisa foi utilizado a entrevista aberta, norteada pela escuta
sensível de René Barbier. A entrevista foi gravada e posteriormente transcrita para análise. A
entrevista aberta permite uma maior flexibilidade no diálogo entre narrador e pesquisador. Os
conteúdos obtidos são resultado do encontro, da relação que se estabelece. A partir de
questões norteadoras, ou temas, no nosso caso “Me conte um pouco sobre sua
infância/casamento/relação com os filhos”, iniciou-se o diálogo com a colaboradora e, a partir
daí, formulamos questões de acordo com o que foi trazido pelas narrativas, procurando
interferir o mínimo possível na fala do outro.
A escuta sensível parte de um conceito de transversalidade, entendendo que o
indivíduo é composto de uma rede simbólica na qual misturam-se referências, valores, mitos,
símbolos internos e externos que dão sentido, significado à sua existência. A escuta sensível
recusa-se a fixar cada pessoa num lugar, mas oferece possibilidade para outros modos de
existência. No primeiro momento, ela não busca interpretar, suspende qualquer juízo de valor
em busca da compreensão dos fatos, para posteriormente arriscar-se a “oferecer sentido” ao
que foi encontrado, não o impor (BARBIER, 1998).
Desse modo, procuramos escutar a história de vida de cada mulher, decodificando o
que é nuclear, o que as sustenta e as faz ser como são, agir como agem. As interpretações
acerca de qual deusa rege naquele momento àquela mulher são uma tentativa de entender a
experiência pessoal e única de cada uma delas, não reivindica o status de verdade.
Este estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa - CEP da Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte – UERN, aprovado com o parecer número 2.216.107.

III RESULTADOS E DISCUSSÃO

Trazer a imagem das deusas para dialogar com o modo de ser das mulheres
possibilita um despertar para as forças e fragilidades que existem dentro de cada uma, além de
apontar caminhos e instruir, função psicológica dos mitos (CAMPBELL, 1990). Para além
dessa função, Moura (2017) afirma que ao reconhecer a deusa interior, a mulher pode
encontrar cura para suas feridas e resgatar suas potencialidades.
Para Bolen (1990), quando a mulher sabe qual o seu padrão dominante de deusa ela
adquire autoconhecimento a respeito da força de certos instintos, das suas habilidades, das
prioridades de suas escolhas e das possibilidades de encontrar sentido no que faz.
Das mulheres que foram colaboradoras na pesquisa cinco padrões de deusas
emergiram: Héstia, Hera, Deméter, Perséfone e Afrodite. Duas delas pareceram estar mais
fixadas em um padrão, a pesquisa demostrou que estas apresentavam mais rigidez e mais
sintomas de adoecimento psíquico. Adoecimento aqui, compreendido na perspectiva da
Clarissa Estés (2014), psicóloga junguiana que trabalha há muitos anos com os padrões
arquetípicos nas mulheres, e desenvolveu o conceito de mulher selvagem (que para os autores
desta pesquisa refere-se a Grande Deusa). Para Estés, a desintegração das deusas, o
distanciamento do arquétipo da mulher selvagem, provoca adoecimento psíquico, que pode
ser percebido a partir de sensações de extraordinária aridez, fragilidade, depressão, confusão,
sentimento de estar amordaçada, impotente, insegura, demasiada preocupação com a opinião
dos outros, distanciamento da espiritualidade, exagerado envolvimento com a domesticidade
ou com o intelectualismo.
As mulheres participantes receberam codinomes relacionados às deusas com as quais
houve maior identificação.
3.1 HERA
Hera é uma mulher de 51 anos, casada, com duas filhas. Relata histórias de violência
física, psicológica e patrimonial. Apesar das vivências de sofrimento no casamento, não
considera a possibilidade de uma separação. Para ela a manutenção do casamento é muito
importante.
“Eu esperava que ele melhorasse, eu ia dormir, ele batia em mim, mas eu
esperava que no outro dia ele se arrependesse. Como ele chorava aos meus
pés e dizia que não ia fazer mais aquilo, que tinha se arrependido. Sempre
era assim. Aí, eu como mulher, eu acreditava. Aí depois, com o passar do
tempo foi ficando assim, aquela angústia, porque eu vi que ele não mudava,
ele só prometia, mas ele não mudava. Entendeu?”
“Tá com uns oito anos, oito anos que ele não me bate. Mas as agressões
verbais ele nunca deixou. Ele me chama de vagabunda. (choro). Diz que eu
não sou nada.”
“Eu não queria que ninguém me visse como uma mulher sem marido. Eu
nunca me vi assim.”
“Não me arrependo assim, do esforço que eu fiz pra construir e manter a
minha família”.

