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POR QUE O

HOMEM

É TÃO

ESPECIAL?

Pedro Dong

São Paulo
Editora Árvore da Vida
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Impresso no Brasil

Os textos das referências bíblicas foram extraídos da Versão Revista e Atualizada de


João Ferreira de Almeida (SBB), 2ª edição.
Sumário
PREFÁCIO

Capítulo um
QUE É O HOMEM?

Capítulo dois
A MARAVILHOSA CRIAÇÃO DO HOMEM

Capítulo três
QUE ACONTECEU COM O HOMEM?

Capítulo quatro
QUE PLANO DEUS TEM PARA O HOMEM?

Capítulo cinco
FRUTO DA EVOLUÇÃO OU DESTINATÁRIO DE UM PROPÓSITO
MAIOR?

Capítulo seis
PARA ONDE A FÉ PODERÁ LEVAR O HOMEM?
PREFÁCIO

A primeira frase de Deus, que deu origem ao universo que conhecemos, foi
“Haja luz”. Por meio dessa ordem divina o visível passou a existir a partir do
invisível. Nada no universo é mais rápido que a luz. Sua velocidade alcança
300 mil quilômetros por segundo. Esse número é a chave para a compreensão
de outra maravilha da criação de Deus: o tamanho real que o universo
conhecido possui. A terra tem 12 mil quilômetros de diâmetro. O sol mede
1,4 milhões de quilômetros em seu diâmetro e não é uma das maiores estrelas
do universo. Canis Majoris, uma das maiores estrelas conhecidas, possui o
diâmetro de 2,9 bilhões de quilômetros.
Embora os números sejam extraordinários, para as medidas maiores
precisamos de uma unidade ainda mais ampla: o ano-luz. Em um ano a luz
percorre a distância de 9,5 trilhões de quilômetros, um número quase
inconcebível aos seres humanos. O universo observável possui entre 100 a
200 bilhões de galáxias. A Via Láctea, a galáxia espiral onde a terra se
encontra, mede 100 mil anos-luz de diâmetro e possui entre 100 a 400 bilhões
de estrelas. Se compararmos essas dimensões com o ser humano, que pode
medir até 2,4 metros de altura, que é o homem? Não somos mais que pó,
somos menos que nada em comparação à totalidade da criação (Sl 103:14; Is
41:24). Vivemos no máximo 120 anos de idade, tempo este que nada
representa se compararmos à existência de nosso planeta ou do próprio
universo.
Ao mesmo tempo, sabemos que o universo avança inexoravelmente para
sua própria destruição. Cada estrela consumirá completamente todo seu
combustível. O nosso sol não é exceção, pois sua luz diminuirá até mergulhar
os planetas ao seu redor em completa escuridão. Dentro do universo, que
caminha para sua total decadência, o milagre da vida se faz conhecido apenas
numa pequena circunferência azul: a terra, girando em torno do sol, a estrela
amarela. Mas um único meteorito errante poderá colidir com a terra causando
o fim da civilização humana, o que para o universo não passaria de uma
ocorrência comum, corriqueira, tão insignificante como a folha que cai de
uma árvore, um cabelo arrancado pelo passar de um pente ou ainda uma
formiga empurrada pelo vento. Entretanto, isso seria o fim da orgulhosa
história da humanidade. Todos os heróis, toda ciência e toda arrogância
passariam como um sopro.
Os cientistas, especialmente os astrofísicos, têm feito muitas descobertas
desde o lançamento do telescópio Hubble. Com o avanço da tecnologia torna-
se possível comprovar teorias físicas que estavam somente no papel, como o
bóson de Higgs, que explicaria o surgimento da matéria, isto é, de tudo aquilo
que possui massa. O pouco que o homem desvenda das maravilhas do
universo torna-o mais seguro de suas equações, excluindo Deus delas.
Foi com essa preocupação que resolvemos elaborar esta obra que ora temos
a honra de apresentar, para comprovar, à luz da Bíblia, não somente a
existência de Deus, mas principalmente a importância do homem no contexto
do plano sapientíssimo do Criador. O salmista Davi, conhecedor desse
maravilhoso plano, já indagava o Senhor em sua época: “Quando contemplo
os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é
o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? (Sl 8:3-4).
Hoje, também, não há como não fazer a mesma pergunta: “Por que o homem
é tão especial para Deus?
A grande maravilha é que o homem é o único ser vivo na terra capaz de ter
acesso a Deus por meio da fé. O homem que pertence ao universo físico,
material, também foi projetado para contatar Deus que habita a eternidade.
Por essa razão, se analisarmos a existência do homem apenas do ponto de
vista da ciência, nunca chegaremos a alguma conclusão plausível; é
necessário passarmos para o plano da fé, para o plano das coisas que se não
veem.
Este livro foi feito com base na ajuda espiritual que recebemos durante
mais de 40 anos do ministério da palavra de nosso querido irmão Dong Yu
Lan. Dentre tantos assuntos de grande importância que foram abordados por
ele nesse período de tempo, destacamos sua visão acerca do reino vindouro.
Em Hebreus 2 o autor afirma que Deus não mais sujeitará aos anjos o mundo
que há de vir, e, sim, ao homem (vs. 5-8). Essa revelação não somente indica
a importância do homem no plano de Deus, mas também a razão de Deus tê-
lo feito de maneira tão especial: governar com Cristo em Seu reino e servir a
Deus por toda a eternidade!
Esperamos que a leitura deste livro cause um impacto em você, caro leitor,
e mude radicalmente o rumo de sua vida.

Pedro Dong
São Paulo, agosto de 2015.
Capítulo um

QUE É O HOMEM?

A formação do universo
Os cientistas defendem a teoria do “Big Bang” para a formação do
universo. Essa teoria está baseada, em linhas gerais, nas seguintes
constatações: as galáxias estão se afastando a velocidades muito grandes pela
observação do astrônomo Edwin Hubble, feita em 1929; fato comprovado
pelo efeito Doppler que diz que, quando um corpo luminoso ou emissor
sonoro se aproxima de um observador, o comprimento de onda da luz ou de
som diminui, e, quando se afasta, aumenta. Podemos constatar isso
observando que quando um carro se aproxima de nós o som é mais agudo, e,
quando se afasta, torna-se mais grave. No caso dos corpos estelares, quando
se afastam, a cor tende para o vermelho, de comprimento de onda maior.
Ora, concluem os cientistas, “se as galáxias estão se afastando, isso
significa que elas já estiveram mais próximas em tempos remotos. Se
voltarmos ao ponto inicial do tempo, não estariam concentradas em um único
ponto?”. Nasceu assim a teoria do “Big Bang”: uma grande explosão a uma
altíssima temperatura. Segundo os físicos, “a partir daí o universo começou a
se expandir e a se esfriar”. Pela velocidade dessa expansão, estimou-se que a
idade do universo esteja por volta de 13,7 bilhões de anos.

O tamanho
O universo é o que há de mais fascinante para o homem; sua imensidão
foge da compreensão da mente humana. No universo observável deve haver
entre 100 a 200 bilhões de galáxias, e o seu tamanho é estimado em 93
bilhões de anos-luz, sendo que um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de Km, um
número fora do entendimento humano. Isso ainda sem falar no universo não
conhecido.
A nossa galáxia é a Via Láctea, que é espiral e tem a forma de um disco,
cujo diâmetro é de 100.000 anos-luz, sendo sua espessura entre 1.000 a 3.000
anos-luz. O número de estrelas da nossa galáxia é estimado entre 100 a 400
bilhões. A terra gira em torno do sol, que é a nossa estrela. O sistema solar é
formado pelo sol mais oito planetas conhecidos.

A insignificância do homem
Diante dos números astronômicos, ressalta-se mais ainda a insignificância
do homem. Não é sem razão que os filósofos querem nos alertar acerca da
nossa pouca importância no contexto universal. Certo filósofo
contemporâneo e muito conhecido entre nós deu palestras afirmando que o
homem é uma espécie dentre 3 milhões de espécies classificadas que vivem
no planeta Terra, situada numa única galáxia entre outras 200 bilhões
existentes, num dos universos possíveis e que vai desaparecer. Nesse
contexto é presunçoso dizer que o homem tem alguma importância. Por que
razão Deus faria tudo isso para o homem existir nesse planeta que some
diante da imensidão do universo? Parece não fazer nenhum sentido.

Que é o homem aos olhos de Deus?


No livro de Jó, um de seus interlocutores chamado Bildade, diz algo a
respeito da insignificância do homem: “Quanto menos o homem, que é
gusano, e o filho do homem, que é verme!” (Jó 25:6). As profecias de Isaías
igualmente revelam, não somente a pequenez de um indivíduo, mas a das
nações: “Eis que as nações são consideradas por ele como um pingo que cai
dum balde e como um grão de pó na balança; as ilhas são como pó fino que
se levanta. Todas as nações são perante ele como coisa que não é nada; ele as
considera menos que nada, como um vácuo” (Is 40:15, 17). Por essa razão o
salmista Davi exclama: “Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em toda a
terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade. Da boca de
pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus
adversários, para fazeres emudecer o inimigo e o vingador. Quando
contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que
estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que
o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de
glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão, e
sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do
campo; as aves do céu e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas
dos mares. Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu
nome!” (Sl 8).
O salmista não se contém ao descrever a majestosa criação de Deus: os
céus, a lua e as estrelas. E ao contemplar a grandiosidade dos céus, obra de
Suas mãos, realça a insignificância do homem, pois, em face da dimensão de
nossa galáxia, a terra é menor que um grão de areia, e diante da imensidão do
universo, que é formado por uma infinidade de galáxias, o nosso planeta
passa a ser totalmente insignificante. E que dizer do homem que nele habita?
Hoje, ao lermos esse salmo, não há como não fazer a mesma pergunta:
“Que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?”.
Em outras palavras: “Por que o homem é tão especial para Deus?”. Conforme
o salmo de Davi, o homem foi feito, por um pouco, menor do que Deus, e de
glória e de honra Ele o coroou; deu-lhe domínio sobre as obras de Sua mão, e
sob seus pés tudo lhe pôs. Para entendermos melhor esse assunto, precisamos
ir ao livro de Hebreus, no Novo Testamento, onde esse salmo foi citado.

O homem foi escolhido para governar o mundo que há de vir


O autor do livro de Hebreus afirma: “Pois não foi a anjos que sujeitou o
mundo que há de vir, sobre o qual estamos falando; antes, alguém, em certo
lugar, deu pleno testemunho, dizendo: Que é o homem, que dele te lembres?
Ou o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, por um pouco, menor que os
anjos, de glória e de honra o coroaste [e o constituíste sobre as obras das tuas
mãos]. Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, desde que lhe
sujeitou todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio” (Hb 2:5-8a).
Na citação acima, o autor fala de anjos e do mundo que há de vir. Quanto
aos anjos, precisamos saber qual é a função deles e porque Deus foi tão
taxativo em dizer que eles não governarão o mundo que há de vir. Precisamos
saber também quem governa o presente mundo e, se houve um mundo no
passado, quem o governava?

No princípio criou Deus os céus e a terra


O primeiro mundo
O primeiro versículo da Bíblia diz: “No princípio criou Deus os céus e a
terra” (Gn 1:1). A expressão “no princípio” não significa o início da
eternidade, pois a eternidade não tem começo nem fim; antes, significa a
interrupção da eternidade para dar início ao que chamamos de “tempo”, pois
o nosso Deus é eterno (21:33). Como diz Isaías: “Não sabes, não ouviste que
o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se
fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento” (Is 40:28), pois Ele é o
próprio Pai da Eternidade (9:6).
Outro versículo da Bíblia que prova que Deus existe de eternidade
(passada) a eternidade (futura), e que em determinado momento Ele criou os
céus e a terra, está em Salmos 90: “Antes que os montes nascessem e se
formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus” (v. 2).

Os céus proclamam a glória de Deus


O salmista Davi descreve a glória de Deus manifestada na criação: “Os
céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas
mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra
noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som;
no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até os
confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai
dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho.
Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada
refoge ao seu calor” (Sl 19:1-6).
A criação de Deus é realmente maravilhosa; cada dia tem sua beleza e
história para contar, e cada noite também. O seu discurso é sem linguagem e
sem som, no entanto, sua voz e suas palavras chegam até os confins do
mundo. O sol, que é tão vital para a vida na terra, surge a cada dia e percorre
majestosamente como herói o seu caminho, distribuindo calor a todos os seus
habitantes.

As maravilhas da terra
A Bíblia diz que Jó se julgava tão justo que considerava sua justiça maior
que a de Deus (Jó 35:2). Todavia, quando Ele finalmente lhe apareceu, disse-
lhe: “Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem
conhecimento?” (38:2); e passou a mostrar-lhe as maravilhas da criação da
terra.
Os fundamentos da terra
Deus começa perguntando a Jó: “Onde estavas tu, quando eu lançava os
fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhe pôs as
medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que
estão fundadas as suas bases ou quem lhe assentou a pedra angular, quando
as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os
filhos de Deus?” (Jó 38:4-7). Segundo a engenharia civil, a primeira
providência para se fazer uma construção é ter um terreno; sobre ele faz-se a
locação precisa da obra a ser realizada com equipamento adequado para,
depois, pôr as medidas, estendendo o cordel para a demarcação da obra. Em
seguida, constroem-se as bases para a fundação do edifício, assentando-lhe a
pedra angular.
A grande maravilha é que o “terreno” onde Deus fundou a terra é o espaço.
Como lançar os fundamentos no espaço? Como “fazer a locação exata da
terra”, pôr-lhe as medidas, estender sobre ela o cordel? Somente o Deus
Criador é capaz dessa proeza! Não é sem razão que os arcanjos, as estrelas da
alva (Is 14:12) e os anjos, os filhos de Deus (Jó 1:6), alegremente cantavam e
rejubilavam na criação da terra.

O mar
O SENHOR continua a indagar Jó: “Ou quem encerrou o mar com portas,
quando irrompeu da madre; quando eu lhe pus as nuvens por vestidura e a
escuridão por fraldas? Quando eu lhe tracei limites, e lhe pus ferrolhos e
portas, e disse: até aqui virás e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho
das tuas ondas?” (Jó 38:8-11). De fato, o mar tem as nuvens por vestidura e a
escuridão por fraldas em suas profundezas. Devido ao movimento da terra, do
sol e da lua, e pela ação do vento, o grande volume das águas dos oceanos se
movimenta; seria impossível conter a extraordinária força de suas ondas, se
não fosse pela providência divina.
Se Deus não tivesse traçado limites às águas do mar, não haveria como
refrear o devastador poder delas. Deus, em Sua infinita sabedoria, pôs a areia
para limite do mar: “Não temereis a mim? – diz o SENHOR; não tremereis
diante de mim, que pus a areia para limite do mar, limite perpétuo, que ele
não traspassará? Ainda que se levantem as suas ondas, não prevalecerão;
ainda que bramem, não o traspassarão” (Jr 5:22). A energia das ondas do mar
é tão grande que o homem tem muita dificuldade para lidar com ela nas obras
de engenharia marítima. O Criador, entretanto, usou a areia, uma solução
muito simples, para dissipar a gigantesca energia das águas do mar.

