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Cerâmica

Cerâmica

Marcelo Silvio Lopes


© 2016 por Editora e Distribuidora Educacional S.A

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Lopes, Marcelo Silvio


L864c Cerâmica / Marcelo Silvio Lopes. – Londrina: Editora e
Distribuidora Educacional S.A., 2016.
200 p.

ISBN 978-85-8482-316-1

 1. Cerâmica - História. 2. Cerâmica (Tecnologia).


3. Argila. I. Título.

CDD 738

2016
Editora e Distribuidora Educacional S.A
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CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
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Sumário

Unidade 1 | A História da cerâmica 7

Seção 1 - Origens da cerâmica e sua manifestação nas diferentes culturas 11


1.1 | Origens da cerâmica 11
1.2 | A Cerâmica nas diferentes culturas 14
1.3 | A cerâmica na Grécia 16
1.4 | A cerâmica chinesa 23
1.5 | A cerâmica na História da Arte 25

Seção 2 - A cerâmica no Brasil, dos índios à contemporaneidade 35


2.1 | A cerâmica indígena 35
2.2 | A cerâmica popular 37
2.3 | Cerâmica na arte contemporânea brasileira 43

Unidade 2 | Origem da Argila 55

Seção 1 - A argila e suas características 59


1.1 | O que é a argila? 59
1.2 | Origem e formação da argila 60
1.3 | As rochas-mãe 60
1.4 | Os tipos de argila que encontramos na natureza 62
1.5 | Os tipos de massas cerâmicas 64
1.6 | Como coletar a argila na natureza 66
1.7 | As argilas e suas propriedades 67

Seção 2 - Os esmaltes cerâmicos 73


2.1 | A Origem dos esmaltes cerâmicos 73
2.2 | A composição dos esmaltes 76
2.3 | Os tipos de esmaltes 78
2.4 | Esmaltes crus e esmaltes fritas 85
2.5 | Trabalhando com os esmaltes 86
2.6 | As transformações do esmalte durante a queima 88
2.7 | A manipulação das argilas e dos esmaltes 89
2.8 | Os engobes 90

Unidade 3 | Cerâmica artística, popular e utilitária 101

Seção 1 - A cerâmica artística 105


1.1 | Diferenças entre arte e artesanato 105
1.2 | Cultura popular 107
1.3 | O que é arte? 109
1.4 | A cerâmica e o simbólico 113
1.5 | A cerâmica indígena brasileira – etnoarte 114
1.6 | A cerâmica artística no mundo 120
1.7 | A cerâmica artística no Brasil 127
1.8 | Cerâmica contemporânea brasileira 130

Seção 2 - Cerâmica popular ou figurativa e cerâmica utilitária 135


2.1 | O que é cultura? 135
2.2 | Como funciona a cultura? 136
2.3 | A cultura da cerâmica popular ou figurativa 137

Unidade 4 | Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 149

Seção 1 - Técnicas para Modelar Peças Cerâmicas 153


1.1 | O processo criativo na cerâmica 153
1.2 | O desenho como modo de construção do pensamento 156
1.3 | Dialogando com outras linguagens 157
1.4 | A utilização de outros materiais como estudo de processo 158
1.5 | Ferramentas 158
1.6 | Modelagem 161
1.7 | Pote de aperto 162
1.8 | Rolinho 163
1.9 | Placa 165
1.10 | Bloco 166
1.11 | Torno – só explicar como funciona. Inviável 168

Seção 2 - Técnicas para Decorar Peças Cerâmicas 173


2.1 | Técnicas de decoração 173

Seção 3 - Técnicas para Queimar Peças Cerâmicas 179


3.1 | Diferentes tipos e atmosferas dos fornos cerâmicos 179
3.2 | Controle da temperatura durante a queima 181
3.3 | Os tipos de fornos cerâmicos 183
3.4 | O forno cerâmico de buraco 184
3.5 | O forno cerâmico de serragem 185
3.6 | Fornos cerâmicos elétricos 187
Apresentação

Em um mundo cada vez mais virtualizado pelas novas tecnologias, computadores,


celulares e tablets, as pessoas passam grande parte do dia conectados virtualmente
a outras pessoas e ao mundo. Desta maneira, há a necessidade de trazer o discente
para o presente, para o mundo palpável.

Neste material, propomos o estudo da cerâmica e suas técnicas, além de um


aprofundamento no suporte enquanto linguagem artística e sua análise através das
obras de diferentes artistas nacionais e intenacionais.

A Unidade 1 compreende o estudo das origens da cerâmica, apresentando-a


inserida em diferentes culturas, suas relações utilitárias e estéticas com essas
culturas, da antiguidade à atualidade. Aborda a relação da produção cerâmica com
as artes visuais contemporâneas. Discute a cerâmica indígena brasileira, suas origens,
desdobramentos e estilos. É encerrada com a história da cerâmica popular brasileira
e seus principais representantes nas diversas regiões do país, além da análise da
cerâmica nacional e sua relação com a arte contemporânea brasileira.

A Unidade 2 compreende o estudo dos processos de transformação da rocha-


mãe em argila. Discute também as diferenças entre as argilas, seus elementos
químicos, suas propriedades e sua utilização; aborda os esmaltes cerâmicos, suas
origens, os elementos químicos que o compõem, suas propriedades e sua aplicação
nas peças cerâmicas, apresentando o processo de fusão do esmalte quando este
passa pelo processo da queima.

A Unidade 3 aborda conceitos sobre arte, sobre cerâmica artística e a diferenciação


entre esta cerâmica e a do artesanato. Compreende também estudos sobre cultura
popular relacionada à cerâmica e a importância do simbólico nas artes cerâmicas,
além procurar definir o que é Etnoarte, aprofundando os conhecimentos do discente
sobre a História da cerâmica no Brasil e no mundo. A unidade também aborda noções
sobre o que é cultura e como funciona a cultura, a cultura da cerâmica popular,
seus artistas e suas características, apresentando noções sobre as diferenças entre
cerâmica popular e figurativa.

A Unidade 4 compreende o estudo das técnicas para modelar a massa cerâmica,


os processos criativos para se trabalhar a argila, além das ferramentas utilizadas na
confecção das peças. Aborda várias técnicas de modelagem, além da finalização
da peça cerâmica e o modo correto de secagem. Ensina várias técnicas diferentes
para decorar as peças, aprofundando a discussão sobre materiais de decoração.
A unidade termina apresentando os três tipos de ambientes de queimas possíveis,
além dos vários tipos de fornos que podem ser utilizados para queimar as peças.

As unidades apresentadas abordam em sua totalidade aspectos históricos,


estéticos e técnicos sobre a cerâmica, procurando apresentar ao discente uma visão
total sobre o assunto.

Bons estudos.

Marcelo Silvio Lopes


Unidade 1

HISTÓRIA DA CERÂMICA

Marcelo Silvio Lopes

Objetivos de aprendizagem:

• Conhecer a história da cerâmica desde a pré-história até a


contemporaneidade.

• Identificar os diferentes estilos cerâmicos e seus aspectos geográficos e


culturais.

• Compreender a importância da cerâmica no contexto histórico e


artístico.

Seção 1 | Origens da cerâmica e sua manifestação nas


diferentes culturas
Na Seção 1, você vai conhecer a origem da palavra cerâmica e entender a
necessidade da sua criação no Período Neolítico. O texto também descreve
a cerâmica nas diferentes culturas, sua utilização, sua estética e seus códigos
culturais. Você também vai estudar nesta seção a relação da cerâmica
com a História da Arte, passando por vários períodos até chegarmos à
contemporaneidade.

Seção 2 | A cerâmica no Brasil, dos índios à


contemporaneidade
Na Seção 2 conheceremos a cerâmica e sua relação com nosso país, sua
origem, suas finalidades, sua relação com nossa cultura popular e com nossa
arte. Estudaremos as cerâmicas indígenas e seus estilos, a cerâmica popular que
se apresenta em diversas regiões do Brasil, além da cerâmica e sua relação com
a arte contemporânea brasileira.
U1

8 História da Cerâmica
U1

Introdução à unidade

Desde tempos imemoriais, quando o homem surge no planeta, ele já aparece


tentando dominar os elementos: o fogo, o ar, a água e a terra. Nosso ancestral, o
homem primitivo, rupestre, além de procurar se manter vivo, protegido dos animais
e das intempéries, procurou também se comunicar consigo mesmo e com o outro,
numa tentativa de se entender e de compreender o próximo. Esta comunicação está
aquém e além da comunicação verbal, é a comunicação que nasce das cores, das
formas, das proporções, das superfícies e texturas. É a comunicação que nasce das
artes e que aproxima as pessoas em pensamentos e em sentimentos.

Mas como podemos nos comunicar com outro ser humano sem uma linguagem
verbal? Para que possamos entender e utilizar a linguagem das artes, necessitamos
conhecer seus elementos, sua história, seus códigos. Desta maneira, o homem,
quando passa a dominar esta comunicação não verbal chamada Arte, passa a
compreender a multiculturalidade do mundo e começa a derrubar as fronteiras que
separam as diferenças culturais, através das formas sensíveis e subjetivas.

Nesta primeira unidade, você vai conhecer a história da cerâmica, como ela surgiu
e com que finalidade. Você também vai perceber como a cerâmica se apresenta
diferentemente em seus aspectos formais e na sua utilização, dependendo da
cultura que a fabrica. Além de conhecer a relação da cerâmica com a História das
Artes Visuais, tanto no Brasil como no mundo.

História da Cerâmica 9
U1

10 História da Cerâmica
U1

Seção 1

Origens da cerâmica e sua manifestação nas


diferentes culturas
O estudo desta seção compreende as origens da cerâmica e estudaremos as
necessidades do cotidiano do homem neolítico que fizeram nascer a cerâmica.
Conheceremos também a cerâmica inserida em diferentes culturas, suas relações
utilitárias e estéticas com essas culturas, da antiguidade à atualidade. Finalizaremos
esta seção conhecendo a relação da produção cerâmica com as artes visuais
contemporâneas.

1.1 Origens da cerâmica


Observamos que o termo “cerâmica” origina-se do grego keramos, significando
"argila", “terra queimada”, referindo-se à confecção de objetos em barro que
posteriormente eram cozidos em temperaturas elevadas em fornos apropriados,
construídos para esta função específica (FRIGOLA, 2006).

Note que, sob um ponto de vista histórico, a cerâmica acompanha as civilizações


desde a pré-história. A argila queimada vem sendo utilizada em todas as sociedades,
das mais antigas, passando pelo Oriente e Ocidente, na manufatura de objetos
decorativos, de uso cotidiano e com fins rituais, até à contemporaneidade, como
objetos utilitários, de decoração e de arte.

Dentro de um contexto histórico, no Período Neolítico, período da pedra polida,


o ser humano deixa de ser nômade, quando a principal fonte de alimento era a caça,
e se instala em zonas onde pôde cultivar a terra, domesticar e cuidar dos animais,
organizando sua estrutura social a partir da agricultura e da criação de gado.

É claro que o homem quer ser mais do que ele mesmo.


Quer ser um homem total. Não lhe basta ser um indivíduo

História da Cerâmica 11
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separado; além da parcialidade da sua vida individual, anseia uma


"plenitude" que sente e tenta alcançar, uma plenitude de vida que
lhe é fraudada pela individualidade e todas as suas limitações;
uma plenitude na direção da qual se orienta quando busca um
mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha
significação (MARTINS, 2010, p. 13).

As primeiras aglomerações surgem próximas aos rios, possibilitando aos


integrantes dessas aldeias plantarem as sementes na terra fértil. Perceba também que
havia facilidade no acesso à água, tanto para o consumo dos homens quanto para
os animais domesticados, como: cabras, bois, cães, dromedários. Desta maneira, o
homem também tem à mão a principal matéria-prima para a cerâmica, o barro.

Acreditamos que nesta época o trabalho passa a ter uma divisão hierárquica entre
homens e mulheres. Os homens cuidam da caça, da pesca e da segurança da aldeia,
enquanto as mulheres cuidam das plantações, das colheitas e da educação dos filhos.

Podemos deduzir que, da abundância de alimentos nos períodos de colheita,


nasce a necessidade de armazenar tanto os alimentos para consumo posterior,
quanto as sementes para novos cultivos. Tais recipientes, além de armazenarem
sementes e alimentos, também tinham a função de transportar e armazenar água,
por isso tinham que resistir ao uso, serem impermeáveis e de fabricação fácil. “O
que se sabe, com total rigor histórico, é que, a partir do período neolítico, aparecem
fragmentos de cerâmica a demonstrar, de forma inequívoca, a presença humana.
Poder-se-á dizer, por isso, que o homem começou a ‘escrever’, no barro, a sua
própria história.” (COSTA, 2000, p. 23)

A partir do momento em que o homem neolítico descobre que o fogo transforma


o barro num material inalterável, nasce a criação de peças de cerâmica, inicialmente,
como descrevemos acima, com fins apenas práticos, de armazenagem de alimentos
e transporte e armazenagem de água, mas que vão gradualmente tomando fins
decorativos ao longo da história humana. Esse processo de endurecimento do barro
pelo fogo, obtido casualmente, multiplicou-se para várias culturas de diferentes regiões,
substituindo a pedra trabalhada, a madeira talhada e vasilhas confeccionadas com frutos,
como o coco ou a casca de cucurbitáceas, tais como porungas, cabaças e catutos.

O homem foi, aos poucos, descobrindo outras funções para


esse material, de acordo com suas necessidades. Assim, o
barro foi usado também para emplastos como remédios e

12 História da Cerâmica
U1

para conservar alimentos, além do uso na construção das mais


diversas formas. Nesse processo, a matéria foi sendo redescoberta
para atender ao conforto e à proteção da espécie como até
hoje continua sendo utilizada em tijolos, em taipa de pilão e em
técnica de pau a pique e num sem-fim de usos do barro modelado
(RODRIGUES, 2011, p. 9).

Devemos considerar também no período paleolítico a confecção de esculturas


de argila. Estas esculturas eram, em sua maioria, pequenas estátuas representando
a figura feminina e dando grande ênfase na fertilidade. Arqueólogos e antropólogos
afirmam que estas estátuas eram usadas em certos tipos de cultos relacionados
à sexualidade e à fertilidade. As figuras femininas representadas nestas esculturas
geralmente apresentam traços físicos exagerados nos seios, na barriga e nos quadris.

De acordo com estudos arqueológicos e antropológicos, as primeiras cerâmicas


datam de 5.000 a.C., da região de Anatólia, na Ásia Menor.

Figura 1.1 | Vasilha antropomórfica em terracota, 5.300 a 5.000 a.C.

Fonte: Banat, Parţa. Museu Nacional de História da Romênia, Bucareste. Disponível em: <https://peregrinacultural.wordpress.
com/tag/civilizacao/>. Acesso em: 16 jul. 2015.

História da Cerâmica 13
U1

Apreciar a arte rupestre é conhecer o registro das atividades


cotidianas do homem pré-histórico em um meio ambiente
agressivo, onde a grande preocupação deste homem era se
manter vivo e ter o que comer no dia seguinte. Você acredita que
este homem pré-histórico já tinha alguma sensibilidade estética?

Ao pesquisarem os sedimentos acumulados no solo do Velho Mundo, em suas


escavações, os arqueólogos encontram com frequência pedaços de terracota e cacos
de objetos cerâmicos cozidos em fogo. Atente ao fato de que a história da cerâmica
se confunde com a própria história da civilização. Os vasos, as taças ou as ânforas
são, em muitos casos, os únicos elementos sobre os quais os profissionais podem
reconstruir a cultura e até as migrações de povos já desaparecidos. Dentro dessas
diversas culturas, a cerâmica alcança diferentes segmentos sociais que vai desde as
camadas mais pobres e inferiores, aos estratos mais elevados da hierarquia social.

A pré-história é dividida em três períodos: Paleolítico, Neolítico e Idade dos


Metais. Para conhecer mais sobre o fascinante período quando nasceu a
produção de peças cerâmicas, o Neolítico, veja o vídeo disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=GT1cMw7DgZI>. Acesso em: 01 ago. 2015.

1.2 A Cerâmica nas diferentes culturas


Podemos considerar que a arqueologia é uma ciência que procura reconstruir
a história da humanidade, procurando um maior entendimento das culturas atuais.
Você pode observar que, para esta reconstrução temporal, ela usa como fonte de
suas pesquisas os objetos concretos confeccionados por homens de diferentes
povos em diferentes períodos históricos, procurando resgatar a cultura destes
povos com a finalidade de entender a formação de identidade cultural e criar uma
relação com nossa sociedade contemporânea. Observe que a arqueologia é uma
ciência muito diversificada que estuda desde pinturas e gravuras rupestres, a objetos
cerâmicos, buscando pistas sobre a vida e a cultura de nossos povos ancestrais.
Nas escavações arqueológicas, sob os sedimentos que os séculos acumularam no

14 História da Cerâmica
U1

solo, encontram-se com certa frequência alguns fragmentos de terracota e cacos


de vasos ou de ânforas.

Os objetos de estudo dos arqueólogos, os indícios materiais, contêm informações


que devem ser decodificados por profissionais capacitados, tais como antropólogos,
sociólogos e historiadores. Assim sendo, os museus que guardam, preservam e
expõem esses indícios materiais resgatados pelos arqueólogos, cumprem a tarefa
de mediadores entre o passado e o presente.

Através da história podemos observar que a cerâmica cria um estilo próprio dentro
de cada cultura, cada qual desenvolvendo técnicas que pudessem atender melhor
as suas necessidades expressivas e utilitárias, de acordo com a geografia local.

Observe que, com exceção da fabricação de telhas e tijolos, muito utilizados na


construção desde a Antiguidade na Mesopotâmia, a produção de peças cerâmicas
quase sempre deu importância primordial à estética, mesmo quando era fabricada
como objeto utilitário.

No período compreendido entre 4000 e 3500 a.C., a Suméria foi um importante


centro de produção cerâmica. Os sumérios utilizavam tijolos nas construções de
edifícios e cidades. Com esta cultura surge também a roda de oleiro. Entre 2000 e
1000 a.C., ocorre outra descoberta muito importante, o verniz ou vidrado, camada de
revestimento que impermeabiliza a argila e dava brilho, sendo utilizado inicialmente
nos tijolos e posteriormente nas peças utilitárias.

A cultura do Egito também colaborou com a evolução das técnicas cerâmicas desde
5000 a.C., com suas peças de paredes finas, decoradas e polidas. No Reino Antigo
(2700-2100 a.C.), as massas cerâmicas começaram a ter uma preparação cuidadosa
para serem modeladas no torno, gerando peças simétricas. Na mesma época os
egípcios também criaram pastas que, quando cozidas no forno, apresentavam uma
superfície brilhante. Esta pasta hoje é conhecida como pasta egípcia.

Figura 1.2 | Pequena escultura confeccionada em pasta egípcia

Fonte: <http://ceramica.wikia.com/wiki/Pasta_egipcia>. Acesso em: 2 ago. 2015.

História da Cerâmica 15
U1

Reflita sobre a seguinte afirmação: “Se os símbolos


linguísticos são incapazes de nos apresentar integralmente
os sentimentos, a arte surge com uma tentativa de fazê-lo. A
arte é algo assim como a tentativa de se tirar um instantâneo
do sentir” (DUARTE JÚNIOR, 1994, p. 43). Como a arte pode
funcionar como um meio de comunicação?

1.3 A cerâmica na Grécia


As peças cerâmicas produzidas pelos gregos têm uma grande importância
dentro da História da Cerâmica por seus desenvolvimentos técnicos. Dentro da
cultura grega, a cerâmica tem um grande destaque por serem consideradas um
artigo de primeira necessidade. Faziam parte do cotidiano dos gregos, devido a sua
grande utilidade em serviços domésticos. Eram utilizadas no armazenamento de
mantimentos, de água, de vinhos, de azeites e de perfumes. Também eram utilizadas
nos usos artesanais e comerciais e em cerimônias fúnebres ou religiosas. Assim,
encontramos retratados nos vasos seus costumes, seus mitos, sua cultura. O estudo
da cerâmica grega traz documentada em forma de imagens as transformações
sociais, culturais, políticas e históricas desse povo.

A seguir, estudaremos as formas, Figura 1.3 | Vaso grego Lutróforo


finalidades e iconografia dos principais
vasos gregos. Observe que se
diferenciavam em tamanho e forma,
de acordo com sua função. Podiam
ser grandes ou pequenos, finos ou
alongados, com alças ou sem alças.

Lutróforo: Frequentemente
grande, podia ser utilizado tanto em
cerimônias matrimoniais como em
rituais funerários. Nas cerimônias
matrimoniais, este vaso era utilizado
para conter água. As amigas da
noiva a banhavam antes da noite de
núpcias ou na manhã seguinte após
o casamento. Além da finalidade
higiênica, este banho carregava um Fonte: <https://vellocinodeoro.hypotheses.org/category/arte>.
significado simbólico de purificação Acesso em: 23 jul. 2015.

16 História da Cerâmica
U1

e fertilização. Nos rituais funerários, este vaso servia como homenagem às mulheres
que haviam falecido solteiras. Neste caso, o lutróforo não possuía fundo e era
colocado sobre a tumba da pessoa homenageada. A água que fosse depositada nele
penetraria na terra e alcançaria o defunto, fertilizando-o simbolicamente.

Kratêr: Tipo de vaso muito conhecido no estudo da cerâmica. O formato dos


kratêrs variou muito ao longo da cultura grega. No entanto, os elementos que
caracterizam este tipo de vaso são o bojo e a boca largos, base chata e firme, e alças
laterais. A alça é o elemento que permite distinguir os variados tipos de kratêrs, pois
foram as que mais sofreram alterações. Eram grandes e não podiam ser transportados
quando estavam cheios. Seu conteúdo era retirado aos poucos por meio de outros
vasos. Eram utilizados em reuniões e festas com a finalidade de armazenar vinho e,
mesmo em alguns processos, na fabricação da bebida.

Figura 1.4 | Vaso grego kratêr

Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tarporley_Painter_-_Red-Figure_Bell_Krater_with_Satyr_and_Maenad_-_
Walters_482760_-_Side_A.jpg>. Acesso em: 23 jul. 2015.

Kylix (Taça, copo ou cálice): Enquanto o kratêr era utilizado nas festas para
armazenagem dos vinhos, o kylix é a peça onde a bebida era servida. Apresenta um
formato extremamente raso, possuindo duas pequenas alças horizontais que são
fixadas em sua extremidade superior, além de um pé fixado a uma haste. Também
possuíam uma pintura interna que era revelada somente se a pessoa que a utilizasse
bebesse seu conteúdo. Desta maneira as figuras retratadas, que eram de Dionísio,
sátiros, ninfas, músicos, deveriam surpreender e provocar sentimentos como
excitação sexual, alegria, vontade de cantar e dançar.

História da Cerâmica 17
U1

Figura 1.5 | Vaso grego kylix

Fonte: <http://www.indiana.edu/~iuam/online_modules/colors/objects.php?p=12>. Acesso em: 23 jul. 2015.

Ânfora: Vaso geralmente Figura 1.6 | Ânfora grega


grande e que era utilizado na
armazenagem de azeite, vinho,
mel, água, cereais, frutos secos
etc. Possui formato geralmente
ovoide e asas verticais nas
laterais. As ânforas são peças
cerâmicas que sofreram muitas
mudanças em sua forma ao
longo dos tempos. Diversos
formatos de ânforas continuam
sendo descobertas por meio
de escavações arqueológicas,
dificultando uma classificação
exata desse tipo de utensílio.

Os exemplares de peças
cerâmicas apresentadas acima
são os mais conhecidos no
estudo da cultura grega. Porém,
encontramos diversos outros tipos
de vasos com formas e finalidades
Fonte: <http://www.snipview.com/q/Anfora>. Acesso em:
variadas: lebes, pelike, stamnos, 23 jul. 2015.

18 História da Cerâmica
U1

larnax, pithos, ríton, címbio, askos, acetábulo, e muitos outros.

Estudamos acima algumas formas, finalidades e iconografias dos principais vasos


gregos, dentro da história da cerâmica. A seguir, você vai conhecer os diferentes
estilos gregos de cerâmica.

A manufaturação da cerâmica grega pode ser dividida em quatro estilos ou


períodos principais, cada um com suas peculiaridades: Estilo Protogeométrico que
compreende os séculos XI a X a.C., Estilo Geométrico que se estende pelos séculos
IX e VIII a.C., Estilo Arcaico localizado do final do século VIII até o século V a.C., e o
Estilo Clássico nos séculos V e IV a.C.

Estilo Protogeométrico (sécs. XI a X a.C.): Surgiu por volta de 1000 a.C., após a
denominada invasão dórica (conceito usado pelos historiadores gregos antigos para
explicar a substituição dos dialetos e tradições pré-clássicas, pelos que prevaleceram
na época clássica, no sul da Grécia). No período que antecede o Protogeométrico,
denominado Submicênico, as peças fabricadas possuíam uma ornamentação
constituída de padrões e traços simples e despretensiosos.

Já a cerâmica produzida no período Protogeométrico caracteriza-se por um


certo requinte em seus traços e em sua composição. Esse refinamento ocorre por
meio da introdução de certos elementos gráficos, como círculos e semicírculos
concêntricos, linhas onduladas e linhas retas que são traçadas paralelamente à base
dos vasos. Além disso, formas geométricas como triângulos, losangos e padrões
como o xadrez, já estavam sendo introduzidos nas peças.

A manufaturação da cerâmica protogeométrica foi realizada por toda a Grécia,


dando relevância à cidade de Atenas como a responsável por grande parte dessa
produção.

A arqueologia Pré-Histórica tem como fonte de pesquisa os


artefatos produzidos por grupos sociais não mais existentes.
A divulgação da cultura material para a sociedade é uma
necessidade premente, pois os sítios arqueológicos estão
constantemente ameaçados de destruição, pelos mais
diversos motivos, entre os quais o turismo desordenado e a
implantação de empreendimentos com interesse financeiro
por parte de empresas e até mesmo do próprio Estado. Nesse
sentido, o contato com os objetos poderá despertar no cidadão
comum o interesse pela preservação dos sítios, levando-os a
perceber a arqueologia como uma ciência relevante para as
suas vidas (AMORIM, 2010, p. 25).

História da Cerâmica 19
U1

Você pode observar que a cerâmica grega é muito rica em sua


iconografia. Há registros incontáveis de objetos cerâmicos
de períodos não muito distantes, diferentes em tamanho,
cores, composição, técnicas de decoração e texturas. A que
podemos atribuir essa riqueza de variações?

Estilo Geométrico (sécs. IX e VIII Figura 1.7 | Vaso grego de Estilo Geométrico
a.C.): No final do século IX termina a
Idade das Trevas, período denominado
assim por fazer parte de uma certa
decadência cultural dos gregos. É
nesse período que, segundo a literatura
de Homero, as cidades-estados gregas
entram em ascensão. Assim, inicia-se
o período geométrico na cerâmica
grega.

Esse estilo, como o próprio nome


descreve, é definido pela grande
utilização de elementos geométricos
na decoração dos vasos e das
cerâmicas em geral. Faixas horizontais
formadas por triângulos, losangos,
linhas quebradas, contínuas ou em
ziguezague, apresentam-se na grande
maioria das peças manufaturadas nesse
período. Essas faixas eram mais escuras
para que se criasse um contraste maior
com o fundo de tom ocre da argila.

Por volta do século VIII, alguns


elementos menos abstratos são Fonte: <https://commons.wikimedia.org/wiki/
incorporados à composição das peças. File:Protogeometric_amphora_BM_A1124.jpg>.
23 jul. 2015.
Acesso em:

Esses elementos eram constituídos por


figuras de pessoas ou animais quase
sem detalhe nenhum, excessivamente simples, na maioria das vezes apresentando-
se como silhuetas negras. Quase sempre contavam histórias de caça, ritos funerários,
batalhas e corridas.

Muitas das cerâmicas descobertas pelos arqueólogos que chegaram até nossos

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U1

dias, foram peças utilizadas em funerais de aristocratas gregos, provindo dos seus
túmulos.

No final do século VIII, o estilo da cerâmica grega começa a apresentar mudanças


significativas. As figuras ornamentais mostram-se mais elaboradas e complexas. Este
refinamento faz com que os ceramistas utilizem mais espaço para essas figuras e
menos para as figuras geométricas, contribuindo para o término do estilo geométrico.

Figura 1.8 | Vaso grego de Estilo Arcaico Estilo Arcaico (final do séc. VIII
ao séc. V a.C.): Neste período ocorre
um grande desenvolvimento cultural,
político e social na Grécia. Começam
a ser construídos os primeiros templos
inspirados em habitações micênicas.
A cerâmica também passa por
importantes transformações no que se
refere à sua pintura. Podemos dividir
este período em duas fases: a fase
Orientalizante e a fase Arcaica.

Fase Orientalizante (até


aproximadamente 650 a.C.): Neste
período as peças absorvem grandes
influências orientais provocados pelos
laços comerciais entre as cidades-
estados gregas e as cidades-estados
da Ásia Menor. Surge na época uma
vontade de representar pessoas e
narrar histórias e acontecimentos
históricos, fazendo com que os
Fonte: <https://it.wikipedia.org/wiki/Ceramica_ elementos figurativos apareçam cada
geometrica>. Acesso em: 23 jul. 2015.
vez mais. Essas imagens caracterizam-
se principalmente em elementos
mitológicos como centauros, sátiros, quimeras, harpias, entre outros. Aparecem
também elementos naturalistas como árvores, flores, folhas, plantas em geral. Isto
fez com que os desenhos fossem ficando cada vez mais elaborados, cada vez mais
sofisticados.

Fase Arcaica (final do século VII até cerca de 480 a.C.): Nesta fase surge uma
inovação na técnica, que consistia em pintar as figuras de negro e manter o fundo
da peça na cor original da cerâmica, uma cor de tonalidade mais clara. Esta inovação
permitia maior realismo e expressividade nos elementos que exigiam mais detalhes,

História da Cerâmica 21
U1

como cabelos, barbas, contornos de músculos e dobras nos tecidos. Mesmo assim,
as figuras ainda mantinham um traço estilizado. Nesta fase, surgem novos temas
como cenas do cotidiano: cenas de caça, cenas de mulheres trabalhando, atletas
competindo, famílias reunidas.

Nesta época, em Atenas, viveu Exéquias, um dos mais famosos ceramistas da


época (por volta de 525 a.C. a 500 a.C.). Este ceramista aprimorou a técnica de
figuras negras de uma maneira que estas eram reconhecidas como sendo fabricadas
por ele.

Estilo Clássico (sécs. V Figura 1.9 | Vaso grego da Fase Arcaica


e IV a.C.): Toda a cerâmica
produzida na Grécia entre 500
a.C. a 300 a.C. é denominada
clássica. Na guerra entre gregos
e persas, a vitória grega contagia
os cidadãos com um sentimento
de independência de uma tal
forma que a própria arte acaba
sendo influenciada por este
sentimento, libertando-a da
influência oriental.

É um período em que a
cultura grega atinge seu apogeu
estético, técnico e conceitual.
Na cerâmica, surge uma nova
técnica revolucionária na
maneira de decorar as peças
fabricadas, denominada de
figuras vermelhas sobre fundo
negro. A peça era totalmente
pintada de negro, deixando sem Fonte: <http://umolharsobreaart.blogspot.com.br/2013/08/53-arte-
pintura apenas as áreas onde se da-antiguidade-classica-arte.html>.
Acesso em: 26 jul. 2015.
posicionariam as figuras, que
por sua vez eram cuidadosamente detalhadas com pincéis finos e com tinta preta.
Isto proporcionava maior dinamismo, realismo e expressividade na composição,
além de maior domínio na perspectiva. Apesar desta nova técnica ser muito utilizada,
o modo anterior de se produzir e decorar as peças não deixou de ser utilizado.

Outro fator que caracteriza o período clássico é a grande liberdade criativa


experienciada pelos ceramistas deste período. Encontram-se peças com técnicas
e estilos variados, tais como figuras negras misturadas com figuras brancas, figuras
negras e vermelhas pintadas sobre fundo amarelo ou branco.

22 História da Cerâmica
U1

Figura 1.10 | Vaso grego de Estilo


Clássico

Estilo Belo: Após o Estilo Clássico, nas oficinas


da Ática, desenvolveu-se uma cerâmica com
fundo branco e com figuras desenhadas por meio
de um contorno preto e preenchidas com cores
variadas. Na composição das peças predominavam
a simplicidade e a austeridade, denominado estilo
belo.

Outras escolas da Grécia introduziram figuras


modeladas em relevo que eram posicionadas
sobre as partes mais largas das peças cerâmicas.

Fonte: <http://umolharsobreaart.blogspot.
com.br/2013/08/53-arte-da-antiguidade-
classica-arte.html>.
Acesso em: 26 jul. 2015.

Para você se aprofundar nos estudos da cerâmica grega, seus períodos e


suas diferenças composicionais nos estilos, nas formas, finalidades e na
iconografia, assista ao vídeo disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=zHqzLwbEWRo>. Acesso em: 01 ago. 2015.

1.4 A cerâmica chinesa


No Oriente, destaca-se a cerâmica chinesa. A história da China deve ser abordada
em dinastias, uma sequência de governantes considerados como membros da
mesma família. Atente para o fato de que a China possui a maior tradição no mundo
na fabricação de objetos cerâmicos, sua produção data de cerca de 3500 anos a.C.

No período da Dinastia Chang Yi (1523 - 1028 a.C.), o torno já era conhecido e se


usavam dois tipos de argilas na confecção das peças, uma vermelha e outra branca.

A partir da dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.) inicia-se uma tradição na manufaturação
de cerâmica a ser utilizada em túmulos. Os vasos eram confeccionados e decorados
de maneira que retratassem o estilo de vida da época: celeiros, lagos para peixes,
animais, jogos etc.

História da Cerâmica 23
U1

A dinastia Song (960 a 1.279) representa o apogeu da cerâmica chinesa. Com


fornos que abrangiam todo território chinês. Após este período, o sudeste da China
se transforma no mais importante centro cerâmico do país.

Os chineses são responsáveis pelo desenvolvimento do controle sobre o pigmento


azul, fazendo com que este pudesse ser aplicado na peça através de pinceladas.

O encontro das primeiras cerâmicas no Japão deu-se por volta de 2000-900 a.C.
Mas pode-se dizer que a influência chinesa foi significativa durante o período Heian (794-
898). É importante destacar aqui a importância do budismo zen e o seu culto, pois
tiveram forte influência sobre a cerâmica com a cerimônia do chá, tornando-se um
verdadeiro ritual, que teve sua origem no período Muromachi (RODRIGUES, 2011, p. 12,).

A cerâmica nas Américas

A cultura pré-incaica surgida ao norte Figura 1.11 | Cerâmica chinesa


do Peru (1000 a.C.), representada pelos
Mochicas, deve ser destacada por sua
admirável produção de peças cerâmicas.
Podemos dividir a produção cerâmica dos
Mochicas em duas atividades bastante
evidentes, onde se destacavam pelo realismo
e pela habilidade em desenhar: a pintura e a
escultura.

O Estado do povo Mochica era


centralizado e tão forte que podia sustentar
e fortalecer a classe de artesãos. Dominavam
amplamente o uso de uma massa muito fina,
fazendo com que as paredes de suas vasilhas Fonte: <http://meublogmeucolegio.blogspot.com.
br/2010/08/cultura-chinesa-arte-religiao-culinaria.
cerimoniais fossem finíssimas, modelando html>. Acesso em: 26 jul. 2015.
um repertório diverso de temas que iam de
animais, seres mitológicos a cenas da sua vida cotidiana. Geralmente empregavam
apenas duas cores, pintando figuras de cor avermelhada com um pincel fino, sobre
uma camada de cor marfim. Desta maneira, este povo deixou uma representação
muito realista de sua cultura e de seu meio ambiente, podemos ver com detalhes
sua fauna e flora nos desertos do Peru. Foram os primeiros artesãos da América do
Sul a fazer uso de moldes para produzir objetos em série e em grande quantidade.

Na cerâmica produzida por esses índios americanos, uma das mais conhecidas
é o huaco-retrato, designação do estilo mochica clássico que surgiu no século V na
cidade que estava aos pés da Huaca de La Luna. Esse estilo, em sua maioria, destacava-
se em vasos com um gargalo em forma de anel com figuras mostrando imponentes
personagens políticos, o cotidiano da população e cenas de sexo explícitas.

24 História da Cerâmica
U1

1.5 A cerâmica na História da Arte


Você pode observar que o desenvolvimento da cerâmica dentro da linha histórica
é bastante dinâmica, apresentando técnicas e estéticas diferentes, de acordo com
cada cultura. Desta maneira, é difícil acompanhar a história da cerâmica, todas as suas
variedades e particularidades técnicas, os tipos de utilização e as composições estéticas.

