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Fundamentos do

Direito Civil

Carla Proença

E-Book 1
NESTE E-BOOK:
Fundamentos do Direito Civil������� 3
Lei de Introdução às Normas do
Direito Brasileiro������������������� 4
Objetivo e finalidade da teoria
geral do direito civil: Direito
Positivo, Direito Civil e Relação
Jurídica���������������������������� 6
Direito Positivo��������������������������� 6
Direito Civil������������������������������ 11
Relação Jurídica������������������������� 16

A aplicação dos direitos


2
fundamentais como garantias
constitucionais nas relações privadas18

Os Princípios do Direito Civil e


suas tendências contemporâneas��� 27
A) As funções dos princípios gerais de
Direito�������������������������������������� 30
B) Princípios norteadores do Direito Civil
aplicáveis às relações jurídicas�������������� 32
C) O Princípio da Dignidade da Pessoa
Humana como valor fundamental do orde-
namento jurídico brasileiro������������������ 41

Considerações Finais �������������� 50


Síntese���������������������������� 51
Fundamentos do Direito
Civil
A disciplina contempla os elementos que com-
põem o Direito Civil, relacionando-o com as ne-
cessidades humanas dentro da sociedade. Por
meio deste estudo, será possível compreender
a introdução, os fundamentos, a evolução do
direito civil, bem como a verificação de casos
práticos. Além disso, será possível:
• Compreender a Lei de Introdução às Normas
do Direito Civil, a teoria geral do direito;

• Analisar a relação jurídica;

• Verificar os direitos fundamentais, os princí-


pios do direito civil aplicáveis às relações jurídi- 3

cas e o princípio da dignidade da pessoa humana.


Lei de Introdução às
Normas do Direito
Brasileiro

Figura 1: Legenda: Figura 1. Representação alegórica da


Justiça. Créditos: Freepik.

A Lei de Introdução às Normas do Direito Bra-


sileiro (LINDB) tem por definição o conjunto de
normas que regulam a vigência, o vigor, a obri-
gatoriedade, a revogação, a integração, a inter-
pretação e o direito transitório das leis em geral.

Nesse sentido, a jurista Maria Helena Diniz ex-


plica que:
Estende-se muito além do Código Civil, por
abranger princípios determinativos da apli-
cabilidade das normas, questões de herme-
nêutica jurídica relativas ao direito privado
e ao direito público e por conter norma de
direito internacional privado, arrematando
tratar-se de uma “lei de introdução às leis”.
(DINIZ, 2013, p. 3)

Os artigos 1º a 6º da LINDB abordam a introdu-


ção ao direito, propriamente dito, enquanto os
artigos 7º a 19º tratam do direito internacional
privado e dos atos civis praticados no estran-
geiro pelas autoridades consulares brasileiras
(AZEVEDO, 2014, e-book - item 6).
5

PODCAST 1 
Objetivo e finalidade da
teoria geral do direito
civil:Direito Positivo,
Direito Civil e Relação
Jurídica

Figura 2: Comparativo de épocas. | Créditos: Freepik.

Direito Positivo
O conceito de direito é necessário para todo e
qualquer conhecimento jurídico.
O direito positivo é estabelecido pelo poder po-
lítico como conjunto de normas que regulam a
vida social em uma determinada época.

Com essa afirmação, você pode notar que o


direito não é somente norma, mas uma questão
de método, é assim que o consideramos, posto
que, no dia a dia do civilista, é importante inter-
pretar as normas de direito civil vigentes, muito
embora deva estudá-las em atenção à realidade
social e ao valor, que regula a ação humana para
uma determinada realidade. Assim sendo, os
elementos do direito são: fato, valor e norma
que coexistem em uma unidade concreta (DINIZ,
2011, p. 21).
7
Dessa forma, o direito pode ser definido por or-
denação das relações sociais, que são baseadas
em fatos e valores.

Posto isso, veja a seguir a distinção entre direito


objetivo e subjetivo:
Direito objetivo Direito subjetivo
É regido pelo comporta- É a autorização dada por
mento humano, por meio meio de norma jurídica
das normas jurídicas, de para fazer ou não fazer
maneira obrigatória. No algo. É também a auto-
caso de descumprimen- rização para exigir, dos
to, haverá aplicação de órgãos competentes, do
sanção. Em síntese, o poder público, prejuízo
direito objetivo refere-se decorrente de violação
ao ordenamento jurídico de norma, o seu cumpri-
vigente (FARIAS, 2013, p. mento ou a reparação do
33). mal sofrido (DINIZ, 2011.
p. 21 e 22). Em suma,
o direito subjetivo diz
respeito ao poder que o
titular tem de fazer valer
seus direitos individuais
(FARIAS, 2013. p. 33).

SAIBA MAIS 8

Quer saber mais sobre direito subjetivo? Leia


o artigo a seguir de Olindo Herculano de Me-
nezes, que trata da existência, relatividade
e negação.

Disponível em: https://bdjur.stj.jus.br/jspui/


bitstream/2011/60797/direito_subjetivo_
existencia_relatividade.pdf>. Acesso em: 12
nov. 2018.

Fonte: MENEZES, Olindo Herculano de. Direito


subjetivo: existência, relatividade e negação.
Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª
Região, Brasília, v. 16, n. 7, p. 37-45, jul. 2004.
REFLITA
Vamos pensar em exemplos de direitos ob-
jetivo e subjetivo?

Direito Objetivo: É a norma organizacional.


Exemplo: Código Civil.

Direito Subjetivo: São os poderes de agir, as


possibilidades que a norma garante ao cida-
dão. Exemplo: Quando alguém tem direito à
indenização por danos morais. Outros exem-
plos de direito subjetivo dados por Diniz (DINIZ,
2011. p. 21 e 22) são: a permissão de casar e
constituir família; adotar pessoa como filho;
de ter o domicílio inviolável, de alugar uma
casa, de exigir pagamento do que é devido,
de vender os seus pertences, entre outros. 9

FIQUE ATENTO
O direito objetivo não pode existir sem o di-
reito subjetivo, ou seja, o direito objetivo exis-
te em razão do direito subjetivo para revelar
a permissão de praticar atos. São aspectos
inseparáveis. O direito subjetivo resulta em
permissões dadas pelo direito objetivo que
pode ser privado ou público (DINIZ, 2011. p.
21 e 2). Portanto, o direito objetivo nos permite
praticar algo porque temos o direito subjetivo
de fazê-lo (FARIAS, 2013. p. 32).
Após compreender a diferença entre direito ob-
jetivo e subjetivo, é importante entender no que
consistem os direitos público e privado.