Os vários mistérios da terra


Em seguida, Deus passa a mostrar a Jó a beleza e os efeitos da aurora (Jó
38:12-15); discorre sobre os mistérios do fundo do mar, do abismo, das
portas da morte, da região tenebrosa (vs. 16-17). Ele pergunta a Jó se conhece
com exatidão a largura da terra; se ele sabe onde mora a luz e onde é o lugar
das trevas; onde estão os depósitos da neve e os tesouros da saraiva que Ele
mesmo reservou para o tempo da angústia, para o dia da peleja e da guerra
(vs. 18-23); quem faz chover sobre a terra para regá-la e fazer crescer os
renovos da erva; quem é o pai da chuva, quem gera as gotas do orvalho e
quem dá à luz a geada do céu (vs. 25-29).
Como se isso não bastasse para provar a ignorância de Jó, que censurava a
Deus achando-se mais entendido que o Criador, o SENHOR passou a mostrar-
lhe Sua sabedoria na criação das estrelas, dos signos do Zodíaco e da Ursa;
dos fenômenos meteorológicos; e menciona até sobre a liga que aglutina o pó
e o transforma em massa sólida, em torrões de solo (vs. 31-38). Para
terminar, no capítulo 39, Deus confronta Jó com os mistérios do reino animal,
revelando Sua sabedoria nos mínimos detalhes.

Jó se cala diante das maravilhas da criação de Deus


“Então, Jó respondeu ao SENHOR e disse: Sou indigno; que te responderia
eu? Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei, aliás, duas
vezes, porém não prosseguirei” (Jó 40:3-5); “Na verdade, falei do que não
entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia”
(42:3b). As maravilhas da criação tornam o homem indesculpável quando
este nega a existência de Deus.
Na Epístola aos Romanos o apóstolo Paulo diz: “A ira de Deus se revela do
céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela
injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles,
porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o
seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se
reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das
coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (1:18-
20).

A terra estava sem forma e vazia


Conforme descrevemos anteriormente, a terra foi criada de modo
assombrosamente maravilhoso; habitada por toda sorte de seres vivos.
Todavia, algo aconteceu na primeira criação de Deus que O levou a julgar,
com água, os seres pré-adâmicos.
O resultado do juízo de Deus está no segundo versículo da Bíblia: “A terra,
porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o
Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn 1:2). Contudo, Deus não
criou a terra sem forma e vazia: “Porque assim diz o SENHOR, que criou os
céus, o Deus que formou a terra, que a fez e a estabeleceu; que não a criou
para ser um caos, mas para ser habitada: Eu sou o SENHOR e não há outro” (Is
45:18).

O presente mundo
Deus havia sujeitado aos anjos o primeiro mundo que criara. Lúcifer, o
arcanjo escolhido para administrar aquele mundo, foi perfeito em sua função
de governá-lo, até o dia que o orgulho entrou em seu coração e o corrompeu.
Uma vez lançado para a terra, juntamente com os anjos que o seguiram,
Satanás usurpou a terra e nela estabeleceu seu domínio ilegítimo. O apóstolo
João afirmou em sua primeira carta: “Sabemos que somos de Deus e que o
mundo inteiro jaz no Maligno” (1 Jo 5:19). O próprio Senhor Jesus também
disse um pouco antes de Seu martírio: “Chegou o momento de ser julgado
este mundo, e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12:31); “Já não falarei
muito convosco, porque aí vem o príncipe do mundo; e ele nada tem em
mim” (14:30); e “O príncipe deste mundo já está julgado” (16:11b).
A rebelião que começou no céu foi isolada na terra, mas Deus não deixou
essa pendência sem solução. Ele deseja restaurar Seu reino na terra, por isso
todas as atenções estão voltadas para ela. Por este motivo, Jesus nos ensina a
orar: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu
reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:9-10). Deus
não tem nenhuma restrição para fazer Sua vontade no céu, e já que Ele isolou
esse problema na terra, só terá total liberdade quando vier o Seu reino.

Deus restaura a terra


Pelo motivo que acabamos de explicar, a terra se tornou o centro das
atenções do universo; somente quando o problema de rebelião aqui se
resolver, estará resolvida a questão da autoridade de Deus em todo o
universo. Deus precisa expulsar o príncipe deste mundo e restabelecer Seu
reino na terra. É neste cenário que o homem é inserido no contexto; daí sua
importância para Deus.
Depois da contaminação de Satanás e o consequente juízo de Deus, a terra
estava totalmente coberta com águas, e havia trevas sobre a face do abismo,
mas o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. Deus precisava restaurar a
terra para que ela fosse outra vez habitável, preparando-a para receber o
homem, semelhante a uma mãe que prepara todo o enxoval para receber seu
querido bebê.

A luz
A primeira providência de Deus, para restaurar a terra que estava envolta
em trevas, foi a criação da luz, pois sem ela não há vida: “Disse Deus: Haja
luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as
trevas” (Gn 1:3-4). Essa luz é uma sombra do que Deus é: “Deus é luz, e não
há nele treva nenhuma” (1 Jo 1:5b). Como a verdadeira luz, Deus deseja
resplandecer no coração do homem: “Porque Deus, que disse: Das trevas
resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para
iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2 Co 4:6).
Portanto, para haver vida na terra a primeira coisa que Deus providenciou foi
a luz.

O firmamento
No segundo dia da criação disse Deus: “Haja firmamento no meio das
águas e separação entre águas e águas. Fez, pois, Deus o firmamento e
separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o
firmamento. E assim se fez. E chamou Deus ao firmamento Céus” (Gn 1:6-
8). A palavra firmamento deriva de um verbo que significa expandir;
podemos dizer que é uma expansão. A expansão é simplesmente a atmosfera,
o ar que respiramos. Sem o oxigênio não há vida, o homem não viveria sem o
ar, por isso, a segunda providência de Deus foi criar o ar, a atmosfera.
Todavia, em Sua infinita sabedoria, ao criar a atmosfera Deus proveu outro
elemento tão essencial à vida: a água. As águas que cobriram a superfície da
terra, pelo juízo de Deus, não eram potáveis. O surgimento da atmosfera deu
início ao processo de evaporação, que é a passagem da água em seu estado
líquido para o estado gasoso, em forma de vapor, na temperatura ambiente. O
vapor produzido por esse processo acumula-se no céu em forma de nuvens.
Em determinadas condições climáticas, a água acumulada em forma de vapor
nas nuvens, se precipita em forma de chuva, neve ou saraivas. Essa “água de
cima” é potável, responsável pelo fornecimento a toda terra. Resumindo,
Deus proveu a luz no primeiro dia e, o ar e a água no segundo dia; todos são
vitais para o surgimento e manutenção da vida.
Deus é maravilhoso! No primeiro dia Ele providenciou a luz, e a Escritura
revela que Deus é luz. No segundo dia, Ele proveu o ar e a água potável.
Tanto o ar como a água representam o Espírito, pois em hebraico e em grego,
a palavra “ar” é a mesma usada para Espírito. Certa vez, Jesus disse: “Quem
crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.
Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele
cressem; pois o Espírito até esse momento não fora dado, porque Jesus não
havia sido ainda glorificado” (Jo 7:38-39).

A terra e os mares
Deus prosseguiu na preparação da terra para o homem habitar e disse:
“Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção
seca. E assim se fez. À porção seca chamou Deus Terra e ao ajuntamento das
águas, Mares. E viu Deus que isso era bom” (Gn 1:9-10). Para o surgimento
de vida na superfície da terra era necessário que houvesse uma porção seca da
terra; assim Deus ajuntou todas as águas em um só lugar e fez emergir a terra
no terceiro dia. Isso possibilitou a produção de relva, ervas que dão semente e
árvores frutíferas que dão fruto sobre a terra (v. 11).
Isso ocorreu no terceiro dia, assim como Cristo ressuscitou ao terceiro dia:
“Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos
nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao
terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co 15:3-4). Por meio da ressurreição,
Cristo se tornou a boa terra para produzir vida, representada pela boa terra de
Canaã: “Porque o SENHOR, teu Deus, te faz entrar numa boa terra, terra de
ribeiros de águas, de fontes, de mananciais profundos, que saem dos vales e
das montanhas; terra de trigo e cevada, de vides, figueiras e romeiras; terra de
oliveiras, de azeite e mel; terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te
faltará nela; terra cujas pedras são ferro e de cujos montes cavarás o cobre.
Comerás, e te fartarás, e louvarás ao SENHOR, teu Deus, pela boa terra que te
deu” (Dt 8:7-10).
Portanto, no terceiro dia apareceu a terra para o surgimento da vida, como
sombra de Cristo que é a boa terra. Todos esses itens da criação indicam que
Deus não somente se preocupa com a provisão física do homem, que seria em
breve criado, mas também com sua provisão espiritual. No próximo capítulo
veremos os dias subsequentes.
Capítulo dois

A MARAVILHOSA CRIAÇÃO DO HOMEM

O primeiro livro da Bíblia, Gênesis, começa com a criação dos céus e da


terra; em seguida, revela o pano de fundo caótico de uma terra sem forma e
vazia, como resultado da rebelião de Satanás. Mas a boa notícia é: “O
Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (1:2b). Isso significa que Deus
não abandonou a terra, antes, Ele queria restaurá-la para que se tornasse
habitável. Seu objetivo final era criar algo muito especial para reaver o reino
deste mundo e, ainda, assumir o domínio no mundo que há de vir.
Conforme vimos no capítulo anterior, nos primeiros três dias Deus
providenciou os itens essenciais para a subsistência da vida. No primeiro dia
Ele criou a luz, pois sem ela não haveria vida. No segundo dia Ele fez o
firmamento que fornece o ar que respiramos, e com o surgimento da
atmosfera ocorreu a separação entre as águas debaixo do firmamento e as
águas sobre o firmamento; sendo estas últimas, saudáveis para a vida. No
terceiro dia, Deus trouxe a terra para a superfície das águas para o surgimento
de vários tipos de vida.

O sol, a lua e as estrelas


No quarto dia criou Deus os luzeiros no firmamento dos céus, para fazer
separação entre o dia e a noite e para sinais, estações, dias e anos. Fez Deus
os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para
governar a noite; e fez também as estrelas. Ele os colocou no firmamento dos
céus para alumiarem a terra, governarem o dia e a noite e fazerem separação
entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom (Gn 1:14-18).
Primeiramente, vamos tratar dos luzeiros no sentido espiritual. Na profecia
de Zacarias, pai de João Batista, Jesus seria o sol nascente das alturas (Lc
1:78). O sol, que é Cristo, possui luz própria; a lua representa o povo de
Deus, que no Novo Testamento é a igreja, o Corpo de Cristo. A lua não
possui luz própria, pois ela reflete a luz do sol. A igreja como o Corpo de
Cristo não deve ter luz própria, antes deve refletir somente a luz do Senhor
Jesus. As estrelas se referem aos santos, individualmente falando, que
brilham espiritualmente ao longo das eras.
No sentido físico, a luz do primeiro dia seria uma claridade genérica,
difusa. No quarto dia, Deus trouxe à existência as fontes concretas de luz, os
luzeiros. Sem a luz do sol as plantas não dariam frutos; sem os luzeiros não
haveria sinais, estações, dias e anos. Em outras palavras, a existência de todas
essas coisas é que proporciona o devido equilíbrio à natureza.
Para explicar melhor a diferença entre a luz difusa do primeiro dia e a luz
concreta do quarto dia, no sentido espiritual, podemos usar a ilustração
daquela mulher que foi surpreendida em adultério, que os escribas e fariseus
trouxeram até Jesus para testá-Lo, querendo saber se Ele concordava que ela
fosse apedrejada conforme a lei de Moisés. Contudo, Jesus inclinando-se,
escrevia na terra com o dedo. Como insistiam na pergunta Jesus se levantou e
lhes disse: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe
atire pedra. E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. Mas,
ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se
retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só
Jesus e a mulher no meio onde estava. Erguendo-se Jesus e não vendo a
ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão teus
acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor!
Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.
De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue
não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8:7b-12).
Quando Jesus disse aos acusadores da mulher que quem estivesse sem
pecado, fosse o primeiro que lhe atirasse pedra, eles foram iluminados e se
retiraram, pois a luz revelou que eram pecadores. Essa luz é como a do
primeiro dia, uma luz difusa. Infelizmente, por haverem se retirado, eles
receberam somente a luz do primeiro dia, a luz do mundo. Mas a mulher, por
ter permanecido, recebeu a luz da vida, “a luz do quarto dia”, pois ela teve
seus pecados perdoados e foi salva. Por isso, se alguém receber a luz do
mundo e reconhecer que é pecador, deve permanecer na luz e seguir a Jesus;
assim ganhará a luz da vida, receberá a vida de Deus.

O quinto dia
“Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e
voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos céus. Criou, pois, Deus os
grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais
povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as
suas espécies. E viu Deus que isso era bom. E Deus os abençoou, dizendo:
Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e, na terra, se
multipliquem as aves. Houve tarde e manhã, o quinto dia” (Gn 1:20-23). O
quinto dia foi usado para Deus criar todos os seres viventes que povoam as
águas e as aves que vivem sobre a terra, sob o firmamento dos céus.

O sexto dia – o grande dia


“Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua
espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua
espécie. E assim se fez. E fez Deus os animais selváticos, segundo a sua
espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis
da terra, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom” (Gn 1:24-25).
Assim foram criados os animais selváticos, répteis e animais domésticos no
último dia da criação.

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus


Com a Sua infinita sabedoria, criou Deus todas as coisas necessárias à vida,
estabeleceu o equilíbrio ecológico da natureza para, finalmente, criar o item
principal: o homem. O homem é realmente especial, ele foi criado à imagem
e semelhança do Criador: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa
imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do
mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e
sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à
sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os
abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e
sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre
todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:26-28).
Salientamos que o homem é muitíssimo importante para Deus, pois em
todo registro da criação na Bíblia, ele é o único criado à imagem e
semelhança de Deus. A imagem refere-se a algo interior: o intelecto, a
emoção e a vontade; a semelhança refere-se a algo exterior: a forma do corpo.
Deus, porém, é invisível, mas Cristo, Seu Filho é a Sua imagem: “Este é a
imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criação” (Cl 1:15).
Fomos, portanto, criados à imagem de Cristo, possuímos mente, emoção e
vontade para conter a mente de Cristo (1 Co 2:16), o beneplácito de Deus
(aquilo que Lhe agrada) e Sua vontade (Ef 1:5, 9). O homem foi criado como
um vaso, um recipiente (Rm 9:21, 23). Para ilustrar, podemos usar a figura da
luva: assim como a luva serve para revestir a mão, que comanda todos os
movimentos, o homem foi feito para viver segundo a mente de Cristo,
conforme Seu bom prazer, a fim de realizar a vontade de Deus.
Exteriormente, o homem foi feito à semelhança de Deus, que é percebida
em Cristo. O apóstolo Paulo escreveu aos filipenses, afirmando que Cristo
Jesus “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana” (Fp 2:7). Jesus
tomou a semelhança de homem, e foi reconhecido na aparência de um
homem. Todavia, quem deu essa aparência ao homem? Na Epístola aos
Colossenses, Paulo desvenda que Cristo é a imagem do Deus invisível, o
Primogênito de toda a criação; pois Nele foram criadas todas as coisas. Tudo
foi criado por meio Dele e para Ele (1:15-16), portanto temos a aparência de
Cristo. Quando um homem se olha no espelho tem de dar graças a Deus
porque foi criado à Sua semelhança. Aleluia!