Apesar disso, a todo momento Hera espera que sua relação seja de companheirismo,
que o marido a valorize e faça as coisas com ela, em parceria.

“Eu acho muito bonito as meninas que trabalham comigo dizerem que
passaram o final de semana em tal canto com o marido e os filhos. Eu tinha
muita vontade. Tinha não, eu tenho vontade. Mas lá em casa se eu falar
isso, cai a casa. Como é que eu vou? Não é pelas condições, é porque o
homem não vai.”
“Eu sinto muita falta dele me acompanhar.”

Hera também se apresenta como a guardiã das tradições familiares, no seu cuidado
com os filhos apresenta uma postura conservadora.

“Com a mais nova é diferente. Ela me atende mais. Assim, ela quer ir pra
algum canto, ela me pede, ela me diz, ela completou 29 anos, mas ela me
diz. Ela arrumou um namorado, no ano novo ela me pediu pra ir pra praia
com ele, se abro exceção hoje pra ela ir pra praia, quando for amanhã ela
vai querer ir dormir na casa dele. E eu não concordo. Não adianta eu dar
uma de moderna se eu não sou. Tudo bem ela sair, 22h ela chegar em casa.
Mas ela sair e dormir na casa dele, chegar em casa no outro dia, eu não
concordo.”

Hera também direciona sua energia para organizar sua casa, seu trabalho. Ela assume
todas as responsabilidades do lar para si, e demonstra sua utilidade. Mas não há uma plena
satisfação em ocupar esse lugar, de modo que torna-se uma pessoa amarga, exigente,
dominadora do marido e dos filhos, com quem luta pelo poder.

“Eu casei muito jovem na vida. Eu nunca gozei de uma verdadeira


felicidade. (suspiro). Desde que eu casei eu alcancei só responsabilidade.
Eu só sei o que é responsabilidade. Então por isso que eu acho ás vezes que
eu me torno grosseira, não é porque eu seja uma pessoa mau, é porque eu
encontro a minha defesa aí.”
“É muito ruim viver assim. Eu trabalho, financeiramente eu sou
independente, mas não sou por conta disso, porque são muitas pessoas ao
meu redor e eu que tenho que dar conta de tudo.”

Fixada nesse arquétipo, Hera cria relacionamentos frios e distantes, e isso é motivo
de muito sofrimento para ela.

“Eu acho assim, que poderia até ter sido diferente, poderia ter tido mais
compreensão de ambas as partes, eu sou uma pessoa de gênio muito forte,
não vou negar, eu tenho as minhas opiniões.”
“Eu vivo naquela casa, mas eu não vivo né nem pisando em ovos, é pisando
em pregos, em cacos de vidro, com aquele cuidado pra não me cortar.”
“Tem dias que eu acho tão difícil. Tem dias que eu não tenho força. Eu digo
assim, eu vou morrer. (choro).”

O caminho para cura, afirma Moura (2017), está em Hera desenvolver empatia e
aceitação pelas diferenças do outro, aceitar as perdas, buscar ressignificar padrões e
transformar a raiva e frustrações em algo criativo.

3.2 AFRODITE
Afrodite se apresenta com características de outras duas deusas além desta principal,
Héstia e Deméter. Afrodite é casada, tem um filho, 57 anos.
Na sua juventude, Afrodite afirma gostar dos prazeres e da beleza, aspectos que estão
sendo deixados de lado, talvez pela crescente força do arquétipo de Héstia em sua psique.
Héstia se manifesta quando Afrodite decide dedicar-se integralmente ao serviço religioso.

