Você está na página 1de 15

RESPOSTA IMUNOLÓGICA A DOENÇAS INFECCIOSAS – ASSOCIAÇÃO SIMBIÓTICA ENTRE

PARASITA E HOSPEDEIRO

O dano para o hospedeiro pode ir de nenhum a severo;

A proximidade da associação face aos factores disponibilizados pode causar dependência


parcial/ocasional a total;

O benefício da relação entre ambas as espécies pode ser unilateral ou mútuo, sendo que:
- Comensalismo: relação entre duas espécies, que vivem normalmente associadas. Interação
que consiste no benefício de uma das espécies, em que o parasita vive, não prejudicando ou
favorecendo significativamente o hospedeiro.
O parasita recorre ao hospedeiro principalmente para obter abrigo e alimento. Assim sendo:
- Parasitismo: benefício unilateral.
- Mutualismo: benefício recíproco.

O resultado final da relação entre Microrganismo e Hospedeiro depende essencialmente de


3 fatores:

1. Número de microrganismos presentes no hospedeiro


2. Virulência do microrganismo (grau ou intensidade de patogenicidade)
3. Defesas ou resistência do hospedeiro

RELAÇÃO MICROORGANISMO-HOSPEDEIRO

Colonização: presença do microorganismo no hospedeiro, com crescimento e multiplicação,


sem expressão

Infeção: presença e multiplicação de um microrganismo patogénico nos tecidos do hospedeiro,


com progressão para doença

Toda a infeção é necessariamente precedida de uma colonização, mas nem todas as


colonizações dão origem a infeções

Após colonização acontece a multiplicação, que pode ser seguida de invasão, causando lesão
tecidular. Esta manifestar-se-á através de sinais e sintomas, que expressam mecanismos de
controlo da flora e de defesa do hospedeiro, na tentativa de levar à eliminação do
microrganismo. Caso tal não seja possível, os sinais e sintomas, com os factores de virulência
do microrganismo levam à Doença.
-MODO DE TRANSMISSÃO

Os microrganismos estão presentes nos reservatórios, tais como:

Homem, animais, alimentos, água, ar e solo

E podem ser transmitidos para o hospedeiro através de agentes intervenientes: vectores (seres
vivos) ou veículos (objectos)

Infeção exógena (cruzada) – a partir de fonte externa

Infeção endógena – agente infecioso faz parte da flora comensal

Microrganismo patogénico – capaz de provocar doença em indivíduos saudáveis

Microrganismo patogénico oportunista – apenas causa doença em indivíduos cujo sistema


imunológico se encontra, por alguma razão, com atividade diminuída

A atividade dos fatores de patogenicidade (ver adiante) depende da sua interação com
estruturas alvo específicas – portal de entrada (receptores celulares específicos, determinados
tipos de tecido ou órgão)

Para cada microrganismo há uma dose mínima abaixo da qual não produzirá efeito patogénico
– Dose infeciosa

Os organismos patogénicos são semelhantes a outros que têm um papel neutro ou até
benéfico mas podem desencadear doença através dos Fatores de Patogenicidade que
possuem ou produzem

Organismos patogénicos podem causar doença através de: Proliferação no hospedeiro -


Infeção

Produção de agentes extracelulares que atuam independentemente da presença do


microrganismo - Intoxicação

Ambas as vias
Alguns vírus e bactérias desenvolveram mecanismos de escape às defesas do hospedeiro

Doenças causadas por bactérias: infeção – invasão

intoxicação – entrada de toxinas (Endotoxinas ou Exotoxinas )

Infeção – microrganismo penetra as defesas do hospedeiro, multiplica-se e danifica os tecidos


do hospedeiro

Patogenicidade – capacidade do microrganismo causar doença ou infeção Virulência– grau de


danos causados nos tecidos do hospedeiro
Virulência pode ser determinada por 3 características do patogénio:

