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Duas cartas, duas fontes

DUAS CARTAS, DUAS FONTES

Como é sabido, um desconhecido publicou uma carta de três Bispos da Fraternidade São Pio X a seu
Superior Geral e a resposta deste àqueles (datadas do mês de abril deste ano de 2012). Os que não queriam
que o público tomasse conhecimento do conteúdo das mesmas classificaram tal publicação como um pecado
mortal. Felix culpa! Que nos mereceu um tão importante conhecimento, que nos salvou da ignorância a
respeito do pensamento dos três prelados, de um lado, assim como de seu superior, de outro lado, sobre um
assunto do maior interesse para todos os que amam a Santa Igreja. Creio que não cometerei também “pecado
mortal” analisando documentos que já caíram no domínio público… Nas circunstâncias atuais pareceria que
essas cartas perderam interesse; mas enquanto os autores das mesmas não desdisserem a doutrina que em
cada uma delas é exposta, continua sendo do mais alto valor conhecer bem seus conteúdos.

Primeiramente colocaremos passagens do texto da carta dos três Bispos intercaladas com citações de Dom
Lefebvre[1]  ou referências ao que ele disse. Depois veremos tópicos da carta-resposta, acompanhadas de
algumas observações (ao lado colocaremos esta carta na íntegra, para que não nos acusem falsamente de
deturpar o sentido do texto, tirando-o do contexto).

ANÁLISE DA CARTA DOS TRÊS BISPOS

1) Oposição a um acordo prático sem haver acordo doutrinal:

“As discussões doutrinais entre 2009 e 2011 têm provado que um acordo doutrinal é impossível com a Roma
atual.” “Como se pode acreditar que um acordo prático possa corrigir um problema desses?”, ou seja, que “o
pensamento do Papa atual é impregnado de subjetivismo.” “Um acordo, mesmo puramente prático, faria
necessária e progressivamente calar, por parte da Fraternidade, toda crítica ao Concílio ou à nova missa.
Deixando de atacar essas vitórias da Revolução, que são as mais importantes, a Fraternidade cessaria
necessariamente de se opor à apostasia universal de nossa lamentável época e afundaria a si mesma.” “Por
mais que se negue, este resvalamento é inevitável.” “Como obedecer e continuar a pregar toda a verdade?
Como fazer um acordo sem que a Fraternidade apodreça na contradição?” Ademais, “a condição pronunciada
pelo Capítulo de 2006 não se realizou (mudança de rumo por parte de Roma que permita um acordo
prático).” Assim, os três Bispos manifestam a “unanimidade de sua oposição formal a qualquer acordo
semelhante.”

Como Dom Lefebvre via esse aspecto do problema: “Um pouco antes das consagrações de 1988, quando
muitas pessoas insistiam junto a Dom Lefebvre para que fizesse um acordo prático com Roma que abriria um
grande campo de apostolado, ele disse seu pensamento aos quatro consagrandos: ‘Um grande campo de
apostolado pode ser, mas na ambiguidade e seguindo duas direções opostas ao mesmo tempo, o que
acabaria por nos apodrecer’ ”. “E quando, um ano mais tarde, Roma parecia fazer verdadeiros gestos de
benevolência para com a Tradição, Dom Lefebvre ainda desconfiava. Ele temia que isso não fosse nada mais
que ‘manobras para tirar de nós o maior número possível de fiéis. Eis aqui a perspectiva pela qual parecem
ceder ainda um pouco mais e ir ainda mais longe. Devemos absolutamente convencer nossa gente de que
isso nada mais é do que uma manobra, que é perigoso se colocar nas mãos dos bispos conciliares e da Roma
modernista. É o maior perigo que ameaça a nossa gente. Se nós lutamos há 20 anos para resistir aos erros
conciliares, não foi para nos colocarmos, agora, nas mãos daqueles que professam erros’ ”.

Colocamos também aqui uma citação bem conhecida, mas não bastante meditada: “Se eu viver ainda um
pouco e supondo que daqui a um certo tempo Roma faça um chamado querendo me rever, querendo retomar
as conversações, neste momento então serei eu que porei as condições. Eu não aceitarei mais de ficar na
situação em que nós nos encontramos durante os colóquios[2]. Está terminado. Eu porei a questão no plano
doutrinal: “Os senhores estão de acordo com as grandes encíclicas de todos os Papas que vos precederam?
Os senhores estão de acordo com Quanta Cura de Pio IX, Immortale Dei e Libertas de Leão XIII, Pascendi
de Pio X, Quas Primas de Pio XI, Humani Generis de Pio XII? Os senhores estão em plena comunhão com
estes Papas e suas afirmações? Os senhores aceitam ainda o juramento antimodernista? Os senhores são
pelo reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Se os senhores não aceitam a doutrina de seus predecessores, é inútil falar. Enquanto os senhores não
aceitarem reformar o Concílio considerando a doutrina destes Papas que vos precederam, não há diálogo
possível. É inútil.” (Fideliter, n°66, novembre-décembre 1988, p. 12-13)

2) Situação atual das autoridades romanas é semelhante à situação que seguiu ao Vaticano II e à de
1988:

“Desde o Concílio Vaticano II, as autoridades oficiais da Igreja se afastaram da verdade católica e, hoje em
dia, elas se mostram tão determinadas como sempre foram a permanecerem fiéis à doutrina e à prática
conciliares.  As discussões romanas, o preâmbulo doutrinal e Assis III são exemplos impressionantes.”
“Agora, o pensamento de Bento XVI é melhor em comparação ao de João Paulo II? Basta ler o estudo de um
de nós sobre La Foi au Péril de la Raison [A Fé Posta em Perigo pela Razão – Dom Tissier de Mallerais]
para perceber que o pensamento do Papa atual é igualmente impregnado de subjetivismo. É toda a fantasia
subjetiva do homem no lugar da realidade objetiva de Deus. É toda a religião católica submissa ao mundo
moderno.”