“Uma vez eu tava na cama com ele, a gente terminou de namorar, e eu tava
com ele, e a gente era muito foguento, nós dois, hoje eu virei uma geladeira,
mas antigamente, na juventude né.”
“Hoje eu me sinto uma pessoa sexualmente sem desejo nenhum, não tenho
desejo nenhum.”
“Às vezes eu digo pra ele que eu me sinto tão acabada, tão velha. Ele diz
que é porque eu me entreguei, mas que me vê como uma mulher linda. Só é
pra mim se arrumar, pintar os cabelos, vestir um vestido, botar um
batonzinho, um lapisinho, como eu gostava antes.”
“Mas ultimamente o desejo que eu mais tinha era me batizar, dedicar minha
vida ao soberano Deus e a Jesus. E eu consegui né. Sou feliz por eu ter
participado, me dedicado ao santo pai celestial e a Jesus porque é o melhor
modo de vida”.

Afrodite traz uma idealização do sentimento de amor e o quanto valoriza esse


sentimento. O amor pela natureza, pela divindade, pelo marido, pelo filho, pelo irmão, pela
humanidade. A todo momento ela parece estar contemplando a beleza nas coisas mais
simples.
No seu íntimo, Afrodite é acolhedora, generosa, capaz de compaixão e empatia.
Sente necessidade do contato, do abraço, do aconchego, do encontro amoroso. Não só
expresso na relação carinhosa com o marido, mas com o filho.

“Apesar de tudo isso que a gente passou, eu sinto assim, que três coisas que
a gente não deve deixar nunca acabar num relacionamento, é o amor, a
admiração e o respeito. Até hoje eu sinto amor por ele, admiração e
respeito. E eu também sinto que ele tem essas mesmas coisas por mim
ainda.”
“Então, acho amor pra ele não faltou. Assim, nesse sentido de dar atenção.
Eu deitava com ele na cama, ficava fazendo carinho. Até agora, com 21
anos. Eu chego perto, fico cheirando ele, e só faz isso só quando tá eu e ele,
nem na frente do pai ele faz.”

Deméter aparece numa relação de super proteção com o filho, e de abnegação de si


mesma pelo outro.
“Eu acho que eu sou uma mãe que por eu ter só ele, e ter visto que ele tinha
uma certa dificuldade em algumas coisas, eu protegi muito ele, sabe. Eu
deveria, se eu fosse uma mulher jovem, e fosse criar outro filho, eu já
deixaria cair, pra se levantar, eu não teria protegido tanto meu filho, assim,
eu criaria diferente. De ter deixado ele se libertar mais.”
“Ultimamente eu tô me sentindo assim, são tantas perturbações, não tanto
do meu marido e do meu filho, mas do meu irmão que saiu da cadeia (...)
Então, ele liga pra mim, bota a bomba em cima de mim, aí eu ligo pros
outros meus irmãos, nenhum quer, aí eu fico me sentindo assim, com as
mãos atadas, sem poder fazer nada. Porque ele diz assim que eu sou a única
irmã que o ajuda. Tá entendendo como é, como é difícil. Aí ele joga isso em
mim. Eu fico doente, fico atordoada.”

Sua maior necessidade, talvez seja, como afirma Moura (2017), aceitar o
envelhecimento como algo natural e conseguir fortalecer sua autoestima apesar disso, além do
equilíbrio dessas deusas em seu comportamento.

3.3 DEMÉTER
Deméter tem 41 anos, é mãe de dois filhos, avó, e casada. Hera também aparece
como um arquétipo condutor da vida dessa mulher. Em seus relatos podemos perceber o
cuidado dela com os filhos, e o prazer em assumir a função materna.

“Toda vida eu coloquei meus filhos em primeiro lugar, como até hoje, tudo,
o que eu puder, eu faço por eles. [...] Eu pensava assim, em ainda ter uns
quatro filhos, acho bonito, uma família grande”.
“Eu me achava uma mãe muito boa. Eles até hoje dizem que eu sou uma
mãe muito boa. Eu cuidava. Levantava cedo, ia deixar na creche. Quando
não tinha, eu conseguia um jeito deles ficar comigo no trabalho, e eles
ficavam quieto. Pra onde eu ia, levava eles. Nunca troquei eles por festa.
Ainda são minha prioridade. Mesmo crescido, na casa deles, ainda são.”