O direito público seria aquele que regula as re-


lações em que o Estado é parte, ou seja, rege a
organização e atividade do Estado considerado
em si mesmo (direito constitucional), em relação
com outro Estado (direito internacional), e em
suas relações com particulares, quando proce-
de em razão de seu poder soberano e atua na
tutela do bem coletivo (direitos administrativo e
tributário) (DINIZ, 2011, p. 21 e 22).

Assevera ainda a autora que:


10
O direito privado é o que disciplina as relações
entre particulares, nas quais predomina, de
modo imediato, o interesse de ordem priva-
da. [...] O direito privado abrange o direito ci-
vil, que regulamenta os direitos e deveres de
todas as pessoas, enquanto tais, contendo
normas sobre o estado, capacidade e as rela-
ções atinentes à família, às coisas, às obriga-
ções e sucessões [...]. (DINIZ, 2011, p. 21 e 22)

Por derradeiro, é possível concluir que os direi-


tos público e privado se intercomunicam com
bastante frequência.
Figura 3: A equidade como referência em Direito civil.
Figura 3. Créditos: Freepik.

Direito Civil
11

PODCAST 2 

O Código Civil vigente é composto por 2.046


artigos e está dividido basicamente em três par-
tes, são elas:
1. Parte Geral

2. Parte Especial

3. Parte Complementar

Vamos ver a seguir cada uma delas.


A Parte Geral do Código Civil expõe os elementos
subjetivos, estabelecendo normas referentes às
pessoas, aos bens, aos fatos jurídicos, atos e
negócios jurídicos, desenvolvendo a teoria das
nulidades, bem como os princípios regulatórios
da prescrição e da decadência. É na Parte Ge-
ral que podemos localizar normas aplicáveis a
qualquer relação jurídica (DINIZ, 2011. p. 22).

Para relembrar, veja abaixo as características


da prescrição e da decadência.

Prescrição Decadência
Extingue a pretensão. Extingue o direito.

Prazos somente estabele- Prazos estabelecidos


cidos pela lei – artigo 205 pela lei ou pretensão das
e 206 do Código Civil. partes. 12

Pode ser alegada a Deve ser reconhecida de


qualquer momento pelas ofício pelo juiz.
partes.
A decadência legal não
Deve ser declarada pelo pode ser renunciada, já a
juiz de ofício. decadência convencional
pode.
O devedor pode renunciar
a prescrição, mas somen- Não corre contra os abso-
te após a consumação do lutamente incapazes.
prazo.
Não pode ser suspensa,
Não corre contra determi- nem interrompida, em
nadas pessoas. regra.

Sofre com causas de


impedimento, suspensão
e interrupção.
É na Parte Geral que estão localizados conceitos,
categorias e princípios que produzem reflexos
em todo ordenamento jurídico e cuja fixação é
condição para aplicação da parte especial (DINIZ,
2011. p. 22).

Dessa forma, a relação jurídica pode se dar por


três formas: sujeito, objeto e relação de interesse
sobre o objeto, que é o nexo da relação entre eles
tem funções de dar certeza e estabilidade aos
seus preceitos, tornando possível a aplicação
da Parte Especial (DINIZ, 2011. p. 22).

Caso queira aprofundar o seu conhecimento


sobre a Parte Geral do Novo Código Civil, leia o
artigo de José Carlos Moreira Alves, Parte geral
do novo Código Civil. Disponível em: <http://bdjur.
13
stj.jus.br/dspace/handle/2011/54256>. Acesso
em: 12 nov. 2018.

Fonte: ALVES, José Carlos Moreira. Parte geral


do novo Código Civil. Revista da EMERJ, Rio de
Janeiro, p. 45-66, fev-jun. 2002. Edição especial,
parte 1.

A estrutura da Parte Geral do Código Civil é


composta:
• Das Pessoas

• Dos Bens

• Dos Fatos jurídicos


A Parte Especial contém normas referentes ao
vínculo entre o objeto e o sujeito.

As normas que compõem a Parte Especial são:

a) Relativas aos direitos das obriga-


ções, tem como essência constituir
relações obrigacionais, disciplinan-
do os contratos, e as obrigações
decorrentes de declaração unilateral
da vontade e dos atos ilícitos.

b) Relativas ao direito da empresa,


regendo sobre o empresário, a so-
ciedade, os estabelecimentos e os
institutos complementares.

c) Relativas ao direito da coisa, re- 14


ferente à posse, à propriedade, aos
diretos reais sobre coisas alheias,
de gozo, de garantia e de
aquisição.

d) Relativas ao direito de família,


normas relacionadas ao casamento,
à união estável, às relações entre os
cônjuges e conviventes, às de pa-
rentesco e à proteção de menores
incapazes.

e) Relativas ao direito das suces-


sões, normas referentes sobre a
transferência de bens decorrentes da herança
e sobre o inventário e partilha.

A estrutura da Parte Especial do Código Civil


tem a seguinte composição:
• Direito das Obrigações:

ƒƒ Direito de empresa.

ƒƒ Direito das coisas.

ƒƒ Direito de família.

• Direito das sucessões.

Por fim, o Código Civil apresenta um livro com-


plementar disposto do artigo 2.028 ao 2.046,
que encerra as disposições finais e transitórias
(DINIZ, 2011, p. 22). 15

Isto posto, resta evidente que o direito civil


também se destina a reger relações familiares,
obrigacionais, patrimoniais que ocorrem entre
indivíduos, membros da sociedade (DINIZ, 2011.
p. 24).
Figura 4: Figura 4. Relação Jurídica. Créditos: Freepik.

Relação Jurídica
Consiste num vínculo entre pessoas, no qual uma 16
pode pretender um bem a que a outra é obrigada.

A modificação do vínculo de fato em jurídico


acarreta três efeitos. Veja:
1. Ocorre quando houver uma relação entre o
sujeito ativo, titular do direito subjetivo, de ter ou
de fazer o que a norma jurídica não proíbe, e o
sujeito passivo, que é sujeito de dever jurídico,
é o que deve respeitar o sujeito ativo. Referido
vínculo será de sujeição relativa ou específica
quando o sujeito passivo tiver obrigação de sa-
tisfazer qualquer interesse do titular do direito. É
possível exemplificar essa situação ao tratar do
direito de crédito. Note que, nesse caso, o deve-
dor deverá pagar a sua dívida ao credor (DINIZ,
2011. p. 25). Além disso, a sujeição poderá ser
genérica ou absoluta, quando consistir apenas
no dever de respeitar a posição jurídica do titular
(DINIZ, 2011. p. 25).

2. Resulta na prestação devida pelo sujeito


passivo, quando existir permissão jurídica para
exigir uma obrigação de dar, fazer ou não fazer
(objeto imediato), e sobre um objeto mediato,
que é bem móvel, imóvel ou semovente1. Note
que aqui recai o direito devido à permissão que
lhe é dada pela norma.