Contribuição do pensamento de Dom Lefebvre para a situação atual: Um dos sinais por causa dos quais
Dom Lefebvre julgou que ele deveria sagrar bispos sem a autorização de Roma foi a reunião de Assis. Ora,
essa reunião se renovou recentemente sob o pontificado de Bento XVI. Portanto, a situação do pontificado
atual é semelhante ao de João Paulo II em 1988. O segundo sinal que Dom Lefebvre julgou ainda mais
importante foi a reafirmação, por parte de Roma, dos erros do Vaticano II acerca da liberdade religiosa (cf.
sermão de 29/6/87). Ora, ultimamente, nos colóquios doutrinais, viu-se a incompatibilidade da doutrina da
Igreja com a doutrina dos atuais detentores da autoridade em Roma. Portanto, Dom Lefebvre julgaria hoje a
situação tão crítica como em 1988.

3) O Vaticano II:

“O problema colocado aos católicos pelo Concílio Vaticano II é profundo.”

Como Dom Lefebvre julgou o Concílio: “ ‘Quanto mais se analisam os documentos do Vaticano II e sua
interpretação pelas autoridades da Igreja, mais nos damos conta que não se trata de erros superficiais nem
de alguns erros particulares, como o ecumenismo, a liberdade religiosa, a colegialidade, mas antes uma
perversão total do espírito, de toda uma filosofia nova fundada no subjetivismo… Isso é muito sério! A
perversão total!… Isto é verdadeiramente espantoso’ ”. (“conferência que parece ter sido como que o último
testamento doutrinal de Dom Lefebvre, dada aos sacerdotes de sua Fraternidade em Ecône meio ano antes de
sua morte”)

4) Quem é Bento XVI:

“Mas, nos diriam, Bento XVI é bondoso para com a Fraternidade e sua doutrina. Por ser um subjetivista, ele
pode ser bondoso, porque os liberais subjetivistas podem tolerar a própria verdade, mas não se ela se recusar
a tolerar o erro. Ele [o Papa] nos aceitará no contexto de um pluralismo relativista e dialético, sob a condição
de permanecermos em “plena comunhão” com a autoridade e com as outras “realidades eclesiais”. Eis por
que as autoridades podem tolerar que a Fraternidade continue ensinando a doutrina católica, mas não
suportarão de forma alguma que ela condene a doutrina conciliar.”

Palavras de Dom Lefebvre sobre o Cardeal Ratzinger (atual Bento XVI)  : “Nós não temos a mesma
maneira de conceber a reconciliação. O Cardeal Ratzinger a vê no sentido de nos reduzir, de nos conduzir
ao Vaticano II. Quanto a nós, nós a vemos como um retorno de Roma à Tradição. Nós não nos entendemos.
É um diálogo de surdos.” (Fideliter, n°66, novembre-décembre 1988, p. 12-13). E quando Dom Lefebvre
disse ao Cardeal Ratzinger que era necessário escolher entre a liberdade religiosa do Vaticano II e o Syllabus
de Pio IX, pelo fato de eles se contradizerem, teve como resposta do Cardeal que “nós não estamos no tempo
do Syllabus”. Então Dom Lefebvre lhe contestou: “Então o que vós me dizeis hoje não será mais verdade
amanhã. Não há maneira de nos entendermos, [pois assim] está-se em uma evolução contínua.” (Fideliter,
n° hors série, 29-30 juin 1988, p. 15)

5) Denunciar os autores dos erros e opor-se a eles:

“Conforme Dom Lefebvre, o propósito da Fraternidade, mais do que denunciar os erros pelo seu nome, é
opor-se eficaz e publicamente às autoridades romanas que os difundem. Como se poderia conciliar um
acordo e uma resistência às autoridades públicas, entre as quais está o Papa?”

Eis o que Dom Lefebvre diz a esse respeito: “Não se deve ter medo de afirmar que as autoridades romanas
atuais, a partir de João XXIII e Paulo VI, se fizeram colaboradoras ativas da maçonaria judia internacional
e do socialismo mundial.” (Mgr Lefebvre, Itinéraire spirituel, p. 10-11). “Não se pode ao mesmo tempo dar
a mão aos modernistas e querer guardar a Tradição.” (Mgr Lefebvre, Fideliter, n°87, septembre 1990, p. 3)

6) Consequências da nova marcha em que os Superiores estão engajando a Fraternidade:

“Vós estais conduzindo a Fraternidade a um ponto sem retorno, a uma profunda divisão sem volta.”

