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Reprodução humana e manipulação da fertilidade

possível, graças ao conhecimento dos mecanismos hormonais e celulares


que regulam a reprodução, aliado ao progresso da biotecnologia.
A biotecnologia integra diversos domínios, como, por exemplo, as ciên-
cias da vida e a engenharia. É uma área interdisciplinar em que se cruzam
saberes e práticas provenientes de diferentes áreas.
Atualmente, os casais podem decidir não ter um filho, recorrendo, para
isso, a diversas biotecnologias que impedem a conceção, mas outros, pelo
contrário, não podem procriar devido a problemas de fertilidade, tendo de
recorrer à aplicação de biotecnologias adequadas.

Contraceção
O nascimento de um filho deve ser um ato refletido e desejado. Ter um
filho implica a responsabilidade de lhe facultar um ambiente com condições
propícias a um desenvolvimento físico e psíquico saudável.
Uma gravidez não desejada pode, em certas condições, trazer problemas
de difícil resolução.
Cabe a cada casal definir o número de filhos que deseja e o intervalo de
tempo entre cada um deles, tendo em consideração a situação do casal, da
família e da sociedade.
A contraceção é o conjunto de métodos utilizados para evitar a procriação.
Atualmente, existem vários métodos contracetivos que permitem aos casais
planear o nascimento dos filhos. A utilização desses métodos implica uma
tomada de consciência sobre a responsabilidade do casal no respeito mútuo
e no respeito pela vida. Por isso, tanto o homem como a mulher têm respon-
sabilidade na escolha dos métodos contracetivos que irão aplicar. Uma
informação cuidada sobre esses métodos, com conhecimento das vanta-
gens e riscos de cada um deles, é essencial para a escolha do casal face à sua
situação.
Há processos radicais para evitar a procriação, como a esterelização mas-
culina ou feminina, mas esses processos são, geralmente, irreversíveis.
Segundo a OMS, um método contracetivo deve ser eficaz e seguro. Nos
nossos dias, existe uma grande diversidade de métodos contracetivos que
impedem de uma maneira mais ou menos fiável uma gravidez não desejada,
sem, no entanto, serem irreversíveis, ou seja, sem impedirem a retoma da
fertilidade após a paragem da aplicação do método utilizado.

Métodos contracetivos naturais


A contraceção pode ser efetuada através da abstinência sexual durante
os períodos férteis da mulher, quando esta apresenta ciclos sexuais regu-
lares.
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A mulher pode recorrer a diversos processos para determinar o período


fértil. A observação do aspeto do muco cervical e a avaliação diária da tempe-
ratura são sinais a considerar.
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Observação do muco cervical – as características do muco cervical, como

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já vimos, modificam-se ao longo do ciclo sexual.

Abundante,
Aspeto
fluido,
viscoso
transparente

Fig. 38 – Período fértil. Fig. 39 – Período não fértil.

Avaliação diária da temperatura – a temperatura varia ao longo do ciclo


sexual, e com base nessas variações é possível determinar o dia da ovulação.

Temperatura corporal ao acordar (°C) Início do ciclo 2 3 4


1 5
Menstruação

Menstruação Fim do ciclo 28 Menstruação 6


27 7
26 8
25 9
37,0
24 10
A
23 11
Período 12
22 fértil
21 B 13
Período 20 14
fértil 19 15
18 17 16
36,3 A Duração dos
1 5 10 15 20 25 2830 espermatozoides
Tempo (dias do ciclo) B Duração do oócito II Ovulação

Fig. 40 – Variação da temperatura ao longo do ciclo.

A data da ovulação corresponde ao último dia que precede a subida da temperatura.


O patamar de hipertermia corresponde a um período não fértil, exceto nos primeiros
dois dias após o seu início, que correspondem ao período em que o oócito pode ser
fecundado.
Para poder ser comparada ao longo dos dias, a temperatura retal deve ser avaliada nas
mesmas condições, com o mesmo termómetro, de manhã, ao acordar, antes de qual-
quer atividade.