3. É necessário um fato propulsor, que pode ser


um acontecimento que dependa ou não da von-
tade humana. A norma jurídica atribui a função
de criar, modificar ou extinguir direitos.
17

1 Semovente: direito a possuir animais em bando (como ovinos,


bovinos e suínos)
A aplicação dos
direitos fundamentais
como garantias
constitucionais nas
relações privadas

18

Figura 5: Figura 5. Direitos fundamentais definidos na


Constituição Federal.

REFLITA
Você sabe qual é a diferença entre direitos e
garantias fundamentais? Os direitos funda-
mentais são os bens protegidos pela Constitui-
ção Federal; por exemplo, a vida, a propriedade,
entre outros.
Os direitos fundamentais são os direitos defini-
dos na Constituição Federal que devem ser ga-
rantidos e protegidos pelo Estado. É importante
salientar que, além de garantias constitucionais,
são consideradas cláusulas pétreas.

Diante da constitucionalização do direito civil


com o direito privado, surgiu o reconhecimento
da aplicação dos direitos fundamentais nas re-
lações privadas.

Nesse sentido, não seria viável sequer imaginar


que, nas relações privadas, as partes possam
atentar os direitos fundamentais (FARIAS, 2013.
p. 73).

Diante disso, temos que, atualmente, os direitos


fundamentais não são oponíveis apenas aos po- 19
deres públicos, fato este que autoriza o particular
a extrair da Constituição Federal uma garantia o
direito fundamental (FARIAS, 2013. p. 73).

Nessa linha de raciocínio, você pode notar que,


em qualquer relação jurídica entre particulares,
os direitos fundamentais dos sujeitos envolvidos
devem ser respeitados (FARIAS, 2013. p. 73).
Note que o respeito às garantias fundamentais
é condição de validade.
SAIBA MAIS
Para aprofundar o seu conhecimento sobre
direitos fundamentais nas relações privadas,
disponibilizamos o artigo a seguir, de Vivien
Félix Silva, que trata da colisão entre direitos
fundamentais nas relações privadas, trazendo
críticas à concretização destes direitos pelo
Poder Judiciário. Disponível em: < http://bdjur.
stj.jus.br/jspui/handle/2011/102612>. Acesso
em: 12 nov. 2018.

Fonte: SILVA, Vivien Félix. Colisão entre direitos


fundamentais nas relações privadas: críticas
à concretização destes direitos pelo Poder
Judiciário. Revista da EJUSE, Aracaju, n. 25,
p. 327-359, 2016. 20

REFLITA
Ainda nessa linha de raciocínio, você pode
analisar o exemplo trazido pelo jurista Nelson
Rosenvald, que indica a exclusão da pessoa
jurídica de um associado que pratica condutas
prejudiciais à associação como um todo, ou
mesmo a aplicação de multa ao condômino
que incomoda a paz coletiva do condomínio
(FARIAS, 2013. p. 73).

De acordo com esse mesmo entendimento,


o Supremo Tribunal Federal já teve a oportu-
nidade de se posicionar quanto à aplicação
dos direitos fundamentais a relações privadas,
quando do julgado do RE 201.819/RJ, relator
Ministro Gilmar Mendes. Note que no caso
comentado a seguir, tratava-se do direito do
associado de uma associação privada de re-
clamar o respeito do contraditório e à ampla
defesa para evitar a exclusão da pessoa jurí-
dica. Observe a ementa.

EMENTA: SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRA-


TIVOS. UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES.
EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM GARANTIA DA AM-
PLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. EFICÁCIA
DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES
PRIVADAS.
21

I – EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS


NAS RELAÇÕES PRIVADAS. As violações a di-
reitos fundamentais não ocorrem somente no
âmbito das relações entre o cidadão e o Estado,
mas igualmente nas relações travadas entre
pessoas físicas e jurídicas de direito privado.
Assim, os direitos fundamentais assegurados
pela Constituição vinculam diretamente não
apenas os poderes públicos, estando direciona-
dos também à proteção dos poderes privados.

II – OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS COMO


LIMITES À AUTONOMIA PRIVADA DAS ASSO-
CIAÇÕES. A ordem jurídico-constitucional bra-
sileira não conferiu a qualquer associação civil
a possibilidade de agir à revelia dos princípios
inscritos nas leis e, em especial, dos postulados
que têm por fundamento direto o próprio tex-
to da Constituição da República, notadamente
em tema de proteção às liberdades e garantias
fundamentais. O espaço de autonomia privada
garantido pela Constituição às associações não
está imune à incidência dos princípios constitu-
cionais que asseguram o respeito aos direitos
fundamentais de seus associados. A autonomia
privada, que encontra claras limitações de ordem
jurídica, não pode ser exercida em detrimento
ou com desrespeito aos direitos e garantias de
terceiros, especialmente aqueles positivados em
sede constitucional, pois a autonomia da vonta- 22
de não confere aos particulares, no domínio de
sua incidência e atuação, o poder de transgredir
ou de ignorar as restrições postas e definidas
pela própria Constituição, cuja eficácia e força
normativa também se impõem, aos particulares,
no âmbito de suas relações privadas, em tema
de liberdades fundamentais.

SAIBA MAIS
Para ter acesso à decisão na íntegra, acesse a
página do Supremo Tribunal Federal. Disponí-
vel em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/
paginador.jsp?docTP=AC&docID=388784>.
Acesso em: 12 nov. 2018.
Antes mesmo desse precedente, já era possí-
vel observar o posicionamento da ilustre corte
quando do julgamento da RE 158.215/RS, Ac. 2ª
turma, relator Ministro Marco Aurélio.

COOPERATIVA – EXCLUSÃO DE ASSOCIADO


– CARÁTER PUNITIVO – DEVIDO PROCESSO
LEGAL. Na hipótese de exclusão de associado
decorrente de conduta contrária aos estatutos,
impõe-se a observância ao devido processo
legal, viabilizado o exercício amplo da defesa.
Simples desafio do associado à assembleia
geral, no que toca à exclusão, não é de molde a
atrair adoção de processo sumário. Observância
obrigatória do próprio estatuto da cooperativa.

23

SAIBA MAIS
Veja a decisão na íntegra proferida pelo Supre-
mo Tribunal Federal. Disponível em: < http://
www.stf.jus.br/arquivo/informativo/docu-
mento/informativo405.htm>. Acesso em: 12
nov. 2018.