Geralmente, como ocorreu na vida de Deméter, as mulheres regidas pelo arquétipo


dessa deusa casam-se cedo, o que dificulta, muitas vezes, a continuidade dos seus estudos,
desenvolvimento e ascensão profissional (MOURA, 2017). O arquétipo de Hera aparece
quando, mesmo tendo de se submeter a situações de violação, permanece na relação pela
dificuldade em se imaginar como uma mulher sem marido.

“Estudar, eu vim estudar, já tava com 14 anos quando eu fui pra escola a
primeira vez. Eu não aprendi mais porque meu marido era muito ciumento,
como ainda é. (...). Dizia que não adiantava eu ir pra colégio, que eu não ia
aprender. Tudo aquilo ficou martelando na minha cabeça. ‘Você não vai
aprender. Você não vai aprender’. Até hoje tem coisa que eu sei e sei lá,
fica preso na minha cabeça, como se eu não soubesse.”
“Às vezes, as vezes eu penso, mas ao mesmo tempo peço a Deus e volto
atrás. Se meu pai fosse vivo, eu não estaria mais morando aqui. (pausa). Eu
já tinha ido embora morar perto dele. Ele sempre deu muito apoio a gente.
Eu me sinto sem chão hoje. Às vezes eu olho, o que importa pra mim é meus
filhos. Eu não gosto mais nem de casa (choro). Aí só em pensar em deixar,
como vai ser a minha vida? Sozinha?!”
“Eu acho que o que me faz ficar com ele é segurança, de não ficar só. Só
isso. Creio que só isso.”

A mulher regida por Deméter possui ímpeto e grande vigor para gerar e cuidar da
vida. Gosta de organizar a casa, cozinhar, cuidar de plantas, animais (MOURA, 2017). Nossa
Deméter gosta de criar trabalhos com suas próprias mãos, de bordar, de cozinhar, de plantar.

“Eu gosto muito de criança. [...] Criança é tudo de bom, se eu pudesse tinha
um monte de menino. É bom demais. Gosto muito de flores. De plantar
assim, um jardinzinho, de hortas, eu gosto também de plantar”.

Quando se encontra em desarmonia é possessiva, demasiadamente controladora e


apegada aos filhos, vivencia o ninho vazio de modo doentio e autodestrutivo, criando
chantagens e uma cobrança de atenção constante, o que não aparece na narrativa de Deméter.
Entretanto, por sempre assumir o papel de cuidadora, sente falta de ser cuidada e tem
dificuldade de expor suas necessidades.

“Eu penso que desde nova as pessoas já olham pra mim com uma
segurança, como se eu fosse só pra cuidar, como se eu não precisasse de
cuidado. (choro). Só querem como se eu fosse pra cuidar, só pra cuidar.
Mas eu também preciso de cuidado.”

3.4 PERSÉFONE
Perséfone é casada, tem um filho, está com 47 anos. A mulher regida pelo arquétipo
de Perséfone possui é doce, meiga, no entanto tem muita inclinação para a solidão. Inspira no
outro o desejo de ser cuidada pela sua passividade e fragilidade, deixando-se, muitas vezes,
conduzir-se pelo outro (MOURA, 2017).

“Eu queria muito ter o apoio de todos, como eu digo a você, eu gostaria de
ter muita gente perto de mim, eu queria ser uma pessoa muito amada por
todos. E eu não tenho”.
“Eu me sinto muito só. Entendeu? Devido a minha religião a gente não
comemorar e não se agrupar, aí eu me sinto só. (...) Eu tenho uma inveja
delas serem mais amigas de outras do que de mim, entendeu? Eu me sinto
um peixinho fora d’água. Excluída.”

É a filha dependente da mãe, apegada, que mesmo depois de casada não desliga-se
na casa materna. Perséfone também tem uma extrema sensibilidade para ligar-se aos mistérios
da vida e conectar-se ao transcendente, daí vem sua facilidade em continuar convivendo com
sua mãe nos sonhos, sem que isso lhe cause estranhamento.

“Eu dizia pra não deixarem a minha mãe ir embora. ‘Ela é meu amor,
minha mãe, minha amiga, é tudo na minha vida. Ela não pode ir’. (choro). E
eu ficava muito desesperada. Foi muito triste, e até hoje eu lembro dessa
cena, eu choro. Hoje eu choro pouco, não é que eu esqueça dela, é porque
toda hora que eu durmo, se eu durmo a meio-dia, se eu durmo a noite, eu
estou com ela, eu sonho com ela direto, direto. Eu vejo ela, eu converso com
ela. Ela vive direto nos meus sonhos.”