Domínio sobre o mar, os céus e a terra


Vale ressaltar que ao criar o homem, Deus lhe deu o domínio sobre os
peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela
terra. O domínio está necessariamente atrelado a um reino, pois é dentro de
sua esfera que se exerce autoridade. No livro de Hebreus, o autor afirma que
Deus não sujeitará o mundo que há de vir aos anjos, pois Ele determinou dar
ao homem o domínio do reino vindouro (2:5-8).
Conforme mencionamos no capítulo anterior, o mundo presente em que
vivemos é governado ilegitimamente por Satanás e seu exército. Este exército
era formado pelos anjos que o seguiram em sua rebelião, que são os
principados e potestades, os dominadores do mundo tenebroso, as forças
espirituais do mal, nas regiões celestes, e os demônios, mencionados em
Efésios (6:12).
Dominar sobre o mar não é somente ter domínio sobre os peixes, pois o
mar representa o lugar de habitação dos demônios (Mt 8:32; 12:43). O
homem foi criado para ter domínio sobre os demônios. Dominar sobre os
céus também não significa ter domínio apenas sobre as aves, pois Satanás é o
príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da
desobediência, e seus principados são as forças espirituais do mal nas regiões
celestes (Ef 2:2; 6:12). Exercer domínio sobre os céus é, portanto, dominar
sobre as hostes malignas. Ter domínio sobre a terra não é dominar somente
sobre os répteis, literalmente, mas dominar sobre Satanás que veio em forma
de serpente para enganar a Eva (Gn 3:1), sobre o diabo que usurpou para si a
autoridade sobre os reinos do mundo e a sua glória (Lc 4:5-6).

O sétimo dia – Deus descansou


“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e
manhã, o sexto dia” (Gn 1:31). Em alguns dos outros dias Deus disse apenas
“bom”, mas quando fez todas as coisas para finalmente criar o homem, Ele
disse “muito bom”. E havendo Deus terminado no dia sétimo a Sua obra, que
fizera, descansou nesse dia de toda a Sua obra que tinha feito. E abençoou
Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que,
como Criador, fizera (Gn 2:2-3).
O apóstolo Pedro, em sua segunda epístola, afirma que para o Senhor, um
dia é como mil anos, e mil anos, como um dia (2 Pe 3:8); desse modo
entendemos que, no sentido espiritual, seis dias podem significar seis mil
anos desde a criação de Adão, o tempo necessário para Deus reaver Seu reino
na terra com a cooperação do homem. O sétimo dia foi abençoado e
santificado por Deus, porque Ele descansou de toda obra que realizou como
Criador. O sétimo dia, dessa forma, corresponde ao milênio, os mil anos em
que os vencedores reinarão com Cristo, pois quando o sétimo anjo tocar a
trombeta, o reino do mundo, que foi usurpado por Satanás, será de nosso
Senhor e do Seu Cristo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos (Ap 11:15;
20:4, 6). O sétimo período, de mil anos, será governado por Cristo e Seus
vencedores, e será um reino de paz e de justiça (Is 9:6-7; Dn 7:22; Rm
14:17).

Desvendando os mistérios da criação do homem


O homem é, de fato, muito especial para Deus. Além de tê-lo criado à Sua
imagem e semelhança, Ele fez algo muito especial que vamos descobrir
começando pelo versículo 7 de Gênesis 2: “Então, formou o SENHOR Deus ao
homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem
passou a ser alma vivente”.

O corpo humano foi feito do pó da terra


Em primeiro lugar, pelo versículo acima, tomamos conhecimento de que o
corpo do homem foi feito do pó da terra. Se fizermos uma análise química
veremos que o nosso corpo possui os mesmos elementos existentes no pó da
terra. Devemos perceber que o nosso corpo físico, feito do pó da terra, é
provisório, temporário, para Deus colocar nele algo definitivo, eterno. Por
esse motivo, o apóstolo Paulo compara o nosso corpo físico com uma casa,
com um tabernáculo, que Deus nos deu para viver enquanto estamos na terra,
pois ele se desfará um dia: “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste
tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita
por mãos, eterna, nos céus. E, por isso, neste tabernáculo gememos,
aspirando por ser revestidos da nossa habitação celestial; se, todavia, formos
encontrados vestidos e não nus. Pois, na verdade, os que estamos neste
tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas
revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida” (2 Co 5:1-4).
Um dia, quando se completar em nós a salvação de Deus, como veremos
mais adiante, receberemos um corpo definitivo, imortal, uma casa eterna, nos
céus. Todavia, o corpo que possuímos hoje é feito do pó da terra e, quando
esse corpo morrer, para a terra, ao pó, tornará: “Todos vão para o mesmo
lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão” (Ec 3:20).

O grande segredo da criação do homem está no fôlego de vida


Deus criou todas as coisas por meio de Sua palavra. Com uma palavra Ele
trouxe à existência a luz: “Haja luz; e houve luz” (Gn 1:3). Então, por qual
motivo Deus formou o corpo do homem com o pó da terra, com um material
já existente? Deus não poderia também criar o homem com uma só palavra?
É porque Deus deseja produzir, a partir desse corpo terreno, um ser celestial,
com Sua vida e natureza. O corpo terreno seria como um “casulo” para
produzir algo como Deus é, santo e irrepreensível: “Bendito o Deus e Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção
espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele,
antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante
ele” (Ef 1:3-4).
Devemos ter muita clareza de que ao ser formado do pó da terra, o corpo
do homem ainda não tinha vida. O que deu vida ao homem foi o sopro de
Deus, de acordo com o texto bíblico: “E lhe soprou nas narinas o fôlego de
vida” (Gn 2:7). Precisamos ter consciência de que o próprio Deus Eterno,
ilimitado, colocou algo Dele mesmo naquele corpo terreno, finito e limitado.
A palavra “fôlego de vida” em hebraico é “neshamáh”, a mesma palavra
usada em Provérbios 20:27 e traduzida para “espírito do homem”. O
versículo diz: “O espírito do homem é a lâmpada do SENHOR, a qual
esquadrinha todo o mais íntimo do corpo”.
O fôlego de vida, que Deus soprou nas narinas do homem, tornou-se o
espírito do homem. Por isso, o livro de Jó registra as palavras ditas por Eliú:
“O Espírito de Deus me fez; e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (33:4).
Foi, portanto, o sopro de Deus que deu vida ao homem! Eliú disse mais: “Na
verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz sábio”
(32:8); pois quando o fôlego de vida entrou no homem, este passou a ser alma
vivente (Gn 2:7). E mais: “Se Deus pensasse apenas em si mesmo e para si
recolhesse o seu espírito e o seu sopro, toda a carne juntamente expiraria, e o
homem voltaria para o pó” (Jó 34:14-15). Quem nos mantém vivos é o sopro
de Deus em nós, o nosso espírito humano.
Outra indicação maravilhosa desse assunto está no livro de Eclesiastes,
onde afirma que o nosso corpo feito do pó, ao pó tornará; mas o nosso
espírito que foi feito pelo sopro de Deus é celestial, ele se dirige para cima:
“Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão.
Quem sabe se o fôlego de vida dos filhos dos homens se dirige para cima e o
dos animais para baixo, para a terra?” (3:20-21).

O espírito do homem é o centro do universo


No livro de Zacarias está registrado algo que também mostra a importância
do espírito do homem para Deus: “Fala o SENHOR, o que estendeu o céu,
fundou a terra e formou o espírito do homem dentro dele” (12:1b). Por esse
texto entendemos que Deus estendeu o céu com o objetivo de fundar a terra;
a terra foi fundada por Ele com o intuito de criar o homem com o Seu sopro
e, assim, formou o espírito do homem dentro dele. O espírito do homem
constitui o centro da grandiosa obra que Deus deseja executar no universo.

Deus pôs a eternidade no coração do homem


Conforme já explicamos, o Deus que é eterno, ilimitado, soprou a Sua
essência também eterna e ilimitada nas narinas do homem, cujo corpo foi
feito do pó da terra. O sopro de Deus se tornou o espírito do homem; e a
Bíblia revela algo fantástico, dizendo que o espírito do homem é a eternidade
que Deus colocou no coração dele: “Tudo fez Deus formoso no seu devido
tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa
descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3:11).
O corpo do homem feito do pó da terra é material, terreno, tem prazo de
validade. Quando este morre, voltará ao pó, pois foi feito do pó. Mas o
espírito do homem é eterno, pois foi feito pelo sopro do Deus Eterno, assim
como a sua alma que foi produzida com a criação do espírito do homem. Os
animais, assim como todo ser vivente, possuem alma; mas o gênero humano,
além da alma, possui espírito: “Na sua mão está a alma de todo ser vivente e
o espírito de todo o gênero humano” (Jó 12:10). Os animais perecem e vão
para a terra, mas o espírito e a alma do homem não morrem, pois são eternos.

A vantagem de ter a eternidade dentro de nós


Deus colocou a eternidade no coração do homem e, conforme explicamos,
o seu espírito e alma não morrem. Contudo, isso não constitui uma vantagem
se o homem não receber a vida eterna de Deus em seu espírito: “Muitos dos
que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para
vergonha e horror eterno” (Dn 12:2). O nosso espírito é a eternidade que
Deus colocou em nós, todavia ele é como um recipiente eterno para receber a
vida eterna de Deus. Quem não receber a vida eterna de Deus será lançado
para dentro do lago de fogo e atormentado de dia e de noite pelos séculos dos
séculos, para vergonha e horror eterno (Ap 20:10, 14).

Deus amou o mundo e não deseja que ninguém pereça


Deus, entretanto, não quer que o homem pereça, mas tenha a vida eterna.
Há um versículo muito conhecido da Bíblia que manifesta Seu verdadeiro
amor: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”
(Jo 3:16). O amor de Deus é manifestado em todos os aspectos tão essenciais
à nossa vida: no ar que respiramos, na água que bebemos, na luz solar, no pão
de cada dia; no entanto, nada define melhor o amor de Deus senão que Ele
deu o Seu único Filho para o homem ser salvo da perdição eterna, e ainda
receber a vida eterna de Deus.
Capítulo três

QUE ACONTECEU COM O HOMEM?

Conforme discorremos nos capítulos anteriores, o homem é muito especial


para Deus. Ele foi criado para receber Sua vida divina, com o fim de tornar-se
um filho de Deus maduro e preparado para assumir o governo do mundo
vindouro, terminando com o reinado ilegítimo de Satanás que hoje impera na
terra. O inimigo de Deus, sabedor da intenção divina em criar o homem de
maneira tão diferente de todo resto da criação, usou de toda sua sagacidade
para danificar o homem e frustrar o plano de Deus.

As duas árvores
“Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista
e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore
do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2:9). A árvore da vida, que estava no
meio do jardim do Éden, representava o próprio Deus como vida para o
homem. Uma vez que o homem foi criado com um espírito humano pelo
sopro divino, ele também tinha a capacidade de receber a vida eterna de Deus
representada pela árvore da vida. Caso o homem a recebesse, a vida divina
entraria em seu espírito fazendo-o filho de Deus.
Deus é grandioso! Por isso Ele nada impôs sobre o homem; antes, deu-lhe
livre-arbítrio para escolher entre comer da árvore da vida ou não. A árvore do
conhecimento do bem e do mal representa a opção sem Deus, o caminho da
autossuficiência, o mesmo que Satanás tomou, confiando em sua própria
capacidade. Cabe aqui fazer uma observação: o conhecimento, propriamente
dito, não é o problema, mas a árvore do conhecimento do bem e do mal
representa um princípio que é deixar de confiar em Deus para confiar no
próprio homem.

Maldito o homem que confia no homem


No livro de Jeremias está a explicação do que acabamos de referir: “Assim
diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o
seu braço e aparta o seu coração do SENHOR! Porque será como o arbusto
solitário no deserto e não verá quando vier o bem; antes, morará nos lugares
secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia
no SENHOR e cuja esperança é o SENHOR. Porque ele é como a árvore plantada
junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando
vem o calor, mas a sua folha fica verde; e, no ano de sequidão não se
perturba, nem deixa de dar fruto” (Jr 17:5-8).

“Da árvore do conhecimento não comerás”


Por um lado, Deus é grandioso e deu ao homem a liberdade de escolha; por
outro lado, por amar o homem que criou, Ele o admoesta sobre qual caminho
não tomar: “O SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim
comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não
comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn
2:16-17). Portanto a ordem explícita que Deus deu ao homem foi não comer
da árvore do conhecimento do bem e do mal.

A sedução da serpente
“Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR
Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de
toda árvore do jardim?” (Gn 3:1). A serpente, nesse versículo, representa o
próprio Satanás, conforme podemos verificar no último livro da Bíblia: “Foi
expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o
sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus
anjos” (Ap 12:9).
Salientamos que Deus ordenou explicitamente ao homem que não comesse
da árvore do conhecimento; mas a tática do diabo é suscitar dúvidas com
respeito à palavra de Deus: “Não comereis de toda árvore do jardim?” Por
meio desse questionamento Eva foi levada a dialogar com a serpente:
“Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer,
mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não
comereis, nem tocareis nele, para que não morrais” (Gn 3:2-3). Na tentativa
de dar explicação, Eva foi enredada pela sagacidade da serpente e expôs toda
sua vulnerabilidade. Aproveitando-se disso, Satanás foi ao ataque insinuando
que Deus lhes ocultava a verdade: “É certo que não morrereis. Porque Deus
sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus,
sereis conhecedores do bem e do mal” (vs. 4b-5).

A mente corrompida afetou a emoção


Aquela sagaz serpente corrompeu a mente de Eva ao levantar dúvidas com
relação à palavra de Deus, preparando o terreno para contradizer
categoricamente a ordem de não comer da árvore do conhecimento, dando-
lhe a entender que Deus não queria que o homem comesse dessa árvore para
que este não se tornasse como Ele, conhecedor do bem e do mal. Uma vez
corrompida a mente, a emoção da mulher entrou em ação e seus “olhos se
abriram”: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos
olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e
deu também ao marido, e ele comeu” (Gn 3:6).
Antes mesmo de Eva comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e
do mal, a serpente já a havia seduzido. Como resultado disso, seus olhos se
abriram para ver que a árvore era boa para se comer, agradável à vista e
desejável para dar entendimento. A sutileza do diabo fez com que a alma do
homem, pela primeira vez na sua história, agisse totalmente independente de
seu espírito, isto é, independente de Deus. Desde sua criação o homem
confiava totalmente em Deus, com completa simplicidade e pureza; mas
depois de comer do fruto da árvore do conhecimento, ele passou a confiar em
si mesmo e no conhecimento que iria adquirir, seguindo os mesmos passos de
Satanás em sua queda.

Apartar-se da simplicidade e pureza


O apóstolo Paulo, na segunda carta aos coríntios, expressa sua
preocupação: “Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho
preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é
Cristo. Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua
astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da
simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2 Co 11:2-3). Vejamos a sequência:
primeiramente a serpente enganou Eva com sua astúcia, fazendo-a duvidar da
palavra de Deus; corrompendo sua mente, a induziu a escolher a árvore que
Deus ordenara que não comesse, apartando-se da simplicidade e pureza que
tinha para com Deus.