Nesse sentido, você consegue observar que a


Lei Fundamental vincula as relações privadas às
garantias fundamentais? Note que tais garantias
nada mais são do que elementos de proteção
do exercício da cidadania.
Ainda em se tratado de exemplos, é possível ve-
rificar a imposição de multa ao condômino com
postura antissocial que, porventura, incomode
seus vizinhos, perturbando a paz. Tal autorização
é permitida pelo artigo 1.336, parágrafo segundo,
do Código Civil, e deve ser precedida do devido
processo legal (FARIAS, 2013. p. 75).

Atualmente, é notório que a autonomia privada


não pode ferir a violação das garantias funda-
mentais que materializam a dignidade humana.
Veja que não é possível tolerar que uma parte
venha, por meio de negócios e contratos, aten-
tar contra as garantias da outra (FARIAS, 2013.
p. 73).

SAIBA MAIS 24

Para analisar a eficácia de direitos fundamen-


tais nas relações privadas, leia o texto de Si-
mielle Barros dos Santos, A eficácia de direitos
fundamentais nas relações privadas: critérios
objetivos para uma incidência imediata. Dis-
ponível em: <https://bdjur.stj.jus.br/jspui/han-
dle/2011/41462>. Acesso em: 12 nov. 2018.

Fonte: FAUTH, Juliana de Andrade. A eficácia


dos direitos fundamentais nas relações traba-
lhistas: restrições e critérios. Âmbito Jurídico,
Rio Grande, XVIII, n. 143, dez 2015.
Por outro lado, é notório que os direitos funda-
mentais devem ser aplicados não apenas nas
relações privadas, mas, necessariamente, em
todas as relações jurídicas. Nesse sentido, é
possível a aplicação do princípio da supremacia
do interesse público sobre o interesse privado,
quando ocorrer o afastamento dos direitos fun-
damentais (FARIAS, 2013. p. 76).

Note que cai por terra a pretensão do Poder


Público de assegurar a possibilidade em negar
efetividade a direitos individuais com a alegação
de falta de verbas públicas. Perceba que o cida-
dão participa da formação da vontade coletiva,
que possui diversos direitos invioláveis, o cidadão
não é submisso ao Estado (FARIAS, 2013. p. 76).

Assim sendo, temos que não é sensato consentir 25


que o interesse do Estado resulte em sacrifícios
de garantias e direitos fundamentais, impondo-
-se uma adaptação dos limites da supremacia
do interesse público sobre o privado. Isso ocorre
porque as garantias e os diretos fundamentais
estão vinculados não apenas às relações priva-
das, mas até mesmo às relações com o Poder
Público, sob punição de violação à proporciona-
lidade (FARIAS, 2013. p. 76).

REFLITA
Agora que você estudou sobre os di-
reitos fundamentais, que tal analisar
um exercício sobre o tema? Vamos lá?
Com relação aos direitos e garantias funda-
mentais previstos na Constituição Federal de
1988 (CF), julgue os itens seguintes.

O rol dos direitos e garantias fundamentais


previstos na CF não é integral, podendo ha-
ver outros direitos e garantias fundamentais
não previstos expressamente no texto cons-
titucional.

Certo ou Errado?

A resposta tem por base o artigo 5º da Cons-


tituição Federal.

§ 2º Os direitos e garantias expressos nesta


Constituição não excluem outros decorrentes
do regime e dos princípios por ela adotados,
ou dos tratados internacionais em que a Re- 26
pública Federativa do Brasil seja parte.

§ 3º Os tratados e convenções internacionais


sobre direitos humanos que forem aprovados,
em cada Casa do Congresso Nacional, em
dois turnos, por três quintos dos votos dos
respectivos membros, serão equivalentes às
emendas constitucionais.

Portanto, a resposta correta é certo.

Adaptado de prova CESPE, MCT, 2012.


Os Princípios do Direito
Civil e suas tendências
contemporâneas

27
Figura 6: Princípios do Direito civil. Figura 6. Créditos:
Freepik.

Os princípios do Direito Civil são relevantes para


o ordenamento jurídico brasileiro, pois marcam
todo sistema jurídico (FARIAS, 2013. p. 90); são
considerados normas jurídicas, para o direito.

PODCAST 3 
REFLITA
Você sabe o que diferencia os princípios das
demais normas jurídicas? A resposta é sim-
ples: a diferença está no conteúdo mais inde-
terminado e a superioridade hierárquica sobre
aquelas (LÔBO, 2017. p. 70).

Observe que a incidência da norma jurídica ocor-


re quando a hipótese normativa se realiza no
mundo de fatos ou da vida (NADER, 2016. p. 94).

Nesse sentido, temos como exemplo o artigo 421,


previsto no Código Civil, que prevê a aplicação do
princípio jurídico da função social, que incidirá
em todas as oportunidades que um contrato é
celebrado e se executa, não podendo a autono- 28
mia negocial contrariá-lo; além disso, há direitos
e deveres jurídicos necessários, decorrentes da
incidência do princípio da função social, inde-
pendentemente da previsão das partes (NADER,
2016. p. 94).

É importante frisar que, nos casos em que ocorra


colisão de princípios, para que um prevaleça, é
necessário verificar as circunstâncias do caso
concreto. O caso em si precisa ser ponderado,
porém, o aplicador não deve substituir o juízo
jurídico por suas convicções de moralidade, de
política ou de ideologia.

Nesse sentido, o jurista Paulo Lobo, esclare-


ce que:
Situação recorrente da necessidade de
ponderação das circunstâncias é a coli-
são entre direito à informação e direito à
intimidade e à honra. Nas ocasiões em
que tem sido provocado a decidir, o STF
tem conferido maior peso à informação,
ainda que a intimidade e a honra fiquem
comprometidas. Texto jornalístico repro-
duziu trecho de afirmação gravada que
acusava presidente de tribunal trabalhista
de mau uso de verbas públicas, nepotismo
e tráfico de influência. A decisão recorrida
condenou o órgão de imprensa em danos
morais, com fundamento na inviolabilidade
da honra, da intimidade e da imagem (art.
5º, X, da, CF). Todavia, o STF (RE 208.685-1)
reformou a decisão por entender que, no 29

caso, a notícia reproduziu denúncia en-


caminhada ao TST, e que “a colisão será
solucionada levando-se em conta o peso
ou a importância relativa de cada um. A
solução, portanto, não pode deixar de lado
os conhecidos princípios da razoabilidade
e da ponderação dos bens envolvidos. Na
espécie, o dano moral pretendido pelo re-
corrido somente se justificaria se positiva-
do o abuso do direito de informar” (LÔBO,
2017, p. 72, grifo nosso).

Os princípios jurídicos permitem adequação do


direito ao progresso das demandas da sociedade
e valores da sociedade e, desse modo, o mesmo
princípio, observando-se as decisões, prolatadas
em cada momento histórico, vai tendo seu con-
teúdo aperfeiçoado, em constante processo de
transformação (LÔBO, 2017. p. 72).