Essa marcha rumo a um acordo Dom Lefebvre chamava de operação suicídio: “Se eu continuasse a
tratar com Roma, prosseguindo os acordos que havíamos assinado e colocando em prática esses acordos, eu
estaria fazendo a operação suicídio.” (Sermon du 30 juin 1988,  Fideliter  n°64, p. 6). “Dificuldades
inextricáveis surgirão com os bispos, com os movimentos das dioceses que quererão que colaboremos com
eles, se formos reconhecidos por Roma.” (Fideliter, n° hors série, 29-30 juin 1988, p. 18)

Como acabamos de ver, a fonte onde essa carta hauriu seus pensamentos foram os ensinamentos de Dom
Lefebvre.

Vejamos agora como Dom Fellay responde à mesma.

Carta de Dom Fellay aos outros bispos da ANÁLISE DA CARTA DE DOM FELLAY
Fraternidade São Pio X
1) “A vossa carta coletiva analisa os erros que
Menzingen, 14 de abril de 2012 pululam no ambiente. Mas a descrição contém dois
defeitos: falta-lhe espírito sobrenatural e carece de
realismo.” Se, como vimos, a carta dos três Bispos é
A NN. SS. Tissier de Mallerais, Williamson et de um eco fiel dos ensinamentos de Dom Lefebvre,
Galarreta. poder-se-ia ler assim essas palavras da carta-
resposta: “A análise e a descrição que Dom
Excelências, Lefebvre faz dos erros que pululam carece de
realismo e falta-lhe espírito sobrenatural.”
A vossa carta coletiva  dirigida aos membros do
Conselho Geral recebeu toda a nossa atenção. 2)  “Lendo-a [vossa carta], acabamos por nos
Agradeço-vos por vossa solicitude e a vossa questionar seriamente se vós acreditais ainda que a
caridade. Igreja visível, cuja Sé está em Roma, é a Igreja de
Nosso Senhor Jesus Cristo,  uma Igreja que ainda
tem como cabeça Nosso Senhor Jesus Cristo.  Tem-
Permiti-me, de minha parte, no mesmo intuito de
se a impressão de que estais tão escandalizados que
caridade e de justiça de vos fazer as seguintes não aceitais mais que isso poderia ainda ser
observações.
verdade. A vossa visão da Igreja é humana demais
Em primeiro lugar, a carta menciona a gravidade da e, também, fatalista; enxergais apenas os perigos, os
crise que agita a Igreja e  analisa  com precisãoos complôs, as dificuldades, não enxergais mais a
erros que pululam no ambiente. Mas a descrição assistência da graça e do Espírito Santo.” Usando o
contém dois defeitos  em relação à realidade da mesmo método do número anterior, vejamos como
Igreja:  falta-lhe espírito sobrenatural e, ao mesmo ficaria o texto: “Questionamo-nos seriamente se
tempo, carece de realismo. Dom Lefebvre acreditava ainda que a Igreja visível,
cuja Sé está em Roma, é a Igreja de Nosso Senhor
Falta-lhe, sobretudo, espírito sobrenatural. Lendo-a, Jesus Cristo, uma Igreja que ainda tem como cabeça
acabamos por nos questionar seriamente se vós Nosso Senhor Jesus Cristo. Tem-se a impressão de
acreditais ainda que a Igreja visível, cuja Sé está em que estava tão escandalizado que não aceitava mais
Roma, é a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo; uma que isso poderia ainda ser verdade. A sua visão da
Igreja certamente desfigurada de um modo Igreja era humana demais e, também, fatalista;
horrível,  a planta pedis usque ad verticem capitis, enxergava apenas os perigos, os complôs, as
mas  uma Igreja que, de qualquer forma,  ainda tem dificuldades, não enxergava mais a assistência da
como cabeça Nosso Senhor Jesus Cristo.  Tem-se a graça e do Espírito Santo.”
impressão de que estais tão escandalizados que não
aceitais mais o que ainda pode ser verdade.  Para 3)  “Para vós, o Papa Bento XVI é ainda Papa
vós, o Papa Bento XVI é ainda Papa legítimo? Se o legítimo? Se o é, Jesus Cristo ainda pode falar por
é, Jesus Cristo ainda pode falar por sua boca? Se o sua boca?”  Prosseguindo, a carta ficaria assim:
Papa  expressa uma vontade legítima em relação a “Para Dom Lefebvre, os Papas Paulo VI e João
nós, que é boa, que  não dá uma ordem contra os Paulo II eram ainda Papas legítimos? Se o eram,
mandamentos de Deus, temos o direito de Jesus Cristo ainda podia falar por sua boca?”
negligenciar, de recusar esta vontade? E, caso
contrário, sobre qual princípio vos embasais para 4)  “Se o Papa não dá uma ordem contra os
agir assim? Não acreditais que, se Nosso Senhor nos mandamentos de Deus, temos o direito de
comanda, também nos dará os meios para continuar negligenciar, de recusar esta vontade? E, caso
o nosso trabalho? Bem, o Papa nos fez saber que a contrário, sobre qual princípio vos embasais para
preocupação de regular a nossa situação para o bem agir assim? Não acreditais que, se Nosso Senhor nos
da Igreja estava no coração de seu pontificado, e comanda, também nos dará os meios para continuar
também que sabia que seria mais fácil para ele e o nosso trabalho?” Ainda uma vez, eis a paráfrase:
para nós deixar a situação assim como ela está “Se os Papas Paulo VI (em 1976) e João Paulo II
agora. Portanto, é uma vontade decidida e justa a (em 1988) não deram uma ordem contra os
que ele expressa. mandamentos de Deus (ou seja de não ordenar
sacerdotes e de não sagrar bispos), Dom Lefebvre
Com a atitude que preconizais, não há mais lugar tinha o direito de negligenciar, de recusar esta
para os Gideões nem para os David, nem para todos vontade? E, caso contrário, sobre qual princípio ele
aqueles que contam com a ajuda do Senhor. Vós nos se embasou para agir assim? Ele não acreditava que,
recriminais de sermos ingênuos e de termos medo, se Nosso Senhor nos comanda, também nos daria os
mas é  a vossa visão da Igreja que é humana demais meios para continuar o nosso trabalho?”
e, também, fatalista; enxergais apenas os perigos, os
complôs, as dificuldades, não enxergais mais a Tomemos um pouco de fôlego… Tentemos