Medieval

A cerâmica medieval possuía uma abundância de materiais tais como argila, areia,
água, além da madeira que servia de combustível para os fornos cerâmicos. Por
este motivo as olarias se encontravam situadas perto de florestas e em áreas rurais,
em solos ricos em argila, em áreas drenadas, com fácil acesso às estradas e ao
transporte da água. Nos relatos históricos medievais, os oleiros são mencionados
raramente, o que faz supor que estes artesãos eram considerados de baixo status.

O tipo de cerâmica encontrado pela arqueologia no início da Idade Média, na


Itália, segue a tradição romana e é essencialmente utilitária, de uso doméstico, como
por exemplo os tonéis de armazenamento de água, de vinho e de óleo, que foram
originados a partir das peças romanas.

Havia também uma espécie um pouco mais requintada de cerâmica que era
utilizada como ornamento de mesa ou na cozinha. O corpo dessas peças era
comumente coberto por uma espécie de verniz para se tornar impermeável e, assim,
não absorver seu conteúdo líquido. Eram recipientes pequenos e de formato variado,
como ânforas, jarros e vasilhas para armazenar alimentos. As decorações dessas
peças consistiam em motivos bastante simples, como pinhas ou linhas verticais.

O período medieval foi um período muito peculiar na história humana.


Se você quer conhecer mais sobre as características da cultura da Idade
Média, não deixe de ler o livro: GOFF, Jacques de. O homem medieval.
Tradução Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Lisboa: Editorial Presença, 1989.

Renascimento

No Período Renascentista predomina a manufatura de peças em faiança,


que é uma espécie de cerâmica branca, mais plástica e porosa, necessitando ser
impermeabilizada por meio da técnica de vitrificação. Neste período, temos a famosa

História da Cerâmica 25
U1

Maiólica, uma espécie de faiança proveniente provavelmente da ilha de Maiorca, no


Mar Mediterrâneo.

A fabricação de peças cerâmicas maiólicas tem início durante a Idade Média em


várias localidades da Itália, desenvolvendo-se no período renascentista. Escavações
arqueológicas encontraram as peças mais antigas na Sicília.

Reunindo as conquistas técnicas do Renascimento a uma renovação na estética


do modelado e da decoração das peças, no século XV, Florença tornou-se o
produtor principal deste tipo de cerâmica. Houve uma grande produção de objetos
utilitários, tais como pratos, jarros, tigelas, vasos e até mesmo telhas. Houve também
uma rica produção de objetos decorativos como esculturas e relevos, de tamanhos
e formas variadas.

Até o período medieval, a únicas imagens que podiam


ser retratadas eram imagens sacras, de santos ou de
acontecimentos bíblicos, sendo considerado pecado a
confecção de imagens de pessoas comuns ou de cenas
do cotidiano. No Renascimento, além das imagens sacras,
encontramos também imagens de pessoas comuns e de
pinturas retratando o cotidiano. A que se devem essas
mudanças tão radicais no âmbito da arte?

Neste período, a cerâmica Figura 1.12 | Cerâmica do período renascentista


atinge seu apogeu no século - Giorgio Andreoli (1465 - 1523)
XVI, destacando-se artistas como
Giorgio Andreoli e Francesco
Xanto Avelli. A partir do século
XVII, o interesse na produção das
maiólicas diminui drasticamente.

Também neste período, entre


os séculos XV e XVI, acontecem
as primeiras experiências
ocidentais no uso da cerâmica
escultórica e da cerâmica de
azulejos, surgindo na decoração
Fonte: <http://consentidoscomunes.blogspot.com.br/2013/11/el-
de arquiteturas exteriores. juicio-de-paris-v-galeria-ceramica.html>. Acesso em: 28 jul. 2015.

26 História da Cerâmica
U1

A nomenclatura “azulejo” tem sua origem nos árabes, sendo derivado


do termo "azuleicha”, que significa "pedra polida". A arte do azulejo foi
largamente difundida pelos islâmicos. A influência dos árabes na cerâmica
peninsular e depois na europeia foi enorme, pois eles trouxeram novas
técnicas e novos estilos de decoração, como a introdução dos famosos
arabescos e das formas geométricas, que os islâmicos desenvolveram a
fundo. Para saber mais sobre a história da cerâmica, veja: <http://www.
anfacer.org.br/site/default.aspx?idConteudo=157&n=Hist%C3%B3ria-
da-Cer%C3%A2mica>. Acesso em: 2 ago. 2015.

Com o passar do tempo e o desenvolvimento de novas técnicas, os revestimentos


cerâmicos utilizados nas paredes e pisos deixaram de ser privilégio dos ambientes
religiosos e dos palácios, tornando-se acessíveis para todas as classes sociais,
deixando de aparecer apenas em monumentos e passando também para as paredes
externas dos pequenos sobrados comerciais e residenciais.

Arts and Crafts

De acordo com o desenvolvimento das culturas nas diferentes geografias, a


cerâmica também foi evoluindo, até alcançar nossos dias. Na Europa Central, por
volta de 1830, inicia-se o processo de esmaltação industrial. Por um longo período
as placas cerâmicas eram sinônimo de luxo e requinte.

Durante a Revolução Industrial surgem novos processos de manufatura, há


uma transição de técnicas de produção artesanais para métodos de produção por
máquinas. Assim, a cerâmica passa a ser produzida em série, extinguindo-se o seu
valor artístico. Em uma investida contra a cerâmica industrial, na Inglaterra, por
volta de 1850, desenvolve-se uma espécie de cerâmica artística (art pottery), através
de artistas reunidos no Arts and Crafts. Diversos ateliês são criados na cidade para
proporcionar essa produção, entre eles, o Art Pottery Studio (1871) e o Wedgwood,
dirigido por Alfred (1865 - 1960) e Louise Powell (1882 - 1956).

Arts and Crafts (Movimento das Artes e Ofícios) é um movimento


estético e social inglês, da segunda metade do século XIX, que defende
o artesanato criativo como alternativa à mecanização e à produção em

História da Cerâmica 27
U1

massa. Reunindo teóricos e artistas, o movimento busca revalorizar o


trabalho manual e recupera a dimensão estética dos objetos produzidos
industrialmente para uso cotidiano. Para saber mais sobre o Arts and
Crafts, veja: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo4986/arts-
and-crafts>. Acesso em: 2 ago. 2015.

O Movimento das Artes e Ofícios procura a beleza pura nos objetos, recusando
os novos materiais e abrindo mão das novas tecnologias, interessando-se pelo
que é feito à mão e revalorizando as artes aplicadas. Desta maneira, ao diversificar
as fronteiras entre a arte e o artesanato pela valorização dos trabalhos manuais
e dos ofícios, constrói os princípios para o Art Nouveau (Nova Arte) europeu e
norte-americano, estilo que engloba também uma relevante produção em peças
cerâmicas. O Art Nouveau dialoga com os conceitos da Arts and Crafts, adaptando-
os à realidade daquele momento. Há, neste momento, a junção da indústria com
a arte, resultando em peças que são utilitárias e, ao mesmo tempo, esteticamente
belas aos olhos da cultura vigente.

Os fundamentos do conceito de design nascem a partir deste momento,


possibilitando que as Artes e Ofícios cresçam e que os objetos de uso cotidiano
possam ser considerados produtos de luxo. Assim, a cerâmica passa a ser concebida
como arte.

Um dos nomes mais importantes dessa escola, Émile Gallé (1846 - 1904), muito
conhecido pelo uso da cerâmica e do vidro, utiliza amplamente as composições
contendo linhas sinuosas e assimétricas, além de formas vegetais e ornamentos
florais, nos vasos, luminárias e objetos de decoração.

Outros artistas que são importantes para a cerâmica Art Nouveau na França, são
Thédore Dek (1823 - 1891), que possuía um ateliê de faianças, e Émile Müller, que
encabeçava uma manufatura que produção grés, em Ivry.

Modernismo

Podemos considerar que o Modernismo (aproximadamente 1890-1910) é um


conjunto de movimentos culturais, escolas e estilos que transformaram as artes e

o design da primeira metade do século XX. Este movimento, a princípio, pode ser
considerado como uma rejeição à tradição. Baseia-se na ideia de que o tradicionalismo
nas artes e no cotidiano se tornaram obsoletos, antiquados, necessitando-se de uma
nova cultura. Ainda que seja possível observarmos centros de convergência entre
os vários movimentos desta época, geralmente eles se mostram diferentes e até
mesmo se contrapõem entre si.

28 História da Cerâmica
U1

O Modernismo sofre influência da arte oriental, utilizando-se de formas naturais


para seus temas. Alguns pintores como Braque, Gauguin e Duffy são atraídos pela
cerâmica oriental. Posteriormente, Matisse, Léger, Chagall, Kandinsky, Rodin e
Malévich utilizam-se da decoração em algumas peças cerâmicas.

Também na Áustria, artistas integrantes da Secessão vienense, como o pintor


Gustav Klimt (1862 - 1918), criam vasos e objetos de cerâmica com influências Art
Nouveau.

A partir de 1920, uma significativa produção cerâmica apresenta-se nas artes


decorativas, cujo ápice acontece em Paris, em 1925, na Exposição Internacional de
Artes Decorativas e Indústrias Modernas. Esta exposição dá origem ao termo Art
Deco, onde se apresentam nus femininos, folhagens, animais, todos apresentados
em cores discretas, com formas estilizadas ou geométricas. Estas formas se fazem
presentes na cerâmica produzida na época, principalmente pela Companhia de Arte
Francesa, em 1919, dirigida pelo arquiteto Louis Süe (1875 - 1968) e pelo designer
André Mare (1885 - 1932).

Na exposição de 1925, Süe e Mare, como eram conhecidos, conceberam um


pavilhão que apresentava objetos de decoração de interior, entre eles, um grande
aparelho de jantar em cerâmica, além de relevos de cerâmica criados por Paul Véra
(1882 - 1971).

A Manufatura Nacional de Sévres, funcionando desde o século XVIII, contrata


artistas como Raoul Dufy (1877 - 1953) e Roberto Bonfils (1886 - 1971), para decorar
as peças em estilo Art Deco.

Na passagem da Idade Média para o Renascimento, as


Artes Visuais sofreram grandes mudanças, libertando-se da
instituição igreja. O início do modernismo trouxe também
mudanças radicais nas artes visuais, libertando o olhar de
paradigmas acadêmicos. Quais os possíveis fatores que
determinaram essas mudanças?

No período entre guerras, ainda na França, a cidade de Limoges transforma-se na


principal produtora de porcelana, e tem um nível de importância tão grande que a
palavra Limoges transforma-se em sinônimo de porcelana francesa.

Na Alemanha, na escola Bauhaus, criada por Walter Gropius (1883 - 1969) e


cuja estética era funcionalista, diversos artistas como Lucia Moholy (1894 - 1989),

História da Cerâmica 29
U1

Theodor Bogler (1896 - 1968), Marguerite Wildenhain (1896 - 1985) e Margarete


Heymann-Marks (1899 - s.d.), utilizam-se da cerâmica como suporte para seus
trabalhos. Pesquisas formais com inclinações construtivistas definem a produção
desta escola, apresentando objetos cerâmicos com composições em linhas retas e
com decoração simples e comedida. Isto enfraquece ainda mais as fronteiras entre
as disciplinas artísticas.

Na Tchecoslováquia, região da Bohemia, artistas e arquitetos como Pavel


Janák (1882 - 1956) e Vlastislav Hofman (1884 - 1964) fabricam objetos utilitários
em cerâmica e vidro utilizando escalas monumentais, associando os objetos à
arquitetura e à escultura.

Muitos outros grupos e movimentos com diferentes artistas se utilizam da


cerâmica tanto em objetos como em esculturas: Bruno Munari (1907 - 1998),
Alexander Archipenko (1887 - 1964), Pablo Picasso (1881 - 1973).

Figura 1.13 | Cerâmica do período modernista - Cerâmica de Pablo Picasso

Fonte: <http://www.artslife.com/2015/02/26/giorgio-de-chirico-e-ceramiche-di-picasso-top-lot-da-babuino-a-roma/>.
Acesso em: 28 jul. 2015.

Enquanto isso, simultaneamente, os ceramistas B. Leach e Shoji Hamada


pesquisam novas formas de expressão com uma linguagem mais pessoal, criando
a cerâmica de estúdio. Este conceito influencia a visualidade da cerâmica em todo
mundo.

30 História da Cerâmica
U1

Para conhecer melhor o Modernismo e como este período modificou


radicalmente a visualidade nas artes, não deixe de ler o livro de Peter Gay
- Modernismo: o fascínio da heresia: de Baudelaire a Beckett e mais um
pouco. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras
(2009).

A arte modernista, nas suas grandes linhas, aparece como


faixa demarcatória, como fronteira entre duas épocas; a
arte revolucionária, a arte da antiarte, é a revolta contra os
velhos temas, contra as formas, os procedimentos gastos e
antiquados, mas é, sobretudo, a destruição da antiga estética
e, por assim dizer, a proposta de uma antiestética, a destruição
dos padrões estéticos na arte. Ora, esta antiestética é produzida
pela revolta contra o antigo gênero de vida criado sob a égide
do individualismo, do mundo burguês, da propriedade privada
(FERRARA,1986, p. 7).

A cerâmica após a Segunda Guerra Mundial

Logo após a segunda guerra mundial, o pintor Joan Miró também passa a utilizar
a linguagem da cerâmica como elemento de expressão artística. Sofrendo certa
influência de seu amigo ceramista Josep Llorens Artigas e do próprio surrealismo,
Miró tenta ultrapassar os limites bidimensionais da pintura através das peças
volumétricas.

Artigas e Miró rompem as barreiras da cerâmica moldada e proporcionam às


peças uma liberdade, uma renovação, proporcionando à arte cerâmica a capacidade
de expressar todo tipo de sentimentos, como qualquer outra arte.

O conflito mundial forçou vários ceramistas europeus a emigrarem para os


Estados Unidos, diluindo as fronteiras geográficas e aumentando substancialmente a
influência mútua entre as duas culturas. A partir deste vínculo entre Estados Unidos e
Europa, a cerâmica do século XX direciona-se na busca de identidade e da liberdade,
características da Arte Contemporânea.

Para Frigola (2006), podemos observar que no Expressionismo Abstrato Norte


Americano o artista deixa marcas na obra, sinais, caminhos, mostrando suas

História da Cerâmica 31
U1

emoções. Um dos artistas mais conhecidos é Jackson Pollock, que praticava a


Action Painting. O artista colocava a tela de grandes proporções no chão e deixava
a tinta gotejar sobre ela, ou atirada sobre ela, registrando o ritmo do movimento do
corpo do artista.

O Expressionismo Abstrato americano conduz a cerâmica


para um terreno mais experimental graças ao contributo
revolucionário de P. Voulkos, que, com a influência europeia,
lidera a cerâmica vanguardista e abre inúmeros caminhos ao
longo dos quais várias gerações de ceramistas têm continuado
a experimentar. É este o caso do próprio P. Soldner ou de J.
Mason, R. Arneson, K. Price e Bodil Manz (FRIGOLA, 2006, p. 13).

Figura 1.14 | Cerâmica de Peter Voulkos. Tiento, 1959

Fonte: <http://claylab.tumblr.com/post/94181336308/magictransistor-peter-voulkos-tiento-1959>. Acesso em: 02 ago. 2015.

A cerâmica na arte contemporânea

As vanguardas artísticas demoliram as barreiras do academicismo e o conceito


ultrapassado de arte maior e arte menor, evidenciando que nenhum material já
nasce destinado à arte, mas que se transforma em artístico por meio da intervenção
do artista e da interpretação do observador. Na atualidade não podemos mais
considerar materiais propícios ou não propícios à arte. A escultura não necessita ser
de bronze e estar sobre um pedestal.

32 História da Cerâmica
U1

Uma das consequências de a arte ter-se livrado do


desenvolvimento passo a passo era a liberdade de buscar
inspiração em toda parte: [...] ela agora não precisava restringir-
se às belas-artes ou às artes “elevadas”, mas também podia
empregar o artesanato ou outras técnicas, materiais e temas
culturais “inferiores” onde lhe parecesse adequado (ARCHER,
2001, p. 155-156).

Neste momento da nossa história da cerâmica, você deve fazer uma distinção
entre cerâmica contemporânea, termo que muitas vezes permite múltiplas
interpretações, associando as peças ao design ou ao artesanato, e entre cerâmica
na Arte Contemporânea. Muitos artistas contemporâneos não são ceramistas no
sentido tradicional da palavra, mas fazem uso da cerâmica como suporte para suas
poéticas, para sua Arte Contemporânea, como já vimos acontecer anteriormente no
texto com artistas como Miró, Kandinsky, Picasso etc.

Como exemplo, observe a instalação abaixo intitulada Field, ou Campo em


português. O artista Anthony Gormley preencheu o interior de toda a galeria
com uma grande quantidade de pequenas figuras de cerâmica em terracota,
com aproximadamente doze centímetros de altura cada, criando uma ênfase por
repetição e corrompendo a noção espacial que se tem do espaço interior da galeria.

Figura 1.15 | Cerâmica de Anthony Gormley (1991)

Fonte: <http://www.theguardian.com/artanddesign/jonathanjonesblog/2012/nov/27/antony-gormley-model-of-hype>.
Acesso em: 29 jul. 2015.

História da Cerâmica 33
U1

1. A cerâmica é uma arte milenar, pesquisada por arqueólogos


e encontrada em diferentes culturas no mundo todo. Assinale
a alternativa correta abaixo:
A. O termo cerâmica origina-se do latim Ceramos e significa
terra queimada.
B. A palavra cerâmica provém do grego keramos, significando
argila.
C. A cerâmica é um processo apenas industrial e refere-se
apenas a revestimentos para paredes e piscinas.
D. A cerâmica é praticada estritamente por índios e possui
finalidades apenas utilitárias.
E. A arte da cerâmica é uma arte apenas ocidental, sendo
desconhecida pelos orientais.

2. Na História da Arte, a cerâmica apresenta-se em vários


períodos. Assinale abaixo o período correto da peça
apresentada:

Fonte: <http://fljuida.com/post197045373/>. Acesso em: 02 ago. 2015.

A. Idade Média.
B. Barroco.
C. Renascimento.
D. Romantismo.
E. Período Grego.

34 História da Cerâmica
U1

Seção 2

A cerâmica no Brasil, dos índios à


contemporaneidade
O Brasil possui um vasto registro arqueológico que nos permite conhecer a rica
cultura dos índios. Iniciamos esta segunda seção estudando a cerâmica indígena
brasileira, suas origens, desdobramentos e estilos. Conheceremos a história da cerâmica
popular brasileira e seus principais representantes nas diversas regiões do país. Também
analisaremos a cerâmica e sua relação com a arte contemporânea brasileira.

2.1 A cerâmica indígena


Na segunda metade do século XIX, a arqueologia se interessa em outros
territórios além da Grécia e de Roma. Desta maneira aconteceram escavações
em algumas regiões da Amazônia, especialmente na ilha de Marajó. Descobriu-
se que não foram os portugueses e nem os escravos que trouxeram a cerâmica
para o Brasil. Quando Pedro Álvares Cabral aportou em nossas terras, os índios
já dominavam algumas técnicas cerâmicas, mesmo sem conhecimento sobre o
torno e trabalhando com ferramentas rudimentares, superando estágios primitivos
da Idade da Pedra e do Bronze.

Em um passado remoto, os objetos eram usados como


meio de transmitir informações a respeito de normas sociais
vigentes. As peças são armazenadoras de informações. Na
concepção atual, são consideradas como “textos” sem grafias,
mas repletos de símbolos capazes de expressar ideologias e
visões de mundo. A herança material dos povos sem escrita
permite a realização de pesquisas por meio de analogias com
as sociedades indígenas atuais, para conhecer e elucidar as
mudanças sociais ocorridas nessas sociedades (AMORIM,
2010, p. 24).

História da Cerâmica 35
U1

Podemos dividir a história destas cerâmicas em algumas fases:

Ananatuba: Atribuída às primeiras sedimentações datadas entre o século VII e


o século X a.C. As peças encontradas exibem uma técnica bem desenvolvida. O
povo indígena era dividido em tribos, cada uma ocupando uma única cabana que
comportava uma centena de moradores;

Mangueiras: Pertencente ao grupo que sucedeu o primitivo Ananatuba, com


duração estimada entre o século IX e o século XII;

Formiga: Outro grupo contemporâneo deste último, mas possuindo uma


cerâmica mais rudimentar;

Aruã: Viviam em pequenas ilhas no Amazonas. Possuíam uma cultura bastante


peculiar, utilizavam urnas funerárias, um ritual que contribuiu muito na determinação
das fases.

Marajó: Destas cinco fases, a Fase Marajoara é a que apresenta a cerâmica mais
elaborada, sendo reconhecida por sua sofisticação. Os representantes desta fase
foram povos que habitaram a Bacia Amazônica entre o ano 980 a.C. até o século
XVIII, na ilha de Marajó. Podemos observar por meio de análise das peças cerâmicas
a evolução, o apogeu e a decadência de cultura marajoara. Foram encontrados
objetos com grande riqueza de detalhes e de cores: fusos, colheres, tangas, bancos,
estatuetas e adornos. Eram peças bastante elaboradas, mostrando que os índios
dominavam várias técnicas, tais como incisão, excisão, raspagem e pintura.

A cerâmica marajoara foi encontrada em Figura 1.16 | Cerâmica Marajoara


1871 pelos pesquisadores Charles Frederick
Hartt e Domingos Soares Ferreira Penna, que
visitavam a ilha naquele ano. Posteriormente,
com a chegada à ilha dos pesquisadores
Betty Meggers e Clifford Evans no final
da década de 1940, a pesquisa sobre esta
cerâmica ganha impulso.

Os métodos rudimentares indígenas


sofreram modificações com as instalações
de olarias nos colégios, engenhos e fazendas
jesuítas. Nessas fazendas, além de tijolos e
telhas, produzia-se também louça de barro
para o consumo diário.

A incorporação do torno na confecção


das peças cerâmicas parece ser a influência
Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_
mais importante nas técnicas existentes. O marajoara#/media/File:Cylindrical_vessel_
Collection_H_Law_170_n2.j>. Acesso em: 29 jul. 2015.

36 História da Cerâmica
U1

torno se fixou especificamente na faixa litorânea dos engenhos, nos povoados e nas
fazendas, proporcionando às peças maior simetria na forma, melhor acabamento e
diminuição do tempo de execução. Nas regiões do interior do país permanecem as
práticas indígenas.

Além de uma ampla e variada cerâmica produzida por diversas sociedades


indígenas, há também no Brasil uma abundante utilização de azulejos na arquitetura
de diversas épocas.

Todos os sítios arqueológicos do nosso país estão protegidos


pela Lei nº 3 924/61 e são considerados bens patrimoniais da
União. Até 2006, o Iphan já havia identificado cerca de 10 mil
sítios arqueológicos brasileiros. Você considera importante
a preservação e o estudo dos sítios arqueológicos? Por quê?

2.2 A cerâmica popular


O artesanato brasileiro, do qual faz parte a cerâmica, é um dos mais diversificados
do mundo, assegurando a sobrevivência de muitas famílias e comunidades. O
artesanato faz parte do folclore do país, expondo seus usos, seus costumes e
tradições e características de cada região.

Por ser um país de extensões continentais, a cerâmica é uma das formas de arte
popular mais produzidas no Brasil. Estas peças, primeiramente fabricadas pelos
índios, posteriormente sofre influência da tradição barrista europeia e dos modelos
africanos, e cresce em regiões onde a extração de sua matéria-prima, o barro, é
propício. Estas cerâmicas, geralmente, são modeladas para servirem como peças
utilitárias no uso cotidiano.

Cerâmica do Vale do Jequitinhonha (Minas Gerais): O Vale do Jequitinhonha


possui uma população de aproximadamente um milhão de habitantes e é
considerada uma das regiões mais pobres do Brasil, localizando-se no Norte
do Estado de Minas Gerais. É banhado pelo rio Jequitinhonha e seus afluentes.
Aproximadamente 75% de sua população habita áreas rurais, trabalhando
com agricultura e pecuária. Grande parte do solo do Vale é árido, passando
constantemente por secas e enchentes.

Os principais núcleos das atividades cerâmicas encontram-se nas cidades de


Araçuaí, Itinga, Santana do Araçuaí, Caraí, Itaobim, Taiobeiras, Turmalina, Padre
Paraíso, Minas Novas e Joaíma.

História da Cerâmica 37
U1

No primeiro sentido, como prática cotidiana, ela [a cerâmica]


tem mais de uma aplicação que varia em cada local e em cada
momento histórico. É através da cerâmica que as culturas
foram divulgadas e que os povos se influenciaram mutuamente.
Como prática cultural, seus usos se evidenciam ora no cotidiano
doméstico, no armazenamento de alimentos, ora como tijolos
na arquitetura, definindo usos predominantemente funcionais.
Nesse segundo sentido, a dimensão cognitiva desses usos
ultrapassa o caráter de utensílio, estando evidenciado o seu
caráter mágico-religioso e o estético. Temos como exemplo,
as diferentes manifestações culturais no Brasil, como as urnas
funerárias, representadas pela cerâmica na Ilha de Marajó e os
potes em forma de figuras femininas do Vale do Jequitinhonha
(RODRIGUES, 2011, p. 13).

Os homens geralmente saem da cidade à procura de emprego em outras


regiões e as mulheres ficam sozinhas, abandonadas ou muitas vezes viúvas,
cuidando do sustento da família. As atividades com barro no Vale se iniciaram com
a fabricação de peças utilitárias confeccionadas por essas mulheres, chamadas de
paneleiras, seguindo uma tradição oral passada de mãe para filha. Em sua maioria,
essas mulheres não sabem ler nem escrever, mas são artesãs reconhecidas
internacionalmente.

Atualmente os homens também participam do processo de manufatura das


peças. Fabricam panelas, moringas, vasilhas, potes e uma infinidade de peças
de uso cotidiano, além de peças decorativas como bonecas, representações de
animais e cenas do cotidiano retratando tipos, usos e costumes locais.

A região conhecida como Vale do Jequitinhonha é formada por diversos


municípios que se desenvolveram em torno do rio Jequitinhonha no
nordeste de Minas Gerais. Para saber mais sobre a rica cultura deste
povo e como se desenvolveu o modo de produção da cerâmica que é
manufaturada pelos artesãos mineiros no Vale, assista ao vídeo disponível
em: <https://www.youtube.com/watch?v=dQ57GyHZiwM>. Acesso em:
2 ago. 2015.

Podemos observar que as peças produzidas têm uma forte influência indígena.
O processo de produção cerâmica desta região ainda é rudimentar, utilizam fornos

38 História da Cerâmica
U1

a lenha e a técnica de rolinhos que substitui o torno de oleiro, além de placas e


ferramentas primitivas. Como há muitas jazidas de argila na região, os artesãos
usam pigmentos naturais na coloração da decoração das peças.

Figura 1.17 | Cerâmica do Vale do Jequitinhonha

Fonte: <https://www.ufmg.br/online/arquivos/001558.shtml>. Acesso em: 2 ago. 2015.

Mestre Vitalino (Nordeste): Uma das características mais importantes da cultura


nordestina é o artesanato, destacando-se a cerâmica de Mestre Vitalino (Vitalino
Pereira dos Santos). A produção deste artista se destaca por ser iconográfica,
representa visualmente a região Nordeste, e porque inspirou várias gerações de
artistas populares tais como Severino Vitalino (filho do mestre), Elias Vitalino (neto
do mestre), Manuel Eudócio (Mestre Eudócio), entre outros.

Mestre Vitalino nasceu em 1909 nas proximidades da cidade de Caruaru,


Pernambuco. Aprendeu com sua mãe a trabalhar com o barro quando tinha apenas
6 anos de idade. No início modelava pequenos bois e cavalos que os irmãos levavam
para vender na feira. Com o passar do tempo, o mestre passou a refinar sua técnica e
começou a retratar várias cenas do cotidiano da região. Os pesquisadores das obras
de Vitalino contam mais de 130 temas representados por ele.

Sua vida foi muito pobre, impossibilitando que ele frequentasse uma escola

História da Cerâmica 39
U1

porque tinha que trabalhar com seus pais na lavoura. Vitalino casou-se aos 22
anos de idade com Joana Maria da Conceição, a Joaninha, com que teve 16
filhos, dos quais apenas 6 sobreviveram. Após 17 anos de casamento se mudou
para o Alto do Moura, comunidade localizada a 7 Km de Caruaru, onde passou
o resto de sua vida. No Alto do Moura suas peças cerâmicas passaram a ser mais
conhecidas. Seu trabalho era muito admirado, todos os moradores queriam ver de
perto seu trabalho e aprender com o mestre. A partir de 1947 as obras do Mestre
Vitalino ganharam grande destaque na região Sudeste, a partir de uma Exposição
de Cerâmica Popular Pernambucana, organizada por Augusto Rodrigues, no Rio
de Janeiro.

A seguir, em 1949, expôs em São Paulo no Museu de Arte de São Paulo - MASP.
A partir desse momento, o trabalho de Vitalino passa a ser divulgado na imprensa
nacional e conquista o gosto das elites. Desta maneira, a feira de Caruaru, local onde
o mestre vendia suas peças, transformou-se em uma atração turística nacional.

Figura 1.18 | Cerâmica de autoria de Mestre Vitalino

Fonte: <http://www.galeriaestacao.com.br/artista/25>. Acesso em: 30 jul. 2015.

O apogeu da obra de Vitalino acontece em 1960, quando viaja para o Rio


de Janeiro e lá permanece por 15 dias, participando de programas de televisão,
frequentando exposições e jantares, concedendo entrevistas. O mestre não tinha
consciência do próprio sucesso, tanto que só passou a assinar suas peças depois
de ter sido aconselhado por um amigo.

Como ocorre com muitos artistas, o reconhecimento da obra do Mestre Vitalino


ganhou ainda mais importância e fama após a sua morte. Vitalino faleceu em 1963,
aos 57 anos, vítima de varíola e do descaso.

40 História da Cerâmica
U1

Para conhecer melhor a vida e a obra do grande ceramista Vitalino Pereira


dos Santos, não deixe de assistir ao documentário “Mestre Vitalino”,
disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FqW2ZTuP0rk>.
Acesso em: 2 ago. 2015.

Cerâmica Marajoara (Norte): No tópico anterior, “A cerâmica indígena”, já


estudamos a cerâmica Marajoara. As peças desenvolvidas por diversos artesãos
descendentes dos índios preservam a tradição marajoara, produzindo réplicas da
cerâmica indígena. O centro produtor e divulgador deste trabalho, atualmente,
localiza-se no estado do Pará, em Icoaraci, onde está centralizado aproximadamente
90% da comunidade ceramista com inúmeras olarias e oficinas. Os artesãos utilizam
o barro extraído dos igarapés na região, onde existem enormes quantidades de
argila em múltiplas cores e texturas. A modelagem é feita à mão ou em torno de
pé e a queima da peça é processada em fornos a lenha rústicos.

Figura 1.19 | Cerâmica Marajoara (artesanato)

Fonte: <http://lavrapalavra.blogspot.com.br/2014/04/marajoara-eo-nome-dos-habitantes-da.html>. Acesso em: 2 ago. 2015.

Para conhecer mais sobre a cerâmica popular marajoara, seus artesãos,

História da Cerâmica 41
U1

suas origens, suas técnicas e sua estética, assista aos dois vídeos disponíveis
em:
<https://www.youtube.com/watch?v=yLtVGJHKVS8>. Acesso em: 2 ago.
2015.
<https://www.youtube.com/watch?v=Tz_J5orfYXE>. Acesso em: 2 ago.
2015.

Você conheceu um pouco da história do artesanato


brasileiro, do qual faz parte a cerâmica. Este trabalho garante
a sobrevivência de muitas famílias e comunidades, fazendo
parte do folclore do país, dos nossos costumes e tradições e
expondo características de cada região em que se apresenta.
Dentro deste contexto socioeconômico e cultural, você acha
importante o apoio à continuidade deste trabalho? Justifique.

1. Mesmo sem conhecimento sobre o torno e trabalhando


com ferramentas rudimentares, superando estágios primitivos
da Idade da Pedra e do Bronze, os índios pré-cabralianos já
dominavam técnicas cerâmicas. Podemos dividir a história
destas cerâmicas em várias fases. Marque a alternativa correta
abaixo que define essas fases:
A. Mangueiras, Roseira, Formiga, Marajó.
B. Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Aruã, Marajó.
C. Tapajós, Aruã e Marajó.
D. Formiga, Mangueira, Tatu, Aruã.
E. Nenhuma das alternativas acima.

42 História da Cerâmica
U1

2. O artesanato brasileiro, do qual faz parte a cerâmica,


é um dos mais diversificados do mundo, assegurando a
sobrevivência de muitas famílias e comunidades. Assinale (V)
para verdadeiro e (F) para falso nas alternativas abaixo:
( ) Apesar de ser um país de extensões continentais, a
cerâmica não é uma das formas de arte popular mais
produzidas no Brasil.
( ) Os métodos rudimentares indígenas sofreram
modificações com as instalações de olarias nos colégios,
engenhos e fazendas jesuítas.
( ) A partir de 1947 as obras do Mestre Vitalino ganharam
grande destaque na região Nordeste.
( ) O centro produtor e divulgador da cerâmica Marajoara
localiza-se no estado do Pará.
( ) O torno cerâmico se fixou especificamente na faixa
litorânea dos engenhos, nos povoados e nas fazendas,
proporcionando às peças maior simetria na forma.

A partir das suas respostas, assinale a alternativa que apresenta


a sequência correta:
A. F, F, V, V, V.
B. V, V, F, V, V.
C. V, V, V, V, F.
D. F, V, F, V, V.
E. F, F, F, V, F.

2.3 Cerâmica na arte contemporânea brasileira


Podemos observar que no Brasil, o uso da cerâmica nas Artes Visuais ocorre de
maneira tímida e tem desenvolvimento lento, como se estivesse muito longe das
outras linguagens das artes visuais, desenho, pintura etc.

Inicialmente, muitos artistas brasileiros usaram a cerâmica como suporte para a


pintura, em substituição à tela. Destacam-se: Volpi, Portinari, Djanira, Paulo Rossi,
Poty, Roberto Burle Marx, Athos Bulcão. Por intermédio da influência portuguesa,
da faiança de revestimento, o azulejo era o material mais empregado. Lentamente

História da Cerâmica 43
U1

este material vai se libertando de seus fortes valores tradicionais provenientes da


Europa. Alguns artistas, por um longo tempo, transferiram os desenhos para o
azulejo, como se ele fosse uma tela branca.

Esse processo, aos poucos foi sendo mudado. No início dos anos 40, Portinari
foi o grande responsável por essa transformação, começando a usar figuras soltas
para criar os fundos das suas composições com motivos marinhos. Outros artistas
seguiram o caminho de Portinari, usando o azulejo como módulo individual
e incrementando a palheta de cores. Com o passar do tempo, os exageros
decorativos são substituídos por uma preocupação maior com sua representação
aeroespacial.

A partir do final da década de 80 muitas galerias e museus abrem suas portas


para expor obras cerâmicas como um dos meios de expressão plástica: MAM,
Galeria São Paulo, Toki Arte, Paulo Figueiredo, Mônica Figueira, situadas em São
Paulo; Galeria Trindade no Rio de Janeiro; as Salas Corpo e Palácio das Artes, em
Belo Horizonte. A mídia e as revistas especializadas em arte também começam a
divulgar os trabalhos e exposições. Também são editados alguns livros específicos
sobre o assunto.

De modo geral, parece-nos ser possível dizer que os trabalhos


dos ceramistas brasileiros convergem para duas tendências:
fazer permeado por um olhar para as práticas culturais; fazer
centrado nos procedimentos técnico-construtivos. O Brasil,
sendo uma confluência de culturas, internacionalizou a nova
cerâmica com os imigrantes e com a volta de ceramistas
brasileiros que estudaram e estagiaram no exterior. Podemos
compreender que as diversidades de linguagens que a arte
cerâmica apresenta estão em parte ligadas às diferenças
culturais, e isso se dá pelos inúmeros surtos colonizadores
ou migratórios assimilados pelos brasileiros. No entanto,
o nosso fazer cerâmico dialoga para além dessa interface
predominantemente cultural, centrando-se, ainda, no
aprimoramento e desenvolvimento de experiências de cunho
mais técnico-construtivo, ou seja, ligado a uma poética de
materiais e procedimentos (RODRIGUES, 2011, p. 20).