Lembre-se de que a estabilidade jurídica não sai


comprometida, pois o processo de adaptação
afasta a obsolescência das demais normas ju-
rídicas vigentes, por conta da evolução da so-
ciedade e das consequentes novas exigências
sociais (LÔBO, 2017. p. 73).

Por fim, é importante observar que a compre-


ensão constitucional relacionada ao Direito Civil
impõe que todos os princípios existentes estejam
em consonância com a legalidade constitucio-
30
nal. Sendo assim, os princípios de Direito Civil
devem, obrigatoriamente, estar em combinação
permanente com os princípios constitucionais,
o que aproximara os valores humanistas e com
maior chance de solução efetiva dos conflitos
privados (LÔBO, 2017. p. 72).

A) As funções dos princípios


gerais de Direito
Existem duas funções aplicáveis aos princípios
gerais de Direito.

A primeira delas pode ser encontrada ao ela-


borar os textos legislativos. Nas palavras do
jurista Paulo Nader: “Quando se regulamenta
um setor da realidade social, o legislador sele-
ciona alguns princípios a partir dos quais imputa
consequências às inúmeras hipóteses contem-
pladas” (NADER, 2016. p. 94).

Observe que, nesse caso, o legislador aplicará,


quando da criação da atividade codificadora,
os princípios que embasarão a formação das
normas.

A segunda função tem natureza de integração,


competindo aos magistrados a sua articulação
(NADER, 2016. p. 94).

Tal função na prática tem como pressuposto “a


omissão da lei, a inaplicação do método analógi-
co, inexistência de norma costumeira” (NADER, 31
2016. p. 94).

Assim sendo, note que os princípios gerais de


Direito são estimuladores que auxiliam no ra-
ciocínio jurídico.

Para Paulo Nader:

Ao buscar a solução para um problema


jurídico concreto o profissional se guia
por princípios que se acham cristalizados
na cultura jurídica e assentes na Ciência
Jurídica, no Direito Comparado, no Direito
Natural, na experiência em geral (NADER,
2016, p. 94).
B) Princípios norteadores
do Direito Civil aplicáveis às
relações jurídicas
Os princípios norteadores do Direito Civil têm
grande relevância, pois, além de marcar todo
ordenamento jurídico, fazem parte de sua cons-
trução e organização (FARIAS, 2013. p. 92).

Observe que os princípios são enunciados com


força normativa e, assim sendo, produzem efeitos
concretos com força constitucional, voltados à
valorização da pessoa humana e à sua dignidade
(FARIAS, 2013. p. 92).

É possível apresentar, como princípios basi-


lares do Direito Civil, de acordo com a visão
constitucional: 32

a) A personalidade: os seres huma-


nos são capazes de titularizarem
direitos e obrigações.

b) A liberdade de estipulação ne-


gocial ou a autonomia privada re-
grada: é possível escolher o conte-
údo dos atos jurídicos, desde que
respeitada a função social do con-
trato e a boa-fé objetiva.

c) A autonomia privada limitada:


o poder de se abster ou praticar atos
de acordo com o interesse do par-
ticular, sem prejudicar terceiros, a ética negocial
e a coletividade.

REFLITA
Diferencie a autonomia privada da autono-
mia da vontade.

A autonomia privada resulta na vontade


humana adaptada às necessidades e expec-
tativas da sociedade em geral. Desse modo,
é a garantia que as partes possuem de se
manifestarem em determinadas relações
jurídicas.

A autonomia da vontade é a vontade huma-


na elevada à condição de base do liberalis- 33

mo. As partes exercem o poder de estipular,


de maneira livre, o acordo de

vontade, por exemplo.

d) A propriedade individual, cum-


prida a função: possibilidade de
construir patrimônios.

e) A legitimidade da herança e di-


reito de testar: poder sobre os bens.

f) A intangibilidade e pluralidade
familiar: são os diferentes tipos de
constituição familiar. Deve haver o
equilíbrio entre a dignidade da pessoa humana
e a proteção da família.

g) A solidariedade social: concilia-


ção entre os interesses particulares
e a busca coletiva.

h) Boa-fé objetiva: apresenta em


duas modalidades, são elas: 1. ob-
jetiva e 2. subjetiva.

1) A boa-fé objetiva é a norma que regulamenta


a conduta das pessoas nas relações jurídicas.
Tem relação com comportamentos estabele-
cidos na confiança que as pessoas depositam
umas às outras. Está relacionada à conduta leal,
correta, honesta e ao comportamento, diante
das relações sociais. Também à segurança e à 34
confiança (LÔBO, 2017. p. 95). É possível verifi-
car o princípio da boa-fé objetiva no artigo 422
do Código Civil, assim descrito: “Art. 422. Os
contratantes são obrigados a guardar, assim na
conclusão do contrato, como em sua execução,
os princípios de probidade e boa-fé”.

É tida pela Lei Civil como princípio fundamental


das relações jurídicas privadas, prescrito no arti-
go 113 e 422, tido como regra estabelecida aos
negócios jurídicos e das obrigações, possuindo
regra interpretativa (FARIAS, 2013. p. 93).
SAIBA MAIS
Para saber mais sobre o princípio da boa-fé,
leia o artigo de Nelson Rosenvald, o princípio
da boa-fé. Disponível em: <http://bdjur.stj.jus.
br/dspace/handle/2011/21922>. Acesso em:
12 nov. 2018.

Fonte: ROSENVALD, Nelson. O princípio da


boa-fé. Revista do Tribunal Regional Federal
da 1ª Região, Brasília, v. 15, n. 10, p. 26-34,
out. 2003.

Para analisar melhor a aplicação do princípio,


verifique, a seguir, a decisão do Superior Tribunal
de Justiça, quando do julgamento do Recurso
Especial, nº 758.518-PR, que teve como Relator 35
o Ministro Vasco Della Giustina.

O processo teve como objeto a rescisão con-


tratual de compra e venda de imóvel, cumulado
com pedido de indenização pela ocupação e
reintegração de posse. A ação foi proposta pela
promitente-vendedora em face do promissário-
-comprador inadimplente, que estava inadim-
plente com as parcelas vencidas desde 1994.

EMENTA

DIREITO CIVIL. CONTRATOS. BOA-FÉ OBJETIVA.


STANDARD ÉTICO-JURÍDICO. OBSERVÂNCIA
PELAS PARTES CONTRATANTES. DEVERES
ANEXOS. DUTY TO MITIGATE THE LOSS. DE-
VER DE MITIGAR O PRÓPRIO PREJUÍZO. INÉR-
CIA DO CREDOR. AGRAVAMENTO DO DANO.
INADIMPLEMENTO CONTRATUAL. RECURSO
IMPROVIDO.