assistência da graça e do Espírito Santo. apaziguar o nosso espírito ouvindo Dom Lefebvre,
que assim falou: “Eminência [ele se dirigia ao
Se se quer aceitar que a Providência divina conduz Cardeal Ratzinger], não somos nós que fazemos
os assuntos dos homens, deixando a eles a liberdade, uma Igreja paralela, visto que continuamos a Igreja
é preciso aceitar que as ações destes últimos anos de sempre; sois vós que fazeis a Igreja paralela,
em nosso favor estão sob sua orientação. Agora havendo inventado a Igreja do Concílio, a que o
indicam uma linha, não completamente reta, mas Cardeal Benelli chamou de Igreja conciliar; fostes
claramente a favor da Tradição. Por que de repente vós que inventastes uma igreja nova, não nós; fostes
essa linha cessaria, se fazemos de tudo para manter vós que fizestes novos catecismos, novos
nossa lealdade e acompanhamos os nossos esforços sacramentos, uma nova missa, uma nova liturgia,
com uma oração comum? O bom Deus nos não fomos nós. De nossa parte, nós continuamos o
abandonaria no momento mais crucial? Isso não faz que foi feito outrora. Não somos nós que fazemos
muito sentido.Especialmente, não devemos procurar uma nova igreja.” (Fideliter, n° hors série, 29-30
de impor uma nossa própria vontade qualquer, mas juin 1988, p. 12) “Ele [o Cardeal Ratzinger] me
procuremos enxergar através dos acontecimentos o repetiu: ‘Só há uma Igreja, é a Igreja do Vaticano
que Deus quer, estando dispostos a tudo, como Ele II. O Vaticano II representa a Tradição.’
quiser. Infelizmente a Igreja do Vaticano II se opõe à
Tradição. Não é a mesma coisa.” (Idem, p. 15)
Ao mesmo tempo, carece de realismo tanto no que “Essa história de Igreja visível de Dom Gérard é
respeita à intensidade dos erros quanto à sua uma infantilidade. É incrível que se possa falar de
amplitude. Igreja visível para designar a Igreja conciliar por
oposição à Igreja Católica, que nós tentamos
representar e continuar.” (Fideliter, n. 70, juillet-
Intensidade:  na Fraternidade está-se tratando os août 1989, p. 6) “Nós pertencemos à Igreja visível,
erros do Concílio como se fossem super-heresias, à sociedade dos fiéis sob a autoridade do Papa,
torna-se como o mal absoluto, pior de tudo, da porque nós não recusamos a autoridade do Papa,
mesma forma como os liberais têm dogmatizado mas o que ele faz. Reconhecemos a autoridade do
este concílio pastoral. Os males já são dramáticos o Papa, mas quando ele se serve dela para fazer o
suficiente sem que se precise exagerá-los ainda mais contrário do motivo pelo qual essa autoridade lhe
(cf. Roberto de Mattei, Uma história nunca contada, foi dada, é evidente que não podemos segui-lo.
p. 22; Mons. Gherardini, Um discurso ainda a fazer, Então, sair da Igreja oficial? Em uma certa medida,
p.53, etc.). Não há mais qualquer distinção. E Dom sim. É necessário sair do meio dos bispos, se não se
Lefebvre fez várias vezes as distinções necessárias quer perder sua alma. Mas isso não basta, porque é
acerca do liberal. (1) Esta falta de distinção leva um em Roma que a heresia está instalada. O
ou outro de vós a um endurecimento liberalismo e o modernismo introduziram-se no
“absoluto”.  Isto é grave, porqueesta caricatura não Concílio e no interior da Igreja. Estas são ideias
está mais na realidade e logicamente irá resultar em revolucionárias, e a Revolução (que se encontrava
verdadeiro cisma no futuro. E provavelmente esse é na sociedade civil) entrou na Igreja.” (Fideliter,
um dos argumentos que me leva a não mais demorar n°66, novembre-décembre 1988, p. 28)
em responder às exigências de Roma.
5)  “Se se quer aceitar que a Providência divina
Amplitude: de uma parte se atribuem às autoridades conduz os assuntos dos homens, deixando a eles a
atuais todos os erros e todos os males que se liberdade, é preciso aceitar que as ações destes
encontram na Igreja, ignorando o fato que estas últimos anos em nosso favor estão sob sua
procuram, pelo menos em parte, livrar-se dos mais orientação. Agora indicam uma linha, não
graves (a condenação da “hermenêutica da ruptura” completamente reta, mas claramente a favor da
denuncia erros bem reais). Por outro lado,se Tradição. Por que de repente essa linha cessaria, se
pretende que TODOS estejam enraizados nesta fazemos de tudo para manter nossa lealdade e
pertinácia (“todos modernistas,” “todos podres”). acompanhamos os nossos esforços com uma oração
Ora, isso é manifestamente falso. Uma grande comum? O bom Deus nos abandonaria no momento
maioria foi arrastada no movimento, mas não todos. mais crucial? Isso não faz muito sentido.”  Não
devemos pecar nem por desespero nem por
No ponto da questão mais crucial de todos, sobre a presunção. Dom Lefebvre julgava que confiar em
possibilidade de sobreviver nas condições de um homens como o Cardeal Ratzinger e os demais da
reconhecimento da Fraternidade por parte de Roma, cúpula liberal romana fazia parte do segundo
nós não chegamos à mesma conclusão vossa. extremo: “Estamos cada vez mais persuadidos [de
que acontecerá conosco o que aconteceu com os
outros que se uniram a Roma]. Quanto mais
Que seja registrado que NÓS NÃO TEMOS refletimos, mais nos damos conta que  nos estão
BUSCADO um acordo prático. Isso é falso. Nós não
preparando uma armadilha.” (Idem, p. 17) “Nós
recusamos, a priori, de considerar a oferta do Papa,
não podemos ter confiança [neles], não é possível.”
como vós pedistes. Para o bem comum da
(Fideliter, n° hors série, 29-30 juin 1988, p. 16).
Fraternidade, nós preferíamos muito mais a solução
Dom Lefebvre citava exemplos, daquela época, de
atual de status quo intermediário, mas claramente traição por parte de Roma para com os ralliés[3],e
Roma não tolera mais isso.