O pecado entrou no mundo


Com astúcia, o diabo induziu o homem a desobedecer a ordem de Deus
comendo da árvore que Ele havia dito que não comesse. Assim, pela
desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores (Rm 5:19a).
Por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, e,
consequentemente, a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram
(v. 12). Com a desobediência de Adão o pecado entrou na humanidade; assim
todos os homens já nascem pecadores. O apóstolo Paulo esclarece: “Pois já
temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do
pecado, como está escrito: Não há justo, nem sequer um, não há quem
entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram
inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (3:9b-12). Esse é o
efeito da introdução do pecado na humanidade.

O salário do pecado é a morte


É com tristeza que constatamos que, após a queda de Adão, todo homem,
sem exceção, é pecador, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”
(Rm 3:23). De acordo com o padrão da justiça de Deus não há segunda
alternativa para um pecador senão a morte, pois o salário do pecado é a morte
(6:23). Todos nós somos descendentes de Adão e, pela sua ofensa a Deus, o
pecado entrou em nós; e, como pecadores, fomos julgados e condenados à
morte: “O julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação” (5:16b).
A única maneira de quitar perante Deus, a dívida do pecado, é com a morte:
“Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue;
e, sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9:22). No entanto, se
tivéssemos de morrer para pagar a nossa dívida do pecado não teríamos
nenhuma esperança de salvação.

O fogo eterno
A situação do homem pecador é ainda pior do que descrevemos, pois
conforme explicamos anteriormente, o espírito do homem foi criado pelo
sopro de Deus, portanto é eterno, assim como sua alma. A morte de um
homem não é uma morte simples, isto é, tudo não acaba para ele quando
morre seu corpo, pois seu espírito e alma são eternos; a sua morte é, portanto,
uma morte eterna com fogo eterno. O diabo já está condenado pelo mesmo
erro da desobediência e seu destino final será o fogo eterno: “Então, o Rei
dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim,
malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt
25:41). Isso indica que o homem não foi criado para terminar no fogo eterno,
pois este foi preparado para o diabo e seus anjos, desde sua rebelião no
passado.
Satanás, com sua sagacidade, enganou o homem e o fez cometer o mesmo
ato de desobediência contra Deus. Dessa forma, não restou alternativa para o
nosso Deus justo senão também condenar o homem à morte eterna. Quanta
desgraça! O homem pecador está agora totalmente sem esperança, e sem
Deus no mundo (Ef 2:12); ele passou a andar segundo as inclinações da
carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e destinado para a ira
de Deus (v. 3).

O evangelho de Deus
Quando tudo parecia estar perdido, sem saída para o homem pecador, Deus
anunciou o evangelho. A palavra evangelho significa boa-nova. Essa foi, de
fato, uma excelente notícia para o homem que estava fadado à morte eterna
no fogo eterno. O livro de Romanos, escrito por Paulo, anuncia o evangelho
de Deus, a boa-nova para o homem condenado e sem esperança (1:1-4). A
grande notícia para o homem é Deus ter enviado Seu Filho para resgatar o
homem do pecado e ainda salvá-lo completamente pela vida divina.

Jesus veio em carne


Parecia que todo o investimento de Deus ao criar o homem, com o fim de
entregar-lhe o governo do mundo vindouro, havia sido em vão quando este
caiu em pecado, pois Deus, sendo justo, não poderia simplesmente deixar
impune o pecado do homem. Mas Ele não desistiu do homem, antes,
preparou um plano para resgatá-lo: enviou Seu Filho, Seu único Filho, o qual,
segundo a carne, veio da descendência de Davi (Rm 1:3). Sabemos, pelo
texto bíblico, que a virgem Maria achou-se grávida pelo Espírito Santo e deu
à luz a Jesus (Mt 1:18, 20-21). Portanto, por meio de Maria, que era da
descendência de Davi, Jesus veio em carne.
A razão de Jesus ter vindo em carne, como um homem, está explicada no
livro de Hebreus: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de
carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua
morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse
a todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a
vida” (Hb 2:14-15). Deus enviou Seu próprio Filho em semelhança da carne
do pecado: “Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma
pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da
carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na
carne, o pecado” (Rm 8:3).
Sabemos que o diabo exerce seu poder sobre carne e sangue, que é o seu
campo de atuação, e assim escraviza o homem. A carne é a fonte produtora
de pecados. Se Jesus não tivesse vindo em carne e sangue e, na Sua morte,
não tivesse crucificado o nosso velho homem, não nos teria resgatado do
poder do diabo, da carne e do pecado (6:6). Graças a Deus, que enviou Seu
Filho em carne para nos salvar, pois na cruz Ele destruiu aquele que tem o
poder da morte, a saber, o diabo!

O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo


Quando João Batista viu a Jesus que vinha para ele, disse: “Eis o Cordeiro
de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). No Antigo Testamento um
pecador teria de trazer consigo um animal como oferta por sua culpa, sua
transgressão. Para se identificar com aquela oferta, ele precisava impor sua
mão sobre aquele animal, imolá-lo, derramando seu sangue, e queimá-lo
sobre o altar do holocausto, para que seus pecados fossem perdoados. Em
outras palavras, o animal era morto no lugar do pecador. Cristo é o Cordeiro
de Deus que morreu na cruz em nosso lugar. Jesus tomou sobre Si as nossas
enfermidades, e as nossas dores levou sobre Si; Ele foi traspassado pelas
nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz
a paz estava sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados (Is 53:4-5). Nós
cometemos pecado, merecíamos morrer, mas Ele foi castigado e morto em
nosso lugar.
O amor de Deus
Na Primeira Epístola de João, já em sua maturidade, o apóstolo escreve:
“Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. Nisto se
manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho
unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor: não
em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o
seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (4:8-10). O amor de Deus
é percebido por nós nas coisas essenciais à vida humana como: alimentos,
água, ar e tantos outros itens. Tudo que o homem necessita para viver vem do
Criador, todavia, o ápice de Seu amor está em Deus ter nos dado Seu próprio
Filho como sacrifício para nos resgatar do pecado e da morte, e ainda nos dar
Sua vida. Um versículo da Bíblia muito conhecido descreve bem isso:
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,
para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Do lado de Jesus saiu sangue e água


O Evangelho de João é o que melhor descreve o episódio da crucificação
de Jesus, pois foi o único discípulo que O acompanhou de perto. João era
conhecido do sumo sacerdote, por isso foi autorizado a entrar para o pátio
deste com o Senhor por ocasião da crucificação (Jo 18:15). A prova de que
João estava muito próximo à cruz está no registro do seu próprio evangelho:
“E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de
Clopas, e Maria Madalena. Vendo Jesus sua mãe, e junto a ela o discípulo
amado, disse: Mulher, eis aí teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua
mãe. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa” (19:25-27). Se
João não estivesse bem perto da cruz como indica o registro, não teria
presenciado Jesus, que estava com as mãos pregadas à cruz, mostrá-lo à sua
mãe: “Eis aí teu filho”. Igualmente, como ele poderia ver Jesus dizendo-lhe
que Maria passaria a ser sua mãe?
Muitos acham que a morte de Jesus na cruz foi provocada pelo sangue
derramado dos ferimentos da crucificação. Porém os ferimentos causados
pela coroa de espinhos na cabeça e pelos cravos nas mãos e pés não seriam
suficientes para drenar o volume de sangue necessário para consumar a morte
em poucas horas. Mas Deus providenciou Sua morte antes que Lhe
quebrassem as pernas, a fim de se cumprir a Escritura: “Nenhum dos seus
ossos será quebrado” (v. 36b; Sl 34:20). Justamente pelo fato de os
ferimentos da crucificação não serem suficientes para matar o condenado em
poucas horas, os soldados tinham por hábito quebrar-lhes as pernas para
antecipar a morte, pois o dia seguinte era sábado e, se o condenado descesse
da cruz, nada poderia ser feito. Os soldados quebraram as pernas ao primeiro
e ao outro que com Jesus tinham sido crucificados; chegando-se, porém, a
Jesus, como vissem que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas. Mas
um dos soldados Lhe abriu o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água
(Jo 19:32-34).

Sangue para a remissão dos pecados


A descrição de João é maravilhosa e tudo tem muito significado. Um dos
soldados Lhe abriu o lado com uma lança, que provavelmente tenha atingido
uma artéria de onde fluiu grande quantidade de sangue. Lembrando outra vez
que nesse momento Jesus já estava morto. O sangue de Cristo, derramado na
cruz, é para Deus ter base legal para perdoar os nossos pecados e efetuar a
nossa redenção: “Não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo
seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo
obtido eterna redenção” (Hb 9:12); e “Com efeito, quase todas as coisas,
segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue, não
há remissão” (v. 22).
O apóstolo Pedro confirma que fomos resgatados do fútil procedimento que
nossos pais nos legaram, não com prata nem ouro, mas pelo precioso sangue,
como de Cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo (1 Pe 1:18-
19). A morte de Cristo em substituição ao homem pecador dá base legal para
Deus perdoar os nossos pecados e nos justificar. Temos, portanto, no Filho
amado de Deus, a redenção pelo Seu sangue e a remissão dos pecados, além
de termos sido aproximados pelo sangue de Cristo (Ef 1:7; 2:13).

A água representa a vida de Deus


Devido à sua coloração é possível ver o sangue de longe, mas a água, que
também saiu de Jesus quando um soldado Lhe abriu o lado, foi vista somente
por quem estava bem perto Dele. Como João estava junto à cruz, viu a água e
deu testemunho: “Aquele que isto viu testificou, sendo verdadeiro o seu
testemunho; e ele sabe que diz a verdade, para que também vós creiais” (Jo
19:35). A água na Bíblia representa a vida de Deus, a vida eterna; isso pode
ser visto nas palavras ditas à mulher samaritana junto à fonte de Jacó, em
Sicar: “Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele,
porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário,
a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (4:13-
14).
Em outra ocasião, Jesus levantou-se no último dia da grande festa e
exclamou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim,
como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse
com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o
Espírito até esse momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda
glorificado” (7:37b-39). Quando Jesus morreu e ressuscitou foi glorificado
pelo Pai, isto é, o homem Jesus foi aprovado e aceito como o Filho
Primogênito de Deus (At 13:33; Sl 2:7). Após Sua morte e ressurreição, isto
é, depois de Sua glorificação, Jesus se tornou disponível como o Espírito para
todo aquele que Nele crê. Como último Adão Ele se tornou o Espírito que dá
vida (1 Co 15:45). Como o Espírito Ele se tornou o outro Consolador que
veio para viver dentro dos que Nele cressem (Jo 14:16-17). Uma vez que
recebemos esse Espírito de nosso interior fluirão rios de água viva, que
representa a vida eterna de Deus.

Nascer da água e do Espírito


Certa vez, entre os fariseus, um homem, chamado Nicodemos, um dos
principais dos judeus, foi ter com Jesus de noite para saber como Ele fazia
coisas que o homem não pode fazer se Deus não estiver com ele. Jesus lhe
respondeu: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de
novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3). E disse mais: “Quem não
nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (v. 5).
O Senhor Jesus morreu em nosso lugar como propiciação pelos nossos
pecados (1 Jo 4:10). Com o Seu sangue Ele realizou a nossa redenção e por
Seu sangue Deus tem base para conceder o perdão dos pecados. A água
representa a vida divina que Deus quer dar para o homem redimido pelo
sangue precioso de Cristo. Todo homem que teve a remissão de seus pecados
pelo sangue de Cristo precisa receber, em seguida, a vida de Deus, que é
representada pela água que fluiu do lado de Jesus. Esse é o novo nascimento
que Jesus apresentou a Nicodemos: nascer do Espírito.

Como o homem pode ser salvo e nascer de novo?


Jesus prosseguiu explicando a Nicodemos que Ele, o Filho do Homem,
seria levantado em uma cruz assim como Moisés levantou a serpente de
bronze no deserto, para que todo o que Nele crê tenha a vida eterna (Jo 3:14-
15). Todo o processo pelo qual Cristo passou para que fôssemos salvos foi
muito doloroso e complexo, todavia, para o homem receber os benefícios de
Sua obra na cruz basta crer em Jesus, crer no Seu nome. No início do
Evangelho de João lemos: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o
poder de serem feitos filhos de Deus; a saber, aos que creem no seu nome”
(1:12). Quando cremos no Senhor Jesus nós O recebemos como vida,
nascemos de novo pelo Espírito e nos tornamos filhos de Deus.

Confessar com a boca e crer no coração


O apóstolo Paulo explica na Epístola aos Romanos: “Se, com a tua boca,
confessares a Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o
ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para
justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm 10:9-10). Esta é
a palavra da fé que pregamos (v. 8). É muito importante confessar com a
boca que Jesus é o seu Senhor, seu Salvador porque: “Todo aquele que
invocar o nome do Senhor será salvo” (v. 13), e com o seu coração crer que
Cristo morreu na cruz pelos seus pecados, e que Deus O ressuscitou dentre os
mortos para você viver por meio Dele (1 Jo 4:9). O apóstolo ainda afirma que
o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm
1:16).
Agora uma palavra a você, caro leitor: Você não precisa pagar nenhum
preço para alcançar a salvação de Deus, não precisa subir de joelhos centenas
de degraus para receber essa graça nem esperar melhorar sua condição; agora
mesmo, faça uma oração do fundo do seu coração, dizendo: “Senhor Jesus,
sou um pecador, mereço morrer, mas creio que morreste por mim na cruz e
ali derramaste Teu precioso sangue para me resgatar. Ó Senhor Jesus, perdoa
os meus pecados! Quero confessar Teu nome, reconhecer que és o Senhor da
minha vida. Tu és o Meu Salvador; entrego a minha vida a Ti. Em nome do
Senhor Jesus, amém!”. Agora você foi salvo e nasceu do Espírito, e se tornou
um filho de Deus. A vida divina entrou em seu espírito. Parabéns!

De graça, sem dinheiro e sem preço


Deus enviou Seu Filho que fez tudo por nós, nada precisamos fazer para
obter a salvação; basta-nos recebê-la de graça, pela fé. Esse é o evangelho da
graça. Não é preciso subir ao céu nem descer ao abismo para alcançar a
salvação (Rm 10:6-7). Deus nos deu gratuitamente Seu Filho para a nossa
salvação e deleite: “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós,
os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai,
sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo
que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me
atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares” (Is
55:1-2). Mais adiante, lemos: “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar,
invocai-o enquanto está perto” (v. 6). Isso é maravilhoso!
Capítulo quatro

QUE PLANO DEUS TEM PARA O HOMEM?

Depois do que foi exposto nos capítulos anteriores, surge uma indagação:
“Que Deus espera de nós? Por que Ele pagou tão alto preço para nos ter de
volta”? O apóstolo Paulo em sua carta aos efésios faz uma oração ao Pai:
“Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda
espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados
os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do vosso
chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual a
suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia
da força do seu poder; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os
mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo
principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa
referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as
coisas debaixo dos seus pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à
igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as
coisas” (Ef 1:17-23).

Qual é a esperança do nosso chamamento?