1. Boa-fé objetiva. Standard ético-jurídico. Ob-


servância pelos contratantes em todas as fases.
Condutas pautadas pela probidade, cooperação
e lealdade.

2. Relações obrigacionais. Atuação das artes.


Preservação dos direitos dos contratantes na
consecução dos fins. Impossibilidade de vio-
lação aos preceitos éticos insertos no ordena- 36
mento jurídico.

3. Preceito decorrente da boa-fé objetiva. Duty


to mitigate the loss: o dever de mitigar o pró-
prio prejuízo. Os contratantes devem tomar as
medidas necessárias e possíveis para que o
dano não seja agravado. A parte a que a perda
aproveita não pode permanecer deliberadamente
inerte diante do dano. Agravamento do prejuízo,
em razão da inércia do credor. Infringência aos
deveres de cooperação e lealdade.
4. Lição da doutrinadora Véra Maria Jacob de
Fradera. Descuido com o dever de mitigar o
prejuízo sofrido. O fato de ter deixado o devedor
na posse do imóvel por quase 7 (sete) anos,
evidencia a ausência do zelo com o patrimônio
do credor, com o consequente agravamento
significativo das perdas, uma vez que a realiza-
ção mais célere dos atos de defesa possessória
diminuiu a extensão do dano.

5. Violação ao princípio da boa-fé objetiva. Ca-


racterização de inadimplemento contratual a
justificar a penalidade imposta pela Corte ori-
ginária, (exclusão de um ano de ressarcimento).

37
Recurso improvido.

Observe que, nesse caso, o princípio da boa-fé


objetiva foi aplicado no tocante ao dever do cre-
dor de mitigar seus próprios prejuízos ou também
denominado “duty to mitigate the loss”. No caso
em tela, o Superior Tribunal de Justiça entendeu
que a promitente-vendedora teria violado o prin-
cípio em tela, pois demorou para promover as
medidas cabíveis para ser reintegrada na posse
do imóvel (GAMBERA, 2018).

Restou decidido que os prejuízos sofridos pela


autora devem ser imputados a ela mesma, pois,
em razão da demora em agir, poderia ter compri-
midos seus prejuízos, se tivesse ajuizado o mais
rápido possível, logo após o inadimplemento do
promissário-comprador, devendo ser responsa-
bilizada por sua negligência, caracterizando seu
inadimplemento contratual (GAMBERA, 2018).

Desse modo, resta evidente a importância da


observância do princípio da boa-fé, diante da
jurisprudência e doutrina pátria.

FIQUE ATENTO
Quer saber mais sobre o julgado em questão?
Acesse o site a seguir e leia o interessante
artigo publicado: Disponível em: <http://www.
ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_ar-
tigos_leitura&artigo_id=18931&revista_cader- 38
no=7>. Acesso em: 12 nov. 2018.

Fonte: GAMBERA, Marcos Tadeu. O dever de


mitigar o próprio prejuízo: Análise do julgamen-
to do Recurso Especial n° 758.518/PR pelo
Superior Tribunal de Justiça. Âmbito Jurídico,
Rio Grande, XX, n. 160, maio 2017.

2. Por sua vez, a boa-fé subjetiva está relaciona-


da à ignorância de determinado sujeito quanto à
existência do direito do outro. Está relacionada
à regra de conduta em conformidade ao direito
(LÔBO, 2017. p. 95). Observe o exemplo: as cláu-
sulas contratuais abusivas e/ou leoninas previs-
tas em contratos ou em relações de consumo.
I. Princípio da Função Social: O exercí-
cio de qualquer direito disponível deve es-
tar em consonância com o interesse so-
cial. Note que, segundo esse princípio, o
interesse individual não pode prevalecer sobre
o interesse social (FARIAS, 2013. p. 93 e 94).
Para Nelson Rosenvald, “é a despatrimo-
nialização apontada pela doutrina mais
contemporânea” (FARIAS, 2013, p. 94).

Conforme ensinamento do Jurista Paulo Lobo:

A CF alude expressamente à função social


da propriedade, quando trata dos direitos
individuais (art. 5º, XXIII) e da atividade
econômica (art. 170, III), a qual se desen-
39
volve mediante contratos. Relativamente
aos bens imóveis, especifica o mínimo
que deve observar a propriedade urbana
para cumprir a função social (art. 182, §
2º) e a propriedade rural (art. 186). Essas
especificações não esgotam o universo
da função social nos vários âmbitos do
direito civil (LÔBO, 2017, p. 94).

TJ-DF – 20170510016642 DF 0001646-


68.2017.8.07.0005 (TJ-DF)

Data de publicação: 31/08/2018


EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO CIVIL. POS-
SE. REINTEGRAÇÃO. ESBULHO. REQUISITOS DA
AÇÃO POSSESSÓRIA. IMÓVEL NÃO REGULARI-
ZADO. MELHOR POSSE. FUNÇÃO SOCIAL DA
PROSPERIDADE. 1. O possuidor tem direito a ser
reintegrado em caso de esbulho, basta provar
a sua posse, o esbulho, a data do esbulho e a
perda da posse. 2. Considera-se possuidor todo
aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não,
de algum dos poderes inerentes à propriedade,
de usar, gozar e dispor da coisa. 3. “Tratando-se
(...) de imóvel situado em área não regulariza-
da, a proteção possessória deve ser concedida
àquele que possui a ‘melhor posse’, evidencia-
da, inclusive, a partir do implemento da função
social da propriedade.” (Acórdão n. 1072387,
20170310158413APC, Relator: Romulo de Araujo 40

Mendes, 1a Turma Cível, Data de Julgamento:


31/01/2018, Publicado no DJE: 07/02/2018. Pág.:
488-503). 4. Apelação desprovida.

SAIBA MAIS
Veja o acórdão na íntegra ao acessar a pá-
gina do Supremo Tribunal de Justiça. Dis-
ponível em: <https://stj.jusbrasil.com.br/
jurisprudencia/339743905/agravo-regimen-
tal-no-agravo-em-recurso-especial-agrg-no-
-aresp-786744-sp-2015-0232373-4/inteiro-
-teor-339743918?ref=juris-tabs>. Acesso em:
12 nov. 2018.
SAIBA MAIS
Caso queira aprofundar os seus estudos sobre
o princípio da função social, veja o artigo de
João Hora Neto, O princípio da função social
do contrato no Código civil de 2002. Disponí-
vel em: < http://bdjur.stj.jus.br/dspace/hand-
le/2011/22538>. Acesso em: 12 nov. 2018.