Veja abaixo alguns artistas brasileiros contemporâneos que usam a cerâmica


como suporte para seus trabalhos artísticos. Entre eles destacam-se:

Kimi Nii (1947): Ceramista e escultora, viveu no Japão até completar nove
anos de idade. Chegou com a família no Brasil em 1957, na cidade de São Paulo.

44 História da Cerâmica
U1

Graduou-se em desenho industrial pela Faculdade de Artes Plásticas da Fundação


Armando Álvares Penteado – FAAP, em 1972. Trabalhou até 1979 como designer
gráfico. Em 1978 inicia suas atividades como ceramista. Sua produção é escultórica
e utilitária e faz uso do torno e da modelagem manual. Suas peças são esmaltadas
ou se aproveitam das tonalidades e da textura do próprio barro queimado.

A obra da artista vai além do artesanato e toma características de arte, indo além
dos aspectos utilitários das peças e possuindo um repertório formal muito pessoal.
Suas obras se inserem em exposições de artes visuais.

Figura 1.20 | Cerâmica da artista Kimi Nii

Fonte: <https://www.pinterest.com/pin/503769908293341512/>. Acesso em: 31 jul. 2015.

Norma Grinberg (1951): Nasceu na Bolívia. Muda-se para o Brasil em 1959 e


passa a residir em São Paulo. Suas atividades como ceramista se iniciam em 1972.
Em 1974 graduou-se no curso de licenciatura em desenho e plástica, na Faculdade
de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP.

A artista desprende a cerâmica de seu uso cotidiano, voltado a objetos utilitários,


dando um novo significado à cerâmica tradicional, produzindo objetos escultóricos
que nasceram de uma longa pesquisa plástica e acadêmica e de configurações
que Mantêm coerência e continuidade. É artista plástica e professora.

História da Cerâmica 45
U1

Figura 1.21 | Cerâmica da artista Norma Grinberg

Fonte: <https://www.pressworks.com.br/noticias/arte-em-condominios-promove-humanizacao-e-singularizacao-
espacos/656>. Acesso em: 2 ago. 2015.

Lygia Reinach (1933): Nasceu em São Paulo e é socióloga de formação


profissional. Inicia suas atividades com a cerâmica em 1979, em um curso de argila
e queima com Megumi Yuasa (1938). Entre 1980 e 1984, a artista desenvolve e
participa de oficinas-escola e cursos de cerâmica. É escultora e ceramista.

Figura 1.22 | Cerâmica da artista Lygia Reinach

Fonte: <http://tresuno.com.br/post/lygia-reinach-a-artista/>. Acesso em: 2 ago. 2015.

46 História da Cerâmica
U1

Antônio Poteiro (1925 – 2010): Antônio Batista de Souza nasceu na Aldeia


de Santa Cristina da Pousa, em Braga, Portugal, e faleceu em Goiânia. Muda-se
com a família para São Paulo em 1926. Em Minas Gerais começa seu trabalho
como ceramista, modelando peças utilitárias. Passa a residir em Goiânia. Em 1957,
por sugestão da folclorista Regina Lacerda, adota o apelido de Antônio Poteiro.
Progressivamente passa a apresentar em suas obras motivos regionais e temas
bíblicos. Além de ceramista, era escultor e pintor.

Figura 1.23 | Cerâmica do artista Antônio Francisco Brennand (1927):


Potero Francisco de Paula Coimbra de Almeida
Brennand nasceu a 11 de junho de 1927,
em Recife, Pernambuco.

A princípio, Brennand considerava


a cerâmica como uma arte utilitária,
menor, e por isso dedicou-se
principalmente à pintura a óleo. Mas
em 1948, ao chegar na França, visitou
uma exposição de cerâmicas de Pablo
Picasso, descobrindo que muitos dos
artistas da Escola de Paris haviam
utilizado a cerâmica como suporte
artístico: Picasso, Chagall, Matisse,
Braque, Gauguin, e principalmente Joan
Miró.

No início da década de 1950, quando


passava por Barcelona, Brennand
conhece o trabalho de Antoni Gaudí,
cujas obras causam-lhe forte impressão.
Depois de passar um tempo na Europa
(1948–1951), o artista retorna ao Brasil e
Fonte: <http://educativopavilhao.blogspot.com. decide aprofundar-se no conhecimento
br/2012/01/para-saber-mais.html>. Acesso em: 2 ago.
2015. das técnicas da cerâmica.

Em 1971 inicia a reforma da velha


fábrica de cerâmica fundada por seu pai em 1917, a Cerâmica São João da Várzea.
Esse conjunto, encontrado em ruínas, deu início a um grande projeto de esculturas
cerâmicas. Brennand transforma a construção em um imenso ateliê habitado
por seres fantásticos, painéis, objetos e esculturas cerâmicas. O artista trabalha a
cerâmica com a forma e a cor, conseguindo uma grande quantidade de tonalidades
através da queima das peças. As esculturas são totêmicas ou se relacionam com os
signos da tradição popular. Algumas esculturas apresentam um caráter fortemente
sexual, ligando-se a culturas arcaicas e a rituais de fertilidade.

História da Cerâmica 47
U1

Figura 1.24 | Ateliê do artista Francisco Brennand

Fonte: <http://www.40forever.com.br/a-otima-do-finde/>. Acesso em: 2 ago. 2015.

Para conhecer melhor o trabalho desses ceramistas contemporâneos


que vimos acima, assista aos vídeos:
Kimi Nii:
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=UaHwCyPYugg>.
Acesso em: 1 ago. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=xnSLUwjxeJE>.
Acesso em: 1 ago. 2015.
Norma Grinberg:
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fnjoZHY7Zi>.
Acesso em: 1 ago. 2015.
Lygia Reinach:
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=DwbxcAVdhBM>.
Acesso em: 1 ago. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-oNuKGO-I6s>.
Acesso em: 1 ago. 2015.

48 História da Cerâmica
U1

Antônio Poteiro:
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nPNMgU83BvM>.
Acesso em: 1 ago. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fkqJ03dJ6-Q>.
Acesso em: 1 ago. 2015.
Francisco Brennand:
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=dbI1GOW4ER4>.
Acesso em: 1 ago. 2015.

Nesta Unidade sobre a história da cerâmica, aprendemos algumas


coisas sobre esta arte:
• Conhecemos as origens da palavra cerâmica e as necessidades
do cotidiano do homem neolítico que fizeram nascer as técnicas
para trabalhar o barro.
• Estudamos sobre a cerâmica inserida nas diferentes culturas e
suas relações tanto utilitárias como estéticas com essas culturas,
desde a antiguidade à atualidade.
Conhecemos um pouco também sobre a relação da produção
cerâmica com as Artes Visuais contemporâneas.
Aprendemos sobre a cerâmica indígena brasileira, suas origens,
seus desdobramentos e seus estilos.
Entramos em contato com a história da cerâmica popular
brasileira e seus principais representantes nas diversas regiões
do país.
Analisamos a cerâmica e sua relação com a arte contemporânea
brasileira.
Conhecemos a história de alguns artistas ceramistas brasileiros.

A cerâmica nasce do seio do Período Paleolítico com aspectos, a

História da Cerâmica 49
U1

priori, puramente utilitários, e logo toma características simbólicas.


Suas técnicas se aprimoram, juntamente com o desenvolvimento
da raça humana. De acordo com a cultura que a fabrica, cada
uma possui suas peculiaridades: sua utilização, sua estética e seus
códigos culturais. Devido ao seu papel dentro da cultura de um
povo, ela passa a ter o status de arte.
A cerâmica está também fortemente presente na cultura brasileira.
Nasceu com os índios Marajoaras e se espalhou pelo país, tanto na
nossa cultura popular como em nossa arte contemporânea.
Vamos seguir para a próxima unidade, onde estudaremos a origem
da argila, suas características e suas aplicações.

1. A fabricação de peças cerâmicas Maiólicas tem início


durante a Idade Média em várias localidades da Itália.
Escavações arqueológicas encontraram as peças mais antigas
na Sicília. Podemos definir Maiólica como:
A. Cerâmica mais plástica e impermeável que não permite
vitrificação.
B. Espécie de cerâmica considerada sagrada e que era utilizada
na manufatura de urnas funerárias.
C. Cerâmica branca, plástica e porosa.
D. Peças cerâmicas produzidas no apogeu da cultura Maia.
E. Todas as alternativas acima.

2. As peças cerâmicas gregas faziam parte do seu cotidiano,


devido a sua grande utilidade em serviços domésticos.
Eram utilizadas no armazenamento de mantimentos, de
água, de vinhos, de azeites e de perfumes, assim como nos
usos artesanais e comerciais e em cerimônias fúnebres ou
religiosas. Assinale abaixo a sentença que melhor define a
decoração dos vasos gregos:

50 História da Cerâmica
U1

A. Os gregos decoravam em seus vasos com retratos dos


cidadãos.
B. Os gregos retratavam nos vasos a fauna e a flora da região.
C. Os gregos retratavam nos vasos seus costumes, seus mitos,
sua cultura.
D. Os vasos gregos eram monocromáticos, sem decoração.
E. Na produção cerâmica grega não havia a confecção de
vasos.

3. Durante a Revolução Industrial surgem novos processos


de manufatura, há uma transição de técnicas de produção
artesanais para métodos de produção por máquinas. Assinale a
alternativa que melhor define o que aconteceu nos processos
de criação cerâmica logo após a Revolução Industrial:
A. A cerâmica passa a ser produzida em série, extinguindo-se
o seu valor artístico.
B. A cerâmica é substituída por objetos de vidro e de plástico.
C. Logo após a Revolução Industrial a China domina o
mercado mundial de objetos cerâmicos.
D. A argila passa a ser utilizada apenas na fabricação de
revestimentos cerâmicos.
E. Nenhuma das respostas acima.

4. Assinale (V) para verdadeiro e (F) para falso nas sentenças


abaixo:
( ) Há uma distinção entre cerâmica contemporânea, termo
que muitas vezes permite múltiplas interpretações, associando
as peças ao design ou ao artesanato, e entre cerâmica na Arte
Contemporânea. Muitos artistas contemporâneos não são
ceramistas, mas fazem uso da cerâmica em suas obras.
( ) No período medieval as olarias se encontravam situadas
perto de florestas e em áreas rurais, onde os solos eram ricos
em argila, em áreas drenadas e com fácil acesso às estradas e
ao transporte da água.

História da Cerâmica 51
U1

( ) Os artistas do Modernismo rejeitam de todas as maneiras o


uso da cerâmica em suas obras, considerando-a um material
popular demais para a arte.
( ) Na segunda metade do século XIX, a arqueologia se
interessa em outros territórios além da Grécia e de Roma e
investem em escavações em algumas regiões da Amazônia,
principalmente na ilha de Marajó.
( ) A obra da artista Kimi Nii transcende o artesanato porque
vai além dos aspectos utilitários das peças, conquistando o
status de arte por meio de um repertório formal muito pessoal.

A partir das respostas acima, assinale a sequência correta:


A. F, F, V, V, F.
B. V, V, V, F, F.
C. V, V, V, F, V.
D. F, F, F, F, V.
E. V, V, F, V, V.

5. A partir da imagem apresentada abaixo, assinale a alternativa


correta.

Fonte: <http://sabermaisarte.blogspot.com.br/>. Acesso em: 1 ago. 2015.

A. Cerâmica utilitária chilena.


B. Cerâmica marajoara.
C. Cerâmica oriental.
D. Cerâmica popular manufaturada no sul do Brasil.
E. Cerâmica produzida pelos índios Navajos.

52 História da Cerâmica
U1

Referências

AMORIM, Lilian Bayma de. Cerâmica marajoara: a comunicação do silêncio. Belém:


Museu Paraense Emílio Goeldi, 2010.
ARCHER, Michael. Arte contemporânea: uma história concisa. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
COSTA, Lucília Verdelho da. 25 séculos de cerâmica. Lisboa: Estampa, 2000.
DUARTE JÚNIOR, João-Francisco. Por que arte-educação? 6. ed. Campinas: Papirus,
1991.
FERRARA, Lucrécia D’Aléssio. A estratégia dos signos. São Paulo: Perspectiva, 1986.
FRIGOLA, Maria Dolors Ros. Cerâmica artística. Lisboa: Estampa, 2006.
MARTINS, Mirian Celeste; PICOSQUE, Gisa; GUERRA, M. Terezinha Telles. Teoria e
prática do ensino de arte: a língua do mundo. São Paulo: FTD, 2010.
RODRIGUES, Maria Regina. Cerâmica. Vitória: UFES, Núcleo de Educação Aberta e a
Distância, 2011.
A cerâmica grega: parte 2 - formas, finalidades e iconografia. Disponível em: <http://
thevintagegallery.blogspot.com.br/2014/09/a-ceramica-grega-parte-2-formas.html>.
Acesso em: 02 ago. 2015.
ARTE popular do Brasil: Mestre Vitalino. Disponível em: <http://artepopularbrasil.
blogspot.com.br/2010/11/este-blog-sera-inaugurado-com-uma.html>. Acesso em: 22
jul. 2015.
cerâmica do Vale do Jequitinhonha. Disponível em: <http://www.artdbrasil.com.br/
com_12.asp>. Acesso em: 02 ago. 2015.
CERÂMICA Medieval. Disponível em: <http://www.areliquia.com.br/artigos%20
anteriores/reliquia_Janeiro_2006/ceramica.htm>. Acesso em: 22 jul. 2015.
DESCOMPLICARTE: Vale do Jequitinhonha. Disponível em: <http://descomplicarte.
com.br/2013/10/vale-jequitinhonha/>. Acesso em: 20 jul. 2015.
FAZENDO Arte em Qualquer Parte. Disponível em: <http://stoenescu.blogspot.com.
br/2008/06/histria-da-cermica-graas-pratica-manual.html>. Acesso em: 23 jul. 2015.
PROJETO Experimental Artesanato. Disponível em: <http://www.eba.ufmg.br/
alunos/kurtnavigator/arteartesanato/origem.html>. Acesso em: 22 jul. 2015.

História da Cerâmica 53
Unidade 2

ORIGEM DA ARGILA

Marcelo Silvio Lopes

Objetivos de aprendizagem:

Conhecer a origem das argilas.

Identificar os diferentes tipos de argila e suas propriedades.

Entender a função dos esmaltes cerâmicos e suas especificidades.

Seção 1 | A argila e suas características


Na Seção 1, você conhecerá o surgimento da argila na natureza, o
processo natural que a cria e os tipos de argilas existentes. Conhecerá
também os elementos químicos que compõem a argila e suas
propriedades.

Seção 2 | Os esmaltes cerâmicos


Na Seção 2, você aprenderá sobre a origem dos esmaltes, suas
diferenças, seus componentes químicos e como utilizá-los nas peças
cerâmicas que já passaram pelo processo de queima.
U2

56 Origem da Argila
U2

Introdução à unidade

A argila é uma matéria orgânica, natural, e possui uma história. Nasce da ação
milenar da natureza, da decomposição de rochas e da fragmentação de pedras
que se dissolveram na água e que voltaram a se cristalizar em partículas. Existe uma
grande quantidade de rochas diferentes, dando origem a incontáveis tipos de terra.
Essas terras, quando entram em contato com a água, formam diferentes tipos de
barro, de argila.

A arqueologia registra que durante toda a história humana, em todas as suas


culturas, o homem faz uso da massa cerâmica para fabricar peças de uso diário ou
para se expressar artisticamente, dos povos primitivos aos artistas contemporâneos.

Partindo da premissa da Introdução à Unidade 1, de que a Arte é uma linguagem


não verbal e que precisamos conhecer seus elementos, sua História, seus códigos,
para dominar esta linguagem, na Unidade 2 continuaremos a estudar os elementos
cerâmicos e suas técnicas, com a intenção de compreender a multiculturalidade
do mundo e suas diferenças culturais, sensíveis e subjetivas.

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58 Origem da Argila
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Seção 1

A argila e suas características


Por meio do estudo desta seção, você irá compreender os processos de
transformação da rocha-mãe em argila. Compreenderá também as diferenças entre
as argilas, seus elementos químicos, suas propriedades e sua utilização.

1.1 O que é a argila?


A palavra argila diz respeito a uma substância terrosa que se apresenta em grãos
muito finos, de tamanho inferior a 0,002 mm, muito menor que um grão de areia
que tem entre 2,0 a 0,06 mm. São as partículas menores e mais leves que resultam
da decomposição de rochas feldspáticas (rochas que não contêm minérios). A
composição da argila resulta da combinação da sílica e da alumina e quando entra em
contato com outras substâncias, pode variar na cor, indo do branco ao avermelhado,
na plasticidade e na capacidade de absorção de água, formando o barro.

A argila é a matéria-prima da cerâmica. Quando misturada à água, forma uma pasta


plástica que se torna moldável, e quando é exposta a temperaturas bem altas por
períodos de tempo controlados, sofre transformações químicas que proporcionam
ao modelado um grau elevado de dureza e resistência.

Figura 2.1 | Argilas com colorações diferentes

Fonte: Disponível em: <https://lookaholic.wordpress.com/2013/02/14/faca-voce-mesmo-esfoliacao-purificante/>. Acesso


em: 04 ago. 2015.

Origem da Argila 59
U2

As argilas possuem inúmeras aplicações. São amplamente usadas na confecção


de vários produtos, que vão desde tijolos até semicondutores utilizados em
computadores. São empregadas inclusive na medicina e na cosmética como
produtos para beleza. A argila é também amplamente utilizada na manufaturação de
objetos utilitários e objetos de arte.

1.2 Origem e formação da argila


A argila deriva da decomposição ou transformação de rochas-mãe ocorridos
durante períodos de milhões de anos. Esta decomposição pode ocorrer de dois
modos: ataques químicos, por exemplo, pelo ácido carbônico, ou ataques físicos
como erosão, vulcanismo, pressões. Esses ataques produzem a quebra da rocha,
ocorrendo sua fragmentação em partículas finíssimas com cerca de 0.002 milímetros
de diâmetro.

As partículas, por serem muito leves, são levadas pelas correntes de água e
depositadas no lugar onde a força hídrica já não é forte suficiente para movê-las.
Deste modo, as partículas mais pesadas vão se acumulando primeiro, as partículas
que são mais leves ficam depositadas mais à superfície, nos locais denominados
depósitos argilíticos ou jazidas.

As argilas que são produzidas desta maneira são denominadas de Argilas


Sedimentares ou Secundárias, foram transportadas para áreas distantes da rocha-mãe
pela ação da água e se mesclaram com diferentes tipos de matérias orgânicas durante
o processo de transporte pela água. Essas matérias orgânicas se decompõem e geram
ácidos e gorduras que são absorvidos pelas argilas, deixando-as mais maleáveis,
flexíveis. Desta maneira, as argilas encontradas nas formações mais superficiais são
menos puras e possuem um grande teor de óxido de ferro, o que lhe confere os tons
avermelhados de cor encontrados em abundância no nosso país.

Existem também as Argilas denominadas Primárias ou Residuais. São produzidas


no mesmo local da rocha-mãe e por isso sofrem poucos ataques dos agentes
atmosféricos. Por permanecerem no mesmo local onde foram produzidas, não
foram contaminadas por elementos exteriores, como as Argilas Sedimentares.
Possuem também partículas mais grossas e, por este motivo, são menos plásticas e
apresentam coloração mais clara porque são mais puras.

1.3 As rochas-mãe
Para você entender melhor a formação da argila, vamos conhecer a estrutura
da terra e as rochas-mãe. A rocha-mãe, também conhecida como rocha matriz,
é a rocha que se desagregou, passando por um processo muito longo, exposta a

60 Origem da Argila
U2

mudanças de temperatura e à ação da chuva, do vento, da água dos rios e das ondas
do mar, até dar origem ao solo.

Figura 2.2 | Esquema demonstrando as camadas da terra

Fonte: Disponível em: <http://biorocha.blogspot.com.br/2011/09/excertos-da-tese-avaliacao-da.html>. Acesso em: 04 ago.


2015.

Podemos dividir a estrutura da terra em quatro camadas principais:

• A primeira camada (O) é a mais superficial, denominada Solo. É a camada


fértil, rica em húmus, onde a vegetação se desenvolve.

• A segunda camada (A) é produzida por sais minerais e divide-se em três


partes: 10% de calcário, 30% argila, formada geralmente por caulinita, caulino e
sedimentos de feldspato e 60% de areia, parte que permite a circulação do ar e da
água.

• A terceira camada (B) é formada por rochas parcialmente decompostas


pela erosão e pelos agentes geológicos. Após se decomporem completamente, são
transportadas para a camada de sais minerais e se transformam em sedimentos.

• A quarta camada (C) é denominada rocha-mãe ou rocha matriz. Essas


rochas encontram-se no início de sua decomposição.

A argila é composta quimicamente por silicato de alumina hidratado, mas possui


outros elementos variáveis, como o quartzo, micas, feldspatos, óxido de ferro e
outros minerais. Matérias orgânicas e metais que, considerados em conjunto, vão
definir as propriedades de plasticidade e de coloração.

O processo inverso à decomposição é denominado litificação. Neste processo

Origem da Argila 61
U2

a argila pode se transformar em uma rocha se o local de depósito for desidratado e


submetido a compactação através da pressão das camadas superiores.

1.4 Os tipos de argila que encontramos na natureza

A argila jamais deixou de ser utilizada pelos povos, através dos


tempos, para os mais variados propósitos, desde a fabricação
de tijolos e telhas, até postes, vasos, pratos, xícaras e os mais
finos objetos de porcelana. Analisando-se esses vários tipos
de objetos, e como nem toda a argila se presta à fabricação de
todos eles, costuma-se classificar as argilas em vários tipos,
conforme a maior ou menor presença de impurezas e tipos de
impurezas nela encontradas (ANDRADE, 1985, p. 15).

Você já estudou que as argilas apresentam diferenças em sua plasticidade e


coloração, diferenças que são definidas por outros elementos que se agregam à
argila no processo de decomposição da rocha-mãe. As argilas são classificadas a
partir dessas diferenças. Vejamos abaixo:

Argila natural: É o tipo de argila que foi retirada da jazida e que pode, após
ser limpa, ser usada no seu estado natural sem a exigência da adição de outras
substâncias.

Argilas vermelhas: Argilas que contêm um alto teor de óxido de ferro, o que dá
a ela a coloração avermelhada. São bastante plásticas e suportam temperaturas que
vão até 1.100°C, no entanto, podem ser fundidas a uma temperatura ainda maior
e também podem ser usadas com esmaltes para grês. O tom da sua coloração é
avermelhado escuro quando se encontra úmido, e quando biscoitada sua coloração
fica com um tom mais escuro, obedecendo o limite da temperatura no processo
de queima.

A primeira queima é denominada biscoito. Serve para transformar a


argila em cerâmica, tornando-a permanentemente dura. Geralmente
eleva-se até 800/900ºC. Esta queima deve ser bem lenta no seu início
para que não haja risco de as peças racharem ou empenarem, face a
grande quantidade de água existente na argila até atingir 200ºC. No final
do cozimento constata-se uma diminuição, encolhimento, de mais ou

62 Origem da Argila
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menos 10% em seu tamanho e volume, ficando a peça porosa e não


impermeável. Uma queima cuidadosa de biscoito dura cerca de oito horas
e deve-se aguardar, pelo menos, outras oito horas para abrir totalmente
a porta do forno, sob o risco de as peças racharem em decorrência do
choque térmico. Disponível em: <http://taua-ceramica.blogspot.com.
br/2010/03/tipos-de-queima.html>. Acesso em: 04 ago. 2015.

Caulim, também conhecido como argila da china: Argila primária e de pouca


plasticidade, muito utilizada na elaboração de massas para serem utilizadas
como porcelanas. Possui cor branca e sua fusão ocorre a uma temperatura de
aproximadamente 1.800°C. Este tipo de argila deve ser trabalhado em formas ou
moldes, sendo impossível sua manipulação com as mãos.

Argila refratária: Esta argila possui este nome devido a sua grande resistência
ao calor. Suas particularidades físicas oscilam muito, algumas são muito plásticas e
finas, outras possuem pouca plasticidade. Geralmente possuem alguma quantidade
de óxido de ferro e se encontram ligadas a sedimentos de carvão, podendo ser
usadas nas argilas que são submetidas a temperaturas muito altas de queima,
proporcionando maior resistência e plasticidade a essas peças. São utilizadas
frequentemente na fabricação de placas refratárias que funcionam como isolantes e
revestimentos para fornos.

Argilas de bola (Ball-Clay): Este é um tipo de argila que possui bastante plasticidade
e vitrifica ao atingir 1.300°C no forno. Apresenta um tom de cor azulado ou negro
e possui um alto grau de encolhimento, tanto no processo de secagem quanto no
processo de queima. Seu excesso de plasticidade a deixa pegajosa com a adição de
água, impossibilitando que seja manuseada sozinha. É utilizada para ser misturada
em argilas, proporcionando resistência e plasticidade maior à massa.

Argilas para grês: Argila do tipo refratária e sedimentária, plástica e de grãos finos.
Suportam altas temperaturas e vitrificam entre 1.255 e 1.300°C. Nesse tipo de argila
o feldspato age como um material fundente. Após sofrer o processo de queima sua
cor varia muito, sua cor varia do avermelhado escuro ao rosado claro, podendo
atingir um tom de cinza que também vai do claro ao escuro.

Bentonite: É um tipo de argila denominada vulcânica, origina-se das cinzas


vulcânicas fundindo ao atingir aproximadamente 1.200°C. Possui grande plasticidade,
pois contém na sua mistura mais sílica do que alumínio. Possui uma aparência e
textura gordurosa, podendo aumentar entre 10 a 15 vezes o seu tamanho quando
entra em contato com a água. Geralmente é misturada a outras massas cerâmicas
para aumentar o grau de sua plasticidade.

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Argila expandida: Este é um tipo de argila que é fabricada em fornos rotativos


grandes. São leves e possuem grande resistência mecânica. As principais
características são a leveza, a resistência, a inércia química, a estabilidade dimensional
e a propriedade de não pegar fogo. Funcionam muito bem como isolamento
acústico e térmico. É utilizada na arquitetura, como por exemplo a pavimentação da
ponte que liga o Rio de Janeiro a Niterói. Também é utilizado em algumas técnicas
de jardinagem.

Figura 2.3 | Argila expandida sendo utilizada em jardinagem

Fonte: Disponível em: <http://mulher.uol.com.br/casa-e-decoracao/album/horta_organica_album.htm#fotoNav=4>.


Acesso em: 23 ago. 2015.

1.5 Os tipos de massas cerâmicas


Além das argilas, devemos também considerar outros tipos de materiais cerâmicos
que são misturados na composição das argilas para produzirem as denominadas
pastas ou massas para cerâmica.

Vamos dividir a utilização dessas massas em dois grupos distintos, antiplásticos e


fundentes: Os antiplásticos são adicionados para reduzirem o processo de contração
das argilas quando estas secam. Os fundentes são adicionados com a finalidade de
abaixar a temperatura de fusão das peças. Nas argilas cerâmicas também podemos
adicionar carbonato de cálcio, bentonite, dolomita, feldspato, quartzo, caulim,
chamote e talco.

As peças cerâmicas também podem ser confeccionadas misturando-se duas ou


mais massas cerâmicas. Essas misturas vão obter algumas características próprias e
constituirão o que denominamos de massa cerâmica. As argilas ou massas devem ser
testadas quanto ao seu índice de retração, ou seja, porcentagem do encolhimento
quando a água da massa seca, antes de serem misturadas para a modelagem. Haverá
compatibilidade com as que encolhem na proporção mais aproximada uma da outra,
não apresentando rupturas ou rachaduras no processo de secagem e de queima.

64 Origem da Argila
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Podemos classificar as argilas em dois grupos distintos, as cerâmicas porosas, que


não são esmaltadas vitrificadas, e as esmaltadas (vitrificadas) que não são porosas.

Porcelanas: São produzidas com argilas brancas, com uma mistura de 30% a 65%
de caulim, 15% a 25% de quartzo e com 20% a 40% de feldspato.

Porcelana de ossos: Também conhecida como Boné China, é uma pasta dura,
transparente, branca e fina, constituída principalmente de ossos calcinados que
funcionam como fundentes. Sua composição é constituída de aproximadamente
50% de ossos calcinados, 25% de feldspato e 25% de caulim. A temperatura para a
queima dessas peças está entre 1.200°C e 1.250°C.

Louça: A massa desse tipo possui menos caulim do que a porcelana, associando-
se a argilas mais plásticas. São porosas e de coloração branca ou marfim, necessitando
de vitrificação posterior.

Grés: Esta massa de grande resistência necessita de queima em alta temperatura,


como a porcelana. Apresenta possibilidades de colorações avermelhadas, brancas,
cinzas, pretas, etc. Depois de passarem pela queima que vai de vai de 1.150°C a
1.300°C, as peças em grés tornam-se impermeáveis, vitrificadas e opacas.

Terracota: Argila vermelha que é conhecida popularmente como barro e possui


grande plasticidade. Quando a queima atinge 1.100°C, as peças podem adquirir
cores que vão de tons creme, podendo atingir tons avermelhados, dependendo da
quantidade de óxido de ferro responsável pelas colorações vermelhas.

Massas Refratárias: Seu ponto de fusão é mais alto que 1.600°C, podendo resistir
a muitos choques térmicos. São argilas mescladas com Chamote de outras argilas
que já passaram pelo processo de queima e posteriormente trituradas.

Figura 2.4 | Chamote sílico aluminoso

Fonte: Disponível em: <http://www.revidrex.com.br/conteudo/produtos.htm>. Acesso em: 05 ago. 2015.

Origem da Argila 65
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1.6 Como coletar a argila na natureza


A argila pode ser coletada perto de rios, em cortes verticais existentes em algumas
beiras de estradas, e em muitas localidades onde o solo expõe a camada de terra
argilosa.

A argila pode ser identificada por meio das rachaduras que às vezes apresenta
em sua superfície, devido à contração que ocorre quando esta se torna seca. Não é
sempre que demonstra essa característica, mas é um indicativo para quem procura
barro no campo.

Figura 2.5 | Argila encontrada no campo

Fonte: Disponível em: <http://www.torange-pt.com/Backgrounds-textures/texture/rachado-terra-Grande-627.html>. Acesso


em: 05 ago. 2015.

Para ter certeza se uma terra é argilosa ou não, execute o seguinte processo:
desfaça um pouco de terra na palma da mão, retirando as impurezas como pedras
ou pequenas folhas. Junte a esse pó algumas gotas de água ou saliva e misture bem,
até conseguir uma pasta uniforme. Lembre-se, o que caracteriza a terra argilosa é
o fato de esta ser formada por partículas muito finas, podendo formar uma massa
bastante ligada. É esta plasticidade que devemos buscar quando pretendemos
encontrar argila.

66 Origem da Argila
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Após conferir a plasticidade do barro, você pode preparar uma quantidade maior
de argila. Depois de coletar a terra, desmanche-a até transformá-la em um pó. Use
um martelo para facilitar o processo. Retire as impurezas como pedras e folhas e
peneire todo o pó com a ajuda de uma peneira fina. Após conseguir um pó fino e
limpo, adicione água vagarosamente, até obter uma pasta uniforme.

Segundo Fava (2012), os alunos estão cada vez mais conectados


digitalmente através de computadores, smartphones, tablets,
criando novos paradigmas, novos modelos mentais, novos
hábitos. Para o autor, há uma necessidade de se trabalhar com
as novas tecnologias em sala de aula, havendo uma aliança
entre educação e tecnologia. Dentro desta perspectiva, você
considera que aulas onde são utilizados materiais como a
argila ainda são importantes? Justifique.

1.7 As argilas e suas propriedades


Como você já estudou anteriormente, a argila pode variar em suas propriedades
dependendo dos materiais que foram misturados a ela. Essa mistura pode ocorrer
espontaneamente na natureza ou pelo ceramista em seu local de trabalho. Vamos
conhecer algumas dessas propriedades.

• Plasticidade: Plasticidade é a capacidade maior ou menor das argilas de


serem moldadas, em certas condições de umidade, sem variação do volume. Esta
plasticidade muda dependendo da composição química da argila, da quantidade e
temperatura da água incorporada à pasta, do tamanho dos grãos de argila, fator este
denominado granulometria, quanto menor o grão, mais plástica é a argila.

Esta propriedade também vai variar depender da adição de materiais plastificantes


para aumentar a plasticidade, ou defloculantes, para diminuir a plasticidade. Uma argila
magra possui pouca plasticidade e baixa contração, seca mais rápido e tem menor
risco de sofrer danos. Ao contrário, uma argila gorda possui grande plasticidade, mas
grande contração no processo de secagem, podendo sofrer danos.

Você pode testar a plasticidade da argila que vai utilizar da seguinte

Origem da Argila 67
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maneira: Faça uma pequena cobrinha de argila e depois dobre-a em


formato de arco. Quanto menos rachaduras aparecer na massa, mais
plástica e fácil de trabalhar é a argila. Quanto mais rachaduras apresentar,
mais refratária e difícil é sua modelagem.

Figura 2.6 | Teste de plasticidade em diferentes argilas

Fonte: O autor (2015)

• Endurecimento: A peça cerâmica só fica totalmente seca após sofrer


queima no forno apropriado, mas a peça adquire dureza e estrutura antes desta
etapa. Em alguns casos conseguimos finalizar a peça em um estado denominado
ponto de couro, quando a argila se encontra com sua textura entre o mole e o duro.
Este ponto de couro permite uma finalização na modelagem sem que a peça sofra
deformações. Várias técnicas de decoração são aplicadas neste ponto.

Se a peça ainda não sofreu queima no forno cerâmico, o endurecimento é


reversível, basta acrescentar água com cuidado para que a peça não sofra rachaduras.
Uma das técnicas possíveis para isso é envolver a peça em um tecido úmido
e guardado em um saco plástico, para que a água do tecido não evapore e seja
absorvida pela peça. Mas se a peça cerâmica já passou pelo forno, o endurecimento
é irreversível. O tijolo, por exemplo, é um bloco de argila que passou pela cozedura
no forno cerâmico. Não adianta molharmos o tijolo, ele jamais vai voltar ao estado
de massa da argila.

• Contração: É a propriedade que consiste na evaporação da água. À medida


em que a peça seca vai diminuindo de tamanho, encolhendo, em uma proporção
que varia de 3% a 10%. Este encolhimento depende da dimensão das partículas da
argila e da quantidade de água separando-as.

Ao moldar suas peças, não se esqueça de que as partes mais finas vão secar mais
rapidamente e, consequentemente, encolherão mais rapidamente também do que o

68 Origem da Argila
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resto da peça. Desta maneira, devemos controlar a secagem. Em peças com grandes
diferenças em suas proporções, você pode envolver as partes menores ou mais finas
em um plástico, para que sequem mais lentamente. Se as diferenças de proporção
não forem muito grandes, você pode envolver as partes menores em jornal.

• Porosidade: Esta característica está relacionada com o tempo de secagem,


com a resistência à rachadura ou empenamento que ocorrem com a secagem e
com a aplicação, ou não, de revestimento vítreo. Quanto menos porosa é a peça,
mais resistente é. Quanto mais porosa, menos resistente. Após a cozedura de uma
peça cerâmica, o seu endurecimento torna-se definitivo, podendo ser exposta
ao fogo sem sofrer alterações. Quanto mais alta a temperatura da queima, mais
resistente e impermeável torna-se a peça cerâmica.

Você pode brunir, o mesmo que dar polimento, a uma peça em ponto de
couro – quando a peça já está dura, mas ainda não está completamente
seca. Pegue uma colher e esfregue sua parte convexa na peça toda,
dando polimento. Este procedimento também pode ser realizado com
um saco de plástico mais fino e fosco. Isto tornará a peça menos porosa
e levemente brilhante. Esta técnica é utilizada desde a antiguidade e
também na cerâmica indígena contemporânea.
Disponível em: <http://www.portorossi.art.br/web%20glossario.html>.
Acesso em: 11 ago. 2015.

• Sinterização: É o nome designado ao processo de endurecimento da


argila após secagem e passagem pelo forno para consolidar definitivamente este
endurecimento por meio da ação do calor. Este processo ocorre por volta dos 600ºC,
onde a argila deixa de ser argila e transforma-se em cerâmica.
Figura 2.7 | Argilas coloridas antes de serem modeladas

Fonte: Disponível em: <https://atelierdamonica.wordpress.com/tag/massa-ceramica/>. Acesso em: 23 ago. 2015.

Origem da Argila 69
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• Coloração: As argilas podem ser encontradas em diferentes cores na natureza,


dependendo de sua pureza. O ceramista também pode acrescentar corantes e óxidos
para modificar suas cores, além de conseguir uma grande variação de tons de acordo
com a temperatura da queima e da atmosfera do forno. A mesma argila pode variar de
vermelho vivo a 900ºC a tons de preto a 1.100ºC. Veja abaixo as cores das argilas mais
comumente encontradas na natureza e suas composições:

Argilas brancas: apresenta ausência de compostos de ferro, manganês e titânio,


bem como de matéria orgânica em sua composição.

