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FORUM CULTURAL MUNDIAL: o que é a Cultura?

Mesa Redonda realizada no dia 24 Novembro 2006

Augusto Boal

Palavras são meios de transporte, como o trem, a bicicleta


e o avião; a palavra Cultura é um enorme caminhão que
suporta qualquer carga. É necessário defini-la, para que
saibamos do que estamos falando, quando dela queremos falar.

Cultura é o que estamos fazemos aqui, agora, neste


instante, discutindo o que é a Cultura. Cultura é este
microfone, esta mesa, esta sala. Nada disto existia – é fruto da
mão humana, executora de nossos pensamentos e desejos.

Este encontro não é apenas “um” exemplo do que seja a


Cultura: é o máximo exemplo, pois Cultura é a reflexão do ser
humano sobre si mesmo e sobre o mundo, e sobre o que faz
neste mundo. É o feito e o fazer, é o como fazer o que se faz. É a
criação de uma realidade não prevista nos desígnios da
Natureza. Um Real objetivo, como a construção de casas e
pontes, feitas de pedra; e um Real subjetivo, como a Moral, feita
de valores.

A Cultura possibilita e engendra a Arte, que é o seu estado


supremo e soberano.

Uma lenda antiga e distante – e tudo que é distante e


antigo nos dá a impressão de verdadeiro – diz que a Arte
tornou-se necessária para completar a incoerente e
desorganizada criação divina.

Deus, segundo a lenda, por mais perfeito, veloz e talentoso


que tenha sido, tinha também seus limites, e não foi capaz de
completar a Obra que havia planejado, no tempo que havia
calculado. Calculou mal: seis dias mostrou-se curto prazo,
mesmo para o Todo Poderoso, pois que o Poder, ao existir, fixa

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seus limites; se não os tivesse, seria também meu, nosso e
vosso, seríamos todos divinos: o poder seria substância
universal e não predicado do poderoso. Até o Poder tem
fronteiras.

Deus, cansado – toda força, na exaustão, encontra seus


limites – desconsolado e triste, buscou merecido descanso no
domingo, mas não sem antes apelar para os Artistas que logo
vieram em seu socorro para reorganizar o mundo que ele mal
havia – e havia mal - criado.

Os sons divinos andavam por aí, espalhados, notas, claves


e bemóis – sonoridades ao vento, enlouquecidas na imensidão
vazia... Vieram compositores para lhes dar estrutura e razão: eis
a sonata, o samba e a canção. A matéria prima era divina; mas
a forma tinha os contornos de Villa Lobos, Cartola, Dolores
Durán e Nelson Cavaquinho, para não citar nenhum presente.

As cores, espalhadas e sem rumo, andavam às turras com


o traço, buscando perspectivas na vida e no espaço - vieram os
artistas plásticos e pintaram quadros, esculpiram estátuas,
grafitaram paredes, e nos fizeram entender o que Deus quis
fazer, mas não teve tempo; quis dizer, mas não disse.

As palavras, esses seres estranhos que não existem – são


riscos na areia que as ondas do mar apagam; sons, que a leve
brisa dissolve com suas carícias -, as palavras eram vazias e
tortas, desengonçadas - até que chegaram os poetas para
domesticá-las, dando-lhes sentido e destino.

Só os seres humanos são capazes de criar Arte e Cultura


-que é a coerência com a qual o Artista vê o mundo, corrige e
completa a obra de Deus que, assim, se revela e resplandece.
Vivam os artistas! Mas coerência nem sempre é virtude, como
nem sempre a Moral é Ética.

A Cultura, que faz existir o imaginado, que é invenção do


novo, do necessário e útil - e do belo, tão útil como necessário -,
pode-se extasiar diante de si mesma e mergulhar nas águas de

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Narciso. O Artista, inebriado, pode pensar-se Deus e parir a arte
pela arte. Pode, ao contrário, congelar seus caminhos, e se
estiolar na repetição.

A Cultura, no fio da navalha, cria, destrói e recria.


Quando, querendo instaurar o novo, fixamos nossos caminhos,
a cultura se cristaliza na Técnica, que nos permite inventar e
apressa o invento, mas que pode nos obrigar a segui-la, e servi-
la – ajuda ou atrapalha. Quando fixamos nosso comportamento
na sociedade, a Cultura se cristaliza na Moral, tão necessária,
mas que pode ser odiosa. Tudo, neste mundo em trânsito,
transita.

Cultura, traduzida em Arte, deve ser criação permanente,


revolucionária, conquista do novo, nunca estratificação do
conquistado. Pode-se transformar em Indústria, pode-se inserir
na Economia, sim, mas desde que o criador seja o Artista,
sempre o Artista, e não o produtor, que deve trabalhar com
aquilo que foi criado, e não criar limites à criação. O artista cria
o que não existia; o produtor, ao que existe, abre caminhos.