C) O Princípio da Dignidade da
Pessoa Humana como valor
fundamental do ordenamento
jurídico brasileiro
Prevê o artigo 1º da Constituição Federal:
41
A República Federativa do Brasil, formada
pela união indissolúvel dos Estados e Mu-
nicípios e do Distrito Federal, constitui-se
em Estado Democrático de Direito e tem
como fundamentos:

(...)

 III – a dignidade da pessoa humana (grifo


nosso).

A dignidade da pessoa humana é o pressuposto


essencial da ordem jurídica brasileira, compreen-
dendo a integridade física, intelectual e psíquica,
além de assegurar o livre desenvolvimento da
personalidade e garantir a sua autonomia (FA-
RIAS, 2013. p. 164).

Note que a dignidade da pessoa humana é con-


siderada como o centro de gravidade do qual se
localizam as normas jurídicas. O ordenamento
jurídico brasileiro tutela e reconhece o direito a
uma vida digna (FARIAS, 2013. p. 165).

PODCAST 4 

A dignidade da pessoa humana atrai a concreti-


zação dos direitos fundamentais, revelando-se
como valor supremo, valor este que a humaniza
e dimensiona (DA SILVA, 2018). É a chave de 42

interpretação material para demais normas ju-


rídicas existentes.

É o valor jurídico máximo do sistema, advindo


uma dupla face:
a) A primeira é a eficácia positiva: vincula as
normas infraconstitucionais, são imposições
de obrigações aos particulares e ao Estado para
afirmação da dignidade.

b) A segunda é a eficácia negativa: restringe


as pessoas e o Poder Público, ao exercício de
determinado direto (FARIAS, 2013. p. 165).
SAIBA MAIS
Veja o artigo de Simone de O. Fraga, sobre
o princípio da dignidade da pessoa humana,
construção do direito positivo constitucio-
nal brasileiro e uma conquista da socieda-
de. Disponível em: < http://bdjur.stj.jus.br/
dspace/handle/2011/22582>. Acesso em:
12 nov. 2018.

Fonte: FRAGA, Simone de O. O princípio da


dignidade da pessoa humana, construção do
direito positivo constitucional brasileiro e uma
conquista da sociedade. Revista da Esmese,
Aracaju, n. 4, p. 213-223, 2003.

O que são direitos fundamentais da pessoa 43


humana?

Os direitos fundamentais estão previstos no


artigo 5º da Constituição Federal e são conside-
rados o conjunto de prerrogativas que, em cada
momento histórico da sociedade, concretizam
a igualdade, a liberdade e a dignidade entre os
seres humanos.

SAIBA MAIS
Aprofunde o seu conhecimento sobre os direi-
tos fundamentais e o princípio da dignidade
da pessoa humana, analisando o artigo de
Valdirene Ribeiro de Souza Falcão, Os direi-
tos fundamentais e o princípio da dignidade
da pessoa humana. Disponível em: <http://
bdjur.stj.jus.br/dspace/handle/2011/74834>.
Acesso em: 12 nov. 2018.

Fonte: FALCÃO, Valdirene Ribeiro de Souza.


Os direitos fundamentais e o princípio da dig-
nidade da pessoa humana. Revista da Seção
Judiciária do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
v. 20, n. 38, p. 227-239, dez. 2013.

Veja que o ordenamento jurídico de proteção da


personalidade jurídica deve estar atento, obser-
vando o objeto constitucional de garantir uma
vida digna a todos, por meio das suas eficácias
positiva e negativa.
44
Quanto à promoção da valorização humana, o
Direito Civil possui um importante papel para
ajudar na construção de uma sociedade mais
justa (FARIAS, 2013. p. 169).

Atualmente, o princípio da dignidade da pessoa


humana é reconhecido por sua fundamentalida-
de, impondo aos civilistas uma nova aplicação
e interpretação de conceitos e normas jurídicas,
com objetivo de assegurar a vida humana de
maneira prioritária (FARIAS, 2013. p. 166).

Por sua vez, o ordenamento jurídico já vem


aplicando, de maneira concreta, o princípio da
dignidade humana em diversas áreas do direi-
to, por meio das decisões prolatadas. Observe
ilustrativamente o julgado do Superior Tribunal
de Justiça, prolatado recentemente:

ADMINISTRATIVO. DIREITO À SAÚDE.


FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO E
DE TRATAMENTO MÉDICO. MANIFESTA
NECESSIDADE. OBRIGAÇÃO SOLIDÁRIA
DE TODOS OS ENTES DO PODER PÚBLI-
CO. OFENSA AO ART. 535 DO CPC NÃO
DEMONSTRADA. DEFICIÊNCIA NA FUN-
DAMENTAÇÃO. SÚMULA 284/STF. FALTA
DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA
282/STF. REEXAME DO CONTEXTO
FÁTICO-PROBATÓRIO. SÚMULA 7/STJ.
1. Hipótese em que o Tribunal local con-
signou: “Como cediço, a saúde é direito
de todos e dever do Estado. Trata-se de 45
garantia inerente à saúde e à vida, as
quais estão intrinsecamente ligadas ao
princípio da dignidade da pessoa huma-
na, um dos fundamentos basilares de
nossa República. Com efeito, os artigos
196 e 198 de nossa Lei Maior asseguram
aos necessitados o fornecimento gra-
tuito de medicamentos/exames indis-
pensáveis ao tratamento de sua saúde,
de responsabilidade solidária da União,
dos Estados, Distrito Federal e Municí-
pios. (...) Acrescente-se que a existência
de alternativas terapêuticas não afas-
ta do ente público a responsabilidade
pelo fornecimento dos medicamentos
postulados, se essenciais ao tratamento
indicado.” (...) (STJ, Resp. 1655043/RJ, rel.
Herman Benjamin, grifo nosso).

SAIBA MAIS
Acesse o acórdão na íntegra. Disponí-
vel em: https://stj.jusbrasil.com.br/ju-
risprudencia/482811991/recurso-espe-
cial-resp-1655043-rj-2017-0029396-2/
inteiro-teor-482812001?ref=juris-tabs>. Aces-
so em: 12 nov. 2018.

Note que a respeitável decisão diz respeito ao


direito básico do ser humano, à saúde, e não
46
pode ser violado. Veja que as decisões proferidas
devem observar as garantias constitucionais
impostas ao Poder Público de modo a assegurar
o exercício dos direitos fundamentais e exercício
do direito à saúde dos cidadãos previstos na
Constituição Federal.

Da mesma forma surge, assim, um comporta-


mento novo dos juristas para alcançar a utilidade
social, pois o Direito Civil tem a função de auxiliar
na construção da sociedade para que ela se torne
mais justa, em especial por meio da dignidade
da pessoa humana (FARIAS, 2013. p. 169).