Argilas pretas e cinzentas: apresenta em sua composição matéria orgânica e, às


vezes, óxidos de manganês.

Argilas vermelhas, laranjas e amarelas: presença de óxidos e hidróxidos de ferro que


pode dar uma extensa gama de cores quentes às argilas.

Argila roxa: origem não muito bem esclarecida, pode estar ligada à mistura de
óxidos de ferro e de manganês em sua composição.

Argila verde: apresenta alguns compostos de ferro em forma reduzida na


composição.

A cerâmica, assim como as demais técnicas do fazer humano,


evoluiu no decorrer do tempo. Do seu nascimento na cultura
paleolítica, passando pela revolução industrial e chegando
à contemporaneidade, constatamos que a cerâmica
evoluiu tanto na pesquisa dos seus componentes químicos,
proporcionando novas cores e texturas, quanto nas pesquisas
para novas ferramentas e tecnologias para a manipulação da
massa cerâmica e sua modelagem. Dentro deste contexto,
dê sua opinião sobre a importância da pesquisa mediada pelo
professor dentro da sala de aula.

Você pode misturar a argila com diferentes tipos de papéis para diminuir
o peso da peça. Esta técnica é denominada Paper Clay. Basta rasgar o
papel em pedaços pequenos e deixá-lo de molho por 24 horas. Depois
bata em liquidificador industrial, formando uma pasta de papel. Misture a

70 Origem da Argila
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essa pasta a argila em pó em proporção aproximada de 30% papel e 70%


argila e bata mais. Deixe a massa resultante descansar em uma superfície
que absorva água. Lembre-se, quanto mais papel você acrescentar, mais
quebradiço fica a argila. Para saber mais acesse o site: <http://www.ufrgs.
br/lacad/massas_paper_clay.html>. Acesso em: 18 ago. 2015.

1. O que é argila?
A. É uma substância terrosa que se apresenta em grãos muito
finos que resultam da decomposição de rochas feldspáticas.
B. É a mistura de barro com areia muito fina.
C. São substâncias tóxicas que nascem da decomposição das
rochas-mãe em um processo que pode durar milhares de anos.
D. São tipos de terras misturadas pelas intempéries, tais como
chuvas, ventos, e que resultam em uma massa possível de ser
moldada pelo homem.
E. É uma substância terrosa que se apresenta em grãos não
muito finos, criadas pelas enxurradas em tempos de cheias dos
rios.

2. Quais as propriedades apresentadas pelas argilas?


A. Argila natural, argila vermelha, argila de Grés.
B. Feldspato, sílica, manganês.
C. Plasticidade, endurecimento, contração, porosidade,
sinterização, coloração.
D. Plasticidade, endurecimento, rugosidade, porosidade, brilho,
coloração.
E. As argilas não apresentam propriedades específicas.

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72 Origem da Argila
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Seção 2

Os esmaltes cerâmicos
A palavra esmalte (vidrado) designa, de modo geral, a película vítrea que reveste
todos os produtos cerâmicos. Esta denominação é muito genérica e pouco
satisfatória, exigindo uma definição mais pontual para entendermos o que vem a
ser o esmalte em relação às suas propriedades, sua temperatura de fusão e tipos de
cerâmicas a que está destinado.

Desta maneira, podemos definir que, sob a perspectiva do ceramista, o esmalte


pode ser considerado como um vidro que tem como propósito cobrir determinada
superfície, produzindo um corpo vítreo quando é aplicado em uma camada delicada
sobre a peça cerâmica já biscoitada, ou seja, já passou pelo forno a uma temperatura
entre 800ºC a 900ºC.

Os esmaltes podem ser transparentes, opacos, mates, etc., e podem apresentar


uma vasta palheta de cores e texturas inimagináveis, impossíveis de se obter com
outros pigmentos e coberturas tais como o óleo e a laca. Quando é aplicado, a
maior parte dos esmaltes se apresentam brancos, acinzentados ou rosados, não
sendo possível ver sua cor final. Somente após o processo de queima desenvolvem
uma cor própria.

2.1 A origem dos esmaltes cerâmicos


Vamos primeiramente definir o termo “Esmalte”, já que sua denominação pode
variar de região para região.

Vidrado: É uma camada de vidro preparada a partir de misturas com diferentes


materiais que ao fundir aderem completamente ao objeto cerâmico. Geralmente são
transparentes, com brilho ou semibrilho (mate).

Cobertura: São vidrados transparentes que se aplicam sobre peças cerâmicas,


geralmente já decorados com outros esmaltes.

Verniz: São vidrados transparentes ou mates que podem ser coloridos e que
geralmente sofrem uma monoqueima, ou seja, são cozidos uma única vez. Os

Origem da Argila 73
U2

vernizes permitem uma cozedura dupla da peça cerâmica.

Esmalte: Este termo é o mais utilizado e aceito universalmente. Em geral refere-se


a vidrados opacos.

Já estudamos na Unidade 1 a História da Cerâmica. Agora vamos conhecer uma


breve história da utilização dos esmaltes.

A esmaltação das peças cerâmicas originou-se no Egito. O fragmento mais antigo


de uma peça esmaltada encontrada em escavações, data de aproximadamente 3.000
a.C. confeccionado em policromia, onde se pode ler “Rei Hens”. Muitos outros objetos
esmaltados foram encontrados posteriormente em escavações arqueológicas, tais
como colares, escaravelhos, estatuetas e amuletos.

Babilônios e assírios também desenvolveram inúmeras técnicas de esmaltação e


suas peças cerâmicas atingiram um alto grau de perfeição, vários séculos a.C.

Os assírios foram sucedidos pelos persas, e trabalhavam com uma argila com
bastante sílica, obtendo objetos com alto brilho e diferentes cores.

Os gregos e romanos não copiaram as técnicas de esmaltação dos persas, apesar


de manterem um comércio muito ativo com a Pérsia. Os vasos e urnas dos gregos
e romanos, em sua grande maioria, são revestidos com uma fina camada de esmalte
denominado lustre. Não se sabe exatamente como os gregos e romanos conseguiam
este lustre, suspeita-se que era constituído de uma argila plástica silicosa misturada
a álcalis que agiam como fundentes, a cor escura deste lustre era obtido através da
adição de óxido de ferro, que durante a queima em uma atmosfera redutora (forno
a lenha), reagiam com os óxidos metálicos da argila, produzindo um efeito delicado.
Ao contrário das telhas e ladrilhos dos babilônios, persas e egípcios, que eram
frequentemente revestidas com uma grossa camada de esmalte.

A cerâmica esmaltada do Extremo Oriente alcançou um aperfeiçoamento notável


nos séculos III a.C. De acordo com os historiadores chineses, neste período surgem as
primeiras peças de porcelana esmaltada com diversas cores; brancas, escuras, verde
azuladas, cremes etc. Em alguns objetos descobertos em escavações arqueológicas
podemos verificar um alto grau de domínio técnico e de habilidade artística nas peças
esmaltadas produzidas por esses povos.

Podemos dividir a história da cerâmica esmaltada fabricada na Europa Continental


da seguinte maneira: A arte da cerâmica que se encontrava inexpressiva na Europa
durante vários séculos, conquistou um novo impulso após a queda do Império
Romano.

No decorrer de muitos séculos os italianos copiaram artigos importados da

Espanha, desenvolvendo estio próprio somente a partir do século XV. Um dos

74 Origem da Argila
U2

artistas cerâmicos de maior expressão neste período foi Luca Della Robbia, nascido
em Florença em 1400. Este artista revestia suas esculturas com camadas de esmalte
opaco de estanho, com a finalidade de deixar as suas peças impermeáveis e mais
bonitas.

A França, Inglaterra e Alemanha são países que desenvolveram técnicas similares às


descritas acima, no mesmo período.

A esmaltação comercial foi iniciada ao mesmo tempo, na Europa Central, na


Boêmia e na Inglaterra, aproximadamente em 1830.

Segundo Le Goff (2005), o homem tem um interesse crescente


pelos costumes de outras culturas tais como da alimentação,
das vestimentas, das moradias, das ferramentas, do cotidiano e
principalmente do simbólico. Tal disciplina vai além da História
e denomina-se Antropologia. Qual a importância do estudo
desses fatores dentro do contexto discutido em sala de aula?

Figura 2.8 | Vasos esmaltados e queimados

Fonte: Disponível em: <http://api.ning.com/files/-oJc*Flmww85M9UU85nkSTdZbja6lCakpcInYlIaJzEYQF01Fh4dxf7gvxc*dJp


XMtxevYuDD56o2bwvOFn8fOCKPOkKrB0m/vs4.JPG>. Acesso em: 11 ago. 2015.

Origem da Argila 75
U2

ATENÇÃO: Alguns vidrados (esmaltes) são extremamente tóxicos e nunca devem


ser trabalhados por crianças. Adultos que forem trabalhar com esses esmaltes devem
usar todos os equipamentos de segurança: luvas, máscara, avental.

2.2 A composição dos esmaltes


Os esmaltes dividem-se em duas categorias: os plúmbeos, que contêm grande
quantidade de chumbo, ou os alcalinos, que apresentam aproximadamente 3%
de chumbo. Os plúmbeos são altamente tóxicos, e nunca devem ser utilizados na
esmaltação de peças utilitárias, tais como copos, pratos, jarras etc. Os esmaltes alcalinos
não apresentam uma porcentagem de chumbo que possa ser considerada tóxica.

Vamos conhecer agora algumas propriedades dos esmaltes:

• Opacidade: É a propriedade que tem o esmalte de, após a queima, não


permitir ver a cor da cerâmica original. Pode ter aparência brilhante ou acetinada. Os
vidrados com aparência acetinada são denominados mate.

• Transparência: É o esmalte ou frita que, após a queima, permite que se veja a


cor original da cerâmica. Também pode ter aparência brilhante ou acetinada.

Composição dos Esmaltes: As substâncias que compõem os esmaltes cerâmicos


podem ser fundentes, refratárias, corantes ou opacificantes. Vamos ver cada uma delas:

Fundentes: São denominados também como fluxos ou bases reagentes. Ao


contrário das refratárias, os fundentes diminuem a temperatura de fusão dos esmaltes
quando se combinam com as outras substâncias. Os mais comuns são o óxido bórico
(funde a 600ºc), óxido de chumbo (800ºc), óxido de sódio (850ºc), óxido de potássio
(890ºc), carbonato de cálcio (825ºc) e carbonato de bário (824ºc).

Refratárias: Têm a função de elevar a temperatura de fusão dos materiais quando


estão no forno. São eles: quartzo (1.713ºc), feldspato (1.140 a 1.270ºc), alumina
(2.020ºc), caulim (1.180 a 1.600ºc) e magnésio (2.800ºc). Dentro deste contexto, a
substância mais relevante é a sílica, que se apresenta no quartzo, no feldspato, no
caulim e na argila. É considerada o vitrificante universal, pois se faz presente em todos
os esmaltes e vidros. Para se produzir um esmalte é necessária a presença da sílica e
de mais um fundente.

Vamos conhecer abaixo algumas dessas substâncias:

• Chamote: É um material refratário, uma argila moída que pode apresentar


diferentes granulometrias, ou seja, diferentes tamanhos de grãos. Este material facilita a
secagem, aumentando a resistência da peça no processo da queima. O chamote deve
sofrer queima com temperatura superior da que sofrerá a argila que está sendo usada,
para que esta não sofra transformações nesta nova queima. A quantidade máxima de

76 Origem da Argila
U2

Chamote na argila não deve ultrapassar a 60%.

O chamote sempre, deverá dilatar menos do que a pasta. Não deve conter
muito quartzo nem cal. O melhor é o de ladrilhos de forno. Convém
molhar o chamote e mantê-lo úmido antes de introduzi-lo nas pastas.
Dessa maneira, se obtém uma íntima união entre a argila aglutinante
e o chamote. As pastas com chamote devem permanecer úmidas e
guardadas por bastante tempo, para que não se desagreguem ao serem
trabalhadas. Para pastas úmidas trabalhadas à mão, deve-se introduzir 30
a 35% de chamote (ANDRADE, 1985, p. 23).

• Calcite (carbonato de cálcio): É obtido a partir do mármore e do calcário.


Quando está isolado, funde a alta temperatura, mas quando misturado com outras
matérias cerâmicas seu ponto de fusão reduz substancialmente. Quando combinado
com argila vermelha, seu ponto de fusão desce a 1.000ºc. Quando combinado com
sílica (material desengordurante) pode diminuir o risco das pequenas rachaduras no
processo de secagem da peça.

• Sílica (quartzo): Material refratário que reduz a contração das argilas, melhorando
a dilatação térmica e a resistência, funcionando como material desengordurante. Seu
ponto de fusão é de 1.600ºc, abaixo disso é anti-fundente (antiplástico).

• Feldspato: É um material refratário, resultante da decomposição do granito,


usado em peças que vão passar por altas temperaturas.

Prosseguindo com nossos estudos, vamos conhecer outros materiais que podem
fazer parte da composição dos esmaltes.

Colorantes: Como já estudamos anteriormente, os colorantes, ou corantes, são


responsáveis pela cor dos esmaltes e são conseguidos por meio dos óxidos metálicos:
cobre, ferro, manganês, cromo, antimônio, níquel etc., ou com misturas de vários
óxidos. Não se esqueça de que os óxidos produzem cores distintas de acordo com as
bases plúmbeas ou alcalinas dos esmaltes. Veja a tabela de óxidos abaixo:

ÓXIDO BASE PLÚMBICA BASE ALCALINA


Óxido de Cobre Verde Turquesa
Óxido de Cobalto Azul Profundo Azul Violáceo
Óxido de Ferro De Amarelo a Bordô Caramelo
Óxido de Manganês De Pardo ao Marrom Tom Violeta
Óxido de Cromo Diferentes Cores e Texturas Verde Opaco

Origem da Argila 77
U2

Óxido de Antimônio Amarelo Opaco Branco


Óxido de Níquel De Mel a Verde A cor do esmalte escurece

Opacificantes: Pode produzir efeito translúcido, opaco, semimate, mate ou cristalino,


de acordo com a quantidade usada. Os opacificantes também podem resultar em
manchas interessantes no esmalte da peça. Veja abaixo quais são os mais usados:

• Óxido de estanho: Este óxido permite a criação de cores artísticas,


proporcionando tons pastel. Por este motivo é considerado o melhor opacificante,
devendo ser usado de 12% a 15%. O óxido de estanho utilizado com a base plúmbica
resulta em um tom suave de amarelo. Com a mistura de óxido de cobre, a base plúmbica
e o estanho, será obtido um tom de verde suave. Com a base, o estanho e o cobalto,
você obterá um azul de tom pastel. A base, mais o estanho e o ferro resultam em um
amarelo alaranjado claro. Utilizando apenas a base alcalina e o estanho, sem óxidos
colorantes, o resultado será o branco opaco para maiólica. Misturando com o cobre
você conseguirá como resultado o turquesa; misturando com manganês você obterá
um violáceo quase rosado.

• Óxido de antimônio: É considerado também um bom opacificante de esmaltes.


Com a base plúmbica esse óxido produz amarelos vivos, com a base alcalina produz
brancos opacos e de superfície brilhante. Cuidado, este óxido é muito tóxico se ingerido.

• Óxido de titânio: Também é um bom opacificante dos esmaltes. Utilizado


em base plúmbica, sem a adição de outros óxidos, resulta em uma cor amarela muito
opaca. Adicionando-se titânio, obtém-se um mate. Quando utilizado com a base alcalina
obtém-se um branco rugoso.

• Óxido de zircônio: Também é um bom opacificante, mas não permite a


obtenção de cores artísticas e texturas interessantes. Se adicionarmos de 20% a 30%, o
esmalte torna-se opaco e com superfície muito brilhante. É muito utilizado na cerâmica
industrial devido a sua resistência.

• Óxido de zinco: Este óxido produz um efeito de opacidade com superfície mate
amarelado e levemente áspero nos esmaltes plúmbicos. Produz esmaltes transparentes
e brilhantes com a base alcalina.

2.3 Os tipos de esmaltes


Há diferentes tipos de esmaltes e técnicas de aplicações dos esmaltes nas peças. Na
cerâmica, não há como prever o resultado final de coloração da peça, tudo influencia
neste fator, até mesmo a umidade do ar durante o processo de queima.

• Esmalte Reativo (ou Reagente): Este tipo de esmalte reage quando é aplicado
em cima de outras camadas de diferentes esmaltes e podem ser coloridos e alcalinos.

78 Origem da Argila
U2

É designado como reativo em função da sua expansão na cerâmica biscoitada.


Figura 2.9 | Peça cerâmica decorada com esmalte reativo

Fonte: Disponível em: <http://opopots.blogspot.com.br/2009/03/chun-glaze.html>. Acesso em: 11 ago. 2015.

• Esmalte transparente: Este tipo de esmalte pode ser misturado entre si,
pode ser aplicado diretamente sobre a peça biscoitada ou aplicado como cobertura
intermediária. É apresentado como translúcido ou com coloração. Um exemplo
deste esmalte é o transparente alcalino sem chumbo que possui alto coeficiente de
dilatação, apresentando efeito craquelê.

Quando um esmalte se dilata muito mais do que a pasta, as


rachaduras serão muito mais numerosas e pequenas. Quando
tanto a pasta, como o esmalte tem um coeficiente de dilatação
quase igual, o esmalte não craquela. Os ceramistas chineses
chegaram a tal ponto de perfeição, que conseguiram fazer um
craquelado controlado, maior e menor, parecido com teia de
aranha. As peças craqueladas dão um efeito artístico muito
bonito, mas tornam-se permeáveis (ANDRADE, 1985, p. 41).

Origem da Argila 79
U2

Figura 2.10 | Cerâmica apresentando efeito craquelê

Fonte: Disponível em: <http://www.patternprintsjournal.com/search?updated-max=2014-05-07T07:30:00-07:00&max-


results=5&start=4&by-date=false>. Acesso em: 11 ago. 2015.

• Esmalte Opaco: Este tipo de esmalte se apresenta como opaco devido à


presença do Silicato de Zircônio. Pode ser aplicado diretamente na peça biscoitada ou
utilizado como cobertura intermediária.

• Esmalte Comum Com Brilho: Esmalte sem características extraordinárias,


possui uma camada brilhante que cobre a peça biscoitada sem transparência,
refletindo a luz.

• Esmalte Mate ou Semimate: Esmaltes que possuem um brilho moderado e


texturas interessantes.

Figura 2.11 | Peça cerâmica decorada com esmalte mate

Fonte: Disponível em: <http://synchronicity.jugem.cc/?eid=1261>. Acesso em: 11 ago. 2015.

80 Origem da Argila
U2

• Esmalte Strapatto: Também conhecido como Ferro Enamel ou Colorobbia.


Apresenta o efeito de pequenas fendas, quase parecido como leite coalhado,
ligeiramente suave. Em lojas especializadas para produtos cerâmicos, seu código é o
CMF-008.

• Esmalte Screziato: É um esmalte reagente, ou seja, quando estiver no processo


da queima cerâmica, vai reagir com outras camadas de outros esmaltes já aplicados na
peça. Apresenta um efeito que se assemelha ao strapatto, só que mais acentuado.

Figura 2.12 | Vaso decorado com esmalte Screziato

Fonte: Disponível em: <https://www.etsy.com/market/bertoncello>. Acesso em: 12 ago. 2015.

• Esmalte Aventurina: Este esmalte também é reagente e sua queima ocorre


entre 940ºC a 980ºC. Este esmalte apresenta uma aparência de saturação na cor,
lembrando algumas vezes o processo de oxidação de alguns metais. Pode ser aplicado
sob o esmalte branco. Pode também ser utilizado tanto como esmalte, como na
forma de tinta reagente.

Origem da Argila 81
U2

Figura 2.13 | Vaso decorado com camada de esmalte aventurina

Fonte: Disponível em: <http://www.coyoteclay.com/>. Acesso em: 12 ago. 2015.

• Esmaltes vermelhos e amarelos Figura 2.14 | Vaso cerâmico decorado


de Cádmio: Segue abaixo uma lista dos com esmalte áspero
esmaltes vermelhos e amarelos de cádmio
com seus respectivos códigos.

Vermelhos - RYG-864, RYG-856 e RYG-


855.

Amarelos Fluorescentes - RYG-826,


RYG 820 e RYG-819.

Transparentes - RYG-891 e o RYG-895.

• Esmaltes ásperos: Esses tipos


de esmaltes apresentam uma textura
áspera, são mates e podem ser obtidos
Fonte: Disponível em: <http://www.
com a adição de óxido de titânio em anthropologie.com/anthro/pdp/
uma proporção de aproximadamente detail.jsp?&id=073372&catId=HOME-
GARDEN&pushId=HOME-GARDEN&popId=HO
12%. Nos esmaltes plúmbicos também ME&navCount=78&color=015&isProduct=true&f
podemos obter este efeito adicionando-se romCategoryPage=true&isSubcategory=true&su
bCategoryId=HOME-GARDEN-POTS#/>. Acesso
aproximadamente 18% de óxido de zinco. em: 17 ago. 2015.

82 Origem da Argila
U2

• Esmaltes rugosos: São obtidos Figura 2.15 | Peça cerâmica revestida


acrescentando-se uma grande quantidade com esmalte rugoso
de carbonato de cálcio, aproximadamente
30%. Esta substância se decompõe
quando atinge aproximadamente 820°,
transformando-se em dióxido de carbonato
e óxido de cálcio, produzindo um esmalte de
camadas fortes e com textura rugosa. Você
pode conseguir o mesmo efeito usando o
carbonato de magnésio. Mas lembre-se, a
aspereza e a rugosidade de uma peça com Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/
pin/485685141035473176/>. Acesso em: 23 ago.
esmalte artístico deve ser suave. 2015.

• Esmalte alisante: O código deste esmalte é o CMF-046. Misturas com até 20%
deste esmalte com outros podem corrigir problemas de gretamento, ou seja, bolhas
ou alterações na camada vítrea apresentadas após a queima em forno cerâmico.

• Lustres metálicos: São utilizados em peças cerâmicas já esmaltadas e


queimadas. Têm a capacidade de intensificar as cores do esmalte. Devem ser aplicados
em uma camada média por meio de pincéis apropriados ou de aerógrafo. Após a
aplicação, as peças decoradas devem secar por várias horas em ambiente sem poeira
e sem umidade.

Figura 2.16 | Peças com aplicação de lustres

Fonte: Disponível em: <http://www.atkinsonjones.com/>. Acesso em: 20 ago. 2015.

• Esmalte azul chinês: Este tipo de esmalte apresenta uma coloração azul que
é muito apreciada em toda a Europa. É um esmalte que não contém chumbo em sua

Origem da Argila 83
U2

formulação e, portanto, pode ser utilizado na esmaltação de peças utilitárias. Também


possui um alto coeficiente de dilatação, o que produz um efeito craquelê.

O cotidiano dos alunos é muito diferente de como era até bem


pouco tempo atrás. Eles vivem conectados eletronicamente,
enquanto a arte ainda enfoca elementos e princípios
modernistas e meios de comunicação convencionais.
Para Martins e Tourinho (2011, p. 15), “a arte-educação
precisa mudar para que possa abordar os efeitos sociais
da proliferação sem precedentes da imagética comercial
que, atualmente, satura a vida diária em várias partes do
mundo”. De que modo uma disciplina como a cerâmica pode
contribuir para esta mudança?

1. Assinale a alternativa correta para a seguinte questão:


Como podemos definir o esmalte sob a perspectiva de um
ceramista?
A. O esmalte pode ser considerado uma camada vítrea que
tem como propósito impermeabilizar as peças cerâmicas
com finalidade utilitária.
B. O esmalte é uma camada de óxido aplicada à peça cerâmica
com a finalidade de colori-la.
C. O esmalte é uma tinta tóxica que proporciona brilho às
peças cerâmicas.
D. O esmalte pode ser considerado como um vidro que tem
como propósito cobrir determinada superfície, produzindo
um corpo vítreo quando é aplicado em uma camada delicada
sobre a peça cerâmica já biscoitada.
E. Nenhuma das alternativas anteriores.

84 Origem da Argila
U2

2. Existem vários tipos de esmaltes que podem ser aplicados


às peças cerâmicas, cada um proporcionando cores e efeitos
diferentes, de acordo com o tipo de queima que sofre e
o tipo de argila utilizada na modelagem da peça. Analise
atentamente a peça a seguir e assinale a alternativa correta
que indica o tipo de esmalte utilizado.

A. Esmalte opaco.
B. Esmalte reativo.
C. Esmalte aventurina.
D. Esmalte transparente.
E. Esmalte chinês.

2.4 Esmaltes crus e esmaltes fritas


Ainda podemos classificar os esmaltes em crus e fritas.

Os esmaltes crus são constituídos de materiais naturais, puros, sem serem fritados
ou fundidos, apenas misturados um aos outros. Esses esmaltes são mais tóxicos que
os fritados, porém, têm maior valor artístico, não apresentando uniformidade em suas
cores e texturas.

Os esmaltes fritas são preparados em tanque de metal a temperaturas que variam


de 1.000ºC a 1.400ºC. São confeccionados a partir de materiais solúveis em água, tais
como: ácido bórico, bórax e carbonato de sódio.

Origem da Argila 85
U2

O processo é simples, a água evapora e as partículas dissolvidas na água são


incorporados aos silicatos através de um processo de fusão especial denominado Frita,
transformando-se em composto insolúvel em água. O líquido em fusão é despejado
gota a gota dentro de um recipiente contendo água e se transforma em um granulado
fino que, posteriormente são moídos em moinho de bola.

Figura 2.17 | Esmalte cerâmico frita

Fonte: Disponível em: <http://www.esmaltes.com/en/productos/fritas/>. Acesso em: 18 ago. 2015.

2.5 Trabalhando com os esmaltes


Para se obter um bom resultado, os esmaltes devem ser aplicados corretamente.

Todos os esmaltes que você pode comprar em lojas especializadas são


apresentados em forma de pó. Este pó deve ser dissolvido em água em proporção de
40% a 50% do peso do esmalte em pó. As peças que vão receber camadas de esmalte
já devem ter passado pelo forno a uma temperatura baixa denominada biscoito, de
aproximadamente 800ºC.

Você deve tomar cuidado na espessura da camada de esmalte sobre a peça


cerâmica. Uma camada muito grossa, dependendo do esmalte, pode resultar em
escorrimentos e bolhas. Se a camada ficar muito fina, algumas áreas da peça vão
ficar sem esmalte. Lembre-se: cada tipo de esmalte tem uma espessura adequada
de camada a ser aplicada na peça. Antes de iniciar a esmaltação, limpe bem a peça
biscoitada.

Aplicação com pincel: Você pode utilizar um pincel redondo de ponta longa para
aplicar o esmalte em camadas uniformes, até cobrir toda a cerâmica. Deposite o
esmalte na cerâmica com o pincel, nunca arraste o pincel sobre a cerâmica. Se a
peça for demasiadamente porosa, misture mais água ao esmalte, deixando-o mais
inconsistente.

Aplicação por banho: Esta técnica pode ser utilizada para se esmaltar a parte interior
de peças como vasos, copos, potes etc. Derrame o esmalte dentro da peça e gire-a

86 Origem da Argila
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durante alguns segundos, dependendo da espessura que você deseja obter. Derrame o
esmalte excedente que não aderiu às paredes da peça de volta ao recipiente contendo
o esmalte que está utilizando.

Figura 2.18 | Você também pode banhar parte das peças, criando efeitos interessantes

Fonte: Disponível em: <http://darlyceramica.blogspot.com.br/2014/01/esmaltando-por-banho-e-compressor.html>. Acesso


em: 23 ago. 2015.

Aplicação por imersão: Se você vai esmaltar várias peças com o mesmo tipo de
esmalte, ou seja, trabalho em série, pode conseguir excelentes resultados com esta
técnica. Prepare uma grande quantidade de esmalte a ser utilizado e coloque em um
recipiente inoxidável. Usando as mãos ou com a ajuda de uma pinça, mergulhe a
peça biscoitada neste recipiente contendo o esmalte e aguarde alguns segundos,
dependendo da espessura de esmalte que deseja. Retire a peça do mergulho e
retoque os defeitos.

Para saber mais sobre os processos e técnicas de aplicações dos esmaltes


em peças cerâmicas, veja as referências que podem ajudar:
Assista ao vídeo disponível em: <https://www.youtube.com/
watch?v=iZ3YOwZXtcg>. Acesso em: 20 ago. 2015. Acesse o site
disponível em: <http://pt.wikihow.com/Esmaltar-Cer%C3%A2mica>.
Acesso em: 21 ago. 2015.

Aplicação com compressor: Para conseguir uma camada bem uniforme você
pode utilizar um compressor. Existem diversos tipos de pistolas para aplicação, com
diferentes modelos e preços. Para o esmalte se manter em suspenção e não depositar
no fundo do recipiente que o contém, acrescente no esmalte uma substância
denominada CMC. Antes de aplicar, passe o esmalte por uma peneira bem fina ou por

Origem da Argila 87
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um tecido, para não entupir a pistola com possíveis resíduos. Coloque a peça em uma
base giratória e certifique-se que esteja bem limpa, livre de poeira e marcas de gordura
provenientes das mãos. Aplique em local ventilado e sempre usando equipamentos de
segurança, como luvas e máscara. Os esmaltes que contém chumbo NUNCA devem
ser utilizados nesta aplicação, por serem demasiadamente tóxicos.

Você também pode utilizar seringas, bisnagas e recipientes com diferentes tipos de
bicos e pontas. Use a imaginação.

Figura 2.19 | Esmaltando peça cerâmica

Fonte: Disponível em: <http://jenniferallenceramics.com/process/greenware-decoration-for-monochromatic-work/#jp-


carousel-1590>. Acesso em: 18 ago. 2015.

Vamos enfatizar mais uma vez que o mesmo esmalte pode mudar de cor e de
efeito drasticamente de uma peça para outra. O resultado final da esmaltação após
sua passagem pelo forno cerâmico vai depender de vários fatores, como vimos acima,
temperatura, umidade do ar, substâncias contidas na massa cerâmica etc.

2.6 As transformações do esmalte durante a queima


Os esmaltes devem ser levados ao forno após serem aplicados sobre a peça
biscoitada e estiverem completamente secos.

Após o forno atingir os primeiros graus, a camada do pó de esmalte começa a se


desidratar, ao mesmo tempo em que vai queimando as impurezas orgânicas que se
misturaram ao esmalte durante a aplicação deste na peça cerâmica. Quando o forno
atinge a temperatura de 400°C, inicia-se alguns processos químicos:

Decomposição: Os componentes da argila começam a se decompor quando

88 Origem da Argila
U2

atingem 450°C, transformando o silicato de alumina hidratado em anidro. A dolomita


e o carbonato de magnésio sofrem sua decomposição de 500°C até 900°C.
O carbonato de cálcio se decompõe entre 880ºC a 915°C. Estes processos de
decomposição resultam em anidrido carbónico, que se espalha pelo ar, atravessando
a camada de esmalte. Os sulfatos que se apresentam sob a forma de impurezas nas
matérias primas também sofrem o processo de decomposição entre 500ºC e 900°C.

Combinações químicas em estado sólido: São produzidas combinações em


estado sólido em decorrência dos diversos componentes do esmalte e da sílica. O
carbonato de cálcio e a sílica, por exemplo, formam um composto sólido a 600°C,
com desprendimento de CO2 (gás carbônico). O mesmo processo ocorre com o
carbonato de sódio e o de bário. Todas essas reações são produzidas entre 600ºC e
900°C.

Sinterização: Antes de acontecer a fusão, as partículas de pó do esmalte se


solidificam em uma camada dura, áspera e porosa, formando gretas antes de fundir.
Este processo é denominado sinterização.

Fusão: À medida em que a temperatura do forno vai subindo, começa a surgir


gradualmente na peça uma película cada vez mais pastosa, indicando que a vitrificação
se iniciou. A camada de esmalte torna-se mais delicada ao vitrificar-se, resultando
em uma fervura do esmalte já fundido. As bolhas produzidas ocorrem em função
da presença do vapor de água, do gás carbônico, do oxigênio, do nitrogênio etc.,
provenientes da dissociação de alguns materiais, além da absorção de gases da
atmosfera.

Todos os esmaltes passam por esta fase de fervura, formando pequenas bolhas
que, às vezes, ficam incrustadas no esmalte quando o forno é desligado ou apagado
antes da completa fusão dos componentes.

Para aprofundar ainda mais seus conhecimentos sobre os tipos de


esmaltes, sua composição química, cores, possíveis efeitos, técnicas de
aplicação e muito mais, acesse o site, disponível em: <http://www.ufrgs.
br/lacad/revestvidrado.html>. Acesso em: 21 ago. 2015.

2.7 A manipulação das argilas e dos esmaltes


Modelar a argila e esmaltar as peças é algo simples. Veremos com detalhes este
processo na Unidade 4. Tenha em mente que você precisará de um local com
boa ventilação e iluminação e, se possível, uma mesa grande para trabalhar e uma

Origem da Argila 89
U2

prateleira onde as peças possam secar vagarosamente, durante dias. A modelagem


em cerâmica não é uma atividade cara, barulhenta ou poluente.

As ferramentas que você usará na modelagem das peças podem ser improvisadas e
o forno para a queima não necessita ser profissional, há técnicas de queima alternativas.
Todos esses elementos você também aprenderá na Unidade 4.

2.8 Os engobes
O engobe é a argila líquida com a consistência aproximada de um iogurte. É
utilizada para revestir e também para colorir peças modeladas em argila que ainda não
passaram pelo processo da queima. Desta maneira, o engobe terá cor diferente da
peça a ser pintada, a menos que seja utilizado para reparar alguma rachadura na peça.

Por exemplo, quando você deseja esmaltar sua peça com um esmalte transparente
esverdeado e a argila que usou para modelar a peça é vermelha, você pode cobrir sua
peça com engobe branco para dar ênfase no tom verde do esmalte. Existem infinitas
possibilidades para se usar o engobe.

O engobe deve ser aplicado sobre a peça modelada ainda crua e úmida, mais
precisamente em ponto de couro. Tanto a peça quanto engobe devem encolher
juntos durante a secagem, senão, haverá rachaduras. Aplique o engobe com um pincel
macio duas ou três vezes sobre a peça, cobrindo toda a superfície. Você também pode
usar a técnica de imersão ou pulverização na aplicação. Após o engobe atingir o ponto
de couro, você pode polir a superfície da peça usando um objeto bem liso, como uma
colher. Quanto mais você polir a peça, mais acetinada ela ficará após a queima.

Você pode aplicar várias técnicas de decoração sobre o engobe:

Máscaras: Recorte desenhos ou formas diversas em um papel e umedeça-os.


Cuidadosamente cubra a peça com o papel úmido. Pinte a peça com engobe. Retire
as máscaras de papel e sua peça decorada está pronta para ir ao forno após secar.

Incrustação: Você pode inscrustar o desenho na peça. Faça sulcos na argila com
a ajuda de uma ponta seca e preencha esses sulcos com engobe. Quando a peça
estiver bem seca, raspe a superfície retirando os excessos dos sulcos.

Sgrafitto: Aguarde o engobe secar e risque desenhos sobre ele com a ajuda de uma
ponta seca. Os desenhos terão a cor do corpo da peça cerâmica, abaixo do engobe.

90 Origem da Argila
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Figura 2.20 | Peças cerâmicas brancas cobertas com engobe escuro. A decoração foi
realizada com a técnica do Sgrafitto

Fonte: Disponível em: <http://likesuccess.com/dictionary/sgraffito/>. Acesso em: 24 ago. 2015.

Você também pode utilizar o engobe sobre peças cruas já secas, denominadas
“em ponto de osso”, ou ainda sobre peças já biscoitadas. Neste caso, deve-se alterar a
consistência do engobe que deverá ser aplicado ainda mais líquido. Não se esqueça
de que há o perigo da decoração com engobe descascar, porque o engobe ainda vai
encolher, e a argila da peça já encolheu.

Você pode comprar engobes prontos em lojas especializadas ou fabricar seu


próprio engobe de maneira mais barata, com as cores que quiser e na consistência
que precisar. Você pode fabricar seus engobes personalizados a partir de sobras de
argilas brancas, faiança ou porcelana, e óxidos. A argila pode ser de qualquer cor, mas
lembre-se de que a cor final do óxido muda de acordo com a cor da argila. Pode fazer
em quantidades razoáveis e armazenar para utilização futura.