Que Deus nos ilumine para realmente sabermos qual é a esperança do
nosso chamamento; qual é a riqueza da glória da Sua herança nos que Ele
redimiu e regenerou. O nosso Deus, o Pai da glória, deposita muita esperança
no homem que Ele criou com Seu sopro. Esse homem, criado com tanto
carinho, foi enganado por Satanás e caiu em pecado; mas Deus não o
abandonou, antes, por causa de Seu grande amor, enviou Seu próprio Filho
que veio em carne para nos salvar por Sua morte na cruz. A esperança de
Deus reside na capacidade que o homem tem de receber Sua vida, sendo que,
se ele deixar essa vida crescer e amadurecer introduzirá o reino de Deus na
terra e reinará com Seu Filho no mundo que há de vir.

Deus não socorre a anjos


O livro de Hebreus afirma: “Ele, evidentemente, não socorre anjos, mas
socorre a descendência de Abraão” (2:16). Depois da queda de Lúcifer, os
anjos não têm possibilidade de recuperação para serem usados na
administração dos assuntos divinos; dessa forma, o homem tornou-se o centro
das atenções de Deus, porque foi criado com o sopro do Eterno, e é a única
criatura capaz de receber a vida eterna, a vida divina em seu espírito; por isso
Deus está disposto a socorrê-lo.

Ao cheiro das águas brotará


Diferentemente dos anjos, há sempre esperança para o homem, mesmo que
seja mortalmente ferido pelo pecado. No livro de Jó lemos: “Porque há
esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não
cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer
o seu tronco, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova”
(Jó 14:7-9). Jó não sabia, mas ele profetizou com relação ao homem: mesmo
derrotado, abatido, ao cheiro das águas da vida divina, ele se renovará,
brotará e dará ramos como uma planta nova. Louvado seja o Senhor, pois fez
do homem algo tão especial para Ele!

Nenhum anjo foi gerado como filho de Deus


Tudo que relatamos acima é comprovado pelo autor de Hebreus: “Pois a
qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez:
Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho?” (1:5). Os anjos são seres espirituais,
mas não foram criados para receber a vida de Deus. O Homem Jesus
alcançou a plena filiação em Sua ressurreição e foi gerado como o Filho
Primogênito de Deus. No livro de Atos lemos: “Como Deus a cumpriu
plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus, como também está
escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje (na ressurreição), te
gerei” (13:33). No momento em que Deus admitiu o primeiro homem, Jesus,
para dentro de Sua glória, esse Homem tornou-se superior aos anjos: “E,
novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de
Deus o adorem” (Hb 1:6).

Jesus, nosso Autor da salvação


Embora Deus já tenha determinado que o mundo que há de vir não será
entregue ao governo dos anjos, mas ao homem, Ele sabe que este, por si só,
não tem a mínima condição de assumir essa responsabilidade. No plano de
Deus o homem seria coroado de glória e de honra a fim de Ele sujeitar todas
as coisas debaixo dos seus pés (Hb 2:7-8); entretanto, ainda não vemos todas
as coisas a ele sujeitas. O autor do livro de Hebreus revela a solução:
“Vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os
anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de
honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem.
Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas
existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de
sofrimentos, o Autor da salvação deles” (2:9-10).
Pela Sua imensa graça Deus enviou Seu Filho até nós, o qual “não julgou
como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo
a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em
figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e
morte de cruz” (Fp 2:6b-8). A fim de se tornar modelo para o homem, Jesus
viveu na terra esvaziado de Si mesmo, de Sua própria vontade, de Sua
opinião e até de Sua liberdade de ir e vir. Certa vez Jesus disse aos judeus:
“Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo,
senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o
Filho também semelhantemente o faz” (Jo 5:19); e “Eu nada posso fazer de
mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo, porque não
procuro a minha própria vontade, e, sim a daquele que me enviou” (v. 30).
Em outra ocasião, próximo à Festa dos Tabernáculos, os irmãos de Jesus
sugeriram-Lhe que fosse para a Judeia a fim de que vissem Suas obras,
porque nem mesmo Seus irmãos criam Nele; ao que Jesus lhes respondeu: “O
meu tempo ainda não chegou, mas o vosso sempre está presente” (7:6). Essa
vida, totalmente restrita em fazer a vontade do Pai e negar-se a Si mesmo,
aperfeiçoou-O para ser o nosso Autor da salvação. Conforme já falamos, em
Sua ressurreição Deus Pai O recebeu em Sua glória, reconhecendo o Homem
Jesus como Seu Filho Primogênito; isso é a plena filiação. Agora, o Filho
Primogênito tem a missão de conduzir os muitos filhos de Deus à glória.

Seguir a Jesus
Se também almejamos ser coroados de glória e de honra, na vinda de nosso
Senhor Jesus, temos de segui-Lo hoje. Depois de ter revelado a igreja a Seus
discípulos, Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue,
tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida (alma)
perdê-la-á; e quem perder a vida (alma) por minha causa achá-la-á. Pois que
aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que
dará o homem em troca da sua alma? Porque o Filho do Homem há de vir na
glória de seu Pai, com os seus anjos, e, então, retribuirá a cada um conforme
as suas obras” (Mt 16:24-27).
Se alguém, hoje, trilhar o mesmo caminho que Jesus, negando-se a si
mesmo, tomando a cruz e seguindo-O, será também coroado de glória e de
honra na vinda de nosso Senhor. Mas se não estivermos dispostos a pagar
esse preço e continuarmos a viver segundo a vontade da nossa alma, esta
continuará intacta, sem transformação; perderemos a oportunidade de que ela
seja totalmente salva pela vida de Deus.

A salvação completa de Deus


Em sua primeira epístola, Pedro menciona a salvação preparada para
revelar-se no último tempo. Essa salvação compreende a salvação do nosso
espírito, alma e corpo. A salvação do espírito ocorre no momento em que
cremos no Senhor Jesus, quando o nosso espírito é regenerado, isto é,
nascemos de novo, nascemos do Espírito, nascemos de Deus. Como foi dito
anteriormente, na conversa que teve com Nicodemos, Jesus afirmou: “Em
verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver
o reino de Deus. [...] Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar
no reino de Deus” (Jo 3:3, 5). Para fazer parte do reino vegetal é necessário
ter a vida vegetal, para fazer parte do reino animal é preciso ter a vida animal.
Assim, semelhantemente, para fazer parte do reino de Deus é preciso ter a
vida divina, portanto, é necessário nascer de novo, nascer de Deus. Esta é a
salvação do espírito.

A salvação da alma
Voltemos à Primeira Epístola de Pedro, onde ele menciona a salvação
completa de Deus: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que,
segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou (salvação do espírito) para
uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os
mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada
nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a
fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo (salvação
completa). Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se
necessário, sejais contristados por várias provações, para que o valor da vossa
fé, uma vez confirmado, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo
apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus
Cristo; a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas
crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, obtendo o fim da
vossa fé: a salvação da vossa alma (salvação da alma)” (1 Pe 1:3-9).
Depois da salvação do espírito vem a parte mais difícil que é a salvação da
alma. Quando a serpente enganou a Eva, convencendo-a de comer do fruto da
árvore do conhecimento do bem e do mal, e ela o tomou e também o deu a
seu marido Adão, a alma do homem passou a confiar em sua própria
capacidade, em lugar de confiar somente em Deus. A alma, desse modo,
ganhou vida própria, a qual chamamos de vida da alma, com pensamentos e
opiniões que expressam seu ego, totalmente independente de Deus. A
serpente corrompeu a alma de Eva com sua astúcia, apartando o homem de
sua simplicidade e pureza devidas a Cristo (2 Co 11:3). Esse é o motivo de a
nossa alma precisar, urgentemente, da salvação que é obtida pela vida de
Deus.
A alma é composta de mente, emoção e vontade. A mente corrompida
pensa apenas nas coisas da terra; por isso o apóstolo Paulo, na Epístola aos
Colossenses, nos exorta: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com
Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de
Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque
morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (3:1-
3).
A nossa emoção também foi corrompida e passou a amar o mundo e as
coisas que há no mundo. Por essa razão o apóstolo João nos alerta: “Não
ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o
amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência
da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai,
mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua
concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece
eternamente” (1 Jo 2:15-17).
Evidentemente, por ter a mente e a emoção corrompidas, a terceira parte da
alma, a vontade, passa a fazer somente aquilo que o homem deseja e não a
vontade de Deus. No episódio em que Jesus mostrou a Seus discípulos que
Lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos,
dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitado no terceiro
dia, Pedro chamou-O à parte e começou a reprová-Lo dizendo: “Tem
compaixão de Ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá”. Provavelmente
todos os que amam o Senhor fariam isso, mas, para nossa surpresa, Jesus,
voltando-se, disse: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço,
porque não cogitas das coisas de Deus, e, sim, das dos homens” (Mt 16:23).
Isso prova que a nossa alma corrompida é um lugar para a atuação de
Satanás, o qual pode estar escondido em nossa bondade natural ou até mesmo
em nosso amor natural para com o Senhor. Por melhor que seja a intenção da
alma, ela não cogita das coisas de Deus, portanto, faz a vontade do homem.
Por isso a nossa alma também precisa de salvação!
A salvação da alma, na prática, não é muito fácil, pois começa com negar-
se a si mesmo, ou seja, negar a vida da alma com suas opiniões, preferências
e vontades (Mt 16:24-25). Por isso Deus deixou registrado na Bíblia as
experiências de Pedro, pois ele foi o discípulo mais exposto quanto às
manifestações da vida da alma. Pedro revela que a nossa alma precisa passar
por um processo semelhante ao de refino do ouro. Assim como o ouro é
purificado em altíssima temperatura, a nossa alma também precisa do fogo do
Espírito, que está em nosso espírito. Nas várias provações diárias do homem,
a luz de Deus expõe o quanto ele ainda vive pela vontade de sua alma, o
quanto prevalecem as opiniões de seu ego. Quando o ser natural de alguém é
exposto pela luz do Senhor, o segredo é não justificar-se, mas voltar-se para
seu espírito e buscar o fogo do Espírito para queimar as impurezas da alma.
Assim, confirmado o valor da nossa fé, que é muito mais preciosa que o ouro
perecível, mesmo apurado por fogo, redundará em louvor, glória e honra na
revelação de Jesus Cristo (1 Pe 1:6-7).

A salvação do corpo
A salvação do espírito ocorreu no momento em que cremos no Senhor
Jesus. A salvação da alma terá a duração de toda a nossa vida, portanto, é a
parte mais difícil. Por fim, a salvação do corpo se dará na segunda vinda de
nosso Senhor Jesus Cristo. Primeiramente, o espírito do homem precisa ser
tomado pela vida de Deus, que chamamos de salvação do espírito; em
segundo lugar, sua alma também é tomada pela vida de Deus, gradualmente,
dia a dia; a isso chamamos de salvação da alma, ou seja, o crescimento da
vida espiritual até a plenitude de filho maduro de Deus; por fim, o seu corpo,
feito do pó da terra, material, mortal, será trocado por um corpo incorruptível,
espiritual e imortal; a esse processo chamamos de salvação ou redenção do
corpo (Rm 8:23).

O tempo do fim
O Senhor Jesus não retornará sem antes haver um bom número de pessoas
que não somente receberam a salvação do espírito, mas também permitiram
que a vida de Deus transformasse sua alma até o ponto de se tornarem filhos
maduros de Deus, capazes de reinar com Cristo no mundo que há de vir. Por
esse motivo o próprio Senhor Jesus nos insta a pregar o evangelho do reino
por todo o mundo, para testemunho a todas as nações; então virá o fim (Mt
24:14). O tempo do fim será precedido de guerras e rumores de guerras,
porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes
e terremotos em vários lugares; porém, tudo isto é o princípio das dores (vs.
6-8).
Ao aproximar-se o fim acontecerá a grande tribulação com a manifestação
do homem da iniquidade, o anticristo, com poder e sinais e prodígios da
mentira (2 Ts 2:3-9). Pouco antes disso haverá uma nova ordem mundial que
trará paz ilusória às nações; todavia quando andarem dizendo: “Paz e
segurança”, eis que sobrevirá repentina destruição (1 Ts 5:3). Nesse tempo,
pelo período de três anos e meio, haverá grande tribulação, como desde o
princípio do mundo até agora não tem havido nem haverá jamais. Não
tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa
dos escolhidos, tais dias serão abreviados (Mt 24:21-22; Ap 12:6, 14).

A sétima trombeta
Nos dias da voz do sétimo anjo, quando ele estiver para tocar a trombeta,
cumprir-se-á, então, o mistério de Deus, segundo Ele anunciou aos Seus
servos, os profetas (Ap 10:7), e quando ele tocar a trombeta, haverá no céu
grandes vozes, dizendo: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do
Seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (11:15). A sétima
trombeta interromperá a grande tribulação e o Senhor Jesus tomará posse do
reino deste mundo.

A vinda do Senhor
De acordo com o Evangelho de Mateus, o Senhor Jesus virá sobre as
nuvens do céu (26:64), e a maioria dos que creram Nele, tanto os que forem
ressuscitados dentre os mortos quanto os que estiverem vivos na ocasião,
serão arrebatados aos ares, pois os vencedores descritos como o filho varão
em Apocalipse 12, teriam sido arrebatados antes da grande tribulação (vs. 5-
6, 14).
O apóstolo Paulo explica que os que creram no Senhor Jesus, ao findar sua
vida terrena, não morrerão, mas dormirão, aguardando a vinda do Senhor
para ressuscitá-los com outro corpo, ao que chamamos de salvação do corpo:
“Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que
dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não tem esperança.
[...] Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os
que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que
dormem. Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a
voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos
em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos,
seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do
Senhor nos ares, e assim, estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4:13-
17).

O corpo espiritual
Neste momento cabe uma pergunta muito pertinente: “Como ressuscitam
os mortos? E em que corpo vêm”? Paulo responde em sua primeira carta aos
coríntios: “Insensato! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer; e,
quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão,
como de trigo, ou de qualquer outra semente. Mas Deus lhe dá corpo como
lhe aprouve dar e a cada uma das sementes, o seu corpo apropriado [...]. Pois
assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção,
ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória.
Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural,
ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual”
(1 Co 15:36-44).

O corpo mortal se revestirá de imortalidade


Cabe ainda outra pergunta: “E quanto aos vivos na ocasião da vinda do
Senhor, como será feita a troca de corpos”? Paulo responde: “Eis que vos
digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos,
num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A
trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos
transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da
incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando
este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se
revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita:
Tragada foi a morte pela vitória” (1 Co 15:51-54).
Dessa forma alcançaremos a salvação completa de Deus, isto é, todo o
nosso ser tripartido terá sido salvo pela vida de Deus. É importante observar
que o homem foi criado pelo sopro do Deus Eterno, e esse sopro entrou em
seu corpo feito do pó da terra e se tornou o espírito humano. Por meio desse
processo, a Bíblia revela que Deus pôs a eternidade no coração do homem
(Ec 3:11), e o homem passou a ser alma vivente (Gn 2:7). Por esse motivo, o
nosso espírito tem condições de receber a vida eterna, ou melhor, o próprio
Deus Eterno; e a nossa alma também foi feita para que a vida de Deus tome
conta de nossa mente que só pensa nas coisas terrenas, de nossa emoção
frágil e também de nossa vontade limitada. Seremos salvos em nosso espírito
pela vida de Deus e também a nossa alma terá a estatura do Filho de Deus,
isto é, alcançaremos a filiação proposta por Deus, e o nosso corpo também se
transformará em um corpo eterno, espiritual, incorruptível e imortal. O corpo
não será mais material, físico, limitado pelo tempo e pelo espaço. Seremos
semelhantes ao próprio Senhor Jesus quando Ele se manifestar (1 Jo 3:2).
Não há linguagem capaz de descrever essa obra maravilhosa que Deus está
fazendo em nós (1 Co 2:9). Aleluia!
Capítulo cinco

FRUTO DA EVOLUÇÃO OU DESTINATÁRIO DE UM PROPÓSITO


MAIOR?