na atualidade podemos citar o exemplo recente da
mesma atitude para com o Instituto Bom Pastor.
Em si, a solução proposta, da Prelatura pessoal, não Quanto às ofertas que parecem ser atos favoráveis à
é uma armadilha. O que emerge disso, acima de Tradição, Dom Lefebvre dizia: “Não é isso que nos
tudo, é que a situação presente, em abril de 2012, é interessa. É o problema de fundo que está sempre
muito diferente daquela de 1988. Pretender que nada por detrás de nós e que nos faz medo.” (Idem, p.
mudou é um erro histórico. Os mesmos males 19). Lembremo-nos também que Dom Gérard
afligem a Igreja, as consequências são ainda mais Calvet OSB afirmava que, para legalizar a situação
graves e evidentes do que naquele tempo; mas,  ao de seu mosteiro beneditino do Barroux, Roma dava
mesmo tempo, pode-se constatar uma mudança de tudo e não pedia nada e, apesar disso, Dom
atitude na Igreja,  ajudada pelos gestos e atos de Lefebvre manifestou claramente que desaprovava a
Bento XVI em relação à Tradição. Este novo procura dessa legalização.
movimento, nascido pelo menos há uma década, vai
se fortalecendo. Ele alcança um bom número (ainda 6)  “Na Fraternidade está-se tratando os erros do
uma minoria) de jovens sacerdotes, de seminaristas Concílio como se fossem super-heresias, torna-se
e também um pequeno número de Bispos jovens, como o mal absoluto, pior de tudo.”  A acusação é
que se distinguem claramente de seus antecessores, gratuita e com um forte tom depreciativo. Se no
que expressam sua simpatia e seu apoio, mas que Vaticano II há heresias (lembremos que não existe
são, ainda, silenciados pela linha dominante da heresiazinhas nem super-heresias), isso basta para
hierarquia em favor do Vaticano II. Esta hierarquia haver de nossa parte toda a repulsa de nosso coração
está perdendo velocidade. Isto é objetivo e mostra de católicos. Ouçamos ainda a Dom Lefebvre: “A
que não é mais ilusório considerar um combate crise da Igreja se reduz essencialmente às reformas
“intramuros”, da duração e da dificuldade de que pós-conciliares que emanam das autoridades
somos conscientes. Pude constatar em Roma como o oficiais mais importantes da Igreja e nas aplicações
discurso sobre as glórias do Vaticano II que se via das doutrinas e diretivas do Vaticano II.” (Do
repetindo constantemente, se ainda está nos lábios Liberalismo à Apostasia, cap. XXXII, p. 249)
de muitos, no entanto não está mais em suas
cabeças. São cada vez menos as pessoas que
acreditam nisso. 7)  “Dom Lefebvre fez várias vezes as distinções
necessárias acerca do liberal. Esta falta de distinção
leva um ou outro de vós a um endurecimento
Esta situação concreta, com a solução canônica ‘absoluto.’ Esta caricatura logicamente irá resultar
proposta, é bem diferente da de 1988. E,  quando em verdadeiro cisma”Nova acusação gratuita: não
comparamos os argumentos que Dom Lefebvre consta que nenhum dos três bispos seja
defendia na época, concluímos que ele não teria sedevacantista. Pois o problema que se trata aqui é o
hesitado em aceitar o que hoje nos é proposto. Não do sedevacantismo, como se vê nas palavras de
percamos o sentido da Igreja, que era tão forte em Dom Lefebvre citadas na própria carta de Dom
nosso venerado fundador. Fellay: “Não é porque um papa é um liberal que
não existe, (…) [que] portanto não há um Papa!
A história da Igreja mostra que a cura dos males que Isso não é correto.” Um liberal pode defender uma
a afetam habitualmente ocorre gradualmente, heresia sem ser, ao mesmo tempo, um herege
lentamente. E quando um problema acaba, há outro formal[4], justamente por ter uma cabeça liberal.
que começa…  oportet haereses esse. Pretender de Vejamos como Dom Lefebvre não hesita em chamar
esperar até que tudo seja resolvido para chegar ao João Paulo II de modernista e descarta a ideia de
que vós chamais de acordo prático não é realista. É cisma: “Declaração de cisma; cisma com quem?
muito provável que, vendo como as coisas se Com o Papa sucessor de São Pedro? Não. Cisma
desenvolvem, o fim dessa crise levará ainda com o Papa modernista, sim, cisma com as ideias
décadas. Mas, se recusar a trabalhar no campo que o Papa espalha em toda parte, as ideias da
porque ainda há erva daninha, que ameaça abafar, Revolução, as ideias modernas, sim. Estamos em
calar a erva boa, encontra curiosamente uma lição cisma com isso. Não as aceitamos. Pessoalmente
bíblica: é o próprio Nosso Senhor que nos faz não temos nenhuma intenção de ruptura com Roma.
compreender, com sua parábola do trabalhador, que Queremos estar unidos à Roma de sempre e estamos
sempre haverá, de uma forma ou de outra, ervas persuadidos de estar unidos à Roma de sempre,
daninhas para arrancar e combater em Sua Igreja… porque (…) continuamos a vida tradicional como
ela era antes do Concílio Vaticano II e como ela foi
Não podeis imaginar quanto, nesses últimos meses, vivida durante vinte séculos. Então, eu não vejo
a vossa atitude – muito diferente para cada um de porque nós estaríamos em ruptura com Roma, visto
vós – foi dura para mim. Isso tem impedido que fazemos o que Roma aconselhou a fazer
oSuperior Geral  de vos comunicar e vos tornar durante vinte séculos.” (Fideliter, n° hors série, 29-
partícipes destas grandes preocupações, às quais ele 30 juin 1988, p. 18). Será que Dom Fellay acusaria
vos teria associado de boa vontade, se não tivesse se Dom Lefebvre de aqui estar também fazendo
confrontado  com uma incompreensão  tão forte caricatura do Papa?
e apaixonada. Como teria desejado contar convosco,
com vossos conselhos, para apoiar essa passagem 8) “A condenação da “hermenêutica da ruptura”