1. Invasividade – capacidade do microrganismo se espalhar nos tecidos adjacentes

2. Infetividade – capacidade de originar uma infeção

3. Potencial patogénico – capacidade que um microrganismo tem em

provocar danos no hospedeiro

Toxigenicidade - capacidade do microrganismo patogénico produzir toxinas

FATORES DE PATOGENICIDADE

Todos os fatores que auxiliam na entrada e invasão do hospedeiro, bem como no


desenvolvimento da doença

Estruturas:

Fímbrias, flagelos, cápsulas e outros fatores de aderência

Promovem a adesão do microrganismo ao tecidos que vai infetar, facilitando a residência e


proliferação

Exoenzimas

Atuam no meio extracelular, por ex promovendo a degradação de proteínas e de outros


componentes da estrutura alvo. A sua atuação permite a penetração do microrganismo em
camadas mais internas de tecido.

Proteínas excretadas por microrganismos durante o crescimento


Produzidas por bactérias Gram + e Gram - Muito antigénicas e altamente tóxicas Termolábeis –
60 – 80 oC

Ligam-se a recetores específicos das células Não produzem febre


Neutralizadas por IgG e IgM

Constituem os únicos determinantes da doença como Tétano, Botulismo, Gangrena gasosa,


Difteria, Cólera

Neurotoxinas (tecido nervoso), Enterotoxinas (mucosa intestinal), Citotoxinas (tecidos em


geral)

Clostridium tetani e o tétano e Clostridium botulinum e o botulismo - ambas interferem com a


atividade sináptica
Endotoxinas

Presente no LPS da parede das bactérias Gram - Encontradas apenas em bactérias Gram -
Libertadas após a destruição da bactéria Resistentes ao calor

Baixa imunidade protetora


Moderadamente tóxicas (só tóxicas em elevada concentração)
Ausência de recetores específicos
Produzem febre no hospedeiro

Constituem importantes fatores determinantes da doença como: Tosse convulsa, Doença


entérica, Meningite, meningocócica, Faringite, ITU

Toxinas

De natureza essencialmente proteica, interagem especificamente com recetores celulares,


alterando as funções da célula
Fatores anti-fagocíticos

Inibem a atividade de células fagocíticas, envolvidas no desencadeamento da resposta


imunitária

Neurotoxinas (tecido nervoso), Enterotoxinas (mucosa intestinal), Citotoxinas (tecidos em


geral)

A Salmonella reúne um vasto conjunto de fatores de patogenicidade

COMO SE ESTABELECE A DOENÇA

A – Uma dose infecciosa do microorganismo penetra as defesas do hospedeiro pelo portal de


entrada

B – O microorganismo penetra os tecidos estéreis do hospedeiro

C – Migração para um tecido alvo específico

D – Danos no tecido conduzem a doença

E – O microorganismo deixa o hospedeiro pelo portal de saída e irá infectar novo hospedeiro

COLONIZAÇÃO

As bactérias iniciam a sua ligação às células do hospedeiro através dos pili ou adesinas
Estabelece-se a colonização com a formação de uma comunidade bacteriana nos tecidos do
hospedeiro
INFEÇÕES VIRAIS

Uma infeção viral pode despoletar uma série de mecanismos no sentido da sua eliminação.
Contudo, os vírus também vão tentar evadir-se a estes mecanismos, no sentido de prolongar a
sua sobrevivência.

VIRUS

São partículas infeciosas normalmente visíveis apenas por microscopia eletrónica (ME)

Material genético pode ser DNA ou RNA

São parasitas celulares obrigatórios- apenas exprimem características vitais, como capacidade
de replicação, síntese proteica e produção de energia, nas células do hospedeiro

Mais de 2000 espécies das quais 650 patogénicas para o Homem; síndromes banais a graves

Multiplicam-se na célula hospedeira usando a maquinaria desta para a

síntese das suas próprias moléculas

Induzem a síntese de estruturas especializadas capazes de transferir o ácido nucleico para


outras células

->Possuem poucas ou nenhumas enzimas para o seu metabolismo (usam as da célula


hospedeira)

-> Drogas antivirais também podem interferir com o normal funcionamento da célula
hospedeira

Estrutura
Partícula viral ou virião é constituída por ácido nucleico, cápside e, por vezes, invólucro