A teoria da evolução
Os cientistas afirmam que a seleção natural pela sobrevivência produziu
várias espécies por evolução. Segundo eles, essa evolução, em bilhões de
anos, produziu a diversidade de vidas na terra. O DNA é uma molécula
existente em nossas células. Ela tem o formato de uma longa escada curva ou
dupla hélice, contendo as instruções genéticas que coordenam o
desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos, e ainda
transmitem as características hereditárias de cada um deles. Os degraus da
escada são feitos de quatro diferentes tipos de moléculas menores: são as
letras do alfabeto genético. Arranjos particulares dessas letras dão instruções
a todas as coisas vivas tais como: crescer, se mover, digerir, sentir o
ambiente, se curar e se reproduzir. A hélice dupla do DNA é uma máquina
molecular com cerca de 100 bilhões de peças chamadas de átomos. Há tantos
átomos em uma molécula de DNA do homem quanto ao número de estrelas
em uma galáxia normal. O mesmo ocorre com todos os seres vivos: cada um
de nós é um pequeno universo.

Mutação
A mensagem do DNA, transmitida de uma célula para outra e de uma
geração para outra, é copiada com extremo cuidado. Quando uma célula viva
se divide em duas, cada uma delas leva consigo uma cópia completa do
DNA. Uma proteína especializada faz a revisão, para ter certeza de que só as
letras certas sejam incluídas e o DNA seja copiado com precisão. Porém,
ocasionalmente, pode passar um erro durante o processo de revisão criando
uma pequena mudança aleatória nas instruções genéticas. Vejamos um
exemplo disso supondo que tenha ocorrido uma mutação na célula do óvulo
de uma ursa. Um evento aleatório e tão minúsculo quanto este, pode ter
consequências numa escala muito maior, pois essa mutação pode ter alterado
o gene que controla a cor do pelo dos ursos. Isso afetará a produção do
pigmento escuro dos filhotes da ursa, fazendo com que um deles nasça de
pelo branco. Durante o período de neve o urso branco se sairá melhor na
caça, e, consequentemente, as chances de sobrevivência serão maiores; o urso
de pelo marrom, no entanto, perderá a competição na luta pela sobrevivência
e passará a viver em outras regiões. Assim, por sucessivas gerações, esse
gene passará a toda população de ursos árticos tornando-se duas espécies
diferentes. É o que Charles Darwin quis dizer com “a origem das espécies”.
Essa é a evolução por seleção natural segundo os cientistas.
O DNA do homem tem semelhança com outros seres vivos no tocante às
instruções genéticas para as funções mais básicas da vida, como por exemplo,
a digestão de açúcares. Com base nesse conhecimento a ciência montou uma
árvore genealógica para todas as espécies de vida na terra, na qual o homem
está inserido. Será que com toda essa explicação a ciência consegue provar
que o homem veio à existência pela evolução de outros seres vivos? Será que
há inconsistência na Bíblia?

A criação do homem
É importante notar que a Bíblia não dá detalhes de como o nosso corpo
biológico foi criado. A Bíblia apenas diz: “Então formou o SENHOR Deus ao
homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem
passou a ser alma vivente” (Gn 2:7). Cremos que a Bíblia é a palavra de
Deus. Ela apenas informa que o corpo humano foi formado do pó da terra,
portanto os elementos que compõem o corpo humano, biológico, são da terra.
Assim, é possível haver uma correlação entre o nosso corpo com os demais
seres vivos da terra.
O que deu vida ao homem foi o sopro do Deus Criador, conforme vemos
no livro de Jó: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me
dá vida” (33:4). Conforme explicamos anteriormente, o fôlego de vida que
entrou no homem feito do pó da terra tornou-se o espírito daquele homem.
Como resultado o homem passou a ser alma vivente, isto é, um ser com
entendimento. A respeito disso, o livro de Jó também elucida: “Na verdade,
há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz sábio” (32:8).
Como consequência da criação do espírito e da alma do homem, seu corpo
ganhou a vida biológica.
O corpo do homem é terreno
Para a existência do homem na terra, Deus formou seu corpo do pó da
terra, portanto ele é terreno (1 Co 15:47; Gn 2:7). O nosso corpo é físico,
limitado pelo tempo e espaço, sujeito às mesmas leis físicas que regem o
universo conhecido. Do ponto de vista físico, os filósofos têm razão em
afirmar que a nossa existência não tem nenhuma importância diante da
vastidão do universo. O apóstolo Paulo afirmou que, se a nossa esperança em
Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os
homens (1 Co 15:19). Nesse caso, não faria sentido a afirmação de que o
homem seja uma criatura especial.

Deus é Espírito
Precisamos entender que Deus não está na esfera física, material, pois Ele é
Espírito, Ele está em uma dimensão diferente do nosso mundo físico. Ele não
é limitado pelo tempo nem pelo espaço; Ele é eterno. O profeta Isaías disse:
“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da
terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu
entendimento” (Is 40:28).
Ao criar o homem, feito do pó da terra, Deus soprou nele algo de Sua
própria essência eterna; deu-lhe Seu sopro de vida e formou o espírito do
homem com a mesma essência do Deus Eterno. O que faz o homem tão
especial, tão diferente dentre todos os outros seres vivos da terra, é esse
espírito eterno que ele recebeu quando foi criado. O objetivo de Deus ao
formar o homem, soprando nele Sua essência eterna, é que ele seja capaz de
receber a vida eterna de Deus por meio desse recipiente eterno, que é o
espírito humano.
O que torna o homem tão especial não é o seu corpo biológico, que os
cientistas dizem provar sua semelhança com outros seres vivos na terra,
reforçando a teoria da evolução; antes, é o seu espírito humano, que não é
físico, não está sujeito às leis físicas, mas é da mesma natureza eterna de
Deus. Quando o homem morre seu corpo também morre, mas seu espírito e
sua alma não morrem. Por essa razão, o livro do profeta Zacarias dá
indicações de que o céu foi criado para a existência da terra, e a terra foi
criada para o homem existir, destacando a criação do espírito do homem:
“Fala o SENHOR, o que estendeu o céu, fundou a terra e formou o espírito do
homem dentro dele” (12:1).
O próprio Jesus, quando esteve na terra, disse: “Deus é Espírito; e importa
que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:24). E
ainda: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é
espírito” (3:6). Fica evidente que a intenção de Deus é criar um ser espiritual,
capaz de receber Sua vida eterna, dentro de um corpo biológico, físico.

A filiação
A todos quantos receberem a Jesus ser-lhes-á dado o poder de serem feitos
filhos de Deus, a saber, aos que creem no Seu nome (Jo 1:12). O plano
maravilhoso de Deus é produzir muitos filhos pela inserção de Sua vida
eterna no homem. O objetivo final de Deus é que Seus filhos cresçam e
amadureçam para herdar o mundo que há de vir (Hb 2:5).
A Epístola de Paulo aos Efésios é considerada uma obra de extrema
importância para entender a vontade divina, pois ela parte do coração de
Deus para abençoar o homem com toda sorte de bênção espiritual nas regiões
celestiais em Cristo. Trata-se de bênção que provém da esfera espiritual, não
da esfera física, material. Ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para
sermos santos e irrepreensíveis perante Ele; e em amor nos predestinou para
Ele, para a filiação, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de Sua
vontade (Ef 1:3-5). Como vemos, Deus nos criou com um espírito capaz de
receber toda a bênção espiritual contida nas regiões celestiais, por meio de
Cristo. Ele nos escolheu dentre tantas outras criaturas para nos dar Sua vida e
natureza santas, fazendo de nós Seus filhos para que Sua vida e natureza
estejam não somente em nosso espírito, mas também assumam o controle de
nossa alma. A isso a Bíblia chama de filiação, ou seja, filhos totalmente
maduros para herdar a herança do Pai.

O corpo terreno é temporal


Os cientistas e filósofos estão intrigados com a flecha do tempo. Chamam
de flecha porque o tempo caminha sempre em uma direção definida, ele
nunca volta. Com a ação da flecha do tempo, dizem eles, o universo todo está
envelhecendo. Este é o destino do universo: tudo caminha para o desarranjo,
a desordem e a destruição. As estrelas estão morrendo e tudo
consequentemente acabará em nada. Estamos falando de muitos trilhões e
trilhões de anos. Durante todo o processo da expansão do universo e de sua
existência, somente uma pequena janela de tempo se abre para a possível
existência de vida. Desse modo, é tolice dizer que o plano de Deus está
somente baseado no universo material.
O apóstolo Paulo chama o corpo físico de “nossa casa terrestre deste
tabernáculo”, dizendo que um dia ele se desfará: “Sabemos que, se a nossa
casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um
edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2 Co 5:1). O corpo em
que vivemos hoje é, portanto, como “uma tenda” provisória, terrena, para
vivermos na terra, no mundo físico.
Durante o tempo em que vivemos na terra, por meio desse corpo, Deus
deseja introduzir Sua vida eterna, ilimitada, em nosso espírito humano,
fazendo de nós Seus filhos. Todavia isso é somente o começo, pois Seu
desejo é que essa vida cresça no âmbito da alma, transformando
gradualmente a nossa mente, emoção e vontade, até nos tornarmos Seus
filhos maduros, capazes de assumir com Cristo o governo do mundo que há
de vir. É assim que o nosso corpo físico, terreno, terá cumprido sua função,
pois terá gerado muitos filhos de Deus na dimensão espiritual, e não na esfera
física e material.
Depois de ter servido de “tabernáculo” ou “casulo” para produzir algo
celestial e espiritual, nosso corpo terreno será substituído por um “edifício,
casa não feita por mãos humanas, mas eterna, nos céus”, que a Bíblia chama
de corpo espiritual (1 Co 15:44), pois o nosso corpo corruptível será revestido
de incorruptibilidade, o corpo mortal será revestido de imortalidade (v. 53).
Nesse estágio, o homem criado por Deus terá alcançado a plena filiação e
será glorificado (Rm 8:17, 23).
Por esse motivo Paulo diz: “Pois, na verdade, os que estamos neste
tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas
revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida” (2 Co 5:4). Ele não
desejava ser despido de seu corpo físico por meio de sua morte; antes,
preferia que seu corpo mortal, físico, fosse absorvido pela vida de Deus na
vinda de nosso Senhor Jesus.
A vida ilimitada de Deus no homem
A criação do homem propriamente dita foi a formação do espírito do
homem, o qual não é da terra, não é físico nem material; antes de tudo, é
espiritual, eterno. O espírito humano foi criado para receber a vida ilimitada
de Deus. Quando alguém recebe a vida de Deus em seu espírito, ele se torna
filho de Deus. Conforme explicamos em capítulos anteriores, todo homem
que crer no coração que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos e
confessar com a boca que Jesus é o Senhor receberá a vida eterna em seu
espírito, nascerá do Espírito.

Filhos e herdeiros
Quem creu no Senhor Jesus recebeu a vida de Deus, portanto, nasceu de
Deus; é um filho de Deus. Na Epístola aos Romanos, Paulo afirma: “O
próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”
(8:16), porque recebemos o espírito de filiação, baseados no qual clamamos:
Aba, Pai (v. 15). A filiação implica não só no fato de nascermos de Deus,
mas em termos maturidade suficiente para assumir a herança do Pai. Por isso,
Paulo prossegue: “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros
de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofrermos, também com ele
seremos glorificados” (v. 17). Todo filho de Deus, já crescido, é guiado pelo
Espírito de Deus: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são
filhos de Deus” (v. 14). A palavra “filhos”, neste versículo, em grego é huiós,
que significa filho crescido.

Herdeiro ainda criança


Quando o homem recebe a vida de Deus em seu espírito, ele se torna filho
de Deus; é potencialmente um herdeiro de Deus, que é o Senhor de tudo.
Todavia enquanto for criança na fé, ele não poderá assumir os bens do Pai.
Na Epístola aos Gálatas, Paulo diz: “Digo, pois, que, durante o tempo em que
o herdeiro é menor, em nada difere de escravo, posto que é ele senhor de
tudo. Mas está sob tutores e curadores até o tempo predeterminado pelo pai”
(4:1-2). Toda criança precisa de crescimento e instrução; e o ambiente para o
crescimento e educação na fé que Deus preparou para Seus filhos é a vida da
igreja. Quando usamos o termo “igreja” não nos referimos a um grupo cristão
organizado, pois entendemos que a igreja é o Corpo de Cristo (Ef 1:23); um
lugar onde há curadores, que são os mordomos da casa de Deus que cuidam
das necessidades vitais como alimentação, vestimenta, saúde e bem-estar dos
filhos de Deus; além dos tutores, que são os mestres que os educam na
Palavra de Deus. Essas pessoas são responsáveis pelo crescimento de nossa
fé.

A Fé e a fé subjetiva
Depois que o homem recebe, pela fé, a vida divina em seu espírito, ele se
torna filho de Deus e, potencialmente, Seu herdeiro. Sua fé subjetiva, ou seja,
seu ato de crer, precisa crescer e se desenvolver até se tornar o mesmo que a
Fé objetiva. A Fé tem como conteúdo o evangelho de Deus, que é segundo o
plano de salvação divina para o homem. O conteúdo da Fé está descrito nos
ensinamentos saudáveis dos apóstolos que compõem a verdade do Novo
Testamento. Paulo diz, na Epístola aos Romanos, que o evangelho de Deus é
com respeito a Seu Filho (1:1-3). Dessa forma podemos concluir que o
conteúdo da Fé não é o conjunto de doutrinas referentes à salvação, mas toda
a Escritura, que testifica de Jesus Cristo, o Filho de Deus, pois só Nele
encontramos a vida eterna (Jo 5:39).
O conteúdo da Fé é transmitido ao homem por meio da palavra da verdade,
que é o evangelho da nossa salvação (Ef 1:13). A Palavra de Deus é um
veículo para transportar a realidade da Fé até o homem. Tudo que o homem
tem de fazer é ouvir e aceitar essa palavra. Primeiramente ela passa pelo
ouvido do homem (corpo), depois pelo consentimento da alma, e finalmente é
recebida pelo seu espírito que, ao reagir à Palavra produz a fé subjetiva. A fé
subjetiva é, portanto, o ato de crermos no evangelho. Paulo confirma essa
experiência: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de
Cristo” (Rm 10:17).