Preparação dos engobes:

1. Peneire as matérias-primas secas e em pó que vai utilizar;

2. Pese as quantidades indicadas na receita;

3. Misture bem os ingredientes secos dentro de um recipiente fechado


hermeticamente para não aspirar sílica ou outros ingredientes;

4. Adicione água e deixe descansar por 24h;

5. Misture bem os ingredientes com a ajuda de um liquidificador utilizado apenas


para esta finalidade.

6. Peneire a mistura em uma malha bem fina, pode ser uma meia, por exemplo.
Quanto menor as partículas do engobe, mais facilmente ocorre sua fusão no forno

Origem da Argila 91
U2

cerâmico.

7. Adicione água aos poucos, até conseguir a consistência desejada.

8. Lembre-se de que a porcentagem de encolhimento do engobe deve ser a


mesma da argila utilizada na peça, para evitar rachaduras nas decorações.

Para saber mais sobre os engobes e testar algumas receitas, visite os


seguintes sites: Disponível em: <http://www.ufrgs.br/lacad/revestengobe.
html, http://www.ufrgs.br/gci/acervo4.html>, <http://carmemdevas.
arteblog.com.br/233723/Engobes/>. Acesso em: 24 ago. 2015.

Nesta unidade, sobre a origem da argila, você aprofundou um


pouco mais seus conhecimentos sobre este material artístico tão
interessante:
• Aprendemos o que é a argila.
• Conhecemos a origem e a formação da argila no processo
natural que pode levar milhares de anos.
• Conhecemos os diferentes tipos de argilas existentes, suas
propriedades e as causas dessas diferenças.
• Aprendemos para que servem os diferentes tipos de argilas.
• Estudamos as origens dos esmaltes cerâmicos nas diferentes
culturas.
• Aprendemos também o que são e para que servem os esmaltes
cerâmicos.
• Entramos em contato com as propriedades dos esmaltes
cerâmicos e as características de cada uma dessas propriedades.
• Verificamos modos variados de aplicação dos esmaltes nas
peças cerâmicas e seus diferentes resultados.
• Analisamos como acontece o processo de fusão do esmalte
quando este está sofrendo o processo da queima.

92 Origem da Argila
U2

A argila nasce da ação milenar da natureza, da decomposição de


rochas e da fragmentação de pedras que se dissolveram na água
e que voltaram a se cristalizar em partículas que formam a argila.
Durante toda a história humana, em todas as suas culturas, o
homem faz uso da massa cerâmica para fabricar peças de uso
diário ou para se expressar artisticamente, dos povos primitivos
aos artistas da arte contemporânea.
Existem diferentes tipos de argilas na natureza, cada uma com suas
propriedades específicas tais como plasticidade, endurecimento,
contração, porosidade, sinterização e coloração. Essas diferenças
é que vão definir a aplicação da argila nas variadas áreas.
O esmalte cerâmico pode ser considerado como uma camada
vítrea que tem a finalidade de cobrir determinada superfície,
produzindo uma camada delicada sobre a peça cerâmica já
biscoitada.
A esmaltação das peças cerâmicas originou-se no Egito. O
fragmento mais antigo de uma peça esmaltada de cerâmica
encontrada pela arqueologia é muito antigo, data de
aproximadamente 3.000 a.C.
As substâncias que compõem os esmaltes cerâmicos podem ser
fundentes, refratárias, corantes ou opacificantes.
Existem diferentes tipos de esmaltes e técnicas de esmaltação
para as peças cerâmicas. Não há como prever o resultado final
de coloração da peça, tudo influencia este fator, até mesmo a
umidade do ar durante o processo de queima.

1. Já aprendemos na Unidade 1 que o termo Cerâmica


origina-se do grego keramos, significando "argila", “terra
queimada”, referindo-se à confecção de objetos em barro que
posteriormente eram cozidos em temperaturas elevadas em
fornos apropriados, construídos para esta função específica

Origem da Argila 93
U2

(FRIGOLA, 2006).
Sobre a utilização das argilas, assinale abaixo a alternativa
correta:
A. As argilas são utilizadas na fabricação de pratos, canecas
e vasos.
B. As argilas são utilizadas apenas na fabricação de produtos
artísticos e artesanais, que são características de diferentes
culturas, dependendo da localização geográfica em que se
encontra a manifestação dessas culturas.
C. As argilas são amplamente utilizadas: tijolos,
semicondutores empregados em computadores, na
medicina, na cosmética, na fabricação de objetos utilitários
e objetos de Arte.
D. As argilas são empregadas apenas nas escolas de ensino
médio na disciplina de Artes Visuais.
E. As argilas não podem ser utilizadas na fabricação de tijolos.

2. Estudamos que podemos dividir a estrutura da terra em


quatro camadas principais.
• A primeira camada (O) é a mais superficial, denominada
solo. É a camada fértil, rica em húmus, onde a vegetação se
desenvolve.
• A segunda camada (A) é produzida por sais minerais e divide-
se em três partes: 10% de calcário, 30% de argila, formada
geralmente por caulinita, caulino e sedimentos de feldspato e
60% de areia, parte que permite a circulação do ar e da água.
• A terceira camada (B) é formada por rochas parcialmente
decompostas pela erosão e pelos agentes geológicos. Após
se decomporem completamente, são transportadas para a
camada de sais minerais e se transformam em sedimentos.
Assinale abaixo a alternativa correta indicando o que são
rochas-mãe que formam a quarta camada da estrutura da
terra:
A. São as rochas encontradas na natureza e que possuem um
diâmetro maior que seis metros.

94 Origem da Argila
U2

B. A rocha-mãe, também conhecida como rocha matriz,


é o tipo de rocha que passa por um longo processo de
desagregação em decorrência das chuvas e dá origem à areia.
C. Rochas-mãe são encontradas apenas no oriente médio e
dá origem àquele tipo de solo específico daquela geografia.
D. A rocha-mãe é a rocha que se desagregou, passando por
um processo longo, exposta a mudanças de temperatura e
à ação da chuva, do vento, da água dos rios e das ondas do
mar, até dar origem ao solo.
E. Nenhuma das alternativas anteriores.

3. A coloração é uma das propriedades da argila. As argilas


podem ser encontradas em diferentes cores na natureza,
dependendo de sua pureza. O ceramista também pode
acrescentar corantes e óxidos para modificar suas cores, além
de conseguir uma grande variação de tons de acordo com a
temperatura da queima e da atmosfera do forno.
Indique abaixo o que são argilas vermelhas:
A. São argilas que contém um alto teor de óxido de ferro, o
que dá a ela a coloração avermelhada. São bastante plásticas
e suportam temperaturas de até 1.100°C.
B. São argilas encontradas próximas às florestas de pau-brasil.
C. Não é exatamente um tipo de argila, mas leva este nome
por conter as mesmas propriedades das argilas e podem ser
moldadas pelo ceramista.
D. São argilas encontradas no Japão.
E. São argilas que passam pelo processo de queima por meio
de fornos à lenha e levam este nome devido à cor das brasas.

4. Os esmaltes plúmbeos são altamente tóxicos e jamais


devem ser utilizados na esmaltação de peças utilitárias, tais
como copos, pratos, jarras etc. Os esmaltes alcalinos não
apresentam uma porcentagem de chumbo que possa ser
considerada tóxica.
Leia com atenção as afirmações a seguir.

Origem da Argila 95
U2

I. Os esmaltes não precisam passar pelo processo de


queima para sofrerem o processo de fusão e tornarem-se
impermeáveis.
II. A composição da argila utilizada em uma peça cerâmica
pode influenciar na cor e textura final da esmaltação desta
peça.
III. Alguns tipos de esmaltes podem ser altamente tóxicos e
não devem ser utilizados na confecção de peças utilitárias.
Agora escolha a opção correta abaixo.
A. Apenas a alternativa II está correta.
B. Apenas a alternativa III está correta.
C. Todas as alternativas estão corretas.
D. Apenas as opções I e II estão corretas.
E. Apenas as opções II e III estão corretas.

5. Na cerâmica, não há como prever o resultado final de


coloração da peça, tudo influencia neste fator, desde o tipo de
argila utilizado, até a porcentagem de umidade do ar durante
o processo de queima.
Observe a imagem abaixo e assinale a alternativa que indica o
tipo de esmalte utilizado na peça.

Fonte: Disponível em: <http://www.miyamurastudio.com/vases/pgs/13vasethree.htm>. Acesso em: 23


ago. 2015.

96 Origem da Argila
U2

A. Esmalte transparente.
B. Esmalte de baixa temperatura.
C. Esmalte lustre metálico.
D. Esmalte italiano.
E. Esmalte à base de óxido de ferro.

6. Na decoração das peças cerâmicas aprendemos que


podemos usar várias técnicas de coloração durante a
decoração. O engobe é uma dessas técnicas.
Assinale a alternativa correta para a questão: O que são
engobes?
A. São esmaltes à base de óxidos de ferro.
B. São ferramentas metálicas para se modelar a argila
C. São Argilas misturadas a óxidos para decoração das peças
cerâmicas.
D. São fornos alternativos para queima de peças cerâmicas.
E. Nenhuma das alternativas acima.

Origem da Argila 97
U2

98 Origem da Argila
U2

Referências

ANDRADE, Lusa. Barracão de barro. Uberaba: Rotal, 1985.


FAVA, Rui. Educação 3.0: como ensinar estudantes com culturas tão diferentes.
Cuiabá: Carlini e Caniato, 2012.
FRIGOLA, Maria Dolors Ros. Cerâmica artística. Lisboa: Estampa, 2006.
LE GOFF, Jacques (Org.). A história nova. São Paulo: Martin Fontes, 2005.
MARTINS, Raimundo; TOURINHO, Irene (Orgs.). Educação da cultura visual: conceitos
e contextos. Santa Maria: Editora da UFSM, 2011.
SEDIN, Armando Moral. Cerâmica artística. São Paulo: Folco Masucci, 1965.
PARANÁ. Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Argila. Disponível em: http://
www.mineropar.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=29%3E%20
Acesso. Acesso em: 04 ago. 2015.
ROSSI, Maria Alice Porto. As argilas. Disponível em: <http://www.portorossi.art.br/
vidrados.htm>. Acesso em: 11 ago. 2015.
ROSSI, Maria Alice Porto. Vidrados cerâmicos. Disponível em: <http://www.portorossi.
art.br/vidrados.htm>. Acesso em: 11 ago. 2015.

Origem da Argila 99
Unidade 3

CERÂMICA ARTÍSTICA,
POPULAR E UTILITÁRIA

Marcelo Silvio Lopes

Objetivos de aprendizagem:
Conhecer a cerâmica artística mundial e brasileira.
Estudar a cerâmica popular brasileira.
Entender a cerâmica utilitária.

Seção 1 | A cerâmica artística


Nesta seção, você estudará a cerâmica Artística, conhecerá as diferenças
entre arte e artesanato, e entrará em contato com os conceitos de cultura
popular. Aprenderá também a definir o que é Arte, o que é o Simbólico e
suas relações com a cerâmica. Por fim, estudará os conceitos de Etnoarte
e aprofundará seus conhecimentos sobre a história da cerâmica no Brasil e
no mundo.

Seção 2 | Cerâmica popular ou figurativa e cerâmica utilitária


Nesta seção você vai aprender o que é Cultura e como ela funciona.
Conhecerá a cultura da cerâmica popular. Aprenderá conceitos sobre
cerâmica utilitária e sobre cerâmica figurativa.
U3

Introdução à unidade

Já aprendemos que argila é uma matéria-prima que possui uma história. Ela é
formada por meio da ação milenar da natureza e é o resultado da decomposição
de rochas e da fragmentação de pedras que se dissolveram na água e que voltaram
a se cristalizar em partículas.

Por ser um material de vida muito longa, a argila que passa pelos fornos e
é transformada em cerâmica pode registrar a história da humanidade. Assim, é
um material amplamente estudado pela arqueologia, como se fosse um diário da
raça humana, contando sobre sua cultura, seus hábitos e seus costumes, desde os
povos primitivos até a era contemporânea.

Nesta unidade vamos aprofundar nossos estudos sobre a cerâmica, com


a finalidade de compreender ainda mais a multiculturalidade do mundo e suas
diferenças culturais.

Cerâmica artística, popular e utilitária 103


U3

104 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Seção 1

Cerâmica artística
O estudo desta seção compreende conceitos sobre arte, sobre cerâmica artística
e a diferenciação entre esta cerâmica e a do artesanato. Compreende também
estudos sobre cultura popular relacionada à cerâmica e a importância do simbólico
nas artes cerâmicas. A seção termina com discussões sobre etnoarte, aprofundando
o conhecimento do discente sobre a história da cerâmica no Brasil e no mundo.

1.1 Diferenças entre arte e artesanato


Você já estudou na primeira unidade que a cerâmica faz parte das primeiras
práticas humanas, a confecção de objetos de forma manual com objetivos utilitários
ou sagrados, cumprindo a tarefa de facilitar o cotidiano das pessoas e servindo
também como suporte às práticas da magia. Estas práticas manuais duraram um
longo tempo na História, estendendo-se até o século XIX que, na Europa Ocidental,
foi substituído pela produção industrial.

Assim, o trabalho do artesão é substituído por máquinas e equipamentos de


produção em série, no cotidiano moderno objetos de uso diário são fabricados em
escala industrial, como pratos, copos, vasos, objetos de decoração. Esta produção
serializada dos objetos cerâmicos fez com que estes objetos se tornassem cada vez
mais simples em suas formas, mais resistentes e cada vez mais iguais uns aos outros.

Quando observamos a cerâmica como prática cotidiana, notamos que o uso


das técnicas, seu tamanho, suas cores e formas, sua estética, varia em cada região
geográfica e em cada momento histórico. Sua utilização também varia amplamente:
para armazenar alimentos, para decoração, como tijolos na arquitetura.

Quando observamos a cerâmica aplicada aos ritos religiosos ou mágicos,


entramos em uma dimensão cognitiva que vai além do utilitário. Como exemplo
podemos citar as urnas funerárias confeccionadas pelos índios da Ilha de Marajó.

Desta forma a cerâmica cumpre a função de divulgar as diferentes culturas umas


às outras, assim como influenciar mutualmente as culturas.

Cerâmica artística, popular e utilitária 105


U3

Figura 3.1 | Urna funerária procedente da Ilha de Marajó

Fonte: Disponível em: <http://www.brasilartesenciclopedias.com.br/internacional/brasil_arte_pre04.html>. Acesso em: 03 set.


2015.

Voltando ao tema do nosso tópico, podemos definir que a diferença entre Arte e
Artesanato se encontra diretamente ligada à cultura e sua apropriação. O artesanato
está relacionado ao fazer repetitivo e às questões de sobrevivência, ligando-
se diretamente à tradição. Vai se apropriar da cultura para trabalhar as questões
referentes à produção do objeto e da sua comercialização.

O artesão dentro de uma cultura tem a função de armazenar e transmitir as


técnicas e conceitos, colaborando na tradição.

Podemos afirmar que a diferença entre arte e artesanato acontece na forma da


apropriação da cultura. A arte também se apropria da cultura, mas a utiliza de maneira
distinta, singular, sendo sua linguagem diferente da linguagem usada pela tradição.
Ambos os profissionais, artesão e artista, fazem uso do mesmo material, no nosso
caso a argila, entretanto o resultado final é diferente. O artesanato se apresenta como
um conceito utilitário, enquanto a arte se apresenta como um conceito de expressão.

As dificuldades para redefinir a especificidade da arte e do


artesanato e interpretar cada um de seus vínculos com o outro
não se resolvem com aberturas de boa vontade ao que opina o
vizinho. A via para sair da estagnação em que se encontra esta
questão é um novo tipo de investigação que reconceitualize
as transformações globais do mercado simbólico levando em

106 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

conta não apenas o desenvolvimento intrínseco do popular e do


culto, mas seus cruzamentos e convergências. Como o artístico e
o artesanal estão incluídos em processos massivos de circulação
das mensagens, suas fontes de aproveitamento de imagens
e formas, seus canais de difusão e seus públicos costumam
coincidir (CANCLINI, 1997, p. 245).

Devemos levar em consideração que vivemos em uma sociedade segmentada


em classes sociais, onde as esferas econômicas e educacionais são muito diferentes,
onde os elementos formadores são procedentes de geografias diferentes, formando
cada grupo com um saber próprio. Este saber é compartilhado entre os elementos
do próprio grupo ou de grupo para grupo. Podemos denominar este saber
compartilhado de Cultura Popular.

1.2 Cultura popular


Segundo Bosi (1987), podemos definir Cultura Popular como a cultura que um
povo desenvolve no seu dia a dia, dentro das condições desse povo. O autor afirma
que dentro de um sistema social que seja democrático, se o povo pode viver em
condições medianas de sobrevivência, ele mesmo poderá gerir essas condições com
a finalidade de conservar esta cultura. Assim, a cultura popular pode ser considerada
como uma ampla gama de pontos de vista que abrangem desde a negação do saber
dentro desta cultura, até a atribuição de resistência contrária à dominação de classes.

É importante salientar que se constituiu entre os pesquisadores


uma certa estereotipia no sentido de que a grande maioria
dos estudos sobre cultura popular versa sobre atividades
artísticas e/ou religiosas. Há uma razão para isso, entretanto.
Na verdade, essas esferas da atividade social, entre outras (por
exemplo, magia e feitiçaria), são estratégicas para o estudo
da cultura, na medida em que são constituídas socialmente
com instâncias de reflexão e ação simbólica por excelência
(ARANTES, 1985, p. 59).

Observe que o folclore abrange questões locais onde a arte e artesanato são
manufaturados enquanto obra, tendo como fim a comercialização e o consumo.
A arte e o artesanato são os trabalhos de uma pessoa ou um grupo de pessoas

Cerâmica artística, popular e utilitária 107


U3

que realizam algo com objetivos diversos. Desta maneira, quando estudamos a
cultura popular de grupos de determinadas geografias, automaticamente estamos
estudando o seu folclore. Esta palavra tem origem no inglês antigo e significa a
sabedoria de um povo, seu conhecimento e discurso.

Leia atentamente a sentença a seguir e reflita sobre o tema


em um âmbito cultural:
Dentro do contexto brasileiro, não podemos mais fazer
relação do artesanato incluindo apenas as regiões dos grandes
centros urbanos. Devemos considerar os movimentos
geográficos das populações e suas transformações internas,
nas atividades desenvolvidas.
Qual a sua opinião sobre estas transformações que ocorrem
no trabalho dos artesãos devido às migrações sociais?
Justifique.

Sobre a distinção entre artistas e artesãos em suas características, suas produções


e seus conceitos muito diferentes, podemos observar que o que se considera
arte, contemporaneamente, é produzido e consumido internamente nos grandes
centros urbanos, correndo o risco desta produção e consumo ser reduzida apenas
a estes centros urbanos. Observe que se ignora a circunstância de que o artesanato,
considerado como obra manufaturada, é resultado do trabalho de grupos de pessoas
que consideram esta produção como arte oriunda de seu trabalho, de sua cultura,
do seu conhecimento adquirido dentro desta sociedade.

Arte e artesanato possuem uma mesma estrutura, mas são considerados


completamente distintos. A primeira é culta, faz parte da cultura, enquanto que
a segunda é popular, faz parte da cultura popular. Dentro dos tecidos urbanos
contemporâneos, note que o local de consumo da arte são as galerias e os museus,
enquanto que o local de consumo do artesanato são os mercados e feiras. Atualmente
temos as feiras e os mercados de arte, mas estes são completamente distintos dos
locais onde se comercializa o artesanato, com preços e público muito diferentes.

O que é arte não é apenas uma questão estética: é necessário


levar em conta como esta questão vai sendo respondida
na interseção do que fazem os jornalistas e os críticos,
os historiadores e os museógrafos, os marchands, os

108 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

colecionadores e os especuladores. Da mesma forma, o popular


não se define por uma essência a priori, mas pelas estratégias
instáveis, diversas, com que os próprios setores subalternos
constroem suas posições, e também pelo modo como o folclorista
e o antropólogo levam à cena a cultura popular para o museu ou
para a academia, os sociólogos e os políticos para os partidos, os
comunicólogos para a mídia (CANCLINI, 1997, p. 23).

Devemos considerar também que, no artesanato, as técnicas e tecnologias se


transformam dia a dia, com as novas descobertas científicas e tecnológicas. Mesmo
assim, não podemos considerar este trabalho como possuidor de menor criatividade
que a arte. Esta produção manufaturada por certas coletividades ou por indivíduos
isolados dentro de uma sociedade específica, tem relação direta com o cotidiano
de quem a produz, com o dia a dia desta comunidade, e pode ser posteriormente
modificada.

Ainda devemos salientar que, apesar das relações aparentes em que se


desenvolvem, a arte e o artesanato são produções ou atividades produtivas culturais
e devem ser estudados enquanto fenômenos socioculturais diferentes, devido às
suas especificidades.

1.3 O que é arte?


Conforme a vida humana vai se fragmentando em seu cotidiano e em seus
saberes, a função da arte vai se consolidando, que é a função de refundir o homem
consigo mesmo e com o todo.

Lemos em Fischer (1983) que o artista Pieter Mondrian (1872-1944), responsável


pela criação do movimento artístico denominado Neoplasticismo, entendia que a
arte se tornaria algo dispensável à medida em que o ser humano fosse encontrando
seu equilíbrio. Para o autor isto é impossível, jamais acontecerá, a arte nunca vai
desaparecer porque o homem tem necessidade de quebrar suas próprias limitações
o tempo todo, tornando-se insatisfeito com a própria existência. Assim, a arte torna-
se o meio indispensável para a reunificação do indivíduo com o todo.

Como estudamos no tópico anterior, o artesanato nasce de necessidades


específicas, econômicas e utilitárias de determinados grupos sociais geograficamente
localizados. A arte nasce como produto do seu tempo, ao mesmo tempo em que
produz momentos atemporais para a humanidade.

Para vários autores da História da Arte, esta nasce como fruto da magia, não sendo

Cerâmica artística, popular e utilitária 109


U3

nunca uma descrição literal do real. Por exemplo, as pinturas rupestres encontradas
nas cavernas de Lascaux, onde a finalidade era propiciar abundância da caça nos
vários períodos do ano. A arte é necessária pelo seu potencial em mudar o mundo
ao estimular a ação reflexiva e a imaginação emocional.

Figura 3.2 | Pinturas rupestres do complexo de cavernas em Lascaux, França

Fonte: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1e/Lascaux_painting.jpg>. Acesso em: 08 set.


2015.

Já estudamos também na Unidade 1 do nosso livro que a própria cerâmica


nasceu também de necessidades mágicas. Por exemplo, as urnas funerárias dos
nossos antepassados indígenas. Partindo deste exemplo, devemos considerar que
foi a partir da necessidade de complexificar o trabalho manufaturado no cotidiano
do homem primitivo que fez com que se desenvolvessem uma linguagem mais
sofisticada, mais simbólica. Devemos considerar que uma das funções da arte nos
homens primitivos era a de outorgar poder, partindo do princípio de que a arte
constrói uma realidade que vai além da realidade cotidiana, favorecendo os homens
que dominavam direta ou indiretamente a arte.

O que chamamos arte não é apenas aquilo que culmina em


grandes obras, mas um espaço onde a sociedade realiza
sua produção visual. É nesse sentido amplo que o trabalho

110 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

artístico, sua circulação e seu consumo configuram um lugar


apropriado para compreender as classificações segundo as quais
se organiza o social (CANCLINI, 1997, p. 246).

Para Fischer (1983), há uma natureza dupla do homem: ele pertence à natureza
que o gerou e pertence também a uma supra natureza por ele mesmo gerada. Desta
maneira, o primeiro homem a construir um instrumento com as próprias mãos foi
o primeiro artista. O autor também afirma que a arte, apesar de ser uma expressão
individual, é em essência coletiva, pois só vem a ser arte a partir da ocorrência de
uma intersubjetividade entre plateia e artista. Assim, numa sociedade que é dividida
em classes, é normal as classes dominantes tomarem as artes para atender a seus
propósitos.

Podemos tomar como exemplo a figura do feiticeiro nas sociedades primitivas.


Ele era artista e representava o coletivo perante os deuses. Com o passar dos séculos
e o crescimento intelectual dos indivíduos sociais, a ligação entre feiticeiro e artista se
desmancha, mas continua o vínculo entre artista e sociedade onde a individualidade
deste é subordinada a uma função de representante de uma elite.

Como já observamos no início deste texto, conforme as habilidades humanas


vão se diferenciando, conforme as classes sociais vão se separando, conforme
a complexidade humana da vida cotidiana vai aumentando, o ser humano vai se
alienando cada vez mais, dele mesmo e socialmente.

Quando estudamos a História da Arte, aprendemos que durante o período


feudal há uma escalada ao poder por parte dos mercadores e comerciantes. Como
consequência temos também uma escalada do individualismo nas artes. Apesar
disso, ainda encontramos na arte deste período alguns indícios de uma coletividade
dentro da expressão artística.

Para alguns historiadores da Arte, geralmente o artista distingue em si mesmo


uma dupla função: a função que é estabelecida pela sociedade e a função que é
estabelecida por sua própria consciência. Quando existe uma contradição entre
essas duas funções, podemos afirmar que há crescente oposição, rivalidade,
incompatibilidade dentro da sociedade. Partindo desta premissa, é correto afirmar
que, em uma sociedade decadente, a arte vai manifestar esta decadência, ao mesmo
tempo em que demonstra para esta sociedade que ela deve mudar, que ela deve se
transformar.

Na sociedade pré-capitalista, podemos observar que o consumo tendia ao


esbanjamento, fazendo nascer o mecenato artístico. Com a solidificação do
capitalismo, toda e qualquer materialidade vai se transformar em mercadoria,

Cerâmica artística, popular e utilitária 111


U3

inclusive a arte. O artista se transforma em produtor de mercadorias, como qualquer


outro trabalhador, enquanto seu trabalho, a obra de arte, é colocada à lógica do
lucro.

O termo mecenato deriva do nome de Caio Mecenas (68–8 a.C.), que


foi um conselheiro influente do imperador Augusto. Mecenas organizou
um círculo de intelectuais e poetas, sustentando sua produção artística.
Assim, mecenato é um termo que indica o incentivo e o financiamento
de artistas e de atividades artísticas e culturais. Considerando-se
um sentido mais amplo, o mecenato indica o incentivo financeiro a
atividades culturais, tais como exposições de arte, feiras de livros, peças
de teatro, produções cinematográficas, além de restauro de obras de
arte e monumentos. Os artistas com este tipo de patrocínio passavam
a viver exclusivamente desse incentivo, além de terem ainda proteção
política e muito prestígio social.

Visto de um certo ângulo, o capitalismo foi desfavorável à arte quando lhe impõe
uma lógica de lucro no lugar da liberdade de expressão que o mecenato concedia.
Por outro ângulo, libertou o artista da sua subordinação ao mecenas, possibilitado o
acesso a novas formas de existência pela arte.

Durante o processo de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna,


considerando-se nesse ínterim o Renascimento e a Revolução Francesa, o artista
ainda conseguia expressar suas ideias através da sua arte. Mas a partir da consolidação
do capitalismo em 1848, os artistas começam a participar do mundo capitalista da
produção de obras de arte como mercadorias artísticas. Desta maneira, a arte como
objeto de consumo, se aproxima um pouco do artesanato.

Com a arte dentro do capitalismo, nascem alguns movimentos que vão contra
o estabelecido. No Romantismo nasce o conceito de folclore, folklore, ou cultura
popular. Também no romantismo nasce o movimento “Arte pela arte”, que tinha
como principal representante Charles Baudelaire. Este movimento vai contra a ideia
de arte como mercadoria.

O Impressionismo também vai contra ao estabelecido, contra a arte oficial, contra


a visualidade comum das obras das galerias que copiavam o real.

O Naturalismo, apesar da sua aparente neutralidade, também pode ser


considerado como uma reação ao mundo burguês.

Para encerrar este tópico sobre o que é arte, vamos citar mais uma vez Fischer

112 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

(1983). Para o autor, a forma de uma obra de arte vai além de um mero veículo para
o seu conteúdo. Ela é a solução para o problema do domínio das formas e será tanto
melhor quanto mais elegante for essa solução. Assim, o elemento estético assume
também a condição de um elemento ético.

1.4 A cerâmica e o simbólico


O simbólico se estrutura sobre um conjunto de representações que estabelecemos
do mundo. Por meio dessas representações conseguimos compreender este
mundo. Não temos acesso direto ao mundo real, conseguimos acessá-lo apenas
através da mediação das representações simbólicas. A língua, por exemplo, é uma
das representações do mundo. Também podemos acrescentar como exemplos as
diversas formas de narração: visual, fílmica, literária, tátil etc.

Partindo deste princípio, podemos afirmar que os valores que definem uma
determinada cultura são fundamentados sobre tais representações. As representações,
embora sejam vivenciadas individualmente, são coletivas enquanto sociais. Por
exemplo, as urnas funerárias dos nossos antepassados indígenas foram moldadas
e decoradas por um artesão, mas sua simbologia é compartilhada coletivamente.
Este compartilhamento social da simbologia, por um lado, garante uma certa
estabilidade e coerência de valores sociais, por outro lado, está sempre subordinado
a alterações relativamente intensas. As representações estão sempre se alterando,
todos os indivíduos da sociedade são constantemente colocados em situações de
aprendizagem da formação do simbólico. Não existe uma aquisição definitiva.

O homem também sonha com o trabalho mágico que


transforma a natureza, sonha com a capacidade de mudar
e dar-lhe nova forma por meios mágicos. Trata-se de um
equivalente na imaginação, àquilo que o trabalho significa na
realidade. O homem é, por princípio, um mágico (FISCHER,
1983, p. 21).

Como já estudamos, a cerâmica nasce das necessidades práticas do cotidiano


e das necessidades internas do homem, como a magia e a religião. Portanto,
torna-se sujeita a padrões estéticos que se transmutam de acordo com a realidade
sociocultural do espaço geográfico em questão. Podemos constatar um composto
de saberes e fazeres que organizam um campo de produção da cerâmica como uma
linguagem das artes. Este amplo campo encontra suas estruturas na popularidade da
magia, do simbólico, mas não cumpre mais um papel mágico-religioso dentro desta
realidade sociocultural.

Cerâmica artística, popular e utilitária 113


U3

Em Laraia (1986, p. 55) lemos que “Leslie White, antropólogo norte-americano


contemporâneo, considera que a passagem do estado animal para o humano
ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos”.

Assim, para que os valores sociais que se baseiam nas representações


permaneçam constantes, devem ser sempre repetidos, renovados. Nasce daí a
importância da cultura e da cultura popular nas suas diversas representações: nas
artes, nos artesanatos, na literatura, nos ritos, a tudo que marca nossa vida coletiva,
nossa vida social.

1.5 A cerâmica indígena brasileira – etnoarte


Considerando-se algumas características muito específicas da produção
manufaturada indígena, alguns antropólogos fazem restrição quanto a utilização do
termo “arte indígena” por razões peculiares. Por exemplo, a palavra arte carrega um
conjunto de significados interiorizados pela nossa cultura ocidental que é totalmente
individualista, não correspondendo ao caráter coletivo e utilitário da arte produzida
pelas comunidades indígenas.

Para Velthem (1994), a palavra arte subentende um julgamento de valor que, na


maioria das vezes, separa produções mais sofisticadas de outras mais simples. Desta
maneira, é proposto nestes casos a utilização do termo Etnoarte, referenciando
tanto a tradição estética determinada, como descrevendo a conjuntura de uma arte
sociocultural.

Se considerarmos o termo cultura como códigos simbólicos compartilhados


coletivamente dentro de um espaço geográfico, podemos afirmar que no interior
das comunidades indígenas, a arte que é realizada se confunde com a própria
cultura, não havendo ruptura.

Desta maneira, o entendimento dos símbolos, sua decodificação, só é possível


no interior desta própria cultura que os produziu. Dentro da cultura existe uma
aceitação implícita de conceitos e padrões que são seguidos socialmente, e as
mudanças que ocorrem nestes signos ocorrem no interior de uma mesma estrutura
cognitiva. Perceba que os significados que possuem um objeto cerâmico indígena,
nas suas cores, nas suas formas, nas suas proporções, na sua estética, só podem ser
entendidos dentro do contexto daquela sociedade indígena, daquela comunidade.

Podemos compreender que uma comparação etnográfica, de comunidade


para comunidade, apenas sugere possibilidades, mas não garante regularidades.
Por exemplo, uma urna funerária tem a mesma função em várias comunidades
indígenas diferentes, mas sua característica plástica particular vai variar de acordo
com a simbologia que carrega daquela comunidade que a produziu e que a utiliza.

114 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Etnografia é o estudo descritivo da cultura dos povos, sua língua, raça,


religião, hábitos etc., como também das manifestações materiais de
suas atividades. É a ciência das etnias. Do grego ethos (cultura) + graphe
(escrita).
A etnografia estuda e revela os costumes, as crenças e as tradições de uma
sociedade, que são transmitidas de geração em geração e que permitem a
continuidade de uma determinada cultura ou de um sistema social.

Assim, podemos definir da seguinte maneira o objeto Etnoarte:

• Um código cultural compartilhado pelos indivíduos que fazem parte de um


coletivo.

• É um veículo de comunicação. Através dele é revivida e reafirmada a mitologia


da comunidade, sua cosmologia, sua ética, sua história.

• É um veículo de socialização, objeto essencial ao cotidiano coletivo, conferindo


à comunidade indígena uma identidade visual.

Não vamos nos esquecer que nas comunidades indígenas a arte vai se apresentar
incondicionalmente nos objetos utilitários, no cotidiano individual e coletivo, além de
se apresentar também em adornos pessoais que sempre são simbólicos, carregados
de significados para o grupo. Para os indígenas, não existe um objeto artístico sem
uma função social.

As formas culturais [...] se perpetuam de geração em geração,


o funcionamento social prescreve a fidelidade ao que sempre
foi, a reprodução idêntica dos modelos recebidos dos
ancestrais ou dos deuses. As maneiras de viver e de pensar, as
trocas, os modos de expressão são comandados por normas
coletivas [...] (LIPOVETSKY; SERROY, 2011, p. 12).

Como não há uma ruptura entre individual e coletivo, a relação entre arte e
função acontece dentro deste contexto social. O artesão decora esteticamente a
peça cerâmica que será utilizada pelo grupo, a decoração acontece em função da
utilização social da peça. Não há também ruptura entre trabalho e lazer, entre direitos
e obrigações e, principalmente, não há a propriedade privada. Assim, a estética do

Cerâmica artística, popular e utilitária 115


U3

artista é a mesma que a estética do coletivo, e desta maneira, vai se perpetuando e


difundindo por meio das tradições, comunicando entre gerações a cosmogonia, a
mitologia e a história do grupo.

Cosmogonia é um conjunto de doutrinas, princípios religiosos, míticos ou


científicos que se ocupa em explicar a origem, o princípio do universo, a
cosmogênese. Pode ser considerado também um conjunto de teorias que
propõe uma explicação para o aparecimento e formação do sistema solar.

Figura 3.3 | Arte indígena brasileira da região do Xingu

Fonte: Disponível em: <https://museudainconfidencia.wordpress.com/2010/11/03/anexo-i-do-museu-da-inconfidencia-


expoe-arte-indigena/>. Acesso em: 10 set. 2015.

Nas sociedades onde não aconteceu o desenvolvimento da escrita, as artes


da pintura e dos grafismos são elementos que fazem parte de uma forte estrutura
de comunicação. Como já vimos acima, esta comunicação acontece através das
tradições, dos mitos, da história da comunidade.

Os grafismos na maioria das vezes apresentam acontecimentos de uma história


mítica. As figuras antropozoomórficas, com corpo meio humano meio animal, são

116 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

modeladas nas peças cerâmicas ou pintadas em tecidos, e são personagens ligados


direta ou indiretamente às histórias míticas.

Para suporte de mensagens visuais, o material mais utilizado pelos indígenas são
a cerâmica e a pedra. Devido a sua durabilidade e preservação das intempéries e
desgastes, são os materiais mais pesquisados pelos arqueólogos e antropólogos.
Com relação à cerâmica, às formas dos utensílios, à decoração, esta é muito
mais estudada devido a sua utilização estar conectada a comportamentos grupais
fortemente arraigados na cultura local, aos contextos sociais, caracterizando
diferenças entre os diversos grupos indígenas.

Por exemplo, quando analisamos motivos geométricos da cerâmica Marajoara


que, aparentemente, são abstratos, podemos supor que estes desenhos tenham
sido uma forma de linguagem visual iconográfica.