tão delicada de nossa história. É uma grande denuncia erros bem reais.” Vejamos como Dom
provação, talvez a maior de toda a sua função. Lefebvre já havia desfeito essa ilusão da oposição
Nosso venerado fundador deu aos Bispos da entre “hermenêutica da continuidade” e
Fraternidade uma responsabilidade e deveres “hermenêutica da ruptura”: “O que o Cardeal
precisos. Ele mostrou que o princípio que na nossa Ratzinger chama de ‘anti-espírito do Concílio’ não
sociedade faz a unidade é o superior geral. Mas, já é mais do que o resultado final de teorias de
há algum tempo,  vós tentais, cada um de forma teólogos que foram de grande influência no
diferente, de  impor-lhe o vosso ponto de vista, até Concílio. É o espírito do Concílio que é a raiz de
mesmo sob a forma de ameaças, inclusive quase todos os textos conciliares e de todas as
publicamente.  Essa dialética entre verdade/fé e reformas que se seguiram.” (Do Liberalismo à
autoridade é contrária ao espírito sacerdotal. Ele, Apostasia, cap. XXXII, p. 249)
pelo menos, teria esperado que vós buscásseis
compreender os argumentos que o impelem a agir 9) “Se pretende que TODOS estejam enraizados
como agiu nos últimos anos, segundo a vontade da nesta pertinácia (“todos modernistas,” “todos
divina providência. podres”). Ora, isso é manifestamente falso. Uma
grande maioria foi arrastada no movimento, mas
Nós rezamos por cada um de vós, para que nesse não todos.” A acusação é inexata e tendenciosa. Na
combate que está longe de terminar nos carta dos três bispos não figura o termo “todos” nem
encontremos juntos, para a maior glória de Deus e “podres”, mas eles empregam a expressão
por amor a nossa cara Fraternidade. Que Nosso “autoridades oficiais”, “autoridades em Roma”,
Senhor Ressuscitado e Nossa Senhora se dignem de “modernistas” de modo geral, da mesma forma que
vos proteger e abençoar. Dom Lefebvre outrora dizia: “As autoridades não
mudaram um iota em suas idéias sobre o Concílio,
+ Bernard Fellay o liberalismo e o modernismo. Eles são anti-
Tradição, a Tradição tal como nós a entendemos e
como a Igreja a entende. Isso não entra no conceito
Niklaus Pfluger que eles têm. O conceito deles é um conceito
evolutivo; eles são, portanto, contra essa Tradição
Alain-Marc Nely fixa, na qual nós nos mantemos.” (Fideliter, n°66,
novembre-décembre 1988, p. 29) E sobre os que
aparentemente “não teriam sido arrastados no
_______________________________ movimento”, assim se exprimia o Arcebispo: “Ouço
dizer: ‘Vossa Excelência exagera! Há cada vez mais
1. “Não é porque um papa é um liberal que não bons bispos que rezam, que tem a fé, que são
existe (…). Devemos permanecer em uma linha edificantes…’ Como poderiam ser eles santos? visto
firme, e não nos perder no curso das dificuldades que, se eles admitem a falsa liberdade religiosa,
que vivemos. É tentador, de fato, recorrer a soluções consequentemente admitem o Estado laico, se eles
extremas e dizer: “Não, não, o Papa não é apenas admitem o falso ecumenismo, consequentemente
liberal, o Papa é herético! O Papa talvez seja mais admitem que há vários caminhos de salvação, se
do que herético, portanto não há um Papa!”. Isso eles admitem a reforma litúrgica, consequentemente
não é correto. Não é porque alguém é liberal que é admitem a negação prática do sacrifício da Missa,
necessariamente um herege e que, se eles admitem os novos catecismos com todos os
consequentemente, está fora da Igreja. É preciso seus erros e heresias, eles contribuem oficialmente
fazer as necessárias distinções. Isto é muito com a revolução na Igreja e com a sua destruição.”
importante para ficarmos em um caminho seguro, (Mgr Lefebvre, Itinéraire spirituel, p. 10-11)
para permanecermos na Igreja. Se não, para onde
iremos? Não há mais um Papa, não há mais
10) “A situação presente, em abril de 2012, é muito
cardeais, porque, se o Papa não fosse Papa quando diferente daquela de 1988. Ao mesmo tempo, pode-
nomeou os cardeais, os cardeais não poderiam se constatar uma mudança de atitude na Igreja. Este
nomear um Papa porque eles não são cardeais. E
novo movimento alcança um bom número (ainda
então? É um Anjo do céu que nos trará um Papa? É uma minoria) de jovens sacerdotes, de seminaristas
um absurdo! E não é apenas um absurdo, é
e também um pequeno número de Bispos jovens,
perigoso! Por que, então, seríamos levados, talvez, a que se distinguem claramente de seus antecessores,
soluções que são verdadeiramente cismáticas” que expressam sua simpatia e seu apoio, mas que
(Conferência em Angers, 1980). Ver
são, ainda, silenciados pela linha dominante da
tambémFideliter  n. 57, p.17, sobre os limites a hierarquia em favor do Vaticano II. Esta hierarquia
guardar.
está perdendo velocidade. Isto é objetivo, e mostra
que não é mais ilusório considerar um combate
“intramuros”, da duração e da dificuldade de que
somos conscientes. Pude constatar em Roma como
o discurso sobre as glórias do Vaticano II que se via
repetindo constantemente, se ainda está nos lábios
de muitos, no entanto não está mais em suas
cabeças. São cada vez menos as pessoas que
acreditam nisso.” O problema é que, com um
acordo, a Fraternidade se colocará nas mãos do
Papa reinante, e não na de “jovens sacerdotes,
seminaristas e pequeno número de Bispos jovens”.
Ora, Bento XVI recentemente a) beatificando João
Paulo II, colocou-o como modelo a ser imitado; b)
renovou sua adesão ao ideal ecumênico da reunião
de Assis, fazendo “Assis III”; c) reafirmou sua
convicção de que toda reforma na Igreja só poderá
ser feita aprofundando-se no espírito do Vaticano II,
voltando aos seus textos. Portanto, a situação atual
não é diferente da de 1988. É incrível como Dom
Fellay não enxerga isso!…