A esfera da Fé
A grande maravilha é que o homem é o único ser vivo na terra capaz de ter
acesso às coisas da Fé, a qual não está na esfera física, material, mas na esfera
espiritual. Por esse motivo salientamos que, se apenas analisarmos do ponto
de vista da ciência, nunca chegaremos a nenhuma conclusão plausível para a
existência humana; é necessário passarmos para outra dimensão, a dimensão
da fé.
Há um versículo intrigante na Bíblia a respeito da fé: “Ora, a fé é a certeza
de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11:1).
Conforme dissemos, a Fé não está na esfera física, material; antes, ela é da
esfera espiritual, um canal para o homem trazer à existência as coisas de
Deus. No início da Epístola aos Hebreus, o autor diz que “Ele [Cristo], que é
o resplendor da glória e a expressão exata do Seu ser (de Deus)” (1:3). A
palavra grega usada para “ser” pode ser traduzida para “substância”. A frase
poderia ser entendida assim: Cristo é o resplendor da glória e a expressão
exata da substância de Deus. Essa mesma palavra grega foi usada para
“certeza” no versículo que iniciamos este parágrafo. Portanto podemos
entendê-lo assim: Ora, a fé é a substantificação de coisas que se esperam, a
convicção de fatos que se não veem.

Pela fé o homem tem acesso às coisas divinas


Faltam-nos palavras para expressar o quanto o homem realmente é especial
para Deus; quanto privilégio Deus deu a esse homem cujo corpo Ele criou do
pó da terra. O homem que é tão desprezível, face às dimensões do universo,
está fadado a desaparecer com o mesmo destino das galáxias. Mas Deus deu
capacidade ao espírito desse homem para que tivesse acesso às bênçãos
espirituais que estão nos lugares celestiais em Cristo.
Na Segunda Epístola aos Coríntios, Paulo afirma: “Não atentando nós nas
coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são
temporais, e as que se não veem são eternas” (4:18). Na Epístola aos
Colossenses ele também diz: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente
com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita
de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque
morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (3:1-
3). Cremos que até os conceitos sobre o céu e a terra não são físicos, pois se
tratam de dimensões diferentes: a terra está na dimensão física e o céu na
espiritual. Somente pela fé se faz conexão entre essas duas dimensões.
A existência do homem só fará sentido se ele aproveitar sua passagem pela
terra para buscar, pela fé, as coisas de Deus que são eternas, para que, quando
Cristo vier, ele alcance o status de filho crescido e maduro, enfim, seja um
herdeiro de Deus. Nessa ocasião ele terá um corpo espiritual, não mais
limitado pelo tempo e espaço.
Este assunto é tão extenso e enriquecedor que daremos continuidade no
próximo capítulo.
Capítulo seis

PARA ONDE A FÉ PODERÁ LEVAR O HOMEM?

O capítulo 11 da Epístola aos Hebreus inicia dizendo que a fé é capaz de


substantificar a própria essência de Deus; ela pode trazer à realidade as coisas
que se não veem. Em seguida, relata o bom testemunho que os antigos
obtiveram: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de
Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”
(v. 3). O universo físico, visível, veio a existir das coisas que se não veem, ou
seja, da dimensão espiritual. Isso significa que antes de existir o universo
visível, ou seja, antes da criação do céu e da terra, havia o Deus Eterno em
Seu plano espiritual, na dimensão das coisas que se não veem. Portanto, se o
homem, que pertence ao universo visível, material, não pudesse ter acesso às
coisas da dimensão espiritual, não faria sentido a sua existência. Graças a
Deus que ao homem, e somente a ele, foi dada a capacidade de contatar as
coisas de Deus por meio da fé.

As obras da lei ou o ouvir da fé


Para elucidar melhor, o assunto que estamos tratando, vamos recorrer ao
que Paulo escreveu em sua carta aos gálatas, salientando que o evangelho por
ele anunciado não é segundo o homem, porque ele não o recebeu nem o
aprendeu de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1:11-
12). O evangelho de Deus não é um conjunto de ensinamentos humanos, com
regras ou exigências para o homem cumprir; é antes de tudo, a bênção
espiritual nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1:3). É algo que Deus preparou
para o homem; entretanto, ele tem acesso a essa bênção, que está na
dimensão espiritual, somente pela fé.
Na época em que foi escrita a carta aos gálatas, alguns oriundos da Judeia
ensinavam, aos gentios que haviam crido, que além da fé em Jesus Cristo era
necessário circuncidá-los, pois deviam guardar a lei de Moisés, caso
contrário, não podiam ser salvos (At 15:1, 5). Devido a isso, os gálatas
ficaram confusos, o que motivou Paulo a escrever uma carta aos que dessa
província romana receberam o evangelho. Ele já havia pregado o evangelho
de Deus apresentando-lhes a crucificação de Jesus, que teve a finalidade de
redimir o homem de seus pecados por meio do sangue de Cristo que foi
derramado; eles também ouviram acerca da água que fluiu do lado de Jesus
(Jo 19:34-35), para dispensar a vida de Deus a todo aquele que Nele crer
(20:31). Eles creram na palavra do evangelho e invocaram o nome de Jesus e,
pela fé, receberam o Espírito prometido (Gl 3:14).
Diante desse quadro, entendemos o desespero de Paulo: “Ó gálatas
insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo
exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: recebestes o
Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assim insensatos que,
tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne? Terá
sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, na verdade, foram em vão.
Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que opera milagres entre vós,
porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gl 3:1-5). O
termo “pela pregação” em algumas versões é traduzido “pelo ouvir”,
indicando o modo como a Palavra foi recebida pelos interlocutores do
apóstolo.

Os da fé é que são filhos de Abraão


Quando o homem crê no Senhor Jesus, ele crê em toda a obra redentora que
Cristo realizou na cruz. Aos olhos de Deus não há nem sequer um justo na
terra, pois todos pecaram e carecem da glória divina (Rm 3:10, 23); e sem
derramamento de sangue não há remissão de pecados (Hb 9:22). Assim, todo
homem estava condenado à morte, mas Jesus morreu em nosso lugar, de
modo que quem Nele crê é justificado gratuitamente por Sua graça (Rm
3:24). Ao confessar com a boca que Jesus é o Senhor, o homem recebe a vida
de Deus por meio do Espírito que agora passa a habitar em seu espírito. Isso é
o mesmo que dizer que ele recebeu o Espírito pelo ouvir da fé, ou seja, o
Espírito entrou nele quando creu na palavra do evangelho. Esse Espírito é a
bênção de Abraão que Deus prometeu dar a todo aquele que crer em Seu
Filho Jesus Cristo (Gl 3:14). Por meio do Espírito temos acesso a Deus
mediante a fé. Se o homem enxergasse isso veria que praticar as obras da lei
não faz nenhum sentido, pois somente pela fé ele tem acesso às riquezas de
Deus, por meio do Espírito prometido.
Provavelmente os judeus crentes argumentavam que a circuncisão foi
instituída por Deus na aliança feita com Abraão, portanto todos ainda
deveriam praticá-la. Por isso Paulo mostra aos gálatas que não foi pela prática
da circuncisão que Abraão foi justificado, mas porque ele creu em Deus isso
lhe foi imputado para justiça: “Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de
Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os
gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os
povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3:7-
9). Fica evidente que Deus quer, por meio do exemplo de Abraão, levantar
uma nova categoria de homens entre todos os povos: os da fé. Porque Deus
disse que, em Abraão, todos os que viessem a crer dentre todos os povos,
participariam da bênção de Abraão: o Espírito prometido.

Qual é o sentido da circuncisão?


As promessas
Vamos examinar o contexto em que foi instituída a circuncisão. Deus
apareceu a Abraão quando ele estava na Mesopotâmia, em Ur dos caldeus,
antes de habitar em Harã, e lhe disse para sair daquela terra e ir para a terra
que Ele lhe mostraria (At 7:2-3); e ali fez uma promessa a Abraão: “De ti
farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu
uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te
amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:2-3).
Depois que Ló, seu sobrinho, se separou dele, disse o SENHOR a Abraão:
“Ergue os olhos e olha desde onde estás para o norte, para o sul, para o
oriente e para o ocidente; porque toda essa terra que vês, eu ta darei, a ti e à
tua descendência, para sempre. Farei a tua descendência como o pó da terra;
de maneira que, se alguém puder contar o pó da terra, então se contará
também a tua descendência” (13:14-16). Deus prometeu a Abraão que faria
dele uma grande nação e que a sua descendência seria tão numerosa como o
pó da terra; no entanto, é importante observar que todas as promessas de
Deus estavam condicionadas a Abraão ter descendência, contudo ele não
tinha filhos.
Por esse motivo, preocupado com o fato de não ter filhos, no diálogo que
teve com Deus, Abraão perguntou: “SENHOR Deus, que me haverás de dar, se
continuo sem filhos e o herdeiro da minha casa é o damasceno Eliézer? [...] A
mim não me concedeste descendência, e um servo nascido na minha casa será
o meu herdeiro. A isto respondeu logo o SENHOR, dizendo: Não será esse o teu
herdeiro; mas aquele que será gerado de ti será o teu herdeiro. Então,
conduziu-o até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o
podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade. Ele creu no SENHOR, e isso
lhe foi imputado para justiça” (Gn 15:2-6). Chamamos a atenção para uma
diferença: quando Deus prometeu a Abraão que sua descendência seria como
o pó da terra, Ele se referia ao povo de Israel que possuiria a terra física de
Canaã (13:14-17); quando Ele prometeu que sua posteridade seria tão
numerosa quanto as estrelas no céu, Ele se referia aos filhos da fé. Foi neste
momento que a Bíblia registra que Abraão creu no SENHOR, e isso lhe foi
imputado para justiça (15:5-6).

Uma ajuda a Deus


Ora, Sara, a mulher de Abraão, que não lhe dava filhos, resolveu dar uma
ajuda a Deus, e sugeriu a seu marido tomar sua serva Hagar para gerar filhos
com ela. Abraão anuiu ao conselho de Sara e, quando ele estava com oitenta
e seis anos Hagar lhe deu à luz Ismael (Gn 16:1, 16). O apóstolo Paulo
explica que Ismael nasceu segundo a carne, gerado a partir da mulher escrava
(Gl 4:23, 29). Depois de ter gerado a Ismael, com o esforço da carne, a Bíblia
não menciona mais a aparição de Deus a Abraão até que este atingiu a idade
de noventa e nove anos. Quando o homem presume que pode ajudar a Deus
pela capacidade de sua carne, Deus sai de cena. Assim começamos a entender
o princípio da circuncisão: não confiar na carne.

“Eu sou o El Shaddai; anda na Minha presença, e sê perfeito”


Passados treze anos, Deus apareceu novamente a Abraão e disse-lhe: “Eu
sou o Deus Todo-Poderoso: anda na minha presença, e sê perfeito” (Gn
17:1). Em hebraico a palavra El Shaddai significa Deus Todo-Poderoso e
Todo-Suficiente, Aquele que é capaz de suprir, nutrir e satisfazer o homem
em tudo que este precisa. Assim Ele pode abençoar o homem com toda sorte
de bênção espiritual abundantemente (Ef 1:3; 2 Pe 1:3).
Quando Deus faz uma promessa ao homem, este não precisa usar sua força
da carne para ajudá-Lo a cumprir o que prometeu, pois Ele é o El Shaddai;
tudo que o homem tem de fazer é crer na Sua palavra e andar na Sua
presença. Em Gênesis lemos que, após 13 anos sem aparecer a Abraão, Deus
fez uma aliança com ele e com sua descendência, para ser-lhes o seu Deus; e
como sinal dessa aliança, instituiu a circuncisão, que é a remoção da carne do
prepúcio de todo macho entre eles (17:1-11).
A circuncisão também ajudava Abraão a lembrar-se que não mais deveria
viver pelo esforço de sua carne, e, sim, na presença de Deus, pois Ele é o
único que pode trazer à existência as coisas que não existem. Assim que
firmou a aliança com Abraão, Deus disse que lhe daria um filho por meio de
Sara, sua esposa. Então, se prostrou Abraão, com rosto em terra, riu e disse
consigo: “A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará à luz Sara
com seus noventa anos?” (Gn 17:17). Visitou o SENHOR a Sara, como lhe
dissera, e cumpriu o que lhe havia prometido. Sara concebeu e deu à luz um
filho a Abraão na sua velhice, de que Deus lhe falara. Tinha Abraão cem anos
quando lhe nasceu Isaque seu filho (21:1, 5).

A circuncisão do coração, no espírito


Conhecendo o contexto de como foi instituída a circuncisão, podemos
entender que na nova aliança estabelecida por Cristo, não se trata de um corte
na carne conforme nos explica Paulo: “Nós é que somos a circuncisão, nós
que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não
confiamos na carne” (Fp 3:3), e “judeu é aquele que o é interiormente, e
circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo
louvor não procede dos homens, mas de Deus” (Rm 2:29).

A circuncisão como selo da justiça da fé


Na Epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo reforça o conceito de fé na
Bíblia: “Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi
imputado para justiça” (4:3). A fé foi imputada a Abraão para justiça. Como,
pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou ainda incircunciso?
Não no regime da circuncisão, e, sim quando incircunciso. E recebeu o sinal
da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso;
para vir a ser o pai de todos os que creem, embora não circuncidados, a fim
de que lhes fosse imputada a justiça (vs. 9-11). Quanta luz jorra nessas
palavras: a fé foi imputada a Abraão para a justiça estando ele ainda
incircunciso, para vir a ser o pai de todos os que creem, embora não
circuncidados, e também vir a ser o pai da circuncisão, isto é, daqueles que
não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve
Abraão antes de ser circuncidado (Rm 4:12). Portanto, Abraão é o pai de
todos os que andam nas suas pisadas da fé.
Isso prova que Deus sempre quis que o homem andasse pelo caminho da
fé, não confiando em si mesmo, mas em Deus que faz o que é impossível ao
homem. A lei serviu de aio para guardar o povo de Deus a fim de conduzi-lo
a Cristo. Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho,
nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a
fim de que recebêssemos a filiação: “E, porque vós sois filhos, enviou Deus
ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! De sorte que
já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus” (Gl
4:6-7). O homem terreno, pela fé, recebe a filiação e torna-se filho herdeiro
do Deus Eterno: que milagre!

Promessas, aliança e herança


As promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente; não diz aos
descendentes, como se falando de muitos, porém, como de um só: “E ao teu
descendente, que é Cristo” (Gl 3:16c). Hoje, portanto, temos acesso às
mesmas promessas por meio de Cristo, pela fé na palavra de Deus. Somente
em Cristo Jesus temos o sim, pois Ele é a senha de acesso às promessas de
Deus: “Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele (em Cristo
Jesus) o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus” (2 Co
1:20). Quando lemos a Bíblia precisamos crer que se exercitarmos o nosso
espírito, para contatar Cristo em cada palavra, teremos acesso às promessas
de Deus nela contidas. Pela fé tomamos posse de toda realidade contida na
Palavra.
Para maior garantia nossa as promessas foram ratificadas em aliança. E
essa aliança foi confirmada por Deus muito antes da lei. A lei, que veio 430
anos depois, não a pode ab-rogar, de forma que venha a desfazer a promessa
(Gl 3:16-17). É de suma importância notar que das promessas e da aliança de
Deus vem a herança; a herança não provém da lei, mas da promessa, pois foi
pela promessa que Deus concedeu a herança gratuitamente a Abraão (v. 18).
Qual é a herança de quem anda na fé?
Qual é, então, a herança de Abraão? Conforme a promessa de Deus sua
herança seria a terra de Canaã. No lugar onde primeiro estivera a sua tenda
entre Betel e Ai, Deus lhe disse para olhar para o norte, para o sul, para o
oriente e para o ocidente, pois toda aquela terra seria dele e de sua
descendência por herança (Gn 13:3, 14-17). Todavia, essa promessa parecia
ser uma contradição, pois Abraão buscava pela fé as coisas que se não veem,
as coisas invisíveis de Deus, e agora ele teria como meta uma herança
meramente física, que um dia também teria um fim.