Ácido nucleico

DNA ou RNA
cadeia simples ou dupla, linear ou circular, segmentado ou não segmentado

Cápside e invólucro

Invólucro deriva do sistema membranas da célula hospedeira e não existe em todos os vírus
(vírus nus)
Ciclo de replicação viral

Várias fases:

Adsorção - Depende da ligação específica de proteínas à superfície do virião a recetores na


membrana das células

Penetração
Descapsidação
Fase sintética
Montagem e extrusão

Tipos de infeções virais Infeções virais agudas

Recuperação rápida dos indivíduos afetados

Curta duração
No restrito de indivíduos afetados

Infeções virais persistentes

Vírus permanecem nos indivíduos afetados de forma contínua

3 tipos:

A) latentes,

Vírus mantêm-se no indivíduo (assintomático) num estado quiescente durante longos


períodos de tempo

Não é possível detetar os viriões

A intervalos periódicos, vírus replicam-se

Ex: vírus herpes simples 1 e 2; varicela; Epstein-Barr; citomegalovírus

B) crónicas

Replicação viral é contínua

É possível detetar vírus em qualquer altura

Podem causar complicações tardias (como vírus sarampo e rubéola)

Ex: vírus das hepatites B e C


C) lentas

Após o primeiro episódio de infeção aguda, há progressão lenta da doença que, normalmente,
termina na morte do indivíduo

Ex: vírus da SIDA

Transmissão

Podem ser transmitidos de muitas formas:

Alimentos e objetos contaminados

Alimentos, superfícies Manipulador contaminado Produtos biológicos contaminados

(sangue, urina, saliva, secreções)

Água

Alguns sobrevivem aos tratamentos da água

Ar

Normalmente aerossóis de pessoas contaminadas

Respiratória

ex: vírus respiratórios, papeira, sarampo, rubéola, hantavírus

Fecal-Oral

ex: vírus das diarreias, hepatites A e E, enterovírus

Injeção com agulhas ou objetos contaminados

ex: HIV, hepatites

Transplantes de tecidos (incl. Transfusões)

ex: HIV, hepatites, CMV

Transmissão sexual

ex: papillomavírus, herpes vírus, HIV, hepatites


transmissão vertical (mãe para filho durante gestação, parto ou aleitamento)

ex: rubéola, CMV, HIV

Mordedura de animais (cão, morcego)

ex: raiva

Picada de artrópodes (mosquito, carraça)

ex: west nile virus, dengue

RESPOSTA INATA À INFEÇÃO VIRAL

Indução de Interferão - IFN a e IFN b – por macrófagos, monócitos e fibroblastos; pode


depender do tipo de vírus (tipo de ácido nucleico)

Ativação células NK – por IFN a e IFN b; tb aumentada por ação de IL-12

RESPOSTA ADAPTATIVA À INFEÇÃO VIRAL

A produção de Ac para antigénios virais (superfície) é na maior parte das vezes crucial para
impedir o alastramento do vírus durante a infeção aguda e também reinfeção, sendo
particularmente eficientes que estão localizados junto da via de entrada do vírus.

Ligação dos Ac às proteínas de ligação a recetores celulares impede a sua ligação
Ligação pode impedir a penetração do vírus por bloquear epítopos necessários à fusão com a
membrana plasmática

Ligação de Ac ou do complemento pode aglutinar partículas virais, funcionando como


opsoninas para fagocitose

Os Ac deixam de ser eficazes assim que a infeção celular ocorre; particularmente quando o
vírus fica latente, integrado no genoma da célula hospedeira.