11) “Quando comparamos os argumentos que Dom


Lefebvre defendia na época, concluímos que ele não
teria hesitado em aceitar o que hoje nos é proposto.”
A afirmação carece de fundamento, se se toma
como referência o período posterior às sagrações de
1988. Basta lermos o que já acima foi citado de
Dom Lefebvre para concluirmos 1º) que ele não
mais se importava com as ofertas de Roma, por
melhor que fossem, sem haver antes, da parte do
Papa, uma mudança doutrinal; 2º) que, sem essa
mudança, ele considerava as ofertas e “gestos
favoráveis” dos progressistas como armadilhas
contra a Tradição.

12) “A história da Igreja mostra que a cura dos


males que a afetam habitualmente ocorre
gradualmente.” Sem dúvida. Mas, a história nos
mostra também que a reforma desses males só se
realiza quando patrocinada pelo Papa. O que Dom
Fellay não diz, mas que deixa entrever ser seu
pensamento, é que, no presente, Bento XVI é que
seria o Papa reformador.[5] Será preciso repetir tudo
o que já vai escrito acima para provar que isso é
uma ilusão?

13) “O Superior Geral [confrontou-se] com uma


incompreensão apaixonada.” Seria mais correto
dizer: confrontou-se com uma doutrina firme, contra
a qual o Superior Geral não tem resposta (ao menos
se ele quiser buscar a resposta na orientação dada
pelo fundador da Fraternidade).