A estrutura das representações não verbais não pode ser vista


como um sistema lógico e preciso como é a linguagem verbal,
que é um sistema inventado pelo ser humano para codificar,
armazenar e decodificar informações e que necessita de um
aprendizado (DONDIS, 1997).

Uma peça cerâmica utilizada para transportar oferendas em um ritual deverá


ser confeccionada de determinada maneira e decorada com símbolos plásticos
e artísticos que a transformem em um utensílio bonito e dentro dos padrões
estabelecidos e adequados àqueles objetivos.

Os objetos que para nós são denominados artísticos, têm para os índios não
somente um significado estético, mas também religioso, social, simbólico. Por isto
a designação de Etnoarte.

Figura 3.4 | Iconografia dos índios da Ilha de Marajó

Fonte: Disponível em: <http://www.equiponaya.com.ar/articulos/imagenes/marajo6.gif>. Acesso em: 10 set. 2015.

Cerâmica artística, popular e utilitária 117


U3

Desta maneira, o que chamamos de Etnoarte, foi elaborado a partir de uma


necessidade social de comunicação, e não com fins puramente estéticos.

Na época em que eram utilizados, esses objetos cerâmicos transmitiam


informações sobre as normas sociais vigentes no grupo, carregavam informações
visuais. Portanto, podem ser considerados como textos sem grafia, porém, saturados
de símbolos que expressavam ideologias.

Vamos utilizar como exemplo as tangas da cerâmica marajoara e as urnas


funerárias. São objetos repletos de significados que remetem os pesquisadores a
inferir sobre a importância da participação feminina dentro dos grupos indígenas
Marajoaras.

As tangas Marajoara:

• As tangas são conhecidas como tapa-sexo, confeccionadas em cerâmica,


possuem forma triangular e são côncavas, possuindo furos nas suas extremidades
por onde se passavam cordões que as prendiam junto ao corpo das índias.

• Eram utilizadas tanto em cerimônias e como vestimenta cotidiana. Apresentam


formato anatômico ao corpo feminino e em diversos tamanhos. Assim, podemos
supor que eram feitas sob medida para cada indivíduo.

• As tangas que possuíam a cor vermelha e eram simples em sua decoração,


seriam usadas por mulheres mais velhas ou já casadas. As tangas mais decoradas
seriam utilizadas por mulheres mais jovens e possivelmente em rituais de puberdade.

Figura 3.5 | Tanga de cerâmica marajoara

Fonte: Disponível em: <http://www.nptbr.mae.usp.br/acervo/arqueologia-brasileira/>. Acesso em: 09 set. 2015.

118 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

As urnas funerárias marajoaras: Figura 3.6 | Urna funerária


marajoara
• Em várias culturas, as cerimônias fúnebres sempre
foram uma oportunidade para a expressão de mitos e
crenças, além de demonstração de poder.

• Nas urnas funerárias marajoaras também se


registravam este fator. Quanto mais decorada era a
urna funerária de um indivíduo, mais destaque ele
possuía na sociedade.

• Encontram-se urnas antropomorfas, com traços


femininos, com grafismos representando animais ou
com formas híbridas humano e animal.

• A decoração das urnas sempre são representações


referentes ao sexo feminino, independente do sexo do
indivíduo que a utilizará. Fonte: Disponível em: <http://
imagensdobrasil.art.br/
produtos/3410/4/18/Urna_
• Os índios Marajoara descarnificavam os corpos Marajoara#.VfB9YRHBzRY>. Acesso
em: 09 set. 2015.
dos defuntos, retiravam toda a carne, sobrando apenas
os ossos que eram limpos e pintados de vermelho.
Esses ossos eram depositados nas urnas juntamente com objetos de uso pessoal
como tangas e colares.

Lê-se em Laraia (1986, p. 87) que é refutado

[...] a abordagem evolucionista de que as


sociedades simples dispõem de um pensamento
mágico que antecede o científico e que,
portanto, lhe é inferior. [...] Assim, ao invés de
um contínuo magia, religião e ciência, temos de
fato sistemas simultâneos e não sucessivos na
história da humanidade”.

De acordo com Laraia (1986), o conceito de magia dos povos


considerados primitivos não são menos importantes que os
conceitos científicos. Você concorda? Justifique.

Cerâmica artística, popular e utilitária 119


U3

1.6 A cerâmica artística no mundo


Na Unidade 1 do nosso livro sobre cerâmica já estudamos um pouco sobre a
cerâmica artística mundial. Agora, vamos aprofundar nossos saberes.

Como já observamos anteriormente, após o surgimento do capitalismo, a arte


passa a ter um status de objeto artístico, ou seja, sua principal finalidade é gerar lucro.

Os objetos cerâmicos passam a ser reproduzidos serialmente depois do advento


da Revolução Industrial, e perde ainda mais o seu valor enquanto arte.

Em 1888 surge o movimento Arts & Crafts, ou Artes e Ofícios, na Inglaterra, mais
especificamente em Londres. Este movimento defendia o artesanato criativo como
uma alternativa para a produção em série e para a mecanização, preconizando o
fim das diferenças entre o artista e o artesão. Lutou contra os avanços da indústria,
introduzindo o gosto pelo manufaturado, pelo artesanal, e pela revalorização das
artes aplicadas. Planejava registrar em móveis e objetos cotidianos os traços do
artesão-artista, que mais tarde seria nominado como designer. O movimento foi
liderado pelo socialista William Morris e influenciado pelas ideias de John Ruskin.

As principais características conceituais do movimento são:

• Simplicidade versus complexidade no ornamento.

• Sistema de grêmios versus sistema industrial.

• Acabamento artesanal versus acabamento industrial

• Levar em consideração o material, tanto na qualidade quanto na nobreza.

• Levar em consideração o uso, a função.

• Levar em consideração a construção, o design.

• Levar em consideração a ferramenta, a técnica.

Suas principais características estilísticas, visuais, são:

• União entre natureza e artefato.

• Estilização figurativa.

• Uso de figuras femininas.

• Padrões florais.

120 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

• Formas orgânicas e geométricas.

• Cores planas e pastéis.

• Linhas curvas.

• Arabescos.

• Originalidade.

Figura 3.7 | Vaso decorativo no estilo Arts & Crafts

Fonte: Disponível em: <http://www.getdomainvids.com/keyword/ceramic%20arts%20and%20crafts/>. Acesso em: 08 set.


2015.

O movimento criado por Morris contou com o apoio da monarquia vitoriana,


fazendo muito sucesso no interior da burguesia abastada. Morris registrou a marca
de sua oficina que ficou conhecida como possuidora de alta qualidade artesanal em
seus produtos. Desta maneira seus produtos foram altamente encarecidos, tornando
inviável o sonho de Morris de tornar seus ambientes e objetos acessíveis a todos,
pois quem fabricava os objetos não possuía condições financeiras de os comprar.

O gosto pela estética Arts & Crafts se expandiu rapidamente pelos Estados Unidos
e pela Alemanha. Nesses países foram publicadas várias revistas sobre o assunto,
revistas que tinham como alvo o público feminino.

Importantes artistas e arquitetos da época participaram do movimento: o espanhol


Galdi, o francês Henry Tolouse Lautrec, o austríaco Gustave Klimt o designer gráfico
Aubrey Beardslay, entre outros.

Este movimento durou relativamente um tempo curto, mas influenciou o

Cerâmica artística, popular e utilitária 121


U3

movimento francês denominado Art Nouveau. Diversos historiadores o consideram


como uma das principais fontes do modernismo no design gráfico, na arquitetura e
no desenho industrial.

No final do Século XIX as Exposições Universais na Europa exibem ao mundo


ocidental a cerâmica da China e do Japão. Esses países passam a ser a principal
referência estética e técnica na fabricação da cerâmica.

Após viver no Japão com a finalidade de aprofundar seus conhecimentos nos


procedimentos cerâmicos, o ceramista Bernard Leach inicia uma pesquisa visual,
criando formas novas e expressando uma linguagem mais pessoal, fazendo nascer
na Inglaterra a denominada cerâmica de estúdio. Este ceramista foi seguido por
várias gerações que formavam grupos nas regiões rurais com a finalidade de utilizar
o barro local, tanto para manipulação da argila como para a construção de seus
fornos cerâmicos.
Figura 3.8 | Peça cerâmica de autoria do ceramista Bernard Leach

Fonte: Disponível em: <http://www.tate.org.uk/art/artworks/leach-vase-t12080>. Acesso em: 08 set. 2015.

Influenciada pela Arts & Crafts e pela arte da gravura japonesa, surge a Art Nouveau,
um estilo internacional de arquitetura e de artes decorativas utilizado tanto em
arquitetura como em decoração, joalheria, ilustração e em muitos outros suportes,
principalmente no começo das artes aplicadas à indústria. Foi muito apreciada entre
1890 e 1910. Caracteriza-se pelo uso de linhas longas, ondulantes e assimétricas,
apresentando muitas vezes elementos que remetem às formas da natureza.

Este movimento artístico se espalha por toda Europa, adaptando os conceitos da


Arts & Crafts, reunindo a indústria e a arte com o objetivo de conseguir um produto
que fosse ao mesmo tempo útil e belo, transformando-o em um produto de luxo.
Desta maneira, a cerâmica também se torna um produto de luxo, um produto de arte.

122 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

A industrialização se estrutura na França, possibilitando um crescimento


dos recursos técnicos e, desta maneira, simplificando a obtenção dos materiais
cerâmicos. Isto possibilitou que muitos artistas começassem a trabalhar com a
cerâmica, atraídos pelas cores incandescentes dos esmaltes e pela surpresa dos
tons no final das queimas. Muitos desses artistas tiveram problemas para finalizar
suas peças, por não conhecer os componentes das argilas, não saber das cores dos
óxidos e não entender os processos e etapas da secagem das peças. Entenderam
que o desafio não era trocar telas, pincéis e tintas a óleo pelo barro.

Esses artistas necessitaram contar com a ajuda e o ensinamento de ceramistas


já conhecidos. Destaca-se entre eles André Mentthey (1871-1929), que já havia
realizado várias exposições de cerâmica e era muito conhecido. Colaborou com
seus conhecimentos na fabricação e coloração cerâmica para diversos pintores:
Odilon Redon, Auguste Renoir, Henri Matisse, Pierre Bonnard, Maillol, André Derain,
entre outros. Todos eles participaram, juntamente com Mentthey, da exposição
de 1907. Assim o abismo que existia separando ceramistas e artistas foi suprimido,
comprovando que o artista tinha a capacidade de dar vida nova para os meios
artesanais, executando uma obra de alta qualidade por meio de processos criativos.

Figura 3.9 | Cerâmica criada por André Derain

Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/pin/383087512030491764/>. Acesso em: 08 set. 2015.

Geralmente esses artistas determinavam as formas desejadas aos torneiros que


as modelavam. Antes do processo de decoração eles modificavam totalmente
essas peças. Alguns artistas também realizavam muitos estudos preliminares para
posteriormente trabalhar com a massa cerâmica. Podemos citar como exemplo
deste procedimento o artista Pablo Picasso, que contava com a ajuda dos ceramistas

Cerâmica artística, popular e utilitária 123


U3

George e Suzanne Ramié, do Ateliê Madoura.

Quando Picasso começou a trabalhar com a cerâmica, procurou manipular


conscientemente a massa, respeitando as características próprias da matéria. Utilizava
as concepções adquiridas no uso e na tradição cerâmica para servir como estrutura
tanto para suas criações estéticas como para as suas reflexões críticas. Conforme o
artista ia se familiarizando com o novo material, ia experimentando novas técnicas.

Figura 3.10 | Vaso em cerâmica da autoria de Pablo Picasso

Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/pin/246009198372465785/>. Acesso em: 08 set. 2015.

Os ceramistas George e Suzanne Ramié também colaboraram com o trabalho


de Marc Chagall. O artista, a princípio, interessa-se em compreender sua palheta de
cores relacionada aos efeitos da argila. Desta maneira, o que ele produziu na pintura
foi transposto para seus trabalhos cerâmicos. A partir de um certo momento no
seu processo criativo, Chagall passa a modelar suas peças, assim como a superfície
destas. Para Bachelard (1986, p. 25), “Marc Chagall rapidamente se torna um mestre
dessa pintura satânica que ultrapassa a superfície e se inscreve numa química
da profundeza. E sabe conservar vivo na pedra, na terra, na massa, seu vigoroso
animalismo”.

Antes da Primeira Guerra Mundial, o estilo torna-se mais geométrico. Esta


transformação da Art Nouveau levará ao Art Déco (1910-1939).

Nesta relação entre arte e cerâmica, não podemos deixar de mencionar o


ceramista catalão Llorens Artigas. Logo após a Primeira Guerra Mundial, este ceramista
se muda para a cidade de Paris, trabalhando com os artistas Raoul Dufy, Joan Miró

124 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

e Georges Braque. Artigas foi artista singular quando se trata do suporte cerâmica.
Participou intensamente do Modernismo e realizou intercâmbio com vários artistas
dentro da produção cerâmica. Sua experiência com este material se amplia a partir
de 1942, quando começa a trabalhar com Joan Miró, que busca ajuda do ceramista
para conquistar um domínio técnico neste material. Juntamente com Artigas, Miró
descobriu, nas palavras dele mesmo, a magia primitiva do fogo.

Em vários momentos de sua vida, Miró confessa sua paixão pela cerâmica e
observa que Artigas teve uma importância relevante no seu trabalho, possibilitando-o
trabalhar com este novo material e, consequentemente, desenvolvendo outra
linguagem e enriquecendo sua produção artística.

Ceramista e artista, trabalhando intensamente em conjunto, criaram uma grande


diversidade de trabalhos para espaços públicos. Podemos destacar o mural da
UNESCO realizado em 1958 e o mural do Aeroporto de Barcelona, finalizado em 1970.

Figura 3.11 | Mural cerâmico da UNESCO, idealizado por Joan Miró e Llorens Artigas

Fonte: Disponível em: <http://www.unesco.org/artcollection/jsps/image.jsp?image=/artcollection/GetImageAction.


do?src=Oeuvre3082/image2..JPG&copyright=UNESCO+droits+r%C3%A9serv%C3%A9s+et+J.+Gardy+Artigas&copyrightIm
age=Photo%3A+UNESCO%2FD.+Roger>. Acesso em: 08 set. 2015.

Muitos ceramistas europeus migram para os Estados Unidos fugindo dos horrores
da Segunda Guerra Mundial, o que possibilita influências entre essas culturas distintas,
permitindo que a cerâmica do século XX se transformasse, adquirindo identidade e
liberdade de expressão, características próprias da arte contemporânea. Podemos

Cerâmica artística, popular e utilitária 125


U3

citar como exemplo o artista Antony Gormley e sua instalação de 1991 intitulada Field,
que já vimos na Unidade 1 deste livro. Vamos destacar como exemplo a ceramista
Vilma Villaverde se utiliza de peças sanitárias como suportes para seus processos
criativos, trabalhando, desta maneira, com o privado e o público.

Analisando a arte mundial produzida no período modernista,


reflita e escreva sobre a relação das artes cerâmicas e sua
importância dentro deste período. Qual é a sua importância
enquanto suporte artístico dentro do Modernismo? Como
a cerâmica ajudou a quebrar certos paradigmas do olhar?
Justifique.

Outra artista com um trabalho Figura 3.12 | Trabalho em cerâmica da


muito expressivo dentro da arte artista Vilma Villaverde
contemporânea e que utiliza a
cerâmica, mais precisamente a
porcelana como suporte, é a coreana
Yee Sookyung. A artista nasceu em
Seul, em 1963, onde vive e trabalha
até hoje. Já expôs seus trabalhos
em diversas exposições individuais e
coletivas pelo mundo todo, além de ter
obras suas em coleções de museus da
Coreia e do Japão.

Sookyung utiliza cacos de porcelana


e os cola com epóxi e folhas de ouro,
construindo esculturas com múltiplos
significados. O termo coreano Geum
significa tanto ouro quanto fenda.
A porcelana branca Chosun, por
sua grande beleza, tem um papel
fundamental dentro do imaginário da
Coreia, e foi uma das causas da invasão
japonesa ocorrida no século XVI, onde
mestres ceramistas coreanos foram
obrigados a emigrar para o Japão para Fonte: Disponível em: <http://artodyssey1.blogspot.com.
br/2012/10/vilma-villaverde.html>. Acesso em: 08 set.
poderem exercer seu ofício. 2015.

126 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Figura 3.13 | Escultura em porcelana, epóxi e ouro da artista Yee Sookyung

Fonte: Disponível em: <http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.difundir.com.br/site/c_download.


php%253Farq%253D01688_08521.jpg&imgrefurl=http://www.difundir.com.br/site/c_mostra_release.
php?emp%3D1688%26num_release%3D8521%26ori%3DE&h=728&w=1092&tbnid=rdiiLBZdWPdAXM:&docid=D1-
0b3nbcOSzDM&itg=1&ei=4yrwVf_3AcamwgSmm7yYAQ&tbm=isch&ved=0CBwQMygBMAFqFQoTCL_1mtP-
6ccCFUaTkAodpg0PEw>. Acesso em: 09 set. 2015.

1.7 A cerâmica artística no Brasil


Já estudamos também brevemente uma introdução à história da cerâmica
artística no Brasil, no tópico Cerâmica na Arte Contemporânea Brasileira. Vamos
agora aprofundar nossos conhecimentos sobre o assunto.

Você se lembra que no Brasil a utilização do material cerâmico pelos artistas


visuais aconteceu de maneira muito tímida e se desenvolveu lentamente? Parecia
haver uma longa distância entre as outras linguagens das artes visuais como desenho,
pintura e até mesmo da escultura.

A inserção se deu de forma lenta. Os artistas fizeram migração de uma técnica


para outra de maneira muito tímida, usando, a priori, os suportes cerâmicos para
pintar, como substitutos das telas.

Desta maneira, o azulejo passa a ser o material mais utilizado, carregado de


influência portuguesa. Alguns artistas simplesmente transferiam os desenhos para
o azulejo, em substituição à tela branca. Gostavam da faiança de revestimento, um

Cerâmica artística, popular e utilitária 127


U3

material que pouco a pouco vai se libertando de valores tradicionais trazidos da


Europa.

Podemos destacar alguns nomes que faziam uso da cerâmica como suporte para
a pintura, em substituição à tela: Volpi, Portinari, Djanira, Paulo Rossi, Poty, Roberto
Burle Marx e Athos Bulcão.

Figura 3.14 | Pintura sobre azulejo de Alfredo Volpi

Fonte: Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=sdyilpXQMaE>. Acesso em: 11 set. 2015.

Para saber mais sobre este processo utilizado pelos artistas brasileiros
que utilizavam a cerâmica como suporte para suas obras, acesse os sites:
<http://www.raulmendessilva.com.br/brasilarte/temas/osidarte.html>,
<https://www.escritoriodearte.com/artista/osirarte/>,
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/#!q=osirarte>. Acesso em: 11
set. 2015.

128 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Esse processo mudou lentamente. Cândido Portinari, no início dos anos 40,
começou a pintar figuras soltas no espaço composicional, criando os fundos das
suas composições com motivos marinhos, mudando o tamanho e o formato dos
azulejos. Com o domínio e amadurecimento da técnica, os exageros visuais que
se apresentavam apenas como decorativos, são substituídos por uma preocupação
maior, por uma sofisticação na sua representação aeroespacial.

Figura 3.15 | Painel cerâmico no Palácio Gustavo Capanema, de Cândido Portinari

Fonte: Disponível em: <http://jornalggn.com.br/blog/alfeu/os-paineis-de-azulejos-nos-predios-do-rio-de-janeiro-


fabricados-pela-osirarte-sp>. Acesso em: 11 set. 2015.

Observe atentamente a figura 3.13, obra de Alfredo Volpi,


e a figura 3.14, obra de Cândido Portinari. Compare as
duas figuras, atentando para as cores, motivos, relação
figura-fundo, composição e suporte. Considerando-se as
características da arte produzida no período modernista
brasileiro, relacione as duas figuras com essas características.

Outros artistas seguiram o exemplo de Portinari e passaram a utilizar o azulejo


como um módulo, trabalhado individualmente para compor com figuras avulsas,
aumentando consideravelmente a palheta de cores. Como exemplo, podemos citar
o trabalho de Athos Bulcão, que contribuiu com um interessante diálogo visual entre
a cerâmica e a arquitetura. O artista trabalhou com vários arquitetos, principalmente
Oscar Niemayer.

Cerâmica artística, popular e utilitária 129


U3

Figura 3.16 | Painel cerâmico criado por Athos Bulcão

Fonte: Disponível em: <http://kultme.com.br/kt/2015/08/13/obras-de-athos-bulcao-ganham-exposicao-online-e-


interativa/>. Acesso em: 11 set. 2015.

A partir do final da década de 80, várias galerias e museus começam a expor obras
com suportes cerâmicos como um dos meios de expressão plástica: MAM, Galeria
São Paulo, Toki Arte, Paulo Figueiredo, Mônica Figueira, situadas em São Paulo;
Galeria Trindade no Rio de Janeiro; as Salas Corpo e Palácio das Artes, em Belo
Horizonte. Toda a mídia e as revistas especializadas em arte que eram publicadas na
época também começaram a divulgar esses trabalhos e exposições.

Alguns livros específicos sobre o assunto também são editados, entre eles
destacam-se: artistas da cerâmica brasileira, publicado pela Volkswagem do Brasil
S.A., no ano de 1985. O livro trazia um panorama geral da arte cerâmica no Brasil,
cobrindo desde a cerâmica indígena, passando pela cerâmica popular, até a cerâmica
contemporânea; Cerâmica Arte da Terra, publicado no ano de 1987, catálogo de
artistas ceramistas contemporâneos brasileiros com textos sobre cerâmica.

Toda a divulgação através da mídia, revistas e livros possibilitou uma maior


visibilidade da cerâmica como arte em si mesmo, e não como substituta da tela em
branco onde o artista podia compor com suas cores.

1.8 Cerâmica contemporânea brasileira


Observe que em nosso país acontece uma convergência de culturas. Este fator
tornou internacional a nova cerâmica produzida pelos imigrantes. Devemos também
considerar a influência dos ceramistas brasileiros que estudaram e estagiaram no
exterior e voltaram para trabalhar no país.

130 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Podemos compreender que as diversidades de linguagens


que a arte cerâmica apresenta estão em parte ligadas às
diferenças culturais, e isso se dá pelos inúmeros surtos
colonizadores ou migratórios assimilados pelos brasileiros.
No entanto, o nosso fazer cerâmico dialoga para além dessa
interface predominantemente cultural, centrando-se, ainda,
no aprimoramento e desenvolvimento de experiências de
cunho mais técnico-construtivo, ou seja, ligado a uma poética
de materiais e procedimentos (RODRIGUES, 2011, p. 20).

Desta maneira, podemos afirmar que os trabalhos dos ceramistas brasileiros se


concentram em duas direções.

• O fazer artístico que é atravessado por um olhar concentrado nas práticas


culturais: Podemos citar os processos criativos que geram trabalhos ligados aos
conceitos japoneses, principalmente os originários do Extremo Oriente. Esta é uma
arte milenar que chega ao nosso país no início do século XX, com os primeiros
imigrantes que vieram trabalhar na agricultura no interior de São Paulo. Como
exemplo, vamos citar o trabalho da ceramista Shoko Suzuki. A artista conserva a
tradição da cerâmica desde a construção das peças até a finalização, utilizando
queima no forno a lenha, mantendo um alto grau de domínio técnico. Você
pode observar no trabalho da artista que o requinte técnico está concentrado na
consolidação e nos aprimoramentos já estabelecidos na tradição cultural.

Figura 3.17 | Peças cerâmicas da artista Shoko Suzuki

Fonte: Disponível em: <http://casa.abril.com.br/materia/shoko-suzuki-ceramica-forno-medieval-noborigama?utm_


source=redesabril_casas&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_casaclaudialuxo>. Acesso em: 11 set. 2015.

Cerâmica artística, popular e utilitária 131


U3

Seguindo esta mesma linha do olhar Figura 3.18 | Escultura em cerâmica, pedra
concentrado nas práticas culturais, e ferro de Megumi Yuasa
também podemos citar os ceramistas
Katsuko Nakano, Akinori Nakatani e Kimi
Nii.

• O fazer artístico concentrado nos


procedimentos técnico-construtivos:
Nesta linha o ceramista trabalha com
a matéria plástica de forma mais livre
e exploratória, pesquisando o uso de
outros materiais para a composição de
suas peças cerâmicas. Como exemplo
podemos citar o ceramista Megumi
Yuasa que compõe seus trabalhos
fazendo uso de ferro, de pedras, de
vegetais, entre outros materiais.

Seguindo esta mesma linha do


olhar concentrado nos procedimentos
técnico-construtivos, podemos citar
os artistas Miguel dos Santos, Antônio
Poteiro, Norma Grinberg, Lygia Reinach,
Célia Cimbalista, Mary Di Iorio, Mariana
Canepa, e muitos outros.

Devemos considerar também que


alguns artistas trabalham com essas duas
tendências, procedimentos técnicos e
práticas culturais. Por exemplo, o artista
Fonte: Disponível em: <http://www.tableau.com.br/
Francisco Brennand que já conhecemos anterior/junho12/G352.htm>. Acesso em: 11 set. 2015.
na Unidade 1 do nosso livro. A priori,
Brennand considerava que a cerâmica
era apenas uma arte utilitária, artesanato, e por isso dedicou-se principalmente à
pintura a óleo. Em visita à França, em 1948, visitou uma exposição de cerâmicas de
Pablo Picasso e descobriu que muitos artistas da Escola de Paris haviam utilizado
a massa cerâmica como suporte artístico, entre eles, Pablo Picasso, Marc Chagall,
Henri Matisse, Braque, Paul Gauguin, e Principalmente Joan Miró. A partir desta data,
Brennand começou a migrar seu processo de criação para as artes do fogo.

• O artista dialoga com a cultura nordestina do país, mas no seu processo


criativo, volta-se aos procedimentos técnico-construtivos.

132 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Figura 3.19 | Escultura cerâmica de Francisco Brennand

Fonte: Disponível em: <https://catracalivre.com.br/sp/agenda/barato/obras-de-francisco-brennand-chegam-ao-sesc-


interlagos/>. Acesso em: 11 set. 2015.

1. Assinale a alternativa correta para a questão abaixo:


A. Cultura Popular é a cultura que consegue abranger um
grande número de pessoas.
B. Cultura Popular é a cultura que um povo desenvolve no seu
dia a dia, dentro das condições desse povo.
C. Não existe o que se chama de Cultura Popular.
D. Cultura Popular é a cultura de elite, onde poucos têm acesso.
E. Nenhuma das respostas acima.

Cerâmica artística, popular e utilitária 133


U3

2. Observe a imagem abaixo e assinale a alternativa que indica


o tipo de trabalho plástico realizado:

Figura 3.19 | Músicos, obra de Mário Zanini

Fonte: Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8627/mario-zanini>. Acesso em: 11


set. 2015.

A. Pintura a óleo sobre tela.


B. Aquarela sobre tela.
C. Gravura.
D. Pintura sobre azulejos.
E. Xilogravura.

134 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Seção 2

Cerâmica popular ou figurativa e cerâmica utilitária


O estudo desta seção compreende noções sobre o que é cultura e como funciona a
cultura. Aborda a cultura da cerâmica popular, seus artistas e suas características. A seção
também apresenta noções sobre as diferenças entre cerâmica popular e figurativa.

2.1 O que é cultura?


Para entendermos melhor a cerâmica no desmembramento de seus usos,
primeiro necessitamos entender o que vem a ser cultura. Esta palavra origina-se do
latim colere e significa cultivar. Podemos considerar socialmente a cultura como um
conjunto que inclui conhecimento, arte, crenças, leis e costumes adquiridos pelo
homem por meio de sua família e da sociedade em que vive. Devemos também
levar em consideração os fatores geográficos, pois as diferenças do ambiente físico
condicionam a diversidade cultural.

Resumindo, o comportamento dos indivíduos depende de um


aprendizado, de um processo que chamamos de endoculturação.
Um menino e uma menina agem diferentemente não em função
de seus hormônios, mas em decorrência de uma educação
diferenciada (LARAIA, 1986, p. 19-20).

O homem faz parte do reino animal e como tal, está inserido


na evolução das espécies. Observe a definição do termo
Cultura e reflita atentamente: se considerarmos cultura como
um conjunto que abrange conhecimento, arte, crenças, leis e
costumes, seria o homem o único ser vivo possuidor de cultura?

Cerâmica artística, popular e utilitária 135


U3

2.2 Como funciona a cultura?


Agora que você já sabe o que é cultura, podemos afirmar que a cultura condiciona
a visão de mundo do homem.

A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o


mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas
e, portanto, têm visões desencontradas das coisas. Por
exemplo, a floresta amazônica não passa para o antropólogo
— desprovido de um razoável conhecimento de botânica
— de um amontoado confuso de árvores e arbustos, dos
mais diversos tamanhos e com uma imensa variedade de
tonalidades verdes. A visão que um índio Tupi tem deste
mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais
tem um significado qualitativo e uma referência espacial
(LARAIA, 1986, p. 67).

Considerando-se a citação acima, conseguimos compreender o fato de que


pessoas de culturas totalmente diferentes podem ser facilmente identificadas por
meio de uma série de características culturais, tais como o modo de agir, de vestir,
de caminhar, de comer, e ainda a diferença da língua nativa. Como o homem
vê o mundo através de sua cultura, ele passa a considerar o seu ponto de vista
sobre o mundo, sobre as situações, sobre as pessoas, o modo correto e natural,
gerando, desta maneira, os conflitos sociais. Na Antropologia, este fator denomina-
se Antropocentrismo.

A cultura está sempre em movimento, em transformação. Podemos considerar


que existem dois tipos de mudança cultural e elas podem ocorrer simultaneamente:

• Mudança interna: Resulta da dinâmica do próprio sistema cultural e


geralmente é muito lenta. Seus ritmos são alterados por eventos históricos,
tecnológicos e econômicos.

• Mudança externa: Resulta do contato de um sistema cultural com outro


completamente diferente. Seus ritmos geralmente são rápidos e bruscos. Por
exemplo, o contato dos índios brasileiros com a cultura europeia.

Desta maneira, essa mudança interna e externa dentro da cultura vai impactar
o simbólico de um povo e, consequentemente, suas manifestações artísticas
e populares. Já vimos na Unidade 1, quando estudamos a História da Cerâmica,
que algumas dessas transformações ocorrem nos processos cerâmicos, tanto nas
técnicas utilizadas nas diferentes culturas, como nos resultados estéticos finais.

136 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Assim, podemos afirmar que a cultura nasce e se transforma por meio do


simbólico.

2.3 A cultura da cerâmica popular ou figurativa


Já estudamos na Unidade 1 deste livro um pouco da cerâmica popular ou
figurativa. Vimos que o artesanato do Brasil, do qual a cerâmica tem uma participação
importante, é um dos mais diversificados do mundo, garantindo a subsistência de
muitas famílias e comunidades.

O artesanato também faz parte do folclore do país, mostrando seus usos, seus
costumes e tradições e características de cada região.

Devido às suas extensões continentais e à riqueza de matéria-prima, a cerâmica


é uma das formas de arte popular mais produzidas no Brasil.

Estas cerâmicas, primeiramente fabricadas pelos índios, posteriormente sofrem


influência da tradição barrista europeia e dos modelos africanos, e cresceram em
regiões onde a extração de sua matéria-prima, o barro, é propício. Conhecemos
também alguns artesãos e comunidades de artesãos importantes no país, como a
cerâmica do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, Mestre Vitalino no Nordeste e
a Cerâmica Marajoara no Norte.

Nesta unidade vamos aprofundar nossos estudos.

A argila é uma matéria prima facilmente encontrada na natureza, possui grande


elasticidade e plasticidade. Estas características a tornaram o principal material de
trabalhos manufaturados, tanto de peças utilitárias como expressivas, no mundo
todo. O homem introduziu as peças cerâmicas em seu cotidiano, desde os
primórdios, e foi adaptando as peças às suas necessidades individuais e coletivas.
Em diferentes culturas a argila é utilizada de diferentes maneiras: como remédio em
forma de emplastros, para conservar alimentos, na construção de moradias, etc.
Contemporaneamente a argila, além de servir de suporte para trabalhos de arte e
artesanato, é também muito consumida como material cosmético, onde cada tipo
de pele requer um tipo de argila específico.

A cerâmica e os bonecos de barro

Como já vimos, a cerâmica é uma matéria prima facilmente encontrada na


natureza em forma bruta e por suas características de elasticidade e plasticidade, é
uma das formas de expressão na arte popular e no artesanato mais desenvolvidas
em todo território brasileiro.

Podemos dividir a cerâmica em utilitária e em figurativa:

• Cerâmica utilitária: É o tipo de cerâmica conceituada, desenhada e

Cerâmica artística, popular e utilitária 137


U3

manufaturada com a intensão de fazer parte do cotidiano do ser humano, individual


e coletivamente. São peças confeccionadas para servirem de suporte material no
dia a dia, desenhados para atender as proporções do corpo humano. Copos, pratos,
jarras, vasos, canecas, bandejas, xícaras, bules, potes, talheres, vasilhames para fins
diversos. Estão presentes em todas as culturas e em todos os níveis socioeconômicos.
Pode ser industrial ou artesanal.

Figura 3.20 | Cerâmica utilitária industrial para guardar mantimentos

Fonte: Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/234468724323868101/>. Acesso em: 10 set. 2015.

• Cerâmica figurativa: É o tipo de cerâmica que copia elementos visuais


regionais, elementos animados ou inanimados. Quando copia seres inanimados,
observa-se peças cerâmicas que imitam a fauna e flora local. Quando copia seres
animados, podemos observar bonecos que imitam tipos de personalidades da
cultura local.

Figura 3.21 | Cerâmica figurativa – pinha

Fonte: Disponível em: <http://www.katemaloneceramics.com/works/>. Acesso em: 10 set. 2015.

138 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

A cerâmica figurativa de bonecos destaca-se no Nordeste, onde podemos


encontrar bonecos de barro que reconstroem personagens típicas da geografia
local, tais como retirantes, cangaceiros, rendeiras, músicos e vendedores. Destacam-
se nacional e internacionalmente os famosos bonecos do pernambucano Mestre
Vitalino (1909-1963). O mestre ensinou sua técnica a dezenas de discípulos e
descendentes que trabalham com o barro a décadas, incansavelmente.

A cerâmica de bonecos também se destaca nos estados do Pará, Sergipe, Ceará,


Pernambuco, Alagoas, Espírito Santo, Bahia, São Paulo Minas Gerais e Santa Catarina.
Nos demais estados brasileiros as peças cerâmicas produzidas são do tipo utilitárias.

Levando em consideração as noções de cultura e cultura


popular que abordamos neste capítulo, reflita e escreva
sobre a importância da cerâmica popular dentro do contexto
da cultura popular brasileira e seus impactos regionais, tanto
financeiros quanto sociais.

Figura 3.22 | Banda de Músicos de Mestre Vitalino

Fonte: Disponível em: <http://www.hak.com.br/artesanato/mestre-vitalino-figura-legendaria-do-artesanato-brasileiro/>.


Acesso em: 10 set. 2015.

Cerâmica artística, popular e utilitária 139


U3

Outro polo de cultura cerâmica de bonecos que se destaca nacional e


internacionalmente é o Vale do Jequitinhonha, situado ao Norte de Minas Gerais,
banhado pelo rio Jequitinhonha e afluentes. Declarada como uma das regiões mais
pobres do país, a região possui cerca de um milhão de pessoas.

Já conhecemos um pouco sobre a região conhecida como Vale do


Jequitinhonha no primeiro capítulo do nosso livro. Para saber ainda mais
sobre a rica cultura desta coletividade e entender como se desenvolveu o
modo de produção da cerâmica que é manufaturada por esses artesãos
mineiros do Vale, assista ao vídeo:
<Https://www.youtube.com/watch?v=Hh-8mADC3bI>. Acesso em: 10
set. 2015.

Figura 3.23 | Cerâmica do Vale do Jequitinhonha – Noiva

Fonte: Disponível em: <http://artepopularbrasil.blogspot.com.br/search?updated-max=2010-12-01T15:44:00-08:00&max-


results=10&start=69&by-date=false>. Acesso em: 10 set. 2015.

140 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

1. Assinale a alternativa correta abaixo:


A. A cerâmica de bonecos também se destaca nos estados
do Paraná, Sergipe, Ceará, Alagoas, Espírito Santo, Bahia, São
Paulo e Mato Grosso.
B. Um polo de cultura cerâmica de bonecos que se destaca
nacional e internacionalmente é o Vale do Jequitinhonha,
situado ao Norte de Minas Gerais.
C. O artesanato não faz parte do folclore do Brasil, não mostra seus
usos, seus costumes e tradições e características de suas regiões.
D. A palavra cultura origina-se do latim colere e significa cortar.
E. Todas as questões acima estão corretas.