Os que vivem pela fé aspiram uma pátria superior, celestial


Voltemos ao capítulo 11 de Hebreus onde encontramos muitos exemplos
dos que viveram pela fé. Todos eles sabiam que sem fé é impossível agradar
a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que
Ele existe e que se torna galardoador dos que O buscam (Hb 11:6). Pela fé,
Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia
receber por herança; e partiu sem saber aonde ia. Pela fé, peregrinou na terra
da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó,
herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava a cidade que tem
fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador (vs. 8-10). Fica
comprovado que a herança que Abraão aguardava não era a terra física de
Canaã.
Todas as pessoas mencionadas em Hebreus 11 morreram na fé, sem ter
obtido as promessas; viviam como estrangeiros e peregrinos sobre a terra.
Pois a esperança dos que vivem pela fé não está no mundo físico, antes
aspiram uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se
envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma
cidade (vs. 13-16). Quem realmente vive pela fé, espera receber uma herança
na esfera celestial, não algum bem terreno. Os antigos que viveram pela fé
aspiravam uma pátria superior, celestial.

A promessa de ser herdeiro do mundo


Se você quer saber qual é o destino dos que vivem pela fé, veja a
elucidação de Paulo quanto ao destino de Abraão ou de sua descendência:
“Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a
promessa de ser herdeiro do mundo, e, sim mediante a justiça da fé” (Rm
4:13). Quando a vida de Deus crescer e amadurecer naqueles que vivem pela
fé, eles herdarão o mundo, e não somente um pedaço de terra física na
Palestina.
Na Epístola aos Hebreus é-nos revelado que Deus não sujeitará o mundo
que há de vir a anjos, antes, Ele determinou que o reino vindouro será
governado pelo homem, isto é, por aqueles que alcançarem o estágio de
filhos maduros na fé (2:5-7). Este será o galardão dos que viverem pela fé:
serão herdeiros do mundo.

A carne milita contra o Espírito


Se queremos seguir os passos da fé de Abraão, precisamos aprender a não
confiar na carne. Quando Abraão presumiu que sua carne seria útil para
ajudar a Deus gerou a Ismael. Quando seu corpo já estava amortecido, ele
creu na promessa de Deus e nasceu-lhe, então, Isaque. A Bíblia menciona
que, como outrora, o que nascera segundo a carne perseguia ao que nasceu
segundo o Espírito, assim também agora (Gl 4:29). Aquele que vive pela fé,
anda pelo Espírito: “Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à
concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito
contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que
porventura seja do vosso querer” (5:16-17).
Os milagres acompanham aqueles que andam no Espírito (3:5), pois eles
estão a todo tempo substantificando a essência divina pela fé, trazendo à
existência as coisas que não existem no mundo físico. Assim viveu Abraão,
pois creu no Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que
não existem (Rm 4:17). Este é o princípio de vida dos que vivem pela fé: eles
não olham para as circunstâncias, antes tomam posse da palavra de Deus pela
fé. É assim que devemos praticar em nosso viver cotidiano, na convivência
familiar, na relação conjugal, na vida da igreja com os da fé ou na vida social;
não julgando as coisas pela aparência, antes seguindo o Espírito e crendo que
Deus pode fazer coisas que o homem não pode. O resultado disso será
invariavelmente o amor, pois Deus é amor.
As obras da carne e o fruto do Espírito
Paulo disse aos gálatas: “Sois assim insensatos que, tendo começado no
Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?” (Gl 3:3). Essas
palavras revelam que tudo o que o homem faz, se não for pelo Espírito é obra
da carne, que pode ser a nossa tentativa de fazer coisas para Deus, como
praticar as obras da lei para agradá-Lo. No entanto, precisamos ter a
consciência de que a carne não só se apresenta do lado bom, mas também tem
o seu lado mau, ou até repugnante; ambos pertencem à mesma fonte. Por
isso, Paulo relaciona as obras da carne, que são: “Prostituição, impureza,
lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias,
dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a
estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já outrora vos preveni, que
não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (5:19-21).
Todo aquele que anda no Espírito também dá fruto: “Mas o fruto do
Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei. E os
que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e
concupiscências. Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (vs.
22-25). O principal fruto de quem vive e anda no Espírito é o amor. Seguindo
o amor vêm a alegria, a paz e outras virtudes.

Práticas que ajudam a andar no espírito e crescer na fé


Invocar o nome do Senhor
Eva foi iludida pela serpente, comeu do fruto da árvore que Deus disse que
não comesse; e deu-o também ao seu marido, e ele comeu (Gn 3:6). A árvore
do conhecimento do bem e do mal induz o homem a confiar em sua própria
capacidade de discernimento e execução. Queremos lembrar novamente que
tudo que o homem pode fazer ainda está no campo do visível, físico e
terreno. Deus quer realizar coisas extraordinárias por meio do homem; basta
apenas ele não confiar em si e confiar no Senhor. Um exemplo disso foi
Caim, filho de Adão; ele era lavrador e trouxe, do fruto da terra, uma oferta
ao SENHOR que não se agradou dele nem de sua oferta, pois representava a
tentativa de agradar a Deus com o esforço de sua carne. Contudo, Deus se
agradou de Abel, seu irmão, e de sua oferta. Irado, Caim matou Abel e,
depois disso, ele e sua descendência fundaram uma civilização independente
de Deus, ou seja, estruturaram uma sociedade para viver sem Deus. O homem
pode se achar capaz de atender suas necessidades físicas e, aparentemente,
também atende as necessidades psicológicas, mas não consegue atender as
necessidades espirituais; daí surgem as crises existenciais, as angústias e os
conflitos interiores.
Deus deu outro filho a Adão no lugar de Abel que fora morto por Caim, a
quem Adão pôs o nome de Sete. A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual
pôs o nome de Enos: “Daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (4:26b).
Essa foi a primeira vez que a Bíblia menciona sobre invocar o nome do
Senhor. Quando Adão se deu conta de que a descendência de Caim produziu
para si meios de sustento, formas de entretenimento e sistemas de segurança
para viver sem Deus (Gn 4:19-22); ele percebeu que era a hora de levar seus
filhos de volta à dependência total a Deus. Daí surgiu a prática de invocar o
nome do Senhor.
Hoje devemos incorporar essa prática em nosso viver diário e fazer dela a
nossa respiração espiritual, pois dependemos do Senhor para tudo. Paulo
mostra na Primeira Epístola aos Coríntios que os da fé tinham essa prática:
“Com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus
Cristo, Senhor deles e nosso” (1:2). Vamos invocar o nome do Senhor a todo
tempo, audivelmente quando o ambiente permite, inaudivelmente quando
não. Basta dizer: Ó Senhor Jesus! Jesus é o Senhor! Desse modo, estaremos
conectados a Deus por meio do Espírito, e pela fé receberemos todo o
suprimento celestial para aquele momento. Ó Senhor Jesus!

Extrair vida da Palavra com oração


Como já dissemos, a Palavra de Deus é um veículo para fazer chegar até
nós a realidade da Fé. Toda Escritura testifica a respeito de uma pessoa viva,
Jesus, em quem está a vida eterna (Jo 5:39). Hoje Ele é o Espírito que habita
em quem Nele crê. Também vimos que toda a Palavra de Deus contém as
Suas promessas que podemos substantificar por meio da fé. Como está
escrito: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da
boca de Deus” (Mt 4:4). Para andar no Espírito e crescer na fé, precisamos da
Palavra de Deus.
A Bíblia é a palavra de Deus e precisa ser tomada com oração (Ef 6:17-18).
Temos também os livros espirituais que nos ajudam a entender a Bíblia. A
leitura tem de ser feita com oração; isto é, ler cada palavra orando. A
Escritura Sagrada não é somente para se obter conhecimento intelectual, mas
é, antes de tudo, um livro de vida, que supre nutrição e revelação para quem o
lê com oração.

Viver a vida da igreja


Para crescer na fé é muito importante vivermos a vida da igreja. É nela que
convivemos com outros membros da família da fé para juntos progredirmos.
Nesse ambiente podemos nos encher do Espírito falando e cantando hinos
entre nós, louvando de coração ao Senhor e dando sempre graças por tudo a
nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo (Ef 5:18-20). Para
isso é importante termos uma vida normal de reuniões, onde recebemos ajuda
ou ajudamos outros membros do Corpo de Cristo. Nesse ambiente temos
ainda os mordomos da casa de Deus que cuidam de nosso crescimento, além
de mestres que nos ensinam a verdade (Gl 4:1-2).

A revelação dos filhos de Deus


Quando completar o número dos vencedores, dos que alcançarem a plena
filiação, então Cristo voltará para tomar posse do reino deste mundo. Toda a
criação, hoje, está sujeita à vaidade por causa do governo corrupto de
Satanás. Portanto, a ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos
filhos de Deus (Rm 8:19). Enquanto a vida de Deus em nós não crescer, e
tomar conta de nossa alma, o processo de filiação não estará completo. Mas
se hoje, buscarmos viver pelo Espírito ajudando outros a crescerem na fé,
chegará finalmente o dia em que acontecerá a revelação dos filhos de Deus.
Quando esse dia chegar, toda criação será redimida do cativeiro da
corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que,
hoje, toda a criação a um só tempo geme e suporta angústias. E não somente
ela, mas também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente
gememos em nosso íntimo, aguardando a filiação, a redenção do nosso corpo,
a qual ocorrerá na segunda vinda de Cristo, quando o nosso corpo terreno
será substituído por um corpo celestial, espiritual e imortal (vs. 21-23).
Quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a Ele
O apóstolo João também nos chama atenção para esse ponto: “Vede que
grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de
Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos
conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo” (1 Jo 3:1). Hoje vivemos
em um corpo físico como todos os seres humanos, por isso é muito difícil
distinguir um filho de Deus dentre outros homens.
Quando Jesus vivia na terra o mundo não O conheceu, pois Ele era
avaliado pela aparência de Seu corpo físico, embora Ele fosse o próprio Deus
encarnado. Isaías profetizou que Ele não tinha aparência nem formosura, era
como raiz duma terra seca; quem olhasse para Ele não veria nenhuma beleza
que lhe agradasse (Is 53:2). Semelhantemente, nós que somos filhos de Deus,
temos a vida eterna em nós; no entanto o mundo só conhece as pessoas pela
aparência.
Um dia, quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a Ele:
“Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que
haveremos de ser. Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos
semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1 Jo 3:2).
Naquele dia, os que cresceram na fé alcançarão a plena filiação. O seu
espírito e alma estarão cheios da vida eterna de Deus, e também seu corpo
será transfigurado em um corpo espiritual, igual ao do Senhor Jesus depois da
ressurreição. Esse corpo já não será físico, não estará limitado pelo tempo e
espaço. Após a ressurreição, Jesus apareceu onde os discípulos estavam
reunidos, com as portas trancadas, isto é, Ele não precisou entrar pelas portas
(Jo 20:19-23). Na segunda vez que isso aconteceu, Jesus disse a Tomé para
pôr o dedo nas Suas mãos e a mão no Seu lado (vs. 26-27); este é o mistério
do Seu corpo de ressurreição.
Depois disto, tornou Jesus a manifestar-se aos discípulos junto ao mar de
Tiberíades. Nessa ocasião, Pedro decidiu pescar e seguiram-no outros seis
discípulos. Jesus estava na praia, todavia os discípulos não O reconheceram;
isso prova que o Seu corpo após a ressurreição tinha outra aparência (21:1-4).
No mesmo dia em que Jesus ressuscitou dois discípulos estavam de caminho
para uma aldeia chamada Emaús. Enquanto conversavam e discutiam, o
próprio Jesus se aproximou e ia com eles; os seus olhos, porém, estavam
impedidos de reconhecê-Lo. Estando eles à mesa, já na aldeia, Jesus tomou o
pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então se lhes abriram os olhos,
e O reconheceram; mas Ele desapareceu da presença deles (Lc 24:13-31). O
corpo em ressurreição de Jesus não precisava de transporte terrestre, pois não
era mais físico; ele podia aparecer e desaparecer quando quisesse. Assim
também será o nosso corpo espiritual na vinda de nosso Senhor Jesus.

O reino milenar
Na segunda vinda de Cristo, Ele tomará posse do reino: “O sétimo anjo
tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo: O reino do mundo
se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos
séculos” (Ap 11:15). Aqueles que alcançarem a maturidade de vida reinarão
com Cristo durante mil anos: “Bem-aventurado e santo é aquele que tem
parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem
autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão
com ele os mil anos” (20:6). O reino milenar será o galardão para os que
viverem pela fé, isto é, os que viverem e andarem pelo Espírito fazendo a
vontade de Deus na presente era.
No final do milênio, o diabo será lançado definitivamente para dentro do
lago de fogo e enxofre (v. 10). Então virá o fim, quando Cristo entregar o
reino ao Deus e Pai, e houver destruído todo principado, bem como toda
potestade e poder. Porque convém que Cristo reine até que haja posto todos
os inimigos debaixo dos Seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte:
“Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos pés. E, quando diz que todas as
coisas lhe estão sujeitas, certamente, exclui aquele (Deus e Pai) que tudo lhe
subordinou. Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o
próprio Filho (Cristo) também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe
sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1 Co 15:27-28).

Novos céus e nova terra


O apóstolo Pedro já preanunciou a destruição do presente universo: “Ora,
os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra, têm sido
entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição
dos homens ímpios” (2 Pe 3:7). Os cientistas estão certos em afirmar que o
universo em que vivemos está em processo de entropia, isto é, em processo
de desordem e destruição. Pedro prossegue: “Virá, entretanto, como ladrão, o
Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os
elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem
serão atingidas. Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas,
deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade,
esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus,
incendiados, serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão” (vs. 11-
12). O Dia de Deus poderá ser muito antes dos trilhões e trilhões de anos da
destruição total do universo, ou bem mais cedo do que os cinco milhões de
anos previstos para o término do combustível solar e, consequentemente, o
fim da existência de vida da terra.
Baseado em tudo o que foi exposto neste livro, esperamos que você faça
parte da família de Deus na fé, dos que não buscam as coisas que se veem e,
sim, as que se não veem, as coisas lá do alto. Nosso Deus não somente habita
no alto, Ele é o Alto: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a
eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas
habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito
dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15). Deus não é
limitado pelo tempo e espaço, Ele está em outra dimensão, está no plano da
eternidade, todavia, ao mesmo tempo, Ele habita no espírito dos que vivem
pela fé.
A revelação que João viu termina com novo céu e nova terra: “Vi novo céu
e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não
existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da
parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi
grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os
homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo
estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não
existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas
passaram” (Ap 21:1-4).
Vamos terminar este livro com a palavra do apóstolo Pedro: “Nós, porém,
segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita
justiça” (2 Pe 3:13). Novos céus e nova terra, com certeza, não será como o
universo atual que está em processo de desordem; antes, durarão por toda
eternidade. Vem, Senhor Jesus!