Observe a aplicação do Princípio da Dignidade


da Pessoa Humana, quando da decisão proferida
pelo Superior Tribunal de Justiça, no tocante ao
direito à vida:

PROCESSUAL CIVIL E CONSTITUCIONAL.


FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO GRA-
TUITO. DIREITO À VIDA. ACÓRDÃO QUE
TEM COMO FUNDAMENTO QUESTÃO
CONSTITUCIONAL. COMPETÊNCIA DO
STF. 1. Na hipótese dos autos, o Tribunal
de origem, ao decidir a vexata quaestio,
consignou (fl. 122/e-STJ): (...) É certo que
procedimentos administrativos são ne-
cessários a fim de racionalizar a desti-
nação de recursos públicos, todavia se a
padronização desatende aos princípios
constitucionais do direito à vida, à saúde,
à dignidade da pessoa humana e outros, 47
torna-se odiosa e não prevalece sobre a
Constituição Federal. Como bem asseve-
ra o Desembargador Carvalho Viana, na
Apelação n° 0002009-52.2010.8.26.0270,
não deve o médico, ao contrário do alega-
do pelo apelante, restringir-se à lista de
medicamentos padronizados. Deve tratar
o seu paciente com o maior zelo possível,
conforme determina o Código de Ética
de Medicina. Estabelece o art. 21, que
‘o alvo de toda a atenção do médico é a
saúde do ser humano, em benefício da
qual deverá agir com o máximo de zelo e
o melhor de sua capacidade profissional’.
(STJ, Resp. 1690578/SP, rel. Min. Herman
Benjamin, grifo nosso).

Note que a dignidade da pessoa humana resulta


numa série de valores civilizatórios e humaniza-
dores que se incorporam ao ordenamento jurídi-
co (FARIAS, 2013. p. 167). Por sua vez, o direito
à vida é inviolável, além de requisito existencial
para o exercício de todos os demais direitos (MO-
RAES, 2005. p. 30). Observe, por meio do julgado
mencionado, que o Estado deve assegurá-lo em
duplo alcance: a primeira é o direito de continuar
vivo e a segunda é quanto à subsistência, de se
ter uma vida digna (MORAES, 2005. p. 31).

Nesse sentido, observe que alguns parâmetros


48
são reconhecidos para se ter uma vida digna.
Os direitos sociais como a educação, a saú-
de e a habitação estão entre eles. Abaixo está
uma decisão prolatada pelo Superior Tribunal
de Justiça, relator Ministro José Delgado, que
expressamente prevê a questão habitacional.

A questão habitacional é um problema de âmbito


nacional e suas causas devem ser buscadas e
analisadas sob essa extensão, devendo ser assu-
mida pelos vários segmentos da sociedade, em
mútua colaboração na busca de soluções. Eis
que a habitação é elemento necessário da própria
dignidade da pessoa humana, encontrando-se
erigida em princípio fundamental de nossa Repú-
blica (art. 1º, III, da CF/88). (STJ, Resp. 21.342-2/
BA, rel. Min. José Delgado).

Observe que a aplicação do princípio da digni-


dade da pessoa humana só se torna possível a
partir das outras garantias básicas do cidadão,
tendo o Estado o dever de exercer a obrigação
assumida constitucionalmente, promovendo
diversas ações sociais, por meio de políticas
públicas para sua realização.

49
Considerações Finais
Podemos concluir que a dignidade da pessoa
humana resulta de uma série de valores humani-
zados que fazem parte do ordenamento jurídico,
com reflexos multidisciplinares (FARIAS, 2013.
p. 167).

50
Síntese

Fundamentos
do Direito Civil
Os fundamentos do Direito
Civil têm como base:
• A compreensão à Lei de
Introdução às Normas do
Direito Civil.

• Analisar a relação jurídica.

• Verificar os direitos funda-


mentais.

1. Lei de Introdução
às Normas do
Direito Brasileiro
A Lei de Introdução às
Normas do Direito Brasileiro
(LINDB) tem como função:

• Definir o conjunto de normas


que regulam a vigência, o vigor, a
obrigatoriedade, a revogação, a
integração, a interpretação e o
direito transitório das leis em
geral.

• Não é parte integrante do


Código Civil, ou seja, é
independente e autônoma.

2. Objetivo e finali-
dade da teoria geral
do direito civil
• Direito positivo: estabelecido
pelo poder político como
conjunto de normas que regulam
a vida social em uma
determinada época.

• Direito objetivo: regido pelo


comportamento humano, por
meio das normas jurídicas, de
maneira obrigatória.

• Direito subjetivo: autorização


dada por meio de norma jurídica
para fazer ou não fazer algo.

3. A aplicação dos
direitos fundamentais
como garantias consti-
tucionais nas relações
privadas

Direitos fundamentais são os


definidos na Constituição
Federal e que devem ser
garantidos e protegidos pelo
Estado.

4. Os Princípios do
Direito Civil e suas
tendências
contemporâneas

Os princípios do Direito Civil


são relevantes para o
ordenamento jurídico brasileiro,
pois marcam todo sistema
jurídico, sendo considerados
normas jurídicas, para o direito.
REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Fábio de Oliveira. Direito civil: intro-
dução e teoria geral – 4a. ed. rev., atual e ampl.
Rio de Janeiro: Forense, 2014 (e-book – item 6).

DA SILVA, Afonso José. A dignidade da pes-


soa humana como valor supremo da demo-
cracia. Disponível em: <file:///C:/Users/Carla/
Downloads/47169-94073-1-PB.pdf>. Acesso em:
30 out. 2018.

DINIZ, Maria Helena. Lei de Introdução ao Código


Civil brasileiro interpretada. São Paulo: Saraiva,
2013.

__________________. Manual de Direito Civil, São


Paulo: Saraiva, 2011.

FARIAS, Cristiano Chaves de; Rosenvald, Nel-


son. Curso de Direito Civil. Parte Geral e LINDB.
11a. ed. rev., ampl. e atual. Salvador: JusPO-
DIUM, 2013.

GAMBERA, Marcos Tadeu. O dever de mitigar o


próprio prejuízo: Análise do julgamento do Recur-
so Especial n° 758.518/PR pelo Superior Tribunal
de Justiça. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XX,
n. 160, maio 2017. Disponível em: <http://www.
ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_ar-
tigos_leitura&artigo_id=18931&revista_cader-
no=7>. Acesso em: 05 nov. 2018.

LÔBO, Paulo. Direito civil: parte geral. 6a. ed. São


Paulo: Saraiva, 2017.

MORAES, Alexandre de, Direito Constitucional.


17a. ed. São Paulo: Atlas, 2005.

NADER, Paulo Curso de direito civil, parte geral.


Vol. 1, 10a. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Fo-
rense, 2016.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: parte geral.


4a. ed. São Paulo: Atlas, 2004.