2. Observe atentamente a imagem abaixo e assinale a alternativa


correta.

Figura 3.24

Fonte: Disponível em: <http://artepopularbrasil.blogspot.com.br/2010/11/este-blog-sera-inaugurado-


com-uma.html>. Acesso em: 11 set. 2015.

A. Cerâmica utilitária.
B. Cerâmica infantil.
C. Cerâmica figurativa inanimada.
D. Cerâmica figurativa animada.
E. Cerâmica esmaltada.

Cerâmica artística, popular e utilitária 141


U3

Nesta unidade sobre a "Cerâmica artística, popular e utilitária"


você aprofundou ainda mais seus conhecimentos sobre este
material artístico cheio de possibilidades:
• Analisamos as diferenças entre arte e artesanato.
• Conhecemos noções sobre o que vem a ser cultura popular.
• Conhecemos alguns conceitos contemporâneos sobre o que
é arte.
• Aprendemos sobre a relação entre cerâmica e o simbólico.
• Estudamos as origens cerâmicas e a Etnoarte.
• Conhecemos mais sobre a cerâmica artística mundial, a
cerâmica artística brasileira e a cerâmica artística brasileira
contemporânea.
• Entramos em contato com noções sobre o que é e como
funciona a cultura.
• Analisamos as especificidades da cerâmica popular ou figurativa.

Com o início da Revolução Industrial, o trabalho do artesão é


substituído por máquinas e equipamentos de produção em série,
no cotidiano moderno objetos de uso diário são fabricados em
escala industrial. Esta produção serializada fez com que estes
objetos se tornassem cada vez mais simples em suas formas,
mais resistentes, cada vez mais parecidos uns aos outros.
Podemos afirmar que a diferença entre arte e artesanato acontece
na forma da apropriação da cultura. O artesão, dentro de uma
determinada cultura, tem a função de armazenar e transmitir as
técnicas e conceitos, colaborando na tradição.
Estudando a cultura popular de grupos de determinadas culturas,
automaticamente estamos estudando o seu folclore, palavra que
tem origem no inglês antigo e significa a sabedoria de um povo,
seu conhecimento e discurso.

142 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Para vários autores da História da Arte, esta nasce como fruto da


magia, não sendo nunca uma descrição literal do real.
A importância da cultura e da cultura popular nas suas diversas
representações nasce da necessidade dos valores sociais, que
se baseiam nas representações, permaneçam constantes, sejam
sempre repetidos e renovados.
Etnoarte refere-se tanto à tradição estética determinada como
descreve a conjuntura de uma arte sociocultural.
O termo cultura define códigos simbólicos compartilhados
coletivamente dentro de um espaço geográfico. Assim, no interior
das comunidades indígenas, a arte que é realizada se confunde
com a própria cultura, não havendo ruptura.
Após o surgimento do capitalismo, a arte passa a ter um status de
objeto artístico, ou seja, sua principal finalidade é gerar o lucro.
No Brasil, a utilização do material cerâmico pelos artistas visuais
acontece de maneira muito tímida e se desenvolve lentamente,
havendo uma longa distância das outras linguagens das artes
visuais como desenho, pintura e até mesmo da escultura.
A partir do final da década de 80, várias galerias e museus
começam a expor obras com suportes cerâmicos como um dos
meios de expressão plástica: MAM, Galeria São Paulo, Toki Arte,
Paulo Figueiredo, Mônica Figueira, situadas em São Paulo; Galeria
Trindade no Rio de Janeiro; as Salas Corpo e Palácio das Artes, em
Belo Horizonte. Toda a mídia e as revistas especializadas em arte
que eram publicadas na época também começaram a divulgar
esses trabalhos e exposições.
A cerâmica de bonecos se destaca nos estados do Pará, Sergipe,
Ceará, Pernambuco, Alagoas, Espírito Santo, Bahia, São Paulo,
Minas Gerais e Santa Catarina. Nos demais estados brasileiros as
peças cerâmicas produzidas são do tipo utilitárias.

1. A prática manual na fabricação de peças de argila estendeu-


se até o século XIX, quando a manufatura foi substituída pela

Cerâmica artística, popular e utilitária 143


U3

produção industrial. Desta maneira, o trabalho do artesão foi


substituído por máquinas e equipamentos de produção em
série, sendo fabricados em escala industrial, pratos, copos,
vasos, objetos de decoração.
Partindo da premissa acima, marque a alternativa correta que
indica quais as mudanças estéticas que aconteceram nas
peças cerâmicas.
A. As peças se tornaram mais frágeis e sem cor.
B. As peças deixaram de ter um uso no cotidiano das pessoas.
C. A produção industrial durou apenas alguns anos, as peças
cerâmicas voltaram a ser moldadas manualmente pelos
artesãos.
D. As peças se tornaram cada vez mais simples em suas
formas, mais resistentes e mais parecidas umas com as outras.
E. As peças cerâmicas fabricadas eram apenas de utilização
industrial, por exemplo, peças para aviação.

2. Podemos definir que a diferença entre arte e artesanato


encontra-se diretamente ligada à cultura e sua apropriação. O
artesanato está relacionado ao fazer repetitivo e se relaciona
às questões de sobrevivência, ligando-se diretamente à
tradição. Vai se apropriar da cultura para trabalhar as questões
referentes à produção do objeto e da sua comercialização.
Considerando-se o texto acima, marque a alternativa correta
que indica o papel do artesão dentro da cultura.
A. O artesão dentro de uma cultura tem a função de fabricar
peças que facilitem o cotidiano de sua coletividade.
B. O artesão dentro de uma cultura tem a função de divulgar
e comercializar sua arte dentro de uma elite.
C. O artesão dentro de uma cultura tem a função de armazenar
e transmitir as técnicas e conceitos, colaborando na tradição.
D. O artesão dentro de uma cultura tem nenhuma função.
E. Nenhuma das alternativas acima.

3. Na sociedade pré-capitalista observamos que o consumo

144 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

tendia ao esbanjamento, fazendo surgir o mecenato


artístico. Com a solidificação do capitalismo, toda e qualquer
materialidade vai se transformar em mercadoria, inclusive a
arte. O artista se transforma em produtor de mercadorias,
como qualquer outro trabalhador, enquanto seu trabalho, a
obra de arte, é colocada à lógica do lucro.
Marque a alternativa abaixo que melhor define o termo
mecenato.
A. Mecenato era o indivíduo que tinha o papel de crítico de
arte em sua coletividade.
B. Mecenato é um termo que indica o incentivo e o
financiamento de artistas e de atividades artísticas e culturais.
C. Mecenato é um tipo de financiamento oferecido aos
artistas por grandes empresas que produzem artesanato.
D. Mecenato está ligado à política vigente em uma dada
cultura e define o que é e o que não é arte.
E. Mecenato é um tipo de artista visual.

4. A industrialização se estrutura na França possibilitando um


crescimento dos recursos técnicos. Desta maneira, simplificou
a obtenção dos materiais cerâmicos, possibilitando que muitos
artistas começassem a trabalhar com a cerâmica, atraídos
pelas cores incandescentes dos esmaltes e pela surpresa dos
tons no final das queimas.
Assinale a alternativa correta que indica os artistas aos quais o
texto acima se refere.
A. Paul Cezanne, Renoir e Basquiat.
B. Bonnard, Basquiat, Fernand Léger.
C. Artur Barrio e Kandinsky.
D. André Breton.
E. Odilon Redon, Auguste Renoir, Henri Matisse, Pierre
Bonnard, Maillol, André Derain.

5. No Brasil, no início dos anos 40, este artista começou a pintar


figuras soltas no espaço composicional, criando os fundos

Cerâmica artística, popular e utilitária 145


U3

das suas composições com motivos marinhos, mudando o


tamanho e o formato dos azulejos. Conforme amadureceu
sua técnica, os exageros visuais foram substituídos por uma
sofisticação na sua representação aeroespacial.
Assinale a alternativa correta indicando a que artista o texto
faz referência.
A. Cândido Portinari.
B. Alfredo Volpi.
C. Matisse.
D. Tarsila do Amaral.
E. Anita Malfatti.

146 Cerâmica artística, popular e utilitária


U3

Referências

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BACHELARD, Gaston. O direito de sonhar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1986.
BOSI, Alfredo et al. Cultura brasileira: tradição e contradição. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1987.
CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da
modernidade. São Paulo: EdUSP, 1997.
DOLABELLA, Renato Melo. Diário de bordo. Disponível em: <http://www.eba.ufmg.
br/alunos/kurtnavigator/arteartesanato/6junho.html>. Acesso em: 04 set. 2015.
DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. Tradução: Jefferson L. Camargo. 2.ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1997.
ESTÁGIO de Artista. História do design. Disponível em: <http://www.estagiodeartista.
pro.br/artedu/histodesign/2_design_secxix.htm>. Acesso em: 08 set. 2015.
FISCHER, Ernst. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar,
1986.
LIPOVETISKY, G.; SERROY, J. A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada.
Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
RODRIGUES, Maria Regina. Cerâmica. Vitória: UFES, Núcleo de Educação Aberta e a
Distância, 2011.
VELTHEM, Lucia Hussak van. Grafismo indígena: estudos de antropologia estética.
São Paulo: Fapesp, 1994
UOL Educação. Cerâmicas, rendas e outros tipos de artesanato brasileiro. Disponível
em: <http://educacao.uol.com.br/folclore/ult1687u7.jhtm>. Acesso em: 08 set. 2015.

Cerâmica artística, popular e utilitária 147


Unidade 4

ASPECTOS METODOLÓGICOS
DA CERÂMICA NA EDUCAÇÃO
BÁSICA

Marcelo Silvio Lopes

Objetivos de aprendizagem:
Conhecer os aspectos metodológicos da cerâmica na educação básica.
Aprender técnicas para modelar e decorar a massa cerâmica.
Entender o processo de queima da argila.

Seção 1 | Técnicas para Modelar Peças Cerâmicas


Nesta seção, o ponto de partida são os materiais usados em cada técnica
da gravura. Abordaremos os tipos de matrizes conforme os instrumentos, as
ferramentas, as tintas e os suportes com suas variações, de acordo com as
técnicas estudadas durante as outras três unidades estudadas.

Seção 2 | Técnicas para Decorar Peças Cerâmicas


Nesta seção, você vai aprender várias técnicas diferentes para decorar
suas peças cerâmicas, além de aprofundar seus conhecimentos em materiais
de decoração para trabalhar em suas peças.

Seção 3 | Técnicas para Queimar Peças Cerâmicas


Nesta seção, você estudará os três tipos de ambientes de queimas
possíveis. Conhecerá os vários tipos de fornos que pode utilizar para queimar
suas peças, além de aprender a fazer queimas alternativas.
U4

150 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Introdução à unidade

Neste livro, você já aprendeu muito sobre a argila e a cerâmica. Conheceu


a história da cerâmica nas culturas nacional e mundial, e suas relações com o
indivíduo, tanto subjetivas quanto objetivas.

Nesta última unidade nosso foco vai ser mais técnico, possibilitando desta
maneira, que você passe por todo o processo de criação de peças cerâmicas,
desde a escolha da argila, às técnicas de modelagem, às técnicas de secagem,
processos de decoração, atingindo o processo de queima e resultando em peças
que tenham uma excelência tanto técnica quanto estética.

Assim, esta unidade pretende dar uma visão técnica geral sobre os processos
criativos no universo da cerâmica.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 151


U4

152 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Seção 1

Técnicas para modelar peças cerâmicas


O estudo desta seção compreende conceitos sobre os processos criativos com a
massa cerâmica, suas possibilidades, seus conceitos e suas linguagens. Compreende
também estudos sobre as técnicas para modelar a massa cerâmica, as ferramentas e
materiais necessários, os procedimentos passo a passo. A seção termina com técnicas
para que você finalize a modelagem da sua peça cerâmica sem problemas técnicos.

1.1 O processo criativo na cerâmica


Dentro do processo criativo na utilização da cerâmica como suporte, vamos
encontrar diferenças imensas de artista para artista dentro dessa linguagem, pois
cada um escolhe o processo de trabalho que tem mais afinidade.

Por exemplo, alguns artistas optam em trabalhar diretamente com massa


cerâmica, sem um projeto prévio. Outros preferem construir seu pensamento
plástico através do desenho, do projeto. Há ainda outros que estão sempre abertos
a diferentes caminhos, possibilidades, como os restos cerâmicos ou outros materiais
distintos.

Sobre processos criativos, não se esqueça que não há regras e alguns processos
podem ocorrer de forma simultânea; já que é um fenômeno comunicativo e possui
uma interface cultural, devemos considerar a interação do ceramista com seu
tempo e seu espaço histórico e socialmente construído. Assim, seu processo criativo
é constantemente contaminado por influências da criação de outros. Devemos
considerar também que o desenvolvimento do discente jamais acontece de modo
linear, é um processo dinâmico que acontece em vários níveis.

Desta maneira, vamos destacar cinco possibilidades de processos criativos no


percurso da elaboração e da produção das obras cerâmicas, não descartando
outros processos não identificados aqui. Você deve ter em mente que o mesmo
artista, durante o processo criativo de sua obra, pode se utilizar de mais de uma
possibilidade, pois o fazer artístico é híbrido.

• O barro: Seu processo é quase espontâneo, as decisões são tomadas

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 153


U4

durante o manuseio direto da matéria e da obra. Acontece a partir da construção de


cada obra, quando o artista se depara com novas questões estéticas, vai resolvendo
diretamente na massa. A utilização do material é contínua. Pode confeccionar
pequenas maquetes para observar a forma, o volume, a cor e a textura, além de
novas possibilidades. O artista inicia seu trabalho por meio das experiências plásticas
que já realizou e, ao introduzir o novo, dialoga com o imprevisível. Desta maneira,
o conhecimento técnico é imprescindível. Neste processo destacam-se Adel Souki,
Antônio Poteiro, Shoko Suzuki e Máximo Soalheiro.

Figura 4.1 | Instalação de Adel Souki

Fonte: Disponível em: <http://adelsouki.com.br/index.php?/trabalhos-em-de/mil-moradas-e-uma-individual/>. Acesso em:


28 set. 2015.

• O resíduo: Tomado como uma possibilidade de obra, buscando entender


que os restos de um fazer artístico podem se tornar um novo processo criativo
ou até mesmo um novo elemento da obra. Geralmente são experiências onde a
argila é manipulada para determinados fins, mas, durante o processo criativo, o
artista percebe novas possibilidades estéticas. Neste processo, o acaso tem grande
importância. Podemos citar como exemplo os trabalhos de Celeida Tostes, Mariana
Canepa e Katsuko Nakano.

154 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Figura 4.2 | Cerâmica de Celeida Tostes

Fonte: Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21759/celeida-tostes>. Acesso em: 28 set. 2015.

• O desenho: Realizado como uma maneira de construir o pensamento,


envolvendo atividades que são antecedidas por projetos que se referem à construção
da obra artística;

• O diálogo: Realizado com diferentes sujeitos ou linguagens, definindo uma


interação;

• Outros materiais: Utilizados como estudos de processos.

Podemos citar a arte contemporânea como exemplo de hibridismo:


com tantas novas técnicas e tecnologias disponíveis, o conhecimento
do processo criativo passa por uma ampliação de aplicação de técnicas
e conceitos (como desenhos, modelagens e instalações). A aplicação
dessas técnicas construtivas acaba por encontrar novos parâmetros na
execução de objetos de arte e por quebrar paradigmas.

[...] O objetivo dos educadores, no processo de descobertas,


deveria ser o de considerar os interesses e os prazeres da

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 155


U4

cultura visual dos alunos e alunas como possibilitadores de


reflexão crítica, sem, contudo, apropriarem-se deles e, conforme
já ressaltei, sem “pedagogizá-los”. Desafio este que exige um
difícil equilíbrio, pois pressupõe retomarem-se posturas de
acomodação e de autoridade construídas secularmente no
exercício da docência (HERNANDÉZ, 2007, p. 81).

1.2 O desenho como modo de construção do pensamento


Vamos dar uma atenção especial para a utilização do desenho como ferramenta
no processo criativo.

Muitos artistas, no nosso caso muitos ceramistas, optam pelo registro de sua
reflexão em seu processo criativo. Este registro é realizado em diários, folhas de
papel avulsas ou cadernos, todos contendo desenhos e anotações para o projeto
cerâmico.

Essas anotações são utilizadas como base para seu processo criativo.

Geralmente é o procedimento de artistas que obtiveram sua formação por meio


do desenho e que, ao optarem pela cerâmica como linguagem artística, utilizam-
se do desenho como ferramenta no desenvolvimento de seu processo plástico. O
desenho funciona como uma ferramenta para os projetos desses artistas: forma,
textura, volume, cor, estrutura de montagem e, a maneira de trabalhar o desenho vai
variar de artista para artista.

Podemos citar como Figura 4.3 | Cerâmica de Mary Di Lorio


exemplo no cenário
internacional Pablo Picasso,
Miró, Chagall, e muitos outros.

Nacionalmente podemos
citar Francisco Brennand,
Norma Grinberg, Hélio Siqueira
e Mary Di Iorio, dentre muitos
outros.

Mary Di Iorio é uma das


artistas a utilizar o desenho
como ferramenta em seu Fonte: Disponível em: <http://www.liberal.com.br/noticia/C02CCBEE667-
processo criativo. Para a artista, tradicao_de_norte_a_sul>. Acesso em: 28 set. 2015.
antes da década de 80, no

156 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

momento em que estava ocupada com suas atividades acadêmicas: aulas, trabalho
administrativo, além do trabalho plástico, sentia necessidade de registrar suas ideias.
Desta forma, começou a utilizar o desenho para registrar a forma, a textura e a cor.

Muitos artistas consideram os seus desenhos iniciais como uma etapa


indispensável do processo criativo, condição sine qua non para passar da ideia para
a construção na matéria, na massa plástica.

Observe que o desenho se presta para cada artista de maneiras diferentes, ora para
pensar a cor, a forma, a textura, ora para definir as etapas da construção da obra e sua
instalação no espaço escolhido. Assim, o desenho funciona além de um delimitador
de formas, transformando-se em um meio de comunicação para o artista ou para
outros que irão executar as obras, dependendo da necessidade do projeto.

1.3 Dialogando com outras linguagens


Muitos artistas dialogam com várias linguagens, em processos criativos híbridos.
Podemos citar como exemplos: Antônio Poteiro, Miguel dos Santos, Carlos Fajardo
e Júlio Tigre.

Júlio Tigre é um artista mineiro radicado em Vitória, ES. O artista busca conhecer
e experimentar os materiais para o desenvolvimento de seu projeto artístico,
executando uma infinidade de experimentações. Segundo o artista, ele escolheu a
cerâmica para encontrar a resistência dos materiais. Portanto, a cerâmica é apenas
mais uma linguagem, mais um meio de expressão plástica. Tigre diz que não há
limites no que diz respeito ao uso de materiais específicos.

Observe que, em geral, o artista busca suporte técnico com o ceramista no


desenvolvimento de seus projetos.

Figura 4.4 | Cerâmica de Júlio Tigre

Fonte: Disponível em: <http://paginacultural.com.br/ulterior-na-galeria-virtual/>. Acesso em: 28 set. 2015.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 157


U4

1.4 A utilização de outros materiais como estudo de processo


Não se esqueça de que é importante subverter as técnicas

Quando pesquisamos as possibilidades poéticas dos artistas acima, percebemos


a importância do desenho no processo de criação, a ponto de subverter as
técnicas. Mas, quando vamos atuar no ensino como educadores ou pesquisadores,
percebemos que os discentes têm enormes dificuldades em sala de aula quando se
deparam com uma proposta de projeto poético. Por exemplo, dificuldades técnicas
com desenho, dificuldades no domínio do espaço tridimensional, e dificuldades
técnicas no domínio da massa cerâmica.

Fique atento à possibilidade de deixar as propostas em aberto na apresentação


dos projetos a serem desenvolvidos pelos discentes. Podem ser utilizadas muitas
ferramentas durante o processo, tais como rascunhos, fotografias, outros materiais
consumidos cotidianamente (plástico, papel, espuma etc.). Esta abertura faz fluir um
diálogo criativo em sala de aula que é salutar a todos.

1.5 Ferramentas
Antes de aprofundarmos nosso conhecimento nos processos de modelagem,
devemos conhecer a importância das ferramentas para a construção do objeto. Em
muitos casos elas passam a funcionar como uma extensão do corpo.

[...] como extensões de nosso próprio corpo, de nossas


próprias faculdades, quer se trate das roupas, habitação, quer
se trate dos tipos mais familiares de tecnologias, como as
rodas, os estribos, que são extensões de várias partes do corpo.
A necessidade de amplificar as capacidades humanas para
lidar com vários ambientes dá lugar a essas extensões tanto
de ferramentas quanto de mobiliário. Essas amplificações de
nossas capacidades, espécies de deificações do homem, eu as
defino como tecnologias (MCLUHAN, 2005, p. 90).

As ferramentas usadas pelos ceramistas são muito diversas e por este motivo a
escolha deve ser realizada de acordo com a experiência e a necessidade do projeto
a ser desenvolvido.

As ferramentas para se trabalhar com a massa cerâmica podem ser adquiridas


em lojas especializadas ou fabricadas pelo próprio ceramista, de acordo com as
necessidades.

158 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Lembre-se de levar em consideração a faixa-etária dos alunos, evitando


ferramentas com pontas ou cortantes, se forem alunos de pouca idade.

É possível utilizar vários utensílios do cotidiano, como por exemplo facas, garfos,
colheres, rolo de macarrão, além de vários outros para se criar texturas na massa
ainda crua. As espátulas podem ser fabricadas com madeiras macias e esculpidas
com estilete ou faca. Pode-se dividir uma serrinha de ferro em duas partes e, com
esmeril, fabricar duas facas menores.

Uma ferramenta que os alunos vão utilizar muito são os desbastadores,


encontrados em lojas especializadas, que possuem diversas formas.

Figura 4.5 | Desbastadores para modelagem cerâmica

Fonte: Disponível em: <http://br.vazlon.com/lote-de-ferramentas-p-trabalhos-ceramica>. Acesso em: 28 set. 2015.

Figura 4.6 | Ferramentas diversas com pontas Estes desbastadores podem ser
diferentes fabricados utilizando-se o corpo de
uma caneta esferográfica sem carga
e um clipe preso em sua ponta por
meio do aquecimento do plástico
ou com um pouco de massa epóxi.
O clipe pode ser substituído por um
arame mais grosso, possibilitando a
criação de várias pontas diferentes a
serem utilizadas na modelagem, de
acordo com a necessidade.

Em lojas especializadas você


também pode encontrar ferramentas
com pontas diversas, que são ótimas
Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/
pin/370210031844629754>. Acesso em: 20 nov. 2015. para ajudá-lo na modelagem.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 159


U4

Para cortar pedaços da argila, os alunos também podem utilizar um pedaço de


fio de náilon amarrado a dois pregadores de roupa.

Uma ponta seca para decorar as peças pode ser confeccionada com agulha de
crochê ou com agulha de bordar.

Para alisar as superfícies das peças deixando-as uniformes, pode-se utilizar um


cartão de crédito vencido em substituição às placas metálicas.

É imprescindível o uso de jornais, panos velhos e esponjas macias.

Figura 4.7 | Utilizando fio de nylon para cortar a massa cerâmica

Fonte: Disponível em: <http://pereiraartesanato.blogspot.com.br/2011/06/curso-de-argila-em-foz-do-jordao.html>. Acesso


em: 28 set. 2015.

É importante ter um espaço para guardar as ferramentas de forma ordenada:


facas, sacos plásticos, jornais, panos, buchas, rolo de macarrão, ponta seca, espátulas,
fio de náilon, desbastadores, potes plásticos, pedrinhas lisas, entre outros materiais
que se fizerem necessários para o trabalho com a massa cerâmica.

Outro instrumento que pode ser utilizado pelo ceramista é o torno. Este
instrumento de trabalho torna ágil a execução das peças, dando aprimoramento às
formas.

160 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Figura 4.8 | Modelagem em torno cerâmico

Fonte: Disponível em: <http://cursosgratuitosbrasil.com.br/curso-de-ceramica-gratuito.html>. Acesso em: 28 set. 2015.

1.6 Modelagem
Tenha em mente que toda experiência estética pressupõe o prévio
desenvolvimento de técnicas. Esta necessidade nasce da importância de ampliar
as possibilidades expressivas, tornando possível a concretização da obra poética
proposta. Os procedimentos de modelagem da massa cerâmica para a concretização
dos projetos são relativamente simples, porém, requerem treino e experiência para
seu domínio. Podemos encontrar milhares de livros, sites e vídeos que mostram
passo a passo as técnicas de modelagem.

Atualmente, com as novas tecnologias, não há nada que você não possa
aprender como fazer, passo a passo. Modelar a massa cerâmica não é
uma exceção. Veja abaixo alguns vídeos onde você pode aprofundar
seus conhecimentos e técnicas.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jyQtNxMxuWo>.
Acesso em: 29 set. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FfosKWmiYzU>.
Acesso em: 29 set. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=MLhHJSS2LZM>.
Acesso em: 29 set. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=pbMgBYtHSIk>.
Acesso em: 29 set. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=D6Pn8mhL97U>.
Acesso em: 29 set. 2015.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 161


U4

Inicialmente, o importante é deixar os alunos experimentarem o material,


descobrirem suas potencialidades. Permita que eles manipulem a massa cerâmica
em pequenas quantidades, para que tenham um controle maior sobre ela, mesmo
sem nenhum conhecimento prévio. Sugira a construção de bolinhas, rolinhos,
placas, utilizando apenas as mãos como instrumentos.

A seguir, vamos conhecer algumas técnicas de modelagem que podem ser


trabalhadas individualmente ou em conjunto, alcançando uma gama imensa de
possibilidades.

1.7 Pote de aperto


Esta técnica é uma das mais antigas, onde os ceramistas utilizam apenas as mãos
como ferramenta de trabalho na produção de utensílios e panelas de barro. Mesmo
depois da invenção do torno, muitos artesãos continuam a fazer uso desta técnica.

Como exemplo, podem-se citar as paneleiras de goiabeiras, que mantêm a


tradição dos seus antepassados.

Provavelmente foi esta técnica que possibilitou o homem a dominar o barro.


Deve-se trabalhar com uma quantidade de massa cerâmica que caiba entre as
mãos para se ter certo domínio no processo de construção. A maioria das peças
confeccionadas por meio da técnica do pote de aperto é circular, devido ao uso das
mãos:

• Modele uma bola de argila que caiba entre as mãos de maneira confortável.

• Procure utilizar as duas mãos, cada uma desempenhando uma função.


Enquanto uma permanece em forma de concha, a outra é movimentada como
ferramenta.

• Perfure o centro da bola de argila utilizando o dedo polegar. Deixe uma


espessura no fundo que vai variar de acordo com o tamanho da peça.

• Com cuidado vá pressionando o interior contra a outra mão que está


apoiada na parte externa da bola de argila, girando a peça cuidadosamente, abrindo
o diâmetro da forma.

• Puxe a massa do fundo até a borda, aumentando a altura da parede aos


poucos. Realize este movimento várias vezes, até conseguir uma espessura uniforme
em toda a peça.

• Tenha em mente que quanto mais fina a parede, mais delicada ficará a peça
e, portanto, mais frágil também.

162 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Lembre-se de que em se tratando de cerâmica, há uma limitação de tempo


para se trabalhar na sua produção. As mãos produzem calor que vão secar o barro,
podendo causar rachaduras nas bordas das peças antes do término da modelagem.

O acabamento da peça realizado com esta técnica fica a critério de cada artista
que vai definir suas propriedades estéticas, desde texturas até a escolha das cores.

Agora que você aprendeu a manipular a massa cerâmica


usando apenas as mãos, propomos que você pense sobre
o fazer estético, sobre a manipulação do material com as
próprias mãos, fazendo nascer deste encontro uma obra.
Reflita e escreva sobre este processo criativo.

1.8 Rolinho
Esta técnica também é milenar e é utilizada até hoje por muitos artesãos na
fabricação de vasilhas de barro. Por exemplo, as mulheres ceramistas do Vale do
Jequitinhonha chamam esta técnica de processo de acordelado. Nacionalmente é
mais conhecida como técnica de rolinho ou de cordões. Consiste na sobreposição
de rolinhos ligados uns aos outros posteriormente, com argila líquida e modelados
com os dedos para que as peças fiquem lisas.

Neste processo, você utilizará os seguintes materiais:

Argila de sua preferência, base de madeira onde apoiará a peça, tecido, faca
pequena, vasilhame para água, sacos plásticos, jornais, barbotina da argila a ser
utilizada, diferentes instrumentos para texturas.

• Separe uma pequena quantidade de argila. Pressione levemente a argila


sobre uma superfície lisa, rolando-a, usando das palmas das mãos até as pontas
dos dedos, como se estivesse abrindo massa para fazer macarrão, em rolinhos não
muito finos, dependendo da espessura que deseja na peça que está modelando.
Procure exercer uma pressão homogênea sobre a argila em ambas as mãos, para
que o rolinho não fique achatado.

• Inicie a peça fazendo sua base, usando um rolinho em forma de espiral.


Depois una os rolinhos usando uma pequena faca ou uma esteca de madeira. Tenha
em mente que, quanto maior e mais alta for a peça, maior deverá ser a espessura da
base e dos rolinhos.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 163


U4

• Termine de modelar a base e comece a subir a parede. Utilizando a ponta


de uma faca, faça ranhuras delicadas no contorno da base e do rolinho que será
usado. Com a ajuda de um pincel, passe barbotina sobre as ranhuras e coloque com
cuidado o rolinho sobre a base, exercendo uma pequena pressão.

• Vá colocando um rolinho sobre o outro para subir a parede, fazendo


ranhuras e preenchendo de barbotina entre eles, até obter o tamanho desejado.

• Se quiser modificar a forma, para que a peça não fique reta, basta mover o
rolinho um pouco para fora, abrindo a forma gradativamente.

• Depois da peça terminada, você pode alisá-la ou deixar os rolinhos aparentes.


Pode fazer texturas, decorar com barbotina, esmaltar etc. As possibilidades são
infinitas, é só usar a imaginação.

Figura 4.9 | Peça sendo confeccionada com técnica do rolinho

Fonte: Disponível em: <http://japiacu.blogspot.com.br/2011/03/da-argila-arte-de-fazer-ceramica.html>. Acesso em: 29 set.


2015.

Barbotina é uma argila líquida utilizada como cola, que serve para unir
duas ou mais partes de argilas ainda molhadas. Para prepará-la, basta diluir
um pouco de argila em água (como se fosse iogurte). É mais fácil deixar a
argila secar e acrescentar um pouco de água até obter uma consistência
pastosa. Caso não dê para esperar a argila secar, pegue um pouco de argila
mesmo que esteja molhada e acrescente um pouco de água, diluindo-a
com a ajuda de um pincel, até que tenha a consistência desejada.

164 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

1.9 Placa
Outra técnica muito utilizada é denominada de placas. Trabalha-se com o barro
esticado em espessuras uniformes. Com esta técnica o artista pode construir formas
geométricas e orgânicas com espessuras uniformes e ótimo acabamento.

Neste processo, você utilizará os seguintes materiais:

Argila de sua preferência, dois pares de ripas de madeira, base de madeira onde
apoiará a peça, pincel de cerda dura, tecido, faca pequena, vasilhame para água,
sacos plásticos, jornais, barbotina de argila a ser utilizada, rolo de macarrão, lixa de
madeira número cem, esponja macia, diferentes instrumentos para texturas.

• A técnica consiste em abrir uma placa de argila, esticar a massa com um rolo
de macarrão de maneira que fique com a mesma espessura e, em seguida, cortá-la
no formato desejado.

• Para saber o tamanho e espessura da placa, é aconselhável ter um projeto


como guia, que pode ser de papel.

• Sobre uma superfície plana estique um pano, jornal ou plástico e em seguida


coloque a argila já amassada e aplane um pouco utilizando as mãos.

• Use um par de ripas de madeira como guias para determinar a espessura


da placa. A espessura das ripas será a espessura da placa esticada. Coloque entre
as ripas a argila e com a ajuda de um rolo de macarrão abra aos poucos a massa.
Observe que as pontas do rolo de macarrão vão deslizar sobre as ripas laterais.

• De vez em quando solte a argila do material de apoio para facilitar a sua


expansão.

• Se constatar visualmente a existência de bolhas de ar na massa, use uma


ponta seca ou mesmo a ponta de uma faca para furá-la. Se a peça modelada for para
o forno com bolhas, vai explodir quando alcançar uma temperatura alta, destruindo
a peça.

• Com a placa aberta e sem bolhas, comece a executar a peça.

• Corte a placa a partir do modelo pré-determinado. Ao cortá-la, deve-se


molhar a faca com água para esta não grudar na massa. Se a parte a ser cortada for
reta, utilize uma régua para facilitar o trabalho.

• Recorte todas as partes que compõem a peça de acordo com o projeto: a


base e as paredes.

• Apoie a base da peça sobre um pedaço de madeira revestido de jornal.


O processo para a costura das placas é parecido com a técnica do rolinho. Faça

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 165


U4

ranhuras nas partes que serão coladas e pincele barbotina em abundância.

• Coloque a parede sobre a base com movimentos cuidadosos, para evitar


que a placa amasse. Pressione ligeiramente.

• Em alguns casos, se achar necessário, você pode usar um rolinho na junção


interna das placas, reforçando a união, costurando interna e externamente. Repita
esta operação com todas as placas que compõem a peça.

• Depois de terminar a modelagem, a peça deve ser submetida a uma secagem


cuidadosa, à sombra, com uma cobertura plástica para que seque lentamente.
Dependendo do tamanho da peça, poderá sofrer alterações como empeno ou
rachaduras, por isso fique atento ao processo.

• Após a secagem você pode utilizar uma lixa de madeira número cem para
dar acabamento. O uso de máscara e óculos é imprescindível. Retire o pó com um
pincel ou uma esponja.

Figura 4.10 | Modelagem com técnicas de placas

Fonte: Disponível em: <http://blog.ceramicasantelmo.es/2011/01/28/impresion-en-relieve-tecnica-ceramica/>. Acesso em:


29 set. 2015.

1.10 Bloco
A técnica do bloco geralmente é utilizada na modelagem de esculturas diversas,
tais como anatomia humana, animal, formas abstratas etc. Não se esqueça que
existem maneiras diferentes para modelar a massa cerâmica, e a maneira depende
do objetivo do artista.

Na escultura cerâmica, a forma deve estar vazia, oca. Desta maneira, as peças

166 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

devem ser ocadas, contendo uma abertura para a passagem do ar contido no


interior. Como no caso das bolhas, se não houver um micro furo onde o ar possa
escapar, quando a peça atinge certa temperatura dentro do forno, possivelmente vai
estourar.

Neste processo, você utilizará os seguintes materiais: argila de sua preferência,


base de madeira onde apoiará a peça, torno de mesa, estecas ou desbastadores,
pequena faca, espátulas, saco plástico, fio de náilon.

• Separe uma quantidade de argila suficiente para a modelagem da sua


escultura. Amasse-a bem para eliminar as bolhas de ar que possam estar contidas na
massa, como se estivesse amassando pão.

• Comece a pressionar a argila com as pontas dos dedos, procurando o


formato que desejar, pacientemente, concentradamente, até conseguir a forma e o
volume desejados.

• Para se evitar rachaduras durante a modelagem, tome cuidado para que


as partes mais finas da sua peça não sequem antes das partes mais grossas. Enrole
essas partes mais finas com jornal ou com pedaços de plástico, tomando o cuidado
para não deformar a peça. O jornal ou o plástico vão evitar que a água dessas partes
menores evapore.

• Quando terminar a modelagem, a peça deverá ser ocada, ou seja, ter toda
a argila do seu interior retirada. Geralmente, um único corte longitudinal resolve o
problema.

• Com o fio de náilon, em um movimento único e seguro, corte ao meio a


sua escultura, de cima a baixo. Divida-a em duas partes.

• Em alguns casos, dependendo do projeto, você pode ocar a peça pela


base. Basta apoiar a peça lateralmente sobre uma superfície macia, podendo ser
sobre jornais amassados, e retire toda a argila do seu interior com a ajuda de um
desbastador ou esteca.

• Se por acidente você perfurar a peça, passe barbotina e coloque mais argila
no local, fazendo pressão com os dedos. Se for preciso, costure-a com a ajuda de
uma pequena faca.

• Enquanto você está ocando uma metade da sua escultura, a outra metade
da peça deve estar protegida, enrolada em jornal ou em um saco plástico para que
não seque demasiadamente.