Com os dados recolhidos, a mulher pode estabelecer um calendário


menstrual ao longo dos meses, assinalando o primeiro dia da menstruação, os
valores da temperatura e o aspeto do muco cervical.
Quando o ciclo é regular e hormonalmente equilibrado, o período fértil
situa-se entre o 10.° e o 16.° dias do ciclo, com base no período de sobrevi-
vência dos espermatozoides e dos oócitos II nas trompas.
Os métodos naturais não apresentam efeitos secundários, mas a sua efi-
cácia depende do rigor com que é determinada a data da ovulação. Têm, no
entanto, riscos que resultam, por exemplo, da possibilidade de ocorrerem
oscilações na temperatura devido a causas diversas da ovulação ou de uma
avaliação incorreta do muco cervical.
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Reprodução humana e manipulação da fertilidade

Métodos contracetivos não naturais


Existem diversos processos/métodos artificiais de prevenção da gravidez,
atuando de modo diferente e com uma eficácia variável.

COMO ATUAM OS MÉTODOS CONTRACETIVOS


ATIVIDADE 12
NÃO NATURAIS?

Pílulas
contracetivas

Dispositivo
intrauterino
(DIU)

Preservativo
Espermicidas

Fig. 41

Métodos contracetivos
Classificação Método Local onde atua Modo(s) de ação
Mecânico Preservativo C G
Reação inflamatória do endométrio
Intrauterino A D
que impede a nidação.
Químico Espermicida E H
Impede a ovulação.
Hormonal B F
Altera o endométrio.

EXPLORAÇÃO
1. Com base nos métodos contracetivos apresentados no esquema e em conhecimentos anteriores,
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complete a tabela, fazendo corresponder a cada letra a informação adequada.


2. Além de serem utilizados como contracetivos, os preservativos constituem também um método
de proteção sexual. Justifique esta afirmação.

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Os diversos métodos contracetivos não naturais têm modos de ação e fia-
bilidade diferentes. Atualmente, a única contraceção praticada pelo homem
em grande escala é o uso do preservativo, o qual protege, também, de doen-
ças sexualmente transmissíveis, pelo que deve ser sempre utilizado. A sua
aplicação deve ser complementada com o uso de outro método contracetivo,
devido à sua menor eficácia na prevenção da gravidez. O método de contra-
ceção mais eficaz é a contraceção hormonal realizada pela mulher.

COMO SURGIRAM AS PÍLULAS CONTRACETIVAS?


ATIVIDADE 13
QUAL A SUA AÇÃO?

Com base no resultado de investigações sobre A primeira pílula sintetizada foi testada em mulheres
a fisiologia humana e nas propriedades das hor- voluntárias. Os resultados foram positivos, embora se
monas sexuais, Gregory Pincus, médico norte- tenham verificado efeitos secundários consideráveis.
-americano (1903-1967), procurou desenvol- As investigações prosseguiram e, em 1960, foi autori-
ver um processo de contraceção feminino. Em zada a venda de pílulas contracetivas nos EUA. Atual-
1954 elaborou a primeira pílula, uma mistura mente constitui o método contracetivo mais utilizado
de estrogénios e progesterona de síntese. em todo o mundo.

LH
FSH
(mU . mL –1)
80
Concentração

Toma quotidiana de uma Toma da


60
pílula estroprogestativa mesma pílula
40

20

0
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 Dias

Fig. 42 – Variação das taxas sanguíneas de FSH e de LH durante vários ciclos.

EXPLORAÇÃO
1. Porque não foi autorizada imediatamente a venda da pílula produzida a partir das investigações de
Pincus?
2. Sabendo que um único comprimido do produto inventado continha, praticamente, uma dosagem
de hormonas idêntica à que atualmente está contida numa placa de comprimidos, refira a causa dos
efeitos secundários que ocorreram nas primeiras tomas, com base nos dados do gráfico.
3. Compare a evolução da concentração de gonadoestimulinas num ciclo sem a toma de pílulas e de
um ciclo em que ocorre a sua utilização.
4. Refira as consequências do uso das pílulas estroprogestativas nos ciclos ovárico e uterino.