Linf TC CD8+ e Linf TH1 CD4+ -> secretam citocinas:


IL-2 - conversão de CTL precursores em efetores; ativação NK
IFN-g – estado antiviral nas células; ativação NK TNF

Por vezes também Linf TCCD4+


Vírus apresentam vários mecanismos de evasão às nossas defesas
Bloqueio da apresentação do antigénio pelo MHC (ex: HSV, citomegalovírus, HIV, vírus do
sarampo)
Evasão ao complemento (ex: HSV)
Alteração dos antigénios (ex: vírus da gripe – influenza; vírus associados à constipação,
HIV)
. Causando imunossupressão, quer destruindo as células do sistema imunológico quer por
desequilíbrio de citocinas (ex: vírus sarampo, vírus papeira, vírus Epstein-Barr (EBV), HIV)

Vírus da gripe
. Vírus com invólucro (deriva da membrana da célula
hospedeira)
. No invólucro possuem 2 glicoproteínas: hemaglutinina
(H) e Neuraminidase (NA)
13 tipos de Hemaglutininas e e 9 de Neuraminidases nos
vírus tipo A
Ex: H1N1 – subtipo 1 de HA e NA

Alterações genéticas estão na base da grande variabilidade do vírus: Antigenic drift –


mutações pontuais, graduais,
pequenas alterações
Antigenic shift – alterações brusca e aparecimento de um novo subtipo de HA ou NA
consideravelmente diferente do vírus responsável pela epidemia anterior
Tipo A
Aves, humanos e outros mamíferos; pandemias
Tipo B
Humanos; epidemias
Tipo C
Humanos, suínos; 7 fragmentos de ssRNA (e não 8); não possui NA; infeções suaves

INFEÇÕES BACTERIANAS

As bactérias podem ser patogénicas porque:


Induzem uma resposta inflamatória local Produzem toxinas

A defesa contra bactérias normalmente ocorre através da produção de Ac, a não ser que a
bactéria tenha capacidade de crescimento intracelular
A resposta depende do no de bactérias e da sua virulência:
Se baixos, as defesas inatas podem ser suficientes
Se alto, necessária a resposta adaptativa

Normalmente, há um aumento da produção de Ac nos nódulos linfáticos e submucosa dos


tratos respiratório e gastrointestinal.

->Ac + C3b atuam como opsoninas para aumentar a fagocitose

Bactérias intracelulares podem ativar as células NK, podendo induzir reações de


hipersensibilidade retardada (ver adiante)

A resposta imunológica pode contribuir para a patogénese bacteriana


Por vezes, a doença é causada não pela bactéria mas pela própria resposta imunológica.
Ex:
Produção desajustada de citocinas – choque sético, intoxicação alimentar, síndrome de
choque tóxico
Ativação desajustada de linf T CD4+ - necrose tecidular
INFEÇÕES POR PROTOZOÁRIOS E HELMINTOS

Os protozoários são organismos eucarióticos unicelulares responsáveis por doenças em


humanos como leishmaniose, toxoplasmose, malária, doença de Chagas, doença do sono
Africana, etc.
O Ciclo de vida passa por fases intracelulares ou livres no plasma, pelo que a resposta
imunológica depende da fase em que o parasita se encontra.

Os helmintos são organismos multicelulares que podem residir em humanos; não são
intracelulares; normalmente baixo no de vermes
Normalmente são atacados por Ac, mas sem grande eficácia. Mastócitos e eosinófilos
desempenham um importante papel.

Locais de infeção por parasitas


Fatores de virulência
Capacidade de evasão ao sistema imunitário do hospedeiro
. Localização em partes em que a resposta é menos intensa (ex: intestino) . Alteração da
estrutura antigénica da superfície (ex: Trypanosoma sp)
. Plasmodium (malária), liberta-se da sua cobertura de glicoproteínas depois do Ac se ligar.
. Revestimento da superfície do parasita com proteínas do hospedeiro (ex: Schistosoma sp)
. Modificação da resposta imunitária do hospedeiro por produtos do metabolismo do
parasita

INFEÇÕES POR FUNGOS

Seres eucarióticos uni ou pluricelulares Causam diversas infeções oportunistas

Flora comensal das mucosas Flora comensal da pele


C. albicans C.parapsilosis
C. tropicalis C. glabrata C. Guilliermondii

Malassezia furfur

Resposta imunológica aos fungos pode ser inata (neutrófilos, células NK, macrófagos) ou
adaptativa (importante papel das células dendríticas na ativação de linfócitos