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A família - Novas questões sociais

Por: Ricardo Vieira


Defender a Família hoje, em pleno século XXI, ainda tem uma carga preconceituosa nos
meios de comunicação social e de expressão cultural dominantes. Generalizou-se,
durante décadas, a ideia de que a família era uma instituição conservadora, serôdia e
anquilosada, sobre a qual não valia a pena tecer grandes palavras ou apresentar grandes
projectos.

Mercê de ideologias marcadamente influentes em meados do século passado, a família


foi postergada para o baú das instituições que deveria estar em vias de extinção já que
ela conflituava de forma absolutamente contraditória com as reivindicações libertárias e
igualitárias. Ao lado do preconceito, as políticas e as leis conciliaram-se em processos
que conduziram na prática à dispensabilidade da família. Num primeiro plano,
processos indirectos levaram à redução da família mais alargada, promovendo-se a
nuclearização da família e à efectiva diminuição dos seus membros. Num segundo
plano, na facilitação das rupturas dos vínculos conjugais e na equiparação das uniões de
facto às famílias conjugais.

Se olharmos para os indicadores estatísticos verificamos que no ano 2000 mais de um


quinto dos nascimentos em Portugal ocorreram fora do casamento, quando trinta anos
antes esse valor era de 7%. Na totalidade da Europa comunitária alargada esse valor é
superior a um quarto e nos EUA é de um terço. Os núcleos familiares com um só
progenitor de 1991 a 2001 passaram de 9,2% para 11,5 %, valor que nos últimos anos
continuou a crescer, ao contrário do que acontece com o número de casais com filhos
que tem sentido um decréscimo não representando hoje sequer 65 % do total dos
núcleos familiares de casais.

Na ocasião desta Ano Internacional da Família importa repetir e valorizar que a família
é um bem. É um bem para muita gente e para a sociedade.

É um bem, em primeiro lugar, para os cônjuges, homem e mulher que se unem para a
vida. Apesar das referidas estatísticas, recentes sondagens continuam a provar que o
maior desejo da nossa juventude é casar e constituir família. A família é um objectivo
de realização pessoal muito importante para os indivíduos.

A família é também um bem para os elementos da família alargada. Quinze por cento
das famílias madeirenses têm dois ou mais núcleos, ou seja, agregam-se no mesmo lar
várias gerações da mesma família o que constitui uma louvável constatação de que
muitas casas albergam os seus idosos, o que não é devidamente encarado e apreciado
por quem de direito. Nessas famílias alargadas não é só a prestação social que está em
causa. Não é também apenas a expressão da gratidão dos mais novos pelos que os
antecederam. É a simbiose de carinho e experiência que tanto bem faz ao
desenvolvimento das crianças.

A família é também indiscutivelmente um bem para as crianças.

A correlação entre a estrutura familiar e o bem-estar das crianças tem sido alvo de
recentíssimos estudos e trabalhos de investigação nomeadamente nos EUA. À
percepção empírica, associam-se agora dados científicos que procuram avaliar o peso do
capital da estrutura familiar, do número de adultos presentes num lar, da educação e da
actividade laboral dos pais no comportamento, no bem-estar e até na saúde psíquica das
crianças. Os trabalhos realizados provam que as crianças oriundas de famílias
biparentais incorrem em menos factores de risco do que as crianças oriundas ou
circunscritas a famílias monoparentais. Sem ser exaustivo colocamos nesses factores de
risco, os maus resultados académicos, a probabilidade de não conclusão da escolaridade
obrigatória ou o ensino secundário, a ocorrência de maternidades precoces, os níveis de
ansiedade depressão ou agressividade. Os estudos promovidos por departamentos
estatais nos EUA referem que as crianças que vivem em famílias monoparentais têm
duas a três vezes mais probabilidades de sofrerem distúrbios emocionais ou
comportamentais ou que a taxa de delinquência juvenil é 10 a 15% superiores nas
famílias desagregadas do que nas que se preservam intactas.

Por último a família é um bem para a sociedade.

Desde logo como resulta do que acima se referiu para o sucesso educativo, para a
segurança das populações e para a saúde pública.

Acrescentaríamos que é hoje evidente que uma das causas da pobreza é a desagregação
familiar. Os americanos referem que uma família monoparental tem uma probabilidade
quatro vezes superior de ser ou ficar pobre. Em termos económicos – análise tão ao
gosto dos tempos modernos o rendimento médio de uma família biparental moderna
(onde ambos trabalham) satisfaz muito mais necessidades conjuntas do que o
rendimento de uma família desagregada, que em dificuldades faz sobrecarregar os
sistemas de segurança social, quer na vertente dos subsídios quer na acção directa de
cariz social.

Há que em matéria social, introduzir uma nova estratégia que exija por parte dos
beneficiários responsabilidade e trabalho e paralelamente não favoreçam indirectamente
a família monoparental em detrimento da família biparental, desestimulando o
investimento no casamento e até mesmo o afastamento do pai da educação dos filhos. É
útil que se analise os efeitos das políticas sociais e fiscais a tal ponto que por elas não se
esteja a favorecer o aumento de condições nomeadamente familiares que mais tarde
representam crescentes apoios sociais.

Nunca se conseguiu inventar nada melhor que a família como o melhor local para a
segurança e a protecção dos seus membros, sejam filhos menores ou os mais idosos.
Esse respeito pela área natural de actuação da família não é apenas de ordem passiva,
mas tem exigências em todos os planos, na área económica, como na área social, na
legislação do trabalho como na estruturação dos serviços sociais, na educação ou na
política de promoção habitacional, por exemplo.
Fonte: Diário de Noticias da Madeira em 29/04/2004

http://www.maternidadevida.org/noticias_opiniao.php?id=128

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