• Lembre-se que a parede da peça toda deverá ter espessura uniforme, de


acordo com o seu tamanho. Em peças menores, as paredes deverão ser mais finas,
em peças maiores as paredes deverão ser mais grossas.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 167


U4

• Após ocar todo interior de cada parte, você deverá costurar de volta as
partes que foram seccionadas, cada uma em seu devido lugar.

• O processo desta colagem é o mesmo utilizado na técnica do rolinho. Faça


ranhuras nas partes que irão se tocar, com a ajuda de um pincel passe barbotina
e pressione levemente uma parte contra a outra. Utilize uma pequena faca para
costurar com cuidado a peça, procurando não deformá-la.

• Se surgir alguma depressão ou furo em alguma região da emenda, coloque


um rolinho na região para que a peça volte a ter a aparência inicial. Procure costurar
muito bem sua escultura para que ela não se solte durante a secagem ou durante a
queima.

• Se a base da peça for fechada, lembre-se de que você precisará fazer alguns
pequenos orifícios na base, para possibilitar a saída do ar durante a secagem e
durante a queima. Utilize uma agulha para realizar os furos.

Figura 4.11 | Ocando uma peça cerâmica com a ajuda de um desbastador

Fonte: Disponível em: <http://seramicarouanet2014.blogspot.com.br/2014/05/primeiro-dia-de-experiencia-para-o.html>.


Acesso em: 30 set. 2015.

1.11 Torno – só explicar como funciona. Inviável


Durante muitos séculos, as peças de cerâmica foram confeccionadas utilizando-se
apenas as mãos. Por volta de 3000 a.C., o desenvolvimento das diferentes civilizações
criou a necessidade de se produzir um número muito grande de recipientes para o
armazenamento de alimentos. Desta maneira, a criação e a evolução da roda de
oleiro foi uma das primeiras ferramentas mecânicas desenvolvidas pelo homem.

168 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Contemporaneamente existem muitos tipos de torno diferentes, que variam de


acordo com o mecanismo que impulsiona a roda, assim como a posição do oleiro
no momento da modelagem.

Os tornos mais simples, os mais antigos, são acionados à mão. Ainda hoje, por
ser mais barato, é muito utilizado o torno movido com um dos pés. Consiste em
uma mesa circular diretamente ligada a uma roda por meio de um eixo sobre a
mesa, que o ceramista move diretamente com o pé.

O torno elétrico é o mais moderno, utiliza um motor movido à eletricidade que


faz girar o disco onde a argila é torneada.

Pela característica de seu movimento circular, o torno é uma ferramenta que


possibilita apenas a construção de peças circulares, tais como vasos e potes.

No torno, tudo gira em torno de um eixo central. Para se começar a tornear as


peças, deve-se seguir algumas etapas que devem ser sequenciais: colar uma porção
de argila na base do torno, centralizar a massa, furar e abrir a massa, subir a parede
dando a forma desejada para a peça, retirar a peça do torno.

Neste processo, você utilizará os seguintes materiais:

Argila; torno; banco; vasilha com água; esponja macia; ponta seca; fio de náilon,
espátula de metal ou de madeira.

• Faça uma bola de argila, bem amassada, macia e no tamanho que caiba
confortavelmente entre as mãos do ceramista.

• Com o torno desligado, bata com força a bola de argila no centro do torno.
Ligue o motor e acelere para girar o disco. Utilize o dedo indicador da mão direita
para pressionar levemente a base da argila, colando-a no disco do torno.

• Os próximos movimentos devem ser realizados com as mãos molhadas,


impedindo que a argila grude nas mãos.

• Vamos fazer agora várias vezes a repetição de uma sequência de movimentos,


que tem como objetivo centralizar a argila e organizar suas partículas. Veja abaixo.

• Faça um movimento pressionando a massa, descendo-a contra a base do


torno e, em seguida, pressione a mão direita sobre a massa, fazendo um movimento
vertical, empurrando a massa de cima para baixo, simultaneamente, subindo-a,
formando um cone.

• Repita esta operação no mínimo três vezes, centralizando a porção de argila.

• Não se esqueça de nunca deixar as mãos secas.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 169


U4

• Utilize uma esponja para retirar o excesso de água do disco, todas as vezes
que molhar as mãos.

• Com a argila centralizada, apoie os polegares sobre a massa, deixando


as mãos abraçarem levemente a peça. Bem devagar, pressione os polegares para
baixo, abrindo um orifício no centro da peça, até deixar a espessura desejada para o
fundo da peça.

• Para abrir a peça, mantenha a posição das mãos e puxe-as em direção ao


seu corpo, até atingir o diâmetro desejado. A ponta do dedo indicador deve fazer um
movimento paralelo ao disco, sem levantar ou afundar.

• Tire o excesso de água do interior da peça com a ajuda de uma esponja.

• Para levantar as paredes da sua peça, posicione a mão esquerda na parte


interna da peça. Use o dedo médio ou o indicador para puxar a massa para cima,
enquanto a mão direita se posiciona na parte externa, acompanhando a esquerda,
ambas gerando um movimento para cima da base da peça. Procure deixar os dedos
sempre alinhados.

• Se sentir alguma bolha de ar, interrompa a rotação do torno, fure a bolha


com uma ponta seca e pressione a massa levemente com a ponta do dedo, voltando
a tornear.

• Seque a peça com uma esponja e desligue o torno.

• Utilize um fio de náilon para desgrudar a peça do torno, colocando-a sobre


um apoio forrado com jornal.

• Envolva a peça em jornal para que seque lentamente.

Figura 4.12 | Ceramista modelando em torno cerâmico

Fonte: Disponível em: <http://www.ceramika.com.br/?pagina=processo&titulo=Arte%20e%20cultura:%20ceramica,%20


torno%20eletrico%20e%20forno%20ceramico>. Acesso em: 30 set. 2015.

170 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

1. São técnicas de modelagem cerâmica:


A. Rolinho, placa, amassamento.
B. Pote de aperto, rolinho, placa, amontoamento.
C. Rolinho, bloco, pote de aperto, placa, torno.
D. Torno e estiramento.
E. Placa, bloco, estiramento.

2. Sobre as ferramentas cerâmicas:


A. As ferramentas devem ser adquiridas apenas em lojas
especializadas.
B. As ferramentas usadas pelos ceramistas são muito diversas
e por este motivo a escolha deve ser realizada de acordo com
a experiência e a necessidade do projeto a ser desenvolvido.
C. Não se usa ferramentas na modelagem da massa cerâmica.
D. As ferramentas são recicláveis.
E. As ferramentas são descartáveis.

3. Observe a imagem abaixo e assinale a alternativa que indica


a técnica utilizada:

Fonte: Disponível em: <http://www.viladoartesao.com.br/blog/2013/03/como-fazer-ceramica-rendada-


passo-a-passo/>. Acesso em: 02 out. 2015.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 171


U4

A. Técnica de rolinho.
B. Técnica americana.
C. Técnica de alisamento.
D. Técnica de placas.
E. Técnica do rolo.

172 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Seção 2

Técnicas para decorar peças cerâmicas


O estudo desta seção compreende o estudo de técnicas de decoração. Aborda
a coloração das peças por meio de diferentes técnicas e materiais, para que o aluno
consiga se expressar com fluidez através desta linguagem artística.

2.1 Técnicas de decoração


Depois que suas peças estiverem secas, você poderá decorá-las utilizando várias
técnicas. Já conhecemos algumas, agora vamos aprofundar nossos conhecimentos.

• Engobe: É uma pintura que utiliza argila líquida, corada por meio do uso de
óxidos ou pigmentos, aplicada sobre a peça cerâmica ainda crua, de preferência em
estado de couro.

• Aerografia: Aplicação de camadas de esmaltes ou de pigmentos, através de


um jato com grande pressão de ar.

• Banho: Técnica de esmaltação que consiste na imersão ou no derrame de


esmalte sobre o objeto cerâmico.

• Brunidura: Polimento de uma superfície com a ajuda de uma pedra dura e


lisa.

• Corda Seca: Faz-se uma máscara com uma mistura de óleo de linho ou
outra gordura sobre o corpo cerâmico já cozido, produzindo linhas como se fossem
contornos dos desenhos, e aplica-se o esmalte. Onde o óleo estiver, o esmalte não
vai penetrar. As cores dos esmaltes permanecerão separadas.

• Cromolitografia: É uma técnica industrial que consiste na impressão


litográfica dos motivos decorativos sobre papel de decalque. Posteriormente estes
motivos são aplicados na superfície a decorar, fixando-se com a fusão dos esmaltes.

• Decalcomania: Os motivos decorativos são aplicados sobre uma camada


de esmalte já cozido.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 173


U4

• Esgrafitado: Com a ajuda de uma ponta seca, retira-se a camada de esmalte


ou engobe do corpo cerâmico, antes deste ir para o forno, deixando visível a argila.

Figura 4.13 | Cerâmica decorada com a técnica da corda seca

Fonte: Disponível em: <https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/f7/8e/b1/f78eb17ab559c70bdc348582bcf552e4.jpg>.


Acesso em: 30 set. 2015.

• Esponjado: A aplicação das cores é efetuada com uma esponja ou trapo.

• Incisão: É a gravação com um instrumento pontiagudo, no barro cru, de um


motivo decorativo, como se fosse um baixo-relevo.

• Incrustação ou engobe embutido: Os motivos decorativos são desenhados


por meio de incisões no barro. Essas marcas são depois preenchidas com engobes
de colorações diferentes. Após secar, raspa-se a superfície, resultando uma definição
nítida dos motivos inscritos.

174 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

A palavra Estética tem origem no termo grego aisthetiké,


que significa “aquele que nota, que percebe”. Estética é
conhecida como a filosofia da arte, ou estudo do que é belo
nas manifestações artísticas e naturais. É uma ciência que
remete à beleza e também aborda o sentimento que alguma
coisa bela desperta dentro de cada indivíduo. A partir dessas
palavras, reflita e escreva sobre a importância da estética na
cerâmica, mesmo em se tratando de cerâmica utilitária.

Figura 4.14 | Peça cerâmica decorada com decalcomania

Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/pin/479000110339614767/>. Acesso em: 30 set. 2015.

• Pasta sobre pasta: Consiste na aplicação de sucessivas camadas de argilas


coloridas por diferentes óxidos.

• Manchado: Aplica-se várias camadas de engobes sobre a peça. Após secar,


passa-se uma lixa fina deixando visível apenas certas partes das diferentes camadas
de engobe. Isto possibilita o aparecimento de manchas coloridas na peça.

• Reflexo metálico: Esta técnica consiste em dar brilho metálico ao vidrado.


Só se consegue este efeito em forno de atmosfera redutora, fornos à lenha, fazendo

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 175


U4

realçar os elementos metálicos dos óxidos utilizados na decoração.

• Relevo: Você pode fazer relevos sobre a peça ainda úmida, utilizando
diferentes objetos.

• Serigrafia: Nesta técnica, os motivos são transferidos para a cerâmica com


o auxílio de telas para serigrafia, onde foram previamente desenhados os elementos
da decoração. Esta técnica permite uma decoração complexa e cheia de detalhes.

Figura 4.15 | Peça cerâmica decorada por meio da serigrafia

Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/pin/472244710897753370/>. Acesso em: 30 set. 2015.

• Raku: Técnica milenar de decoração de origem japonesa que é obtida


por meio de choque térmico. Retira-se as peças esmaltadas do forno, em estado
incandescente e deposita-as sobre serragem. Após algum tempo as peças são
mergulhadas em água. Isto provoca uma brusca redução de oxigênio e de
temperatura; a fumaça produzida tende a se ligar com a superfície da peça.

Figura 4.16 | Peças cerâmicas decoradas com a técnica de raku

Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/pin/439945457323409489/>. Acesso em: 30 set. 2015.

176 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Para aprender mais sobre as técnicas do Raku, acesse os seguintes vídeos:


Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=tarnp1DsKsw>.
Acesso em: 30 set. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=hXVjK6Oo_RY>.
Acesso em: 30 set. 2015.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yOPWnJc56Gc>.
Acesso em: 30 set. 2015.

Você já estudou em outras unidades deste livro a importância


que teve o encontro de diferentes culturas para o
desenvolvimento da cerâmica, tanto com relação às técnicas
quanto com relação aos elementos estéticos. Quando nos
referimos a uma cultura oriental como a japonesa, devemos
considerar que as diferenças com relação à nossa cultura são
extremas. Levando isto em consideração, reflita, pesquise e
escreva sobre a relação estética que os japoneses têm com
seus objetos de uso cotidiano, especialmente a cerâmica.

1. Não são técnicas de decoração cerâmica:


A. Pintura a óleo, aquarela.
B. Engobe, aerografia.
C. Corda seca, decalcomania.
D. Relevo, serigrafia.
E. Cromolitografia, brunidura.

2. Sobre a técnica do raku, podemos afirmar:

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 177


U4

A. É uma técnica de raspagem, onde a peça é raspada depois


que sai do forno, gerando na peça manchas coloridas.
B. É uma técnica milenar de decoração de origem japonesa
que é obtida por meio do choque térmico.
C. Técnica italiana onde o processo de queima leva
aproximadamente uma semana.
D. Técnica brasileira que deixa as peças com cores saturadas.
E. Nenhuma das alternativas acima.

3. Analise a imagem abaixo e marque a alternativa que indica a


técnica com que foi decorada:

Figura 4.17 | Peça cerâmica decorada

Fonte: Disponível em: <http://www.oocities.org/soho/cafe/6895/>. Acesso em: 02 out. 2015.

A. Engobe.
B. Corda seca.
C. Brunidura.
D. Raku.
E. Serigrafia.

178 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Seção 3

Técnicas para queimar peças cerâmicas


Esta seção compreende o estudo dos tipos de atmosfera que podem ser
encontrados em fornos cerâmicos. Aborda a importância do controle da temperatura
durante todo o processo da queima das peças. A seção também aborda os diferentes
tipos de fornos encontrados em lojas especializadas, além de fornos alternativos que
o aluno poderá construir manualmente.

3.1 Diferentes tipos e atmosferas dos fornos cerâmicos


A última etapa da confecção da peça cerâmica é a queima.

É na queima que acontecem os processos químicos que determinam o


endurecimento definitivo da peça cerâmica.

A mesma peça pode ser submetida a uma, duas ou três queimas, dependendo
da argila que está sendo usada e das técnicas de decoração. Em alguns casos
excepcionais onde se procura resultados muito peculiares, a mesma peça pode
sofrer mais de três queimas.

Primeira queima, também denominada biscoito – A primeira cozedura da pasta


cerâmica acontece sem a peça estar esmaltada, alcança normalmente entre os
800º e 900ºC. É uma queima lenta, para que a água possa evaporar da peça sem
prejudicá-la.

Segunda queima, também denominada esmaltação – Nesta queima o forno


atinge temperaturas entre 800º e 1.350ºC para que os vidrados possam fundir e
garantir uma forte coesão entre o biscoito e o revestimento.

Terceira queima – É realizada apenas quando se quer obter resultados nas


decorações onde determinadas cores têm que passar por temperaturas muito
elevadas.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 179


U4

Figura 4.18 | Cerâmica de alta temperatura

Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/pin/421649583839478978/>. Acesso em: 30 set. 2015.

Muitos fatores vão influenciar a queima e os resultados obtidos: a temperatura


alcançada, o tempo da queima, que é composto por três fases (a duração do
aquecimento, o tempo para atingir a temperatura máxima e o tempo de esfriamento
do forno) e a atmosfera da queima.

A atmosfera da queima é o resultado da composição química de gases de


combustão no interior do forno durante a queima. A atmosfera é determinada pelo
tipo de forno utilizado, do combustível e da qualidade e quantidade de oxigênio
contido no interior do forno. A atmosfera de uma queima pode ser neutra, oxidante
ou redutora. As atmosferas oxidantes e redutoras geralmente alteram drasticamente
as cores dos óxidos utilizados.

• Atmosfera Oxidante: É a atmosfera com mais oxigênio do que aquele que


a combustão requer e é muito comum nas queimas em fornos elétricos. Desta
maneira, a temperatura aumenta facilmente e todos os óxidos presentes nos
esmaltes e no barro atingem as suas cores naturais.

• Atmosfera Neutra: Quando o forno contém a quantidade de oxigênio que


é suficiente para a combustão. É uma atmosfera sem oxigênio suficiente para a
oxidação, mas que não chega a ser de redução. Esta atmosfera é conseguida em
fornos a gás e em fornos elétricos,

• Atmosfera Redutora: É uma atmosfera caracterizada por ter menos oxigênio


do que o necessário. É rica em dióxido de carbono. Esta atmosfera torna mais
demorado o aumento da temperatura. Faz com que o barro mude de cor e alguns
óxidos dos esmaltes se alterem totalmente.

180 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

3.2 Controle da temperatura durante a queima


O controle da temperatura durante todo o processo de queima é um fator
importantíssimo para obtenção de peças com excelência em sua qualidade.
Podemos dividir o ciclo de temperatura em três fases:

• Subida da temperatura. Deve ser lenta.

• Patamar: Permanência na temperatura máxima durante determinado


período de tempo para que esta seja igual em todos os locais do forno.

• Esfriamento natural ou controlado.

A temperatura pode ser controlada de diversas maneiras. Os fornos elétricos


vêm equipados com termômetros. Você pode encontrar em casas especializadas
termômetros próprios para queimas alternativas. Um método muito utilizado é o
cone pirométrico.

O cone pirométrico é um cone utilizado para medir a temperatura interna do


forno. São populares, baratos e de fácil manuseio. Para conhecer um pouco
mais sobre os cones pirométricos, veja o vídeo disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=kG8kMQ__bUY>. Acesso em: 30 set. 2015.

Os cones são fabricados com materiais cerâmicos, calculados


para se dobrarem a uma determinada temperatura/tempo.
Enquanto a extremidade superior do cone não tocar a base não
se atinge a temperatura, se tocar na base, é porque atingiu a
temperatura desejada e se o cone passou da curvatura é porque
ultrapassou a temperatura indicada (RODRIGUES, 2011, p. 74).

A Revolução Industrial foi marcada por vários acontecimentos,


um deles é a transformação da técnica em tecnologia.
Técnica é criar um manejo, um conhecimento que possa

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 181


U4

gerar inventos com intuito de facilitar um determinado trabalho.


A técnica requer o uso de ferramentas e conhecimentos bastante
variados, os quais podem ser tanto físicos como intelectuais. Com
as relações sociais de experiências ocorre a evolução das técnicas,
que seria um acúmulo de conhecimento acerca das formas de
trabalho. Considere a cerâmica como uma técnica que pode ser
inserida no contexto acima, reflita e escreva sobre a importância
das técnicas como instrumentos transformadores da cultura.

Figura 4.19 | Tabela de temperatura para cones pirométricos

TABELA DE CONES PIROMÉTRICOS


NÚMERO DO CONE TEMPERATURA (ºC)
020 635ºC
019 683ºC
018 717ºC
017 747ºC
016 792ºC
015 804ºC
014 838ºC
013 852ºC
012 884ºC
010 894ºC
09 923ºC
08 955ºC
07 984ºC
06 999ºC

Fonte: Disponível em: <http://www.inforgel.com.br/si/site/020801>. Acesso em: 01 out. 2015.

Veja a seguir o que acontece com a peça durante a queima:

Aquecimento:

• 120ºC – Evapora a umidade residual.

• 220ºC – Aumento de volume da peça. Ponto crítico da queima; o aumento


da temperatura deve ser lento.

• 320º a 650ºC – Nesta fase acontece a combustão das substâncias orgânicas


tais como palhas, tecidos, madeira, impurezas em geral.

• 450º a 650ºC - Evaporação das águas de constituição.

182 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

• 573ºC - Aumento brusco de volume, principalmente nas pastas vermelhas.


Outro ponto crítico da queima, novamente o aumento de temperatura deve ser
lento.

• 700ºC – Nesta temperatura há a formação de complexos sílico-aluminatos.

• 800º a 950ºC – Acontece a decomposição dos carbonatos.

• 800º a 1.100ºC - Acontece a decomposição de sulfatos e sulfuretos.

• 800º a 1.150ºC - Acontece a decomposição de fluoretos.

• 1.000ºC - Alteração do quartzo beta para cristobalite beta. Há diminuição de


volume. Há reações de fusões de componentes e redução do volume dos poros.

Arrefecimento:

• 900ºC – Há uma solidificação da fase líquida e o início das cristalizações.

• 573ºC – Acontece uma diminuição brusca de volume e a transformação do


quartzo beta para o quartzo alfa. Este é um ponto crítico da queima, o resfriamento
do forno deve ser lento.

• 220ºC – Há alteração da cristobalite beta para cristobalite alfa.

3.3 Os tipos de fornos cerâmicos


O tipo de forno cerâmico que você utilizar para queimar as peças vão ter grande
influência sobre as condições da queima e sobre os resultados finais de sua peça.
Uma queima simples onde não se pretende conseguir resultados sofisticados, pode
ser realizada numa fogueira, desde que se use argila com chamote ou com areia.

Agora vamos conhecer alguns tipos de fornos.

• Fornos a lenha: O forno tradicional que utiliza lenha como combustível,


com a entrada de fogo por baixo e chaminé em cima.

• Forno na terra: Esta técnica é muito primitiva, mas ainda utilizada. As peças
são depositadas em uma cama de palha e cobertas com lenha.

• Forno de buraco: Esta queima é feita em uma fogueira depositada em um


buraco na terra.

• Forno de serragem: Este forno é alimentado por restos de madeira,


provocando uma atmosfera redutora, resultando em peças pretas.

• Forno elétrico: Forno construído com tijolos refratários e metal.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 183


U4

• Forno de chama invertida: Neste tipo de forno o fogo entra, sobe pelas
laterais e quando chega ao topo é sugado para baixo. Desta maneira o calor se
espalha no espaço de modo uniforme.

• Forno jet: Forno elétrico que utiliza um injetor de gás e outro de oxigénio,
permitindo controlar uma atmosfera oxidante ou redutora.

• Forno de lenha noborigama: É um forno de origem oriental que possui várias


câmaras. Este tipo de forno atinge temperaturas muito altas, as queimas podem
durar até uma semana.

Vamos aprofundar nossos conhecimentos nos três tipos de fornos mais usados.

3.4 O forno cerâmico de buraco


Neste tópico vamos conhecer melhor o forno de buraco. Você necessitará
apenas de palha seca, lenha, chapas metálicas e um local distante dos centros
urbanos porque esta queima faz muita fumaça.

Este tipo de forno é construído num buraco escavado diretamente na terra. As


peças são empilhadas dentro do deste buraco juntamente com palha e madeira.

Por cima de tudo é montada uma fogueira que permanece acesa por
aproximadamente três horas.

Após este tempo o buraco é coberto com chapas metálicas e não se volta a
mexer nele até ter retornado à temperatura ambiente.

Pode atingir temperaturas de 1000ºC ou mais, mas isto implica um choque


térmico nas peças, já que a temperatura sobe muito rapidamente.

Desta maneira, a argila deve conter bastante areia ou chamote para aumentar a
sua resistência ao choque térmico.

Por este motivo as peças que vão para o forno de buraco já devem ter sido
biscoitadas.

Antes de ir para o buraco, pode-se aplicar nas peças matérias como plantas
resinosas, palha, sal, borras de café, cascas de banana ou laranja, fio de cobre etc.
Estes materiais vão oxidar e produzir diversos efeitos e tons.

184 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Figura 4.20 | Forno cerâmico de buraco

Fonte: Disponível em: <http://fazendoartedmc.blogspot.com.br/2015/04/arte-marajoara-uma-riqueza-basileira.html>.


Acesso em: 30 set. 2015.

3.5 O forno cerâmico de serragem


A serragem, também conhecida como serradura em algumas partes do país, é o
pó de madeira que resulta quando esta é serrada, cortada. Você pode conseguir a
serragem gratuitamente ou por um baixo custo em serralherias.

Este tipo de forno consiste em um tambor de duzentos litros com pequenos furos
em suas laterais, para que o oxigênio entre e aconteça a combustão na serragem.

Certifique-se de que a serragem está bem seca. Intercale camadas de peças


cerâmicas com camadas de serragem. A última camada deve ter aproximadamente
trinta centímetros de serragem, na boca do tambor.

Coloque fogo na serragem com ajuda de papéis e fósforo. Deixe o fogo aceso
por aproximadamente três minutos. Tampe o tambor, deixando uma fresta de
aproximadamente dez centímetros. O fogo apagará e a brasa resultante queimará a
serragem de cima para baixo, até atingir a base do tambor. Esta queima geralmente
dura mais de 24 horas e faz muita fumaça. Assim, sua utilização também deve ser
realizada longe dos centros urbanos.

Esta queima cria uma atmosfera redutora, resultando em peças cerâmicas


parcialmente ou totalmente pretas, criando manchas muito interessantes, conforme
o nível de redução atingido.

Você pode substituir o tambor por tijolos refratários, mantendo domínio sobre o
tamanho do forno.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 185


U4

Figura 4.21 | Construção de forno de serragem

Fonte: Disponível em: <http://artecatarina.blogspot.com.br/2010/06/fornos-para-ceramica-parte-2-forno-de.html>. Acesso


em: 01 out. 2015.

1. Assinale a oração correta:


A. A penúltima etapa da confecção da peça cerâmica é a
queima.
B. É na queima que acontecem os processos químicos que
determinam o endurecimento definitivo da peça cerâmica.
C. A mesma peça pode ser submetida apenas uma vez.
D. A primeira queima é também denominada ponto de couro.
E. Apenas a queima influencia os resultados obtidos na peça
pronta.

2. Os três tipos de atmosferas possíveis na queima cerâmica


são, respectivamente:
A. Oxidante, neutra e redutora.
B. Oxidante, queima a lenha e queima a gás.
C. Redutora, queima de buraco e neutra.

186 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

D. Redutora e neutra.
E. Nenhuma das alternativas acima.

3. Observe com atenção a imagem abaixo e marque a opção


que indica o tipo de forno apresentado:

Fonte: Disponível em: <https://www.pinterest.com/pin/266767977898177459/>. Acesso em: 02 out. 2015.

A. Forno de buraco.
B. Forno de Raku.
C. Forno noborigama.
D. Forno de serragem.
E. Forno elétrico.

3.6 Fornos cerâmicos elétricos


Os fornos cerâmicos elétricos são fornos que você encontra à venda em lojas
especializadas. São extremamente pesados e caros. Há modelos de vários tamanhos
e formatos diferentes. A grande vantagem deste tipo de equipamento é que o tempo
e a temperatura da queima são totalmente controlados.

Sua construção é feita em estrutura metálica. O interior é revestido por tijolos

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 187


U4

refratários. Contém uma porta frontal, equipamento de aquecimento constituído por


resistências elétricas interligadas. Possui também um processador de temperatura
digital por onde se pode ter total controle do tempo de aquecimento e do grau de
temperatura desejado. Este tipo de forno gera calor por radiação.

Se você for adquirir um forno elétrico, escolha um que se adeque a seu espaço
disponível, lembrando que a queima das peças cerâmicas libera toxinas e, portanto,
jamais o forno deve ser ligado em um ambiente fechado, doméstico.

Lembre-se também de que muitos fornos elétricos funcionam com a energia


doméstica, mas alguns modelos exigem uma instalação elétrica trifásica, o que vai
encarecer ainda mais o processo. Fique atento a esses detalhes no processo da compra.

Figura 4.22 | Forno cerâmico elétrico

Fonte: Disponível em: <http://mlb-s2-p.mlstatic.com/projeto-de-forno-eletrico-1000-1300c-download-12260-


MLB20056010648_032014-F.jpg>. Acesso em: 01 out. 2015.

Nesta quarta e última unidade do nosso livro de Cerâmica


estudamos os aspectos metodológicos da cerâmica na Educação
Básica:
• Estudamos técnicas para modelar a massa cerâmica.
• Conhecemos os processos criativos para se trabalhar a argila.
• Entramos em contato com as ferramentas utilizadas na
confecção das peças.
• Aprendemos várias técnicas de modelagem, como a técnica do
rolinho e a técnica das placas.

188 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

• Aprendemos a finalizar uma peça cerâmica e o modo correto de


secagem das peças.
• Estudamos várias técnicas diferentes para decorar suas peças
cerâmicas.
• Aprofundamos seus conhecimentos em materiais de decoração
para trabalhar em suas peças cerâmicas.
• Aprendemos os três tipos de ambientes de queima possíveis.
• Conhecemos os vários tipos de fornos que podem ser utilizados
na queima de suas peças.

Dentro do processo criativo na utilização da cerâmica como


suporte, vamos encontrar diferenças imensas de artista para
artista nessa linguagem, pois cada um escolhe o processo de
trabalho que tem mais afinidade. Por exemplo, alguns artistas
optam em trabalhar diretamente com massa cerâmica, sem
um projeto prévio. Outros preferem construir seu pensamento
plástico através do desenho, do projeto. Há ainda outros que
estão sempre abertos a diferentes caminhos, possibilidades,
como os restos cerâmicos e materiais distintos.
Muitos artistas, no nosso caso, muitos ceramistas, optam pelo
registro de sua reflexão em seu processo criativo. Este registro
é realizado em diários, folhas de papel avulsas ou cadernos,
todos contendo desenhos e anotações para o projeto cerâmico.
Essas anotações são utilizadas como base para seu processo
criativo. Geralmente é o procedimento de artistas que obtiveram
sua formação por meio do desenho e que, ao optarem pela
cerâmica como linguagem artística, utilizam-se do desenho
como ferramenta no desenvolvimento de seu processo plástico.
Observe que o desenho se presta para cada artista de maneiras
diferentes, ora para pensar a cor, a forma, a textura, ora para
definir as etapas da construção da obra e sua instalação no espaço
escolhido. Assim, o desenho funciona como um delimitador de
formas, transformando-se em um meio de comunicação para o
artista ou para outros que irão executar as obras, dependendo da

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 189


U4

necessidade do projeto.
Fique atento à possibilidade de deixar as propostas em aberto na
apresentação dos projetos a serem desenvolvidos pelos discentes.
Podem ser utilizadas muitas ferramentas durante o processo,
tais como rascunhos, fotografias, outros materiais consumidos
cotidianamente (plástico, papel, espuma etc.). Esta abertura faz
fluir um diálogo criativo em sala de aula que é salutar a todos.
As ferramentas usadas pelos ceramistas são muito diversas e
por este motivo a escolha deve ser realizada de acordo com a
experiência e a necessidade do projeto a ser desenvolvido. Podem
ser adquiridas em lojas especializadas ou fabricadas pelo próprio
ceramista, de acordo com as necessidades.
Existem várias técnicas de modelagem que podem ser trabalhadas
individualmente ou em conjunto: Pote de aperto, rolinho, placa,
bloco e torno.
Também existem várias técnicas de decoração que podem ser
trabalhadas individualmente ou em conjunto: Engobe, aerografia,
banho, brunidura, corda seca, cromolitografia, decalcomania,
esgrafitado, esponjado, incisão, incrustação, pasta sobre pasta,
manchado, reflexo metálico, relevo, serigrafia, raku, entre outras.
A última etapa da confecção da peça cerâmica é a queima,
onde acontecem os processos químicos que determinam o
endurecimento definitivo da peça cerâmica.
A mesma peça pode ser submetida a uma, duas ou três queimas,
dependendo da argila que está sendo usada e das técnicas de
decoração. Em alguns casos excepcionais onde se procura
resultados muito peculiares, a mesma peça pode sofrer mais de
três queimas.
A atmosfera queima é o resultado da composição química de gases
de combustão no interior do forno durante a queima. A atmosfera
é determinada pelo tipo de forno utilizado, do combustível,
da qualidade e quantidade de oxigênio contido no interior do
forno. A atmosfera de uma queima pode ser neutra, oxidante ou
redutora. As atmosferas oxidantes e redutoras geralmente alteram
drasticamente as cores dos óxidos utilizados.
O tipo de forno cerâmico que você utilizar para queimar as peças
vai ter grande influência sobre as condições da queima e sobre os
resultados finais da sua peça.
Existem vários tipos de fornos. Fornos a lenha, na terra, de buraco,
de serragem, elétrico, de chama invertida, jet e noborigama.

190 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

1. Dentro do processo criativo na utilização da cerâmica


como suporte, encontramos grandes diferenças de artista
para artista nesta linguagem, pois cada um escolhe o processo
de trabalho que tem mais afinidade. Alguns artistas optam
em trabalhar diretamente com massa cerâmica, enquanto
outros preferem construir seu pensamento plástico através
do desenho.
Sobre o processo criativo artístico, é correto afirmar que:
A. É um fenômeno que depende exclusivamente das técnicas
disponíveis.
B. É um fenômeno comunicativo e possui uma interface
cultural.
C. O artista não define seu processo criativo.
D. É um fenômeno de massa e não individual.
E. Todas as afirmações acima estão corretas.

2. O processo criativo do discente é constantemente


contaminado por influências da criação de outros artistas.
Seu desenvolvimento jamais acontece de modo linear, é um
processo dinâmico que acontece em vários níveis.
Considerando o texto acima, é correto afirmar que temos
vários processos dentro da criação artística e na cerâmica
podemos destacar os seguintes processos:
A. O desenho e a massa.
B. O desenho, a massa, as ferramentas, a televisão.
C. O barro, o resíduo, o desenho, o diálogo, outros materiais.
D. Apenas o desenho.
E. O barro e a técnica utilizada na queima da peça cerâmica.

3. Muitos ceramistas optam pelo registro de sua reflexão em


seu processo criativo. Este registro é realizado em diários,

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 191


U4

folhas de papel avulsas ou cadernos, todos contendo desenhos


e anotações para o projeto cerâmico. Essas anotações são
utilizadas como base para seu processo criativo.
Desta maneira, é correto afirmar que:
A. O desenho funciona como um modo de construção do
pensamento.
B. O desenho funciona apenas como um projeto para se
definir proporções e materiais a serem utilizados.
C. O registro serve apenas para divulgação em redes sociais.
D. O registro é apenas um diário onde o artista registra sua
vida.
E. Essas anotações são apenas para registrar projetos a serem
desenvolvidos no futuro.

4. Sabemos que o desenho é importante no processo de


criação, a ponto de subverter as técnicas. Mas, quando
vamos atuar no ensino como educadores ou pesquisadores,
percebemos que os discentes têm enormes dificuldades em
sala de aula quando se deparam com uma proposta de projeto
poético. Desta maneira, devemos considerar que:
A. Devemos apresentar apenas uma ferramenta e uma técnica
para o discente, com a intenção de facilitar seu processo
criativo.
B. Jamais devemos deixar que o discente desenhe seu projeto,
pois o desenho pode bloquear sua criatividade.
C. O discente deve utilizar em seu processo criativo apenas a
massa cerâmica e as mãos.
D. É importante deixar as propostas em aberto na apresentação
dos projetos a serem desenvolvidos pelos discentes. Podem
ser utilizados rascunhos, fotografias, outros materiais
consumidos cotidianamente.
E. O trabalho com a massa cerâmica deve ser direto, sem o
auxílio de projetos.

5. Toda experiência estética pressupõe o prévio


desenvolvimento de técnicas. Esta necessidade nasce da

192 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

importância de ampliar as possibilidades expressivas, tornando


possível a concretização da obra poética proposta.
De acordo com a oração acima, podemos afirmar que:
A. O aprimoramento das técnicas cerâmicas levou,
consequentemente, ao seu aprimoramento estético.
B. O aprimoramento da estética cerâmica levou ao seu
aprimoramento técnico.
C. A estética não está relacionada de modo algum a alguma
técnica.
D. A estética não é considerada dentro da cerâmica enquanto
linguagem.
E. Nenhuma das questões acima.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 193


U4

194 Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica


U4

Referências

FREITAS, Eduardo de. Técnica e tecnologia. In: Brasil Escola. Disponível em: <http://
www.brasilescola.com/geografia/tecnica-tecnologia.htm>. Acesso em: 1 out. 2015.
HIBRIDISMO: aplicação em Arte. Unesp Ciência. Disponível em: <http://www.
unespciencia.com.br/pdf/uc62/UC62_pg44-45_Hibridismo_01.pdf>. Acesso em: 25
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HERNÁNDEZ, F. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto
Alegre: Artmed, 2007.
MCLUHAN, Marshall. McLuhan por McLuhan: conferências e entrevistas. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2005.
RODRIGUES, Maria Regina. Cerâmica. Vitória: UFES, Núcleo de Educação Aberta e a
Distância, 2011.
SIGNIFICADO. Estética: o que é estética. Disponível em: <http://www.significados.
com.br/estetica/>. Acesso em: 1 out. 2015.

Aspectos metodológicos da cerâmica na Educação Básica 195