Se o produtor serve ao Mercado, deve ter claro que


Mercado quer a repetição estéril, do já feito e conhecido, sem
sobressaltos; o Artista, quer inovar. O Mercado, eclético,
mercadeja arte e sabão em pó, porque ambos são necessários e
vendáveis, mas não é justo confundir artista e saponáceo.

É verdade que nós, artistas, queremos vender nossos


discos, livros e quadros, queremos a casa cheia, mas não ao
preço da renúncia daquilo que nos explica e justifica: a Arte,
que será sempre revolucionária, ou nada será.

Repito, sempre, que não temos nada contra o comércio,


como tal. Admiro mesmo os comerciantes que fazem do seu
comércio uma arte, mas tenho pena dos artistas que fazem, da
sua Arte, um comércio.

Cultura, traduzida em Moral, fixa a Tradição. A Tradição,


em si, não é boa nem má, pois é criada por sociedades que não

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são eternas. Devemos cultivar as tradições humanísticas, mas,
com energia, rejeitar as cruéis e desumanas.

No mês passado, eu estive na Índia com todo o meu Centro


carioca, presidindo a fundação da Federação Indiana de Teatro
do Oprimido, na mesma semana em que foi promulgada uma lei
autorizando o Estado a tentar dissuadir os pais de forçarem o
casamento de seus filhos crianças. A Lei dizia que, se esses
casamentos já tivessem sido realizados, seriam válidos por
respeito às tradições familiares. Casar crianças e obrigá-las à
convivência, é crime, e nenhuma tradição pode justificar um
crime!

Na mesma semana, foi promulgada, na mesma Índia,


outra lei, a que protege as mulheres contra a violência
doméstica. Está em vigor. Lei radical, exemplar, que condena e
pune, não apenas a violência física e sexual, mas até mesmo o
palavrão atirado contra a esposa ou namorada, a tia, a sogra, a
filha ou a vizinha. Peço aos legisladores, porventura presentes,
que levem em conta a sugestão indiana: seja a mulher quem for,
nem palavrão, nem com uma flor.

Exemplos de tradições culturais odiosas não nos faltam e,


entre tantas, podemos citar os flagelos que são as guerras
coloniais e as imperialistas, disfarçadas ou não; a pena de
morte e a escravidão; o Cassino da Bolsa de Valores que faz, do
Mercado, um Deus, e o cinema de Hollywood, Deus do Mercado;
os genocídios étnicos, passados e atuais; o mundo em chamas.

Contra essas tradições sempre se lutou. A Revolução


Francesa, que representou um bem para a Humanidade, não
respeitou as tradições da realeza; nós, se tivéssemos mantido
nossas tradições monárquicas, hoje não seríamos República.

Cruéis tradições devem ser combatidas com vigor por


serem contrárias à humanização do ser humano. Mas devemos
recorrer às nossas boas e sadias tradições quando somos
invadidos pela mídia globalizada, arte enlatada, notícias
manipuladas, ódio racial, pensamento único.

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Isto é a Cultura: acabar com as tradições malsãs criando
novos caminhos, inventar uma Ética. Se, no Brasil, já foi
tradição a fome no Norte e Nordeste, Cultura é dar de comer ao
faminto. Se é tradição o latifúndio improdutivo, Cultura é
permitir que, quem sabe, pode e quer, que o faça produzir. Se
foi tradição servil imitar a arte alheia, surgiram os Pontos de
Cultura para liberar a nossa criatividade, engenho e arte.

Os Pontos de Cultura vêm nos lembrar que não se pode


privatizar a denominação de Artista, pois Artistas somos todos
nós, seres humanos: somos os inventores do mundo. Todos nós
somos capazes de produzir Arte, - não uns melhor que outros,
mas cada um melhor do que si mesmo.

Esta é, em Arte, a única competição que devemos aceitar:


eu, comigo. Como escreveu o poeta quinhentista português, Sá
de Miranda: “Comigo me desavim, sou posto em todo perigo,
não posso viver comigo, nem posso fugir de mim”. Isto é Arte:
todos nós conosco nos desavimos e, como somos artistas, nos
desaviremos sempre, conosco e com o mundo, até mudarmos o
mundo que temos, e mudar o que faremos.

Se era tradição nortear nossos passos pelo que fazem os


países do Norte, temos agora que usar o neologismo de um
amigo meu, temos que “sulear” nossos caminhos, estendendo a
mão amiga aos países que estão nesta mesa, e a outros que,
nesta mesa, também têm assento e, no nosso coração, lugar.

Reconhecemos a nossa fraternidade com os países da


América Latina, como o Equador; africanos, como a África do
Sul; asiáticos, como a imensa Índia; e eu, como bom português
trasmontano que também sou, de Justes e Vila Real, saúdo a
presença querida de Portugal.

Muito obrigado.

☺☺☺