Quando está em desarmonia mostra falta de ímpeto para buscar seus objetivos, torna-
se dependente, passiva aos desejos e imposições dos outros. Não vivencia os prazeres do
corpo e da sexualidade de forma satisfatória porque é desconectada do seu corpo e dos seus
ciclos (MOURA, 2017). Nossa Perséfone encontra-se em desarmonia, percebemos em seu
relato a passividade diante das situações e a vivência desprazerosa da sexualidade.
“Se eu tivesse coragem de deixar de ser uma testemunha de Jeová, eu iria
ser o meio termo. Eu ia ficar neutra”
“Mas a minha convivência com ele é muito boa, a gente tenta concordar um
com o outro, conversar e entrar num acordo sempre que a gente quer fazer
alguma coisa, e ele é muito feliz, sabe? Eu não vou dizer assim que eu sou.
Eu sou feliz porque eu tenho o que eu não tinha, que é uma casa, uma
família. Mas acho que falta paixão. Aquela paixão, aquela coisa
avassaladora, aquela coisa forte. (pausa). Eu acho que se tivesse isso seria
perfeito. Mas nada é perfeito. Eu não posso ter tudo. Eu tenho muito pouco
desejo por ele. (pausa). Ele sabe que eu não sinto prazer, mas ele acredita
que seja por conta da medicação.”
“Eu gostaria de mudar, de viver outra vida, outras coisas. (pausa). Gostaria
de me libertar, de voar, acho que é isso, eu vivo muito assim sabe, acuada.
Aquela coisa encolhida. Sabe, eu queria me soltar, queria viver (abre os
braços). Minha vida é muito limitada”

O caminho para cura é ela assumir sua responsabilidade e vencer a dependência nas
escolhas da vida, aprender a expressar seus desejos e vontades, e iluminar sua capacidade de
conectar-se com o transcendente a fim de auxiliar outros com sua percepção e ligação com o
sagrado (MOURA, p. 2017).

CONCLUSÕES

Iniciamos este artigo falando sobre a importância da mitologia para a compreensão


da forma de ser e de se relacionar de cada um de nós, focando nas imagens arquetípicas das
deusas, mitos que conduzem as existências femininas. Encerramos com a convicção de que os
mitos, de fato, quando compreendidos em nossa narrativa de vida favorecem o caminho da
individualização e crescimento pessoal.
Entendemos que não há apenas a Hera, a Afrodite, a Deméter e a Perséfone descritas
aqui, há muitas, com histórias semelhantes, potentes, que ora estão mais integradas, ora
menos, mas sempre buscando sua melhor forma. São histórias que refletem a singularidade de
cada mulher, mas também a coletividade, a representação do feminino em nossa sociedade.
É importante pontuar que, no decorrer deste trabalho, buscamos colocar a
subjetividade de cada mulher em primeiro lugar, sua humanidade mais bela e a mais horrível.
Buscamos não nos colocar como donos do saber ou mestres julgadores do certo ou errado,
bem ou mal, mas como escavadores, ansiosos por compreender o como e o porquê de cada
mulher ser do jeito que é. Provavelmente foi por esta postura que elas puderam expressar-se
tão profundamente.
Por fim, insistimos na importância de que as narrativas continuem a serem contadas,
e que existam mais pesquisadores interessados em ouvir e acolher o outro para além da lógica
positivista da dualidade sujeito-objeto.. No final das contas, o suficiente é que as histórias
possam ser transmitidas, doadas, e que, a cada relato, “os poderes do amor, da misericórdia,
da generosidade, da perseverança sejam invocados para estar no mundo”, como diz Clarissa
Estés na obra O dom da história, e isso possa nos tornar mais humanos e menos técnicos do
conhecimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARBIER, René. A escuta sensível na abordagem transversal. In: BARBOSA, J. G.


(coord) Multirreferencialidade ns ciências e na educação. São Carlos: EdUFSCar, 1998.

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Expressão Gráfica e editora, 2017.

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