14) “Vós tentais impor-lhe [ao Superior Geral] o


vosso ponto de vista.” Seria mais honesto dizer: o
ponto de vista de Dom Lefebvre.

15) “Essa dialética entre verdade/fé e autoridade é


contrária ao espírito sacerdotal.” Parece que
estamos a ouvir os que criticavam Dom Lefebvre,
quando se opunha aos Papas liberais!…

Agora, perguntar-me-ão qual é a fonte onde hauriu Dom Fellay os pensamentos que consignou em sua carta.
Respondo: não sei… O que sei é que um venerável sacerdote considerou-a diabólica! Com efeito, a maneira
ordinária de o demônio nos tentar é apresentar-nos o mal com sedutoras aparências de bem.

Quando Campos aproximou-se dos progressistas, se não me falha a memória, vários membros da
Fraternidade manifestaram seu escândalo: “Como é que pode!… Nem uma reação!” Certamente o que teve
grande peso nessa atitude foi o respeito para com a autoridade de Dom Licínio Rangel e a confiança que
depositavam no então Pe. Fernando Rifan. E agora, quando o Superior Geral da Fraternidade faz o mesmo,
apela-se para o respeito e confiança para com ele… Como se diz: “cisco no olho do outro é colírio” e “falar é
fácil, fazer é difícil”. Onde está a reação dos membros da Fraternidade? Os poucos que a fizeram são
tachados de rebeldes…

Deus tem permitido que, desde a Revolução Francesa, todas as reações católicas contra os inimigos de Deus
hajam fracassado ou sido efêmeras: assim os vandeianos, os cristeros, Franco, Salazar, Pétain… Ultimamente
vimos a obra de Dom Antônio de Castro Mayer ter o mesmo destino. Por que a obra de Dom Lefebvre seria
exceção? E é isso o que certamente vai acontecer se não houver uma reação de grande envergadura contra
esse movimento de aproximação com os progressistas. Se as expressões de atenuação do Concílio
continuarem a ser proferidas e se os elogios a Bento XVI continuarem a ser ouvidos, daqui a alguns anos a
Fraternidade cairá, como fruto maduro, nas mãos dos progressistas. O mais correto e honesto é que os que
julgam que era exagerado e irrealista o modo com que Dom Lefebvre encarava a situação em que se encontra
a Igreja, saíssem da obra por ele fundada: afinal, já não há tantas congregações Ecclesia Dei, para onde eles
poderiam dirigir-se? Mas não, HAEC EST HORA VESTRA ET POTESTAS TENEBRARUM. Valha-nos
Deus! A quem recorreremos?

Arsenius

[1] Para que se avalie a importância do argumento de autoridade dessas citações, transcrevemos aqui o que
dissemos em “É preciso colocar o dedo na ferida”:

“Cremos ser Dom Lefebvre uma referência segura para sabermos como devemos proceder e julgar os
acontecimentos atuais 1° Porque ele era um membro da hierarquia e, portanto, pertencia à Igreja docente; 2°
Porque seus conhecimentos filosóficos e teológicos eram do mais puro catolicismo, visto ser ele doutor em
teologia e em filosofia pela Pontifícia Universidade Gregoriana no tempo do Papa Pio XI; 3° Porque sua vida
foi de uma santidade incontestável, inatacada até mesmo pelos seus inimigos. E essa santidade nos dá uma
garantia de perfeição da sua prudência e, portanto, do seu juízo prudencial; 4° Porque ele conheceu a Igreja
nos tempos anteriores ao Vaticano II, esteve neste Concílio e presenciou as mudanças operadas após o
mesmo. Conversou pessoalmente com vários Papas, tratou com vários Chefes de Estado e foi superior de
toda uma Congregação religiosa em que havia vários bispos submetidos a ele. Além disso, era tido na maior
estima do Papa Pio XII [e foi seu representante em todos os países de língua francesa da África – acréscimo
que faço agora].
Nosso Senhor mesmo quis que recebêssemos Sua doutrina através de outros homens. Por isso, à medida que
temos fiéis transmissores dessa doutrina, devemos confiar neles, especialmente quando possuidores de
garantias como as que citei, que se encontram em Dom Lefebvre.

Ademais, devemos estar conscientes de que nem todos os que têm o dever de estado de serem os fiéis
transmissores da doutrina de Nosso Senhor o são realmente. Daí a necessidade de um discernimento acurado,
de modo especial nos dias de hoje, para saber em quem podemos confiar.”

[2] Dom Lefebvre faz alusão aos colóquios de antes das sagrações de 1988.

[3] Termo consagrado na França para designar os que se submetem indevidamente a uma autoridade que é
perniciosa ao bem comum, levados por uma obediência mal entendida ou pela ilusão.

[4]  A declaração de heresia formal só se faz quando, após advertência da autoridade competente, alguém
permanece aferrado à sua heresia, após o que, profere-se um decreto.

[5] E para que não nos acusem de emitir essa opinião gratuitamente, ouçamos o próprio Dom Fellay quando,
em uma outra ocasião, assim se exprimia: [Bento XVI] “é uma pessoa que leva muito a sério a situação e a
vida da Igreja.” (entrevista do dia 31/07/2011 à Agência Italiana APCOM)