Desde a invenção das primeiras pílulas contracetivas, grandes progressos


têm sido efetuados. Não só foram produzidos novos derivados sintéticos das
hormonas ováricas, mas também foram sendo reduzidas as dosagens em que
são ministradas. Desse modo, os efeitos secundários que surgiram nos pri-
meiros anos da sua aplicação foram sendo sucessivamente reduzidos.
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Reprodução humana e manipulação da fertilidade

Atualmente, a contraceção hormonal é um dos métodos reversíveis mais


eficazes, se aconselhada pelo médico e administrada corretamente.
As pílulas contracetivas diferem na composição e na dosagem dos deriva-
dos hormonais que as constituem.
As pílulas combinadas ou estroprogestativas contêm uma associação de
estrogénios e de progesterona de síntese. São tomadas diariamente, em
regra durante 21 dias consecutivos, a partir do primeiro dia da menstruação,
interrompendo-se a toma durante os restantes dias do ciclo, de modo a ocor-
rer a menstruação. Atualmente, e para evitar o esquecimento no início de
uma nova embalagem, encontram-se no mercado embalagens de pílulas de
toma diária consecutiva, com 24 comprimi-
dos de uma cor e 4 comprimidos brancos.
Os comprimidos brancos não contêm
medicamento, são um placebo, e é durante
a sua toma que ocorre a hemorragia de pri-
vação (menstruação).
Durante a utilização das pílulas combina-
das, estroprogestativas, verifica-se, pela
ação dos derivados das hormonas sexuais,
uma retroação negativa sobre o complexo Fig. 43 – Variedade de pílulas contracetivas.
hipotálamo-hipófise, bloqueando em
grande parte a libertação de FSH e de LH. Complexo Efeitos sobre o
Nos ovários, sem o estímulo das gonadoes- hipotálamo-hipófise organismo
timulinas, os folículos ováricos não experi-
mentam maturação, não ocorrendo ovula- • Diminuição na
ção nem formação do corpo amarelo. No libertação de
útero, sob a ação dos derivados das hormo- FSH e LH.
• Não há pico de
nas, existe um certo desenvolvimento do LH.
endométrio e ocorre menstruação. No LH FSH
entanto, o endométrio não se apresenta
apto para a nidação. O muco cervical man-
tém-se espesso, impedindo a passagem dos • Não se
desenvolvem os
espermatozoides. folículos.
Ovário • Não há ovulação.
As pílulas progestativas, sem estrogénios, em repouso • Não se forma
tomam-se diariamente sem interrupção. corpo amarelo.

As pílulas progestativas têm o mesmo Estrogénios


mecanismo de ação das pílulas estropro- Progesterona

gestativas e bloqueiam a ovulação. A sua


Pílula
eficácia é igual e devem ser utilizadas por • Mucosa uterina
não adaptada à
quem não queira ou não possa, por questões nidação.
de saúde, usar um método com estrogénios • Muco cervical
(por exemplo, mulheres a amamentar, espesso.
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Útero
mulheres com doenças tromboembólicas
ou antecedentes familiares de doenças
tromboembólicas). Fig. 44 – Ação das pílulas contracetivas combinadas.
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Nos últimos anos, à contraceção regulada por hormonas através de
pílulas vieram juntar-se outras técnicas hormonais com o mesmo grau
de eficácia. Podem citar-se outros métodos estroprogestativos (selo
transdérmico e anel vaginal) e outros métodos progestativos (implante
subdérmico e sistema intrauterino).

Selo transdérmico – método estroprogestativo que atua como uma


Fig. 45 – Selo transdérmico. pílula combinada em que as hormonas são absorvidas através da pele.
Aplica-se uma vez por semana, durante três semanas seguidas,
com uma semana de descanso.

Anel vaginal – método estroprogestativo em forma de anel flexível


com uma baixa dosagem hormonal e eficácia semelhante à de outros
processos hormonais.
É aplicado pela própria mulher apenas uma vez em cada ciclo. Man-
tém-se por três semanas e deve ser retirado na quarta semana.
Fig. 46 – Anel vaginal.

Implante subdérmico – método progestativo. Trata-se de um dis-


positivo com a forma de um bastonete que é implantado pelo médico,
sob a pele do antebraço, com recurso a anestesia local. Foi desenvol-
vido de forma a manter uma boa eficácia durante três anos.

Sistema intrauterino – método progestativo que consiste num


dispositivo que é implantado no útero pelo médico e que contém
progesterona. Produz o espessamento do muco cervical, que impede a
Fig. 47 – Implante subdérmico.
progressão dos espermatozoides, e altera o endométrio para impedir a
nidação. É eficaz de três a sete anos.

Os contracetivos hormonais são, em regra, bem tolerados pela maioria das


mulheres, impedindo a ovulação e a fecundação. Permitem a regulação dos
ciclos menstruais e a diminuição das dores no período menstrual.

Contudo, os contracetivos hormonais estroprogestativos não estão isen-


tos de efeitos secundários. Alguns desses efeitos incluem problemas de
hipertensão, diabetes e insuficiência da circulação sanguínea. Os riscos
podem ser agravados por interação com outros fatores, como o tabaco, o
álcool e outras drogas.

A utilização regular dos contracetivos hormonais deve efetuar-se sob


prescrição médica e com vigilância durante a sua administração.

Existem também dois métodos hormonais em comercialização conheci-


dos como pílula de emergência. Devem ser utilizados quando ocorre uma
relação sexual não protegida (sem uso de contraceção) ou não protegida cor-
retamente (rotura de preservativo). Ambas atuam no bloqueio temporário da
ovulação. A pílula de levonorgestrel, a mais conhecida, é menos eficaz e blo-
queia a ovulação durante três dias. A outra pílula contém acetato de ulipristal
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Reprodução humana e manipulação da fertilidade

e bloqueia a ovulação por um período de cinco dias (que é o tempo que os


espermatozoides se mantêm viáveis e com capacidade fértil no sistema
genital após uma relação sexual). Qualquer destas pílulas deve ser tomada
com a maior brevidade possível após a relação sexual.

A utilização de contraceção de emergência é segura, embora menos efi-


caz que um método de contraceção de uso regular. Não interfere na fertili-
dade futura e é de venda livre. No entanto, a sua utilização deve ser o último
recurso para evitar uma gravidez numa relação sexual não protegida.

IDEIAS-CHAVE
• Segunda a OMS, um método contracetivo deve ser eficaz e seguro.
• Existe uma grande variedade de métodos contracetivos que permitem evitar a gravidez.

Métodos contracetivos
Grau aproximado
Método Vantagens Riscos/Limitações
de eficácia
Sem efeitos secundários. Nos casos de ciclos sexuais
Natural

Abstinência Impede a fecundação pela ausência irregulares. Não protege das


Variável
periódica de relações sexuais durante o doenças sexualmente
período fértil. transmissíveis (DST).

Proteção por pouco tempo.


Pode causar alergias.
Espermicida
Destrói os espermatozoides. Não protege das doenças 75%
(químico)
sexualmente transmissíveis
Barreira

(DST).

Evita o encontro dos gâmetas Pode romper-se ou deixar


Preservativo e, portanto, a fecundação. passar os espermatozoides Depende
(mecânico) Único contracetivo que protege quando não for corretamente do uso correto
do contágio de DST. utilizado.

Pode, em certos casos, causar


problemas cardiovasculares e
Superior a 99%
Impede a ovulação ou a fecundação. problemas metabólicos.
Não natural

Estroprogestativo se usado
Ciclos menstruais mais regulares. Não protege das doenças
Hormonal

corretamente
sexualmente transmissíveis
(DST).
Não protege das doenças Superior a 99%
Impede a ovulação ou a fecundação.
Progestativo sexualmente transmissíveis se usado
Ciclos menstruais mais regulares.
(DST). corretamente

Promove o espessamento do muco Pode ser desconfortável.


Sistema
cervical e impede a progressão dos Não protege das doenças
intrauterino Superior a 99%
espermatozoides. Altera o sexualmente transmissíveis
(SIU)
Intrauterino

endométrio para impedir a nidação. (DST).


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Pode ser desconfortável.


Dispositivo Impede a união dos gâmetas
Não protege das doenças
intrauterino ou a nidação se já tiver havido Superior a 99%
sexualmente transmissíveis
(DIU) fecundação.
(DST).

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